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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…



JOSÉ GARCÊS (1928-2020)

Dos autores ainda em atividade, José Garcês era dos mais prolíferos ilustradores de Banda Desenhada em Portugal, sendo também reconhecido no estrangeiro. A 12 de outubro de 1946, a revista “O Mosquito” publicava a história “Inferno verde”, que assinala a estreia de José Garcês como ilustrador da imprensa infantojuvenil. Tinha então 18 anos, e frequentara a Escola António Arroio. Ao longo da vida o seu nome ficou associado sobretudo à função pedagógica da Banda Desenhada, com figuras e acontecimentos da História de Portugal, segundo um traço realista, feito integralmente à mão, com tinta-da-china e aguarela, sob a influência do norte-americano Harold Foster, célebre autor de “O Príncipe Valente”. Em virtude da ligação à feitura de Manuais escolares, designadamente na ASA, percorreu o país em visitas a escolas e em conversas com alunos e professores. Tratava-se de explicar os acontecimentos que retratava e de ligar a representação gráfica a essa experiência. Publicou entre outros, “A História de Portugal em BD”, “Bartolomeu Dias”, “Cristóvão Colombo”, “D. João V”, “História do Porto”, “História de Silves”, “História de Faro”, “Vida de Santo António de Lisboa” e “História do Jardim Zoológico”. “ A banda desenhada foi uma boa opção para ensinar, porque tinha imagens”, afirmou. Depois de “O Mosquito”, para o qual fez quatro narrativas, desenhou, entre outros, para a “Cavaleiro Andante”, “Modas e Bordados”, “Mundo de Aventuras” e também para as revistas “Camarada” e “Fagulha”.

 

Naquele tempo as histórias aos quadradinhos eram lidas sobretudo em revistas ou em continuados, e além de José Garcês trabalhavam José Ruy, Fernando Bento, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez e Vítor Péon. “Não havia rivalidade, eramos todos amigos”, como afirmou o artista. No seu estirador criava incansavelmente, com canetas de aparo, lápis, rodeado de pastas com desenhos, livros de História, entre paredes forradas com memórias e um certificado da escola Voz do Operário, de 1940.

 

70 anos é uma carreira muito longa e rica, na qual não faltou o interesse pelo desenho de temas militares, pela criação de construções de montar em cartolina, desde o mosteiro da Batalha até uma série sobre castelos portugueses. Durante quarenta anos, José Garcês trabalhou no antigo Serviço Nacional de Meteorologia, onde desenhou as cartas de previsão meteorológica e chefiou o departamento de desenho. “Eu tenho consciência que fiz muita coisa, que prestei um serviço público ao país”, disse. Ao analisarmos a sua obra e ao encontrarmos o seu traço tributário da linha clara podemos dizer que José Garcês é uma referência fundamental da Banda Desenhada contemporânea, não apenas de entretenimento, mas com forte pendor educativo. O exemplo que apresentamos é retirado da História de Silves e nele fica patente quer o rigor artístico quer a preocupação motivadora dos estudantes, que a um tempo gozam da ligação estreita entre a arte e o conhecimento.


Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…


MINUCIOSAS FORMIGAS, CIGARRAS GAITEIRAS…

«Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora não querer».

 

