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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SEIS ANOS DEPOIS: DESAFIOS PARA FRANCISCO

 

1. Fez no passado dia 13 seis anos que Francisco, ao anoitecer em Roma, compareceu como novo Papa perante a multidão que o aguardava, saudando-a com um “boa noite” e pedindo-lhe a bênção, antes de ele próprio a abençoar. Que os cardeais o tinham ido buscar ao “fim do mundo”. Pelo nome, Francisco, lembrando Francisco de Assis, a quem Jesus crucificado tinha pedido que restaurasse a sua Igreja em ruínas, pelo novo estilo, pela humildade e simplicidade, ficou a percepção nítida de que iria estar a caminho um modo novo de pontificado papal: nem sequer se chamou Papa, mas Bispo de Roma, e era um pontífice, no sentido etimológico da palavra: alguém que quer estabelecer pontes.

 

E o povo cristão e o mundo não se enganaram. O nome de Deus, foi dizendo Francisco ao longo destes anos, é Misericórdia. É necessário perceber que o princípio primeiro não é o cartesiano “penso, logo existo”, mas outro, mais essencial: “sou amado, logo existo”. E agir em consequência, e Francisco tem estado, por palavras e obras, junto de todos, a começar pelos mais frágeis, pelos abandonados, marginalizados, migrantes, pobres, pelos menos amados ou pura e simplesmente sem amor. Um cristão, que põe no centro Jesus Cristo e o seu Evangelho, notícia boa e felicitante, contra “a globalização da indiferença”.

 

A Igreja não pode entender-se em auto-referencialidade, pois tem de estar permanentemente “em saída”, ao serviço da Humanidade, como “hospital de campanha”. A Igreja “somos nós todos” e, por isso, é preciso que caminhemos juntos, “em sinodalidade”. O poder só se legitima enquanto serviço e, assim, não se cansa de denunciar os bispos “príncipes e de aeroporto”. O clericalismo e o carreirismo são uma “peste” na Igreja, repete permanentemente. A Cúria, cujas doenças gravíssimas denuncia, precisa de uma reforma radical, tal como se impõe a transparência no Banco do Vaticano. A Igreja não pode viver obcecada com o sexo, havendo uma nova orientação neste domínio: pense-se na possibilidade da comunhão para os recasados, na nova atitude face aos homossexuais, na nova compreensão para as novas formas de casamento. A Igreja tem de praticar no seu seio os direitos humanos que prega aos outros e, portanto, nunca mais houve condenação de teólogos; pelo contrário, escreveu a vários, que tinham sido condenados, elogiando e agradecendo o seu trabalho, como aconteceu, por exemplo, com Hans Küng ou José Maria Castillo.

 

Francisco publicou uma encíclica de relevância global sobre o cuidado da casa comum, a ecologia e a salvaguarda da criação, Laudato sí, impulsionou o diálogo ecuménico com as outras Igreja cristãs, aprofundou o diálogo interreligioso, concretamente com o islão moderado, sendo exemplar a sua recente viagem histórica aos Emiratos Árabes Unidos, com a assinatura do “Documento sobre a Fraternidade Humana”, que aqui já referi. Como líder político-moral global, tem desempenhado papel relevante em processos de paz internacional. Não sem razão, Francisco é o líder mundial mais apreciado e estimado do mundo, segundo a Sondagem Mundial Anual de Gallup International, realizada em 57 países e publicada nos inícios de Fevereiro.

 

Devo esta última informação a um texto de Hernán Reys Alcaide, subordinado ao tema dos desafios para Francisco neste seu sétimo ano como Papa, precisamente o ano que teve início no passado dia 13.

 

2. Que desafios? Enuncio alguns.

 

2.1. Perante o abismo da chaga da pedofilia do clero, Francisco tomou a iniciativa que se impunha: como dei amplo conhecimento aqui, convocou para o Vaticano os responsáveis máximos da Igreja, concretamente os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, representantes das Igrejas católicas do Oriente, representantes dos superiores e das superioras gerais de Congregações e Ordens religiosas. Homens e mulheres foram confrontados com testemunhos vivos de antigas vítimas, para que tomassem consciência da situação terrível que destruiu vidas e a fé de tantos e colocou a Igreja no fosso da descredibilização.

 

A tragédia era inimaginável. Quem suporia que um cardeal, a terceira figura do topo da Igreja, o cardeal australiano George Pell, havia de estar condenado e preso na cadeia, por abuso de menores? Neste momento, 37% dos católicos norte-americanos põem a questão de abandonar a Igreja, por causa da pedofilia... Francisco prometeu que todos os acusados serão entregues à justiça. O abuso de menores e adultos vulneráveis é não só um pecado mas também um crime, que é obrigatório denunciar. Já não haverá lugar para os encobridores... Operou-se uma verdadeira revolução copernicana, no sentido de que agora o centro será ocupado pelas vítimas e a sua defesa e apoio sem tréguas.

 

Desafio maior para Francisco neste novo ano de pontificado é o cumprimento da promessa da formação de um grupo de peritos multidisciplinar, de um novo “Motu Proprio”, decreto papal, para reforçar a prevenção e a luta contra a pedofilia e a protecção dos menores e pessoas vulneráveis, com medidas concretas, e de um “vade-mecum”, isto é, uma espécie de manual para orientação dos procedimentos dos bispos neste domínio. É imperioso e urgente que a Igreja se torne um lugar seguro para os menores, inclusivamente para ir ao encontro da vontade explícita e dramática de Jesus: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho à volta de pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. A Igreja tem de tornar-se exemplar, também para poder tornar-se credível na denúncia e na ajuda para a libertação de tantas crianças e adolescentes (centenas de milhões) que no mundo são vítimas de abusos sexuais, físicos e psicológicos, da fome e da guerra.

 

Se não forem tomadas todas as medidas necessárias para acabar com esta brutalidade da pedofilia clerical, a Igreja caminhará não só para a sua irrelevância mas também para a sua autodestruição.

 

2.2. Desafios ético-diplomático-políticos, concretamente em relação à China e à Venezuela.

 

A situação na Venezuela é pura e simplesmente insuportável, a ponto de me perguntar como é possível, face à tragédia — não há de comer, não há remédios, não há electricidade, a fome campeia, não há liberdade... —, haver partidos que ainda apoiam e defendem Maduro. Que vai Francisco fazer, para intermediar o intolerável?

 

Como vai Francisco conseguir implementar, em casos concretos, o acordo assinado com a China em Setembro passado para a nomeação conjunta dos bispos, depois de 60 anos de desencontros entre Roma e Pequim quanto a esta questão essencial para a Igreja? Xi Jinping passará por Roma em finais deste mês de Março. Será recebido pelo Papa?

 

2.3. Está em processo de redacção uma nova Constituição Apostólica, Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho), para a Cúria Romana, governo central da Igreja. Que novas estruturas, que divisão de competências? Qual a presença e a participação de leigos, incluindo mulheres? Que descentralização, que relação com as Conferências Episcopais do mundo, com que competências para a participação no governo da Igreja universal? De qualquer modo, as Conferências Episcopais serão consultadas para a nova Constituição.

 

2.4. Provavelmente, haverá um novo Consistório cardinalício, para a nomeação de novos cardeais. Quem? Com que orientação? E se o sucessor de Francisco, em vez de ser escolhido só por cardeais, o fosse por um colégio de representantes semelhante ao da Cimeira que se reuniu em Roma para pôr termo à pedofilia, portanto, mais representativo da Igreja universal, com a presença inclusivamente de mulheres?

 

Aliás, um dos desafios para o novo ano tem a ver precisamente com a justa reivindicação de maior presença e participação das mulheres na Igreja nos seus vários níveis, incluindo na formação dos candidatos a padres. Francisco tem afirmado que a Igreja não pode continuar “machista”.

 

2.5. Acontecimento de enorme relevância será o Sínodo para a Amazónia, de 6 a 27 de Outubro próximo, que não será fácil também por causa do novo Governo do Brasil com Jair Bolsonaro.

 

De qualquer forma, é em conexão com este Sínodo que são referidas questões tão importantes como o lugar e a participação das mulheres nas decisões da vida da Igreja ou a possibilidade da ordenação de homens casados. É neste contexto que é necessário repensar a formação dos novos padres e a questão da lei do celibato obrigatório.

 

Precisamente neste quadro e voltando à Igreja clerical e aos abusos sexuais e ao clericalismo, “peste” na Igreja, deixo aí, para reflexão final, um texto duro do teólogo José Arregi, que, depois de citar aquele dito de Francisco, pouco feliz, se não for entendido no seu contexto, de que “todo o feminismo é um machismo com saias”, escreveu: “Sim, o problema talvez tenha que ver com saias, mas com as saias do clero com sotaina. Tem muito que ver com o clericalismo que sacraliza e enaltece os clérigos, que exalta a figura desencarnada de Maria Mãe e Virgem para assim humilhar a mulher de carne e osso, que impõe o celibato como estado mais perfeito e sagrado, que ‘sacrifica’ o sexo a troco de poder sagrado e hierárquico, que reprime e por isso exacerba a sexualidade. O clericalismo é um sistema patogénico. E, enquanto não se libertar dele, esta Igreja não será crível nem um lugar habitável, por mais liturgia penitencial que ostente.”

 

Entretanto, a Conferência Episcopal Alemã acaba de anunciar um debate interno sobre o celibato, o abuso de poder e a moral sexual na Igreja Católica, com base na Cimeira sobre a pederastia, há pouco realizada no Vaticano.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 17 MAR 2019

SE AS MULHERES NA IGREJA FIZESSEM GREVE?

