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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .2

 

1. Pergunta-se: o que se passou para que o jesuíta Victor Codina tenha podido escrever, num estudo sobre Ser Cristiano en Europa?, que estamos a assistir a um colapso do cristianismo na Europa?


Realmente, os dados são preocupantes. Exemplos: na Espanha, o número de agnósticos e ateus supera o dos católicos praticantes. Na França, a maior parte da população já não é católica. Na República Checa, mais de 60% declaram-se ateus. Nos Países Baixos, na Noruega, na Suécia..., o número dos que se declaram sem religião ronda os 50% da população. E tudo indica que o número de católicos e dos que se confessam cristãos vá diminuindo na Europa em geral e é, de facto, notória a exculturação do cristianismo... Quanto à juventude, os números são alarmantes: “uma grande parte vive à margem da Igreja, que, para ela, se converteu numa pequena e estranha seita”. A situação reflecte-se na queda vertiginosa das vocações, com seminários vazios, muitas paróquias — o seu número aumentará sempre — não têm padre. E não é só “um inverno eclesial europeu”, assistimos também a um exílio de Deus...


Procurando causas. Quanto à Igreja-instituição, temos o impacto brutal dos escândalos clamorosos da pedofilia, bem como dos escândalos económico-financeiros e da corrupção no Vaticano. E, quando olhamos para as estruturas eclesiásticas, é inevitável a pergunta: onde está a simplicidade e a fraternidade exigidas pelo estilo do Evangelho? Acrescente-se o patriarcalismo, a exclusão das mulheres, o clericalismo, que é uma verdadeira “peste da Igreja”, como repete o Papa Francisco, implicando uma “estrutura perversa”, segundo G. Schickendanz. Há “um desfasamento teológico e cultural da doutrina e dos dogmas”, cujas formulações se devem à cultura helénica, longe da mentalidade moderna e pós-moderna. Acrescente-se “uma moral legalista e casuística, proveniente de uma antropologia dualista, pré-moderna, pouco personalista, muito centrada no sexo, que utiliza a pastoral do pecado e do medo do castigo para manter o povo cativo da Igreja.” Uma liturgia hierática, ritualista, ininteligível para a maioria dos fiéis, pouco ou nada participada. Para muitos, o cristianismo e a Igreja constituem “um déjà vu”, algo ultrapassado e em desuso; pior: para alguns, a Igreja é a personificação do pior da nossa cultura: “repressão, ânsia de poder, inquisição, censura, machismo, moralismo, ódio à vida, sentido de culpa e de pecado”.


Mais preocupante é que Deus se tornou longínquo, um estranho, “um Deus no exílio”, na expressão de L. Duch. No mundo da tecnociência, do consumo, do conforto, do hedonismo, do ter, do parecer e do aparecer, à volta de um “eu” desvinculado de toda a norma, entrou-se num imanentismo fechado, mais a-religioso do que anti-religioso, mas sem horizontes de transcendência: não interessa “o que vai para lá da vida quotidiana, do trabalho, do dinheiro, da comida, da saúde, do consumo, do sexo, do bem-estar e da segurança de uma velhice tranquila”. A vida é para gozar no sentido mais imediato do termo, na busca de uma juventude perene...


A pergunta é: E quando toda esta lógica é barrada, posta em causa? Isso constata-se agora, no meio desta catástrofe trágica da pandemia. De repente, um vírus invisível que invadiu o mundo todo, apoderando-se da Humanidade, veio travar e pôr em causa estes ideais. O mal-estar é deprimente, e a esperança está em que, depois de um interregno, a que uma vacina ponha termo, se volte à “normalidade”, isto é, ao ponto onde fomos apanhados, para podermos avançar outra vez na lógica na qual se vivia. Ainda se não pensou profundamente sobre a impossibilidade deste raciocínio e seus pressupostos. De facto, já não se pode ignorar que o modelo anterior está posto radicalmente em causa. Porque é preciso entender que não é possível continuar o modelo tecnocrático de desenvolvimento ilimitado, que somos globalmente interdependentes, que o progresso tem de ter em conta as alterações climáticas, a biodiversidade, e avançar, portanto, segundo um modelo coerente com a urgência de “uma ecologia integral”, para utilizar a expressão feliz do Papa Francisco: o grito da Terra e o grito dos pobres, clamando por uma humanidade justa.


2. Mas também pode acontecer que as pessoas, confrontadas com o abismo da existência, com a morte, parem e reflictam, indo ao encontro do essencial, das perguntas últimas, do Mistério vivo e acolhedor. Vêm-me à memória palavras luminosas do grande Václav Havel, que constatou: “Estamos a viver na primeira civilização global”. Acrescentou: “Mas também vivemos na primeira civilizaçãoa ateia, isto é, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade.” As consequências disso: uma civilização obstinada em perseguir objectivos a curto prazo”, “o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos” e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, “o orgulho”, a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que “a nossa civilização caminha para a catástrofe”, a não ser que cure “a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho”. Achava que “o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos”. Considerava-se apenas meio crente, mas com “a certeza de que no mundo não é tudo apenas efeito do acaso” e convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina”. “A transcendência é a única alternativa à extinção.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 FEV 2021

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .1


Quem nasceu num contexto de cristianismo tradicional talvez nunca se tenha dado verdadeiramente conta do que o cristianismo significou na História.

 

1. Na sua base, está Jesus de Nazaré, que nasceu uns 4 ou 6 anos antes da nossa era — isto deve-se a um engano do monge Dionísio, o Exíguo, encarregado de estabelecer no século VI o novo calendário. Filho de Maria e de José, teve uma juventude despercebida, trabalhou duramente em vários lugares como artesão. Foi discípulo de João Baptista, por quem foi baptizado, mas fez uma experiência avassaladora de Deus como Abbá (querido Papá), que o chamava a anunciar e a testemunhar o seu Reino, o Reino de Deus, Reino da verdade, da justiça, do amor, da alegria para todos. Uma notícia boa e feliz. A vida pública foi curta.


Em Jesus, o Reino de Deus estava actuante. Preocupou-se com a saúde das pessoas, com que não passassem fome. Curou doentes, física e psiquicamente doentes. Comia com prostitutas e pecadores públicos. A causa de Deus é a causa dos seres humanos e, por isso, proclamava com os profetas estas palavras postas na boca de Deus: “Ide aprender: eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia”. Ousava declarar: “O Sábado é para o Homem e não o Homem para o Sábado”: a saúde, a justiça, a misericórdia estão acima do culto. Por isso, entrou em conflito com  o Templo, os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei... Assim, Jerusalém e Roma uniram-se, numa coligação de interesses religiosos e imperiais, para o crucificar. Ele podia ter negociado, mas não: foi até ao fim, para dar testemunho da Verdade e do Amor.


Os horrores da crucifixão não têm descrição. Os romanos consideravam-na tão humilhante que só a aplicavam aos escravos e estrangeiros. “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, rezou Jesus, sempre confiante: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. 


