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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O SAGRADO E SUAS CONFIGURAÇÕES. 1

 

Como ficou dito em crónicas anteriores, o Sagrado é o referente último de todas as religiões, o mistério da realidade na sua ultimidade. É o Sagrado ou o Mistério pura e simplesmente. É o Inominável, pois transcende sempre tudo quanto se possa pensar ou dizer dele. Nenhuma religião o possui nem mesmo as religiões todas juntas.

 

Na experiência do Sagrado, fonte de sentido último, salvação e felicidade, o Homem está sempre em presença de algo outro e superior, “o tremendo e fascinante”, o Absoluto, inabarcável, inacessível e inefável.

 

Esta superioridade do Sagrado manifesta-se em níveis diferentes: o ontológico – infinita riqueza de ser –, o axiológico – realidade sumamente valiosa. Assim, comporta “uma ruptura de nível que aponta para a plenitude de ser e realidade por excelência” (J. Sahagún Lucas).

 

Sendo o Inominável, procurou-se, ao longo da História, nomeá-lo. Numa obra recente, Después de Dios..., o teólogo José Ignacio González Faus apresentou várias tentativas, com muitos nomes. Os Upanishades referem-se a ele como “O Incondicionado”; as filosofias mais racionalistas designam-no como “O Absoluto”; Santo Tomás de Aquino disse que o seu melhor nome é precisamente “O Inominável”; Tierno Galván, “a partir do seu agnosticismo despreocupado pelo tema”, designa-o por vezes como “O Fundamento”; Karl Rahner, o maior teólogo católico do século XX, fala dele precisamente como “O Mistério”; Rudolf Otto, autor da obra famosa “Das Heilige”, fala dele precisamente como “O Santo”, “O Sagrado”; Platão referia-se a ele como “a ideia do Bem”, mas é necessário notar que Platão chama ideia à verdadeira realidade, contraposta às sombras, sendo assim o Sagrado o Sumo Bem; Aristóteles designou-o como “O Motor Imóvel”, com o sentido de que, no meio de todas as mudanças, é necessário algum “ponto de referência firme”; mesmo o famoso tetragrama hebraico YHVH, letras impronunciáveis, não é um nome próprio, mas “uma resposta evasiva a Moisés”: “sou o que serei”: confia e irás vendo; o Novo Testamento conclui, que “Deus é Amor”, que não é uma definição, pois não diz “Deus é O Amor”. O místico João da Cruz referiu-se-lhe como “a música calada que enamora”.

 

Que concluir? Deus é “esse Mistério indizível que nos envolve. Neste sentido, à pessoa que se sente ou se julga ‘muito religiosa’ é preciso pedir-lhe que renuncie um pouco a Deus, não para negá-lo, mas para deixar Deus ser Deus. Frequentemente, os que mais falam de Deus são os que de modo pior acreditam nEle.” É também neste contexto que deve entender-se o que uma vez ouvi a Jacques Lacan: “Os teólogos não acreditam em Deus, porque falam dele.” Talvez mais decisivo do que falar de Deus seja falar com Deus.

 

De qualquer forma, ao longo da História e sempre, o Sagrado, na medida em que o Homem precisa de nomeá-lo de alguma maneira, foi sendo apresentado de múltiplas formas e em várias configurações, desde o politeísmo ao monismo, passando pelo dualismo, o deísmo, o monoteísmo..., como veremos em próximas crónicas.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 FEV 2020

A MORTE MEDICAMENTE ASSISTIDA E A EUTANÁSIA

 

Não é por acaso que este texto tem por título “a morte medicamente assistida e a eutanásia”. É que, em primeiro lugar, nestes debates de vida e de morte, é preciso ser claro e não induzir em erro as pessoas de forma manhosa: morte medicamente assistida é uma coisa, eutanásia é outra... O grande filósofo Hegel lembrou a urgência de conceitos claros, pois “de noite todos os gatos são pardos” e, no meio da confusão, ninguém se entende, e, nessas circunstâncias, em problemas que têm a ver com o limite, o mais provável é cair no abismo.

 

Evidentemente, a posição da Igreja na questão da eutanásia só pode ser, mesmo no caso de um referendo — a Conferência Episcopal Portuguesa acaba, tarde, de se manifestar favorável, nas presentes circunstâncias, ao referendo —, a de uma oposição contundente e propugnando a defesa dos cuidados paliativos e a presença plena, humana e cristã, junto de quem se encontra em dificuldades, na solidão, na dor, no sofrimento e a caminho do fim. Aliás, essa presença solidária tem de ser durante a vida toda, para vivermos dignamente, sabendo que da vida digna faz parte a morte digna: viver dignamente e morrer dignamente. Mas previno que o que está em questão não é, em primeiro lugar, a religião, mas valores fundamentais, constitutivos, da civilização, de tal modo que a aprovação da eutanásia significaria um retrocesso e mesmo uma ruptura civilizacional.

 

Embora compreenda os argumentos a seu favor — há vários textos meus nos quais explico esses argumentos —, quero que fique bem claro que eu me oponho à eutanásia e a que o debate sobre o seu pedido volte à Assembleia da República. Porque é que os principais partidos não debateram abertamente a questão durante a recente campanha eleitoral nem a colocaram nos programas? Não estou só a pensar nos perigos da rampa deslizante: lembro que, nos pouquíssimos países onde o pedido de eutanásia é legal, esta rampa ou plano inclinado existe de facto, com alargamento quantitativo e qualitativo de pedidos aceites e autênticos casos de abuso (homicídio) reconhecidos — por exemplo, está em curso na Bélgica uma acusação contra um pediatra por nove “eutanásias disfarçadas”. E qualquer pessoa fica preocupada com a notícia que chega da Holanda “da pílula sem dia seguinte”, como, no seu modo sempre arguto, atirou o eurodeputado Paulo Rangel: “Todas as pessoas que fazem 70 anos receberão como prenda de aniversário um comprimido com o qual podem suicidar-se. E depois quem é que controla o destino destes comprimidos? Às tantas, vamos ter gente a matar outra gente” (Público, 9 de Fevereiro). Porventura as pessoas com 70 anos valem menos do que quem tem 50 ou 30? Confesso: isto, a ser verdade, significa o colapso de uma sociedade.

 

Ainda no contexto da rampa deslizante, é preciso não ser ingénuo. Numa sociedade economicista, de individualismo e egoísmo atrozes, ergue-se o perigo gravíssimo de pessoas serem “empurradas” a pedir a eutanásia e, pior, muitos interiorizarem inclusivamente a obrigação de a pedir. Isso não obriga a pensar?

