EM BUSCA DE IDEIAS CONTEMPORÂNEAS

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Folhetim de Verão - Capítulo 15
PARA ALÉM DAS APARÊNCIAS…
Quando Eduardo Lourenço atribuiu ao grupo de “O Tempo e o Modo” e a António Alçada Baptista uma função intelectual e ética compreendeu o cerne da questão, uma vez que, mais do que qualquer pressão direta sobre os acontecimentos, do que se tratou foi de criar condições para um gradualismo que foi correspondendo a uma maturação da sociedade portuguesa em vários campos. Se lermos com atenção a primeira série de “O Tempo e Modo”, percebemos que é a realidade que se move em diversos domínios. Na política, tratava-se de seguir uma certa dialética, que era o mesmo que usar um eufemismo para significar a semente da democracia. Na economia, a participação de Portugal no processo de integração europeia, através de EFTA, significava já a rutura com a ideia de “orgulhosamente sós”. Na sociedade, vemos que os valores tradicionais sofrem um abalo subreptício, mas real. Os dois números especiais da revista sobre “O Casamento” e “Deus O que é?” significam o tratamento de temas atualíssimos que representavam um avanço importante no campo da reflexão e das mentalidades. Para iludir a censura, os números não se inseriam na ordem periódica, para não estarem sujeitos à prova de página. No domínio da criação cultural e artística, pode-se dizer que tudo de fundamental passou por “O Tempo e o Modo” – literatura, teatro, música, artes, educação, formação, ciência, tecnologia – tudo… Edgar Morin disse que em pouco tempo uma geração avançava cinquenta anos. Simultaneamente, a Associação Internacional para a Liberdade da Cultura, com Pierre Emmanuel, e as iniciativas do Centro Nacional de Cultura, além da Fundação Gulbenkian, apesar de todas as proibições foram preparando o terreno. Leia-se o volume “Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril”, que demonstra a importância que teve em Portugal a atuação da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias, braço do Congresso para a Liberdade da Cultura, que permitiu o maior contacto com as democracias europeias, o que reforçou o desejo de liberdade e as convicções democráticas. Pierre Emmanuel e Roselyne Chenu são referências inesquecíveis que nos lembram uma fase decisiva para a concretização da democracia. E se o facto de António Alçada ter sido protagonista nas “Conversas com Marcello Caetano” causou perplexidades, a verdade é que não podemos esquecer em que medida essa atitude contribuiu decisivamente para preparar condições de tolerância que permitiram a consolidação democrática, de que Mário Soares foi protagonista.
Um dia, António recordou que era importante para o equilíbrio de uma embarcação que nem todos se concentrassem a bombordo ou a estibordo. Para ele, se todos iam para um lado, era necessário equilibrar o outro para que o navio se não virasse. Do mesmo modo, recordava o caso do seu amigo José Gomes Ferreira, com posição política bem conhecida, que enquanto alguns lhe viravam a cara, ele fazia questão de atravessar a rua para lhe dar um abraço, pois a hombridade não escolhe ocasiões. Edgar Morin seguiu com atenção a revolução portuguesa, fiel aos seus amigos, e com especial atenção aos falsos entusiasmos e aos radicalismos de última hora. O fundamental era a defesa das liberdades fundamentais. Edgar tornou-se amigo próximo de Mário Soares, que António Alçada Baptista lhe apresentou em Paris. Quando soube da morte de Mário Soares, isso abalou-o profundamente. Depois da morte de Helena Vaz da Silva e de António Alçada foi o momento mais triste da solidariedade portuguesa.
Para Morin, a institucionalização da democracia portuguesa foi exemplar na história contemporânea. A democracia e a liberdade puderam vencer. De facto, como resulta da sua reflexão teórica a democracia não é um processo de escolha dos governos ou de apuramento de responsabilidades, é mais do que isso, uma vez que se trata de um sistema de valores éticos que permite definir o Estado de Direito como primado da lei, legitimidade do voto, legitimidade do exercício e concretização da justiça. Como se compreende, Edgar Morin sempre entendeu, por isso, que os amigos portugueses não se preocupavam com projetos e jogos de poder, mas com a reforma das mentalidades e com os fundamentos éticos da realização da dignidade humana. É nesse ponto que é importante perceber que os polos profético e político se completam. Apesar das diferenças, António e Mário Soares fazem parte da mesma raiz que Morin reverenciou – centrado na liberdade. Por isso, o projeto da nova revista portuguesa em que Edgar participou tinha as duas referência que o filósofo tanto amava – “Raiz e Utopia”. Na raiz estavam os fundamentos, na utopia o horizonte de exigência e de mudança, não da sociedade perfeita, mas da capacidade de ser melhores. Daí que Morin preferisse falar de metamorfose, fiel à natureza e à complexidade, em vez de transformação.
Para o pensador, o fundamental na revolução portuguesa estava na coerência e na coragem do Movimento da Forças Armadas que, como prometeu em 25 de Abril, devolveu à soberania popular das instituições civis a legitimidade do Estado e da Sociedade. É certo que não há perfeição, mas vontade de ser melhor, com compromissos, coerência, respeito mútuo e cidadania responsável. A ligação especial aos amigos da resistência e a pessoas como Mário Soares e Maria Barroso ou a militares democratas como Ernesto Melo Antunes ou Ramalho Eanes tornou a presença de Edgar Morin em Portugal uma referência natural que determinou uma vontade expressa de deixar registada a memória desta ligação de uma amizade solidária.
A História não se faz apenas de grandes acontecimentos. Constrói-se com grandes decisões e com pequenos passos. Pode dizer-se que alguém poderia ter grandes ambições para uma carreira ou para uma vida, no entanto no balanço geral de uma existência temos de considerar tudo. Edgar Morin conheceu por isso os gestos, de facto significativos, de um grupo de católicos inconformistas e deu-lhes uma importância especial, numa sociedade em metamorfose, desejosa de abertura e de liberdade. Por isso recordava o testemunho daquele miliciano com experiência em África que confessava a António Alçada como fora importante a leitura de “O Tempo e o Modo” durante as missões do serviço militar obrigatório, para compreender a importância das ideias e dos acontecimentos. Para além das aparências, Emmanuel Mounier ensinava, no fundo, que o acontecimento é o nosso verdadeiro mestre interior.
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Folhetim de Verão - Capítulo 14

UM CASO MUITO ESPECIAL…
Ao dobrar a idade dos cem anos Edgar Morin lembrou que algo deveria ser feito para recordar as grandes amizades que se construíram em torno de um bonito sonho, o da construção das bases de uma democracia em Portugal. Não poderia ficar esquecida a memória de quem protagonizou esse desígnio. Mais do que um projeto político, haveria que recordar os fundamentos de uma amizade sólida que o tempo evidenciou. E em conversas longas, Edgar Morin disse claramente que dois ou três casos mereciam uma recordação especial. Antes de todos, havia que destacar o exemplo de António Alçada Baptista, um jovem que aos trinta anos decidiu em nome de um ideal generoso deixar uma carreira prometedora de advogado, para abraçar a criação de uma editora e o mundo das ideias. Que melhor fazer para defender o mundo das ideias senão criar uma livraria? Muitos dos seus amigos consideraram esse gesto uma loucura, mas ninguém o demoveu, nem mesmo os dissabores vários com que se foi confrontando.
Tudo começou por uma pequena editora, inicialmente de livros jurídicos, depois houve que encontrar uma espinha dorsal. Mas um projeto desses tinha de contar com o entusiasmo de alguns jovens, e nada melhor do que mobilizar estudantes vindos da militância universitária cristã num momento especialmente difícil da vida nacional, quando o regime político de Salazar era abalado pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, vindo de uma carreira brilhante nas Forças Armadas, um dos esteios do Estado Novo, e pelo memorando enviado ao próprio Salazar pelo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, recordando a Doutrina Social da Igreja que andava bem esquecida do regime e do seu timoneiro. A um tempo as Forças Armada e a Igreja Católica davam sinais de desassossego. Seria, afinal, um bom momento para agitar as águas, envolvendo os mais jovens e mobilizando quem dava sinais de querer mudar o estado de coisas. Mais do que olhar para dentro, haveria que olhar para fora e para diante. Desde o final da Grande Guerra em 1945, que a Península Ibérica faltava no espaço democrático europeu. Entretanto, João XXIII lançara o ambicioso Concílio Ecuménico Vaticano II com consequências imprevisíveis. E lançava o desafio de ir ao encontro dos sinais dos tempos, num catolicismo que desejava superar o eurocentrismo e ir para o mundo. Quando Edgar Morin, através dos amigos da revista “Esprit”, fundada por Emmanuel Mounier e agora dirigida por um antigo membro da Resistência, Jean-Marie Domenach, tem conhecimento de que algo se passa em Portugal fica alerta e rapidamente o interesse torna-se solidariedade. As ideias vão germinando, entre a utopia de um Pacto e a criação de uma revista quase gémea de “Esprit”, havia um caminho a percorrer.
