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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ALBERT UDERZO (1927-2020)

 

 

Agradecemos ao nosso Amigo e consócio João Paulo P. Boléo, grande especialista da BD, este texto exclusivo.

 

Quando recebi de um amigo, na manhã de 24 de Março, a notícia da morte de Albert Uderzo, o meu primeiro comentário, a acompanhar a partilha da notícia, foi: «Esta é realmente uma notícia grande. Morreu Uderzo com um ataque cardíaco depois dos 90. É justo recordar que Goscinny foi bem menos feliz - morreu a fazer uma prova de esforço (!) por volta dos 50».

 

A carreira, colaboração, co-autoria, cumplicidade dos dois foi de tal maneira grande e marcante que ficaram indissociáveis. Não só, como sabe quem conhece minimamente as suas vastas obras, mas sobretudo - naturalmente - devido a Astérix.

 

Ao aceder ao "convite" do meu Amigo Guilherme d'Oliveira Martins, permitam-me algumas notas confessionais. Ao chegar lá a casa, no início dos Anos 60, pelo mão do meu irmão mais velho (o grande introdutor das histórias aos quadradinhos na família, com a cumplicidade do meu Pai), o primeiro livro do Astérix (Astérix le Gaulois), falámos nele a uma família belga amiga e naturalmente apreciadora de BD... e ainda não conheciam! Essa valiosa primeira edição acabaria por dar a volta à família, à rua, aos amigos... e desaparecer...

 

Sabemos (se e quando sabemos) que a autoria da banda desenhada, no caso frequente de um argumentista e um desenhador, tem as mais variadas nuances e contributos, desde o desenhador que recebe o guião "perfeito" e se "limita" a desenhá-lo (às vezes sem se verem!), até à intensa colaboração de ambos.

 

Sem pôr em causa o papel claro e fundamental de cada um, é evidente que havia ideias de ambos e uma intensa colaboração e cumplicidade entre Goscinny e Uderzo. Que já vinha de trás.

 

Hoje (penso no tempo em que também escrevi no Expresso artigos sobre estes autores, que não fui reler intencionalmente) é (mais) fácil recolher informação e reconstituir a obra de artistas como Goscinny (14/08/1926-05/11/1977, de origem polaca) e Uderzo (n. 25/04/1927, de origem italiana), convindo apenas sublinhar que Goscinny foi um genial argumentista com uma obra vastíssima e na sua maioria brilhante em paralelo e para lá da fecunda colaboração com Uderzo.

 

Mas hoje é Uderzo que justamente homenageamos. E assim como, por exemplo, Lucky Luke nasceu pela mão exclusiva de Morris mas foi com o talento de Goscinny que teve os melhores anos da sua vida, Uderzo também teve muitas obras e séries meritórias desde finais da Segunda Guerra Mundial, quando começou a sua carreira, mas Goscinny seria um companheiro decisivo. Embora não só.

 

O aspecto essencial a sublinhar, porém, aquilo que torna Uderzo um dos grandes nomes de toda a BD e dos artistas mais marcantes do nosso tempo é o seu excepcional jeito inato para o desenho desde pequeno, ele que até nasceu com seis dedos em cada mão (seria operado). E era daltónico.

 

Muito influenciado pelos desenhos animados de Walt Disney, revelou desde cedo um grande sentido do movimento e minuciosa expressividade, sendo também marcado pela pujante escola francesa de BD, nomeadamente Calvo, autor de La Bête est Morte, uma excepcional "versão" animalista da II Guerra Mundial.

 

As suas primeiras séries marcantes seriam Flamberge, Arys Buck, Belloy, etc., umas como autor completo, outras com argumentos de Charlier (que voltará a aparecer), e onde apuraria o seu estilo e criaria personagens que fariam parte da "arqueologia" dos seus sucessos maiores, bem como Jehan Pistolet e Luc Junior, primeiras colaborações com Goscinny, na década de 50, envidenciando nesta o seu talento para fundir o traço humorístico e o "realista".

 

Na segunda metade dos Anos 50, depois de um projecto inicial não totalmente conseguido, surgiria o grande "ensaio geral" antecessor de Astérix que seria Oumpah-pah, cinco histórias delirantes de 30 páginas com a amizade entre um índio e um caval(h)eiro francês, primeiro na revista "Tintin" (belga e francesa) e depois reunidas em álbum, o primeiro dos quais também seria muito lá de casa, com gags inesquecíveis, como o nome da figura que só tinha um dente...

 

E eis senão quando surge, em 1959, o projecto que irá revolucionar a História da BD, em especial  europeia: a revista "Pilote". E Goscinny e Uderzo farão parte dos fundadores, sendo o desenhador "pau para toda a obra" - evidenciando a importância da sua vasta e diversificada experiência, aqui só aflorada - que se vai manifestar especialmente em duas séries que mostram a sua versatilidade: Tanguy et Laverdure, com argumento do prolixo e importante Jean-Michel Charlier, em que mostra o seu talento "realista" e projecta a sua paixão pela aviação e pelas "máquinas" (também era um apaixonado por automóveis e condução), sem esquecer o toque de humor (em especial na figura de Laverdure); e, no registo que todos conhecem, Astérix.

 

A qualidade, relevância e influência de Astérix não precisam de ser sublinhadas, nem a importância que teve no processo de "dignificação" da BD na década de 1960, com o momento alto que foi o sucesso e impacto de Astérix et Cleópâtre (1963-1964, álbum em 1965), embora a BD não tenha atingido o estatuto no mundo da Arte que essa década anunciava e prenunciava, mas isso são outras histórias.

 

A Portugal, como Tintin, Astérix chegou cedo: na revista "Foguetão" (1961), de grande formato, um projecto efémero de Adolfo Simões Müller, em que Astérix surge a preto-e-branco ou a uma cor, tendo depois, como as outras séries (incluindo Michel Tanguy) que passar (com resumo!) para o "Cavaleiro Andante", na sua fase final.

 

Para uma primeira abordagem de Uderzo em Portugal sugiro: https://biblobd.blogspot.com/2018/10/albert-uderzo-ensaio-de-quadriculografia.html.

 

E Uderzo atinge aqui o cume do seu talento e da sua expressividade e fluência, a capacidade de transmitir sentimentos e emoções mesmo em personagens de costas, os gags visuais, uma inesgotável panóplia de recursos que é redundante sublinhar.

