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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CLAIRE BRETÉCHER OU A BD NO CONSULTÓRIO DO DR. FREUD…

 

Nascida em Nantes em 1940, Claire Bretécher é na BD francesa um caso muito especial. Com vinte três anos encontra René Goscinny no auge da sua pujança criadora e o grande mestre, pai de Astérix ou do Petit Nicolas, viu em Claire a sua capacidade criadora, e o talento feminino, e criou a história hilariante a absurda “Le Facteur Rhésus”, que não corre bem. Mas em 1969 aparece no “Pilote” a personagem Cellulite. Está mais conforme com o estilo que Claire deseja para si. A partir daí o sucesso não parará. O traço que sempre apresentou era inconfundível. E era uma observadora mordaz dos hábitos e costumes da sociedade francesa. Roland Barthes classificá-la-ia como a “maior socióloga do ano” em 1976, Pierre Bourdieu referiu a força etnográfica de Agrippine, Umberto Eco não poupou elogios à originalidade desta artista singularíssima. Participa esporadicamente no “Spirou” e é fundadora de “L’Echo des Savanes” (1972) uma experiência inovadora na BD. Depois do feminismo avant-la-lettre vem a dimensão pioneira da ecologia. Mas nunca perde o sentido crítico e o distanciamento dos entusiasmos pueris. Trabalha no mensário “Le Sauvage” e cria para o “Nouvel Obs,” de Jean Daniel “Les Frustrés” (1973). Então torna-se uma celebridade europeia e mundial. Retrata cruelmente intelectuais, parisienses, militantes de esquerda, soixante-huitards retóricos, snobs seguros das suas convicções, mas cheios de nevroses patéticas… “Ela é o nosso contrapoder” dirá Jean Daniel. E tinha razão. A rir, punha tantas vezes a nu a fragilidade de algumas propostas salvíficas de outras páginas da revista. No princípio dos anos 80 tratará das angústias da maternidade e depois passará para o tema da adolescência com a inconfundível Agrippine (1988). Tudo isto acompanhado com grande sucesso nas tiragens, nas edições e no reconhecimento em Angoulême (1982), capital da BD francesa. Apesar de se tornar referência dos movimentos sociais do momento, Claire preservou sempre a sua independência crítica, sem compromissos militantes, para poder ver o lado ridículo de tudo, sem esquecer uma responsabilidade ética e cívica. Em 2015, finalmente, teve direito a uma exposição digna desse nome no Centro Pompidou, mas ainda faltam muitos trabalhos, muitas análises de uma obra significativa e surpreendente de uma grande desenhadora. Nos últimos anos preparava uma mostra de conjunto, que a doença e o desgosto da morte de Guy Carcassone, seu marido, impediram. Certamente que o público exigi-la-á em breve. Não me canso de voltar a folhear quarenta e cinco anos de uma fantástica produção… Claire Bretécher ainda deixou muito para pensar…

 

      

Agostinho de Morais

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JÚLIO

 