 

Há uma razão que diria metafísica para a oposição à pena de morte, a mesma para se opor à eutanásia. Penso, por exemplo, em L. Wittgenstein, para quem o mundo é o conjunto dos factos, verificáveis. Mas, para lá do verificável, há “o místico” (das Mystische), que “se mostra”, o metafísico, o absoluto. Não como o mundo é, mas que o mundo seja é o místico, escreveu Wittgenstein. Deus também não é deste mundo, nem a ética, que é da ordem do dever ser e não dos factos. O morrer é deste mundo, mas a morte não é deste mundo. A morte, digo eu, é uma das faces do absoluto, a outra é Deus, e, por isso, não é deste mundo. Ora, a pena de morte é a condenação à morte eterna para este mundo, fechando a abertura à continuidade do processo de possibilidades, incluindo a do arrependimento e emenda, de retomar a existência na sua dignidade. Nenhuma instância terrena poderá, pois, fazer o juízo final, definitivo, de uma pessoa. E é preciso contar sempre com o perigo do erro no julgamento. Aí está por que não se pode ser a favor da pena de morte nem a favor da eutanásia. Aliás, quando alguém pede a morte por eutanásia, está a pedir o quê? Que grau de liberdade tem? E se, entretanto, se arrepender e quiser recuar ?... Ai, os mistérios da existência humana e da liberdade! A dignidade da pessoa humana, inviolável, convive com a vulnerabilidade e, por isso, do que precisamos é de uma ética da fragilidade e do cuidado.

 

Mais. Se algum dia se avançasse por esta via da legalização da eutanásia, o Estado ficaria com mais uma obrigação: satisfazer o direito ao pedido da eutanásia e seria confrontado com esta pergunta terrível: quem mata? Porque é disso que se trata, não se venha com o eufemismo enganoso, porque manhoso e mentiroso, de “morte medicamente assistida”, pois assistência médica, psicológica, familiar, afectiva, pastoral, religiosa (se for o caso) todos querem. No que o Estado deve pensar é na urgência dos cuidados paliativos, que ainda não chegam à maioria dos doentes; num relatório recente (Cf. jornal i, 16 de Janeiro), lê-se que de 102 mil doentes que preencheriam os requisitos para beneficiar de cuidados paliativos em 2018, apenas um quarto teve acesso a este tipo de resposta que visa aliviar o sofrimento físico e psicológico em casos de doença incurável avançada e progressiva. As lacunas são ainda maiores nas crianças: em oito mil menores com doenças incuráveis, só 90 tiveram acesso a este tipo de cuidados, 0.01%. Concluiu-se que faltam 430 médicos, 2114 enfermeiros e 173 assistentes sociais nesta área. Conclusão: perante a sobrecarga, o tempo dedicado aos doentes é pouco: os médicos têm em média 44,5 minutos por semana com cada doente (nove minutos por dia). O mesmo se diga dos enfermeiros e assistentes sociais.

 

É uma vergonha para uma sociedade querer debater e despenalizar a eutanásia, quando ainda não tem uma rede de meios paliativos minimamente suficiente. Os doentes, em casos extremos, precisamente porque o Estado lhes não garante apoios suficientes para a sua existência minimamente digna, são colocados perante o insuportável, de tal modo que se ergue de modo dramático a pergunta: nessas circunstâncias, onde está a sua liberdade para pedir a eutanásia? Afinal, pedem a morte ou apoio e alívio na dor, para continuar a viver dignamente e morrer dignamente? Aí está a razão por que, no contexto da precipitação para que a eutanásia volte ao Parlamento, logo após a aprovação do OE para 2020, observam alguns e não necessariamente cínicos: a eutanásia poderia ajudar bastante certos Orçamentos de Estado, a Segurança Social!...

 

Evidentemente, opor-se à eutanásia não é ser a favor da distanásia e da obstinação terapêutica, que podem ser imorais. Deve-se aliviar a dor, mesmo que isso apresse a morte. Uma coisa é matar e outra deixar morrer em tempo oportuno e com dignidade, sem prolongar a vida artificialmente e de forma desproporcionada.

 

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, disse-o de modo perfeito. Cito uma entrevista sua a Marta Reis no jornal SOL, 11 de Janeiro. Em primeiro lugar, esclarecer: “O que temos de fazer, e esse é o aspecto mais importante, é dar o máximo de informação para o debate. Não é infrequente estar em reuniões com deputados, pessoas que se vão pronunciar, e confundem ainda eutanásia, a morte a pedido num caso de doença grave, com distanásia, que é prolongar a vida de uma pessoa indevidamente, prolongar a vida de alguém numa fase terminal em que o que se deve oferecer é o máximo de conforto.”

 

E a autonomia do doente? Continuou Miguel Guimarães: “O doente tem autonomia para dizer que não quer fazer tratamentos. Um doente com cancro pode recusar um tratamento. Mas no caso da eutanásia, falamos de uma participação activa na morte, o código deontológico proíbe”. Mesmo a nível internacional, “encara-se sempre a eutanásia como um acto médico. Não é. Não faz parte de nenhum compêndio que matar uma pessoa seja um acto médico, é a antítese do acto médico. Quando se diz que dar a uma pessoa um medicamento para matar tem de ser feito por um médico não percebo a justificação”.

 

Chamo a atenção para o facto de, por exemplo, a França, que está a rever leis de bioética, ter excluído do debate a eutanásia e, no limite, ser favorável à sedação profunda e continuada.

 

Já quase em post-scriptum, quero dizer que aceitei figurar entre os 101 mandatários, como o antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, ou o médico e antigo bastonário, Germano de Sousa, de uma petição a favor de um referendo sobre a matéria. É que, no meio da confusão que indiquei no início e quando até deputados, como ficou dito, não sabem distinguir entre eutanásia, distanásia, ortotanásia, suicídio medicamente assistido..., impõe-se um debate amplo, nacional, para que todos os portugueses sejam ouvidos e possam ficar minimamente esclarecidos sobre o que está em causa.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 FEV 2020

RELIGIOSIDADE, SAGRADO, RELIGIÕES. 2

 

  Retomando a reflexão da semana passada sobre o tema em epígrafe, parece-me fundamental acentuar que é essencial distinguir aquele tríplice plano: religiosidade (religioso), Sagrado e religiões. Como escreveu J. de Sahagún Lucas, quando se fala de religião/religiões, religioso e Sagrado não se identificam, “não são sinónimos”. Trata-se de realidades distintas, pois religioso refere-se ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada a uma realidade sagrada – o pólo objectivo —, o Sagrado ou Mistério. Diferenciam-se do profano, já que o religioso indica o modo concreto e peculiar de assumir a existência toda nas suas várias dimensões na perspectiva do Sagrado. As diferentes formas de religião — a religião implica inevitavelmente pluralidade de religiões, surgindo cada uma num determinado contexto histórico, geográfico, sócio-económico, cultural... — coincidem no facto de remeterem o Homem para essa Realidade superior a ele e que, num primeiro momento, se pode caracterizar como um supra (acima) e um prius (anterior) (U. Bianchi). O referente último de todas as religiões é o mesmo: o Sagrado ou Mistério, essa Realidade superior.