 

1. Hoje, dia 8 de Março, é o Dia Internacional da Mulher. Mas dias da mulher são todos. Da mulher e do homem. Porque só com homens e mulheres, iguais e diferentes, há humanidade e futuro. Diferentes, mas com dignidade e direitos iguais. Só porque ainda se não reconhece ou, pelo menos, não suficientemente, essa igualdade de dignidade e direitos, é que é necessário haver o Dia da Mulher.

 

Também na Igreja, não existe, desgraçadamente, esse reconhecimento. O próprio Papa Francisco, recentemente, depois de declarar que o preocupa  que continue a persistir “uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais há actos de violência contra a mulher, convertendo-a  em objecto de maus tratos, de tráfico e de lucro” (pergunto: saberá ele que em Portugal neste ano de 2019 já houve 12 mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica?), disse: “Preocupa-me igualmente que, na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão está chamado deslize algumas vezes, no caso da mulher, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço.”

 

A gente pasma ao constatar que esta situação de subalternização e exploração continue, pois Jesus manifestou claramente a igualdade. Contra o que se via e praticava no seu tempo, teve, com escândalo de muitos, discípulos e discípulas — pense-se nos amigos íntimos Lázaro, Marta e Maria; pense-se na samaritana, a quem, apesar de estrangeira, herética, pecadora, se revelou como o Messias; pense-se em Maria Madalena, por quem teve uma predilecção especial e  que, após a crucifixão, foi a primeira a fazer a experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado está vivo em Deus e voltou a reunir os discípulos para que fossem anunciar a Boa Nova do Evangelho, de tal modo que até Santo Agostinho a chamará “Apóstola dos Apóstolos”...

 

Foi através de Jesus que veio ao mundo a ideia e a realidade da dignidade da pessoa e de que todos têm a dignidade de pessoa, com direitos divinos, respeitados pelo próprio Deus, que é Pai e Mãe de todos. Nesta consciência, São Paulo escreverá aos Gálatas: “Em Cristo, já não há homem nem mulher, judeu ou grego, escravo ou livre”. E na Carta aos Romanos menciona Júnia, “ilustre entre os Apóstolos”.

 

2. Também na Igreja, as mulheres estão em processo de emancipação e querem e lutam por libertação, contra a opressão. Teve imensa repercussão há uns meses aquela reportagem do suplemento feminino “Mulheres, Igreja, Mundo” do Osservatore Romano, diário oficioso do Vaticano, de que aqui me fiz eco, na qual várias freiras se queixavam e denunciavam situações de exploração laboral e subalternização por parte de cardeais, bispos e padres: “as irmãs não têm horário”, “o pagamento é baixo ou nenhum” e “raramente são convidadas a sentar-se à mesa de quem servem”. Simples criadas.

 

E houve agora um grito de alarme da União Internacional das Superioras Gerais, que representa mais de meio milhão de religiosas, exprimindo a sua “profunda tristeza e indignação pelas formas de abuso que prevalecem na Igreja”. O próprio Papa, no voo de regresso da sua viagem histórica aos Emirados Árabes Unidos, admitiu abusos sexuais e de poder contra as religiosas dentro da Igreja,  reconhecendo que vêm de longe: “É verdade. Dentro da Igreja houve sacerdotes e bispos que fizeram isso. E julgo que ainda se faz. Há já algum tempo que estamos a trabalhar nisto. Suspendemos alguns clérigos... É preciso fazer mais? Temos vontade? Sim, Mas é um caminho que vem de longe.” Lucetta Scaraffia, a jornalista que dirige o já citado suplemento do Osservatore Romano, denunciou que realmente existem “muitos casos” de abusos laborais e sexuais que freiras sofreram por parte dos superiores: “É um problema muito grave, não só porque se trata de religiosas, mas porque à violência muitas vezes segue-se o aborto.”

 

Neste contexto, a teóloga Marinella Perroni, sublinhando o esforço que muitas religiosas fazem para que “a Igreja se transforme em expressão de liberdade feminina e não de marginalização e subordinação”, confessa: “A condição das mulheres dentro da Igreja reflecte a condição das mulheres na sociedade civil.”

 

A Igreja é constituída por homens e mulheres. Por isso, as mulheres não podem continuar marginalizadas, como se viu ainda recentemente de modo escandaloso no Sínodo sobre os jovens. Por um lado, o documento final pede uma maior “presença feminina nos órgãos eclesiais em todos os níveis”. Mas, por outro, facto é que nenhuma das 30 mulheres que participaram nos trabalhos sinodais teve direito a votar. Houve uma petição online para que o pudessem fazer, e em poucos dias recebeu  mais de  7000 assinaturas. Mas, respondendo às críticas, o bispo holandês Everardus Johannes de Jong declarou: “Penso que a presença das mulheres é clara, escutamo-las. Mas Jesus escolheu homens como apóstolos.”

 

Fica a pergunta: e se as mulheres fizessem greve na Igreja?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 8 MAR 2019

REVOLUÇÃO COPERNICANA NA IGREJA

 

1. Foi uma verdadeira revolução copernicana. Com Copérnico, ficámos a saber que não é o Sol que gira à volta da Terra, é a Terra que gira à volta do Sol. Com a Cimeira no Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado, para se tomar consciência da monstruosidade da pedofilia na Igreja e pôr-lhe termo, convocada, num gesto inédito, corajoso e histórico, que se impunha, do Papa Francisco, ficámos a saber que, de agora em diante, o centro não continuará a ser ocupado pela Igreja enquanto instituição, mas pelas vítimas, que serão defendidas com toda a seriedade.

 

No encerramento, perante os 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, superiores e superioras gerais de ordens e congregações religiosas, peritos e alguns leigos,  Francisco, num discurso histórico, muito bem elaborado e com dados arrepiantes sobre o abuso físico e psicológico de menores e adultos vulneráveis não só dentro da Igreja mas transversalmente na  sociedade global, incluindo as famílias e outras instituições (nesta abrangência, as vítimas são muitos milhões), comprometeu-se a que a Igreja “não se cansará de fazer tudo o que é necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido abusos de tipo sexual” e que nunca “tentará encobrir ou subestimar nenhum caso”.

 

Perante o horror da pedofilia, afirmou que ela lhe fazia lembrar “a prática religiosa cruel, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos (muitas vezes crianças) como sacrifício às divindades nos ritos pagãos”. Perante a “monstruosidade da pedofilia” na Igreja, assegurou: “Quero reafirmar com clareza: se na Igreja se descobrir nem que seja um único caso (que representa em si mesmo uma monstruosidade), esse caso será enfrentado com a máxima seriedade”. Prova inequívoca disso foi, ainda antes da Cimeira, a redução ao estado laical do ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick, e, depois, no passado dia 26, a sanção imposta ao cardeal australiano George Pell, a terceira figura do topo da Igreja, ex-superministro das finanças do Vaticano, condenado por abuso sexual de menores: enquanto decorre o recurso nos tribunais, está suspenso e impedido de  contactar, seja de que modo for, com menores.

 

2. No discurso de encerramento, Francisco deixou oito directivas para o futuro, de que deixo aí uma síntese:

 

2.1. A protecção dos menores. “O objectivo principal de qualquer medida é proteger os menores e impedir que sejam vítimas de qualquer abuso psicológico e físico”. Assim, é preciso mudar a mentalidade, para “combater a atitude defensivo-reactiva de salvaguardar a instituição, dando prioridade às vítimas dos abusos em todos os sentidos”. Ouvir o Mestre Jesus: “Ai de quem escandalizar um destes pequenos. Mais lhe valeria que lhe atassem a mó de um moinho ao pescoço e o lançassem ao fundo do mar.”

 

2.2. Seriedade impecável. “Desejo reiterar agora que a Igreja não se cansará de fazer tudo o que for necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido estes crimes. A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso.”

 

2.3. Uma verdadeira purificação. Os pastores (bispos, padres...) devem empenhar-se renovadamente no seu compromisso de santidade, “cuja configuração com Cristo Bom Pastor é um direito do Povo de Deus”. A Igreja perguntar-se-á “como proteger os menores, como evitar essas desgraças, como tratar e reintegrar as vítimas, como fortalecer a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja mas também da sociedade.”

 

2.4. A formação do clero. “A exigência da selecção e da formação dos candidatos ao sacerdócio, com critérios não só negativos, preocupados principalmente com excluir as pessoas problemáticas, mas também positivos, para oferecer um caminho de formação equilibrado aos candidatos idóneos, orientado para a santidade e no qual se contemple a virtude da castidade.”

 

Note-se que, em propostas anteriores, Francisco já tinha exigido “avaliação psicológica dos candidatos através de peritos credenciados”.

 

2.5. Reforçar e verificar as directrizes das Conferências Episcopais. Isto, para que se perceba que há “a exigência da unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não só de orientação”. Explicitando: as normas são para aplicar universalmente em toda a Igreja, sem os subterfúgios da sua aplicação segundo as culturas.

 

2.6. Acompanhar as pessoas abusadas. “O mal que viveram deixa nelas feridas indeléveis que se manifestam em rancor e tendência para a autodestruição. Portanto, a Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se de peritos nesta matéria. Escutar, deixai-me dizer ‘perder tempo’ a escutar.”

 

2.7. O mundo digital. “A protecção dos menores deve ter em conta as novas formas de abuso sexual”, através das novas tecnologias. “É preciso animar os países e as autoridades a aplicar todas as medidas necessárias para limitar os sítios da internet que ameaçam a dignidade da pessoa humana, do homem, da mulher e, de modo particular, dos menores: o delito não goza do direito à liberdade”. E lembra novas normas “sobre os delitos mais graves” aprovadas pelo Papa Bento XVI em 2010, onde foram acrescentados como novos casos de delitos “a aquisição, a retenção ou divulgação” realizada por um clérigo, “em qualquer forma e com qualquer tipo de meio, de imagens pornográficas de menores”.

