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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Creio que foi Robert Brasilach quem primeiro apelidou o grande Georges Bernanos de l´anarchiste chrétien. Terá, pois, dito O anarquista cristão... Todos sabemos que tem havido e vai havendo anarquistas cristãos (ainda escreverei uma carta a contar-te histórias), mas a distinção especial de Bernanos por Brasilach traz, a meu ver, água no bico, quiçá aponte algum desvio ou um lançar a confusão. O próprio Pio XII, todavia, mesmo sendo papa, não se deixou levar pelas acusações de desordem ou heresia feitas contra o escritor de combate e romancista. Aos que com ele insistiam para que pusesse no Index dos livros proibidos alguns de Bernanos, respondeu um dia: "Lá que aquilo queima, queima! Mas é fogo que ilumina!" O crítico e ensaísta Sébastien Lapaque, cronista de Le Figaro, no seu Georges Bernanos - encore une fois (Les Provinciales, Paris, 1998 e 2018 - edição aumentada) abre-nos uma janela sobre a escrita ardente e luminosa do autor de Journal d´un Curé de Campagne, La Joie, Sous le Soleil de Satan, etc.:

 

   Não nos enganemos: a preocupação que atravessa o Soleil de Satan é idêntica à que origina La Grande Peur, e aqueles que caridosamente se esquecem do segundo desses livros, fariam melhor se o aceitassem. Em ambos Bernanos denuncia um mundo que cinicamente labora para poder passar sem alma. Em ambas as obras ele anuncia o advento de uma nova forma de barbárie. Procura comover os seus leitores - "que importa se de amizade se de cólera?" - e a levá-los a ajoelharem-se e a chamar por Deus.

 

   [La Grande Peur des bien-pensants (1931) é o primeiro de sete ensaios, dos quais La France contre les robots (1945), de que também já te falei, foi o último. Entre ambos, contamos Les Grands Cimetières sous la lune (1938), Nous autres Français (1939), Scandale de la vérité (1939), Lettre aux Anglais (1942) e Les Enfants humiliés (1939/40) que, todavia, só foi editado em 1949, a título póstumo.]

 

   Um mundo sem alma, essa tentação, ou deriva já, das nossas sociedades economicistas, quais cegos para a queda num barranco, é a nossa rendição, cultural e civilizacional, à tirania do dinheiro. Assim, há três quartos de século, clamava a voz profética de Bernanos, como neste passo de La France contre les robots, livro de que te falei ainda em carta recente, aliás, quando o ofereci à minha neta Inês, pela sua entrada na faculdade de direito da Sorbonne: O reino do Dinheiro é o reino dos Velhos. Num mundo entregue à ditadura do Lucro, qualquer homem capaz de preferir a honra ao dinheiro é necessariamente reduzido à impotência. Eis a condenação do espírito da juventude... Se, para infelicidade nossa, o dinheiro for, continuar a ser, a obrigatória motivação principal dos nossos comportamentos sociais, tudo o mais, nas nossas vidas, irá perdendo sentido, e do muito, muito, que nos constitui como pessoas humanas seremos esvaziados. Recorro à expressão lapidar de Adriano Moreira, que tantas vezes lembro: É substituir o valor pelo preço.

 

   De nada valerá pedir a Deus que nos livre do mal... se não nos livrarmos, nós mesmos, de tal miséria.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sobre essa agitação francesa dos coletes amarelos, li uma entrevista estimulante de reflexões sobre movimentos sociais, dada por Christophe Gilluy, geógrafo, autor de um livro com certa fama popular (La France périphérique - Comment on a sacrifié les classes populaires, Champs, Flammarion, 2015) ao semanário La Vie, de 22 deste novembro. A lembrança de outros títulos do mesmo autor diz-nos bem o campo sobre que se vem debruçando: Fractures françaises (2013), Le Crépuscule de la France d´en haut (2016) ou ainda, já em setembro deste ano, No Society, uma análise que se estende às periferias norte americanas e britânicas e nos vai falando do apagamento das classes médias no Ocidente. E dos seus ressentimentos, como dos seus "cantos do cisne". Visita movimentos populistas (bonnets rouges, gilets jaunes e Le Pen, em França), o epifenómeno Trump, o confuso Brexit, e encontra-lhes um denominador comum: É a antiga classe média maioritária, correspondendo por via de consequência a uma geografia, a uma relegação para a periferia. E, hoje, toda a contestação, o famoso «voto populista», em França e alhures na Europa, provém dos territórios economicamente menos dinâmicos. Na ocorrência, das categorias populares - operários, empregados, independentes, etc. - , que já não se sentem integrados económica, política e culturalmente. Ao contrário do que dantes sucedia com a classe média. É consequência da recomposição económica dos territórios e, portanto, da metropolização e do modelo económico mundializado.

 

   Noutro passo da entrevista, Guilluy explica esse processo: Dantes, o facto de pertencer à classe média implicava a ideia de ascensão social para o próprio e seus filhos. Hoje, as lógicas económicas e imobiliárias fazem com que essas categorias sociais já não possam morar onde são criados empregos. O que nos conduz aos trabalhos do economista Thomas Piketty sobre a desigualdade no cerne do modelo económico hodierno. A isso chamo o grande choque cultural no Ocidente. Pela primeira vez na História, as categorias populares já não vivem onde se cria emprego.

 

   Repara, Princesa de mim, em que estas afirmações não são especulativas, nem sequer hipotéticas, mas resultam de trabalho no terreno geográfico e da observação sociológica das populações que o habitam. Tal realismo no estudo do que eu seria tentado a chamar sufocos sociais devia alertar-nos, quer para a gravidade crescente das situações criadas, quer para a necessidade de uma achega autenticamente democrática à edificação de sociedades político-económicas mais justas, mais equitativas, integradoras de todos em cidadanias portadoras de valores humanistas. O que mundialmente se vai apelidando de fenómeno populista é, na realidade, o quase desespero de povos órfãos, e o recurso emotivo a salvadores imaginários, onde se disfarçam os oportunistas prenunciadores do advento de ditaduras ou de catástrofes, mais provável sendo que tragam ambas. Aliás, mesmo antes desses aproveitadores, a indignação popular pode ser, e é, explorada por gente sem rumo e sem tino, grupúsculos de mentecaptos da raiva ou da embriaguez do protesto. Infelizmente, na voragem da atual "informação social" - mediática ou em rede - surgem sobretudo as imagens mais chocantes (as cenas de violência e vandalismo, o teatro "político"), para satisfazer o apetite delirante das turbas por "fitas" coloridas e barulhentas e "dramas sanguinários", em prejuízo da necessária, essa sim, observação e análise das ocorrências, com a consequente localização das suas motivações próximas e causas remotas. Basta pararmos um pouco e cuidarmos no que nos dizem estudiosos como Guilluy, para nos apercebermos de que os problemas que se têm agudizado são muito mais graves e complexos do que as suas manifestações. Não só resultam de processos iniciados há décadas e desenrolados por tempo suficientemente longo para já não termos bem presentes algumas das suas circunstâncias e condicionantes, como nem sempre será fácil, ou cómodo, precisar quem foram os seus agentes principais, e muito menos identificá-los...

 

   [Permite-me ainda, Princesa de mim, este curto parêntese que, todavia, reputo importante para uma reflexão mais longa acerca das circunstâncias e consequências dos movimentos de massas solicitados e motivados sobretudo através de redes sociais, isto é, sem notoriedade dos seus promotores, mas certamente reunindo descontentamentos, ressentimentos e reivindicações comuns a muita gente. Imaginemos, por exemplo, que a subida das taxas de certos impostos não visa apenas nem prioritariamente o aumento de receitas fiscais (apesar do equilíbrio ou superavit orçamental estar nas ordens dos dias), mas procura atingir objetivos de outra ordem: redução do consumo de combustíveis como combate à poluição, ou do de sal ou açúcar por razões sanitárias, etc. A dificuldade de assim se justificarem essas medidas de política encontra-se, não só na falta de informação adequada, como sobretudo na cultura popular que, ao longo de décadas, foi sendo educada no sentido de uma sociedade de consumo e na perspetiva de que o crescimento económico iria abundantemente servir-lhe os produtos desejados e os meios de os adquirir. E talvez mais ainda no sentimento generalizado de que há classes ou categorias sociais privilegiadas, que escapam ou estão isentas dos custos e das consequências penalizadoras das medidas ditas reformadoras, como se fossem irresponsabilizáveis.] 

 

   O geógrafo que te tenho referido, Princesa de mim, cita aquele dito de Emmanuel Macron aos microfones da TF1, no dia 15 deste novembro: Não consegui reconciliar o povo francês com os seus dirigentes. E aproveita tal dica para acrescentar: Como explico no meu último livro [No Society], pela primeira vez temos um mundo de cima (d´en haut) - ou todas as categorias [classes] superiores - de costas voltadas para o conjunto das categorias [classes] populares, antigamente classes médias. E temos um mundo de baixo (d´en bas) que já não ouve o mundo de cima, seja este o político, o mediático ou o cultural. A isso chamo «o movimento real da sociedade». E tal «movimento real» dá poder de influência às classes populares. Os populistas bem o perceberam, já que se apoiam nessa força. Os dirigentes políticos franceses devem ligar-se, eles também, a esse movimento. Há um enorme problema de oferta política. Mas creio que o mundo político acabará por se adaptar, porque vivemos em democracia...