É sempre difícil recordar um amigo que nos deixa. Os obituários muito disseram sobre Júlio Castro Caldas. Mas fica sempre muito por dizer, apesar das listagens exaustivas de cargos e encargos que os homenageados tiveram. No entanto, importa menos recordar o prestigiado Bastonário da Ordem dos Advogados que foi, exemplar na defesa do prestígio da profissão e na salvaguarda intransigente dos direitos fundamentais dos cidadãos ou o Ministro da Defesa Nacional que demonstrou o que sempre caracterizou a sua vida – zelo, defesa do interesse público, determinação, saber e inteligência. É sempre mais importante lembrar a pessoa e o cidadão.
Encontrámo-nos poucos dias antes de nos deixar, na Avenida Infante Santo: sempre igual a si mesmo. Era aberto, generoso, cordato, mas nunca escondia o facto de arrastar consigo os males do mundo. Foi assim sempre, esperançoso, mas invariavelmente à espera de uma conspiração ao virar da esquina. O Júlio era um homem de valores éticos. Punha essa atitude em tudo o que fazia: fosse no escritório de Advogado, onde era de uma competência a toda a prova, ou na função política, em que era exaustivo no elencar dos riscos e dos perigos… Conheci-o melhor logo em 1974, quando foi chefe de gabinete de Francisco Sá Carneiro, nos primeiros passos da revolução de Abril, ao lado de um outro saudoso amigo, o António Patrício Gouveia. Mas antes disso tinha uma longa militância cívica entre os católicos inconformistas do Centro Nacional de Cultura, de “O Tempo e o Modo”, da Livraria Morais e do grupo do António Alçada Baptista. E o certo é que conhecemos-lhe sempre a mesma coerência, que o levou a ser um dos subscritores do célebre documento dos 101 de 25 de outubro de 1965 no qual um grupo de católico denunciava o desrespeito dos direitos fundamentais e a ação discricionária da polícia política e da censura. É um texto a que deveremos regressar. Júlio Castro Caldas merece a lembrança de uma vida de defesa intransigente do bem comum, dos direitos humanos em nome da dignidade da pessoa humana.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

Iniciamos um ano bissexto, o que dá sempre que pensar. Afinal no velho calendário romano era antes de se chegar aos idos de Março que se fazia o acerto cósmico, considerando que a certeza dos astrónomos obrigava a que, de quatro em quatro anos, houvesse um acerto de vinte e quatro horas, por conta das seis horas de desvio anual. Por muito que se desejasse que tudo fosse perfeito, como os astrólogos desejam, a verdade é que a grande balança do universo tem o seu quê de incerto. E o que é o Borda d’Água? Um ser rotundo, antigo, de cartola, óculos redondos graduados, um guarda-chuva, e uma interrogação permanente nos lábios sobre os astros e as nuvens, o sol e a lua, mas também sobre as culturas, os jardins, as árvores, as aves e o seu voo… Um dia foi visto, tal qual Lineu, de cócoras, com uma grande lupa a investigar o percurso das formigas, e a tentar ver onde estava a formiga mestra, ardilosamente escondida e protegida pelas aias solícitas… Outra vez foi encontrado, com uma tremenda máscara que o fazia tremendo à procura da abelha mestra numa colmeia, sem que nenhum dos inteligentes insetos o atacasse… Sim, o Borda d’Água é isso tudo: alguém que anuncia, prenuncia, justifica, demonstra, interpreta, domina e concede segurança a quem dela duvida. Encontrei-o há dias, falámos fugazmente. Explicou-me que a invernia ainda seria dura, que a primavera seria incerta, que o verão conheceria chuvas tropicais e que o outono não seria mau. Aventurou-se por ritos pagãos e cristãos, e no fim de tudo partiu apressado, pois ainda tinha um encontro marcado com um adivinhador que lia o futuro nas entranhas das galinhas… Mas para que lhe servirá isso? – questionei-o. E, com desfaçatez, ele disse-me: -  Para absolutamente nada. O que acontece é que há ainda quem se deixe iludir por esses sinais… - E que diz aos seus leitores e clientes? – Sempre a maior das verdades: Olhe com atenção, nunca se distraia com minudências.

 

Mas, hoje, com o controlo das barragens e a força dos burocratas, o Borda d’Água perdeu uma parte dos seus poderes. Além da preia-mar e da baixa-mar naturais, há o efeito da abertura e fecho das comportas, e esses gestos não dependem do destino, mas dos inexoráveis cálculos e gestos de mangas de alpaca. O Borda d’Água deixou, assim, de ser um “deus ex machina”. O caos e o cosmos, o cronos e o kairós, o tempo do relógio e o momento oportuno, obrigam a mais trabalho. A ecologia tornou-se complexa, o aquecimento global é cada vez mais misterioso, o buraco do ozono alarga-se assustadoramente, as emissões de dióxido de carbono evoluem perigosamente – e o velho Borda d’Água não tem outro remédio senão palmilhar léguas e léguas à procura dos segredos da incerta natureza…  

