Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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ATORES, ENCENADORES (XXXIV) O INÍCIO DO EXPERIMENTALISMO TEATRAL por Duarte Ivo Cruz
Evocamos hoje dois movimentos que marcaram, no início do século XX, a renovação e atualização, em termos da expressão teatral-experimental, o teatro português, no plano integral - o único verdadeiramente significativo – do texto, do espetáculo, da cena e da dramaturgia: movimentos “experimentais”, diríamos hoje, na altura efémeros, mas que modernizaram, insiste-se, o teatro português, e iniciaram uma linha de renovação, em companhias profissionais ao longo do século passado e de que hoje temos exemplos mais modernos, marcantes em plena atividade – o Teatro Experimental do Porto ou o Teatro Experimental de Cascais, por exemplo.
Esta linha de renovação surge, repita-se, com o início do século XX, designadamente em duas iniciativas, então efémeras, que marcaram profundamente a cultura teatral da época. Trata-se concretamente do Teatro Livre, de 1904, e do Teatro Moderno, de 1905, há exatos 110 anos, o que é também de assinalar.
E ambos se devem a um ator muito marcante na época, Luciano de Castro, desde 1892 ligado a peças e espetáculos que, na altura, constituíram também fator de renovação e modernização da dramaturgia portuguesa, com autores então em plena atividade e modernidade: por exemplo D. João da Câmara ou Marcelino Mesquita, Afonso Gaio, Bento Mântua e sobretudo o jovem Ramada Curto, com a peça inicial da sua vastíssima dramaturgia, “O Estigma”, estreada em 1905, tinha o autor 19 anos!
Na época ator muito apreciado, Luciano de Castro mereceu encómios do seu contemporâneo Sousa Bastos: “belo elemento para o drama, muito distinto na comédia, e até na revista, tirando partido da simplicidade e naturalidade com que representa”… (in Diccionário do Teatro Português - 1908; idem - fotografia do ator Luciano de Castro).
Ora bem: hoje, alguns daqueles dramaturgos são expressões “históricas” do teatro português, mas na altura eram expressões de modernidade – e hoje como na altura são expressões de indiscutível qualidade.
E aí, destaco Manuel Laranjeira, autor só lembrado por “especialistas” na história da dramaturgia portuguesa mas que, na época, marcou e percorreu as grandes linhas de renovação e atualização. A existência malograda deste dramaturgo, que pôs termo à vida em 1912 com 35 anos, reflete-se nas duas peças que chegaram até nós, “…Amanhã” e “Às Feras”, cenas de sentido social e temática ligada a problemas socio-económicos então extremamente sensíveis.
Para lá da produção dos espetáculos, o Teatro Livre e o Teatro Moderno marcaram ainda o meio teatral com uma teorização avançada para a época. Glória Bastos e Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos recordam as grandes linhas do manifesto do Teatro Livre, claramente modernizante, do movimento, que se propunha “trazer um sopro de vida à dramaturgia portuguesa” e “redimir pela Arte e vencer pela Educação”: notável programa, se considerarmos o que era o teatro profissional e o público habitual no início do século XX. (in “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República” ed. Museu Nacional do Teatro - 2004).
E é ainda de assinalar que diversos destes espetáculos foram dirigidos por António Pinheiro, notável ator/encenador da época, que haveremos aqui também de evocar.
Como havemos de evocar outro movimento teatral da época, também claramente renovador mas efémero – o Teatro da Natureza que, no verão de 1910, sob a direção do ator-encenador Augusto Pina, atuou no Jardim da Estrela.
Mas esses temas ficam para próximas crónicas.
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 29.07.15 neste blogue.
A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA A GUERRA ÀS AVESSAS
1 - Quanto mais penso nesse filme, mais espantado fico. Na verdade, nem é no filme, relativamente banal e ensosso, mas no fim do filme. Se há, não conheço uma figura semelhante. A raiz quadrada de um número sem raiz quadrada. "Três quartas de cinema" ou "três quartas partes pretas de lã carneira?". Não estou a louvar nada nem a simplificar nada, embora as citações venham do poema de Cesariny, de que me lembrei a páginas tantas por razões que explicarei lá para o fim desta página. É certo que estou no princípio e por isso convém que me explique antes que se faça ainda mais tarde.
2 - O filme, de que vos poupo o título original em russo, chama-se qualquer coisa como "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra", a acreditar nas traduções ocidentais, já que, antes deste Janeiro, nunca tinha sido exibido em Portugal. Realizou-o um certo Ivan Pyriev (1901-1968) em 1944, ou seja, há 60 anos. Passou num ciclo que a Cinemateca está a finalizar, dedicado aos gelos e degelos do cinema soviético entre 1926 e 1968. Ou seja, a filmes que ou foram proibidos pela censura estalinista e dos camaradas que se seguiram, ou a filmes que foram mudados de cabo a rabo pelas mesmas censuras (em certos casos, por várias vezes e com cortes diferentes) ou a filmes que, pelo contrário, de tão perto seguiram a linha oficial que o tempo os tornou inacreditáveis e ainda mais reflectores que as obras tesouradas. Quando se programam ciclos destes há riscos vários. Os mais ingénuos ou os mais distraídos acreditam que vão ver filmes de resistentes, que heroicamente denunciaram Estaline nos anos 30, 40 ou 50, Krustchev nos anos 50 e 60, ou Brejnev nos anos 60. Basta pensar duas vezes para perceber que filmes desses jamais podiam ter existido na União Soviética. Quem pensasse em filmar um plano sequer de crítica explícita ou implícita já estava na Sibéria (na melhor das hipóteses) antes de pegar na câmara. O que foi proibido ou censurado foi-o por razões circunstanciais, na maior parte dos casos difíceis de detectar a esta distância temporal e sabendo-se o que se sabe hoje. Aprende-se mais com os ortodoxos do que com os humilhados e ofendidos. Pyriev era desses ortodoxos. Um labrego segundo os amigos, mas um labrego com talento, que sabia do ofício, o poder prezou e o público - que-tem-sempre-razão - adorou. Vários filmes dele foram sucessos colossais na URSS, com muitos milhões de espectadores, coisa de povoar os sonhos dos gémeos lusos do século XXI. "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" foi um dos maiores. Filmado em 44 - em plena guerra e não depois dela -, conta a história de um bravo soldado russo (no cinema soviético, todos os soldados são bravos) que se apaixona por uma corajosa enfermeira (no cinema soviético, todas as enfermeiras são corajosas). Encontram-se por aqui e por acolá, cantam muito, na boa tradição do musical e, lá para o meio do filme, combinam casório para o fim da guerra. No dia desse fim, marcam encontro numa ponte de Moscovo, às seis da tarde. Mas eis que o soldado fica sem uma perna em combate. Como alma nobre que era, decide que não vai impor um inválido à bela enfermeira. Um amigo que lhe vá explicar que ele morreu, que ela não pense mais nele. Mas os amigos são para as ocasiões. A meio da piedosa mentira, o portador da má nova arrepende-se do que está a mentir. Conta-lhe a verdade e a rapariga corre para o hospital, para lhe jurar que não é perna a mais perna a menos que a aquece ou arrefece. Chegou a tempo. O soldado pensou melhor e achou-se egoísta, individualista e pequeno-burguês. Repetem a jura anterior. Só que, depois, é a rapariga quem apanha com um estilhaço e o espectador é levado a crer que ela morreu. O soldado nada sabe. E, às seis da tarde, no dia do fim da guerra, lá está na ponte, à espera da noiva. Passam as 6, passam as 7 e nem novas nem mandados. Mas filmes destes, a leste como a oeste, fizeram-se para acabar bem. Quando protagonista e espectadores já desesperam, a moça, supõe-se que incólume, aparece-lhe e lá vem o abraço e beijo finais. É evidente (até por este resumo o é, quanto mais pela visão do filme) que Pyriev viu muito cinema americano. Concretamente viu "Love Affair" de McCarey (1939), obra que, mai-lo seu "remake", "An Affair to Remember" do mesmo McCarey, e mai-los "remakes" feitos depois desse, suponho conhecida pela maioria dos meus leitores, Charles Boyer (ou Cary Grant) a combinar encontros no Empire State Building, com Irene Dunne (ou Deborah Kerr) a ser atropelada, a ficar paraplégica e a decidir desaparecer para não estragar a vida ao amado. "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" é uma variação sobre o mesmo tema, história de azares e de sortes.