 

   Estou mais tentado a dizer «Deus o ouça!», do que a subscrever esta última afirmação de Christophe Guilluy. Não tanto por desacordo, visto tratar-se de uma hipótese. Mas, quiçá, porque o meu pensarsentir antes deambula por outras questões, mais atinentes à cultura popular e à que rege grande parte dos comportamentos e ações dos agentes do poder, seja ele político ou mediático. E, sendo cidadão português, também entendo que deverei abordar tais questões na perspetiva da incidência que têm na vida lusitana. Embora depare, à partida, com uma desvantagem minha: como não sou geógrafo nem sociólogo, não fiz, eu próprio, qualquer trabalho de campo nesta área; e tampouco disponho de dados ou estudos analíticos que sustenham a exposição dos meus pontos de vista. Assim, a seu tempo direi como pensossinto alguns aspetos da nossa realidade nacional que, dia a dia, vou empiricamente observando -  e na qual vou vivendo sem razão maior de queixa, ainda que com muitos motivos de resmunguice e alguns de escândalo. Aliás, em cartas anteriores, Princesa de mim, já te fui deixando algumas (in)confidências...

 

   Por agora, só para nos estimular uma reflexão mais global sobre o estado atual das "coisas", entrego-te umas referências interessantes:

 

   1. Kate Raworth, investigadora nas universidades de Oxford e Cambridge, publicou um "Sunday Times Best Seller", recentemente traduzido para outras línguas, entre as quais a portuguesa, intitulado Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist. Aconselho-te a edição inglesa, não só por ser a original, mas por custar o terço do que pagarias por uma tradução. A confessa intenção da autora é levar-nos a entender que vivemos uma época formidável para desaprendermos e reaprendermos as bases da economia. Fala-nos do abismo que separa as preocupações da teoria económica convencional das crises cada vez mais graves do mundo real, tais como a desigualdade planetária e as mudanças climáticas...   ... A humanidade está confrontada com enormes desafios, e é em grande parte graças às omissões e às metáforas erradas duma reflexão económica ultrapassada que aí chegámos. Mas para aqueles que estão prontos a rebelar-se, a olhar em volta, a contestar e a repensar, a época é entusiasmante. «É preciso que os estudantes aprendam a desembaraçar-se das ideias desmodadas e saibam quando e como substituí-las... como aprender, desaprender e reaprender», escrevia o futurólogo Alvin Toffler. Nada de mais verdadeiro para aqueles que procuram o conhecimento económico. Sabes bem, Princesa de mim, tal como muitos amigos meus, como eu incessantemente batia na mesma tecla, quando discutíamos a vinda da Troika e o problema das dívidas ditas soberanas... E não nos esqueçamos de que crises e sufocos nacionais que se distribuem pelo planeta já não nos são questões alheias: basta olharmos para as torrentes de massas migratórias, como também, ainda que diferentes, para as movimentações terroristas. Desde vitimizações sentidas, por discriminação económica ou jurídica, a ressentimentos, históricos ou atuais, por exploração colonialista ou opressão étnica, "religiosa" ou cultural, sem esquecer a força tentacular de agentes económicos e financeiros, são múltiplas as razões das ameaças que hoje perturbam as nossas classes médias em vias de extinção, cuja força política vai diminuindo na medida do enfraquecimento democrático das nossas sociedades. E é tão forte o sentimento de injustiça dessas populações, que se vão progressivamente agarrando, não ao regime político que já não as serve, mas à "Autoridade" que ponha tudo na ordem desejada.

 

   2. Por outro lado, economistas (e não só) vão-se dando conta de que a expansão económica já não reduz as desigualdades, mas aumenta o aquecimento global, e assim surge, uma vez mais, o debate acerca do pós-crescimento. Eis porque, no seu suplemento Économie & Entreprise, o jornal Le Monde iniciou, a 30 deste novembro, um dossiê sobre o tema Crescimento contra Decrescimento, cujo primeiro artigo se intitula O Crescimento, uma Velha Lua para esquecer? Ainda hoje guardo, na minha biblioteca, um exemplar, em francês, do relatório Meadows para o Clube de Roma, apelando à moderação do crescimento económico e intitulado Les Limites de la Croissance (1972), trabalho sobre o qual fiz algumas palestras em cursos organizados pelo IAG (Institut d´Administration et Gestion) da Université Catholique de Louvain. A questão de fundo era a de saber se e como seria possível compatibilizar um infinito crescimento económico com os limitados recursos naturais disponíveis neste mundo... O artigo de Le Monde, assinado por Frédéric Cazenave e Marie Charrel, faz o comentário seguinte, que, quase meio século depois, com simpatia me divertiu: Aqueles que se mostram sensíveis a essas ideias, agruparam-se, nos anos 2000, sob a bandeira «decrescimento», assente numa crítica da sociedade de consumo e do liberalismo. Formam hoje uma corrente atravessada por várias escolas teóricas e umas capelas, nem sempre fáceis de circunscrever. Na Europa, nos Estados Unidos, uma ladainha de coletivos cogita igualmente sobre o assunto. «O decrescimento é um conceito guarda-chuva, simultaneamente político, económico e social, e agrupa várias ideias mais ou menos ridículas», explica Giorgos Kallis, economista especializado em ecologia na Universidade Autónoma de Barcelona. Mas, afinal, desde adeptos do "crescimento verde" e do "desenvolvimento sustentável" aos que insistem no malthusianismo, todos parecem concordar num ponto, que o artigo aponta: a crítica do produto interior bruto (PIB), que hoje está no cerne das nossas políticas públicas, como critério primeiro do desenvolvimento económico e social.

 

   É verdade que no pós-guerra, e até aos anos 1980, o crescimento económico se traduzia mecanicamente por um aumento do bem estar, tanto nos países industrializados como nos emergentes. «Mas, desde então, essa relação já não é evidente», sublinha Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável na universidade britânica de Surrey. Primeiro, porque a atividade industrial gera uma poluição que degrada cada vez mais a qualidade de vida. Além disso, uma parte do crescimento é doravante arrastada pelas despesas ligadas aos problemas gerados pelo desregulamento climático - secas, inundações, subida das águas... Finalmente, os frutos desse crescimento são cada vez menos bem repartidos entre as classes sociais. «O crescimento, não só deteriora as condições de vida na terra, mas já não permite reduzir as desigualdades e favorecer o bem estar», resume Dominique Bourg, filósofo na Universidade de Lausanne

 

   3. O já famoso sociólogo alemão Michael Hartmann publica este ano mais um livro sobre "os desconectados", as elites desligadas das gentes: Die Abgehobenen: Wie die Eliten die Demokratie gefährden (Campus, 2018). Aí vou buscar mais umas achas para a nossa reflexão de hoje: As elites na Alemanha, mas também noutros países, já não sabem o que possa ser a vida da maioria da população: muitos dos seus membros vivem em bairros homogéneos. Têm um quotidiano diferente, outros lazeres, outras oportunidades. E, referindo-se a Joe Kaeser, o PDG da Siemens, cujo salário horário atinge os 3 mil e 500 euros, e que aconselhou os pobres a comprarem ações para se enriquecerem, comenta: É evidente que Kaeser nem consegue imaginar a existência de pessoas que nem sequer têm dinheiro suficiente para poder poupar pelo menos um bocadinho... Por muito bem intencionado que seja, e desejoso de proceder a reformas da sociedade francesa, Macron não consegue escapar à acusação generalizada de que está com os ricos -  e não ao lado dos pobres. Porque, mais alto do que qualquer apelo ao diálogo e à busca de soluções acordadas no presente e projetadas para o futuro, soa o grito de raiva pelo engano sofrido de classes sociais que - no cotejo com os privilegiados, hoje inevitável - se sentem abandonadas pelo poder político que julgavam potencialmente mais atuante em democracia. Donde também este mal estar que, nos dias que correm, connosco habita os nossos Estados de Direito pouco democrático...

 

   Verifico que, em Portugal, quiçá pela sua tradição estatal e centralista, as manifestações reivindicativas de direitos sociais surgem sobretudo de corporações sectoriais ou profissionais vinculadas ao serviço público ou ao aparelho do Estado: transportes públicos, professores e auxiliares, médicos e enfermeiros, bombeiros e forças de segurança,magistrados... Todos sectores de atividade que, deste ou daquele modo, com mais ou menos força, sempre podem afetar interesses vitais ou fatores essenciais ao bom funcionamento do corpo social. É assim aparente mais uma discriminação, entre cidadãos melhor ou pior protegidos, sobretudo num país onde o recurso ao Estado-Solução é sempre insinuante...