 

Não é a altura para uma reflexão mais aprofundada sobre Astérix, as múltiplas leituras de que foi objecto, sendo considerada tanto uma série progressista como conservadora, nem sobre os seus muitos méritos, os anacronismos, o humor de repetição intra-aldeia, as personagens pitorescas, os gags linguístico-visuais, etc., etc., nem sobre a sua incontornável presença na cultura contemporânea.

 

Uma coisa é certa. Uderzo também fez parte da concepção e não apenas da ilustração, mas como argumentista não é Goscinny, e se o primeiro álbum depois da morte deste (Le grand fossé, 1980) ainda tinha a força da dupla, ela foi-se diluindo, até Uderzo deixar de desenhar - a operação aos dedos deixara marcas...

 

Sobre os "apócrifos", com argumento de Jean-Yves Ferri e desenhos de Didier Conrad, de que saiu recentemente o quarto, não levem a mal que não me pronuncie, preferindo ir, com muito gosto, revisitar a série quando era feita por Goscinny e Uderzo, de que me permito, do fundo da memória, destacar Astérix et les Goths, A. Gladiateur, A. et Cléopâtre, A. chez les Bretons, A. légionnaire (o meu preferido), La Zizanie, Le domaine des Dieux... 

 

João P. Boléo

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

“O Cavaleiro Andante” publicou em 1957 e 1958, da autoria de Fernando Bento, a série “Emílio e os Detectives”, com base no célebre livro homónimo de Emil Erich Kästner (Dresden, 1899 – Munique , 1974). Hoje, é extraordinário, ver neste exemplo como a escola do “Cavaleiro Andante” foi um exemplo vivo de pedagogia da liberdade. Kästner foi escritor, jornalista e poeta que desenvolveu a sua atividade durante a República de Weimar. Com o início do regime nazi, foi um dos poucos intelectuais proeminentes contrários à situação que permaneceram na Alemanha, mas as suas obras fizeram parte da lista de livros queimados na noite de cristal e considerados como antinacionais. Apesar de várias represálias, pôde trabalhar sob um pseudônimo como jornalista e autor de diversos filmes de comédia. Com o fim da Guerra, em 1945, Kästner regressou à escrita com o seu próprio nome, tendo sido eleito em 1951 presidente do PEN Clube da RFA. Tomando posição contra o rearmamento, solidarizou-se com os movimentos pacifistas e militou na causa antinuclear.  Foi assim um homem de cultura devotado às causas da liberdade e dos direitos humanos. A sua popularidade deveu-se principalmente aos seus livros infantojuvenis, como “Emílio e os Detectives” (1929), “A Sala de Aula Voadora (1933) e “Cachos e Tranças” (1949), além de um vasto conjunto de poemas, epigramas e aforismos. Uma de suas mais conhecidas coletâneas de poesia, foi publicada pela primeira vez em 1936 pela editora suíça Atrium sob o título de “A Pequena Farmácia do Dr. Erich Kästner”. Em 15 de outubro de 1929, foi lançado o livro “Emílio e os Detectives”, por sugestão de Emil Jacobsohn. O livro constituiu um enorme sucesso, teve mais de dois milhões de cópias vendidas só na Alemanha e até hoje já foi traduzido para cinquenta e nove idiomas. O romance decorre na cosmopolita cidade de Berlim de entre guerras, constituindo um verdadeiro roteiro e uma homenagem aos berlinenses, aos seus monumentos e estrutura urbana e sobretudo aos cidadãos. O espírito de aventura e a alegria dos seus protagonistas contrasta com o clima depressivo e bélico que se desenvolvia e que teve os efeitos dramáticos conhecidos. Não podemos ainda esquecer a qualidade das ilustrações de Walter Trier, que foi um ingrediente extraordinário para tornar este livro como referencial, não só na Alemanha, mas na Europa. A versão cinematográfica de “Emílio e os Detectives”, dirigida por Gerard Lamprecht com Billy Wilder, foi um grande sucesso de 1931. No entanto Kästner considerou que o filme não era fiel ao espírito do livro… De qualquer modo, pode dizer-se, ao menos duas coisas, é verdade que a versão cinematográfica não dispensa a leitura do livro, para a compreensão do seu verdadeiro espírito, há, de facto, aspetos que divergem do espírito do autor; mas, por outro lado, o filme foi grandemente responsável para multiplicar o sucesso do livro, atraindo muitos leitores, que assim descobriram o caráter único e inovador do romance e do seu fantástico espírito. E é neste ponto que merece referência especial a versão de Banda Desenhada de Fernando Bento realizada para o “Cavaleiro Andante”. Com “Beau Geste”, estamos perante uma das obras-primas daquele que foi certamente, ao lado de Eduardo Teixeira Coelho, um dos maiores artistas portugueses da Histórias de Quadradinhos. Seguindo de perto o romance de Kästner, procurando ser-lhe fiel, apresenta um traço inconfundível e uma narrativa muito viva e original, que não só atrai para a leitura da obra que lhe serve de base, como demonstra, com clareza, a importância do espírito de liberdade e aventura que contempla, em contraste com a lógica belicista e não-democrática. Dir-se-á, pois, que “Emílio e os Detectives” prenuncia o melhor espírito do que viria a ser a Alemanha federal – e hoje constitui uma homenagem à cidade de Berim, que se tornou símbolo da cultura de liberdade europeia!

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CLAIRE BRETÉCHER OU A BD NO CONSULTÓRIO DO DR. FREUD…

 