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

MEMÓRIA DE FERNANDO BENTO

 

A edição que hoje vos apresento é preciosa. Trata-se do número do Natal de 1954 do “Cavaleiro Andante”. Representa um vitral da autoria de Fernando Bento (1910-1996), o grande ilustrador da revista dirigida por Adolfo Simões Müller. Nota-se o traço inconfundível do autor. O número especial vendia-se em duas versões: normal e encadernado, sendo que um custava 10 escudos e o outro 16. Em primeiro plano, fora da representação, está o Cavaleiro Andante (símbolo da revista) ajoelhado. No quadro central está a Sagrada Família, no painel da esquerda estão os três magos e do lado direito, figuras exóticas de pastores com feições tipicamente orientais. E assim lembramo-nos das ilustrações de Bento sobre narrativas em terras distantes. Trata-se de um presépio que procura representar o momento histórico da Natividade de Jesus, e não, como normalmente, a encenação recriada por S. Francisco de Assis, que corresponde normalmente ao que nos é familiar. Se nos lembrarmos dos presépios tradicionais portugueses, como os de Machado de Castro e da sua oficina, vemos os pastores vestidos com roupas tradicionais, bem portuguesas. Não é este o caso. O desenhador quis dar um toque de originalidade e de exotismo ao seu desenho. De facto, a originalidade do traço de Fernando Bento associa-se muitas vezes a figuras com traços marcados. A cada passo, notamos no desenho inconfundível do autor uma preocupação de movimento, bem evidenciada em obras-primas, como “Beau Geste” (1952) e “Emílio e os Detetives” (1957-58). Como afirma João Paulo Paiva Boléo: “Fernando Bento é um dos maiores autores, um dos maiores desenhadores da BD portuguesa. Fernando Bento marcou o imaginário de milhares de leitores, fê-los sonhar, fê-los descobrir mundos ‘da Terra à Lua’, histórias de emoção e de coragem… Em síntese, abriu-lhes (abriu-nos), em simultâneo, o mundo da aventura e o mundo da literatura. Deu-nos a magia de uma arte de corpo inteiro, que vive da sugestão da ação e – como repetidamente se tem sublinhado – do preenchimento do espaço branco entre imagens, da elipse, de uma forma original de contar histórias através da utilização singular, sugestiva e sintética do desenho e do texto, e abriu-nos o caminho para outra arte, mais sugestiva ainda, mas convocadora ainda da imaginação, a literatura, assente na maior e mais distintiva criação da inteligência humana – a palavra”. Esta apreciação constitui uma análise rigorosa das características de Fernando Bento. Com efeito, a aventura e a literatura encontram-se intimamente relacionadas. E o exemplo que hoje aqui trazemos, permite-nos compreender que cada figura representada pode muito bem estar associada a uma aventura literária: a viagem dos três reis magos, a presença dos jovens pais Maria e José, com o filho recém-nascido e a presença misteriosa dos pastores, que se assemelham a berberes do deserto… No fundo, é a magia da Banda Desenhada que aqui está toda – a ilustração, o movimento, a aventura, a literatura, o enredo, a palavra… E lembro um poema de Miguel Torga para ilustrar este vitral, que nos lembra um tempo antigo, um autor profícuo e um artista, o desenhador Fernando Bento, merece muito ser lembrado   

 

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...
E Deus não representou.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

O MOMENTO BIZARRO DE UMA HISTÓRIA IMPREVISTA…

 