 

   Para terminar esta carta, aproveito a ideia de já não ser evidente que o crescimento económico seja, só por si, fator de desenvolvimento social e político (conceito, aliás, bem subjacente ao sonho do fim da História, de Francis Fukuyama) para referir a resposta de Carlos Gaspar, em entrevista ao jornal Público, a uma pergunta sobre se, no Ocidente, se acreditava em que a abertura económica seria acompanhada de uma abertura política na China: Existia essa ilusão. Os liberais norte-americanos defenderam, com o seu otimismo histórico e incorrigível, que a abertura económica e a ascensão de uma classe média, urbana, com dezenas de milhares de estudantes nas universidades, levariam naturalmente a que, a partir de um certo nível de desenvolvimento económico e social, as classes urbanas iriam querer instalar um Estado de direito e um regime de democracia pluralista. Não tinham razão.

 

   Falar-te-ei do Portugal-China em carta futura. Retomando temas que já tinha abordado em cartas mais antigas. Sobre o conceito de Tianxiá e as tempestades e/ou bonanças que poderão, ou não, surpreender-nos.   

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Hoje, já me interrogo sobre se o sentimento de superioridade do vulgo português será uma sensação de pertença a uma raça eleita (seja o que for que isso signifique), ou antes a convicção de uma insuperabilidade pessoal, isto é, de quem - Zé Povinho ou Urraca Antiga - se sente sempre comparativamente melhor, atendendo aos critérios a que ocasionalmente vá submetendo os cotejos consentidos. A minha nação poderá estar cheiinha de defeitos, os meus compatriotas poderão ser todos, ou quase, uma cambada de gente pouco recomendável, mas eu inda serei um trunfo fora do baralho, pouco ou nada tenho a aprender com os outros, tudo faço como me der na bola... Esta segunda hipótese oferece quiçá a vantagem de veicular a conciliação da autoconsciência da própria superioridade com a tão complexa subconsciência da sua receada inferioridade. Mas, infelizmente para os próprios e para quem os queira orientar, é tremenda caixa de pandora de traumas e problemas essa tal subconsciência da própria alteza. Tenho, para comigo, que, ao abri-la, se libertam e revelam carências de convívio e cultura, ou uma qualquer medrosa incapacidade de diálogo. Por isso mesmo tanta gente só se descontrai e respira quando se sente em sintonia inata no ambiente do seu grupo, onde reinam concordâncias recíprocas e preconceitos comuns, e facilmente surge uma agressividade fautora de processos de intenção relativamente às outras espécies, aos de fora! A cena política portuguesa e a sua circunstância, muitos artigos de opinião e - arrepiantemente - os comentários de leitores "on line" a notícias publicadas (sejam falsas ou não) dão triste testemunho dessa realidade. E, mais tristemente ainda, da falta de objetividade e liberdade interior - ou seja, da ausência de espírito crítico - do português vulgar.

 

 [Relembro, Princesa de mim, que o espírito crítico, contrariamente ao leviano, procura ser bem informado e rigoroso - é culto, no sentido de que se lavra - não é boateiro, nem a montante, nem a jusante; e não é clubista.]

 

    Resulta da leviandade reinante - da pressa de se tirarem (de factos ocorridos ou meros rumores, de ditos mal avisados ou mal contextualizados) projeções mediáticas ou vantagens concorrenciais - não serem as questões nacionais postas em contexto de diálogo construtivo, nem os factos, os actos e os ditos objetivamente analisados... Tudo, insistentemente, se coloca em perspetivas parciais, preconceituosas, facciosas, "marketingosas". Os debates públicos tendem mais a ser processos de intenções do que exercícios conjuntos de esclarecimento mútuo e busca de compreensões e soluções para serviço do bem comum. Ou, quando se fala de si mais do que se acusa o outro, reclamam-se glórias e baratinam-se promessas. O resultado de tudo isto é o descrédito e a desconfiança ambientes. Só quando, em verdade, nos dispusermos a trabalhar pelo aperfeiçoamento geral - e, por isso mesmo, procurarmos ser mais perfeitos e ajudarmos os outros (próximos, achegados ou divergentes) a querer sê-lo também - é que estaremos consonantes com Jesus (Lucas, 6, 45, tradução de Frederico Lourenço): A pessoa boa tira do bom tesouro do seu coração o que é bom; e a pessoa má, do mau tesouro tira o que é mau; pois é a partir da abundância do coração que a boca fala. A boataria maledicente ou insidiosamente suspeitosa, a indigitação apriorística de bodes expiatórios, os incessantes ataques "ad hominem", a arrogância de quem sempre se julga com razão (até porque os outros, doutro clube, partido ou cor, são invariavelmente incompetentes, ignorantes, mentecaptos ou tudo isso ao mesmo tempo) vão quotidianamente enevoando o ambiente, tornando-o caótico e incompreensível, quando não o envenenam, tornando-o irrespirável e detestável.

 

   Assim, também eu - que tanta gente por aí classifica como homem de direita - não conheço qualquer direita portuguesa, enquanto fundamentação e organização de ideias, ou proposta de programas. Aquilo a que por aí se chama direita é uma mistura líquida de pensarsentires que vêm de antigos regimes e vão até fantasias liberais (e ultraliberais) ou levam a posições conciliadoras de eleitores mais ao jeito da social-democracia. País de população maioritariamente católica, nunca Portugal registou com força um partido da chamada democracia cristã. Curiosamente, o programa político de 1933 (Estado Novo) foi o que, teoricamente embora, mais incluiu apropriações de princípios coincidentes ou decorrentes dos defendidos pela encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII. Noutros países europeus, monarquias e repúblicas, de maioria católica ou protestante, traços, ora marcantes, ora mais ténues, durante décadas foram distinguindo, mutatis mutandis, conservadores dos liberais, ambos dos socialistas, e todos estes dos democratas cristãos. Mas a várias vicissitudes históricas, mais ou menos traumatizantes (guerras, descolonizações, envelhecimento das populações autóctones), juntaram-se outros fatores de mudança (imigração massiva, crises de identidade e dos regimes políticos e socioeconómicos). E a decorrente confusão demográfica, cultural e social propicia surtos de incertezas, incompreensões e receios, cujo alastramento - até por falta de convicção e de reação clara das estruturas políticas existentes - abre alas à entrada crescente de propostas populistas, mais inspiradas por ressentimento, raiva ou descontentamento do que pela procura serena e justa de soluções democráticas e construtivas de futuro comum. Dividem-se, cada vez mais, os povos e as gentes, em bons e maus, "nossos" e do reviralho, ao ritmo do volume crescente da gritaria desgarrada geral: reivindica-se, exige-se, desespera-se, mas pensa-se pouco e, com calma, nada. Esquecemos que é indispensável acertar o tempo e o modo necessários à viabilização de qualquer projeto, uma revolução sendo, por definição, o regresso ao ponto de partida, à estaca zero. Mais os prejuízos e as oportunidades perdidas entretanto. E vamos olvidando os pobres, os mais pequenos, porque os brados indignados que hoje ouvimos são, cada vez mais, os das classes sociais que foram tendo acesso ao consumo que comanda o desejo e o lucro. Aliás, aqueles que foram sendo retirados da subterra humana da pobreza, em todos os países do mundo, são os que mais teimarão em superar a herança do que foram, são os que quererão possuir mais. A erradicação da insuportável pobreza não é questão resolúvel sem uma política voluntarista de inspiração ética humanista. Já pensaste, Princesa de mim, em quantas populações foram privadas dos seus ecossistemas, ou remetidas à sordidez de desterros suburbanos? Tudo isto dá, e muito, para pensarsentir...

 

    Pois também é claro que as ideias e os programas, como os interesses e os objetivos, vão evoluindo e mudando, como as próprias pessoas. Mas, da medida do rigor racional na formulação de juízos críticos, isto é, da liberdade cultivada do espírito crítico, irá sempre depender a animação dos grupos cívicos que pretendam propor ideias e práticas ao exercício político da governação. O que será sempre melhor do que nos entretermos, cada um a seu jeito, com diferenciar-nos entre bons e maus, desde certas "esquerdas" que apelidam de "direitas fascistas ou fascizantes" um ramalhete de partidos - cujas flores podem, além do CDS e do PSD, eventualmente incluir a rosa socialista - a "irónicos"  autoproclamados "direitistas" que se acham o "máximo, pecébe?" quando só apontam disparates às "esquerdas encostadas".

