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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO...

HELENA CORRÊA DE BARROS (1910-2000)


Helena Corrêa de Barros (1910-2000) foi uma fotógrafa amadora e uma viajante incansável, sempre acompanhada pela extraordinária máquina fotográfica. As suas imagens revelam um olhar inovador através de diapositivos a cores e fotografias a preto e branco, algumas das quais apresentadas em exposições e concursos de fotografia, na década de 1950. Como afirma a artista: ​«Desde pequena que a fotografia foi para mim o passatempo mais agradável. Nunca fiz nenhuma viagem sem levar a máquina comigo e, muitas vezes, o prazer maior era o de poder tirar fotografias: se, por qualquer motivo, me não era possível fazê-lo, o passeio não tinha para mim o mesmo encanto. (...)». A Exposição da obra da inesperada artista encontra-se no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, na Rua da Palma 246, em Lisboa, e constitui uma oportunidade única, não apenas para usufruirmos de fotografias de rara beleza, mas também para termos contacto com o Portugal dos anos cinquenta e sessenta nas mais diversas facetas. A fragata do Tejo com que iniciamos esta viagem constitui um exemplo de talento e sensibilidade, relativamente a quem nos lega esta preciosidade. Um conjunto extraordinário de imagens faz parte do que se designou, com felicidade, de “minha viagem preferida”. Longe da doentia tentação, hoje comum, de fixar imagem ao acaso, ou de confundir a vida ou a realidade com a sua imagem, Helena Corrêa de Barros usa a fotografia para se exprimir artística e pessoalmente. É a sua arte, que aqui se encontra, e se dúvidas houvesse, esta fragata é a demonstração de como a máquina só faz aquilo que o artista pretende, ou não fosse a fotógrafa uma conhecedora profunda dos melhores artistas, nos diversos domínios. O preto e branco e a cor são usados com fantástico critério. Os temas permitem conhecermos o Portugal de há mais de cinquenta anos, desde os amigos da artista e do seu meio, até ao país profundo. Pedro Mexia falou da fotografia como Autobiografia, Documento e Passatempo. É disso que se trata. Há um ambiente “habitualmente feliz”, uma placidez que leva à nostalgia. Mas há mais do que isso, e por baixo desse brilho, há a realidade. Não se trata de idealizar, mas de compreender e de trazer até nós outro tempo. Que é representar a vida, senão vê-la tal como ela é, vivida diversamente por todos? Se muitas vezes conhecemos a faceta oficial das imagens, aqui a fotografia a preto e branco e a pelicula “Kodachrome” dão-nos a vida nos tons diferentes que ela tem… Leia-se “O Delfim” do José Cardoso Pires e faça-se passar esta série de fotografias… Percebemos que há um pano de fundo e uma representação em que a naturalidade desempenha o seu papel… Helena Corrêa de Barros é uma bela surpresa, a não perder a sua obra…


Agostinho de Morais

GUALDINO GOMES E O CHIADO…

 

O Chiado está cheio de histórias. José-Augusto França diz que a capital de Portugal é Lisboa e a capital de Lisboa é o Chiado, e tem razão! Hoje recordamos alguns episódios passados com Gualdino Gomes. Começamos pelo relato por Luís de Oliveira Guimarães… «Uma tarde Gualdino Gomes (1857-1948) entrou na Brasileira e pediu ao criado – o venerável João – chá e bolos. João não tardou com o lanche. – Os bolos estão frescos? – quis saber Gualdino. – Se são frescos! Vieram agora mesmo da pastelaria… Gualdino, encaixando o monóculo: - Isso não prova nada. Também eu vim agora mesmo de casa – e já tenho 78 anos…». Gualdino era um conhecido jornalista, crítico de teatro, a quem Fialho de Almeida, de «Os Gatos», acusava de não ter obra… O certo, porém, é que Gualdino foi durante muitos anos testemunha da boémia e da atividade teatral lisboeta e sobretudo elo entre a gloriosa geração de 1870 e os começos do século XX… Gostava de dizer: «Sou um leitor, não sou um escritor». Fizera a banca de jornalista no «Repórter» ao lado de Oliveira Martins, D. João da Câmara e Teixeira-Gomes… Sobre «A Brasileira», dizia Raul Brandão: «A um canto, de gabinardo e barba branca, Gualdino prepara a última piada»…

 

Noutra ocasião, numa sessão de estreia de peça bastante publicitada, que tinha lugar no Teatro Ginásio, Gualdino Gomes estava pronto para comentar o espetáculo em cujo elenco havia figuras de proa do meio artístico... Tudo começou e desenvolveu-se, a preceito como mandam as regras – no entanto depressa se percebeu que aquele não era dia de sucesso. A peça era vulgar, os atores não estavam em forma, o ensaio deixava muito a desejar, as fragilidades eram tais que a voz do ponto era demasiado audível e as deixas estavam mal combinadas. Um desastre. Gualdino preparou um estratagema para se libertar daquele suplício – e, meu dito meu feito, a certa altura, havia uma tempestade em cena, que amainava para alegria do crítico... E então o escriba, levantou-se de modo ostensivo e disse, alto e bom som: - «Vou-me andando, deixa-me aproveitar esta abertinha...»