Primeiro nasce o “Círculo do Humanismo Cristão”, com a força inconformista desse humanismo que punha as pessoas em primeiro lugar e que abria as portas a um ecumenismo de cristãos e não cristãos. Depois vem uma revista, com o título de “O Tempo e o Modo”, mobilizando o pensamento e a ação. Edgar Morin não esconde o entusiasmo. Encontra-se com António na Rue Jacob, na Rive Gauche parisiense, graças à hospitalidade de Domenach. Poder-se-á pensar o que queria de facto o jovem animador da Livraria Moraes. Para uns mudar o panorama político e a Igreja, para outros criar um Partido Democrata Cristão, para outros ainda mobilizar energias intelectuais para uma democracia a haver… É difícil saber-se qual o plano real do jovem António Alçada Baptista, que se fará representar anos depois como a figura bíblica de Jacob em combate com um Anjo. Dotado de uma grande capacidade de compreensão do mundo e dos sinais dos tempos, depressa percebe que não é um partido político que deseja construir. Apesar das vicissitudes editoriais, a contas com a censura e das resistências eclesiásticas (ressalvada a amizade do Cardeal Cerejeira) e do esgotamento da fortuna pessoal, são indiscutíveis as influências que vai exercendo, muito para além do que pensaria. Não terão razão os que consideram fracassado um projeto pessoal de poder global, “tendo ambicionado um alto destino, de que a sorte e, no fundo, a sua própria natureza o desviaram”, na expressão de Vasco Pulido Valente. O que António teria querido, seria “mudar o catolicismo e o país” e, em última análise, criar um partido democristão, como os que nessa época governavam o país”. Mais do que isso, Eduardo Lourenço tem razão quando atribui um papel ético e intelectual – “a salutar missão de se confessar e exorcismar por muitos”. De facto, Alçada não se reconhecia no catolicismo obsoleto do Portugal salazarista, revendo-se no personalismo de Emmanuel Mounier e no projeto de uma Igreja com genuínas preocupações sociais. E Edgar Morin afirma que testemunhou uma rápida evolução intelectual entre os seus amigos; “partindo de um catolicismo que se tornava cada vez mais social”, o que determinou uma “evolução comparável a meio século”. De facto, António fez uma revolução cultural e ainda uma “revolta de comportamento, incluindo os comportamentos amorosos, uma espécie de Maio de 68, avant la lettre” (segundo Eduardo Lourenço). Na atividade editorial, basta vermos os títulos do Círculo da Poesia, além da revista “Concilium” animada por Helena Vaz da Silva. No mundo literário, temos Jorge de Sena, Nemésio, Ramos Rosa, Alexandre O’Neill, Sophia, Ruy Belo, Pedro Tamen, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, mas ainda Nuno Bragança ou Maria Velho da Costa. Razão tem Pedro Mexia quando diz que AAB “escreveu dois livros fundamentais para qualquer pessoa que queira pensar o catolicismo português, fundou uma das revistas mais estimulantes do nosso panorama cultural e uma excelente editora e foi um bom presidente do Instituto Português do Livro”. Afinal, o lugar de António Alçada no panorama português é muito mais relevante do que parece à primeira vista. Para Edgar Morin, capitaneia a abertura de horizontes para a Europa e o mundo. O reconhecimento da importância do Brasil é uma marca de universalismo, com repercussões futuras indiscutíveis. Cultivou a liberdade como valor ético e cívico, foi um memorialista exemplar, a sua “Peregrinação Interior” é uma obra maior do ensaísmo e como cidadão e escritor foi um catalisador de energias no sentido de uma democracia moderna.
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Folhetim de Verão - Capítulo 9
TESTEMUNHO DE ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA
Continuamos a ouvir o testemunho de António Alçada Baptista sobre a “Aventura da Moraes”. É fundamental compreendermos que perante a quadratura do círculo que a situação portuguesa apresentava havia a contradição suprema entre as poderosas condicionantes externas e o empenhamento pessoal em prol da liberdade.
«Tive algumas reações do meio em que vivia, surpreendido com a minha atitude, pois julgavam que o meu oposicionismo se ficava pelas conversas de café. Quando o meu nome apareceu entre os do que chamavam “o reviralho”, creio que tomaram consciência de que a minha atitude ia para além das palavras. Para a geração mais nova do que eu, tenho que reconhecer que essa decisão teve alguma importância, embora julgue que as reações possam ter diversas interpretações. No entanto, acho que aquela candidatura foi para os católicos de então uma referência política a considerar. Nas eleições de 1965, não conseguimos arranjar quatro candidatos em Castelo Branco para concorrer ao ato eleitoral. Fizemos então uma declaração muito solene a dizer que, dadas as condições impostas pelo regime, não nos era possível ir às eleições. De 1968 em diante a situação modificou-se: o desgaste do regime era evidente, a guerra colonial tinha alterado de alguma maneira a consciência da sociedade portuguesa e, quando concorri em 1969, ser da oposição era quase uma promoção. “O Tempo e Modo” publicou o seu primeiro número em Janeiro de 1963. Foi resultado da necessidade que nos pareceu evidente de ter um órgão de intervenção que mostrasse o nosso empenhamento em manter diálogo e alianças com a oposição tradicional. A minha amizade com o Mário Soares e o Francisco Salgado Zenha facilitou muito esse entendimento. O Partido Comunista não gostava que o regime confundisse deliberadamente a oposição com o comunismo porque isso lhe permitia manter uma certa tutela sobre o movimento oposicionista, mas Soares e Zenha, pelo contrário, tiveram consciência da importância do diálogo com os católicos pela abertura da frente contra a situação e porque isso iria tirar argumentos à sua propaganda. Os dois ficaram como membros do Conselho Consultivo da revista e tínhamos reuniões regulares para a sua preparação. A revista tinha como subtítulo “Revista de Pensamento e Ação” e, à sua volta, procurámos desenvolver algumas iniciativas. Por isso ela passou a ser também uma referência política na sociedade portuguesa. O primeiro número tinha artigos do Mário Soares, do Jorge Sampaio e meus. A sua leitura deve ser feita hoje tendo presente tudo o que lhe estava subjacente porque era grande o peso da censura. Mário Soares escreveu sobre Oliveira Martins e, no meu artigo, quando queria dizer “instituições democráticas”, tinha que escrever “instituições que pressupõem uma certa dialética”. No entanto, as pessoas entendiam-se por estas cifras e através delas se passava a palavra. As nossas relações com certas áreas da oposição nem sempre foram fáceis. Lembro-me que, mesmo entre os colaboradores, tive grandes reações por ter escrito uma vez “ao arbítrio de Bautista, sucede, em Cuba, o extremismo de Fidel”. A Seara fazia-nos, de vez em quando , os seus ataques e insinuações, para gáudio da imprensa de direita. Apesar de tudo isso, “O Tempo e o Modo” reuniu colaboração de pessoas de várias tendências. Entre as que lembro, posso citar, além de Mário Soares, Francisco Salgado Zenha e Jorge Sampaio, os nomes do padre Abel Varzim, Jaime Gama, José Luís Nunes, Francisco Balsemão, Mário Brochado Coelho, Júlio Castro Caldas, Alfredo Barroso, Manuel de Lucena, Miller Guerra, Vasco Vieira de Almeida, Eduardo Lourenço, Mário Murteira, Raul Rego, Luís Salgado de Matos, Eduardo Prado Coelho, José Pedro Pinto Leite, Francisco Sarsfield Cabral, Vitorino Magalhães Godinho. O João Bénard da Costa e o Vasco Pulido Valente praticamente faziam e coordenavam a revista. Também me parece que “O Tempo e o Modo” teve uma especial importância na área das artes e das letras. É possível dizer-se que estávamos perante uma ditadura política de direita e uma ditadura cultural de esquerda e que certos nomes como os de Jorge de Sena, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa Luís, António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo, não estavam valorizados de acordo com o seu talento. A Revista, além de acolher a sua colaboração, soube dar-lhes o relevo que mereciam e criou um espaço cultural onde, na literatura e nas artes, se exprimiam outras tendências e outros modos de pensar.
Entretanto, em 1968, Marcello Caetano assumia o poder. Como eu não acreditava em golpes militares e achava que a oposição era um importante núcleo de testemunho, mas com uma relativa indiferença na sociedade portuguesa, pareceu-me que a liberalização progressiva do regime seria a única via para a instauração da democracia. Dois grandes amigos meus, o José Guilherme de Melo e Castro na Ação Nacional Popular, e o José Pedro Pinto Leite, que entrara na Assembleia com a Ala Liberal, davam-me algumas garantias dessa possibilidade. Mas a verdade é que a guerra colonial radicalizara os conflitos na sociedade portuguesa e as gerações mais novas, que sofriam com maior agudeza o desastre da guerra, muito compreensivelmente não estavam dispostas a contemporizar com soluções reformistas. Foi nessa altura que aceitei escrever um livro, Conversas com Marcello Caetano. Devo dizer que comecei o livro convencido que a liberalização se iria efetuar mas, a meio, tomei consciência que o regime não se liberalizaria. Marcello, quando muito, desejaria gerir a própria liberalização, o que era impossível. Em segundo lugar, ele estava convencido que a força estava sempre da direita. Também reparei que ele não estava muito interessado em fazê-la. Um dia disse-me:” Eu já tenho sessenta e alguns anos. Não estou aqui para fazer revoluções. Estou aqui a ver se equilibro as coisas e nada mais”. Finalmente, o “império” era para ele uma ideia muito forte: “Temos um império que dura há quinhentos anos. Quem quer tomar a responsabilidade de o perder? Eu não”. Foi neste quadro de circunstâncias, e perante o desastre financeiro da Moraes Editores, que resolvi então entregar a revista aos seus redatores que se constituiriam em sociedade para a continuar. Eram de tendência maoista na sua maioria e a revista passou para as suas mãos. Como ponto de encontro de várias correntes e que, de certo modo, tinha contribuído para fazer participar os católicos na construção da democracia portuguesa, deixara de ter sentido».