O poema de Alexandre O’Neill merece atenção especial, sobretudo neste momento em que o debate lusitano sobre a pandemia Covid-19 se torna uma grande encenação de passa-culpas. Como é hábito antigo, passamos rapidamente dos melhores do mundo para os piores. Do milagre para a maldição… Ora formigas, ora cigarras – e esquecemo-nos que somos, sempre fomos, as duas realidades como toda a gente. Felizmente! E razão tem o Alexandre O’Neill – “Assim devera eu ser / se não fora não querer”. Do que se trata? “Não fora não querer” significa não querer ser o melhor do mundo, porque ninguém o é. Olhemos com um pouco de atenção o que se passa com este traiçoeiro vírus? Toda a gente sabe que a situação que vivemos constitui um dilema difícil. Se ficássemos confinados, não resolveríamos o essencial. Partindo para o disparate desconfinado, também não. Talvez adiássemos por dias ou semanas o que inexoravelmente sofremos hoje. Mas um dilema é um dilema. A economia e a saúde pública obrigam a uma combinação de fatores. Não podemos ao mesmo tempo fazer avançar o negócio e contrariar o desemprego, sem redobrar o cuidado na saúde pública. Aqui bate o ponto. E é verdade que houve quem julgasse que por ser jovem ficaria incólume à doença. E também houve quem pensasse que a vacina estaria ao virar da esquina, e tudo se resolveria, sem dificuldades… Portanto, toca a andar… Mas sejamos muito práticos. De facto, fomos algo facilitadores, como quase sempre somos. O certo é que tínhamos de desconfinar, com as cautelas necessárias. E este é o nosso ponto! Temos dificuldade em planear e em prever ou prevenir. O que nos diz o poema imortalizado por Amália e agora lembrado por Adriana Calcanhoto é apenas isto – temos de cuidar dos exemplos das minuciosas formigas e das gaiteiras cigarras. Ou seja, temos de saber ser formigas gaiteiras e cigarras minuciosas. Que é a arte senão o sentimento e o cuidado? No meu livrito já aqui citado sobre o paradoxo de Zenão afirmo em dado passo: “todas as fábulas de Esopo, de Fedro ou de La Fontaine contêm um paradoxo. Elas são ao mesmo tempo lições morais e apelos à sabedoria suficiente para não seguir cegamente uma conclusão rígida. É a formiga um modelo de vida? Naturalmente que o não é. Mas pode ser. O mesmo para a cigarra. Esopo ensina-nos sim que a vida não pode esquecer o outro lado das coisas. Daí as representações pedagógicas do mundo às avessas. Poderia a formiga viver sem a música das cigarras? Poderia a cigarra viver sem o trabalho das formigas? Claro que não. Uma fábula é um paradoxo ilustrado. Temos sempre de a ver o direito e o avesso… Como num lenço de namorados, temos de saber que o direito é que dá a leitura, a qual não existiria se não houvesse avesso…  Pode a raposa viver sem o corvo? Pode o burro existir sem o leão? E tal como Zenão nos ensinou, a pura lógica não permitiria sequer que a cigarra e a formiga se encontrassem, e logo não haveria a lição paradoxal da cigarra laboriosa e da formiga cantadeira”… Eis por que razão o nosso saudoso Alexandre O’Neill tem toda a razão… Escrevo, entristecido, eu anglófilo empederrnido, ao ver Mr. Johnson, Boris, a reeditar os métodos da pérfida Albion, e as desconsiderações de John Bull, que conhecemos de ginjeira.  Agora vêm dizer que teríamos de ter sido ainda melhores para usufruir das benesses britânicas. E eis que dão motivos para as nossas lágrimas de crocodilo. Para mim, no entanto, tudo pode ser mais simples – se redobrarmos as cautelas e se soubermos ser boas formigas e melhores cigarras…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

OS ESPECIALISTAS

 

Esta pandemia trouxe-nos um novo tipo de pessoas que invadem o espaço público, a que poderemos chamar de “especialistas”. Que fazem esses temíveis palradores? Invadem-nos a casa, através dos meios de comunicação, em especial a televisão, e dão-nos explicações e palpites, sobre tudo o possível e imaginário. Julgam saber de tudo, desde as origens fisiológicas das transformações operadas pelo dramático Covid-19 até aos efeitos psicológicos do confinamento. Têm sempre algo a dizer-nos. São fisiologistas, psicólogos, candidatos a psiquiatras, biólogos, educadores, cientistas – tudo. Fazem-me lembrar o simpático Gaston Lagaffe, aqui representado (que quando chegou a Portugal, no início dos anos sessenta, se chamava Zacarias, e pontificava com as suas desventuras). Também ele era especialista de tudo, mas tudo em que se metia dava desastre… Em qualquer posto de comunicação ouvimos esses especialistas que peroram sobre as máscaras, sobre as viseiras, sobre os perdigotos, sobre os desabafos intestinais, sobre as estatísticas, sobre os ventiladores, sobre os medicamentos, sobre morcegos e ratos, sobre vacinas e testes serológicos, sobre a peste negra e bubónica ou sobre a gripe espanhola, vulgo pneumónica… Eu sei lá? No entanto, tirei-me de cuidados e conversei com um cientista sério e a sério. E que me disse ele? Que ninguém sabe nada, verdadeiramente. Até a respeitada revista “Lancet” teve de reconhecer a dificuldade em dizer algo de relevante, dando o dito por não dito. Talvez daqui a algum tempo possa haver alguma coisa de relevante. Mas para já, apenas podemos proteger-nos. Prevenir é a única palavra de ordem. É que o vírus não é um bicho. Não é um ser vivo. Em latim, vírus significa veneno ou toxina. É um agente infeccioso com 20-300 nanómetros de diâmetro, apesar de existirem vírus ɡiɡantes de (0.6–1.5 µm), sendo constituído por uma ou várias moléculas de acido nucleico. Disse esse meu amigo e eu anotei religiosamente (mas mal percebi) que os ácidos nucleicos dos vírus apresentam-se geralmente revestidos por um envoltório proteico formado por uma ou várias proteínas, que pode ainda ser revestido por uma espécie de envelope formado por uma dupla camada lipídica… Não me peçam para explicar. O que sei é que fora do ambiente intracelular os vírus são inertes… Qual o perigo? Nas superfícies não duram muito tempo, e no ar mantêm-se tempo suficiente para se transmitir pelas vias superiores respiratórias. Mas, uma vez dentro das células, a capacidade de replicação dos vírus é surpreendente: um único vírus é capaz de multiplicar, em poucas horas, milhares de novos vírus. E os vírus são capazes de infetar seres vivos de todos os domínios, inclusive bactérias. Daí todas as dificuldades. Eis por que razão tenho o maior cuidado com a minha máscara e com o lavar das mãos… De facto, os vírus representam a maior diversidade biológica do planeta, sendo mais diversos que bactérias, plantas, fungos e animais juntos. Quase 200 mil tipos diferentes de vírus se espalham nos oceanos do mundo. Por exemplo, a última contagem é 12 vezes maior do que o censo anterior de vírus marinhos registado em 2016. Esse meu amigo, que, como diria o saudoso Bocage, não era um doutor das dúzias, fez-me compreender como esses especialistas falam barato do que não sabem e peroram sobre o que não existe. Assim se entende que o Senhor Donaldo Trump se aventure num campo difícil e minado, como se fosse um verdadeiro especialista – falando de desinfetantes e aconselhando práticas mortíferas para os mais incautos. Alguns que o seguiram foram levados a perigosas lavagens ao estomago. O mesmo se diga do Senhor Bolsonaro e de tantos outros, que na Idade Média teriam emprego certo como bobos ou como charlatães… Percebe-se assim que estes especialistas que nos invadiram têm onde se inspirar.  E percebem-se as cautelas postas pelos verdadeiros infeciologistas, que são os primeiros a dizer que muito pouco se sabe ainda sobre este tema. Todo o cuidado é pouco. Andamos todos às apalpadelas – que o diga este momento de grande incerteza. De facto, ainda a procissão vai no adro. E não podemos facilitar. Ninguém se julgue imune. A ciência sabe muito pouco. Por isso os falsos especialistas são como esse Gaston, que um dia se lembrou de organizar um arquivo com o mais estranho dos instrumentos – uma ventoinha… O resultado dessa operação é exatamente a que suspeitam..… Está tudo dito… É assim também com estes doutores da mula ruça. Quando virem e ouvirem um destes especialistas ilusórios ponham-se de sobreaviso.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A VER A CRISE PELAS COSTAS?

