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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS INIMIGOS DO PAPA FRANCISCO

 

1. No meio desta tragédia da pedofilia do clero, que coloca a Igreja Católica numa crise sem precedentes, e quando se pode erguer a suspeita de que ela é um antro de anormais e pedófilos, parece-me justo esclarecer que, no mundo dos pedófilos, a percentagem dos padres é mínima.

 

Sinceramente, esta constatação não é para mim de modo algum motivo de consolação. Pelo contrário. De facto, este dado só vem confirmar que o número de crianças que sofreram e que sofrem é muitíssimo mais vasto do que aquilo que se poderia imaginar.

 

Depois, os abusos de menores e adultos fragilizados por parte do clero têm uma agravante terrível: as pessoas confiavam, diria que de modo incondicional, nos padres e na Igreja, e foi essa confiança que foi traída. Uma traição que envergonha  os católicos. E a agravar ainda mais a situação: responsáveis, incluindo bispos e cardeais e a Cúria Romana, ocultaram e encobriram estes horrores, porque pensaram que o mais importante era defender e salvaguardar a honra e o prestígio da Igreja enquanto instituição. Evitar a todo o custo o escândalo era a palavra de ordem. Deste modo, o Evangelho foi ferido de modo brutal no seu núcleo, que é colocar a pessoa e a sua dignidade no centro, sobretudo quando se trata de vítimas inocentes. Uma catástrofe moral.

 

Sobre as crianças, há duas palavras essenciais de Jesus no Evangelho, que é necessário continuamente relembrar. A primeira: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus. Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser como elas.” Elas são simples e não discriminam... A outra palavra de Jesus é terrível: “Ai de quem escandalizar uma criança, ai de quem fizer mal a uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar.”

 

2. Causas para este colapso moral são muitas. Mas o Papa Francisco apresenta como principal o clericalismo e, consequentemente, o carreirismo, que ele, desde o princípio, diz que constituem “a peste da Igreja”, sempre em conexão com a Cúria Romana, a corte, de que ele diz que é “a lepra do papado”. Neste contexto, Francisco associa “abusos sexuais, de poder e consciência”. Disse, há uns meses, ao episcopado chileno: “Há uma ferida aberta, dolorosa, e até agora foi tratada com um remédio que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor. Os problemas que hoje se vivem dentro da comunidade eclesial não se solucionam apenas abordando os casos concretos e removendo pessoas. Constituiria grave omissão da nossa parte não aprofundar nas raízes. Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados, que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos outros, pondo assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial.”

 

No seu comentário, Ramón Alario caracteriza estas palavras como “duras, corajosas, clarividentes”, pois mostram que é preciso ir à raiz deste tsunami da pederastia do clero e atacá-la enquanto “problema estrutural”, portanto, para lá da responsabilidade das pessoas concretas. Evidentemente, o celibato imposto tem de ser considerado, mas como parte de uma estrutura clerical muito mais ampla e um dos seus pilares. Alguns dos elementos que fazem parte desta estrutura: “concentração do poder nas mãos da clerezia”, poder hierarquizado e assente na contraposição clérigos/leigos; um poder patriarcal e machista, que exclui as mulheres; a carreira e ascensão no poder fazem-se mediante dois mecanismos complementares: “a obediência e/ou a hipocrisia”; “uma concepção e prática dualista e maniqueia” concretamente em relação à sexualidade; “sobrevalorização do celibatário”, considerado mais perfeito do que o casado, porque mais próximo de Deus; o celibato obrigatório é “uma imposição legal” para poder pertencer a esta classe superior; o clero está à frente de “comunidades reduzidas a lugares de culto e serviço religioso à volta do padre, sem voz nem voto nas decisões de base: convertidas em grupos menores de idade...”.

 

Depois, pode dar isto, segundo aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade: “Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros”. Nietzsche, que proclamou a morte de Deus, também deixou escrito, na mesma obra, Assim Falava Zaratustra: “Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar”.

 

3. Francisco quer renovar a Igreja, refontalizá-la, levando-a às origens, com o Evangelho de Jesus. Tolerância zero para a pedofilia. Transparência nas contas do Banco do Vaticano. Reforma profunda da Cúria. Uma Igreja fraterna, pobre, em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma igreja viva, que não é museu. Sem clericalismo, capaz de se aproximar dos divorciados recasados, dos homossexuais, que são católicos como os outros (o problema não é ser homossexual, o problema é “o lóbi gay”, diz). Francisco também está próximo dos mais desfavorecidos e critica o capitalismo desenfreado, escreveu uma encíclica, a Laudato Sí, apelando à necessidade de salvaguardar a Terra, criação de Deus e nossa casa comum, e também à necessidade de humanitariedade para com os migrantes e refugiados...