(…)
Além da iniciativa de “O Tempo e o Modo”, tivemos uma outra que causou muita perturbação na Igreja: a publicação da revista “Concilium”. Creio que foi aí que a Helena Vaz da Silva revelou pela primeira vez a sua capacidade de organizar e dirigir, pois dela se ocupou inteiramente, o que não era pouco: punha a revista todos os meses na rua e, para isso, coordenava as traduções de compactos textos teológicos, reclamava das tipografias que, por sua vez, reclamavam do dinheiro sempre em atraso. O Concílio Vaticano II provocou uma viragem significativa na Igreja e, de certo modo, foi o resultado de um trabalho que há muito vinha sendo feito por teólogos, sobretudo franceses, alemães e holandeses - Chenu, Congar, Schillebeeckx, Küng, Rahner, Metz - que até ali tinham vivido num clima da maior suspeição. A sua importância na renovação do pensamento da Igreja creio que é difícil de entender pelas gerações mais novas mas, fundamentalmente, era a abertura à livre investigação e ao livre diálogo, dentro da Igreja, em duas vertentes igualmente férteis: a da investigação da doutrina e a da chamada a uma outra postura do cristão perante os deveres da solidariedade social. O Vaticano II, em certa medida, consagrou todos esses teólogos «suspeitos» e entendeu-se então que era altura de lançar uma revista internacional que saiu em sete línguas e doze países. A Moraes encarregou-se da edição portuguesa. A revista não pôde sair com a necessária autorização eclesiástica de nenhum bispo português. O imprimatur foi dado por Dom Aloísio Lorscheider, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Essa autorização podia ser dada pelo bispo do país da editora. Combinei com Dom Helder Câmara, ao tempo arcebispo do Recife e Olinda, uma sede fantasma na sua casa do Recife para podermos obter a autorização no Brasil. Essa é a razão por que a revista tem indicação de Moraes - Editores – Lisboa - Recife. O primeiro número foi publicado em Janeiro de 1965. A respeito de imprimatur, as nossas relações com a Igreja foram sempre insólitas e, no fundo, o meu único interlocutor mais acessível e inteligente era o Cardeal Cerejeira. Uma vez recebi uma carta do Bispo de Lisboa, D. Manuel dos Santos Rocha, dizendo-me simplesmente que não dava mais imprimatur à Editora Moraes. Isto canonicamente era um erro que nos colocava na situação de não poder publicar o Novo Testamento. Falei com o Patriarca, que procurava resolver estas situações. Esta foi uma das que resolveu. Como veem, além da estrutura global em que estávamos metidos, havia este sem-número de casos que me faziam lembrar a frase de S. Francisco de Sales: «As moscas incomodam não por serem grandes mas por serem muitas». A par da religião, a Helena organizou o grupo dos «Amigos da Concilium», que promoveu colóquios em Lisboa e no Porto, onde vieram, entre outros, teólogos como Hans Küng, Schillebeeckx e Leo Alting von Geusau. A Concilium não chegou a atingir mil assinantes e a Herder, de São Paulo, era chefiada por um alemão que tinha a mania que era esperto . Começou por comprar uma centena de exemplares e, em cada encomenda, pedia redução no preço. Passados três anos, vimos que não era possível manter a revista. Foi assim que a Herder de São Paulo ficou com a edição em português e nós eramos tão bonzinhos ou tão parvinhos que ainda lhe mandámos a lista dos assinantes! Dentre todos esses teólogos que conheci, não esquecerei a personalidade modesta, bondosa e afável do Pe.Chenu, de quem conservei algumas palavras numa carta que me escreveu mas que agora não encontro. De todos esses teólogos foi o que me deu mais a ideia de acreditar em Deus. Os outros, não obstante a simpatia de muitos deles (Hans Küng, por exemplo, prescindiu sempre dos direitos de autor dos seus textos que aqui lhe publicávamos: «não é pela importância - dizia - é pelo gosto de estar ligado àquilo que vocês estão a fazer»), na generalidade davam-me a impressão de serem uns intelectuais «especializados naquela matéria», bastante senhores de si, que não conseguiam esconder o grande prazer de serem as vedetas da teologia moderna, publicitados nos jornais, nas televisões, nas capas das revistas, quando, possivelmente, não esperavam outro destino senão o de serem uns padres obscuros a ensinar seminaristas numa parte escondida do mundo. Nunca mais soube deles, embora o Leo von Geusau, uma espécie de boémio de Deus, tivesse ficado muito meu amigo. Na verdade, o Vaticano II, ao consagrar na prática a sua teologia, tirou-lhe muito da sua notoriedade. Absolutamente por acaso, aí por 1993, tive notícias do Leo. Participava numa reunião do Centro Europeu de Fundações, em Bruxelas. A representar uma fundação holandesa estava um senhor com um ar muito importante, chamado também von Geusau. Num dos intervalos, fui ter com ele e perguntei-lhe se tinha algum parentesco com Leo, teólogo, que eu conhecera há mais de trinta anos e que devia ser da minha idade. Ele fez uma cara muito triste, e como se me falasse de alguém que dera um mau passo na vida, contou-me que o Leo era seu irmão, que tinha ido para a Indonésia, que casara com uma javanesa e que estava à espera de um filho. Enquanto o irmão me falava com um evidente pesar, eu dizia para comigo que o Leo, felizmente, continuava a viver com os olhos para fora do mundo.
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Folhetim de Verão - Capítulo 8
"A AVENTURA DA MORAES"
Prosseguimos hoje o relato de António Alçada Baptista sobre a “Aventura da Moraes”. Trata-se de um testemunho fundamental para compreender o papel dos católicos inconformistas na preparação da democracia. Na fotografia temos Emmanuel Mounier, que António não conheceu, uma vez que morreu em 1950, e Paulette Mounier, sua viúva, essencial para a publicação da obra de Mounier na Moraes – designadamente o “Manifesto ao Serviço do Personalismo”, traduzido por António Ramos Rosa.