 

2.8. O turismo sexual. “A conduta, o olhar, a atitude dos discípulos e dos servidores de Jesus há-de saber reconhecer a imagem de Deus em cada criatura humana, a começar pelos mais inocentes”. “As autoridades governamentais devem dar prioridade e agir com urgência para combater o tráfico e a exploração económica dos menores.”

 

3. Houve analistas e vítimas que protestaram, clamando que, afinal, segundo a expressão corrente, a montanha pariu um rato.

 

Embora os compreenda, não têm razão. Esquecem que se trata de directivas. As normas, a dar-lhes conteúdo, com opções e acções concretas e eficazes, virão em breve. De facto, tem de haver um “antes” e um “depois” desta Cimeira. Caso contrário, isto é, se, como se comprometeu o Papa Francisco, “não voltar a ser absolutamente credível e digna de confiança”, a Igreja caminhará, concretamente no Ocidente, para a sua autodestruição.

 

P.S.: Foi a sepultar, no passado dia 23, Frei Bernardo Domingues. Pude ver, no funeral, várias centenas de pessoas e muitas lágrimas sentidas. Afinal, também há padres que se dedicam generosamente aos outros, apoiando muitas vidas e iluminando caminhos.

 

Por mim, gostava de deixar um testemunho pessoal. Se não estou enganado, foi em 1972. Eu era um jovem professor no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), Porto, de que ele era o Director. Também regia uma cadeira de “Humanismo ateu e humanismo cristão”. E houve um Bispo que me foi acusar de herético... Frei Bernardo disse-lhe: “Senhor Bispo, primeiro mande-nos por escrito as heresias dele. Depois, vamos analisar se são heresias ou não. Só então podemos tirar as consequências”. O Bispo não escreveu.

 

Fica  aqui a minha sentida homenagem a um homem bom e intelectualmente honesto e livre.

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 3 MAR 2019

CIMEIRA GLOBAL HISTÓRICA ANTI-ABUSOS

 

1.  Não conheço condenação mais dura e funda da pedofilia do que estas palavras de Jesus no Evangelho: “Deixai vir a mim as criancinhas”, e é preciso tornar-se como uma criança, “para entrar no Reino dos Céus”, porque elas são simples, inocentes, não discriminam. Imediatamente a seguir Jesus diz: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar.” Não se pode fazer mal às crianças: elas são inocentes, elas não fazem mal (é esse o sentido de inocente, a partir do verbo nocere: causar dano, fazer mal, com o prefixo negativo in).

 

É assim para todos e sempre. Mas isso vale de modo especial para a Igreja. E o que é que se passou, desgraçadamente? Foram milhares de menores e pessoas vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação “abusos sexuais, de poder e de consciência”. Também diz, com razão, que a base é o “clericalismo”, julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

 

2. Não se sabe há quanto tempo dura esta miséria, este colapso moral. Felizmente, há hoje um alerta da opinião pública e, por isso, Francisco, em vez de condenar ou atribuir outras intenções aos meios de comunicação social, agradece, pois foi o meio para que também a Igreja acordasse do seu sono sacrílego.

 

E, aí, Francisco tomou uma iniciativa inédita e histórica, convocando uma Cimeira para o Vaticano, que começou no passado dia 21 e concluiu, Domingo. Quem participa? São 190 os participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, bispos representando as Igrejas católicas orientais, alguns membros da Cúria, representantes dos superiores e das superioras gerais de ordens e congregações religiosas, masculinas e femininas, alguns peritos e leigos.

 

O Papa quer, em primeiro lugar, que se tome consciência da situação e do sofrimento incomensurável causado, que fica para a vida. E que se tome medidas concretas, de tal modo que se possa constatar um antes e um depois desta Cimeira verdadeiramente global e representativa da Igreja universal e nos seus vários níveis.

 

Os três dias estiveram sob o lema tríplice: “responsabilidade”, “prestação de contas”, “transparência”. Que o Papa quer — não se trata de mero desejo — implantar “tolerância zero” para a pedofilia na Igreja mostrao bem o sinal inequívoco da redução ao estado laical do ex-cardeal Theodore McCarrick, antigo arcebispo de Washington.

 

3. Como previsto, no primeiro dia, os participantes foram confrontados com testemunhos de cinco vítimas. Houve dois que foram particularmente marcantes. Uma das vítimas deixou este clamor: “Vós transformastes-vos em assassinos das almas e em assassinos da fé. Que contradição mais ignominiosa. Não podemos continuar com este crime de encobrir esta chaga dos abusos sexuais na Igreja”. Arrepiante foi o testemunho de uma mulher africana, que recordou que manteve relações sexuais com um padre desde os 15 anos. “Tinha medo dele, sempre que me negava a ter relações com ele, batia-me”. Dependia totalmente dele economicamente. Não usava preservativo e proibia-a a ela de usar anticonceptivos. “Isto durou treze anos seguidos. Fiquei grávida três vezes, obrigou-me três vezes a abortar.”

 

As propostas e as medidas concretas foram surgindo, a maior parte delas retomando o que já se é obrigado a fazer segundo a lei canónica e civil, pois é preciso “informar as autoridades civis e as autoridades eclesiásticas superiores em conformidade com as normas civis e canónicas”, para salvaguardar a protecção dos menores. Os abusos são um pecado e um crime e, por isso, os abusadores “têm de prestar contas às autoridades civis”, tem de haver colaboração com a justiça civil. “Implementar procedimentos partilhados para o exame das acusações, a protecção das vítimas e o direito de defesa dos acusados”. “Observar o tradicional princípio da proporcionalidade da pena em relação ao delito cometido. Deliberar que os sacerdotes e bispos culpados de abuso sexual de menores abandonem o ministério público”. As vítimas devem ser acompanhadas e protegidas com apoio psicológico, terapêutico, espiritual, eventualmente material económico. Também os abusadores condenados, que, na minha opinião, serão excluídos do sacerdócio, devem receber apoio, pois não podem ser pura e simplesmente abandonados. Evidentemente, é necessário salvaguardar o princípio da presunção de inocência até que se prove a culpabilidade do acusado: este princípio da presunção de inocência também é válido para o clero. “Estabelecer disposições que regulem e facilitem a participação de peritos leigos nas investigações e nos diferentes graus de julgamento dos processos canónicos referentes aos abusos sexuais e/ou de poder”. “Formular códigos de conduta obrigatórios para todos os clérigos, os religiosos, o pessoal de serviço e os voluntários, para estabelecer os limites apropriados nas relações pessoais”. Propõe-se uma “avaliação psicológica por peritos qualificados” dos candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada.

 

4. Pessoalmente, regozijo-me com esta avaliação. Na minha opinião, os candidatos a padres deveriam eles próprios submeter-se a um escrutínio psicológico através de peritos qualificados, acreditados, de saúde mental.

 

Por outro lado, embora reconheça que se não pode estabelecer um nexo causal entre o celibato e os abusos sexuais, penso que, mais tarde ou mais cedo, será necessário acabar com a lei do celibato obrigatório e caminhar para o celibato opcional: Jesus entregou o celibato à liberdade. Também penso que os candidatos ao sacerdócio deverão viver em paróquias, comunidades abertas, fazendo a sua preparação académica em Faculdades de Teologia (o Seminário serviria para alguns encontros de formação específica e comunitária...). O actual modelo de Seminário, que vem do Concílio de Trento e que prestou grandes serviços, já se não adequa aos tempos actuais. Aliás, estou convicto de que já em Outubro próximo, no Sínodo sobre a Amazónia, se abrirá a porta para a ordenação de homens casados. E não há razão nenhuma teológica que impeça a ordenação de mulheres.

 

5. Quando escrevo, a Cimeira ainda decorre. Perguntam-me se os ultraconservadores terão força para obstruir medidas que têm de ser tomadas num “plano de acção comum”, como propôs o cardeal Sean O’Malley, arcebispo de Boston e presidente da Comissão para a defesa de menores do Vaticano. Não creio de modo nenhum, pois é a própria credibilidade da Igreja e do Evangelho que está em jogo: a Igreja terá de ser o espaço garantido de segurança para os menores. Também para que uma Igreja credibilizada possa dar o seu contributo decisivo para que as crianças todas possam crescer e desenvolver-se sem perigos nas famílias e em tantas outras instituições que, entretanto, têm passado imunes à crítica e às penas. É preciso “enfrentar o monstro” da pedofilia clerical, exigiu o cardeal J. Cupich, arcebispo de Chicago e um dos responsáveis pela organização desta Cimeira. Enfrentar o monstro da pedofilia na Igreja e em toda a parte.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 24 FEV 2019

ISLAMOFOBIA E CRISTIANOFOBIA

 

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emiratos Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a História, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como “uma nova página no diálogo entre Cristianismo e Islão”. É preciso ler e estudar o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, então assinado por ele e pelo Grande Imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou Missa para 150.000 cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

 

Já de regresso ao Vaticano, na habitual conferência de imprensa no avião, um jornalista perguntou-lhe que “consequências terá também entre os católicos o Documento, considerando que há uma parte dos católicos que o acusam de deixar-se instrumentalizar pelos muçulmanos...” E Francisco: “E não só pelos muçulmanos... (riu-se). Acusam-me de me deixar instrumentalizar por todos, incluindo os jornalistas. É parte do trabalho, mas gostaria de dizer uma coisa. Do ponto de vista católico, o Documento não se separou nem um milímetro do Vaticano II, que até é citado várias vezes. Se alguém se sentir mal, eu compreendo-o, pois não é algo de todos os dias..., mas não é um passo atrás, é um passo para diante... É um processo e os processos amadurecem.”

