Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CLAIRE BRETÉCHER OU A BD NO CONSULTÓRIO DO DR. FREUD…

 

Nascida em Nantes em 1940, Claire Bretécher é na BD francesa um caso muito especial. Com vinte três anos encontra René Goscinny no auge da sua pujança criadora e o grande mestre, pai de Astérix ou do Petit Nicolas, viu em Claire a sua capacidade criadora, e o talento feminino, e criou a história hilariante a absurda “Le Facteur Rhésus”, que não corre bem. Mas em 1969 aparece no “Pilote” a personagem Cellulite. Está mais conforme com o estilo que Claire deseja para si. A partir daí o sucesso não parará. O traço que sempre apresentou era inconfundível. E era uma observadora mordaz dos hábitos e costumes da sociedade francesa. Roland Barthes classificá-la-ia como a “maior socióloga do ano” em 1976, Pierre Bourdieu referiu a força etnográfica de Agrippine, Umberto Eco não poupou elogios à originalidade desta artista singularíssima. Participa esporadicamente no “Spirou” e é fundadora de “L’Echo des Savanes” (1972) uma experiência inovadora na BD. Depois do feminismo avant-la-lettre vem a dimensão pioneira da ecologia. Mas nunca perde o sentido crítico e o distanciamento dos entusiasmos pueris. Trabalha no mensário “Le Sauvage” e cria para o “Nouvel Obs,” de Jean Daniel “Les Frustrés” (1973). Então torna-se uma celebridade europeia e mundial. Retrata cruelmente intelectuais, parisienses, militantes de esquerda, soixante-huitards retóricos, snobs seguros das suas convicções, mas cheios de nevroses patéticas… “Ela é o nosso contrapoder” dirá Jean Daniel. E tinha razão. A rir, punha tantas vezes a nu a fragilidade de algumas propostas salvíficas de outras páginas da revista. No princípio dos anos 80 tratará das angústias da maternidade e depois passará para o tema da adolescência com a inconfundível Agrippine (1988). Tudo isto acompanhado com grande sucesso nas tiragens, nas edições e no reconhecimento em Angoulême (1982), capital da BD francesa. Apesar de se tornar referência dos movimentos sociais do momento, Claire preservou sempre a sua independência crítica, sem compromissos militantes, para poder ver o lado ridículo de tudo, sem esquecer uma responsabilidade ética e cívica. Em 2015, finalmente, teve direito a uma exposição digna desse nome no Centro Pompidou, mas ainda faltam muitos trabalhos, muitas análises de uma obra significativa e surpreendente de uma grande desenhadora. Nos últimos anos preparava uma mostra de conjunto, que a doença e o desgosto da morte de Guy Carcassone, seu marido, impediram. Certamente que o público exigi-la-á em breve. Não me canso de voltar a folhear quarenta e cinco anos de uma fantástica produção… Claire Bretécher ainda deixou muito para pensar…

 

      

Agostinho de Morais

 

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JÚLIO

 

É sempre difícil recordar um amigo que nos deixa. Os obituários muito disseram sobre Júlio Castro Caldas. Mas fica sempre muito por dizer, apesar das listagens exaustivas de cargos e encargos que os homenageados tiveram. No entanto, importa menos recordar o prestigiado Bastonário da Ordem dos Advogados que foi, exemplar na defesa do prestígio da profissão e na salvaguarda intransigente dos direitos fundamentais dos cidadãos ou o Ministro da Defesa Nacional que demonstrou o que sempre caracterizou a sua vida – zelo, defesa do interesse público, determinação, saber e inteligência. É sempre mais importante lembrar a pessoa e o cidadão.
Encontrámo-nos poucos dias antes de nos deixar, na Avenida Infante Santo: sempre igual a si mesmo. Era aberto, generoso, cordato, mas nunca escondia o facto de arrastar consigo os males do mundo. Foi assim sempre, esperançoso, mas invariavelmente à espera de uma conspiração ao virar da esquina. O Júlio era um homem de valores éticos. Punha essa atitude em tudo o que fazia: fosse no escritório de Advogado, onde era de uma competência a toda a prova, ou na função política, em que era exaustivo no elencar dos riscos e dos perigos… Conheci-o melhor logo em 1974, quando foi chefe de gabinete de Francisco Sá Carneiro, nos primeiros passos da revolução de Abril, ao lado de um outro saudoso amigo, o António Patrício Gouveia. Mas antes disso tinha uma longa militância cívica entre os católicos inconformistas do Centro Nacional de Cultura, de “O Tempo e o Modo”, da Livraria Morais e do grupo do António Alçada Baptista. E o certo é que conhecemos-lhe sempre a mesma coerência, que o levou a ser um dos subscritores do célebre documento dos 101 de 25 de outubro de 1965 no qual um grupo de católico denunciava o desrespeito dos direitos fundamentais e a ação discricionária da polícia política e da censura. É um texto a que deveremos regressar. Júlio Castro Caldas merece a lembrança de uma vida de defesa intransigente do bem comum, dos direitos humanos em nome da dignidade da pessoa humana.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