 

Mais uma. O Fialho de Almeida tinha uma espécie de amor-ódio por ele e estava sempre a meter-se com ele, por não ter obra e por desperdiçar o seu talento em linguados de jornal… - Oh! Gualdino estou a ver os nossos netos a lerem as tuas obras completas… O Gualdino, calado, ouvia, ouvia, e ia enchendo o saco. A certa altura, não se continha e rebentava. E lembrava-se de que o Fialho casara tarde e rico no Alentejo e gozava as delícias da fortuna da mulher. – Oh Fialho, diz-me aí as horas no relógio de ouro do teu sogro…

 

Outra vez, foi na estreia do «Tamar» de Alfredo Cortez, no Teatro Nacional, que se passava numa praia, com o cenário do mar ao fundo. Iam chegando os pescadores, com a mão na testa, em forma de pala, e passavam da direita para a esquerda no palco, olhando o horizonte, numa estranha marcação. Passou o primeiro, passou o segundo e, quando passou o terceiro, o Gualdino levanta-se e diz: - Ele há qualquer coisa e é ali para o Intendente… Vou lá ver…

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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UMA NOTA FINAL – OS TEXTOS ANTIGOS (XXXII)

Italo Calvino disse que um clássico “é um livro que ainda não acabou de dizer o que tem para dizer”.
Ao falarmos de trinta clássicos das Letras, lembrámo-lo, e fizemos uma escolha aleatória, considerando a vida contemporânea.

Importa, porém, não esquecer as grandes obras da espiritualidade, que continuam a ser referências fundamentais das diferentes sociedades e culturas.

Escolhemos hoje três livros finais, que continuam a influenciar decisivamente a vida dos nossos dias. Sem entrar em exemplos concretos, basta regressarmos a diversos dos livros escolhidos, para rapidamente encontrarmos alusões, referências e símbolos, incompreensíveis sem recorrermos aos textos que hoje recordamos.

Lembrando-nos da origem indo-europeia das nossas culturas, começamos por “Bhagavad Gita”, a “canção do bem-aventurado”, escrito em sânscrito (língua donde provêm quase todas as línguas europeias). É um texto religioso hindu. Faz parte do épico Mahabharata, embora seja de composição mais recente que o restante livro. A versão que chegou aos nossos dias data do século IV a.C.. Relata o diálogo de Krishna, suprema personalidade divina, com Seu discípulo guerreiro, em pleno campo de batalha. O tema é da iluminação diretamente de Krishna e da ciência da autorrealização. No desenrolar da conversa são colocados pontos importantes do bramanismo. A obra é uma das principais escrituras sagradas da cultura da Índia, designadamente na religião Vaishnava, com ramificações de fé em Vishnu ou Krishna. Deus está para o mundo como o artista para o seu trabalho. Deus será o Criador (Brahma), o Conservador (Vishnu) e o Destruidor (Shiva), que, no fim devolve todas as formas finitas à natureza primordial donde emergira. O “Bhagavad Gita” contém a essência do conhecimento védico da Índia e é considerado um dos grandes clássicos espiritualistas da humanidade.

Já a “Bíblia” é composta do Antigo e do Novo Testamento, tendo o “Antigo Testamento” sido escrito entre 1500 a. C e 450 a. C., e o “Novo Testamento” entre 45 e 90 da nossa era, em cerca de 1600 anos. Estamos perante uma verdadeira biblioteca, de muitos autores e de diversas circunstâncias. Enquanto uma certa tradição coloca no tempo de Moisés a autoria dos primeiros cinco livros da Bíblia (Pentateuco), muitos estudiosos consideram que foram compilados apenas depois do exílio babilónico (século IV a. C.), a partir de outros textos datados entre os séculos décimo e o quarto antes de Cristo. O “Pentateuco” (cinco rolos) é designado pelos judeus como “Torá”, palavra hebraica que significa instrução ou Lei, tendo Moisés sido o seu principal autor. É o ensinamento judeu através da história – “e viver segundo a Lei é viver no tempo a vida da eternidade”. O “Novo Testamento” apresenta a história de Jesus Cristo, Filho de Deus, e a pregação dos seus ensinamentos durante a Sua vida e após a morte e Ressurreição, em Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), a partir da ideia de “Boa Nova”, os “Atos dos Apóstolos”, as Cartas dos Apóstolos, em especial de Paulo e o “Apocalipse de S. João”.