2. Aparentemente, foi o fim. O enigma da história do cristianismo é como é que os discípulos, que tinham voltado, desiludidos, às suas vidas, pouco tempo depois estavam outra vez reunidos e foram anunciar que aquele Jesus crucificado é o Cristo, o Messias salvador. O que é que se passou naquele intervalo?


Como escreveu J. Duquesne, a História não pode dizer se Jesus está vivo ou se morreu para sempre, “o que pode dizer é que se passou alguma coisa naqueles dias, um acontecimento que, abalando aqueles homens e mulheres, abalou o mundo.” A ressurreição, mistério central do cristianismo, não é um facto verificável historicamente, ela é um “obscuríssimo mistério”, como diz o filósofo e teólogo Andrés Torres Queiruga. Na sua obra célebre A verdadeira história de Jesus, E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, conclui que é muito o que sabemos do Jesus histórico. “Nada é mais misterioso do que a história da sua ressurreição”, mas “sabemos que, depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência de algo que descreveram como a ‘ressurreição’: a ‘aparição’ de uma pessoa, que tinha realmente morrido, agora viva, mas transformada. Eles acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Neste processo, criaram um movimento que cresceu e se estendeu pelo mundo. “Sabemos quem Jesus era, o que fez, o que ensinou e porque morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História.”


Essa experiência pessoal do Jesus vivo foi igualmente tão avassaladora para São Paulo que ele, de perseguidor dos cristãos, se tornou apóstolo, fez milhares e milhares de quilómetros, incansavelmente, a pé, a cavalo, de barco, para levar a Boa Nova de Jesus, o Crucificado-Vivente, desde a costa sul da actual Turquia, a bacia do mar Egeu (Filipos, Tessalónica, Atenas, Corinto), até Roma e projectando ir à Hespanha...


Mas São Paulo, na história do cristianismo, não é só fundamental pela universalidade que lhe deu. O seu papel decisivo consiste também na reflexão crítica sobre a identidade da fé cristã e as consequências sócio-políticas da sua verdade: Deus, ressuscitando Jesus, revela que está com Ele, com a sua mensagem do Evangelho, que é ele que tem razão. O teólogo François Vouga viu bem, quando escreveu que a ressurreição de Jesus, o crucificado, “implica uma revolução do olhar sobre a pessoa humana”. “Se realmente Deus se revelou como o Pai de um crucificado que perdeu tudo quanto um ser humano pode perder para lá da adopção de Filho, é claro que as linhas de separação religiosas, culturais e sociais pertencem agora a um mundo ultrapassado. A universalidade deve ser pensada como o reconhecimento individual de cada sujeito humano, sejam quais forem a sua nacionalidade, as suas pertenças, o seu sexo: “Já não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” (Carta aos Gálatas 3, 28). Por isso, “ninguém, nem em Israel, nem na Grécia, nem em Roma, poderia, por exemplo, imaginar que mulheres ensinem, presidam à Ceia do Senhor ou sejam enviadas de uma cidade a outra como apóstolas”.


3. Foi pelo cristianismo que veio ao mundo a ideia de pessoa e da sua dignidade inviolável.


Lentamente, o cristianismo estendeu-se por toda a Europa, e a Europa foi cristã até aos séculos XVII-XVIII. O que se passou para que, num trabalho recente, o jesuíta Victor Codina, possa escrever: “Assistimos agora na Europa a um verdadeiro colapso da fé cristã..., o cristianismo é culturalmente irrelevante e foi exculturado. É um inverno eclesial europeu.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 FEV 2021

EDUCAÇÃO PARA A ECOLOGIA

 

O étimo das palavras pode abrir-nos portas aparentemente difíceis de abrir. Neste caso da ecologia, temos oikos, palavra grega para casa, e logos, razão, tratado: o tratado da casa, da casa de cada um, de cada família, de cada país, da casa comum da Humanidade. A ecologia está inevitavelmente ligada à economia, e lá está de novo oikos, casa e nomos, lei, governo: cada um deve governar a sua casa, as famílias também, os países têm um governo que deve governar, e hoje, sendo todos interdependentes mais do que nunca, por causa da globalização, precisamos de uma governança global para a casa de todos, a casa comum da Humanidade. Em conexão com ecologia e economia está a ética, que tem um duplo étimo: ethos, que, segundo se escreva, em grego, com épsilon ou eta, significa, respectivamente, uso, costumes, e habitação. Assim, ligando as três palavras, a questão é esta: que comportamento ter para podermos todos habitar bem na casa comum da Humanidade?


Foi o biólogo alemão, discípulo de Darwin, Ernest Haeckel, que criou a palavra ecologia em 1866. Definiu-a, e cito o recente livro de Leonardo Boff, Uma ecologia integral, no qual me inspiro concretamente para as estatísticas, como “o estudo das relações de todos os seres vivos e não vivos entre si e com o seu ambiente. Todos vivem juntos na Casa Comum, que é a Terra, e juntos apoiam-se mutuamente para alimentar-se, reproduzir-se e co-evoluir.”


A idade do Universo é de uns 13.700 milhões de anos, com o Big Bang; a Terra terá uns 4.400 milhões de anos; a vida terá começado há uns 3.800 milhões de anos; depois, a vida foi evoluindo e complexificando-se e apareceu o sapiens e depois, há uns 150.000 anos, o sapiens sapiens, o homem actual: sapiens sapiens e demens demens, é preciso acrescentar sempre. De qualquer modo, é em nós que o gigantesco processo da evolução sabe de si, e sabemos de nós: somos conscientes de ser conscientes, somos, cada um, uma sujectividade, alguém, alguém que diz “eu” de modo único.


Sobretudo nos últimos 300 anos, com a revolução industrial e o paradigma tecnocrático e hiperneoliberal, o Homem, esquecendo que também é Terra e que tudo está ligado com tudo, como lembrou o Papa Francisco na encíclica que fará história, Laudato Sí, arvorou-se em senhor e dominador da Terra: scientia est propter potentiam (F. Bacon): a ciência é por causa do poder e é poder; somos seigneurs et possesseurs de la nature: senhores e dominadores da natureza, proclamou Descartes. No imaginário dos fundadores da sociedade moderna, lembra L. Boff, “o crescimento e o desenvolvimento movem-se em dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do crescimento e do desenvolvimento olhando para o futuro.” Pura ilusão, pois é sabido que os recursos são finitos e, num mundo limitado, não é possível um crescimento ilimitado, como há muito tempo aqui venho repetindo.


Os números estão aí, alarmantes. Assim, cálculos realizados por organismos das Nações Unidas mostram que, se os países ricos, 20% da população mundial, quisessem universalizar o seu padrão de riqueza, precisaríamos de mais três Terras iguais à nossa, que não existem.