Iniciamos um ano bissexto, o que dá sempre que pensar. Afinal no velho calendário romano era antes de se chegar aos idos de Março que se fazia o acerto cósmico, considerando que a certeza dos astrónomos obrigava a que, de quatro em quatro anos, houvesse um acerto de vinte e quatro horas, por conta das seis horas de desvio anual. Por muito que se desejasse que tudo fosse perfeito, como os astrólogos desejam, a verdade é que a grande balança do universo tem o seu quê de incerto. E o que é o Borda d’Água? Um ser rotundo, antigo, de cartola, óculos redondos graduados, um guarda-chuva, e uma interrogação permanente nos lábios sobre os astros e as nuvens, o sol e a lua, mas também sobre as culturas, os jardins, as árvores, as aves e o seu voo… Um dia foi visto, tal qual Lineu, de cócoras, com uma grande lupa a investigar o percurso das formigas, e a tentar ver onde estava a formiga mestra, ardilosamente escondida e protegida pelas aias solícitas… Outra vez foi encontrado, com uma tremenda máscara que o fazia tremendo à procura da abelha mestra numa colmeia, sem que nenhum dos inteligentes insetos o atacasse… Sim, o Borda d’Água é isso tudo: alguém que anuncia, prenuncia, justifica, demonstra, interpreta, domina e concede segurança a quem dela duvida. Encontrei-o há dias, falámos fugazmente. Explicou-me que a invernia ainda seria dura, que a primavera seria incerta, que o verão conheceria chuvas tropicais e que o outono não seria mau. Aventurou-se por ritos pagãos e cristãos, e no fim de tudo partiu apressado, pois ainda tinha um encontro marcado com um adivinhador que lia o futuro nas entranhas das galinhas… Mas para que lhe servirá isso? – questionei-o. E, com desfaçatez, ele disse-me: -  Para absolutamente nada. O que acontece é que há ainda quem se deixe iludir por esses sinais… - E que diz aos seus leitores e clientes? – Sempre a maior das verdades: Olhe com atenção, nunca se distraia com minudências.

 

Mas, hoje, com o controlo das barragens e a força dos burocratas, o Borda d’Água perdeu uma parte dos seus poderes. Além da preia-mar e da baixa-mar naturais, há o efeito da abertura e fecho das comportas, e esses gestos não dependem do destino, mas dos inexoráveis cálculos e gestos de mangas de alpaca. O Borda d’Água deixou, assim, de ser um “deus ex machina”. O caos e o cosmos, o cronos e o kairós, o tempo do relógio e o momento oportuno, obrigam a mais trabalho. A ecologia tornou-se complexa, o aquecimento global é cada vez mais misterioso, o buraco do ozono alarga-se assustadoramente, as emissões de dióxido de carbono evoluem perigosamente – e o velho Borda d’Água não tem outro remédio senão palmilhar léguas e léguas à procura dos segredos da incerta natureza…  

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

MEMÓRIA DE FERNANDO BENTO

 