O Alcorão é o livro sagrado do Islão. Os muçulmanos consideram que se trata da palavra literal Deus (Alah) revelada ao profeta Muhammad (Maomé), ao longo de um período de vinte e três anos. 92 capítulos foram revelados em Meca, e 22 em Medina. Está assim organizado em 114 capítulos, denominados suras, divididas em livros, seções, partes e versículos. A palavra Alcorão deriva do verbo árabe que significa declamar ou recitar. Os capítulos estão dispostos de acordo com a sua extensão e não de acordo com a ordem cronológica da revelação. Cada sura pode por sua vez ser subdividida em versículos. O número de versículos é de cerca de 6600. A sura maior é a segunda, com 286 versículos e as suras menores possuem apenas três versículos. Os capítulos são tradicionalmente identificados pelos nomes e não pelos números – A Vaca, A Abelha, O Figo ou A Aurora, por exemplo.

Os clássicos dos clássicos são, afinal, os que sempre têm algo para dizer.

 

Agostinho de Morais

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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“LIVRO DO DESASSOSSEGO” (XXXI)

 

“O Livro do Desassossego” foi o resultado da descoberta e do estudo da célebre “arca pessoana”. A publicação é de 1982 e Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha são os artífices. É um conjunto de fragmentos, uma espécie de diário, pensamentos, reflexões, da autoria de Fernando Pessoa (1888-1935), um quase ortónimo, uma vez que o poeta lhe dá nome próprio, Bernardo Soares, ainda que a primeira parte seja atribuída a Vicente Guedes ou quiçá ao próprio Pessoa.

Como tem sido afirmado, há como que uma autorrepresentação do próprio através de um artifício criativo. No fundo, é o próprio poeta que encontramos, com a multiplicidade de temas e de desígnios. Ou seja, para além dos heterónimos principais de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, encontramos em Bernardo Soares uma chave que nos permite ligar a heterogeneidade da heteronomia à identidade de quem reúne essa diversidade.

Bernardo trabalha num escritório na Baixa de Lisboa, como o próprio Pessoa. Seguimos os seus passos. Podemos sentir a sua solidão, os receios, o sentido e não sentido da vida, os temores, a morte, o amor e vários outros temas sobre a existência. A ideia de desassossego significa inconformismo, criatividade, intranquilidade, angústia, dúvida, aceitação e recusa. Se muitos referem o pessimismo de Pessoa, a verdade é que, em toda a sua obra, percebemos que a consciência certa do valor próprio. É verdade que Pessoa apenas publicou em vida um livro, “Mensagem” (1934), mas quando estudamos o conteúdo da “arca”, percebemos que o poeta foi escrevendo para a posteridade. “Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar”. E quando começa por apresentar o quase heterónimo, diz: «Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projeta”.

O mestre Caeiro prenuncia, Campos afirma-se por si, até demarcando-se de Pessoa, mas não deixa de procurar enriquecê-lo e de torná-lo relevante. “Cada um tem a sua vaidade, e a minha vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas…” “Tudo me interessa e nada me prende. (…) Tenho fome da extensão do tempo e quero ser eu sem condições”.

Foi Jorge de Sena quem primeiro deu importância à coerência dos fragmentos de Pessoa, ao seu carácter autobiográfico e ao facto de estarmos perante uma espécie de outro autor que, no entanto, tinha tudo a ver diretamente com Pessoa, ele mesmo. Mas Sena, ao partir para o Brasil, foi deixando Fernando Pessoa, para se render ao génio multiforme de Camões.

Bernardo Soares faz parte do universo Pessoa, que ele procura analisar fora de si. “Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava — parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito…”

“O Livro do Desassossego” é um livro póstumo, autobiográfico, publicado quase cinquenta anos depois da morte do autor, e funciona como o conjunto de reflexões relativamente ao permanente enigma que Fernando Pessoa representa…

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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“MONADOLOGIA” de G.W. LEIBNIZ (XXX)

 

É impressionante a pertinência e a atualidade deste que é um dos autores mais surpreendentes e ricos da história do pensamento de sempre. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) é um dos mais influentes criadores da modernidade.

Muitos dos seus contemporâneos não compreenderam, porém, a complexidade da sua força inovadora – e daí que tenha prevalecido uma certa leitura caricatural, de que o paradigma é o Dr. Pangloss no Cândido de Voltaire. No entanto, a modernidade veio a demonstrar que essa figura não se adequava ao suposto modelo.

Leibniz deu importantes contribuições para a física e para a tecnologia e antecipou noções que surgiram muito mais tarde como a teoria das probabilidades e o cálculo infinitesimal, sem esquecer os seus estudos sobre filosofia, política, direito, ética, teologia, história e filologia. Leibniz também contribuiu para o campo da biblioteconomia.

Enquanto servia como superintendente da biblioteca Wolfenbüttel na Alemanha, desenvolveu um sistema de catalogação que serviria de guia para muitas das maiores bibliotecas da Europa. As contribuições de Leibniz para esta vasta gama de assuntos foram espalhadas em várias revistas científicas, em dezenas de milhares de cartas e em manuscritos inéditos. Escreveu em várias línguas, sobretudo em latim, francês e alemão.

