Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Porque estamos no Advento, que deveria preparar para o Natal, fica aí uma breve reflexão sobre o ser humano e o tempo. De facto, seria tremendamente lamentável que este tempo se reduza a compras compulsivas numa sociedade de consumo materialista e, no limite, niilista e, tanto quanto se pode observar, por isso mesmo, profundamente infeliz e sem sentido.
Característica essencial do ser humano é que conjugamos os verbos no passado, no presente e no futuro.
Há quem julgue que a salvação está no passado. Há sempre os saudosistas do passado: antigamente é que era bom. É a saudade do Paraíso perdido... Também há aqueles que não querem preocupar-se nem com o passado nem com o futuro. O que há é o aqui e agora, o presente a que se segue outro presente. A salvação consiste no amor e fruição do presente... Depois, há os sonhadores e os ascetas. Fogem do agora, para refugiar-se no amanhã. Nunca estão no presente, pois a sua morada é só o futuro...
Ora, pensando bem, se, por um lado, não podemos instalar-nos no passado, por outro, nenhum ser humano pode abandonar o passado, como se fosse sempre e só o ultrapassado. De facto, quando demos por nós, já lá estávamos, o que significa que vimos de um passado que nem sequer dominamos. E temos de aprender com o passado, nosso e dos outros, para, a partir dele, nos decidirmos no presente.
Sim, é sempre no presente que vivemos, mas também não é possível a simples instalação no presente, pois só podemos viver no presente projectando-nos constantemente no futuro. Na bela expressão de Helena Buescu, “somos herdeiros e futurantes”. O ser humano está estruturalmente voltado para o futuro, já que é constitutivamente um ser esperante.
Aqui, é necessário perguntar-se: não é a esperança filha da infelicidade e do temor? É célebre a afirmação de Espinosa: "Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança". O que é que isto quer dizer? Vivemos voltados para o futuro, pois somos projecto: agimos e somos, antecipando sempre. Sem esta antecipação, não poderíamos agir humanamente. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que realmente a esperança também significa que, se desejamos, é porque não temos, e isso implica que se não é feliz. E, depois, quando temos, há sempre o temor de perder o que temos, o que nos coloca em permanente inquietação...
Viver humanamente não pode, portanto, significar viver exclusivamente do futuro e para o futuro, pois viver unicamente da esperança é nunca viver, já que verdadeiramente só se vive no presente. Viver unicamente da esperança seria adiar constantemente a vida, no sentido do viver. Aliás, colocar permanentemente o presente ao serviço do futuro, vê-lo exclusivamente em função do futuro, é abrir as portas ao perigo da tirania: quantos homens e mulheres não foram de facto vítimas do sonho dos "amanhãs que cantam"?!...
É isso: querer viver exclusivamente do presente e para o presente não é humano, pois isso significaria viver na imediatidade animal, sem horizonte de futuro e transcendência. Mas, por outro lado, quem quisesse viver exclusivamente do futuro e para o futuro nunca poderia afastar a dúvida de estar apenas a lidar com as suas ilusões. Assim, a arte de viver humanamente consiste em, a partir do passado, viver com tal intensidade e dignidade o presente que se torna legítimo esperar a vida plena futura...
Nestes tempos de niilismo, com “sub-produção de transcendência”, como se queixava Ernst Bloch, o filósofo ateu-religioso da esperança, temos de voltar ao Advento a caminho do Natal.
Advento é uma palavra que vem do latim e quer dizer vinda, chegada: em sentido religioso, é a chegada, a vinda de Deus: Ele veio e mostrou-se em Jesus, Ele vem, Ele virá. Herdeiros e sempre futurantes, face ao fim, só resta uma alternativa, que já aqui por vezes sublinhei.
Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu “L’homme nu”: "Ao Homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada."
A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra.” “E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém”. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: “Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram."
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado 29 de Novembro 2025
Tive o privilégio, em Tubinga, de conversar longamente com Ernst Bloch, um dos filósofos maiores do século XX (morreu em 1977). Quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, Ernst Bloch, filósofo ateu, mas paradoxalmente, ateu religioso, na última aula antes das férias de Natal, desejava Boas Festas aos estudantes, falando-lhes do significado do Natal, e terminava assim: “É sempre Advento”.
Com esta expressão — é sempre Advento, ainda é Advento —, Ernst Bloch queria apelar para a esperança. O mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsia e possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar.
Quando se pensa nas raízes da Europa, é claro que, para quem está atento e não tem preconceitos, um dos fundamentos determinantes da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano, da própria ideia de pessoa, da história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, de tal maneira que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.
Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter de deixar a Universidade de Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas da altura acusaram-no de misticismo religioso. Ele defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, "a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial", pois responde à pergunta decisiva do homem, que é a questão do fim, do sentido e finalidade últimos do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia "não pode prejudicar" nenhum ser humano que queira bem à humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho, que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como cairam na barbárie.
Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Haendel, Bach, Beethoven, os Requiem, "absolutamente nada", escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma "situação insustentável", pois produz bárbaros, que, por exemplo, perante a Paixão segundo São Mateus, de Bach, ficam como bois a olhar para palácios.
O Natal, mesmo que alguns já se não lembrem disso, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem "pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido". Anunciou um Deus próximo, de amor, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade, da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade de todos diante de Deus e diante dos homens, o Reino da realização plena de toda a esperança.
Também por isso, nos dias à volta do Natal, apesar de todos os horrores que nos abalam até à raiz de nós, sentimo-nos mais humanos, mais solidários, o amor é mais vasto, a esperança é maior. E lá está Bloch: “onde há esperança há religião”.
O Advento continua. Ainda é Advento, pois ainda não chegou plenamente o que esperamos. É preciso relembrar que, na bela expressão de Helena Buescu, “somos herdeiros e futurantes”. Advento é uma palavra que vem do latim e significa vinda, chegada: em sentido religioso, é a chegada, a vinda de Deus: Ele veio e mostrou-se em Jesus, Ele vem, Ele virá. Somos herdeiros, pois estamos enraizados no passado e vivemos no presente, sempre futurantes enquanto esperamos, alicerçados numa esperança sem limites, pela realização de todos os nossos sonhos, “sonhos acordados”, sublinhava Bloch.
Face ao fim, nestes tempos de niilismo, com “subprodução de transcendência”, como se queixava Bloch, só resta uma alternativa:
Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L’homme nu: “Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada.”
A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.”
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 17 de dezembro de 2022