Este tipo de sociedade, sociedade do consumismo voraz, criando inclusivamente necessidades aritificiais,  produz dois tipos de injustiça: “a injustiça social e a injustiça ecológica”, de tal modo que o grito dos pobres é igualmente o grito da Terra e vice-versa. Criam-se profundas e gritantes desigualdades sociais, a ponto de 20% da população mundial possuir 80% de toda a riqueza da Terra. As três pessoas mais ricas  do mundo acumulam activos que superam a riqueza dos 48 países mais pobres do planeta, 600 milhões de pessoas aproximadamente. Gritante: 257 pessoas acumulam mais riqueza do que 2,8 mil milhões de pessoas. O resultado desta situação reflecte-se em quase mil milhões de pessoas a passar fome e 2,5 mil milhões a viver abaixo do limiar da pobreza, sobrevivendo apenas com 2 dólares por dia. Outra consequência é que, para lá de todo o sofrimento e humilhação das pessoas, a cada ano morrem, antes de chegar aos 5 anos, 15 milhões, por causa de doenças que seriam facilmente tratáveis.


Esta injustiça social anda associada à injustiça ambiental, que se traduz no “mau trato da natureza, das florestas, dos animais, das águas, do ar, dos solos.” A espécie humana já ocupou 83% do planeta, e “ocupou-o devastando-o”. No processo da evolução, desaparecem naturalmente em cada ano à volta de 300 espécies. Mas, por causa da voracidade  humana, desaparecem anualmente entre 70.000 e 100.000 espécies. E acaba-se com a biodiversidade. A quantidade de poluentes lançados para a atmosfera produz o efeito de estufa, que causa o aquecimento global, que se tem acelerado, com o perigo grave de se exceder o limite que a Terra poderia suportar: suponhamos um sobreaquecimento entre 1,4 e 6 graus Celsius ou mais; o resultado seria, com o degelo nos polos, um aumento tal de água nos oceanos que levaria à destruição de cidades costeiras e à morte de milhões e milhões de pessoas... As alterações climáticas já estão aí e podem, segundo alguns cientistas, ter impulsionado o aparecimento da covid-19. E quem pensa nas gerações futuras?


Impõe-se pensar e agir. É da sobrevivência da Humanidade que se trata. Como escreveu o Papa Francisco, “a educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não procurar também aprofundar um novo paradigma sobre o ser humano, a vida, a sociedade e a relação com a natureza.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 FEV 2021

O SENTIDO DA VIDA. (4) A MORTE E A ESPERANÇA


1. A morte é o choque mortal com o sentido. Ela é a barreira inultrapassável, definitiva. Significativamente, os antropólogos são unânimes em reconhecer na sepultura, portanto, na consciência da morte e na procura de transcendê-la, o sinal decisivo, indesmentível, de que, na história gigantesca da evolução, estamos em presença do ser humano, de alguém, da pessoa. Essa consciência é sempre acompanhada da religião e, de um modo ou outro, da filosofia, como reconhece a história, de Platão — a filosofia é “o exercício de morrer e estar morto” — a Schopenhauer, que via na morte a “musa da filosofia”, ou Martin Heidegger.


Perante a morte, quando tudo desaba e se afunda, erguem-se, mais dramáticas, esmagadoras, as perguntas essenciais: Donde vimos?, Para onde vamos? Qual o sentido de tudo? O que vale a existência? Perguntas inevitáveis para todos, pois, como dizia Ernst Bloch, no regresso a casa após o funeral de um amigo, nem mesmo o maior capitalista pensa apenas na sua conta no Banco. Aí está a razão por que, para conhecer uma sociedade, talvez mais importante do que saber como é que nela se vive, é saber como é que nela se morre e se trata os mortos. A maior prova do profundo mal-estar da nossa sociedade é que teve de fazer da morte um tabu. As nossas sociedades tecnocientíficas, da competição, do hedonismo, da ausência da religião, para serem o que são, foram as primeiras na História a colocar o seu fundamento sobre a negação da morte. E não se pense que isso acontece porque ela já não é problema. É o contrário: de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julgava omnipotente não tem solução que a solução que resta é: Disso não se fala. Mas de uma sociedade que é incapaz de integrar a morte não se pode dizer que está sã.  Evidentemente, não se trata de lidar com a morte de forma paralisante — não se pode esquecer que a morte foi muitas vezes utilizada de modo terrífico até pela Igreja, para dominar as consciências —, mas de modo sadio. Para se viver melhor, intensamente, com dignidade, livres, apreciar o milagre estonteante do ser e de ser, um rosto, o mistério do seu olhar... Sem a morte, não haveria ética, pois nunca seríamos obrigados à urgência da decisão: é a tomada de consciência da morte que nos revela o milagre da existência e o valor de cada instante da vida e a sua densidade íntima e definitiva, é ela que nos coloca perante a exigência da “existência autêntica” por oposição à “existência inautêntica”, como reflectiu Martin Heidegger. Em presença da morte, conquistamos a liberdade sem mentira... E é  numa existência autêntica, que é uma vida amada e amante, que pode nascer a esperança fundada da Vida que não morre. Nas situações-limite, o Homem é posto em confronto com o apelo e a fé possível no Sentido último, que os crentes invocam como Deus.


2. Andamos frequentemente, talvez a maior parte do tempo, distraídos em relação ao essencial. Mas um dia chega a morte e é o confronto com o abismo sem fundo. “Ai que me roubam o meu eu!”, gritava Unamuno perante a morte. Frente àquele “nunca mais para sempre” neste mundo (Vladimir Jankélévitch), ninguém fica indiferente, tudo estremece. E agora?, e depois?


Se na morte formos engolidos pelo nada, onde está o Sentido último da existência?, que valor tem a distinção entre bem e mal, justo e injusto, digno e indigno?, onde assenta a dignidade do Homem, que é pessoa e não coisa?  Se tudo se afunda no nada, já tudo é nada. Que valeram todos os combates, todas as lutas, toda a generosidade, toda a abnegação, todo o amor? O grande filósofo J. G. Fichte perguntava, voltando atrás no tempo: ... os meus tetravós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram; os meus trisavós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram; os meus bisavós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram; os meus avós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram... A vida é isto?


O Homem é por natureza o ser do transcendimento: nunca se contenta com o dado e está sempre para lá de si e de toda a meta alcançada. Vive um desnível insuperável entre o que realiza e a aspiração inesgotável a realizar-se sempre mais. Por isso, vai caminhando de sentido em sentido, mas só encontrará satisfação total no Bem Sumo enquanto Sentido de todos os sentidos, isto é, o Sentido definitivo e plenificante. Mas ele não pode realizar por si esse Sentido, que só por graça lhe pode ser dado. A História lê-se do fim para o princípio, de tal modo que só no fim, na morte, poderíamos saber quem somos, mas já lá não estamos. Assim, só Deus, no final, pela graça da plenitude da Vida, nos dirá quem somos e o que somos para Ele e Ele para nós. Esta é a promessa da Vida eterna. “Eu sou a Ressurreição e a Vida”, disse Jesus. “Santa esperança!”, dizia Péguy.