Leia-se Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-1743), o primeiro autor português a referir-se ao pensador alemão entre nós. A sua apreciação é animada pelo espírito do tempo, no entanto será o oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804) a proceder a uma análise detida e informada sobre a obra de Leibniz.

Em Recreação Filosófica falou do princípio da razão suficiente e da teoria da harmonia pré-estabelecida. Importa, contudo, ter presente que, ao longo da obra, fica nítido como a harmonia para Leibniz significa “a diversidade compensada pela identidade”. Não estamos diante de uma identidade homogénea, mas de uma realidade que se desdobra infinitamente. E assim a “razão suficiente” leva-nos ao limite da cadeia de razões, já que não se trata de encontrar a razão da harmonia, mas de chegar à complexidade das motivações e dos caminhos.

Nesta compreensão, será Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) o primeiro português a tratar a obra de Leibniz de um modo aprofundado – falando de um sistema pluralista de substâncias. E Antero de Quental declarava a Jaime Batalha Reis ser a sua filosofia “uma fusão do hegelianismo com a monadologia de Leibniz” (1885), dizendo a Wilhelm Stork que “a monadologia de Leibniz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente à interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista”. E acrescentava: “o espírito é que é o tipo da realidade; a natureza não é mais do que uma longínqua imitação, um vago arremedo, um símbolo obscuro e imperfeito do espírito” (1887). Assim, a monadologia anteriana era de feição pluralista, distinguindo três regiões no mundo real – matéria, vida e espírito – ordenadas hierarquicamente, tendo cada uma por base a anterior. E foi o entendimento do “espírito” que ocupou essencialmente Antero, enquanto força consciente, energia simples, autónoma e espontânea – como modo de explicar “todo o sistema de forças em que consiste a natureza, bem como o sentido da evolução, como ascensão dos seres à liberdade, como criação de uma ordem racional, como desdobramento incessante energia moral, uma ação contínua da vontade impulsionada pelo ideal, a realização final do bem”. Pode dizer-se que Antero de Quental foi, entre nós, dos que melhor compreenderam as virtualidades do pensamento de Leibniz, aplicando-o numa perspetiva dinâmica à evolução das sociedades humanas. E Leonardo Coimbra foi o nosso pensador que mais intensamente refletiu sobre a lição de Leibniz.

O que caracteriza a monadologia é o acréscimo da vida moral e a tradução da liberdade em amor – ou seja, quando uma alma se excede, crescendo em liberdade, adquire maior capacidade de harmonia e beleza. Em suma, o “labirinto imenso” de Leibniz não nos pode ser indiferente. 

 

Agostinho de Morais    

 

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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«ENSAIOS» DE MICHEL DE MONTAIGNE (XXIX)

 

Na célebre Torre de Montaigne, quando subimos à sala onde o pensador escrevia, olhando os campos de Bordéus, há uma pergunta fundamental, a que Michel Eyquem, Senhor de Montaigne (1533-1592), procurou responder, ao longo da vida: “Que sais-je?”. É essa a pergunta a que não podemos fugir – e que tem de estar presente em toda a nossa vida. Se quisermos simplificar, podemos dizer que Montaigne foi um dos escritores que inaugurou a modernidade do pensamento, ao refletir na primeira pessoa, como “eu”.

Francis Bacon (1561-1626) seguiu-lhe as passadas, e pode dizer-se que consolidou o “ensaísmo”, criado por Montaigne. António Sérgio, Sílvio Lima e Eduardo Lourenço seguem esse caminho fecundo, no caso português. E, falando de Bordéus, temos de lembrar, num rico roteiro intelectual, Charles de Secondat, Senhor de Montesquieu (1689-1755), autêntico criador da democracia moderna. Edgar Morin não se tem cansado de recordar a afirmação de Montaigne de que mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia, por isso o mestre bordalês criticou a educação livresca e formalista, propondo uma educação orientada para a experiência e para a ação (o “saber de experiências feito” que Duarte Pacheco Pereira defendeu ainda no século XV). Mais do que uma instrução livresca, importaria ligar as pessoas à vida vivida e aos seus assuntos urgentes, sem prejuízo da compreensão do tempo e da reflexão, bases do sentido crítico. A educação visa o julgamento crítico, a atenção e o cuidado.

