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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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BENTO XVI MORREU. E AGORA, FRANCISCO?

  


Bento XVI morreu no passado dia 31 de Dezembro. As suas últimas palavras foram: “Senhor, eu amo-te.” Não há dúvida de que o seu grande legado para a História foi a renúncia, sinal de humildade e dessacralizando o papado. Para lá disso, fica também, como sublinhou José Manuel Vidal, “o milagre da coabitação e da transição tranquila”. Francisco punha fim a uma Igreja piramidal, clerical, carreirista, autorreferencial, e, agora, a caminho de uma Igreja sinodal, circular, “hospital de campanha”. E podemos imaginar o sofrimento de BentoXVI ao “ver como a sua obra era derrubada” ao mesmo tempo que era “duro para o Papa Francisco este trabalho de desmontagem  perante os olhos de Bento XVI… No entanto, de modo geral, a convivência durante quase dez anos foi delicada e até fraternal”. Seja como for, não se deve de modo nenhum ignorar a diferença entre Bento XVI e Francisco, bem clara ao ler a obra póstuma de Bento XVI, Che cos’è il Cristianesimo (O que é o cristianismo), onde, por exemplo, defende uma ligação, dir-se-ia intrínseca, entre a ordenação sacerdotal e a obrigação do celibato.


Durante o seu funeral houve quem pedisse a canonização rápida — lá apareceu o cartaz do tempo do funeral de João Paulo II com “Santo subito”.  Creio que isso não vai acontecer nem seria bom que acontecesse, como se prova ao pensar hoje na precipitação em canonizar João Paulo II. Nesse sentido se pronunciou o cardeal Walter Kasper, antigo prefeito do Dicastério (Ministério) para a unidade dos cristãos, usando até uma nota de humor: “Para o Céu não se vai em comboio de alta velocidade”.


Esta é mais uma iniciativa dos conservadores no sentido de “utilizar” Bento XVI contra Francisco, com a finalidade de precipitar a queda deste. É sabido que enquanto Bento XVI vivesse a renúncia de Francisco seria muito difícil.  Por isso, alguns ultraconservadores e opositores de Francisco apressaram-se na luta de ataques contra ele, a começar pelo secretário de Bento XVI, o arcebispo G. Gänswein, que se precipitou a publicar as suas  memórias no livro anunciado ainda antes do funeral: Nient’altro che la verità (Só a verdade). O arcebispo de Viena, cardeal Christoph Schönborn, criticou-o: “Uma indiscrição indecorosa. Não me parece bem que se publiquem coisas tão confidenciais, sobretudo por parte do secretário pessoal”. W. Kasper também disse que “seria melhor estar calado”.


De qualquer forma, no livro não há grandes revelações. Uma delas refere a dor de Bento XVI pelo facto de Francisco praticamente ter acabado com a possibilidade da Missa em latim. Pessoalmente, pergunto: porquê lamentar a proibição da Missa em latim? De facto, reclamar a possibilidade da celebração em latim e de costas para o povo é, nem que seja só inconscientemente, uma forma de clericalismo, pois só o clero (bispos, padres) teria a possibilidade de falar directamente com Deus, como se Deus só entendesse latim!


O cardeal Pell, entretanto falecido, apontou o pontificado de Fancisco como “um desastre”. E o cardeal Gerhard Müller, antigo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, no seu novo livro de entrevistas com a vaticanista Franca Giansoldati, publicado ontem, In buona fede (Com boa fé), ataca frontalmente Francisco, também por causa da Constituição Apostólica sobre a reforma da Cúria, Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho). Para Müller, existe uma “tendência para reformar a Igreja no sentido protestante” e que deriva de “uma visão liberal que despreza a tradição”.


E Francisco vai resignar? Já afirmou: “Se vir que não posso continuar ou estou a causar dano ou a ser um estorvo, espero ‘ajuda’ para tomar a decisão de retirar-me e, chegado esse dia, prefiro ser considerado simples Bispo emério de Roma em vez de Papa emérito”. Note-se que, de facto, teologicamente, não é aceitável o título “Papa emérito”. E também disse a que gostaria de se dedicar: “Se sobreviver à renúncia, gostaria de fazer coisas deste tipo: ouvir as pessoas em confissão e ver doentes.”  


No entanto, a resignação não está para breve. Ele próprio acaba de declarar em entrevista à Associated Press que está “bem de saúde” e que a dor no joelho praticamente tinha desaparecido. De qualquer modo, “governa-se com a cabeça e não com as pernas.” Repetiu que, no caso de renúncia, seria “Bispo emérito de Roma” e viveria na residência para padres reformados da diocese.


Para já, continua com os seus compromissos: na semana próxima, visitará a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul; em Agosto, está em Portugal para a Jornada Mundial da Juventude e já advertiu que a JMJ não pode ficar reduzida a turismo religioso e espectáculo, e eu, pessoalmente, estou convencido de que não gostará que a celebração da Eucaristia final seja num altar-palco com o custo de mais de 4 milhões de euros.


Dedicar-se-á intensamente à continuação da preparação e celebração do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade em Outubro próximo, continuando no ano de 2024. De facto, a Igreja atravessa uma das suas mais dramáticas crises e precisa de uma mudança estrutural. Para ele, é bom haver críticas, “porque isso quer dizer que há liberdade para falar. A única coisa que peço é que mas digam na cara, porque assim crescemos todos, não é verdade?”


O legado de Francisco será precismente uma Igreja sinodal, caminhando todos em conjunto, sem “imperador” e “uma ditadura da distância”. 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 de janeiro de 2023

A HERANÇA DE BENTO XVI

  


Na presente crise gigantesca da Igreja, impõe-se continuar com a reforma que o Papa Francisco pôs em marcha. Para ela, há que contar também com contributos e reflexões de Bento XVI, apesar das duras críticas que justamente se levantam contra ele. Não se pode esquecer que a primeira herança a ter em conta é justamente Francisco. Repare-se em algumas dessas reflexões, que mostram não ser possível contrapor pura e simplesmente Francisco e Bento XVI. Ficam aí alguns exemplos.


