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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 24 a 30 de junho de 2019

 

Agustina foi sempre uma pessoa surpreendente. O seu sentido de humor, mas sobretudo o seu sentido crítico, eram únicos. Por isso admirava a alegria de Camilo – “uma alegria profunda, rasgada, furibunda que as inteligências estreitas não entendem”. Ligava, assim, permanentemente o pícaro e o trágico da vida.

 

UMA PAIXÃO ESPECIAL
A permanente pesquisa sobre a humanidade encerra a procura da culpa e da sua razão de ser – como tantas vezes Agustina confessou. Tinha uma paixão especial por Dostoievski, não tanto para seguir os seus passos, mas por encontrar nele uma força original. Muitas vezes, fazia misturar a realidade com a ficção. Isso divertia-a intimamente. A vida, para si, era sonho e era drama. O célebre episódio do casamento com Alberto Luís, através de um anúncio de jornal, tem a ver com um cenário romanesco que quis inventar. E assim procurou forçar a realidade, como deus ex machina. Ao ouvi-la contar esse momento, como lhe ouvi várias vezes, ela ria-se intimamente ao lembrar o que o padre lhe disse a certa altura – “nem um táxi à porta da igreja…” – ou quando recordava um rato afoito a atravessar a Confeitaria do Bolhão, onde os noivos celebraram, com um chá, a singular boda… Quando conheci pessoalmente Agustina, quase tudo o que ouvira dizer sobre ela correspondeu à realidade, mas ao vivo era muito mais interessante e misteriosa do que todas as lendas que à sua volta se desenvolviam. Grandes amigos meus tinham uma paixão absoluta pela sua obra e pela sua força – e a verdade é que essa aura se revelava de forma fantástica na pessoa que encontrei e de quem tenho saudades. Os seus diálogos eram desarmantes. Nunca fazia o comentário que esperaríamos. Abria-nos sempre os olhos para o outro lado das coisas que nos passava despercebido. Estou a pensar na extraordinária admiração por Maria Agustina de Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa. Contra ventos e marés, foram dos primeiros e chamar a atenção para a genialidade da escritora. E tão persistentes souberam ser que obrigaram tantos distraídos a ler com olhos de ver a sua escrita. Frederico Lourenço tem um belo ensaio onde descreve um curioso ciclo, iniciado pela extraordinária admiração da geração de seus pais pela escrita de Agustina, continuado no sentido crítico do jovem que desconfiava de tão radical admiração e terminado num verdadeiro reconhecimento da genialidade da escritora. António José Saraiva disse-o claramente: não tinha dúvidas sobre estarmos perante um nome máximo nas nossas letras de sempre – isto, com a autoridade especial de se tratar da apreciação de um dos nossos maiores mestres na história da literatura.

 

UMA FORÇA INESGOTÁVEL
A escrita de Agustina era torrencial e a sua letra (como insistiu Alberto Vaz da Silva) era reveladora de uma força inesgotável. Essa era a letra que Alberto Luís (que devo lembrá-lo com muita admiração) meticulosamente decifrava, revelando a prosa em todo o esplendor. Várias vezes Eduardo Lourenço me chamou a atenção para a grande energia contida no riso dela e para o seu caráter cortante. Era uma ironia que contagiava, sobretudo porque fazia questão de deixar claro que (pelo menos na aparência) não se levava demasiado a sério e que gostava verdadeiramente de ver o mundo às avessas, como se ela quisesse e pudesse mudar o curso da História. Gostava de cultivar episódios folhetinescos. Vi, um dia, o Alberto e o João Bénard a disputarem intensamente a propriedade de uma carta que, certamente por puro gozo, Agustina dirigiu ao João, apesar de ter endereçado o sobrescrito a Alberto. Nunca a situação se esclareceu. O mistério permaneceu – e o caso demonstra bem como a personalidade de Agustina gostava de alimentar universos romanescos. E se estes universos eram avidamente procurados pela escritora, também vinham ao seu encontro, como aconteceu com a carta de Teixeira de Pascoaes, descoberta depois do poeta ter morrido, no seu espólio, sobre a leitura atenta que fizera de Mundo Fechado. Dizia ele: «trata-se de uma escritora de raça, dotada de excecionais qualidades visionária e dotada de um raro instinto do real. Sem este instinto há só literatura e mais nada. Se os românticos excederam a realidade, caindo na falsidade, os chamados naturalistas cometeram o pecado contrário, e tornaram-se inferiores à natureza. A autora de Mundo Fechado não praticou esses erros. E, por isso, a felicito com o maior entusiasmo». O episódio vale por si e Pascoaes, que estava no fim da vida, e já não lia as obras que lhe mandavam, abriu uma exceção e revelou a fina qualidade crítica que possuía. Agustina usaria, aliás, esse acontecimento extraordinário em Os Quatro Rios, para descrever a angústia de um jovem perante o silêncio de um escritor consagrado a quem enviara uma obra na qual punha toda a esperança de se tornar conhecido. Aliás, falando de Pascoaes, não podemos esquecer outro romance, O Susto, em boa hora recentemente reeditado, com um magnífico prefácio de António Feijó, onde Agustina encena um encontro entre figuras que representam Pascoaes e Fernando Pessoa – salientando a sua superior admiração pelo autor de Maranus… No entanto, a família de Pascoaes não ficou agradada com o retrato imaginário dado no romance… Ossos do ofício…