Nascida em Nantes em 1940, Claire Bretécher é na BD francesa um caso muito especial. Com vinte três anos encontra René Goscinny no auge da sua pujança criadora e o grande mestre, pai de Astérix ou do Petit Nicolas, viu em Claire a sua capacidade criadora, e o talento feminino, e criou a história hilariante a absurda “Le Facteur Rhésus”, que não corre bem. Mas em 1969 aparece no “Pilote” a personagem Cellulite. Está mais conforme com o estilo que Claire deseja para si. A partir daí o sucesso não parará. O traço que sempre apresentou era inconfundível. E era uma observadora mordaz dos hábitos e costumes da sociedade francesa. Roland Barthes classificá-la-ia como a “maior socióloga do ano” em 1976, Pierre Bourdieu referiu a força etnográfica de Agrippine, Umberto Eco não poupou elogios à originalidade desta artista singularíssima. Participa esporadicamente no “Spirou” e é fundadora de “L’Echo des Savanes” (1972) uma experiência inovadora na BD. Depois do feminismo avant-la-lettre vem a dimensão pioneira da ecologia. Mas nunca perde o sentido crítico e o distanciamento dos entusiasmos pueris. Trabalha no mensário “Le Sauvage” e cria para o “Nouvel Obs,” de Jean Daniel “Les Frustrés” (1973). Então torna-se uma celebridade europeia e mundial. Retrata cruelmente intelectuais, parisienses, militantes de esquerda, soixante-huitards retóricos, snobs seguros das suas convicções, mas cheios de nevroses patéticas… “Ela é o nosso contrapoder” dirá Jean Daniel. E tinha razão. A rir, punha tantas vezes a nu a fragilidade de algumas propostas salvíficas de outras páginas da revista. No princípio dos anos 80 tratará das angústias da maternidade e depois passará para o tema da adolescência com a inconfundível Agrippine (1988). Tudo isto acompanhado com grande sucesso nas tiragens, nas edições e no reconhecimento em Angoulême (1982), capital da BD francesa. Apesar de se tornar referência dos movimentos sociais do momento, Claire preservou sempre a sua independência crítica, sem compromissos militantes, para poder ver o lado ridículo de tudo, sem esquecer uma responsabilidade ética e cívica. Em 2015, finalmente, teve direito a uma exposição digna desse nome no Centro Pompidou, mas ainda faltam muitos trabalhos, muitas análises de uma obra significativa e surpreendente de uma grande desenhadora. Nos últimos anos preparava uma mostra de conjunto, que a doença e o desgosto da morte de Guy Carcassone, seu marido, impediram. Certamente que o público exigi-la-á em breve. Não me canso de voltar a folhear quarenta e cinco anos de uma fantástica produção… Claire Bretécher ainda deixou muito para pensar…

 

      

Agostinho de Morais

 

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de dezembro de 2019

 

No âmbito do centenário de Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), foi com muito gosto que aceitei o convite do Clube Português de Banda Desenhada, com sede na Amadora, para, mais uma vez, partilhar despretensiosas reflexões nessa prestigiada instituição.

 

LEMBRAR EDUARDO TEIXEIRA COELHO
Desta vez, com José Ruy, mestre indiscutível da nona arte, e João Manuel Mimoso, cultor desse apaixonante tema, tratou-se de homenagear Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), referência fundamental nas histórias aos quadradinhos em Portugal, o mais internacional dos nossos autores, cujo centenário do nascimento ocorre em 2019. Se é certo que a popularidade da Banda Desenhada em Portugal não oferece dúvidas, a verdade é que no panorama mundial não temos referências essenciais reconhecidas. Mas tal não significa que passe despercebido o lugar de Portugal – e, no tocante a autores nacionais, Eduardo Teixeira Coelho (ETC) é uma exceção, uma vez que trabalhou em França e em Itália, a partir de 1953, ano em que “O Mosquito” (1ª série) deixou de se publicar. Então teve uma atividade intensa em relevantes publicações dos países onde esteve, destacando-se pessoalmente pelas qualidades demonstradas no plano artístico e no domínio das narrativas ilustradas, com uma identidade própria e uma especial originalidade. No entanto, quando saiu de Portugal já atingira uma inequívoca maturidade, afirmando-se como um autor reconhecido por todos pela sua excecional qualidade. Nascido em Angra do Heroísmo, começou a colaborar no “Sempre Fixe”, com apenas 17 anos, e a partir de 1943 vemo-lo nas páginas de “O Mosquito”, ao lado de Raul Correia, constituindo uma dupla influente e talentosa. “O Mosquito” foi lançado em 1936, dirigido por António Cardoso Lopes (Tiotónio, autor de Zé Pacóvio e do Grilinho) para responder a “O Papagaio” de Adolfo Simões Müller, criado em 1935 – onde foram publicadas as primeiras aventuras de Tim-tim, tendo na sua equipa pessoas como Júlio Resende e José Viana. “O Mosquito” atingiu uma tiragem de 70 mil exemplares (o que é impressionante), ao preço de cinquenta centavos, metade de um escudo, o preço da concorrência. Foi inicialmente semanário até 1942, e depois bissemanário, às 4ªs e aos sábados, dias em que os liceus não tinham aulas à tarde… “O Mosquito” publicou estórias de autores britânicos, como Roy Wilson; espanhóis, como Jesus Blasco (criador de Cuto), americanos como Harold R. Foster (autor de “Príncipe Valente”) – além dos portugueses ETC, Vítor Péon, José Garcês e José Ruy. A lista de publicações de ETC em “O Mosquito” é notável, devendo referir-se “Os Guerreiros do Lago” (1945); “Os Náufragos do Barco sem Nome” (1946); “Falcão Negro” (numa tentativa de lançar um herói, que pudesse perdurar, mas apenas se manteve até de 1946 a 1949): “O Caminho do Oriente” (1946-48); “Sigurd, o Herói” (1946); “A Lei da Selva” (1948); “Lobo Cinzento” (1948-49); “A Torre de D. Ramires” (adaptado da “Ilustre Casa” de Eça); “O Defunto” (1950); “Suave Milagre” (do conto também de Eça); “Os Doze de Inglaterra” (1950-51) e “A Ásia” (1952). Assina algumas capas do “Cavaleiro Andante”. O esmero e a qualidade vão-se afirmando, quer no tratamento gráfico, quer nas narrativas e na escolha dos temas. A vida dos celtas e dos povos nórdicos, a presença dos animais na natureza, a História de Portugal, as tradições culturais – de tudo encontramos numa versatilidade fantástica e numa inesgotável capacidade de trabalho, sem cedências no tocante à exigência artística.

 