 

Evidentemente, os rigoristas fariseus e os lóbis económicos não gostam e atacam-no ferozmente, acusando-o inclusivamente de heresia.

 

Recentemente, o arcebispo Carlo Maria Viganò, num golpe cobarde e vil, pretendeu acusá-lo de cumplicidade e encobridor. Francisco, naquela sabedoria só dele, disse aos jornalistas que fossem profissionais e cumprissem o seu dever de investigação, e eles cumpriram e a imprensa internacional desmascarou o ex-Núncio Viganó e os seus apaniguados, envolvidos em mentiras e contradições. E a Igreja universal, que queriam ver desunida, tem vindo massivamente a manifestar o seu apoio incondicional a Francisco. Também a Conferência Episcopal Portuguesa o fez.  Para lá dos eclesiásticos, é longa a lista de políticos (incluindo Trump) e figuras públicas que vieram em defesa de Francisco.

 

Quem já anunciava que dentro de semanas ou meses teríamos a renúncia de Francisco e um Papa conservador a suceder-lhe devia saber que ele já preveniu que não sai a pontapé. Como tenho vindo a repetir, estou convicto de que Francisco, nesse encontro admirável de franciscano e jesuíta, não se demite nem se deprime. E não se ficará só com pedidos de perdão e exigência de justiça, incluindo a justiça civil. Até porque é preciso ir mais longe e fundo. Pode vir aí um Sínodo — Francisco está continuamente a falar da sinodalidade da Igreja, que quer dizer necessidade de caminhar juntos e em comum —, um Sínodo enquanto reunião universal de toda a Igreja, com representação de bispos, mas também de padres, de religiosos e de religiosas, da Cúria, de leigos e de leigas, portanto, eles e elas, na devida proporção, sob a presidência do Papa. Para debater esta e muitas outras questões. A que se deve esta tragédia? Como caminhar para estruturas mais democráticas na Igreja? Que novo tipo de padre? Ordenar homens casados? Pôr fim à lei do celibato? Qual o papel das mulheres na Igreja? É legítimo continuar a discriminá-las, contra a vontade de Jesus? O que é que as impede de poderem presidir à celebração da Eucaristia? Que moral sexual? O que é que a Igreja pensa de si mesma, da sua identidade e missão? Como é que deve ir ao encontro da Humanidade actual, com os seus novos problemas, questões de bioética, questões que têm a ver com o transhumanismo e o pós-humanismo, a justiça social, os direitos humanos, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a paz num mundo globalizado...

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 8 SET 2018

A MÍSTICA DO QUOTIDIANO 

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Há uma história que Aristóteles narra sobre uma palavra do filósofo Heráclito a uns forasteiros que queriam chegar até ele. Aproximando-se, viram como se aquecia junto a um fogão. Detiveram-se surpreendidos, enquanto ele lhes dava ânimo: "Também aqui estão presentes os deuses."

 

Os visitantes ficaram frustrados e desconcertados na curiosidade que os levou a irem ao encontro do pensador. Julgavam ter de encontrá-lo em circunstâncias que, ao contrário do viver dos homens comuns, deveriam mostrar em tudo os traços do excepcional e do raro e, por isso, excitante.

 

Em vez disso - e estou a transcrever o comentário do filósofo Martin Heidegger à história relatada por Aristóteles -, os curiosos encontraram Heráclito junto ao fogão. É um lugar banal e bastante comum. Ver um pensador com frio que se aquece tem muito pouco de interessante. A situação é mesmo frustrante para os curiosos. Que farão ali? Heráclito lê essa curiosidade frustrada nos seus rostos. Ele sabe que a falta de algo de sensacional e inesperado é suficiente para fazer com que os recém-chegados se vão embora. Por isso, infunde-lhes ânimo. Pede-lhes que entrem: "Também aqui estão presentes os deuses." Também ali, naquele lugar corriqueiro, é o espaço para a presentificação de Deus.

 

A mística Santa Teresa de Ávila também dizia que Deus anda na cozinha no meio das panelas. Para sublinhar que quem julga encontrar Deus fora do mundo lida apenas com as suas ilusões.

