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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

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ANTOLOGIA

  


UBI EST CARITAS?
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Transforma-se o escritor na coisa escrita, por virtude do muito maginar. Assim, já não sei bem se é Camilo Maria, 15º Marquês de Sarolea, que te escreve esta carta, ou se é este Camilo, que afirma traduzi-las e diligentemente as vai "batendo à máquina", como se dizia... Este, o operário, deu-se finalmente conta de que tem vindo a apor diretamente o seu nome como assinatura das cartas que te escrevo. Como se fossem elas dele, imagina tu! Ainda não "flaubertiou", exclamando "Camilo Maria c’est moi!", mas cá desconfio de que terá feito pior: pensará que ele é, sou, eu! Usurpa-me. Insidiosa usucapião esta, de tanto me imaginar quase me incarna, ou ele em mim... Que confusão! Qual de nós, ele ou eu, ou ambos, poderá sair dela? Nenhum tratado da alma nos explicou bem o que ela é. E tu, Princesa, Princesa, quem és tu? Uma musa? uma aparição? uma mulher real? um amor secreto? uma personagem epistolar? ou, na lhaneza da nossa condição humana, a destinatária destas cartas será o momento de Princesa que se sente uma qualquer leitora delas. Enfim: somos todos desconhecidos uns dos outros, mas, por vezes, um milagre nos comunica e comunga, e sabemos então que intimamente nos pertencemos, mesmo sem saber bem a quem. Ao demónio cujo nome é Legião se confronta a multidão dos santos, dos que respondem. A santidade dos homens não é um estado, é uma vocação correspondida, o caminho da procura de um encontro. O nome do amor não é posse, é paz. A posse conquista-se, a paz é dádiva. A posse é jugo, a paz é partilha. A posse é afirmação, a paz é procura sempre. Nada nos será, no tempo, definitivamente dado. Tudo, por nós, connosco e em nós, é procurado. Mesmo a palavra inicial, que perseguimos até poder dizer o indizível. Talvez não seja possível, nem sequer necessário. Entendemo-nos melhor no misterioso silêncio, nessa tão íntima interrogação em que comungamos todos, do que nas explicações que pretendemos dar às coisas. E, afinal, quem veio escrevendo este bilhete. Que Camilo? Ele ou eu, este ou o outro? Mas que é o outro? Será o Outro que nos chama? Fica em paz, Princesa. E nós contigo!...


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 06.12.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


DE PÃO VIVE O HOMEM…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Passo por Madrid, vindo de Itália, demoro-me pouco. Parei no Museu do Prado, demorei-me a olhar para o tríptico do "Jardim das Delícias" do Hieronymus van Acken, conhecido por Bosch. O painel da esquerda ("O Jardim do Éden") apresenta várias curiosidades: nos dois terços superiores, a cena idílica de aves e animais vários rodeando pacificamente a "fonte da vida", situada bem ao centro do painel, e cujas águas correntes formam um lago onde, entre outros, um licórnio vem beber. Mas, no topo, um serpentear de morcegos numerosos sai de um monte rochoso e calvo. E, ao nosso lado direito, juntinha ao lago da fonte da vida, eleva-se uma palmeira na qual se enrosca uma serpente, como que a dizer-nos que é essa palmeira (que não é árvore, como sabemos) a tal do conhecimento do bem e do mal... Cá em baixo, uma cena mais inquietante, como se fosse anúncio do pecado original: em redor de um charco, já animais e plantas se devoram. E, por detrás de Adão, que acaba de acordar do sono que Deus lhe inflingiu para dele tirar Eva - que agora lhe apresenta - um grande cato simboliza a árvore da vida. E sabemos que os catos picam. Ainda no Prado, um quadro de Rubens mostra-nos a tentação original: a serpente que oferece a Eva - que Adão parece sensualmente acariciar - o fruto proibido, estende-lho num braço e mão de menino de angélico rosto. Aqui, segue-se a tradição mais divulgada: o fruto proibido é o da macieira. Tal se deve à tradução do livro do Génesis na "vulgata" latina de S. Jerónimo (século IV), onde se lê, por árvore do conhecimento do bem e do mal, "lignum scientiae boni et mali"... Ora acontece que "mali" tanto pode ser o genitivo de "malum", substantivo neutro que significava mal, como do substantivo feminino "malus" ou macieira. Mais curioso ainda é o "malum" neutro vir a dizer também maçã. E há mais: pêssego é "malum persicum", marmelo "malum cydonium", romã "malum punicum", limão "malum felix". Todos estes frutos, mais o figo - porque se, depois do pecado original, Adão e Eva cobriram as púdicas partes com folhas de figueira, seria por estar ali por perto essa árvore que, aliás, surgirá com diversos propósitos nos evangelhos, até naquele episódio em que Jesus seca uma por não lhe ter dado fruto que lhe matasse a sede... - todos esses frutos simbolizaram o proibido. A maçã, todavia, ganhou o campeonato. Mas, lembrado de Ceres e do que dela te escrevi em Florença - e também por te achar, por vezes, sem aquela dose de paganismo telúrico necessário a uma saudável compreensão do mundo - agarro-me a uma tradição do Talmud judaico: não à do figo ou da vinha, mas à que diz que as crianças não sabem dizer os nomes dos pais enquanto não comerem pão, pois nos cereais está a fonte de todo o conhecimento, que começa pela capacidade de falar e, pela palavra, nomear os seres. Será, pois, o trigo, que nos dá o pão da vida, o tal fruto que Deus nos proibira, até que chegasse a hora da misericórdia, o tempo da reconciliação. Que inesgotavelmente se vai repetindo, em memória da nova aliança, por Jesus Cristo, na partilha do pão da graça entre Deus e os homens todos. Deméter ou Ceres, a Mãe-Terra, reconhece-se pela coroa de espigas. Mas também pelo facho com que desceu a mundos escuros, em busca de Clore-Perséfone ou Flora-Prosérpina, a Primavera, sua filha. Ceres não chorou, como Orfeu descido aos infernos para tentar recuperar Eurídice, uma amante. Sofreu a paixão de um caminho escasso de luz e sem retorno conhecido, para ir buscar a filha, a fim de que, à superfície da terra dos homens, renascessem as flores e os frutos, a esperança. Eis a narrativa mitológica greco-latina de que mais gosto. E porque, por outras palavras e percursos, nos fala da condição humana e seus anseios e dos trabalhos de Deus, que, menino ainda, me contaram, me sinto tanto agora em comunhão universal.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 01.12.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


LÁ LONGE É BEM PERTO…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Vens estranhando, dizes, o meu silêncio. Porquê? Silêncio é silêncio. Nem meu nem teu, nem de ninguém. Só silêncio. É verdade que sinto, muitas vezes (exagero?) a minha ternura ferida nesse arame farpado que, para te protegeres, ergueste. Talvez por isso me aconteça evitar-me-te, mas isso nunca foi investimento a prazo. Ainda te disse "um dia terás saudades minhas"... Asneira! Nada ganharia eu só com teres saudades minhas. Ganho mais abrigo à sombra deste mistério onde um carinho invisível conforta o coração fiel. Respeito imenso - sabias?- esses encontros que acontecem na fidelidade do coração... Quem os sente, sabe. Ou vai aprendendo a dor na alegria, e vice-versa. Hoje, ao nascer do sol, saiu-me esta (quadra?) que me deixou feliz (porque sei e não sei o que ela diz…):      

Como se a manhã acordasse       
e eu lhe estivesse dentro    
dentro e fora do tempo      
onde nasce o dia...

