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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MORTE E VIDA SEVERINA

 

TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO

Especial. 11 de dezembro de 2018.

 

Este fim de semana fui dar ar à pluma, que o mesmo é dizer fui com o meu MGA (temendo que o Brexit o inutilize) dar um passeio pelas estradas da Arrábida até ao Conventinho. Publico a fotografia do meu automóvel, para vos causar uma pontinha de inveja. O motor está fantástico, apesar de ser de 1955. E o verde está reluzente porque o protejo o mais que posso. Passei naturalmente pelo Portinho, onde parei junto do lugar onde conheci Sebastião da Gama e onde aprendi de cor muitos dos seus versos em honra da nossa Serra Mãe. Não choveu e pude gozar o ar fresco da manhã de sábado. Preocupei-me ao ver as imagens de Paris. Mas continuo angustiado com o que se passa no reino de Sua Majestade Sereníssima. Não faço prognósticos. Quem poderá fazê-los? O meu amigo Graham, com quem troco mensagens, também não arrisca. Acha que neste momento todos os cenários são possíveis e maus… Ele acha que a Senhora May está a ser colocada num beco sem saída. Continua a sofrer amargamente o erro monumental de Cameron… É um mal dos tempos que correm: confundir os interesses de curto prazo com a perspetiva de longo prazo. O “Prospect Magazine” publica no último número uma sondagem significativa. Cada vez mais ingleses acham que o resultado do referendo foi negativo. E mesmo aqueles que achavam que a aliança anglo-americana arranjaria as coisas, acham que o protecionismo do Senhor Trump estragou tudo… Nesta segunda semana do Advento reli ontem João Cabral e a sua “Morte e Vida Severina”. Severino debate-se com o desespero e descrê de tudo. Mas vem uma réstia de luz e de esperança – é uma vida nova que nasce. Não resisto a citar a parte final do poema, também do ano de 1955 (pura coincidência!). Lembro-me bem de quando li pela primeira vez esta obra-prima da língua portuguesa. Foi o meu saudoso amigo Padre Alberto Simões Neto que mo indicou – e um dia lemo-lo mesmo em conjunto, maravilhados com as palavras, com a estória e com a luminosidade… Severino perguntava se valia a pena a vida. Pois eu digo-vos que faz-nos bem depois do ar fresco da serra voltar a este rincão… Que o mesmo é dizer à vida que vale mesmo a pena…

 

«— De sua formosura
(fala do bebé que nasceu)
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infeciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

 

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE
QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR
PARTE DE NADA

 

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 


 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 10 a 16 de dezembro de 2018

 

Os 130 anos de Os Maias merecem ser lembrados. A exposição que a Fundação Gulbenkian organiza, com o inestimável apoio da Fundação Eça de Queiroz, pretende centrar-se na importância de um livro referencial e na promoção de uma reflexão, que leve à leitura da obra, que permita um conhecimento da mesma e que promova ainda o gosto de ler, um melhor domínio da língua e o contacto com a literatura e a História viva.

 

CNC _ Eça de Queiroz.jpg

 

REFERÊNCIA BEM PRESENTE
Não se trata de um exercício retrospetivo ou passadista, mas da consideração de uma preocupação bem presente, orientada para os cidadãos de hoje. E se há bem pouco tempo se discutiu se essa obra deveria estar no elenco dos programas escolares, o certo é que o bom senso prevaleceu, com a preocupação com os hábitos de leitura e o culto das humanidades, que não podem desaparecer da ordem do dia. A iniciativa nasceu de uma conversa despretensiosa com o meu amigo Afonso Eça de Queiroz Cabral. Havia que pôr momentaneamente Tormes, Santa Cruz do Douro, em Lisboa, para que esse roteiro extraordinário pudesse tornar-se mais conhecido – e para que a ideia dos percursos literários e das viagens com livros pudesse enraizar-se nos nossos hábitos culturais. No Ano Europeu do Património Cultural, nada melhor do que lembrar um romance como este, que constitui uma verdadeira panóplia sobre quem fomos e sobre o que não devemos esquecer criticamente sobre as nossas qualidades e defeitos, virtudes e limitações. Aí estão muitos ingredientes que nos conduzem à ideia complexa de património cultural, nas suas diversas aceções. O longo tempo de feitura e de revisão que o autor dedicou à obra permite que haja um conjunto complexo e heterogéneo de elementos, que nos levam a compreender o património material e imaterial, a natureza e a paisagem, e a capacidade criadora ditada pela contemporaneidade. Alguém disse “está lá tudo”… Não sei se está, mas a verdade é que há muito do que permite compreender criticamente a nossa realidade. Fizemos um longo percurso, o apuramento do sentido crítico que Eça e a sua geração nos ensinaram teve os seus resultados, mas há muito para fazer. Daí a importância de podermos lidar com a oficina do escritor, percebendo que à mediocridade devemos saber contrapor o não deixar ao abandono o que recebemos e a aprendizagem exigente da informação que tem de se tornar conhecimento e do conhecimento que deve ser sabedoria…