 

Outro jornalista observou: “O Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, denunciou a islamofobia. Porque é que não se disse nada sobre a cristianofobia, sobre a perseguição aos cristãos?” E o Papa Francisco: “Falei sobre a perseguição aos cristãos. Também falo sobre ela frequentemente. Inclusive nesta viagem falei sobre isso. Também o Documento condena a violência, e alguns grupos que se dizem islâmicos (os Sábios dizem que não é o islão) perseguem os cristãos.” E, aqui, Francisco relembrou uma história absolutamente comovente, que já contara com mais pormenores em 2017. Em 22 de Abril de 2017, na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina em Roma, o Papa Francisco, com a Comunidade de Santo Egídio, presidiu a uma Liturgia da Palavra em memória dos novos mártires dos séculos XX e XXI. E ficaram estas palavras de profundidade incomensurável, apontando, com comoção que nos abala, para a religião na sua verdade humana e divina: “Eu quero, hoje, acrescentar mais um ícone a esta igreja. Uma mulher. Não sei o seu nome. Mas ela olha para nós lá do Céu. Eu estava em Lesbos, saudava os refugiados e encontrei um homem de 30 anos, com três crianças. Olhou para mim e disse-me: ‘Padre, eu sou muçulmano. A minha mulher era cristã. Os terroristas chegaram ao nosso país, olharam para nós e perguntaram-nos qual era a nossa religião e viram-na a ela com um crucifixo. Disseram-lhe que o atirasse ao chão. Ela recusou, não o fez. E degolaram-na diante de mim. Amávamo-nos muito, gostávamos muito um do outro.” “Este é, continuou Francisco, o ícone que trago aqui como presente. Não sei se esse homem ainda está em Lesbos ou se conseguiu ir para outro lado. Não sei se conseguiu sair desse campo de concentração, porque os campos de refugiados — muitos — são de concentração, devido à quantidade de gente que ali é deixada (...). E este homem não tinha rancor: ele, muçulmano, tinha esta cruz da dor que levava sem rancor. Refugiava­-se no amor da mulher, salva pelo martírio.”

 

2. Precisamente no contexto do magno acontecimento histórico que foi esta visita, quero relembrar que, entre os pressupostos para um diálogo inter-religioso autêntico, há dois que são imprescindíveis. Refiro-me concretamente a uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados e à laicidade do Estado.

 

Estes pressupostos são universais, mas têm particular importância para o cristianismo e o islão (deve-se distinguir entre islão e islamismo, este já com o sentido de islão extremista), pois o número dos cristãos e dos muçulmanos é superior a mais de metade da Humanidade, o que significa que o entendimento entre eles é essencial para o futuro.

 

A Igreja Católica nomeadamente teve dificuldade em aplicar estes pressupostos, que aceitou plenamente apenas no Concílio Vaticano II. De qualquer forma, já havia indicações no Novo Testamento e no fundador. Assim, nunca os teólogos católicos referiram a Bíblia como ditada por Deus, mas como Palavra de Deus em palavras humanas, o que implica a exigência de interpretação. Jesus disse: “Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus”. E, chegado a Jerusalém, foi morto, manifestando-se contra toda a violência, dizendo a Pedro: “Mete a espada na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre”. Isto significa que, quando os cristãos olham para os horrores cometidos por eles ao longo da História, têm de reconhecê-los e pedir perdão, pois atraiçoaram Jesus, o fundador.

 

O que para a Igreja católica foi difícil vai sê-lo ainda mais para o islão. De facto, muitos defendem que o Corão foi ditado por Deus ou que é cópia do Corão eterno, e, por isso, lêem-no à letra, com todos os riscos de barbárie. E o fundador, Maomé, foi ao mesmo tempo um profeta, um chefe de Estado e um combatente em várias batalhas. Com razão, escreveu o filósofo Slavoj Zizek, citando M. Safouan: “A marca distintiva do islão é ser uma religião que não se institucionaliza a si mesma e que, ao contrário do cristianismo, não se equipa com uma Igreja. Na verdade, a Igreja Islâmica é o Estado Islâmico: foi o Estado que inventou a chamada ‘mais alta autoridade religiosa’ e é o chefe de Estado quem nomeia o homem que deve ocupar esse cargo; é o Estado que manda construir as grandes mesquitas, que supervisiona a educação religiosa; é ainda o Estado que cria as universidades, que exerce a censura em todos os domínios da cultura e que se considera ser o guardião da moralidade”.

 

Evidentemente, a laicidade não é laicismo, que seria a religião da não religião, no sentido de remeter a religião para o espaço privado ou íntimo, sem lugar no espaço público. Sendo a religião uma dimensão constitutiva do ser humano e estruturante da cultura, é evidente que tem de ter lugar também no espaço público, e as religiões têm o direito de debater as grandes questões das sociedades, concretamente as referentes à bioética, e tentar fazer triunfar as suas posições. Qual é a diferença, quando há laicidade, separação da(s) Igreja(s) e do Estado, da religião e da política? Neste caso, a lei não é a lei religiosa, mas a lei votada democraticamente, em democracia pluralista, no Parlamento.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 17 FEV 2019

ENCONTROS PARA A HISTÓRIA

 


1. “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para matar e aterrorizar as pessoas”.

 

Quando li este passo no “Documento sobre a Fraternidade Humana” a favor da paz mundial e da convivência humana, assinado no início desta semana em Abu Dhabi, pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al Azhar, Ahmed al-Tayeb, lembrei-me da mesma afirmação que há anos ouvi ao então Bispo de Nampula e que transcrevi na abertura do livro que coordenei, “D. Manuel Vieira Pinto. Cristianismo: Política e Mística”:  “Porque é que Você, que é Bispo, quando vem falar comigo, nunca me fala de Deus e da religião, mas do povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?”, perguntou o Presidente Samora Machel a D. Manuel Vieira Pinto. “Porque um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que O defendam. O Homem sim.”, respondeu D. Manuel.

 

Este é um princípio decisivo para quem queira estar na religião/religiões com dignidade: Deus não precisa que O defendam; as pessoas sim. Porque é isso que Deus quer, o seu único interesse são as pessoas. Já Santo Ireneu o disse: “Gloria Dei homo vivens”: a glória de Deus é o homem vivo, realizado, pleno, feliz. Quantas vezes a pretensa defesa de Deus e da sua glória levou à humilhação, ao espezinhamento, à brutalidade sobre outros homens, a guerras, a terrorismos... Em nome de Deus!

 

2. De 3 a 5 deste mês de Fevereiro, quando se celebram os 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o sultão Al-Malik, o Papa Francisco, recebido com as maiores honras de Estado pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, esteve nos Emiratos Árabes Unidos para uma visita que também fica para a História. Dois acontecimentos fundamentais ocuparam as 48 horas da visita: promover e fortalecer o diálogo inter-religioso, especialmente com os muçulmanos, e uma Missa para os católicos, que serão uns 900.000 no país.

 

2.1. É nos Emiratos Árabes Unidos, que o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, definiu como “uma ponte entre Oriente e Ocidente bem como uma terra multicultural, multiétnica e multirreligiosa”, que tem a sua sede o Conselho Muçulmano de Anciãos ou Conselho de Sábios Muçulmanos, um grupo internacional que visa combater o fanatismo religioso e que é presidido pelo Grande Imã da Mesquita e Universidade islâmica do Cairo Al Azhar. Foi a seu convite que se realizou o encontro inter-religioso sob a designação de “Fraternidade Humana”.

 

Francisco, que já na vídeo-mensagem enviada ao povo dos Emiratos advogara o “respeito pela diversidade”, foi contundente no seu discurso programático durante o encontro inter-religioso: “Ou construímos o futuro juntos ou não haverá futuro”. Onde se fundamenta a fraternidade? Claro: no Deus criador, que “quer que vivamos como irmãos e irmãs, habitando na casa comum da criação que Ele nos deu”; portanto, “temos todos a mesma dignidade” e “ninguém pode ser senhor ou escravo dos outros”. A fraternidade implica igualdade e diferença e, assim, ao mesmo tempo que elogiou “a coragem da alteridade” lembrou o pressuposto da “identidade própria”: identidade e alteridade co-implicam-se, exigindo o reconhecimento do outro como igual e diferente, com direitos fundamentais, entre os quais, o da liberdade religiosa, que “se não limita só à liberdade de culto,  pois vê no outro um verdadeiro irmão, um filho da minha própria humanidade que Deus deixa livre e que, portanto, nenhuma instituição humana pode forçar, nem sequer em seu nome”. “A coragem da alteridade é a alma do diálogo”, que tem também a sua base na oração: “feita com o coração, a oração é regeneradora de fraternidade”; com elas —oração e fraternidade —, construiremos o futuro juntos.

 

O símbolo da viagem papal era a pomba com o ramo de oliveira, símbolo bíblico da paz. Por isso, disse que, sendo a tarefa das religiões construir pontes, elas precisam, como a pomba, de duas asas para voar: a educação e a justiça. A educação, para “formar identidades abertas”, em ordem a afastar o ódio, dialogar e “defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que se defende os seus”. A outra asa é a justiça, justiça universal. “Que as religiões sejam a voz dos últimos, que não são estatísticas mas irmãos, e estejam do lado dos pobres.”

