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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de agosto de 2022.


A homenagem que prestamos a Ana Luísa Amaral é inteiramente subscrita por Eduardo Lourenço no número 187 da revista Colóquio Letras da Fundação Calouste Gulbenkian, de setembro de 2014, sobre o livro “Escuro” (Assírio e Alvim), que o ensaísta apresentou publicamente. Oiçamos o nosso querido e saudoso mestre.


UMA SUBTIL NAVEGAÇÃO A CÉU ABERTO
«Os que conhecem e amam a poesia de Ana Luísa Amaral sabem como ela é uma subtil navegação a céu aberto entre os recifes da realidade. (…) Ana Luísa é da raça das sibilas e das cassandras, mas também das penélopes fiando às avessas o fio mortal da vida como obscuridade original na esperança de que se volva luz. E mesmo luz eterna. Esta vocação onírica e mítica, revisitação do imaginário clássico do Ocidente, irmana e distingue a sua aventura poética da outra corrente também a ela paralela da poesia como empresa real de transfiguração da vida épica inaugural da humanidade em modelo dos atos mágicos e utópicos de uma outra criação. (…) Toda a sua original obra poética podia levar o título de Memórias Revisitadas, uma outra versão do mítico título proustiano ‘Em busca do Tempo Perdido’, não em mera chave sublimemente autobiográfica, mas transtemporal como jogo de todos os tempos: «Em vez de vinte tempos / de mudança / queria um tempo / só meu: revisitado // Um tempo o mesmo / tempo sempre o mesmo / polvilhado de salas / de visita // Um tempo de mudar / formas às coisas / às vezes / abrir portas.» Embora fascinada pelos mistérios na aparência mais profundos que os do «tempo humano», é neste e deste que a sua voz poética se faz glosa e se extasia: «Revisitar os sítios / do pressentimento: / quase não ter-te / o tempo a recolher-se // E não mandar no tempo, / eu impotente / a vê-lo recolher-se // Tu quase a já / não estares / volume a menos // Revisitar / a / tua / ausência».


SOB O SIGNO DE DOIS VIDENTES
No seu livro de poemas “Escuro”, colocado sob o signo de dois videntes, S. João da Cruz e William Blake, Ana Luísa revisita uma vez mais a pura memória, a de uma infância onde obscuridade escutada e «a mais pura alegria» se misturam». Através «de tempos que nunca sobre si mesmos se fecham, (Ana Luísa) encontra no absoluto da paixão, com abandono e perda glorificada, a sua música mais rente ao silêncio, a da obscuridade da alma convertida como a de Mariana no cântico dos cânticos de todas as seduzidas e abandonadas. Chama-se «A Carta», dirigida ao que lhe foi tudo e ninguém, pura chama de amor por Stendhal lembrada como a mais alta forma de paixão:


«Senhores: / hão de a dor e a ausência ter sabor, / um certo cheiro doce e demorado, / em forma de mil olhos // Pois vós olhastes essa minha ausência, / dissestes que dali criei palavras, / mas não por minha mão // Na vossa história, senhores, /eu fui só voz, /em vez de gente inteira // Inteira, nunca o fui, / dobrada ao meio pelo escuro das vestes, / pelas juras forçadas que cumpri, / pelo dever que me ditou meu pai // Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas, / eu, que as fui construindo devagar, / na escuridão da cela […] // Não fui só voz: / fui eu, dona de mim, / porque as letras me foram, e o amor, /e o ódio vagaroso // Só para isso me valeu viver, / para compor, igual a sinfonia, / tudo o que considerei // Ele foi só palavras que em palavras forjei, / bigorna onde moldei espadas e lanças, / o lume necessário // Só não moldei / as grades da prisão onde vivi: / essas, moldastes vós / até incandescência // Mas eu, nas letras que compus, / eu inventei a ausência como mais ninguém. / Eu fui a mão da ausência / numa cela escura // E os atos dele foram-me as metáforas, / imagens a seguir-me, mais fortes / do que a vida. / Por isso me chamastes, senhores, / no vosso tempo, uma palavra nova e ágil: / literatura // E assim eu fui-vos voz, / e doce mito. E nada mais / vos fui // Quero dizer-vos hoje, / neste tempo tão escuro, / mas de um escuro diverso do que tive: / adeus // Deixai-me o escuro, o meu. / Porque ao lado da minha, / a vossa ausência, essa que em mim plantastes, / nada é. // Tomáreis vós saber o que é ausência / Ausência: eu: demorada nestas linhas. / Dizer com quanto escuro / a noite se desfaz / e se constrói».