 

TUDO O QUE TENHO NO SACO
Na célebre carta a Ramalho Ortigão de 20 de fevereiro de 1881, a propósito de uma hipótese confusa de publicação em folhetins de Os Maias no “Diário de Portugal”, de Lourenço Malheiro, Eça fica na esperança de poder obter uma boa retribuição monetária pelo romance – “e como via nessa proposta uma pequena fortuna (o Malheiro afiançava-mo) decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco. A ocasião confesse era sublime para jogar uma enorme cartada”… O episódio é triste de desencontros e incompetências, atrasos tipográficos e outras incapacidades. Mas só em 1888 essa obra, considerada quase pronta sete anos antes, viu finalmente a luz do dia. O que importa dizer é que o romancista fez indiscutivelmente uma grande aposta – e é esse o resultado de que todos somos beneficiários, ao ler uma ampla representação da sociedade do momento. Em 12 de junho de 1888, em carta a Oliveira Martins, dirá: “Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa”. Os Maias são um retrato do Portugal citadino do final do século XIX. Há um rico percurso que abrange desde um tempo de confronto entre a tradição e os ventos novos, representado pelo avô Afonso da Maia, que nos liga à sociedade antiga, até aos efeitos da acalmação e do progresso concretizado pela Regeneração. Dir-se-á, porém, que confluem a imitação das sociedades avançadas da Europa e a ausência de meios suficientes para assegurar que os melhoramentos de Fontes Pereira de Melo tornassem o país próspero e superasse o atraso. A sombra do défice e da dívida pública abatem-se sobre o país – e os ingredientes do romance trazem-nos, ao lado de uma trágica trama amorosa entre dois irmãos, que se desconhecem, o confronto entre o tédio vivido por Carlos da Maia e o pensamento de João da Ega, ditado pelas influências de um fim de século pessimista e contraditório. Há mudanças profundas que se reclamam, há intenções. Mas o pano de fundo revela futilidade, descrença, ilusão e mediocridade.

 

UM ROMANCE FIEL AO AMBIENTE VIVIDO
Indiscutivelmente, Os Maias é um romance fiel ao ambiente que se vivia quando foi publicado e escrito, o que faz crer a muitos que continuamos a persistir nessa sociedade retratada há tantos anos, numa obra longamente escrita e pensada… As diferenças na sociedade são profundas, mas há reminiscências que perduram. A escrita é cortante, clara, incisiva e tem de ser reconhecida na sua imensa riqueza. Os Maias assumem um lugar central no nosso panorama literário, pelo caráter, pela diversidade das personagens, pela força da escrita e pelo sentido crítico. Representam uma das marcas deixadas pela Geração de 1870 – graças a uma voz severa, mas não a um negativismo sem horizonte. Devemos lembrar o que Eduardo Lourenço disse em O Labirinto da Saudade: “Não é suscetível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol”. E sobre a crítica de Fialho de Almeida, o próprio Eça dirá em sua defesa: “condenar um escritor, como caluniador e maldizente, porque ele revela os ridículos do seu país – é declarar maldizente toda a literatura de todos os tempos, que toda ela tem tido por fim fazer a crítica dos costumes, pelo drama, a poesia, o romance e até o sermão!” (a Mariano Pina, 27.7.88). Talvez A Ilustre Casa de Ramires seja mais problematizante, mas também mais enigmático. Estamos, assim, diante de uma panóplia inesquecível, que deve ser recordada por quem queira conhecer a literatura portuguesa. Lembremos Maria Eduarda, fantasma marcante no romance, os Gouvarinhos, Cohen, Dâmaso, Alencar, Palma Cavalão… A diversidade esconde, no entanto, uma uniformidade desgostante. E a imitação é a marca. Agora, podemos contar com a presença de peças originais que vieram especialmente de Tormes, onde costumam estar expostas (como a secretária do escritor e a célebre cabaia) e que, por certo, se tornarão motivo para que o roteiro queirosiano se torne mais conhecido. É de literatura como realidade viva e atual que cuidamos, eis a razão desta escolha – de uma obra-prima da língua portuguesa de sempre.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 
 

A MARCA AMARELA E O LUAR DE LONDRES

 

TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO
Especial. 5 de dezembro de 2018

 

Passeio por Londres. A chuva miudinha não para. Mas entre as nuvens, aparece tímido o célebre luar londrino descrito por João de Lemos, e que não esqueço, recordando as noites serenas de inverno de outrora, entre poemas e declamações…

Passo em Limehouse e vêm-me à lembrança as leituras juvenis de E. P. Jacobs e da sua “Marca Amarela”.

Foi mesmo aí o cenário do misterioso enredo.

Os mistérios podiam ser desvendados nas salas do Centaur Club…

Como anglófilo incorrigível, dou-me a pensar nos efeitos desta dolorosa separação que se chama Brexit…

Alguma coisa se passará, antes deste divórcio que ninguém quer, mas que ninguém sabe como se ver livre dele.