 

E há muitas formas de ilusão e pseudomística. Escreveu, com razão, o então cardeal Joseph Ratzinger: "A curiosa magia dos estupefacientes apresenta-se como atalho para o Paraíso, aquele atalho que nos pouparia todo o "penoso" caminho da ascética e da moral. A droga é a pseudomística de um mundo que não tem fé, mas que de modo algum pode prescindir da ânsia da alma pelo Paraíso. A droga é, por conseguinte, um sinal indicador de algo mais profundo: não só descobre na nossa sociedade um vazio, que esta não é capaz de preencher com os seus próprios meios, como chama a atenção para uma exigência íntima do ser humano, que, se não encontrar a resposta acertada, se manifesta de forma pervertida."

 

Santo Agostinho viu bem, quando rezou: "Senhor fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti." Jesus, que é quem terá feito a máxima experiência mística, já tinha prevenido: quem quiser salvar a sua vida perde-a; quem a perder por amor de Deus e dos outros ganha-a. É preciso ir até ao mais fundo e mais íntimo, porque é lá que se encontra Deus. Mas é sempre a dialéctica do perder e ganhar. Onde está o nosso eu verdadeiro? Dou um exemplo: onde está o nosso eu, quando escutamos uma daquelas sinfonias que nos exaltam e extasiam? Aparentemente, perdemo-lo, pois, na exaltação da sinfonia, não pensamos em nós, até nos esquecemos de nós, mas, precisamente aí, suspende-se o tempo e a morte e somos verdadeiramente nós.

 

Então? Qual é a mística verdadeira? É aquela que, em Deus, o Bem e a Beleza, leva a tratar dos irmãos e a transformar o mundo. Há, de facto, muita religião falsa, que os filósofos da suspeita justamente apelidaram de ópio. Mas também os estupefacientes são pseudomística. Por um lado, repito, eles exprimem, numa sociedade em que se experimenta o vazio, a necessidade de salvação e de sentido. Mas, por outro, na droga, o que acontece é a alienação. Pretende-se superar os problemas, mas os problemas continuam lá, e mais graves. A droga leva a "viagens" aparentemente felicitantes, mas, como aquilo é produto da química, quando se regressa da viagem, reencontra-se os problemas e está-se com menos força e energia para enfrentá-los. O critério da mística autêntica tem, portanto, que ver com a força e energia para enfrentar a existência e transformá-la e contribuir para uma sociedade mais justa, fraterna e livre.

 

Na união com Deus, Mistério último da realidade, o crente continua no mundo, embora o veja, precisamente por causa dessa união, a uma luz nova. Por isso, mística, sem o compromisso com os outros, concretizado também no amor político, que inclui o amor cósmico-ecológico, é auto-engano. Como escreveu o filósofo Henri Bergson, "a mística completa é acção"; o místico autêntico, "através de Deus, por Deus, ama a humanidade inteira com um amor divino". Aliás, para Bergson, a prova da existência de Deus são os místicos.

 

Por isso, todas as religiões acentuam o vínculo indissolúvel entre mística e ética. São João escreveu de modo forte e pregnante: "Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" São Tiago não é menos explícito: "De que aproveitará a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano e um de vós lhe disser: "Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos", sem lhes dar o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se a fé não tiver obras, está completamente morta.

 

O Evangelho deixa qualquer leitor perplexo. De facto, referindo-se ao Juízo Final, não à maneira de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, mas no sentido mais profundo da revelação definitiva do que é a realidade verdadeira na sua ultimidade, de quem é Deus para o ser humano e o ser humano para Deus, não pergunta aos homens e às mulheres, em ordem à salvação, se praticaram actos religiosos de culto, mas se deram de comer ao famintos e de beber aos que têm sede, se vestiram os nus, se trataram os doentes e os abandonados, se foram à cadeia visitar os presos (e supõe-se que estavam lá justamente condenados)... E os salvos, que não sabiam, ficam a saber que foi ao próprio Cristo que deram de comer, de beber, que vestiram, que acolheram, que visitaram no hospital ou na cadeia, que trataram em todas as dificuldades, que promoveram, que foi a ele que deram a mão. Apresenta-se, pois, como critério de juízo sobre a história a humanitariedade, isto é, o interesse real, prático, eficaz, pelo ser humano necessitado, na unidade do amor de Deus e do próximo.

 

O místico Ruysbroek disse: "Se estiveres em êxtase e o teu irmão precisar de um remédio, deixa o êxtase e vai levar o remédio ao teu irmão; o Deus que deixas é menos seguro do que o Deus que encontras." Também Buda, depois de ter lavado e tratado de um monge doente e abandonado, disse aos seus monges: "Quem quiser cuidar de mim cuide dos enfermos." São João da Cruz tem aquela expressão famosa: "Ao entardecer desta vida examinar-te-ão no amor."

