Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
18. O ENIGMA IBÉRICO IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (I)
1. No livro Portugal, o Enigma Ibérico (Quidnovi, 2005), de Wilson Solon1, argumenta o autor que nenhum especialista, turista ou ciência pode interpretar Portugal, uma vez mover-se numa lógica única, nem sempre expondo na matéria os enigmas do seu espírito, sendo incompreensível a olho nu, num “tempo lusitano” paralisado em rituais de autoflagelação e vitimização.
Tem por irrealista que a pequenez territorial seja decisiva, refutada pela antiga determinação de um punhado de naus nas mãos decididas dos portugueses, sendo irreal supor que as grandes decisões surgirão de uma estreiteza mental à medida dos limites geográficos, o que também não justifica a ausência de autoestima.
Na “velha Europa dos 15” (à data), é ridículo que tal dimensão possa ser usada para a falta de iniciativa dos seus habitantes, o que não sucede na Holanda, Bélgica, Suíça, Áustria, Irlanda, Dinamarca, Luxemburgo, de territórios mais pequenos, que tem como nações mais conhecidas e respeitadas.
Alegando que o comodismo paralisa a História, conclui que o nosso complexo de inferioridade pela retração do império, não pode ser disfarçado como se de modéstia ou humildade se tratasse, defendendo que o excesso de vaidade da alma lusa pode ter sido causa desse marasmo, findo o estatuto de nação imperial.
Ao desperdício de energias da atitude pessimista dos portugueses em Portugal, contrapõe o empreendedorismo dos que emigram desconhecendo, em geral, casos mal sucedidos, ficando estes libertos das fronteiras psicologicamente opressoras da nacionalidade.
Os portugueses parecem sentir-se permanentemente culpados pelo que têm de melhor, têm um desprendimento pela sua língua, a saudade tem um lado passadista e ausente, ao invés do lado saudável no Brasil, de onde Portugal é visto como a memória de um passado comum entretanto obscurecido, onde muito turista usual ou pontual não o inclui nos seus roteiros, por indiferença ou ser tão parecido que nem vale a pena conhecê-lo.
Após lamentar que os portugueses preferissem livrar-se (ou despojar-se) da sua monarquia, diz serem os mais fervorosos consumidores de audiovisuais brasileiros, sem vontade de construírem um pensamento cultural próprio para a televisão, o que se traduz num neocolonialismo cultural de uma antiga colónia: “Um caso singular no mundo, de um domínio que nem sequer fora imposto e sim, curiosamente, desejado pelo antigo colonizador!”, acrescentando: “Se tudo isso já soaria estranho para um português, não o fora menos para um brasileiro que optou por viver em Portugal.”2
Apesar destas distâncias e incompreensões, “(…) o português segue sendo o mais admirável fator de coesão nacional e união internacional no âmbito da lusofonia”3, ao invés de Espanha, de disputas linguísticas localizadas, embora Portugal e Brasil não se deem conta desse enorme património comum e unificador. Ambas as nacionalidades irmãs têm um traço comum: não acreditarem no vigor histórico da lusofonia.
2. Ao falar das motivações originais das colonizações predominantes nas Américas, defende que os anglo-saxónicos e os hispânicos traziam a vontade de matar, ao contrário dos portugueses, diferenciando a arrogância anglo-saxónica da flexibilidade do espírito lusitano, exemplificando-o com o Brasil.
No Brasil - caso único mundial - as referências raciais originais não têm cor, “(…) dado que quando adquiriu a sua identidade nacional, já lá estávamos todos - pretos, brancos, índios e mestiços (…). O próprio sentimento nacional na sua origem inclui as diversas raças. (…) Não há o de “fora” como informação visual”,4 sendo das nações “mescladas” a menos racista.
Acrescenta que no Brasil “(…) subconscientemente, os nossos pretos não são “afros”. São brasileiros”5, razão pela qual a questão africana aí terá uma interpretação inversa à europeia, para a qual prevalece a “visão superior” do colonizador, o que explica que a miscigenação racial seja algo de impensável a curto prazo em Portugal.
Portugal tem de se reconciliar com a sua imagem, com um património inexplorado que sobrevive, como metrópole de um grande império de novos e velhos ideais, pelo que “Cabe perguntar: por que não usar este património a favor de um capitalismo espiritualista?”.
Vendo que a maioria dos emigrantes no nosso país têm no português a sua língua materna, pergunta: “Suportarão, enfim, os portugueses uma aproximação com africanos e brasileiros sem que haja pelo menos um oceano pelo meio?”6
A integração lusófona tem de ser aceite como um facto consumado, libertando os portugueses das fronteiras que os aprisionam, começando pelas geográficas “(…) que os fazem experimentar a sensação de uma pequenez que a rigor é apenas mental; das ilusórias fronteiras europeias que, ao contrário, os convenceram de uma falsa grandeza que na prática pouco souberam aproveitar; e, por sinal, também das fronteiras virtuais de um capitalismo de ocasião que a rigor nem fronteiras possui.” 7
Portugal terá de se expandir em todos os sentidos, cruzando de novo o Atlântico em todas as direções e transformando as barreiras que o separam de Espanha em reaproximação, pondo de lado a eterna “paranoia espanhola”.
Analisaremos, nos próximos textos, os merecimentos e críticas que nos merecem estes olhares e impressões de um brasileiro que viveu alguns anos em Portugal.
20.09.2019 Joaquim Miguel de Morgado Patrício
[1] Realizou trabalhos televisivos e assinou séries de ficção, como Jornalistas e O Processo dos Távoras. [2] Obra citada, p. 309. [3] idem, p. 24. [4] Idem, p. 108. [5] Idem, p. 113. [6] Idem, p. 119. [7] Idem,p. 120.