Por agora, prefiro, porém, ficar-me a lembrar o poema célebre de João de Lemos.

Poderia invocar um texto pungente de William Blake.

Mas prefiro por estes dias citar um romântico em “Impressões e Recordações”.

Esperemos o que irão decidir os Comuns… E leio os conselhos avisados de Timothy Garton Ash.

Por que razão não chega uma centelha de bom senso?

 

«É noite; o astro saudoso
Rompe a custo um plúmbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu:
Traz perdida a cor de prata,
Nas águas não se retrata,
Não beija no campo a flor,
Não traz cortejo de estrelas,
Não fala d'amor às belas,
Não fala aos homens d'amor.

Meiga lua! os teus segredos
Onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
Das praias d'além do mar?
Foi na terra tua amada,
Nessa terra tão banhada
Por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
Na pátria dos meus amores,
Pátria do meu coração?

Oh! que foi!... deixaste o brilho
Nos montes de Portugal,
Lá onde nasce o tomilho,
Onde há fontes de cristal;
Lá onde viceja a rosa,
Onde a leve mariposa
Se espaneja à luz do sol;
Lá onde Deus concedera
Que em noites de Primavera
Se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó lua, tu deixas
Talvez há pouco o país,
Onde do bosque as madeixas
Já têm um flóreo matiz;
Amaste do ar a doçura,
Do azul céu a formosura,
Das águas o suspirar;
Como hás-de agora entre gelos
Dardejar teus raios belos,
Fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
Do Mondego os salgueirais,
Quem andou por Tejo acima,
Por cima dos seus cristais,
Quem foi ao meu pátrio Douro,
Sobre fina areia d'ouro,
Raios de prata esparzir,
Não pode amar outra terra
Nem sob o céu d'Inglaterra
Doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
Tens aqui; mas Deus, igual
Não quis dar-lhe essa lindeza
Do teu e meu Portugal;
Aqui, a indústria e as artes,
Além, de todas as partes,
A natureza sem véu;
Aqui, oiro e pedrarias,
Ruas mil, mil arcarias,
Além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
Estátuas, praças sem fim
Retalham, cobrem o solo,
Mas não me encantam a mim;
Na minha pátria, uma aldeia,
Por noites de lua cheia,
É tão bela e tão feliz!...
Amo as casinhas da serra,
Co'a lua da minha terra,
Nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
Padecemos igual dor,
Temos a mesma saudade,
Sentimos o mesmo amor:
Em Portugal, o teu rosto,
De riso e luz é composto,
Aqui, triste e sem clarão;
Eu lá, sinto-me contente,
Aqui, lembrança pungente
Faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
Voltemos aos puros céus,
Leva-me, ó lua, contigo
Preso num raio dos teus;
Voltemos ambos, voltemos,
Que nem eu, nem tu podemos
Aqui ser quais Deus nos fez;
Terás brilho, eu terei vida,
Eu já livre, e tu despida
Das nuvens do céu inglês».

 

Agostinho de Morais

 

 

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   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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A VIDA DOS LIVROS

De 19 a 25 de novembro de 2018.

 

Quando lemos “Istanbul – A Tale of Three Cities” de Bettany Hughes (Weidenfeld & Nicolson, 2017) compreendemos como a encruzilhada da História nos permite entender a incerteza e a mudança, a complexidade e as diferenças.

 

PATRIMÓNIO CULTURAL, REALIDADE VIVA
No Ano Europeu do Património Cultural, a atribuição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, constitui um momento especial pela sua entrega a Bettany Hughes, de nacionalidade inglesa, historiadora, autora consagrada e responsável por programas de televisão e de rádio de extraordinária qualidade. Depois de Claudio Magris, Ohran Pamuk, Jordi Savall, Plantu, Eduardo Lourenço e Wim Wenders, o júri deliberou por unanimidade e em coerência com o espírito do Prémio, atribuir o galardão de 2018 a uma mulher que tem, ao longo da sua vida e obra, cultivado a memória histórica como fator de compreensão, de conhecimento e de salvaguarda da diversidade e do respeito mútuo. Entender a heterogeneidade das raízes e das culturas é perceber melhor quem somos, de onde vimos e como nos devemos relacionar com os outros. Helena Vaz da Silva é um exemplo bem presente quando falamos do património e da memória como realidades vivas. Foi notável a sua contribuição não só para o respeito do património cultural, mas também para a defesa dos ideais universalistas do humanismo e da cidadania ativa. O património cultural é uma realidade dinâmica e multifacetada – que abrange o que recebemos das gerações que nos antecederam, mas também a semente da contemporaneidade, de modo a criar valor através do incessante movimento da criatividade humana. Como afirma a Convenção de Faro do Conselho da Europa assinada em Portugal em 2005: “O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo”. É esse valor que desejamos proteger.

