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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

O MOMENTO BIZARRO DE UMA HISTÓRIA IMPREVISTA…

 

Há mistérios insondáveis que jamais saberemos como e porquê ocorreram. Celebrámos há dias a queda do muro de Berlim. Hoje parece-nos quase natural aquilo que se passou há 30 anos, no dia 9 de novembro. No entanto, ninguém poderia prever o que se passou. E talvez fosse digno das aventuras de Max e Moritz, dois travessos petizes que faziam as delícias dos jovens alemães há mais de cem anos… Talvez tenha sido um erro, pode ter sido um acaso, uma inadvertência, ou, quem sabe?, um mero ato de loucura… O certo é que o acontecido foi providencial. Resolveu-se então um inextricável dilema de impossível solução. Na cena internacional a pressão era muito grande na Hungria e na Checoslováquia. Muitos cidadãos desejavam movimentar-se, passar as fronteiras e chegar aonde havia liberdade e prosperidade. Gunther Shabowski era membro do politburo da República Democrática Alemã e foi destacado para anunciar aos jornalistas de Berlim-Leste uma nova política de entradas e saídas. Não estava em causa, o derrube do muro, mas apenas uma flexibilização das viagens. E havia um texto (há sempre um texto) que Schabowski devia ter lido, mas parece que não o fez – pelo menos com a devida atenção. Aí se previa um complexo sistema de autorizações que evitasse em todo o caso um colapso. A RDA deveria continuar a ser um bastião de fidelidade ao modelo do leste. No dia seguinte, só no dia seguinte, quem quisesse sair deveria pedir uma autorização. Havia, é certo, ordem para maior flexibilidade, mas a lógica burocrática deveria manter-se firme no essencial. Tudo ocorreria apenas depois das 10 horas da manhã. E Schabowski deveria dizer isso mesmo aos jornalistas naquele fim de tarde. Não se sabe por que bulas, porém, ele estava mal informado. Faltara a um encontro de preparação, e displicentemente pegou no papel que deveria ler, olhou-o na diagonal e avançou para a boca de cena… Perante os jornalistas, começou por ler o começo do escrito. De facto, havia um sinal de abertura, que ele deveria transmitir. O recém-nomeado Egon Kranz deu-lhe o papel, e havia que apresentar um sinal na linha da “glasnost”, da transparência. Mas o porta-voz Schabowski apenas leu o início e esqueceu-se dos pormenores essenciais da segunda página. Aí assegurava-se que a burocracia controlaria as saídas, a conta-gotas… E foram os pormenores que ditaram o desastre, o colapso. Abençoados desastre e colapso. Num instante o membro do politburo julgou que a burocracia e a polícia, firmes nos seus postos, assegurariam que a ordem não seria alterada. Puro engano. A burocracia sabia menos do que ele. E naquele momento o que ele dissesse seria a lei. O diálogo é ilustrativo e patético. Os jornalistas pressionam-no. Burocraticamente diz: “hoje tomou-se uma decisão para que as pessoas possam sair da República”. Os jornalistas estão incrédulos e perguntam: “Com passaporte?”. E insistem: “E desde já?” Schabowski fica por um minuto algo confuso. Que deve responder? Neste ponto entramos numa aventura absurda de Max e Moritz, mas estes não tem de fazer nada, não precisam de qualquer diabrura… E os jornalistas continuam a perguntar: “A partir de agora?”. E mais: “é preciso apresentar as razões para viajar?” Schabowski está a suar, nervoso, folheia os papéis, nada vê, mas tudo está lá – o pedido formal, as 10 da manhã… Max e Moritz nem têm de roubar essa página… É tudo muito rápido. A certa altura, para se ver livre do pesadelo, responde: “Pode ser imediatamente! (Ab sofort)… E já não pode voltar atrás. Felizmente para a humanidade acabara de condenar o muro a um inexorável colapso. Dentro de pouco tempo as pessoas precipitam-se para as aberturas do muro. Os soldados deixam-nos passar. Muitos começam a destruir o muro de cimento, entre gritos de alegria. O burgomestre de Berlim aproveita a onda e participa nesse momento histórico único. E eis como um aparente equívoco, uma distração, deu lugar a um movimento histórico!

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOSÉ BENTO (1932-2019)

 

O Centro Nacional de Cultura homenageia o grande tradutor e poeta e envia sentidas condolências à família.

 