 

Francisco elogiou o país que o acolheu como exemplo de inclusão, que quereria ver reproduzido “em toda a amada e nevrálgica região do Médio Oriente”, para a qual pediu “oportunidades concretas de encontro”: “uma sociedade onde pessoas de diferentes religiões tenham o mesmo direito de cidadania”. Suplicou a “desmilitarização do coração”, porque “a guerra só sabe criar miséria e as armas nada mais do que a morte”. Citou o Iémen, a Síria, o Iraque, a Líbia. Concluiu, convidando à não rendição perante “os dilúvios da violência e da desertificação do altruísmo”. “Deus está com o homem que procura a paz. E do Céu abençoa cada passo que, neste caminho, se realiza na Terra.”

 

Foi também neste encontro que foi publicado o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, já referido. Uma Declaração verdadeiramente histórica, elaborada ao longo de um ano de diálogos e debates entre Al Azhar e o Vaticano até alcançar a sua redacção final. “Em nome de Deus, Al Azhar al-Sharif, com os muçulmanos de Oriente e Ocidente, e a Igreja Católica, com os católicos de Oriente e Ocidente, declaram assumir a cultura do diálogo como caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento recíproco como método e critério”. “Pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, que nos comprometamos seriamente para difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, intervir o mais depressa possível para parar o derramamento de sangue inocente e pôr fim às guerras, aos conflitos, à degradação ambiental e à decadência cultural e moral que o mundo vive actualmente.” De facto, “entre as causas mais importantes da crise do mundo actual estão uma consciência humana anestesiada e um afastamento dos valores religiosos, a que se junta o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas”. Para a explicação das raízes do terrorismo niilista, o Documento insiste na “deterioração da ética, que afecta a acção internacional, e na debilitação dos valores espirituais e do sentido da responsabilidade”, elementos que favorecem a frustração e o desespero, “levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou no fundamentalismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego”.

 

De modo mais concreto, declara-se veementemente que “as religiões por si nunca incitam à guerra, à violência ou derramamento de sangue. Estas desgraças são fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, da utilização política das religiões e também das interpretações de grupos religiosos que abusaram do sentimento religioso nos corações dos homens para levá-los a realizar algo que não tem nada a ver com a verdade da religião, mas com alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes.” Exige-se, portanto, uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados. As outras condições em ordem à paz entre as religiões e os povos são o respeito pelos direitos humanos, entre os quais sobressai o da liberdade religiosa e a cidadania plena: “A liberdade é um direito de toda a pessoa: todos gozam da liberdade de crença, de pensamento, de expressão e de acção. O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são expressão de uma sábia vontade divina.” “O conceito de cidadania plena baseia-se na igualdade de direitos e deveres sob cuja protecção todos desfrutam da justiça. Por isso, é necessário comprometermo-nos em estabelecer na nossa sociedade o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório da palavra minorias, que arrasta consigo as sementes de sentir-se isolado e inferior, prepara o terreno para a hostilidade e a discórdia e retira os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, ao discriminá-los.”

 

Al Azhar e a Igreja Católica consideram de tal importância esta Declaração que “exigem que este Documento seja objecto de investigação e reflexão em todas as escolas, universidades e institutos de educação e formação”, esperando que se transforme num “símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre o Norte e o Sul.”

 

3. Como já referido, há nos Emiratos cerca de 900.000 cristãos, sendo a quase totalidade constituída por imigrantes (filipinos, indianos, paquistaneses, do Sri Lanka, Bangladesh e outras nacionalidades), que vieram para trabalhar. Assim, outro acontecimento histórico foi a celebração da Missa no estádio Zayed, na qual participaram, dentro e fora do estádio, 150.000 pessoas de 45 nacionalidades, incluindo 5.000 muçulmanos. Vários bispos concelebraram, entre eles os Patriarcas do Oriente, nomeadamente o do Líbano e o do Iraque — este, cardeal L. R. Sako, lembrou que “houve um tempo em que éramos 20% da população, mas o número desceu repentinamente e hoje somos à volta de 2%”, esperando que esta visita do Papa ajude também a situação dos cristãos iraquianos.

 

Foram horas de indescritível entusiasmo e de recolhimento e profunda oração. O Evangelho foi o das Bem-aventuranças. E ficaram estas palavras da homilia papal: “Não é fácil viver longe de casa. Mas o Senhor está perto e caminha ao nosso lado.” “Olhemos para Jesus: não deixou nada escrito, não construiu nada imponente. E, quando nos disse como devemos viver, não nos pediu que ergamos grandes obras ou que nos destaquemos pela realização de façanhas extraordinárias. Pediu-nos que levemos a cabo uma só obra de arte, ao alcance de todos: a obra de arte da nossa vida”. No final da celebração, saudou cordialmente todos os participantes: “fiéis caldeus, coptas, greco-católicos, greco-melquitas, latinos, maronitas, sírio-católicos, siro-malabares, siro-malankares”. E, como sempre: “Não vos esqueçais de rezar por mim”.

 

4. Há quem acuse Francisco de se deixar manipular pelo mundo islâmico. Será assim? É claro que a Igreja Católica não está no mesmo nível que Al Azhar nem o Papa no mesmo nível que o Grande Imã. O diálogo não pode ser unidireccional. É verdade que, apesar de toda a cordialidade indesmentível da recepção, mesmo os Emiratos Árabes Unidos são um Estado no qual o islão é religião oficial; ora, sem laicidade, não se evitará a “capitis diminutio”, isto é, a não cidadania plena dos cidadãos que não têm aquela religião. E também é verdade que se denuncia mais a islamofobia do que a cristianofobia, embora o cristianismo seja hoje a religião mais perseguida...

 

Mas o que é facto é que foi a primeira vez que um Papa visitou um país da Península Arábica, berço do islão, e que celebrou a primeira Missa pública na história da Península. Francisco ousou denunciar os horrores da guerra do Iémen na qual os Emiratos  também estão implicados e fez apelos aos líderes políticos islâmicos a favor do respeito pelos direitos fundamentais de todos e, nomeadamente, o da liberdade religiosa. E é indizível a alegria dos cristãos que puderam encontrá-lo. E deu-se mais um passo para a paz e para a tolerância entre as pessoas.

 

Pequeno? Mas um passo, que todos os beneficiários agradecerão e que Deus abençoa.

 


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 9 FEV 2019

DO PANAMÁ PARA PORTUGAL

 

1. Nesta sua presença de 5 dias nas Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá, o Papa Francisco também visitou um centro de detenção de jovens, que é modelar, pois, com a ajuda de assistentes sociais, psicólogos e peritos de várias especialidades, prepara os jovens para a sua integração na sociedade, sendo também obrigatória a sua participação em cursos de formação profissional e de desenvolvimento humano. Francisco animou-os: “Que ninguém vos diga nunca: ‘não vais conseguir’. Deus não vê rótulos nem condenações, vê filhos.”

 

Foi ali que um jovem preso contou ao Papa a sua história: que desde pequeno sempre sentira um vazio interior, a falta de um olhar carinhoso de pai; um dia, encontrou esse olhar em Deus, mas, depois, caiu e agora encontrava-se ali cumprindo uma pena; e disse-lhe, do fundo do seu contentamento, que havia de ser um grande chefe. Francisco ouviu com atenção e carinho, como só ele sabe escutar. E o jovem comentou enternecida e admirativamente: “... Que alguém como você tenha arranjado tempo para ouvir alguém como eu, um jovem privado da liberdade!... Não sabe a liberdade que sinto neste momento!” O jesuíta Diego Fares comentou: “Talvez tenha que ser um preso para valorar quem o Papa é e o que faz.”

 

Ao longo desta sua viagem, Francisco encontrou-se com políticos, bispos, padres, religiosos e religiosas, fez discursos para as centenas de milhares de jovens, vindos de 155 países, mas encontrou tempo para escutar a história deste rapaz e assim escreveu mais um capítulo da sua encíclica, que não é de palavras, mas de gestos, encíclica que dá sentido a todas as suas encíclicas e discursos. Jesus também assim procedeu.

 

2. Neste contexto, Francisco tem autoridade para falar duro aos bispos. Arremetendo contra “o funcionalismo e o clericalismo eclesial, tão tristemente generalizado e que representa uma caricatura e uma perversão do ministério”, pediu-lhes conversão. Invocando o exemplo do bispo Óscar Romero, assassinado e recentemente canonizado por ele, atirou: “Não inventámos a Igreja, ela não nasce connosco e continuará sem nós. Uma Igreja autosuficiente não é a Igreja de Deus. É importante, irmãos, que não tenhamos medo de nos aproximar e de tocar as feridas da nossa gente, que também são feridas nossas, e fazê-lo segundo o estilo do Senhor. O pastor não pode estar longe do sofrimento do seu povo; mais: poderíamos dizer que o coração do pastor se mede pela sua capacidade de se deixar comover perante tantas vidas doridas e ameaçadas.”

 

A Igreja de Cristo “não quer que a sua força esteja no apoio dos poderosos ou da política”, a sua força vem-lhe do Crucificado”. A Igreja de Cristo “é a Igreja da compaixão, e isso começa por casa, pelos sacerdotes, pelos fiéis, e o que não podemos delegar é ‘o ouvido’, o que não podemos delegar é a capacidade de escutar”; os bispos devem, em primeiro lugar, ouvir os seus padres, e “é importante que o padre encontre no bispo o pai, o pastor em quem se revê e não o administrador que quer ´passar revista às tropas’.” “No pastor, a autoridade radica especialmente em ajudar a crescer, em promover os seus padres, mais do que em promover-se a si mesmo: promover-se a si mesmo fá-lo um solteirão”.

 

E, lembrando o acontecimento das Jornadas, chamou a atenção dos bispos para “irem ao encontro e aproximar-se ainda mais da realidade dos nossos jovens, cheia de esperanças e desejos, mas também profundamente marcada por tantas feridas”. Os jovens “levam com eles uma inquietação que devemos valorar, respeitar, acompanhar, e que tão bem nos faz a nós todos porque desinstala e recorda-nos que o pastor nunca deixa de ser discípulo e está a caminho. Como não agradecer ter jovens inquietos pelo Evangelho!”, acrescentou. “Exorto-vos a que promovais programas e centros educativos que saibam acompanhar, apoiar e potenciar os vossos jovens; ‘roubai-os’ à rua antes que seja a cultura de morte, ‘vendendo-lhes’ fantasias e soluções mágicas, a apoderar-se e a aproveitar a sua imaginação. E fazei-o, não com paternalismo, de cima para baixo, porque isso não é o que o Senhor nos pede, mas como pais, como irmãos para irmãos.” “Há lares alquebrados tantas vezes por um sistema económico que não tem como prioridade as pessoas e o bem comum e que fez da especulação o seu ´paraíso’, a partir do qual continuar a ‘engordar’, sem se importar à custa de quem, e, assim, os nossos jovens sem lar, sem família, sem comunidade, sem pertença, ficam à intempérie do primeiro vigarista.”

 

3. Evidentemente, o centro tinha de ser ocupado pelos jovens. Francisco conhece bem as suas dificuldades e os seus dramas e, por isso, já na mensagem de preparação das Jornadas lhes tinha dado ânimo. “Convido-vos a todos a olhar para dentro de vós próprios e a ‘dar nome’ aos vossos medos. Perguntai-vos: hoje, na situação concreta que estou a viver, o que é que me angustia, o que é que mais temo? Porque é que não tenho a coragem de abraçar as decisões importantes que deveria tomar?”. Continuou: “O medo nunca deve ter a última palavra, mas ser ocasião para realizar um acto de fé em Deus... e também na vida. Isto significa acreditar na bondade fundamental da existência que Deus nos deu, confiar que ele conduz a um fim bom, mesmo através de circunstâncias e vicissitudes muitas vezes misteriosas para nós.”

 

Logo à chegada, nas boas vindas, avisou: “O cristianismo não é um conjunto de verdades nas quais se tem de acreditar, de leis que se tem de cumprir ou de proibições. Assim, é repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto que reclama e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo e é amar com o mesmo amor com que ele nos amou.” E, utilizando linguagem digital, ele que não tem computador nem smartphone, como lembrou A. Tornielli, director dos média do Vaticano: A mensagem de Cristo “não é uma salvação armazenada na ‘cloud’ (nuvem) nem uma aplicação descarregável”; “a vida não espera ser descarregada, não é uma ‘aplicação’ nova a descobrir, a salvação é uma história de amor que se entretece com as nossas histórias.” Quanto às redes sociais alertou: “As redes servem para criar vínculos, mas não raízes, são incapazes de nos dar pertença, de fazer-nos sentir parte de um mesmo povo.”

 

No final da Via-Sacra, Francisco fez um reflexão sobre “o caminho de sofrimento e solidão” que Jesus já padeceu e que “continua nos nossos dias”. “Ele caminha e sofre em tantos rostos que sofrem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade que consome e se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.” A via-sacra da Humanidade prolonga a de Jesus “no grito sufocado das crianças que se impede de nascer e de tantas outras às quais se nega o direito de ter uma infância, família, educação, que não podem brincar, cantar; nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e coisificadas na sua dignidade; nos olhos tristes dos jovens que vêem arrebatadas as suas esperanças de futuro pela falta de educação e trabalho digno; na angústia de rostos jovens que caem nas redes de gente sem escrúpulos — entre elas também se encontram pessoas que dizem servir-te, Senhor, redes de exploração, de criminalidade e de abuso, que se alimentam das suas vidas; na espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico; na dor oculta e indignante daqueles que, em vez de solidariedade por parte de uma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, dor e miséria, e mais: são tratados como os portadores e responsáveis por todo o mal social; na resignada solidão dos velhos abandonados e descartados; no grito da nossa mãe Terra, numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se perante a dor.”

 

Pediu aos jovens que continuem a sonhar e que sejam os “influencers do século XXI”: “ser ‘influencers’ no século XXI é ser guardiães das raízes, guardiães de tudo aquilo que impede que a nossa vida se torne gasosa, se evapore no nada. Sede guardiães de tudo aquilo que nos permite sentirmonos parte uns dos outros. Que pertencemos uns aos outros.” Avisou: “Não se está a dar raízes e alicerces à juventude”. “Sem educação, é difícil sonhar com um futuro. Sem trabalho, é muito difícil ter futuro, família e estar em comunidade.”

 

4. Já de regresso ao Vaticano, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa no avião.

 

4.1. Renovou o pedido suplicante de “uma solução justa e pacífica” para a situação dramática da Venezuela, “respeitando os direitos humanos e desejando exclusivamente o bem de todos os seus habitantes”. E preveniu para o risco da violência: “O que mais me custa? O derramamento de sangue, e aí também peço grandeza aos que podem ajudar a resolver o problema”.

 

4.2. Quanto à cimeira anti-pedofilia, com os Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo, convocada para os dias 21-24 de Fevereiro em Roma, disse que deve ser, em primeiro lugar e essencialmente, uma tomada de consciência da tragédia, “uma catequese para que se tome consciência do drama que é uma menina ou um menino abusados. Eu recebo com regularidade pessoas abusadas, e recordo uma que passou 40 anos sem conseguir rezar. É terrível o sofrimento.” Como disse, durante as Jornadas, Alessandro Gisotti, director de imprensa da Santa Sé, “A questão dos abusos está no centro, no coração e na mente de Francisco”, que quer que se adopte, durante a próxima cimeira de bispos, “medidas concretas” para combater esta “terrível chaga”. “Será uma ocasião sem precedentes para enfrentar, como dissemos muitas vezes, o problema e encontrar realmente medidas concretas para que, quando os bispos regressem de Roma às suas dioceses, possam combater este flagelo da Igreja.”

 

4.3. Francisco também foi dizendo que é contra o fim da lei do celibato obrigatório: “Pessoalmente, creio que o celibato é um dom à Igreja e eu não estou de acordo com a permissão do celibato opcional.” Mas está aberto à possibilidade, que está a ser estudada, de ordenar homens casados que deram e dão exemplo de maturidade humana e cristã. Como tenho escrito aqui, estou convencido de que isso vai tornar-se realidade já no Sínodo sobre a Amazónia, em Outubro próximo. Quanto à lei do celibato e ao seu fim, também estou convencido de que é uma questão de tempo. Francisco também saberá disso, mas está como João Paulo II: “Eu sei que os padres hão-de vir a poder casar, mas isso não acontecerá no meu pontificado.”

 

5. Já após o anúncio de que a sede das próximas Jornadas será Portugal, Francisco agradeceu a todos, sobretudo aos jovens: “A vossa fé e alegria fizeram vibrar o Panamá, a América e o mundo inteiro. Somos peregrinos, continuai a caminhar, continuai a viver a fé e a partilhá-la; vós, queridos jovens, não sois o futuro nem o ‘entretanto’, mas o agora de Deus. Peço-vos que não deixeis esfriar o que vivestes durante estes dias.” Uma expressão belíssima, plena de sentido: sois “o agora” de Deus.

 

Em 2022, pensa-se que poderão participar 2 milhões de jovens de todo o mundo no acontecimento com mais representatividade de sempre em Portugal, precisamente as Jornadas Mundiais da Juventude. Reunidos na alegria da juventude, da festa, do encontro de culturas e histórias diferentes, estabelecendo pontes — o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Patriarca de Lisboa Manuel Clemente lembraram concretamente as pontes com o mundo lusófono, sobretudo na África, o único continente que ainda não recebeu as Jornadas —, sabem que o ponto de confluência e união é a fé em Jesus Cristo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 3 FEV 2019

FRANCISCO DE ASSIS E O SULTÃO AL-KAMIL

 

 

1. Não há dúvida nenhuma de que o cristianismo é actualmente a religião mais perseguida no mundo. Há bastante tempo que se vai concretizando o que parece ser um plano para acabar com a presença dos cristãos no Médio Oriente. Quase desapareceram da Palestina e vão-se extinguindo na Síria e no Iraque e mais lentamente no Egipto e no Líbano. Se em 1950 os cristãos na Palestina representavam à volta de 15 por cento da população, actualmente serão uns 2 por cento.

 

O relatório da Open Doors (Portas Abertas), com a Lista Mundial da Perseguição referente ao ano de 2018, é dramático, pois a perseguição aos cristãos no mundo continua a crescer. Só na lista dos primeiros 50 países onde os cristãos vêem os seus direitos mais limitados pelo facto de serem cristãos, o seu número eleva-se a 245 milhões, cifra que deve ser muito maior, já que pelo menos em 73 países do mundo os níveis de perseguição são “altos”, “muito altos” ou “extremos”: entre Novembro de 2017 e Outubro de 2018, 3731 cristãos foram mortos por causa de seguirem Jesus e 1847 igrejas foram atacadas.