 

   A própria ideia de esquerda e direita pressupõe a visão clara dos posicionamentos relativos de uma e de outra... Mas, na atualidade, com a raríssima exceção de certa esquerda ou direita passadista, todos dançam o vira da confusão em torno de um ponto que a todos faz girar: a caça ao voto, a busca da popularidade necessária a um lugar ao sol.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Neste dia mais alegre do novembro deste ano, a luz animando os campos que daqui avisto já nos aconchega mais - corpo e alma que, dizia S. Tomás de Aquino, fazem uma só pessoa - do que a cinza monótona que nos vinha pintando o ar em Outono chuvoso e sombrio. Hoje, como em dia de festa, das minhas janelas descubro manchas claras de luz, quinhões de amarelo e verde pálido ali, e outros, acolá, já da cor de fogo que nos anuncia lareiras e a mim recorda passeios antigos em longínquas paragens, desde o upper-state New York ao Kyomizudera, em Kyoto, quando as árvores outonais (como os momiji) bacantemente nos oferecem ramos com chamas de oiro e vinho. Menos melancólico, volto à leitura abandonada de vários jornais empilhados; reparo em duas entrevistas que, talvez por terem sido feitas a duas pessoas heterodoxas, eu emparelhei no meu ruminante pensarsentir. Duma delas tiro para aqui apenas duas declarações, ambas curtas, mas incisivas: à pergunta Acha que os portugueses têm sentimento de superioridade?  -  Vasco Pulido Valente responde Têm! Com certeza que sim!; e à Como é que vê a direita portuguesa hoje? - contesta: A direita portuguesa hoje não existe. Existem pessoas de direita, não existe direita. [Cf. Público de 21 de outubro]. Da outra, respigo uma resposta mais longa, de Romain Gary a Jacques Chancel, em junho de 1975, no programa da France Inter intitulado Radioscopies, uma espécie de confessionário mediático e laico para escritores, artistas, filósofos, etc., que eu costumava ouvir quando morava em Paris e Bruxelas. As Éditions du sous-sol publicam agora uma antologia escrita dessas conversas. À pergunta Você parece ter muito interesse pelo tema mulheres, que, em sua opinião, não são suficientemente consideradas. Mesmo na hora presente, em que tanto se fala nelas... Resposta: Mesmo sem nos metermos pelo domínio do feminismo propriamente dito, há uma assustadora ausência de feminilidade na nossa civilização. Não quero entrar por propósitos religiosos, até porque sou incréu, mas se olharmos para a palavra de Cristo, ela é essencialmente feminina. A voz de Cristo era uma voz de mulher, pelo menos no sentido tradicional desse termo. Ternura, piedade, amor, bondade, perdão. Mas essas virtudes estão totalmente ausentes de dois mil anos da nossa civilização. Além da igualdade homens-mulheres, que é evidente, é necessária uma transformação dos valores ditos «masculinos» em valores femininos. É por isso que não compreendo os movimentos feministas que se reclamam duma espécie de masculinidade, em partes iguais com os homens. Deviam, pelo contrário, entrincheirar-se cada vez mais, e elaborar valores femininos para com eles fecundar a nossa civilização. Mas talvez seja uma visão demasiado idealista das coisas...

 

   Como sabes, Princesa de mim, também vivo de sonhos e gosto de utopias. E as utopias que alimento sustentam este meu fado de estar dentro e além do mundo, insatisfeito no insatisfatório. Sentir-me em busca de um consolador eterno feminino é mais do que desejar a doçura da condição regressada de ser "maternado" (que, aliás, inspira o sentimento japonês do amae, essa saudade do leito materno): é procurar a mulher como futuro do homem (evocando Aragon), aspirar ao amor da criação inicial, como condição e estrela da vida... Nada há de machista nisto, uma mulher também poderá falar do homem como seu futuro, sem feminismo. Refiro-me ao livro, recentemente publicado, da autoapelidada intelectual católica de esquerda, escritora e jornalista, chefe da redação de Témoignage Chrétien, Christine Pedotti de seu nome. Com o sugestivo título de Jésus, l´homme qui préférait les femmes, retrata - cito a autora - um homem vertical, sábio, pregando a boa nova; descobri-o debruçado, atento, à escuta. Via-o seguro do que dizia, sage e severo, enunciando afirmações poderosas; espantava-me achá-lo perturbado, emocionado, admirativo, mas sabendo também brincar com humor, cheio de piada e de prontas respostas... E a mulher que sou, lenta e seguramente, deixava seduzir-se pelo trintão galileu. Dei-me conta de que, até então, tinha "amado" Jesus projetando sobre ele uma falsa imagem ; via-o com os olhos dos homens que me tinham precedido ao longo dos séculos. Ao fim dessa primeira experiência, soube que era preciso voltar aos textos evangélicos, de modo a prestar particular atenção ao que se passa entre Jesus e as mulheres.

 

   A primeira descoberta da sua nova leitura dos evangelhos, segundo a própria Christinne Pedotti, surge pelo seguinte trecho do de São Lucas (13, 10-17), aqui na tradução de Frederico Lourenço: Jesus estava a ensinar numa das sinagogas. E eis uma mulher com um espírito de cansaço havia dezoito anos; andava curvada e não conseguia endireitar-se completamente. Vendo-a, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, foste liberta do teu cansaço.» E impôs-lhe as mãos. No mesmo instante, ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus. Reagindo, o chefe da sinagoga, indignado por ver que Jesus fazia uma cura ao sábado, disse à multidão: «Seis dias há durante os quais se deve trabalhar. Pois nesses dias vinde para serdes curados - e não em dia de sábado.» O Senhor, respondendo-lhe, disse: «Hipócritas, não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou o seu burro da manjedoura e o leva a beber? E esta mulher, sendo filha de Abraão, presa por Satanás há dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão a um sábado?» Dizendo isto, envergonhavam-se todos os seus adversários e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que ele realizava.

 

   O comentário da escritora francesa vai pertinentemente revelar a singularidade deste passo da Boa Nova: A maior parte dos comentários falam da relação de Jesus com o sábado e, portanto, com a Lei. E ninguém repara no nome que Jesus dá a esta mulher: «Filha de Abraão». Ora, ao investigar um pouco mais, descubro que nunca tal expressão antes foi empregada em todo o texto bíblico. Até ali, só havia «FILHOS» de Abraão. Só os homens pareciam abrangidos pela promessa feita ao patriarca, só eles recebiam na própria carne a circuncisão como sinal de aliança. Ora Jesus faz dessa mulher endireitada uma filha de Abraão. Faz parte da aliança em nome próprio e não como filha de seu pai ou esposa de seu marido. Como é possível que ninguém tenha jamais reparado nisso?

 

   E eu, que tampouco me dera conta de tão revelador pormenor, devo reconhecer o sentido e a razão do remate daquele comentário de uma cristã atenta: É a própria personalidade de Jesus que surge sob novo dia. A par e passo da leitura, torna-se claro que nunca Jesus remete as mulheres a papéis reservados ao seu sexo. As mulheres não são virgens, nem mãe, nem esposa por «natureza». Antes pelo contrário, elas são discípulas, parceiras de conversa, por vezes profetas, nunca submissas nem silenciosas. Talvez fossem precisos olhos de mulher para o descobrir. Mas era também necessário que esse olhar fosse o de uma mulher que beneficiara de várias décadas de combates das mulheres pela liberdade e a emancipação.

 

   Historicamente, sem dúvida, tratou-se, tem-se tratado, de uma luta pela emancipação. E hoje ainda, um pouco por todo o mundo e muito em certas zonas dele, há ainda muito a fazer pela libertação das mulheres, sujeitas a jugos absurdos. Mas, sempre focado na busca da essência das coisas em cada um de nós, prefiro chamar-lhe reconhecimento. Não só no sentido de regressarmos ao conhecimento fundamental da nossa unidade ontológica - até no sentido claudeliano de connaissance= co-naissance ou "nascimento com" - mas como atualidade de nos vermos num espelho.

 

   [Há dias, lendo diagonalmente uma entrevista dada pelo superior nacional de uma congregação religiosa, deparo com uma tremenda justificação do facto de limpezas, arrumos e demais serviços domésticos das residências dos seus numerários masculinos serem funções atribuídas a numerárias femininas, por Deus ter dado às mulheres a graça e o dom de tratar da casa... Só me ocorreu, na altura, enviar ao senhor padre superior um lembrete daquele passo do evangelho em que Jesus responde a Marta que, ocupada em lides domésticas, lhe pede para admoestar Maria que, quieta e silente, o escuta ensinar : "Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada"...

 

   Sempre defendi, e defendo, que a distinção social entre homem e mulher é eminentemente cultural: no seu tempo e no seu modo, cada cultura atribui, na sua circunstância, estatutos femininos e masculinos, define e estatui valores próprios a cada sexo e género. Assim, só aceito que a voz de Cristo, enquanto expressão de "ternura, piedade, amor, bondade, perdão" (diz R. Gary) seja uma voz feminina, no "sentido tradicional desse termo". Masculino ou feminino, o nosso ser é originalmente humano, o próprio Eros é o amor em busca da união inicial (lembra-te de L´érotisme do Georges Bataille).