 

Não sei que vos diga. Há sinais contraditórios. É verdade que a crise pandémica como situação assimétrica vai ultrapassando, pelo menos aparentemente, a sua expressão mais dramática. Mas a primeira lição que poderemos tirar, é que deixamos de poder estar descansados. A cada passo pode surgir um qualquer morcego e com ele um vírus traiçoeiro e tudo pode começar de novo, mesmo sem falar das hipóteses de segundas e terceiras vagas. Há dias, lendo o testemunho de um médico atingido pela Covid-19, verifiquei duas coisas: a primeira é que qualquer atraso pode ter consequências fatais (como aconteceu em Itália e Espanha), a segunda é que ninguém está imune à fatalidade. O vírus ataca todos, ainda que, democraticamente, escolha aleatoriamente uns mais do que outros. Tanto podemos ter os assintomáticos (que alegremente transmitem a enfermidade), como os ligeiros e ainda os severos – que de um dia para o outro, mesmo fazendo-se fortes são prostrados com violência e vêem-se na iminência de passar para a eternidade. Se no auge da pandemia e do confinamento, havia vozes que prometiam tudo ir mudar – depressa percebemos que “de boas intenções, está o inferno bem cheio”… Agora, subitamente, depois do desconfinamento e perante uma aberturazinha, eis-nos diante da ideia imprudentíssima de que tudo já passou e de que temos um escudo protetor contra os vários perigos que nos imuniza. Puro engano! Os riscos mantêm-se, talvez atenuados, mas a redução do perigo só acontecerá se mantivermos as medidas protetoras – máscaras, distâncias, prevenção constante… E sobretudo prudência. Ninguém está imune, em nenhuma idade – a peste continua a pairar. Como li algures na imprensa italiana, pela boca de Walter Veltroni: “a nova fase significa trabalho. Significa reconstruir as condições de uma nova fase de desenvolvimento, fundada no ambiente, no saber, nas infraestruturas materiais e na digitalização. Significa que, acabada a emergência mais grave, os fundos que gastaremos não devem ser uma nova página de assistencialismo de massa, mas um fluxo de recursos guiado por uma visão estratégica e moderna de uma nova realidade que haverá de nascer desta crise”. Seria o melhor se assim fosse, mas temo que tudo fique na mesma… Senão vejam três ou quatro coisas: Deixámos de fazer o que era menos essencial, mas ninguém deu pela falta; fomos obrigados a encontrar solução para o que não podia deixar de ser feito; reduzimos o desperdício e a poluição – mas é verdade que houve coisas essenciais que ficaram por fazer. O quê? O serviço e o cuidado dos outros exigiam esforços adicionais, que ficaram aquém do desejável. E houve mortos. O medo ocupou excessivamente as nossas vidas. Muitas lições da peste ficaram por tirar. Por isso, Veltroni tem razão. As desigualdades agravaram-se e os mais fracos foram os mais prejudicados. Eis por que tem de haver aprendizagem e temos de encontrar novas formas de estar próximos do próximo, mesmo com a prudente distância. Não há aprendizagem sem proximidade. A distância é sempre um recurso excecional e transitório. Não resisto a citar um livrinho que escrevi há já bastantes anos e que tinha o título algo esotérico “Para o Estudo do Paradoxo de Zenão – Aquiles e a Tartaruga”: “Ora vejam bem a dificuldade que o mestre grego teve em explicar aos seus peripatéticos discípulos que logicamente nunca Aquiles poderia vencer a pobre tartaruga. Todos responderam em uníssono que só um passo de Aquiles permitiria ultrapassar a pachorrenta tartaruga e que, nem o povo se deixaria enganar por essa patranha, uma vez que a fábula de Fedro permitia que a Tartaruga vencesse a Lebre, porque esta se deixou dormir, tão segura estava de que iria vencer sem a mais breve das dificuldades. Distingamos assim as coisas: a tartaruga venceu a lebre realmente, porque esta mandriou, não podendo esquecer-se que só alcança em porfia. Também têm razão os alunos zombadores quando usam o senso comum para dizer que a passada de Aquiles é muito maior do que os movimentos da tartaruga. Mas agora vem o segredo maior. É que Zenão também tinha razão – porque a pergunta dele partia de um se. Se nós compararmos logicamente a caminhada da tartaruga e os passos de Aquiles para atingirem a meta, dividindo sucessivamente por dois o que falta para atingir o objetivo, nenhum dos dois vai atingir a meta, ou seja, nenhum vai vencer, por que as operações para os dois percursos são infinitas. E a verdade é que são mesmo. Tal passa-se também com a flecha que nunca chegará ao alvo se (e só se) nós formos sucessivamente dividindo por dois a distância que nos falta até ao destino. Tem razão Fedro, têm razão os meninos zombadores e tem razão o matemático. Não podem misturar-se as coisas. Afinal, a lógica reserva-nos grandes surpresas. Se a lógica da fábula prevalecer, se o senso comum dos jovens dominar ou se o problema de Zenão for compreendido tudo está certo. Alguém pode provar que existe o luzeiro que avista na noite limpa de Verão no firmamento? Não só não pode, como pode já não existir esse luzeiro há milhões de anos. O que há é uma ilusão ditada pela lentidão da velocidade da luz. E no entanto a luz vê-se, apesar de há muito estar apagada. O mesmo no confronto entre Aquiles e a tartaruga. Não estamos a perguntar se Aquiles vence, mas se algum dos dois pode atingir o destino se procedermos à operação lógica que Zenão nos propôs”. E eis-nos chegados ao meu ponto de agora. Nesta crise paradoxal, temos de compreender que nada vai ser como até aqui. Julgávamos que a penicilina e as vacinas conhecidas nos protegiam contra todas as ameaças. No entanto, regressámos aos tempos da Peste, porque um vírus migrou de um morcego para o bicho homem – o que não era suposto. Mas aconteceu. Tudo era mais simples se o vírus ficasse sossegado no morcego. Como tudo seria mais simples se Zenão nos estivesse a falar do senso comum e do que é normal.  Mas o vírus fugiu do morcego e Zenão fez-nos analisar o confronto de Aquiles e da Tartaruga em duas operações da lógica abstrata… Na imagem que apresento Corto Maltese pensa no que pode vir a acontecer. Ninguém sabe. Eis-nos, pois, a pensar na incerteza e a tomar consciência de que até a natureza que nos rodeia pode ser destruída pela nossa estupidez…