Há mistérios insondáveis que jamais saberemos como e porquê ocorreram. Celebrámos há dias a queda do muro de Berlim. Hoje parece-nos quase natural aquilo que se passou há 30 anos, no dia 9 de novembro. No entanto, ninguém poderia prever o que se passou. E talvez fosse digno das aventuras de Max e Moritz, dois travessos petizes que faziam as delícias dos jovens alemães há mais de cem anos… Talvez tenha sido um erro, pode ter sido um acaso, uma inadvertência, ou, quem sabe?, um mero ato de loucura… O certo é que o acontecido foi providencial. Resolveu-se então um inextricável dilema de impossível solução. Na cena internacional a pressão era muito grande na Hungria e na Checoslováquia. Muitos cidadãos desejavam movimentar-se, passar as fronteiras e chegar aonde havia liberdade e prosperidade. Gunther Shabowski era membro do politburo da República Democrática Alemã e foi destacado para anunciar aos jornalistas de Berlim-Leste uma nova política de entradas e saídas. Não estava em causa, o derrube do muro, mas apenas uma flexibilização das viagens. E havia um texto (há sempre um texto) que Schabowski devia ter lido, mas parece que não o fez – pelo menos com a devida atenção. Aí se previa um complexo sistema de autorizações que evitasse em todo o caso um colapso. A RDA deveria continuar a ser um bastião de fidelidade ao modelo do leste. No dia seguinte, só no dia seguinte, quem quisesse sair deveria pedir uma autorização. Havia, é certo, ordem para maior flexibilidade, mas a lógica burocrática deveria manter-se firme no essencial. Tudo ocorreria apenas depois das 10 horas da manhã. E Schabowski deveria dizer isso mesmo aos jornalistas naquele fim de tarde. Não se sabe por que bulas, porém, ele estava mal informado. Faltara a um encontro de preparação, e displicentemente pegou no papel que deveria ler, olhou-o na diagonal e avançou para a boca de cena… Perante os jornalistas, começou por ler o começo do escrito. De facto, havia um sinal de abertura, que ele deveria transmitir. O recém-nomeado Egon Kranz deu-lhe o papel, e havia que apresentar um sinal na linha da “glasnost”, da transparência. Mas o porta-voz Schabowski apenas leu o início e esqueceu-se dos pormenores essenciais da segunda página. Aí assegurava-se que a burocracia controlaria as saídas, a conta-gotas… E foram os pormenores que ditaram o desastre, o colapso. Abençoados desastre e colapso. Num instante o membro do politburo julgou que a burocracia e a polícia, firmes nos seus postos, assegurariam que a ordem não seria alterada. Puro engano. A burocracia sabia menos do que ele. E naquele momento o que ele dissesse seria a lei. O diálogo é ilustrativo e patético. Os jornalistas pressionam-no. Burocraticamente diz: “hoje tomou-se uma decisão para que as pessoas possam sair da República”. Os jornalistas estão incrédulos e perguntam: “Com passaporte?”. E insistem: “E desde já?” Schabowski fica por um minuto algo confuso. Que deve responder? Neste ponto entramos numa aventura absurda de Max e Moritz, mas estes não tem de fazer nada, não precisam de qualquer diabrura… E os jornalistas continuam a perguntar: “A partir de agora?”. E mais: “é preciso apresentar as razões para viajar?” Schabowski está a suar, nervoso, folheia os papéis, nada vê, mas tudo está lá – o pedido formal, as 10 da manhã… Max e Moritz nem têm de roubar essa página… É tudo muito rápido. A certa altura, para se ver livre do pesadelo, responde: “Pode ser imediatamente! (Ab sofort)… E já não pode voltar atrás. Felizmente para a humanidade acabara de condenar o muro a um inexorável colapso. Dentro de pouco tempo as pessoas precipitam-se para as aberturas do muro. Os soldados deixam-nos passar. Muitos começam a destruir o muro de cimento, entre gritos de alegria. O burgomestre de Berlim aproveita a onda e participa nesse momento histórico único. E eis como um aparente equívoco, uma distração, deu lugar a um movimento histórico!

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOSÉ BENTO (1932-2019)

 

O Centro Nacional de Cultura homenageia o grande tradutor e poeta e envia sentidas condolências à família.