1. Ainda recentemente Francisco lembrou o seu antecessor, que dizia: “A Igreja não faz proselitismo, cresce muito mais por atracção.” Neste sentido, em 1969 o então professor de Teologia J. Ratzinger avançou com uma profecia: “Da actual crise surgirá uma Igreja que terá perdido muito. Será mais pequena e terá que recomeçar mais ou menos do início. Já não será capaz de habitar os edifícios que construiu em tempos de prosperidade. Recomeçará com pequenos grupos. Será uma Igreja mais espiritual, Igreja dos pobres.” Acrescentou: mas então as pessoas descobrirão que vivem num mundo de “indescritível solidão” e elas, que tinham perdido Deus de vista, verão “esse pequeno rebanho de crentes como algo completamente novo: descobri-lo-ão como uma esperança para eles próprios, a resposta que secretamente sempre tinham procurado.” Voltou à ideia em 1970 e 1971: A Igreja “tornar-se-á pequena. Com o número dos seus membros, perderá muitos dos seus privilégios… Conhecerá também certamente novas formas de ministério e ordenará como padres cristãos que deram provas, que têm a sua profissão”. Sobre o celibato: por um lado, a sua defesa; por outro, a ordenação dos chamados viri probati (homens de fé provada, casados ou não) parecia-lhe “ser o caminho para, com sentido e sem quebra da tradição, criar novas possibilidades.” Nessa altura admitiu também, no quadro de certas condições, a possibilidade da comunhão para divorciados recasados.


2. Ele que carregou com o que terá  constituído o seu maior pecado — a condenação de dezenas e dezenas de teólogos — também deixou escrito: “Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade ecclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens cuja humildade e obediência não sejam menores do que a sua paixão pela verdade, e que amem a Igreja mais do que a sua comodidade da sua própria carreira.”


3. Contra uma Igreja centrada na Europa, confessou, já depois de ter abdicado e pensando na eleição de Bergoglio: “Papa é o Papa, não importa quem seja”. A eleição de um cardeal latino-americano “significa que a Igreja está em movimento, é dinâmica, aberta, tendo diante de si perspectivas de novos desenvolvimentos. É completamente claro que a Europa já não é o centro da Igreja mundial” e é evidente que ela “está a abandonar cada vez mais as velhas estruturas tradicionais da vida europeia e, portanto, muda de aspecto e nela vivem novas formas . É claro sobretudo que a descristianização da Europa progride, que o elemento cristão desaparece cada vez mais do tecido da sociedade. Portanto, a Igreia deve encontrar uma nova forma de presença. Estão em curso reviravoltas epocais.” A teologia precisa de renovar-se e admoestou os cardeais para “renunciarem ao estilo mundanao de poder e glória”.


4. E não tinha razão quando, nas Últimas Conversas, depois de confessar que “acreditar não é senão, na noite do mundo, tocar a mão de Deus e assim — no silêncio — ouvir a Palavra, ver o Amor”, perguntou:  Qual é “o verdadeiro problema deste nosso momento da História? Deus desaparece do horizonte das pessoas e, com a extinção da luz que vem de Deus”, a Humanidade é apanhada pela falta de orientação, “cujos efeitos se manifestam cada vez mais”.


Pergunto: não consiste o desastre da presente situação de consumismo hedonista e de vazio no facto de já nem sequer se colocar a pergunta essencial, a pergunta pelo Fundamento, pelo Sentido último? Sem essa pergunta, onde fundamentar a dignidade do ser humano, “fim em si mesmo e não simples meio”, como teorizou I. Kant? De facto, só o Infinito é fim em si mesmo: para lá não existe mais nada. O que tem o ser humano de infinito senão precisamente a pergunta ao Infinito pelo Infinito, em última análise, a pergunta por Deus, independenetemente da resposta que lhe dê, pois, com honestidade, pode haver crentes, agnósticos e ateus?


5. Enfrentou a doutrina da “satisfação”: Deus mandou o seu Filho Jesus ao mundo para, com a morte na cruz como vítima expiatória, reparar a ofensa infinita feita a Deus pela Humanidade. Rejeitou a noção de um Deus colérico, sádico, “cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa”, contradiz o Deus-Amor, revelado em Jesus.


6. Percebeu a necessidade, no contexto da interdependência de tudo e de todos, de uma Governança global: “Urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, que deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos”. 

7. Ficam para a História a denúncia da Cúria, um verdadeiro cancro da Igreja, e a resignação, que permitiu a eleição de Francisco, uma bênção para a Igreja e para o mundo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 21 de janeiro de 2023

BENTO XVI: O PAPA QUE ABDICOU

  

 
Tive uma vez um breve encontro com ele em Roma. A impressão que me ficou: um pessoa agradável, afável, reservada e tímida. E pude aperceber-me também da importância decisiva que tinha para ele o que se pode chamar a “pastoral da inteligência”, isto é, a reflexão sobre o diálogo entre a razão e a fé.


Joseph Ratzinger também teve o seu momento de rebeldia e de progressismo, no Concílio Vaticano II, como aqui expliquei em múltiplas crónicas,  concretamente em 2020, em cinco textos sobre “Bento XVI. Uma vida”. Não se deve esquecer o que, imagino, foi para ele, mais tarde, um escândalo: defendeu a possibilidade de pôr fim à lei do celibato obrigatório e ordenar como padres homens casados exemplares bem como de recasados poderem aceder à comunhão. Chegou a dizer nas aulas, em Tubinga: “em Roma, como sabem, não se faz boa Teologia”.


Durou pouco tempo este posicionamento. A sua orientação teológica agostiniana — Santo Agostinho não tinha em muito  boa consideração o mundo — inclinava-o mais para uma visão conservadora, místico-espiritual da Igreja. A mudança teve como ponto decisivo o medo dos excessos de 1968, com as transformações que então se puseram em marcha nos domínios da concepção da autoridade, da sexualidade, do radicalismo ateu de estudantes de Teologia, da “ditadura do relativismo”...


Reconhecido pela sua inteligência brilhante e uma rara cultura — dialogou com grandes intelectuais ateus e agnósticos, incluindo o filósofo Jürgen Habermas —, foi mais um intelectual e um professor do que um pastor, gestor. As circunstâncias fizeram com que ele, essa figura afável, tímida, honesta e  íntegra deixasse a vida académica, se tornasse arcebispo de Munique, seguisse para Roma como “inquisidor”, condenando muitas dezenas de teólogos, o seu maior pecado, participasse no retrocesso em relação ao Concílio, a ponto de o seu colega como perito conciliar, talvez o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, terminar os seus dias com a mágoa da entrada no “inverno da Igreja”.  Não creio que o desejasse, mas acabou por ser eleito Papa — aquando da eleição, lembrou-se, disse-o ele, da guilhotina.