 

   Até a narrativa bíblica do Génesis consagra tal união ontológica em ambos os relatos da criação do ser humano: num, o segundo, mais imaginativo, diz que Deus adormeceu o homem para lhe retirar uma costela da qual fez a mulher; no outro, o primeiro, mais assertivo, limita-se a afirmar que Deus criou o ser humano, criou-o homem e mulher. Naquele, o ser humano resulta da argila que recebe um sopro de Deus, que lhe dá vida própria, muito embora o retire da mesma terra. No primeiro relato, todavia, o ser humano, na unidade inicial do casal, é o ser vivo criado à semelhança e imagem de Deus. Indivisivelmente: Deus criou o humano à sua imagem / à imagem de Deus o criou / homem e mulher os criou... E, neste presente contexto, ao evocar a Bíblia, não o faço invocando um texto religioso. Apenas recordo que, milénios atrás, já prosa de humanos registava essa consciência da unidade ontológica dos géneros.

 

   Sobre o alegado sentimento de superioridade (machista ou não) do português comum e da inexistência de uma direita política em Portugal - que Vasco Pulido Valente referia - falaremos em próxima carta.

 

    Até lá, Princesa.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Continuo entrevado, aquieto-me no estaleiro cá de casa. Sempre me vou aliviando a escutar, de olhos mansamente cerrados, várias interpretações das sonatas de Mozart para violino e piano. Recorro com alguma frequência a esta forma de comunhão: o compositor é o mesmo, as pautas têm as mesmas linhas com as mesmas frases musicais, mas... mas, todavia, cada intérprete tem o seu jeito de percutir o teclado do piano ou de passar o arco pelas cordas vibráteis do violino... Tal como escolhe as suas cadências, e tem momentos diferentemente inspiradores de tempos e alongamentos... O músico e, assim também, o poeta e o prosador, sentem as notas e as palavras, pensamsentem-nas até em imprevistos modos possíveis. No fundo de si talvez queiram que sons, imagens e ditos, sejam tão infinitamente generosos quanto a mesma dádiva que são... Por isso mesmo qualquer arte humana nasce, dá-se e comunga-se, só não morre porque é essencialmente feita e animada de reticências... Assim será também a liberdade, desde a primeira Criação. Como se o ato de criar fosse, de por si próprio, o seu princípio e a sua suspensão...(reticências). Para que a liberdade seja chamada a dar os seus passos e a colaborar na multiplicação dos possíveis...

 

   Shmuel Trigano - de quem já te falei - é professor na Universidade de Paris X (Nanterre) e diretor do Collège des Études Juives de l´Alliance Israélite Universelle, autor de farta obra, onde distingo o livro Le monothéisme est un humanisme (Odile Jacob). Em 2005, publicou no nº39 da revista PRADÈS, que reunia estudos sobre "A Bíblia e o homem", um artigo intitulado Deux visages dans le même Être, que reli esta manhã e de que traduzo os três primeiros parágrafos, pela sua atinência ao que acima te escrevi:

 

   Não podemos considerar a perspetiva bíblica decorrente da proposição segundo a qual o homem é «à semelhança de Deus» sem refletirmos na sua condição de ser criado, de «criatura», que ele experimenta logo ao dealbar dessa sua mesma condição, pelo facto de ter nascido.

 

   A ideia de criação, criação a partir de nada, é eminentemente difícil de compreender, quando nos preocupamos com as suas implicações e os seus pressupostos. Ela é a rocha angular do monoteísmo. A criação desempenha o papel de «uma cena primitiva», que ressoa no conceito que fazemos do humano.

 

   Chamando ao Criador - único papel no qual o homem, enquanto ser criado, reconheceria a Divindade - «o Ser», YHVH, (o Tetragrama foi forjado sobre o radical do verbo ser conjugado no futuro: «Ele será») a Tora consegue um feito de armas. Se Deus é o Ser, efetivamente, e se é único e universal, levantam-se algumas questões para as quais já não há resposta mitológica, mas apenas filosófica, pois que, desde a Grécia, a preocupação da filosofia é o ser, To On.

 

   Parece-me interessante seguirmos, Princesa de mim, esse percurso inquiridor do filósofo e teólogo judeu que Shmuel Trigano é: Como é que um ser novo e suplementar pode surgir onde já está um ser único? Como é que o ser, que já concebemos ego-centrado, pode arranjar lugar para outro, distinto dele e dele saído? [...] Como pode o segundo vir do primeiro no mesmo ser e, contudo, separado e distinto, ao ponto de ambos se apresentarem um ao outro com rosto específico a cada um? Eis a questão absoluta do humano. O ser seria, de certo modo, fraturado, mantendo-se todavia único na sua dinâmica. A criatura, segundo o Génese, seria assim radicalmente diferente do Criador, mas «à sua imagem», de modo a partilhar com ele, sob diferentes modalidades, uma comunidade de ser. [A esta luz, qualquer leitura de Espinosa se torna mais entendível em si e bem mais reveladora das raízes judaicas do pensamento do sefardita português excomungado da sinagoga de Amsterdão].

 

   Vou repetindo a escuta das sonatas de Mozart, inspiradoras destas meditações a que te chamei. Quiçá mergulhando na contínua surpresa daquelas frases musicais, eu vá paulatinamente contemplando a infinitude do ser que é também o de cada humano. E traz-me luminosa alegria essa perene descoberta de um caminho que nunca saberia desenhar. Já nem sei se o percorro no tempo fragmentado que é o nosso, ou no outro nosso, nem curto nem comprido, pois que nele se confunde o fim e o princípio... Talvez ser humano seja ser em relação e em expansão... Dou a palavra a Trigano:

 

   Ao criar o homem embrionário, o ser declina-se no futuro. De si diz ao homem «Eu serei», simplesmente porque o homem ainda não está no presente, presente a si mesmo. O Tetragrama, YHVH, é formado por um presente (Hoveh) e um prefixo de futuro (Y). O mesmo é dizer que o presente do sábado é fugaz e intermitente, um tempo no qual o homem ainda não pode dizer, como Descartes, «Eu sou»... O presente só pode ser anunciado, ater-se ao futuro, na medida em que esconder a presença infinita, essa que não pode desdobrar-se no presente embrionário em que se encontra a criação inacabada e em que o homem ainda não nasceu, ou apenas nasceu «prematuro». É neste sentido que o homem ultrapassa a sua finitude. O tselem divino, «a imagem de Deus», trabalha o seu ser e o seu tempo, prometendo-lhe uma presença para além do presente, maior do que ele, e que tornará possível o cara-a-cara que a aliança lhe trará.

 

   Pensossinto, Princesa, vivo muito a música que me envolve os dias como caminho simultaneamente novo e inacabado até essa presença que todos os dias em mim é já, por ainda estar ausente! Talvez a graça dê muitos nomes à esperança ou muitas notas musicais que soam como se, em busca do inefável, as fôssemos tacteando...Mas persiste o mistério da criação, e esse é o que um Mozart e todos os seus intérpretes, todos os dias, nos podem recordar. A árvore genética do fruto proibido será então metafórica: o nosso castigo não é ganhar o pão com o suor do rosto porque, sendo o ser humano criatura, ele logo quis ser igual ao Criador; o nosso exílio não nos separa da dinâmica do ser vivo, antes nos desafia ao uso da nossa liberdade para que muito mais alegria se construa. Nos livros da Nova Aliança - a que chamamos Novo Testamento - o cara-a-cara, a transparente visão da Presença, começa já e perdura: amai-vos uns aos outros, para que seja completa a vossa alegria... 

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Prosseguindo na mesma linha de pensamento, ou de encadeamento de interrogações - mas noutro registo - falo-te nesta carta de uma resenha que Éric Zemmour, intelectual tenor da direita francesa, faz, em Le Figaro de 4/10/2018, ao livro de Régis Debray, figura da esquerda universal, intitulado L'Angle Mort (Éditions du Cerf, Paris, 2018). Este opúsculo, aliás, mais não é do que a reprodução de uma conferência do autor, proferida, a convite de Élie Barnavi, ex-embaixador de Israel em França, como lição inaugural do último encontro dos Rendez-vous du Bastogne War Museum, cujo tema foi, em março deste ano de 2018: Le Terrorisme: sommes nous en guerre? Traduzo alguns trechos do artigo do Zemmour:

 

   Há duas maneiras de ler a última obra de Régis Debray: ficarmos pelo que ele escreve, ou compreendermos - e adivinharmos - o que ele diz por meias palavras. Também há dois livros nesse texto: uma penetrante análise da confrontação entre djihadistas e as nossas sociedades ocidentais, através da relação - antagónica - de cada lado com a morte; e uma reflexão sobre a capacidade duma civilização - a nossa - sobreviver quando já não acredita numa vida depois da morte.