 

Aí está, em síntese, a missão da Igreja: ser a multinacional do sentido, sentido último, que se encontra no Mistério, em Deus, e o espaço do combate, lúcido e eficaz, pela humanitariedade, num mundo justo e livre. A vida na sua dupla vertente: vida contemplativa e vida activa.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 01 SET 2018

O equívoco da fé "na" Igreja

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1. É de A. Loisy um dos ditos que, desde o seu pronunciamento, no início do século XX, mais animaram o debate teológico: "Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, mas o que veio foi a Igreja." E é um dito decisivo também para a compreensão em profundidade da tragédia da pedofilia por parte do clero.

 

Quando se recita o credo (a síntese da fé cristã), é necessário estar prevenido contra possíveis alçapões. Vejamos. Diz-se: "Creio em Deus Pai, em Jesus Cristo, no Espírito Santo." Em português também se diz "Creio na Igreja una, santa, católica", como se esta estivesse ao mesmo nível de Deus. Realmente, não pode ser nem é assim. Aliás, o latim faz a distinção essencial, pois diz: "Credo in Deum..."; porém, não diz "Credo in Ecclesiam", mas "Credo Ecclesiam". A diferença essencial está naquele "in": Creio "em" Deus, o que significa: entrego-me confiadamente a Deus, mas não creio "na" Igreja; o que lá está é: em Igreja, isto é, fazendo parte da Igreja como comunidade de todos os baptizados, creio em Deus, em Jesus e espero a vida eterna...

 

Como habitualmente se coloca tudo no mesmo plano, dizendo "creio na Igreja", é fácil interiorizar a ideia de que se acredita na Igreja enquanto instituição, e instituição divina, com todos os enganos e desastres que se sucedem.

 

Jesus queria a Igreja enquanto povo de Deus, não uma Igreja instituição de poder e clerical, com duas classes: de um lado, a hierarquia, o clero, que ensina e que manda em nome de Deus, e, do outro, os leigos, os que obedecem. Veja-se o significado da palavra leigo no linguajar comum: sou um "leigo", com o sentido de incompetente, ignorante. Ou a expressão referida aos padres, quando lhes é retirado o ministério: "foi reduzido ao estado laical", com o sentido implícito de ter perdido o privilégio de clérigo. Na Igreja, segundo Jesus, há ou deveria haver uma igualdade radical e, consequentemente, nela deve reinar a fraternidade, a igualdade e a liberdade. Evidentemente, uma vez que há muitos cristãos e católicos, terá de haver alguma organização, algo institucional, mas a instituição tem de estar ao serviço da Igreja povo de Deus, e não hipostasiar-se, sacralizar-se, dando a si mesma atributos divinos. Aliás, Jesus disse: "Eu vim não para ser servido mas para servir." Na Igreja, há serviços, ministérios.

 

O que se passou e passa é que a hierarquia, padres e bispos, sacralizaram-se, atribuindo-se a si mesmos privilégios sacros ao serviço dos quais estaria o próprio celibato. Eles trazem Cristo à terra na Eucaristia, só eles perdoam os pecados, e formam uma espécie de casta à parte, como diz a própria palavra clero, são ministros, mas ministros sagrados... O padre é alter Christus (outro Cristo). Isso foi de tal modo interiorizado pelo comum dos católicos que há constantemente o perigo da deriva para o clericalismo, como diz o padre Stéphane Joulain, psicoterapeuta: "Considerar que, porque se foi ordenado, se tem direito a uma forma de reverência é um erro, de que alguns não hesitam em abusar... A cultura de um país, a sua história, desempenham um papel nisso: nos Estado Unidos, mas também na África, os leigos encontram-se numa grande submissão aos padres. Alguns fiéis, citados no relatório judicial da Pensilvânia, contam que, quando um padre os visitava, era como se o próprio Deus entrasse em casa..."

 

Mais: neste contexto, também se entende que o perigo máximo consista em defender e proteger a instituição, mesmo à custa daqueles que verdadeiramente deveriam ser defendidos e protegidos: as crianças e os mais frágeis. O encobrimento para defender a Igreja-instituição no seu prestígio!

 

 

2. Perante os escândalos que se sucedem - Irlanda, Chile, Austrália, Estados Unidos... -, o arcebispo de Boston e presidente da Pontifícia Comissão para a Protecção de Menores, cardeal Sean O"Malley, manifestou-se "totalmente envergonhado pelos atrozes fracassos" na sua protecção - "há momentos em que nos faltam as palavras" -, esperando que a Igreja abrace finalmente de verdade a "conversão pastoral", a "transparência legal" e a "responsabilidade pastoral".

