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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

Teresa Magalhaes por Ana Ruepp.jpg

 
Teresa Magalhães e a pintura dos fragmentos enérgicos.
 
'Criam-se dois universos distintos cujas vidas próprias se interligam e completam.', Teresa Magalhães In Catálogo da Exposição 'Mote e Transfigurações', SNBA, 2001
 
A propósito das pinturas de Teresa Magalhães (1944), Saramago dizia que as suas cores não têm nome, sente-se sim uma instabilidade contínua do sentido. A instabilidade, talvez venha da energia inesgotável do desconhecido. 
 
Desde os anos 80, que as pinturas de Teresa Magalhães parecem ser acções imobilizadas, de repente travadas num instante preciso, fruto de um processo que não pára nunca e que tudo transforma constantemente. É uma ordem activa sempre ameaçada pela instabilidade, pelo incerto e pelo oscilante vital.
 
'A arte é uma forma de beleza no seu sentido mais dinâmico e abrangente.', Teresa Magalhães
 
A descoberta e a novidade fazem sempre parte. Às vezes contam-se histórias - histórias abertas e sem título. E a pintura constrói-se nessa incerteza e é resultado de muitos gestos, muitas intenções, vivências e interpretações. Existe, por isso, uma grande liberdade de leitura, na pintura de Teresa Magalhães, porque cada ser humano transporta uma vida única. 
 
Teresa Magalhães confessa que fazer uma pintura é uma constante conversa. É uma questão mental - é um jogo entre a mente do artista e a tela. A pintura tem uma vivência própria, transporta memórias e é sobretudo aberta à reflexão e ao sonho. A própria pintura ao ser feita provoca e obriga a uma reforçada atenção e a uma espera por vezes bastante longa. Sem esse jogo mental não existem histórias para contar, é a ausência total de intenção e sentido. A pintura está na cabeça do pintor, mas constrói-se e transforma-se num real concreto e daí o interesse e o desafio que coloca. É feita a duas velocidades de resposta - rápida e lenta (nem sempre o pintor está preparado para agir e tem de esperar). À partida, no fundo está-se perante um trabalho inexistente, não há nada em vista e há uma proposta em fazer aquilo que nunca foi feito. E por isso é que é tão difícil e incerto o trabalho do pintor, porque também passa por aceitar o que nunca antes foi visto ou feito.
 
As pinturas de Teresa Magalhães são fragmentos, são parcelas. Dividem-se e encaixam-se tal como num puzzle. Propõem-se diálogos novos, complexos e inesperados. Os diversos painéis permitem a grande dimensão, a envolvência e o romper de fronteiras do espaço. E a pintura de Teresa Magalhães vai para além da superfície da tela, cria continuações constantes, propõe formas que se complementam, que dialogam forçosamente umas com as outras e que só fazem sentido quando juntas. A fronteira existe sim mas é sinal de um entendimento puro, de convivência e de aceitação mútua. Não há metades, não há simetrias, os tamanhos são diferentes. São fragmentos de memórias, compostas por partes e revelam-se sempre através de cores intensas, vibrantes e enérgicas. E esta é a luta da pintura, entre o todo e a parte porque a pintura apesar de autónoma deve estabelecer sempre um diálogo, uma conversa infinita - com o pintor, com as outras pinturas que vão surgindo em sequência e o com o espectador.
 
'Pintura é uma imagem.
Pintura é um conceito, um raciocínio, uma ideia.
Pintura é uma linguagem.
Pintura é um sentimento, um desejo.
Pintura é um indivíduo.
Pintura é um país, uma época, um universo.
Pintura é uma aposta.'
- Teresa Magalhães, 1982
 
Ana Ruepp
 
 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

Sem Título.jpg

 

Jessica Stockholder e a abstração concreta.

 

'I don't trust in abstraction alone, and it is also a way to bring an abstraction to my experience, because I can trust my experience of the moment.', Jessica Stockholder

 

Para a escultora americana Jessica Stockholder (1959), o processo criativo, inicia-se com uma experiência física, relacionada com um determinado objeto, lugar, cor ou dimensão. O processo é muito subjetivo e toma forma a partir de um conhecimento/manipulação de materiais e objetos que estão à mão.

 

Para Stockholder a criação de formas progride e cresce a partir de coisas que já existem. As ideias e o sentido, que lhe é próprio, fixa-se ao longo de um caminho. É o sentido que se dá, que permite ir de uma forma para outra. 

 

A forma transporta assim, um significado, durante todo o processo, mesmo que o sujeito não esteja concentrado nisso. Stockholder não questiona e não pensa constantemente no sentido que o seu trabalho tem - a maior parte das vezes o objeto olhado é transformado pela experiência. O começo é sem a palavra mas o trabalho de Jessica Stockholder não existe para além da palavra. Ideias, pensamentos e palavras são abstratas - não dizem respeito a um tempo. A experiência que se tem de um objeto e as formas inventadas e feitas são concretas, existem num agora - dizem respeito a um tempo.

 

A estrutura pictórica que um sujeito cria é sempre coerente. Aquilo que o sujeito transporta nele mesmo (pensamentos, vazios, desejos, angústias, alegrias, gostos, conhecimento) ao ser exteriorizado transforma-se em linguagem (que por definição é abstrata, não é um fenómeno físico). Para Stockholder a linguagem e a abstração têm de se prender a algo mais concreto e físico para se tornarem mais subtis. Por isso, Stockholder deseja trazer a abstração através da matéria e do momento específico. É uma subjetividade concretizada, sabe-se que está lá, que existe e que se realiza neste momento físico (formas criadas).

 

'My work is about transporting the object somewhere but bringing back at the same time. I am more interested in knowing where my subjectivity meets contexts and matter.', Jessica Stockholder

 

Ana Ruepp