 

O LADO ALEGRE DA VIDA
Um dia fui com Agustina até Amarante, em homenagem à sua Vila Meã. Era um sábado glorioso, com a temperatura tépida do fim da primavera. A natureza estava como Agustina gostava, ridente e viva. Depois de termos debatido os mistérios de A Sibila, numa iniciativa de escolas e professores, em torno de complexas relações do poder, subimos em excursão, lado a lado, até ao primeiro degrau do Marão e a romancista, olhando a paisagem que se estendia na frente do autocarro onde seguíamos, lembrou com júbilo as giestas batidas pelo vento e as aras de pedra onde o gado se abrigava – e veio à baila um livro de Pascoaes, Duplo Passeio, pelo humor que continha. “A arte de pedir, ó padre António Vieira, é a única arte nacional. Está para a Lusitânia como a escultura para a Grécia”. E Agustina ria, ao lembrar ainda, a frase do poeta: “quem pede é um ladrão amável, digno de toda a simpatia”. - «Já reparou, por certo (disse-me então), afinal somos um país pedinte… Veja bem que não tardará alguém aí…». “Pedir é uma realidade em que cabem todas as ilusões. É um dormir, deixando os dentes a fazer a sua função de morder, e as mãos a de voar come as borboletas”. Agustina “lia Pascoaes com uma devoção que só pertence à maturidade da criança que nunca se perde dentro de nós (…) Este Pascoaes é bem o meu padrinho nas Letras. Alegro-me disso…” (DN, 2.10.1993). E assim olhava a realidade que a cercava à procura do que a pudesse espantar e até divertir.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

AGUSTINA, DIRETORA DO TEATRO D. MARIA II

 

No artigo anterior, evocou-se Agustina Bessa-Luís nas funções de diretora do Teatro Nacional de D. Maria II, muito marcante nas temporadas de 1991 a 1993.

 

É certo que, na época como de certo modo ainda hoje, as funções não se confundem necessariamente com a direção das temporadas e com os repertórios e elencos respetivos: mas também é certo que antes ou depois daquele período, o prestígio de Agustina necessariamente marcaria não só a direção institucional e administrativa  do Teatro em si, mas certamente também a atividade artística no que se refere à função cultural e operacional da empresa, a gestão administrativa do edifício como património do Estado e até, seja permitido dizê-lo, a tradição do prestigio cultural do Teatro Nacional de D. Maria II, designadamente quando dirigido por um escritor: tradição essa que vinha do tempo de Garrett...!  

 

O certo é que de 1991 a 1993, o Teatro de D. Maria II marcou o meio cultural português pela sua atividade direta de grande e tradicional sala de espetáculos, mas também, simultaneamente, pelo nível de qualidade do repertório e pela atividade complementar, aberta a ações de cultura que transcendem a produção dos espetáculos em si.

 

É obvio que um Teatro, sobretudo do Estado exige um repertório em si mesmo qualificado e com uma dimensão de cultura, sendo certo que isso não obsta evidentemente à variedade dos espetáculos e à recetividade do chamado grande publico. Não deve ser nesse aspeto uma sala elitista, digamos assim: mas terá de ser uma sala qualificada. Na gestão de Agustina, foi o que ocorreu.

 

E de tal forma que, nas temporadas de 91 a 93, encontramos numerosos eventos que, para alem dos espetáculos da Companhia do Teatro em si, abrangem iniciativas de interesse cultural de âmbito interno mas também internacional.

