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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO


Abandono-te todas as noites


Abandono-te todas as noites,

Troco-te pelos outros,
Por mim
Ou pelo simples sono que sempre me enganou
Desde criança.

Deixo-te ficar tantas vezes à luz duma velha lua
De queixo retorcido e rainha das bruxas
E em lugares frequentados por cães que defecam
Com o mudo amor dos donos
Sigilosamente
À trela.

Não devias esperar.
Este amor não é feito de sangue, a minha alma não anda nessa rua deserta,
Nem vai, pé ante pé, contemplar o teu rosto,
Deitar-se em seguida sobre o teu corpo gelado
E limpar-te os olhos do frio
De uma madrugada
Impudica.


in O Amante Japonês, 2008


I abandon you each night


I abandon you each night,
Exchange you for others,
For myself,
Or for the easy sleep that has always deceived me
Since childhood.

I leave you so often to the light of an old moon,
That queen of witches with her upwards twisted chin,
And in places haunted by dogs defecating
With the mute love of their owners,
In secrecy,
On the lead.

You should not wait.
This love is not made of blood, my soul doesn’t walk that deserted road,
Doesn’t tiptoe to contemplate your face,
And then lie over your frozen body
Or wipe from your eyes
the coldness
of a lewd dawn.


© Translated by Ana Hudson, 2010

in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

  


VAZIO NO MEIO DO MAR


Quem ama o tempo como eu nesta manhã de ruídos

que se afastam de mim e me fazem sentir
vazio no meio do mar?
Quem devora este ar tão benfazejo à boca
e ao replicar das ondas
nos ouvidos como sinos de água?


Um tempo que se curva,

com o início nos joelhos dobrados na infância,
na mãe obsessiva,
e vem,
como de onda em onda,
transportando as dores, até este rochedo
que me suga os anos
e morde, devagar, a memória
da vida.


in De Amore, 2012


EMPTY AT SEA


Who loves time like I do this clamouring morning

that moves away and makes me feel
empty at sea?
Who devours this breath of air so mouth soothing,
so wave-like,
water bells to my ears?


A bowing time,

childhood bent knees,
before the obsessive mother,
unfolding,
wave after wave,
carrying sorrow up to this rock
that sucks in my years
and bites, slowly, the memory
of life.


© Translated by Ana Hudson, 2014

in Poems from the Portuguese