 

José Bento foi um grande tradutor de poesia e um grande poeta. Não é possível traduzir poesia com a qualidade com que o fazia sem se ter o dom da medida certa na palavra e no ritmo. Ao lado de Pedro Tamen, António Osório e Ruy Belo, seus companheiros de geração, é uma referência da poesia portuguesa contemporânea. Deixou-nos há poucos dias e devemos lembrá-lo. Colaborou em revistas como “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do Meio-Dia”. Trabalhou na redação de “O Tempo e o Modo”, e por isso foi muito cá de casa…, do mesmo modo que colaborou ativamente na revista da Gulbenkian “Colóquio-Letras”. É impressionante a lista das obras que traduziu: começou por “Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez – e apaixonou-se pelas línguas ibéricas. Organizou antologias de Pablo Neruda e Vicente Aleixandre para a Inova e cultivou uma genuína ligação entre os idiomas e as culturas peninsular. A memória do hispanista leva-nos a compreender melhor a complementaridade ibérica. Ouvimos Jorge Marique, através de José Bento e sentimos o impulso intenso de Frei Luís de Léon; Garcilaso de la Vega, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Francisco de Quevedo, Rafael Alberti. Leia-se a monumental “Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea” (1985) – que marca o contributo decisivo do nosso grande autor. Está lá tudo de essencial. Além da poesia, José Bento é um grande tradutor da prosa – como no caso de “D. Quixote de la Mancha”, mas também de Javier Marías, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Maria Zambrano e Jorge Luís Borges, com um grande reconhecimento pela extraordinária qualidade e clareza dos textos. José Bento venceu os prémios D. Dinis e Pen (1960) com “Silabário” e prosseguiu a ação sistemática, com a antologia do “Siglo d’oro”, “Lírica espanhola de tipo tradicional”. José Bento foi um grande homem de cultura, capaz de mobilizar energias e favorecer a comunicação entre culturas e entre pessoas, como fator de paz. Os livros ”Um Sossegado Silêncio” (2002, Asa) e “Alguns Motetos” (Assírio e Alvim, 2003) marcam a qualidade do autor e o seu entendimento de que tudo depende da capacidade de compreender e transmitir sentimentos…

 

Agostinho de Morais 

CADA ROCA COM SEU FUSO...

HELENA CORRÊA DE BARROS (1910-2000)


Helena Corrêa de Barros (1910-2000) foi uma fotógrafa amadora e uma viajante incansável, sempre acompanhada pela extraordinária máquina fotográfica. As suas imagens revelam um olhar inovador através de diapositivos a cores e fotografias a preto e branco, algumas das quais apresentadas em exposições e concursos de fotografia, na década de 1950. Como afirma a artista: ​«Desde pequena que a fotografia foi para mim o passatempo mais agradável. Nunca fiz nenhuma viagem sem levar a máquina comigo e, muitas vezes, o prazer maior era o de poder tirar fotografias: se, por qualquer motivo, me não era possível fazê-lo, o passeio não tinha para mim o mesmo encanto. (...)». A Exposição da obra da inesperada artista encontra-se no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, na Rua da Palma 246, em Lisboa, e constitui uma oportunidade única, não apenas para usufruirmos de fotografias de rara beleza, mas também para termos contacto com o Portugal dos anos cinquenta e sessenta nas mais diversas facetas. A fragata do Tejo com que iniciamos esta viagem constitui um exemplo de talento e sensibilidade, relativamente a quem nos lega esta preciosidade. Um conjunto extraordinário de imagens faz parte do que se designou, com felicidade, de “minha viagem preferida”. Longe da doentia tentação, hoje comum, de fixar imagem ao acaso, ou de confundir a vida ou a realidade com a sua imagem, Helena Corrêa de Barros usa a fotografia para se exprimir artística e pessoalmente. É a sua arte, que aqui se encontra, e se dúvidas houvesse, esta fragata é a demonstração de como a máquina só faz aquilo que o artista pretende, ou não fosse a fotógrafa uma conhecedora profunda dos melhores artistas, nos diversos domínios. O preto e branco e a cor são usados com fantástico critério. Os temas permitem conhecermos o Portugal de há mais de cinquenta anos, desde os amigos da artista e do seu meio, até ao país profundo. Pedro Mexia falou da fotografia como Autobiografia, Documento e Passatempo. É disso que se trata. Há um ambiente “habitualmente feliz”, uma placidez que leva à nostalgia. Mas há mais do que isso, e por baixo desse brilho, há a realidade. Não se trata de idealizar, mas de compreender e de trazer até nós outro tempo. Que é representar a vida, senão vê-la tal como ela é, vivida diversamente por todos? Se muitas vezes conhecemos a faceta oficial das imagens, aqui a fotografia a preto e branco e a pelicula “Kodachrome” dão-nos a vida nos tons diferentes que ela tem… Leia-se “O Delfim” do José Cardoso Pires e faça-se passar esta série de fotografias… Percebemos que há um pano de fundo e uma representação em que a naturalidade desempenha o seu papel… Helena Corrêa de Barros é uma bela surpresa, a não perder a sua obra…


