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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


127. A CONSCIÊNCIA DO BEM E DO MAL EM TEMPOS DE ESCURIDÃO


Para além da disciplina, há a consciência em cada ser humano.

Quando entram em conflito, cada um de nós tem liberdade de escolha.   

O que é determinante em tempos de trevas, ao ignorar ou ser indiferente à anulação da capacidade de autoquestionamento, alienando a liberdade.

Em favor da tese da disciplina, há o argumento da obediência burocrática, segundo o qual aos funcionários integrados numa estrutura administrativa baseada nos princípios da autoridade absoluta, hierarquização rígida e da dependência acrítica, apenas lhes resta obedecer, retirando-lhes a sua capacidade de livre arbítrio, sendo o burocrata exemplar a primeira vítima, reduzido a uma peça burocrática que facilmente se transforma num instrumento do mal. Para Hannah Arendt: “Um funcionário, quando não é nada mais que um funcionário, é alguém muito perigoso”.   

Recorre ao argumento de defesa de Eichmann, no seu julgamento, em Jerusalém, em 1961, quando acusado pelo encaminhamento para a morte de centenas de milhares de judeus, onde foi culpado e condenado. 

A ideia de que há pessoas que em circunstâncias excecionais foram obrigadas a ter um estatuto sub-humano, transformando-as em monstros e negando-lhes a sua condição moral, legitimando a sua participação em atos criminosos, não é aceitável se estivermos cientes que são seres conscientes, que distinguem entre o bem e o mal, não podendo invocar a sua fuga e morte moral como justificação, por maioria de razão em crimes contra a humanidade.       

Pondo de lado questões pendentes e não resolvidas sobre a ação moral, o juízo e o pensar, qual o pensamento que pode e não pode impedir catástrofes e malefícios quando pensamos, se há algo no pensamento que pode impedir as pessoas de fazer o mal (e incitá-las para o bem), a relação intrínseca que há entre capacidade de pensar e mal (e bem), chegamos a uma encruzilhada em que nos interpelamos: como se comportaria cada um de nós se tivesse vivido naquela época e naquelas circunstâncias?   

Mesmo tendo presente, em permanência, que as sociedades se regem pela lei e não pela moral (da época), sendo a norma legal mais redutora, mesmo que se defenda que quem mata outras pessoas tende a estar consciente de que é errado.

É uma temática que ultrapassa o totalitarismo nazi (e soviético, entre outros), interpelando toda a Humanidade, incluindo saber se o Holocausto (e outros crimes ao longo da História) é fruto de uma elite e bando de psicopatas arianos ou também da cumplicidade e indiferença de milhões de seres humanos normais e indispensáveis.

Excluindo a teoria da culpa coletiva, que não aceitamos e é excessiva, sempre houve honrosas e louváveis pessoas que, naquela época e circunstâncias de tempos sombrios e de escuridão, souberam distinguir o bem do mal, sem se agarrarem a ideologias, recusando-se a obedecer a comandos que implicavam a negação da dignidade humana e o direcionamento para a morte dos mais expostos e muitos inocentes.


25.11.22 
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


126. PELA NÃO-BANALIDADE DO MAL E DO BEM


Sendo por natureza o mal radical, não pode ao mesmo tempo ser banal. Classificar o mal como banal é perigoso, podendo dar a ideia de ser algo sem gravidade. Uma suposta banalidade do mal normaliza-o, havendo que o não vulgarizar, em paralelo com a não-banalidade do bem que também não pode ser banal, porque, de igual modo, radical.     


Tal conclusão, em jeito de síntese, vem a propósito da controvérsia gerada (que perdura) aquando da exibição do filme Hannah Arendt, de Margarethe Von Trotta, ao remeter para uma presumível atuação “banal” de Adolf Eichmann (AE) que, quando julgado, se defendeu alegando que se limitou a cumprir ordens sem saber ou sentir que agia mal, o que, numa perspetiva crítica, nos leva a concluir que os crimes contra a humanidade são obra de milhares ou milhões de seres humanos “normais” ou “vulgares”, com a cumplicidade de outros, num ambiente de generalizada indiferença, em que o acusado era um mero burocrata ou peça de toda a engrenagem conducente do Holocausto (argumento da obediência burocrática). 