Como ontem, ao deitar-me sentindo a "Verklärte Nacht" do Schönberg, assim meditava:   

Soltem-se as florestas e caminhem      
em busca do chão onde a luz        
se funde no silêncio     
e fica quieta

Uma cuidadosa amiga minha observou que estas divagações seriam "haikai" com mais de três linhas... Ou foste tu que o disseste? No retrovisor, vejo agora que estão ali uns versos livres e desligados que Bashô, o mestre do "haiku" talvez apreciasse: mas em qualquer caso são mais de três e contam, juntos, muito mais de dezassete sílabas por poema. Mas concordarei contigo - e não tinha dado por isso -  em que são muito japoneses na inspiração: uma contemplação, um despojamento de mim, esse inesperado sentimento vindo do interior do silêncio, do mistério de um momento de comunhão com a natureza. Só que eu não sou poeta, ainda que me aconteça escrever umas linhas a que talvez se possa chamar versos. Nem sequer me envergonho de ver que nenhum dos que escrevi se podem comparar a estes do Matsuo Bashô:   

"escurece o mar        
os gritos dos patos   
são timidamente brancos"

Assaltam-me memórias de amigos que morreram nestes dias e notícias de muitos outros que hoje se debatem com a fraqueza da saúde, a usura da idade e a proximidade de desfechos fatais, alguns bem dolorosos. Muitos dos meus "velhos" amigos já partiram, alguns bem novos, outros sempre jovens. Fazem-me falta, quiçá também por senti-los sempre tão presentes. Sinto-os sobretudo num sonho feito de muitos sonhos que quisemos construir juntos, com militante cumplicidade. Com o esvaziar-se a minha paisagem presente, cada vez mais me chama o isolamento do campo, como permanência antecipada na vida que me espera nesta estrada, depois da curva da morte. Vida já diferente daquela em que, por tantos anos, tantas coisas me agitaram...  


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 29.11.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


NASCER É UM REGRESSO?
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Enigma seria eu me ter esquecido de tão bizarra forma de tratamento: "Minha Princesa de mim"... é fórmula tão enigmática como o esquecimento. Pois quem entenderá em qualquer dia que o esquecimento, afinal, é ontologicamente aquilo cuja lembrança perseguimos, o enigma que sucessivamente não deciframos, uma enervante contradição da saudade. Esta, mais do que lembrança, é presença. Tal como a memória dos mistérios no-los traz até nós. O esquecimento, quando muito, será, na melhor das hipóteses, e por fortíssimo esforço cerebral, o sacramento da morte. Se alguém ousar entender que pode salvá-lo assim. Sinto-me, nesta noite quente e quieta, um pobre de Deus que se silencia por não se encontrar já mais no apagão da memória da sociedade em que vive. Donde vimos? Donde chegámos aqui? Como nos constituíram os que foram a nossa vida antes de nós? O que nos dizem os nomes que nos deram, e aqueles que damos às coisas? O que é o amor? Esta tarde, aqui em Florença, nos Uffizi, contemplei com vagar duas pinturas de Sandro Botticelli: "A Primavera" e o "Nascimento de Vénus". Neste, pareceu-me - até pelo semblante e as flores que lhe alegravam o tecido do vestido, ou as que, ainda, se juntavam em colar ao seu pescoço - que a moça oferecendo um manto à Vénus desnuda que, sobre uma concha, nascia das ondas do mar era Flora, que Ovídio identificou a Clore, filha de Deméter (ou Ceres, em Roma). A tal que Hades (Plutão) raptou e arrastou para o reino das profundezas, onde passou a chamar-se Perséfone (Prosérpina). (Por ela voltaremos a Stravinsky)." A Primavera", essa é certamente Flora, vestida, coroada e enfeitada de flores. Mas Zéfiro, o vento que a levou, esse também aparece soprando no "Nascimento de Vénus". Reunidos estão a deusa do amor, a da primavera que significa esse amor como efeméride e ressurreição, o vento que em pétalas sopradas a leva, mas que a conduzirá ao altar de Zeus. E lembrada é a mãe de Flora, Deméter (Mãe da Terra) ou Ceres, deusa das culturas, dos cereais e frutos que alimentam os mortais. A narrativa mitológica de Deméter e do rapto de sua filha Clore - que se chamará Perséfone quando Hades (Plutão) fizer dela rainha do mundo subterrâneo - tem muitos registos. Talvez por estar em Itália, tenho aqui à mão uma canção de Calíope, no Livro V das "Metamorfoses" de Ovídio, em latim. Por isso é Deméter Ceres, e Perséfone Prosérpina. A Clore sempre chamei Flora (onde? - procuro - disse-o Ovídio?) e sempre me sugeriu "éclore" (desabrochar, nascer do ovo ou da terra). E Flora são flores que se abrem ao sol e ao vento, que lhes rouba e espalha a semente, e as desflorará. O mesmo vento, Zéfiro, que soprando sobre as ondas do mar delas ergueu a espuma donde Vénus surgiu. O sopro inicial que levanta o amor de sobre as águas, e beija as flores e depois as desflora para que delas nasçam os frutos de Ceres, da mãe terra. Esta precisa da primavera, de Flora, sua filha, para que não morram as culturas dos cereais (de Ceres) e frutos que dão alimento à vida. Têm os mitos muitas versões, são, como os pensamentos dos homens, muito vagabundos. Por cada narrativa deles, poderá, irrequieto, percorrer-se o labirinto mágico das nossas imaginações. Em cada um de nós se mexe um caminho, e nele nos deixamos mover. Lembro-me de Bora-Bora, quando a onda vaga da maré nos conduzia ao abandono maravilhado a um visionário percurso por primaveras submarinas... De nós só sabemos o que sempre vamos descobrindo. Longo foi o percurso de Ceres em busca da Primavera, sua filha. Sem esta, secavam-se os campos à míngua de rebentos. E quando a descobriu no reino subterrâneo... com Plutão, senhor das profundezas, acordou que Flora ali estaria três meses do ano, que nos outros nove seria necessária à alegria! Raptada, talvez ainda, mas por Zéfiro, o deus do vento que tudo leva, mas semeia e traz de volta. Na "Perséphone" de Stravinsky, a rebuscada prosódia de André Gide é declamada pela protagonista, sobre a música, mas cantada pelo coro. Talvez porque só a música saiba contar-nos mistérios.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 24.11.13 neste blogue. 