3 - Mas não é isso que me embasbacou. Não precisei de chegar a esta idade para saber como o longo braço de Hollywood chegou até ao país dos comunistas e como os filmes mais exaltadores da glória do proletariado seguiram receitas capitalistas, disfarçadas com temperos locais. O que é inédito é que, em 1944, quando ainda havia tropas alemãs em território russo e o desfecho embora previsível não fosse ainda de favas contadas, Pyriev não tenha hesitado em figurar o dia V, como se todo consumado fosse. Eu sei que não faltam na história do cinema (até na história do cinema soviético) representações de futuros longínquos, isso a que se costuma chamar "ficção científica". Eu sei que ficções do real ou com o real foram o pão-nosso de cada dia. Mas nenhum filme ocidental, dos anos da guerra, ousou jamais mostrar o fim, antes de o fim chegar, ou deu dois passos em frente para olhar do futuro vitorioso o passado sangrento. Também nunca houve - nem nos mais delirantes filmes de propaganda anticomunista - representações da queda do Kremlin ou da queda do Muro. Neste caso, Pyriev não hesitou. Em 44, mostrou 45, na guerra mostrou a paz. Há quem diga que o fez para dilatar a crença de que o dia da vitória estava próximo. Afinal de contas, a "Marselhesa" ("le jour de gloire est arrivé") tanto se cantou no início das grandes guerras como no fim delas. E, como Pyriev até nem se enganou muito (a Alemanha rendeu-se um ano depois da estreia do filme), podemos absolvê-lo dessa antecipação pela premonição. Porque é que eu fiquei tão embasbacado?
4 - Precisamente, como já disse, por essa sequência final. Séculos de cinema (passe o exagero) habituaram-nos a ver, documental ou ficcionada mente, o dia da Vitória como um dia de multidões transbordantes, enchendo as ruas, com soldados e paisanos abraçando-se furiosamente, num 25 de Abril em tamanho sobrenatural. A tamanha festa e a tamanha alegria. Tudo o que simbolicamente foi captado na lendária fotografia que deu volta ao mundo do marinheiro e da rapariga em abraço tremendo. Pyriev, em 44, não tinha milhares de figurantes nem podia filmar nas ruas de Moscovo. Que fez ele? Construiu uns "décors" com a ponte tão citada no filme, ao fundo da qual uma transparência dava a sugestão do Kremlin, iluminado por holofotes. Agarrou em duas dezenas de figurantes, de ambos os sexos, e pô-los a passear de braço dado pela dita ponte. Casais jovens, casais de meia-idade, como domingueiros, como se andassem por ali a ver as vistas. Em primeiro plano, o herói da perna de pau, muito sozinho e muito ansioso. Nalguns cantos, outros vultos solitários, ora de mulher, ora de homem. À vez, vinham chegando os pares esperados pelos ditos cujos. Abraços e beijos e lá iam a passear, juntando-se aos outros. Até que só ficava sozinho o protagonista. Caía a noite e os casais iam para a noite deles, sempre vagarosos e emburguesados, com passos de um coro de ópera convencional, mais se assemelhando a espectros do que a humanos. E, quando por fim chegava a enfermeira, o abraço era tão púdico e tão desengraçado como só o cinema soviético filmou abraços e beijos. Mas tratava-se da girândola final. Pyriev não o esqueceu e, para a sublinha, guardou para esse momento uma largada de fogo-de-artifício digna da festa da Senhora dos Remédios em Forno de Algodres, sem desprimor para a Senhora e para o forno. Na banda sonora, muitos bum-bum-bum. Até encadear com a palavra fim. E é essa sequência que não deixa de me perseguir desde o dia 7 de Janeiro. No país do "socialismo", na "pátria do povo", na terra dos sovietes, o fim da guerra foi celebrado por antecipação, sem povo, sem operários, sem camponeses, sem massas, sem qualquer desordem, sem qualquer alegria, a não ser a alegria breve de uns casais de namorados. Moscovo é uma cidade fantasmagórica, inexistente para aquém e para além da ponte sombria e soturna. Ou seja, Pyriev imaginou tudo menos uma real festa popular. É totalmente surrealista, no sentido pejorativo da palavra. Fez frio e medo. Muito frio e muito medo. Mas, pensando bem, talvez esteja certo. Para voltar a Cesariny e ao surrealismo, na verdadeira acepção da palavra: "Porque é que a enfermeira compra do Alves Redol quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã?" E nem sequer nisso pode mostrar que pensa. Na URSS, qualquer festa espontânea era espontaneamente inimaginável.
por João Bénard da Costa 16 de Dezembro 2004 Público
Transforma-se o escritor na coisa escrita, por virtude do muito maginar. Assim, já não sei bem se é Camilo Maria, 15º Marquês de Sarolea, que te escreve esta carta, ou se é este Camilo, que afirma traduzi-las e diligentemente as vai "batendo à máquina", como se dizia... Este, o operário, deu-se finalmente conta de que tem vindo a apor diretamente o seu nome como assinatura das cartas que te escrevo. Como se fossem elas dele, imagina tu! Ainda não "flaubertiou", exclamando "Camilo Maria c’est moi!", mas cá desconfio de que terá feito pior: pensará que ele é, sou, eu! Usurpa-me. Insidiosa usucapião esta, de tanto me imaginar quase me incarna, ou ele em mim... Que confusão! Qual de nós, ele ou eu, ou ambos, poderá sair dela? Nenhum tratado da alma nos explicou bem o que ela é. E tu, Princesa, Princesa, quem és tu? Uma musa? uma aparição? uma mulher real? um amor secreto? uma personagem epistolar? ou, na lhaneza da nossa condição humana, a destinatária destas cartas será o momento de Princesa que se sente uma qualquer leitora delas. Enfim: somos todos desconhecidos uns dos outros, mas, por vezes, um milagre nos comunica e comunga, e sabemos então que intimamente nos pertencemos, mesmo sem saber bem a quem. Ao demónio cujo nome é Legião se confronta a multidão dos santos, dos que respondem. A santidade dos homens não é um estado, é uma vocação correspondida, o caminho da procura de um encontro. O nome do amor não é posse, é paz. A posse conquista-se, a paz é dádiva. A posse é jugo, a paz é partilha. A posse é afirmação, a paz é procura sempre. Nada nos será, no tempo, definitivamente dado. Tudo, por nós, connosco e em nós, é procurado. Mesmo a palavra inicial, que perseguimos até poder dizer o indizível. Talvez não seja possível, nem sequer necessário. Entendemo-nos melhor no misterioso silêncio, nessa tão íntima interrogação em que comungamos todos, do que nas explicações que pretendemos dar às coisas. E, afinal, quem veio escrevendo este bilhete. Que Camilo? Ele ou eu, este ou o outro? Mas que é o outro? Será o Outro que nos chama? Fica em paz, Princesa. E nós contigo!...