 

Neste contexto, o Papa Francisco escreveu uma carta a todo o povo de Deus, co-responsabilizando-o nesta tarefa. Uma carta inédita, sentida, corajosa, leal, na qual condena com "dor e vergonha" as "atrocidades" dos abusos sexuais, denuncia o clericalismo, "peste da Igreja", como uma causa fundamental dos abusos - este "modo desviante de conceber a autoridade na Igreja gera uma cisão no corpo eclesial que encoraja e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos" -, afirma que "as feridas nunca prescrevem" e que os abusos são "um pecado" e um "crime", como sublinhou Greg Burke, o porta-voz do Vaticano, acrescentando que "é preciso que os culpados prestem contas urgentemente, não só os que cometeram esses crimes mas também os que os encobriram, o que em muitos casos inclui os bispos". Para lá das sanções previstas pela Igreja e a colaboração com a justiça civil, Francisco sublinha que é "necessário que cada baptizado se sinta comprometido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos".

 

 

3. Medidas concretas, pois, como justamente se tem afirmado, "não basta a conversão espiritual".

 

O secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, admitiu que os abusos tiveram um "impacto devastador na Igreja". Como o Papa Francisco insiste, "o nosso primeiro compromisso é estar com as vítimas e ajudá-las para que possam reconstruir as suas vidas". Ajudá-las nos vários domínios, ouvindo-as, acolhendo-as, dando-lhes protecção real, apoio psicológico, ajudas materiais...

 

É necessário abrir os arquivos, pois só com a verdade se poderá fazer justiça, justiça para todos, garantindo também a legítima defesa dos acusados.

 

O que se passa na Cúria, com as suas ocultações?

 

Terá de haver lucidez e coragem para pôr fim à lei do celibato obrigatório para os padres. E as mulheres têm de encontrar na Igreja o seu lugar em igualdade com os homens, segundo os ensinamentos e prática de Jesus. Rever o actual modelo de padre e caminhar no sentido de um escrutínio psicológico dos candidatos a padres, como já acontecia a seguir ao concílio. Neste sentido, já há muitos anos, o teólogo e psicanalista Eugen Drewermann, num livro célebre, Die Kleriker (Os Clérigos), escreveu: "O problema da psicologia do estado clerical adquire uma relevância de primeira ordem e apresenta-se, cada dia mais, como o verdadeiro ponto débil da Igreja Católica."

 

 

4. Perante uma das piores crises da história da Igreja, importa refundá-la, indo ao encontro do Evangelho. Na linha da carta de Francisco, apelando à co-responsabilidade de todo o povo de Deus, penso que se deveria convocar um sínodo, com a representação dos bispos de todo o mundo, mas também da Cúria, dos padres, dos religiosos e das religiosas e dos leigos, eles e elas, proporcionalmente ao seu número, sob a presidência do Papa.

 

Como escreveu Joana Petiz a propósito destes escândalos que bradam aos céus, "a Igreja Católica não é isto. Mas enquanto não tomar medidas sérias e exemplares contra aqueles que usam Deus como desculpa para submeterem os mais fracos - precisamente o oposto do que defende a religião - será confundida com isto, com o que de pior existe no mundo."

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 25 AGO 2018

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 19 a 25 de dezembro de 2016.

 

Em leituras natalícias, escolhemos três livros - «Joga-se aqui o essencial – Um olhar sobre o que somos» da autoria de D. Manuel Clemente (Assírio e Alvim); «Tudo o que Existe Louvará» de Adélia Prado (Assírio e Alvim) e «Deus, Religiões e (In)Felicidade» de Anselmo Borges (Gradiva). São três obras recentes, a merecerem uma especial atenção pela sua grande qualidade.
 