Pelo lado da Mãe, Montaigne descendia de judeus portugueses. O latim foi quase a sua língua materna, uma vez que seu Pai lhe deu como tutor um alemão que apenas falava latim com o discípulo – e que despertou no jovem um espírito vigilante, atento e metódico, aberto à novidade. Estudou no célebre Colégio de Guienne, cujo diretor foi André de Gouveia. Formou-se em Direito e foi magistrado em Périgueux e Bordéus, onde se tornou amigo de Étienne de La Boétie (1530-1563), o autor do “Discurso sobre a Servição Voluntária”. É inesquecível o que Montaigne disse de seu amigo, quando ele morreu: “parce que c’était lui, parce que c’était moi”… E pode dizer-se que o conhecimento que temos da obra de La Boétie, deve-se ao empenhamento de Montaigne na sua divulgação. Viajou pela Suíça, Alemanha e Itália durante dois anos (1580-1581) e elaborou um diário de viagem, publicado no século XVIII. Apesar de dividir o seu tempo entre a administração da herança de seu pai, o desempenho de funções públicas na Câmara de Bordéus e a procura de condições de paz para os conflitos religiosos, nunca abandonou a reflexão pessoal, que constitui um testemunho fundamental para a compreensão do seu tempo.

Os “Ensaios” abrangem três volumes, os dois primeiros publicados em 1580 e 1588, compreendendo este o terceiro volume. Em 1595, publica-se uma edição póstuma destes três livros com novos acrescentos. São autorretratos introspetivos de um homem, mais do que de um filósofo. É a singularidade que Montaigne procura. É assim um pensador sobre a humanidade, sobre a sua diversidade e complexidade – seguindo o curso livre do seu pensamento e das circunstâncias que o rodeiam. Nota-se a sua formação clássica e o conhecimento das condições reais da vida política e económica. As máximas e reflexões dos autores clássicos vão-no ajudando na reflexão e na compreensão de si próprio e dos outros. Sem cair no relativismo, mas compreendendo a importância da subjetividade, Montaigne, através do ensaísmo, não assume um sistema, mas um método, segundo o qual a verdade absoluta deixa de estar ao alcance do homem, sendo doravante, possível tão-somente uma verdade por aproximações. O ensaio significa exatamente a possibilidade de considerar o sentido ético, o carácter e a dignidade como intimamente ligados à ligação entre a singularidade e o sentido comunitário. E Montaigne considera que o mundo inteiro está em constante movimento, mesmo quando há permanência, que significa a suspensão momentânea do movimento. E assim o próprio conceito de “ser” traduz-se na inconstância e numa pluralidade de estados e comportamentos. A sucessão dos ciclos, a falta de continuidade, as dúvidas de coerência, correspondem, assim, à própria complexidade humana.

 

 Agostinho de Morais

 

 

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"ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS" de LEWIS CARROLL (XXVIII)


“As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” é uma novela de 1865 escrita por Charles Lutwidge Dogson (1832-1898), sob o pseudónimo de Lewis Carroll. Apesar do autor sempre tê-lo negado, a personagem parece identificar-se com Alice Pleasance Lidell (1852-1934), jovem que o autor largamente retratou, filha do Decano de Christ Church da Universidade de Oxford, Henry Lidell.

Trata-se de uma narrativa fantasiosa, com figuras antropomórficas, em que prevalece o raciocínio lógico e a sua crítica, típicos de um professor de matemática. Nesse sentido, a popularidade do livro, nas suas duas partes (“País das Maravilhas” e “Do Outro Lado do Espelho”) deveu-se ao alcance multifacetado dos episódios que relata, que podem ser apreendidos por crianças e adultos, já que o humor pode ser visto na simplicidade infantil ou na apresentação de paradoxos lógicos só compreensíveis por leitores maduros. Trata-se, porém, de um exemplo que reúne o “non-sense”, a fantasia, o absurdo, o cómico e os jogos da lógica, ao alcance de todos… Lewis Carroll foi diácono anglicano, professor, fotógrafo, matemático e escritor, tendo-se celebrizado sobretudo pelo romance de Alice, mas igualmente pelas suas descobertas no campo da lógica matemática.