José Bento foi um grande tradutor de poesia e um grande poeta. Não é possível traduzir poesia com a qualidade com que o fazia sem se ter o dom da medida certa na palavra e no ritmo. Ao lado de Pedro Tamen, António Osório e Ruy Belo, seus companheiros de geração, é uma referência da poesia portuguesa contemporânea. Deixou-nos há poucos dias e devemos lembrá-lo. Colaborou em revistas como “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do Meio-Dia”. Trabalhou na redação de “O Tempo e o Modo”, e por isso foi muito cá de casa…, do mesmo modo que colaborou ativamente na revista da Gulbenkian “Colóquio-Letras”. É impressionante a lista das obras que traduziu: começou por “Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez – e apaixonou-se pelas línguas ibéricas. Organizou antologias de Pablo Neruda e Vicente Aleixandre para a Inova e cultivou uma genuína ligação entre os idiomas e as culturas peninsular. A memória do hispanista leva-nos a compreender melhor a complementaridade ibérica. Ouvimos Jorge Marique, através de José Bento e sentimos o impulso intenso de Frei Luís de Léon; Garcilaso de la Vega, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Francisco de Quevedo, Rafael Alberti. Leia-se a monumental “Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea” (1985) – que marca o contributo decisivo do nosso grande autor. Está lá tudo de essencial. Além da poesia, José Bento é um grande tradutor da prosa – como no caso de “D. Quixote de la Mancha”, mas também de Javier Marías, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Maria Zambrano e Jorge Luís Borges, com um grande reconhecimento pela extraordinária qualidade e clareza dos textos. José Bento venceu os prémios D. Dinis e Pen (1960) com “Silabário” e prosseguiu a ação sistemática, com a antologia do “Siglo d’oro”, “Lírica espanhola de tipo tradicional”. José Bento foi um grande homem de cultura, capaz de mobilizar energias e favorecer a comunicação entre culturas e entre pessoas, como fator de paz. Os livros ”Um Sossegado Silêncio” (2002, Asa) e “Alguns Motetos” (Assírio e Alvim, 2003) marcam a qualidade do autor e o seu entendimento de que tudo depende da capacidade de compreender e transmitir sentimentos…

 

Agostinho de Morais 

CADA ROCA COM SEU FUSO...

HELENA CORRÊA DE BARROS (1910-2000)


Helena Corrêa de Barros (1910-2000) foi uma fotógrafa amadora e uma viajante incansável, sempre acompanhada pela extraordinária máquina fotográfica. As suas imagens revelam um olhar inovador através de diapositivos a cores e fotografias a preto e branco, algumas das quais apresentadas em exposições e concursos de fotografia, na década de 1950. Como afirma a artista: ​«Desde pequena que a fotografia foi para mim o passatempo mais agradável. Nunca fiz nenhuma viagem sem levar a máquina comigo e, muitas vezes, o prazer maior era o de poder tirar fotografias: se, por qualquer motivo, me não era possível fazê-lo, o passeio não tinha para mim o mesmo encanto. (...)». A Exposição da obra da inesperada artista encontra-se no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, na Rua da Palma 246, em Lisboa, e constitui uma oportunidade única, não apenas para usufruirmos de fotografias de rara beleza, mas também para termos contacto com o Portugal dos anos cinquenta e sessenta nas mais diversas facetas. A fragata do Tejo com que iniciamos esta viagem constitui um exemplo de talento e sensibilidade, relativamente a quem nos lega esta preciosidade. Um conjunto extraordinário de imagens faz parte do que se designou, com felicidade, de “minha viagem preferida”. Longe da doentia tentação, hoje comum, de fixar imagem ao acaso, ou de confundir a vida ou a realidade com a sua imagem, Helena Corrêa de Barros usa a fotografia para se exprimir artística e pessoalmente. É a sua arte, que aqui se encontra, e se dúvidas houvesse, esta fragata é a demonstração de como a máquina só faz aquilo que o artista pretende, ou não fosse a fotógrafa uma conhecedora profunda dos melhores artistas, nos diversos domínios. O preto e branco e a cor são usados com fantástico critério. Os temas permitem conhecermos o Portugal de há mais de cinquenta anos, desde os amigos da artista e do seu meio, até ao país profundo. Pedro Mexia falou da fotografia como Autobiografia, Documento e Passatempo. É disso que se trata. Há um ambiente “habitualmente feliz”, uma placidez que leva à nostalgia. Mas há mais do que isso, e por baixo desse brilho, há a realidade. Não se trata de idealizar, mas de compreender e de trazer até nós outro tempo. Que é representar a vida, senão vê-la tal como ela é, vivida diversamente por todos? Se muitas vezes conhecemos a faceta oficial das imagens, aqui a fotografia a preto e branco e a pelicula “Kodachrome” dão-nos a vida nos tons diferentes que ela tem… Leia-se “O Delfim” do José Cardoso Pires e faça-se passar esta série de fotografias… Percebemos que há um pano de fundo e uma representação em que a naturalidade desempenha o seu papel… Helena Corrêa de Barros é uma bela surpresa, a não perder a sua obra…


Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A LEMBRANÇA DO “DIABRETE”…
30 de julho de 2019

 