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 06.12.13 neste blogue.
Alfredo Cortez, s.d., fot. José Marques [programa O lodo, TNDM II, 1979]
ATORES, ENCENADORES (XXXIII) OS 90 ANOS DA NOVA COMPANHIA DE DECLAMAÇÃO por Duarte Ivo Cruz
Neste contexto sempre irregular do historial do teatro português na sua dimensão modernizadora e renovadora, apraz -hoje evocar uma iniciativa que, há exatos 90 anos, significou a tendência que, na época foi marcando, ainda que algo timidamente, a atualização do teatro-espetáculo em Portugal. E quando dizemos “teatro-espetáculo”, temos presente certo desfasamento verificável no que respeita não tanto à literatura, aí incluindo a literatura dramática, mas, isso sim, às iniciativas de modernização do espetáculo em si. Isto, apesar de já na época se manifestarem entre nós esforços dispersos para alinhar repertórios com o que se impunha em meios mais adiantados.
Alfredo Cortez, dramaturgo que, ao longo de mais de cerca de 20 anos e de mais de 10 títulos contribuiu, como dramaturgo e como animador teatral, para a renovação do teatro-texto e do teatro-espetáculo em Portugal – e basta lembra o escândalo e a pateada que assinalou, em 1934, a estreia de “Gladiadores”, primeira peça expressionista da dramaturgia portuguesa – surge em 1925 como fundador-diretor da Nova Companhia de Declamação.
Tratou-se efetivamente, de uma iniciativa destinada a renovar (no possível…) o contexto do espetáculo em Portugal. Hoje, podemos ponderar a modernidade do repertório em si mesmo considerado: mas estávamos em meados dos anos 20, e em Portugal: o que nos permite avaliar os valores relativos do programa de modernização/atualização, a nível não tanto, repita-se, de produção dramatúrgica, mas sobretudo a nível de realização e organização de espetáculos e da sua recetividade junto do público.
E nesse aspeto, podemos hoje melhor compreender a “modernidade” que esta companhia procurou atingir, junto de um público no mínimo desconfiado. E nem se diga que a Nova Companhia de Declamação era de somenos no que respeita ao elenco. Dela faziam parte, com efeito, grandes nomes da cena portuguesa da época: desde logo Adelina Abranches, Ester Leão, António Pinheiro, Clemente Pinto, entre outros mais. Nesse aspeto, nada haveria a dizer: eram, todos eles, grandes figuras de cartaz.
Já no que respeita ao repertório, a sua modernidade é hoje questionável: peças como “Apaixonada” de Porto-Riche, “A Malquerida” de Jacinto Benavente, “Uma Mulher Fatal” de André Birabeu, dizem-nos hoje menos do que na época, em matéria de renovação. Alfredo Cortez organizaria mais tarde, episodicamente, uma nova companhia com Ilda Stichini, para quem traduziu a peça “Wang, Sábio Três Vezes Sábio” de Henry Gheson, estreada em 1927 no Funchal.
Mas o mais importante terá sido “O Lodo” do próprio Alfredo Cortez, estreada com escândalo em 2 de julho de 1923, no Teatro Politeama, num único espetáculo organizado pelo próprio autor, despois de sucessivas recusas das companhias profissionais da época, que sistematicamente consideraram a peça no mínimo chocante… O que não diminuiu a qualidade, nem do texto nem, é de crer, do espetáculo, dado o nível do elenco: encenação de António Pinheiro, interpretação de Adelina Abranches, Amélia Rey- Colaço, Constança Navarro, Robles Monteiro, Maria Mesquita e Antónia Mendes.
A peça passa-se num bordel da Mouraria e acaba com um crime de morte: Julia, por ciúmes, mata a irmã, figura impoluta de moralidade. Ora, independentemente das mudanças ocorridas, é notável o realismo violento da cena e da linguagem. E é de assinalar que “O Lodo”, depois dessa estreia em espetáculo único, foi reposto dois anos depois, novamente por iniciativa do autor.
E para terminar: Luciana Stegagno Picchio, na “História do Teatro Português” (Roma 1964, trad. port. de Manuel de Lucena, 1969) relaciona a renovação teatral contida em “O Lodo” com a modernidade dos “Seis Personagens em Busca de Autor” de Pirandello, estreada em Roma dois anos antes (e só representada em Portugal no final dos anos 50): o que só por si atesta a renovação que Alfredo Cortez trouxe para a dramaturgia portuguesa.
Acrescente-se enfim que entre as centenas de atrizes e atores que estrearam as peças de Alfredo Cortez, encontramos sucessivas gerações de nomes que marcaram e sua época e hoje são recordados: alem dos que já citamos, evoque-se Raul de Carvalho, Vital dos Santos, Barroso Lopes, Ilda Stichini, Luz veloso, Alexandre de Azevedo, Palmira Bastos, Maria Lalande, João Villaret, António Lopes Ribeiro…
E, no que refere ao cinema, o filme “Ala-Arriba” (1942), realizado por Leitão de Barros sobre argumento e diálogos de Alfredo Cortez, exibido na Bienal de Veneza ganhou a Taça Bienale: e permito-me uma auto-citação, que retiro da edição do Teatro Completo de Alfredo Cortez (ed. INCM 1992):
“O texto de Ala-Arriba não é uma peça (…) é um verdadeiro guião cinematográfico poderosamente plasticizante na sua descrição, vigoroso no travejamento, épico e lírico na admirável linha literária. O rigor rítmico de cinema (…) mais minucioso ainda do que no teatro, é respeitado em perfeita simbiose: lemos o guião e recordamos, cena a cena, plano a plano, a força poética desde belo filme, que a esplêndida musica de Rui Coelho – também autor da ópera Tá-Mar (sobre a peça homóloga de Cortez) - reforça e sublinha”.
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 22.07.15 neste blogue.