Referimos hoje a celebração, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro - URFJ, de um colóquio sobre o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andersen e de Jorge de Sena, ambos como bem sabemos escritores e dramaturgos de grande prestígio. Intitulado justamente “Sena & Sophia: Centenários”, o colóquio é uma oportuna iniciativa do Real Gabinete Português de Leitura e precisamente da Cátedra Jorge de Sena da referida Universidade: e é interessante referir esta dualidade temática, Sophia e Sena, a partir insista-se, do centenário do nascimento de ambos os escritores, sendo certo que Sena falece em 1978, e Sophia em 2004.
Já aqui evocamos o teatro de Sophia, em três artigos recentes, onde analisamos a dramaturgia desta extraordinária escritora que tanto prestigiou a criatividade poética, literária e dramatúrgica da literatura de língua portuguesa. Para esses artigos remetemos, salientando, entretanto, uma vez mais, a relevância e projeção que o colóquio representa, tendo em vista o âmbito prestigiado e prestigiante da UFRJ.
Mas veja-se agora que é interessante e prestigiante para as entidades organizadoras e também obviamente para a cultura portuguesa em geral, esta evocação da obra e da personalidade de Jorge de Sena. E então, merece o maior destaque a circunstância de que a iniciava se deve à precisamente designada Cátedra Jorge de Sena, da Faculdade de Letras da UFRJ, o que demostra a relevância do escritor.
E dado que esta rubrica se constitui precisamente num conjunto de análises a partir da arte cénica, referiremos então sobretudo a dramaturgia de Jorge de Sena, sem esquecer, note-se, a heterogeneidade e qualidade da sua obra geral, que noutra ocasião poderemos analisar.
Efetivamente, Jorge de Sena, apara além de um ato breve inicial de expressão mais realista, “Luto” (1938), inicia em 1945 uma renovação das expressões do teatro-texto, através algo paradoxalmente de reestruturação do teatro de temário histórico, com “O Indesejado - António Rei” (1945). E logo aí ressalta a modernização/inquirição dos temas e do estilo dominante do teatro: trata-se efetivamente de uma tragédia anti sebastianista, digamos assim, que como tal rompe com uma tradição clássica secular no teatro português...
E mais escreveu para a cena Jorge de Sena, perdoe-se a quase redundância, através de uma série de textos dramáticos que vão buscar a temas por vezes de evocação histórica como que uma análise crítica da realidade do seu tempo: assim temos “Amparo de Mãe” (1948), “Ulisseia Adúltera” (1948), “A Morte do Papa” (1964), “O Império do Oriente” (1964), “O Banquete de Dionísios” (1969), “Prometeu ou o Homem que Pensava demais” (1971).
Mas não ficou por aqui a intervenção do Jorge de Sena no teatro. Na verdade, colaborou com António Pedro e nos relevantes - na época pela renovação e culturalmente ainda hoje - Companheiros do Pátio das Comédias e Teatro Experimental do Porto. E mais: de junho a setembro de 1948, Jorge de Sena adaptou para a rádio nada menos do que 13 romances policiais emitidos no então importante Radio Clube Português num programa produzido por António Pedro, com quem aliás colaborou no Teatro Experimental do Porto.
Tal como como escreveu Luis Francisco Rebello, parte das peças de Jorge de Sena “direta ou indiretamente se reconduzem á estética e à ética do surrealismo”. (in “O Jogo dos Homens” 1971). E tal como eu próprio escrevi, e seja-me permitida as auto citações, “Jorge de Sena representa a mais acabada continuidade e complementaridade entre o Surrealismo e o Classicismo”, no contexto de “uma visão muito ácida e crítica da sociedade portuguesa…” (in História do Teatro Português” ed. Verbo 2001 e “Teatro em Portugal” ed. CTT 2012).
A UNESCO considerou, que a morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural”
Não chega de saudade não! Não chegará nunca! João Gilberto e seu Violão ou o azul num frente a frente.
Vai minha tristeza E diz a ela Que sem ela não pode ser Diz-lhe numa prece que ela regresse Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade A realidade é que sem ela não há paz Não há beleza, é só tristeza e melancolia Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
(…)
“Chega de Saudade”, escrita por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi gravada por João Gilberto, em 1958.
O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado em miserabilidade e solidão no Rio de Janeiro. Assim li hoje.
E diz-se que os seus olhos nunca choraram pois apenas olhavam um para o outro.
Caetano afirmou sempre quequalquer músico brasileiro pós-1959 (há quem chegue até nos Beatles) foi reinventado por João Gilberto. A sua experiência alterou de forma irreversível nosso DNA musical.
Creio João Gilberto, que viveste sempre por um projeto de primavera com as horas absolutamente soltas pelas notas que teus dedos imprimiram nas cordas do teu violão: esse que tão bem conhecia teu saber antigo de fogo duplo. E tu, tempo que nunca se deteve, imortalizaste em nós as canções que nos fotografaram o coração. Tu, testemunha da condição natural do poeta: consciência de que o rio vital era por ali.
Álbum completo 2019 - João Gilberto Melhores canções de todos os tempos.
A língua portuguesa é um idioma global, intercontinental e transnacional, com centenas de milhões de falantes disseminados por várias latitudes.
Tendo tido como ponto de partida a Europa, está essencialmente implantada, nos dias de hoje, em espaços fora do continente europeu, com especial densidade no continente americano e africano.
Indicia-se que o futuro global da futura globalização do nosso idioma será protagonizado e revitalizado de fora da Europa, nomeadamente através do continente sul-americano, via Brasil (o “imenso Portugal”, cantado por Chico Buarque), um país de escala continental e potência emergente.
Os emigrantes que a Europa recebe e de que necessita, também operarão essa revitalização.
Tendo como referência a liderança dos Estados Unidos, com a projeção e prestígio global do inglês, são os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro, o que, por agora, se aplica ao Brasil, no que toca ao português.
Todavia, o poema épico por excelência que canta as façanhas e os feitos dos portugueses (“Os Lusíadas”) é omisso quanto ao Brasil.