 

   Zemmour observa atentamente essa distinção diamantina, cortante, que Debray firmemente traça assim: onde nós vemos vazio, eles vêem plenitude...   ... desde que rompemos com a origem, apenas poderíamos perder o fim...   ... para que haja um paraíso prometido, é preciso que haja um paraíso perdido. Sou, como sabes, leitor fiel de Régis Debray, já várias vezes de falei do seu Dieu, un itinéraire - de que há tradução portuguesa (Deus, um itinerário, Ambar, Porto, 2002) - e lembrei que o filósofo francês faz, entre outras, a distinção entre religiões com clero e sem clero, com o propósito de demarcar as que, pela autoridade da interpretação eclesial de textos sagrados, asseguram, como a Igreja Católica, uma unidade de doutrina, em oposição às que deitam fogo à pradaria, como movimentos do fundamentalismo islâmico ou, já nos séculos XVI/XVII, do sectarismo de confissões protestantes. Sendo eu - tal como tu e tanta gente sabe - anticlerical (isto é: contra o clericalismo como regime de poder de classe) sou insuspeito quando afirmo que não pode haver serviço de igreja sem clero, o que não significa que este, como classe, tenha qualquer poder exclusivo discricionário e pouco atento à vida eclesial. Pois antes deve ser parte da organização do ministério necessário à comunidade dos crentes. Também aprecio um retrato de Debray por Zemmour: Debray é um progressista contrariado, tal como há canhotos contrariados. Ele acreditou nos amanhãs que cantam, nesses 1789 e 1917, todas essas novas alvoradas da humanidade que nos prometiam futuros radiosos, todas essas versões laicizadas do messianismo judeo-cristão. A experiência e a História sempre o desembriagaram um pouco. Mas prefiro, até por essa experiência, que iniciada na sua juventude, foi refletidamente evoluindo, a sincera descoberta ou novidades de Régis Debray: Progressismo, cientismo, socialismo. A perda do Deus futuro fez do futuro o nosso Deus...   ... Quem poderá ainda duvidar de que a pós-modernidade será cada vez mais arcaizante? Arcaico não é o que está caduco, é o enterrado que remonta à superfície em caso de crise geral, visto que o mais resistente, num indivíduo como numa coletividade, é o que nele é mais antigo.

 

   Eis palavras luminosas na busca de um sentido para a vida humana, seja no oriente ou no ocidente, no tempo circular ou no tempo escatológico. Não nos falam de uma relíquia, algo que resta ou sobrou, mas de algo vivo, alma que, no fim do percurso, se reconhece no princípio de tudo.

 

   E vamos vendo, cada vez mais, em comunidades e escolas do Islão, um número crescente de crentes que buscam na leitura dos seus textos fundamentais a visão do Deus Vivo dos vivos, já não o castigador deus dos mortos, mas o Misericordioso. Infelizmente, a nossa generalizada ocidental cultura ainda largamente reserva, no seu seio, desconfianças agrestes e fobias de outras culturas e expressões religiosas, o que muito dificulta o exercício da saída para o encontro e o diálogo, este nunca sendo possível sem um esforço de escuta atenta dos outros para se iniciar o cultivo cooperante dos campos do entendimento e da paz. Bíblia hebraica, Novo Testamento cristão, Alcorão - todos esses livros e coletâneas têm várias leituras possíveis. Se assim não fosse, talvez não tivesse havido tanta guerra religiosa, menos ainda tantos cismas que ainda hoje dividem cada confissão em diferentes igrejas, sinagogas, madraças, seitas e escolas... Parece-me, e tanto o tenho dito, que não há cultura da paz possível sem essa entreajuda cooperativa, não só das religiões, como de todos os seres humanos de boa vontade, no sentido apocalíptico da descoberta da dignidade e da misericórdia de todos e cada um, e a todos comum, em cada uma das diferentes expressões de que se reveste. Mais vale apoiarmo-nos na busca da paz do Deus misericordioso de tantos muçulmanos, do que fechar-lhes a porta do diálogo, só pelo receio ou o ódio que nos suscita o fanatismo religioso de muitos outros. Sem saída e caminho não há encontro possível.

 

   Para já, o fanatismo suicidário, por exemplo, dos que se fazem explodir para atentar contra outros, apesar da repugnante desumanidade que também é sua, pode também levar-nos a outra interrogação. Esta, igualmente assustadora, por nos confrontar com o nosso comodismo materialista - e, consequentemente, com a fraqueza relativa da nossa civilização num hipotético cenário de choque, à Samuel Huntington - deixo-ta aqui, para nossa reflexão, nas palavras de Régis Debray:

 

   Abismo negro e escancarado, o terrorismo de invocação divina merece, nos nossos países, para além de uma resposta musculada e sem hesitações, ser cada vez melhor localizado e perseguido. Mas que tal nos não faça fugir de um leal regresso sobre nós mesmos. O ato frequentemente suicidário do terrorista força-nos a pensar no que já não queremos, e até, com a ajuda da habituação, naquilo em que já não podemos pensar: o lugar da morte na nossa vida. Ou, mais precisamente, no facto de que ela já não tem esse lugar. Nunca nos saberemos explicar com esses "loucos de Deus", sem nos explicarmos com a nossa própria situação, nós que, como parece, nos tornámos sages ao ponto de já não acreditarmos em qualquer vida futura.

 

   Façamos o esforço de não confundir a árvore com a floresta e, sobretudo, de vermos primeiro as traves que nos tapam os olhos...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A atual Comissária Europeia para a Concorrência, Margrethe Verstager, filiada no partido social democrata, dinamarquês e europeu, tem sido visivelmente ativa no controlo, em defesa da livre concorrência, dos comportamentos, no mercado, de empresas ou grupos mais suscetíveis de a violarem. Receia que, sendo o presente governo do seu país de confissão conservadora, não venha a ser proposta para repetir o mesmo mandato na comissão a ser designada em 2019. Um velho amigo meu, muito rodado em andanças eurocráticas, diverte-se a cognominar a Comissária Verstager de "Margarida das Multas", em memória daquelas coimas bem pesadas que, por iniciativa dela, a Comissão Europeia aplicou aos gigantes Apple e Google (esta, aliás, tendo-as sofrido já por duas vezes, por abuso de posição dominante do seu comparador de preços e do sistema de exploração móvel Android).

 

   Outra grandeza do mercado, Amazon, está hoje sob investigação por nova suspeita de abuso de posição dominante. Diz a senhora comissária que se pretende assim facilitar a outras empresas a entrada em competição no mercado europeu, muito embora, cito, as quotas de mercado se mantenham sensivelmente inalteradas. Mas penso que o consumidor tem mais escolha e que o eco sistema empresarial europeu está mais dinâmico do que há uma década.

 

   ... Não queremos interferir nos negócios das empresas. Mas se suspeitarmos de que não fazem jogo limpo no mercado europeu, agiremos. Essas plataformas têm a especial responsabilidade de não utilizarem o seu tamanho para tornar as coisas mais difíceis para os actores mais pequenos. [Fim de citação].

 

   Destas notícias e declarações retirarei, Princesa de mim, uns tópicos para nossa reflexão conjunta:

 

  1. A excessiva partidarização de qualquer show off político, em jeito de marketing, em prejuízo da propriamente dita ação política, cuja motivação e cuja crítica ou, até, maior ou menor oposição, deveriam ser orientadas exclusivamente pelo discernimento do bem comum e sua prossecução, independentemente da cor partidária dos seus protagonistas e respetivas ambições estelares.

 

  2. A verificação da possibilidade de se garantir qualquer liberdade de concorrência nos mercados, a partir do momento em que se assegura, e até se fomenta, o aparecimento de gigantes empresariais com a capacidade financeira requerida para uma posição dominante no desenvolvimento e controlo (com vocação monopolista) de tecnologias de vanguarda.

 

  3. A interrogação das possíveis contradições dos sistemas e regimes políticos e económicos em vigor. Designadamente, da fé na "liberalização" dos mercados como fator sine qua non da otimização da eficiência económica e da justiça social. Exemplo bem conhecido de muitas regiões e cidades europeias, e não só, tem vindo a ser o que, em recente editorial, Le Monde intitulou Le Tourisme au Bord de l´Overdose: Um pouco por todo o lado, os autóctones exprimem a sua saturação dessa invasão incontrolada, até porque o maná financeiro trazido pelos turistas dificilmente compensa os desgastes colaterais. Os preços do imobiliário disparam, o emprego concentra-se em ofícios sazonais e mal pagos, o meio ambiente degrada-se, as cidades transformam-se em museus, em parques de atração ou em centros de permanentes libações...

 

  4. A interpelação ética da "filosofia" ou "sabedoria" consumista que motiva e orienta o nosso funcionamento socioeconómico. Tal será, mais ou menos, repetir a pergunta que serve de título a uma obra de Zygmunt Bauman, recentemente falecido e de quem tanto te tenho falado: Does ethics have a chance in a world of consumers? (Harvard University Press, 2008). Isto é: só se ainda acreditarmos que a ética deve ter um desempenho importante na nossa vida pessoal e coletiva, só assim será possível fazermos essa pergunta. Cuja resposta quiçá nos levará a perceber o sem sentido ou absurdo das ilusões materialistas correntes. Para refletires, traduzo-te palavras luminosas de Bauman: A vida de consumo não consiste em adquirir e possuir. Nem tampouco em nos desembaraçarmos do que adquirimos antes de ontem e de que nos gabávamos ontem ainda. Não, ela consiste, antes de tudo, a estar em movimento. A maior ameaça que pesa sobre uma sociedade que faz da "satisfação do consumidor" a sua motivação e finalidade, é precisamente a do consumidor satisfeito. Não tenhamos dúvidas de que o "consumidor satisfeito" seria uma catástrofe tão grave para ele próprio como para a economia consumista. Nada mais a desejar? Nada mais a procurar? Limitados ao que possuímos (logo ao que somos)? Tal situação - breve, se tudo correr bem - só poderia receber um nome de batismo: aborrecimento.