A edição que hoje vos apresento é preciosa. Trata-se do número do Natal de 1954 do “Cavaleiro Andante”. Representa um vitral da autoria de Fernando Bento (1910-1996), o grande ilustrador da revista dirigida por Adolfo Simões Müller. Nota-se o traço inconfundível do autor. O número especial vendia-se em duas versões: normal e encadernado, sendo que um custava 10 escudos e o outro 16. Em primeiro plano, fora da representação, está o Cavaleiro Andante (símbolo da revista) ajoelhado. No quadro central está a Sagrada Família, no painel da esquerda estão os três magos e do lado direito, figuras exóticas de pastores com feições tipicamente orientais. E assim lembramo-nos das ilustrações de Bento sobre narrativas em terras distantes. Trata-se de um presépio que procura representar o momento histórico da Natividade de Jesus, e não, como normalmente, a encenação recriada por S. Francisco de Assis, que corresponde normalmente ao que nos é familiar. Se nos lembrarmos dos presépios tradicionais portugueses, como os de Machado de Castro e da sua oficina, vemos os pastores vestidos com roupas tradicionais, bem portuguesas. Não é este o caso. O desenhador quis dar um toque de originalidade e de exotismo ao seu desenho. De facto, a originalidade do traço de Fernando Bento associa-se muitas vezes a figuras com traços marcados. A cada passo, notamos no desenho inconfundível do autor uma preocupação de movimento, bem evidenciada em obras-primas, como “Beau Geste” (1952) e “Emílio e os Detetives” (1957-58). Como afirma João Paulo Paiva Boléo: “Fernando Bento é um dos maiores autores, um dos maiores desenhadores da BD portuguesa. Fernando Bento marcou o imaginário de milhares de leitores, fê-los sonhar, fê-los descobrir mundos ‘da Terra à Lua’, histórias de emoção e de coragem… Em síntese, abriu-lhes (abriu-nos), em simultâneo, o mundo da aventura e o mundo da literatura. Deu-nos a magia de uma arte de corpo inteiro, que vive da sugestão da ação e – como repetidamente se tem sublinhado – do preenchimento do espaço branco entre imagens, da elipse, de uma forma original de contar histórias através da utilização singular, sugestiva e sintética do desenho e do texto, e abriu-nos o caminho para outra arte, mais sugestiva ainda, mas convocadora ainda da imaginação, a literatura, assente na maior e mais distintiva criação da inteligência humana – a palavra”. Esta apreciação constitui uma análise rigorosa das características de Fernando Bento. Com efeito, a aventura e a literatura encontram-se intimamente relacionadas. E o exemplo que hoje aqui trazemos, permite-nos compreender que cada figura representada pode muito bem estar associada a uma aventura literária: a viagem dos três reis magos, a presença dos jovens pais Maria e José, com o filho recém-nascido e a presença misteriosa dos pastores, que se assemelham a berberes do deserto… No fundo, é a magia da Banda Desenhada que aqui está toda – a ilustração, o movimento, a aventura, a literatura, o enredo, a palavra… E lembro um poema de Miguel Torga para ilustrar este vitral, que nos lembra um tempo antigo, um autor profícuo e um artista, o desenhador Fernando Bento, merece muito ser lembrado   

 

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...
E Deus não representou.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

O MOMENTO BIZARRO DE UMA HISTÓRIA IMPREVISTA…

 