Agostinho de Morais

GUALDINO GOMES E O CHIADO…

 

O Chiado está cheio de histórias. José-Augusto França diz que a capital de Portugal é Lisboa e a capital de Lisboa é o Chiado, e tem razão! Hoje recordamos alguns episódios passados com Gualdino Gomes. Começamos pelo relato por Luís de Oliveira Guimarães… «Uma tarde Gualdino Gomes (1857-1948) entrou na Brasileira e pediu ao criado – o venerável João – chá e bolos. João não tardou com o lanche. – Os bolos estão frescos? – quis saber Gualdino. – Se são frescos! Vieram agora mesmo da pastelaria… Gualdino, encaixando o monóculo: - Isso não prova nada. Também eu vim agora mesmo de casa – e já tenho 78 anos…». Gualdino era um conhecido jornalista, crítico de teatro, a quem Fialho de Almeida, de «Os Gatos», acusava de não ter obra… O certo, porém, é que Gualdino foi durante muitos anos testemunha da boémia e da atividade teatral lisboeta e sobretudo elo entre a gloriosa geração de 1870 e os começos do século XX… Gostava de dizer: «Sou um leitor, não sou um escritor». Fizera a banca de jornalista no «Repórter» ao lado de Oliveira Martins, D. João da Câmara e Teixeira-Gomes… Sobre «A Brasileira», dizia Raul Brandão: «A um canto, de gabinardo e barba branca, Gualdino prepara a última piada»…

 

Noutra ocasião, numa sessão de estreia de peça bastante publicitada, que tinha lugar no Teatro Ginásio, Gualdino Gomes estava pronto para comentar o espetáculo em cujo elenco havia figuras de proa do meio artístico... Tudo começou e desenvolveu-se, a preceito como mandam as regras – no entanto depressa se percebeu que aquele não era dia de sucesso. A peça era vulgar, os atores não estavam em forma, o ensaio deixava muito a desejar, as fragilidades eram tais que a voz do ponto era demasiado audível e as deixas estavam mal combinadas. Um desastre. Gualdino preparou um estratagema para se libertar daquele suplício – e, meu dito meu feito, a certa altura, havia uma tempestade em cena, que amainava para alegria do crítico... E então o escriba, levantou-se de modo ostensivo e disse, alto e bom som: - «Vou-me andando, deixa-me aproveitar esta abertinha...»