 

   A redução do ser humano a homo consumens, ou seja, a uma função inadvertida num processo económico de sentido totalitário, não só é limitativa da liberdade, como também da própria consciência de si e dos outros. A figura marxista da alienação denunciava, numa sociedade industrializada, o furto ou transferência objetiva do valor do trabalho. A figura do consumista, na nossa sociedade pós-industrial, representa uma forma nova de alienação da pessoa humana num processo económico em que ela serve a troco de objetivos materialistas a cuja busca ela é sistematicamente induzida. E esse passo dado, de ser para ter, a vai paulatinamente encerrando num egoísmo cego, que lhe tolhe o coração aos outros e lhe reduz o respeito por si mesma à capacidade do seu poder de compra. Ou ao "glamour" de qualquer possível exibicionismo.

 

   Entretanto, talvez por efeito do Prémio Nobel de Economia que lhe foi atribuído em 2017, o economista norte-americano Richard Thaler - tem ganho uma audiência internacional que os seus colegas em ciências sociais tardavam em dar-lhe. Sendo um dos pais (com Daniel Kahnerman, Amos Tversky, George Akerlof e outros) da dita economia comportamental, que se foi afirmando nos anos 80 do século passado, Thaler publicou, em 2015, com o título de Misbehaving - The Making of Behavorial Economics, um livro que resume as experiências que foram marcando o caminho da formação da economia comportamental como ramo da ciência económica que, contrariamente ao que afirma a teoria clássica, pretende que os seres humanos não agem racionalmente em função dos seus interesses individuais, mas, sim, da conjugação de fatores psicológicos, institucionais, culturais, históricos, biológicos... Ou seja: esta escola retorna a visão económica à sua circunstância social e cultural, não se fiando apenas nos modelos matemáticos construídos. Mas não será, então, básico reconhecer aí o ser humano, com suas frustrações e aspirações e, sobretudo, com essa parte de si que é insaciável e livre, de modo a que as propostas da ciência e da política económicas sejam mais libertadoras das pessoas e dos seus caminhos espirituais - e não mais, teimosamente, ir utilizando a perceção de comportamentos, suas motivações e condicionantes, para ir "aperfeiçoando" propostas de mais refinado "marketing" escravizante?

 

   Afinal, impõe-se reconhecer o valor, ou a necessidade, da ciência económica se ir debruçando sobre outras áreas circunstantes do próprio funcionamento ou intervenção do homo economicus, entidade abstrata, de que Richard Thaler já falava assim: O problema decorre do modelo utilizado pelos economistas, modelo esse que substitui o homo sapiens por uma criatura fictícia chamada homo economicus, e que, cá por mim, prefiro chamar econo. Mas fundamentalmente necessário, mesmo indispensável, será a conversão da ciência económica em ciência humanista, de modo a que, também na política, o ser humano seja o centro - e o bem comum a finalidade - do exercício e da regulamentação económica. Já em carta anterior, Princesa de mim, eu te perguntava por quem se lembre ainda do padre Lebret, dominicano francês, e do seu movimento, e escola, o tal chamado Économie et Humanisme...

 

    Todos nós diariamente ouvimos ou lemos acerca de orçamentos, défices, impostos, competitividade das empresas, produto nacional... mas quantos se lembrarão de que o número dos nossos irmãos portugueses que se encontram em situação de pobreza efetiva representa quase um quarto de todos nós? Para que serve tanta economia científica, diplomada e politizada? Podem apontar-me a dedo como idiota ou pateta - que talvez seja - mas tenham a caridade de responder à pergunta de Deus a Caim: Que fizeste de teu irmão?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A dado passo (página 72) do meu Fomos em Busca do Japão, escrevi: Já referi Shusaku Endo, e com ele nos interrogámos sobre o porquê do cristianismo surgir, aos japoneses, como estrangeiro. E verificámos, com o professor Suzuki Norihisa, como o cristianismo progrediu no Japão em tempos de mutação social e subversão de valores, mas esses são, simultaneamente, períodos em que também se faz sentir uma maior necessidade de coesão nacional. Esta manhã, relendo este trecho e outros que adiante citarei, ocorreu-me ainda um passo do An 1000 An 2000 - Sur les Traces de nos Peurs, de Georges Duby (Textuel, Paris, 1995), livro que comprei e li em Tokyo, comparando a Europa medieval (aqui no século XIII) à presente: Também temos uma visão clara da evolução das mentalidades. Nesse período de forte crescimento, como atualmente, os filhos não pensavam como os pais. Apesar dessa sociedade muito hierarquizada cultivar de modo fundamental o respeito dos antigos. Qualquer súbito e novo modo de pensar é sinal, não só de mudança da circunstância económica, social, política e referencial (ou cultural), mas de um sequente salto para a frente de uma nova geração, seus modos de pensar e artifícios. O tempo e o modo: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

 

   O tempo e o modo do Japão - escrevia eu então - à hora da chegada dos portugueses, será a circunstância em que se desenvolverá o chamado século cristão, com o progresso rápido da evangelização e, depois, com as perseguições, até ao martírio de muitos (sobretudo japoneses) e à expulsão de todos os missionários e dos portugueses mercadores. As rivalidades entre senhores feudais, a sua própria concorrência ao batismo cristão para obterem armas de fogo e o benefício do comércio dos portugueses (sobretudo este, posto que, quanto a mosquetes, depressa os japoneses os fabricaram em Sakai); o movimento de unificação conduzido pelos senhores da guerra Nobunaga, Hideyoshi e Yeasu, este vindo a ser o iniciador do shogunato Tokugawa; a influência política das seitas e mosteiros budistas (e falarei dos kenmon); a desconfiança dos bakufu, aliás alimentada por adventícios holandeses e ingleses, de que a evangelização católica visava objetivos de cruzada e conquista política... Tudo isto pesou no destino do cristianismo e dos portugueses no Japão! Diga-se, a talho de fouce, que a tal ideia de cruzada não era apenas pura invenção protestante: os próprios Xavier, Valignano e outros jesuítas tiveram muitas vezes de enfrentar pessoas e conceitos firmados nas cortes portuguesa e espanhola, que defendiam que o Japão deveria ser outro Peru, como terra de conquista espiritual e temporal!

 

   Claro fique que os concorrentes holandeses e ingleses exploraram quanto possível o receio semeado, servindo-se da sua qualidade de cristãos protestantes e adversários dos católicos ibéricos. Não esqueças, Princesa, que aquilo a que hoje se chama a primeira globalização - e foi a expansão, primeiro ibérica, logo europeia, pelos cantos do mundo - a toda a parte levou essa mistura política, traduzida em guerras, de rivalidades económicas, concorrências comerciais, e confrontos religiosos fratricidas. Aliás, lutas entre irmãos, e intrigas, não foram apanágio exclusivo de reformados contra tridentinos e vice-versa: no Japão, por exemplo, a partir do momento em que se relaxou o Padroado Português e, pela rota de Manila, foram chegando missionários de outras ordens religiosas, também os católicos entre si se foram pregando umas partidinhas... Não quero fazer alarde de investigação histórica (nem sequer historiador sou, muito menos investigador) e procuro não te dar aulas, mas tão somente propor-te uma leitura descontraída de coisas passadas. Portanto, passo a ilustrar o período de que te falo com textos respigados do The Christian Century in Japan (1549-1650) de Charles Boxer (University of Califórnia Press, 1951). Traduzo-te alguns:

 

   Um dos lugares comuns da história é que não há confrontações mais amargas do que as engendradas pelo odium theologicum, que parece inseparável de qualquer disputa doutrinal e, mais ainda, em religiões como o Cristianismo e o Budismo que teoricamente deixam tal tensão à paz e boa vontade. O registo da Igreja Cristã a este respeito até é mais negro do que o dos sequazes do Iluminado, e a calúnia mútua a que as ordens católicas romanas chegaram no Extremo Oriente foi uma das principais causas do relativo falhanço das suas missões na China e no Japão. Como observou o Professor Murdoch [cf. Murdoch, James, e Isso, Yamagata, A History of Japan during the Century of Early Foreign Intercourse, 1542-1651, Kobe, 1903], a simples verdade dos factos é que, entre 1564 e 1614, pelo menos, entre jesuítas e franciscanos, no Japão, se chegou quase à guerra à facada, tal como sucederia no Paraguai, poucos anos depois. Não há historiações da Igreja que cheguem para esconder tal verdade a quem queira dar-se ao trabalho de gastar algum tempo a analisar as cartas que as missões daquelas Ordem e Companhia enviaram às respetivas sedes.