 

UM PRÉMIO PARA O FUTURO
Instituído pelo Centro Nacional de Cultura em 2013 em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património, que o CNC representa em Portugal, e o Clube Português de Imprensa, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva distingue contribuições excecionais para a proteção e divulgação do património cultural e dos ideais europeus. Num tempo em que há nuvens negras no horizonte no tocante a uma perspetiva humanista de cooperação humana e social – numa ameaçadora articulação dos riscos das mudanças climáticas, da saúde, da segurança alimentar, de proteção do planeta e dos perigos inerentes à ciber-segurança – torna-se necessário encontrar respostas capazes de articular a coesão social, a sustentabilidade humana e as novas dimensões do conhecimento. Os quatro cavalos que constituem o símbolo da Fundação Calouste Gulbenkian representam os domínios centrais da ação numa sociedade que se deseja mais humana – falamos da arte, da educação, da ciência e da filantropia. Só pela ligação desses meios poderemos garantir que a informação se torna conhecimento e o conhecimento sabedoria, e que as tecnologias se possam tornar instrumentos úteis e emancipadores ao serviço da pessoa humana. Eis por que razão a valorização do Património Cultural pode constituir-se em fator de dignificação humana. Bettany Hughes é uma reconhecida historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado. Mas não se trata de uma visão retrospetiva centrada num tempo pretérito, mas sim de uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade. A especialidade da História e da Cultura da Antiguidade e da Idade Média da nossa premiada permite-nos perceber melhor os acontecimentos como desafios permanentes para compreender o que permanece e o que muda, o que une e o que diferencia, o que articula e o que complementa.

 

UM PERCURSO NOTÁVEL
Bettany Hughes tem um percurso notável que abrange as Universidades de Oxford, Cambridge, Cornell, Bristol, Maastricht, Utrecht ou Manchester. Devemos ainda recordar a tutoria no Institute of Continuing Education de Cambridge e a investigação no King’s College de Londres bem como a participação no New College of the Humanities. Quando percorremos as suas obras sentimos a noção viva de memória, como em “Helena de Tróia” (2005), mas também em “The Hemlock Cup: Socrates, Athens and the Search for the Good Life (2010), finalista do Writers Guild Award. Permito-me referir os mais de 50 programas de rádio e televisão que produziu e realizou para entidades diferentes como o BBC, Channel 4, Discovery, ou National Geographic. Falamos de programas vistos por mais de 250 milhões de telespectadores em todo o mundo. E é a pedagogia do património cultural que permite compreendermos melhor a cultura, a paideia ou a humanitas, de que falava Cícero. Assim, a História e as Humanidades têm permitido a Bettany Hughes realizar uma verdadeira pedagogia de cidadania e de humanidade, sobretudo no que diz respeito à defesa dos direitos de todos, e em especial das mulheres e à salvaguarda das diferenças e do respeito mútuo. Bizâncio, Constantinopla, Istambul são três referências que nos levam ao estabelecimento de necessárias pontes entre o Oriente e o Ocidente, entre o Imperio Romano do Oriente e os Impérios Orientais. Se Istambul é mais do que uma cidade, mas uma história, indispensável se torna conhecer e compreender essa realidade com ao menos seis mil anos. Trata-se de uma mosaico fantástico de fenícios, genoveses, venezianos, judeus, vikings… E ao invocar este caleidoscópio mágico vem à memória o testemunho de Calouste Gulbenkian, que, em Lisboa, nos últimos anos de vida pedia para usufruir da paisagem da cidade sobre o rio Tejo, uma vez que considerava ser a paisagem que mais se assemelhava à de Istambul de sua infância. Também Ohran Pamuk disse que entre Lisboa e a antiga Constantinopla havia semelhanças extraordinárias. E quanto às raízes históricas, aqui estiveram os fenícios que criaram a cidade, aqui chegaram os celtas desde a Capadócia até à Finisterra peninsular, aqui passaram os vikings e os marinheiros do Mar Norte, resultando a caravela da confluência das experiências do Atlântico e do Mediterrâneo e a navegação pelos astros graças ao astrolábio dos saberes vindos da Ásia trazidos pelas culturas de judeus e árabes. Quantas cidades encontramos no património cultural comum que nos deve mobilizar? Quantas culturas? Quantas pessoas? Bettany Hughes tem-nos ensinado a conhecê-lo, a defendê-lo e a amá-lo!

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de novembro de 2018.

 

Os seis ensaios que constituem a obra «As Artes do Sentido» de George Steiner (Relógio d’Água, 2017) põem-nos perante o tema do confronto e da ligação ente Humanidades e as Ciências, o que constitui questão crucial quando se fala da noção ampla de património cultural que comemoramos este ano de 2018.