Ludwig Wittgenstein escreveu que “acreditar em Deus significa ver que a vida tem um sentido”. Lá no mais íntimo, os crentes sabem que é assim. E se na hora da morte nos fosse revelado que não há Deus? Não me arrependeria por ter acreditado. Porque, como disse o filósofo A. Valensin, o mal não estaria em nós por termos acreditado, mas em Deus, que, devendo existir, não existe. É uma espécie de argumento ontológico moral, à maneira de  Simone Weil, a filósofa mística: não se arrependeria, pois “Deus é o Bem”, que não nos será tirado. E há uma dívida da História para com as vítimas inocentes; sem Deus, quem pagaria essa dívida?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 FEV 2021

O SENTIDO DA VIDA. (3) SOFRIMENTO E SENTIDO

 

Há uma vivência radical que põe o pensamento em sobressalto. Cada um de nós sabe que não esteve sempre no mundo, isto é, que nem sempre existiu e que não existirá sempre. Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos, e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo. Nesta constatação, experienciamos que somos de nós, somos donos de nós — essa é a experiência da liberdade —, mas não nos pertencemos totalmente, não somos a nossa origem nem temos poder pleno sobre o nosso fim. Viemos ao mundo sem nós — ninguém nos perguntou se queríamos vir — e um dia a morte chega e leva-nos pura e simplesmente. Não nos colocámos a nós próprios na existência nem dispomos totalmente do nosso futuro, não somos o nosso fundamento. Aqui, perante a certeza de que nem sempre estive cá e de que não estarei cá para sempre, pois morrerei, ergue-se, enorme, irrecusável, a pergunta: donde vim?, para onde vou?, qual é o sentido da minha existência?, que valor tem a minha vida?


Esta pergunta formula-se em relação a todos os seres humanos, à vida em geral, a toda a realidade.: Porque é que há algo e não nada?, perguntaram Leibniz e Heidegger, entre outros, mas ela diz respeito concretamente a cada um, a cada uma, de modo existencial e tem carácter ao mesmo tempo teórico e prático, uma vez que implica a liberdade. Ela é a pergunta mais originária e fundamental, como bem viu Albert Camus: “Se a vida tem ou não tem sentido, essa é a questão metafísica”. De facto, o ser humano não pode viver sem sentido. Aliás, a existência humana está baseada na convicção do sentido. Há um pré-saber do sentido, de tal modo que a sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “suicídio lógico”, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, estava a negar o absurdo e a afirmar o sentido: pelo menos esse gesto tinha sentido...


Assim, quando se fala em sentido da vida, é preciso referir o “ter sentido” — há inteligibilidade e valor no ser —, e o “dar sentido”: comprometer a liberdade na tarefa de realização da existência própria. Dar sentido pressupõe encontrá-lo antes. E fundamentalmente sente a vida como tendo sentido quem vê a sua existência reconhecida.


A nossa vida não tem sentido, quando não vale para ninguém. No entanto, suportamos e superamos sofrimentos e fracassos, se alguém nos reconhece; erguemo-nos outra vez, apesar de tudo, se a nossa vida continua a ter valor para alguém, se alguém nos ama. Então, reciprocamente, a vida tem sentido, quando saímos de nós e nos dedicamos a alguém ou a uma causa. Quem não ama nem é amado sente a vida vazia de sentido, isto é, sem valor, como não valendo a pena. E como pode encontrar sentido quem não tem uma causa que o transcende e pela qual se bate?


O famoso psiquiatra e psicoterapeuta, Viktor Frankl, fundador da logoterapia, mostrou — ele sabia-o por experiência, pois esteve prisioneiro nos campos de concentração nazis — que a experiência mais radical do ser humano é o sentido, razões para viver. Ao contrário do que afirmaram Freud e Adler, no mais fundo de nós não se encontra a exigência de prazer e de poder, respectivamente, mas a vontade de sentido. Claro que o prazer é importante na vida, mas o prazer não garante a felicidade, um dos maiores enganos e ilusões consiste mesmo em confundir a felicidade com a soma de prazeres; concretamente, o prazer erótico, sem amor, sem encontro pessoal de liberdades em corpo, vai definhando e morrendo em frustração pornográfica. O poder pelo poder passeia-se pela vaidade oca de estrelas cadentes e na dominação político-económica arrogante e totalitária, e, depois... o que resta senão a ilusão de grandezas que murcham e se apagam? Ah!, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”, constata o Eclesiastes.


O paradoxo é este: a felicidade não pode ser buscada por si mesma, pois surge como consequência da realização dos valores e do sentido: é esquecendo-se de si e entregando-se a alguém, no serviço de grandes causas, que os seres humanos verdadeiramente se encontram a si mesmos. Investigadores sociais e psiquiatras não têm dúvida de que o vazio e a frustração existencial são uma das causas maiores dos desequilíbrios psicológicos do Homem contemporâneo. E mostram que a carência de sentido está frequentemente na base da dependência da droga, do alcoolismo, da criminalidade, do suicídio.


E a prova do sofrimento? Em primeiro lugar, até porque muitas vezes a religião sacralizou o sofrimento, como se Deus precisasse do sacrifício dos seres humanos para aplacar a sua ira, é preciso dizer que o sofrimento pelo sofrimento não só não vale nada como deve ser evitado como um mal. Mas é preciso acrescentar com igual veemência, concretamente neste tempo de hedonismo selvagem, que nada de grande, bom e valioso se consegue sem sacrifício. Quem, por exemplo, não está disposto a sofrer pela pessoa amada não ama verdadeiramente. É necessário aprender a alegria de superar obstáculos para atingir objectivos valiosos: já os Gregos associaram sofrer e aprender. Viktor Frankl verificou, concretametnte nos campos de concentração, que sobreviviam aqueles que ainda tinham um sentido para a sua existência: reencontrar a família, realizar uma obra, bater-se por uma causa, lutar por um ideal, proclamar ao mundo: “Nunca mais este horror!” “Dos que pudemos sobreviver só sobriveram os que encontraram sentido para o sofrimento.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 30 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 3

 

Os jornalistas da Gazzeta dello Sport perguntaram-lhe se tinha pensado em escrever uma encíclica sobre o desporto. Francisco: “Explicitamente não, mas há muitos elementos dispersos nas minhs intervenções, sugerindo, por exemplo, como o desporto pode ajudar ou pelo menos dar um contributo para a globalização dos direitos. A cada quatro anos há os Jogos Olímpicos, que podem servir de farol para os navegantes: a pessoa no centro, a pessoa orientada para o seu desenvolvimento, a defesa da dignidade de todas as pessoas. Contrfibuir para a construção de um mundo melhor, sem guerras nem tensões, educando os jovens através do desporto praticado sem discriminações de nenhuma espécie, num espírito de amizade e de lealdade.”


