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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS


170. DO AMOR E ÓDIO À HUMANIDADE


A destruição do nosso planeta por um holocausto nuclear estará inscrita na História da Humanidade? Hiroshima e Nagasaki foram apenas um “erro” que não voltará a repetir-se? O Holocausto foi um simples “erro” irrepetível? A guerra, como realidade histórica que tem acompanhado o ser humano na sua trajetória terrena, é irredutivelmente eterna? A presença do Homem na Terra é só destruição?     


É uma visão cruel da presença humana na Terra, que trouxe (e trará) destruição à natureza e aos humanos. Só que, olhando para a natureza, compreendemos que ela também é cruel, o que não legitima que defendamos que o mal humano é mais digerível quando o transformarmos num mal natural.     


Não foi a presença humana, em si e só por si, que trouxe destruição à natureza e à espécie humana, por muitos exemplos que haja da sua crueldade. Apesar do seu quinhão de destruição, evitável, em parte, o saldo é e continua positivo, através de um enriquecimento substancial do mundo em que habitamos. A não se entender assim, é legítimo concluir que há quem seja portador de um pessimismo intrínseco que prefere um mundo desumano e com ódio à humanidade. 


Tomando como referência a tese geral de que a presença humana na Terra é destrutiva, há quem a torne extensiva ao colonialismo (racismo e não só), que com a escravatura, por exemplo, destruiu a natureza do humano e da cultura nas comunidades locais colonizadas.


Trata-se, por um lado, de uma avaliação e generalização simplista, dado saber-se que quando os europeus chegaram o tráfico de escravos já era conhecido. É consensual que os africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses chegarem a África. Pode falar-se de uma questão de grandeza, uma vez que os europeus da época praticaram a escravatura (já existente) numa escala maior. O que também pode levar, por outro lado, a um incitamento ao ressentimento e à violência, começando por um certo ódio tribalizado que se pode universalizar, apesar de, à nascença, segundo Rousseau, sermos todos bons selvagens.   


E é muito pouco consensual (no mínimo) a teoria crítica da raça, segundo a qual como só os brancos tinham poder, apenas os brancos poderiam ser racistas. Os negros, não, ou, se o fossem, eram-no apenas porque tinham “interiorizado a branquitude”, tida como contagiosa para desculpabilizar os que não comungavam as novas ideias e teorias raciais. E os da Ásia e das Américas?   


Não se pretende “branquear” a colonização, escravatura e racismo, porque condenáveis na sua desumanidade, repugnância e ódio à humanidade. Mas é incompreensível só aceitar visões maximamente supremacistas, de vencedores ou vencidos, que muitas vezes apenas sobrevivem por ressabiamento e pelo odioso ao que é humano, não as contextualizando, escrutinando e confrontando nos seus prós e contras. É um discurso negativo, revanchista, vingativo, ressentido, megalómano, perigoso e vil. Há que não estimular ideologias de incitamento ao ódio, antes sim as de união e reconciliação. A lista de coisas boas é extensa e gratificante: avanços médicos, científicos, tecnológicos e as artes em geral de que o mundo beneficia. E que o nosso amor à humanidade sedimenta e amplia.


12.04.24
Joaquim M. M. Patrício

ANTOLOGIA

DE REGRESSO À MISTERIOSA PRINCESA _ CMO.jpg

 

DE REGRESSO À MISTERIOSA PRINCESA…
por Camilo Martins de Oliveira

 

O acervo de apontamentos e várias anotações e comentários, de poemas e tentativas poéticas e de cartas do Marquês de Sarolea, foi-me por este confiado no decurso de encontros e conversas em que fomos convivendo, em Bruxelas, de 1973 a 1979, ano da sua morte. Posso dizer que, se ele me conhecia desde a minha infância, só a partir de então eu comecei a conhecê-lo, pois ainda hoje o vou descobrindo e tentando compreender uma pessoa aparentemente complexa, mas finalmente tão direta nas suas contradições e tão verdadeira consigo, mesmo frente à angústia.

Tenho vindo a percorrer esse espólio, espreitando, aqui e ali, coisas que possa ou deva comunicar. Eis um labor difícil, porque sei que a escolha será sempre subjetivamente minha... e também pelo pudor de revelar a intimidade de alguém tão próximo de mim, ainda que outro. Todavia, não foi minha a iniciativa destas revelações.