 

 

MAIS DO QUE UM ACERVO DO PASSADO
O Ano Europeu do Património Cultural não celebra apenas um acervo europeu, uma identidade europeia ou um passado exclusivo. Falar de Património Cultural é falar de uma noção comum, universal, capaz de unir a humanidade e de criar condições para uma verdadeira cultura de paz, que a UNESCO tem proclamado. Estamos no centro do culto saudável das Humanidades. Este Ano Europeu situa-se na linha do que defende a Convenção de Faro, sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (2005). Não se está a tratar de uma identidade europeia, fechada sobre si mesma, sucedâneo de identidades nacionais. O undamental é a referência ao Património Cultural, como realidade dinâmica e humanista. Recorde-se o que diz a Convenção de Faro: «O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo» (artigo 2º, alínea a). E não esquecemos entre os objetivos deste instrumento do Conselho da Europa: “a preservação do património cultural e a sua utilização sustentável”, tendo por objetivo “o desenvolvimento humano e a qualidade de vida” (artigo 1º, alínea c), bem como a adoção das “medidas necessárias à aplicação do disposto na presente Convenção, no que se refere ao papel do património cultural na edificação de uma sociedade pacífica e democrática, bem como no processo de desenvolvimento sustentável e de promoção da diversidade cultural” (alínea d). É a prioridade à Cultura que está em causa, compreendendo-se esta ligada à Educação e à Ciência. Falamos do mundo da vida, das raízes, das aspirações, das atitudes e dos valores – do que recebemos e do que legamos. Eis por que razão quando Palmira foi destruída parcialmente na guerra da Síria, quando o diretor do centro arqueológico foi assassinado, ou quando qualquer parcela da humanidade e da sua cultura são atingidos é do património cultural no seu todo que está em causa. Não são os produtos do passado que devem ser repetidos – importa, sim, que o passado constitua uma base para compreender melhor o presente e para lançar as bases do futuro. E não esquecemos a lição de John Dewey quando falava da educação e da escola como realidades que pressupunham um “processo vivo”, um enriquecimento permanente pela experiência, uma sociedade aberta à inovação e à diversidade, uma democracia cooperativa. Neste sentido o cuidado do património cultural tem de ter um lugar especial na educação e na escola, na informação e na troca de saberes.

 

IDENTIDADE E PATRIMÓNIO
Longe da tentação de ver o património cultural como uma marca exclusiva ou própria de uma comunidade só, temos de estar conscientes de que as identidades e o património cultural só se enriquecem abrindo-se à diferença e à alteridade. Só assim poderemos enriquecer o que é próprio, dando-lhe dimensão humanista e universalista, em lugar da tentação uniformizadora e indiferente ou de simplificações folclóricas e de uma cultura de bricabraque. Nesse sentido, neste Ano Europeu, propus logo de início, e foi aceite, o reconhecimento da necessidade de dar às escolas, às comunidades educativas e às famílias um papel especial – de modo a lançar sementes para o futuro e como exigência de não deixar o património cultural ao abandono, compreendendo-se simultaneamente que um monumento e uma tradição que estão próximos, têm de fazer lembrar as referências culturais e patrimoniais que estão mais distantes. Por isso, os concursos que lançámos nas escolas tiveram sempre presente a escolha de um elemento próximo e de um outro exemplo europeu – de modo a entender que há uma dimensão de abertura à diversidade que não pode estar ausente, e que torna mais valiosa e aberta a nossa identidade, como fator de troca, de respeito e de enriquecimento mútuo. O património cultural tem múltiplas componentes: monumentos, museus, edifícios históricos, arquivos, referências artísticas e arqueológicas – o património material -, tradições, costumes, línguas e dialetos, romanceiros, artesanato, música e danças, relações interculturais – o património imaterial -, mas ainda o património natural, o meio ambiente, as paisagens, o património digital, e a criação contemporânea… esta enumeração abre inúmeras pistas que nos obrigam a uma especial atenção relativamente à criatividade humana.

 

ENTENDER A COMPLEXIDADE
Como tem ensinado Edgar Morin, importa compreender que a complexidade tem de ser entendida como chave do saber. Impõe-se que a informação de que dispomos se transforme em conhecimento e que o conhecimento se torne sabedoria. E que é a evolução das sociedades humanas senão uma sucessão de metamorfoses como as ciências naturais nos ensinam? Não é possível entender a importância das Humanidades sem ligar as culturas literária e científica, as artes e a matemática (como no-lo ensinou Almada Negreiros) – Sophia de Mello Breyner alertou-nos, deste modo, para que ler uma pauta de música ou distinguir um alexandrino ou uma redondilha obrigava a cuidar da numeracia. E se nos preocupamos com a relação com a natureza, temos de considerar a Ecologia, os recursos naturais em risco, as emissões poluidoras, o aquecimento global, do mesmo modo que os códigos genéticos, a ética suscitada pelo progresso científico e tecnológico como exigentes desafios para a Humanidade. E, se se fala da 4ª revolução industrial, temos de lembrar não apenas a microinformática ou as tecnologias de informação, mas também as novas fontes de energia e os progressos no domínio da saúde, como a imunologia e a evolução celular… O património cultural envolve, assim, um mundo fascinante, mas incerto e complexo. A cultura não é um luxo nem uma realidade supérflua, não é o último capítulo de um programa político, nem a cereja no cimo de um bolo – é uma prioridade absoluta e um tema transversal, que envolve a aprendizagem como fator decisivo do desenvolvimento humano, que reclama o espírito científico. A razão e os sentimentos estão intimamente associados, como nos ensina António Damásio, numa tradição antiga que encontramos desde os pré-socráticos até Montaigne ou Leibniz e à modernidade. A arte e a ciência reclamam o espírito criador e a necessidade de compreender como são incindíveis a continuidade e a inovação. A crise financeira que ainda sofremos desvalorizou a capacidade criadora e limitou-se à ilusão das economias de casino. A valorização do património cultural abre veredas atentas á dignidade humana. É a democracia que está em causa. Precisamos de instituições mediadoras nas quais os cidadãos estejam e se sintam representados, e em que participem. O património cultural liga-nos às gerações que nos antecederam e tornam-nos responsáveis pelo valor que formos capazes de criar, melhorando o que legarmos a quem nos vai suceder…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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JÁ CEM ANOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Especial. 11 de novembro de 2018