 

A Ásia e a África são os continentes mais hostis aos cristãos. Um em cada nove cristãos sofre perseguição em todo o mundo; na Ásia, um em cada três e na África, um em cada seis. Na Lista da Perseguição Mundial, os três primeiros lugares são ocupados pela Coreia do Norte (há 17 anos que ocupa o primeiro lugar), pelo Afeganistão e pela Somália, respectivamente. A Nigéria, onde houve cerca de 2000 cristãos mortos por causa da sua fé, ocupa o décimo quarto lugar da lista dos 50 países com maior perseguição. O Paquistão é considerado o país onde a violência anticristã atinge o seu nível máximo. Causa preocupação o que se passa na Índia por causa do radicalismo hindu e na China sobretudo por causa da posição do Partido Comunista em relação à religião. As novidades na Lista dos 50 países são o Nepal e o Azerbaijão. A situação na Líbia, que ocupa a sétima posição na escala, causa particular preocupação. Com a retirada do autoproclamado Estado Islâmico, os níveis de perseguição no Iraque e na Síria desceram, embora continuem a ocupar lugares muitos altos na Lista: oitavo e décimo quinto lugares, respectivamente.

 

Entretanto, na Europa impõe-se frequentemente um “secularismo agressivo”, e, com honrosas excepções, para a França e o Reino Unido, é gritante o clamoroso silêncio do Ocidente democrático face a esta situação. Perante o aumento dramático da perseguição dos cristãos no mundo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico impulsionou um Relatório sobre a situação, que será apresentado em Abril. “A perseguição dos cristãos é frequentemente um sinal explícito e alarmante da perseguição das minorias”, assegurou o Ministro Hunt, que reconheceu que “podemos e devemos fazer algo mais”.

 

2. Neste ano de 2019, há, entre muitas outras, uma data altamente importante: em 1219, Francisco de Assis, em plena quinta cruzada, foi ao encontro do sultão do Egipto, o sultão Al-Kamil, faz este ano 800 anos. Recordando este acontecimento histórico, com a sua mensagem de tolerância, diálogo e compromisso com a paz, o arcebispo de Lahore, no Paquistão, também presidente da Comissão Nacional para o Diálogo Inter-religioso e o Ecumenismo, da Conferência Episcopal do Paquistão, presidiu, no passado dia 12, a um encontro de cristãos e muçulmanos. Aí foi lembrado que Francisco e Al-Kamil “defenderam a paz e a tolerância no meio da atmosfera de guerra e conflito durante as cruzadas. Deram um exemplo de diálogo inter-religioso e de compreensão mútua”.

 

É neste espírito que o Papa Francisco assumiu como um dos desafios do seu pontificado o compromisso com o diálogo inter-religioso, como mostrou a sua viagem ao Egipto e, imediatamente a seguir ao seu encontro com os jovens nas Jornadas Mundiais da Juventude, no Panamá, onde se encontra, vai deslocar-se à capital dos Estados Árabes Unidos, Abu Dhabi, de 3 a 5 de Fevereiro próximo, para participar num encontro inter-religioso sobre a “Fraternidade Humana”. E repete constantemente que quer visitar o Iraque, por onde em Dezembro passado andou o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que celebrou o Natal com várias comunidades cristãs.

 

Evidentemente, o diálogo não pode ser unidireccional, tem de haver reciprocidade, sendo, por isso, razoável e legítimo esperar que concretamente os muçulmanos que vivem no Ocidente denunciem as atrocidades cometidas contra os cristãos nomeadamente nos países de maioria islâmica. O que alguns já fazem, felizmente. E a Turquia acaba de anunciar a construção da primeira igreja cristã desde 1923, a começar em Fevereiro.

 

3. Neste contexto, seja-me permitido, mais uma vez, sublinhar as condições irrenunciáveis para um diálogo tão urgente como difícil, concretamente para o diálogo islâmico-cristão, que aqui tenho repetido.

 

3. 1. Quando se olha para a situação do mundo, é o teólogo Hans Küng que tem razão: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, um ethos mundial”.

 

3. 2. A religião tem na sua base a experiência do Sagrado. Crente é aquele que se entrega confiadamente ao Mistério, ao Sagrado, Deus, esperando dele sentido último, salvação. De facto, as religiões aparecem num momento segundo: são manifestações e encarnações, necessárias e inevitáveis, da relação das pessoas com Deus e de Deus com as pessoas. São mediações, construções humanas e, por isso, têm do melhor e do pior, entendendo-se, também a partir daqui, que o diálogo inter-religioso tem de assentar nalguns pilares fundamentais.

 

Todas as religiões, na medida em que não só não se oponham ao humano, mas, pelo contrário, o dignifiquem e promovam, têm verdade. Outro pilar diz que todas são relativas, num duplo sentido: nasceram e situam-se num determinado contexto histórico e social, e, por outro lado, estão relacionadas com o Sagrado, o Absoluto, Deus. Estão referidas ao Absoluto, Deus, mas nenhuma o possui, pois Deus enquanto Mistério último está sempre para lá do que possamos pensar ou dizer. Precisamente porque nenhuma possui Deus na sua plenitude, devem dialogar, para, todas juntas, tentarem dizer menos mal o Mistério, Deus, que a todas convoca. Assim, por paradoxal que pareça, do diálogo fazem parte também os ateus e os agnósticos, porque, estando de fora, mais facilmente podem ajudar os crentes a ver a superstição e a inumanidade que tantas vezes envenenam as religiões.

 

Exigência intrínseca da religião na sua verdade é a ética e o compromisso com os direitos humanos e a realização plena de todas as pessoas. A violência em nome da religião contradiz a sua natureza, que é a salvação. Face a um Deus que mandasse matar em seu nome só haveria uma atitude digna: ser ateu.

 

Dois princípios irrenunciáveis: a leitura não literal, mas histórico-crítica, dos Livros Sagrados, e a laicidade do Estado, que não deve ter nenhuma religião, para garantir a liberdade religiosa de todos. Evidentemente, a laicidade não se pode de modo nenhum confundir com o laicismo. De facto, a religião tem de ter lugar no espaço público, pois é uma dimensão do humano e faz parte da cultura.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 26 JAN 2019

TERRA JUSTA: CAUSAS E VALORES DA HUMANIDADE

 

Também fora de Lisboa ou do Porto, há iniciativas de relevância mundial, que merecem a atenção de todos, também como exemplo.

 

Hoje, quero felicitar, muito sinceramente, Fafe, na pessoa do seu ilustre Presidente, Raul Cunha. Porque Fafe já não é símbolo da “justiça de Fafe”. É símbolo da justiça, sim, mas da Terra Justa: Encontro internacional de Causas e Valores da Humanidade. Em Fafe, com inexcedível força e dignidade, celebra-se e combate-se pela cidadania universal, na liberdade, na justiça e na paz. Concretamente através dessa iniciativa anual, por onde têm passado grande figuras de renome, como António Guterres, o cardeal Maradiaga, Manuela Eanes, Eduardo Lourenço, Leonor Beleza, Artur Santos Silva... Ali têm sido homenageadas grandes instituições de cultura e solidariedade: a Fundação Calouste Gulbenkian; a Fundação António Champalimaud; o IAC (Instituto de Apoio à Criança); a Agenzia Habeshia, uma ONG fundamental para salvar vidas de refugiados; a UNICEF, uma agência das Nações Unidas, essencial na defesa dos direitos das crianças, tantas vezes espezinhados; Talitha Kum, a organização internacional que trabalha em rede contra o tráfico de pessoas...

 

Deixo aí algumas chaves de leitura deste prestigiado Encontro Internacional.

 

1. Terra Justa. Aí está uma utopia. Mas qual é a função da utopia? Ela tem duas funções principais: constatar o ainda não do que deve ser e, ao mesmo tempo, obrigar a lutar pela transformação do presente a caminho de um futuro com a realização desse dever-ser.

 

2. Porquê? Porque se trata do imperativo de Causas e Valores da Humanidade na Terra. E a Terra há só uma, uma só Terra: a Terra da Humanidade. Há 13.700 milhões de anos foi o Big Bang. A Terra terá uns 5.000 milhões de anos, a vida apareceu há uns 4.000 milhões de anos e, depois, a evolução continuou e há uns 150 mil anos aparecemos nós, o Homo sapiens sapiens — acrescento sempre: e demens demens (sapiente sapiente e demente demente). De qualquer modo, é em nós, seres humanos, autoconscientes, que este gigantesco processo da evolução sabe de si e toma consciência de si.

O ser humano será sempre objecto de espanto para si próprio. Talvez tenha sido Pascal quem de modo mais pertinente e lúcido “definiu” a condição humana, ao escrever que se situa algures entre “o nada e o infinito” (le néant et l’infini). Por isso, o ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, pergunta ao Infinito pelo Infinito, isto é, de um modo ou outro, por Deus. É nesta sua condição que eu vejo o fundamento da dignidade humana. De facto, se o ser humano, finito, frágil, débil, mortal, pergunta ao Infinito pelo Infinito, é porque tem algo de infinito nele e, por isso, não é da ordem das coisas, porque é fim. Na verdade, o que é que há para lá do Infinito? A pessoa humana é fim e não meio. Como escreveu Kant, as coisas são meios para outra coisa e, assim, têm um preço; o ser humano é fim e não meio e, por isso, não tem preço, mas dignidade. Aí está, pois, a resposta para a pergunta: Porquê o combate pela Terra Justa? Porque é o combate pela dignidade de todas as pessoas.

 

3. Todos os seres humanos são dignos e a Terra é de todos. E aqui colocase para todos um dos problemas maiores: a questão da ecologia, do meio ambiente. E entra a política. Aristóteles definiu o ser humano como “animal político”. Porquê? Porque, ao contrário dos outros animais, que produzem sons, exprimindo prazer ou desprazer, o Homem tem linguagem duplamente articulada, pela qual debate o bom e o mau, o justo e o injusto, o digno e o indigno. Já se tornou claro que hoje, tomando consciência de que há uma só Terra e uma só Humanidade, sendo todos igualmente dignos, a política tem de ser global, tem de ter o horizonte de um mundo global. Só há, portanto, futuro com uma Governança Global.