A ideia partiu da Princesa de... que, aí por 1978, entregou a Camilo Maria as cartas que ele lhe escrevera ao longo de muitos anos. Com o conselho de que ele fosse ali buscar, para posterior publicação, os trechos que, em seu entendimento, melhor transmitissem a riqueza de tantos pensamentos e da expressão de sentimentos, de que apenas ela, até à data, usufruíra. Em contrapartida das cartas assim devolvidas, apenas pediu que nenhuma das que ela escrevera fosse sequer referida, nem ela mesma identificada, nem qualquer data que permitisse situá-la na vida do seu "único e tão especial amigo". O mesmo amigo, citando T. S. Elliot, disse-me que o tempo passado encerra o tempo futuro. E Camilo Maria - que ganhara horror a datas e à contagem do tempo - confiou a este Camilo a tarefa de o comunicar: "Tenho mais 42 anos do que tu, nascemos no mesmo dia, no mesmo signo, recebemos a graça pelo mesmo nome. Somos parentes iguais, só nos separa a idade, que é um modo do tempo: não conta."

E cá estou eu. Deparo-me com muitas páginas de dissertação sobre temas de filosofia moral, política e social; sobre artes, letras e música. Mas demoro-me mais naqueles textos em que Camilo Maria se exprime (se confessa?) sobre a sua relação com Deus e os homens, com a Igreja da sua fé e o mundo como condição. E gosto muito do que tenho lido sobre o amor humano, a relação entre homem e mulher. Em papéis esparsos - e creio que separados também no tempo - há ideias e sentimentos que repetidamente se revelam. Um dos mais fortes é a procura constante do encontro espiritual com o outro (ela), como se o amor entre esses dois seres se formasse e existisse fora do tempo e do espaço, nascido de uma mútua descoberta e sustentado por íntima fidelidade:

     "Penélope me sinto.
     Faço e desfaço, refaço
     a teia da saudade em que me prendes...
     Fico à tua espera
     e bem mereces
     um coração fiel
     que te pertença."

Num apontamento espúrio, dos tais que hesito em recolher e fixar, conta que se deliciou, na ópera de Viena, com "Cosí fan tutte" de Mozart, dirigida por Karl Böhm. Regressado a casa e ao chocolate quente, acrescenta: "A fidelidade, a verdadeira, não é um comportamento social que representa - ou simula - o respeito pela cláusula pertinente de um contrato. Tal como um comportamento menos convencional - e até aparentemente transgressor - pode não ser uma infidelidade. Não digo que seja recomendável..., mas no que toca à relação amorosa entre duas pessoas, poderá certamente ser um simples fait divers! Porque a fidelidade pode ter ou sofrer amolgadelas ou feridas, mas só define o seu sentido essencial se for mais consistente e densa (mais fiel) do que um desvio. E para assim ser, não pode nem deve a fidelidade ficar estática, adormecida. Qualquer compromisso que eu assuma, antes de ser com outro, é comigo, com a minha consciência, perante a qual respondo. Em coisas e vidas de amor, a fidelidade é, por isso mesmo, uma procura, diria mesmo uma obrigação de procura do outro.

Na contingência da minha condição humana, só saberei resistir às forças centrífugas com que a minha circunstância me vai tentando, se quiser acompanhar a força centrípeta que é a procura constante, a incessante descoberta do amor que encontrei. Quando assim é, quando me entrego à aventura difícil, até o ciúme deixa de ser manifestação de posse (é impossível e indesejável possuirmo-nos: a descoberta do outro é sempre um caminho de liberdade reconhecida, porque é renúncia e responsabilidade), para se tornar no acicate da procura da proximidade pelo despojamento de si."

Não sei se isto vai bem escrito em português. Mas ainda suei umas gotas na tradução.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 08.02.2013 neste blogue.

QUE ARCHEIRO ME FERIU COM A SUA SETA?...

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Num sermão de pregador desconhecido, do séc. IV, que a Igreja inclui entre as leituras que os livros de horas sugerem para as matinas de sábado santo, descubro, uma vez mais, este trecho, surpreendente sempre: 
   Eu te ordeno: desperta, ó tu que dormes, porque eu não te criei para que te mantenhas cativo no reino dos mortos. Eu, que sou vida até dos mortos, digo-te que te levantes, obra das minhas mãos! Levanta-te,minha imagem e semelhança! Levanta-te, para sairmos daqui, porque tu em mim e eu em ti somos um só! Por ti, Eu, teu Deus, me fiz teu filho...
   Nunca fui muito devoto, como sabes, antes sempre avesso a pieguices ou pretenciosismos "religiosos", ao estilo daquelas jaculatórias como: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos... Peço-vos perdão para os (pelos) que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam... Soam-me a oração de fariseu - de que Jesus não gostava - próximo do altar físico do templo, longe do pobre publicano que, lá atrás, no fundo esquecido, batia no peito contrito e não se achava digno. Deus dá-se-nos por amor, e só amor nos pede. Não se conquista, muito menos pela repetição de ditos e ritos hipócritas.