«A verdade é que, com a mesma dispensa da interrogação e da dúvida, no mesmo quadro “eclesial”, com a sua disciplina, a sua inabilidade, os seus diretores de consciência, o seu clero, o seu catecismo, a sua liturgia, as suas cantigas paroquiais, era fácil a tentação de aderir àquela ideologia redentora, esmagados pelo peso de tantos privilégios perante tanta injustiça no mundo. Neste período, que pessoalmente me foi muito difícil, tive algum apoio de certos católicos, olhados com muita desconfiança pelos aparelhos da Igreja e do Estado. Entre esses estava o José Sebastião da Silva Dias - ao tempo inspetor da Polícia Judiciária - que me aconselhou a assinatura da revista “Esprit”. Foi assim que tomei contacto com o pensamento de Emmanuel Mounier. Com ele acreditei na possibilidade de uma presença intelectual e cívica a partir de um catolicismo aberto e interventor que, de certo modo, se reclamava da experiência daquela revista e de toda a atividade que se desenvolvia à sua volta. Essa minha experiência foi vivida nos meus primeiros anos de advogado. A visão de Mounier, num mundo intelectual inteiramente contaminado por uma visão materialista dialética do homem, da sociedade e da história salvaguardava-me a possibilidade de manter o quadro da minha educação tradicional, que não queria largar, e ao mesmo tempo permitia-me a rotura com a prática do regime e da Igreja. Eu não tinha ainda trinta anos, exercia advocacia em Lisboa com algum êxito profissional, mas como não fora educado a “tratar da minha vida”, a profissão de advogado dava-me uma certa incomodidade de viver. Coincidente com essa minha fase de desajustamento interior, estava à venda uma livraria-editora, a Livraria Moraes. Editar e vender livros tinha mais que ver com a minha relação com o mundo e, juntamente com um livreiro amigo e dois amigos meus, resolvemos comprá-la. Só um de nós tinha algum dinheiro e a sociedade foi comprada com grandes facilidades. A experiência não foi muito boa e os outros sócios venderam as suas quotas. Entretanto, tinha tomado contacto com uma nova geração de católicos com preocupações idênticas às minhas. Todos recém-formados, tinham-se ligado através do Jornal Encontro e do Cine-Clube-Católico. Eram o Pedro Tamen, o João Bénard da Costa, o Nuno de Bragança, o Alberto Vaz da Silva, o José Domingos de Morais, entre outros. A saída dos primeiros sócios coincidiu com o nosso conhecimento e então, com os mesmos “ideais” e um grande empenhamento, resolvemos fazer da editora o instrumento de atuação e realização de algumas das nossas preocupações. De todo o grupo, só o Pedro Tamen ficou formalmente ligado à sociedade, mas era, de certo modo, o representante de todos os outros. Juntávamo-nos com frequência para planificar a ação da editora, numa perspetiva do que então se chamava “apostolado”. Um fenómeno de que imediatamente tomei consciência foi o de que pouca gente compreendeu a minha resolução de deixar a advocacia, de certo modo prometedora, para me fazer editor. Não digo já a reação das pessoas metidas no sistema ou a dos homens da minha família que estavam orgulhosos e tranquilos por me verem singrar na vida, mas muitos padres e católicos, que ao nível da linguagem me falavam em atitudes de “serviço” e “apostolado”, perante aquela minha ação concreta, diziam-me que eu tinha feito uma grande asneira em trocar um escritório com uma atividade já razoável por uma editora, até porque “isso dos livros nunca deu nada” (como era surpreendente a atitude de muitas famílias “cristãs” perante a vocação sacerdotal dos filhos, como se essas opções devessem ser tomadas pelos “outros”, sendo a obrigação dos “nossos” a de se integrarem na “normalidade”). Com a vinda daquele grupo, a Livraria Moraes começou a viver a sua epopeia. Esta atitude épica e apostólica iria determinar em grande parte o fracasso da empresa. A verdade é que nunca me passou pela cabeça que tínhamos nas mãos uma empresa comercial sujeita a critérios de rentabilidade e julgava que, como nós, alguns milhares de portugueses estavam ansiosos por livros que iam ao encontro de preocupações comuns, quer no que dizia respeito à liberdade da Igreja, quer à liberdade do cidadão. Todos esses, sedentos de novas ideias, iriam acorrer aos livros que publicávamos e a editora encontraria na sua justificação a sua viabilidade. Naquela época as edições eram, normalmente, de três mil exemplares e achava que havia, pelo menos, três mil pessoas em Portugal com as mesmas ansiedades que nós e que, por isso, depressa iriam esgotar as edições. Foi um cálculo errado. A primeira coleção lançada foi o “Círculo do Humanismo Cristão”. O humanismo era então uma das muitas palavras-mito que implicava uma outra visão da vida: uma forma de compromisso e solidariedade com vista à alteração das estruturas de uma Igreja, que considerávamos hipócrita e tíbia, e de uma sociedade que tínhamos como injusta. Para facilitar a compra desta coleção, ela poderia ser feita mediante uma quota mensal de 25 escudos, que daria direito a um livro de dois em dois meses, independentemente do preço de venda ao público que era sempre mais elevado. Na prática, as assinaturas nunca foram além das quatrocentas e os livros que publicávamos, dos grandes autores “progressistas” e “libertadores” desse tempo, iam-se acumulando no armazém. No entanto, o meu entusiasmo era tal que isso não era uma questão a considerar : em bola de neve, cada vez íamos editando mais livros perante a indiferença da sociedade portuguesa, que tinha um vago conhecimento, sobretudo através dos jornais afetos ao regime, de um grupo de rapazes católicos “progressistas” (os tais peixinhos vermelhos numa pia de água benta) que, através da Livraria Moraes, faziam a sua ação “subversiva”. É neste quadro de iniciativas que nasce “O Tempo e o Modo”. Parecia-nos imprescindível uma revista para a ação que estávamos a realizar. Demos à revista o nome, escolhido por Pedro Tamen, de uma coleção que já existia na Moraes. Embora nem todos concordassem com uma ação política “católica” e entendêssemos que os católicos deviam integrar-se nos vários partidos com os quais sentissem afinidades, era muito importante, por razões táticas internas e pela necessidade de contactos com os partidos democratas-cristãos doutros países, que alguns católicos se reclamassem de uma intervenção política. Aliás, as razões por que esses partidos se formaram lá fora foram essencialmente táticas. A Alemanha e a Itália, depois do nazismo e do fascismo, ficaram com as instituições políticas destroçadas e era necessária uma organização de base já existente, o que só havia na Igreja, com um pároco em cada paróquia. Na França, igualmente, após a ocupação e a Resistência, a mesma necessidade se impunha. Daí a artificialidade que estes partidos sempre tiveram. Assim, em todas estas situações surge a tentação do Partido Democrata-Cristão. Após a guerra, em 1946 ou 1947, como a situação política não era estável, contou-me o padre Abel Varzim que o Cardeal Cerejeira lhe pediu para ele fazer alguns contactos entre a classe política no sentido de saber se, de um momento para o outro, as condições da vida política se modificassem, eles estariam dispostos a alinhar num partido democrata-cristão. Mas avisou-o: “Olha que isto é uma iniciativa tua e eu não tenho nada com isso. Se me perguntarem, digo que não”. O padre Abel Varzim fez uma ronda, inclusive entre ministros, e todos lhe asseguraram a sua colaboração. Infelizmente, um deles, de que eu não digo o nome porque era pai de um grande amigo meu e porque eu sempre o tive por pessoa muito séria, acho que por dever de consciência foi dizer ao Ministro do Interior, que era então o Dr. Trigo de Negreiros, e a coisa ficou por ali sem outras consequências. Como veem, a democracia cristã era um recurso de crise e era assim que eu a interpretava. Em Portugal, naqueles fins dos anos 60, essa iniciativa tinha uma grande utilidade para a Igreja, era, indiscutivelmente, um dos apoios do regime e havia todo o interesse em quebrar aquele bloco. Por outro lado, para o regime tornava-se mais difícil dizer que éramos comunistas.
Esta posição não era fácil de defender porque as pessoas, nomeadamente a juventude, não tinham muito sentido prático e os acontecimentos de Maio de 68 tinham criado grandes alterações sem relação com os ideais e aspirações da política. Em relação à colaboração com os partidos demo-cristãos no estrangeiro, devo dizer que o único e franco acolhimento que encontrei foi a Democracia Cristã italiana, com quem mantive contactos, que, após o 25 de Abril, passei ao Adelino Amaro da Costa. Estava-se em plena guerra fria e, tanto a Democracia Cristã francesa como a alemã, consideravam o regime de Salazar e o dos ditadores latino-americanos aliados seguros contra o comunismo e recusaram qualquer contacto. Além da Democracia Cristã italiana, só tivemos apoio de intelectuais, entre os quais é justo salientar a colaboração e a disponibilidade de Jean-Marie Domenach, ao tempo diretor da “Esprit”, que inclusive foi impedido de entrar em Portugal quando, a nosso convite, vinha fazer uma conferência, e sobretudo Pierre Emmanuel, então presidente da “Association Internationale pour la Liberté de la Culture”, que nos deu um apoio sistemático e regular. Toda a ação que estávamos a desenvolver impunha a necessidade de manter contactos com a oposição tradicional. É preciso lembrar que, entre os católicos e os democratas, havia o imenso fosso de que já falei. A democracia não tinha, entre os católicos portugueses, qualquer tradição. Houve exemplos isolados dos padres Alves Correia, dois irmãos que manifestavam publicamente as suas ideias democráticas e um dos quais morreu no exílio. Em 1945, nas primeiras eleições feitas com abrandamento de censura, que me lembre, só o Dr. Vieira da Luz tomou, como católico, uma posição pública contra o regime. Quando o Bispo do Porto foi exilado, a Igreja portuguesa não lhe deu o mínimo apoio e poucas foram as vozes que com ele se solidarizaram. Nas eleições de 1961, alguns católicos apoiaram a oposição: o Francisco Sousa Tavares e o Francisco Lino Neto são os que recordo e, ao candidatar-me nesse ano pela oposição no distrito de Castelo Branco, julgo que eu e o Lino Neto fomos os primeiros católicos a candidatar-nos contra o regime.