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A MAGIA DA PAISAGEM 

Ontem, preparava-me eu para ir celebrar os 98 anos do meu querido amigo Gonçalo Ribeiro Telles, como exatamente fiz, quando um brincalhão se lembrou de me recordar o que um dia aconteceu com Mark Twain. Deram-no como morto e ele reagiu dizendo que a notícia era algo exagerada. Por segundos pairou no ar a notícia absurda de que o Gonçalo tinha partido. Notícia sem pés nem cabeça, diria ele ao fim da manhã com os seus botões lançando uma gargalhada sonora. “Ainda vão ter de me aturar um pouco mais”. E nós seus amigos fomos beber uma jeropiga para celebrar a anedota. Mas essa anedota tem muito que se lhe diga, uma vez que esse brincalhão que joga com a vida das pessoas faz parte de uma gente que todos os dias nos procura enganar com notícias bem mais singelas repetidas interminavelmente para que acreditemos nelas… É muito fácil. Uma mentira repetida mil vezes parece tornar-se verdade. Puro engano, porém. Uma mentira repetida um ror de vezes será sempre mentira e só pode convencer-nos de que o combate pela verdade é uma tarefa necessária e bem difícil. Uma meia-verdade é uma mentira. Uma pós-verdade, mentira é. Mas todos os dias procuram induzir-nos no contrário. E o melhor exemplo é o nosso querido Gonçalo, que nos seus escritos e nas suas lições continua a ensinar-nos que as paisagens que nos querem roubar, a natureza de que nos querem privar, os corredores verdes que querem destruir só podem continuar a ser verdade, se houver combatentes persistentes como o nosso imortal herói. Foi ele que nos ensinou muito a sério que «o homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza. Toda a atividade humana tem como pode fim a satisfação das suas necessidades, quer espirituais, quer materiais. (…) A paisagem terá de ser considerada como um todo orgânico e biológico em que cada elemento é interdependente, influenciando e sofrendo da presença dos restantes participantes. A reciprocidade é a lei fundamental da natureza». Estas são palavras de 1956, mas poderiam ser escritas hoje. Centrando-se na pessoa, na sua dignidade e no seu sentido comunitário, Gonçalo Ribeiro Telles apela a uma natureza equilibrada, na qual a lembrança e o desejo, a memória e a criação se encontrem. Reconstruam-se os jardins, retomem-se os quintais. E a ideia de reciprocidade representa a importância de uma relação diferenciada, com influências cruzadas de interdependência e complementaridade. Sim, o que esse inventor de mentiras de meia-tigela nos ensinou ontem foi que só a verdade persistente, invencível, determinada, incómoda, à prova de bala, como água mole em pedra dura é que vale verdadeiramente a pena. O camponês do Ribatejo de botas enterradas na terra sabe bem que a enxada ou que a tesoura do jardineiro podem muito mais do que meia dúzia de piratas do mar da tinta. Por isso o nosso Gonçalo riu a bom rir ontem, mas com ar sério lembrou que ao longo da sua vida houve muitos que o quiseram ver pelas costas. Um velho amigo nosso deu-se, assim, a procurar uma pista para descobrir esse caçador de patos amador que mais uma vez se queria ver livre do nosso persistente arquiteto das paisagens, jardineiro de paraísos. Mas bastou usarmos uma corneta de caçador, para ele vir lampeiro até à armadilha. E não foi difícil encontrar a pista certa – era um pato bravo qualquer. Ele há muitos por aí, e a verdade é que este foi fácil de encontrar. Mascarado de inofensivo patos bravo da natureza é um verdadeiro pantomineiro das paisagens. Foi, de facto, um pato bravo qualquer que inventou a atoarda. Mentira torpe, mesquinha, era daquelas que se denunciam facilmente. Por isso, pela tardinha, satisfeitos todos por termos o aniversariante das noventa e oito primaveras connosco, pudemos brindar com um verdadeiro hip hip hip hurrah! Continuamos com o combatente connosco. Mas esses patos bravos de feira que tanto mal nos fazem a tentar convencer-nos de que não vale a pena continuar a combater pela paisagem, são caçadores traiçoeiros que só visam os verdadeiramente vivos, as pessoas de carne e osso com a têmpera do nosso herói -  persistente, invencível, determinado, incómodo, à prova de bala, como água mole em pedra dura. Está descoberto o sevandija, pobre pescador de águas turvas, zé-ninguém de maus fígados, belzebu vicentino… E o Gonçalo aqui está!

Agostinho de Morais  

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

UM ESTRANHO RETRATO EUROPEU…

 