 

4. O ser humano é como uma árvore: somos enraizados, temos um lugar de nascimento, uma história única, estamos situados, mas, ao mesmo tempo, estamos abertos, ilimitadamente abertos aos outros, a todos os outros, a possibilidades sem fim. Nesta abertura, mostra-se que somos constitutivamente em relação. Fazemo-nos uns com os outros. A nossa relação é local e global, nesse enraizamento de uma situação concreta e única e numa abertura sem fim.

 

5. Característica essencial do ser humano é a neotenia, isto é, nascemos prematuros, sendo esta a condição de possibilidade de sermos o que somos: humanos. Enquanto os outros animais já nascem feitos, o ser humano nasce por fazer. Então, qual é a sua missão e tarefa? Fazer-se a si mesmo. Fazendo o que fazemos, estamos sempre a fazer-nos a nós próprios, de tal modo que no fim pode resultar uma obra de arte ou, permita-se a expressão, uma porcaria. Como devemos fazer-nos? Uma vez que somos livres — auto-possuímonos e somos responsáveis —, devemos fazer-nos bem. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode ser cruel. Da conexão da razão e da bondade resultará certamente uma Humanidade boa, justa, livre e a viver em paz.

 

6. Já não há Deus? Deus, ao contrário do que se pensa e diz, existe, o que se passa é que, como reflectiu o filósofo G. Agamben, tornou-se Dinheiro. E o ídolo Dinheiro é o valor que mede todos os outros valores, afirmando-se acima deles. Por isso, o Papa Francisco não se cansa de repetir, na linha do que disse Jesus, que não é possível servir a Deus, Pai-Mãe de todos os homens e mulheres, interessado no bem de todos, e servir o Dinheiro enquanto o novo único deus. A financeirização especulativa da economia “mata” e faz um número incontável de vítimas. A política tem, pois, de ser acompanhada da ética. E, mais uma vez, precisamos urgentemente de uma Governança Global (não digo um Governo Mundial). De facto, problema maior hoje é que os mercados são globais, mas a política é local, nacional, quando muito, regional. Como se pode regular assim os mercados?

 

7. Last but not least, é cada vez mais urgente o diálogo inter-religioso, como desde há anos não se cansa de sublinhar o célebre teólogo Hans Küng, autor principal da “Declaração para uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial.”

 

É claro: sem um novo ethos, isto é, sem uma nova atitude ética, concretamente, sem justiça social global, continuará a violência, a guerra, e não haverá paz.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 20 JAN 2019

A IGREJA E O SEXO

 

Na sua obsessão pelo sexo, a Igreja não pode reclamar-se de Jesus. De facto, segundo os Evangelhos, Jesus raramente falou de sexo e, quando o fez, foi provocado por perguntas que lhe fizeram. E, aí, apelou para o amor, a fidelidade no casal e a igualdade do homem e da mulher. Apaixonado pela felicidade das pessoas, participou em festas de casamento e até fez com que aparecesse o vinho que faltava: 600 litros! Ele próprio celibatário, não impôs o celibato: São Pedro, por exemplo, era casado, e o celibato obrigatório para os padres na Igreja do Ocidente só começou a impor-se no século XI, com o Papa Gregório VII.

 

O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi, essencialmente, a influência perniciosa da gnose, que, contra o cristianismo autêntico, desprezava a matéria e o corpo. Depois, Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada – ele seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram --, formulou, como solução para o problema do mal, a doutrina do pecado original. E a questão é que esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos os seres  humanos são pecadores -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.  Finalmente, com a reforma gregoriana, foi-se erguendo a tríplice coluna sobre que assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).

 

Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos e fardos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, que consideravam ofensiva dos direitos humanos.

 

No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser “um imenso, incómodo e multifacetado mistério”, vale tudo? É claro que não, reconhecendo o catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa que “a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher – ao contrário”. Chegou-se à degradação boçal da prostituição nos e dos média, digo eu. Uma sexualidade degradada e desumanizante, na busca exclusiva do prazer venéreo e utilizando o outro como simples meio!

 

De qualquer forma, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita? O Cardeal Carlo Martini, exegeta bíblico eminente e antigo arcebispo de Milão, interrogou precisamente esta lei do celibato obrigatório e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae e que “a solidão da decisão” por parte do Papa Paulo VI, depois de ter retirado a discussão do tema aos padres conciliares, não foi certamente “um pressuposto favorável” para tratar a questão da sexualidade e da família, reconheceu que os anos de distância da sua publicação “nos poderiam permitir um novo olhar”. “É um sinal de grandeza e auto-consciência alguém confessar os seus erros e visão limitada.” Assim, Martini pensava que um novo Papa “talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o  desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade.” Muitos esperam uma palavra de orientação sobre o corpo, o casamento e a família. “Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção.”

 

Sobre estes e outros temas é o que tem procurado fazer o Papa Francisco. Leia-se, por exemplo, a exortação Amoris Laetitia, “A Alegria do Amor”, precisamente sobre uma nova visão da família e da sexualidade, que, para ser verdadeiramente humana, tem de envolver o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual.

 

E chamo a atenção para a elegância com que tratou o tema num diálogo recente com um grupo de jovens da Diocese de Grenoble. Duas jovens interrogaram-no precisamente sobre a sexualidade, perguntando concretamente se o facto de pertencerem à primeira geração que ousa falar abertamente destes temas não explica as incompreensões e o silêncio embaraçado dos mais velhos. Francisco respondeu: “A sexualidade, o sexo, é um presente de Deus. Não é de modo nenhum um tabu. É um dom de Deus, um presente que o Senhor nos dá. Tem dois objectivos: amar-se e gerar vida. É uma paixão, e um amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre e a dá-la com o corpo e a alma”, declarou o Papa com força.

 

“Quando Deus criou o homem e a mulher, a Bíblia diz que os dois são a imagem e a semelhança de Deus. Os dois, não apenas Adão ou só Eva, mas os dois em conjunto”, insistiu. “E Jesus vai mais além e diz: o homem e também a mulher deixarão o seu pai e a sua mãe e unir-se-ão e serão... uma só pessoa?... uma só identidade?... Uma só fé no casamento?... Uma só carne! Esta é a grandeza da sexualidade. E é assim que se deve falar da sexualidade. E deve-se viver a sexualidade assim, nesta dimensão do amor entre homem e mulher por toda a vida. É verdade que as nossas fraquezas, as nossas quedas espirituais, nos levam a usar a sexualidade fora deste caminho tão belo do amor entre o homem e a mulher. Mas são quedas, como todos os pecados. A mentira, a cólera são pecados capitais, mas isso não é a sexualidade do amor: é a sexualidade coisificada, desligada do amor e utilizada para o divertimento”, explicou.

 

Francisco sublinhou ainda o paradoxo que consiste no facto de a mais bela dimensão da criação divina ser também “a mais atacada pela mundanidade, pelo espírito do mal”. A pornografia, por exemplo, depende de uma “indústria da sexualidade desligada do amor”. “É uma degeneração em relação ao nível em que Deus a colocou, e faz-se muito dinheiro com este comércio. Mas a sexualidade é grande: cultivai a vossa dimensão sexual, a vossa identidade sexual. Cultivai-a bem. E preparai-a para o amor, para inseri-la neste amor que vos acompanhará durante toda a vida”.

 

Por outro lado, mesmo se o Documento final do recente Sínodo dos bispos sobre os jovens e com os jovens ficou aquém das expectativas, no “Instrumentum laboris”, texto de preparação e de base para o debate, reconhecia-se que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e que há “temas controversos” como os anticonceptivos, a homossexualidade, o aborto, o casamento ou a questão de género. O texto, apresentado pelo cardeal Baldisseri, aceitava que é preciso debater “abertamente e sem preconceitos”  esses e outros temas, do desemprego às novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, o trabalho precário, as drogas, o papel da mulher. Entretanto, nesse Sínodo, houve vozes como a do bispo auxiliar de Lyon, Emmanuel Gobilliard, que abriu a porta do Sínodo aos LGBT: “Quem sou eu para excluí-los?” Francisco disse sempre que o problema não é a homossexualidade, mas “o lóbi gay”, como outros lóbis. Mais recentemente, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, reclamou uma revisão do celibato obrigatório: “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está a avançar nem a ser entendido na sua profundidade.”

 

Entretanto, a Igreja carrega com essa chaga que é a pedofilia por parte do clero. O Papa Francisco está disposto a usar mão firme nesse combate. No discurso natalício à Cúria, depois de ter reafirmado que mesmo um só caso de abuso seria “uma monstruosidade por si mesmo”, declarou: “Aos que abusam dos menores quero dizer-lhes: convertei-vos e entregai-vos à justiça humana, e preparai-vos para a justiça divina”. Agradeceu aos jornalistas “que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. A Igreja levará à justiça “seja quem for” que tenha cometido abusos. E convocou os Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para uma reunião anti-abusos, que enfrente esta chaga dolorosíssima. Como disse o director editorial do Dicastério (Ministério) para a Comunicação do Vaticano, Andrea Tornelli: “O objectivo é que todos tenham absolutamente claro o que se deve fazer (e não fazer) frente aos abusos”. Trata-se de “transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar” a praga dos abusos “não só do corpo da Igreja, mas também da sociedade”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no Observador | 12 JAN 2019