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Folhetim de Verão - Capítulo 7
ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA: O IMPULSO
Importa ouvir António Alçada Baptista, que se tornou o centro do impulso, que teria uma grande importância na preparação de um novo clima que poderemos classificar como democrático:
«A experiência da Moraes, e de todas as iniciativas que dela resultaram - O Tempo e o Modo, Concilium, Association pour la Liberté de la Culture -, poderá ser mais bem compreendida se considerarmos a situação psicológica e moral de uma certa área da sociedade portuguesa - a dos filhos da burguesia católica tradicional - perante o regime e as estruturas da Igreja naquela época. É preciso ter presente que, nesse tempo, a Igreja, o Exército, o funcionalismo público e a burguesia da província (estruturalmente ligada à Igreja) constituíam as forças sociais de apoio da situação saída da Revolução de 28 Maio de 1926. Era a poderosa força da inércia perante a frágil força da mudança, ademais perturbada pela simbiose dificilmente separável da agitação e da demagogia que caracterizou uma boa parte da expressão política da Primeira República. Ainda sobre a burguesia da província, é preciso lembrar que, até à década de 60, Portugal era uma sociedade rural e que o êxito político de Salazar foi o de ter sabido aproveitar os choques provocados pela Primeira República sobre a província e a religião - a ordem, a estabilidade, o imobilismo - para recuperar essa força poderosa mas incapaz de segregar os seus próprios dirigentes e de organizar a expressão do seu poder. Na minha visão da infância e da adolescência, Salazar era o procurador, em Lisboa, dos meus avós, dos meus pais, dos meus tios e dos padres: do que julgavam ser os seus direitos e das suas curtas aspirações. As interpretações materialistas dialéticas que se fizeram sobre este período da nossa história são, no meu entender, construções abstratas inteiramente desligadas da realidade que conheci. Por isso, na fundação da Moraes, a reação destes “filhos da burguesia” teve muito mais que ver com uma postura ética que se exprimia publicamente do que com uma ação deliberadamente política. Tanto assim que os elementos do seu núcleo fundador - João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Alberto Vaz da Silva e eu próprio - após a queda do regime, mantiveram-se à margem dos partidos políticos, sem compromissos de chefia ou mesmo de simples militância. Como grande parte de toda esta ação da Moraes esteve ligada à minha própria iniciativa e atividades, sou obrigado a referir alguns aspetos que, de algum modo, se podem considerar autobiográficos. Como já tenho dito, fui educado numa família católica tradicional, onde o texto cristão era vivido com algum empenhamento e rigor, não obstante ficar limitado a uma interpretação simplista e redutora da vida e da mensagem cristã. Era uma identificada burguesia católica da província, um típico fenómeno da ruralidade, cuja subsistência não provinha do trabalho, do comércio, da indústria ou do funcionalismo, mas da propriedade rural. Isso tornava possível uma vida que não estava imediatamente referida à pressão das necessidades, dado que o recebimento das rendas pelo S. Miguel era uma rotina de tal modo aceite pelos “parceiros” sociais que nela intervinham, que permitia que se passasse ao lado da chamada «luta pela vida». Mesmo no meu caso, que dentro dessa burguesia pertencia a um ramo “letrado” - bisavô e avô advogados e pai médico -, o curso e a atividade profissional eram mais uma posição na hierarquia profissional do que um meio de subsistência.
Pessoalmente não me lembro de que meu pai cobrasse honorários pelo exercício da medicina. Esta educação ministrada para uma visão estática do mundo e da vida e uma existência que, pela parte dos filhos, era vivida sem preocupação quotidiana de «angariar» os meios para o “sustento”, dava-nos uma certa disponibilidade para a receção e o cumprimento das “doutrinas”, sem que elas fossem inquinadas pelas situações de subsistência. Poderia dizer-se que, da própria natureza da inserção social e dos erros que ela continha, decorria uma relativa independência nos projetos de vida e, consequentemente, a possibilidade de assumir uma atitude cristã cujas consequências não se refletiam imediatamente na situação material que se estava a viver. Assim se colhiam da infância os ensinamentos de um catolicismo bondoso, com exemplos de vidas santificadas pela dedicação e serviço dos outros, ensinamentos piedosos que nos eram ministrados pelas santas mulheres, que encontravam na religião e nos pobrezinhos a realização dos ditames de uma consciência moral e religiosa que assim interpretava os “deveres para com Deus e para com o próximo”. Esta burguesia encontrava nos pobrezinhos “dóceis” e nos padres os seus únicos cúmplices e tudo o mais eram inimigos: os operários (os pobres “revoltados”), os escritores, os liberais, os filósofos das “luzes”, os republicanos e até o Estado representado pelo “fisco”. Diria ainda que esta especial inserção na estrutura social, ajudada pela própria pedagogia religiosa, era, por sua natureza, uma situação geradora de culpa e de medo, com que ficou inquinada toda essa geração. O Colégio dos Jesuítas, em Santo Tirso, onde fiz a quarta classe e o Liceu, nomeadamente através da influência do Pe. António de Magalhães, formou-me na convicção de que “um católico tinha uma função específica contra as “forças do mal” que se tinham apoderado do mundo”. Os republicanos e a maçonaria eram os representantes dessas forças: estava-se então no rescaldo das perseguições religiosas da Primeira República e ouviam-se ainda, acesos e vibrantes, os ecos da revolução “redentora” do 28 de Maio. Não nos ensinaram a “tratar da nossa vida”, pois um católico tinha uma missão a desempenhar no mundo ao serviço da verdade e da justiça que emanava da mensagem de Cristo.
Foi com essa disposição interior que vim para a Faculdade de Direito de Lisboa e, durante os primeiros anos, sofri o embate das estruturas reais da Igreja e do Estado no seu afrontamento com a doutrina cristã, cuja contradição me começou a parecer evidente. Uma consequência daquela culpabilidade cristã manifestou-se na atração pelo comunismo.
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De 2 a 8 de dezembro de 2024
No centenário de Mário Soares lembramos a amizade com António Alçada Baptista e a fundação de “O Tempo e o Modo”.

Regresso sempre com muito gosto ao magnífico diálogo biográfico sobre uma vida plena entre Maria João Avillez e Mário Soares, agora reeditado pela Imprensa Nacional. E permito-me recordar o momento em que o futuro Presidente da República integrou o corpo da revista “O Tempo e o Modo”. Foi um momento especial, em que se nota uma certa premonição sobre a institucionalização da democracia. Aliás, a capa do primeiro número da revista é um raro prenúncio do futuro de liberdade que onze anos depois se tornou realidade. Mas comecemos pelo início dessa história, citando o próprio Mário Soares… “Só conheci o Senhor D. António (Bispo do Porto) (…) quando ele se encontrava já no exílio, em Roma, para participar no Concílio Vaticano II. Depois vim a encontrá-lo em Lourdes e, mais tarde em Tormes, perto de Salamanca. Mas isto já no consulado de Marcelo Caetano. Logo que apareceram os chamados ‘católicos progressistas’, compreendi a sua enorme importância política para o combate a um regime que se reclamava do catolicismo e que, pelo menos na sua fase inicial, tivera a bênção da Igreja. Nessa época, tive grande contacto com o Francisco Lino Neto, que conheci durante a campanha de Delgado. Antes, havia já conhecido o Francisco Sousa Tavares, a Sophia, o padre Felicidade Alves. O António Alçada Baptista, conheci-o quando era ainda proprietário da Livraria Morais, e tive contactos com ele desde os tempos em que era advogado. (…) Achei que o corte de setores significativos da Igreja portuguesa com o regime salazarista tinha uma enorme importância estratégica, porque retirava ao regime o seu principal argumento: dizer que a Oposição Democrática era constituída tão-só por comunistas e por velhos republicanos ultrapassados que, por despeito faziam o jogo dos comunistas”. De facto, no princípio dos anos sessenta, algo muda, é o tempo do Concílio Vaticano II, sob o signo renovador do grande Papa João XXIII. E um dia, conta Mário Soares, António Alçada pergunta-lhe se queria participar numa revista de cultura que desejava fundar, “O Tempo e o Modo”. “Não hesitei um momento, apesar da minha posição de ‘laico, republicano e socialista’, que ele conhecia. Disse logo que sim”. Nesse tempo, tentou empurrar o grupo fundador no sentido da democracia cristã. Falou com Giorgio La Pira, síndaco de Florença, e outros democratas-cristãos, mas sem sucesso. “Se os católicos tivessem ajudado pelo seu lado, teria sido muito mais rápido e fácil. Não quiseram, por razões de coerência ideológica, que, aliás, compreendo”. Se tivesse havido esse passo, teriam sido criadas outras condições para um abalo mais rápido da situação. Francisco Sousa Tavares foi o único que compreendeu a ideia de Mário Soares, ele que se envolvera no golpe da Sé com Jorge de Sena. Mas nessa altura ainda era monárquico, “o que atrapalhava um pouco as coisas”. Mesmo assim, entrou em contacto com o grupo de monárquicos democratas, desiludidos com o fracasso do Integralismo Lusitano, cujos melhores acabaram todos anti-salazaristas confessos, de Luís Almeida Braga a Vieira de Almeida – estabelecendo-se ainda a grande amizade com Gonçalo Ribeiro Telles.
