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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de julho de 2018

 

A Cimeira de Berlim do Património Cultural foi um momento culminante deste Ano Europeu. Se é verdade que há ainda muito para fazer, pode afirmar-se que o aprovado “Apelo de Berlim” constitui um documento fundamental que põe a tónica na defesa da Cultura, da Educação e da Ciência como fatores de desenvolvimento sustentável, de diversidade e de paz.

 

 

PATRIMÓNIO, LEMBRANÇA VIVA…
A vitalidade cultural de Berlim, nos últimos anos, desde a arquitetura e urbanização à presença da nova geração de artistas plásticos e cultores das diversas artes foi o melhor cenário para este extraordinário encontro. Ao caminharmos em “Unter den Linden”, entre tílias, em direção à Porta de Brandeburgo e ao novo Bundestag pudemos lembrar as gravuras antigas e as grandes referências da cultura alemã: os Museus, a Biblioteca, e a sombra de grandes espíritos, como Fichte e Humboldt. Que é o património cultura senão essa lembrança viva? O “Apelo de Berlim para a Ação” constitui um importante desafio para governos, instituições da sociedade civil e cidadãos, organizações internacionais e supranacionais, no sentido de considerar o património cultural como fator de superação do vazio de valores éticos, da indiferença, do medo dos outros – no sentido de uma “cultura de paz”, suscetível de pôr a tónica num culto comum da herança e da memória, do respeito mútuo e de uma verdadeira partilha de responsabilidades. Valores, culturas e memórias constituem a base de uma Europa que deve caracterizar-se pela “Unidade na Diversidade”, resistindo à fragmentação dos egoísmos e da intolerância. Fora da lógica das identidades fechadas, devemos construir realidades abertas e complexas, que não excluam ninguém. A pertença a uma comunidade local e o reconhecimento da importância da proximidade não podem ser contraditórios com a ideia de uma pertença múltipla e de uma solidariedade europeia e global. O património cultural liga gerações, suscita complementaridades, cruza influências e assenta na evolução histórica de encontros e desencontros – abrindo caminhos de diálogo e de cooperação entre comunidades na Europa, mas também com outras culturas do mundo. Trata-se de uma ponte entre o passado e o futuro, um processo contínuo de criatividade e inovação, que assenta as suas raízes na evolução histórica e suplanta-a em nome de uma cultura viva e de uma cidadania ativa e responsável. Mas, falar do tema, é referir ainda o desenvolvimento sustentável, uma sólida coesão social e o surgimento, direta e indiretamente, de condições para novas possibilidades de trabalho. O património cultural traz harmonia e beleza para o nosso meio ambiente, humano e natural, mas também permite desenvolver o bem-estar e a qualidade de vida. Neste Ano Europeu, quando celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estamos em condições para ir além de meras declarações de princípios. E importa seguir destes para a ação, tornando os valores culturais como sentidos por todos – certos de que, deste modo, poderemos, a um tempo, respeitar as pertenças locais, regionais ou nacionais, compreendendo que estas só serão preservadas se não esquecermos as diferenças e a relação com os outos. E não se pense que é fácil este compromisso. Muitos pensam que fechando-se se protegem melhor, quando a história nos dá eloquentes exemplos que demonstram que cultura fechada é cultura ameaçada e morta. O valor universal da dignidade da pessoa humana defende-se com unidade e diversidade. A prevalência da hostilidade sobre a hospitalidade gera consequências dramáticas, que levam a conflitos desregulados, guerras sangrentas e à trágica espiral da violência. O desenvolvimento humano exige equilíbrio entre identidade e diferença, tradição e modernidade, liberdade e igualdade… Eis por que razão o Apelo de Berlim tem de ser considerado na sua dimensão política e democrática.

 