Há oito dias, lembrei uma capa de “O Mosquito”, hoje trago-vos uma velha capa do “Diabrete”, título marcado pela direção de Adolfo Simões Müller (1909-1989), revista nascida em janeiro de 1941. Como sabemos, foi “O Papagaio”, no tempo de Simões Müller, que publicou pela primeira vez em Portugal as aventuras de Tintin. Saído da Renascença, o professor e jornalista tentaria levar consigo as aventuras do repórter belga, o que apenas conseguiu depois de muita persistência para convencer Hergé. Não se esqueça que foi por intermédio do Padre Abel Varzim (1902-1964) que foi conseguida pelo Monsenhor Lopes da Cruz (1899-1969) a tradução pioneira para português das aventuras de Tintin, na altura designado como Tim-tim. Portugal não só foi o primeiro país não francófono a publicar a tradução dessa obra, que se tornaria essencial na história da Banda Desenhada e das modernas Artes Plásticas (colocando Hergé a par de Andy Wharol e Roy Lichtenstein), mas também porque foi onde pela primeira vez se introduziu cor nessa narrativa ilustrada. O “Diabrete” durou até à última semana de 1951 e deu lugar ao “Cavaleiro Andante”. E podemos dizer que Fernando Bento (1910-1996), também gráfico do “Cavaleiro Andante”, foi essencial no caminho seguido pelo “Diabrete”, que se traduziu num claro aperfeiçoamento das histórias de quadradinhos em Portugal, que ganharam uma dimensão que pode comparar-se à melhor evolução extra muros. Com o tempo, a imprensa juvenil foi ganhando maior importância na ilustração e na ligação entre a narrativa e o desenho. Lembremo-nos de que “O Papagaio”, revista fundada em 1935, começou por ter pouca ilustração, apesar da qualidade se ter afirmado desde muito cedo, designadamente com um dos grandes artistas portugueses do século, Júlio Resende (criador de Matulão e Matulinho)… É muito significativo que em Portugal se tenha desenvolvido o género, em ligação estreita com o modernismo e os caricaturistas, desde Almada Negreiros, Stuart, Cottinelli Telmo, Carlos Botelho ou Emmérico Nunes… É essa a genealogia que deve ser lembrada e que chega ao nosso melhor século XIX com Rafael Bordalo Pinheiro. Desde Zé Povinho e Maria Paciência, a Quim e Manecas, indo aos apontamentos de Fernando Bento com Filipim – podemos dizer que há em Portugal uma evidente repercussão da melhor criatividade europeia… 

 

O apontamento que hoje damos é do “Cavaleiro Andante” (1957), mas vem na linha do muito que já encontramos de F. Bento no “Diabrete”…

 

Não resisto ainda à tentação de uma nota final. Tenho estado em permanente contacto com a BBC. Guardo de Conrado o prudente silêncio. Aguardo serenamente sobre qual o caminho escolhido por Boris Johnson – se a pura ilusão se o realismo. E como ele conhece bem a biografia de Winston Churchill, seria bom que relesse com cuidado o discurso de Zurique de 19 de setembro de 1946, de fio a pavio. E sugiro que leia mesmo tudo, não a parte sobre a Europa, mas sobre a Inglaterra, a paz e o desenvolvimento. O Império britânico não é uma abstração histórica. Ter influência real, obriga a ter os pés no chão… Se recuso a mera ironia sobre cabeleiras, obrigo-me a levar a sério a minha anglofilia. O erro maior já foi cometido: fazer um referendo absurdo que só dividiu os britânicos. Por isso, não há referendos constitucionais na Suíça e as decisões fundamentais têm de contar com a maioria das duas câmaras, alta e baixa, a maioria dos cantões e a maioria da população. O que começa mal tarde ou nunca se endireita. Estive ontem aqui em casa a tomar uma bela chávena de chá com skones de receita da minha mãe com os meus queridos amigos Gregor Mc Gregor e Éamon Patrick Longford – que estão deveras apreensivos, temem pelo futuro do Reino Unido, por uma cegueira que corresponde aos tempos mais negros e incertos… Mc Gregor lembra que não há gloriosa Britannia sem a coragem e a inteligência escocesas. E Longford disse ter erradamente julgado que o velho clima de guerra, que tantas vidas custou, tinha terminado, esqueceu-se o que aconteceu na trágica grande fome… Saíram daqui às tantas, com muito pessimismo, mas voltaremos ao tema.

 

Escolhi para terminar o belo poema da Fiama Hasse Pais Brandão, que ontem lembrámos:

 

“O Canto da Chávena de Chá”

Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A PREPARAR UM GRANDE AGOSTO
23 de julho de 2019

 

Depois de vos ter dado nota de uma pesquisa profunda que fiz na minha Biblioteca, onde me apareceram exemplares que há muito não via e de que tinha muitas saudades, vou abrir-me convosco para vos dizer que agosto nos espera, cheio de novidades, concursos, histórias inesperadas etc. etc. A semelhança do ano anterior serei eu que ficarei de plantão para assegurar que todos possam ter a companhia diária adequada. Trata-se de uma solicitação dos nossos leitores, que assim desejam manter-se em contacto com a nossa redação. Para não vos deixar sem uma ilustração que valha a pena, deixo-vos uma velha capa de “O Mosquito” (27 de dezembro de 1944, nº 575), ilustrada por Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), cujo centenário do nascimento passa este ano. E assim posso dizer-vos que todos os dias o Blog do CNC (Raiz e Utopia) e o facebook irão dar-vos três surpresas: um texto sobre um Livro Fundamental da História da Humanidade (serão cerca de 30 títulos), uma capa histórica de uma revista de Banda Desenhada e, como habitualmente, um poema em língua portuguesa. Além disso teremos, dentro de dias, a divulgação do Quiz 2019 com prémios aliciantes. Quem estiver atento à informação cultural do Centro Nacional de Cultura ou do e-Cultura terá mais facilidade em encontrar as respostas. Uma vez que houve pedidos para que vos mostrasse de novo o meu MG A, faço-o com muito gosto! Já o conhecem, mas aqui fica outro ponto de vista. 