Camões celebra a epopeia portuguesa em África e na Ásia, mas não na América. Sendo Os Lusíadas parte integrante do imaginário nacional, assinalando e cantando a história do Portugal guerreiro e marinheiro, falta-lhe assinalar, cantar e priorizar as navegações portuguesas que nos levaram até ao Brasil.
Há em Camões e no seu poema épico um Portugal marinheiro omitido, não cantado, nem celebrado, atenta a enorme importância do Brasil para Portugal e para a nossa história, pois embora a viagem de Vasco da Gama seja o motivo central, o assunto principal d`Os Lusíadas é toda a história de Portugal (não a viagem do Gama à Índia).
Nos tempos atuais, para nós, portugueses, a importância do Brasil, por confronto com a Índia, é incomparavelmente superior, fazendo parte do nosso imaginário.
Será que esta amputação terá contribuído para um certo alheamento entre Portugal e Brasil, que foi atenuada séculos depois pela fuga da família real portuguesa às invasões napoleónicas?
Bossa Nova: milagre de amor que escorreu dos meus olhos quando
em 1970, entrei no Canecão - sala de espetáculos situada no Botafogo, Rio de Janeiro – e Vinicius de Moraes, Tom Jobim, a cantora Miúcha e o violinista Toquinho, deram-nos a ouvir uma joia da música brasileira ao vivo, qual joia mais tarde também brilhando em Buenos Aires com Maria Creuza na boate La Fusa.
De repente, senti que acabara de sair do avião, e à minha volta um calor de abraço único que nunca sentira em local algum e me penetrava à medida que a cidade maravilhosa se expunha, jubilosa, forçando o meu sonho a interpretá-la, real. O mar, uma alegoria ingénua e mulheres-deusas disto e daquilo, e tontas e seminuas, ao longo do calçadão de Copacabana, moviam as ancas quais jangadas convidativas ao nosso ouvido. E eis Ipanema que surge num repente, virando-me eu ainda no carro com o Pão de Açúcar num tudo em mim, uma floresta da Tijuca muito donzela e sem que eu a tudo pudesse dar o que já era, apenas suspirar deslumbrada por aquela chispa da areia doirada, sempre a bordo do meu olhar, tão frágil até onde ele foi, tão desembarque, tão terra nova.
Depois, morria a tarde numa divina fragância, momento por momento, em Búzios, e nós nos preparávamos para a ida ao Canecão naquela noite.
O meu desejo crescia e espalhava-se à minha volta como uma aia, no trautear das letras das canções da Bossa Nova que conhecia e que escutaria, lacaia da sua chama em mim e ao vivo. E a Aninha prendia os meus longuíssimos cabelos numa flor e cantava-me
tem de ser…Amor?...- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa…
E respondi orgulhosa: sim, conheço Manuel Bandeira, nessas tuas palavras. E conheço o que ele publicou no livro Libertinagem em 1930. Por causa de saber a leitura desse livro, eu digo-te Aninha: um dia fui-me embora para Pasárgada pois lá era amiga de um rei e escolhi um homem e a cama onde com ele me deitei. E, como era cheia de graça e bendita entre as jovens mulheres, Santa Clara me clareou a partir de uma única vez, e sem medo e sem saudade o deixei: foi quando certa rua começou algures, veio dar ao meu coração e comecei a roubar-me. É assim que sei! Um dia explico-te, melhor, se for capaz.
Esperavas que te dissesse isto? Não te impressiones, nada sei da Bossa Nova, sei que a amo e olha, vê este papel escrito por Vinicius, não digas ao pai que eu o tenho, guardo-o neste amarrotamento debaixo do meu travesseiro.
Bossa nova – para citar esse grande new yorker que foi o poeta Jayme Ovalle –, é mais a namorada que abre a luz do quarto para dizer que está, mas não vem,
Bossa nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão; mais um recado que uma mensagem.
Bossa nova é mais uma moça triste atravessando a Broadway
Bossa nova é mais a solidão de uma rua de Ipanema que a agitação comercial de Copacabana.
Bossa nova é a nova inteligência, o novo ritmo, a nova sensibilidade, o novo segredo da mocidade do Brasilovens a seus pais e mestres: uma estrutura simples de sons super-requintados de palavras em que ninguém acreditava mais, a dizerem
que o amor dói mas existe;
que é melhor crer do que ser cético;
que por pior que sejam as noites, há sempre uma madrugada depois delas e que a esperança é um bem gratuito: há apenas que não se acovardar para poder merecê-lo."
Julgo que ele disse isto numa entrevista que deu enquanto tomava banho na sua banheira, onde gostava de estar no banho e onde, julgo, morreu. Assim se dizia na Capela do Rato lá em Lisboa.
Aninha, vamos ouvi-lo ao vivo daqui a pouco e saber também de
Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Elis, Toquinho, Carlos Lyra, Edu Lobo, Caetano e tantos que cantam Bossa
Vá ajuda-me canta comigo, tu és de cá:
Tristeza não tem fim, felicidade sim
E já no carro, ambas perguntávamos constantemente ao motorista quanto tempo faltava para chegarmos ao Canecão
e ao passar em Ipanema
olha que coisa mais linda mais linda mais cheia de graça é ela que passa
(…) Ah porque estou tão sozinho
Ah porque tudo é tão triste,
Ah a beleza que existe
A beleza que não é só minha
….que também passa sozinha
Ah se ela soubesse que quando ela passa
(…) o mundo fica mais lindo por causa do amor
E a outra e a outra canção
Um velho calção de banho
Um mar que não tem tamanho
Um fim de tarde em Itapuã
Falar de amor em Itapuã
Mais ou menos assim, não é? E atrasadas entrámos no Canecão. Fui caminhando em transe até à mesa dos nossos amigos. O meu padrinho Alçada estava lá, não recordo se com Jorge Amado pois estive em casa do Jorge com o Alçada algumas vezes, mas desta anterior, não me lembro se ele estava ou não, eu só queria multiplicar-me para parecer mais um animal livre vestido de neblina já que começara a chorar por ver tão soberbos poetas tão perto e os meus olhos sem glórias escutavam e julgavam compreender Vinicius e a Bossa Nova e os ritmos dissolutos e os sonetos da despedida e todas as meninas afogadas no transito da vida que só as levava às margens.