Não era um teólogo inovador, mas deixa uma obra teológica importante, nomeadamente, três encíclicas: a primeira, para dizer que a verdadeira “definição” de Deus é que é Amor; a segunda, para convocar os cristãos e todos os homens à esperança; a terceira é sobre “a caridade (o amor) na verdade”. Nela, condena as posições neoliberais, cujo único objectivo é o lucro;  reafirma a doutrina essencial de que a economia e o desenvolvimento só são verdadeiros se estiverem ao serviço do Homem todo e de todos os homens; que, em ordem ao seu correcto funcionamento, a economia precisa da ética, “uma ética amiga da pessoa”; que, para conseguir o governo da economia mundial, o desarmamento, a segurança alimentar e a paz, a salvaguarda do meio ambiente e a regulação dos fluxos migratórios, “urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, que deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos”.


Ideia nuclear foi a do diálogo entre a fé e a razão. A fé, sem a razão, é cega e intolerante; a razão, sem a abertura à transcendência, pode enlouquecer. No cristianismo, acolhe-se a fé, dando lugar à descoberta do “Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-amor”. Aí está o vínculo indissolúvel entre Razão, Verdade e Bem.


Na Sexta-Feira Santa de 2005, ainda cardeal, declarou: “quanta porcaria na Igreja! A traição dos discípulos fere mais Jesus”. Referia-se certamente ao escândalo da pedofilia — removeu cerca de 400  padres culpados de abusos contra menores —, à figura sinistra do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, ao que se passava na Cúria. Quando assumiu funções como Papa, foi exemplar, pondo Maciel fora da vida pública, pedindo perdão às vítimas da pedofilia e tomando medidas drásticas e consistentes para que os crimes não se repitam.


Não conseguiu reformar a Cúria nem pôr termo às intrigas, ao carreirismo, às lutas pelo poder, aos escândalos, desde a corrupção à lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano, ao Vatileaks. Sem forças “no corpo e no espírito”, abdicou, “em consciência e plena liberdade”, para que outro lhe sucedesse.


Foi talvez a lição maior de Ratzinger enquanto Papa. Houve quem o criticasse, também dentro da Igreja e pensando em João Paulo II: que não se desce da Cruz e que dessacralizou o papado. Mas, afinal, o Papa é mais do que um homem? Não se trata tão-só de um cristão que leva consigo a específica missão gigantesca de ser sinal e promotor de unidade entre os cristãos e a Humanidade?


Este foi o seu testamento: abandonou pacificamente o poder. Porque na Igreja, como aliás no mundo em geral, é preciso escolher entre o poder como dominação e a força do serviço. O Deus cristão não se revela como Poder-Dominação, mas Força Infinita de criar, no Amor. Bento XVI leu e recomendou que todos os Papas lessem a famosa carta de São Bernardo ao Papa Eugénio III: “Não pareces um sucessor de Pedro, mas de Constantino.”.


Retirou-se para o Mosteiro Mater Dei, no Vaticano, afirmando sempre, contra alguns cardeais opositores, que agora o Papa era Francisco, que na homilia do funeral, se despediu, citando-o: “Ser  pastor quer dizer amar, e amar quer dizer também estar dispostos a sofrer.” E agora? (continua).

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 de janeiro de 2023

EVANGELHOS DA INFÂNCIA: VERDADE HISTÓRICA E VERDADE TEOLÓGICA

  


Não há figura mais estudada do que Jesus Cristo e não há hoje nenhum historiador sério que ponha em causa a sua existência histórica.


Depois, é preciso saber que a história se lê de trás para a frente; a partir do princípio, evidentemente, mas tem sobretudo de ser lida do fim para o princípio. Portanto, com a história e a razão hermenêutica. No caso de Jesus e do cristianismo, essa leitura é essencial, para se não cair em alçapões mortais.


Os Evangelhos escrevem sobre realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é, na confissão de São Pedro, “o Filho do Deus vivo”. Concretamente no que se refere aos Evangelhos da infância, é necessário ter em atenção a sua significatividade mais do que a historicidade. De facto, eles são construções teológicas, colocando no princípio a revelação do fim: Jesus é o Messias. Se é o Messias, nele realizam-se as profecias e as promessas de Deus. Assim:


1. O que é o Natal? É “um novo começo”, como bem viu o famoso teólogo Hans Küng, com quem falei várias vezes. Como se escreve no Evangelho segundo São João, “No princípio era o Logos (a Palavra) e o Logos (a Palavra) era Deus” — repare-se que não se diz que é ho theós, o Deus em si mesmo, mas theós, sem artigo, Deus, divino: “a Palavra é divina”. “E a Palavra fez-se carne”. Assim, Jesus é Deus presente, a revelação, a manifestação visível do Deus invisível: Deus fez-se humano, história, neste homem concreto que é Jesus de Nazaré.


Tive o privilégio de ter tido como professor o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que escreveu: “Quando dizemos ‘é Natal’, estamos a dizer: ‘Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne’. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos.”


2. Como foi o seu nascimento? Maria é virgem? Jesus teve irmãos? Foi também a Karl Rahner que ouvi pela primeira vez que os Evangelhos e a teologia não são tratados de anatomia.
Diz o Evangelho segundo São Lucas, referindo a admiração dos seus conterrâneos, quando Jesus começou a pregar: “Donde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? E isto parecia-lhes escandaloso.”


O jesuíta, filósofo e teólogo, Juan Masiá, disse, neste contexto, o essencial: Maria é bem- aventurada “ao conceber com José a Jesus por cooperação com o Espírito Santo. Agraciada ao dar à luz Jesus e os seus irmãos e irmãs. Salve!, Maria e José, agraciados e abençoados, com todas as mães e pais que recebem como um dom do Espírito os filhos que procriam e, ao gerá-los, consumam a virgindade simbólica que se realiza na maternidade e na paternidade. Porque não é incompatível a união dos progenitores com a acção do Espírito: a criatura nasce pela união dos seus progenitores e pela graça, a força, do Espírito Santo”. Acrescenta: “Toda a criatura nasce em graça original. Maria não é uma excepção. O chamado pecado original não é originário nem mancha. O seu nome exacto é o pecado do mundo. A criatura, que nasce sem nenhuma mancha, vem à luz num mundo no qual já é vasta uma rede de pecado. Como quem entra numa sala de fumadores e se contamina com o fumo”.


3. Quando nasceu? Ninguém sabe exactamente, mas terá sido entre o ano 6 e o ano 4 a.C. Parece paradoxal, mas isso deve-se a um erro do monge Dionísio, o Exíguo, quando no século VI quis estabelecer precisamente a data do nascimento de Jesus.
Evidentemente, não se pode dizer que nasceu no dia 25 de Dezembro. Esse dia do Natal de Jesus foi fixado no século III em substituição da festa pagã do Sol Invicto, porque Jesus é que é o verdadeiro Sol, a Luz invencível.