É muito estranho o momento que vivemos. De um lado, temos uma pandemia descontrolada – é disso que verdadeiramente se trata, com situações muito diversas e uma evolução necessariamente assimétrica. De outro, a antevisão de uma crise económica de contornos inéditos. Há muitas comparações, mas não houve outra situação igual que possa ser comparável. Mesmo as maiores epidemias do passado não tiveram uma expressão global como esta – lembremo-nos da peste negra do século XIV ou da pneumónica um século atrás. Ambas foram devastadoras, mas nenhuma global, induzida pela rapidez de uma sociedade caracterizada pela extraordinária mobilidade. Acresce o facto desta pandemia ser enganadora, uma vez que se manifesta de modos muito diversos – ora sem sintomas, ora com manifestações moderadas, ora com uma expressão dramática e fatal. E o certo que a transmissão se faz por todos os portadores dos diferentes tipos de doença. O ciclo do vírus é inexorável. Um assintomático transmite a alguém que vai desenvolver a enfermidade na sua expressão mais mortífera. Trata-se de vírus traiçoeiro, que emigrou do meio animal para o meio humano e iniciou o ciclo de uma nova vida…  É esse ciclo que se procura minorar, através do confinamento e da distância social. Mas, como o vírus tem uma incubação relativamente lenta, não sabemos quando e onde se manifesta, nem quem são os seus portadores perigosos. Se é certo que nos deparamos com dezenas de especialistas, ou de sabichões, como diria um conhecido jornalista, a verdade é que apesar das mil explicações, estamos vulneráveis, sem saber se poderemos ser atingidos. E, afinal, apenas pedimos sinceramente que não se inventem mais explicações e teorias. Precisamos de prevenção, prudência, cuidado, coragem e esperança. O Papa Francisco, com especial oportunidade, não nos deu outras palavras senão esperança e coragem… O confinamento em tempos de peste obriga-nos a encontrar novos modo de relacionamento, de forma que não percamos as cadeias de solidariedade, mas que interrompamos a cadeia da doença. E vem à baila a atitude dos governantes europeus. Corremos o risco de ter os terríveis métodos de “todos ao molho e fé em deus” ou de “cada um por si”… E ambas as atitudes só anunciam o desastre. E sejamos ainda claros, desastre também haverá se começarmos a dar ouvidos aos profetas da desgraça à procura de bodes expiatórios…  A União Europeia é a nossa única tábua de salvação. A sua existência é uma questão de sobrevivência. Lembremo-nos de 2008. Sem o Banco Central Europeu tudo teria sido muito pior. E agora? Sejamos claros! A epidemia veio num momento em que as lições da última crise ainda não estavam inteiramente tiradas. E agora arriscamo-nos a continuar a assistir à repetição dos erros passados – primado da ilusão, incapacidade de fazer despesas de investimento reprodutivas! A mutualização da dívida, por si só, não é uma panaceia. E se hoje se fala de um novo Plano Marshall, percebamos que só poderemos ter investimento reprodutivo se tivermos planeamento estratégico. Volto ao meu tema de há quinze dias… O acordo de quinta-feira santa é um solução ainda tímida. Melhor que nada, é certo, mas falta muito caminho para andar. Há forças contraditórias e incoerentes. O caso dos Países Baixos é um sintoma, não é um caso isolado. Como sintomas são a rigidez de diversas naturezas da Áustria, da Finlândia, de um lado; da Hungria e da Polónia de outro… Tudo são sintomas de uma União necessária que se deixa arrastar pelo imediatismo, pelo curto prazo e pelo medo de descontentar os arautos do momento. Os melhores generais são os que são capazes de dar orientações, mesmo sabendo que haverá resistências. Urge assumir riscos, para podermos caminhar… Coragem e esperança exigem determinação, mesmo na dúvida… Haverá dúvidas e riscos. Disso não tenhamos dúvidas. Há duas batalhas contraditórias, a de salvar vidas e a de garantir a sobrevivência económica…

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

“O Cavaleiro Andante” publicou em 1957 e 1958, da autoria de Fernando Bento, a série “Emílio e os Detectives”, com base no célebre livro homónimo de Emil Erich Kästner (Dresden, 1899 – Munique , 1974). Hoje, é extraordinário, ver neste exemplo como a escola do “Cavaleiro Andante” foi um exemplo vivo de pedagogia da liberdade. Kästner foi escritor, jornalista e poeta que desenvolveu a sua atividade durante a República de Weimar. Com o início do regime nazi, foi um dos poucos intelectuais proeminentes contrários à situação que permaneceram na Alemanha, mas as suas obras fizeram parte da lista de livros queimados na noite de cristal e considerados como antinacionais. Apesar de várias represálias, pôde trabalhar sob um pseudônimo como jornalista e autor de diversos filmes de comédia. Com o fim da Guerra, em 1945, Kästner regressou à escrita com o seu próprio nome, tendo sido eleito em 1951 presidente do PEN Clube da RFA. Tomando posição contra o rearmamento, solidarizou-se com os movimentos pacifistas e militou na causa antinuclear.  Foi assim um homem de cultura devotado às causas da liberdade e dos direitos humanos. A sua popularidade deveu-se principalmente aos seus livros infantojuvenis, como “Emílio e os Detectives” (1929), “A Sala de Aula Voadora (1933) e “Cachos e Tranças” (1949), além de um vasto conjunto de poemas, epigramas e aforismos. Uma de suas mais conhecidas coletâneas de poesia, foi publicada pela primeira vez em 1936 pela editora suíça Atrium sob o título de “A Pequena Farmácia do Dr. Erich Kästner”. Em 15 de outubro de 1929, foi lançado o livro “Emílio e os Detectives”, por sugestão de Emil Jacobsohn. O livro constituiu um enorme sucesso, teve mais de dois milhões de cópias vendidas só na Alemanha e até hoje já foi traduzido para cinquenta e nove idiomas. O romance decorre na cosmopolita cidade de Berlim de entre guerras, constituindo um verdadeiro roteiro e uma homenagem aos berlinenses, aos seus monumentos e estrutura urbana e sobretudo aos cidadãos. O espírito de aventura e a alegria dos seus protagonistas contrasta com o clima depressivo e bélico que se desenvolvia e que teve os efeitos dramáticos conhecidos. Não podemos ainda esquecer a qualidade das ilustrações de Walter Trier, que foi um ingrediente extraordinário para tornar este livro como referencial, não só na Alemanha, mas na Europa. A versão cinematográfica de “Emílio e os Detectives”, dirigida por Gerard Lamprecht com Billy Wilder, foi um grande sucesso de 1931. No entanto Kästner considerou que o filme não era fiel ao espírito do livro… De qualquer modo, pode dizer-se, ao menos duas coisas, é verdade que a versão cinematográfica não dispensa a leitura do livro, para a compreensão do seu verdadeiro espírito, há, de facto, aspetos que divergem do espírito do autor; mas, por outro lado, o filme foi grandemente responsável para multiplicar o sucesso do livro, atraindo muitos leitores, que assim descobriram o caráter único e inovador do romance e do seu fantástico espírito. E é neste ponto que merece referência especial a versão de Banda Desenhada de Fernando Bento realizada para o “Cavaleiro Andante”. Com “Beau Geste”, estamos perante uma das obras-primas daquele que foi certamente, ao lado de Eduardo Teixeira Coelho, um dos maiores artistas portugueses da Histórias de Quadradinhos. Seguindo de perto o romance de Kästner, procurando ser-lhe fiel, apresenta um traço inconfundível e uma narrativa muito viva e original, que não só atrai para a leitura da obra que lhe serve de base, como demonstra, com clareza, a importância do espírito de liberdade e aventura que contempla, em contraste com a lógica belicista e não-democrática. Dir-se-á, pois, que “Emílio e os Detectives” prenuncia o melhor espírito do que viria a ser a Alemanha federal – e hoje constitui uma homenagem à cidade de Berim, que se tornou símbolo da cultura de liberdade europeia!