O poema de hoje é de Vitorino Nemésio, de “O Verbo e a Morte”.
Aqui vemos o grande dilema do tempo, tratado de um modo irónico e livre!


A TEMPO…

A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno,
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (IV)…
16 de julho de 2019

 

Falámos talvez pouco de Hergé (1907-1983). Ele é o herói. A revista que hoje vos trago é de 1966. O fenómeno de sucesso ocorre essencialmente depois dos anos quarenta e cinquenta, graças aos continuados do journal Tintin e à nova apresentação das aventuras do jovem repórter em álbuns muito cuidados quer no tocante à qualidade do argumento, das ilustrações e do colorido. Hergé teve a intuição e a sabedoria, o talento e a arte, de compreender que era necessário criar um estúdio profissional servido de uma equipa de elevadíssima qualidade. Já referimos o papel desempenhado por E. P. Jacobs e por Jacques Martin, entre outros, o que permite verificar não haver comparação entre as versões originais do “Petit Vingtième” e os álbuns coloridos, que irão conhecendo aperfeiçoamentos. Mas para que tudo isso fosse possível é preciso voltar a citar Raymond Leblanc (1915-2008), o editor de visão larga que acreditou em Hergé e construiu uma máquina de grande eficácia que lançou o herói da BD… A chegada à Lua de Tintin é reconhecida hoje como dos exercícios mais rigorosos de ficção científica, uma pérola de antecipação… De Gaulle afirmou que só tinha um concorrente internacional, que se chamava Tintin. A literatura francesa e mundial incorporam a figura de Tintin. François Mauriac lamentou, porém, os gostos da geração Tintin, mas enganou-se redondamente, uma vez que não só líamos Tintin, mas também nos preparávamos para ler Thérèse Desqueyroux… O tema da imagem entrava na ordem do dia – no cinema, na fotografia, na banda desenhada – e não largava a importância da narrativa… E Edgar Morin disse em 1958: “Tintin sauvegarde la liberté illimitée du rêve de l’enfance, mais en orientant vers les rêves déjà socialisés du cinéma d’aventure pour adolescents et adultes (…) dans les rapports imaginaires de Tintin, le petit super-boy est roi »…  Mas havia mais : Blake e Mortimer eram a melhor introdução aos melhores policiais. Alix Graccus na companhia do jovem egípcio Enak levava-nos para os clássicos da República Romana. Albert Weinberg (1922-2011) fazia-nos entrar no mundo da aviação de vanguarda com Dan Cooper, antecâmara da ficção científica, Jean Graton levava-nos para o automobilismo, e a lista é muito longa: Modeste e Pompon (Franquin), Oumpah-Pah (Uderzo e Goscinny), Corentin (Cuvelier), Bob e Bobette (Vandersteen), Chick Bill (Tibet), Pom e Teddy (Craenhals), Jari (R. Reding), Ric Hochet (Tibet e Duchâteau), Guy Lefranc (com a marca indelével de J. Martin), Le Chevalier Blanc (L. e F. Funcken), Spaghetti (Dino Attanasio), Clifton (Macherot), Taka Takata (Jo-el Azara), Bernard Prince (Hermann), Bruno Brazil W. Vance), Cubitus (Dupa), Olivier Rameau (Dany), Luc Orient (Eddy Paape)… Mas nesta imensa lista, não podemos esquecer Greg o argumentista inesgotável, a aparecer em toda a parte, com uma prodigiosa imaginação.

 

Eis o ponto onde ficamos. Mas não esquecemos os nossos grandes como Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910.1996), Vítor Péon (1923-1991), José Garcês (1928) ou José Ruy (1930)…, mas esses contos serão outros aos quais regressaremos…

 

Para terminar hoje, cito um belo poema do meu Amigo Ruy Belo – «Portugal Futuro»…

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (III)…
9 de julho de 2019

 