Há a sensação angustiante de uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado!
Deus meu! Eu ouvi ele dizer esta cançãofalada!Porque hoje é sábado! E…
E por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
E quem assim cantou casou e se divorciou 7 ou 8 vezes?
Caetano Veloso e Edu Lobo, estou a confundir? Mozart ainda não entendo. E o Jazz? E?
E eu que andava perdido ao encontrar você eu entendi ???
E a Tonga da Mironga do Kabuletê? Lembras-te? E lamento no Morro?
Ouvi dizer que no Rio de Janeiro, o termo Bossa Nova passou a ser utilizado para nomear o talento especial de uma pessoa a fazer algo. Neste sentido surge no samba “Coisas Nossas”, de Noel Rosa, que diz “O samba, a prontidão e outras bossas/ São nossas coisas, são coisas nossas”. Mais ou menos assim nos disse um amigo do Alçada.
Ai meu brasil brasileiro três vezes voltaste à flor e bem sei que te afogarás não sejam as redes por ti do meu amor. Escrevi isto num papel, dobrei e dei ao António Alçada. Levantei-me da mesa com a Aninha. Despedimo-nos de todos. Deitámos um olhar largo como se nos desse este olhar a certeza absoluta do que ali se passara.
Quando voltávamos para búzios, a noite parecia um corpo em cruz no meio de uns braços fortes que o lavavam no mar. Estávamos num silêncio imensamente eu e a Ana, duas inocências acesas. Por mim sentia que não tinha vivido um sonho, sim, uma existência: na carne, na fadiga, no pudor, na casa das ideias, no trópico encantado, afinal, tivera a visita das belas feras do Pantanal e não tivera medo, antes queria brincar, brincar muitíssimo, sentir a Natureza desacordada ou não te amasse tanto.
«Tempo Brasileiro – Fascínio e Miragem» de Eduardo Lourenço (Fundação C. Gulbenkian, 2018) é o quarto volume das Obras Completas do grande ensaísta.
UM TEMPO BRASILEIRO
“Há muitos Brasis no Brasil, múltiplas faces que se revelam sobretudo nas diversas imagens criadas pelos seus autores mais representativos, como Eduardo Lourenço sublinhou na altura da atribuição do Prémio Camões a Jorge Amado, ‘para o mundo inteiro, nenhum é ‘tão Brasil’ como Amado’. O autor de Gabriela plasmou ‘qualquer coisa de primordial, uma autêntica mitologia que é impossível julgar no horizonte ‘esteticista’ do puro literário’. E foi essa ‘mitologia solar tão brasileira, mas sobretudo tão baiana’, que Jorge Amado exportou ‘para o mundo inteiro’”. Quem o afirma é Maria de Lourdes Soares na introdução ao quarto volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2018), que leva por título Tempo Brasileiro: Fascínio e Miragem. O volume, feito com extremo cuidado e um conhecimento muito seguro das realidades brasileira e portuguesa e da obra do ensaísta, revela-se uma preciosidade, uma vez que há um vai-e-vem permanente entre as duas margens do mundo da língua portuguesa. E vamos assistindo, ao longo do tempo, a uma evolução no pensamento do analista relativamente a um diálogo cultural pleno de aproximações e afastamentos, de entendimentos e distâncias. E ninguém melhor do que Eduardo Lourenço para retratar esta relação, tão cheia de complexos, ressentimentos e contradições. Desde o momento em que o pensador chega ao Brasil, para aí ficar durante um ano na Bahia (1958-59), até aos dias de hoje, houve um caminho de afinação permanente de entendimento e de perspetiva, em que o melhor conhecimento da realidade vital, para além, da dimensão literária, permite-nos usufruir de uma leitura crítica que muito enriquece o conhecimento da relação cultural luso-brasileira. E assim a descoberta do Brasil faz-se de diversos espantos e da compreensão de que “nós só existimos no espelho dos outros”.
PENSAR AS DESCOBERTAS COMO UM TODO
Longe de qualquer simplificação, Eduardo Lourenço não esquece a imagem contemporânea dos três anéis (Portugal, Brasil e África) sem a qual não podemos perceber a relação complexa que se estabelece entre as nossas culturas. “As Descobertas são um todo. Não há de um lado a aventura pura de um desvendamento de mares e ilhas desconhecidas e de outro o implacável processo que com o tempo se chamará Colonização, com a sua finalidade prática de lucro ou submissão alheia”. A colonização do Brasil foi assim clássica e específica. Isto explica um círculo de ressentimento entre colonizador e ex-colonizados, que se constitui em labirinto de difícil saída. E o momento da ida da Corte para o Brasil, a criação do Reino Unido de Portugal e do Brasil ou a independência de Ipiranga, proclamada por D. Pedro, marcam uma especificidade diferenciadora dos outros casos conhecidos. E o certo é que ninguém perdoou a D. Pedro, príncipe de dois mundos (e verdadeiramente de nenhum), nem brasileiros nem portugueses… Os três anéis têm Portugal como “função de uma mitologia cultural que tem o seu tempo forte no passado”, África como “espera de um novo presente” e Brasil como “exigência condicionada por um futuro onde pode ver-se já como uma das configurações civilizacionais e culturais mais relevantes do próximo século. A bem dizer, o Brasil vive-se e imagina-se, naturalmente inscrito num espaço de que ele é o centro e a circunferência”. Na relação de Portugal com o Brasil (vemos isso na CPLP) fica, assim, o problema de saber como atravessar “a barreira fonética de ressonância ideológica e comercial”. Daí ter Fernando Henrique Cardoso razão quando diz que “o facto de usarmos a mesma língua não significa que tenhamos a mesma cultura”. E Lourenço frisa que “a questão é realmente de cultura, ou, talvez melhor, de mitologia cultural, ou até de hermenêutica, imposta pela complexidade dos laços que o mundo lusófono suscitou”.