 

Lembramos a esse respeito, designadamente mas não só, a realização de programas, exposições e debates  integrados nos Festivais Internacionais de Teatro,  a cooperação com companhias vindas do exterior, algumas de grande prestígio, e também a escolha de um repertório que simultaneamente apresentava tanto peças e espetáculos nacionais como  estrangeiros: os já referidos Festivais Internacionais de Teatro,  com exposições, ciclos de conferências e ateliers de cultura teatral e musica sobretudo ligados  à função de cultura de um Teatro Nacional.

 

Recordamos então que foram numerosas as iniciativas determinantes da cooperação internacional do Teatro de D. Maria II durante a gestão de Agustina Bessa-Luís.

 

E nesse sentido, poderemos  voltar ao tema.

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de junho de 2019

 

 

«As Terras do Risco» de Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editores, 1994) serviu de base ao filme «O Convento» de Manoel de Oliveira (1995). É um caso curioso em que duas obras se completam e se antagonizam – dando origem talvez à mais notória crise entre dois autores que tão ligados se encontram em substância. Mas, como costumava dizer Oliveira – “Agustina fez o seu livro e eu fiz o meu filme”.

 

 

UM MISTERIOSO CONVENTO
Começamos pela sinopse oficial da obra de Agustina: «O romance decorre na Arrábida, onde há muitos séculos o homem conhece a confrontação com a sua própria obscuridade, dando-lhe às vezes o nome de Deus, outras de rei ou de poderes telúricos, terramotos e tempestades. É um romance que Goethe teria aberto, recomendando-o a Eckermann, mas sem o ler... É um livro elegante, insensível a tudo quanto é a ênfase do mistério, tornando-o tanto quanto possível trivial como a dedução dum criminologista». A trama do filme desenrola-se no misterioso convento, isolado na serra da Arrábida. Michel Padovic, investigador americano (John Malkovich) está apaixonado pela busca de uma pista histórica inédita e procura indícios de que William Shakespeare era um Judeu espanhol, descendente de gente expulsa da Península Ibérica pelos Reis Católicos e por D. Manuel, que teriam partido para Florença e daí para Inglaterra. Acompanhado pela mulher, Helène (Catherine Deneuve), trabalha na Arrábida, vindo a envolver-se com os restantes inquilinos do convento. Mas com que nos deparamos? Com a releitura do mito universal de "Fausto" – começado em Shakespeare, mas baseado em Goethe. A história é, no fundo, a de alguém que vende a alma ao demónio em troca do conhecimento. E Manoel de Oliveira trabalha o mito, demonstrando que Fausto existe em qualquer tempo. Assim, pode encarnar em Michel, que chega ao Convento, onde espera encontrar elementos que comprovem as suas teorias. Mas é por Hélène que se interessa o guardião do local, a figura algo sinistra de Baltar (Luís Miguel Cintra), que vive com Piedade (Leonor Silveira). Temos então vários tempos sobrepostos: o presente, a Idade Média (origem do convento) e a Antiguidade clássica, já que Hélène se transfigura em Helena de Troia.

 

DESENCONTRO E MISTÉRIO
João Bénard da Costa ficou muito ligado a este filme. Conhecia a serra como a palma das suas mãos. Manoel de Oliveira pediu-lhe por isso ajuda para fazer um levantamento dos lugares e das histórias da Arrábida, acabando a convidá-lo para participar no filme. “Numa das cenas, eu devia contar (disse João) à Catherine Deneuve a história do Convento Velho, que eu contei tantas vezes a tanta gente ao longo da minha vida. Lembro-me perfeitamente de ter pensado, naquele momento, que sentia estar a viver um sonho. Um ano antes, naquele mesmo sítio onde vou tantas vezes, até poderia ter imaginado esta cena, rido com ela e pensado que ela era um sonho. Mas não. Estava ali, com a Catherine Deneuve, a contar uma história da Arrábida”. E esse momento mágico ligava-se, no fundo, ao mistério de todo o filme e do próprio livro. "A verdade é que tenho vivido coisas que nunca pensei viver, que parecem fazer parte da dimensão do sonho, da dimensão do cinema. Nesse sentido, sou um homem privilegiado". De facto, todo o carácter mágico que rodeia “O Convento” estava bem patente nos vários planos apresentados. Havia uma história ficcional e duas presenças que se misturavam, a de Shakespeare e a de Goethe, a do teatro e a da literatura, ligando-as um mito que tanto entusiasmava Manoel de Oliveira e Agustina. Aqui entra o drama real. Agustina, por sugestão do seu amigo começa a escrever “Pedra de Toque”, sobre um dos lugares mais misteriosos e mágicos de Portugal. A escritora pensa em Depardieu e Deneuve, segundo a ideia do próprio Oliveira. No entanto, Agustina demorou-se na escrita, pelo menos mais do que o realizador necessitaria. Então este falou a Agustina para que ela resumisse o enredo. Assim foi, e Oliveira tirou-se de seus cuidados e elaborou um guião próprio, dando início ao processo de concretização do filme. E apresentou o filme como “inspirado na ideia original de Agustina Bessa-Luís”. Resultado? Agustina não gostou. Recusou-se a ver o filme e qualificou o episódio como “desencontro total” e “colaboração falhada”. “O Manoel de Oliveira teve sempre toda a liberdade, liberdade de que ele abusou”…