Para Soares, o fundamental desse encontro e dessa abertura era dar credibilidade à Oposição Democrática, alargando-a para além do que Manuel de Lucena designava como um “grupo de velhos”, dividido entre o “reviralho da baixa” e a “social-democracia”. Havia que levar a água ao seu moinho, sentindo-se satisfeito por estar no grupo de “O Tempo e o Modo” – “janela aberta para outra geração e outra realidade”. E Nuno Bragança compreendeu bem esse entendimento. Porém. se alguns amigos o acusavam de andar “metido com os católicos”, Mário Soares respondia: “Não se preocupem! Sei o que quero e o que estou a fazer”. E Francisco Salgado Zenha concordava inteiramente. Em 1963, houve uma violenta diatribe que envolveu Sottomayor Cardia, então ainda no PC, contra uma “aliança encapotada” entre os católicos e a social-democracia, mas tudo seria passageiro e a coerência de Mário Soares não saiu abalada. E Cardia entraria no PS. Ficou, contudo, sempre uma profunda admiração e amizade com António Alçada – “uma figura humana encantadora e um grande escritor. A política sempre o interessou secundariamente, como mero imperativo ético. (…) arruinou-se alegremente, com a Livraria Morais, O Tempo e o Modo e a revista Concilium. Mas realizou uma obra extraordinária! (…) A par de Lino Neto, de Teotónio Pereira e de Sousa Tavares, desempenhou um papel corajoso e importantíssimo na tentativa de separar a Igreja do salazarismo. Como, décadas antes, tinham ensaiado os irmãos Alves Correia, o grupo Metanoia, com Ferreira da Costa e João Sá da Costa e o Professor Vieira da Luz, entre outros”. Quando realizou a entrevista com Marcelo Caetano, foi criticado e incompreendido. “Não foi grave, mas pagou-o caro, depois do 25 de abril. Alguns apressados ‘revolucionários’ voltaram-lhe então a cara, com muito mais oportunismo do que convicção. Sempre o estimei muito e tive ocasião, nessa época difícil, de lho demonstrar. Consolidámos então uma amizade muito grande, que perdura (estava-se no ano de 1996), e a que, pelo meu lado, se junta a admiração muito sincera pelo Homem, pelo maravilhoso contador de histórias e pelo escritor”. Sou pessoalmente testemunha disto mesmo sem qualquer dúvida.
No primeiro número de “O Tempo e o Modo” (janeiro de 1963), Mário Soares tratou do tema “Oliveira Martins e a Questão do Regime”. Mais do que um ensaio histórico, tratou-se de situar a génese do republicanismo em 1910, perante a crise do final do regime monárquico. Não poderiam, porém, confundir-se os aspetos ideológicos dessa conjuntura com as novas circunstâncias perante o salazarismo. Por isso, salientou a proximidade socializante de António Sérgio e Oliveira Martins, demarcada de uma lógica jacobina. Contudo, Mário Soares pensava na conjuntura do início dos anos sessenta, com a guerra colonial a despontar, a questão social a desenvolver-se e a renovação religiosa a ter lugar – como salientei a propósito de D. Alexandre Nascimento. Por isso, distinguia a diferença dos tempos e considerava as razões que levaram à vitória republicana, perante a incipiência socialista. “Só a história (que está por fazer!) das ideias vistas no seu contexto económico e social, nos poderia dar resposta para este problema” (quem teria razão sobre a resposta à crise do regime do princípio do século XX – Oliveira Martins, Antero e Eça contra Teófilo Braga ou Junqueiro?). “No entanto, apenas como solução provisória – seja-me lícito chamar a atenção (dizia M. Soares) para o seguinte facto sintomático: a adesão popular inegável que encontrou a doutrinação republicana, especialmente a partir do centenário de Camões, em 1880 – adesão que sobretudo avulta em confronto com o fraco eco que respondeu, mesmo nas massas operárias, às aspirações socialistas dos nebulosos doutrinários do século XIX! Não nos inculca esta fácil constatação – que resulta, aliás, de dados incontroversos – o problema da viabilidade do socialismo numa sociedade retrógrada como a do nosso século XIX e o da sua difícil articulação aos anseios mal definidos e às necessidades vitais do português comum?” E havia que compreender a existência de diversas correntes republicanas, devendo ficar claro que a questão do regime se tornava num “autêntico problema de sobrevivência nacional. É condição prévia de qualquer esforço renovador”. Nestes termos, a escolha da “questão do regime” para tema era um alerta para a urgência da construção da democracia, representada pela tentativa da geração de 1870, e em particular de Oliveira Martins para a criação de uma vida nova. A alusão histórica funcionava como uma verdadeira metáfora para os novos tempos, sem criar suspeitas para a censura, que tão duramente atingiria a nova revista. E o ponto de encontro para esse debate era uma iniciativa de ideias que abria caminhos novos, em nome de uma Oposição democrática plural, onde havia, além das oposições tradicionais, católicos inconformistas, que punham em causa o eurocentrismo e chamavam a atenção para a descolonização e para a autodeterminação e independência dos povos africanos, que davam importância ao Estado Social e aos movimentos emancipadores da sociedade e que estavam distantes do velho anticlericalismo. Aliás, a finalizar o texto que referimos, uma nota desenvolvida citava Bernardino Machado sobre a necessidade da tolerância em matéria religiosa. Por outro lado, a presença de um jovem dirigente estudantil, como Jorge Sampaio (também ele futuro Presidente da República), com o título inequivocamente atual, “Em torno da Universidade”, não poderia ser mais significativa. A renovação geracional era (e é) fundamental e a prioridade educativa exigia-se.
Assim, a presença de Mário Soares é, a vários títulos, marcante, como o tempo viria a demonstrar amplamente. Se politicamente a construção da democracia resultou de um compromisso complexo a partir do Movimento da Forças Armadas e do seu desenvolvimento e consolidação, tornando o 25 de abril uma data emblemática (que Francisco Sousa Tavares comparou ao primeiro de dezembro de 1640, do alto da guarita do Largo do Carmo), incompreensível sem o entendimento do processo dinâmico que se lhe seguiu e que permitiu a aprovação da Constituição da República fruto de dois grandes compromissos, envolvendo as Forças Armadas (e lembramos a coerência de Ernesto Melo Antunes) e os partidos políticos, que levaram ao respeito escrupuloso, apesar das naturais vicissitudes, por uma transição do poder militar para o poder civil democrático. Como dizia o primeiro editorial da revista, “o mal-estar geral e não localizado” existente entendia-se “como um estado de crise de consciência coletiva, mas partimos certos de que não enunciaremos todas as perguntas, nem estamos seguros de que as respostas que daremos serão as melhores”. A participação de Mário Soares e Salgado Zenha nesse projeto, que, seguindo a lição de Emmanuel Mounier, deveria envolver crentes e não crentes, constituiu uma espécie de premonição e de profecia – antecipando a institucionalização de uma democracia plural centrada numa cidadania inclusiva pela qual tantos cidadãos se bateram em nome, afinal, do que Mário Soares designou como uma questão de sobrevivência nacional.
Guilherme d'Oliveira Martins
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De 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2023
“António Alçada Baptista – Tempo Afetuoso – Homenagem ao Escritor e Amigo de Todos Nós” (CNC – Presença) é um repositório essencial que nos permite recordar um inesquecível amigo.

AS SUAS HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS
Era absolutamente extraordinário ouvir as suas histórias, fruto de uma memória prodigiosa para fixar os pormenores, os sinais, os significados e os sentidos. Um conhecido episódio passado com o Padre Anchieta era um bom exemplo. "Com urgência para regressar a uma aldeia, pediu aos carregadores para irem depressa". Com três dias de marchas forçadas, os índios sentaram-se a descansar, e o Padre não compreendeu a paragem, mas eles explicaram: "temos vindo depressa demais e a nossa alma ficou lá para trás. Temos de esperar que ela regresse". Há mil outros casos, como o daquela senhora que procurava uma rua, próximo do Bairro Alto e, perante a indicação do António, disse: "todos sabem tudo, cada um sabe o que sabe". Houve ainda um livro que nunca chegou a ver a luz do dia. Chamar-se-ia “Histórias de Maus – Elementos para uma Anti-hagiografia”. Não sei o que o António esperaria escrever. Tratava-se da descoberta dos sentimentos e ressentimentos que unem e dividem as pessoas. Afinal, como disse Frei Bento Domingues, António Alçada foi o nosso melhor cultor da “teologia narrativa”. Por isso, gostava de invocar o conto enigmático em “El Aleph” de Jorge Luís Borges “Os Teólogos”, em que Aureliano e João de Panónia, o ortodoxo e o herege, se encontram perante Deus no julgamento final, descobrindo que, para a insondável Providência, os dois inimigos, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima formavam uma única pessoa… Para António, a razão seria sempre insuficiente. Falta-nos tempo para as coisas essenciais, e ficamo-nos pela superfície, por medo ou preguiça. Em “O Riso de Deus”, lemos: “Hoje já não posso ouvir falar em dialética, em competição, em vencer na vida, porque acho que é com nomes desses que se tem tentado encobrir o projeto sempre adiado de descobrir como saber usar a nossa liberdade e, com ela, implantar no mundo o lugar do homem”. E Domingos Lobo, com a sabedoria vinda da velha Goa, diz a Francisco, ao descer a Avenida: “Sabe, a Europa é o continente da dúvida e nós, lá no Oriente, estamos presos pela fé. Eu não sei ainda bem se são as dúvidas se as certezas que fazem mover o mundo”.