A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA ÚLTIMA SEXTA-FEIRA
1. De 27 de maio de 1988 a 27 de maio de 2005 (nestes dois anos, 27 de maio calhou a uma sexta-feira), habituei-me ou habituaram-me a ler crónicas minhas nas páginas de um jornal. Primeiro, nos bons tempos de O Independente, que nasceu faz hoje 17 anos e talvez seja eu o único a lembrar-me. Here"s looking at you kid, e o kid é o Miguel Esteves Cardoso, que não vejo há que anos, embora não lhe perca o retrato aos domingos no Diário de Notícias. Entre "casas encantadas" (pois, pois, A Casa Encantada também faz hoje 17 anos) e saques de Roma, por lá andei até novembro de 2001 ou coisa que o valha, pois sempre fui melhor a datar inícios do que fins. Depois, desde 12 de julho de 2002 (eu não vos dizia?) aqui no PÚBLICO e já lá vão quase três anos. Ontem (estou a falar do meu ontem de escritor, e não do vosso ontem de leitores) telefonaram-me a dizer que ninguém sexta toda a vida e que aos 17 anos já tenho tamanho para me vestir de domingueiro. Trocado por miúdos: à sexta-feira deixa de haver "casas encantadas", J. B. C. e conversas de farrapos. Mas nada se perde. Só se transforma. Conversas destas, encantos destes e gente como eu fica melhor ao domingo, para ler na cama até tarde, para levar para a pesca ou para levar para a caça, conforme as estações, os tempos e os modos. Animal de hábitos que sou, virei-me um bocado na cadeira (de couro), mas não tinha nenhuma razão crisálida para dizer que não. Nunca gostei de domingos? É bem verdade e já não gostava 50 anos antes de 1988. Nem dos domingos de Carnide nem dos domingos de pastéis de Belém. Nem dos domingos de Paris, que me lembram o desaparecido que sentia comovido os domingos de Paris (as aspas caíram na tipografia), nem dos domingos da Arrábida, com aquela confusão de camionetes e o pó encarnado a esvoaçar. Nem dos domingos engarrafados da Praia Grande, nem dos domingos dos estádios em que o Barrosa falhava penaltis. Mas também não é aos domingos que tenho que escrevinhar coisas quejandas e, para as reler, narcisicamente, sobra-me tempo, meu Eco. Ao princípio irei estranhar, depois vou-me habituar. Mas sinto um nozinho na garganta, assim como se me despedisse. Não há de ser nada.
2. Mas a verdade é que o dia de ontem me foi muito especialmente especial. Devia estar a lua no carneiro, como diz o Alberto, com quem bebi catarinas à beira-rio. Ao menos bebemos vinho com nome de santa, como ele me lembrou, a certa altura, que alguém dizia em tempos que já lá vão. No carneiro ou não, ia alta a lua, essa lua que, só um bocadinho mais baixa, eu tinha acabado de deixar em Veneza, na antevéspera. Há gente que nasceu com o rabo virado para a dita e nesta semana eu senti-me uma delas. Chegou a altura de vos fazer um desenho, daqueles que me ensinaram há pouco tempo a fazer, para perceberem que não ensandeci definitivamente e que tudo isto pode ter mais nexo do que parece, aliterando ou não. Vamos lá a ver se nos entendemos, que, se não, nem no domingo que vem me convidam para a festa e esta é mesmo a minha última sexta-feira.
3. Subitamente, e por razões que agora não vêm ao caso, mandaram-me ir a Veneza no fim-de-semana passado. Se eu vos contasse o que lá fui fazer, ainda mais louco ou ébrio vos pareceria. Por isso, fico-me por uns instantâneos e julgue-os quem não pode experimentá-los. Nunca me falaram em Veneza sem que eu estremecesse de cima a baixo muito mais do que estremeceu a criada do Tartuffe. Desta vez, medi-me o pulso e não senti nada. Era como se me dissessem que no dia seguinte ia até Vila Franca de Xira. Já estava um bocado preocupado (e outros por mim), preocupado fiquei ainda mais. Mas logo que o táxi castanho largou à desfilada pela lagoa, os fantasmas desapareceram atrás dos postes e renasceu-me a alma nova que tinha metido nem sei bem onde. Depois, o barco moderou a velocidade e, num fim de tarde inacreditavelmente luminoso, desembarquei à porta do Danieli, onde muitas vezes bebera uns copos, mas onde nunca tinha ficado. E fosse pelo Danieli, fosse pelo que fosse, quando saí do hotel a caminho de São Marcos vi coisas que tinha obrigação de ter visto mais vezes, mas que via agora pela primeira vez. A bem da contenção, fico-me por cinco, que se vai fazendo muito tarde.
4. Reparei que no ângulo sudoeste e no ângulo sudeste do Palácio dos Doges, quero eu dizer no ângulo entre a Margem dos Escravos e a Piazetta e no ângulo entre o Palácio e a Ponte dos Suspiros, os dois capitéis celebram dois dos mais célebres nus da nossa génese. O primeiro mostra-nos Adão e Eva depois de comerem do fruto proibido. Não há serpente, não há deuses. Apenas dois ramos da árvore, um para cada lado, se vão cravar nos sexos de Adão e Eva, simultaneamente os cobrindo e simultaneamente os designando como origem de todo o bem e de todo o mal. O segundo capitel refere-se a um dos episódios mais obscuros do Antigo Testamento. Noé, após ter bebido em demasia, cai no chão a dormir, quase nu, só com as vergonhas cobertas por um trapo. Os filhos surpreendem o velho em tais preparos. Que pensam ou que concebem? Desnudar o pai, ou seja, retirar o trapo para verem o que este cobre. Por que é que o sexo é a obsessão mais visível do Palácio na fachada fronteira ao mar de que Veneza era sereníssima senhora, é coisa que não sei explicar nem nenhum Ruskin me explicou. Mas são essas as armas que desfralda em todo o sentido da palavra, e a história do pecado da carne começou a escrever-se em pedra no século XIV nesse "meravigliosi spigoli di pietra".
Depois de reparar no sexo reparei no sangue. Na fachada que dá para a Piazetta, o cor-de-rosa evanescente da fachada e das colunas (o cor-de-rosa mais cor-de-rosa alguma vez alcançado) é interrompido duas vezes em duas colunas, que contrastam com todas as outras por um encarnado fortíssimo. Porquê? Aí mo explicaram. Entre essas duas colunas eram anunciadas as penas de morte decretadas pelo Conselho dos Doges. Junto à morte, detinha-se o rosa e o sangue o substituía, efémero e brutal. Aliás, o mesmo sangue é cor da coluna de um metro que hoje está junto à Igreja de São Marcos, mas, em tempos idos, estava entre a coluna de S. Marcos e a de S. Jorge, frente ao mar. Sobre esse tronco de pedra eram degoladas as vítimas que tinham como última visão o dragão vencido ou o leão alado. Reparei - e aí mais parei do que reparei - que, perto do Rialto, na Igreja de San Salvador está a Anunciação mais terrível que alguma vez vi, obra célebre de Tiziano, que mil vezes vira em reproduções e só agora vi em carne e osso. Porque se cobre a Virgem com um véu à aproximação de um Arcanjo aterrador, com asas colossais que dominam o quadro enorme? Porquê tanta luz e tanta cor a acompanhar a descida do Espírito Santo rodeado por anjos álacres e pulcros? Ao fundo, no altar-mor da mesma Igreja, a Transfiguração, também de Tiziano, mostra-nos que nenhum dos Apóstolos conseguiu fitar as vestes branquíssimas de Cristo, estabelecendo uma divisão claramente platónica entre o que cega os homens das cavernas (os apóstolos) e o que iguala as Ideias da Luz (Cristo e os profetas). A quinta coisa em que reparei foi num palácio do Grande Canal, que é dos mais belos e mais ogivados. Ca D"Ario chama-se. O meu guia de ocasião informou-me que estava à venda e que há 50 anos o estava. Porquê? Porque se diz que uma maldição primeva atingirá todos os seus proprietários e até hoje ninguém escapou. Sabem quem foi o último presumível comprador, que chegou a dar sinal, mas que à última hora teve mais medo do que dinheiro? Woody Allen.