UM PORTUGUÊS ALÉM-FRONTEIRAS
O caso de “Os Doze de Inglaterra” merece atenção. Trata-se de uma das obras-primas de ETC – recentemente reeditada (Gradiva, 2016), graças ao inexcedível trabalho de recuperação de José Ruy, sobre o episódio relatado em “Os Lusíadas” no canto VI por Fernão Veloso, no qual se contam as aventuras do célebre “Magriço”, Álvaro Gonçalves Coutinho, que passa por mil aventuras e glórias e chega a Inglaterra, quando todos os onze companheiros desesperavam, para defender, com sucesso, a honra de doze donzelas ultrajadas, que haviam solicitado o auxílio de tão intrépidos cavaleiros. ETC baseou-se em Camões de na obra de António Campos Júnior, “Ala dos Namorados” (Edições Romano Torres, 1905) e daí resultou o magnífico álbum disponível nas livrarias. Nele se sente a influência de Harold Rudolf Foster (1892-1982), o célebre autor do “Príncipe Valente”, série iniciada em 1937. Aliás, os anos trinta são decisivos para o desenvolvimento moderno dos “comics” nos Estados Unidos e dos quadradinhos (BD) na Europa. Em 1939 foi criado o “Super-homem”, graças a Jerry Siegel e Joe Schuster, e em 1928 nasceu o Rato Mickey de Walt Disney, para concorrer com o Gato Felix de Otto Messmer (1919). Dez anos antes nascera Tintin e a Escola da Linha Clara, com Hergé, e a revista Spirou (da chamada Escola de Marcinelle) surge em 1938… Voltando a Harold Foster e a ETC, ambos dispensam os balões para os diálogos, enquanto Foster escolhe o período compreendido entre o final do Império Romano e o início da Idade Média, integrando-se no ciclo bretão que envolve a tradição céltica, o rei Artur, os Cavaleiros da Távola Redonda, Camelot, Merlin, Sir Galahad e Lançarote do Lago, o português escolhe o início da dinastia de Avis e a Ínclita Geração, invocando a Rainha vinda de Inglaterra e a origem da mais antiga aliança do mundo. Pode dizer-se que ETC atinge aqui a sua maturidade, o momento mais fecundo e de mais nítido domínio da ilustração. Há uma articulação perfeita entre a evolução da aventura e a apresentação das imagens, que se sucedem a um ritmo cinematográfico (como o autor desejava), impulsionando o movimento, a intensidade da identificação e a representação das personagens. E se as influências de H. R. Foster são evidentes, ETC cedo se libertou das amarras de qualquer seguidismo, demonstrando a sua excecional personalidade artística.

 

AO ENCONTRO DO ELDORADO
Quando ETC decide emigrar para França em 1953 vai usar o pseudónimo Martin Sièvre e colabora no semanário “Vaillant”, depois “Pif Gadget”, até 1970, com “Ragnar, o Viking”, “Till Ulenspiegel”, “Davy Crockett”, “Yves Leloup”, “Robin Dubois”, “Le Furet”, “Ayak”, “Erik le Rouge” e “Pipolin les Gaies Images” (1957-63), para os mais novos. É um período de grande produtividade, notando-se uma evolução na técnica usada, que corresponde à influência sentida pela moderna Banda Desenhada europeia, que ETC bem conhecia. No entanto, as grandes qualidades mantêm-se evidentes, continuando a ser reconhecido pelos melhores cultores. Em Portugal foi o “Mundo de Aventuras” que publicou a tradução de algumas dessas obras. A partir de 1970, trabalha em Itália, também com reconhecimento, sendo premiado como o prestigiado “Yellow Kid” do festival de Lucca. Jorge Molder, no magnífico Catálogo da Exposição organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em fevereiro de 2000, “Banda Desenhada Portuguesa Anos 40 – Anos 80”, comissariada por João Paulo Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, faz justiça à importância da obra de ETC, apresentando-se na capa uma genial ilustração tirada de “O Mosquito”, número 673 (1945).

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A LEMBRANÇA DO “DIABRETE”…
30 de julho de 2019

 

Há oito dias, lembrei uma capa de “O Mosquito”, hoje trago-vos uma velha capa do “Diabrete”, título marcado pela direção de Adolfo Simões Müller (1909-1989), revista nascida em janeiro de 1941. Como sabemos, foi “O Papagaio”, no tempo de Simões Müller, que publicou pela primeira vez em Portugal as aventuras de Tintin. Saído da Renascença, o professor e jornalista tentaria levar consigo as aventuras do repórter belga, o que apenas conseguiu depois de muita persistência para convencer Hergé. Não se esqueça que foi por intermédio do Padre Abel Varzim (1902-1964) que foi conseguida pelo Monsenhor Lopes da Cruz (1899-1969) a tradução pioneira para português das aventuras de Tintin, na altura designado como Tim-tim. Portugal não só foi o primeiro país não francófono a publicar a tradução dessa obra, que se tornaria essencial na história da Banda Desenhada e das modernas Artes Plásticas (colocando Hergé a par de Andy Wharol e Roy Lichtenstein), mas também porque foi onde pela primeira vez se introduziu cor nessa narrativa ilustrada. O “Diabrete” durou até à última semana de 1951 e deu lugar ao “Cavaleiro Andante”. E podemos dizer que Fernando Bento (1910-1996), também gráfico do “Cavaleiro Andante”, foi essencial no caminho seguido pelo “Diabrete”, que se traduziu num claro aperfeiçoamento das histórias de quadradinhos em Portugal, que ganharam uma dimensão que pode comparar-se à melhor evolução extra muros. Com o tempo, a imprensa juvenil foi ganhando maior importância na ilustração e na ligação entre a narrativa e o desenho. Lembremo-nos de que “O Papagaio”, revista fundada em 1935, começou por ter pouca ilustração, apesar da qualidade se ter afirmado desde muito cedo, designadamente com um dos grandes artistas portugueses do século, Júlio Resende (criador de Matulão e Matulinho)… É muito significativo que em Portugal se tenha desenvolvido o género, em ligação estreita com o modernismo e os caricaturistas, desde Almada Negreiros, Stuart, Cottinelli Telmo, Carlos Botelho ou Emmérico Nunes… É essa a genealogia que deve ser lembrada e que chega ao nosso melhor século XIX com Rafael Bordalo Pinheiro. Desde Zé Povinho e Maria Paciência, a Quim e Manecas, indo aos apontamentos de Fernando Bento com Filipim – podemos dizer que há em Portugal uma evidente repercussão da melhor criatividade europeia… 

 

O apontamento que hoje damos é do “Cavaleiro Andante” (1957), mas vem na linha do muito que já encontramos de F. Bento no “Diabrete”…

 

Não resisto ainda à tentação de uma nota final. Tenho estado em permanente contacto com a BBC. Guardo de Conrado o prudente silêncio. Aguardo serenamente sobre qual o caminho escolhido por Boris Johnson – se a pura ilusão se o realismo. E como ele conhece bem a biografia de Winston Churchill, seria bom que relesse com cuidado o discurso de Zurique de 19 de setembro de 1946, de fio a pavio. E sugiro que leia mesmo tudo, não a parte sobre a Europa, mas sobre a Inglaterra, a paz e o desenvolvimento. O Império britânico não é uma abstração histórica. Ter influência real, obriga a ter os pés no chão… Se recuso a mera ironia sobre cabeleiras, obrigo-me a levar a sério a minha anglofilia. O erro maior já foi cometido: fazer um referendo absurdo que só dividiu os britânicos. Por isso, não há referendos constitucionais na Suíça e as decisões fundamentais têm de contar com a maioria das duas câmaras, alta e baixa, a maioria dos cantões e a maioria da população. O que começa mal tarde ou nunca se endireita. Estive ontem aqui em casa a tomar uma bela chávena de chá com skones de receita da minha mãe com os meus queridos amigos Gregor Mc Gregor e Éamon Patrick Longford – que estão deveras apreensivos, temem pelo futuro do Reino Unido, por uma cegueira que corresponde aos tempos mais negros e incertos… Mc Gregor lembra que não há gloriosa Britannia sem a coragem e a inteligência escocesas. E Longford disse ter erradamente julgado que o velho clima de guerra, que tantas vidas custou, tinha terminado, esqueceu-se o que aconteceu na trágica grande fome… Saíram daqui às tantas, com muito pessimismo, mas voltaremos ao tema.