Prossigo, à medida que a temperatura ambiente vai aumentando, a sistemática análise da minha coleção de revistas "Tintin" (e agora também “Cavaleiro Andante”) com grande prazer. Se vou agora ao “Cavaleiro Andante” é para confirmar a projeção da Escola de Bruxelas em Portugal. Depois de Edgar P. Jacobs (1904-1987) e de Blake e Mortimer, bem como de Jacques Martin, agradecendo as muitas mensagens recebidas de apoio e de recordação – até porque ambos estiveram sucessivamente nos estúdios da produção de Tintin com Hergé - falar-vos-ei hoje de Jean Graton (1923) e de Tibet e A. P. Duchâteau. Já referi aqui, em tempos, “O Piloto sem Rosto”, que se estreou na revista “Tintin” em janeiro de 1959. Tudo se passa por causa do mistério de um condutor incógnito que treina em Francorchamps numa viatura excecionalmente rápida que ameaça o domínio de Michel Vaillant (em português, na altura, Miguel Gusmão) no Grande Prémio do Mónaco. E a descoberta da identidade do misterioso piloto sem rosto é surpreendente… Trata-se de um dos álbuns da autoria de Jean Graton que é reconhecido como de maior qualidade e com uma narrativa muito intensa. Esta aventura foi publicada pelo “Cavaleiro Andante” a partir de 2 de janeiro de 1960 nos números 418 a 462, sendo a capa que hoje reproduzimos do dia 16 de janeiro. Desde cedo a presença entre nós deste autor foi sinal de grande interesse e de rápido sucesso alcançado. Em 1957, “Tintin” publicou histórias curtas de quatro páginas dos Vaillant – que em Portugal foram divulgadas no “Falcão”. Em 1959 foi dado à estampa o primeiro álbum “Le Grand Défi”, que o “Tintin” publicou em continuados em 1958 e o “Cavaleiro Andante” publicara dos números 357 ao 406 em 1958-1959. Graton vai criar um conjunto interessante de personagens – o clã Vaillant, Steve Warson e Leader, o adversário maior da marca francesa etc. – e vai mesmo incluir corredores verídicos como Jacky Ickx ou Alain Prost. Michel Vaillant participou no Rali de Portugal (“Cinq Filles dans la Course”, 1971) e voltou à capital portuguesa em “O Homem de Lisboa” (1984), tendo ainda estado em Macau (“Rendez-vous à Macao”, 1983). Alfredo César Torres será uma personagem da narrativa, e Pedro Lamy surgirá em “A Febre de Bercy” de 1998. Em 2007 saiu o Álbum número setenta e Philippe Graton filho do criador vai transformar profundamente a produção editorial, que passa para a esfera da Dupuis. Pode dizer-se que na escola da “linha clara”, Jean Graton é um caso especial, uma vez que escolhe uma temática específica de grande impacto, contribuindo para a divulgação do desporto automóvel e da produção europeia. No campo desportivo, há outro caso: o de Raymond Reding (1920-1999) autor das aventuras de Jimmy Torrent e seu discípulo Jari, no campo do ténis, e Vincent Larcher bem como Éric Castel no domínio do futebol. No âmbito da literatura policial, refiram-se o escritor André-Paul Duchâteau (1925) e o desenhador Tibet (1931-2010), de nome Gilbert Gascard. Ambos são referências fundamentais na Banda Desenhada. Ric Hochet, como jornalista e detetive (ao lado do impagável Sigismond Bourdon), e Chick Bill, herói de humor no Far-West, são referências bem marcantes do traço inconfundível de Tibet. Ric Hochet estreia-se em Portugal, sob o nome de João Nuno, em 2 de julho de 1955, no “Cavaleiro Andante”. O “Zorro” chamar-lhe-á Mário João… De notar que no caso de Ric Hochet temos não só as aventuras, mas também os enigmas policiais, de que serão referência os textos publicados no jornal “Foguetão”, como apelo à perspicácia dos jovens leitores. Esta diversidade faz desta dupla de autores uma referência muito relevante e um exemplo de poder atrair o público para divertimentos de ficção policial, que tem sempre assinalável popularidade. E não termino aqui esta série de crónicas… Há ainda alguma coisa mais a acrescentar?


Mas na tradição antiga desta crónica, deixo-vos hoje com o muito célebre e sério
Romance de Tomasinho Cara-Feia de Daniel Filipe (1925-1964)


«Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?


Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destino.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.


Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.


— E nunca mais voltará!»      

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (II)…
2 de julho de 2019

 

Continuei a folhear a minha coleção de revistas "Tintin" com grande prazer. E centrei-me, como prometido, em Edgar P. Jacobs (1904-1987) e em Blake e Mortimer. Com uma inclinação musical evidente para a ópera, Jacobs vai ingressar no estúdio de Hergé nos anos quarenta para dar cor e reforçar o rigor cenográfico das aventuras de Tintin. Assim colaborará na reedição de Tintin no Congo, Tintin na América, Cetro de Otokar e Lotus Azul, bem como na feitura de Sete Bolas de Cristal e Templo do Sol. Vindo de realizar uma versão adaptada de Flash Gordon em virtude da proibição alemã de publicação dessas aventuras e de dar à estampa na revista “Bravo” “Rayon U”, Jacobs vai abalançar-se na criação de personagens originais. Escolhe um género que caminha para a ficção científica, mas também aproveita ingredientes policiais e ligados a uma guerra dos mundos. Apesar do trabalho intenso na profunda renovação da obra de Hergé, o início da publicação da revista Tintin em 1946 permite o surgimento de "O Segredo do Espadão" com Blake e Mortimer e de "O Mistério da Grande Pirâmide" (1950). O sucesso das novas pranchas, o caráter muito  próprio do autor, dá-lhe um papel fundamental. Mas quando Herge recusou a partilha de rendimentos a propósito dos livros de Tintin, Jacobs seguirá o seu caminho próprio - mantendo porém a amizade com Herge, que o faz aparecer como Jacobini em "O Caso Tournesol". Seguem-se a obra-prima “Marca Amarela” (1956), depois “O Enigma da Atlântida” (1957), “SOS Meteoros” (1959), “Armadilha Diabólica” (1962) e “O Caso do Colar” (1967). É uma sucessão extraordinária e Adolfo Simões Müller no “Foguetão” publica em cima da hora “Armadilha Diabólica”, que permitirá abrir caminho a um grande grupo de admiradores portugueses que se tornam fans incondicionais dos heróis britânicos… O trabalho agora anunciado por uma equipa dirigida por François Schuiten, “Le Dernier Pharaon” constitui uma renovação profunda da inspiração de E. P. Jacobs, numa espécie de simbiose entre a moderna Banda Desenhada belga e a tradição dos anos cinquenta… Devo ainda referir Jacques Martin (1921-2010), que também esteve com Hergé na fantástica equipa que foi aperfeiçoando a produção de Tintin, como caso único de rigor na escolha de temas, na certeza do traço, no equilíbrio entre o imediato e a duração, na extrema qualidade na feitura dos álbuns (p. ex. Tintin au Tibet e Coke en Stock). Se nos anos quarenta e cinquenta E. P. Jacobs é um artífice indispensável, Jacques Martin, durante cerca de vinte anos representa uma capacidade especial de consolidar essas marcas de inconfundível exigência – que são bem evidentes na produção própria de Martin, através de Alix (1948) e de Lefranc (1952). Com uma marcada personalidade narrativa e artística, pode dizer-se que ao lado dos grandes nomes da “linha clara” ou da Escola de Bruxelas, enquanto E. P. Jacobs está na tradição de H. G. Wells, Jacques Martin empenha-se no relato histórico na linha da escola do romance que vai de Walter Scott até Alexandre Dumas. Alix é um modelo de herói romântico que nos permite, a um tempo, compreender a herança greco-latina com enorme sentido pedagógico (p. ex. Alix Intrépide e La Sphinx d’Or). Mas, além desta dimensão altamente meritória de pendor educativo e de culto da investigação histórica, Jacques Martin afirma-se como um excelente argumentista na conceção de Lefranc, onde se juntam o requinte dos cenários e dos pormenores da vida quotidiana à urdidura de um bom enredo policial (p. ex. Le Mystère Borg). Mas sobre a ligação ente mistério e mundo moderno da técnica falaremos na próxima crónica, sobre A. P. Duchateau, Tibet e Jean Graton…