4. Onde nasceu? É quase certo que Jesus nasceu em Nazaré, por isso lhe chamavam o Nazareno. Mas, se ele, segundo a fé, é o Messias, então ele é o verdadeiro rei, da linhagem de David, que era de Belém. E puseram-no a nascer em Belém.


5. Os pastores foram os primeiros avisados, porque Deus manifestou a sua salvação a todos, a começar pelos que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres e viviam à margem da prática religiosa.


6. E os magos vieram do Oriente? E quantos eram? E viram uma estrela sobre a manjedoura? Será inútil procurar nessa data algum sinal especial no céu, porque, mais uma vez, os Evangelhos também não são nenhum tratado de astronomia. Eles vêm do Oriente, porque “ex Oriente lux” e Jesus é a verdadeira luz. E o salvador veio para todos, também para os pagãos. E Herodes não precisava de preocupar-se com a notícia, porque Jesus é rei, mas o seu reino implica um reinado de serviço e não de domínio.


7. E, claro, a chamada fuga para o Egipto não aconteceu, é apenas uma metáfora para dizer que Jesus é que é o verdadeiro novo Moisés, porque é o Libertador definitivo de toda a escravidão e opressão, incluindo a libertação da morte. Como Jesus não morreu para o nada, mas para a plenitude da vida em Deus, com a fé nele nasceu para todos a esperança da vida plena e definitiva em Deus.


8. Natal também significa família. Permita-se-me, neste contexto, que manifeste a minha estranheza por não haver em Portugal um Ministério da Família. Na Alemanha, há muito que existe. Ursula von der Leyen, por exemplo, já foi Ministra da Família.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 7 de janeiro de 2023

ANO VELHO. ANO NOVO


Os historiadores e fenomenólogos da religião fazem notar que, mesmo nas sociedades secularizadas, encontramos ainda algo dos mitos cosmogónicos, nomeadamente nos festejos da passagem de ano: folguedos e licenças, uma certa tonalidade orgiástica, alguma "confusão" social, na noite de passagem de ano, simbolizam o regresso ao estado indiferenciado e caótico de antes da formação do mundo pelos deuses. Volta-se, portanto, de algum modo, ao caos das origens, para que o mundo se regenere e se reponha o cosmos, um mundo outra vez novo, ordenado, belo: a caos contrapõe-se precisamente cosmos, que quer dizer belo (é do grego kosmós que vem cosmética)...


Aparentemente, é a repetição. Mas, de facto, é mesmo no novo que nos encontramos, dia 1 de Janeiro de 2023, (Janeiro, de Jano, o deus com dupla face: uma voltada para trás e outra para a frente). Embora enraizados no passado e sem esquecê-lo, de facto nunca houve nem nunca haverá um ano como este em que acabámos de entrar. É novo e único na história da humanidade e do mundo.


Depois dos alegres e ledos festejos, também haverá alguns pensamentos de meditação.


É tão certo tratar-se de um ano novo que para nós constitui uma incógnita. O que acontecerá?, como será? Até certo ponto, o ano que começa é programável, mas nunca de modo adequado, pois há o completamente imprevisível: não somos senhores absolutos do tempo, do futuro. Há o que podemos e devemos programar, dito na palavra futuro e há o que chega sem nós, que não podemos programar, dito na língua alemã na distinção entre Futur e Zukunft. Mas é preciso estar preparado, preparar-se, para o que chega sem nós, o inesperado. Por isso, um dos conselhos mais veementes no início do novo ano é cada um, cada uma, prometer a si próprio, a si própria, que dedicará diariamente alguns instantes ao silêncio, para estar consigo, meditando, reflectindo, sobre a sua vida, a orientação a dar-lhe... Quantos desastres pessoais, familiares, políticos, se evitariam, se houvesse este propósito, prometido e cumprido, ao longo dos dias de um novo ano... Desastres e tragédias.


Nestes dias festivos, lembramos mais os amigos, os familiares, aqueles e aquelas que levamos no coração. Ao menos por esta altura, há uma saudação, uma palavra, um encontro. Mas talvez nenhum de nós, nesta lembrança, tenha deixado de deparar-se com um buraco negro: um amigo, um familiar, uma amiga, que ainda no ano passado cá estavam e já cá não estão. E é uma falta e uma tristeza e um queixume e uma pergunta e talvez uma oração (afinal, rezar é perguntar...). A falta que nos fazem! Ficámos com saudades. A palavra saudade é uma palavra tipicamente portuguesa, que não encontra tradução adequada noutras línguas, e até a sua etimologia é discutida, mas, se vier de salutem dare (saudar), significa que, esteja onde estiver o nosso amigo, a nossa amiga, manifestamos o desejo de que passem bem, se vier de solitate (solidão), então exprime o nosso sentimento de solidão, porque não estão presentes e fazem falta. E uma advertência: por vezes, fica um remorso, porque não fizemos a tempo o que devíamos ter feito com eles e por eles; então um aviso: é preciso fazer a tempo e com tempo o que há para fazer; depois, é tarde, o nunca mais...


O dia primeiro do ano é também o Dia Mundial da Paz, iniciativa que se deve ao Papa Paulo VI. A paz, esse bem inestimável! A paz que não é apenas ausência da guerra, mas tranquilidade na ordem, que resulta da verdade, da justiça, do perdão, da fraternidade, da reconciliação. Reconciliação que tem de contar com cada um: precisamos todos e cada um de estar em paz connosco.


Considerando a loucura de num século já irmos na Terceira Guerra Mundial - a primeira: 1914-1918; a segunda: 1939-1945; a terceira está em curso, com toda a sua crueldade, horrores sem fim..., à vista de todos -, Francisco não se cansa de fazer apelo ao diálogo, ao desarmamento, à paz. No passado dia 8 de Dezembro, na tradicional oração da celebração da Imaculada Conceição, em frente da Coluna de Nossa Senhora, na Piazza di Spagna, em Roma, comoveu-se, e ficou com a voz embargada e algumas lágrimas correram, ao lembrar a martirizada Ucrânia.