 

Escolhi para terminar o belo poema da Fiama Hasse Pais Brandão, que ontem lembrámos:

 

“O Canto da Chávena de Chá”

Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (IV)…
16 de julho de 2019

 

Falámos talvez pouco de Hergé (1907-1983). Ele é o herói. A revista que hoje vos trago é de 1966. O fenómeno de sucesso ocorre essencialmente depois dos anos quarenta e cinquenta, graças aos continuados do journal Tintin e à nova apresentação das aventuras do jovem repórter em álbuns muito cuidados quer no tocante à qualidade do argumento, das ilustrações e do colorido. Hergé teve a intuição e a sabedoria, o talento e a arte, de compreender que era necessário criar um estúdio profissional servido de uma equipa de elevadíssima qualidade. Já referimos o papel desempenhado por E. P. Jacobs e por Jacques Martin, entre outros, o que permite verificar não haver comparação entre as versões originais do “Petit Vingtième” e os álbuns coloridos, que irão conhecendo aperfeiçoamentos. Mas para que tudo isso fosse possível é preciso voltar a citar Raymond Leblanc (1915-2008), o editor de visão larga que acreditou em Hergé e construiu uma máquina de grande eficácia que lançou o herói da BD… A chegada à Lua de Tintin é reconhecida hoje como dos exercícios mais rigorosos de ficção científica, uma pérola de antecipação… De Gaulle afirmou que só tinha um concorrente internacional, que se chamava Tintin. A literatura francesa e mundial incorporam a figura de Tintin. François Mauriac lamentou, porém, os gostos da geração Tintin, mas enganou-se redondamente, uma vez que não só líamos Tintin, mas também nos preparávamos para ler Thérèse Desqueyroux… O tema da imagem entrava na ordem do dia – no cinema, na fotografia, na banda desenhada – e não largava a importância da narrativa… E Edgar Morin disse em 1958: “Tintin sauvegarde la liberté illimitée du rêve de l’enfance, mais en orientant vers les rêves déjà socialisés du cinéma d’aventure pour adolescents et adultes (…) dans les rapports imaginaires de Tintin, le petit super-boy est roi »…  Mas havia mais : Blake e Mortimer eram a melhor introdução aos melhores policiais. Alix Graccus na companhia do jovem egípcio Enak levava-nos para os clássicos da República Romana. Albert Weinberg (1922-2011) fazia-nos entrar no mundo da aviação de vanguarda com Dan Cooper, antecâmara da ficção científica, Jean Graton levava-nos para o automobilismo, e a lista é muito longa: Modeste e Pompon (Franquin), Oumpah-Pah (Uderzo e Goscinny), Corentin (Cuvelier), Bob e Bobette (Vandersteen), Chick Bill (Tibet), Pom e Teddy (Craenhals), Jari (R. Reding), Ric Hochet (Tibet e Duchâteau), Guy Lefranc (com a marca indelével de J. Martin), Le Chevalier Blanc (L. e F. Funcken), Spaghetti (Dino Attanasio), Clifton (Macherot), Taka Takata (Jo-el Azara), Bernard Prince (Hermann), Bruno Brazil W. Vance), Cubitus (Dupa), Olivier Rameau (Dany), Luc Orient (Eddy Paape)… Mas nesta imensa lista, não podemos esquecer Greg o argumentista inesgotável, a aparecer em toda a parte, com uma prodigiosa imaginação.

 

Eis o ponto onde ficamos. Mas não esquecemos os nossos grandes como Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910.1996), Vítor Péon (1923-1991), José Garcês (1928) ou José Ruy (1930)…, mas esses contos serão outros aos quais regressaremos…

 

Para terminar hoje, cito um belo poema do meu Amigo Ruy Belo – «Portugal Futuro»…

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (III)…
9 de julho de 2019

 