 

UM LIVRO DO PATRIARCA DE LISBOA
«Joga-se aqui o essencial – Um olhar sobre o que somos» da autoria de D. Manuel Clemente, com posfácio de António Araújo (Assírio e Alvim) é uma excelente leitura para este Natal. São textos que dizem respeito ao período de exercício do autor enquanto Patriarca de Lisboa, de 2013 até ao presente. São homílias, mensagens pastorais e intervenções em colóquios académicos e civis, além de conferências várias. É um manancial da maior importância. Estamos, no fundo, perante uma celebração viva da comemoração dos três séculos da Bula de Clemente XI, de 7 de novembro de 1716, que concedeu ao Arcebispo de Lisboa o título de Patriarca. Os temas estão apresentados por ordem alfabética, de forma pedagógica, como D. Manuel bem aprecia e sabe, e constituem uma espécie de dicionário sobre o pensamento do autor. Leia-se, por exemplo, a propósito do Amor o seguinte: «Misericórdia é a palavra nossa que traduz todos os vocábulos com que a Bíblia nos comunica os sentimentos de Deus para com o povo eleito. Amor profundamente sentido e por isso mesmo “entranhado”; compaixão indefectível, mesmo que não correspondida; atenção prioritária aos mais pobres e humildes. Assim mesmo se traduz a misericórdia divina: um coração voltado para quem mais precisa; como todos afinal precisamos, “mendigos do amor”». Afinal, o coração compassivo, representado pela misericórdia, nas suas diferentes manifestações, pressupõe a atenção e o cuidado, que nos aproxima de quem espera por nós. E é esse o desafio ético perante o qual nos encontramos. Percebe-se como aqui se joga o essencial. Do Amor a Zigmunt Bauman, passando pelo Bem Comum Universal, pela Crise, pelo Desenvolvimento, pela Espiritualidade, por José da Cruz Policarpo, pela liberdade Religiosa, pelo Papa Francisco, por Santo António, por Sophia de Mello Breyner, pelo 25 de Abril ou por Xenofobia – todos esses pontos são referências que nos tornam mais atentos e despertos relativamente aos problemas com que se defrontam os cristãos. Em cada um dos diversos temas, do que se trata é de compreender como devemos exercer a liberdade e a responsabilidade, como devemos assumir a dignidade humana, como somos chamados a responder – sobre quem é o nosso irmão; quem é o nosso próximo. É o olhar sobre o que somos. E em mais um Natal temos de saber ouvir quem mais de nós precisa. E deste modo dar é mais exaltante do que receber, percebendo-se sempre que o amor cristão, agapé, obriga a uma troca, generosa e genuína… Como diz S. Francisco de Assis: «Oh Mestre, fazei com que eu procure mais consolar/ Que ser consolado/ Compreender, que ser compreendido/ Amar, que ser amado/ Pois é dando que se recebe/ É perdoando, que se é perdoado/ E é morrendo que se vive para a vida eterna». «O Verbo fez-Se carne e habitou em nós». Como lembra ainda D. Manuel Clemente, «podemos traduzir Verbo, a palavra latina que traduz a palavra grega “logos”, com os teólogos e, antes dos teólogos, ainda, com os filósofos, quer como «razão», quer como “palavra”» - Deus comunica-Se, Deus que nós nunca vimos… Eis como os poetas dizem mais claramente do que os próprios teólogos… Neste Natal compreendamos a Misericórdia e a Encarnação do Verbo – representadas no Presépio, desde a simplicidade dos pastores à homenagem dos sábios, a começar na paradoxal pobreza da manjedoura e de um curral para acolher um Deus Menino…

 

A POESIA SURPREENDENTE DE ADÉLIA PRADO
Ainda na boa maré dos livros, refiro uma obra talvez inesperada, mas extremamente bela, um livro de poemas – de Adélia Prado «Tudo o que existe louvará» (Assírio e Alvim). Como disse Pedro Mexia, «os seus textos, que evocam com frequência um meio provinciano e pobre, têm (…) algumas afinidades com o Sul profundo da ficção de Flannery O’Connor, mas enquanto a americana era violenta e sofrida, a brasileira é vitalista e sensual. Poeta de Deus e do corpo, Adélia é também poeta do corpo divinizado e do Deus encarnado». Podemos compreender isso mesmo, lendo o poema «Antes do Nome», onde sentimos a importância da palavra, em ligação estreita com o Verbo «encarnado». «Não me importa a palavra, esta corriqueira. / Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,/ os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", / o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível/ muleta que me apoia./ Quem entender a linguagem entende Deus/ cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. / A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,/ foi inventada para ser calada. / Em momentos de graça, infrequentíssimos,/ se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. / Puro susto e terror».