TEOLOGIA DA FELICIDADE
Percebe-se que o escritor se admire por não haver uma "teologia da felicidade" (ou “da ternura”, segundo Heinrich Böll), facto tanto mais estranho quanto um dos apelos "que resume e engrandece o Evangelho, é a proposta de felicidade contida nas Bem-Aventuranças: - Felizes aqueles que…" E como escreveu Martin Buber: “Deus não me pedirá contas por eu não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai-me pedir contas por eu não ter sido completa e intensamente Martin Buber”. Praticante ativo da “aristocracia do comportamento”, António acreditava na coerência, na generosidade, na dúvida serena, na procura do sentido da dignidade humana - demarcando-se dos "sentimentos que infetam o espírito do tempo: a culpabilidade dos ricos e o ressentimento dos pobres". E sentimos a recordação do Padre António Magalhães, seu professor em Santo Tirso, pedagogo da liberdade. "Andava por ali. Amigo de Leonardo Coimbra e Pascoaes, de Casais Monteiro e José Marinho, foi quem primeiro me aceitou e me animou a olhar interrogativamente para o homem e para o mundo.". E há a sombra de Lanza del Vasto: "eu tenho de passar pelo amor dos outros para chegar à minha serenidade e creio que a caridade é mais importante do que a sabedoria". "Viver é a obra de arte". José Cardoso Pires desejava reencontrar o "pássaro migrador rodeado de amigos" e disse dele que "a amizade sem humor não sabe ser tolerante" e "sempre que nos lembramos do muito que fez pela liberdade cultural e religiosa deste país, vemo-lo outra vez jovem a sorrir-nos de longe, num convite à aventura de pensar". Procurando compreender a realidade humana que nos cerca, dizia com Jean-Marie Domenach: "é preciso saber em que tipo de conhecimento está assente a nossa ignorância". E num domingo nublado, em que fomos ao Convento dos Capuchos em Sintra, com Domenach, Helena e Alberto Vaz da Silva, recordámos na rude simplicidade do lugar essa ignorância de que o conhecimento e a razão se alimentam… E outro amigo comum, Edgar Morin, pedia-nos, com Montaigne, uma cabeça bem feita, mais do que bem cheia… Helena, cuja luminosidade enriquecia a amizade, dizia que há poucas coisas adquiridas e que o mais importante está em aprofundar o relacionamento entre as pessoas, e os seus saberes.
UM AMIGO DO CORAÇÃO
Alexandre O'Neill, amigo cúmplice de sempre, confessou que gostaria de escrever “Das tias em António Alçada Baptista”. Por isso, “Tia Suzana, Meu Amor” (1989) foi-lhe dedicado, com "um sussurro de saudade". As tias eram uma metáfora, como verdadeira introdução ao universo feminino. Em entrevista a Inês Pedrosa, António disse que o universo feminino se distingue por "uma história de generosidade, uma história dos afetos, uma história de procura de sentido de vida, de apreciação poética da vida, de perceção solidária, de solidariedade com as dores e os sofrimentos"… "Repara que o Evangelho não nos manda amar a humanidade, mas o próximo. É que a humanidade é uma abstração" - disse-lhe Lanza del Vasto. Fernão Mendes Pinto e as suas mil peripécias voluntárias e involuntárias revelavam muito melhor o inesperado sentido da vida do que alguém que se leve muito a sério. O “Quincas Berro d'Água”, de Jorge Amado, apesar de parecer um caso de compaixão, desperta para a esperança e para o gosto de viver. Como a poesia de Alexandre O'Neill: "é tempo de unir o mesmo gesto/ o real e o sonho…/É tempo de acordar nas trevas do real/ na desolada promessa/ do dia verdadeiro".
Na “Peregrinação Interior” (I, 1971; II, 1982), as aventuras de Sandokan e de Texas Jack levam a imaginação a amar intensamente as pessoas. E a epopeia de “O Tempo e o Modo” iniciada em 1963, merece lembrança. No terramoto político de 1958 (candidatura de Delgado, carta do Bispo do Porto), António Alçada deita mãos à obra na editora Moraes. Com os amigos João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Alberto Vaz da Silva, Nuno de Bragança e José Domingos de Morais concretiza uma revista de "pensamento e ação", aberta e crítica, como em Espanha os “Cuadernos para el Dialogo”, de Joaquín Ruiz-Giménez. Mário Soares, Francisco Salgado Zenha e Jorge Sampaio apoiam a iniciativa, conscientes da importância do diálogo com os católicos. E António usa eufemismos, que hoje nos fazem sorrir, falando, em vez de "instituições democráticas", em "instituições que pressupõem uma certa dialética". A censura não dava tréguas contra os perigosos "peixinhos vermelhos em pia de água benta". A modernidade reclamava Jorge de Sena, Vergílio Ferreira Agustina Bessa Luís, Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo ou até António Sérgio. Eduardo Lourenço diz que "é para trazer à luz, mostrar aos outros, e a si mesmo, o que ainda não era visível, palpável, audível, que a obra nasce" (n.º 6, junho 1963). Ao projeto da revista somam-se, por ocasião do Vaticano II, a revista “Concilium”, bem como a colaboração com o Congresso para a Liberdade da Cultura de Pierre Emmanuel. Era a sociedade portuguesa que se abria, denunciando a “desordem estabelecida”. E, se dúvidas houvesse, valem "os depoimentos das gerações que nos seguiram, para quem essa aventura foi um acontecimento referência que acordou alguns e confortou outros perante um tempo carregado de dúvidas e inquietações". De acordo com o saber náutico sempre achou que se todos se juntam a bombordo ou a estibordo, a embarcação naufraga. Era preciso que alguém ficasse do outro lado, mesmo incompreendido. Assim como assim… Como diz a tia Suzana: "Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantámos à volta das nossas almas”.
Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença
De 2 a 8 de maio de 2022.
“Tia Suzana, Meu Amor” de António Alçada Baptista (Presença, 1989) mostra-nos como o mundo e a vida se caracterizam e desenvolvem através dos sentimentos e dos afetos e que a compreensão do sentido obriga-nos a entender o mistério do amor.

AMOR, SERENIDADE E PAZ
René Dubos disse um dia que "as descobertas que condicionarão o futuro não hão de vir do conhecimento do que se passa na célula, na bioquímica, na ciência ou na técnica, mas daquilo que nos ajude a compreender os mecanismos centrais que condicionam a afetividade". O amor, a serenidade e a paz têm de ser cultivados. Mas como integrar tudo isso nas nossas relações para que "a violência, a astúcia e a agressividade não sejam moeda de troca das relações humanas"? O valor dos afetos permite a passagem lenta e segura da natureza à cultura… E no entanto, perante o cenário de guerra, de incerteza e de violência, que nos rodeia, somos levados a descrer. Eis, por que razão Edgar Morin apela, do alto de um século de vida, para que acordemos da terrível letargia que corrompe o mundo e a vida. "Repara que o Evangelho não nos manda amar a humanidade, mas o próximo. E isto porque a humanidade é uma abstração" - disse Lanza del Vasto, um dia, a António Alçada Batista. E o certo é que de tanto se falar de crise, quase nos esquecemos do que devemos fazer para compreender quem está connosco e da necessidade de combater a indiferença. Mais importante do que os tratados de edificação moral é a vida prática e os exemplos colhidos nela, o saber de experiências feito. O anti-herói Fernão Mendes Pinto e as suas mil peripécias, voluntárias e involuntárias revelam muito melhor o inesperado sentido da vida do que a tentação de nos levarmos demasiado a sério. O Quincas Berro d'Água de Jorge Amado, apesar de parecer aos nossos olhos de europeus um caso de compaixão, desperta-nos para a esperança e para o gosto de viver. E a poesia de Alexandre O'Neill dá-nos o outro lado da realidade, com ironia e non sense, em nome da busca muito séria de sentido - "é tempo de unir o mesmo gesto/ o real e o sonho…/É tempo de acordar nas trevas do real/ na desolada promessa/ do dia verdadeiro".
LEMBRAR UM MUNDO DE AVENTURAS
António Alçada Baptista recordava, tantas vezes, a lembrança das aventuras de Sandokan ou de Texas Jack, porque é bom que tenhamos a cabeça povoada de imaginárias aventuras, as mesmas que nos levam a compreender e a amar intensamente as pessoas. Por isso, costumava dizer: "tenho a certeza que Kierkegaard não teria escrito “O Desespero Humano” se tivesse nascido na Bahia, nem o Jorge Amado o Quincas Berro d'Água se fosse dinamarquês". E Eduardo Lourenço diz que "é para trazer à luz, mostrar aos outros, e a si mesmo, o que ainda não era visível, palpável, audível, que a obra nasce" (“O Tempo e o Modo”, n.º6, Junho 1963). Eis a chave da cultura como criação e da compreensão dos sinais dos tempos, em nome do respeito da dignidade humana. Devemos remar contra a maré. Esse o sentido da obrigação de compreender e conhecer o mundo e a vida. Segundo um cuidado saber náutico, António Alçada sempre achou que se todos se juntam a bombordo ou a estibordo, a embarcação naufraga. É sempre indispensável que alguém fique do outro lado, mesmo que as incompreensões continuem. Assim como assim… Por isso, tantas vezes foi incompreendido. E a verdade é que só deixaremos de ser sonâmbulos (na expressão de Broch) se nos dispusermos a fazer da liberdade e do bem comum os indicadores estáveis das nossas bússolas. Assim, o autor da “Peregrinação Interior”, em vez dos banquetes de sabedoria pura, contrapunha o diálogo dos afetos, com elevação e inteligência, seguindo a lição de Denis de Rougemont. Afinal, é de sabedoria que se trata. Por isso, invocava Borges: "Creo que un dia mereceremos que no haya gobiernos". E insistia: precisamos de o merecer. E oiçamos a romanesca tia Suzana: "Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantámos à volta das nossas almas. Uma palavra verdadeira pode ser um milagre: é a solidão derrotada". Apesar das suas depressões cíclicas, a verdade é que foi sempre a busca das palavras (e das pessoas que as proferem e que buscam nelas sentido) que ocupou António Alçada, para nos levar à compreensão do tempo e do mundo. Como nos disse, temos de ter o cuidado de compreender que “a verdadeira relação com Deus – como Deus é um ser superior, e os que se dedicam a isso, seres superiores”, não pode limitar-se às ideias, aos silogismos, às lógicas, às abstrações, porque uma teologia abstrata é uma idolatria.
