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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

NÃO HÁ TERRA 2…
19 de março de 2019

 

Continuo a dar-vos páginas do meu “Cavaleiro Andante” para meu e vosso deleite. Desta vez, recordo as aventuras de “Lolocas e Pompom”, no original “Modeste e Pompon”. Trata-se de uma criação de André Franquin (1924-1997) em 1955, para a revista Tintin, que também foi publicada fugazmente na revista “Spirou”. Os autores foram nomes consagradíssimos: Greg, Peyo, Tibet e mesmo Goscinny. Os desenhadores foram, além de Franquin, Dini Attannasio, Mittéi e Godard, Griffo, Bernard Duponr e Walli e Bom… Mas, por que razão me lembrei desta série? Não porque seja central na história da BD, mas porque me lembra a natureza, as traquinices, o ar livre…

 

É que esta semana, acompanhei do meu jardim com muito agrado os movimentos dos mais jovens na defesa do meio ambiente. Estou de alma e coração com o alerta lançado pela jovem sueca Greta Thunberg. Lembramo-nos do que disse em dezembro passado na reunião da COP 24 (24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima):  “Só fala de crescimento econômico eterno verde quem  está com muito medo de ser impopular. Trata-se de seguir em frente com as mesmas ideias erradas que nos meteram nessa confusão, sobretudo quando a única coisa sensata a é puxar o travão de emergência. Isso está errado. Não se está maduro o suficiente para dizer como é. Mas não podemos tolerar que esse fardo seja deixado para a nossa geração”. A jovem Greta é descendente por parte do Pai de um Prémio Nobel da Química de 1903,  Svante Arrhenius, e lançou um alerta sério, que não pode ser visto como algo de passageiro ou formal. É um movimento de tipo novo, que obriga cidadãos e cientistas,  artistas e criadores de todas as idades a empenharem-se na adoção de medidas concretas, para que o ambiente não seja irremediavelmente destruído. Não temos uma Terra número Dois, não há Plano B para a destruição do Meio ambiente. Há cinquenta Anos em Estocolmo foi dado um grito de alerta que ninguém ouviu. Destruímos desde então mais do que tudo o que tínhamos destruído desde o início da humanidade. Esse movimento é mortal. Toda a humanidade está ameaçada. O apelo dos jovens, o alerta dado em todo o mundo tem de ser ouvido. Temos de dar-nos as mãos – cientistas e cidadãos, artistas e políticos!

 

E deixo-vos um poema de Pedro Tamen:

 

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões”.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

AVENTURAS E DESVENTURAS LONDRINAS…
14 de março de 2019


 

Esta semana segui atentamente as transmissões televisivas das sessões da Câmara dos Comuns. E sofri alguma coisa. É verdade que já não dá para ter muitas surpresas, mas tenho uma legítima angústia sobre o futuro da relação europeia com a Velha Albion. No entanto, todos os dias recebo mensagens de amigos ingleses, manifestando-me o mesmo sentimento: “Ils sont fous ces  Bretons”, como me dizia um admirador confesso de Astérix, na sua personalidade resistente. Mas é desgostante ver como o Brexit se tornou um motivo de chacota geral. O velho Gladstone revira-se no túmulo ao ver os irlandeses baterem garbosamente o pé aos britânicos. E quem hoje visita Belfast julga estar em Dublin perante a profusão de bandeiras republicanas nas janelas da cidade. Nesta trapalhada, o Reino Unido arrisca-se a ficar amputado de toda a ilha do Eire. Ainda tenho esperança que haja bom senso. E depois, é preciso ver que farão os Escoceses. A procissão ainda vai muito no adro. Já citei aqui o que dizem os estudantes de Oxford e de Cambridge – os velhos que votaram vão morrer primeiro que nós… Para bom entendedor, meia palavra basta. A ilusão do Império de antanho não responde aos problemas atuais. Há quem ainda não tenha percebido que a Rainha Vitória já não está entre nós… Grandes empresas financeiras anunciam a saída.

 

A Agência Financeira Europeia já está em Paris. E, a pouco e pouco, vai havendo mais saídas importantes. Os japoneses da Nissan também se põem ao fresco. A Holanda está a ter um número importante de registos de empresas vindas da City. E, pasme-se, o Senhor Farage pediu a nacionalidade alemã. Será que também deseja pôr-se ao fresco. Ou será que quer seguir o destino dos velho “Mini”, que foi já nacionalizado pelos alemães. Tanta e tão trágica ironia… Custa a crer… Para já, a Senhora May acumula derrotas parlamentares. É facto que tem pele dura de réptil, mas isso não basta. Que lugar lhe reservará a História? Em suma, os ingleses vão ter votar para o Parlamento Europeu, o adiamento da saída aí está. E quem conhece razoavelmente a História dos Povos Britânicos, sabe bem que estamos a assistir a uma regressão muito suspeita e tremenda. Se o fantasma do Grand Old Man se debate na maior das angustias – também os fantasmas de Thomas Morus, Walter Raleigh, Shakespeare, Disraeli e mesmo Churchill andam todos na maior das confusões. Chesterton dizia que os fantasmas dos castelos ingleses tinham morrido quando morreram aqueles que neles acreditavam… A afirmação era do passado. Tudo mudou, porém. Os fantasmas regressaram todos, cada vez mais agressivos e assustadores…  O meu amigo Coronel Clifton anda desolado.

 

Somos solidários quanto ao futuro dos nossos queridos MG. O dele é um TF roadster de 1954… Pelo menos o adiamento do Brexit significa que continuamos a ter as peças dos nossos vetustos automóveis sem direitos por mais algum tempo…

 

Para vosso deleite deixo-vos outro retrato do meu querido Clifton, na minha coleção de Histórias de Quadradinhos…

 

Agostinho de Morais

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

 

UMA EXTRAORDINÁRIA REVELAÇÃO

 

Na nota da última semana dei-vos conta do último livro de António Sousa Homem e da minha comunicação com ele, graças às qualidades mediúnicas de um outro amigo. Remeto para o que então disse, para quem tenha dúvidas. Hoje tenho o grande prazer de acolher um texto fundamental que me foi enviado com data de 29 de fevereiro de 2019 pelo meu Amigo Embaixador Francisco Seixas da Costa sobre uma figura fundamental do início do século passado, Augusto Maria de Saa – injustamente esquecido pela voragem dos tempos. Hoje tudo fica esclarecido. E para os que ficaram intrigados com o postal representando a Praça do Comércio que apresentei, esclareço que se trata do local do seu funesto e trágico passamento. Por uma coincidência quase irónica, mas certamente trágica, esclarecemos que esse histórico postal foi encontrado no bolso do casaco do malogrado herói. A Extraordinária Revelação é a de todos os pormenores que hoje se apresentam. E cabe-me ainda acrescentar o seguinte: há nas redes sociais (dizem-me…) a notícia falsa a correr de que Augusto Maria de Saa não existe. Posso asseverar-vos como fica demonstrado na amostra junta que a figura é mesmo das mais notáveis, das mais inolvidáveis, das mais perenes da nossa vida intelectual. E daí a sua vera efígie aqui apresentada. Fico muito grato ao Centro de Estudos Saaianos (em constituição) e aos seus mentores e dirigentes.

 

Agostinho de Morais 

 

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Daguerreótipo na Bahia em 1889.

 

 

SAA VIVE !

 

Ao comemorarem-se os 165 anos do seu nascimento, começa a agigantar-se no panteão da memória popular essa personagem ímpar da cidadania e da cultura, que deixou um rasto indelével que só muito recentemente começa a ser recuperado em toda a sua dimensão, e que deu pelo nome de Augusto Maria de Saa.

 

Augusto Maria de Saa nasceu, como é sabido, a 29 de Fevereiro de 1854, numa barraca de courela na zona de Lisboa que hoje se chama Olaias, ao tempo designada por Picheleira. Numa carta a sua irmã Ephygénia, Augusto ironizou um dia com a raridade da data: "Às vezes, até parece que não nasci". Mas nasceu, ao menos para a lenda e para a glória.

 

Seu pai chamava-se Joaquim Saa, camponês da Merceana, que havia vindo para a periferia de Lisboa à procura de um qualquer parco sustento, nesses tempos de fome posteriores às guerras liberais. Sua mãe, Maria das Neves, teve a triste sina de ser o resultado de um pecaminoso encontro entre um padre miguelista, refugiado numa quinta da Malveira, e uma antiga aia, recém-regressada do Brasil, de D. Carlota Joaquina. O Brasil começava a firmar-se no destino do nosso Augusto.

 

Maria das Neves tem um início de vida dramático. Levada pela mãe e pelos ventos do infortúnio para a zona da Mouraria, aí haveria de se desgraçar, seduzida por um rufião e, dali em diante, daria o corpo na luta pela vida, até ter conhecido Joaquim. Seria ele a resgatá-la daquela miséria e iria ser o pai da prole de 11 filhos, de que Augusto seria o "caçula".

 

O pai Joaquim não deu, porém, vida fácil a Maria das Neves. Propenso ao abuso do álcool, criou na família um constante ambiente de violência e agressão, que o afastou, sucessivamente, do carinho dos filhos, oferecendo à mulher um quotidiano de inferno. Também numa carta a Ephygenia, a irmã de quem era mais próximo, uma epistolografia onde hoje assenta o pouco que se conhece dos tempos da sua família lisboeta, Augusto relembra, com tristeza irónica, a frase que o pai, quando ébrio, repetia como lema da sua vida: "Homem que é homem, dá coça diária na mulher".

 

Chegado a este ponto, o leitor dificilmente imaginará como pôde nascer, deste ambiente de dissolução, um ser superior como Augusto Maria de Saa. Nem nós imaginamos.

 

Chamado pelo imperativo material da vida, o nosso Augusto partiu um dia para o Brasil, a sugestão do seu tio Zagalo, irmão do pai, que ali fizera vida.

 

Não vamos agora entrar em detalhes, porque eles ficariam sempre aquém da realidade, sobre o que foi o seu percurso notável nessas terras da colónia perdida. Fiquemos apenas com uma síntese indicativa do fresco renascentista que foi a sua vida de eleição: da literatura à pintura, da filologia à música, da medicina à arte das viagens, da antropologia à ciência náutica, da agricultura científica à enologia, da astrologia às ciências ocultas, da física à matemática, por quase tudo passou o nosso Augusto, em todas essas áreas deixou a marca da sua inteligência e perspicácia.

 

O Brasil deve-lhe muito, nós devemos-lhe a honra de ser nosso compatriota. Ele, a nós, deve-nos a morte. É que, imagine o leitor, Augusto viria a morrer, em Lisboa, de forma inglória, sobre a pedra fria da rua do Arsenal, na histórica e fatídica tarde de 1 de Fevereiro de 1908.

 

Talvez valha a pena saber um pouco mais sobre as condições dramáticas dessa sua desaparição do mundo dos vivos. “Só a essência perpétua da morte oferece digna guarida à graça efémera da vida”, diria, premonitório, esse grande clássico do nosso Augusto que foi o grande Crabtree*

 

Uma morte que resgata a vida

 

Um apelo dramático de família fizera Augusto regressar do Brasil a Portugal, em finais de 1907, para ver, pela última vez, pelo Natal, a sua querida irmã Ephygenia, a esvair-se da vida, numa tísica sem remissão, no palacete à Junqueira, construído com os ouros do seu trabalho no Brasil. Tinha 54 anos, o nosso Augusto, e eles começavam a pesar-lhe, confessava.

 

Nesse primeiro dia de Fevereiro, destroçado pelo espectáculo da crescente tragédia doméstica, Augusto toma uma caleche e decide apanhar o ar fresco do Terreiro do Paço, beber uma aguardente no Marinho da Arcada, que tanto alimentava as suas saudades nas tardes quentes das terras além do Atlântico. A essa hora, o Martinho regurgitava de caras que o nosso Augusto não conhecia, figurões dos ministérios a fumar horas da preguiça, algumas personagens jovens com ar circunspecto, chapéu negro na mão e papéis no sovaco, graves nas suas bigodaças, em cujos murmúrios se pressentiam conspirações e incontáveis intrigas. A República rondava, a vida política sentia-se espessa. Como que por contraponto, a certa altura, a notícia espalha-se: Suas Majestades estão a chegar de barca ao Terreiro do Paço, regressadas de Vila Viçosa !

 

O nosso Augusto vê, num segundo, o destino colocar-lhe perto, pela primeira vez, essas figuras que a História quisera símbolos do seu Portugal. No Brasil, o Império já se fora, a República estava vibrante, Augusto tinha ido com os ventos do tempo, mas a memória do Portugal eterno estava toda ali, nessas personagens que breve iriam atracar ao Cais das Colunas. Segue assim o grupo que abandona o Martinho sob impulso da notícia e cruza o Terreiro. Vai colocar-se, com alguns outros, na esquina com o Arsenal, na perspectiva de poder gozar a passagem das Majestades. Do poste onde se encostara, via ao longe o Rossio, onde prometera encontrar-se ao fim da tarde com gente amiga, antes de uma jantarada no Grémio, onde iria nessa noite.

 

Do lado do cais, o movimento adensa-se. Suas Majestades avançam na carruagem, escoltada pelos guardas a cavalo, chanfalho preso à cintura. Alvoroçado com esse inesperado encontro com a História, Augusto logo descortina o recorte avantajado do rei, nove anos mais novo do que ele próprio. Ao lado, a figura elegante da rainha D. Amélia, acenando com estudada displicência. De costas na carruagem, uma figura jovem agita a mão em direcção de aos populares que aplaudem. Deve ser o príncipe D. Luiz Filipe, pensa. Eram os seus Reis, estava a vê-los pela primeira vez, com um orgulho patriótico de expatriado a agitá-lo por dentro.

 

Quase sem tempo para se descobrir, para saudar a sua Realeza, o nosso Augusto é impelido a abeirar-se da rua, por uma pequena multidão que largou o conforto da arcada para ver, ainda mais de perto, os passantes Braganças. É esse escasso grupo de pessoas, quiçá mais movidas pela curiosidade do que pelo amor à Coroa, que agora faz quase alas à carruagem, roçadas pelos cavalos da Guarda, no curvar lento da saída do Terreiro.

 

O que se passa, de seguida, é tempo de segundos. Do lado contrário da rua, Augusto ouve o que lhe parece, distintamente, serem dois tiros, seguidos de um alvoroço surdo de gente. O rei parece-lhe cair prostrado, a cabeça pendente sobre o encosto. D. Amélia soergue-se, lívida, do banco. Mais tiros, vindos sabe-se lá de onde, cruzam a esquina da praça, misturados com gritos e imprecações. Augusto vê surgir lesta, ao seu lado, uma figura esguia, de capote, que avança com um revólver na mão, que aponta certeiro à figura de D. Luiz Filipe, que se deixa cair na base da carruagem. O tal homem continua, não desiste, aproxima-se mais das carruagem e D. Amélia, com a coragem da raiva, sacode-lhe o braço assassino com um ramo de flores. O braço desvia-se, o assassino desequilibra-se e do fuzil sai-lhe, enviezado, um último tiro, antes que um chanfalho da Guarda Real o atire ao solo. Esse tiro, o tiro errado, é o tiro certeiro que atravessa a nuca do nosso Augusto Maria de Saa.

 

A rua passa a um inferno de sangue e gritos. As reais figuras são rapidamente recolhidas no Arsenal, o Buíça e o Costa – os regicidas que a História acolheria nas suas páginas – são trucidados, nos minutos seguintes, pela raiva impotente da Guarda, com a ajuda de populares enfurecidos. Ninguém se preocupa com o corpo exangue de Augusto Maria de Saa, com a face na pedra suja, a sobrecasaca cinza manchada pelo vermelho do sangue português que o Brasil alimentara. Na confusão trágica dessa tarde, o país perdera o rei e o príncipe herdeiro, mas a Monarquia continuava, pelo menos por ora. O que acabara, de vez, era o destino de uma figura ímpar que a História iria esquecer por muito tempo: Augusto Maria de Saa.

 

A hora pública de Saa

 

A justiça chegou tarde, mas chegou ! O considerado programa "Ritornello", da Antena 2 da RDP, dirigido por Jorge Rodrigues, dedicou a sua emissão de 1 de Abril de 2005 à figura de Augusto Maria de Saa. Para muitos parecia um missão inviável: era lá possível que a obra de Saa fosse levada ao público português com esta expressão mediática ! Mas sim, era verdade, a Antena 2, em colaboração com a Rádio Cultura, de Brasília, sempre atenta ao grandes valores culturais que lhe cumpre preservar e promover, esteve à altura dos seus pergaminhos e, sob a batuta de Jorge Rodrigues, soube fazer-se eco da vida e obra desse gigante da cultura que foi Saa. Bem haja !

 

Durante quase duas horas, os dois países de língua portuguesa e o mundo foram brindados com depoimentos que trouxeram à tona da realidade cultural luso-brasileira aspectos importantíssimos do espólio de Saa. Um professor universitário brasileiro leu dois inspirados poemas do tempo tropical do nosso Augusto, prenhes da saudade lusa que marcou a sua aventura brasileira. Familiares de Saa, hoje perdidos na Rondónia, deram conta de como a sua memória continua a ser acarinhada na família índia que criou na Amazónia, onde hoje sobrevivem frutos luso-tropicais, que acabam por dar razão póstuma a Gilberto Freyre. Revelações sobre cartas de Eça de Queiroz a Saa, existentes nos arquivos de São Petersburgo foram feitas por um especialista em temas russos. Figuras do meio académico revelaram a explosão crescente de estudos saaianos que atravessa o Brasil, quiçá (melhor diríamos, "quissá"...) premonitórios da abertura próxima de um cátedra.

 

O programa trouxe ainda à tona os trabalhos sobre Saa em curso do Departamento de Linguística do polo experimental de Taguatinga, dependente da Universidade Católica de Abadiania Leste (UCAL). Além disso, foi referida a conhecida dedicação à temática do autor que ocupa o Professor Romário Ibirapuera, da Universidade de Rondónia, figura incontornável da investigação saaiana, em especial depois da iniciativa da reedição desse marco linguístico, há muito esgotado e objecto de especulação nos alfarrabistas, que é a "Recolha crítica de interjeições tupi", que Saa publicou, em edição do autor, em 1887.

 

O programa Ritornello prestou um inestimável serviço à memória cultural luso-brasileira, ao alertar para a necessidade de uma iniciativa forte que leve Saa ao povo, através da publicação das suas Obras Completas, se possível em edição de bolso. A questão tinha um sentido de urgência, porque acabava de ser tornado público que a editora francesa Gallimard estaria a processar a tradução urgente de toda a obra de Saa, a incluir nos seus clássicos da colecção "La Pléiade", publicação em papel bíblia, ao lado de Montesquieu, de Voltaire, de Hugo e de um único português, até agora, Fernando Pessoa, também de Lobo Antunes, no futuro. Se não nos adiantarmos, se não houver um choque das consciências lusas, não nos espantemos de ver as seguintes obras de Saa, entre muitas outras, com uma chancela parisiense:

 

- "Prolegómenos à teoria dinâmica do conflito", obra de ciências políticas, morais e antropológicas, publicada por Saa ao tempo em que dirigia a Gazeta Democrática de Paranoá;

- "Olhai a Europa!", opúsculo-manifesto onde, pela primeira vez, se refere uma possível "carta constitucional" europeia;

- "As volteaduras da musicalidade recorrente", texto de teoria musical que, curiosamente foi o tema central de um seminário interdiscipinar realizado pelo professor holandês Schopp Innkop, em Hobbart, na Tasmânia, organizado pelos "Círculos Musicais Heineken", com apoio da prestigiada "Fundação Foster";

- "O equilíbrio da ruptura no voltâmetro de potência suspeitada", obra no domínio da física que tem já uma edição em servo-croata, infelizmente esgotada.

 

Finalmente, caro leitor, a obra de Augusto Maria de Saa começa a reaparecer em toda a sua grandeza. Já não era sem tempo, mas, para os que lutaram ao longo destes anos para que tal acontecesse, ainda parece mentira !

 

Lisboa, 29 de fevereiro de 2019

 

Francisco Seixas da Costa

Embaixador e presidente do CES (Círculo de Estudos Saaianos), em formação.

 

*Crabtree, Joseph William, “The new global philosophy and the impact of the Cornwall school dissent”, London, Barley & Peacock, third ed, 1887, pg. 623

 

Consulte os Blogs Amigos:
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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

NESTE FEVEREIRO QUE SE FINA…
28 de fevereiro de 2019

 

Se estivéssemos no tempo do calendário romano, este seria o último dia do ano. Amanhã floresce o primeiro dia do mês em que se inicia a Primavera. E se os idos de Março se tornaram funestos por virtude da morte de César, o certo é que são sempre gloriosos no tocante à vida da natureza. Era neste mês coxo que se faziam os acertos astronómicos, uma vez que o trânsito anual dos astros não está acertado com a definição do tempo dos relógios e faltam uma horas que se acertam nos anos bissextos no mês último das calendas romanas. E quando explicamos aos alunos das escolas esta bizarria eles compreendem muitos mistérios cósmicos, entre os quais o do nome dos meses a seguir a Agosto. E não esqueço que tomei consciência da importância de todos estes ensinamentos um dia na cidade de Pequim, ou como agora soe dizer-se Beijing, ao deparar-me com a grande admiração que ainda hoje existe no Império do Meio pelos jesuítas astrónomos, que tornaram esse observatório o mais célebre do mundo… Acrescento que fiquei apreensivo com a subida de temperatura nos últimos dias. Fevereiro quente traz o diabo no ventre… Mas deixando essa recordação meteorológica oriental,  cito o meu Amigo Dr. António Sousa Homem, com quem me encontro religiosamente em Moledo, volta não volta, e que acaba de publicar um pequeno livro, que li com todo o agrado. Ou reli, uma vez que muito do que agora vem a lume tinha-me sido dado a ler por gentileza de meu amigo. Falo de “O Crepúsculo em Moledo e outras ilegias” (Porto Editora). E não esqueço o que me disse um dia: «Ao contrário do Tio Alberto, que se enamorou várias e repetidas vezes de senhoras estrangeiras, e que por isso conhecia os melhores hotéis de Madrid, a cor do lago de Genebra, os sabores de Paris ou o odor do Mar Cáspio, eu segui o destino dos velhos Homem de antanho, que só conheciam ou o caminho para casa ou o mapa das deambulações do senhor Dom Miguel. O velho Doutor Homem, meu pai, foi outra exceção, só possível porque o meu avô acreditava que em Inglaterra existia tudo o que valia a pena existir, tirando as quintas do Douro – e, mesmo essas, eram propriedade de súbditos ingleses. Não falo das viagens da adolescência ou da primeira juventude, claro – que me levaram a conhecer o mundo e a saber manejar mapas, talheres e línguas estrangeiras. Falo da idade adulta – ou seja, da idade em que as ilusões não sobram e em que as desilusões já não pesam». Pois bem, esta mania caturra do meu amigo António obriga-me a ir visitá-lo periodicamente a Moledo, a tiritar de frio, com uma manta que nunca me larga de escocês autêntico – que uso em Sintra, naturalmente, e menos em Azeitão, que, já sabem, são os meus poisos de eleição. Mas não é por masoquismo que subo até Moledo, no meu MG, que bem conhecem. É por puro deleite pessoal, para conversarmos longamente – sobretudo a propósito do que nos separa. Eu sou constitucionalista, descendente de gente do Mindelo, pés-frescos de velha cepa e ele ainda sonha com as ilusões do Senhor D. Miguel. E se ele partilha comigo admiração pela velha Albion, esquece-se tantas vezes (e eu estou sempre a lembrá-lo), que não foi apenas o rei de França Louis Philippe, avô da Senhora D. Amélia, que deu um empurrão decisivo, ao saudoso D. Pedro de Alcântara, foi um glorioso Whig, Charles, o segundo Conde Grey, cuja memória sempre invoco ao chegar a Westminster, sabendo que foi talvez dos governantes com maior influência depois da gloriosa revolução… E aqui vejo que meu amigo Sousa Homem tem de se contorcer um pouco, pois a Sereníssima Britânia pende no momento decisivo para o meu lado, para as minhas ideias… Mas isso é um pormenor, temos muito que nos faz encontrar – a literatura, com Dickens (de novo, mais do meu lado), mas também com  o nosso Father Brown, de Chesterton, e com as deliciosas páginas de Evelyn Waugh, ou com a pintura dos pre-rafaelitas e Dante Gabriel Rosetti, os automóveis ingleses e tanto mais. E nos portugueses gostamos os dois de Pascoais, de Amadeo e, no fundo no fundo de Agustina… E recitamos Camões e Antero, até para testarmos as nossas razoáveis memórias (que são afinal a razão do nosso existir). Agora, caímos sempre nos braços um do outro ao carpirmos o que ocorre no tremendo “Brexit”. E porque somos doutro tempo ainda nos escrevemos postais, quando não longas cartas sobre o que achamos dos tempos desvairados que correm. E se digo desvairados, sou dos que não pensa que antes era bom ou que depois de nós o dilúvio. Não. Já vivi o suficiente para perceber bem que o desvario de que falo se deve a falta de memória. A sociedade amnésica mata-se. Em todos os tempos encontramos maus e bons exemplos. E eu conheço razoavelmente os episódios bíblicos para perceber que quando David poupou Saul fê-lo não por piedade, mas por inteligência. De facto, a sabedoria é o mais difícil de administrar e essa vai e vem rapidamente em todos os tempos. Com consciência bem nítida digo, o que o meu amigo Sousa Homem também diz “depois de mim virá quem de mim bom fará”… Velho e inveterado leitor de Pascal sei bem que a História é um jogo de espelhos paralelos  em que os acontecimentos se projetam, sem nunca se repetirem, constituindo-se em reminiscências mútuas… Vejam bem que é sobre estas minudências que ocupamos as nossas conversas. E seguindo um velho jogo de infância, demo-nos da última vez que nos encontrámos a dizer à desgarrada o que o nosso devotado épico nos ensinou, num dia de desfastio. Do que se trata apenas é de uma finíssima lição de Ética…

 

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

DE REGRESSO DE LONDRES…
19 de fevereiro de 2019.

 

Venho de Londres, com os ouvidos cheios de argumentos racionais e irracionais, sobre o futuro que o Brexit reserva aos nossos amigos da Velha Albion.

Para já, percebi, entre tudo o que ouvi, que são mais as dúvidas do que quaisquer certezas. Mas em nome da coerência e da aprendizagem, posso, em traços muito gerais, expor-vos uma discussão que considerei algo absurda, em que o tema se tornou subitamente tão duvidoso sobre o que dizer ou fazer. E isto é tanto mais complexo e quase absurdo, que podemos estar um dia inteiro à procura de onde podem estar os interlocutores que procuram racionalizar o que pensam sobre tão inusitado tema. Comecemos pelo princípio. Entre os meus amigos, há representantes de todas as posições e atitudes. Mas posso dizer-vos que neste momento a atitude típica dos ilustres membros da Albion é não dizerem o que pensam, e pensar o que não dizem… Mas há mais, muitos dizem o que não pensam e pensam o que não dizem… Raros pensam o que dizem, e dizem o que pensam… Como costumava afirmar o meu velho Coronel Clifton, vive-se uma verdadeira trapalhada, plena de simulações e dissimulações. O mal foi o Senhor Cameron ter-se lançado de um avião em andamento sem paraquedas. O resultado foi aquele que a racionalidade impõe. O desastre aconteceu mesmo. Mesmo que ele, Cameron, a meio caminho, antes de se despenhar tenha dito “so far so good”. De nada lhe valeu esse derradeiro ato de fé. Descansa em Paz. Não houve retórica que salvasse a pura lógica a que Chesterton chamaria um figo. Mas vamos por partes. O não dizerem o que pensam, como John Bull, é natural. O pensar o que não dizem é uma consequência desse absurdo. Já o dizerem o que não pensam é uma atitude contra natura. Mas que dizer quando vivemos invadidos de fake news, como aliás já aconteceu com o famigerado referendo? E o pensar o que não dizem é algo que tem a ver com aquilo que um companheiro que se assemelhava a Mickey Rooney costumava dizer – “quando falta vontade e a indiferença prevalece, passa a valer tudo”. Uma notícia falsa mais não é do que fingir que é verdadeira, mesmo não o sendo. E esse companheiro antigo resumia tudo à filosofia do tanto se me dá. Acontece, porém, que essa indiferença não passa da seguinte consideração, só possível numa sociedade profundamente dividida – como ouvi num dos jardins de Oxford há poucos dias: se foram os velhos a votarem a saída, o que vai acontecer é que eles, por ordem natural das coisas, vão mais depressa para os cemitérios, e como aí deixam de votar, um tempo surgirá em que serão os jovens, que durarão mais tempo e que, portanto, terão de encontrar a solução prática para dar o dito por não dito. Eu sei que eles são muito pragmáticos em mudar acontecimentos. Resta, assim, esperar… O cinismo desta atitude não me convence, porém. Em bom rigor há quem não tenha tempo para essa espera. E isso obriga a apressar as coisas… Eis a encruzilhada do momento! Ninguém se entende. E a Albion vai-se tornando cada vez mais irrelevante.  Eis onde isto parece ir parar. Por mim e agora, vou para o jardim, que é tempo de experiências florais – e aproveito para citar um poema de Fernando Echevarría, o inolvidável…      

 

Vinham rosas na bruma florescidas 
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre atual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,

em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

Fernando Echevarría, in “Poesia 1956-1979”

 

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CARTA DE OLIVEIRA DA FIGUEIRA
14 de fevereiro de 2019

 

Meu Caro Amigo Agostinho de Morais

 

Espero muito que esta carta o encontre bem. Acredite sinceramente que tive uma enorme alegria em poder ter conversado consigo na maravilhosa capital da Sildávia.  Antes de mais, venho desculpar-me por me ter desvanecido depois de nos termos encontrado em Klow. Já me conhece há tempo suficiente para saber que não gosto de estar muito tempo quieto. Assim aconteceu, de novo, e se é verdade que a Sildávia é um país pacato, para um comerciante conhecido como este seu amigo, todo o cuidado é pouco para garantir o necessário recato e a prevenção relativamente a oportunistas e invejosos. À medida que a minha idade avança, mais consciência tenho de que tudo será vão, se não estivermos bem despertos, como se tivéssemos mil olhos. Assim eu faço. Aliás, se eu tivesse um brasão de armas, escolheria a imagem de uma mosca, com os olhos multifacetados para tudo ver. Infelizmente, o meu falecido progenitor preferiu adotar como símbolo de sua casa de comércio uma barata, que era o inseto que mais o atormentava no armazém da mercearia onde ganhava a vida. E adotou-o como uma espécie de exorcismo perene, através do qual se libertava de quem se entretinha a deliciar-se com as batatas que guardava na cave da casa. E havia que dar cabo desse terrível bicharoco com determinação. Para mim, porém, a mosca é o melhor inseto, não para voar à minha volta, com zumbido perturbador, mas para exercitar o olhar penetrante capaz de tudo abarcar. E certamente que o meu mui amigo notou que praticamente não há moscas em Klow… Esse é o resultado da minha última vitória como Conselheiro Especial da Corte. Consegui vender ao Reino da Sildávia um aparelho que é o “Último Grito” da mais moderna tecnologia. Trata-se de um abanico gigante para afastar todo o tipo de insetos. E a verdade é que há resultados positivos, para gáudio de todos. Sei até de um relatório circunstanciado da responsabilidade do Ministério das Iniciativas Insólitas, que me encheu de orgulho. Aí se diz que há uma cadência regular e um movimento uniforme que permite uma eficácia extraordinária do grande abanico. Agora, já estou em bom recato, sem inoportunidades, a pensar em novos negócios… Como sabe, vendo tudo que vem à mão. E o certo é ninguém deixa de comprar… Ainda gostaria de lhe dizer que certamente não se apercebeu de que uma pequena ruela próximo do palácio real leva o nome de Tintin e um pouco adiante, nas traseiras desse grande monumento, está a Alameda de Oliveira da Figueira, o mais original e imponente de todos os arruamentos da cidade. Aí há uma pequena estátua que representa alguém que a minha modéstia não  deixa designar –  no ofício de prestidigitador, carregado de artefactos. E na base desse monumento insigne, estão os versos imortais do poeta Alexandre O’Neill, celebrizados por minha saudosa amiga Amália Rodrigues e por Adriana Calcanhotto:

 

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.

 

Eis o que se me oferece… Aceite, querido amigo Agostinho os melhores votos de amizade do seu, sempre

Oliveira da Figueira.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

DESCOBERTA NA CIDADE VELHA NA ILHA DE SANTIAGO
5 de fevereiro de 2019.

 

Já regressado a terras lusas, vindo da Sildávia, escrevo sob a invocação do pelourinho da Ribeira Grande (Cidade Velha), Cabo Verde, no momento em que acaba de ser descoberta uma capela provavelmente quinhentista na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. E chamo sempre a atenção para a configuração do pelourinho da velha capital, que invoca o melhor municipalismo como nos foi ensinado por Herculano… Nas obras de beneficiação que decorrem no templo, prevendo-se que o mesmo possa ser restituído à sua traça original ainda este ano da Graça de 2019, confirmou-se a descoberta de uma capela que pode datar de 1495 e que se encontra cheia de pedras e entulho, em resultado de diversos desabamentos dos terrenos que ladeiam a Igreja. Não se trata de algo completamente inesperado, uma vez que  os arqueólogos do projeto “Concha” já vinham assinalando a forte probabilidade de encontrarem uma capela antiga dos primórdios da construção do templo. Agora parece tudo apontar nesse sentido, havendo uma grande curiosidade da parte da comunidade científica em conhecer como se apresenta esse precioso elemento que ajudará decisivamente a conhecer a história não apenas da Igreja, mas também da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. É um dos edifícios mais antigos da cidade construído a partir de 1495 no estilo gótico português, foi mais tarde ampliado, sempre sob os auspícios da mesma confraria dos homens pretos, que assim demonstrava ter influência e poder económico assinaláveis. O Padre António Vieira ali pregou, indo de Portugal para o Brasil. Ainda se imagina a verve do imperador da língua portuguesa, perante uma comunidade que o deixa impressionado. E o célebre Pedre disse, sem esconder a admiração: “há aqui padres tão negros como azeviche. Mas só neste particular são diferentes dos de Portugal, porque são doutos, tão morigerados, tão bons músicos que fazem inveja aos melhores das melhores catedrais de Portugal”. Não é preciso dizer mais sobre o que era a Ribeira Grande e sobre qual a sua importância. E hoje perante o esqueleto da velha cidade percebemos que o Padre Vieira encontrou uma população culta e laboriosa. A Cidade, como sabemos foi assaltada no início do século XVIII pelos corsários franceses que levaram tudo, incluindo os sinos da catedral. Daí a mudança da capital para a Cidade da Praia, mais protegida de intempéries e assaltos… Estou, como compreendem, muito curioso por ver o resultado da intervenção dos arqueólogos e para perceber plenamente toda a riqueza do gótico português no sul da Macaronésia. A Cidade Velha está hoje classificada como Património Mundial da UNESCO e é uma importante referência, já que falamos da memória de um antigo entreposto de escravos (enquanto a Goreia foi uma prisão de escravos). Assim, para quantos desejam o debate sobre os claros e escuros da presença africana dos europeus, aqui não há dúvidas. Ninguém quer iludir a História e as suas tragédias – mas isso não pode fazer esquecer tudo o mais. A necessidade de evitar anacronismos, bem como do estudo e da reflexão históricos numa perspetiva crítica, não esquecendo o lado mau e refletindo também sobre os benefícios… Continuaremos neste tema… Por hoje, envio um abraço, aproveitando para deixar-vos com um texto extraordinário de William Shakespeare, o célebre Soneto nº 30, na tradução exemplar de Vasco Graça Moura.     

 

 SONETO Nº 30

 

 "Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim."

 

(William Shakespeare, tradução Vasco Graça Moura)

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

DE PARTIDA…
29 de janeiro de 2019

 

 

«Escrevo a minha última carta de Klow, antes de partir de regresso ao meu lar lusitano. Como disse, encontrei a Sildávia como sempre – amena e simpática. E a Bordúria continua cheia de medos e desconfianças. Depois dos sinais apaziguadores em 1989, regressaram velhos fantasmas e designadamente o grande fantasma de Plekszy-Gladz, que eu julgaria totalmente banido. Mas não, voltam subtis e ambíguas referências a essa tremenda personagem, em nome de um estranho nacionalismo. É, afinal, a projeção do que hoje vivemos no velho continente.

 

Falta memória das guerras civis – e, em lugar de uma ligação entre o debate de ideias e a aceitação regulada dos conflitos, deparamo-nos com a ilusão de que tudo se pode resolver com um qualquer chefe omnipresente e omnisciente – como quis ser esse Plekszy-Gladz de má memória. O seu bigode até chegou a servir de símbolo de marca de automóvel e de decoração… É verdade que ainda não chegamos a tanto, mas a bigodaça volta não volta aparece. Entretanto o meu amigo Oliveira da Figueira desvaneceu-se. Partiu de Klow sem me dizer para onde iria.

 

Sei que os seus negócios vão indo razoavelmente, mas sobretudo o seu espírito aventureiro está mais vivo que nunca…  Entretanto, fui matando saudades entre velhos amigos e ofereceram-me uma pequena imagem de Tintin com dois sildavos no tempo em que ele chegou aqui pela primeira vez, ainda ninguém sabia a história e a existência deste país, que continua a ser uma referência histórica e romanesca. Nada vos disse sobre a política. É uma pequena democracia multipartidária, com um governo de coligação com moderados de várias cores. Continua a ser uma monarquia constitucional quase republicana, com a divisa “Eih Bennek, eih blavek” – Aqui estou aqui vou ficar, centrada na velha lenda da rosa com espinhos e do cuidado necessário para não nos picarmos nela. Com uma Europa e um mundo em convulsão, os jornais, as rádios e as televisões dão-nos a notícias costumeiras…

 

Por mim parto com saudades. Até à vista caros amigos da Sildávia.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CONTINUAÇÃO DE UMA CARTA QUE RECEBEMOS DE KLOW…
22 de janeiro de 2019

 


Prosseguimos a missiva que recebemos do nosso colaborador e amigo Agostinho de Morais, que ainda se encontra na cidade de Klow, capital da Sildávia.

 

«Continuo a deambular por esta cidade tão acolhedora. Ontem mesmo voltei a estar com o meu amigo Oliveira da Figueira, numa amena conversa. Lembrámo-nos que a sua primeira aparição nestas aventuras aconteceu em 1932, como personagem de «Os Charutos do Faraó», num episódio em que Tintin é atirado ao Mar Vermelho, por engano, num sarcófago egípcio. Salvo «in extremis», o nosso herói encontrou-o na embarcação que milagrosamente o recolheu. Oliveira da Figueira diz: «se puder ajudá-lo, posso fornecer-lhe a preços competitivos qualquer artigo de que necessite». Começou então por um conjunto flamante de gravatas, às riscas, às bolas ou com figuras exóticas. Seguiu-se um lote de magníficos sabres, com lâminas de Toledo, mil outras bijuterias e muitos brindes: um despertador, escova de dentes etc… Tintin saiu carregado de inutilidades, com um balde, um regador, uma gaiola com papagaio, uns esquis, tacos de golfe, uma casota e uma coleira de cão, além de um despertador. E ingenuamente confessa: «Ainda bem que não me deixei levar pela conversa dele. A tipos como este acabamos sempre por comprar uma série de coisas inúteis»… Já na costa árabe, Oliveira da Figueira demonstrará a sua inefável arte de convencer. Chamam-lhe «o-branco-que-vende-tudo»… E ele reconhece-se orgulhoso: «Então que tal? Chama-se a isto eficiência! E o melhor é que os meus clientes voltarão». De facto, voltam, mas quem aparece a protestar (sem razão, é certo) parece ter ingerido um naco de sabão, que lhe produz mal-estar pelas bolas de sabão que o atormentam. Daí a maldição: «Antes da Lua Nova, o meu Senhor, o Xeque Patrash Pacha, ter-te-á castigado»… Encontramos mais tarde Figueira no «País do Ouro Negro», obra iniciada em 1939, interrompida pela guerra e recomeçada em 1948. Aí, ajuda Tintin a encontrar os segredos do Dr. Müller, descobrindo um subterfúgio.

 

Mascarado de sobrinho do comerciante, sob o nome de Álvaro, com um aspeto bizarro, levemente atrasado, quase invisual é supostamente vítima de uma estória que o português vai contando sem parar para distrair quantos visavam impedir o acesso aos segredos do vilão. É extraordinária a capacidade efabulatória de Oliveira da Figueira. Inventa que o sobrinho é filho de um criador de caracóis, vítima de uma trama terrível que envolve uma mulher rica que morre de desgosto aos noventa e sete anos e a influência de duas imortais palavras, ditas em português, «Oh! Oh!», cujo sentido, alcance e influência nunca chegamos a conhecer… Depois, em «Carvão no Porão» («Coke en Stock», publicado no «Cavaleiro Andante», em 1959 e 1960, sob o título «Mercadores de Ébano»), Tintin e o seu amigo, Capitão Haddock, pedem apoio e hospitalidade em Wadesdah. Lembro-me, aos sábados de manhã, da expectativa que tínhamos antes de ler a continuação das peripécias. Oliveira da Figueira recebe surpreendido e assustado a visita noturna, com a cidade em estado de sítio, cheia de cartazes a pedir a captura de Tintin. «Que faz aqui, desgraçado? Não sabe que tem a cabeça a prémio?». Há agitação e um conflito entre a Arabair e o Emir…

 

Tintin diz que precisa absolutamente de ajudar o Emir e Oliveira da Figueira informa que ele teve de fugir para casa de Patrash Pacha. Tintin e Haddock treinam desesperadamente o equilíbrio das bilhas à cabeça, para que possam não dar nas vistas, mascarados de mulheres árabes, cobertas com burkas. O resultado do treino é desastroso. Os estragos são enormes e os cacos enchem o armazém do comerciante arruinado, que se vê na obrigação de dizer às clientes que as bilhas estão esgotadas. No momento da verdade, tudo parece salvo, mas eis que uma mulher árabe descobre a barba hirsuta do capitão e foge escandalizada. O desastre anuncia-se, mas no final tudo se arranja graças ao apoio providencial de Oliveira da Figueira. Recordámos gostosamente estes episódios. E verifiquei que o meu querido Oliveira da Figueira continua igual a si mesmo. Não sei que idade tem. Continua a cuidar-se. Nenhuma das suas qualidades se encontra adormecida. E fala, fala, fala… Comunicou-me, porém, que partirá para um lugar que não me quis revelar qual para dirigir os seus negócios… E hoje fico-me por aqui. Continuarei a informar-vos sobre o que encontrei neste país adorável…

 

Agostinho de Morais  

CADA ROCA COM SEU FUSO...

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NOS NOVENTA ANOS DE TINTIN, CRÓNICA DE KLOW
Episódio especial, 11 de janeiro de 2019

 

«Na sequência de “Tu Cá Tu Lá Com o Património”, iniciámos uma nova série para 2019, da autoria do nosso amigo Agostinho de Morais.

São crónicas amenas deste “gentleman farmer”, afilhado de Frei Agostinho da Cruz, de idade incerta, mas com uns bons anos de vida e de experiência. É um jardineiro nas horas vagas, cuida do seu MGA com mil cuidados e vive obcecado com o Brexit, com pavor que as peças para o seu vetusto automóvel se tornem incomportáveis de preço. É um anglófilo inveterado, cônsul honorário da Sildávia, detetive nas horas vagas, colecionador de borboletas exóticas, especialista em autores como Chesterton e Evelyn Waugh, e de Histórias aos Quadradinhos, pratica xadrez e bridge, e cultiva a teoria dos jogos. Em tempos escreveu três complexos opúsculos com misteriosos títulos “Para o Estudo do Paradoxo de Zenão – Aquiles e a Tartaruga” , “História da Sildávia até à Atualidade” e “ As Misteriosas descobertas do Father Brown”… São páginas de puro humor, história e matemática. É um conhecedor de temas históricos e linguísticos, e lê textos antigos em sânscrito, grego e latim. Quanto ao mais, é o que resultar das suas crónicas, a não perder!».

 

 

 

Eis o telegrama que acabamos de receber da cidade de Klow:

 

«Escrevo no dia 10 de janeiro de 2019, exatamente noventa anos depois da primeira publicação das aventuras de Tintin, no “Petit Vingtième”. Faço-o da cidade de Klow, capital da Sildávia, país adorável dos Balcãs. Aqui passaram-se momentos fundamentais na vida do herói de Hergé., que gosto sempre de lembrar.  Vim passar uns dias de férias a este país, em homenagem a todos os cultores das histórias de quadradinhos. Bianca Castafiore definiu a Sildávia como “um país encantador, para quem gosta de velharias”. A Sildávia nasceu em 1127 quando o chefe tribal Hvegui expulsou turcos e adotou o nome Muskar. A Bordúria, o país arquirrival, ocupou a Sildávia em 1195, mas em 1275 a independência foi reconquistada. O rei Otokar IV tornou-se monarca em 1360 quando o barão Staszrvitch reclamou o trono e o atacou com uma espada, mas Otokar derrubou-o com seu cetro – então tornado símbolo nacional. Eis a razão do célebre título “O Cetro de Otokar” E, desde então, o rei da Sildávia deve trazer consigo o cetro e mostrá-lo ao povo no Dia de São Vladimir, sem o que perderá a sua legitimidade. Aquele que tiver o cetro será o novo rei. Sabemos bem que isso é assim pela leitura da obra de Hergé.. Em 1939 a Sildávia ficou sob o risco de uma invasão de sua vizinha Bordúria como parte de um plano para expulsar Otokar XII. Tintin desenvolveu uma estratégia para neutralizar a situação. Assim, de modo pacífico, Otokar XII viu-se regressado à plenitude poderes no seu pequeno reino, graças ao jovem e destemido Tintin, algo como um monarca constitucional de seu país. Ordenou a seus ministros e generais que se fizessem as mudanças necessárias para evitar um golpe e uma nova invasão. E assim se iniciou um longo paríodo de paz. Podem crer que é com sentida emoção que aqui me acho. O tempo está soalheiro, mas o frio é bastante… E para minha surpresa, aqui me encontrei quando ia a chegar ao Hotel Astória – Klow, onde estou hospedado, a figura mais bizarra que imaginar se possa, e que aqui veio, como eu, para celebrar os 90 anos de Tintin – bela e vetusta idade – falo-vos da figura rotunda de Oliveira da Figueira, o português mais célebre do mundo. Contou-me, aliás, que é sócio deste Hotel, que nos acolhe. A Bordúria regressou à instabilidade, que parecia afastada. Mas a Sildávia vive momentos de paz e moderada prosperidade, é por isso um bom lugar para prosperar, descansar e comemorar o glorioso aniversário de Tintin… Oliveira da Figueira está velho, mas feliz… Continuarei a escrever-vos desta terra tão acolhedora. Hoje apenas vos escrevo, porém,  para homenagear o herói, prometendo voltar ao relato de viagem nesta terra de História rica e vicissitudes diversas….»

 

Agostinho de Morais