Rezou: "Nossa Mãe Imaculada, trago-te o amor filial de homens e mulheres sem conta; trago-te os sorrisos das crianças, que aprendem o teu nome diante da tua imagem, nos braços das mães e avós; trago-te a gratidão dos idosos; trago-te as preocupações das famílias; trago-te os sonhos e as ansiedades dos jovens, abertos ao futuro mas refreados por uma cultura rica em coisas e pobre em valores, saturada de informação e deficiente na educação. Recomendo-te de modo especial os mais pequenos, que foram mais afectados pela pandemia, para que pouco a pouco recuperem para abrir as asas e voar, recuperem o gosto de voar alto. Virgem Imaculada, quereria tanto hoje trazer-te o agradecimento do povo ucraniano pela paz que há muito pedimos ao Senhor; pelo contrário, ainda tenho de apresentar-te a súplica das crianças, dos anciãos, dos pais e das mães, dos jovens dessa terra martirizada. Mas na realidade todos nós sabemos que estás com eles e com todos os que sofrem, como estiveste ao lado da cruz do teu Filho. Obrigados, Mãe nossa. Olhando para ti, podemos continuar a acreditar e a esperar que o amor ganhará ao ódio, a verdade ganhará à mentira, o perdão ganhará à ofensa, a paz ganhará à guerra. Assim seja!" Bom ano de 2023!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 de janeiro de 2023

AINDA É ADVENTO

  


Tive o privilégio, em Tubinga, de conversar longamente com Ernst Bloch, um dos filósofos maiores do século XX (morreu em 1977). Quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, Ernst Bloch, filósofo ateu, mas paradoxalmente, ateu religioso, na última aula antes das férias de Natal, desejava Boas Festas aos estudantes, falando-lhes do significado do Natal, e terminava assim: “É sempre Advento”.


Com esta expressão — é sempre Advento, ainda é Advento —, Ernst Bloch queria apelar para a esperança. O mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsia e possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar.


Quando se pensa nas raízes da Europa, é claro que, para quem está atento e não tem preconceitos, um dos fundamentos determinantes da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano, da própria ideia de pessoa, da história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, de tal maneira que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.


Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter de deixar a Universidade de Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas da altura acusaram-no de misticismo religioso. Ele  defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, "a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial", pois responde à pergunta decisiva do homem, que é a questão do fim, do sentido e finalidade últimos do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia "não pode prejudicar" nenhum ser humano que queira bem à humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho, que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como cairam na barbárie.


Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Haendel, Bach, Beethoven, os Requiem, "absolutamente nada", escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma "situação insustentável", pois produz bárbaros, que, por exemplo, perante a Paixão segundo São Mateus, de Bach, ficam como bois a olhar para palácios.


O Natal, mesmo que alguns já se não lembrem disso, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem "pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido". Anunciou um Deus próximo, de amor, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade, da justiça, do amor, da fraternidade,  da paz, da igualdade de todos diante de Deus e diante dos homens, o Reino da realização plena de toda a esperança.


Também por isso, nos dias à volta do Natal, apesar de todos os horrores que nos abalam até à raiz de nós, sentimo-nos mais humanos, mais solidários, o amor é mais vasto, a esperança é maior. E lá está Bloch: “onde há esperança há religião”.


O Advento continua. Ainda é Advento, pois ainda não chegou plenamente o que esperamos. É preciso relembrar que, na bela expressão de Helena Buescu, “somos herdeiros e futurantes”. Advento é uma palavra que vem do latim e significa vinda, chegada: em sentido religioso, é a chegada, a vinda de Deus: Ele veio e mostrou-se em Jesus, Ele vem, Ele virá. Somos herdeiros, pois estamos enraizados no passado e vivemos no presente, sempre futurantes enquanto esperamos, alicerçados numa esperança sem limites, pela realização de todos os nossos sonhos, “sonhos acordados”, sublinhava Bloch.  


Face ao fim, nestes tempos de niilismo, com “subprodução de transcendência”, como se queixava Bloch, só resta uma alternativa:


Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L’homme nu: “Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada.”


A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer  dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 de dezembro de 2022

A IMACULADA CONCEIÇÃO E A ESPERANÇA

  


Santo Agostinho era um génio. Mas a sua influência foi ambígua,  para o bem e para o mal. Pense-se no seu pessimismo, que o levou à convicção de que o prazer sexual implica sempre algo de pecaminoso, pois a finalidade da relação sexual deveria ser unicamente a procriação.


Baseado na tradução latina da Carta de São Paulo aos Romanos, 5,12, referente a Adão: "no qual todos pecaram", Santo Agostinho, contra o texto original grego, que diz: "porque todos pecaram", interpretou que o pecado de Adão não é apenas o primeiro da série de todos os pecados cometidos pelas pessoas ao longo da história, mas que esse pecado é um pecado hereditário, de tal modo que é um pecado de todos os homens e mulheres, transmitido por geração pelo acto sexual. Portanto, o recém-nascido não é inocente, nasce em pecado, do qual, para evitar a condenação eterna, só o baptismo o pode libertar. Foi pelo pecado de Adão que veio todo o mal ao mundo, incluindo a morte. Esse pecado tornou a humanidade toda “massa damnata”, massa condenada, ao inferno, do qual só alguns são libertados pela graça imerecida de Deus. Pelo pecado, Adão destruiu um bem que podia ser eterno, tornando-se merecedor, ele e todos os homens nele, de um mal eterno: "Daqui - escreve ele -, a condenação de toda a massa do género humano, pois o primeiro culpado foi castigado com toda a sua posteridade, que estava nele como na sua raiz. Assim ninguém escapa a esse suplício justo e devido, a não ser por uma misericórdia e uma graça indevida. E é tal a disposição dos homens que nalguns aparece o valor de uma graça misericordiosa e nos outros o de uma justa vingança".


Assenta aqui a doutrina da dupla predestinação, que continuaria radicalizada sobretudo em Calvino. Na salvação de alguns, revela-se a misericórdia graciosa de Deus; na condenação eterna da maioria, manifesta-se a justiça do mesmo Deus.


É neste enquadramento que surge a festa que se celebrou no passado dia 8 de Dezembro, com feriado nacional: a Imaculada Conceição de Nossa Senhora: Maria, a mãe de Jesus, seria uma excepção, pois foi concebida sem pecado.


Hoje, o pecado original não é pensável. De facto, como se pode pensar no pecado original, causa de todos os males, incluindo a morte, no contexto da evolução, segundo a qual o ser humano aparece num processo imensamente lento? O pecado original dos primeiros homens — quem foram os primeiros? — implicaria um acto de liberdade plena, que eles, pensando precisamente na evolução, não tinham... E não havia morte, se não houvesse o primeiro pecado de Adão e Eva?  Mais: quem acredita verdadeiramente que uma criança acabada de nascer foi concebida em pecado e nasce com o pecado dentro dela?  