COMPREENDER A CULTURA
Compreender a cultura? Mas não é a cultura a capacidade de melhor entender a humanidade? Eis que temos de ser claros! Edgar Morin volta a apontar-nos o caminho: «Só podemos pensar o futuro, se estivermos conscientes do passado e do que se passa no presente. (…) E hoje o futuro depende dessas grandes correntes que atravessam a Humanidade e que são ameaçadoras e regressivas. Portanto, é urgente pensar o futuro. (…) É preciso estar vigilante. É preciso esperar o inesperado para saber navegar na incerteza. Há toda uma série de reformas e modos de pensar e de se comportar, que são hoje necessários». Uma celebração, qualquer que seja, centrada apenas no passado torna-se vazia e inútil. Compreender a cultura é procurar perceber o tempo e o futuro, mas sobretudo entender que, longe das idolatrias, devemos cuidar da dignidade do ser.

De 17 a 23 de agosto de 2020
Lembramos hoje a revista “O Tempo e o Modo”, invocando António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, a propósito de um texto fundamental sobre o Concílio Vaticano II. Não pode ficar sem referência especial, no mundo das ideias, a partida de Frei Mateus Cardoso Peres, O.P. (1933-2020), pelo que representou a sua personalidade e pela obra que nos deixou.

UM TEXTO PREMONITÓRIO
Conheci-o bem por razões familiares e tenho pela sua vida e obra uma grande admiração. Devo lembrar que o grupo de que fez parte dos “católicos inconformistas” integrou alguns dos meus grandes amigos, como António Alçada Baptista, Helena e Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa – num conjunto mais vasto de quem sempre estive próximo, entre os quais se contam Pedro Tamen, Maria Isabel Bénard da Costa, Nuno Bragança, Ruy Belo, M.S. Lourenço, Manuel Lucena, Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Falo da Aventura da Morais, de “O Tempo e o Modo”, da revista “Concilium”, do Centro Cultural de Cinema (CCC) e do Centro Nacional de Cultura. E se há quem obrigue a considerar com o maior cuidado a expressão de Ruy Belo sobre “Os Vencidos do Catolicismo” é exatamente Frei Mateus. Com efeito, o tempo passou e não devemos esquecer que o célebre poema abria já a porta relativamente aos exatos termos do que representa essa geração. “Nós que perdemos na luta da fé / não é que no mais fundo não creiamos / mas não lutamos já firmes e a pé nem nada impomos do que duvidamos”… O poeta bem conhecia a origem oitocentista da designação dos “vencidos da vida”, e sabia que o tempo os tornaria vencedores, não no sentido temporal, mas no sentido das ideias e da essência do espírito. Há trajetórias diferenciadas, é certo, mas há também que entender os frutos de longo prazo que foram lançados… “Victus sed victor” – e porque há quem continue a resistir ao entendimento sobre os sinais dos tempos, a verdade é que continua atual esse combate sereno e persistente não por uma Igreja triunfante, mas por um caminho cristão de respeito mútuo e de dignidade. Não esqueço, há muitos anos, um convite que Frei Mateus me fez para ir falar a Fátima à comunidade dominicana sobre pluralismo e tolerância. Lá estivemos, uma tarde de Primavera, e não esqueço as estimulantes reflexões de outro saudoso amigo, Frei José Augusto Mourão. Longe de orientações fechadas, eis que ficou uma pergunta, mais do que quaisquer respostas: como lidar com os intolerantes? Como distinguir a tolerância, enquanto respeito e não indiferença, a intolerância e as pessoas intolerantes? E o tema continua na ordem do dia. Frei Mateus era um intelectual rigoroso mas estimulante, avesso às simplificações. Com ele sabíamos que a dignidade humana exige procura, e que o diálogo só vale a pena se for trabalhoso… Sempre nos ensinou, por isso, que a teologia obriga a conhecimento e a ir além da superficialidade – o “aggiornamento” obrigaria, pois, a tempo e a reflexão. Daí a importância dos célebres colóquios para assinantes da “Conciluim”: refletindo sobre e com Schillebeeckx, Chenu, Congar ou Balthasar… Leia-se, por isso, um texto fundamental e premonitório publicado no nº 32, de “O Tempo e o Modo”, de novembro de 1965, intitulado “A 4ª Sessão, o Concílio e a Igreja”. É um artigo histórico. Assina-o Manuel Frade, pseudónimo de Frei Mateus Peres, apropriado para evitar mal-entendidos. Aí encontramos a defesa de uma fraternidade colegial conciliar, a crítica de alguma excessiva prudência papal e a defesa da necessidade de retirar consequências no tocante à liberdade de consciência e à liberdade religiosa… “Permanece problemático saber se o homem do nosso tempo sentirá, face a este documento (sobre liberdade religiosa), a Igreja francamente simpática ao respeito devido à liberdade religiosa dos não-católicos e se se convencerá de que ela renunciou de uma vez para sempre ao imperialismo doutrinal, para enveredar por caminhos de diálogo, de fraternidade, de serviço”. Já quanto ao importante esquema 13 (que se tornaria a constituição “Gaudium et Spes”), salientando a sua importância, temia que lhe pudesse faltar “simplicidade, clareza e força, (…), para poder ajudar os mais desesperados”. E dava um exemplo: “o esquema quando trata da guerra e paz, condena o uso das armas atómicas mas não a sua posse, o que é sancionar as armas de dissuasão, os orçamentos militares, a guerra fria”…
O TEMA DO CELIBATO
Por outro lado, as orientações sobre a vida sacerdotal, designadamente quanto ao celibato, deveriam ter merecido mais atenção, mas foram subtraídas pelo Papa à discussão da Assembleia… Ontem como hoje, o velho tema persiste, e o autor não deixava de colocar o dedo na ferida. E afirmava: “Seria talvez mais eficaz e mais puro, em vez da avalanche de textos equilibrados, sensatos e timoratos, propor ao mundo, em toda a sua inteireza, uma bela linguagem profética, que não pretendesse solucionar os problemas à luz da moral atual, mas que lançasse os espíritos para maiores exigências, experiências mais radicais. Estamos confiantes que essa linguagem seria útil, certos de que as dificuldades são mais frequentemente superadas do que resolvidas e de que ela iria em cheio atingir aqueles que mais desesperadamente estão à espera, mesmo inconscientemente, da Igreja de Cristo. O Concílio apareceria então como verdadeiro acontecimento espiritual, no sentido mais nobre do termo, concretização do “amor pela humanidade” na palavra já citada de Paulo VI, da intuição genial de João XXIII”. E acrescentava que a mensagem poderia não tocar o homem da rua, por ser superficial e faltar-lhe novidade. E, citando Charles Péguy, sem o dizer, afirmava que seria melhor ser mais “místico” e menos “político”. De qualquer modo, para Frei Mateus, os esquemas sobre a liturgia e sobre o ecumenismo eram muito bons e muito positivos… Sobre as relações com o mundo as dificuldades eram naturalmente maiores, e não podemos esquecer o que ocorreu entre o naufrágio do primitivo esquema 17 e o esforço titânico de João XXIII, com a encíclica “Pacem in Terris”, para dar sentido a uma relação positiva e transformadora da Igreja no mundo, no sentido de uma cultura de paz… Esta expressão crítica dá-nos boa nota sobre a extraordinária independência de espírito do pregador e sobre o seu empenhamento na renovação da Igreja. No entanto, havia “toda uma série de textos conciliares (…) preciosamente válidos e que nos dizem muitas coisas muito úteis. Em certo sentido podemos dizer que ao pós-concilio caberá decidir da sorte do Concílio”. Assim tem acontecido, como sempre ocorre na História. “Se os textos forem bem aproveitados nas suas facetas positivas, se se mantiverem bem vivos o espírito e o clima do Concílio no seu pendor mais corajoso, a Igreja nas suas múltiplas manifestações locais, poderá conhecer uma certa transformação, condição indispensável de um certo tipo de diálogo com o mundo”… Frei Mateus conhecia as audácias de S. Tomás de Aquino, bem distantes de qualquer lógica conformista. E quando relemos este texto, vem à memória esse lado saudavelmente crítico…
Guilherme d’Oliveira Martins
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