 

Em tempo de visitas nostálgicas, não resisto a citar o meu amigo Ruy Cinatti

 

Memória Amada
Para Alain Fournier

 

Vinham de longe em bandos. Acorriam
Jubilosos. Fantasias
De parques pluviosos
E, descendo,
Os patos bravos lançados
Entre juncos, salgueiros e veados.
Tarde,
Muito tarde, uns olhos tais
Haviam de aparecer, sobressaltados
Entre enigmas e um floco de cabelos
Osculado pelo vento. Alegorias...
Do agora ou nunca e do momento
Definido. Trégua impensada,
Insuspeita, no perfume alado
Da página dobrada e abandonada
Dum livro interrompido. Sinto a dor fina,
Finamente atravessada e suave,
- Quase saudade.

 

Ruy Cinatti, in 'O Livro do Nómada Meu Amigo'   

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS…
25 de junho de 2019

 

Dei-me numa tarde destas, em que o Verão foi fazendo caretas, a folhear revistas antigas da minha coleção do jornal “Tintin” belga. Para os mais novos, recordo que a minha geração do “Cavaleiro Andante” (que já não apanhou diretamente o “Tintin” português de Dinis Machado e Vasco Granja, e que tomou contacto como Corto Maltese já numa adolescência avançada) teve uma especial ligação ao “Tintin” belga e à Escola de Bruxelas. Lembro, por isso, longos debates no Pedro Nunes sobre o que líamos e sobre quais os nossos autores preferidos. Na idade em que estávamos havia dúvidas – se é verdade que Hergé era indiscutível, o certo é que a sua riquíssima equipa dava-nos pano para mangas para dizermos de nossa justiça sobre aquilo que mais ou menos nos enchia as medidas. Nestas incursões de agora comecei por voltar a admirar os impecáveis desenhos das indumentárias militares, dos estandartes e das histórias seiscentistas de Liliane (1927-2015) e Fred Funcken (1921-2013). Comecei por aí e deleitei-me. Voltei a ler tudo… Os dois colaboraram no “Spirou” e no “Tintin” e deram vida ao Capitan de Castaignac (a partir de 1963), um gascão tornado agente secreto ao serviço do Cardeal Richelieu (e nós gostávamos de 1640 e do Cardeal pouco amado por Dumas). E também é deles Doc Silver (1967) um médico americano de óculos com aros redondos num “western” deveras atípico, com argumento de Yves Duval (1934-2009). E se falo de Duval, devo lembrar os muitos argumentos que escreveu, além de alguns do Capitan, sobretudo os Franval com desenhos de Edouard Aidans (1930-2018) – destacando-se a célebre aventura “Destination Desertas”, passada nos Açores. Duval fez também os argumentos de Howard Flynn (1964), o jovem oficial da marinha real britânica, com desenho de William Vance (1935-2018). E sem perder o fio desta notabilíssima meada, Vance foi dos mais fecundos autores da nossa predileção – dele são Ringo, a continuação de Bob Morane (depois de Gérald Morton o ter deixado), o importante Bruno Brazil (com argumento de Greg, sob o pseudónimo de Louis-Albert), e o famosíssimo “XIII”, com argumento de Jean Van Hamme (1939) – chegado aos nossos dias. Ainda no elenco do casal Funken não posso esquecer “Le Chevalier Blanc” (“Sans Peur et Sans Reproche”, 1954) e “Les Belles Histoires de l’Oncle Paul” (1951). As histórias verdadeiras tinham uma predileção especial – e assim vencemos os nossos professores renitentes. Se repararmos bem nesta lista encontrámos uma boa parte da equipa que Hergé constituiu graças ao investimento e à coragem inovadora de Raymond Leblanc (1915-2008), editor de “Tintin” a partir de 1946 e responsável pelo desenvolvimento da “linha clara”. E se falei de Greg (1931-1999), Michel Louis Albert Regnier, devo dizer que ele foi um dos mais prolíficos e influentes criadores das escolas belgas. É impressionante a lista das suas personagens – que se devem antes de tudo à influência, cumplicidade e amizade de André Franquin (1924-1997). Franquin é um nome grande ligado a Spirou, Fantasio e Marsupilami, a Gaston Lagaffe ou a Modeste et Pompon (os nossos Lolocas e Pompom)… Greg colaborou em centenas de pranchas, designadamente de Modeste e de Spirou. Com Lolocas Greg foi assim uma presença muito antiga do “Cavaleiro Andante”. De 1958 ao início dos anos oitenta, Greg foi argumentista com os principais desenhadores da linha