5. À noite debrucei-me da janela do meu quarto, num dos últimos pisos do Danieli, e olhei para a água negra cá em baixo, no pequeno canal dos dragões, onde algumas gôndolas jaziam. Em frente, havia uma casa com um belo jardim e, entre as janelas entreabertas, pareceu-me descortinar um vulto que lia de costas viradas para a janela e para mim.
Sem saber porquê, esse choque da luz da janela entreaberta com o escuro da água fechada, esse choque da horizontalidade fronteira com a verticalidade abissal, pareceram-me repetir e recapitular a imagética das fachadas do Palácio dos Doges, os segredos de Tiziano, e continuar a cantar e a contar os cantos eróticos e líricos de fé e de ferro, de sangue e de ouro, de madrepérola e pórfiro que em Veneza se ouvem a cada esquina e em cada rua.
"Senza rumor" dizia, no Senso de Visconti, Franz para Livia, naquele quarto dos Fondamenti Nuovi, onde se abrigavam para as suas tardes de amor. "Senza rumor" voltei a ouvir Veneza agora, ao luar de maio sobre o terraço do Danieli, ou à cor dos cometas abraçando de rosa e piedade o Palácio dos Doges. Palácio feito também da matéria de que os cometas são feitos ou de que eram feitos, nos contos de fadas os fatos, da cor do vento e da cor das nuvens de princesas enfeitiçadas. E um dia, enfeitiçado, já estava de novo em Lisboa, como se nada se tivesse passado e como se não tivesse estado a fazer de Caronte, à proa de uma gôndola entre os dragões de Carpaccio e os anjos músicos do Bellini de San Zaccaria. Esta é a vida de hoje? Não, esta foi a minha vida de ontem, o dia dos impossíveis acontecidos. Até domingo, 5 de junho, dia dos anos da Tia Zina.
DE PÃO VIVE O HOMEM… por Camilo Martins de Oliveira
Minha Princesa de mim:
Passo por Madrid, vindo de Itália, demoro-me pouco. Parei no Museu do Prado, demorei-me a olhar para o tríptico do "Jardim das Delícias" do Hieronymus van Acken, conhecido por Bosch. O painel da esquerda ("O Jardim do Éden") apresenta várias curiosidades: nos dois terços superiores, a cena idílica de aves e animais vários rodeando pacificamente a "fonte da vida", situada bem ao centro do painel, e cujas águas correntes formam um lago onde, entre outros, um licórnio vem beber. Mas, no topo, um serpentear de morcegos numerosos sai de um monte rochoso e calvo. E, ao nosso lado direito, juntinha ao lago da fonte da vida, eleva-se uma palmeira na qual se enrosca uma serpente, como que a dizer-nos que é essa palmeira (que não é árvore, como sabemos) a tal do conhecimento do bem e do mal... Cá em baixo, uma cena mais inquietante, como se fosse anúncio do pecado original: em redor de um charco, já animais e plantas se devoram. E, por detrás de Adão, que acaba de acordar do sono que Deus lhe inflingiu para dele tirar Eva - que agora lhe apresenta - um grande cato simboliza a árvore da vida. E sabemos que os catos picam. Ainda no Prado, um quadro de Rubens mostra-nos a tentação original: a serpente que oferece a Eva - que Adão parece sensualmente acariciar - o fruto proibido, estende-lho num braço e mão de menino de angélico rosto. Aqui, segue-se a tradição mais divulgada: o fruto proibido é o da macieira. Tal se deve à tradução do livro do Génesis na "vulgata" latina de S. Jerónimo (século IV), onde se lê, por árvore do conhecimento do bem e do mal, "lignum scientiae boni et mali"... Ora acontece que "mali" tanto pode ser o genitivo de "malum", substantivo neutro que significava mal, como do substantivo feminino "malus" ou macieira. Mais curioso ainda é o "malum" neutro vir a dizer também maçã. E há mais: pêssego é "malum persicum", marmelo "malum cydonium", romã "malum punicum", limão "malum felix". Todos estes frutos, mais o figo - porque se, depois do pecado original, Adão e Eva cobriram as púdicas partes com folhas de figueira, seria por estar ali por perto essa árvore que, aliás, surgirá com diversos propósitos nos evangelhos, até naquele episódio em que Jesus seca uma por não lhe ter dado fruto que lhe matasse a sede... - todos esses frutos simbolizaram o proibido. A maçã, todavia, ganhou o campeonato. Mas, lembrado de Ceres e do que dela te escrevi em Florença - e também por te achar, por vezes, sem aquela dose de paganismo telúrico necessário a uma saudável compreensão do mundo - agarro-me a uma tradição do Talmud judaico: não à do figo ou da vinha, mas à que diz que as crianças não sabem dizer os nomes dos pais enquanto não comerem pão, pois nos cereais está a fonte de todo o conhecimento, que começa pela capacidade de falar e, pela palavra, nomear os seres. Será, pois, o trigo, que nos dá o pão da vida, o tal fruto que Deus nos proibira, até que chegasse a hora da misericórdia, o tempo da reconciliação. Que inesgotavelmente se vai repetindo, em memória da nova aliança, por Jesus Cristo, na partilha do pão da graça entre Deus e os homens todos. Deméter ou Ceres, a Mãe-Terra, reconhece-se pela coroa de espigas. Mas também pelo facho com que desceu a mundos escuros, em busca de Clore-Perséfone ou Flora-Prosérpina, a Primavera, sua filha. Ceres não chorou, como Orfeu descido aos infernos para tentar recuperar Eurídice, uma amante. Sofreu a paixão de um caminho escasso de luz e sem retorno conhecido, para ir buscar a filha, a fim de que, à superfície da terra dos homens, renascessem as flores e os frutos, a esperança. Eis a narrativa mitológica greco-latina de que mais gosto. E porque, por outras palavras e percursos, nos fala da condição humana e seus anseios e dos trabalhos de Deus, que, menino ainda, me contaram, me sinto tanto agora em comunhão universal.
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 01.12.13 neste blogue.
ATORES, ENCENADORES (XXXII) COMEMORAÇÃO DOS 74 ANOS DE CARREIRA DE EUNICE MUÑOZ por Duarte Ivo Cruz
Com a designação de “74 Eunices”, o Teatro Nacional de D. Maria II incluiu, no programa da temporada de 2015/2016, recentemente divulgado, uma homenagem a Eunice Muñoz. E efetivamente, a atriz estreou-se precisamente no Teatro Nacional, em 1941, na peça “Vendaval” de Virgínia Vitorino, integrada no elenco da Empresa Rey Colaço- Robles Monteiro.