 

   Na tentativa de explicitar a definição apresentada, J. Martín Velasco, um dos maiores especialistas no domínio da fenomenologia da religião, desenvolve, na sua obra Introducción a la fenomenología de la religión, os elementos ou traços essenciais do conteúdo dessa realidade misteriosa. Em primeiro lugar, deve-se sublinhar a sua “absoluta transcendência” em relação ao homem e ao mundo. Essa transcendência exprime-se nas várias religiões, referindo a sua “outridade”: “totalmente outro”; a sua inacessibilidade: “altíssimo”; invisibilidade: “tu és um Deus escondido”; incognoscibilidade: “superincognoscível”; radical e absoluta diferença: “distinto do conhecido e do desconhecido”; a inefabilidade: dele só se pode dizer: “não é assim, não é assim”; a sua superioridade absoluta: “superior summo meo” (superior e mais alto do que a minha altura máxima). Por isso, o homem religioso, na sua presença, sente pavor e tremor, indignidade radical. Trata-se do mysterium tremendum (mistério terrível), que é ao mesmo tempo fascinans (fascinante), como referiu R. Otto. Mas, por paradoxal que pareça, o Mistério compreende simultaneamente “a sua mais perfeita imanência” ao homem e ao mundo. É próximo – o Alcorão diz que Alá é mais próximo ao homem do que a sua própria jugular – e íntimo – interior intimo meo (mais íntimo do que a minha máxima intimidade), diz Santo Agostinho, no interior da transcendência, a suma imanência e identidade: atman é Brahman (eu é o Absoluto), diz o budismo, “o centro da alma é Deus”. Estas duas características implicam-se mutuamente. De facto, “só o absolutamente transcendente pode ser imanente de forma absoluta” ou, como diz Nicolau de Cusa, só o totalmente outro é non aliud, não outro.

 

  Outro traço essencial do Mistério é “a sua condição de sujeito activo”. Ele revela-se, dá-se a conhecer, interpela o homem, atrai-o. A sua presença é anterior à procura do Homem, de tal maneira que Pascal pôde, com razão, pôr Deus a dizer: “não me procurarias, se não me tivesses já encontrado”. Na sua presença, o Homem experiencia que não é por si nem dispõe de si, pois só é verdadeiramente no encontro e na entrega confiada a esse Mistério último. Mas, mais uma vez, paradoxalmente, esta entrega não significa de modo nenhum alienação, autoaniquilamento ou sujeição a uma heteronomia, pois, “devido à abertura radical do ser humano ao Infinito, o consentimento neste Além de si mesmo é a condição da sua realização plena”.

 

  Explicitando, dever-se-á, portanto, distinguir entre religiosidade/religioso, Sagrado e religiões. Religiosidade tem a ver com o movimento de transcendimento, sendo religioso aquele ou aquela que se entrega confiadamente ao Sagrado ou Mistério, do qual espera salvação. As religiões são mediações entre os homens e mulheres e o Sagrado/ Mistério, e entre o Sagrado/Mistério e os homens e mulheres. Enquanto mediações, as religiões têm, inevitavelmente, muito de humano e, consequentemente, são habitadas pelo melhor e pelo pior. São mediações necessárias e inevitáveis. Referem-se ao Mistério/Sagrado, estão referidas ao Absoluto; o seu perigo permanente é pretenderem tornar-se elas próprias o Absoluto.

 

  As diferentes religiões configuram de modo diferente o Sagrado ou Mistério. Nelas, há, por princípio, uma dimensão doutrinal teológica, que tenta dizer o Sagrado ou o Mistério; uma dimensão ético-moral; uma dimensão litúrgico-celebrativa; e, evidentemente, um mínimo de organização.

 

   Esta distinção entre religioso, Mistério/Sagrado e religiões é fundamental, pois pode acontecer que alguém seja religioso no sentido autêntico e profundo de uma experiência viva e consequente do Sagrado ou Mistério e tenha e mantenha distanciamento face às religiões instituídas, como pode haver quem não teve nem tem vivência autenticamente religiosa e, no entanto, viva da religião institucional, se sirva dela para fins políticos, económicos, de ascensão social. Pode-se viver da religião institucional em altos cargos eclesiásticos, por exemplo, e não ser consequente com uma verdadeira experiência religiosa, se é que se fez esta experiência. O que acontece também muito frequentemente na política: há quem se confesse ateu e participe em festas religiosas, porque isso pode dar votos...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 FEV 2020

RELIGIOSIDADE, SAGRADO, RELIGIÕES. 1

 

Quando, no domínio religioso, não há conceitos claros, entra-se inevitavelmente em confusões deletérias, que impedem a mútua compreensão e o autêntico diálogo inter-religioso.

 

Será, pois, necessário, em primeiro lugar, perguntar: qual é o critério decisivo para determinar o que é realmente a religião?

 

Há hoje acordo entre os especialistas no sentido de verem esse critério na referência e relação com uma realidade última salvífica. São fundamentais estes dois elementos: entrada em contacto com a ultimidade, que se apresenta como dando sentido último e salvação. Ao contrário da ideia corrente, no domínio religioso, Deus não é figura primeira e determinante a não ser para um determinado tipo de religião: a religião monoteísta. Deus, no quadro do monoteísmo, apareceu tarde. O conteúdo central da religião é o absoluto, o transcendente, o abrangente, o numinoso. O homem religioso depara-se com o Sagrado, o Mistério.

 

Para os fenomenólogos da religião, como J. Martín Velasco, por exemplo, o homem religioso é aquele que assume uma determinada atitude face ao Sagrado, entendendo-se por Sagrado aquele âmbito de realidade que se traduz por termos como “o invisível”, “a ultimidade”, “a verdadeira fonte do valor e sentido últimos”, “a realidade autêntica”. A religião não é em primeiro lugar ordo ad Deum (relação com Deus), mas ordo ad Sanctum (relação com o Sagrado). Antes da sua configuração como deuses e Deus, o “objecto” da religião é o Sagrado, que também dá pelo nome de Mistério, que é ao mesmo tempo absolutamente transcendente e radicalmente imanente. O homem religioso faz a experiência do Sagrado ou Mistério enquanto Presença originante e doadora de toda a realidade. É Presença enquanto Transcendência radical no centro da realidade e da pessoa e, assim, Imanência, isto é, Presença mais íntima à realidade e à pessoa do que a sua própria intimidade. Para o homem religioso, a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica: como explica o teólogo Andrés Torres Queiruga, para a sua compreensão adequada, a realidade mesma aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características – a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido, sentido último –, a própria realidade se mostra implicando essa Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos.

