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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ANTÓNIO RAMOS ROSA: ESCREVER O SOL

 

No ano em que se celebram sessenta anos da “Poesia – 61”, cadernos publicados em Faro, por Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta, com ilustração de Manuel Baptista, tive o gosto de invocar o facto nos “Anais do Município de Faro”, que acabam de sair, através da publicação de uma carta inédita de Gastão Cruz a Fiama sobre a feitura dessa preciosidade bibliográfica que reúne as cinco plaquetes da “Poesia – 61”, oferecidas há dias generosamente por João Nuno Cruz, filho dos dois protagonistas da carta agora vinda a lume, à Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, no dia de um sol tímido em que lançámos os “Anais”. Foi um momento memorável, com a apresentação de António Branco, antigo Reitor da Universidade do Algarve, no qual sentimos connosco o espírito da poesia e de uma iniciativa cultural pioneira, pela qual os jovens de há sessenta anos, sem criar um movimento, puseram em comum, e por caminhos diferentes, um modo de agitar ideias à semelhança de “Orpheu”, porque a cultura nunca se repete, sempre se renova. O número dos “Anais” insere ainda uma sentida invocação de Lídia Jorge em memória de Maria Aliete Galhoz, com episódios pitorescos, uma deliciosa lembrança da cidade de Faro de antigamente, de Teresa Rita Lopes, ou um testemunho de Carminda Cavaco, ilustre geógrafa, sobre o turismo mediterrânico.


Não é, porém, essencialmente sobre esse número dos “Anais” que trago o tema, mas para lembrar o poeta António Ramos Rosa (1924-2013), há dias recordado no belo documentário “Estou Vivo e Escrevo o Sol” de Diana Andringa, na RTP-2. Graças a sua filha Maria Filipe, foi possível inserir no pórtico dos “Anais” um inédito, que é especialmente tocante, pelo que significa de testemunho de um escritor incansável a falar do ato criador – poeta que tanto inspirou os jovens de “Poesia – 61”. Pode dizer-se que Ramos Rosa exerceu uma forte e serena influência, que vem dos tempos em que foi um dos fundadores da revista “Árvore” (1951-1953), com Luís Amaro e José Terra, ou em que animou os “Cadernos do Meio-Dia” (1958-60), proibidos pela censura. Lia Viegas lembrou, aliás, a serena mas inquebrantável defesa da liberdade e o mal-estar causado por um poeta insubmisso. E Casimiro de Brito, que publicou em 1958 “O Grito Claro”, primeira reunião de poemas em livro, José Manuel Tengarrinha, João Rui de Sousa, José Bento, Egito Gonçalves e Gastão Cruz recordaram o inconformismo do poeta, que deixou as obrigações de manga de alpaca, preferindo gozar o sol, ler, traduzir e dar explicações de francês. Ouvimos, com Luís Lucas, “O funcionário cansado” e lembramos o “Boi da paciência”. Albano Martins recorda “Não posso adiar o amor para outro século”. O inédito agora revelado é datável da primeira metade dos anos noventa, época em que o poeta passava os textos á máquina na sua casa do Campo Pequeno. Ramos Rosa mudou-se depois para a residência Faria Mantero no Restelo, onde continuou sempre a escrever, mas à mão.


O poeta fala-nos da sua oficina e de como funcionavam para ele as mãos ou o martelo e o escopro. O artista distingue-se assim por preferir “a perfeição do imperfeito”, em lugar da “saturação redonda da beleza”. Aproxima-se da vida, como consciência dos limites, como força de compreender aquilo a que não chegamos, não desistindo de nos aproximar. O melhor é ler: “O poema é uma estátua / inacabável / O seu volume aumenta / sob um véu de penumbra / e ao mesmo tempo diminui / porque o poeta trunca / aqui um braço ali um seio / que ele próprio modelou / É que ele prefere / a perfeição do imperfeito / à saturação da redonda beleza / e assim o poema anima-se / com o dinamismo do inacabado / na plenitude do inacessível”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

UM OUTONO FLORIDO…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 23.10.2018

 

Poderá parecer estranho, mas um dia destes, caminhando pela cidade, eu que sou campestre, descobri algo que já conhecia, mas não com a exuberância deste ano. Já escrevi algures que as árvores têm memória – e que os jacarandás, originários da América do Sul, nos surpreendem no Outono com uma estranha e inesperada floração. Do que se trata é da lembrança de que a Primavera brasileira ocorre agora e que a exuberância floral é deste tempo. Pois bem, todos os anos dou-me ao cuidado de descobrir uma leve floração nos meus queridos jacarandás. Mas este ano a surpresa ultrapassou o que eu alguma vez supusera. Com os calores inusitados do início do nosso Outono encontrei casos de floração autêntica e exuberante, como se estivéssemos na verdadeira Primavera… Nunca tinha presenciado este fulgor, esta força… Serão talvez efeitos do aquecimento global… O certo, porém, é que os jacarandás deram neste Outono um ar especial da sua graça, confirmando a etimologia da palavra – há dias recordada por José Tolentino Mendonça – como um tempo criador, em que os frutos exprimem em si a força própria da natureza.

 

Caem as folhas, é certo, mas a natureza assume uma metamorfose criadora. Fiquei deveras feliz ao sentir a vitalidade do património genético. E corro ao meu jardim onde as romãs me chamavam. Começaram a abrir lentamente, o que significa que estão maduras… Depois da alegria dos jacarandás, é a força dos frutos do jardim… E em bom rigor compreendi, como antes e sempre, que esta é a estação da maturidade, que é o corolário de tudo o que foi o ano… Dentro em breve começará a invernia. A natureza entrará em letargia, para ganhar novas forças. Os ursos hibernarão com toda a natureza, e o seu ritmo cardíaco reduzir-se-á para que as energias se não percam… Ah! Quão bela é esta natureza… E quão acolhedor é o jardim quando recupera forças…

 

E tomo em mãos a obra de António Ramos Rosa. É, de facto, a verdade que está em causa… É “o sopro, a falha e a sombra fascinante”…

 

A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.

Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede

e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitetura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture