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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

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PARADOXOS ATENIENSES…
11 de junho de 2019


A antiga Grécia discutia os paradoxos como modos de entender a lógica e a racionalidade como formas falíveis de entender a realidade. Conhecemos os paradoxos de Zenão, que nos conduzem ao entendimento de que se nos limitarmos a seguir um método puramente geométrico, podemos chegar a conclusões absurdas. Aquiles torna-se incapaz de vencer uma lenta tartaruga, do mesmo modo que uma seta nunca chega ao seu alvo. Tudo isto, porém, apenas no domínio de um mero pressuposto lógico ou matemático. Se eu considerar que na corrida em que se confrontam Aquiles e a tartaruga, contando esta com um pequeno avanço, a distância que falta percorrer a qualquer um dos dois calcula-se sucessivamente achando a metade do último percurso, vou ter de concluir que Aquiles não vencerá a antagonista porque é infinita a possibilidade de calcular a metade da metade da metade… Aquiles nunca passa a tartaruga, uma vez que quando chegar à posição desta, ela se encontra já mais à frente. E quando o herói chegar à segunda posição da tartaruga já ela não estará lá, e assim sucessivamente atá ao infinito. O mesmo se diga da possibilidade da seta atingir o alvo – sendo infinitas as operações para achar a chegada ao destino… Nunca conseguiremos fechar essa operação… Dir-se-á, contudo, que o paradoxo de Zenão é forçado e visa denunciar um raciocínio falso. Mas o amor dos paradoxos pelos atenienses atinge a maior sofisticação no caso da Nave de Teseu. Quando regressou da gloriosa missão a Creta para pôr fim ao Minotauro, poupando assim os jovens atenienses, Teseu, apesar de se ter esquecido de içar as velas brancas, o que determinou o gesto desesperado de Egeu, ao pensar que tudo correra mal, o certo é que iniciou a tradição para os atenienses de preservarem e glorificarem a Nave celebrizada. Contudo, a Nave foi-se degradando, com os seus trinta remos e dois majestosos mastros, obrigando a profundas reparações e substituições periódicas. E então começou a pôr-se a dúvida sobre se a Nave de Teseu continuava a existir apesar dos materiais originais já estarem substituídos. Onde estava a autêntica Nave de Teseu? Era a embarcação que estava restaurada no Porto de Atenas ou correspondia aos velhos despojos que restavam num velho armazém da cidade? A discussão eternizou-se pelos séculos. A Nave seria a mesma se as suas propriedades e a sua identidade se mantivessem. O próprio Leibniz interveio no aceso debate, dizendo: seria a mesma Nave se e apenas se X e Y tivessem as mesmas propriedades e as relações. Assim, tudo o que seria verdade para X (a Nau restaurada) sê-lo-ia para a Y (a antiga) se ambas tivessem as mesmas propriedades e relações; assim, tudo o que seria verdade para X seria também verdadeiro para Y e vice-versa… A resposta iria, assim, depender da análise concreta das propriedades da Nau, dos remos e dos mastros. O tempo passara, a memória de Teseu perdia-se na lembrança dos atenienses e a função dos elementos talvez se tivessem modificado, já que a Nau deixara de navegar. E o enigma manteve-se, porque o paradoxo continuava bem vivo…

 

E em matéria de paradoxos e jogos de palavras, não resisto a citar os “Dois Gatos” do genial Bocage, o meu querido parente, Elmano Sadino


“Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).

De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando
Lhe diz: ''Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.''
''Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup'rior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes
Gosto em pilhar algum rato?''
''Sim.'' - E o comes?'' - ''Oh! Se como!...''
''Logo não passas de um gato.

Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.''

Agostinho de Morais

 

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

 

NA SEMANA DO DIA DE ASCENSÃO, RECORDAR AS FESTAS DA ESPIGA…
28 de maio de 2019

 

A minha Avó, cumpria religiosamente a antiga tradição das festividades da Ascensão. À hora de almoço, já havia sobre a mesa um ramo bem florido – e a festa era para todo o dia. E ainda hoje é feriado na terra de meus avós… A Quinta-feira da Ascensão celebra a subida ao céu do Senhor Jesus e ocorre este ano a 30 de maio, quarenta dias depois da Páscoa e dez dias antes do Pentecostes… . Popularmente chamado de Quinta-feira da Espiga, é considerado como “o dia mais santo do ano”. Para assinalar a data, a tradição pede que desde manhã cedo até do meio dia para à uma se suba a um  monte e se recolham espigas e flores que são depois colocadas num ramo. Colhem-se espigas de trigo, sempre em número ímpar, um pequeno ramo de oliveira, papoilas, margaridas e varas de videira. Diz o povo que a essa hora, as aves não vão aos ninhos, porque a natureza se une para festejar. Estamos, naturalmente, perante uma reminiscência das festividades pagãs dedicadas à Deusa Flora que assinalavam o surgimento dos novos frutos. Passado o dia festivo, o ramo era colocado atrás da porta de casa, para que nela pudesse haver pão, azeite, paz, amor e alegria durante todo o ano. Até 1952 foi feriado nacional em Portugal, tendo havido protestos de norte a sul pela perda deste dia especial para todo o País. Para compensar a perda de um dia tão enraizadamente sentido pelo povo, um número muito significativo de municípios adotou a quinta feira da Espiga como feriado municipal. Eis alguns exemplos: Alcanena, Alenquer, Almeirim, Alter do Chão, Alvito, Anadia, Ansião, Arraiolos, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Beja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Estremoz, Golegã, Loulé, Mafra, Marinha Grande, Mealhada, Melgaço, Monchique, Mortágua, Oliveira do Bairro, Quarteira, Salvaterra de Magos, Santa Comba Dão, Sobral de Monte Agraço, Torres Novas, Vidigueira, Vila Franca de Xira. E assim, ainda hoje, podemos lembrar uma celebração muito antiga, bem arreigada nas nossas tradições…

 

Hoje recordo nestas linhas excertos da célebre Carta de Francisco Sá de Miranda a D. João III, obra-prima da nossa literatura e língua. É uma reflexão ética de quem muito preocupado está com o despovoamento do reino e com um império que depaupera os campos e as gentes. Talvez se lermos bem o poema, descobriremos a defesa da fixação contra o transporte, não a tese do regresso puro e simples ou da desistência. E se dúvidas houve, leia-se o camoniano Velho do Restelo, quer tem muitos traços deste camponês literato, que trouxe para a Pátria a medida nova italiana, criada por Petrarca, “dolce stil nuovo”…

 

Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

 

(...)
Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.

 

(...)
Sempre foi, sempre há de ser,
Que onde uma só parte fala,
Que a outra haja de gemer:
Se um jogo a todos iguala,
As leis que devem fazer?

 

(...)
Do vosso nome um grão rei
Neste reino lusitano,
Se pôs esta mesma lei,
Que diz o seu pelicano
Pola lei, e pola grei.

 

(...)
Assim que seja aqui fim;
Tornem as práticas vivas;
Perdestes meia hora em mim,
Das que chamam sucessivas
Estes que sabem latim.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CÉLEBRE ABADE DE PRISCOS
14 de maio de 2019

 

 

Há dias, passei por Priscos, no município de Braga, e pensei com os meus botões que partilharia com os meus leitores algumas notas curiosas, sobre uma localidade, sobretudo conhecida por um magnífico pudim… Falo-vos assim hoje de Manuel Joaquim Machado Rebelo, o célebre Abade de Priscos, nascido a 29 de março de 1834,  em Turiz no concelho de Vila Verde e falecido a 24 de setembro de 1930 em Vila Verde, com fama já alcançada. O clérigo Machado Rebelo foi abade e gastrónomo, destacando-se pelas suas receitas de culinária, especialmente a do Pudim celebrizado com a designação inconfundível de Abade de Priscos. Foi pároco da freguesia de Priscos em Braga, que eu bem conheço, e que é um lugar muito aprazível, cheio de tradições e boa qualidade de vida. Exerceu funções  durante 47 anos, e foi lá que desenvolveu a sua inclinação culinária. Sendo amador na arte de bem cozinhar foi, segundo quantos o conheceram, "um homem de grande paladar". Além desse bom gosto, tinha também um excelente sentido de humor, que não deixarei de recordar aqui. Foi amigo do Arcebispo de Braga D. Manuel Baptista da Costa. Ora, tendo este conhecimento das suas capacidades culinárias, sempre que alguém de relevo visitasse a cidade convidava o Abade para orientar a cozinha e o menu. Foi tal facto que lhe deu grande fama nacional, vindo, por isso, a coordenar banquetes para a família real, ministros, bispos, aristocratas e gente abonada. Uma marca do seu carácter estava em fazer-se acompanhar por uma misteriosa maleta repleta de iguarias e temperos desconhecidos, cujos mistérios não partilhava com ninguém…. Segundo relatos de quem com ele conviveu, não havia um livro de receitas, mas algumas folhas esparsas, que ninguém mais encontrou depois da morte do  Abade. Ele, aliás, dizia duas coisas aos curiosos, uma é que era a sua cabeça que tudo armazenava e outra que tinha uma pequena colher de pau que atuava nos momentos mais dramáticos, sempre com sucesso. Também esse utensílio nunca foi encontrado.

 

Conta-se que no dia 3 de outubro de 1887, o Rei D. Luís, de visita ao norte do País com a Família Real, foi à Póvoa de Varzim. As autoridades locais esmeraram-se e convidaram o Abade de Priscos para dirigir a cozinha e preparar o régio banquete. Desempenhou-se o Abade da tarefa de tal modo bem que o Rei mandou chamá-lo, para o conhecer pessoalmente. É preciso dizer que D. Luís era tido como um excelente prático de cozinha. Assim, quis saber qual era a composição de certo prato servido no banquete e de sabor delicioso.

 

O Abade sorridente, respondeu: – Trata-se de palha, com licença de Vossa Majestade!

 

– Palha!? – disse o monarca espantado . – Então o Senhor Abade dá palha ao Rei de Portugal?

 

O Abade baixou a cabeça, a fingir-se de envergonhado e, com sorriso manhoso, esclareceu: – Real Senhor! Todos comem palha, a questão é saber servi-la… ".

 

Numa outra ocasião, sendo o banquete oferecido pelo Arcebispo de Braga ao Prelado de uma diocese vizinha, aconteceu um embaraçoso incidente. A sopa esteve tempo de mais ao lume e ficou levemente queimada. Vieram os cozinheiros em prantos até ao Abade, que reagiu com surpreendente calma, dizendo: - De facto, não serviremos ao Bispo uma sopa com bispo.

 

Retirou da célebre maleta um misterioso ingrediente, juntou-lhe água, deitou-o na panela, mexeu com a sua colher de confiança – e dizem os que testemunharam o acontecido que o bispo da sopa desapareceu e que o Bispo convidado muito gabou a iguaria…

 

Mas não nos vamos sem coisas, aqui vos revelo a receita do célebre pudim, uma das poucas que chegou até nós e que os cozinheiros de Braga e de Vila Verde continuam a seguir…

 

O pudim ficou conhecido quando o Professor Pereira Júnior, diretor da Escola do Magistério Primário de Braga, do antigo Convento dos Congregados, pediu ao Abade de Priscos a receita para a ensinar aos seus alunos e alunas. E eis o segredo:

 

O pudim é confecionado num tacho de latão ou cobre onde é colocado meio litro de água. Quando esta estiver a ferver, coloca-se meio quilo de açúcar, uma casca de limão, um pau de canela e cinquenta gramas de toucinho (gordo e de preferência de Chaves ou de Melgaço). Deixa-se ferver até atingir ponto espadana. Batem-se delicadamente quinze gemas até ficar a mistura homogénea e mistura-se-lhes um cálice de vinho do Porto velho até ficar em meio ponto, depois de bater novamente. A calda de açúcar é, então, vazada através de um coador fino para uma tigela onde estão as gemas, mexendo-se tudo. Barra-se uma forma com açúcar em caramelo e deita-se aí o preparado que é posto a cozer durante 30 minutos em banho maria. O pudim é desenformado quando estiver quase frio. E está pronto a servir e a deleitar os mais resistentes…

 

E aproveito a ocasião para recordar um célebre poema de João de Deus escrito a pensar nestes mesmo Rei D. Luís…

 

Há entre el-rei e o povo
Por certo um acordo eterno:
Forma el-rei governo novo,
Logo o povo é do governo
Por aquele acordo eterno
Que há entre el-rei e o povo.

 

Graças a esta harmonia,
Que é realmente um mistério,
Havendo tantas fações,
O governo, o ministério
Ganha sempre as eleições
Por enorme maioria!
Havendo tantas fações,
É realmente um mistério!

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A FANTÁSTICA OFERTA DO MAGNÍFICO PARA O PRÍNCIPE PERFEITO…
30 de abril de 2019

 

Faz no dia 2 de maio 5 séculos, se não contarmos o salto de 11 dias de 1582, em que se passou do calendário juliano ao calendário gregoriano, que o grande Leonardo morreu. Tenho por ele uma admiração incomensurável. Impulsionado pelo texto de Alexandra Carita no último “Expresso”, estive hoje toda a manhã à sua conta na minha biblioteca, subi e desci a escada e encontrei muito do que desejava sobre Florença e sobre Portugal. Tenho uma grande paixão por Florença. Considero que San Miniato al Monte é a fronteira do Paraíso. E descobri o que desde miúdo desconfiava, que o nosso D. João II (1455-1495) foi o modelo de Lourenço de Médici, e por isso este encomendou a Leonardo da Vinci (1452-1519) para oferecer ao Príncipe Perfeito uma tapeçaria de Flandres. O caso parece ter pouca importância, uma vez que a tapeçaria em ouro e seda nunca chegou a ser executada, no entanto o episódio significa muito sobre a admiração que Lourenço, o Magnífico votava ao nosso Rei. Aliás, quando lemos «O Príncipe», dedicado por Maquiavel ao Magnífico, não podemos deixar de associar o modelo escolhido pelo pensador italiano ao monarca português. Ora, mais de cem anos depois de o cartão não ter seguido para a Flandres, permanecendo na cidade do Arno, o certo é que estava em casa de Otaviano de Médici – e a partir de então não mais se conheceu o seu paradeiro. Giorgio Vasari (1511-1574) fala de Leonardo e da célebre encomenda: “Foi-lhe pedido um cartão de tapeçaria, retratando a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, que deveria ser feita na Flandres e depois enviada ao Rei de Portugal. Leonardo trabalhou o pincel com claro-escuro, irradiando de branco, um campo de ervas infinitas e alguns animais. Pode dizer-se que certamente, em diligência e naturalidade, nenhum divino intelecto possa imaginar igualar-se a este”. Vasari, o grande crítico e historiador de arte diz ter visto o cartão e descreve-o: “Há uma figueira, folhas e ramos executados com muito cuidado que a mente se deslumbra só de pensar como um homem poderia ter tanta paciência para o fazer. Há também uma palmeira executada cada dia com mais grandiosidade e maravilhosa arte, impossível de fazer se não fosse a paciência e a mente de Leonardo. Esta obra não foi terminada e encontra-se em Florença na afortunada casa do magnífico Otaviano Médici, doada não muito tempo depois de concluída pelo tio de Leonardo”. E ainda li em Vasari: “Além de uma beleza de corpo que nunca será suficientemente enaltecida, havia uma graça infinita em todas as suas ações, e o seu génio era tal, e de uma natureza tal, que fossem quais fossem as coisas difíceis a que se dedicasse, facilmente as resolvia”. É um deleite ler as apreciações de Giorgio Vasari em “As Vidas dos mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos” (tenho a edição de 1568)… Fui ainda recordar a representação de “Rapariga lavando os pés a uma criança” (1480), que está na Faculdade de Belas-Artes do Porto, e recordei a confissão do grande Francisco de Holanda sobre ter na sua livraria um esboço de Leonardo: “Busto de Homem grotesco de perfil”…  É bom pensarmos como Lourenço de Médici só em Leonardo encontrou o digno artista para homenagear o mais completo dos Reis contemporâneos…

 

E depois de ter lembrado este bizarro episódio, não resisto à tentação de reproduzir uma fábula que encontrei, nas minhas andanças, da autoria do próprio Leonardo da Vinci – que bem merece uma meditação serena…   

 

«A Borboleta e a Chama

Uma borboleta multicor estava voando na escuridão da noite quando viu, ao longe, uma luz. Imediatamente voou naquela direção e ao aproximar-se da chama pôs-se a rodeá-la, olhando-a maravilhada.

Como era bonita!

Não satisfeita em admirá-la, a borboleta resolveu fazer o mesmo que fazia com as flores perfumadas. Afastou-se e em seguida voou em direção à chama e passou rente a ela.

Viu-se subitamente caída, estonteada pela luz e muito surpreendida por verificar que as pontas de suas asas estavam chamuscadas.

“Que aconteceu comigo?” – Pensou ela.

Mas não conseguiu entender. Era impossível crer que uma coisa tão bonita quanto a chama pudesse causar-lhe mal. E assim, depois de juntar um pouco de forças, sacudiu as asas e levantou voo novamente.

Rodou em círculos e mais uma vez dirigiu-se para a chama, pretendendo pousar sobre ela. E imediatamente caiu, queimada, no óleo que alimentava a brilhante e pequenina chama.

- Maldita luz! – murmurou a borboleta agonizante – Pensei que ia encontrar a felicidade e em vez disso encontrei a morte. Arrependo-me desse tolo desejo, pois compreendi, tarde demais, para minha infelicidade, o quanto a chama é perigosa.