O que é mais surpreendente ao sabermos que AE provou, em julgamento, ter conhecimento do imperativo categórico de Kant, tido como necessário, incondicional e não subordinado a nenhum fim, porquanto a imperfeição da vontade humana exige um princípio objetivo obrigante, expresso do seguinte modo: “Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. 


A questão da “banalidade do mal”, fulcral no filme, é polémica, pois sendo o mal radical não pode ser banal, por remeter para interrogações não resolvidas sobre a capacidade e a liberdade de pensar, de julgar, de distinguir entre o bem e o mal, sendo tal expressão pedagogicamente infeliz, indesejável e insegura, colocando os verdadeiros criminosos e cúmplices numa situação aconchegante de “impossível escolha”. 


Tanto mais que se tratava de um mal banal não comum, causa de uma nova tipicidade criminal e legal, os crimes contra a humanidade.


Também não se pode falar em banalidade do bem, porque também per si radical, por confronto com a constatação de que no tempo nazi, em que viveu AE, houve quem não aceitasse ser um Eichmann, o que nos remete para a capacidade e liberdade de pensar e julgar, entre o bem e o mal, em tempos sombrios e de escuridão.   

 

18.11.22
Joaquim M. M. Patrício

A VIDA DOS LIVROS

 

De 6 a 12 de março de 2017.

 

Zvetan Todorov, num livro atualíssimo, intitulado «Mémoire du mal, Tentation du bien» (Laffont, 2000), cujo tema ganha nos dias de hoje uma importância crescente, diz-nos que “querer erradicar a injustiça da face da terra ou apenas as violações de direitos humanos e instaurar uma nova ordem mundial donde sejam banidas as guerras e as violências, é um projeto que converge com as utopias totalitárias na sua tentativa de tornar a humanidade melhor e de estabelecer o paraíso sobre a terra”.

 

 

RESISTIR AO MAL, NÃO SUCUMBIR AO BEM
Como nos alertou Thomas Morus na sua «Utopia», do que se trata nas sociedades humanas é de não renunciar à capacidade de nos aperfeiçoarmos, em lugar da tentação do império cego da virtude, contrário à liberdade igual e à igualdade livre. Todorov insiste: “É possível resistir ao mal sem sucumbir à tentação do bem”. Mas não se interprete apressadamente o aparente paradoxo. É de pessoas concretas que cuidamos, nos seus vários caminhos ao encontro de si e dos outros, e não de seres abstratos, formatáveis segundo um qualquer modelo de perfeição que não tem lugar no mundo concreto. Por isso, a Utopia é um horizonte, um desafio, e não um modelo ou uma exigência abstrata. Zvetan Todorov (1939-2017) morreu há poucas semanas em Paris e é uma das vozes mais lucidas na complexa reflexão sobre a liberdade e a democracia nos dias de hoje – quando um sério mal-estar atinge as sociedades contemporâneas, a ponto de presenciarmos a adoção de estranhas escolhas e de inesperadas decisões, que à partida julgaríamos fora de um horizonte previsível de racionalidade e de saudável partilha de responsabilidades. Nascido em Sofia na Bulgária, o então jovem estudante chegou à Universidade no ano do relatório Krutchev (1956), no qual se denunciavam os “desvios” estalinistas. Então escolheu enveredar pelos estudos sobre a literatura tradicional búlgara – o que talvez lhe permitiu começar a fugir à uniformização ideológica do materialismo dialético então em voga. Foi esta necessidade de fugir à ideologia oficial que o levou a esforçar-se por esclarecer o mistério da arte da escrita – através da leitura de Tolstoi, Dostoievski, Tchekov ou Maiakovski. E assim, em 1963, parte para França, onde viverá a cultivar a sua criação literária, tornando-se um dos pensadores europeus mais importantes e influentes do seu tempo – através da investigação sobre a complexa relação entre as diversas culturas do velho continente. No seu primeiro livro estudará os formalistas russos (como Chklovski, Tomachevski e Propp) – em Théorie da la Littérature Seuil, 1965). Na Sorbonne, encontra Gérard Genette e aproxima-se de Philippe Sollers e Marcellin Pleynet do grupo “Tel Quel” e cultiva a semiologia, com Roland Barthes, deixando-se influenciar pela busca do sentido escondido nos códigos, nos signos e nas estruturas da escrita… Dialoga intensamente com Barthes, Sollers e Derrida; estuda as Liaisons Dangereuses de Choderlos de Laclos; é diretor de investigação no CNRS e anima a revista “Poétique” com Genette. Contudo, talvez vacinado pela experiência búlgara, não se deixa influenciar pelo radicalismo de Maio de 1968. Não esquece o que designa como os trinta anos desastrosos do leste europeu (1945-1975) e não hesita em falar, contra-corrente, do Movimento parisiense de 1968 como de “arrière-garde”. E não o faz de ânimo-leve. Esse entendimento corresponde a uma exigente reflexão teórica, que assume em diálogo com a intelectualidade do seu tempo. Com Théorie du symbole (1977) afasta-se do estruturalismo, assumindo uma atitude humanista (Nous et les autres, Seuil, 1989) e afastando-se do relativismo de Lévi-Strauss.