   Abri hoje, ao acaso da biblioteca, um dos Le Livre de Poche Chrétien, colecção da Arthème Fayard, dirigida por Daniel Rops: Prières des premiers Chrétiens, antologia organizada por um franciscano, o padre A. Hamman. Foi-me oferecido, há mais de sessenta anos - a julgar pela dedicatória que diz à un nouveau et très bon ami, avec un "au revoir" - por uma Ghislaine, cujo apelido omito, de quem já não me lembro... Mas era certamente uma das muitas e muitos jovens europeus e latino-americanos que, nesse tempo apoiávamos, em Paris e Bruxelas, a obra cultural e social da Igreja na América do Sul. Abriu-se-me o livro na página 88, caí sobre uma exortação de Orígenes (séc. III), cristão de Alexandria, homem de cultura helenística, mártir e filho de mártir, que claramente evoca as setas de Eros, a que os romanos chamavam Cupido: Como é belo e glorioso receber a ferida do amor! Este recebe a ferida do amor carnal, aquele é tocado por outra qualquer paixão terrestre. Quanto a ti, põe-te nu e oferece-te aos rasgos maravilhosos: é Deus o archeiro. E, mais adiante, recordando também as aparições de Jesus depois de ressuscitado: Escuta bem o que te diz esta seta, e como Deus a escolheu. Como é feliz o fado dos que esta seta feriu! Por ela foram tocados aqueles que, um ao outro, diziam: «Não ardia em nosso peito o coração, quando, pelo caminho, Ele nos falava e explicava as Escrituras?

   Acontece-me falar, com alguma frequência e em qualquer parte, da minha fé cristã, não que me force algum instinto prosélito, mas por fazer parte de mim, como a família e os amores humanos. Fomos criados, educados e instruídos - como se dizia - "na religião da Santa Madre Igreja Católica", e ficarei para sempre grato aos "nossos maiores", pela vida, por muito dela, por esse encontro com o Cristianismo também. Hoje, passadas mais de sete décadas sobre o meu baptismo, pensossinto que, ao longo de tantos anos, pecando, duvidando, amuando, interrogando, concordando e discordando, sendo amigo de padres, frades e freiras e inimigo do clericalismo, frequentando missas e detestando beatérios, fui afinal procurando a possibilidade de reconhecer, ao ritmo dos passos da minha vida, em mim e na minha circunstância, nas minhas atitudes, nas pessoas e nos acontecimentos, a prometida alegria que é, de sua graça, a dor inamovível da intimíssima ferida... 

   Eu, que sou católico, repito, em oração interior, essa frase de Ludwig Wittgenstein, agnóstico: Não sou um homem religioso. Mas não consigo deixar de olhar para qualquer questão, sem que seja de um ponto de vista religioso. Porque a nossa relação ao mistério de tudo é, como o amor, humano ou divino, simultâneamente contínua e inesperada. Em sábado santo, o silêncio interroga o silêncio. E é mais sentida a ferida. 

   Dou-te hoje a mão com um recado: deixemos que o silêncio nos fale a todos.

   Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 01.06.2014 neste blogue.

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:


   Muitas das pessoas a quem facultaste a leitura da minha última carta, me telefonaram ou escreveram para me dizer que achavam lindo o texto, mas muito triste...


   Quanto à lindeza, sempre disse que os gostos não se discutem. E, no tocante à tristeza, tampouco irei discuti-la, mas nele não pus, nem depois senti, tristeza alguma. Antes, pelo contrário, nele tenho respirado uma muito íntima e profunda alegria, como se me tomasse um canto de amor...


   Afinal, subjacente às histórias ali contadas ou tão somente sugeridas e deixadas à adivinha, está sempre uma presença amorosa, fiel, ora comovida ora saudosa, sustentada pela sua própria fortaleza, na perseverança do seu ser, que a projeta como tal, na vida e na morte, na eternidade ou no tempo, na materialidade ou imaterialidade do espaço, em quaisquer circunstâncias, reais ou simplesmente imaginárias. 


   Já não importa qualquer lembrança nem a falta dela, a memória do amor não pode ser efémera porque nenhum amor é efeméride, o amor é ontologicamente busca de nós em encontro, nunca, nunca jamais em solidão. Ninguém se imagina em amor sozinho.


   Reparei, sem surpresa, aliás, em dito colhido na entrevista a uma jovem socióloga norte americana que, singelamente, afirmava que um dos riscos dos tempos que correm é a ausência de vocações. Não estava a fazer campanha clerical de arregimentação de "vidas consagradas", apenas falava de "callings" (chamadas) e de respostas a desafios autênticos da vida. Falava de amor ou, melhor, do amor num mundo que, por tão ensurdecedor, vai ficando surdo. Cada vez escutamos menos, ou ouvimos pior, os apelos que também nos são dirigidos. E todavia talvez a disponibilidade para os ouvir - e a diligência de os escutar - nos pudesse mudar os apertados horizontes do mundo em que vivemos.