Jogos Olímpicos.
“O lema olímpico: “Citius, Altius, Fortius” (Mais veloz, Mais alto, Mais forte) é belíssimo. Com os cinco círculos e a chama olímpica é um dos símbolos dos Jogos. Não é um convite à supremacia de uma equipa sobre a outra, ainda menos a uma espécie de incitamento ao nacionalismo. É uma exortação aos atletas, para que tendam a trabalhar sobre si mesmos, superando de modo honesto os seus limites, em ordem a construir algo de grande, sem se deixar bloquear por eles. Tornou-se uma filosofia de vida: o convite a não aceitar que alguém assine a vida por nós.”


Dos Jogos Olímpicos fazem parte integrante “os Paraolímpicos, uma das formas mais altas de igualdade, dignidade, redenção”. Francisco: “No desporto, agrada-me a ideia de inclusão. Aqueles cinco anéis entrelaçados, com cores diferentes e representando as cinco partes do mundo, são uma imagem fantástica de como o mundo poderia ser. O movimento paralímpico é preciosíssimo: não só para incluir a todos, mas também porque é a oportunidade para contar e dar direito de cidadania nos média a histórias de homens e mulheres que fizeram da deficiência a arma da redenção. São histórias que fazem nascer histórias, quando todos pensam que já não haveria nenhuma história para contar.”


Mas os negócios rondam a maravilha e a beleza do desporto, fazendo-lhe perder a alma
. “O atleta é um mistério fascinante, uma obra-prima de graça, de paixão. Mas é facílimo transformá-lo num objecto, uma mercadoria que gera lucro. Na Fratelli Tutti, quis tornar claro que o mercado só não resolve tudo, embora a cultura de hoje pareça fazer-nos crer a todo o custo neste dogma de fé neoliberal. Isto acontece quando o valor económico faz lei, tanto no desporto como em tantos outros sectores da nossa vida. Vimos, nos últimos meses, como a pandemia tornou claro que nem tudo se resolve com a liberdade do mercado.”


Aqui, nesta crise, permita-se-me uma reflexão pessoal. A nossa palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio (do latim otium), não no sentido de preguiça, mas de tempo livre para pensar, pesar razões, reflectir sobre o essencial. Desgraçadamente, hoje parece que tudo se trasformou em negócio (do latim nec-otium, negação do ócio). O resultado está à vista. Até o desporto, que pode e deve ser uma escola de vida, se tornou negócio, um gigantesco espaço de negócios, com imensa corrupção pelo meio.


Por detrás de um campeão há um treinador.
Treinar é um pouco como educar? Francisco: “Sim. No momento da vitória de um atleta, quase nunca se vê o treinador. Mas, sem treinador, não nasce um campeão, um treinador que invista tempo, que saiba entrever possibilidades que nem o atleta imaginaria. Não basta, porém, treinar o físico; é preciso saber falar ao coração, motivar, corrigir sem humilhar. Quanto mais genial for o atleta mais delicado tratar com ele: o verdadeiro treinador, o verdadeiro educador sabe falar ao coração de alguém que nasce campeão.”


O segredo para competir no campeonato da santidade?
Francisco: “Que faz um jogador quando é convocado para um jogo ou um atleta antes de uma competição? Deve treinar, treinar, treinar um pouco mais. A cada um Deus deu um campo no qual jogar a sua vida; sem treino, até o mais talentoso continua a ser um perdedor. Para treinar — até um Papa tem de continuar a treinar —, perguntar a Deus todos os dias: ‘Que queres que eu faça?, que queres da minha vida?’ Pedir a Jesus, confrontar-se com ele como treinador.”


O segredo da vitória
. Francisco: “Penso que, se perguntássemos a qualquer desportista o segredo último das suas vitórias, mais de um nos diria que vence porque é feliz. E a felicidade é a consequência de um coração em ordem, em estado de graça, pronto para o desafio.”


Um sã competição pode ajudar também o espírito a amadurecer?
Francisco: “São Paulo escreveu aos Coríntios: ‘Não sabeis que, nas corrida no estádio, todos correm, mas só um conquista o prémio? Correi também vós de modo a conquistá-lo’. É um belíssimo convite a entrar no jogo, para não olhar o mundo pela janela.”


A Igreja e o desporto
. “A Igreja sempre alimentou um grande interesse pelo mundo do desporto. Podemos dizer que no desporto as comunidades cristãs identificaram uma das gramáticas mais compreensíveis para falar com os jovens.” O desporto contribui para um desenvolvimento saudável e harmónico.


Votos para 2021
. “O meu desejo é muito simples, exprimo-o com as palavras escritas numa camiseta que me foi oferecida: ‘Mais vale uma derrota limpa do que uma vitória suja.’ Desejo isto para toda a gente, não só para o mundo do desporto. É a forma mais bela de jogar a vida com a cabeça erguida. Que Deus nos conceda dias santos. Por favor rezem por mim, para que não desista de treinar com Deus.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 2

 

O Papa Francisco é popular, também porque se assume como vindo do povo. Ele sabe da vida. Os pais eram imigrantes italianos na Argentina. Para pagar os estudos, trabalhou como guarda-nocturno de bares. Exerceu como técnico químico, pois os primeiros estudos foram de Química. Desde miúdo jogou à bola e afeiçoou-se ao desporto. E aí está agora com a "encíclica laica" - "Lo sport secondo Papa Francisco", in: La Gazzetta dello Sport, 2 de Janeiro, 2021 - sobre o desporto e o seu significado na e para a vida. Não é visível que o desporto arrasta multidões e que a dimensão lúdica é constitutiva do ser humano?


O desporto pode e deve ser uma grande escola de virtudes. Mais: a vida é um grande jogo, é mesmo o jogo decisivo, pois nele decide-se a própria vida. O jogo da vida está presente em todos os jogos, pois o que em todos os jogos se joga, também nos jogos económicos e políticos, é a vida. Quem perde e quem ganha? Quais são as regras e os critérios para este jogo? Quem é o árbitro definitivo que vai julgar a vida de cada um, julgar as histórias e a História?


1 A bola de trapos e o guarda-redes. 
Francisco recorda o seu tempo de miúdo e a alegria com que ia com a família ao "Gasómetro", o estádio do San Lorenzo, de que ainda continua adepto e fã. Lembra-se de modo especial do campeonato de 1946, quando o seu San Lorenzo ganhou. "Recordo os dias que passei a ver os futebolistas a jogar e a felicidade nos nossos rostos, a adrenalina no nosso sangue. E tenho outra recordação, a da bola de trapos: éramos pobres, mas ela bastava para nos divertirmos e quase fazer milagres jogando na pequena praça perto de casa. Em miúdo gostava do futebol, mas eu não era dos melhores, pelo contrário, chamavam-me 'perneta'. Por isso, punham-me sempre na baliza. Mas ser guarda-redes foi para mim uma escola de vida. O guarda-redes tem de estar pronto para responder a perigos que podem vir de todos os lados. Também joguei basquete, o que me deu prazer também."