clara: Tibet (1931-2010), Maréchal (1922-2008), Mittéï (1932-2001), Paul Cuvelier (1923-1978), Hermann (1938), Eddy Paape (1920-2012), Dany (1943), Jo-El Azara (1937), Turk (1947), Bob de Groot (1941), Claude Auclair (1943-1990), Aidans, Derib (1944), Fahrer (1939)  ou Dupa (1945-2000). Está aqui a fina-flor! Jo-El Azara é o criador do impagável Taka Takata e fez renascer o Coronel Clifton, e quanto a Dupa, temos o extraordinário Cubitus, o cão felpudo que se tornou um ícone. Greg foi autor de mais de 250 álbuns: a lista é impressionante e fala por si. Zig, Puce e Alfredo criados em 1925 por Alain Saint-Ogan renasceram com Greg, mas o caso de Achille Talon merece nota especial. Este apareceu em 1963 no jornal “Pilote” e René Goscinny (o inventor de Astérix, de Iznogoud e do Petit Nicolas, e argumentista de Lucky Luke com Morris – 1923-2001) saudou assim a aparição da nova personagem: “Achille Talon n’en a cure; sûr de lui, il n’hésite jamais à se jeter à corps perdu dans les situations les plus difficiles, avec une remarquable inefficacité”. Que melhor definição poderia ser feita de um herói dos quadradinhos? Misto de realidade e de sonho, motivo de reflexão e de riso, motivo para não nos levarmos demasiado a sério… Não vou esgotar hoje este meu folhear de páginas antigas. Já está tudo espalhado no chão. Que fantástico mar de desenho e de tinta… A maior parte dos autores referidos já não está entre nós, mas a sua memória está bem viva. E se pertenço ao clan “Tintin” não esqueço (porque líamos tudo) as influências do jornal “Spirou” (1938) e da célebre Escola de Marcinelle, com Rob-Vel (1909-1991) e Jijé (1914-1980), além de Franquin… Aí encontramos Peyo (1928-1992) criador dos Estrumpfes (Smurfs) e Johan e Pirlouit; Roger Leloup (1933); Roba (1930-2006) autor de Boule et Bill… Lembre-se que Jijé foi o artífice de Blondin et Cirage, Jean Valhardi e Jerry Spring. Também “Pilote” (1958) não nos passou despercebido, com René Goscinny (1926-1977) e Uderzo (1927) e a genial aparição de Astérix – que conhecemos através do efémero “Foguetão” de Adolfo Simões Müller… Com “Pilote” encontrámos ainda Barbe-Rouge de Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979), Blueberry criado também por Jean-Michel Charlier com Jean Giraud “Moebius” (1938-2012), Valérian e Laureline de Pierre Christin (1938) e Jean-Claude Mezières (1938) e Tanguy e Laverdure de Charlier e Uderzo. Os nomes e o traço são inconfundíveis… Sopravam novos ventos e novos temas, designadamente a ficção científica. Aí pudemos começar a encontrar Corto Maltese de Hugo Pratt (1927-1995) que estava na transição temática entre a adolescência e a idade adulta, mas também Enki Bilal (1945) que conheceu Goscinny aos 14 anos e publica a primeira história, “Le Bol Maudit”, em 1972, passando depois a colaborar com Pierre Christin… As escolas belgas levavam-nos aos italianos – como tínhamos vindo das bandas norte-americanas ou dos “Sobrinhos do Capitão”… Por hoje, fico-me por aqui até à próxima crónica, onde falarei de Blake e Mortimer e de Edgar P. Jacobs (1904-1987), a propósito na nova e surpreendente criação de Schuiten, Van Dormael, Gunzig e Durieux, “Le Dernier Pharaon”. Mas não esquecerei Jacques Martin (1921-2010), que durante quase vinte anos acompanhou a feitura dos álbuns de Tintin, ao lado de Hergé, célebre pela criação de Alix (1948) e Lefranc (1952), nem  A.P. Duchateau  (1925), romancista policial, argumentista de Ric Hochet com desenho de Tibet, nem  Jean Graton (1923), exímio desenhador e argumentista do automobilismo e desportos motorizados, criador de Michel Vaillant… No caso de Graton três obras têm a ver connosco portugueses: “Rali em Portugal” (1971), “O Homem de Lisboa” (1984) e “Febre de Bercy” (1988) pela participação de Pedro Lamy. A título de curiosidade e a lembrar-me do Major Jaime Eduardo de Cook e Alvega (que num concurso de cultura geral alguém confundiu com um herói histórico), lembro que no tempo em que deveriam dar-se nomes portugueses aos heróis das HQ Ric Hochet era Mário João e Miguel Vaillant, Miguel Gusmão…  Conhecemos mil exemplos sempre caricatos…