   Para além das românticas fantasias que, quais mantos diáfanos, envolvem as suas apresentações "mediáticas", o amor é essencialmente, a perseverança de um cuidado atento numa peregrinação partilhada. Transpõe momentos de cansaço e irritação, ultrapassa tentações de desistência ou renúncia, atura fielmente os outros e assim também nos ensina a aturar-nos a nós mesmos... Sobretudo, vai-nos pedagogicamente demonstrando como a paciência e a persistência necessariamente decorrem da nossa condição de imperfeitos. As virtudes todas, a nossa própria fortaleza, cultivam-se na imperfeição constitutiva da nossa condição humana. Tampouco os falhanços são derrotas, mas antes apelos e incitamentos a que nos superemos.


   A experiência de situações-limite como a de quotidianamente convivermos com entes queridos que presencialmente vemos esfumarem-se, mais do que perplexidade, causa-nos sofrimento e dor. E, todavia, a perseverança do nosso compromisso com aquela vida - para além dos momentos de cansaço e, quiçá, irritação - paulatinamente, e em luminoso segredo, vai construindo uma bola que, não de neve, mas de ternura mansa, nos encherá de serena alegria.


   Apesar de contraditório - ou talvez por isso mesmo - o ser humano é um percurso de surpresas.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

HÉCTOR ABAD FACIOLINCE

Quando o amor de um pai é a magia mais extraordinária do mundo


Mal nos envolvemos na leitura das primeiras páginas deste livro e logo aquele amor entre pai e filho nos enche os sonhos de uma única e sabedora substância.

É o menino pela mão de seu pai.

Este menino não se imaginava sequer no céu, sem o seu pai. Chegou a ver-se por lá e, espreitando para baixo, avistou o pai no inferno, e logo lhe saltou para os braços.

Até ao nascimento dos filhos deste menino, ele nunca tinha sentido um amor assim. Sentia que ao lado do pai nunca nada de mal lhe aconteceria, tal como sente que aos seus filhos nada acontecerá se estiverem com ele.

Ele, o menino e seu pai, viviam numa casa de mulheres: eram dez no total e cinco delas irmãs do menino. A sua infância, na relação com seu pai, fora algo que só se sente muito fundo, naqueles sítios do sentir anterior ao sentir. Ele sentia pelo pai o que os amigos sentiam pelas mães deles.

Quando o pai se ausentava, ele recordava-lhe o cheiro que resistia na fronha da almofada da cama não mudada, a seu pedido, pelas criadas.

Era um mundo em que até os medos medonhos se acolhiam e adormeciam no largo braço do seu pai. Parecia-lhe que o pai o deixava fazer tudo, bastando que o tudo fosse mexer nos livros dele ou no pincel de barbear. Era maravilhoso fingir que sabia escrever à máquina e dedilhar as letras todas numa confusão que, afinal não existia, pois qualquer delas tinha em si a palavra “Pai”. Ah! E aquela luz forte nos olhos só de imaginar que um dia lhe escreveria cartas.

E ele, este menino, nunca conheceu os cumprimentos distantes entre machos, entre pai e filho, daqueles que aparentemente não tinham afetos. Ele, este menino, só conheceu os abraços e as frases carinhosas de seu pai, ou o seu pai não achasse que mimar os filhos era o melhor dos sistemas educativos. 

Nada melhor afinal do que um caderno de apontamentos chamado Manual de tolerância.

Nada melhor do que existir a noção de que os pais podem fazer os filhos muito infelizes e que fazê-los felizes lhes aumenta a bondade e esta a sua felicidade.

Este amor faz os filhos sentirem-se fortes para que um dia a dureza da vida os não vergue, antes os renasça na infância, se necessário.

Ainda hoje, este menino sente que obedece ao pai, ao pai que lhe ensinou a desobedecer se necessário; ao pai que ainda hoje por memória lhe resolve dilemas morais; ao pai que um dia lhe agarrou por um braço deixando-lhe marca, e o obrigou a pedir, em alta voz, desculpa a um vizinho que ele tinha aviltado, copiando colegas.

Depois, depois o pai fechou-se no escritório com ele, e olhando-o nos olhos, recordou-lhe que o próprio Jesus era judeu.

Ter um pai assim, era conhecer a leveza do aprender em compaixão. Era conhecer quando as crianças o que têm é fome.

Um dia, muitos anos depois: 

Filho, enquanto continuares a estudar e a trabalhar como tens feito (…) para nós a tua dependência não será uma carga, mas uma agradabilíssima obrigação.

Assim é a magia mais extraordinária do mundo.