 

Mais uma. O Fialho de Almeida tinha uma espécie de amor-ódio por ele e estava sempre a meter-se com ele, por não ter obra e por desperdiçar o seu talento em linguados de jornal… - Oh! Gualdino estou a ver os nossos netos a lerem as tuas obras completas… O Gualdino, calado, ouvia, ouvia, e ia enchendo o saco. A certa altura, não se continha e rebentava. E lembrava-se de que o Fialho casara tarde e rico no Alentejo e gozava as delícias da fortuna da mulher. – Oh Fialho, diz-me aí as horas no relógio de ouro do teu sogro…

 

Outra vez, foi na estreia do «Tamar» de Alfredo Cortez, no Teatro Nacional, que se passava numa praia, com o cenário do mar ao fundo. Iam chegando os pescadores, com a mão na testa, em forma de pala, e passavam da direita para a esquerda no palco, olhando o horizonte, numa estranha marcação. Passou o primeiro, passou o segundo e, quando passou o terceiro, o Gualdino levanta-se e diz: - Ele há qualquer coisa e é ali para o Intendente… Vou lá ver…

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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UMA NOTA FINAL – OS TEXTOS ANTIGOS (XXXII)

Italo Calvino disse que um clássico “é um livro que ainda não acabou de dizer o que tem para dizer”.
Ao falarmos de trinta clássicos das Letras, lembrámo-lo, e fizemos uma escolha aleatória, considerando a vida contemporânea.

Importa, porém, não esquecer as grandes obras da espiritualidade, que continuam a ser referências fundamentais das diferentes sociedades e culturas.

Escolhemos hoje três livros finais, que continuam a influenciar decisivamente a vida dos nossos dias. Sem entrar em exemplos concretos, basta regressarmos a diversos dos livros escolhidos, para rapidamente encontrarmos alusões, referências e símbolos, incompreensíveis sem recorrermos aos textos que hoje recordamos.

Lembrando-nos da origem indo-europeia das nossas culturas, começamos por “Bhagavad Gita”, a “canção do bem-aventurado”, escrito em sânscrito (língua donde provêm quase todas as línguas europeias). É um texto religioso hindu. Faz parte do épico Mahabharata, embora seja de composição mais recente que o restante livro. A versão que chegou aos nossos dias data do século IV a.C.. Relata o diálogo de Krishna, suprema personalidade divina, com Seu discípulo guerreiro, em pleno campo de batalha. O tema é da iluminação diretamente de Krishna e da ciência da autorrealização. No desenrolar da conversa são colocados pontos importantes do bramanismo. A obra é uma das principais escrituras sagradas da cultura da Índia, designadamente na religião Vaishnava, com ramificações de fé em Vishnu ou Krishna. Deus está para o mundo como o artista para o seu trabalho. Deus será o Criador (Brahma), o Conservador (Vishnu) e o Destruidor (Shiva), que, no fim devolve todas as formas finitas à natureza primordial donde emergira. O “Bhagavad Gita” contém a essência do conhecimento védico da Índia e é considerado um dos grandes clássicos espiritualistas da humanidade.

Já a “Bíblia” é composta do Antigo e do Novo Testamento, tendo o “Antigo Testamento” sido escrito entre 1500 a. C e 450 a. C., e o “Novo Testamento” entre 45 e 90 da nossa era, em cerca de 1600 anos. Estamos perante uma verdadeira biblioteca, de muitos autores e de diversas circunstâncias. Enquanto uma certa tradição coloca no tempo de Moisés a autoria dos primeiros cinco livros da Bíblia (Pentateuco), muitos estudiosos consideram que foram compilados apenas depois do exílio babilónico (século IV a. C.), a partir de outros textos datados entre os séculos décimo e o quarto antes de Cristo. O “Pentateuco” (cinco rolos) é designado pelos judeus como “Torá”, palavra hebraica que significa instrução ou Lei, tendo Moisés sido o seu principal autor. É o ensinamento judeu através da história – “e viver segundo a Lei é viver no tempo a vida da eternidade”. O “Novo Testamento” apresenta a história de Jesus Cristo, Filho de Deus, e a pregação dos seus ensinamentos durante a Sua vida e após a morte e Ressurreição, em Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), a partir da ideia de “Boa Nova”, os “Atos dos Apóstolos”, as Cartas dos Apóstolos, em especial de Paulo e o “Apocalipse de S. João”.