 

Neste quadro, é decisiva a experiência da contingência radical do mundo, de cada homem e cada mulher, mas, como escreveu R. Panikkar, precisamente assim: contingência deriva do latim cum-tangere, com o sentido de que “tocamos (tangere) os nossos limites” e, no mesmo acto, “o ilimitado toca-nos (cum-tangere) tangencialmente”. Hegel também o disse: só no Infinito o finito encontra a sua verdade.

 

A estrutura comum do fenómeno religioso, presente na variedade das religiões, pode ser resumida, segundo J. Martín Velasco, nestes termos: um facto humano específico, presente numa pluralidade de manifestações históricas, que têm em comum: “estar inscritas num âmbito de realidade original designado pelo termo o Sagrado; constar de um sistema de mediações organizadas – crenças, práticas, símbolos, lugares, tempos, objectos, sujeitos, etc. –, nas quais se expressa uma experiência humana de reconhecimento, adoração, entrega, referida a uma Realidade transcendente, ao mesmo tempo que imanente, ao homem, e que intervém na sua vida para dar-lhe sentido e salvá-lo”. A religião enquadra-se na experiência radical de dependência, implicando, portanto, na sua compreensão estrita, um núcleo com dois pólos: um pólo objectivo, constituído pela presença de uma Realidade superior, absoluta, de que se depende, e um pólo subjectivo, que consiste na atitude de reconhecimento dessa Realidade por parte do homem. Neste contexto, P. Schebesta apresenta uma definição paradigmática: “A religião é o reconhecimento consciente e operante de uma verdade absoluta (‘sagrada’) da qual o homem sabe que depende a sua existência”. É a partir deste núcleo que se entendem os múltiplos elementos visíveis das religiões: crenças, ritos, instituições, espaços e tempos sagrados, etc., diferentes segundo as culturas e tempos históricos humanos e unidos pelo facto de constituírem mediações religiosas. Na sua variedade, as diferentes definições de religião têm um elemento comum que as caracteriza e autentica: “apontam para uma entidade meta-empírica determinante da atitude humana como base da estrutura da religião. É o último necessário que adopta formas e nomes distintos: o santo, o misterioso, o divino, o sobrenatural. Numa palavra, um algo outro que não é coberto inteiramente com os termos que designam as coisas que o homem tem à mão.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 2 FEV 2020

CARDEAL SARAH, PAPA EMÉRITO E FRANCISCO

 

1. Julgo que nunca no Vaticano a Cúria tinha ouvido tais denúncias como as que tem ouvido da parte do Papa Francisco. Que “a corte é a peste do Papado”, que sofre de doenças terríveis como “sentir-se imortal, indispensável”, “uma Cúria que não se autocritica, que não procura melhorar é um corpo doente”, “a fossilização mental e espiritual”, “Alzheimer espiritual”, “a rivalidade e a vanglória”, a doença da “esquizofrenia existencial”, que é a de “quem vive uma vida dupla”, a doença dos “rumores, mexericos, murmurações, má língua”, que pode levar ao “homicídio a sangue frio”, a doença de “divinizar os chefes”...

 

Estas foram as críticas elencadas logo na saudação natalícia de 2014. Têm-se sucedido ao longo dos anos. Neste Natal, Francisco avisou de modo frontal: “Hoje não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros, nem os mais escutados”. Mais: “Já não estamos num regime de cristianismo, porque a fé, especialmente na Europa, mas inclusivamente em grande parte do Ocidente, já não constitui um pressuposto óbvio, e ela até é frequentemente negada, gozada, marginalizada e ridicularizada.” Por isso, concluiu, citando o cardeal Carlo Martini, outro jesuíta, que foi arcebispo de Milão: “A Igreja anda com duzentos anos de atraso. Porque não se mexe? Temos medo. Medo em vez de coragem? No entanto, o cimento da Igreja é a fé, a confiança, a coragem... Só o amor vence o cansaço.”

 

2. Mas a Cúria não está na disposição de mudar, tudo indica. A última bomba-escândalo girou e gira à volta de um livro do Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, nascido na Guiné Conacri há 72 anos, que tentou associar como co-autor da obra o Papa emérito. Tem como título, no original francês, Des profondeurs de nos coeurs (Do fundo dos nossos corações), e na capa aparecem Bento XVI e o cardeal Robert Sarah como co-autores.

 

Diga-se, logo de entrada, que Bento XVI já não existe como Papa e veremos que também não há justificação nenhuma para se chamar Papa emérito. Pode, pois, compreender-se o imbróglio causado por esta publicação enganosa. Não é de modo nenhum vontade minha entrar aqui na descrição da confusão causada por este verdadeiro folhetim de péssimo gosto e com toques de ridículo, que envolveu avanços e recuos, afirmações e desmentidos, e que apenas tem por efeito causar ainda maior descredibilização da Igreja. O que parece claro é que, a pouca distância temporal da publicação da Exortação prometida pelo Papa Francisco após o Sínodo de Março passado sobre a Amazónia, que terá em atenção as conclusões por quase unanimidade da vontade sinodal de que o Papa autorize a ordenação de homens casados e que dê o devido lugar à mulher na Igreja, se quis influenciar negativamente Francisco para que trave o que o Sínodo claramente propôs. Aliás, desse modo, travar-se-ia também o caminho sinodal da Igreja Alemã, que vai no mesmo sentido.

 

Para terminar com a confusão, o secretário particular do Papa emérito, arcebispo Georg Gänswein, veio afirmar no passado dia 14 que este “não tinha aprovado nenhum projecto para um livro com dupla assinatura”, Bento XVI “não escreveu o livro a quatro mãos com o cardeal Sarah”.

 

3. O que é claro é que o objectivo do livro é opor-se tenazmente à ordenação de homens casados.

 

Não há dúvida de que Bento XVI se opõe a esta ordenação. Para ele, segundo os textos que continuam no livro de Sarah, há para o padre uma impossibilidade de um vínculo matrimonial, atendendo concretamente à celebração quotidiana da Eucaristia.

 

No entanto, Ratzinger nem sempre pensou assim, é bom lembrar. Em 1970, o então professor de Teologia escreveu um pequeno livro, Fé e futuro, resultado de uma série de palestras radiofónicas sobre como seria a Igreja do ano 2000, no qual se lê: “Certamente conhecerá também novas formas ministeriais e ordenará como sacerdotes cristãos provados, experimentados, que continuarão a exercer a sua profissão. Em muitas comunidades mais pequenas e em grupos sociais homogéneos, a pastoral será normalmente exercida deste modo. Juntamente com estas formas, continuará a ser indispensável o sacerdote dedicado plenamente ao exercício do ministério como até agora.”

 

O texto fatal é do cardeal Sarah: “Há um laço ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato. Qualquer enfraquecimento desse vínculo levaria a pôr em causa o magistério do concílio e dos Papas Paulo, João Paulo II e Bento XVI. Peço humildemente ao Papa Francisco que nos proteja definitivamente de tal possibilidade, vetando qualquer enfraquecimento da lei do celibato sacerdotal, mesmo limitado a uma ou outra região.”

 

Este é que é, no meu entender, o ponto essencial da tomada de posição do livro em defesa do celibato sacerdotal. Ora, esta afirmação é inadmissível, até do ponto de vista histórico: não é sabido que havia apóstolos casados, incluindo São Pedro? Não foi apenas no segundo milénio do cristianismo que se foi impondo a lei do celibato obrigatório? Mas, mesmo neste enquadramento, a lei não se estendeu à Igreja católica oriental, onde há padres casados, e Bento XVI decretou que os padres anglicanos que entrassem na Igreja católica continuariam com a sua família. A actual norma do celibato obrigatório não provém de Jesus, que não a impôs aos Apóstolos. São Paulo, estou a citar o teólogo José M. Castillo, afirmou que ele como os outros apóstolos tinham o direito de ir acompanhados por uma mulher cristã, lê-se na Primeira Carta aos Coríntios, e, nas Cartas a Timóteo e a Tito, diz-se que os candidatos aos ministérios eclesiais, incluindo o episcopado, devem ser homens casados com uma mulher, que saibam governar a família, porque “quem não sabe governar a sua própria casa, como vai cuidar da Igreja de Deus?”. Além disso, é sabido que no concílio ecuménico de Niceia, o bispo Pafnúcio, celibatário e venerado confessor da fé, gritou perante a assembleia conciliar “que não se devia impor aos homens consagrados esse jugo pesado, dizendo que é também digno de honra o acto matrimonial e imaculado o próprio casamento; e que não danificassem a Igreja exagerando a severidade.”

 

Onde se quer então fundamentar esse “vínculo ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato”? Ele não existe pura e simplesmente. É falsa a ideia de que através da ordenação o padre entraria e ficaria num grau superior de ser em relação aos outros fiéis, como é falsa, consequentemente, a ideia de que o fim do celibato retiraria ao padre esse lugar especial sagrado, que realmente não tem. De facto, o sacerdócio ministerial é apenas um serviço ao único sacerdócio real que é o de todos os baptizados: o padre ou o bispo não são mais cristãos do que os outros cristãos, têm apenas uma função de serviço diferente, e na Igreja há variedade de serviços.

 

Ainda há-de aparecer quem me mostre onde é que no Novo Testamento Jesus ordenou alguém “in sacris”. Mas foi e é este pseudo-carácter sagrado especial do padre e do bispo que esteve e está na base dessa calamidade que o Papa Francisco não se cansa de denunciar: o clericalismo, que reivindica duas classes na Igreja: o clero e o leigo, com estatuto ontológico e não meramente funcional diferente.

 

4. Estou convencido de que, desta vez, Ratzinger acabou por ser utilizado e até manipulado. Ninguém sabe até que ponto. De qualquer forma, todo este episódio vem chamar a atenção para o estatuto do que indevidamente se chama “Papa emérito”. De facto, nada justifica esse título. Pelo contrário. Significativamente, Francisco nunca se chamou a si mesmo Papa, mas simplesmente bispo de Roma. O Papa não é senão o bispo de Roma, e ao bispo de Roma está vinculada a missão da unidade da fé. Assim, Ratzinger é tão-só bispo emérito de Roma, mas não Papa emérito e, consequentemente, não deveria utilizar as vestimentas pontifícias, que só criam a confusão de se pensar que há dois Papas. Até o cardeal Gerhard Müller, um dos representantes da ala mais conservadora da Cúria, veio lembrar: “Que não haja confusões! Não temos dois Papas, existe apenas um, Francisco. Diz-se Papa emérito por cortesia, mas na realidade Bento XVI é bispo emérito”.

 

5. Já este texto estava terminado, quando se soube que tudo indica que o Papa publicará ainda esta semana a Exortação pós-Sínodo sobre a Amazónia.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 JAN 2020

A PESSOA E A DINÂMICA RELIGIOSA. 2

 

O Homem tem uma constituição paradoxal. Por vezes, constata que fez aquilo de que se espanta negativamente, erguendo, perplexo, a pergunta: como foi possível eu ter feito isso? – aí, não era eu. Há, pois, o “isso” em nós sem nós, de tal modo que fazemos a experiência do infra ou extra-pessoal em nós. Talvez fosse a isso que São Paulo se referia quando escreveu: “Que homem miserável sou eu! É que não faço o bem que eu quero, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico”. Por outro lado, o Homem dá consigo como sendo mais do que o que é: ainda não é o que quer e há-de ser. Ainda não sou o que serei. Uma das raízes da pergunta pelo Homem deriva precisamente desta experiência: eu sou eu, portanto, idêntico a mim, mas não completamente idêntico, porque ainda não sou totalmente eu. Então, o que sou?, o que somos?, o que é o Homem? O Homem não se contenta com o dado. Quer mais, ser mais, numa abertura sem fim. Exprimindo esta abertura ilimitada, há uma série de expressões famosas: citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte), o lema olímpico; o Homem é bestia cupidissima rerum novarum (animal ansiosíssimo por coisas novas), dizia Santo Agostinho; Max Scheler definiu-o como “o eterno Fausto”, e Nietzsche, como “o único animal que pode prometer”; Unamuno escreveu: “mais, mais e cada vez mais; quero ser eu e, sem deixar de sê-lo, ser também os outros.” Mesmo na morte, o homem não está acabado, pois é o animal do transcendimento e sempre inconcluído.

 

Precisamente a inconclusão mostra que a sua temporalidade e o seu ser têm uma estrutura essencialmente aberta. O Homem não pode não transcender, mesmo se, como escreveu o teólogo Leonardo Boff, há o bom e o mau transcender. Exemplos do mau transcender e má transcendência são a droga, o álcool em excesso, a religião enquanto superstição alienante. A vida é exaltante, mas também é terrível por vezes – traz exigências, dificuldades, opções que exigem algo de heróico. E há quem não aguente. E foge-se, alienado, para a droga, por exemplo, e “viaja-se”. Mas, quando se regressa da “viagem”, os problemas estão lá todos, com uma agravante: há menos força para enfrentá-los e superá-los, na alegria de crescer e transcender. No bom transcender – no amor, na produção, na investigação, na obra de arte, na contemplação da beleza, na generosidade frente à vida, na religião criadora –, o horizonte alarga-se, há mais vida partilhada, humanidade livre, justa e feliz, criação do novo, esperança que toca o Além.