 

UMA LONGA EXPERIÊNCIA VITAL
«Deus, Religiões e In(Felicidade)» da autoria do Padre Anselmo Borges e prefácio de Andrés Torres Queiruga é uma reunião de oportuníssimos textos que estão divididos em três partes: O Enigma: A Morte de Deus; O Diálogo Inter-Religioso e O que traz a felicidade? Como diz o prefaciador: «realmente impressiona a longa experiência vital que está por detrás e no fundo destes textos. Experiência que inclui não só uma rica trajetória na organização de fóruns internacionais sobre o diálogo entre a fé, a ciência e a cultura, mas também amplos estudos e visitas pelo mundo universitário da Europa, e não em último lugar um intenso e vocacionado labor docente». O título remete-nos para uma atitude aberta e compreensiva sobre o fenómeno religioso e a complexidade do sagrado. E o certo é que podemos compreender que «Deus não criou por causa dele mesmo e dos seus interesses, da maior honra e glória, mas apenas por causa das criaturas, homens e mulheres, que quer ver plernamente realizados e felizes para sempre. Assim a última palavra sobre a História, e a História lê-se do fim para o princípio, não é a morte, mas a Vida, a Vida eterna, na bem-aventurança de ver Deus. Deus não é um Deus de mortos, mas de vivos». E aqui está a chave da ambivalência da Felicidade. A vida é paradoxal, é contraditória, porque a liberdade e a responsabilidade não são de sentido único. É o mistério do tempo que está bem presente. «Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de se ser e do ser». Os gregos referiam para o tempo dois símbolos contraditórios: Chrónos e Kairós – respetivamente, o tempo quantitativo e linear, sobre o qual a humanidade não pode intervir e o tempo qualitativo, enquanto crise e oportunidade, sendo as pessoas chamadas a intervir decisivamente. O tempo cronológico e devorador e o tempo kairológico é criador. A leitura é inesgotável e apaixonante!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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De 8 a 14 de dezembro de 2014.

 

Anselmo Borges coordenou a obra «Deus ainda tem Futuro?» (Gradiva, 2014) que constitui uma panóplia de reflexões, representando uma pluralidade de perspetivas, de extraordinária atualidade e pertinência.

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UMA COMPREENSÃO PLURAL DOS LIMITES

Estamos perante as intervenções realizadas no Colóquio Internacional realizado no Seminário da Boa Nova, Valadares, Gaia, em Outubro de 2013, subordinado ao tema que precisamente intitula a presente obra. Javier Monserrat e José Ignacio Gómez Faus também colaboram, ainda que não tenham participado no simpósio. Como disse o pensador Paul Clavier, «a existência de Deus é um assunto demasiado sério para ser confiado exclusivamente aos crentes». Daí que tenhamos neste diálogo intenso a presença de crentes e não crentes, e sobretudo uma sã atitude crítica, sempre. Os assuntos são múltiplos e todos apaixonantes – desde a situação religiosa no mundo atual às questões relacionadas com a genética, as neurociências, passando pela criação e pela natureza, pela relação entre a modernidade e o fenómeno religioso, a autonomia da ética em face da religião, Deus no Oriente e no Ocidente, o rosto feminino de Deus, a fé, a ciência e a razão, o silêncio de Deus e a experiência mística… No mote lançado para o desenvolvimento do tema, o Professor Anselmo Borges lembra uma pergunta de Karl Rahner - «O que aconteceria, se a simples palavra Deus deixasse de existir?». A resposta é significativa: «A morte absoluta da palavra Deus, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria um sinal, já não ouvido por ninguém, de que o homem morrera». No fundo, a interrogação do título obriga a acrescentar que o futuro a que se faz referência diz respeito à humanidade toda. Não por acaso, o coordenador da obra lembra Vaclav Havel, pouco antes de morrer, a afirmar que uma civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade, pode estar a caminhar para a catástrofe. E não se confunda esta posição com qualquer simplificação intelectual, uma vez que o que está em causa é o perigo do vazio de ideias e valores e o risco da incompreensão dos limites do conhecimento. E se se fala de catástrofe, a mesma tem a ver com a eventual emergência da irracionalidade e do sectarismo.


O INTANGÍVEL E O INEXPLICÁVEL

Carlos Fiolhais recorda a resposta de Einstein à pergunta se se considerava uma pessoa religiosa. O cientista respondeu, surpreendendo os interlocutores: «Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados nos segredos da Natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso». Esta afirmação sintetiza a importância do tema que reúne as diferentes respostas contidas nesta obra. Afinal, o fenómeno religioso ultrapassa em muito as diferentes confissões bem como as opções individuais nessa matéria. A liberdade de consciência e a inteligência humana dão um sentido especial ao diálogo entre razão e fé, e a compreensão dos limites do conhecimento constitui um desafio muito fecundo para usar o sentido crítico e para ir mais além do que parece estar ao nosso alcance. Num texto muito rico, Eduardo Lourenço dá, no pórtico da obra, uma visão panorâmica da atitude da cultura contemporânea perante a pergunta e o tema que o livro postula. Diz-nos: «Do silêncio de Deus que nós criámos não virá nenhum socorro. É diante dele como Ausência suposta e Presença agostinianamente mais interior a nós mesmos do que nós que somos convocados para fazer prova de vida. E de vida eterna. A única que nos ajuda a suportar todas as ausências dos que nesta vida nos foram, à maneira de Dante, reflexos de uma Luz mais clara que a do sol e das estrelas». Após a não-comunicação do determinismo industrial, chegamos à hipercomunicação global, com um resultado semelhante de autodesertificação, que torna a Ausência um défice de esperança e de dignidade.