O chamado pecado original só faz sentido, se pensarmos que aquele menino, aquela menina, nascem inocentes, mas para um mundo onde já há pecado e, assim, vão ser contaminados por esse ambiente de pecado, como um não fumador é contaminado ao entrar num ambiente em que se fuma.  Aliás, as pessoas, postas a pensar, acreditam verdadeiramente no pecado original no sentido tradicional? Permita-se-me que conte uma pequena história que se passou comigo. Fui fazer uma palestra em Aveiro. Na altura das perguntas e esclarecimentos, uma senhora, embora eu não tivesse abordado sequer o tema, acusou-me: “Você negou o pecado original”. Eu disse-lhe que na palestra nem tinha abordado a questão, mas voltei-me para ela e perguntei-lhe: “A senhora é mãe?” E ela: “Sim, sou mãe de duas filhas”. Disse-lhe: “Parabéns! Agora diga-me: acredita sinceramente que elas foram geradas em pecado e que a senhora andou com o pecado dentro de si durante dezoito meses?” Ela: “Eu? Eu não.” Observei-lhe: “Está a ver? Afinal, quem nega o pecado original é a senhora, não eu.”


Com a doutrina do pecado original, chegava-se a esta contradição: por um lado, havia a obrigação moral de relações sexuais fecundas, em ordem ao cumprimento da ordem de Deus: crescei e multiplicai-vos; por outro, havia o receio de, precisamente desse modo, contribuir para o aumento de pessoas com o pecado original; havia ainda a agravante de contribuir para as condenações ao inferno, caso os recém-nascidos morressem antes de receber o baptismo: em muitas ocasiões Santo Agostinho afirma a condenação eterna das crianças que não foram baptizadas...  Lentamente, ele próprio apercebeu-se de que era tal o horror dessa doutrina que elaborou a doutrina do limbo para as crianças que morriam sem baptismo: não iam para o inferno, mas também não gozavam da plenitude da vida em Deus...


Portanto, se não há pecado original no sentido tradicional, qual é o sentido da festa da Imaculada Conceição? O que de facto se celebra é Maria como a primeira cristã e a esperança de que no final se realize o Reino de Deus na sua plenitude, pondo termo a todo o calvário do mundo, à ecúmena do sofrimento sem nome, a esse cortejo infindo de ódio, de malvadez, de vingança, de loucura, de pecado, que realizou guerras mundiais,  Auschwitz, o Goulag,  a Ucrânia...,  todo o mal e toda a tragédia e todas as lágrimas que causamos uns aos outros e o número incontável de vítimas inocentes...


Essas vítimas gritam, não por vingança, mas por justiça. E só Deus, força criadora infinita, pode responder, pela ressurreição dos mortos, a esse clamor da história do sofrimento humano. Para que a história do mundo e da humanidade não desemboque pura e simplesmente no absurdo do sem sentido.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 10 de dezembro de 2022

PENSAR SOBRE A ACTUALIDADE

  


Pensar é essencial e talvez seja o que mais falta. Pensar vem do latim pensare, que significa pesar razões, mas é de pensare que vem também o penso sanitário, pois pensar cura. Ficam aí alguns temas da actualidade para pensar e agir.


1. Segundo as Nações Unidas, pela primeira vez na história somos 8.000.000.000. Impressiona o ritmo de crescimento da população no mundo. Os Homo sapiens sapiens, e, como acrescento sempre, ao mesmo tempo demens demens, uma espécie muito recente, poderia, segundo José Arregi, somar, há uns 12.000 anos, antes da revolução neolítica, à volta de 1 milhão; há 2.000 anos, no tempo de Jesus, eram uns 200 milhões; no ano 1800, ascendiam a uns 1.000 milhões; mas, passados 100 anos, chegavam quase a 2.000 milhões; e no ano 2000 éramos 6.000 milhões, para, vinte anos depois, sermos 8.000 milhões.


Esta situação obriga evidentemente a pensar. Estão aí problemas gigantescos e é urgente reflectir sobre as questões que se colocam, desde a alimentação para todos e a ecologia, ao futuro da humanidade, e isso implica pensar concretamente numa governança global… 


Por outro lado, habituados aos grandes números, não podemos de modo nenhum esquecer o que parece absolutamente banal, mas que é decisivo: 8.000.000.000 resuta da soma de 1+1+1+1+1+1+1+1…, um mais um, mais um, mais uma, mais uma, mais uma, mais um…, e cada um e cada uma é ele, ela, de modo único, irrepetível, com os seus sonhos, as suas aspiraçãoes, os seus dramas, os seus êxitos, a sua intimidade, os seus amigos e admiradores, os seus adversários e inimigos, os seus amores, os seus filhos, as  as suas tragédias, a sua solidão mortal, as suas interrogações sem resposta, as suas doenças, as suas angústias diante do fim…


Quando me surgem na televisão aquelas imagens terríficas de pessoas massacradas naquela hedionda guerra da Ucrânia, penso: esta era uma criança que tinha nome e família e um futuro à espera; este era um idoso que ainda esperava; esta era uma mãe que deixou filhos na orfandade; este era um pai que transportava mundos com ele…


No Catar, onde há pena de morte e a violação dos direitos humanos é constante, na construção dos estádios e outras infraestruturas terão morrido 6500 trabalhadores migrantes… Por trás deste número assustador, estão rostos, nomes, famílias, sonhos. A propósito, o que terá movido as três mais altas figuras do  Estado a quererem ir ao Mundial?


Temos de ter presente permanentemente a humanidade inteira, mas sabendo que, no final, o que há é sempre este, aquele, esta, aquela… Um a um. E o amor começa pelo mais próximo/próxima…


2. O censo 2021
. Henrique Monteiro foi cortante: Portugl: “Velho, Pobre, Doente. Não há resumo mais resumido do último censo.” É catastrófico: 182 velhos para 100 jovens; há mais de um milhão de pessoas a viver sozinhas; há mais divorciados do que viúvos; há urgências com longas horas à espera…


As perguntas acumulam-se. Por exemplo: que políticas existiram de apoio à família e à natalidade?