Alice, num passeio em 4 de julho de 1862, começa por seguir um estranho coelho branco de colete e relógio de bolso para a sua toca e cai num poço cheio de prateleiras com objetos estranhos e livros. No fundo, descobre uma chave dourada sobre uma mesa de vidro, que abre uma porta que dá para um belo jardim, demasiado pequena para que Alice possa entrar. Encontra uma pequena garrafa com uma etiqueta “Bebe-me”. Alice cumpre o pedido, diminui de tamanho e consegue entrar. Mas esquece-se de trazer consigo a chave e o que a salva é um bolo, que a convida a comê-lo, o que lhe permite crescer. O encadeamento das peripécias não pára. Alice chora porque cresceu de mais e cria um lago de lágrimas. O coelho deixa cair as luvas e o leque e Alice consegue diminuir de tamanho ao refrescar-se com o leque, mas cai no lago cheio pelas suas próprias lágrimas, mas um rato ajuda-a a não se afogar e a atravessar o lago… Tudo é, porém, demasiado complicado. Um bizarro dodô (caricatura do autor, Dogson) promove uma corrida eleitoral, em que todos ganham. Alice volta a crescer desmesuradamente. Há os conselhos da lagarta-azul. O Gato Chessire revela o seu misterioso sorriso. E os números matemáticos podem ser vistos como são: duas ou três maçãs ou os algarismos 2 e 3, considerados em abstrato, da mesma maneira que o sorriso do gato, que a certa altura, deixa de fazer parte dele… E chegamos ao Chá dos Loucos, com a Lebre de Março e o Chapeleiro, condenado a beber sempre chá porque o seu relógio ficou parado nas seis horas, “post meridium”. E Carroll tem razão ao falar da loucura como doença profissional dos chapeleiros – pela inalação dos gases do mercúrio, indispensáveis na fabricação dos chapéus de feltro. E nesse mundo perturbado, encontramos referência à mais assisada das lições de Lógica: «afinal, podemos dizer "Vejo o que como", ou de outro modo, "Como o que vejo"!» Cuidamos assim de uma relação inversa… Por sua vez, a Rainha de Copas revela-se irrascível e intolerável. Uma tartaruga falsa (alusão à sopa assim chamada, feita com carne e caldo verde; daí a cabeça de bezerro da ilustração), a quadrilha da lagosta, o julgamento do valete de copas (pelo “terrível” roubo de uma torta), o decisivo depoimento de Alice – e a final demonstração de que a rainha de copas nada pode, para além do mundo da fantasia contra Alice, regressada à realidade… A aparente loucura, que perpassa em todo o sonho, corresponde, afinal, a uma mistura de paradoxos lógicos, de doenças reais, como a do chapeleiro, e de pequenas referências a hábitos e costumes britânicos. E assim, ainda hoje, a obra de Lewis Carroll continua a revelar muitos enigmas, a que a maior parte dos leitores continua indiferente…

 

Agostinho de Morais

 

 

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"O PODER E A GLÓRIA" de GRAHAM GREENE (XXVII)

 

"O Poder e a Glória” foi publicado em 1940 e constitui uma reflexão muito séria sobre o compromisso cristão.

No final dos anos trinta, Graham Greene (1904-1991), então jornalista, foi enviado ao México para avaliar naquele país a situação das perseguições religiosas na região central, derivadas da “guerra cristera”, especialmente nos estados de Tabasco e de Chiapas e em Laredo. Dessa viagem resultou um relato intitulado “The Lawless Road” e depois este extraordinário romance. Aqui se narra a perseguição a um padre fugitivo feita por um tenente fanático que deseja capturá-lo sob a pressão do governador da província.

O relato remete-nos para a lembrança das perseguições dos primeiros cristãos e tem como paradigma nas suas duas faces a figura de Paulo de Tarso, como perseguidor e como perseguido, na Estrada de Damasco. O perseguidor, o tenente, qual fariseu intolerante, consegue a autorização para matar o padre que protagoniza o romance. Finalmente preso, após percorrer fazendas e povoados, o sacerdote é executado para a satisfação do tenente. Mas este clérigo é um pobre homem que vive dominado pelo álcool e que tem um filho para cuidar. Ele tenta fugir, mas o dever e a misericórdia chamam-no sempre que alguém pede o seu auxílio.

Como afirmou François Mauriac, que não poupou elogios ao romance, que considerou ser uma obra-prima: “mesmo quando crê que a sua ajuda é vã, e não ignora que é de uma emboscada que se trata e que aquele que o chama já o traiu, este padre bêbedo, impuro, que treme perante a morte, dá a sua vida sem perder em nenhum momento o sentimento da sua baixeza e da sua vergonha”. O drama de “O Poder e a Glória” corresponde, assim, a um relato dramático em que a Graça e o Pecado se encontram e desencontram – uma vez que o romancista britânico nos diz que é na situação limite e no afrontamento do mal que a Graça se manifesta. Muitos não o compreenderam, porém, mas o tempo veio a revelar que o livro se tornou uma referência do nosso tempo – colocando-nos no centro da dúvida e da fé.

De que vale ficarmo-nos apenas na comum normalidade? É preciso interrogarmo-nos sobre a essência das coisas, o que obriga a ir até às fronteiras onde os sentimentos, as virtudes e o pecado se encontram. A samaritana surpreende-se por encontrar Cristo àquela hora na fonte. Muitos se escandalizam… Tal como no drama do México, perante a perseguição e a incerteza, devemos lembrar, por exemplo, o caso de “Thérèse Desqueiroux”, em que François Mauriac também afronta a humanidade pelo lado da presença constante de um confronto de resultado incerto entre o bem e o mal. A Graça e a liberdade encontram-se e não se anulam. Como disse Paul Henri Simon: «Mauriac engendra um outro trágico, mais complexo e mais moderno, do homem que age e que luta, suspenso entre duas eternidades, do nada e da salvação, entre o infinito deserto e a plenitude infinita do amor, sem que saibamos por que lado se deixará levar…».