 Teresa Bracinha Vieira

PORQUE TE AMO

 

Se beijar o infinito

Loucura fosse

Nunca poderia dizer que tenho em mim

Quando te abraço

Toda a beleza que não vi criada

 

E ambos chamamos luz à luz

Como as crianças

 

E semeamos

Que diferente até o amor será

Na espera de já não sermos

Os vagabundos dos sonhos

 

Agora

Enlaçamo-nos

Nas horas que em nós

São a lida

Incansável

 

Asa transparente

Afinal

Aço

 

E

Se o vento mau te levar

Restarás comigo

 

Sempre                  

                  

 

Teresa Bracinha Vieira  

LUC FERRY: UM NOVO PODER DO AMOR

 

Sem dúvida que os nossos filhos conhecerão ainda as guerras, para as quais o fanatismo e o fundamentalismo fornecerão o motivo. No entanto, não é nem o egoísmo, nem a perseguição cega dos interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da entreajuda, do prazer de dar mais do que de receber.   Luc Ferry


Conhecer e entender uma espiritualidade para além do religioso e procurando o sentido da vida através de um novo poder do amor aniquilando o egoísmo natural do homem, permite que esse homem procure o seu próximo através de um caminho em favor daqueles que amamos, encontrando um sentido da vida num humanismo sem a conceção religiosa da qual muitos se afastaram, ou da qual nunca fizeram parte, e, sobretudo, quando o distanciamento religioso dos nossos dias, é uma realidade bem percetível.


Então, analisar a transcendência do amor e a sua centralidade na conceção filosófica, é a forte base nesta leitura de Ferry.


Em 2011 tive conhecimento deste livro que propunha uma espiritualidade laica como uma possibilidade de aperfeiçoamento do homem já não crente ou nunca crente.


Ferry, não se desprende de conceitos religiosos, de tal modo que nos deixa ver claramente, através da sua filosofia soteriológica, um certo regresso à religião para o entendimento de que cada uma oferece um tipo diferente de salvação, de palavra, de princípio, e que possuindo a sua própria soteriologia, algumas dão ênfase ao relacionamento do homem em unidade com Deus, outras dão ênfase ao aprimoramento do conhecimento humano como forma de se obter a salvação.


Ferry propõe um homem que se arranque de si, para o melhor de si mesmo, e para se oferecer à compaixão, à transcendência do amor, à espiritualidade sem a ajuda de Deus: afinal, uma proposta terrena de salvação que cabe ao homem demonstrar.


A ausência de um deus, de uma felicidade ou de uma razão, terá aberto espaço para uma nova procura do amor.


Ferry crê que a procura do amor, hoje, e o modo de o expressar, pode passar por abarcar uma espiritualidade laica/ateísta à qual nos propõe reflexão.


Na verdade, por diversas maneiras se vivencia a espiritualidade, e entre a racionalidade e a celebração emocional (Alain de Botton e André Comte-Sponville) busca-se um pensamento humanista que tem de ter suporte e repouso no que dá sentido à nossa existência.


O amor toda a gente o sente, mesmo com banalidade. Todavia, se ele não for apenas uma experiencia íntima desde o princípio dos nossos tempos, talvez ele seja o princípio fundador que reorganiza valores e vida, procure sobretudo a ação desinteressada, exatamente aquela que testemunhará do que é próprio do homem.


«O amor sempre foi para mim
A mais importante das questões,
ou mesmo talvez a única.»

STENDHAL


Acrescenta Ferry

Um novo humanismo nasceu, que regista e leva em conta as evoluções do último século (…) as alteridades, as desconstruções das tradições (…) e ainda que as obras de arte do passado não tenham sido tornadas obsoletas pelas mais recentes, é preciso determo-nos à compreensão do tempo presente.


A espiritualidade que vive neste livro propõe-se alterar o ver o mundo, bem como a nossa real capacidade para o mudar no exato e mesmo movimento.          

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

42. DAS CANTIGAS DE AMIGO AOS FALSOS AMIGOS


Na Idade Média amigo e amado eram sinónimos.   

As cantigas ou cantares de amigo eram cantigas ou cantares de amor.   

 

Ondas do mar de Vigo,   
Se vistes meu Amigo!       
E ai, Deus, se verrá cedo! 
Ondas do mar levado,
Se vistes meu amado! 
E ai, Deus, se verrá cedo! 

 

Amigo era o namorado, amiga a namorada.  
Por Deus, amiga, pode seer   
De vosso amigo, que morre d'amor 
E de morrer á já mui gran sabor     
Pois que son pode vosso bem aver. 

 

Amor e amizade são hoje dois magnos sentimentos que se diferenciam, no essencial, pelo seu grau de intensidade, tendo muitos a amizade como mais calma e discreta e uma variante do amor.

Sabe-se que o trabalho não preenche em pleno as necessidades espirituais do ser humano. 

Há que contar com o amor e a amizade.   

Na amizade há os verdadeiros amigos e os falsos.   

Entre os últimos incluem-se os amigos de louvaminhas, de adulação untuosa e vil.

Os que fogem em grupo quando a roda da fortuna desanda.

Os que partem quando alguém perde valimento por já não poder fazer favores ou arranjar facilidades. 

Amigos dos tempos prósperos que nos ignoram e desprezam nas horas más.   