Há mistérios insondáveis que jamais saberemos como e porquê ocorreram. Celebrámos há dias a queda do muro de Berlim. Hoje parece-nos quase natural aquilo que se passou há 30 anos, no dia 9 de novembro. No entanto, ninguém poderia prever o que se passou. E talvez fosse digno das aventuras de Max e Moritz, dois travessos petizes que faziam as delícias dos jovens alemães há mais de cem anos… Talvez tenha sido um erro, pode ter sido um acaso, uma inadvertência, ou, quem sabe?, um mero ato de loucura… O certo é que o acontecido foi providencial. Resolveu-se então um inextricável dilema de impossível solução. Na cena internacional a pressão era muito grande na Hungria e na Checoslováquia. Muitos cidadãos desejavam movimentar-se, passar as fronteiras e chegar aonde havia liberdade e prosperidade. Gunther Shabowski era membro do politburo da República Democrática Alemã e foi destacado para anunciar aos jornalistas de Berlim-Leste uma nova política de entradas e saídas. Não estava em causa, o derrube do muro, mas apenas uma flexibilização das viagens. E havia um texto (há sempre um texto) que Schabowski devia ter lido, mas parece que não o fez – pelo menos com a devida atenção. Aí se previa um complexo sistema de autorizações que evitasse em todo o caso um colapso. A RDA deveria continuar a ser um bastião de fidelidade ao modelo do leste. No dia seguinte, só no dia seguinte, quem quisesse sair deveria pedir uma autorização. Havia, é certo, ordem para maior flexibilidade, mas a lógica burocrática deveria manter-se firme no essencial. Tudo ocorreria apenas depois das 10 horas da manhã. E Schabowski deveria dizer isso mesmo aos jornalistas naquele fim de tarde. Não se sabe por que bulas, porém, ele estava mal informado. Faltara a um encontro de preparação, e displicentemente pegou no papel que deveria ler, olhou-o na diagonal e avançou para a boca de cena… Perante os jornalistas, começou por ler o começo do escrito. De facto, havia um sinal de abertura, que ele deveria transmitir. O recém-nomeado Egon Kranz deu-lhe o papel, e havia que apresentar um sinal na linha da “glasnost”, da transparência. Mas o porta-voz Schabowski apenas leu o início e esqueceu-se dos pormenores essenciais da segunda página. Aí assegurava-se que a burocracia controlaria as saídas, a conta-gotas… E foram os pormenores que ditaram o desastre, o colapso. Abençoados desastre e colapso. Num instante o membro do politburo julgou que a burocracia e a polícia, firmes nos seus postos, assegurariam que a ordem não seria alterada. Puro engano. A burocracia sabia menos do que ele. E naquele momento o que ele dissesse seria a lei. O diálogo é ilustrativo e patético. Os jornalistas pressionam-no. Burocraticamente diz: “hoje tomou-se uma decisão para que as pessoas possam sair da República”. Os jornalistas estão incrédulos e perguntam: “Com passaporte?”. E insistem: “E desde já?” Schabowski fica por um minuto algo confuso. Que deve responder? Neste ponto entramos numa aventura absurda de Max e Moritz, mas estes não tem de fazer nada, não precisam de qualquer diabrura… E os jornalistas continuam a perguntar: “A partir de agora?”. E mais: “é preciso apresentar as razões para viajar?” Schabowski está a suar, nervoso, folheia os papéis, nada vê, mas tudo está lá – o pedido formal, as 10 da manhã… Max e Moritz nem têm de roubar essa página… É tudo muito rápido. A certa altura, para se ver livre do pesadelo, responde: “Pode ser imediatamente! (Ab sofort)… E já não pode voltar atrás. Felizmente para a humanidade acabara de condenar o muro a um inexorável colapso. Dentro de pouco tempo as pessoas precipitam-se para as aberturas do muro. Os soldados deixam-nos passar. Muitos começam a destruir o muro de cimento, entre gritos de alegria. O burgomestre de Berlim aproveita a onda e participa nesse momento histórico único. E eis como um aparente equívoco, uma distração, deu lugar a um movimento histórico!

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOSÉ BENTO (1932-2019)

 

O Centro Nacional de Cultura homenageia o grande tradutor e poeta e envia sentidas condolências à família.

 

José Bento foi um grande tradutor de poesia e um grande poeta. Não é possível traduzir poesia com a qualidade com que o fazia sem se ter o dom da medida certa na palavra e no ritmo. Ao lado de Pedro Tamen, António Osório e Ruy Belo, seus companheiros de geração, é uma referência da poesia portuguesa contemporânea. Deixou-nos há poucos dias e devemos lembrá-lo. Colaborou em revistas como “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do Meio-Dia”. Trabalhou na redação de “O Tempo e o Modo”, e por isso foi muito cá de casa…, do mesmo modo que colaborou ativamente na revista da Gulbenkian “Colóquio-Letras”. É impressionante a lista das obras que traduziu: começou por “Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez – e apaixonou-se pelas línguas ibéricas. Organizou antologias de Pablo Neruda e Vicente Aleixandre para a Inova e cultivou uma genuína ligação entre os idiomas e as culturas peninsular. A memória do hispanista leva-nos a compreender melhor a complementaridade ibérica. Ouvimos Jorge Marique, através de José Bento e sentimos o impulso intenso de Frei Luís de Léon; Garcilaso de la Vega, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Francisco de Quevedo, Rafael Alberti. Leia-se a monumental “Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea” (1985) – que marca o contributo decisivo do nosso grande autor. Está lá tudo de essencial. Além da poesia, José Bento é um grande tradutor da prosa – como no caso de “D. Quixote de la Mancha”, mas também de Javier Marías, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Maria Zambrano e Jorge Luís Borges, com um grande reconhecimento pela extraordinária qualidade e clareza dos textos. José Bento venceu os prémios D. Dinis e Pen (1960) com “Silabário” e prosseguiu a ação sistemática, com a antologia do “Siglo d’oro”, “Lírica espanhola de tipo tradicional”. José Bento foi um grande homem de cultura, capaz de mobilizar energias e favorecer a comunicação entre culturas e entre pessoas, como fator de paz. Os livros ”Um Sossegado Silêncio” (2002, Asa) e “Alguns Motetos” (Assírio e Alvim, 2003) marcam a qualidade do autor e o seu entendimento de que tudo depende da capacidade de compreender e transmitir sentimentos…

 

Agostinho de Morais 

CADA ROCA COM SEU FUSO...

