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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Ainda acerca de Blinky Palermo.

 

'Seeing, some distance away in the margin of my visual field, a large moving shadow, I look in that direction and the phantasm shrinks and takes up its due place; it was simply a fly near my eye.', Merleau-Ponty In 'The infinite line’, de Briony Fer (2004)

 

No trabalho de Blinky Palermo, tal como no trabalho de Barnett Newman, existe uma enorme vontade em fazer com que o espectador faça parte da obra. Ao criar as grandes superfícies de cor, Newman convida constantemente o fruidor a fazer parte e a ser absorvido pela tela. Palermo também o faz mas, tal como foi visto a semana passada, fragmentando a cor e por isso fazendo com que ela faça parte do espaço em que está inserida.

 

Palermo, ao contrário de Newman, parte realidade aos bocados. Newman constrói uma totalidade, um campo completo (mas limitado) pictórico. As pinturas de Palermo seriam quase impercetíveis (bocados pintados de parede, pequenos triângulos aqui e ali), se não fosse pelo uso da cor no seu estado mais primário. 

 

Palermo usa constantemente objetos encontrados - não se refere à habitual norma, em que o artista transforma elementos pictórios em objetos. Jã são objetos antes de serem manipulados e trabalhados - são sim coisas pintadas, embrulhadas ou espaços reativados. O trabalho de Palermo, relativiza assim as diferenças que existem entre a pintura, a escultura, a imagem e o objeto.

 

Segundo Briony Fer, as formas espalhadas de Palermo, reconfiguram, por isso e por completo, toda e qualquer noção de assemblagem. As conhecidas colagens de Schwitters põe a nu a coleção de bocados familiares de papéis, jornais, anúncios. Palermo encontra e coleciona também. Mas sobretudo transforma, atua, cobre e pinta. O pictórico dessassocia-se então completamente da ideia de pura pintura, porque é matéria palpável, gratuita e efémera.

 

'Butterfly II' consiste em duas peças de madeira encontradas com formas irregulares - existe um tecido que as embrulha e quinta que as cobre (preto e vermelho nas faces laterais).  A forma é dada, encontrada e um mero acaso mas é também ao mesmo tempo fabricada - há uma ação nova sobre a forma  e a disposição existente que a faz mudar de contexto e de significado. 

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Ellsworth Kelly e Blinky Palermo.

 

‘Art always grows out of other art.’, Ellsworth Kelly

 

No livro ‘The infinite line’, de Briony Fer (2004) lê-se que a pintura de Ellsworth Kelly (1923-2015) é radicalmente diferente do modelo abstrato Americano. Segundo Fer, o trabalho de Kelly prova que a pintura pode adotar novos pontos de vista – em relação ao expressionismo abstrato que dominou os anos 50, ou às ‘Silver Clouds’ de Andy Warhol, ou à banda desenhada de Roy Lichtenstein ou ainda em relação às imagens ‘ready-made’ de Jasper Johns. Nessa medida, Fer introduz o trabalho de Blinky Palermo (antigo aluno de Joseph Beuys) como sendo, na Europa, um caso também de exceção no uso da cor e que introduz uma nova relação desta com a pintura.

 

Nos anos 50, Kelly conseguiu associar a abstração, ao ‘ready-made’ e ao objeto encontrado. As abstrações de Kelly conseguiam assim ser manifestações de algo que se observa e que se experiência no quotidiano: ‘Everywhere I looked, everything I saw became something to be made, and it had to be exactly as it was, with nothing added.’ (Ellsworth Kelly)

 

Kelly dá atenção a tudo o que geralmente as pessoas ignoram. As suas pinturas transportam experiências percetivas dos seus desenhos (que vêm do encontrado, do desperdiçado e do arcaico).

 

Blinky Palermo (Peter Heisteirkamp, 1943-1977), enquanto estudante, era fascinado pelos modelos de abstração utópicos - vindos de Malevich, Mondrian, Lissitzky, Schwitters e do grupo Die Blaue Reiter. 

 

Para Briony Fer, Kelly usa a cor antes como uma espécie de auxiliar de memória. Já Blinky usa a cor, de preferência como parte ou como fragmento. Usa a cor como sendo um modelo colecionável. 

 

Blinky Palermo coleciona assim fragmentos de cor - em 'Yellow-Yellow Composition' (1966) revivifica-se a colagem do desperdício em pequena escala tal como se encontra em Schwitters: 'Palermo's collages are reminiscent of Schwitters's elaborately layered concoctions of the thrown-away paper worlds of an urban culture, but they are also very obviously hand-made.', Briony Fer

 

A lógica do fragmento cortado e espalhado é também entendido no 'Black Angle' (1967). Os pequenos triângulos e os pequenos ângulos, espalhados no pequeno quarto ajudam a questionar uma certa noção de escala. Escala, forma e cor são constantemente ativados e Blinky faz depender estes elementos de um espaço ou situação específica. 

 

Ana Ruepp