Greene sentiu a atração emocional pelo catolicismo no México, perante uma Igreja proscrita com os seus crentes perseguidos. “Vi os índios descerem das montanhas e entrarem nas igrejas, onde tentavam recordar os velhos ritos”. Além do culto do paradoxo, é a recusa do tédio que o levou a escrever, do mesmo modo que as injustiças lhe trouxeram os temas. “As injustiças de que me apercebo não me encolerizam (repetia tantas vezes); antes melhoram os meus poderes de observação. A distância é um dos requisitos da boa literatura”. E é a melhor literatura que encontramos neste romance muito intenso e duro, imortalizado por Henry Fonda em “The Fugitive”, de John Ford (1947), que transpôs para a tela o extraordinário romance de Graham Greene. Se nos lembrarmos de novo de Steinbeck e de “As Vinhas da Ira”, é um outro lado da paixão bíblica que encontramos…

 

Agostinho de Morais

 

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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«A INVENÇÃO DE MOREL» de BIOY CASARES (XXVI)

 

“A Invenção de Morel” (1940) é uma obra que ombreia com os grandes clássicos que temos vindo a analisar, com uma característica muito singular, a de ligar dois geniais autores. Tendo sido escrita por Adolfo Bioy Casares (1914-1999), um dos grandes nomes da literatura argentina, associa outro nome fundamental, que é Jorge Luís Borges (1899-1986), companheiro fraterno de Casares, a quem não podemos deixar de associar as duas irmãs Ocampo, Victória (1890-1979) e Silvina (1903-1993), ligadas a ambos (Silvina era mulher de Bioy) e grandes animadoras da revista “Sur”. Borges tantas vezes lembrou a simbiose entre dois grandes autores britânicos, Chesterton e Belloc, e podemos dizer que há uma semelhante relação entre Casares e Borges e até inventaram um pseudónimo comum: Bustos Domecq.

Para eles, o romance tinha tudo de prazer, de jogo, de enigma, de labirinto e de caleidoscópio. Leia-se «Aleph» (1949) de J. L. Borges, compreenda-se o diálogo dos teólogos com Deus ou o significado do labirinto do deserto, para o qual nenhum Teseu poderia encontrar um fio de Ariadne… Eis por que associamos os dois – explicando o sentido destas trinta obras-primas das letras, que, todas elas, faziam parte da Biblioteca de Buenos Aires, de que Borges era guardião, e que Umberto Eco retratou em “O Nome da Rosa”, que poderia ter sido integrada nesta biblioteca mágica. E também explicamos que os textos que apresentamos não constituem resumos, contra os quais vimos combatendo com denodo. Há apenas pistas, pontos em branco, para que o leitor se possa aventurar, como Borges e Casares sempre desejaram.

O que é a Biblioteca senão a representação do mundo? Que é um livro senão um caminho que tem de ser trilhado. Oiçamos Borges sobre o livro de Casares: "Discuti com o autor os pormenores do enredo, reli-o; não me pareceu uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo de perfeito (…). Casares desdobra uma odisseia de prodígio, que não parece admitir outra chave senão a alucinação ou o símbolo, e acaba por os decifrar completamente por meio de um único postulado, fantástico mas não sobrenatural". E Bioy Casares disse: "Sempre tentei fugir do fantástico, mas ele agarrava-me de imediato". Mais do que a literatura mágica, o que encontramos aqui é paradoxo e ironia, dando à literatura a força de se tornar mais real que a própria vida.

É uma história de amor destituída de personagens. É uma história de amor numa ilha supostamente deserta, que corresponde à construção alucinada de uma figura feminina, mitificada num jogo de espelhos, uma paixão inatingível e ao mesmo tempo uma história de aventuras que se situa na fronteira da realidade. O fantástico corresponde à definição da própria vida e do concreto que nos cerca. Vem à lembrança Chesterton, a dizer-nos que os fantasmas dos castelos da Escócia desapareceram quando morreram as pessoas que com eles conviviam.

Um fugitivo condenado na Venezuela chega a uma ilha aparentemente deserta do Pacífico (porventura Tuvalu) e sente-se invisível. A ilha parece estar afetada por uma perigosa e doentia radiação. Morel é um cientista e jogador de ténis que fala com uma mulher bela, a que chama Faustine, que se parece tremendamente com Louise Brooks, heroína do cinema mudo. O fugitivo apaixona-se por essa mulher fatal que todos os dias olha o pôr-do-sol na costa oeste da ilha. Entretanto, descobre que Morel inventou uma máquina capaz de reproduzir a realidade, e aí está a explicação para o mistério com que o fugitivo se confronta. Dalmácio Ombrellieri, Alec, Dora, Irene, a Senhora Idosa, Haynes ou Stoever povoam um mundo dividido entre a ilusão e a realidade, o mundo é duplicado. E aos poucos, descobre-se a verdade sobre essas estranhas personagens que têm a ver com os náufragos do navio fantasma descoberto perto da ilha e cujos espíritos são reanimados pela máquina de Morel. Mas à imagem falta a consciência, e é essa a limitação da invenção de Morel. E ouvimos o fugitivo: «A minha alma ainda não passou para a imagem senão eu teria morrido, teria porventura deixado de ver Faustine, numa visão que ninguém recolherá». E há o apelo a quem inventar uma máquina capaz de reunir imagem e consciência: «Procure-nos, a Faustine e mim, faça-me penetrar no céu da consciência dela. Seria um ato piedoso!»…

Agostinho de Morais

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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“HAMLET” DE SHAKESPEARE (XXV)

 

“A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca” é da autoria de William Shakespeare (1564-1616) e foi escrita entre 1599 e 1601, tendo lugar no Reino da Dinamarca. Conta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, Hamlet, o rei, executado por Cláudio, seu irmão que o envenenou e em seguida usurpou o trono, casando-se com a rainha Gertrude.