ANTOLOGIA

  


ONDE HABITARÁ O SEGREDO?...
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim: 


Cheguei a esta idade em que dizer "lembro-me de que...quando...etc..." já não será garantia de qualidade e origem, e até talvez tenha ultrapassado o prazo de validade. Mas, decrépito reacionário que seja, talvez por isso goste sempre muito deste recordar que é viver, e, mais ainda, do avivar da memória que só a confiança da nossa confidência (perdoa-me o aparente pleonasmo) pode oferecer-nos. Pois que, na verdade, do que lá vai não será nunca a memória intelectual - que é seletiva - o mais verdadeiro testemunho. Antes permanece o que o nosso coração guardou. E bem percebeu Pascal as razões do coração. E sábia era minha Mãe ao pedir para este filho um coração puro, pois só um coração assim quanto possível guardará na memória o trigo - que é, singelamente, o bem que outros nos quiseram e o bem que mesmo a inimigos conseguimos desejar. Esquecendo o joio. Passadas sete décadas, todos os dias recorro, apesar de muitos fracassos, a esse exercício de limpeza do olhar íntimo, pois só no coração nos é legítimo pensarsentir. Hoje ainda, uma amiga, pessoa de curiosas sintonias, me desejou um dia com a cor que eu desejasse. Não lhe respondi, mas dir-lhe-ia que todos os dias quero o arco-íris. Não como Calígula a pedir a lua a sua mãe, mas para sentir as cores de todos. Como Noé viu a paz universal num feixe de tons. A harmonia não tem sentido possível na uniformidade, mas só no acontecimento das diferenças que unem a terra ao céu. Quando, depois da tempestade, a incidência da luz reúne as cores numa aliança. Falava-te de lembranças? Talvez dessa, de um encontro com Stravinsky e Cocteau, por via dos Maritain (há quantos anos?), em Paris, por ocasião de um "Oedipus Rex". Escrevi-te a referi-lo e, rio-me eu agora, já não te lembras? Desde que conheço a sua música, ouço, escuto, Stravinsky com atenção indivisa. Os primeiros discos que comprei, daqueles que facilmente se riscavam e partiam, foram, um de Beethoven, outro de Stravinsky. Do primeiro, a 5ª e a 8ª sinfonias (que ainda hoje, em silêncio, canto de cor, imitando instrumentos). Do russo, "O Pássaro de Fogo" e a "Sagração da Primavera". Se tivesse ensurdecido, como Beethoven, Stravinsky teria deixado de compor. Era um artesão, precisava de martelar e ouvir o piano, o instrumento produtor de sons, para trabalhar com eles. O que verdadeiramente o prendia ao exercício de fazer música era, não só o gosto inato pela organização matemática dos sons, mas sobretudo a massa sonora, como o barro para o oleiro ou o metal para ourives ou ferreiro. Ter-lhe-á sido certamente útil o rigor técnico obrigado pela sua professora de piano, mas foi crescendo pelo seu gosto da procura dos sentidos possíveis dos sons, através das improvisações a que se entregava. E deve muito ao acolhimento que o grande orquestrador que Rimsky-Korsakov era lhe reservou, com paternal amizade. Gosto de pensar na música como peregrinação por caminhos desconhecidos e, todavia, tão percorríveis no íntimo de nós. O coração da música não está tanto nessas melodias divertidas e fáceis, que superficialmente captamos, por qualquer reflexo nervoso (como, aliás, nos, também necessários, copito a mais ou anedota pícara). Estará mais nessa atenção à possibilidade de tirar, das matérias que compõem as coisas várias deste mundo, um som inesperado, revelador da milagrosa essência do ser. Recolhi-me há pouco, por uns nove minutos, com as sinfonias para instrumentos de sopro, compostas por Stravinsky aos 38 anos (em 1920). Chamam-se sinfonias, com sentido etimológico: fonemas que soam simultaneamente (e perdoa-me mais um pleonasmo...). Foram compostas em homenagem a Debussy, mas são "vintage Stravinsky", e do mais puro. Tocam vinte e três sopros (doze madeiras e onze metais), a sinfonia é compacta, estruturante, nada há nela de estridente ou vadio, é intimamente hierática, mas para reunir. Dez anos mais tarde, ainda em movimento místico que o trouxe de regresso à Igreja Ortodoxa Russa, para celebrar o 50º aniversário da Boston Symphony Orchestra , Igor Stravinsky apresenta a Sinfonia dos Salmos, composta com textos em latim, tirados da tradução "vulgata" de S. Jerónimo. Diz-se que a ideia lhe teria ocorrido em Pádua, em 1926, quando ali assistia às comemorações dos 700 anos de Sto. António de Lisboa. Mas, Princesinha, disso e mais te escreverei se me refrescar a memória. Por agora, vou escutar o "Oedipus Rex", com texto francês, para o narrador, que Jean Cocteau foi buscar a Sófocles, e traduções latinas, para o recitativo e canto da ópera-oratório, devidas ao padre jesuíta Jean Daniélou, mais tarde teólogo no Vaticano II e cardeal. Olha: talvez te fale também dos (des)entendimentos de Stravinsky com Cocteau, e sobretudo com André Gide (no caso da "Perséphone"): ou de como nem sempre é imediato o acordo das palavras e da música. Será que vou escutar o Édipo, só porque te falei na memória e penso que o nosso maior enigma é o esquecimento? Dás cabo de mim, Princesa.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 22.11.13 neste blogue.  

ANTOLOGIA

  


AS ÚLTIMAS PALAVRAS
por Camilo Martins de Oliveira


Meu Caro José: 

"Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na sua própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatro bacorinhos que certamente julgariam estar no reino dos céus..." Lendo "As Pequenas Memórias" registei, com outros, tão bonitos também na sua candura simples, este momento. Alguns desses bácoros terá o menino José ajudado a conduzir a feiras ribatejanas para serem vendidos. E sem que qualquer de nós possa, em cada caso, assegurar o destino que lhes terá sido dado, não será difícil acertar num ou noutro... Talvez por isso o José - ou o Jesus-Saramago - no seu "evangelho" não tenha querido sacrificar qualquer cordeiro do seu rebanho ou, mais exatamente, do rebanho do seu Pastor-Diabo (apesar da insistência deste) à Páscoa do Templo de Jerusalém. Nem sequer quis oferecer ao sacrifício ritual o anho que um fariseu caridoso lhe oferecera, marcou-o com o corte numa orelha para que tivesse imperfeição impeditiva da oferta a Deus. Mas este, finalmente, o virá reclamar, porque, no seu romance, José, ele reclama, como Baal e os deuses todos antigos, o sacrifício... Mas o Jesus-Deus da minha infância, esse que bebi familiarmente na tradição de uma fé que, até ao fim dos meus dias, sempre haverá de ser a dor e a alegria da procura de um encontro, diz-me que não me propõe sacrifício mas misericórdia. O "Santo Sacrifício da Missa", como tantas vezes se ouvia dizer, não é sangrento, nada tem a ver com um deus bárbaro que vá dividindo com os demónios o sangue e a vida de seres vivos. É uma eucaristia, a ação de graças por Deus partilhar connosco o seu ser, a vida que, pela ressurreição de Cristo, venceu a morte. Lembra-nos de que vivemos na companhia uns dos outros e que a única expressão possível do amor é a partilha. O sacrifício de Cristo não é uma vareta de fada ou ilusionista que transforme pão e vinho em corpo e sangue. É memória da partilha da vida de Deus com todos. Como o José escreve: "Sabemos o que fez, mas nunca saberemos como pôde tê-lo feito. Ia de pessoa em pessoa, partindo e dando o pão e o peixe, porém, cada uma recebia, em cada pedaço, um peixe e um pão inteiros...  ...É o Messias, diziam alguns, É um mago, diziam outros, mas a nenhum dos que ali estavam passou pela cabeça perguntar, És o filho de Deus. E Jesus dizia a todos, Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes, não multiplicareis." "As Pequenas Memórias" do José menino referem a tentativa de piedosas senhoras o iniciarem "nos segredos da igreja em geral e da eucaristia em particular". E aí recorda: "Fosse como fosse, e apesar de me sentarem com eles no banco da frente, a minha assistência à igreja, uma ou duas vezes, não havia prometido muito. Quando o sacristão tocava a sineta e os fiéis baixavam obedientes a cabeça, não resisti a torcer ligeiramente o pescoço e espreitar com dissímulo para ver o que se estaria ali a passar e não devesse ser visto." Na verdade, não se passou nada, nem nada se escondia. A sineta apenas chamava a atenção de cada um para a memória de Jesus em todos: o sacrifício de Deus Filho do Homem torna definitivamente inúteis e absurdos a crueldade e o sangue com que ousámos tentar que Deus estivesse do nosso lado (tal como Caim sacrificou seu irmão Abel para superar a oferenda de animais que este fazia), e diz-nos que Ele quer - e de nós também - não o sacrifício, mas a misericórdia. A partir daí, o único sacrifício (o que faz ou torna sagrado) é a partilha do amor: "Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes não multiplicareis"... Se o José Saramago, quando por cá andava, percebeu isto, porque teria então insistido, na última página do seu "evangelho": ..." Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez." Inútil sacrifício, pois em seu nome se verterá o sangue de mártires, cruzadas, guerras e inquisições, já que Deus pretende um poder totalitário e universal, a cujos despojos o diabo (o tal Pastor) irá colher a sua necessária parte. E a tijela de barro negro, a tal da anunciação do anjo-mendigo (depois diabo-pastor) lá está: Jesus "já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava". Ao ler este final, lembrei-me de ir escutar as "Septem Verba Christi in Cruce" na música de Joseph Haydn. Como diria o meu Camilo Maria, ali surge a harmonia, não como receita, mas tão só como procura... Uma meditação musical muito inspirada pela clareza mental que o iluminismo do século XVIII buscava, mas alimentada pelas palavras de Jesus na cruz, respigadas dos evangelhos canónicos. Cito a primeira, tirada do Evangelho de S. João: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem". E a última, do Evangelho de S. Lucas: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Gosto delas, muito, muito, por saber que, eu, como todos nós, nem sempre sei o que faço; e, como Antero de Quental, e tantos outros, nas mãos de Deus entrego o meu espírito. Esta noite, calhou-me ouvir este Haydn na versão dirigida por Jordi Savall, em 2009. E acabei por ler o texto que o José Saramago intitulou "As Sete Palavras do Homem" e que, com outro, do Pannikar, integra o livrinho que acompanha a edição desta gravação. Repito aqui a sua interrogação final: "E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?" Faço-a, eu mesmo, tantas vezes, que já penso que o maior, o infinitamente misterioso milagre de Jesus Cristo é fazer com que com Ele nos interroguemos. Esta é a décima e, por ora, a última carta que lhe escrevo, José. Nem sempre teremos tido a mesma inspiração, nem seguido os mesmos caminhos de procura. Mas, desde a partida até à chegada, ambos teremos sempre perguntado: Como pensar o homem sem Deus? E que Deus será sem o homem? Devo-lhe um abraço grato pelo muito que me interrogou sobre a minha fé.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 17.11.13 neste blogue. 

 

ANTOLOGIA

 

luz limpa de creta.jpg

 

  A LUZ LIMPA DE CRETA…
  por Camilo Martins de Oliveira

 

Caríssimo José:

 

Chamou "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" a uma narrativa  -  a história de uma vida inventada por si  -  que, como todas as vidas que imaginamos para os nossos contos, servem para dizer quanto gostaríamos de sentir, à nossa medida e, também, nas desmedidas de nós, esses seres que nos surgem na frente da memória como heróis ou épicos, esses que percorreram aventuras de tão ciclópicos feitos, "mais do que permitia a força humana"... O Jesus do seu romance, José, é construído à sua imagem e semelhança, mas também está sempre a soltar-se de si, é simultaneamente o homem que se acolhe em Maria Madalena (como o José tanto precisou de um amor de mulher na vida) e o que sabe que outra força  - misteriosa e ignota  -  lhe dá poderes que ele não entende e o interpela e destina a outra oblação de si.

Esse Jesus é o José Saramago: "Jesus tinha um súbito pressentimento e o seu coração estremecia, porém os olhos não se viravam para o céu, onde é sabido que Deus habita, o que ele fixava com obsessiva avidez, era a superfície calma do lago, as águas lisas que brilhavam como uma pele polida, o que ele esperava, com desejo e temor, parecia que das profundidades é que devia aparecer, o nosso peixe, diriam os pescadores, a voz que tarda, pensava talvez Jesus. A pesca chegava ao fim, a barca volvia carregada, e Jesus, cabisbaixo, seguia outra vez ao longo da margem, com Maria de Magdala atrás, à procura de quem precisasse dos seus serviços de olheiro grátis. Desta maneira passaram as semanas e os meses, passaram os anos também, mudanças que à vista se percebessem só as de Tiberíades, onde cresciam os edifícios e os triunfos, o mais eram as costumadas e consabidas repetições duma terra que nos invernos parece morrer-nos nos braços e na primavera ressuscitar, observação falsa, engano grosseiro dos sentidos, que a força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido."

O homem de letras que foi  -  com a mais sabedoria que "nesse asento etéreo se consente"  -  entende bem melhor do que eu que talvez seja "engano grosseiro" também iludir duas metáforas: a do inverno que dorme para dar força à primavera e a do que nos nossos braços morre para ressuscitar em flor... Até já alguém disse o que tantas vezes quem o ouviu repete: "o sono é a antecâmara da morte". Acordar e despertar, tal como ressuscitar ou renascer,” é sempre ressurgir.