Prossigo, à medida que a temperatura ambiente vai aumentando, a sistemática análise da minha coleção de revistas "Tintin" (e agora também “Cavaleiro Andante”) com grande prazer. Se vou agora ao “Cavaleiro Andante” é para confirmar a projeção da Escola de Bruxelas em Portugal. Depois de Edgar P. Jacobs (1904-1987) e de Blake e Mortimer, bem como de Jacques Martin, agradecendo as muitas mensagens recebidas de apoio e de recordação – até porque ambos estiveram sucessivamente nos estúdios da produção de Tintin com Hergé - falar-vos-ei hoje de Jean Graton (1923) e de Tibet e A. P. Duchâteau. Já referi aqui, em tempos, “O Piloto sem Rosto”, que se estreou na revista “Tintin” em janeiro de 1959. Tudo se passa por causa do mistério de um condutor incógnito que treina em Francorchamps numa viatura excecionalmente rápida que ameaça o domínio de Michel Vaillant (em português, na altura, Miguel Gusmão) no Grande Prémio do Mónaco. E a descoberta da identidade do misterioso piloto sem rosto é surpreendente… Trata-se de um dos álbuns da autoria de Jean Graton que é reconhecido como de maior qualidade e com uma narrativa muito intensa. Esta aventura foi publicada pelo “Cavaleiro Andante” a partir de 2 de janeiro de 1960 nos números 418 a 462, sendo a capa que hoje reproduzimos do dia 16 de janeiro. Desde cedo a presença entre nós deste autor foi sinal de grande interesse e de rápido sucesso alcançado. Em 1957, “Tintin” publicou histórias curtas de quatro páginas dos Vaillant – que em Portugal foram divulgadas no “Falcão”. Em 1959 foi dado à estampa o primeiro álbum “Le Grand Défi”, que o “Tintin” publicou em continuados em 1958 e o “Cavaleiro Andante” publicara dos números 357 ao 406 em 1958-1959. Graton vai criar um conjunto interessante de personagens – o clã Vaillant, Steve Warson e Leader, o adversário maior da marca francesa etc. – e vai mesmo incluir corredores verídicos como Jacky Ickx ou Alain Prost. Michel Vaillant participou no Rali de Portugal (“Cinq Filles dans la Course”, 1971) e voltou à capital portuguesa em “O Homem de Lisboa” (1984), tendo ainda estado em Macau (“Rendez-vous à Macao”, 1983). Alfredo César Torres será uma personagem da narrativa, e Pedro Lamy surgirá em “A Febre de Bercy” de 1998. Em 2007 saiu o Álbum número setenta e Philippe Graton filho do criador vai transformar profundamente a produção editorial, que passa para a esfera da Dupuis. Pode dizer-se que na escola da “linha clara”, Jean Graton é um caso especial, uma vez que escolhe uma temática específica de grande impacto, contribuindo para a divulgação do desporto automóvel e da produção europeia. No campo desportivo, há outro caso: o de Raymond Reding (1920-1999) autor das aventuras de Jimmy Torrent e seu discípulo Jari, no campo do ténis, e Vincent Larcher bem como Éric Castel no domínio do futebol. No âmbito da literatura policial, refiram-se o escritor André-Paul Duchâteau (1925) e o desenhador Tibet (1931-2010), de nome Gilbert Gascard. Ambos são referências fundamentais na Banda Desenhada. Ric Hochet, como jornalista e detetive (ao lado do impagável Sigismond Bourdon), e Chick Bill, herói de humor no Far-West, são referências bem marcantes do traço inconfundível de Tibet. Ric Hochet estreia-se em Portugal, sob o nome de João Nuno, em 2 de julho de 1955, no “Cavaleiro Andante”. O “Zorro” chamar-lhe-á Mário João… De notar que no caso de Ric Hochet temos não só as aventuras, mas também os enigmas policiais, de que serão referência os textos publicados no jornal “Foguetão”, como apelo à perspicácia dos jovens leitores. Esta diversidade faz desta dupla de autores uma referência muito relevante e um exemplo de poder atrair o público para divertimentos de ficção policial, que tem sempre assinalável popularidade. E não termino aqui esta série de crónicas… Há ainda alguma coisa mais a acrescentar?


Mas na tradição antiga desta crónica, deixo-vos hoje com o muito célebre e sério
Romance de Tomasinho Cara-Feia de Daniel Filipe (1925-1964)


«Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?


Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destino.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.


Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.


— E nunca mais voltará!»      

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (II)…
2 de julho de 2019

 

Continuei a folhear a minha coleção de revistas "Tintin" com grande prazer. E centrei-me, como prometido, em Edgar P. Jacobs (1904-1987) e em Blake e Mortimer. Com uma inclinação musical evidente para a ópera, Jacobs vai ingressar no estúdio de Hergé nos anos quarenta para dar cor e reforçar o rigor cenográfico das aventuras de Tintin. Assim colaborará na reedição de Tintin no Congo, Tintin na América, Cetro de Otokar e Lotus Azul, bem como na feitura de Sete Bolas de Cristal e Templo do Sol. Vindo de realizar uma versão adaptada de Flash Gordon em virtude da proibição alemã de publicação dessas aventuras e de dar à estampa na revista “Bravo” “Rayon U”, Jacobs vai abalançar-se na criação de personagens originais. Escolhe um género que caminha para a ficção científica, mas também aproveita ingredientes policiais e ligados a uma guerra dos mundos. Apesar do trabalho intenso na profunda renovação da obra de Hergé, o início da publicação da revista Tintin em 1946 permite o surgimento de "O Segredo do Espadão" com Blake e Mortimer e de "O Mistério da Grande Pirâmide" (1950). O sucesso das novas pranchas, o caráter muito  próprio do autor, dá-lhe um papel fundamental. Mas quando Herge recusou a partilha de rendimentos a propósito dos livros de Tintin, Jacobs seguirá o seu caminho próprio - mantendo porém a amizade com Herge, que o faz aparecer como Jacobini em "O Caso Tournesol". Seguem-se a obra-prima “Marca Amarela” (1956), depois “O Enigma da Atlântida” (1957), “SOS Meteoros” (1959), “Armadilha Diabólica” (1962) e “O Caso do Colar” (1967). É uma sucessão extraordinária e Adolfo Simões Müller no “Foguetão” publica em cima da hora “Armadilha Diabólica”, que permitirá abrir caminho a um grande grupo de admiradores portugueses que se tornam fans incondicionais dos heróis britânicos… O trabalho agora anunciado por uma equipa dirigida por François Schuiten, “Le Dernier Pharaon” constitui uma renovação profunda da inspiração de E. P. Jacobs, numa espécie de simbiose entre a moderna Banda Desenhada belga e a tradição dos anos cinquenta… Devo ainda referir Jacques Martin (1921-2010), que também esteve com Hergé na fantástica equipa que foi aperfeiçoando a produção de Tintin, como caso único de rigor na escolha de temas, na certeza do traço, no equilíbrio entre o imediato e a duração, na extrema qualidade na feitura dos álbuns (p. ex. Tintin au Tibet e Coke en Stock). Se nos anos quarenta e cinquenta E. P. Jacobs é um artífice indispensável, Jacques Martin, durante cerca de vinte anos representa uma capacidade especial de consolidar essas marcas de inconfundível exigência – que são bem evidentes na produção própria de Martin, através de Alix (1948) e de Lefranc (1952). Com uma marcada personalidade narrativa e artística, pode dizer-se que ao lado dos grandes nomes da “linha clara” ou da Escola de Bruxelas, enquanto E. P. Jacobs está na tradição de H. G. Wells, Jacques Martin empenha-se no relato histórico na linha da escola do romance que vai de Walter Scott até Alexandre Dumas. Alix é um modelo de herói romântico que nos permite, a um tempo, compreender a herança greco-latina com enorme sentido pedagógico (p. ex. Alix Intrépide e La Sphinx d’Or). Mas, além desta dimensão altamente meritória de pendor educativo e de culto da investigação histórica, Jacques Martin afirma-se como um excelente argumentista na conceção de Lefranc, onde se juntam o requinte dos cenários e dos pormenores da vida quotidiana à urdidura de um bom enredo policial (p. ex. Le Mystère Borg). Mas sobre a ligação ente mistério e mundo moderno da técnica falaremos na próxima crónica, sobre A. P. Duchateau, Tibet e Jean Graton…

 

Em tempo de visitas nostálgicas, não resisto a citar o meu amigo Ruy Cinatti

 

Memória Amada
Para Alain Fournier

 

Vinham de longe em bandos. Acorriam
Jubilosos. Fantasias
De parques pluviosos
E, descendo,
Os patos bravos lançados
Entre juncos, salgueiros e veados.
Tarde,
Muito tarde, uns olhos tais
Haviam de aparecer, sobressaltados
Entre enigmas e um floco de cabelos
Osculado pelo vento. Alegorias...
Do agora ou nunca e do momento
Definido. Trégua impensada,
Insuspeita, no perfume alado
Da página dobrada e abandonada
Dum livro interrompido. Sinto a dor fina,
Finamente atravessada e suave,
- Quase saudade.