São pois, efetivamente, 74 anos de carreira, constante e extremamente qualificada, em termos de criação e em termos de repertório, cumpridos com algumas interrupções mas apesar disso constantes, até pelo menos à temporada de 2012, quando, novamente no D. Maria II, sofreu um acidente em cena, durante um ensaio.
Esta vastíssima carreira é extremamente valorizada pelo talento, pelo profissionalismo e pela qualidade e isto não obstante as interrupções que Eunice se autoimpôs, num critério de exigência artística amplamente justificada pela qualidade das interpretações. Uma carreira longa e de alta qualidade.
Uma carreira também obviamente variada e heterogénea no que respeita aos géneros dramáticos e aos autores, mas com algumas linhas mestras de coerência que importa salientar. É bem certo que os atores tantas e tantas vezes representam o que lhes mandam representar: e que um profissional de teatro se sujeita a repertórios que os diretores das companhias e/ou os empresários determinam: são as contingências do profissionalismo.
Mas essas contingências, por sua vez, acabam por se subordinar ao prestigio dos atores: quando um ator atinge o mais alto nível, será difícil impor-lhe um personagem que não lhe interesse fazer. E seria difícil impor fosse o que fosse, a partir de certa fase da carreira, a uma atriz como Eunice – o que não significa, note-se bem, um menor grau de profissionalismo: também nesse aspeto, Eunice é exemplar.
E nas dezenas e dezenas de peças que Eunice Muñoz interpretou nos 74 anos de carreira, destaca-se um nível de qualidade sempre assinalável, com algum destaque para peças de autores portugueses e de autores contemporâneos.
Desde logo o iniciático “Vendaval” de Virgínia Vitorino (1895-1967), que se abalançou a uma problemática política datada “em sete títulos hoje esquecidos” escrevi na “História do Teatro Português”, mas que, diz-nos agora Luis Francisco Rebello, o público da época “recebeu com entusiasmo, justificado pelo seu entrecho sentimental, habilmente doseados com laivos de crítica social” (“100 Anos de Teatro Português”), de quem aliás viria a interpretar, anos depois, a protagonista de “Os Pássaros de Asas Cortadas” no Teatro Nacional Popular – Teatro da Trindade de Francisco Ribeiro, de que já aqui falamos.
Eunice diplomou-se entretanto no Conservatório Nacional com uma alta classificação. E distribuiu uma carreira longa se bem que intermitente por praticamente todas as companhias relevantes do teatro português. Estreou peças de Ramada Curto, de Júlio Dantas, Eduardo Shwalbach, Carlos Selvagem, Costa Ferreira, Bernardo Santareno, José Régio, mas também de Anouille, de Pirandello, Brecht, Tenessee Williams e clássicos - Shakespeare, Molière, Alexandre Dumas, Tchékhov, e tantos outros autores. E ainda, nos nossos, Gil Vicente, Camões, Nicolau Luis, Garrett, Camilo.
E fez teatro declamado, drama e comédia, teatro musicado – e até, em “Passa por mim no Rossio”, espetáculo de Filipe La Féria que relançaria do Teatro Nacional, uma versão revisteira de expressões dramáticas diversas…
E no cinema, temos 13 filmes, a partir do iniciático “Camões” de Leitão de Barros (1946) até “Entre os Dedos” de Tiago Guedes e Frederico Serra, de 2008. E sobre o “Camões” diz, com toda a justiça Jorge Leitão Ramos, que “o seu estilo de representação se destaca da pesada e empolada retórica dominante”. (“Dicionário do Cinema Português - !895, 1961”).
E muito mais haverá a dizer de Eunice Muñoz”…
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 15.07.15 neste blogue.
A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA O FANTASMA APAIXONADO
1. Em 1979, organizei, na Gulbenkian, um ciclo sobre cinema americano dos anos 40. Desse, como doutros ciclos dos anos 70 e 80, a fada-madrinha foi uma das pessoas mais enigmáticas e fascinantes que jamais conheci. Não sei o nome dela e não sei de ninguém que o saiba. Dizia que se chamava e chamavam-na Mary, mas, não sendo ela inglesa, americana ou mesmo remotamente anglo-saxónica, é duvidoso que a tenham batizado com esse nome. Usava o apelido Meerson, pois teria sido casada com Lazare Meerson (1900-1938), famoso decorador francês de origem russa. Mas é bem possível que tivesse sido tão casada com Meerson como o foi com Henri Langlois (1914-1977), o lendário fundador da Cinemateca Francesa. Muitas vezes a ouvi autodesignar-se como Mme. Langlois, mas, se viveu com Langlois entre 1939 e 1977, não consta que se tenham casado. Sem razão aparente (mas porque é que querem sempre razões para tudo?) guardou toda a vida absoluto segredo sobre as suas origens. Diziam-na russa, diziam-na búlgara, diziam-na finlandesa, diziam-na de um dos países do Báltico. Ela nunca nada revelou e, quando alguns biógrafos de Langlois começaram a querer vasculhar-lhe o passado, enfureceu-se terrivelmente e Deus e algumas pessoas sabem como as fúrias dela eram terríveis. Morreu em 1993, diz-se (quem pode estar certo?) que nonagenária, mas bilhete de identidade, passaporte ou qualquer outro documento de registo civil nunca se lhe conheceu. A mim, essa mulher que me explicou que os russos só invadiram o Afeganistão para descobrir segredos sobre ciências ocultas, sempre me disse que não morreria. "Um jour, je m"envolerais..." Da morte de Langlois até ter voado de mim (estou, pois, a falar de uma pessoa com setenta e muitos anos, ou oitenta) desenvolvemos uma relação que me é impossível qualificar. Telefonava-me vezes sem conta, altas horas da noite, quase sempre para casa, pois que, para ela, telefones de trabalho (Gulbenkian ou Cinemateca) eram telefones sob escuta dos nossos muitos ignotos e invisíveis inimigos. Se, quando a conheci, era gordíssima e imponentíssima, disseram-me que em nova fora belíssima. "J"etais plus belle que toi", teria dito um dia a Marlene e tê-lo-ia sido ao tempo em que a lenda pretendia que se passeava por Paris nua, sob um fabuloso casaco de renard argenté. Nesses telefonemas noturnos, transparecia o "coquettismo" das mulheres que são ou foram muito bonitas e se habituaram a seduzir homens. Tinha uns olhos extraordinários, como só o têm os quase cegos que vêem o que mais ninguém vê (quase cega sempre a conheci). Tinha uma voz de baixo profundo, que facilmente se confundia com a de um homem e dominava, na perfeição, o inglês, o alemão, o francês, o italiano, o russo e muitas mais línguas que nem eu sei (num jantar, uma vez, espantou toda a gente recitando poemas em arménio e os arménios presentes juraram-me que ela o dominava fluentemente).
Por que razão ela me tomou sob sua proteção nunca saberei bem. O nome Gulbenkian (ela teria conhecido Calouste Gulbenkian quando foi marchande d"art) contribuiu fortemente, mas não explicou ou explica tudo. Lia através de mim ou em corpo ou em voz. E em várias alturas, mais complicadas, sem que alguma vez eu lhe tenha feito confidências, dizia-me o que eu precisava de ouvir como se fosse uma Xerazade ou um Tomás de Kempis telecomandados. Uma vez disse-lho. Limitou-se a responder-me: "Je sais. Mary sait tout." Soubesse-o ou não (e eu, hoje, acho que, se ela não sabia tudo, sabia muito), o que é certo é que, graças a ela, eu fiz o meu nome como programador. Filme que lhe pedisse (mesmo que a Cinemateca Francesa o não tivesse ou o poder efectivo dela na Cinemateca Francesa já fosse diminuto) era filme que ela me encontrava. No fim do mundo, ou ao virar da esquina. Há uma expressão que eu acho deliciosa e aprendi há pouco tempo com as minhas netas mais velhas, com a Sofia e com a Mariana: "amizades coloridas". Se não sabem perguntem, que eu não estou aqui para explicar. Mas acho que a minha relação com Mary Meerson foi uma "amizade colorida" avant-la lettre. Après la lettre, vejo-lhe o olhar renascendo em muitas vidas, ou de dantes ou de depois.
2. É estranho. Eu não vinha para falar de Mary Mersoon, sobre a qual escrevi uma crónica quando ela morreu e co-organizei um catálogo a que chamei O Cinema como Magia.
Se a invoquei, e ao tal ciclo de 79, foi para contar uma história bizarra das muitas entre nós sucedidas. Além de filmes, pedi-lhe cartazes para uma exposição paralela ou coisa que o valha. Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath de John Ford e de The Ghost and Mrs Muir de Joseph L. Mankiewickz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian que, pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles "monstros"? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar do sucedido e ela respondeu-me com a maior naturalidade do mundo: "Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis." Assim fiz. De 79 a 91, os cartazes estiveram nas paredes do meu gabinete da Gulbenkian. Em frente de mim (porquê?) já estava o do Ghost, filme que em Portugal se chamou O Fantasma Apaixonado.
Não é tão bonito como o das Vinhas da Ira, com desenho original desse mestre dos nossos neo-realistas que se chamou Benton. Mas nunca resisti ao sorriso de Gene Tierney, tão segura, tão insegura, precisamente por isso. Curiosamente, uma Gene Tierney tingida de louro, quando nunca houve mulher mais morena e mais branca em Hollywood. High-Cheek Bone Beauty. Há tanto de triste e algo de insuspeitado nesse leve sorriso e nesses imensos, insondáveis olhos. Mulher-patchuli. Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje, o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa, só o do Fantasma. Vinte e seis anos (79-05) a viver com ele e com a Mrs. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mo mandou.
3. Esta vida é de facto estranha. Quando eu vi O Fantasma Apaixonado pela primeira vez tinha 12 anos. E foi no Tivoli dos veludos da Fox. Quem fosse o realizador - Joseph L. Mankiewickz, depois, também, meu cineasta de cabeceira - ignorava completamente. Só me interessava Gene Tierney e, depois de visto o filme, passou-me a interessar Rex Harrison, com quem vivi pela primeira vez. Gostei. Gostei muito. Mas quão longe estava de adivinhar o que esse filme iria significar para mim, passados os 40 anos, quando o revi no tal ciclo da Gulbenkian e, depois, quando o revi e revi e revi em dezasseis passagens na Cinemateca e mais não sei quantos visionamentos. Já contei mil vezes, mas, como estou morto por contar, conto outra vez. Mrs. Muir (Lucy Muir = Gene Tierney) enviuvara há pouco tempo de um Mr. Muir que nunca vemos, mas não era de molde a deixar grandes saudades. Sogra e cunhada em Londres, princípio do século XX, vigiavam a virtude da jovem viúva e da filha dela, de dois anos. O filme começava quando a situação se começava a tornar insuportável e Mrs. Muir, doce mas firmemente, anunciava que ia sair de vez daquela casa para ir para o pé do mar, para o pé do mar. Nem rogos nem ameaças a demoveram. Procurou casa junto ao Mar do Norte como Mar do Norte nunca vi, mas nenhuma casa a convenceu. Até que viu a que queria ver, mas ninguém lhe queria mostrar. A casa estava assombrada pelo fantasma do Capitão Gregg que nela se suicidara. Só que os fantasmas não assustam Mrs. Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele.
Mrs. Muir instala-se na casa com a filha e com a criada. E logo o fantasma começa a visitá-la. "I know you are here", diz ela. As luzes todas se apagam, começam as trovoadas e os relâmpagos. Mas começa também, poucochíssimo depois, a história de amor entre o fantasma mais malcriado do mundo e a mulher mais mar do mundo. Debalde o fantasma lhe diz: "I"m here because you believe I"m here." Não vou contar o filme todo. Há sempre uma hora em que se acorda dos sonhos. Os fantasmas não são para toda a vida. Quando o percebe, Rex Harrison, pois é dele que se trata, sempre de negro vestido, vem despedir-se dela que dorme. "What you have missed by being born too late to travel the seven seas with me! And what I"ve been missed too? What we both have missed!" Antes recitara Keats, depois dá-lhe um quase beijo. Mrs. Muir descobrirá depois que o real é bem mais frágil. Fica na casa, pensando sempre que o que aconteceu nunca aconteceu, que nunca houve fantasma algum. Mas o que houve deu sentido a tudo, por ser feito de tão nada.
Depois o tempo passou. Passa sempre. Depois, um dia, o coração de Mrs. Muir deixou de bater. Quando a criada lhe vem trazer o chá cruza-se com o fantasma e com Mrs. Muir, que avançam devagarinho nas brumas. Como é que diz Keats que o fantasma recita: "I have been half in love with easeful Death... Was it a vision or a waking dream?" Porque é que as pessoas se apaixonam por fantasmas? Porque é que os fantasmas se apaixonam por pessoas? Perguntá-lo é perguntar "como pode usar amor de entendimento". Sempre que vejo, no meu cartaz, Rex Harrison mais azul do que negro sumir-se no fundo do colo de Gene Tierney, pergunto-me qual dos dois foi fantasma e como o Andrea Francorum de Stendhal "inter quos possit esse amor". Lembram-se do que ele respondia a quem se embaraçava com a obscuridade de discursos destes? É melhor não se lembrarem.
LÁ LONGE É BEM PERTO… por Camilo Martins de Oliveira
Minha Princesa de mim:
Vens estranhando, dizes, o meu silêncio. Porquê? Silêncio é silêncio. Nem meu nem teu, nem de ninguém. Só silêncio. É verdade que sinto, muitas vezes (exagero?) a minha ternura ferida nesse arame farpado que, para te protegeres, ergueste. Talvez por isso me aconteça evitar-me-te, mas isso nunca foi investimento a prazo. Ainda te disse "um dia terás saudades minhas"... Asneira! Nada ganharia eu só com teres saudades minhas. Ganho mais abrigo à sombra deste mistério onde um carinho invisível conforta o coração fiel. Respeito imenso - sabias?- esses encontros que acontecem na fidelidade do coração... Quem os sente, sabe. Ou vai aprendendo a dor na alegria, e vice-versa. Hoje, ao nascer do sol, saiu-me esta (quadra?) que me deixou feliz (porque sei e não sei o que ela diz…):
Como se a manhã acordasse e eu lhe estivesse dentro dentro e fora do tempo onde nasce o dia...