Uma amiga japonesa, manhosamente, confundindo-me talvez na sua ideia de um romantismo ocidental sempre guloso de um pôr de sol romântico, perguntou-me de que gostaria eu mais, se do poente ou do sol nascente... respondi-lhe lembrado de uma balada do Zeca Afonso: "olha o sol que vai nascendo, anda ver o mar, os meninos vão correndo, ver o sol chegar!". Com o panorama que, aí de cima se lhe oferece, o José verá bem que, em Portugal, ao fim do dia, o sol esconde no mar a promessa da luz. Mas em Tóquio, na costa leste do Japão, surge do Mar Pacífico, das "águas lisas", dessas "profundidades" donde chega " a voz que tarda"... Por isso, esses nipónicos querem ver o sol que nasce em cada madrugada de ano novo, esse a que sempre chamo, à antiga portuguesa, Ano Bom! É bonita a esperança, e assim como a arte e a música,e os abraços e festas dos amigos,só por ser bela nos é necessária. Como naquele poema da Sophia: "As praças fortes foram conquistadas / Por seu poder e foram sitiadas / As cidades do mar pela riqueza / Porém Cacela / Foi desejada só pela beleza".

O Jesus-Saramago não quereria Cacela pelo "nosso peixe, diriam os pescadores," mas pela "voz que tarda". Pela beleza, por essa que, quiçá, tanta maquilhagem clerical disfarça e esconde aos olhos de quem quer ver. Todavia, além do Jesus-Saramago, há também outro Jesus, a personagem que o José criou para o seu romance ou para reinterpretar o Jesus Cristo dos quatro evangelhos e da tradição: fá-lo em tudo semelhante aos homens, como o José os vê, no desejo, na dúvida, na desconfiança, no ressentimento e no medo. Até na imprevisibilidade que pode conduzir à destruição e no egocentrismo que nos cega para os outros.

Os milagres desse Jesus não são sinais do amor que salva, nem ilustrações da fé na presença de Deus entre nós. São artifícios de ilusionista, ou gestos que não medem consequências ou não correspondem a justas intenções. Pois o Deus desse Jesus é um velho cínico cuja inseparável sombra é o diabo, e estes dois nem sequer se distinguem tão bem como as duas metades do "Visconde cortado ao meio" do Italo Calvino.

Racionalmente, repugna-lhe, a si, admitir a transcendência que sopra o amor, essa a que o seu coração aspira, como o do Antero na mão direita de Deus. Custa-lhe aceitar que, a cada um de nós, compete, com sucessos e revezes, ir limpando o olhar, para chegar à pureza do coração que nos transforma no amor dos outros.

..."O mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe aprendeu, amados irmãos, o mal é como a famosa e nunca vista ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira, de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira.

Jesus disse à adúltera, “Vai e doravante não tornes a pecar, mas no íntimo ia cheio de dúvidas." Ocorre-me, ao lê-lo aqui, "The Heart of the Matter" do Graham Greene, que a escritora britânica Lesley Hazleton resume assim: "a dúvida é essencial à fé. Aboli as dúvidas, e ficareis apenas com convicção pura, fonte da arrogância e de todos os fundamentalismos". Quando Schumpeter dizia que o marxismo é uma religião pejada de dogmas, pensava certamente na arrogância com que ali se pretende acabar com interrogações e lembranças que foram alimentando o percurso milenar da humanidade  -  que é o dá esperança na revelação final da misericórdia  -  para impor a certeza da insurreição dos vivos, e da sua necessária vitória, em vez da fé (que é o caminho da nossa procura) na ressurreição dos mortos.

Sei bem  -  e isso me tem fartas vezes magoado  -  que a Igreja (falo da minha) pode e se tem entretido mais com a apologética de dogmas, princípios e normas, do que com laborar na oração de Deus misericordioso, aberto ao acolhimento de todos, mistério de refúgio e promessa de encontro. Esquecem-se demasiado os cristãos  -  e, desagradavelmente, uns quantos clérigos vivaços e espertinhos  -  de que  só um testemunho nos é pedido, e por esse sinal nos deverão reconhecer, o amor dos outros como sacramento autêntico do amor de Deus. Volto a Sophia e ao final do seu poema "Ressurgimentos": «Ressurgiremos para olhar para a terra de frente / Na luz limpa de Creta / Pois convém tornar claro o coração do homem / E erguer a negra exatidão da cruz / Na luz branca de Creta». E mansamente, neste dourado entardecer de Verão, já agradecido a esta luz que lembrarei noite fora, repito com Álvaro de Campos o verso final do seu "Magnificat": «Sorri, minha alma, será dia!». E sorrio também pensando que o José terá encontrado a resposta à interrogação que começa esse poema: «Quando é que passará esta noite interna, o universo, / E eu, a minha alma, terei o meu dia? / Quando é que despertarei de estar acordado?»


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 15.11.2013 neste blogue.

 

ANTOLOGIA

  


TEMOS A MESMA CONDIÇÃO…
por Camilo Martins de Oliveira


Meu Caro José Saramago:


Vou ganhando este hábito de comunicar intemporalmente consigo. Gosto muito, farto de falar e ouvir sobre ninharias ando eu... Consigo, pelo menos, converso. Há certamente quem não perceba que estamos conversando, por pensar que o José está calado. Mas eu ouço (bem?) o que diz, não o que disse ou alguém lhe ouviu, isso passou, mas aquilo que, talvez, penso eu, permaneça connosco, estejamos ou não de acordo, esteja mais ou menos a nosso gosto. Não o conheci pessoalmente, nas nossas contemporâneas andanças pelo mundo, nem tampouco discuto as razões que o tornaram, pelo esforço da sua escrita e os prémios que ela mereceu, nosso património (noção, infelizmente, cada vez mais dúbia, a julgar, por exemplo, pela ausência de reparo na substituição do Z pelo S, no advérbio anterior... a não ser que um atento corretor eletrónico, sem perceber a "piada", tenha exercido o quê, não sei...). Não gosto de agitar fantasmas, confio mais no cântico revolucionário de Maria de Nazaré, Mãe de Jesus, Virgem Santíssima na nossa tradição, só por ser Mãe da Misericórdia de Deus, que repete a ação de graças e esperança de Ana, no livro de Samuel, do que nas promessas irrealizáveis de um Hitler ou de um Estaline... Perdoe-me o desabafo: entre ambos não há diabo que escolha... Nesta conversa, vou aprendendo a distinguir os "sinais dos tempos": entre os que são interiores ao movimento profundo da história, e os que simplesmente surgem como falsos alarmes das circunstâncias. O que quero mesmo dizer é que nada, nada, se resolve circunstancialmente, nem sequer a circunstância... Cá em baixo, fala-se muito de crises e, de acordo com as diferentes ideologias e antagónicos interesses, vão-se reclamando soluções que têm, apesar dos seus desacordos, um denominador comum: miopia, ignorância da história e dos sinais que nos deviam despertar para caminhos novos. E se precisamos de rasgos que nos deixem ver para além dos sistemas onde hoje nos encerramos, cada qual a pretender mais do seu, sem perceber a urgência do nosso destino comunitário e fraterno... Sabe? Penso com frequência que as religiões - designadamente o cristianismo enquanto revelação de Deus connosco e do amor como único caminho de salvação do povo - podem acordar-nos para esse novo "olhar o outro", pois é no nosso amor dos outros que Deus se reconhece. Infelizmente, vezes demais se tem confundido a Igreja com uma ideologia, prisioneira de dogmas quantas vezes mal entendidos e mal ensinados, ou com um código de normas de conduta ritualizada, esquecendo que o princípio fundador é a lei do amor, esse apelo a que cada um dos nossos atos e ditos deve dar resposta: "Ama e faz o que quiseres", disse Sto. Agostinho...