Há muito tempo que, quando faço um baptismo, vou avisando: se for possível, façam um seguro para este menino, para esta menina… Vamos precisar de trabalhadores migrantes, mas não podem ter uma vida escravizada. Têm de ser recebidos com dignidade, receber salários justos e com os devidos descontos… até para garantia da segurança social futura. Ah!, e uma economia fracassada…


3
. No ano 2000, a ONU designou o dia 25 de Novembro como Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. António Guterres, pensando neste 25 de Novembro, clamou: “Levantemos a voz com firmeza para defender os direitos das mulheres.” De facto, desgraçadamente — socorro-me de Consuelo Vélez —, “a cada 11 minutos morre uma mulher ou uma menina às mãos do companheiro íntimo ou algum membro da sua família, ainda há 37 Estados nos quais não se julga os violadores se estiverem casados ou se casarem depois com a vítima e 49 Estados nos quais não existe legislação que proteja as mulheres da violência doméstica”. Note-se que em Portugal, neste ano, já vamos em 28 mulheres mortas.


A barbaridade da mutilação genital feminina continua. Mas a violência não é apenas física, ela abarca a violência sexual, psicológica, moral, educacional, casamento de menores… As religiões também têm culpas. Pergunta-se, por exemplo: para quando o fim da discriminação das mulheres na Igreja?


4
. A propósito de 25 de Novembro e a libertação das mulheres, deve vir à memória também o nosso 25 de Novembro de 1975. Foi com ele e os seus heróis que finalmente se assegurou em Portugal a democracia pluralista. Considerando o contexto da época, foi um acontecimento de importância mundial. Espero, exijo, que as celebrações do cinquentenário do 25 de Abril sejam do 25 de Abril e do 25 de Novembro.


5
. Tempo do Advento. No passado Domingo, começou o tempo do Advento. Advento vem do latim e significa vinda, chegada: chegada, vinda de Deus. É tempo de preparação para o Natal — gostaria de saber quantos portugueses, sobretudo entre os mais jovens, sabem que o Natal se refere ao nascimento de Jesus, acontecimeto decisivo para a Humanidade, pois foi através do cristianismo que se soube da dignidade inviolável da pessoa humana e dos seus direitos.


Em tempos em que se vive sedados com o hedonismo, a alienação, o consumismo voraz, a pós-verdade…, o Advento deveria ser uma oportunidade para parar e ir ao encontro do interior, do essencial, da busca do sentido da vida…

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 de dezembro de 2022

HOMEM: O ANIMAL FALANTE E POLÍTICO

  


Lá está Ludwig Wittgenstein: a linguagem não serve apenas para descrever a realidade, usamo-la também para pedir um favor, para agradecer, para amaldiçoar, para saudar, para rezar...


E é preciso atender ao contexto, à situação, ao uso. «Chove» pode dizer a constatação de um facto: está realmente a chover. Mas suponhamos que a mãe, pela manhã, quando o filho se prepara para ir para escola, lhe diz: «Chove», ele sabe ao mesmo tempo que deve levar o guarda-chuva. Se, numa família de agricultores, após uma seca prolongada, como agora, a mulher abre a janela e diz ao marido: «Chove», é o contentamento que é dito. Mas, se estavam na expectativa de um passeio agradável e diz: «Chove», é a desilusão.


A linguagem tem três funções principais: a expressiva, a apelativa e a representativa. Essas funções têm que ver com as relações estabelecidas entre o emissor, o receptor e os objectos: há alguém (emissor) que se dirige a alguém (receptor) para lhe comunicar algo, tornando presente a realidade.


Há também a função fática, que tem apenas a missão de manter o contacto: «sim, sim...», «pois...», «claro...». Quando alguém fala de mais, vai-se tentando dizer que ainda se está lá a ouvir. Sabe Deus!...


Noutro sentido, é essencial a dimensão pragmática da linguagem. Segundo alguns filósofos, deveria tender-se para uma linguagem artificial, lógico-unívoca, interessando apenas as dimensões sintáctica (a relação dos signos entre si) e semântica (relação dos signos com a realidade) da linguagem e o princípio verificacionista das asserções. Mas, deste modo, esquecia-se a dimensão pragmática: falando, produz-se um efeito. Pense-se, por exemplo, na promessa de casamento: «Prometo e juro amar-te e ser-te fiel por toda a nossa vida» produz o efeito que é o próprio casamento. Esta dimensão foi sublinhada na Bíblia: Deus criou pela palavra, palavra eficaz. “Faça-se a luz”, e a luz apareceu.


Com a linguagem, pode-se arrastar multidões, levá-las à revolução, acalmá-las, exaltá-las, virá-las num sentido ou noutro.


A palavra cura. Uma vez, apareceu-me um homem com imensos problemas e apenas me pediu que o ouvisse, sem interrupção. Falou mais de hora e meia e, no fim, agradeceu-me muito, pois não imaginava quanto o tinha ajudado, que nunca me esqueceria. Com algumas palavras, podemos abrir futuro a uma pessoa. Com algumas palavras, podemos destruí-la para sempre: «És um burro, nunca farás nada na vida!»


Pela palavra, abrimo-nos ao mundo e o mundo abre-se a nós. Falando, damos razão disto ou daquilo, argumentamos, comprometemo-nos, formamos comunidade. Sendo a razão humana linguisticizada, só nos podemos compreender a nós próprios em corpo, com outros e na história. O Homem, pelo facto de ser zôon lógon échon, animal que tem linguagem, é também zôon politikón, animal social, político, diferentemente do animal, que é gregário, e a razão disso é a palavra, como bem viu Aristóteles na Política: «A razão de o Homem ser um ser social, mais do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário, é clara. Só o Homem, entre os animais, possui a palavra.» E continua: «A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente, bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a cidade.» E é pelo diálogo (diá-lógon) que os conflitos se devem resolver.


A linguagem humana não se reduz à linguagem emotiva do prazer e do desprazer. É capaz de fazer juízos morais, de distinguir o bem e o mal, o justo e o injusto, partilhar e debater publicamente estas apreciações. Deste modo, como sintetizou Gabriel Amengual, «por esta dupla função, a linguagem funda a ética e funda eticamente a pólis».


Como faz falta voltar aos clássicos! Para acabar com a mentira e ir além da sofística...


Todos somos animais políticos e, consequentemente, responsáveis pela condução da pólis. Estou de acordo com o Papa Francisco, com a observação de que, embora ele se refira só aos cristãos, o aviso é para todos: "Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Enquanto cristãos não podemos lavar as mãos como Pilatos. Temos de nos meter na política, porque a política é uma das formas mais altas da caridade, pois procura o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. A política está muito suja, mas eu pergunto: ‘Está suja porquê?’ Porque os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico? É uma pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros... Mas eu o que é que faço? Isto é um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever para um cristão."