HELENA CORRÊA DE BARROS (1910-2000)


Helena Corrêa de Barros (1910-2000) foi uma fotógrafa amadora e uma viajante incansável, sempre acompanhada pela extraordinária máquina fotográfica. As suas imagens revelam um olhar inovador através de diapositivos a cores e fotografias a preto e branco, algumas das quais apresentadas em exposições e concursos de fotografia, na década de 1950. Como afirma a artista: ​«Desde pequena que a fotografia foi para mim o passatempo mais agradável. Nunca fiz nenhuma viagem sem levar a máquina comigo e, muitas vezes, o prazer maior era o de poder tirar fotografias: se, por qualquer motivo, me não era possível fazê-lo, o passeio não tinha para mim o mesmo encanto. (...)». A Exposição da obra da inesperada artista encontra-se no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, na Rua da Palma 246, em Lisboa, e constitui uma oportunidade única, não apenas para usufruirmos de fotografias de rara beleza, mas também para termos contacto com o Portugal dos anos cinquenta e sessenta nas mais diversas facetas. A fragata do Tejo com que iniciamos esta viagem constitui um exemplo de talento e sensibilidade, relativamente a quem nos lega esta preciosidade. Um conjunto extraordinário de imagens faz parte do que se designou, com felicidade, de “minha viagem preferida”. Longe da doentia tentação, hoje comum, de fixar imagem ao acaso, ou de confundir a vida ou a realidade com a sua imagem, Helena Corrêa de Barros usa a fotografia para se exprimir artística e pessoalmente. É a sua arte, que aqui se encontra, e se dúvidas houvesse, esta fragata é a demonstração de como a máquina só faz aquilo que o artista pretende, ou não fosse a fotógrafa uma conhecedora profunda dos melhores artistas, nos diversos domínios. O preto e branco e a cor são usados com fantástico critério. Os temas permitem conhecermos o Portugal de há mais de cinquenta anos, desde os amigos da artista e do seu meio, até ao país profundo. Pedro Mexia falou da fotografia como Autobiografia, Documento e Passatempo. É disso que se trata. Há um ambiente “habitualmente feliz”, uma placidez que leva à nostalgia. Mas há mais do que isso, e por baixo desse brilho, há a realidade. Não se trata de idealizar, mas de compreender e de trazer até nós outro tempo. Que é representar a vida, senão vê-la tal como ela é, vivida diversamente por todos? Se muitas vezes conhecemos a faceta oficial das imagens, aqui a fotografia a preto e branco e a pelicula “Kodachrome” dão-nos a vida nos tons diferentes que ela tem… Leia-se “O Delfim” do José Cardoso Pires e faça-se passar esta série de fotografias… Percebemos que há um pano de fundo e uma representação em que a naturalidade desempenha o seu papel… Helena Corrêa de Barros é uma bela surpresa, a não perder a sua obra…


Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A LEMBRANÇA DO “DIABRETE”…
30 de julho de 2019

 