 

UMA ZANGA PASSAGEIRA
A zanga foi séria, mas o certo é que o tempo aplainaria esse acidentado episódio. Agustina seguira uma via algo diferente da de Oliveira. Teria preferido seguir a obsessão do investigador tão concentrado no seu estudo, correndo o risco de se confundir com ele. Pelo contrário o cineasta optara por enfatizar a história dos ciúmes entre duas mulheres. E, como bem sabemos, Agustina sempre repetiu que “o Manoel de Oliveira filma filmes de amor, e o amor não entra nos meus romances”. A verdade é que não podia ser durável a zanga, por várias razões – de facto o que houve com “Pedra de Toque”, que depois se tornou “Terras do Risco”, por maior fidelidade à Arrábida, que passou à tela como “O Convento”, foi um mero equívoco, gerado pela pressa de Oliveira e pela falta de um real acerto de ideias quanto ao projeto. No entanto, entre Agustina e Manoel há muito que havia preocupações e ideias comuns ou próximas. Quando vemos o filme, percebemos que poderia ter sido ela a principal responsável pelas ideias, com mais ou menos peso dos ciúmes e dos desencontros. Talvez tenha existido no cineasta um excesso de confiança no exercício de seguir o que a autora teria feito. Mas o certo é que podemos ler “Terras do Risco” e analisar em paralelo o filme. A complementaridade lá está, numa distância muito menor do que a que encontramos em tantas transposições de romances para a tela… Passada a tempestade, no ano seguinte Oliveira voltou a lançar a Agustina o desafio para escrever sobre mulheres e homens, num cenário em que dois casais, um mais novo e outro mais velho, se encontram nos Açores. E assim o filme “Party” (1996) vai marcar uma rápida reconciliação – sendo curiosa a forma como Agustina vai aos Açores para conhecer pessoalmente Michel Piccoli e Irene Papas, que contracenam com Rogério Samora e Leonor Silveira. Surpreendida, a escritora depara-se com a filmagem de uma garden party em plena tempestade – com chuva, neblina e vento forte… E o certo é que Agustina concluiria que a nova colaboração cinematográfica foi interessante. Manoel de Oliveira fez a distinção entre os diálogos de Agustina Bessa-Luís e o argumento do próprio cineasta. E a vida seguiu em frente, entre os dois amigos – fundamentais na história da cultura portuguesa hoje. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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EVOCAÇÃO DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

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Este quadro de celebrações da morte de Agustina Bessa-Luís, ocorrida no passado dia 3 de junho, tinha a escritora-dramaturga 96 anos de idade, leva a uma ponderação-reflexão da sua obra literária sem dúvida, mas também das criações e intervenções que marcaram não só a obra escrita, mas também a criatividade e produtividade do teatro-espetáculo: e tudo isto, numa abrangência de ações, géneros e áreas de intervenção que em si mesmas caracterizam a própria essência do teatro como espetáculo.

 

Porque não é de mais recordar que teatro é texto mas é texto-espetáculo, ou pelo menos tal será a sua essência e vocação.

 

E nesse aspeto, Agustina marcou e sempre marcará o teatro português, como dramaturga, mas também como diretora que foi do Teatro Nacional de D. Maria II e sobretudo como pensadora da própria realidade da arte do teatro, na sua expressão essencial de texto e de espetáculo.