Escrevi aqui muitas vezes que considero a política uma actividade nobre, das mais nobres. Quando isso acontece no quadro do trabalho para o bem comum, antepondo o interesse comum aos interesses próprios e dos partidos. Mas, sendo a política uma missão tão dura e exigente, quando observo a corrida tão interessada de tantos a cargos políticos, tenho de confessar, sinceramente, que não acredito que a maior parte o faça por amor à causa pública, ao serviço do bem comum. Que interesses, que vantagens, que cumplicidades, que incompetências, que privilégios, que compadrios, que subvenções, que benesses, que vaidades os movem?

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 de novembro de 2022

FRANCISCO SOBRE O DIÁLOGO, AS MULHERES, OS CATÓLICOS ALEMÃES...

  


Entre 3 e 6 deste mês de Novembro, o Papa Francisco esteve no Bahrain, no Fórum a favor do Diálogo: Oriente e Ocidente pela coexistência humana. No regresso, no avião, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa. É sempre enriquecedor dar atenção a essas conferências, até porque há temáticas múltiplas da actualidade e uma espontaneidade acrescentada. Seguem-se alguns temas.


1. Referindo o diálogo, acentuou que é uma palavra-chave: "diálogo, diálogo". Já tinha sublinhado, aliás, que os animais é que não dialogam, os humanos têm de resolver os seus problemas através do diálogo. Condição para dialogar é que se tem de partir da identidade própria, ter identidade afirmada, não difusa. Quando alguém não tem a sua própria identidade ou ela não é firme, o diálogo torna-se difícil, até impossível. A sua viagem foi uma viagem de encontro, porque o objectivo era estar em diálogo inter-religioso com o islão e ecuménico com os ortodoxos. Ora, tanto o Grande Imã de Al-Azhar, no Cairo, Ahmed al-Tayeb, como o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, "têm uma grande identidade" e as suas ideias vão no sentido de procurar a unidade, respeitando as diferenças, evidentemente, em ordem ao entendimento e ao trabalho conjunto para o bem e a paz da Humanidade. Também se chamou a atenção para a Criação e a sua protecção: "isto é uma preocupação de todos, muçulmanos, cristãos, todos". Os crentes das várias religiões "devemos caminhar juntos como crentes, como amigos, como irmãos."


2. Na sua viagem, lembrou outro jornalista, "falou sobre os direitos fundamentais, incluindo os direitos das mulheres, a sua dignidade, o direito a ter o seu lugar na esfera social pública"...


Resposta de Francisco. "Temos de dizer a verdade. A luta pelos direitos da mulher é uma luta contínua. Há lugares onde a mulher tem igualdade com o homem, mas noutros não. Pergunto: porque é que uma mulher tem de lutar tanto para manter os seus direitos?" E falou na ferida da mutilação genital feminina: "isto é terrível". Como é que a humanidade não acaba com isto, que é "um crime, um acto criminoso! As mulheres, segundo dois comentários que ouvi, são material "descartável" - isso é mau, claro - ou são "espécies protegidas". A igualdade entre homens e mulheres ainda não é universal, e existem estes incidentes: as mulheres são de segunda classe ou menos. Temos de continuar a lutar. Deus criou-os iguais, homens e mulheres. Todos os direitos das mulheres provêm desta igualdade. E uma sociedade que não é capaz de colocar a mulher no seu lugar não avança." As mulheres têm uma capacidade de gerir as coisas de outra maneira, que "não é inferior, mas complementar". E uma constatação: "Vi que no Vaticano sempre que entra uma mulher para fazer um trabalho as coisas melhoram: por exemplo, o vice-governador do Vaticano é uma mulher e as coisas mudaram para bem." Só um exemplo.


Igualdade de direitos, mas também igualdade de oportunidades; caso contrário, empobrecemo-nos. Há ainda muito caminho para percorrer. Porque "existe o machismo. Venho de um povo machista. Lutamos não só pelos direitos, mas porque precisamos que as mulheres nos ajudem a mudar."


3. Quanto à Ucrânia. "O Vaticano está permanentemente atento". Ele foi à embaixada russsa falar com o embaixador, "um humanista", está disposto a ir a Moscovo para falar com Putin, falou duas vezes ao telefone com o Presidente Zelensky... O que lhe chama a atenção é "a crueldade, que não é do povo russo... Tenho uma grande estima pelo povo russo, pelo humanismo russo. Basta pensar em Dostoievsky, que até hoje nos inspira... Sinto um grande afecto pelo povo russo e igualmente pelo povo ucraniano".


E atirou, desolado: "Num século, três guerras mundiais! A de 1914-1918, a de 1939-1945, e esta! Esta é uma guerra mundial, porque é certo que, quando os impérios de um lado e do outro se debilitam, precisam de fazer uma guerra para sentir-se fortes e também para vender armas. Hoje creio que a maior calamidade do mundo é a indústria armamentista. Por favor! Disseram-me, não sei se está certo ou não, que, se não se fabricassem armas durante um ano, acabar-se-ia com a fome no mundo." E contou que sempre que vai a cemitérios e encontra o túmulo de um jovem morto numa guerra, chora.


4. Sobre os abusos de menores, reconheceu que houve secretismo e encobrimento. Agora, é a "tolerância zero". "Nisto hoje a Igreja está firme, pois, mesmo que só tivesse havido um caso, seria trágico."


5. Mesmo a terminar, Francisco mostrou alguma preocupação com o "caminho sinodal" da Igreja na Alemanha: "Aos católicos alemães digo: a Alemanha tem uma grande e bela Igreja evangélica; não quero outra, que não será (nunca) tão boa como aquela; quero-a católica, em fraternidade com a evangélica."


A Conferência Episcopal Alemã esteve no Vaticano e o caminho sinodal foi um dos temas centrais nos encontros com o Papa e a Cúria. Os bispos alemães apelam à "unidade" da Igreja. Mas o Presidente da Conferência, G. Bätzing, também foi lembrando que Roma foi e é "ponto de referência para a fé católica e para toda a Igreja", mas "não é a origem e a meta do caminho que tomamos na fé"; "a origem e a meta desse caminho é Jesus Cristo".


Assim, pessoalmente, pergunto, por exemplo: o que impede acabar com o celibato obrigatório ou a ordenação de mulheres para presidirem à celebração da Eucaristia? Onde esteve afinal a igualdade de direitos?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 de novembro de 2022