A Dinamarca estava em luta com a Noruega e havia o risco de uma invasão liderada pelo príncipe Fórtinbras. O tema deriva da lenda de “Amleth”, preservada no século XIII pelo cronista Saxo Gramaticus, na sua Gesta Danorum. O reino da Dinamarca é o mais antigo da Europa e começou a consolidar-se no final do século VIII, numa história complexa e rica. Tudo começa numa noite fria no Castelo de Elsinore. As sentinelas dizem a Horácio, amigo de Hamlet, que viram o fantasma do rei morto. E Horácio encontra-se com o Fantasma. Então Hamlet deseja vê-lo com seus próprios olhos e consegue. O espírito revela a Hamlet que Cláudio matou o pai com veneno e pede que o filho vingue tal crime. Hamlet concorda, apesar das dúvidas, decidindo aparentar a loucura para não levantar suspeitas. Ocupados com os assuntos de Estado, Cláudio e Gertrude tentam defender-se da invasão norueguesa. Preocupados com o comportamento de Hamlet e com a sua profunda depressão pela morte do pai, pedem a Rosencrantz e Guildenstern, para descobrirem a causa da estranha mudança de comportamento de Hamlet. Polónio, o primeiro conselheiro de Cláudio, e Laertes, seu filho, de partida para França, não acreditam na sinceridade dos amores de Hamlet por Ofélia, filha de Polónio, dissuadindo-a dessa ligação. Ofélia também está preocupada com o comportamento estranho de Hamlet, mas confessa ao pai que o príncipe vai encontrar-se com ela no palácio. Polónio percebe que Ofélia ama Hamlet, e interpreta a loucura do Príncipe em virtude desse amor – e avisa Cláudio e Gertrude do que se passa. Hamlet mantém a dúvida sobre o segredo revelado pelo espetro e aproveita a chegada a Elsinore de uma trupe de cómicos para encenar a representação do assassinato, para tentar demonstrar a culpa ou a inocência de Cláudio. Quando ocorre a representação do crime, Cláudio ergue-se e abandona a sala, o que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. Cláudio teme pela própria vida e decide enviar Hamlet para Inglaterra, com Rosencrantz e Guildenstern, para ser eliminado. Gertrude chama o filho ao seu quarto. No caminho, Hamlet hesita em matar Cláudio, mas não o faz porque este está em oração. Polónio espia por detrás das cortinas, mas denuncia a sua presença. Hamlet julga tratar-se de Cláudio e mata-o com uma estocada certeira através do cortinado. O Fantasma volta a aparecer, continua a pedir vingança, mas pede que Hamlet trate a sua mãe com doçura. Conhecendo a morte do pai, Ofélia enlouquece. Laertes regressa de França e não duvida da culpa de Hamlet. Cláudio propõe a Laertes uma luta à espada com Hamlet onde o primeiro utilizará uma espada envenenada, enquanto a Hamlet será dada uma taça de vinho com veneno. Gertrude dá a notícia de que Ofélia morreu afogada. Junto da que será a sepultura de Ofélia, Hamlet aparece com Horácio e segura o crânio que deve ser do velho bobo Yorick, que conheceu na infância. “Ser ou não ser, eis a questão”. Quando o cortejo fúnebre surge liderado por Laertes, este envolve-se com Hamlet, mas os circunstantes separam-nos. No regresso a Elsinore, Hamlet é desafiado a lutar à espada com Laertes. O duelo inicia-se e Hamlet atinge Laertes três vezes sem ser atingido por ele. Cláudio oferece a taça envenenada a Hamlet, mas este recusa-a e é a Rainha que bebe o vinho. O duelo prossegue e Laertes atinge Hamlet, mas o príncipe da Dinamarca também atinge o antagonista num estoque fatal. A Rainha morre e Laertes também, revelando o plano de Cláudio. Então Hamlet consuma o pedido de seu pai e põe fim à vida do rei. Ao morrer, Hamlet pede a Horácio que viva para poder contar a todos a sua história e a verdade sobre o que havia de podre no Reino da Dinamarca.

(Sophia de Mello Breyner Andresen é autora de uma das mais belas traduções em português desta obra-prima).

 

Agostinho de Morais