No poema Os Amigos, Camilo Castelo Branco retrata-os assim:

 

Amigos cento e dez e talvez mais,   
Eu já contei! Vaidades que eu sentia!       
Pensei que sobre a terra não havia   
Mais ditoso mortal entre os mortais.  
   

 

Amigos cento e dez tão serviçais, 
Tão zelosos das leis da cortesia, 
Que eu já farto de os ver, me escapulia     
Às suas curvaturas vertebrais,

 

Um dia adoeci profundamente, 
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente   
Que não desfez os laços quase rotos,   
 

 

Que vamos nós (diziam) lá fazer,   
Se ele está cego, não nos pode ver…         
Que cento e nove impávidos marotos!

 

13.03.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

Sandrine Piau.jpg

 

Minha Princesa de mim:

 

     Habituei-me a escutar a soprano francesa Sandrine Piau cantando árias de Haendel e Mozart, e revejo com alguma frequência o registo videográfico da ópera Alcina, em que o seu desempenho da personagem com o mesmo nome me comove profundamente. Esta manhã descubro-a noutras interpretações, que me encantam mais do que surpreendem : em canções de vários compositores franceses dos séculos XIX e XX, em que se faz acompanhar por Le Concert de la Loge, dirigido, ao violino, por Julien Chauvin. Mas não será deste álbum  -  que a editora Alpha intitulou Si j´ai aimé e publicou este ano  -  que te falarei aqui e agora. Esta presente carta minha vai curta, quero tão somente deixar-te o texto original e a minha versão portuguesa (que é muito simples e não pretende ser criativa) do poema de Victor Hugo -  Extase  -  que, posto em música pelo meu homónimo Camille Saint-Saëns, abre esta colectânea. Não o faço por grande amor ao romantismo, ou a Victor Hugo em especial, mas porque bebi, no canto deste poema, um pensarsentir tão simples, tão lindo e tão forte  -  que logo o reconduzi à leitura desse passo do Livro da Sabedoria que nos é proposto neste primeiro domingo de Novembro, quando já se anuncia um tempo novo e nos vamos aconchegando à misteriosa ternura do Natal que vem aí. Vai este passo do capítulo 11 para o 12 :

     Perante Ti, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho na manhã. De tudo Te compadeces, porque és omnipotente e não procuras ver os pecados, mas o arrependimento. Amas tudo o que existe e não odeias nada do que fizeste...   ...Tu amas a vida, Senhor...   ...o teu espírito incorruptível está em todas as coisas...

     Assim me ocorreu como poderia ter sido Victor Hugo inspirado quando disse aos anos rápidos : A minha alma tem mais chama do que vós cinzas! / O meu coração mais amor do que vós esquecimento! Vamos então ao Extase:

 

          Puis-que j´ai mis ma lèvre à ta coupe encore pleine;            Porque aos lábios levei o teu cálice cheio;

          Puisque j´ai dans tes mains posé mon front pâli ;                 E em tuas mãos pousei meu pálido rosto;

          Puisque j´ai respiré parfois la douce haleine                         Porque fui respirando o hálito suave

          De ton âme, parfum dans l´ombre enseveli;                          Da tua alma, perfume em sombras amortalhado;

 

          Puisqu´il me fut donné de t´entendre me dire                         Porque tive a dita de te ouvir dizer

          les mots où se répand le coeur mistérieux;                             palavras em que se verte o coração misterioso;

         

          Puisque j´ai vu pleurer, puisque j´ai vu sourire                        Porque vi chorar, já que vi sorrir
         

          Ta bouche sur ma bouche, et tes yeux sur mes yeux ;            A tua boca na minha, os teus olhos nos meus;

 

          Puisque  j´ai vu briller sur ma tête ravie                                   Porque vi cintilar e encantar-me a cabeça

          Un rayon de ton astre, hélas! Voilé toujours;                           Um raio do teu astro, que triste fado encobre;

          Puisque j´ai vu tomber dans l´onde de ma vie                         Porque vi cair na onda da minha vida

          Une feuille de rose arrachée à tes jours                                   Uma folha de rosa arrancada aos teus dias

          Je puis maintenant dire aux rapides années :                          Posso agora dizer aos anos rápidos :                     

          - Passez ! Passez toujours! Je n´ai plus à vieillir!                    - Passai! Passai quanto quiserdes, que velho não ficarei !

          Allez-vous-en avec vos fleurs toutes fanées;                           E passai levando as vossas flores todas murchas, pois

          J´ai dans l´âme une fleur que nul ne peut cueillir!                    Trago na alma uma flor que ninguém pode arrancar !

          Votre aile en le heurtant ne fera rien répandre                         Nem lhe tocando poderá vossa asa entornar

          Du vase où je m´abreuve et que j´ai bien rempli.                     O vaso que me mata a sede e trago bem cheio.

