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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

 

POEMA DE ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE.jpeg

 

Aracne (p. 8)

 

É muito bonito o meu amigo de agora;
tem o mais belo pelo da floresta,
e olhos onde brilha, em noite escura,
o faiscar do gelo nas alturas.
Demora-se a falar ao telefone
com a namorada, no vagar dos dias;
diz-lhe tudo o que faz, e pensa, e sente,
e ouve também, com ar inteligente,
as divertidas vidas que ela conta.
E há tantos episódios, desde o baile
dos mosquitos, no verão passado,
à recente soirée das sanguessugas,
que se distrai, e lento se espreguiça
ao sol, que lhe acentua as rugas.
Então eu subo pelo pêlo, e fico
a admirar tão sedosas harmonias;
no sussurro sem fios, que mal entendo,
colho o meu mel pequeno, e sou feliz.

in Aracne, 2004

 

Aracne (p. 8)

 

He is very beautiful, my friend now;
he has the shiniest fur in the whole forest,
and eyes that in the dark of night
flash like ice from on high.
He loafs about, talking on the phone
to his girlfriend, passing the time of day;
he tells her all that he does, and thinks, and feels,
and also he listens, intelligently,
to the amusing stories she has to tell.
And there are so many episodes,
from the mosquitoes’ ball last summer,
to the recent soirée of sticky leeches,
that his mind wanders and he slowly stretches
in the sun, which tends to accentuate his wrinkles.
I climb upthen through his wooliness, and stay
there, in admiration of such silken harmonies;
through the wire-less whisperings, that I hardly follow,
I collect my little honey, and I’m happy.

 

© Translated by Ana Hudson, 2010
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

  


Vi Roma a arder

Vi Roma a arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em nuvem e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.


I saw Rome burning

I saw Rome burning, and several neros
tanned by the californian light
timidly stashing away in closets
mothballs and babylonian lyres;
the world's capitals, one by one,
darkened into froth and cloud,
crushed in their core at night;
but i never saw paris with you inside.
And this is the missing image
in my fate-allotted photo album
like a cinema showing certain ‘death’;
solemn emperor, opening the shroud
in which I hid my anger and my plight,
I’ve yet to see paris with you inside.


© Translated by Ana Hudson, 2013
in Poems from the Portuguese