- Pobre borboleta! – respondeu a chama – Eu não sou o sol, como a borboleta tolamente pensou. Sou apenas luz. E aqueles que não conseguem aproximar-se de mim com cautela, são queimados.

Esta fábula é dedicada àqueles que, como a borboleta, são atraídos pelos prazeres mundanos, ignorando a verdade. E quando percebem o que perderam, já é tarde demais».

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

ESTAR DE SOBREAVISO NUM TEMPO DE FALSA INFORMAÇÃO
16 de abril de 2019

 

 

Alguém me dizia que desconfiava da transparência nos negócios públicos e que a política se quer com uma boa dose de segredo. Lembremo-nos do nosso D. João II que tudo fez com base no sigilo e não se deu mal com isso. O segredo é a alma do negócio. Mas vamos a ver se nos entendemos. A transparência tem a ver com a clareza das decisões e com a sua fundamentação. Tem a ver com o combate à discricionariedade e ao favor. Essa transparência é boa e necessária. Mas não é boa transparência o querer ver pelo buraco da fechadura e o misturar vida privada e vida pública. Eu sei que muitas vezes culpadas são as figuras públicas, na ânsia de se apresentarem, ficam-se nas fronteiras e depois queixam-se porque são elas mesmas que suscitam a curiosidade sórdida. Ninguém é célebre para o criado de quarto. Sabe-se que assim é. A Rainha Vitória quando visitava os Bairros Pobres de Londres levava as melhores joias, para marcar a distância e para se fazer admirar. A admiração e o respeito exigem, de facto, uma certa distância. Não confundamos, por isso, as coisas – a transparência deve existir para defender o bem comum e a justiça, não para alimentar a sordidez e a inveja. E o que vemos, a cada passo? O contrário disso mesmo. As chamadas redes sociais são circuitos fechados, que transmitem a má-língua, quando não a pura difamação. Longe de ser lugares de elevação são, na maior parte dos casos, lugares de conversa de subúrbios, de cloacas ou de sítios pouco recomendáveis. Cada qual apenas diz o que quer que os outros oiçam e só ouve o que deseja. A onda de “fake news” não é mais do que resultado dessa tentação dos círculos fechados, onde normalmente se manifesta uma atrevida ignorância. E depois gera-se um tremendo fenómeno: enquanto os tribunais deliberam condenações, com efeito limitado; as condenações das redes sociais ou da opinião pública são definitivas, permanentes e não pressupõem a recuperação e a integração. Ian Buruma foi afastado da “New York Review of Books” porque disse isto mesmo e porque os anunciantes não gostaram. Em nome da sobrevivência do jornal foi dispensado… Dir-se-ia que é a tirania cega do número que se impõe – tão má ou às vezes pior que os Big Brothers deste mundo. Ao menos, os tiranos podem ser vencidos e afastados. A cobardia e a pusilanimidade impõem-se neste populismo abjeto… A ilusão impõe-se. A manipulação torna-se regra. As pessoas são tratadas, no fundo, como cães de Pavlov.

 

E corri à estante, abri os Poemas de Nicolau Tolentino (1740-1811), e com algum esforço, encontrei a ilustração de como a ilusão nos vai enganando – e nós deixamo-nos arrastar por ela…

 

Fiei-me nas promessas que afetavas
Nas lágrimas fingidas que vertias,
Nas ternas expressões que me fazias,
Nessas mãos que as minhas apertavas.

Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.

Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo
Em aras falsas, holocaustos puros.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

LEMBRANDO ANNA MASCOLO E A ARTE DE DANÇAR…
2 de abril de 2019

 

Hoje quero recordar Anna Mascolo e a sua extraordinária influência na Educação Artística em Portugal. Conheci-a bem. Foi, durante toda a vida, uma lutadora. Quem com ela contactou sabe como tinha ideias ambiciosas e arrojadas. Mas nunca era de desistir. Quantas vezes construiu generosos castelos no ar, mas nunca se deixava abater. Tinha a sabedoria necessária para encontrar uma alternativa, que lhe permitisse chegar por outro caminho ao destino que tinha idealizado. Não é possível falar-se no Portugal do último meio século sem contar com os seus projetos, as suas ideias, os seus exemplos e os seus discípulos. Era exigente, era determinada, era rigorosíssima, mas procurava pôr em prática uma visão ampla e generosa, aberta e cosmopolita de Humanidades. E com ela podíamos compreender a essência de ser artista. Arte é fazer como ninguém mais faz. Arte é realizar a beleza de modo irrepetível. Hoje, as neurociências provaram muito do que Anna Mascolo defendeu em termos práticos. No desenvolvimento da infância, as Artes estão em primeiro lugar. Tudo começa no exercício dos sentidos e a capacidade criadora tem a ver com o movimento e com a nossa relação com o corpo. Não há domínio de si mesmo sem recorrer ao valor da Arte. E em homenagem a Anna Mascolo, deixo um poema de Sophia de Mello Breyner e os fragmentos de uma entrevista… Nunca esquecemos que para Sophia dança se deveria escrever com S. Só assim se entenderia o movimento! Só assim se entenderia a singularidade… E assim oiçamos Sophia,

 

Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

Sophia de Mello Breyner Andresen | "Coral", 1950

 

E ainda a propósito da dança, Sophia disse em entrevista de Maria Armanda Passos:

Maria Armanda Passos - Desde quando este interesse pela dança e como?
Desde sempre. A dança é um elemento dionisíaco ligado ao ritmo e à despersonalizacão. (…)

MAP - Chegou a dançar, a aprender bailado?
Eu vivia no Porto quando era pequena e não havia nenhuma escola de ballet. Inventava danças sozinha. Anos depois não perdia os bailados que apareciam. Mas era tarde para aprender. Dançava muito sozinha e, quando os meus filhos eram pequenos, dançava para eles.

MAP - Às vezes ainda dança, Sophia?
...Muitas vezes imagino bailados e argumentos para bailados.

E a Eduardo Prado Coelho disse:

 

«E quando eu era ainda muito pequena, quando estava em Lisboa, logo de manhã ia para o escritório do meu avô - que eram três grandes salas seguidas, cheias de livros, de quadros, de retratos, de mapas e de mil coisas misteriosas - um lugar onde eu entrava em bicos de pés - e o meu avô punha sempre a tocar um disco de Bach - talvez por isso a música de Bach foi sempre a que melhor entendi. E na Granja, à tarde, o José Ribeiro tocava violoncelo, nuns outonos de tardes oblíquas. E quando estava no Porto ia para Matosinhos para casa do Eduardo e do Ernesto Veiga de Oliveira e ouvíamos Das Lied von der Erde do Mahler, que nesse tempo ainda não estava na moda. E em casa do António Calém a música estava sempre no centro de cada encontro».

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

O CÉLEBRE CASO DA NÃO PRODUÇÃO DE PORCOS…
28 de março de 2019

 

O António Alçada Baptista era um contador de histórias inesgotável. Estar-se com ele era sempre um deleite, uma vez que se passava sempre um tempo fantástico… E gostava muito de contar o que aqui vou recordar, e que é a ilustração suprema do analfabetismo da tecnocracia. Millor Fernandes dizia, aliás, que «a economia compreende toda a atividade do mundo. Mas nenhuma atividade do mundo compreende a economia». E o António dizia por outras palavras isto mesmo.

 

Por isso, recordo o célebre caso da não criação de porcos. Tudo partia da existência de um mirífico subsídio por cabeça para a não criação de porcos. Quantos desses apoios não conhecemos nós, em várias circunstâncias e por múltiplas razões? A história tinha a ver com o requerimento feito por um pobre agricultor a um distante Ministro. Basta ler a parte final para entender tudo. Oiçamos. «Excelência. Estes porcos que não criaremos teriam comido 10 mil sacas de trigo. Ora, assegurando-nos que o governo indemnizará igualmente os agricultores que não cultivem o trigo.

 

Nesta ordem de ideias, poderemos esperar que nos deem qualquer coisa pelas sacas de trigo que não serão cultivadas para os porcos que não criaremos. Ficar-vos-emos extraordinariamente reconhecidos se nos responder o mais rapidamente possível, porquanto julgamos que esta época do ano será a melhor para a não criação de porcos e, por isso, gostaríamos de começar quanto antes. Queira Vossa Excelência, Senhor Ministro, receber os protestos da maior consideração. P.S. – Excelência. Não obstante o exposto poderemos engordar 10 ou 12 porcos só para nós, sem que isso venha a perturbar a nossa não-criação de porcos? Queremos assegurar que esses animais não entrarão no mercado e não significam mais do que a maneira de termos um pouco de toucinho e presunto para o inverno». O exemplo é extraordinário. Rio-me comigo mesmo quando lembro o gozo sentido pelo António a contar este episódio, e todos nós a ver um funcionariozinho de pala e mangas de alpaca e receber a missiva e a tentar responder-lhe com toda compostura …

 

E corri à estante para reler o Alexandre O’Neill, amigo do peito do António, que insistiu sempre que se davam bem porque nunca se levaram demasiado a sério…

 

 

«Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjetivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...  »

 

Alexandre O’Neill, Feira Cabisbaixa.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

NÃO HÁ TERRA 2…
19 de março de 2019

 

Continuo a dar-vos páginas do meu “Cavaleiro Andante” para meu e vosso deleite. Desta vez, recordo as aventuras de “Lolocas e Pompom”, no original “Modeste e Pompon”. Trata-se de uma criação de André Franquin (1924-1997) em 1955, para a revista Tintin, que também foi publicada fugazmente na revista “Spirou”. Os autores foram nomes consagradíssimos: Greg, Peyo, Tibet e mesmo Goscinny. Os desenhadores foram, além de Franquin, Dini Attannasio, Mittéi e Godard, Griffo, Bernard Duponr e Walli e Bom… Mas, por que razão me lembrei desta série? Não porque seja central na história da BD, mas porque me lembra a natureza, as traquinices, o ar livre…

 

É que esta semana, acompanhei do meu jardim com muito agrado os movimentos dos mais jovens na defesa do meio ambiente. Estou de alma e coração com o alerta lançado pela jovem sueca Greta Thunberg. Lembramo-nos do que disse em dezembro passado na reunião da COP 24 (24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima):  “Só fala de crescimento econômico eterno verde quem  está com muito medo de ser impopular. Trata-se de seguir em frente com as mesmas ideias erradas que nos meteram nessa confusão, sobretudo quando a única coisa sensata a é puxar o travão de emergência. Isso está errado. Não se está maduro o suficiente para dizer como é. Mas não podemos tolerar que esse fardo seja deixado para a nossa geração”. A jovem Greta é descendente por parte do Pai de um Prémio Nobel da Química de 1903,  Svante Arrhenius, e lançou um alerta sério, que não pode ser visto como algo de passageiro ou formal. É um movimento de tipo novo, que obriga cidadãos e cientistas,  artistas e criadores de todas as idades a empenharem-se na adoção de medidas concretas, para que o ambiente não seja irremediavelmente destruído. Não temos uma Terra número Dois, não há Plano B para a destruição do Meio ambiente. Há cinquenta Anos em Estocolmo foi dado um grito de alerta que ninguém ouviu. Destruímos desde então mais do que tudo o que tínhamos destruído desde o início da humanidade. Esse movimento é mortal. Toda a humanidade está ameaçada. O apelo dos jovens, o alerta dado em todo o mundo tem de ser ouvido. Temos de dar-nos as mãos – cientistas e cidadãos, artistas e políticos!

 

E deixo-vos um poema de Pedro Tamen:

 

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões”.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

AVENTURAS E DESVENTURAS LONDRINAS…
14 de março de 2019


 

Esta semana segui atentamente as transmissões televisivas das sessões da Câmara dos Comuns. E sofri alguma coisa. É verdade que já não dá para ter muitas surpresas, mas tenho uma legítima angústia sobre o futuro da relação europeia com a Velha Albion. No entanto, todos os dias recebo mensagens de amigos ingleses, manifestando-me o mesmo sentimento: “Ils sont fous ces  Bretons”, como me dizia um admirador confesso de Astérix, na sua personalidade resistente. Mas é desgostante ver como o Brexit se tornou um motivo de chacota geral. O velho Gladstone revira-se no túmulo ao ver os irlandeses baterem garbosamente o pé aos britânicos. E quem hoje visita Belfast julga estar em Dublin perante a profusão de bandeiras republicanas nas janelas da cidade. Nesta trapalhada, o Reino Unido arrisca-se a ficar amputado de toda a ilha do Eire. Ainda tenho esperança que haja bom senso. E depois, é preciso ver que farão os Escoceses. A procissão ainda vai muito no adro. Já citei aqui o que dizem os estudantes de Oxford e de Cambridge – os velhos que votaram vão morrer primeiro que nós… Para bom entendedor, meia palavra basta. A ilusão do Império de antanho não responde aos problemas atuais. Há quem ainda não tenha percebido que a Rainha Vitória já não está entre nós… Grandes empresas financeiras anunciam a saída.

 

A Agência Financeira Europeia já está em Paris. E, a pouco e pouco, vai havendo mais saídas importantes. Os japoneses da Nissan também se põem ao fresco. A Holanda está a ter um número importante de registos de empresas vindas da City. E, pasme-se, o Senhor Farage pediu a nacionalidade alemã. Será que também deseja pôr-se ao fresco. Ou será que quer seguir o destino dos velho “Mini”, que foi já nacionalizado pelos alemães. Tanta e tão trágica ironia… Custa a crer… Para já, a Senhora May acumula derrotas parlamentares. É facto que tem pele dura de réptil, mas isso não basta. Que lugar lhe reservará a História? Em suma, os ingleses vão ter votar para o Parlamento Europeu, o adiamento da saída aí está. E quem conhece razoavelmente a História dos Povos Britânicos, sabe bem que estamos a assistir a uma regressão muito suspeita e tremenda. Se o fantasma do Grand Old Man se debate na maior das angustias – também os fantasmas de Thomas Morus, Walter Raleigh, Shakespeare, Disraeli e mesmo Churchill andam todos na maior das confusões. Chesterton dizia que os fantasmas dos castelos ingleses tinham morrido quando morreram aqueles que neles acreditavam… A afirmação era do passado. Tudo mudou, porém. Os fantasmas regressaram todos, cada vez mais agressivos e assustadores…  O meu amigo Coronel Clifton anda desolado.

 

Somos solidários quanto ao futuro dos nossos queridos MG. O dele é um TF roadster de 1954… Pelo menos o adiamento do Brexit significa que continuamos a ter as peças dos nossos vetustos automóveis sem direitos por mais algum tempo…

 

Para vosso deleite deixo-vos outro retrato do meu querido Clifton, na minha coleção de Histórias de Quadradinhos…

 

Agostinho de Morais

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

 

UMA EXTRAORDINÁRIA REVELAÇÃO

 

Na nota da última semana dei-vos conta do último livro de António Sousa Homem e da minha comunicação com ele, graças às qualidades mediúnicas de um outro amigo. Remeto para o que então disse, para quem tenha dúvidas. Hoje tenho o grande prazer de acolher um texto fundamental que me foi enviado com data de 29 de fevereiro de 2019 pelo meu Amigo Embaixador Francisco Seixas da Costa sobre uma figura fundamental do início do século passado, Augusto Maria de Saa – injustamente esquecido pela voragem dos tempos. Hoje tudo fica esclarecido. E para os que ficaram intrigados com o postal representando a Praça do Comércio que apresentei, esclareço que se trata do local do seu funesto e trágico passamento. Por uma coincidência quase irónica, mas certamente trágica, esclarecemos que esse histórico postal foi encontrado no bolso do casaco do malogrado herói. A Extraordinária Revelação é a de todos os pormenores que hoje se apresentam. E cabe-me ainda acrescentar o seguinte: há nas redes sociais (dizem-me…) a notícia falsa a correr de que Augusto Maria de Saa não existe. Posso asseverar-vos como fica demonstrado na amostra junta que a figura é mesmo das mais notáveis, das mais inolvidáveis, das mais perenes da nossa vida intelectual. E daí a sua vera efígie aqui apresentada. Fico muito grato ao Centro de Estudos Saaianos (em constituição) e aos seus mentores e dirigentes.

 

Agostinho de Morais 

 

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Daguerreótipo na Bahia em 1889.

 

 

SAA VIVE !

 

Ao comemorarem-se os 165 anos do seu nascimento, começa a agigantar-se no panteão da memória popular essa personagem ímpar da cidadania e da cultura, que deixou um rasto indelével que só muito recentemente começa a ser recuperado em toda a sua dimensão, e que deu pelo nome de Augusto Maria de Saa.

 

Augusto Maria de Saa nasceu, como é sabido, a 29 de Fevereiro de 1854, numa barraca de courela na zona de Lisboa que hoje se chama Olaias, ao tempo designada por Picheleira. Numa carta a sua irmã Ephygénia, Augusto ironizou um dia com a raridade da data: "Às vezes, até parece que não nasci". Mas nasceu, ao menos para a lenda e para a glória.

 

Seu pai chamava-se Joaquim Saa, camponês da Merceana, que havia vindo para a periferia de Lisboa à procura de um qualquer parco sustento, nesses tempos de fome posteriores às guerras liberais. Sua mãe, Maria das Neves, teve a triste sina de ser o resultado de um pecaminoso encontro entre um padre miguelista, refugiado numa quinta da Malveira, e uma antiga aia, recém-regressada do Brasil, de D. Carlota Joaquina. O Brasil começava a firmar-se no destino do nosso Augusto.

 

Maria das Neves tem um início de vida dramático. Levada pela mãe e pelos ventos do infortúnio para a zona da Mouraria, aí haveria de se desgraçar, seduzida por um rufião e, dali em diante, daria o corpo na luta pela vida, até ter conhecido Joaquim. Seria ele a resgatá-la daquela miséria e iria ser o pai da prole de 11 filhos, de que Augusto seria o "caçula".

 

O pai Joaquim não deu, porém, vida fácil a Maria das Neves. Propenso ao abuso do álcool, criou na família um constante ambiente de violência e agressão, que o afastou, sucessivamente, do carinho dos filhos, oferecendo à mulher um quotidiano de inferno. Também numa carta a Ephygenia, a irmã de quem era mais próximo, uma epistolografia onde hoje assenta o pouco que se conhece dos tempos da sua família lisboeta, Augusto relembra, com tristeza irónica, a frase que o pai, quando ébrio, repetia como lema da sua vida: "Homem que é homem, dá coça diária na mulher".

 

Chegado a este ponto, o leitor dificilmente imaginará como pôde nascer, deste ambiente de dissolução, um ser superior como Augusto Maria de Saa. Nem nós imaginamos.

 

Chamado pelo imperativo material da vida, o nosso Augusto partiu um dia para o Brasil, a sugestão do seu tio Zagalo, irmão do pai, que ali fizera vida.

 

Não vamos agora entrar em detalhes, porque eles ficariam sempre aquém da realidade, sobre o que foi o seu percurso notável nessas terras da colónia perdida. Fiquemos apenas com uma síntese indicativa do fresco renascentista que foi a sua vida de eleição: da literatura à pintura, da filologia à música, da medicina à arte das viagens, da antropologia à ciência náutica, da agricultura científica à enologia, da astrologia às ciências ocultas, da física à matemática, por quase tudo passou o nosso Augusto, em todas essas áreas deixou a marca da sua inteligência e perspicácia.

 

O Brasil deve-lhe muito, nós devemos-lhe a honra de ser nosso compatriota. Ele, a nós, deve-nos a morte. É que, imagine o leitor, Augusto viria a morrer, em Lisboa, de forma inglória, sobre a pedra fria da rua do Arsenal, na histórica e fatídica tarde de 1 de Fevereiro de 1908.

 

Talvez valha a pena saber um pouco mais sobre as condições dramáticas dessa sua desaparição do mundo dos vivos. “Só a essência perpétua da morte oferece digna guarida à graça efémera da vida”, diria, premonitório, esse grande clássico do nosso Augusto que foi o grande Crabtree*

 

Uma morte que resgata a vida

 

Um apelo dramático de família fizera Augusto regressar do Brasil a Portugal, em finais de 1907, para ver, pela última vez, pelo Natal, a sua querida irmã Ephygenia, a esvair-se da vida, numa tísica sem remissão, no palacete à Junqueira, construído com os ouros do seu trabalho no Brasil. Tinha 54 anos, o nosso Augusto, e eles começavam a pesar-lhe, confessava.

 

Nesse primeiro dia de Fevereiro, destroçado pelo espectáculo da crescente tragédia doméstica, Augusto toma uma caleche e decide apanhar o ar fresco do Terreiro do Paço, beber uma aguardente no Marinho da Arcada, que tanto alimentava as suas saudades nas tardes quentes das terras além do Atlântico. A essa hora, o Martinho regurgitava de caras que o nosso Augusto não conhecia, figurões dos ministérios a fumar horas da preguiça, algumas personagens jovens com ar circunspecto, chapéu negro na mão e papéis no sovaco, graves nas suas bigodaças, em cujos murmúrios se pressentiam conspirações e incontáveis intrigas. A República rondava, a vida política sentia-se espessa. Como que por contraponto, a certa altura, a notícia espalha-se: Suas Majestades estão a chegar de barca ao Terreiro do Paço, regressadas de Vila Viçosa !

 

O nosso Augusto vê, num segundo, o destino colocar-lhe perto, pela primeira vez, essas figuras que a História quisera símbolos do seu Portugal. No Brasil, o Império já se fora, a República estava vibrante, Augusto tinha ido com os ventos do tempo, mas a memória do Portugal eterno estava toda ali, nessas personagens que breve iriam atracar ao Cais das Colunas. Segue assim o grupo que abandona o Martinho sob impulso da notícia e cruza o Terreiro. Vai colocar-se, com alguns outros, na esquina com o Arsenal, na perspectiva de poder gozar a passagem das Majestades. Do poste onde se encostara, via ao longe o Rossio, onde prometera encontrar-se ao fim da tarde com gente amiga, antes de uma jantarada no Grémio, onde iria nessa noite.

 

Do lado do cais, o movimento adensa-se. Suas Majestades avançam na carruagem, escoltada pelos guardas a cavalo, chanfalho preso à cintura. Alvoroçado com esse inesperado encontro com a História, Augusto logo descortina o recorte avantajado do rei, nove anos mais novo do que ele próprio. Ao lado, a figura elegante da rainha D. Amélia, acenando com estudada displicência. De costas na carruagem, uma figura jovem agita a mão em direcção de aos populares que aplaudem. Deve ser o príncipe D. Luiz Filipe, pensa. Eram os seus Reis, estava a vê-los pela primeira vez, com um orgulho patriótico de expatriado a agitá-lo por dentro.

 

Quase sem tempo para se descobrir, para saudar a sua Realeza, o nosso Augusto é impelido a abeirar-se da rua, por uma pequena multidão que largou o conforto da arcada para ver, ainda mais de perto, os passantes Braganças. É esse escasso grupo de pessoas, quiçá mais movidas pela curiosidade do que pelo amor à Coroa, que agora faz quase alas à carruagem, roçadas pelos cavalos da Guarda, no curvar lento da saída do Terreiro.

 

O que se passa, de seguida, é tempo de segundos. Do lado contrário da rua, Augusto ouve o que lhe parece, distintamente, serem dois tiros, seguidos de um alvoroço surdo de gente. O rei parece-lhe cair prostrado, a cabeça pendente sobre o encosto. D. Amélia soergue-se, lívida, do banco. Mais tiros, vindos sabe-se lá de onde, cruzam a esquina da praça, misturados com gritos e imprecações. Augusto vê surgir lesta, ao seu lado, uma figura esguia, de capote, que avança com um revólver na mão, que aponta certeiro à figura de D. Luiz Filipe, que se deixa cair na base da carruagem. O tal homem continua, não desiste, aproxima-se mais das carruagem e D. Amélia, com a coragem da raiva, sacode-lhe o braço assassino com um ramo de flores. O braço desvia-se, o assassino desequilibra-se e do fuzil sai-lhe, enviezado, um último tiro, antes que um chanfalho da Guarda Real o atire ao solo. Esse tiro, o tiro errado, é o tiro certeiro que atravessa a nuca do nosso Augusto Maria de Saa.

 

A rua passa a um inferno de sangue e gritos. As reais figuras são rapidamente recolhidas no Arsenal, o Buíça e o Costa – os regicidas que a História acolheria nas suas páginas – são trucidados, nos minutos seguintes, pela raiva impotente da Guarda, com a ajuda de populares enfurecidos. Ninguém se preocupa com o corpo exangue de Augusto Maria de Saa, com a face na pedra suja, a sobrecasaca cinza manchada pelo vermelho do sangue português que o Brasil alimentara. Na confusão trágica dessa tarde, o país perdera o rei e o príncipe herdeiro, mas a Monarquia continuava, pelo menos por ora. O que acabara, de vez, era o destino de uma figura ímpar que a História iria esquecer por muito tempo: Augusto Maria de Saa.

 

A hora pública de Saa

 

A justiça chegou tarde, mas chegou ! O considerado programa "Ritornello", da Antena 2 da RDP, dirigido por Jorge Rodrigues, dedicou a sua emissão de 1 de Abril de 2005 à figura de Augusto Maria de Saa. Para muitos parecia um missão inviável: era lá possível que a obra de Saa fosse levada ao público português com esta expressão mediática ! Mas sim, era verdade, a Antena 2, em colaboração com a Rádio Cultura, de Brasília, sempre atenta ao grandes valores culturais que lhe cumpre preservar e promover, esteve à altura dos seus pergaminhos e, sob a batuta de Jorge Rodrigues, soube fazer-se eco da vida e obra desse gigante da cultura que foi Saa. Bem haja !

 

Durante quase duas horas, os dois países de língua portuguesa e o mundo foram brindados com depoimentos que trouxeram à tona da realidade cultural luso-brasileira aspectos importantíssimos do espólio de Saa. Um professor universitário brasileiro leu dois inspirados poemas do tempo tropical do nosso Augusto, prenhes da saudade lusa que marcou a sua aventura brasileira. Familiares de Saa, hoje perdidos na Rondónia, deram conta de como a sua memória continua a ser acarinhada na família índia que criou na Amazónia, onde hoje sobrevivem frutos luso-tropicais, que acabam por dar razão póstuma a Gilberto Freyre. Revelações sobre cartas de Eça de Queiroz a Saa, existentes nos arquivos de São Petersburgo foram feitas por um especialista em temas russos. Figuras do meio académico revelaram a explosão crescente de estudos saaianos que atravessa o Brasil, quiçá (melhor diríamos, "quissá"...) premonitórios da abertura próxima de um cátedra.

 

O programa trouxe ainda à tona os trabalhos sobre Saa em curso do Departamento de Linguística do polo experimental de Taguatinga, dependente da Universidade Católica de Abadiania Leste (UCAL). Além disso, foi referida a conhecida dedicação à temática do autor que ocupa o Professor Romário Ibirapuera, da Universidade de Rondónia, figura incontornável da investigação saaiana, em especial depois da iniciativa da reedição desse marco linguístico, há muito esgotado e objecto de especulação nos alfarrabistas, que é a "Recolha crítica de interjeições tupi", que Saa publicou, em edição do autor, em 1887.

 

O programa Ritornello prestou um inestimável serviço à memória cultural luso-brasileira, ao alertar para a necessidade de uma iniciativa forte que leve Saa ao povo, através da publicação das suas Obras Completas, se possível em edição de bolso. A questão tinha um sentido de urgência, porque acabava de ser tornado público que a editora francesa Gallimard estaria a processar a tradução urgente de toda a obra de Saa, a incluir nos seus clássicos da colecção "La Pléiade", publicação em papel bíblia, ao lado de Montesquieu, de Voltaire, de Hugo e de um único português, até agora, Fernando Pessoa, também de Lobo Antunes, no futuro. Se não nos adiantarmos, se não houver um choque das consciências lusas, não nos espantemos de ver as seguintes obras de Saa, entre muitas outras, com uma chancela parisiense:

 

- "Prolegómenos à teoria dinâmica do conflito", obra de ciências políticas, morais e antropológicas, publicada por Saa ao tempo em que dirigia a Gazeta Democrática de Paranoá;

- "Olhai a Europa!", opúsculo-manifesto onde, pela primeira vez, se refere uma possível "carta constitucional" europeia;

- "As volteaduras da musicalidade recorrente", texto de teoria musical que, curiosamente foi o tema central de um seminário interdiscipinar realizado pelo professor holandês Schopp Innkop, em Hobbart, na Tasmânia, organizado pelos "Círculos Musicais Heineken", com apoio da prestigiada "Fundação Foster";

- "O equilíbrio da ruptura no voltâmetro de potência suspeitada", obra no domínio da física que tem já uma edição em servo-croata, infelizmente esgotada.

 

Finalmente, caro leitor, a obra de Augusto Maria de Saa começa a reaparecer em toda a sua grandeza. Já não era sem tempo, mas, para os que lutaram ao longo destes anos para que tal acontecesse, ainda parece mentira !

 

Lisboa, 29 de fevereiro de 2019

 

Francisco Seixas da Costa

Embaixador e presidente do CES (Círculo de Estudos Saaianos), em formação.

 

*Crabtree, Joseph William, “The new global philosophy and the impact of the Cornwall school dissent”, London, Barley & Peacock, third ed, 1887, pg. 623

 

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