UM PLANO DE AÇÃO EUROPEU
De que falamos? De desenvolver o Plano de Ação Europeu para o Património Cultural; de reconhecer o Património como uma prioridade no âmbito das políticas europeias; de criar pontes entre as dimensões local, nacional e europeia; de preservar e transmitir o que é insubstituível; de investir na regeneração do Património com qualidade; de promover o melhor conhecimento, a compreensão aprofundada e de aproveitar a oportunidade que o momento atual nos reserva. Cada um destes pontos corresponde a uma responsabilidade concreta, que supera em muito a marginalidade de um tema secundário. É a sociedade no seu todo e o desenvolvimento humano que estão em causa. Só um ambicioso Plano de Ação Europeu pode obter resultados efetivos. A Nova Agenda Europeia para a Cultura não pode ficar nas boas intenções nem ser confundida com uma cornucópia de meios usados sem critério nem avaliação. Importa envolver promotores e beneficiários, do espaço público e da sociedade civil – articulando o investimento na cultura, educação e ciência com os objetivos de coesão social e de desenvolvimento regional, envolvendo cidades, campos, litoral, meio ambiente, turismo, sustentabilidade, mudança climática, investigação e inovação, política digital, educação, objetivos de qualidade e, naturalmente, juventude. Estamos a referir a obrigação de maior relevância da Europa e de coerência com a Convenção de Faro do Conselho da Europa, com a Estratégia Europeia para o Património no Século XXI e com a Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Deste modo, as instituições europeias deverão reconhecer o património cultural como prioridade estratégica, com expressão no quadro financeiro plurianual (2021-2027). Isto contribuirá para o mais do que urgente investimento europeu para o capital humano e cultural e para a promoção dos valores europeus. Daí a importância da eleição do novo Parlamento Europeu em 2019 e da Comissão, para que haja compromissos concretos. Os diferentes níveis de governação têm de se coordenar para que o património cultural funcione como um verdadeiro recurso para a sociedade, economia, cultura e meio ambiente. O âmbito local, regional, nacional e europeu tem de definir planos articulados e coerentes, para serem eficientes, do mesmo modo que devem envolver organizações internacionais e sociedade civil. Não podemos esquecer ainda que o património cultural é único e insubstituível, vulnerável e sujeito a riscos – daí a necessidade de criar sinergias no tocante à investigação, à criação artística, às novas tecnologias, ao investimento económico, no sentido da preservação, salvaguarda e a um melhor conhecimento. Também a regeneração das cidades, arredores e meios rurais obriga à criatividade, inovação e adaptação, com critérios de elevada qualidade, de acordo com a Declaração de Davos. Ainda a ligação com as escolas e a educação, com a formação e mobilização de novos públicos, a começar nas crianças e jovens, revela-se de importância crucial, até para facilitar uma melhor compreensão, respeito e inclusão de novos habitantes na Europa. Ora, se tem sido possível concentrar esforços neste Ano Europeu, importa aproveitar o movimento para encontrar uma fórmula de ação adequada no sentido da criação de uma plataforma futura permanente para o melhor conhecimento e coordenação de ações na defesa do património cultural na Europa.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de dezembro de 2017.

 

O ano 2018 está à porta e o Comissário Europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no dia 6, no decorrer do Fórum Europeu da Cultura, que não estamos apenas a falar «de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos».

 

QUE PATRIMÓNIO CULTURAL?
O tema do património cultural é complexo. Nada pior do que tratá-lo de ânimo-leve, ao sabor dos lugares comuns. Tratamos da relação da contemporaneidade com a História. De facto, os lugares de memória correspondem sempre a uma encruzilhada de referências e de tempos. Qualquer simplificação revela-se perversa. Se os anglo-saxónicos preferem usar a palavra “heritage”, no sentido do que recebemos, nós recorremos a uma expressão de origem latina que liga à noção de serviço (“múnus”) à de relação com os nossos antepassados (“patres”). Temos, assim, uma ideia dinâmica, que aponta no sentido da ação e da responsabilidade. Eis por que razão as políticas públicas de cultura, e em bom rigor de educação, têm de partir da preservação e do conhecimento da memória, para melhor podermos entender a capacidade criadora e renovadora das novas gerações. O ensino da História, o entendimento aberto das Humanidades, a cultura exigente que se demarca da mediocridade e da irrelevância, o diálogo competente entre saberes e culturas têm de merecer cuidado e atenção. Há exatamente cem anos, dia por dia, Almada Negreiros assinou o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”. Aí, muito dominado pela conjuntura que o rodeava e pela presença da guerra, insistia em que era preciso criar a pátria portuguesa do século XX - importando a demarcação relativamente a um entendimento indiferente, passadista, fraco, decadente, redutor e fechado. Em lugar da inércia e da burocracia, urgia despertar energias. Haveria que assumir a coragem de considerar as qualidades e os defeitos próprios - para que a qualidade pudesse ser referência. E que foi buscar o artista para fundamentar a sua pesquisa sobre o futuro? O Ecce Homo quatrocentista do Museu das Janelas Verdes. Ou seja, mais importante do que a invocação de referências passadas ou mortas, haveria que que encontrar as qualidades dos melhores, projetando-as nos vivos. Em lugar de ler a História como um tempo ultrapassado, haveria que estudá-la e compreendê-la como movimento. Em vez da falta de cuidado relativamente ao que nos foi legado pelo passado, importaria cultivar a capacidade renovadora, suscetível de acrescentar valor ao recebido. Daí o regresso aos pintores e artistas de quatrocentos – num entendimento vital de património que se renova permanentemente. Almada invoca, por isso, “estes meus grandes olhos de europeu, cheios de todos os antecedentes; com o passado, o presente e o futuro numa única linha de cor, escrita aqui na palma da minha mão esquerda” (Conferência nº 1, 1920).