PENSAR UM SERTÃO MUNDO
Refira-se aqui o encontro com Agostinho da Silva – “personagem de romance”, que “exerceu a multímoda atividade de passador de fronteiras como se a obrigação de transcender a sua raiz portuguesa fosse o primeiro dever, para não dizer, a essência mesma de ‘ser português’”. No entanto, Agostinho e Lourenço distanciam-se quanto ao papel da Europa, mau exemplo para o primeiro e ligação natural para o segundo (“nous sommes tous dans le même bateau”). No entanto, deste encontro resulta a necessidade de agir e de encarar criticamente o mito, como elemento que não pode ser esquecido. Há, de facto, uma história comum a considerar, e uma reflexão comum a fazer. Aliás, a propósito do romance de Almeida Faria Cavaleiro Andante, Eduardo Lourenço lança um apelo aos elementos dos três anéis da lusofonia no sentido de visitarem em comum a história “para além do que nela houve de doloroso e inexpiável, o que apesar de tudo, emerge desse processo como possibilidade e promessa de um diálogo que mutuamente nos enriqueça e nos humanize”. E se falamos do romance da Almeida Faria e do percurso errante de André, não esquecemos o paralelo que o nosso ensaísta estabelece com Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. “O paradigma do cavaleiro andante já tinha na nossa língua, em Riobaldo, a sua versão contemporânea e arcaica, menos encarnação triunfal do Bem do que anjo imune, por essência ao Mal que o rodeia”… E o Grande Sertão (o mais belo romance de amor da nossa língua, com Menina e Moça) leva-nos a pensar na imagem do Mar Português de Fernando Pessoa – e além desses dois Sertões, a partir de um romance que deixou Eduardo rendido, tendo começado por ler por dever de ofício, graças à invetiva de Glauber Rocha, e depois por sedução – tal como Alçada Baptista, após o fundamental conselho de Alexandre O’Neill - descobre o terceiro Sertão, Sertão-Mundo, sertão-miragem, sertão linguagem, à semelhança da terceira margem do memorável conto também de Guimarães Rosa. E chegados aos Sertões de Euclides da Cunha e aos canudos fanatizados por António Conselheiro vamos à interrogação essencial sobre o providencialismo encontrado no sebastianismo – e ao filme de Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol, “simultaneamente sinfonia e tragédia, imagem, canto e música constituindo-se como autêntica ópera popular”. Trata-se da interrogação sobre os mitos que nos unem e separam, mas que exigem revisitação comum que ocupa e preocupa Eduardo Lourenço. Referimo-nos a uma casa habitável e imperdível a que o escritor sempre regressa: “casa-país ‘habitável de todos’, a das línguas-pátrias e das pátrias-línguas dos ‘nossos criadores mais inventivos’”, onde “sentimos e experimentamos que somos eternos, como diria Spinoza: ‘nenhuma língua morre no círculo da poesia, pois é ela a chama no coração de todas as línguas” e “como escreveu Nietzsche todo o prazer pede eternidade”. Assim, sobre o “Tempo Brasileiro”, Maria de Lourdes Soares reúne e analisa, de modo superior, um fascinante conjunto de textos que vão ao âmago da originalidade lourenciana, grande interrogadora sobre uma língua de várias culturas que apela intensamente à visitação comum de caminhos múltiplos, tantas vezes paradoxais e contraditórios, que nos permite existir também pelo espelho de outros.
Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
Quer funcionando como a primeira pessoa no plural, quer no sentido da medida de navegação ligada ao movimento e à velocidade, quer significando o entrelaçamento de cordas, cordões, fios, linhas ou algo mais, a palavra “nós” possibilita múltiplas interpretações assumindo, pelo menos, um triplo sentido de leituras, como metaforicamente o pretende simbolizar a exposição “A Língua Portuguesa em Nós”, na Central Tejo, em Lisboa, entre 6 e 21 de outubro de 2018.
Sem fausto, deslumbramento, pompa e circunstância, esta exposição, de raiz brasileira, pretende informar, historiando ao sabor dos tempos e resumidamente, a história do nosso idioma, aí atualmente quantificado em 270 milhões de falantes.
Na sua simplicidade, economia de espaço e meios, fala-nos da grande viagem, de viajantes, promotores e divulgadores da língua portuguesa, desde as navegações marítimas portuguesas e correspondente expansão pelo mar, até aos dias de hoje, com especial enfoque no contributo do Brasil, ou não fosse ela uma iniciativa brasileira, uma espécie de miniatura ou pequena amostra do Museu de Língua Portuguesa, de São Paulo, em recuperação, após o incêndio de 2015 (em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Instituto da Língua Portuguesa, a Fundação EDP e o Instituto Camões).
Por entre painéis, livros, vídeos, era digital, há uma espécie de puzzle onde sobressaem música, textos, culinária e a Cápsula, tendo esta a particularidade de recolher testemunhos individuais da fala, de cidadãos comuns, convidados a falar e gravar depoimentos em vídeo, expondo a sua relação com o nosso idioma, para integrar uma coleta de falares que farão parte do acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Brasil.
Há a literatura, essa linguagem trabalhada, com frases, textos, referências a Camões, Vieira, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Oswaldo de Andrade.
E há a música do Brasil que se internacionalizou e tanto universalizou a língua portuguesa, a quem esta tanto deve, vindo-me à memória uma guia italiana, em Veneza, sem ligações lusófonas, que me surpreendeu pelo seu português tão bem falado, cujo porquê indaguei, respondendo-me que o aprendeu graças à música brasileira, que sempre amou, desde Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Jorge Ben, Betânia, Gal Costa, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre outros, como Mariza Monte, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, nomes que vamos reconhecendo no decurso da exposição.
Fala-se também de Agostinho da Silva, a propósito da canção de Caetano “Minha pátria é minha língua”, dando eco a uma nova cultura que emergiria dos falantes de português no Brasil e na África, que a Praça da Língua intenta difundir e promover.
Da culinária e do samba, naquele português com açúcar do Brasil, da fruta e sotaque doce, a que acresce a eterna viola e o violão.
Reconhecendo ser o nosso idioma uma das línguas mais faladas no mundo, dando-lhe o estatuto de língua global, aparecendo entre as seis primeiras (por vezes em quarto ou quinto lugar, consoante as fontes), estranha-se que a população da Guiné Equatorial seja contabilizada para efeitos do número de falantes do português, decerto por arrastamento, dado ser um país membro da CPLP (sendo mera retórica, até agora, ser tido como um país que tem como língua oficial a portuguesa, embora um pressuposto necessário para integrar a CPLP).
Na sua modéstia e contenção de custos, vale a pena a visita, embora merecesse voos mais altos, pelo valor estratégico que a língua portuguesa tem, sem esquecer as ameaças globais que a rodeiam, mesmo a nível interno e lusófono, não obstante uma língua global e a este nível ser enfatizada, em défice com a condição de língua ainda dominada a vários níveis institucionais (e não só), factualidade de que a exposição é omissa.
Nesta sucessão de evocações e descrições de teatros atuais e teatros históricos de tradição cultural e arquitetónica, recorremos em primeiro lugar a um livro de Luis Norton, editado em 1936, sobre “A Corte de Portugal no Brasil”, assim mesmo denominado.
Trata-se efetivamente de um denso e vasto estudo histórico, amplamente fundamentado em numerosos documentos inéditos, designadamente do Arquivo Histórico do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, aí incluindo ou complementando-o com vasta correspondência diplomática relativa às negociações do casamento da Arquiduquesa Dona Leopoldina com D. Pedro de Bragança, como bem sabemos futuro Imperador do Brasil e Rei de Portugal.
Para além do interesse histórico-diplomático em si, o estudo evoca e descreve a realidade cultural do Rio de Janeiro na época, vista tanto no ponto de vista de criatividade, como de atividades diversas e ainda pelo património subjacente. E é extremamente interessante, na perspetiva cultural e de infraestrutura, a referência vasta e devidamente documentada aos teatros e espetáculos, bem como da vida da corte e da cidade.
E mais: quando a Família Real ainda se encontrava no Palácio denominado Real Quinta da Boa Vista, o próprio D. Pedro cantou uma área de ópera, dirigido por Marcos Portugal, a quem se deveu a revisão de musica original ali executada para a Corte. Sobre Marcos Portugal esclarece Luis Norton que “o Rei e toda a Família Real apadrinharam o novo maestro que passara a ser um elemento indispensável na orquestração musical da nova Corte brasileira” (pág. 93).
E mais acrescenta que D. Pedro foi ele próprio compositor de mérito, com obras que se destacaram na época e ainda hoje se destacam: cita designadamente “o Te Deum que foi composto para as suas segundas núpcias, uma ópera em português executada em 1832 no Teatro Italiano de Paris, uma sinfonia para grande orquestra, as músicas para o hino constitucional português e para o hino da independência brasileira” (pág. 95).
No que respeita a teatros-espaços/edifícios, temos no livro de Luiz Norton a descrição detalhada dos festejos da aclamação de D. João VI como Rei de Portugal, ocorridos na Corte então sediada no Palácio do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1819. E nesse contexto, o autor refere o Real Teatro do Rio de Janeiro, citando e descrevendo um “painel monumental”, em que figurava a Rainha D. Carlota Joaquina.
E transcreve um curioso documento da época, que se refere a D. Carlota Joaquina “com dois génios coroando-a de louro e sustentando outras tantas coroas de louro, quantas são as Augustas Princesas com que Sua Majestade tem esmaltado o Trono português e que fazem hoje as delícias de duas nações poderosas”, assim mesmo! (pág. 79).
A bibliografia sobre este tema é vastíssima.
Acrescente-se ainda que J. Galante de Sousa refere a existência de mais seis teatros no Rio de Janeiro e mais 11 espalhados pelo imenso território brasileiro, isto ao longo da primeira metade do século XIX. (cfr. “O Teatro no Brasil” (ed. Ministério da Educação e Cultura” Rio de Janeiro 1960)
E finalmente, remete-se para o vasto estudo sobre a “História do Teatro Brasileiro”, dirigido por João Roberto Faria, e que precisamente assinala e descreve uma vasta atividade de teatro e de teatros, nesta época, e ao longo da vastíssima extensão do Brasil! (ed. SESCSP e Perspetiva - São Paulo 2012).
XL - SÍLVIO ROMERO E O ELEMENTO PORTUGUÊS NO BRASIL
Em discurso no Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em maio de 1902, na conferência sobre O Elemento Portuguez no Brasil, o pensador brasileiro Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (SR),[1] defendeu a tese da conveniência de reforçar no Brasil o elemento português, pois se estudarmos as origens brasileiras, o seu genuíno ascendente europeu é constituído pela gente de Camões.
Não se tratava, tão só, e por mero capricho, de opor o elemento português aos outros elementos que colaboraram na formação do Brasil. Tratava-se, sim, “da conveniência de reforçarno Brasil os elementos que o constituíram historicamente uma nação luso-americana, os elementos que falam a língua portuguesa, ou, ainda e como consequência de tudo isso: de como de todas as novas colonizações que possam vir ao Brasil a mais conveniente é a portuguesa”[2].
Tendo o Brasil como um povo luso-americano, um prolongamento lusitano na América, tipo Portugal transplantado e metamorfoseado, é apologista que de todos os emigrantes que procuravam o país, os portugueses eram os que mais convinham, tendo tido o desígnio superior de se aliarem e não exterminarem as raças indígenas, nem repeliram o negro, melhorando as condições da extensíssima mestiçagem brasileira, sem alterar a fisionomia histórica da nação.
Facto único, a língua, só por si, chegaria para individualizar a nacionalidade brasileira marcando, para sempre, o lugar que o português tem no Brasil. Num período de antilusitanismo, foi firme na defesa da aproximação entre os dois povos, percebendo o papel fundamental de uma língua como eixo central de culturas, antevendo, já então, para o idioma comum, o lugar que agora lhe começa a ser reconhecido.
Portugal, pequeno, de diminuta população, teve força e habilidade bastante para entregar integralmente um país gigante e homogéneo àqueles que deviam ser os seus herdeiros.
Sendo estes os ensinamentos da história, conclui: “se a nossa nacionalidade é uma nacionalidade luso-americana, e se ela quer continuar a ser o que é para ficar sendo alguma coisa, (…), não temos outro recurso senão apelar para um reforço do elemento português, já que europeus de outras origens quaisquer não querem cá vir espalhar-se um pouco por toda a parte, e os das duas procedências que nos enviam imigrantes, (…), foram perturbadoramente aglomerados nas belas regiões do Sul, e são hoje um perigo permanente para a integridade da pátria”[3].
O que justifica, à data, pela ameaça permanente da integridade brasileira, por europeus de outras origens (italianos, e nomeadamente alemães), que não desejavam espalhar-se por todo o país, mas fixar-se nas apetecíveis regiões sulistas aí lançando, deixando-os, o gérmen de futuros Estados, designadamente de origem germânica. Seria assim, dado que o elemento germânico, mais que o italiano, é muito diferente de outros emigrantes e dos concorrentes brasileiros que considera inferiores a si, tendo a experiência provado que não se deixa assimilar e diluir pelas populações nativas.
Propõe que os falantes de português se unam na sua defesa, não vendo como utopia ou sonho uma aliança entre Brasil e Portugal, “como não será um delírio ver no futuro o império português de África unido ao império português da América, estimulados pelo espírito da pequena terra da Europa que foi o berço de ambos”[4].
O reconhecer termos muito a aprender com os povos mais ricos, militarmente poderosos e industrialmente avançados, não o deslumbrou, não renegando as origens. Louva-lhes o mérito de um enorme progresso material, mas não os cobiça na sua arrogância de superioridade e hostilização não humanista.
O elemento germânico, que tem como superiormente dotado em termos étnicos, mas que, pela negativa, se não deixava assimilar e misturar pelas populações pátrias que o circundavam no Brasil, faz lembrar os medos e demónios que a Alemanha representou e representa para muitos, a começar pelos vizinhos, por confronto com o seu apreço. Mas nunca o maravilhou. Ao invés de Portugal, não obstante a sua pequenez e a fraqueza de que então era portador como centro de poder.
Parece um contra-senso, qual queda de um mito, a observação de que os emigrantes germânicos se fixavam preferencialmente no sul, em terras ricas e escolhidas a dedo, ao contrário dos portugueses, espalhados por todo o lado. Como que a inverter a fábula lafontaineana da formiga alemã que labuta, labuta, todo ano (e em toda a parte, presume-se), enquanto as cigarras do sul da Europa (incluindo Portugal, Espanha e, por arrastamento, os seus descendentes na América) andam sempre em folia e devem ser punidas. Apesar da História, como mestra da vida, nos ensinar que o ser-se mais ou menos civilizado e poderoso, varia no tempo e espaço, não sendo um dado adquirido para ninguém. Incluindo a Alemanha que, por muito forte e rica que seja, isolada pouco ou nada representa, a começar na União Europeia, onde se questiona, por agora, saber se está em causa a germanização da Europa ou a europeização daquela.
Constatando o desaparecimento gradual e total da língua portuguesa de certas zonas do Brasil, apesar de eterna em grande parte do país, conclui com a certeza de nunca vir a perecer entre a Galiza e a foz do Guadiana. Felizmente que tal receio não se concretizou, sendo o Brasil atual, como portador de todas as caraterísticas de uma potência emergente e continental, o maior protagonista da divulgação do nosso idioma comum à escala global, com base no critério da difusão mundial das línguas.
Ao promover um reencontro das origens e destino histórico do Brasil para os novos chamamentos competitivos no princípio do século XX, defendendo preferencialmente a utilidade de reforço do elemento português, sem que essa matriz nacional excluísse outros elementos que estiveram na base da sua formação e evolução, SR, para além de ser, eventualmente, o primeiro grande defensor da importância do contributo português na formação do povo brasileiro, foi também um precursor da lusofonia e da CPLP.
17.07.2018 Joaquim Miguel de Morgado Patrício
[1] Romero, Sylvio, O Elemento Portuguez no Brasil, Conferência (1902), Typographia da Companhia Nacional Editora, Conde Barão, 50, Lisboa.
Com a fixação da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, esta cidade converteu-se em capital do Império e foi a sede do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, pelo que todas as decisões relevantes do Reino provinham de terras brasileiras, de onde passou a ser governado todo o mundo lusíada.
Com a independência do Brasil, em 1822, consagrou-se a separação, embora o Tratado de Paz e Aliança de 1825, disponha, no seu preâmbulo “os mais vivos desejos de restabelecer a Paz, Amizade, e boa harmonia entre Povos Irmãos, que os vínculos mais sagrados devem conciliar, e unir em perpétua aliança”.
A procura desse fator comum de união permaneceu presente até aos dias de hoje, traduzindo-se num conjunto de planos para unir os dois países, assim surgindo o interesse para a criação de uma Comunidade Luso-Brasileira.
A recuperação da relação privilegiada entre Portugal e o Brasil ocorreu em 1922. Os acontecimentos mais marcantes foram a travessia aérea do Atlântico Sul pelos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral e, nesse mesmo ano, a visita ao Brasil do Presidente da República Portuguesa, António José de Almeida, coincidindo com o 1.º centenário da sua independência.
A ideia de uma Comunidade Luso-Brasileira recebeu um forte ímpeto de Gilberto Freyre, com destaque para as suas obras “CasaGrande & Sanzala” (1933) e “O Mundo que o Português Criou” (1940). Destacando e enaltecendo a ação dos portugueses nos trópicos e na formação do povo brasileiro, contribuiu decisivamente para uma reviravolta, pela positiva, da autoestima dos brasileiros e da sua visão da atividade portuguesa no Brasil. Depois de Freyre, o estudo da colonização portuguesa no Brasil passou a ser vista com maior interesse, o mesmo acontecendo em relação à génese e emergência do povo brasileiro, libertando a opinião pública brasileira de pessimismos e complexos de inferioridade, com os respetivos reflexos em Portugal.
Surge, neste contexto, um dos maiores entusiastas da aproximação entre os dois países, o embaixador do Brasil em Portugal, José Neves Fontoura, principal mentor do Tratado que foi a concretização inicial da Comunidade Luso-Brasileira.
Em 16 de novembro de 1953, no Rio de Janeiro, é assinado o Tratado de Amizade e Consulta, entre Portugal e o Brasil, em cuja introdução consta basear-se no mútuo reconhecimento “das afinidades espirituais, morais, étnicas e linguísticas que, após mais de três séculos de história comum, continuam a ligar a Nação Brasileira à Nação Portuguesa, do que resulta uma situação especialíssima para os interesses recíprocos dos dois povos”.
Aspetos fundamentais dele resultante são o reconhecimento jurídico da Comunidade Luso-Brasileira, consulta recíproca relativa a problemas comuns da Comunidade, mesmo de âmbito internacional, e a criação de um estatuto especial para os cidadãos de ambos os países.
O Tratado de Amizade e Consulta traduziu-se no primeiro projeto de uma comunidade de povos de língua portuguesa.
É imperioso referir que entre os eventos que podem ser vistos como antecedentes da CPLP, estão dois Congressos das Comunidades de Cultura Portuguesa, feitos em Lisboa, em 1964, e na Ilha de Moçambique, em 1967, realizados sob a responsabilidade da Sociedade de Geografia de Lisboa, que tiveram como maior dinamizador Adriano Moreira, na sua qualidade de Presidente da União das Comunidades de Cultura Portuguesa.
Esta União tinha por fim “promover e assegurar as relações e a cooperação das associações, grupos e indivíduos que estejam ligados ou se interessem pela conservaçãoe propagação da cultura portuguesa” (art.º 1.º). Para cumprir os seus objetivos, a União deveria servir “a cooperação entre os portugueses, descendentes de portugueses e pessoas filiadas na cultura portuguesa, tendo especialmente em vista osque residem habitualmente fora do território português” (art.º 2.º).
No relatório geral do I Congresso das Comunidades Portuguesas, salienta-se a necessidade de um movimento destinado à salvaguarda da herança cultural portuguesa no mundo. Referem-se, enumerando-os, três grupos de fenómenos que os portugueses difundiram mundialmente: o achamento do mundo não europeu, a europeização dos trópicos e a formação do mestiço. Como seu resultado defende-se que os portugueses descobrem a unidade da espécie humana, aproximam da Europa novas civilizações e criam a antropologia cultural e física dos trópicos, exportando para os continentes mais distantes “os genes e os patterns culturais euro-mediterrânicos”.
Para além de notórias as influências de Freyre e do luso-tropicalismo, constata-se que tais realizações são também precursoras do atual conceito de Lusofonia. Antecipam-se mais à atual noção de Lusofonia que à da CPLP, pois agarram mais de perto aquela e são mais abrangentes no seu conteúdo, à semelhança da Lusofonia. É assim, desde logo, porque a CPLP é uma organização de vocação restrita quanto aos seus membros, de natureza interestadual e intergovernamental.
Outro avanço de grande importância, no âmbito da Comunidade Luso-Brasileira, foi a Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Portugueses e Brasileiros, assinada em 07.09.1971, em Brasília.
Desde o Tratado de Paz e Aliança de 1825 e o de Amizade e Consulta de 1953, existia uma ideia de tratamento especial concedido, em reciprocidade, aos cidadãos de Portugal e Brasil.
Com a Convenção de Brasília, à ideia de tratamento especial veio juntar-se a de igualdade de tratamento, estabelecendo aquela, no seu art.º 1.º: “Os portugueses no Brasil e os brasileiros em Portugal gozarão de igualdade de direitos e deveres com os respetivos nacionais”.
Tal Convenção baseava-se em princípios constitucionais de igualdade das Constituições do Brasil e de Portugal, em obediência ao princípio da reciprocidade. Não era de aplicação automática, mas tão só após requerimento da parte interessada a quem de direito.
Para a aquisição da igualdade de direitos civis exigiam-se como pré-requisitos a residência permanente e a capacidade civil em conformidade com as leis do país (art.º 5.º). Para os direitos políticos, a residência durante cinco anos no país e saber ler e escrever português (art.º 7.º da Convenção e art.º 5.º, n.º 3, Decreto-Lei n.º 126/72, de 22/04).
Não se estabelecia uma dupla cidadania ou uma cidadania comum luso-brasileira. Observa Jorge Miranda: “Os portugueses no Brasil continuam portugueses e os brasileiros em Portugal brasileiros. Simplesmente, uns e outros recebem, à margem ou para além da condição comum de estrangeiros, direitos que a priori poderiam apenas ser conferidos a cidadãos do país” (Manual de Direito Constitucional. Estrutura Constitucional do Estado, Tomo III, 2.ª edição, Coimbra Editora, 1988, p. 145).
Com o 25 de abril de 1974, novos horizontes e estratégias surgiriam.