 

E como escolho sempre um poema – hoje também não falta:

 

«Estudo para Banda Desenhada»
De António Barahona
“Em Banda desenhada, tão depressa
Treparam à colina onde corria
Um bando de crianças à gandaia
Em redor duma casa arruinada,
Tão depressa, em banda de surpresa,
Que ganharam tal medo na subida
Lentamente assombrados por medida
De Deus, que mede os sustos sem ter pressa.
Depressa mais depressa: segredava
A rapariga atlética ao poeta
no balão da legenda: as crianças
aos gritos, entretanto param a corrida:
emudecem ao ver o som e as danças
do casamento alquímico das sombras”
De “Raspar o fundo da Gaveta e Enfunar uma gávea (2011).

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

cada roca com seu fuso.jpg

 

PARADOXOS ATENIENSES…
11 de junho de 2019


A antiga Grécia discutia os paradoxos como modos de entender a lógica e a racionalidade como formas falíveis de entender a realidade. Conhecemos os paradoxos de Zenão, que nos conduzem ao entendimento de que se nos limitarmos a seguir um método puramente geométrico, podemos chegar a conclusões absurdas. Aquiles torna-se incapaz de vencer uma lenta tartaruga, do mesmo modo que uma seta nunca chega ao seu alvo. Tudo isto, porém, apenas no domínio de um mero pressuposto lógico ou matemático. Se eu considerar que na corrida em que se confrontam Aquiles e a tartaruga, contando esta com um pequeno avanço, a distância que falta percorrer a qualquer um dos dois calcula-se sucessivamente achando a metade do último percurso, vou ter de concluir que Aquiles não vencerá a antagonista porque é infinita a possibilidade de calcular a metade da metade da metade… Aquiles nunca passa a tartaruga, uma vez que quando chegar à posição desta, ela se encontra já mais à frente. E quando o herói chegar à segunda posição da tartaruga já ela não estará lá, e assim sucessivamente atá ao infinito. O mesmo se diga da possibilidade da seta atingir o alvo – sendo infinitas as operações para achar a chegada ao destino… Nunca conseguiremos fechar essa operação… Dir-se-á, contudo, que o paradoxo de Zenão é forçado e visa denunciar um raciocínio falso. Mas o amor dos paradoxos pelos atenienses atinge a maior sofisticação no caso da Nave de Teseu. Quando regressou da gloriosa missão a Creta para pôr fim ao Minotauro, poupando assim os jovens atenienses, Teseu, apesar de se ter esquecido de içar as velas brancas, o que determinou o gesto desesperado de Egeu, ao pensar que tudo correra mal, o certo é que iniciou a tradição para os atenienses de preservarem e glorificarem a Nave celebrizada. Contudo, a Nave foi-se degradando, com os seus trinta remos e dois majestosos mastros, obrigando a profundas reparações e substituições periódicas. E então começou a pôr-se a dúvida sobre se a Nave de Teseu continuava a existir apesar dos materiais originais já estarem substituídos. Onde estava a autêntica Nave de Teseu? Era a embarcação que estava restaurada no Porto de Atenas ou correspondia aos velhos despojos que restavam num velho armazém da cidade? A discussão eternizou-se pelos séculos. A Nave seria a mesma se as suas propriedades e a sua identidade se mantivessem. O próprio Leibniz interveio no aceso debate, dizendo: seria a mesma Nave se e apenas se X e Y tivessem as mesmas propriedades e as relações. Assim, tudo o que seria verdade para X (a Nau restaurada) sê-lo-ia para a Y (a antiga) se ambas tivessem as mesmas propriedades e relações; assim, tudo o que seria verdade para X seria também verdadeiro para Y e vice-versa… A resposta iria, assim, depender da análise concreta das propriedades da Nau, dos remos e dos mastros. O tempo passara, a memória de Teseu perdia-se na lembrança dos atenienses e a função dos elementos talvez se tivessem modificado, já que a Nau deixara de navegar. E o enigma manteve-se, porque o paradoxo continuava bem vivo…

 

E em matéria de paradoxos e jogos de palavras, não resisto a citar os “Dois Gatos” do genial Bocage, o meu querido parente, Elmano Sadino


“Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).

De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando
Lhe diz: ''Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.''
''Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup'rior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes
Gosto em pilhar algum rato?''
''Sim.'' - E o comes?'' - ''Oh! Se como!...''
''Logo não passas de um gato.

Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.''

Agostinho de Morais