Desta ausência Ana Luísa fez não uma luminosa habitação, mas uma espécie de esplendor, não como aquele com que Rilke dourou a Morte, mas pura saudade intérmina da Vida. Bem haja ».


(O Texto encontra-se integralmente digitalizado, como acontece com toda a coleção de “Colóquio Letras”).

 

Guilherme d’Oliveira Martins

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANA LUÍSA AMARAL

  


Uma botânica da paz: visitação


Tenho uma flor
de que não sei o nome


Na varanda,

em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima


Mas estes são prodígios

para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves


Não a ameaçam bombas

nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz


E o céu azul de Outono

a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou


Deve ser isto

uma espécie de paz:


um segredo botânico

da luz


in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007


Botanics of peace: visitation


I have a flower

whose name I don’t know


On the balcony,

its scent blends
with other smells:
hibiscus, rose,
a sprig of verbena


But they will be prodigies

of another morning:
for this flower
has bred leaves of astonishing
green,
minute and subtle


Bombs do not threaten it

nor do romantic winds,
missiles or tornados,
neither does it know, although so near,
of the jeopardy the salt
sea air will bring


And the blue autumn sky

disguised as summer
gives it such blessing,
as does the little water that I pour


And this must be

a sort of peace:


a botanical secret

of light


© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese 

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Casa em Boliqueime, de Ricardo Bak Gordon.


A casa em Boliqueime (2002), de Ricardo Bak Gordon (1967) faz lembrar ‘o jogo sábio, correcto e magnífico dos volumes sob a luz’, que Le Corbusier mencionava em ‘Vers une Architecture’. É uma casa branca que só precisa de sol para ser vivida por dentro. E traz o espanto inesperado que toda a arquitectura deveria ter.

 

A casa em Boliqueime torna poética a experiência daquele lugar - porque preenche falhas, radicaliza, revela, acrescenta e sobretudo introduz um novo modo de olhar e uma nova relação do ser humano com o mundo.

 

‘O sol de lado, banhando

uma casa sem pontes, tempo

sem luz, ou casa

como tenda’, Ana Luísa Amaral


Para Bak Gordon, a apropriação de um lugar, a ordem das formas, a ligação dos volumes à terra e a organização programática acontece sempre através do desenho. O desenho é expressão, é gesto, é processo físico mas sobretudo investigação.

A casa em Boliqueime ergue-se intemporal e sensível à paisagem que a envolve. É uma unidade fechada e contrastante com a natureza. É uma elementaridade esquemática que pertence a qualquer tempo mas somente àquele lugar. Consegue cruzar a herança da arquitectura vernácula e a herança da arquitectura das vanguardas históricas. Consegue transformar e ampliar artificialmente o significado concreto daquele lugar.

 

Esta casa afirma uma essencialidade unitária, uma dureza táctil e uma limpidez matérica. As formas primárias leêm-se claramente, mas escondem que a piscina é também um volume. É uma casa abstracta (que através de uma síntese chega ao essencial), passível de ser ocupada e e de ser capaz de ampliar a experiência de uma vida.

 

‘O sol de lado

e em frente: um verde

de verão, tão verde de

verão

a amanhecer: eu sem

saber’, Ana Luísa Amaral 

 

Ana Ruepp