 

Permanece, portanto, a pergunta iniludível: qual é o termo da força do transcendimento humano? Por outras palavras: qual é o Sentido último da existência? No limite, o autêntico ateísmo coerente seria “o ateísmo silencioso”, como escreve Georges Minois, aquele que não pusesse sequer a questão de Deus. Pergunta-se, porém, se precisamente a questão de Deus enquanto questão, independentemente da resposta positiva ou negativa que se lhe dê, e a questão do Sentido último, não são constitutivas do ser humano. Citando G. Gusdorf, G. Minois conclui a sua História do ateísmo “com um quadro implacável e lúcido” da Humanidade do ano 2000: “vive no Grande Interregno dos valores, condenada a uma travessia do deserto axiológico de que ninguém pode prever o fim”. Durante muito tempo perseguido, o ateu obteve o direito de cidadania no século XIX e acreditou mesmo poder proclamar a morte de Deus. Mas já no fim do século XX houve a tomada de consciência de que, “ao eclipsar-se, Deus levou consigo o sentido do mundo”. E continua: o futuro é imprevisível, porque o ateísmo e a fé enquanto compreensão global do mundo andaram sempre juntos. A ideia de Deus era um modo de apreender o universo na sua totalidade e dar-lhe, de forma teísta ou ateia, um sentido. Assim, a divisão hoje já não está tanto entre crentes e descrentes como entre “aqueles que afirmam a possibilidade de pensar globalmente o mundo, de modo divino ou ateu, e os que se limitam a uma visão fragmentária em que predomina o aqui e agora, o imediato localizado. Se esta segunda atitude prevalecer, isso significa que a Humanidade abdica da sua procura de sentido.”

 

É nesta segunda atitude de niilismo prático que presentemente nos encontramos. Ela caracteriza a época em que vivemos. A questão não é tanto não haver respostas, mas sim não colocar as perguntas essenciais, metafísico-religiosas, que constituem o Humanum, o humano. E aí estão a fragmentação e a desorientação geral, sem horizonte de sentido, Sentido último. Os nossos são, por isso, tempos de penúria e de noite, como anteviram Hölderlin e Martin Heidegger.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 JAN 2020

A PESSOA E A DINÂMICA RELIGIOSA. 1

   

O que é a religião? O que deve entender-se por pessoa religiosa? Onde se fundamenta a religião? Qual é o dinamismo que está na base das religiões? Porque há religião/religiões?

 

Toda a religião tem a ver com a ética e também com a estética. Hegel viu bem, quando afirmou que a arte, a religião e a filosofia estão referidas ao Absoluto. A pergunta é, como escreveu o filósofo J. Gómez Caffarena, se a ética, a estética e a filosofia acabarão por absorver a religião, como já insinuava Goethe: “quem tem arte (e moral e filosofia) tem religião; quem a não tem que tenha religião”.

 

Segundo Lucrécio, “o medo criou os deuses”. Desde então, isso tem sido repetido, acrescentando a ignorância e a impotência, de tal modo que, com o avanço da ciência e da técnica, a religião acabaria por ser superada e desaparecer. Será, porém, verdade que na génese da religião estão o medo, a ignorância e a impotência? Ninguém poderá negá-lo. A questão é saber se esses são os únicos e decisivos factores e de que modo actuam. De facto, não é a limitação enquanto tal que está na base da religião, mas a consciência da limitação. Na consciência da finitude, que tem a sua máxima expressão na consciência da mortalidade, o homem transcende o limite e articula um mundo simbólico de esperança de sentido último e salvação. Como disse Hegel, a verdade do finito encontra-se no Infinito, e Kant viu bem, ao referir a religião à esperança de um sentido final. Segundo ele, o interesse da filosofia pode reduzir-se às seguintes perguntas: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia”. Assim, é possível que a ciência e a técnica obscureçam a força do apelo religioso. Mas, permanecendo a finitude e a sua consciência, há-de erguer-se sempre a pergunta pelo Fundamento e Sentido últimos.

 

Como disse E. Ciorán, “tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião”. Na mesma linha, afirma L. Rougier: “A Igreja pode declinar. O sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam Transcendência, subsistirá.” O que, do ponto de vista biológico, une a Humanidade é a interfecundidade. Do ponto de vista espiritual, o que a une é a pergunta radical pela totalidade e o seu sentido.

 

O Homem é o animal que pergunta pelo seu ser e pelo ser. A razão humana não cria a partir do nada. Na base do ser humano, há uma “passividade originária”, como repetia o meu saudoso mestre Miguel Baptista Pereira: quando damos por nós, já lá estamos, ninguém foi consultado nem decidiu vir a este mundo e ser quem é; depois, um dia, a morte chega e leva-nos. A razão humana constrói, portanto, a partir do dado e, feito todo o seu percurso, sabe que acende a sua luz na noite do Mistério. Se pergunta, é porque ela própria é perguntada pela realidade, que é ambígua. Precisamente na sua ambiguidade, provocando, por isso, espanto positivo e negativo, a realidade e a existência convocam para a pergunta radical: o que é o Ser?, o que é o Homem? Quando, no processo evolutivo, se deu a passagem do animal ao homem, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo Sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta pelo Sentido último. A dinâmica religiosa deriva da experiência de contingência radical e da esperança num sentido final. A mesma experiência tem um duplo pólo: a radical problematicidade do mundo e da existência e a referência em esperança a uma resposta de sentido último, plenitude, felicidade, orientação, identidade, salvação. Este domínio da busca de sentido aparece de modo tão central na vida humana que a História da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões. Neste contexto, não é ousado afirmar que todo o ser humano é religioso, na medida em que é confrontado com a pergunta pela Ultimidade. Só poderíamos falar de irreligiosidade, no caso de alguém se contentar com a imediatidade empírica, recusando todo e qualquer movimento de transcendimento, o que não é possível, pois isso é contraditório.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JAN 2020

O ANJO DA HISTÓRIA

 

Terminados os festejos da passagem de ano e já no novo ano de 2020, é bom e mesmo urgentemente necessário parar para reflectir sobre o enigma maior do tempo. É, que queiramos ou não, com a passar do tempo, somos confrontados com aquela arrasadora constatação do historiador e filósofo R. Wittram na sua obra Das Interesse an der Geschichte: “A mim os grandes acontecimentos históricos do passado afiguram-se-me como cataratas geladas, imagens congeladas pelo gelo da vida que se foi e nos mantém à distância. Gelamos à vista dos grandes feitos: reinos caídos, culturas destruídas, paixões apagadas, cérebros mortos. Se tomamos isto a sério, podemos sentir que nós, historiadores, temos uma ocupação bem estranha: habitamos na cidade dos mortos, abraçamos as sombras, recenseamos os defuntos”.