2
 Diego Maradona. Diz Francisco: "Encontrei-o por ocasião de um jogo a favor da Paz em 2014. Recordo com prazer tudo o que fez pela Scholas Ocurrentes, a fundação que se ocupa dos necessitados em todo o mundo. No campo, era um poeta, um grande poeta que deu alegrias a milhões de pessoas, tanto na Argentina como em Nápoles. Também era um homem muito frágil. Tenho uma recordação pessoal do Campeonato do Mundo de 1986, que a Argentina ganhou graças a Maradona. Estava em Frankfurt a estudar, só soube da vitória contra a Alemanha no dia seguinte. Recordo isso como a vitória da solidão, pois era o único argentino e não tinha ninguém com quem celebrar a alegria da vitória: a solidão faz que te sintas realmente só, porque o que torna bela a alegria é poder partilhá-la."


Permita-se-me que lembre o que aqui escrevi recentemente sobre Maradona. Um ano antes de morrer, confessou que "não tinha sido exemplo para ninguém", voltou à Igreja, pediu paz para o tempo de vida que Deus ainda lhe concedesse.


3 O desporto e a festa.
 O desporto é também festa e celebração, uma espécie de liturgia, de pertença, observou o jornalista. "Sim, o desporto é tudo isso: esforço, motivação, assimilação das regras. E divertimento: penso nas coreografias nos estádios de futebol, nas bandeiras que se agitam, nas trombetas, nos foguetes, nos tambores: é como se tudo desaparecesse e o mundo ficasse suspenso naquele instante. Quando é bem vivido, o desporto é uma celebração: ali, é o encontro, a gente alegra-se, chora, sente 'pertencer' a uma equipa. 'Pertencer' é admitir que sozinhos não vivemos bem, pertencer é exultar, festejar...". O ser humano é um ser festivo.


4 Ganhar e perder. 
Da dinâmica desportiva fazem parte a vitória e a derrota. "Ganhar e perder são dois verbos que parecem opostos: todos gostam de ganhar, ninguém gosta de perder. A vitória contém uma emoção que é difícil de descrever, mas a derrota também tem qualquer coisa de maravilhoso. Para os que estão habituados a ganhar, é forte a tentação de se sentir invencível: a vitória pode por vezes tornar-te arrogante e levar-te a pensar que já chegaste. Pelo contrário, a derrota favorece a meditação: leva-nos a perguntar porque é que perdemos, fazemos um exame de consciência, analisamos o trabalho realizado. Por isso, de certas derrotas nascem grandes vitórias, porque, uma vez identificado o erro, acende-se a sede de redenção. Eu diria que os que ganham não sabem o que estão a perder. Não é só um jogo de palavras. Perguntem aos pobres."


5 Não desistir. 
"A tua desistência é o sonho do teu adversário: desistir é entregar-lhe a vitória. É sempre um risco: '"E se tivesse resistido mais uns instantes?!' Também é verdade que há dias em que é melhor continuar a lutar e outros nos quais é sábio deixar perder. A vida assemelha-se a uma guerra: pode-se perder uma batalha, mas a guerra, não. Um homem não morre quando é derrotado: morre quando desiste, quando deixa de combater."


6
 Exercícios espirituais. Há relação entre os Exercícios Espirituais e o treino desportivo? "Quando Santo Inácio escreveu os Exercícios, fê-lo pensando na sua história passada de soldado, feita de formação, exercícios, treinos. Intuiu que o espírito, como o corpo, deve ser treinado. Mais: exercitar-se requer disciplina, os exercícios são bons mestres. Exercitar-se para a bondade, para a beleza, para a verdade: ocasiões nas quais a pessoa pode descobrir dentro de si recursos inesperados. Que, depois, utiliza."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 JAN 2021

O PAPA FRANCISCO E O DESPORTO. 1

 

Não há dúvida de que o Papa Francisco é hoje uma das figuras mais destacadas e influentes no mundo, também das mais amadas, e em quem se deposita esperança para o futuro de um mundo melhor.


Penso que isso advém também do facto de ele não ser, na vida e na actuação, clerical ou eclesiástico. É um cristão que segue o Evangelho, notícia boa e felicitante, que está com todos, tanto nas suas tristezas e sofrimentos como nas suas alegrias e esperanças, dando cumprimento ao preceito do Concílio Vaticano II. A demonstrá-lo de modo concreto e inesperado está aí uma longa entrevista ao director, Stefano Barigelli, e ao vice-director, Pier Bergonzi, da Gazzeta dello Sport, que aparecerá também em livro, sobre o desporto. Uma espécie de “encíclica laica” sobre o universo desportivo enquanto metáfora da existência humana, individual e colectiva.


Logo de entrada, avança com os valores que ama no desporto, à volta de sete palavras-chave.


1. Lealdade
. O desporto é lealdade e respeito pelas regras, mas também luta contra os atalhos, luta contra o doping. “Tomar atalhos é uma das tentações com que frequentemente temos de lidar: pensamos ser a solução imediata e conveniente, mas quase sempre leva a consequências negativas. Penso, por exemplo, em quem vai à montanha: a tentação de procurar atalhos para chegar primeiro, em vez de seguir os caminhos indicados, esconde muitas vezes e inevitavelmente um lado trágico. O jogo e o desporto em geral são belos, quando se respeita as regras: sem regras, seria a anarquia, a confusão total. Respeitar as regras é aceitar o desafio de bater-se contra o adversário de modo leal. Portanto, a prática do doping no desporto não é só um engano, é um atalho que anula a dignidade.”


2
. Compromisso. O talento não é nada sem aplicação. Pode-se nascer talentoso, mas não se pode adormecer em cima do talento. “A história, não só a desportiva, mostra tanta gente de talento que depois se perdeu no caminho. No desporto, para vencer, não basta ter talento, é preciso treiná-lo, vivê-lo como oportunidade para prosseguir e manifestar o melhor de nós. A própria parábola evangélica dos talentos ajuda-nos nesta reflexão: o servo que, quando no regresso do patrão, restitui o talento recebido, porque com medo o tinha enterrado, é considerado mau precisamente porque não pôs a render o que recebera como dom. A parábola ensina-nos que Jesus é um treinador exigente: se enterrares o talento, já não fazes parte da sua equipa.”


3. Sacrifício
. “O sacrifício é um termo que o desporto partilha com a religião: vem de ‘sacrum-facere’, dar sacralidade ao esforço e à fatiga. Ninguém gosta de cansar-se a trabalhar, porque a fadiga é um peso. No entanto, se consegues encontrar um sentido para o esforço e a fadiga, o teu jugo torna-se mais leve. O atleta é um pouco como o santo: conhece a fadiga, mas não lhe pesa, porque, nela, é capaz de entrever algo outro, um mais além. Encontra uma motivação, que lhe permite não só enfrentar a fadiga, mas quase alegrar-se com ela: de facto, sem motivação, não se pode enfrentar o sacrifício. Depois, o sacrifício requer disciplina para poder ter êxito.”