O Alcorão é o livro sagrado do Islão. Os muçulmanos consideram que se trata da palavra literal Deus (Alah) revelada ao profeta Muhammad (Maomé), ao longo de um período de vinte e três anos. 92 capítulos foram revelados em Meca, e 22 em Medina. Está assim organizado em 114 capítulos, denominados suras, divididas em livros, seções, partes e versículos. A palavra Alcorão deriva do verbo árabe que significa declamar ou recitar. Os capítulos estão dispostos de acordo com a sua extensão e não de acordo com a ordem cronológica da revelação. Cada sura pode por sua vez ser subdividida em versículos. O número de versículos é de cerca de 6600. A sura maior é a segunda, com 286 versículos e as suras menores possuem apenas três versículos. Os capítulos são tradicionalmente identificados pelos nomes e não pelos números – A Vaca, A Abelha, O Figo ou A Aurora, por exemplo.

Os clássicos dos clássicos são, afinal, os que sempre têm algo para dizer.

 

Agostinho de Morais

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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“LIVRO DO DESASSOSSEGO” (XXXI)

 

“O Livro do Desassossego” foi o resultado da descoberta e do estudo da célebre “arca pessoana”. A publicação é de 1982 e Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha são os artífices. É um conjunto de fragmentos, uma espécie de diário, pensamentos, reflexões, da autoria de Fernando Pessoa (1888-1935), um quase ortónimo, uma vez que o poeta lhe dá nome próprio, Bernardo Soares, ainda que a primeira parte seja atribuída a Vicente Guedes ou quiçá ao próprio Pessoa.

Como tem sido afirmado, há como que uma autorrepresentação do próprio através de um artifício criativo. No fundo, é o próprio poeta que encontramos, com a multiplicidade de temas e de desígnios. Ou seja, para além dos heterónimos principais de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, encontramos em Bernardo Soares uma chave que nos permite ligar a heterogeneidade da heteronomia à identidade de quem reúne essa diversidade.

Bernardo trabalha num escritório na Baixa de Lisboa, como o próprio Pessoa. Seguimos os seus passos. Podemos sentir a sua solidão, os receios, o sentido e não sentido da vida, os temores, a morte, o amor e vários outros temas sobre a existência. A ideia de desassossego significa inconformismo, criatividade, intranquilidade, angústia, dúvida, aceitação e recusa. Se muitos referem o pessimismo de Pessoa, a verdade é que, em toda a sua obra, percebemos que a consciência certa do valor próprio. É verdade que Pessoa apenas publicou em vida um livro, “Mensagem” (1934), mas quando estudamos o conteúdo da “arca”, percebemos que o poeta foi escrevendo para a posteridade. “Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar”. E quando começa por apresentar o quase heterónimo, diz: «Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projeta”.

O mestre Caeiro prenuncia, Campos afirma-se por si, até demarcando-se de Pessoa, mas não deixa de procurar enriquecê-lo e de torná-lo relevante. “Cada um tem a sua vaidade, e a minha vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas…” “Tudo me interessa e nada me prende. (…) Tenho fome da extensão do tempo e quero ser eu sem condições”.

Foi Jorge de Sena quem primeiro deu importância à coerência dos fragmentos de Pessoa, ao seu carácter autobiográfico e ao facto de estarmos perante uma espécie de outro autor que, no entanto, tinha tudo a ver diretamente com Pessoa, ele mesmo. Mas Sena, ao partir para o Brasil, foi deixando Fernando Pessoa, para se render ao génio multiforme de Camões.

Bernardo Soares faz parte do universo Pessoa, que ele procura analisar fora de si. “Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava — parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito…”

“O Livro do Desassossego” é um livro póstumo, autobiográfico, publicado quase cinquenta anos depois da morte do autor, e funciona como o conjunto de reflexões relativamente ao permanente enigma que Fernando Pessoa representa…

Agostinho de Morais