 

Por isso, a questão do tempo é também a questão de Deus; por outras palavras, perguntar pelo tempo é perguntar por Deus. De facto, como questionava Theodor Adorno, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, como se poderia falar de reconciliação à maneira do sonho marxista, por exemplo, se ela valesse apenas para os vindouros, numa sociedade realizada e sem conflitos? Nessa situação, o que seria de todas as vítimas da injustiça da História e de todos os mortos do passado? O tempo com final, na perspectiva bíblico-cristã, é o tempo da esperança na salvação de Deus para todos. Aquele Deus de quem o teólogo Karl Rahner disse que é “o Futuro Absoluto”, Futuro de todos os passados, Futuro de todos os presentes, Futuro de todos os futuros, na consumação e plenitude da existência de todos os homens e mulheres de todos os tempos.

 

Também o grande filósofo, Walter Benjamin, um marxista especial, de raiz judaica, perseguido pelo nazismo, se confrontou com o mesmo enigma. Na célebre tese 9 do seu ensaio Sobre o Conceito de História, escreveu: “Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas. Enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

 

Sim, o progresso faz vítimas e assenta sobre vítimas, como, numa entrevista recente a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, veio relembrar, a propósito do seu novo livro, El tiempo, tribunal de la historia,  o filósofo Manuel Reyes Mate, discípulo do filósofo e teólogo Johann Baptist Metz, que aqui referi recentemente, por ocasião do seu falecimento: “A História da Humanidade é uma história de progresso lento sobre muito sofrimento causado. O progresso mata e exige vítimas. Que sobre as vítimas se construiu a História sabemo-lo, mas tornámo-las invisíveis, no sentido de que não lhes demos importância.” E relembra também os tempos da sua juventude, com a esperança messiânica e dois messianismos. “O marxismo era um guia para muita gente. Hoje não é guia para quase ninguém, mas também não existe nada que o substitua, e há  um grande vazio. O que agora existe é uma grande inesperança/desesesperança. Na altura, havia futuro: era uma sociedade que, apesar dos problemas, tinha futuro e tinha projectos de longo alcance, simbolizados pelo cristianismo e pelo marxismo. Hoje, a sociedade vive na e da imediatidade, sem projectos.” Deste modo, percebe-se o estado em que se encontra a política. “A política não tem apenas de resolver o dia a dia; tem de oferecer um horizonte de esperança à Humanidade. Mas, para isso, não pode renunciar às grandes perguntas. E as grandes perguntas têm a ver com a morte, com o sofrimento e com a injustiça. Na medida em que a filosofia política  renuncia a essas perguntas, a política, como dizia outro marxista, Max Horkheimer, converte-se num negócio.”

 

E voltamos a Walter Benjamin, que não renunciou ao messianismo. Ele fala da teologia como “um anão feio e corcunda”, porque carrega com responsabilidades históricas, com erros e fracassos, mas ela não esquece as grandes perguntas. Precisamente por causa do sofrimento e das vítimas, se a injustiça não pode ter a última palavra sobre a História, é necessário fazer apelo à teologia, como reconheceram Max Horkheimer e Theodor Adorno, sendo, no entanto, Benjamin que insistiu em que a solidariedade com os mortos, concretamente com as vítimas inocentes, não permitia conceber a História “ateologicamente”, sem teologia.

 

A crise do nosso tempo manifesta-se essencialmente no esquecimento e obturação das grandes perguntas, decisivas, perguntas metafísico-religiosas. Assim, o que resta é uma cultura empobrecida e uma política reduzida a negócios, sem horizonte autenticamente humano. Depois, é o que se sabe, está à vista.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 JAN 2020

O FUTURO ABSOLUTO

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1. Face ao futuro, é essencial pensar. A palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio, com o sentido de tempo livre para homens livres pensarem e governarem a polis.

Hoje, falta esse ócio, tudo se torna negócio (do latim nec-otium). A própria política tornou-se sobretudo negócio. Assim, sob o império da técnica e do negócio, não se pensa, calcula-se. A técnica não pensa, calcula (Heidegger), o mesmo valendo para os negócios.

 

2. O futuro vem grávido de esperanças, mas também com perigos: a guerra nuclear, as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências), desembocando no trans-humanismo e no pós-humanismo, a injustiça estrutural mundial, o meio ambiente, as drogas, a paz, os direitos humanos, o trabalho... Vivemos num mundo global, estes problemas são globais e a questão é que a política é nacional, quando muito regional.

Olhando para o futuro, não se impõe pensar numa governança global? Não digo governo mundial, mas governança global, já que os problemas enunciados só com decisões ético-jurídico-políticas globais podem encontrar solução.

 

3. Problema maior hoje: uma espécie de cansaço vital. Porque não há sentido último. Daí, nem é no desespero que se vive, mas na inesperança.

Só com Deus, "Futuro Absoluto" (K. Rahner), se pode erguer um futuro autenticamente humano, com Sentido final, pois Ele é o Futuro de todos os passados, do presente e de todos os futuros.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 DEZ 2019

JEAN-PAUL SARTRE E O NATAL

 

1. Ninguém pensa a partir do nada, melhor, a partir de zero. Quando damos por nós, já cá andávamos e estamos sempre marcados pela nossa história desde o ventre materno, pelas experiências fundas dos nossos primeiros encontros e desencontros na vida, na família, numa determinada língua, com os vizinhos, com os amigos, ...

 

Há os pressupostos no sentido negativo: ir para um encontro, para um debate, já com preconceitos malévolos. Mas ninguém está na vida sem pressupostos no sentido indicado, positivo: a nossa história toda que nos marca positiva e negativamente. Ninguém se encontra na vida puro, sem pressupostos, sem preconceitos. Ninguém parte de um ponto inaugural puro e neutro.

 

Também o filósofo Jean-Paul Sartre foi marcado pelas suas experiências, desde tenra idade. Segundo Charles Moeller, ter ficado órfão de pai muito cedo e viver com o padrasto como um estranho foi uma experiência marcante. A sua posição face à fé é bem conhecida e essa sua experiência de órfão não lhe foi indiferente.