 

O TEMA DIFÍCIL DA ALTERIDADE
O tema da alteridade passa a marcar a obra de Todorov, a partir dos anos oitenta, centrando-se o ensaísta na sua própria condição de imigrante ou “deslocado” e na importância das mestiçagens culturais. E aqui encontramos referência ao “universalismo da alteridade”, que Emmanuel Lévinas designava como “humanismo do outro homem”. Nesta ordem de ideias, o escritor combate não apenas o relativismo cultural, mas também o culturalismo nacionalista. Para o ensaísta a literatura não é um discurso, mas um pensamento que transmite valores. Nestes termos, o conflito entre o totalitarismo e a democracia é o acontecimento mais importante na história política do século XX – exigindo uma atenção redobrada relativamente às mais subtis formas que podem pôr em causa a liberdade e a responsabilidade pessoais. Daí que, para Todorov, a crítica da democracia não signifique renunciar a esse ideal. O que está em causa é a preservação do pluralismo, do primado da lei, das legitimidades do voto e do exercício, de modo que a mais ínfima das vozes possa ser ouvida. No seu último livro, acabado de sair por estes dias – Le Triomphe de l’Artiste (Flammarion, 2017) – diz-nos: “O mundo contemporâneo, não menos que as sociedades totalitárias, empurra-nos em todos os domínios, trabalho, justiça, saúde e educação, para o que Alain Supiot designa como ‘governo pelos números’, o que obrigaria a substituir a ‘administração das coisas pelo governo dos homens’”. Daí a necessidade de considerar as fraquezas inerentes ao género humano, sem renunciar ao aperfeiçoamento permanente da humanidade, no sentido de melhores sociedade e democracia. O ultraliberalismo aliou-se, no entanto, à lógica do totalitarismo. E o pensador considera este facto particularmente inquietante, influenciando muitos dos caminhos inesperados que agora têm o seu curso dos dois lados do Atlântico, com a subtil emergência dos inimigos da sociedade aberta. “A tirania dos indivíduos pode ter consequências tão graves como a tirania do Estado”. E, em lugar da racionalidade, o que vemos surgir são a “pós-verdade”, os egoísmos e as ilusões.

 

ENTENDER O SENTIDO DE SER PESSOA
Não basta estudar a diferença entre metáfora e metonímia, é preciso entender o sentido poético de ser pessoa. Mais do que a semiologia, importa ir ao encontro do “sentido moral da história”, compreender como Baudelaire nos legou Les Fleurs du Mal, para além do seu formalismo. Daí a necessidade de perceber a exemplaridade dos Insubmissos (R. Laffont, 2015) de Germaine Tillion e Etty Hillesum a Nelson Mandela ou mesmo a Edward Snowden. E assim se passa da estética à ética, do belo ao bem, na procura da força dos valores. Daí a importância do sentido crítico, que põe à nossa consideração. Conhecedor dos fenómenos totalitários do Estado, sabe que a realidade não se repete e, sem simplificações, fala das continuidades entre o totalitarismo e o neoliberalismo – segundo a uniformização do conformismo das sociedades ocidentais e a emergência de um novo e estranho intervencionismo, mascarado de liberdade, com desregulação, pensamento único e subalternização das pessoas. “Se desejamos defender o ser humano contra as forças sociais que o destroem, não basta imaginá-lo produzido por princípios abstratos, precisamos de aceitar vê-lo com os traços do seu destino”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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