 

A imagem do vagão no Bosque de Compiègne em que o Marechal Foch encara o General alemão Maxime Weygand, representante alemão, fica na retina. A memória dos povos é curta, mas faz-se de grandes acontecimentos e de grandes tragédias. A primeira guerra mundial, que terminou com a assinatura do armistício, há exatamente cem anos, foi um desses acontecimentos marcantes, ainda que a esperança que então existiu depressa se tenha desvanecido pelo graves erros cometidos na Conferência de Versalhes, de que resultou a humilhação dos vencidos, em especial do Império Alemão, com as consequências conhecidas. Vinte anos depois a guerra regressaria mais mortífera que nunca. Os vinte milhões de mortos registados entre 1914 e 1918 não serviram de lição. Até 1945 tivemos, na continuação, uma tremenda Guerra dos Trinta Anos. E a segunda guerra registaria mais de sessenta milhões de mortos. A História da Europa e do mundo contemporânea foi marcada por esses acontecimentos, que agora se recordam. Porém, não basta a invocação formal. A União Europeia vive momentos de perplexidade e incerteza. Quando o Presidente Macron e a Senhora May aparecem a homenagear os soldados mortos há a estranha sensação de estarmos num filme de ficção, com o Brexit em fundo a marcar uma fragmentação perigosa. Depois, há outros elementos perturbadores. O Presidente Trump é a instabilidade em pessoa, a Itália demonstra uma evidente falta de coesão, a Hungria e a Polónia agem como crianças irrequietas numa loja de porcelanas, A Rússia convence-se mal de que não é mais do que uma potência regional, capaz de perturbar o cenário mundial, mas pouco mais… A China está num compasso de espera, ciente de que se tem de preparar para uma influência global. Os fatores somam-se terrivelmente. E a Senhora Merkel? Dir-se-ia que a Europa precisa mais do que nunca da ligação efetiva entre o Eixo Franco-Alemão e a Entente Cordiale! O Reino Unido é indispensável à Europa. E se é preciso fazer um acordo para o Brexit criem-se condições para que a defesa e a segurança sejam garantidos e que o tema das fronteiras não semeie um conflito imprevisível. Nesta celebração do Armistício de 1918 lembremo-nos de tudo isto. Não basta celebrar. É preciso tirar lições!

 

As papoilas de papel ou os pequenos capacetes militares da minha infância estão bem presentes para a minha geração. Mas a memória esvai-se e o horizonte do desastre pode reaparecer… Leia-se o poema do médico canadiano que tornou a papoila símbolo da memória da guerra. John Mc Crae (1872-1918) escreveu que as papoilas cresciam nos campos da Flandres entre as cruzes dos mortos:

 

In Flanders' fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place: and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders' fields.

Take up our quarrel with the foe;
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high,
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow  
In Flanders' Fields.

 

Agostinho de Morais

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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LEMBRAR A CONVIVIALIDADE…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Nova série. 30.10.2018

 