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

George Orwell está na ordem do dia. A cada passo, a realidade que descreveu foi ultrapassada pelos acontecimentos, que ainda são mais inquietantes do que previu. Em dado passo de “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, afirma: “Num mundo no qual todos trabalhassem pouco, tivessem o alimento necessário, vivessem numa habitação com casa de banho e frigorífico e possuíssem automóvel ou até avião, a forma mais óbvia e talvez mais importante de desigualdade já teria desaparecido. Desde o momento em que se tornasse geral, a riqueza esta perderia o seu caráter distintivo. Claro que seria possível ainda imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido dos bens e luxos pessoais, fosse distribuída equitativamente, enquanto o poder permanecesse nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Na prática uma sociedade desse tipo não poderia permanecer estável por muito tempo. Porque se o lazer e a segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser atingida duramente pela pobreza alfabetizar-se-ia e aprenderia a pensar por si. Depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde, essa massa dar-se-ia conta de que uma minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. Em suma, a longo prazo, uma sociedade hierárquica e desigual só seria possível num mundo de pobreza e ignorância”. Em “Animal Farm” é a parábola dessa situação que é apresentada. No fundo, o que George Orwell nos propõe é uma sociedade equilibrada e civilizada, baseada na liberdade, na igualdade e no respeito mútuo. Hoje, o mundo das “fake news” pretende condicionar a autonomia individual e favorecer os reflexos condicionados de Pavlov. Pela repetição de uma mentira mil vezes, há quem pretenda torna-la verdade. Como prevenir tal tentação? Eis o grande desafio da democracia, que tem de recusar a lógica iliberal. Um regime iliberal não pode ser democrático. Como nos ensinaram os grandes liberais, a liberdade não pode ser alvo de transigência – lembremos o nosso Herculano. Mas Orwell com toda a razão liga a liberdade ao equilíbrio. A liberdade deve ser igual e a igualdade livre. Não se trata de igualitarismo cego e indiferenciado, nem de liberdade abstrata. E Orwell acreditava em que a verdade era a melhor arma contra a mentira. Em “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” temos o anúncio do perigo de todos os totalitarismos, vindos de onde vierem…

 

Mas hoje, não resisto a citar um conjunto de imprescindíveis conselhos do grande jornalista, escritos em “A Politica e a Língua Inglesa”. Escrevendo bem e claro podemos defender a verdade! Eis os pontos.

 

«Nunca utilizem uma metáfora, uma comparação ou qualquer outra figura de retórica que tenham encontrado muitas vezes citada;

 

Nunca utilizem uma palavra comprida se outra mais curta puder ser usada com o mesmo sentido:

Se for possível suprimir uma palavra, não hesitem em cortá-la;

 

Nunca utilizem a voz passiva quando for possível usar a voz ativa;

 

Não utilizem uma expressão estrangeira, um termo científico ou especializado, se puderem encontrar um equivalente na língua de todos os dias:

 

Não tenham medo de infringir as regras acima indicadas se a alternativa for um evidente barbarismo»…

 

Tudo muito simples… Tudo muito evidente! Eu tenho sempre as regrazinhas comigo…

 

Afinal, o bom senso obriga sempre ao bom gosto!

 

Muito obrigado George Orwell!