 

RECOLHA DE SENSAÇÕES
Quando Stendhal visitou há duzentos anos, Roma, Nápoles e Florença, mais do que as apreciações eruditas sobre o que via, procurou uma “recolha de sensações”. E deparamo-nos com uma relação rica e fecunda entre pedras mortas e pedras vivas, para usar a expressão consagrada de Rabelais. E essa relação permite compreendermos o património cultural como uma construção permanente, assente no diálogo entre o passado e o futuro, mediado pelo presente. Veja-se o que diz o autor da Cartuxa de Parma sobre exemplo do “Duomo” de Milão – «nunca a arquitetura me deu tais sensações. O mármore branco recortado em filigranas não tem certamente a magnificência nem a solidez de S. Paulo de Londres. Direi às pessoas nascidas com inclinação para as belas-artes: “Esta arquitetura brilhante é o gótico sem a ideia de morte: é a alegria do coração melancólico; e, como esta arquitetura despojada de razão parece construída pelo capricho, está de acordo com as loucas ilusões do amor. Trocai por pedra cinzenta o mármore brilhante de brancura, e todas as ideias de morte reaparecem…”». Stendhal compreendeu bem que o património cultural só teria sentido se se relacionasse com as pessoas e com as sensações que nelas produz. Por isso, não podemos ser indiferentes, temos de cultivar esse afeto especial – que nos obriga a proteger essa memória material, em nome da própria vida. E o conhecimento histórico, a atenção às tradições obrigam-nos ao culto e à atenção, nunca é de mais insistir. Por isso, não há política cultural digna desse nome sem valorizar o que recebemos das gerações que nos antecederam – seja património material ou imaterial, monumentos ou hábitos e costumes. Mas não se trata de uma reprodução passiva ou de uma imitação empobrecedora. “Em Paris, temos todos os prazeres; em Itália só há um – em primeiro lugar o amor e ainda as Belas-Artes que são outro modo de falar do amor”. E esse amor, que decorre do prazer da viagem, leva à arte da escrita, como forma de transmitir uma paixão, impossível de esquecer. Lembremo-nos do nosso Antero, severo crítico das escolas da repetição e do elogio mútuo. Para viver com ideias é indispensável não deixar ao abandono o melhor que nos foi legado – a língua, a literatura, as Belas-Artes, as paisagens, a relação com a natureza, numa palavra, a memória viva e os seus roteiros. Longe da lógica do “bricabraque” ou da mera musealização da cultura, do que se trata é de garantir que a salvaguarda do património permita a continuidade de uma memória exigente e culta, bem como um melhor conhecimento crítico. Haverá legado mais valioso do que aquele que nos foi deixado por Alexandre Herculano na reunião de arquivos, no levantamento de documentos e na organização das fontes e sua apresentação? Daí a ligação necessária às escolas e à pedagogia, enquanto elementos fundamentais de sensibilização e de defesa do património. Valorizar as Humanidades significa articular o ensino da História e das ciências auxiliares à investigação científica – bem como não deixar ao abandono tantos legados chegados até nós.

 

LEMBRAR A CONVENÇÃO DE FARO
Nos primeiros dias de dezembro, exatamente em Milão, foi lançado formalmente o Ano Europeu do Património Cultural – 2018, em conjugação com o Forum Cultural Europeu. Trata-se de assumir uma especial responsabilidade – a de pôr o património e a cultura no centro da vida europeia e democrática. Afinal, quando hoje se fala de sustentabilidade, temos de entender que não nos reportamos apenas à economia ou às finanças, ao meio ambiente ou à energia, referimo-nos a tudo isso, mas antes do mais ao desenvolvimento humano. Não por acaso a Convenção de Faro do Conselho da Europa (2005) fala-nos do valor do património cultural para a sociedade contemporânea, envolvendo direitos e deveres, bem como avaliação rigorosa de resultados alcançados, permitindo-nos compreender que o que tem mais valor é o que não tem preço e que a economia humana só progride verdadeiramente se souber garantir o equilíbrio entre a preservação da memória e o incentivo à inovação e à criatividade. Educamos pessoas e cidadãos livres e responsáveis e não robôs. Urge, por isso, compreender que a arte e a memória, que a ciência e a consciência se completam e que as sociedades amnésicas, que se fecham sobre si mesmas, recusando a abertura e a partilha, entram em inexorável decadência…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença