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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXX - A ARTE COMO IMITAÇÃO EM PLATÃO E ARISTÓTELES

 

1. Para Platão a arte é uma falsidade, porque uma aparência, uma imitação da realidade, um engano, uma mentira. A imitação do real, por mais perfeita que seja, é sempre ilusória, inviabilizando a compreensão do real, o conhecimento da essência das coisas, no seu sentido objetivo, real e verdadeiro.
Se para Platão o mundo concreto e sensível em que vivemos já é uma cópia do que tem como real e verdadeiro, em que os humanos e demais seres da natureza são cópias sensíveis de modelos originais de um mundo superior e inteligível, a arte afasta-se ainda mais do real, dado que imita a cópia, uma vez que a realidade sensível já é uma imitação do inteligível.   

O pintor, por exemplo, é um fingidor, imitador, mentiroso, falsificador da realidade, como o poeta também o é, simulando ambos para se poderem exprimir esteticamente, a exemplo de Fernando Pessoa, quando escreve:

 

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente, 
que chega a fingir que é dor   
a dor que deveras sente.

 

E embora as imagens do tempo de Platão, comparativamente com as dos nossos dias, sejam uma brincadeira, por certo se “suicidava” se confrontado com a manipulação das imagens televisivas, cinematográficas, de propaganda e outras, que na sua realidade virtual nos condicionam permanentemente. 

 

2. Aristóteles, discípulo de Platão, defende que a imitação é benéfica, uma fonte de aprendizagem, de prazer, de caráter pedagógico, uma criação humana própria da nossa natureza.
Ao invés da negatividade não saudável associada à imitação platónica, a arte funciona na base de uma imitação e saudável mentira, sendo a representação artística uma representação com verosimilhança. Quando no cinema alguém dá um murro, o som respetivo não corresponde ao real, mas é verossimilhante, por isso o aceitamos, mesmo que corresponda a uma explosão de dinamite.

Sendo a arte uma produção humana, pode imitar a natureza, o material, o racional, o verosímil, o que está ao nosso alcance, mas também abordar e interpelar o espiritual, o imaterial, o infinito, o inatingível, o irracional, o inverosímil, suprindo o que está ausente no mundo natural. Que pode ter a utilidade prática de uma bênção, uma compensação, um refúgio, uma redenção, uma salvação. 
Entre a dissemelhança de Platão e a verossimilhança de Aristóteles, há o afastamento cada vez maior do real e a possibilidade permanente de a imitação criativa humana ser cada vez mais real. 
Ao mundo das ideias, que nos transcende, contrapõe-se o mundo concreto e terreno, onde vivemos, lembrando-nos uma obra prima de Rafael, “A Escola de Atenas”, de 1509, em que ao centro está Platão, de toga vermelha, e Aristóteles, de toga azul, dialogando, apontando o primeiro para cima, para o Céu, o mundo das ideias, e o segundo para baixo, para a Terra, o mundo humano e material, em que vivemos. 

19.12.2017 
Joaquim Miguel De Morgado Patrício