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CLAIRE BRETÉCHER OU A BD NO CONSULTÓRIO DO DR. FREUD…

 

Nascida em Nantes em 1940, Claire Bretécher é na BD francesa um caso muito especial. Com vinte três anos encontra René Goscinny no auge da sua pujança criadora e o grande mestre, pai de Astérix ou do Petit Nicolas, viu em Claire a sua capacidade criadora, e o talento feminino, e criou a história hilariante a absurda “Le Facteur Rhésus”, que não corre bem. Mas em 1969 aparece no “Pilote” a personagem Cellulite. Está mais conforme com o estilo que Claire deseja para si. A partir daí o sucesso não parará. O traço que sempre apresentou era inconfundível. E era uma observadora mordaz dos hábitos e costumes da sociedade francesa. Roland Barthes classificá-la-ia como a “maior socióloga do ano” em 1976, Pierre Bourdieu referiu a força etnográfica de Agrippine, Umberto Eco não poupou elogios à originalidade desta artista singularíssima. Participa esporadicamente no “Spirou” e é fundadora de “L’Echo des Savanes” (1972) uma experiência inovadora na BD. Depois do feminismo avant-la-lettre vem a dimensão pioneira da ecologia. Mas nunca perde o sentido crítico e o distanciamento dos entusiasmos pueris. Trabalha no mensário “Le Sauvage” e cria para o “Nouvel Obs,” de Jean Daniel “Les Frustrés” (1973). Então torna-se uma celebridade europeia e mundial. Retrata cruelmente intelectuais, parisienses, militantes de esquerda, soixante-huitards retóricos, snobs seguros das suas convicções, mas cheios de nevroses patéticas… “Ela é o nosso contrapoder” dirá Jean Daniel. E tinha razão. A rir, punha tantas vezes a nu a fragilidade de algumas propostas salvíficas de outras páginas da revista. No princípio dos anos 80 tratará das angústias da maternidade e depois passará para o tema da adolescência com a inconfundível Agrippine (1988). Tudo isto acompanhado com grande sucesso nas tiragens, nas edições e no reconhecimento em Angoulême (1982), capital da BD francesa. Apesar de se tornar referência dos movimentos sociais do momento, Claire preservou sempre a sua independência crítica, sem compromissos militantes, para poder ver o lado ridículo de tudo, sem esquecer uma responsabilidade ética e cívica. Em 2015, finalmente, teve direito a uma exposição digna desse nome no Centro Pompidou, mas ainda faltam muitos trabalhos, muitas análises de uma obra significativa e surpreendente de uma grande desenhadora. Nos últimos anos preparava uma mostra de conjunto, que a doença e o desgosto da morte de Guy Carcassone, seu marido, impediram. Certamente que o público exigi-la-á em breve. Não me canso de voltar a folhear quarenta e cinco anos de uma fantástica produção… Claire Bretécher ainda deixou muito para pensar…

 

      

Agostinho de Morais

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JÚLIO

 

É sempre difícil recordar um amigo que nos deixa. Os obituários muito disseram sobre Júlio Castro Caldas. Mas fica sempre muito por dizer, apesar das listagens exaustivas de cargos e encargos que os homenageados tiveram. No entanto, importa menos recordar o prestigiado Bastonário da Ordem dos Advogados que foi, exemplar na defesa do prestígio da profissão e na salvaguarda intransigente dos direitos fundamentais dos cidadãos ou o Ministro da Defesa Nacional que demonstrou o que sempre caracterizou a sua vida – zelo, defesa do interesse público, determinação, saber e inteligência. É sempre mais importante lembrar a pessoa e o cidadão.
Encontrámo-nos poucos dias antes de nos deixar, na Avenida Infante Santo: sempre igual a si mesmo. Era aberto, generoso, cordato, mas nunca escondia o facto de arrastar consigo os males do mundo. Foi assim sempre, esperançoso, mas invariavelmente à espera de uma conspiração ao virar da esquina. O Júlio era um homem de valores éticos. Punha essa atitude em tudo o que fazia: fosse no escritório de Advogado, onde era de uma competência a toda a prova, ou na função política, em que era exaustivo no elencar dos riscos e dos perigos… Conheci-o melhor logo em 1974, quando foi chefe de gabinete de Francisco Sá Carneiro, nos primeiros passos da revolução de Abril, ao lado de um outro saudoso amigo, o António Patrício Gouveia. Mas antes disso tinha uma longa militância cívica entre os católicos inconformistas do Centro Nacional de Cultura, de “O Tempo e o Modo”, da Livraria Morais e do grupo do António Alçada Baptista. E o certo é que conhecemos-lhe sempre a mesma coerência, que o levou a ser um dos subscritores do célebre documento dos 101 de 25 de outubro de 1965 no qual um grupo de católico denunciava o desrespeito dos direitos fundamentais e a ação discricionária da polícia política e da censura. É um texto a que deveremos regressar. Júlio Castro Caldas merece a lembrança de uma vida de defesa intransigente do bem comum, dos direitos humanos em nome da dignidade da pessoa humana.

 

Agostinho de Morais