SER HUMANO E SER RAZOÁVEL

A leitura dos textos que constituem a obra permite-nos ir ao encontro da espiritualidade essencial que alimenta o mundo contemporâneo, para responder ao vazio de valores, que é o pano de fundo da grave crise financeira que se abate sobre nós, pondo em xeque a justiça e o respeito mútuo. Afinal, se um ser finito como a pessoa humana pergunta pelo infinito, isso significa que tem algo de infinito nela própria, assumindo a necessidade de perguntar até ao infinito e pelo infinito – como disse Anselmo Borges na apresentação do livro no Centro Nacional de Cultura. Jean-Paul Williaime refere as condições socioculturais da religião na ultramodernidade contemporânea, concluindo que Deus ainda não disse a última palavra – num tempo em que o ideal humanista e solidário se vê ameaçado pela idolatria do mercado e pela cegueira da técnica. Carlos Fiolhais salienta a necessidade de nos interrogarmos incessantemente, através da ciência. Miguel Castelo-Branco fala-nos de neurociência e espiritualidade, pondo a tónica na exigência da compreensão da vida cerebral, explorando a ciência a fenomenologia da espiritualidade no campo epistemológico. Leandro Sequeira questiona a alternativa Natureza ou Criação, perante os sinais do novo Ateísmo, de Dawkings a Hawking, culminando na proposta de uma ponte entre o naturalismo ateu e o criacionismo fixista, em que Deus é evolucionador e evolutivo (como em Teilhard de Chardin), concluindo que, afinal, os cristãos também não creem no Deus que muitos ateus negam… Javier Monserrat, que fez uma exposição fascinante no CNC, equacionou a experiência moderna do silêncio de Deus, rumo a um Novo Concílio. O teocentrismo e o teocratismo geraram resistências, do ateísmo ao laicismo, o que obriga à passagem de uma cultura dogmática para uma cultura de incerteza E como distinguir a verdadeira natureza da religião natural (o universal religioso) e o cristianismo como religião universal (o universal cristão)? Já Paul Valadier refere a exceção humana na relação com Deus. Como usar a razão em vez da violência? Como seremos diferentes respeitando a dignidade? Juan Masiá, bem conhecido nosso, do tempo em que preparámos a viagem ao Japão, diz-nos que no diálogo fecundo o Oriente «o nome futuro da religião e da espiritualidade será a profundidade humana», escutando o Dharma e respirando o Espírito. Isabel Gómez-Acebo aponta-nos o «rosto feminino de Deus», enquanto Anselmo Borges lança a pergunta: «E se tivéssemos sido ensinados a dizer “Mãe-Nossa que estais nos Céus?”». O Salmo 27 inspira o que Heinrich Böll designava com «teologia da ternura» - «Ainda que meu Pai e minha mãe me abandonem, o Senhor há de acolher-me». Como escreveu Rilke: «O trabalho dos olhos ficou feito, ide e fazei o trabalho do coração». Há um caminho a fazer para que a mulher encontre o seu lugar na Igreja e na vida. José Arregi refere o Amor universal de Deus para além e para lá de todo o dualismo e monismo. Diego Gracia põe-nos perante a secularização da ética. Andrés Torres Queiruga põe a tónica no Deus que cria por amor, com todas as consequências. E José Ignacio Gonzalez Faus coloca-nos diante da pluralidade de místicas, de um modo pedagógico, mas para nos enriquecermos sem a ilusão das caricaturas… Para Anselmo Borges, «a fé não é racional, no sentido de ser uma conclusão científica, à maneira da matemática ou das ciências experimentais. Mas, para ser humana, tem de ser razoável, apresentar razões, ser credível, não agredir a razão. (…) Há hoje forte busca de espiritualidade. O que está principalmente em crise é a religião institucional» (DN. 2.12.14). Temas de sério pensamento.


Guilherme d'Oliveira Martins