Gostei muito de ler "As Pequenas Memórias", pequenas talvez por serem da sua infância, ou quiçá por ocuparem apenas 140 páginas de um livro impresso. Acho-as grandes, quer pelo princípio do " Livro dos Conselhos" a que o José nelas obedece ("Deixa-te levar pela criança que foste"), quer, sobretudo, pela simplicidade da narrativa da sua circunstância, em que nunca disfarça nem lamenta, nem agita em revolta, mas tampouco com ela se resigna, a pobreza do meio e das pessoas de quem nasceu e com quem cresceu. Mais do que a sua precoce curiosidade e o seu gosto na descoberta e exploração dos mundos à sua volta, mais ainda do que a fortaleza da sua legítima ambição de aprender e subir, é maravilhoso o enorme, inteligente e reconhecido amor pelos seus. Um profundo sentido da eterna grandeza da pessoa humana, aquilo a que alguém já chamou o valor divino do humano. Com sua licença, respigo dois trechos dessas memórias, não para lhos lembrar, a si que está onde já nada se esquece, mas para instrução de algum mortal curioso que deite o olho às cartas que lhe escrevo: "O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente... ...Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?" E que palavra poderei eu dizer agora? Tenho a mesma condição e contemplo o silêncio do meu porvir, esperando sentir a sombra amiga do olhar misericordioso de Deus. Talvez assim responda àquela incerteza que o acometeu, José, quando noutro passo das suas memórias refere a sua deslealdade para com seu primo José Diniz, a quem escamoteara uma maçaroca de milho:  ..."eu suspeito que no dia do Juizo Final, quando se puserem na balança as minhas boas e más ações, será o peso daquela maçaroca que me precipitará no inferno...". Mas está escrito que tudo será perdoado a quem muito amou. Amar é sempre a procura do bem do outro. Não só do bem que lhe possamos fazer, nem só do ótimo que queiramos desejar-lhe. Mas de todo o bem, até esse da felicidade oculta que não somos capazes de oferecer. Desse bem, talvez supremo, que estará no que, para nós é ainda noite, a noite que Álvaro de Campos assim chama:

"Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saiam do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega
E só vemos até onde chega o nosso olhar."

Talvez o José tenha, menino ainda, como eu adolescente, repetido essa oração do Eng.º Campos à "Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,/ Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desprezados, / Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes, / Sabor de água sobre os lábios secos dos cansados." O menino já homenzinho que foi - esse que teve de afrontar e, quiçá, amar um mundo sem outro abrigo além da pobreza material dos seus e do que o seu labor ia conquistando - esse menino era, e para sempre será, igual a mim e a todos os outros, pobres ou ricos, na condição essencial da existência. Pobres somos. Ao ler e reler a sua lembrança da morte da sua avó, recordei a minha avó Ana. Diz o José: "Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer. Assim mesmo. Eu estava lá". A minha avó materna, senhora que por aqui passou bafejada por outra sorte aparente, tinha a "assistência" de um capelão - lembro-me dele, era o "abbé Balthasar" - que era estrábico e lhe ia repetindo que a morte a todos nos cabe, é simplesmente o último degrau até às alegrias celestes. Ao que a avó Ana invariavelmente retorquia: "Senhor padre, o senhor é um hipócrita, um dos seus olhos aponta o céu, o outro não deixa de ver a terra, de que tanto gostamos..." Ambas as avós, a sua e a minha, gostaram desta vida. Que lhes foi dada, em circunstâncias diferentes, mas na mesma condição. Não sei que salário celeste lhes foi reservado, nem se o acaso do nascimento e dos fados, tal como a hora em que todos somos chamados a trabalhar na vinha, será ou foi motivo de especial compensação. Desconheço as razões de Deus. Mentir-lhe-ia se dissesse o contrário. Mas sei que, na vida temporal que me foi dada, e no juízo comparativo a que a natureza me condiciona e a razão do amor me obriga, eu devo fazer tudo o que o meu braço alcance para que a igualdade do Céu seja, com justiça, já visível na terra.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 10.11.13 neste blogue.

ANTOLOGIA


O AMOR NÃO INVESTIGA CULPAS…

por Camilo Martins de Oliveira


Meu Caro José Saramago:


São suas "As Pequenas Memórias", essas que nos contam como, menino e moço, pelas férias de verão em casa dos seus avós Josefa e Jerónimo, metia "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge" (tal como o Jesus do seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", que não é evangelho nem pretende sê-lo) e saía para o campo, por onde pouco tinha para escolher:  "ou o rio, e a quase inextricável vegetação que lhe cobre e protege as margens, ou os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante, depois do ponto de confluência com o Almonda, ou, enfim, na direção do norte, a uns cinco ou seis quilómetros da aldeia, o Paul do Boquilobo, um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso. Não havia muito por onde escolher, é certo, mas, para a criança melancólica, para o adolescente contemplativo e não raro triste, eram estas as quatro partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro"... Por longa que fosse a aventura, ou penoso o esforço que o levasse além dos obstáculos, até novas descobertas, "o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascenção à ponta extrema do freixo de vinte metros, ou então, modestamente, mas com maior proveito degustativo, as suas subidas à figueira do quintal, de manhã cedo, para colher os frutos ainda húmidos da orvalhada noturna e sorver, como um pássaro guloso, a gota de mel que surdia no interior deles"... No fim do séc.II, Santo Ireneu de Lyon, na esteira de tradições ainda mais antigas no convívio e na pregação evangélica da Igreja, afirma a autoridade canónica de quatro evangelhos. Sabemos que, em tempos sem imprensa nem televisão, etc., a comunicação em sociedade se fazia por transmissão oral - designadamente em assembleias e reuniões - que era muitas vezes registada em manuscritos, então copiados para serem lidos de forma a darem alguma consistência e uniformidade aos relatos e teses que se iam difundindo. Houve assim várias narrativas da vida e dos ensinamentos de Jesus e, embora todas fossem autorizadas em privado, sentiu-se a necessidade de reter, como corpo autêntico de futuras leituras, um pouco como o José memorizou percursos e paisagens da sua infância, quatro delas, "como partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro". Assim escreveu Santo Ireneu: "Não pode haver nem maior nem menor número de evangelhos. Na verdade, porque existem quatro regiões do mundo em que estamos e quatro ventos principais, e posto que, por outro lado, a Igreja se dispersou por toda a Terra e tem por coluna e suporte o Evangelho e o Espírito de vida, é natural que tenha quatro colunas que de todos os lados soprem a incorruptibilidade e deem vida aos homens. Por isso nos deu o Verbo um evangelho em quatro formas, ainda que alimentado por um único espírito..." Leio, com alguma regularidade, os apócrifos cristãos antigos, até porque neles encontro essas memórias do imaginário cristão de antanho, que tantas vezes serviram - e ainda hoje servem - de tema e inspiração para a arte religiosa ou a simples representação de cenas bíblicas mais familiares: o Presépio é disso belo exemplo. Também me aconteceu ler romances ou outras fantasias da vida de Jesus, nada aprendi para além do que já sabia sobre o gostinho que alguém possa ter em meter sexo em tudo ou escandalizar crentes. Nunca me escandalizei, pareceu-me tudo isso pouco interessante. Mas cada qual sabe como se trata. No seu romance, José, há todavia aquela insistência na culpa de Deus, ao ponto de querer confundi-lo com o diabo. Penso que, hoje em dia (para mim, não para si, que já saiu do tempo), o José terá esclarecido a questão. O que a seguir direi é, portanto, mero desabafo, seria estultícia pensar agora convencê-lo, a si, fosse do que fosse. São José, pai de Jesus, é culpado da morte das inocentes crianças que Herodes mandou ceifar, pois apenas pensou em salvar o seu filho e se esqueceu de avisar as famílias de Belém. Será castigado, crucificado pelos romanos por conspiração em que não entrou: "Deus não perdoa os pecados que manda cometer." Mais tarde, no seu romance, Jesus descobrirá que "nunca houve no mundo gente mais inocente que aquela de Belém, os meninos que morreram sem culpa e os pais que essa culpa não tiveram, nem gente mais culpada terá havido que meu pai, que se calou quando deveria ter falado, e agora este que sou, a quem a vida foi salva para que conhecesse o crime que lhe salvou a vida, mesmo que outra culpa não venha a ter, esta me matará". E nessa revelação do mal intrínseco ao ser e à vida surge, como força telúrica, quase sem idade, como Deus, o anjo, mendigo na anunciação, pastor na natividade, Pastor dos fantasmas que, depois, perseguirão Jesus, aquele a quem "não fazemos as perguntas porque ainda não estávamos preparados para ouvir as respostas, ou por termos, simplesmente, medo delas. E, quando encontramos coragem para as lançar, não é raro que não nos respondam, como virá a fazer Jesus quando um dia lhe perguntarem, Que é a verdade. Então se calará até hoje." Não sei se Pilatos encontrou resposta, tampouco sei se a pergunta que fez era já a sua resposta, é por vezes mais cómodo duvidar do que procurar. Perante a ordem aparente do mundo, que não esconde um caos eminente, vivemos esta condição de pressentimento contínuo. Poderei não saber a verdade do que vejo, ou encontrar uma verdade em várias fórmulas apresentada e discutida, ou, ainda, ir ou não descobrindo um pouco mais desta ou daquela verdade. Todas essas verdades, com mais ou menos lógica e aceitação, são meras representações. Mas acredito numa Verdade. Inscrita no coração dos homens. O menino que sou aventura-se pelos quatro evangelhos, como o menino da Azinhaga, pelas quatro partes do mundo, trepa por freixos acima quando encontra frases misteriosas ou afirmações estranhas, que deverá avistar lá de cima, para não se deixar enredar por arbustos e silvas, nem travar por muralhas de trepadeiras. Percorro narrativas singelas, cheias de amor pelas crianças e outros pequenos, de segredos guardados no coração, porque só aos que têm a humildade de aceitar que não sabem muito, e nem tudo poderão perceber, é dada a revelação negada aos sábios e poderosos. Os evangelhos por onde me passeio falam-me de culpa mas a pretexto de perdão, de falta como porta aberta à misericórdia. E da única Verdade que posso, em vida, e devo, conhecer: amai-vos uns aos outros. Nenhuma demonstração teológica, nenhum martírio, nem manifestação pessoal ou coletiva de fé ou de sagacidade filosófica, é isenta de contestação. A Verdade, a única, essa que cada um de nós deve descobrir no íntimo do coração, é o amor. Que vai criando o mundo e revelando Deus. A verdade que me cabe, a única de que tenho absoluta certeza, é o amor de cada dia, como se, ao dá-lo, Deus esteja comigo na construção da paz. Escuto muitas vezes os 4º e 5º andamentos da 3ª sinfonia do Mahler. O 4º, como sabe, é um solo para contralto: "O Canto da Meia-Noite" de "Also sprach Zarathustra" do Nietzsche. "Ó Homem, tem cuidado! Que diz a meia-noite profunda?...   ...Profunda é a sua dor!" Mas logo se inicia o 5º andamento, com o "bim-bam" do coro de crianças e mulheres e esse poema tradicional que Mahler foi buscar ao "Knaben Wunderhorn", anunciando que a Pedro foram perdoados os pecados: "A alegria celeste é uma cidade feliz / a alegria celeste não tem fim./ A alegria celeste foi dada a Pedro/ por Jesus, e a nós para felicidade nossa!". O amor não investiga culpas, alegra-se na misericórdia.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 08.11.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


NASCER É OBRA DE MILÉNIOS…
por Camilo Martins de Oliveira


Meu Caro José:


Saberá, meu unilateral correspondente, melhor, muito melhor do que eu, o quanto gostei do seu relato da Natividade de Jesus: "O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. "Sei bem que me desvio (um pouco?) da contemplação feliz, apaziguadora, certamente necessária, de um Presépio tradicional, inodoro e bonito. Eu, como todos, gentes várias de muitas condições, preciso dessa paz, do instante, curto que seja, em que sinto, no coração angustiado ou perdido, o conforto duma lareira amiga, a visão de uma esperança como promessa antiga... (Uso as ... reticências, sei que o José as não usava nem gostava delas. Mas não é por mim nem para mim que as uso. É tão só porque assim exprimo uma expectativa, que mais não é do que querer aguardar o que ainda não conheço. Modos de ser, concedo...) Mas gosto, sem reticência alguma, da verdade humana, dessa densidade tão sentida do parto de Jesus, do livramento de Maria. Essa foi a Incarnação de Deus. É, como todas as dores de parto, contra todos os atentados contra a vida e todos os desvios dela, o Manuel, o Deus connosco. É, para o cristão, o que a poesia é para Novalis: o real absoluto. Fundador da nossa cultura como visão metafísica do mundo e da história. O Deus que "nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo..."morrerá, infamemente talvez, mas para que, na hora da morte, ao fechar os olhos, cada um de nós os possa abrir com Ele. Deus é como a semente: morre para renascer. E porque não será assim, na nossa condição de trânsfugas, quando até do casulo da lagarta sempre nasce uma borboleta? Ou do coração que está na boca de um poeta analfabeto, se liberta um poema que nos prende o vadio pensamento? Onde se nos promete Deus? Se à sua imagem e semelhança fomos feitos, ele certamente habita o segredo do nosso coração. E é esse o segredo, José, da vida de cada um. O tal que cada um, à sua maneira, desvendará ou não. Por isso sempre penseissenti que de nada vale, nem para nada serve, a santa inquisição ou outra qualquer perseguição. A verdade não se impõe de fora para dentro, nem sequer se demonstra fora da íntima intuição de cada um. Creio muito que, no coração de Deus, a verdade é uma vocação lançada ao coração dos homens. E Deus lá sabe. Posso entender que almas piedosas se amofinem à imagem súbita dessa natividade tão carnal do Deus humanado. Mas assim terá sido, nenhum escrito canónico nem apócrifo o contesta, e, pelos séculos de piedade cristã que se sentia na rudeza do mundo em que ela vivia, tal sentido de pertença de Jesus à terra e à condição dos homens esteve sempre presente. Mas é também parte do humano coração dos povos uma eucaristia, ação de graças. A incarnação de um deus transcendente, nem nos olimpos onde os deuses incarnavam os nossos desejos e fúrias, nem mesmo nos neopaganismos "à Ricardo Reis", em que se contentavam com o espetáculo do mundo, despidos já de qualquer intervenção nas nossas vidas, tem, para os fiéis de religião monoteísta, explicação plausível. É um escândalo. E tal é o espanto, que a sua representação terá de se apoiar em sinais de transcendência. Até o José Saramago talvez não tenha resistido a essa tentação: no seu "evangelho", percebo, a conceção de Jesus terá de ser realizada pela união carnal de Maria com José. Não me escandalizou a ideia, devo dizer-lhe, nesse tempo terrenal (como diria o nosso Gil Vicente), em que o José a pôs por escrito. Nada tem contra a natureza das coisas. Aliás, nem sempre compreendi, antes de estudar alguma antropologia, o horror "religioso" ou "puritano" ao ato carnal - que, na minha religião, tal como a fui entendendo, é sacramento do amor criador, com Deus, entre um homem e uma mulher - nem ganhei horror ao sangue menstrual da mulher; nem me passou pela cabeça que a união de meu pai e minha mãe fosse um ato reprovável... Abençoado gozo que me deu vida! Mas também não vejo por que razão, antes e depois de ter estudado antropologia, eu não hei de perceber que um acontecimento de dimensão cósmica como é a incarnação de Deus, não possa ter, nos textos que nos transmitem testemunhos coevos - que, aliás, ó José, note bem!, não eram de gente interesseira, antes de pessoas simples, muitos pobres, todos talvez agradecidos por esse gesto de Deus, que maravilhava a sua fé! - essa expressão de pureza absoluta, o gesto sem mácula possível, livre de qualquer outro pensamento - desses muitos que nos ocorrem quando em ato sexual, a luxúria ou a violência vêm apagar a ternura e o amor. Somos trânsfugas, sabê-lo-á hoje, bem melhor do que eu. Por isso tanto precisamos dessa " Ó estrelinha do norte, espera por mim, que já vou, alumia o meu caminho, já que o luar me enganou..." Cá em baixo, José, digo-lhe com franqueza: preciso de esperança, não de mitos que os homens construíram e trucidantemente se entreteram a destruir... Como Antero de Quental, tenho um coração que procura a mão de Deus... Amar os outros, amar mesmo este destino de escuridão e saudade, a que tantas vezes nos sentimos condenados, não é fácil. Para nenhum de nós, sobretudo para os que o fado despojou e nós outros desamparámos. Só por isso seja abençoada a virgindade de Maria, pois não é de um insignificante pormenor físico de que então falamos ,mas desse indizível sentimento de dignidade inicial, essencial, falo-lhe, José, do intocável que habita o cerne de cada pessoa e que, à falta de melhor, os mais pobres reconhecem na Virgindade Maternal de Maria.

Por isso, à margem e contra as tradições misóginas e machistas de civilizações, culturas e religiões, se foi impondo, no culto popular, a revelação do que não deixamos que alguém desrespeite em nós. No seu "evangelho", o José Saramago tem algum temor (?), ou será premonição temerosa (?), quanto ao sobrenatural de Jesus: concebido pela união de Maria e José, não se livra todavia de um mendigo - anjo? - a quem Maria dá de comer numa tijela, onde ele deitará terra, no fundo da qual brilhará uma luz e que, mesmo enterrada, por obra de José e dos da sinagoga, será sempre semente de uma árvore sempre renascida. Será esse anjo (?) escolta de Maria até ao livramento, aí feito pastor que lhe leva o pão. Bonita imagem, no seu presépio, aliás, só os pobres participam e oferecem... Se algum dia eu chegar aí acima - pois duvido de que o José possa entretanto voltar cá abaixo - far-me-á o favor de explicar porque insistiu em que o outro José (o carpinteiro) fizesse mais filhos a Maria, e lhes deu os nomes que uma narrativa egípcia, de que se conhecem originais em copta e árabe, atribuiu aos filhos do primeiro casamento de José Nazareno, antes de Maria. Estes textos, como outros coevos, e a tradição dos povos crentes, sempre referem a Virgindade Maternal de Nossa Senhora. Ora, se o Alfredo Marceneiro perguntava, sobre ele mesmo, "há maneira melhor de ser fadista?", não poderei eu inquirir se há maneira melhor de concebermos a incarnação de Deus? Noutro texto apócrifo, uma vida de Jesus em árabe, de origem síria, remotamente persa, diz-se "Em nome de Deus, Benevolente e Misericordioso: no Tempo de Moisés, o profeta, sobre ele permaneça a paz, vivia um homem chamado Zoroastro; foi quem revelou as ciências da magia. Certo dia, em que, junto de uma fonte, ensinava as ciências do magismo, disse-lhes em seu discurso: A virgem engravidará, sem ter conhecido homem, sem que o selo da virgindade tenha sido rompido..." E diz o Corão: "Deus não pode ter filhos. Longe da sua glória essa blasfémia! Quando decide uma coisa, diz: Seja! E ela é." Mas antes disse: "A ela enviámos o nosso espírito... ...Disse-lhe: sou o enviado do teu Senhor, para te dar um filho santo... Como, contestou ela, terei eu um filho? Homem algum se chegou a mim e certamente não sou uma dissoluta... Respondeu-lhe: Será assim, disse o teu Senhor: isso é fácil para mim. Será o nosso sinal diante dos homens, prova da nossa misericórdia".  Haverá forças ocultas, ânimos, que nos escapam e perseguimos com símbolos e ritos que possam possuí-las; ou deuses olímpicos, tão cheios de vícios nossos que poderemos corrompê-los; ou divindades sanguinárias que exijam sacrifícios que medularmente nos anulem. Ou, ainda, promessas de homens com memória mais curta e força mais fraca do que a sua própria existência. E aparece esta proposta de um Deus que fecunda, ele mesmo, o ventre de uma mulher humilde e nos diz: Quero ser convosco! Posso acreditar, aceitar ou não. Se disser sim, sei que participo dessa geração. E não preciso de mexer numa história que foi tão lindamente contada.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 03.11.13 neste blogue.