Como ontem, ao deitar-me sentindo a "Verklärte Nacht" do Schönberg, assim meditava:
Soltem-se as florestas e caminhem em busca do chão onde a luz se funde no silêncio e fica quieta
Uma cuidadosa amiga minha observou que estas divagações seriam "haikai" com mais de três linhas... Ou foste tu que o disseste? No retrovisor, vejo agora que estão ali uns versos livres e desligados que Bashô, o mestre do "haiku" talvez apreciasse: mas em qualquer caso são mais de três e contam, juntos, muito mais de dezassete sílabas por poema. Mas concordarei contigo - e não tinha dado por isso - em que são muito japoneses na inspiração: uma contemplação, um despojamento de mim, esse inesperado sentimento vindo do interior do silêncio, do mistério de um momento de comunhão com a natureza. Só que eu não sou poeta, ainda que me aconteça escrever umas linhas a que talvez se possa chamar versos. Nem sequer me envergonho de ver que nenhum dos que escrevi se podem comparar a estes do Matsuo Bashô:
"escurece o mar os gritos dos patos são timidamente brancos"
Assaltam-me memórias de amigos que morreram nestes dias e notícias de muitos outros que hoje se debatem com a fraqueza da saúde, a usura da idade e a proximidade de desfechos fatais, alguns bem dolorosos. Muitos dos meus "velhos" amigos já partiram, alguns bem novos, outros sempre jovens. Fazem-me falta, quiçá também por senti-los sempre tão presentes. Sinto-os sobretudo num sonho feito de muitos sonhos que quisemos construir juntos, com militante cumplicidade. Com o esvaziar-se a minha paisagem presente, cada vez mais me chama o isolamento do campo, como permanência antecipada na vida que me espera nesta estrada, depois da curva da morte. Vida já diferente daquela em que, por tantos anos, tantas coisas me agitaram...
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 29.11.13 neste blogue.
ATORES, ENCENADORES (XXIII) EVOCAÇÃO DA REVISTA “DE TEATRO” - 1920-1927 por Duarte Ivo Cruz
A revista “De Teatro”, publicada em Lisboa de setembro de 1922 a agosto de 1927, num total de 54 números, constituiu na época um repositório extremamente atualizado e qualificado de notícias, mas também de textos dramáticos, no sentido mais abrangente da literatura ligada à arte teatral. Dirigida desde a fundação por Mário Duarte, com efémero prolongamento em 1928 com novo título (“Teatro-Magazin”) em 4 edições, o certo é que constituiu na época um poderoso divulgador da atividade e da cultura teatral: e hoje representa uma fonte histórica extremamente relevante não só das artes do espetáculo em si, como da sociedade que sustentava, melhor ou pior, tanto a publicação como o espetáculo subjacente.
De há muito que consulto a revista “De Teatro” como fonte importante do teatro da época e não só. A coleção integral da revista, conjunto de 7 volumes constituem, repito, uma fonte vastíssima da História do teatro no início do seculo XX – mas não só: os estudos e evocações a partir dos espetáculos e das edições, abrangiam muitas vezes épocas, autores e atores de outros tempos.
Basta constar que cada número inclui o texto integral de uma peça, quase sempre portuguesa e muitas vezes inédita de autores então em plena atividade produtiva: André Brun, Vasco Mendonça Alves, Ramada Curto, Carlos Selvagem, Fernanda de Castro, Henrique Lopes de Mendonça, e tantos mais, com destaque periódico para “o grande escritor e dramaturgo português” Julio Dantas “conhecido em todo o mundo civilizado”, nada menos!
E como colaboradores, encontramos muito elogiado, Almada (ilustrado com um autorretrato e com um desenho da atriz Vera Sergime), outra vez Julio Dantas (e isto, 7 anos depois da publicação do célebre “Manifesto Anti Dantas e por Extenso” de Almada), Jorge de Faria, Matos Sequeira, António Ferro, Aquilino Ribeiro…
E são referidos atores de grande destaque na época, como Amarelhe, Maria Matos (que aliás escreve um curioso artigo sobre o teatro na Madeira e nos Açores), Augusto Rosa, Alves da Cunha, Clemente Pinto, os então jovens Palmira Bastos, Samwel Dinis ou Erico Braga, e ainda Joaquim de Oliveira, Augusto de Melo, Chaby Pinheiro, Aura Abranches, ”o glorioso ator Taborda”, José Carlos Santos conhecido como Santos Pitorra “o grande iniciador da moderna arte de representar em Portugal” ou António Pinheiro.
Este último, designadamente esteve ligado ao Teatro Livre, iniciativa de renovação cénica e dramatúrgica que marcou as primeiras atualizações do teatro na época. E também é destacada a estreia do Teatro Novo, com transcrições e comentários de Leitão de Barros e com referências a peças de Jules Romans ou Pirandello, então pouco conhecidos em Portugal. Mas são também publicados artigos sobre História do Teatro Português, aqui com destaque para os estudos de Gustavo de Matos Sequeira.
E também é publicada, com grande destaque, toda a planificação da encenação da “Farça de Inês Pereira” por Joaquim Oliveira, com maquete de cenário de Raul Campos.
A música é analisada a partir de espetáculos de ópera no São Carlos e operetas e revistas com música de Wenceslau Pinto, ou de referências a grandes intérpretes da época, como Guilhermina Suggia.
Logo no primeiro número “De Teatro” publica a peça “O Salon de Madame Xavier” de Vitoriano Braga (1888-1940) estreada no Teatro Nacional de D. Maria II. Importa lembrar a projeção, na época e hoje, do autor, com nove peças publicadas, quase todas representadas, e que marcou a transição do teatro português para uma modernidade, não por ele completamente assumida, mas suficientemente relevante para merecer elogios de Fernando Pessoa, que considerou “Octávio” (1916) “notável entre a multidão nula das peças modernas”… E talvez por isso, ou certamente não apenas por isso, Jacinto do Prado Coelho escreverá no “Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira” que “na corrente modernista enfileira(m) também (…) Vitoriano Braga”.
Ora justamente, neste primeiro número da revista, Vitoriano publicou uma curiosa análise da expressão dramatúrgica e da arte do teatro em geral:
“Um autor dramático tem em regra uma maneira de ver o teatro muito pessoal e por conseguinte é lógico que seja de uma grande intolerância por aqueles que tenham uma orientação diferente da sua. Mas consciente desse perigo, que me poderia levar muitas vezes a ser injusto, desde já prometo que procurarei sempre, o mais que possa, basear em argumentos as minhas apreciações, e assim todos poderem sobre elas formar o seu juízo”.
Também é interessante recordar que a revista publicava regularmente referências aos espetáculos em cena, sobretudo em Lisboa, mas também no Porto e em Espanha e França.
E para terminar, uma curiosidade: em novembro de 1925, a “De Teatro” incluiu um destacado artigo intitulado “A Última Palavra em Aviação – O avião gigante continua a deslumbrar Lisboa com os seus vôos”, ilustrado com a fotografia de um monomotor: e lá se diz que “desde que chegou de Madrid o gigantesco avião sueco Junker tem sido o assunto de todas as conversas”!...
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 08.07.15 neste blogue.