 

Para ele, o mundo é sem sentido, o ser está a mais, é “viscoso” — leia-se A Náusea. Na sua obra estritamente filosófica, O ser e o nada, quer explicar como é que o desejo do ser humano é ser Deus, mas o próprio conceito de Deus é contraditório. Por isso, é absurdo ter nascido, é absurdo viver, é absurdo morrer. Reclamando uma liberdade absoluta, nega a alteridade, o mundo, Deus.

 

Houve, no entanto, uma espécie de interregno neste seu posicionamento intelectual e existencial. Com a derrota do exército francês, foi feito prisioneiro, e precisamente em 1940, num campo de prisioneiros escreveu um auto de Natal — Bariona, ou le Fils du tonerre (Barjonas, ou o Filho do trovão), para ser representado num barracão, um auto que unisse cristãos e não cristãos.  Ele próprio desempenhou o papel de uma das personagens, mas que se trata de uma espécie de interregno prova-o o facto de a sua primeira publicação, em 500 exemplares não comercializáveis, só se ter dado em 1962. Mas também escreveu a Simone de Beauvoir: “Parece que fiz um mistério de Natal muito comovente, de tal modo que um dos actores, quando representava, chegava a chorar.”

 

Não vou desenvolver o desenrolar da peça. Mas do que se trata, em vários níveis e desenvolvimentos, é do confronto entre, por um lado, o niilismo existencialista, colocar um ponto final ao absurdo e à Humanidade, e, por outro, a luminosidade de um novo nascimento, que abre esperança para um mundo novo, um recomeço, “um novo início”, como diz Massimo Borghesi, que estou a seguir.

 

Barjonas, que quer convencer Sara a eliminar o filho que tem no seu ventre, diz-lhe: “Mulher, essa criança que queres deixar nascer é como uma nova edição do mundo. Por meio dela, as nuvens, a água, o sol, as casas, as dores dos homens existirão mais uma vez. Tu recriarás o mundo. Fazer um filho é aprovar a criação do mundo do fundo do próprio coração, é dizer ao Deus que nos atormenta: ‘Senhor, tudo é bom e dou-vos graças por terdes feito o universo’. Queres realmente cantar esse hino? A existência é uma lepra horrenda que nos corrói a todos, e nossos pais foram culpados.”

 

Mas lá está também o rei mago Baltasar, personificado em cena pelo próprio Sartre e que representa o momento da esperança: “É verdade, somos muito velhos e muito sábios e conhecemos todo o mal da Terra. Por isso, quando vimos aquela estrela nos céus, os nossos corações alegraram-se como o das crianças, e tornámo-nos crianças e pusemo-nos a caminho, pois queríamos cumprir o nosso dever de homens que esperam. Quem perde a esperança, Barjonas, será expulso do seu vilarejo. Mas a quem espera tudo sorri e o mundo é dado como um presente.”

 

A esperança de Baltasar é como a esperança de Sara. Também ela quer ir a Belém: “Lá em baixo, há uma mulher feliz e satisfeita, uma mãe que deu à luz por todas as mães. É como se me desse uma permissão: a permissão de pôr no mundo o meu filho, dando-o à luz. Quero vê-la, vê-la, essa mãe feliz e sagrada.”

 

Em Belém, diante do estábulo, Barjonas encontra Maria de costas, não vê Jesus, vê apenas José: “Mas vejo o homem. É verdade, como ele olha para o Menino! Com que olhar! O que pode haver por trás daqueles dois olhos claros, claros como duas profundezas límpidas nesse rosto doce e marcado? Que esperança será essa?”

 

Sartre está mesmo à porta do mistério cristão, pondo Barjonas a afirmar: “Um Deus-Homem, um Deus feito da nossa carne humilde, um Deus que aceitaria conhecer este gosto de sal que existe no fundo das nossas bocas quando o mundo inteiro nos abandona, um Deus que aceitaria antecipadamente sofrer o que eu sofro hoje.”

 

2. E aí fica outra parte belíssima, a mais bela, do texto de Jean-Paul Sartre. Todas as mães olharão para o seu bebé com um encanto que só elas poderão sentir perante aquele milagre que vem delas e as ultrapassa infinitamente. Neste texto, Sartre descreve-nos o maravilhamento terno e a ternura maravilhada e também ansiosa, inexcedíveis, de Maria diante do seu “pequenino”.

 

“A Virgem está pálida e olha para o Menino. Seria preciso pintar no seu rosto aquela admiração ansiosa que se viu apenas uma vez num rosto humano.

 

Porque Cristo é o seu Filho, a carne da sua carne e fruto do seu ventre. Ela teve-O em si própria durante nove meses e dar-Lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á sangue de Deus.

 

Há momentos em que a tentação é tão forte que esquece que Ele é Filho de Deus.

 

Aperta-O nos braços e sussurra-Lhe: ‘Meu pequenino’.

 

Mas noutros momentos fica perplexa e pensa: ‘Deus está ali’ e é invadida por um religioso temor por este Deus mudo, por esta criança que, num certo sentido, incute medo.

 

Todas as mães ficam perplexas, por um momento, diante daquele fragmento  da sua carne, que é a sua criança, e sentem-se exiladas perante esta nova vida feita da sua vida, habitada por pensamentos alheios. Mas nenhum filho foi arrancado à sua mãe de forma tão cruel e radical, porque Ele é Deus e ultrapassa completamente tudo o que ela poderia imaginar... Mas penso que houve também outros momentos, rápidos e fugazes, em que ela sente que Cristo é o seu Filho, o seu menino, e que é Deus.

 

Olha-O e pensa: ‘Este Deus é meu menino, meu filho. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos e a forma da sua boca é semelhante à minha, parece-se comigo. É Deus e parece-se também comigo’.

 

E nenhum ser humano recebeu da sorte o seu Deus só para si, um Deus tão pequenino para apertar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quentinho que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que ri.

 

É nesses momentos que eu, se fosse pintor, pintaria Maria.”

 

3. Sartre, conclui Massimo Borghese, “nunca mais escreveria assim, nem de Deus nem do homem. A obra do Natal de 1940 continuará a ser, deste ponto de vista, uma ‘excepção’, como se a atmosfera peculiar do campo de prisioneiros o tivesse tornado mais próximo do mistério da existência. Mas isso bastou para nos conceder uma das mais belas representações do Natal na literatura do século XX.”

 

4. Bom Natal! Feliz, habitado pela esperança que Jesus é para todos! No final da peça, Barjonas reúne os seus homens e está disposto a bater-se para salvar a vida de Jesus, que Herodes mandou matar. Como escreveu M. Perrin, “os homens de Barjonas vão em frente, talvez para morrer, mas morrerão para que não seja assassinada a esperança dos homens livres”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 DEZ 2019