Um dia destes fui dar com um velho texto e uma fotografia jovial entre um conjunto de papeis amarelecidos no fundo de uma gaveta. Li e achei que havia interesse em regressar ao tema… Nos tempos da "Raiz e Utopia" da saudosa Helena Vaz da Silva, um dos autores mais citados era Ivan Illich. Era um pensador rebelde. As suas obras podem ser lidas  com redobrado interesse, uma vez que foi dos primeiros a pôr o dedo na ferida aberta pelo consumismo e por aquilo que hoje designamos como fundamentalismo de mercado. Disse-nos, com veemência, que o crescimento material é enganador, sobretudo se visto na ótica da destruição da natureza e da insaciabilidade por novos bens e novas riquezas, ainda que esses se adquiram à custa da miséria e da exclusão. Há uma semana invocávamos o conceito de justiça de Rawls, hoje falamos do inconformismo de alguém que acreditava sinceramente em que era possível inverter a tendência para que as instituições se tornassem fatores de limitação e de bloqueamento da sociedade humana. Illich acreditava na "convivialidade", porque via tudo a partir das pessoas e da necessidade de ir ao seu encontro. Questionou, por isso, a escola, a saúde, as administrações e a organização económica de uma industrialização predadora. "A solução da crise obriga a um volte-face radical: só mudando a estrutura profunda que regula a relação do homem e do instrumento poderemos dar-nos instrumentos justos" - dizia. "O instrumento justo deverá, porém, obedecer a três exigências - deve ser gerador de eficiência sem degradar a autonomia pessoal, não deve criar nem escravos nem mestres, deve, no fundo, alargar o raio de ação das pessoas". Para Illich, do que precisamos é de instrumentos com que trabalhar, e não de instrumentos que trabalhem em vez de nós. Afinal, necessitamos de uma tecnologia que tire o melhor partido da energia e da imaginação pessoais, não de uma tecnologia que nos torne servis e programados… Compreende-se bem que Illich, ao longo da sua vida, tudo tenha procurado fazer para conciliar raízes e utopia, lutando para que esta não se tornasse escravizadora. Numa vida muito rica (1926-2002), desde Viena, onde nasceu, a Cuernavaca (México), onde animou o CIDOC (Centro Intercultural de Documentação), passando por Florença, Roma, Nova Iorque e Porto Rico, Illich procurou ser sempre fiel à defesa intransigente da dignidade das pessoas e da força de uma cultura humana. Tudo para que os "mecanismos de usura não ameacem o direito das pessoas à sua tradição, o recurso ao que nos precede, através da língua, do mito e do ritual". Que valerá a utopia sem fidelidade às raízes?

 

E assim recordo “Os pássaros de Londres” de Cesariny!

 

«Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada…»(«Poemas de Londres»).

 

Agostinho de Morais

 

 

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   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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UM OUTONO FLORIDO…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 23.10.2018

 

Poderá parecer estranho, mas um dia destes, caminhando pela cidade, eu que sou campestre, descobri algo que já conhecia, mas não com a exuberância deste ano. Já escrevi algures que as árvores têm memória – e que os jacarandás, originários da América do Sul, nos surpreendem no Outono com uma estranha e inesperada floração. Do que se trata é da lembrança de que a Primavera brasileira ocorre agora e que a exuberância floral é deste tempo. Pois bem, todos os anos dou-me ao cuidado de descobrir uma leve floração nos meus queridos jacarandás. Mas este ano a surpresa ultrapassou o que eu alguma vez supusera. Com os calores inusitados do início do nosso Outono encontrei casos de floração autêntica e exuberante, como se estivéssemos na verdadeira Primavera… Nunca tinha presenciado este fulgor, esta força… Serão talvez efeitos do aquecimento global… O certo, porém, é que os jacarandás deram neste Outono um ar especial da sua graça, confirmando a etimologia da palavra – há dias recordada por José Tolentino Mendonça – como um tempo criador, em que os frutos exprimem em si a força própria da natureza.

 

Caem as folhas, é certo, mas a natureza assume uma metamorfose criadora. Fiquei deveras feliz ao sentir a vitalidade do património genético. E corro ao meu jardim onde as romãs me chamavam. Começaram a abrir lentamente, o que significa que estão maduras… Depois da alegria dos jacarandás, é a força dos frutos do jardim… E em bom rigor compreendi, como antes e sempre, que esta é a estação da maturidade, que é o corolário de tudo o que foi o ano… Dentro em breve começará a invernia. A natureza entrará em letargia, para ganhar novas forças. Os ursos hibernarão com toda a natureza, e o seu ritmo cardíaco reduzir-se-á para que as energias se não percam… Ah! Quão bela é esta natureza… E quão acolhedor é o jardim quando recupera forças…

 

E tomo em mãos a obra de António Ramos Rosa. É, de facto, a verdade que está em causa… É “o sopro, a falha e a sombra fascinante”…

 

A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.

Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede

e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitetura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

 

Agostinho de Morais

 

 

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LITERATURA VIVA!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 19.10.2018

 

Esta semana lembrei-me de ir a um maço, guardado num lugar recôndito da biblioteca,  onde estão números antigos da “presença – folha de arte e crítica” e dei-me a recordar referências antigas. Fiquei no início de tudo, em março de 1927, no texto emblemático de José Régio sobre “Literatura Viva”. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, tratou-se de, sob a inspiração dos modernistas de “Orpheu”, iniciar um novo tempo que demoraria a afirmar-se. E se digo que demoraria a afirmar-se é porque os jovens presencistas não foram os iconoclastas de 1915. O que fizeram, sim, foi proclamar o reconhecimento do contributo decisivo de Fernando Pessoa e dos seus. E se em determinado momento houve uma especial irritação com Eduardo Lourenço por ele ter estabelecido a distância entre o “Orpheu” e a “presença”, usando a palavra “contra-revolução”, a verdade é que o ensaísta de “Pessoa Revisitado” não usou a expressão com sentido político, mas com jaez metafórico. Os doze anos que separavam as duas revistas tinham muito que se lhes dissesse. Houve um compasso de espera de uma terrível guerra que durou trinta anos – e o presencismo tomou as devidas cautelas, não embarcando em qualquer unilateralismo. À Literatura o que era da literatura, sendo que a liberdade criadora, deveria ser posta em lugar cimeiro. Aqui completavam a geração de “Orpheu”, pondo mesmo a liberdade na ordem dia, sem ambiguidades que os modernistas alimentaram no fascínio mussolinesco. Fernando Pessoa desdobrou-se nos registos diferentes dos heterónimos e tornou-se progressivamente cada vez mais interessante, para além de um certo nacionalismo, que era moda do tempo. A “presença” admirava o cultor e os cultores da literatura viva, demarcando-se da mera função social da arte… Punham a tónica na palavra, na expressão artística, na liberdade criadora. Em arte seria vivo tudo o que era original. E a esta luz li o primeiro editorial da revista e tudo o que isso significava, de liberdade e autonomia – a começar pelo reconhecimento do génio de Pessoa e dos seus, sem preconceito nem limitação… Era, no fundo, a originalidade que admiravam.