4. Inclusão
. Este ano será o ano dos Jogos Olímpicos. “Desde sempre os Jogos são um sinal de inclusão, contraposto à cultura do racismo, do descarte. Peçamos ao Senhor a graça de poder arrancar para um ano de novo ponto de partida de tudo. Penso, por exemplo, no drama da falta de trabalho e da consequente desigualdade, cada vez maior, entre quem tem e quem perdeu até o pouco que tinha. Os Jogos Olímpicos, cujo desejo inato de construir pontes em vez de muros sempre apreciei, podem representar simbolicamente também o sinal de um ponto de partida novo e com um coração novo. No início da experiência dos Jogos Olímpicos, previa-se até a trégua nas guerras durante o tempo das competições. A cada quatro anos, o mundo tem a possibilidade de parar para se perguntar como está, como estão os outros, qual é o termómetro de tudo. Celebrar os Jogos Olímpicos é uma das formas mais altas de ecumenismo humano, da partilha do esforço para um mundo melhor.”


5. Espírito de equipa
. Fazer equipa é essencial no desporto. Também o é na vida de todos os dias. “É verdade: ninguém se salva sozinho. E como crente posso testemunhar que a fé não é um monólogo, mas um diálogo, uma conversa. Utilizando uma metáfora desportiva, dir-se-ia que só nos podemos salvar como equipa. O desporto tem isto de belo: tudo funciona em equipa. Os desportos de equipa assemelham-se a uma orquestra: cada um dá o seu melhor no que lhe compete, sob a sábia direcção do maestro. Ou se joga em conjunto ou se corre o risco de estragar tudo. É assim que grupos pequenos, mas capazes de permanecer unidos, chegam a bater grandes equipas incapazes de trabalhar em conjunto.”


6. Ascese
. Ao pensar na história de tantíssimos santos e santas, “é evidente que praticar ascese não significa só renunciar. O desporto di-lo muito bem: imagino as escaladas de oito mil metros, as imersões nos abismos, as travessias dos oceanos como intentos de buscar outra dimensão, mais alta, menos habitual. É redescobrir a possibilidade do espanto, do assombro, do transcendimento.”


7. Resgate
. Desporto também é dizer redenção para todos. “Não basta sonhar com o êxito, é preciso despertar e trabalhar no duro. O desporto está cheio de gente que, com o suor do seu rosto, venceu os que nasceram com o talento no bolso. É por isso que certas vitórias nos levam à comoção.” (Continua).

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 09 JAN 2021

A INFÂNCIA DE JESUS

Jesus no Templo de Heinrich Hoffmann (1881).jpg

 

Longe de mim querer minimamente ferir o fascínio da magia divina das narrativas do Natal, mas é natural que a pessoas se perguntem como foi a infância de Jesus, em que data nasceu e onde, quem eram os reis magos, se houve a matança dos inocentes, se Jesus menino foi levado para o Egipto...

É a essas muitas perguntas que vou tentar responder, inspirando-me em parte no exegeta Ariel Álvarez Valdés: Cuál es el origen del diablo? Para descobrir o sentido autêntico e profundo das celebrações natalícias.

1. O Natal é a maior festa do cristianismo? Embora seja a mais popular, e compreende-se - a luz, o calor humano da família e da amizade, a evocação do milagare do nascimento de uma criança... -, o Natal não é a festa maior. A festa central da fé cristã é a Páscoa, que celebra a vida, o anúncio da boa nova do Reino de Deus, a paixão e morte de Jesus e a sua ressurreição: na morte, Jesus não morreu para o nada, na morte encontrou a plenitude da vida em Deus, que é Pai-Mãe. Este é o núcleo da mensagem cristã, como proclamou São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé.”
E é à luz da Páscoa que se comprendem as narrativas do Natal. De facto, no início, os cristãos não se interessaram pelo seu nascimento, pois o essencial era a vida, a morte e a ressurreição.

2. Como apareceu a festa do Natal? Hoje, nenhum historiador sério nega que Jesus existiu realmente. Quando, por volta do séculos III-IV já havia comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, houve a ideia de transformar a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto), associada ao solstícoo do Inverno, quando os dias começam a aumentar e com eles a luz solar, na festa do nascimento do Sol dos cristãos, dAquele que é o verdadeiro Sol invencível, a Luz verdadeira. A Missa do galo está associada a esta luz, o galo canta, anunciando a aurora.

3. Quando nasceu? Estamos enganados quando dizemos que entrámos no ano 2021 depois de Cristo. De facto, no século VI, quando o cristianismo já se tinha vastamente difundido e Jesus surgia como figura determinante da História, de tal modo que agora o calendário se deveria orientar pela data do seu nascimento: a. C., d. C. (antes de Cristo, depois de Cristo), o monge encarregado de determinar essa data, Dionísio, o Exíguo, enganou-se em 4 ou mesmo 6 anos. Portanto, Jesus, paradoxalmente, nasceu em 4-6 a.C.

4. Nasceu em Belém? Voltamos ao início. O essencial da fé cristã encontra-se na Páscoa. Foi a partir dessa fé que os discípulos leram a vida histórica de Jesus, real, situada num tempo concreto, uma história real, mas lida e interpretada com o olhar da fé. Esta leitura é particularmente visível nos relatos da infância, que só aparecem nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, utilizando um género literário próprio, que projecta e vê no princípio o que sabem no fim: em Jesus cumpriram-se as promessas, Ele é o Messias, o Filho de Deus, o Salvador por todos esperado. Na realidade, Jesus terá nascido em Nazaré: é conhecido por Jesus de Nazaré ou o Nazareno. Mas puseram-no a nascer em Belém: trata-se de mostrar que ele é o verdadeiro Messias e rei, da descendência de David, que era de Belém.

5. São José é o pai de Jesus? A teologia não é um tratado de biologia e anatomia. São Paulo escreverá de modo simples: Jesus, “nascido de mulher”, para dizer que é da nossa raça, que é o que se lê também nos dois evangelistas. Mas Ele é único, especial. Para mostrar que João Baptista é especial, os Evangelhos dirão que foi concebido quando a mãe, Isabel, já não podia ter filhos. Quanto a Jesus, acreditando que Ele é o Filho de Deus, a revelação definitiva de Deus como Pai, escreverão que foi concebido pelo Espírito Santo.
A mãe era Maria, o pai era José. Tinha irmãos e irmãs. Há algum mal em ter uma família numerosa?

6. Como foi a sua infância? Normal e despercebida, de tal modo que, quando aparece em Nazaré, no início da vida pública, a anunciar o Reino de Deus, os seus conterrâneos ficam profundamente admirados a ponto de perguntarem: não é este o carpinteiro, a família dele não vive entre nós?
Certamente, frequentando a sinagoga, Jesus aprendeu a rezar, a escrever e a ler as Escrituras (Antigo Testamento) até aos 12 anos, quando iniciou a aprendizagem do ofício de tekton, artesão, trabalhando com a madeira, a pedra, o ferro: um ofício duro. Trabalhou em vários lugares, o que lhe deu conhecimento da vida, da sua dureza, das relações sociais e dos seus labirintos.