 

E nesse aspeto, importa então recordar algumas das criações/intervenções de Agustina ao longo de dezenas de anos e num somatório devidamente articulado e como tal coerente da diversidade compósita da arte do teatro-espetáculo. Porque, insista-se, o teatro é espetáculo concreto ou potencial.

 

Como dramaturga, estrou-se em 1958 com uma peça que denominou “O Inseparável ou o Amigo em Testamento”. Luis Francisco Rebello qualifica a peça como “comédia enigmática” e sublinha “um eco de existencialismo literário, pouco frequente na nossa dramaturgia, expresso através de uma ação jogada entre o real e o imaginário”. E refere ainda diversas peças para a televisão: “Os Cartazes”, “Xarope de Orgiata”, “Querido Kock”, “Ana Plácido” e “A Bela Portuguesa”.

 

Por minha parte, refiro em particular as afinidades de temática entre “O Inseparável” e “A Bela Portuguesa”. De certo modo, essa peça constitui o cerne do teatro de Agustina e o maior vetor da sua análise existencial.

 

 Cito o que escrevi na “História do Teatro Português”:

 «As reflexões sobre a verdade constituem o cerne de “A Bela” e do teatro de Agustina e o maior vetor da sua análise existencial; Madame Nachan é assim de certo modo, “o amigo em testamento” que não existiu na forma aparente, mas apenas no segundo plano existencial. Ora essa reflexão profunda, que é o mérito e o desafio do teatro de Agustina»... e segue a reflexão sobre o teatro de Agustina Bessa-Luís, com comparações a uma peça sobre Garrett.

 

E voltaremos a referir a intervenção de Agustina na criação, na cultura e na produção do teatro em Portugal.

 

 

DUARTE IVO CRUZ  

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 17 a 23 de julho de 2017.

 

«Ensaios & Artigos (1951-2007)» de Agustina Bessa-Luís (3 volumes, Gulbenkian, 2016), com recolha e organização de Lourença Baldaque e prefácio de José António Saraiva, constitui um reportório de textos que acompanham, e como que ilustram, o riquíssimo percurso da marcante romancista.

 

UMA EXTRAORDINÁRIA REUNIÃO
Contos, crónicas de viagem, referências ao Porto, textos históricos, crítica literária e artística, intervenção política, jornalismo, comentários de atualidade – eis o que encontramos em três deliciosos e substanciosos volumes, nos quais Agustina Bessa-Luís se expõe plenamente, revelando segredos da sua extraordinária oficina de escrita. Dir-se-ia que ao lermos esta reunião podemos visitar os bastidores de um magnífico teatro. E esse teatro é, nem mais nem menos, do que o lugar por excelência de representação da obra romanesca da escritora. A título de exemplo, encontramos num texto escrito no «Diário Popular» em 1968, referência à revista «Águia», órgão da Renascença Portuguesa, cujo diretor literário foi Teixeira de Pascoaes. Aí se afirma, com razão, que a Renascença «representou decerto o movimento mais importante da nossa vida intelectual». De facto, tratou-se de um alfobre único, que fez convergir as repercussões da decadência finissecular e as aspirações de um novo tempo e de um novo século. O que aconteceu foi que nesse momento crucial, a expectativa que a I República representou pôde ultrapassar a mera circunstância política, projetando-se em todo o século XX, na preparação de uma democracia que renasceu tardia, mas que pôde alimentar-se, desde as raízes culturais mais antigas, que vão dos trovadores ao grande lirismo de Camões ou à oratória de Vieira até à força criadora do Romantismo de Garrett e Herculano, do vitalismo das raízes de Camilo ou de Júlio Dinis, da ambição antifatalista da Geração de 1870, de Antero ou de Eça, e da renovação artística do simbolismo. E que foi a Renascença Portuguesa senão o ponto de encontro de Pascoaes, Leonardo, Cortesão, Sérgio e Pessoa? Toda a pujança de um século que o tempo foi enriquecendo – donde sairia da Seara Nova ao Orpheu. Para a nossa autora, «a Renascença foi a breve epopeia de espírito de alguns homens movidos por ideias sentimento e que, de repente, instauraram a noção de pátria além do vago consenso quotidiano». Numa fórmula muito própria de Agustina - «a pátria faz-se penumbra de todos, e não apenas teatro de alguns». E foi essa penumbra que se tornou desafio, pela insatisfação e pelo apelo à inquietude e ao «desassossego»: «não para dar a conhecer insubmissos mistérios da alma, mas para contar o segredo antiquíssimo da pátria». E é esta a chave que atrai a escritora, ciente de que essa ânsia de Renascença ocupa o espaço que para os liberais decimonónicos era a Regeneração.