          Mon âme a plus de feu que vous n´avez de cendre                Tem mais chama a minha alma, do que vós tendes cinzas          

         Mon coeur a plus d´amour que vous n´avez d´oubli!                Meu coração mais amor do que vós esquecimento !

 

     O dom do amor, seja como ele for, é a primeira graça de Deus. E o poeta, qualquer poeta, é, na sua alma, um pastor que, como os bem aventurados puros de coração, durante toda a vida conduz, sem cansaço, medida ou duração, pelos longos caminhos da transumância, essa inicial e essencial memória da infância.

     Nesta terça feira, 5 de Novembro, recebi um livro escrito pelo meu amigo José Manuel de Braga Dias:  As Cores do Tempo (Causa das Regras, Oeiras, Outubro de 2019). Nele achei muitas coisas bonitas, talvez por me saberem a sentidas verdades de gente. Coisas que afinal todos partilhamos, como estas:

 

           ...Se não fossem os meus netos

           Não recordaria como fazer contas

           Juntar letras, criar palavras,

           Alinhar palavras para construir frases

           Juntar e dividir frases para fazer um conto

           Que me recordasse alguém que também foi menino

           E gostava de inventar a felicidade

           Nos escritos e palavras que criava.

 

   Bem hajas, Zé Manel!

 

     Camilo Maria                

Camilo Martins de Oliveira

 

TRÊS GRANDES FERIDAS DO NOSSO TEMPO

 

1. Todas as épocas têm as suas características, as suas vantagens e os seus perigos e ameaças. O nosso tempo sofre de três grandes feridas que nos levam à inquietação e à incerteza, contribuindo para a solidão, não a solidão habitada, necessária para estar consigo e com os outros na profundidade, mas a solidão do abandono.

 

2. Essas feridas são, como explica José María Rodríguez Olaizola num belo livro, Bailar con la soledad, a que já aqui me referi e no qual me inspiro: a do amor, a da morte, a da fé.

 

2.1. A ferida do amor.

Hoje, vivemos num mundo no qual o amor na sua permanência se tornou efémero e inseguro. Quem diz hoje, de modo seguro: amor “para sempre”? Quando se olha para as estatísticas, não é antes o “enquanto durar” que está em vigor? Aconselhava-me há dias alguém, por ocasião da celebração dos 50 anos de casamento de uns amigos meus, a que presidi: por este andar, comece a celebrar os 10 anos, os 20 anos de casados das pessoas, porque isto das bodas de prata e de ouro, aos 25 e 50 anos, é cada vez mais raro e a acabar... Como é sabido, Portugal está na frente quanto à percentagem de divórcios (há um divórcio por hora em Portugal) e em Espanha os casamentos duram em média 16 anos...

 

Razões? Certamente, o aumento da esperança de vida é uma delas: o que antes eram 20 ou 30 anos de casamento agora poderão ser 50. Assim, porque não desfrutar de dois ou três casamentos mais? Por outro lado, numa cultura do descartável, da fuga ao sacrifico e à renúncia e do culto da superficialidade, o que fica é também a incapacidade do compromisso definitivo. Como escrevia uma jovem: “Queremos comprometer-nos um pouco, mas não cem por cento.” E o sociólogo Zygmunt Bauman, referindo-se ao “amor líquido”: Se estamos continuamente a deitar fora automóveis, computadores, telemóveis ainda em perfeito estado, para os trocarmos por novas versões melhoradas, “haverá porventura uma razão para que as relações de casal sejam uma excepção à regra?” Está aí o paradoxo, ouvi eu pessoalmente Bauman a dizer: Por um lado, na presente instabilidade, deseja-se profundamente um amor estável para toda a vida, mas isso é incompatível com a disponibilidade para a abertura a novas oportunidades que apareçam...

 

A pergunta é se as pessoas são mais felizes. O Papa Francisco, em A Alegria do Amor, fala de várias feridas do amor: o amor egoísta; a falta de tempo para o encontro, para o diálogo, para a escuta; a paternidade/maternidade egoísta ou negada; as expectativas demasiado altas, irrealistas e, consequentemente, defraudadas... O que daí se segue, citando o Sínodo sobre a Família: “Uma das maiores pobrezas da acultura actual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações.” Vale a pena bater-se por uma família estável, pois é esteio para uma vida feliz e é o melhor lugar para ter filhos e educá-los. A desestruturação da família é um dos perigos maiores para o nosso mundo.

 

2.2. A ferida da morte.

Muitas vezes tenho aqui sublinhado que uma característica essencial da nossa sociedade é a morte enquanto tabu. Disso não se fala. Não é de bom tom. Como aceitar falar da morte numa sociedade na qual o que se valoriza é o ter, o sucesso? Este é o paradoxo: por um lado, nada mais certo do que a morte; por outro, a sua ocultação. E aqui reside a pobreza da nossa sociedade: na obturação das perguntas essenciais e da verdade da vida, na tentação do auto-engano, perde-se a perspectiva da existência autêntica. Para ser o que é, vivendo na superficialidade, na corrupção, na vaidade oca e vazia, no esquecimento do essencial e do que verdadeiramente vale, esta sociedade tem de ignorar o pensamento da morte. De facto, confrontados com a morte, repentinamente tudo muda, as decisões são outras, porque aquilo que parecia decisivo aparece então a outra luz: banal e prescindível.