 

Ruy Cinatti, in 'O Livro do Nómada Meu Amigo'   

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS…
25 de junho de 2019

 

Dei-me numa tarde destas, em que o Verão foi fazendo caretas, a folhear revistas antigas da minha coleção do jornal “Tintin” belga. Para os mais novos, recordo que a minha geração do “Cavaleiro Andante” (que já não apanhou diretamente o “Tintin” português de Dinis Machado e Vasco Granja, e que tomou contacto como Corto Maltese já numa adolescência avançada) teve uma especial ligação ao “Tintin” belga e à Escola de Bruxelas. Lembro, por isso, longos debates no Pedro Nunes sobre o que líamos e sobre quais os nossos autores preferidos. Na idade em que estávamos havia dúvidas – se é verdade que Hergé era indiscutível, o certo é que a sua riquíssima equipa dava-nos pano para mangas para dizermos de nossa justiça sobre aquilo que mais ou menos nos enchia as medidas. Nestas incursões de agora comecei por voltar a admirar os impecáveis desenhos das indumentárias militares, dos estandartes e das histórias seiscentistas de Liliane (1927-2015) e Fred Funcken (1921-2013). Comecei por aí e deleitei-me. Voltei a ler tudo… Os dois colaboraram no “Spirou” e no “Tintin” e deram vida ao Capitan de Castaignac (a partir de 1963), um gascão tornado agente secreto ao serviço do Cardeal Richelieu (e nós gostávamos de 1640 e do Cardeal pouco amado por Dumas). E também é deles Doc Silver (1967) um médico americano de óculos com aros redondos num “western” deveras atípico, com argumento de Yves Duval (1934-2009). E se falo de Duval, devo lembrar os muitos argumentos que escreveu, além de alguns do Capitan, sobretudo os Franval com desenhos de Edouard Aidans (1930-2018) – destacando-se a célebre aventura “Destination Desertas”, passada nos Açores. Duval fez também os argumentos de Howard Flynn (1964), o jovem oficial da marinha real britânica, com desenho de William Vance (1935-2018). E sem perder o fio desta notabilíssima meada, Vance foi dos mais fecundos autores da nossa predileção – dele são Ringo, a continuação de Bob Morane (depois de Gérald Morton o ter deixado), o importante Bruno Brazil (com argumento de Greg, sob o pseudónimo de Louis-Albert), e o famosíssimo “XIII”, com argumento de Jean Van Hamme (1939) – chegado aos nossos dias. Ainda no elenco do casal Funken não posso esquecer “Le Chevalier Blanc” (“Sans Peur et Sans Reproche”, 1954) e “Les Belles Histoires de l’Oncle Paul” (1951). As histórias verdadeiras tinham uma predileção especial – e assim vencemos os nossos professores renitentes. Se repararmos bem nesta lista encontrámos uma boa parte da equipa que Hergé constituiu graças ao investimento e à coragem inovadora de Raymond Leblanc (1915-2008), editor de “Tintin” a partir de 1946 e responsável pelo desenvolvimento da “linha clara”. E se falei de Greg (1931-1999), Michel Louis Albert Regnier, devo dizer que ele foi um dos mais prolíficos e influentes criadores das escolas belgas. É impressionante a lista das suas personagens – que se devem antes de tudo à influência, cumplicidade e amizade de André Franquin (1924-1997). Franquin é um nome grande ligado a Spirou, Fantasio e Marsupilami, a Gaston Lagaffe ou a Modeste et Pompon (os nossos Lolocas e Pompom)… Greg colaborou em centenas de pranchas, designadamente de Modeste e de Spirou. Com Lolocas Greg foi assim uma presença muito antiga do “Cavaleiro Andante”. De 1958 ao início dos anos oitenta, Greg foi argumentista com os principais desenhadores da linha clara: Tibet (1931-2010), Maréchal (1922-2008), Mittéï (1932-2001), Paul Cuvelier (1923-1978), Hermann (1938), Eddy Paape (1920-2012), Dany (1943), Jo-El Azara (1937), Turk (1947), Bob de Groot (1941), Claude Auclair (1943-1990), Aidans, Derib (1944), Fahrer (1939)  ou Dupa (1945-2000). Está aqui a fina-flor! Jo-El Azara é o criador do impagável Taka Takata e fez renascer o Coronel Clifton, e quanto a Dupa, temos o extraordinário Cubitus, o cão felpudo que se tornou um ícone. Greg foi autor de mais de 250 álbuns: a lista é impressionante e fala por si. Zig, Puce e Alfredo criados em 1925 por Alain Saint-Ogan renasceram com Greg, mas o caso de Achille Talon merece nota especial. Este apareceu em 1963 no jornal “Pilote” e René Goscinny (o inventor de Astérix, de Iznogoud e do Petit Nicolas, e argumentista de Lucky Luke com Morris – 1923-2001) saudou assim a aparição da nova personagem: “Achille Talon n’en a cure; sûr de lui, il n’hésite jamais à se jeter à corps perdu dans les situations les plus difficiles, avec une remarquable inefficacité”. Que melhor definição poderia ser feita de um herói dos quadradinhos? Misto de realidade e de sonho, motivo de reflexão e de riso, motivo para não nos levarmos demasiado a sério… Não vou esgotar hoje este meu folhear de páginas antigas. Já está tudo espalhado no chão. Que fantástico mar de desenho e de tinta… A maior parte dos autores referidos já não está entre nós, mas a sua memória está bem viva. E se pertenço ao clan “Tintin” não esqueço (porque líamos tudo) as influências do jornal “Spirou” (1938) e da célebre Escola de Marcinelle, com Rob-Vel (1909-1991) e Jijé (1914-1980), além de Franquin… Aí encontramos Peyo (1928-1992) criador dos Estrumpfes (Smurfs) e Johan e Pirlouit; Roger Leloup (1933); Roba (1930-2006) autor de Boule et Bill… Lembre-se que Jijé foi o artífice de Blondin et Cirage, Jean Valhardi e Jerry Spring. Também “Pilote” (1958) não nos passou despercebido, com René Goscinny (1926-1977) e Uderzo (1927) e a genial aparição de Astérix – que conhecemos através do efémero “Foguetão” de Adolfo Simões Müller… Com “Pilote” encontrámos ainda Barbe-Rouge de Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979), Blueberry criado também por Jean-Michel Charlier com Jean Giraud “Moebius” (1938-2012), Valérian e Laureline de Pierre Christin (1938) e Jean-Claude Mezières (1938) e Tanguy e Laverdure de Charlier e Uderzo. Os nomes e o traço são inconfundíveis… Sopravam novos ventos e novos temas, designadamente a ficção científica. Aí pudemos começar a encontrar Corto Maltese de Hugo Pratt (1927-1995) que estava na transição temática entre a adolescência e a idade adulta, mas também Enki Bilal (1945) que conheceu Goscinny aos 14 anos e publica a primeira história, “Le Bol Maudit”, em 1972, passando depois a colaborar com Pierre Christin… As escolas belgas levavam-nos aos italianos – como tínhamos vindo das bandas norte-americanas ou dos “Sobrinhos do Capitão”… Por hoje, fico-me por aqui até à próxima crónica, onde falarei de Blake e Mortimer e de Edgar P. Jacobs (1904-1987), a propósito na nova e surpreendente criação de Schuiten, Van Dormael, Gunzig e Durieux, “Le Dernier Pharaon”. Mas não esquecerei Jacques Martin (1921-2010), que durante quase vinte anos acompanhou a feitura dos álbuns de Tintin, ao lado de Hergé, célebre pela criação de Alix (1948) e Lefranc (1952), nem  A.P. Duchateau  (1925), romancista policial, argumentista de Ric Hochet com desenho de Tibet, nem  Jean Graton (1923), exímio desenhador e argumentista do automobilismo e desportos motorizados, criador de Michel Vaillant… No caso de Graton três obras têm a ver connosco portugueses: “Rali em Portugal” (1971), “O Homem de Lisboa” (1984) e “Febre de Bercy” (1988) pela participação de Pedro Lamy. A título de curiosidade e a lembrar-me do Major Jaime Eduardo de Cook e Alvega (que num concurso de cultura geral alguém confundiu com um herói histórico), lembro que no tempo em que deveriam dar-se nomes portugueses aos heróis das HQ Ric Hochet era Mário João e Miguel Vaillant, Miguel Gusmão…  Conhecemos mil exemplos sempre caricatos…