 

COMPREENDER A SOCIEDADE CONCRETA
Contra os lugares comuns, do que se trata é de tentar compreender a sociedade feita de pessoas de carne e osso com destinos contraditórios, em que as complexas relações de influência e de poder pesam permanentemente. A sua escrita intensa e laboriosamente construída como uma renda de bilros – procura dar-nos um retrato fiel de uma grande complexidade escondida por trás de aparente placidez. E assim o português «troca-se em homem sensato quando esperam dele loucuras». O saudosismo torna-se, deste modo, contraditório - «apontem-se glórias a decidir, optará pelo papel dos que não foram célebres nem lutadores; reservem-lhe alianças poderosas, sentirá necessidade de se distrair delas». O português é contraditório por natureza. E assim Agustina define-o: «Hábil, certo, elementar, terrível, é este recriar das brumas, iludindo a agressão, esperando sem desejar, tendo esperança sem planos, coragem sem abismos, causa sem ordem, influência sem poder, alma sem cruz. Renasce já em cinzas, mas renasce sempre». Identificamo-nos com este retrato? O certo é que é este o tecido humano, a matéria-prima da romancista de «A Sibila»… E a ilustração é dada, neste significativo texto, por uma carta de Camilo Castelo Branco, sombra sempre tão presente na reflexão agustiniana. Aí o romancista é apresentado como português paradigmático – dizendo nessa missiva que vai inscrever-se em Teologia na Universidade de Coimbra, mas pondo-se em posição para sustentar uma polémica. «Nas suas palavras anda um voo de vespas, da mistura com aves que delas se nutrem». É o gosto da contradição que se manifesta. Se virmos bem em Agustina também encontramos essa permanente tensão entre o desejo e a resistência, entre o prazer e a repulsa. E fala Camilo de «tristes convicções», de que «fica proveito descontente» - e são tristes porque se «limitam a julgar, mais do que a crer». São ecos quase autobiográficos em que os romancistas se encontram. As águias voam baixo e por isso sobrevivem. Mas a audácia exige mais. É o instinto que sempre prevalece. E as grandes gestas geram grandes culpas, com consequente desejo de reconstruir o passado. «O nosso saudosismo não é amor do passado, é só consentimento da sua força. E no consentimento o aplacamos». Compreende-se a ideia de renascimento, como desejo e lembrança, decorrentes das contradições, de que o universo romanesco da escritora se alimenta. E sobre Camilo (ou, em boa verdade, sobre o romance português) diz, num ensaio em «O Tempo e o Modo» (1964), sobre uma experiência partilhada com José Régio, algo que tem a ver com a proximidade que Agustina sente do bruxo de Seide: «Dos seus livros, alguns há que sempre me causam admiração; a frescura da sua prosa é inimitável, o seu humor, como uma rajada fulgurante traz consigo, porém, aquela reticência nostálgica que um português de boa lei sempre faz acompanhar, quer dos seus juízos graves, quer das confissões líricas. (…) A ironia e a versatilidade, o prazer iconoclasta logo redimido por uma afabilidade pelos humilhados, vão direitos a certa culpabilidade congénita no português». Mais do que ideias, do que se trata é de entender o género humano e de descobrir nele todas as fascinantes contradições que nos permitem compreender a vida como um drama, mas sempre cheia de uma estranha ironia. Um dia apontaram a Agustina algumas aparentes contradições que se apresentam nas suas obras. Prontamente respondeu: E a vida não está cheia de incoerências? O interlocutor ficou sem palavras… Em suma, lembremo-nos apenas do que Agustina disse da Cultura (e não das honras e reputações): «O fenómeno cultural parte da renúncia aos “caminhos bifurcados que se dirigem para norte ou para sul”, como dizia um letrado chinês, o seu mérito está em não ser interrogável de maneira vã. A cultura só existe quando um povo a resumiu num traço de ódio ou de humor». Nestes ensaios e artigos é a fecunda ficcionista que se exprime e manifesta – e nela a criatividade vai ao encontro da humanidade e da sua inesperada complexidade. O génio de Agustina está exatamente nessa capacidade de ir ao âmago da alma humana.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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