 

Eis a célebre prosa Regiana:     

 

«Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro... Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas - mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidades não passarão dum truque literário.


Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhes esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. A falta de originalidade da nossa literatura contemporânea está documentada pelos nomes que mais aceitação pública gozam. É triste - mas é verdade. Em Portugal, raro uma obra é um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser coletivo. O exagerado gosto da retórica (e diga-se: da mais sediça) morde os próprios temperamentos vivos; e se a obra dum moço traz probabilidades de prolongamento evolutivo, raro esses germes de literatura viva se desenvolvem. O pedantismo de fazer literatura corrompe as nascentes. Substitui-se a personalidade pelo estilo. Mas criar um estilo já é ter uma personalidade. E quem não tem personalidade só pode ter um estilo feito, burocrata, erudito, amassado de reminiscências literárias, de auto-plágios, e de pobres farrapos sobreviventes ao naufrágio. Assim se substitui a arte viva pela literatura profissional. E é curioso: Só então os críticos portugueses começam a reparar em tal e tal obra: Quando ela exibe a sua velhice precoce e paramentada. Regra geral, os nossos críticos são amadores de antiguidades. Em vez de lhes alargar o gosto, a erudição amarelenta-lhes a alma... Mas esta é outra questão, bem digna de ser tratada menos acidentalmente. Volto ao meu assunto, e suponho agora um exemplo talvez mais consolador: O escritor português tem e mantém uma personalidade. Pergunto: É essa personalidade suficientemente rica para que produza uma obra rica de conteúdo e de continente, de substância e de forma? É regra geral - presto homenagem às exceções - os nossos artistas terem uma mentalidade insuficiente; uma sensibilidade por vezes intensa, mas reduzida; e uma visão unilateral da vida. Esgotados em dois ou três livros, repetem-se confrangedoramente. E o seu progresso é puramente linguístico, superficial e negativo, porque breve a língua deixa de ser um meio vivo de expressão artística. É um instrumento quase inútil, que se aperfeiçoa segundo este ou aquele preconceito». (Presença, número 1, 1927)

 

Agostinho de Morais

 

 

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PEGA AZUL OU CHARNECO – UM BOM SÍMBOLO


TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 9.10.2018

 

Em Loulé, no sábado passado, o meu amigo Arquiteto Fernando Pessoa fez uma sugestão algo revolucionária. Falou-nos de uma pequena ave comum no Algarve e no sul português, mas também no distante Japão – a pega azul, rabilongo ou charneco (cyanopica cyanus). Ora, considerando que a dita avezinha apenas persiste, depois de mil vicissitudes, em territórios tão distantes geograficamente entre si, no extremo ocidental e no extremo asiático mas tão próximos no diálogo histórico e cultural, é caso para perguntar se não poderia tornar-se um símbolo do património natural e da paisagem… Afinal, acompanhou a nossa projeção global – e D. João II enalteceu-o.  Se o património cultural não deve ser fechado, mas disponível e aberto, eis um bom exemplo de ligação natural entre o que é próprio e diferente… Esta pega azul bem pode tornar-se um símbolo. Vejo-a correr em busca de novidades. E que é o património senão essa curiosidade permanente perante o que é vivo?

Nas minhas deambulações percebo bem a sugestão do Arquiteto. Também tendo a adotar um símbolo. Para já fiquemos com ele… E oiçamos o poeta de Alte.

 

Cheios de paz e cheios de doçura,

Dão-me os teus olhos tanta claridade

Que a minha tormentosa noite escura

Se rasga em Vias-lácteas de bondade!

 

E vou na trajetória da ventura,

E sigo a linha reta da verdade,

Por ti guiado, oh frágil criatura,

Tão forte em tua simples humildade!

 

Que o amor vos traga aonde o amor me trouxe,

Cegos que enveredastes pelo mal,

Pois nesta estrada chã, direita e doce,

 

A morte ajoelhará quando vier,

Ante a Vida, que a Vida é imortal,

Reflorindo num seio de mulher!

(Cândido Guerreiro)

 

Agostinho de Morais

 

 

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