Há oito dias, lembrei uma capa de “O Mosquito”, hoje trago-vos uma velha capa do “Diabrete”, título marcado pela direção de Adolfo Simões Müller (1909-1989), revista nascida em janeiro de 1941. Como sabemos, foi “O Papagaio”, no tempo de Simões Müller, que publicou pela primeira vez em Portugal as aventuras de Tintin. Saído da Renascença, o professor e jornalista tentaria levar consigo as aventuras do repórter belga, o que apenas conseguiu depois de muita persistência para convencer Hergé. Não se esqueça que foi por intermédio do Padre Abel Varzim (1902-1964) que foi conseguida pelo Monsenhor Lopes da Cruz (1899-1969) a tradução pioneira para português das aventuras de Tintin, na altura designado como Tim-tim. Portugal não só foi o primeiro país não francófono a publicar a tradução dessa obra, que se tornaria essencial na história da Banda Desenhada e das modernas Artes Plásticas (colocando Hergé a par de Andy Wharol e Roy Lichtenstein), mas também porque foi onde pela primeira vez se introduziu cor nessa narrativa ilustrada. O “Diabrete” durou até à última semana de 1951 e deu lugar ao “Cavaleiro Andante”. E podemos dizer que Fernando Bento (1910-1996), também gráfico do “Cavaleiro Andante”, foi essencial no caminho seguido pelo “Diabrete”, que se traduziu num claro aperfeiçoamento das histórias de quadradinhos em Portugal, que ganharam uma dimensão que pode comparar-se à melhor evolução extra muros. Com o tempo, a imprensa juvenil foi ganhando maior importância na ilustração e na ligação entre a narrativa e o desenho. Lembremo-nos de que “O Papagaio”, revista fundada em 1935, começou por ter pouca ilustração, apesar da qualidade se ter afirmado desde muito cedo, designadamente com um dos grandes artistas portugueses do século, Júlio Resende (criador de Matulão e Matulinho)… É muito significativo que em Portugal se tenha desenvolvido o género, em ligação estreita com o modernismo e os caricaturistas, desde Almada Negreiros, Stuart, Cottinelli Telmo, Carlos Botelho ou Emmérico Nunes… É essa a genealogia que deve ser lembrada e que chega ao nosso melhor século XIX com Rafael Bordalo Pinheiro. Desde Zé Povinho e Maria Paciência, a Quim e Manecas, indo aos apontamentos de Fernando Bento com Filipim – podemos dizer que há em Portugal uma evidente repercussão da melhor criatividade europeia… 

 

O apontamento que hoje damos é do “Cavaleiro Andante” (1957), mas vem na linha do muito que já encontramos de F. Bento no “Diabrete”…

 

Não resisto ainda à tentação de uma nota final. Tenho estado em permanente contacto com a BBC. Guardo de Conrado o prudente silêncio. Aguardo serenamente sobre qual o caminho escolhido por Boris Johnson – se a pura ilusão se o realismo. E como ele conhece bem a biografia de Winston Churchill, seria bom que relesse com cuidado o discurso de Zurique de 19 de setembro de 1946, de fio a pavio. E sugiro que leia mesmo tudo, não a parte sobre a Europa, mas sobre a Inglaterra, a paz e o desenvolvimento. O Império britânico não é uma abstração histórica. Ter influência real, obriga a ter os pés no chão… Se recuso a mera ironia sobre cabeleiras, obrigo-me a levar a sério a minha anglofilia. O erro maior já foi cometido: fazer um referendo absurdo que só dividiu os britânicos. Por isso, não há referendos constitucionais na Suíça e as decisões fundamentais têm de contar com a maioria das duas câmaras, alta e baixa, a maioria dos cantões e a maioria da população. O que começa mal tarde ou nunca se endireita. Estive ontem aqui em casa a tomar uma bela chávena de chá com skones de receita da minha mãe com os meus queridos amigos Gregor Mc Gregor e Éamon Patrick Longford – que estão deveras apreensivos, temem pelo futuro do Reino Unido, por uma cegueira que corresponde aos tempos mais negros e incertos… Mc Gregor lembra que não há gloriosa Britannia sem a coragem e a inteligência escocesas. E Longford disse ter erradamente julgado que o velho clima de guerra, que tantas vidas custou, tinha terminado, esqueceu-se o que aconteceu na trágica grande fome… Saíram daqui às tantas, com muito pessimismo, mas voltaremos ao tema.

 

Escolhi para terminar o belo poema da Fiama Hasse Pais Brandão, que ontem lembrámos:

 

“O Canto da Chávena de Chá”

Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A PREPARAR UM GRANDE AGOSTO
23 de julho de 2019

 

Depois de vos ter dado nota de uma pesquisa profunda que fiz na minha Biblioteca, onde me apareceram exemplares que há muito não via e de que tinha muitas saudades, vou abrir-me convosco para vos dizer que agosto nos espera, cheio de novidades, concursos, histórias inesperadas etc. etc. A semelhança do ano anterior serei eu que ficarei de plantão para assegurar que todos possam ter a companhia diária adequada. Trata-se de uma solicitação dos nossos leitores, que assim desejam manter-se em contacto com a nossa redação. Para não vos deixar sem uma ilustração que valha a pena, deixo-vos uma velha capa de “O Mosquito” (27 de dezembro de 1944, nº 575), ilustrada por Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), cujo centenário do nascimento passa este ano. E assim posso dizer-vos que todos os dias o Blog do CNC (Raiz e Utopia) e o facebook irão dar-vos três surpresas: um texto sobre um Livro Fundamental da História da Humanidade (serão cerca de 30 títulos), uma capa histórica de uma revista de Banda Desenhada e, como habitualmente, um poema em língua portuguesa. Além disso teremos, dentro de dias, a divulgação do Quiz 2019 com prémios aliciantes. Quem estiver atento à informação cultural do Centro Nacional de Cultura ou do e-Cultura terá mais facilidade em encontrar as respostas. Uma vez que houve pedidos para que vos mostrasse de novo o meu MG A, faço-o com muito gosto! Já o conhecem, mas aqui fica outro ponto de vista. 