 

E como escolho sempre um poema – hoje também não falta:

 

«Estudo para Banda Desenhada»
De António Barahona
“Em Banda desenhada, tão depressa
Treparam à colina onde corria
Um bando de crianças à gandaia
Em redor duma casa arruinada,
Tão depressa, em banda de surpresa,
Que ganharam tal medo na subida
Lentamente assombrados por medida
De Deus, que mede os sustos sem ter pressa.
Depressa mais depressa: segredava
A rapariga atlética ao poeta
no balão da legenda: as crianças
aos gritos, entretanto param a corrida:
emudecem ao ver o som e as danças
do casamento alquímico das sombras”
De “Raspar o fundo da Gaveta e Enfunar uma gávea (2011).

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

AVENTURAS E DESVENTURAS LONDRINAS…
14 de março de 2019


 

Esta semana segui atentamente as transmissões televisivas das sessões da Câmara dos Comuns. E sofri alguma coisa. É verdade que já não dá para ter muitas surpresas, mas tenho uma legítima angústia sobre o futuro da relação europeia com a Velha Albion. No entanto, todos os dias recebo mensagens de amigos ingleses, manifestando-me o mesmo sentimento: “Ils sont fous ces  Bretons”, como me dizia um admirador confesso de Astérix, na sua personalidade resistente. Mas é desgostante ver como o Brexit se tornou um motivo de chacota geral. O velho Gladstone revira-se no túmulo ao ver os irlandeses baterem garbosamente o pé aos britânicos. E quem hoje visita Belfast julga estar em Dublin perante a profusão de bandeiras republicanas nas janelas da cidade. Nesta trapalhada, o Reino Unido arrisca-se a ficar amputado de toda a ilha do Eire. Ainda tenho esperança que haja bom senso. E depois, é preciso ver que farão os Escoceses. A procissão ainda vai muito no adro. Já citei aqui o que dizem os estudantes de Oxford e de Cambridge – os velhos que votaram vão morrer primeiro que nós… Para bom entendedor, meia palavra basta. A ilusão do Império de antanho não responde aos problemas atuais. Há quem ainda não tenha percebido que a Rainha Vitória já não está entre nós… Grandes empresas financeiras anunciam a saída.

 

A Agência Financeira Europeia já está em Paris. E, a pouco e pouco, vai havendo mais saídas importantes. Os japoneses da Nissan também se põem ao fresco. A Holanda está a ter um número importante de registos de empresas vindas da City. E, pasme-se, o Senhor Farage pediu a nacionalidade alemã. Será que também deseja pôr-se ao fresco. Ou será que quer seguir o destino dos velho “Mini”, que foi já nacionalizado pelos alemães. Tanta e tão trágica ironia… Custa a crer… Para já, a Senhora May acumula derrotas parlamentares. É facto que tem pele dura de réptil, mas isso não basta. Que lugar lhe reservará a História? Em suma, os ingleses vão ter votar para o Parlamento Europeu, o adiamento da saída aí está. E quem conhece razoavelmente a História dos Povos Britânicos, sabe bem que estamos a assistir a uma regressão muito suspeita e tremenda. Se o fantasma do Grand Old Man se debate na maior das angustias – também os fantasmas de Thomas Morus, Walter Raleigh, Shakespeare, Disraeli e mesmo Churchill andam todos na maior das confusões. Chesterton dizia que os fantasmas dos castelos ingleses tinham morrido quando morreram aqueles que neles acreditavam… A afirmação era do passado. Tudo mudou, porém. Os fantasmas regressaram todos, cada vez mais agressivos e assustadores…  O meu amigo Coronel Clifton anda desolado.

 

Somos solidários quanto ao futuro dos nossos queridos MG. O dele é um TF roadster de 1954… Pelo menos o adiamento do Brexit significa que continuamos a ter as peças dos nossos vetustos automóveis sem direitos por mais algum tempo…

 

Para vosso deleite deixo-vos outro retrato do meu querido Clifton, na minha coleção de Histórias de Quadradinhos…

 

Agostinho de Morais