 

M. Rodríguez Olaizola refere uma experiência muito significativa. Pelo Natal de 2015, um conjunto de organizações quis fazer um estudo sobre percepções, prioridades e valores dos jovens madrilenos. Para isso, juntaram um grupo e foram perguntando, um a um, que prendas pensavam dar nesse Natal a uma pessoa muito significativa (na maioria dos casos, tinham indicado os pais). As respostas eram alegres, vulgares, mais ou menos originais. Mas, depois, seguia-se uma nova pergunta: E se soubesses que estas são as últimas prendas que vais oferecer, pois essa pessoa vai morrer, este é o último Natal que vais passar com ela? Aí, de repente, os rostos contraíam-se, o silêncio era todo, as palavras arrastavam-se, e as respostas surgiam cheias de profundidade, cuidado, emoção, intensidade. E a perspectiva do fim dava outra orientação às prendas, havia outra profundidade. Nesse cenário, as prendas estavam “carregadas de sentido, significado e ternura”. A consciência da morte dá outra sabedoria ao viver.

 

2.3. A ferida da fé.

Durante séculos, viveu-se no Ocidente numa sociedade crente. A fé era o que poderíamos dizer uma evidência social, de tal modo que o difícil era ser não crente, pois os não crentes eram estigmatizados e até perseguidos. Claro que havia o perigo de uma fé imposta, mas a cosmovisão comum era religiosa e, portanto, era mais fácil ser crente, aceitar a fé e praticá-la: as pessoas acreditavam, rezavam, celebravam naturalmente em conjunto.

 

Hoje, as coisas são diferentes, muito diferentes. A liberdade religiosa é — e ainda bem — um valor inquestionado. A fé e a religião estão submetidas à crítica, por vezes ácida, por parte da filosofia, da ciência e da opinião pública, também no contexto de um laicismo agressivo. As estatísticas mostram que a religião está em queda acentuada. Os valores são cada vez mais os da autonomia, do individualismo, do hedonismo, e talvez nunca como hoje se tenha afirmado tanto o valor desta vida terrena em contraposição com a vida eterna, desvalorizada. 

 

Como escrevia recentemente José Antonio Pagola, “depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria.” E o mais difícil é que, neste contexto, a própria fé pessoal dos crentes está submetida à ameaça de erosão. Porque é mais confrontada com dúvidas que podem ou querem apresentar-se com carácter científico: como acreditar na vida eterna, se a ciência não precisa do espírito para explicar o Homem?; onde está Deus, se o mundo se auto-explica?

 

Mais dramáticos serão os dilemas, as encruzilhadas e as perguntas que concretamente o mistério de um Deus silencioso coloca. Porque é que existe o mal? Perante o sofrimento cruel, a eterna pergunta: Porque é que Deus não intervém? Que amor é o seu, se é infinitamente bom e poderoso e nem sequer parece sensível ao sofrimento dos inocentes? A fé é hoje um combate mais duro, e, escreve J. M. Rodríguez Olaizola, “o crente tem que aprender a manter a sua fé um pouco contra a corrente. A eterna dúvida ou o abismo perante o silêncio de Deus é hoje um desafio enorme para os crentes, que vêem que outros parecem viver de modo estupendo sem necessidade de referir-se a nenhuma religião nem a nenhuma divindade.” Porque é que Deus não se manifesta de modo claro, parecendo, pelo contrário, por vezes, que nos abandona?

 

A situação não é cómoda, é muito mais exigente. Mas será preciso ver e aproveitar as suas vantagens, para despertar uma fé tantas vezes infantilizada e acomodada, inerte, numa Igreja que, aprisionada por um sistema clerical, corre o risco se tornar cada vez mais um museu de antiguidades. Caminharemos cada vez mais para uma Igreja de voluntários, na qual a fé convive com um combate  pessoal, numa entrega única e confiada ao mistério do Deus silencioso e salvador. Com razões e todas as consequências na vida, seguindo o exemplo de Jesus e rezando aquelas palavras do Evangelho: “Senhor, eu creio, aumenta a minha fé”. Neste processo, o crente autêntico concluirá e até talvez possa mostrar a outros que a fé é mais razoável do que não acreditar. E poderá ainda  aperceber-se de que Deus não é uma necessidade, mas “um luxo”, como me disse uma vez o grande teólogo Edward Schillebeeckx. Como uma rosa que se dá, sem porquê. Gratuitamente.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 OUT 2019