7. O episódio dos reis magos vindos do Oriente, guiados por uma estrela, é dos mais conhecidos e fascinantes para o imaginário colectivo, mas, quando se analisa criticamente todos os dados, realmente não crível historicamente.
O que se passa é que o evangelista compara Jesus com o rei Salomão. Salomão, tão estimado pelos judeus pela sua sabedoria, foi visitado por uma rainha anónima vinda de longe, de Sabá, atraída pela sua fama. Jesus é mais do que Salomão. Ele é a Sabedoria verdadeira, que a todos ilumina. Daí, a visita dos reis.

8. Também não é crível a matança dos inocentes. Como seria possível Flávio Josefo não ter referido essa matança?
O evangelista compara Jesus e Moisés. Aquando do seu nascimento, o faraó mandou matar todos os meninos nascidos no Egipto. E Jesus é levado para o Egipto - realmente nunca terá lá estado -, donde voltará. Para dizer que Jesus é o novo verdadeiro Moisés, o Libertador de todo o mal e opressão, incluindo a morte. Porque Deus não suporta a opressão, a escravidão.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 02 JAN 2021

ENTRE O ANO VELHO E O ANO NOVO

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A passagem de ano é sempre, mesmo nesta nossa presente circunstância triste e confinada, um tempo especial: balanço do ano que passou, perspectivação do ano novo que chega.

1. Agora, percebemos melhor que é preciso programar, mas há também o imprevisível. Quem poderia prever há um ano que iria cair sobre nós, nós todos, globalmente, esta catástrofe de uma pandemia: um vírus invisível, com sofrimentos indizíveis por todo o lado, que nos traz a todos em sobressalto permanente? Tivemos de aprender por experiência dura o que não conhecíamos: palavras como covid-19, confinamento, desconfinamento, reconfinamento, “distância social”, máscaras (sabíamos, mas era tudo em abstracto)... Sobretudo: que muitos, no fim do ano de 2020, já cá não estão, e foram-se sem uma despedida, como se tivessem desaparecido numa noite de breu, no meio de uma tempestade...

Ficámos a saber - será que ficámos? -, nós que nos julgávamos omnipotentes, que afinal somos frágeis, terrivelmente frágeis. E oxalá tenhamos aprendido que somos todos interdependentes, para o melhor e para o pior. E esta desgraça pandémica também nos mostrou à saciedade que o ser humano é de uma inaudita complexidade e de terríveis contradições: somos capazes de generosidade heróica para salvar pessoas, mas também está aí a nossa loucura e brutalidade: apesar da pandemia, que esperaria uma trégua no meio do horror, guerras brutais, terrorismos hediondos, assassinatos arrepiantes, violações repugnantes, exploração clamorosa dos mais fracos... continuaram. Já Sófocles constatou: “Coisas terríveis há, mas nenhuma mais terrível que o Homem.”

Daqui a alguns anos, quando se voltar ao “normal” - o que é isso? -, o que se dirá desta desgraça? O que ficará na memória? A memória humana é curta e talvez só quando vier outra pandemia - ela virá com certeza, sobretudo se não houver a necessária conversão quanto ao modelo de desenvolvimento, que atenda ao meio ambiente e à justiça para toda a Humanidade, no quadro de uma racionalidade dialógica global, como propugna J. Habermas - é que aqueles que cá estiverem recordarão... Quem se lembrava de que, no século XIV, a peste negra fez 100 milhões de mortos e que há cem anos a gripe espanhola ceifou uns 50 milhões de vidas, incluindo os dois pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta?

2. Perante um ano novo que está aí à nossa frente, os sentimentos misturam-se: perplexidade, entusiasmo, dúvida, expectativa, temor, temores, esperança. Que é que nos reserva 2021? Para mim, para a minha família, para os meus amigos, para o país, para a Europa, para o mundo? Será melhor, será pior que o ano que passou?

Ele está aí novo, pela primeira vez, como criança acabada de nascer. E exactamente como a criança está aí com confiança. Todos nós, individual e colectivamente, enfrentamos o novo ano essencialmente com confiança: se reflectirmos bem, esperamos, evidentemente com realismo, também com algum ou muito temor, mas essencialmente esperamos confiadamente, tanto mais quanto está aí a vacina. O ser humano é um ser constitutivamente esperante, apesar da dureza toda com que a vida nos vai confrontando.

Porque é que os homens e as mulheres, apesar de todos os fracassos, horrores, sofrimentos e cinismos, ainda não desistimos de lutar e esperar? Porque é que continuamos a ter filhos? Porque é que depois de guerras destruidoras e pestes e terramotos devoradores, recomeçamos sempre de novo? Perguntava, com razão, o célebre teólogo Johann Baptist Metz: “Porque é que recomeçamos sempre de novo, apesar de todas as lembranças que temos do fracasso e das seduções enganadoras das nossas esperanças? Porque é que sonhamos sempre de novo com uma felicidade futura da liberdade”, embora saibamos que os mortos não participarão nela? Porque é que não renunciamos à luta pelo Homem novo? Porque é que o Homem se levanta sempre de novo, “numa rebelião impotente”, contra o sofrimento que não pode ser sanado? “Porque é que o Homem institui sempre de novo novas medidas para a justiça universal, apesar de saber que a morte as desautoriza outra vez” e que na geração seguinte de novo a maioria não participará nelas? Donde é que vem ao Homem “o seu poder de resistência contra a apatia e o desespero? Porque é que o Homem se recusa a pactuar com o absurdo, presente na experiência de todo o sofrimento não reparado? Donde é que vem a força da revolta, da rebelião?”

Neste movimento incontível. ilimitado, do combate da esperança, pode ver-se um aceno do Infinito, um sinal de Deus. Como se não cansou de repetir o ateu Ernst Bloch, um dos filósofos maiores do século XX: “Onde há esperança, há religião”.

3. Um propósito bom para o novo ano: prometer a si mesmo, a si mesma, no meio do turbilhão da vida, do barulho e da agitação, alguns momentos diários de meditação, de silêncio, para o aparentemente inútil, que é o mais necessário: ouvir o Silêncio, ouvir a voz da consciência e da razão, falar com o Mistério, talvez mudar de rumo. Neste contexto, permita-se-me evocar Maradona, a quem chamaram “deus”, um dos mais famosos a desaparecer em 2020: um ano antes, confessou que “não era exemplo para ninguém”, que tinha cometido “muitos erros”, mas também tinha feito “coisas boas”, que “o regresso à Igreja fora inspirado pela vida e a fé da sua mãe” - “uma das coisas que aprendeu dela foi a fé simples”, “tinha orgulho nela e no seu pai também” -, que “queria paz para o tempo de vida que Deus ainda lhe concedesse.”

Bom ano!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 DEZ 2020