O poema de hoje é de Vitorino Nemésio, de “O Verbo e a Morte”.
Aqui vemos o grande dilema do tempo, tratado de um modo irónico e livre!


A TEMPO…

A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno,
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei.

 

Agostinho de Morais

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (IV)…
16 de julho de 2019

 

Falámos talvez pouco de Hergé (1907-1983). Ele é o herói. A revista que hoje vos trago é de 1966. O fenómeno de sucesso ocorre essencialmente depois dos anos quarenta e cinquenta, graças aos continuados do journal Tintin e à nova apresentação das aventuras do jovem repórter em álbuns muito cuidados quer no tocante à qualidade do argumento, das ilustrações e do colorido. Hergé teve a intuição e a sabedoria, o talento e a arte, de compreender que era necessário criar um estúdio profissional servido de uma equipa de elevadíssima qualidade. Já referimos o papel desempenhado por E. P. Jacobs e por Jacques Martin, entre outros, o que permite verificar não haver comparação entre as versões originais do “Petit Vingtième” e os álbuns coloridos, que irão conhecendo aperfeiçoamentos. Mas para que tudo isso fosse possível é preciso voltar a citar Raymond Leblanc (1915-2008), o editor de visão larga que acreditou em Hergé e construiu uma máquina de grande eficácia que lançou o herói da BD… A chegada à Lua de Tintin é reconhecida hoje como dos exercícios mais rigorosos de ficção científica, uma pérola de antecipação… De Gaulle afirmou que só tinha um concorrente internacional, que se chamava Tintin. A literatura francesa e mundial incorporam a figura de Tintin. François Mauriac lamentou, porém, os gostos da geração Tintin, mas enganou-se redondamente, uma vez que não só líamos Tintin, mas também nos preparávamos para ler Thérèse Desqueyroux… O tema da imagem entrava na ordem do dia – no cinema, na fotografia, na banda desenhada – e não largava a importância da narrativa… E Edgar Morin disse em 1958: “Tintin sauvegarde la liberté illimitée du rêve de l’enfance, mais en orientant vers les rêves déjà socialisés du cinéma d’aventure pour adolescents et adultes (…) dans les rapports imaginaires de Tintin, le petit super-boy est roi »…  Mas havia mais : Blake e Mortimer eram a melhor introdução aos melhores policiais. Alix Graccus na companhia do jovem egípcio Enak levava-nos para os clássicos da República Romana. Albert Weinberg (1922-2011) fazia-nos entrar no mundo da aviação de vanguarda com Dan Cooper, antecâmara da ficção científica, Jean Graton levava-nos para o automobilismo, e a lista é muito longa: Modeste e Pompon (Franquin), Oumpah-Pah (Uderzo e Goscinny), Corentin (Cuvelier), Bob e Bobette (Vandersteen), Chick Bill (Tibet), Pom e Teddy (Craenhals), Jari (R. Reding), Ric Hochet (Tibet e Duchâteau), Guy Lefranc (com a marca indelével de J. Martin), Le Chevalier Blanc (L. e F. Funcken), Spaghetti (Dino Attanasio), Clifton (Macherot), Taka Takata (Jo-el Azara), Bernard Prince (Hermann), Bruno Brazil W. Vance), Cubitus (Dupa), Olivier Rameau (Dany), Luc Orient (Eddy Paape)… Mas nesta imensa lista, não podemos esquecer Greg o argumentista inesgotável, a aparecer em toda a parte, com uma prodigiosa imaginação.

 

Eis o ponto onde ficamos. Mas não esquecemos os nossos grandes como Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910.1996), Vítor Péon (1923-1991), José Garcês (1928) ou José Ruy (1930)…, mas esses contos serão outros aos quais regressaremos…

 

Para terminar hoje, cito um belo poema do meu Amigo Ruy Belo – «Portugal Futuro»…

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

Agostinho de Morais