 

   Não tenho bem a certeza de em quem é que o Professor Murdoch pensava quando empregou o termo "historiações da Igreja" [Church historianizing], visto que os coevos participantes em tão pouco edificantes disputas não tentaram esconder o que tinham por verdade histórica, nem tampouco o fizeram os protagonistas Jesuítas e Dominicanos da igualmente amarga querela acerca dos ritos chineses, que convulsionou a Igreja Católica no século seguinte. Pelo contrário, a franqueza e chã linguagem dos seus respetivos porta-vozes não deixam a mínima dúvida da sua sinceridade, pense-se o que se pensar dos motivos (muitas vezes irrisórios quanto baste) que inspiraram essas erupções de inveja, ódio, malícia e falta de caridade. Frailes idiotas era um termo de opróbio usado pelos jesuítas muito antes de se tornar num grito de guerra dos anticlericais espanhóis no século XIX.

 

   [Ainda que não te escreva esta para te falar de história, aproveito-lhe a oportunidade de abrir um trecho só para te dizer que, na circunstância do Padroado Português do Oriente, em que se incluíam China e Japão, e apesar da sede do paralelo Patronazgo Espanhol estar nas Filipinas, a norma estabelecida pela coroa dos Áustria espanhóis, que submetia a si os dois reinos (Espanha e Portugal) e seus impérios, ordenava que a administração ultramarina de cada um fosse independente da do outro, bem como separadas as respetivas áreas de missionação. Desse modo, a presença e atividade das missões espanholas de outras ordens religiosas no Japão era ilegal, visto que, desde Dom João III, o Padroado fora confiado aos cuidados da Companhia de Jesus. Mas não te será difícil entender como o mui lucrativo comércio triangular (luso-nipo-chinês) era naturalmente cobiçado pelos mercadores espanhóis estabelecidos em Manila, onde arribavam pela rota do Pacífico, vindos do Peru... E a ganância pode muito.]

 

   Fechado o parêntese, volto ao tema da distorção de outrem e do próprio, por força, não tanto de divergências ou de propostas alternativas, em si mesmas, mas da concorrência entre rivais e das consequentes ganas de cada qual ser superior aos outros. É interessante verificar como a ideia das virtudes da concorrência como indispensáveis fatores de progresso e, finalmente, de justiça, não só fez dela a palavra de ordem para a viabilização de qualquer sociedade política e económica verdadeiramente liberal e democrática, como até canonizaram a agressividade como virtude heroica, e a ambição de dinheiro e poder como causa efetiva de saúde social e fim último do esforço individual.

 

  Concomitantemente se esquecem os efeitos colaterais ou secundários decorrentes da degenerescência da competição em tirania concorrencial. Ou, se assim melhor entenderes, Princesa de mim, se olvida a parábola do barranco de cegos. Tal como os missionários cristãos, no Japão do século XVI/XVII, não aprenderam com a lembrança de que uma das razões do seu êxito inicial na conversão de japoneses estar precisamente na incerteza que os nipónicos experimentavam com a divisão e a concorrência agressiva das seitas budistas entre si, tal acontecendo, diria o professor Norihisa, em período de necessidade de coesão nacional. Assim também hoje, muito se fala de crise das democracias liberais, ameaçadas por populismos, nacionalismos estremes ou, ainda, por agressões de fundamentalismos islâmicos e sabotagens russas e chinesas... Mas pouco se faz uma nossa introspeção -  exercício que talvez nos conduzisse à perceção de revisões necessárias da nossa cultura e comportamentos. Ao correr da pena epistolográfica - que, neste caso, é um teclado de computador portátil - vou então desafiar-te a recordares comigo alguns exemplos das nossas correntes contradições e perplexidades. Não seguirei qualquer ordem preestabelecida, vai tudo ao jeito do Vitorino Nemésio, isto é, do meu se bem me lembro... E assim irá por etapas, isto é, por cartas várias.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Não te falo agora, Princesa de mim, de um problema da consciência pessoal de cada um de nós, mas antes me preocupa a inspiração de uma atitude eclesial, isto é, o olhar da caridade sobre o justo e o injusto. E terei de te falar de uma questão insidiosa: a confusão corrente, que se pensa ser a da Igreja "oficial", entre crime e pecado. E, claro está, do embrulho mental e sentimental em que nos meteu tudo isso, pela  insistência em se manter uma intervenção jurisdicional da Igreja sobre o comportamento das pessoas, e em quase todos os aspectos das suas vidas. Entre amigos, como bem sabes, Princesa de mim, costumo dizer que a Igreja padece de um excesso de moralismo canónico e duma correspondente carência de esperança evangélica na acção do Espírito Santo... E esse moralismo começa assim que se considera qualquer ato mais importante do que a inspiração donde decorre ( A.-N. Bertrand, citado em A. Lalande: Vocabulaire technique et critique de la philosophie, 8ª edição, Paris, 1960). Caímos assim no domínio objetivo do direito positivo, a lei de Deus passa a ser lida mais como um código de conduta, com infrações textualmente identificadas, concretamente verificáveis por factos reconhecidos ou pelo reconhecimento, em confissão, dos seus próprios autores. Ora, parece-me que, em sentido ou espírito evangélico, o mandamento novo antes é uma vocação à santidade, um caminho de perfeição cujo prémio é a alegria da semelhança ao Pai (os nossos Padres até lhe chamavam regras de vida santa) do que uma regra totalitária que incessantemente nos ameaça com o inferno. O jugo de Jesus Cristo é suave, dá à nossa liberdade a oportunidade sempre renovada de cooperarmos com o Senhor Deus. Gosto muito daquela definição que o dominicano frei Jean Cardonnel dá do pecado: Le péché c'est la passion de nos limites. Na verdade, o pecado é essencialmente a desmesura do nosso contentamento com a nossa mesquinhez. É como querer fechar-se em casa, cerrando portas e janelas, em dia de sol e brisa mansa.

 

   A realidade do pecado não é catalogável, do mesmo modo em que o é, e tem de ser, pelo direito positivo, qualquer crime, com suas atenuantes e agravantes, como ato que é facto punível por pena objetivamente estipulada. Por isso mesmo, todos os crimes cometidos por gentes da Igreja - e a Igreja somos todos nós - devem ser devidamente denunciados e entregues ao juízo e sentença da justiça civil, pois que até a reparação possível de qualquer infração da lei e da violência sofrida por vítimas, ou da simples violação dos seus direitos, não pode ser isenta da norma que, por fundamento e definição, é, e deve sempre ser, equitativa, isto é, igual para todos.

 

   Outrossim, a Igreja não é um tribunal, nem humano nem divino. É, entre nós, a comunidade da misericórdia de Deus na terra dos homens. O seu serviço não é o de ameaçar ou punir, é o de nos chamarmos, uns aos outros, ao cumprimento da regra do amor, que conduz à visão de Deus. Pelo acolhimento na fé e pela esperança no amor misericordioso de Deus, pelo labor de lançar a ponte sobre esse abismo a que o diplomata e grande poeta francês Alexis Leger (conhecido como Saint-John Perse) assim se referia no discurso que proferiu quando lhe foi entregue o prémio Nobel, em 1960: O verdadeiro drama deste século está na distância que temos deixado crescer entre o homem temporal e o homem intemporal.

 

   E é certo:  a vocação, o risco e o compromisso da - chamemos-lhe assim - "aventura evangélica" de cada um não são sempre iguais, já São Paulo explicava bem como, no corpo da comunhão em Cristo, são muitas e diversas as funções, consoante os dons e o carisma, os serviços e as capacidades. E se a todos nos é pedido seguir Jesus na amoris laetitia, nem a todos é feita a mesma chamada a uma resposta absoluta, ou quase, que é renúncia a família e amigos, a bens e arbitrariedades... Por isso mesmo, a Igreja dos Apóstolos não exigia o celibato aos seus ministros, e o próprio São Paulo aconselhava a escolha dos bispos de entre homens casados e considerados bons pais de família. E o beato Bartolomeu dos Mártires, frade mendicante e dominicano (voluntariamente comprometido com os três votos: pobreza, castidade e obediência) enquanto arcebispo de Braga defendeu, no Concílio de Trento, que não se impusesse a obrigatoriedade do celibato aos padres católicos, pensando na dura vida dos seus párocos em serranias de Barroso.   

 

   A Igreja, hoje tão perplexa pelos escândalos de pedofilia no seu seio - sobretudo pelo envolvimento direto ou encobrimento dos mesmos por muitas das suas "Altas Patentes" (é minha a ironia da designação) - só tem todavia, como repetidamente disse, uma forma de tolerância zero para com os crimes cometidos: entregá-los ao poder judicial da sociedade civil, para que sejam julgados conformemente à lei comum. Aliás, tal gesto talvez inspire outros grupos sociais, confessionais ou laicos, todos, como a Igreja Católica, aí simplesmente cívicos, a diligenciarem o mesmo - pois sabemos bem quantos mais abusos de menores e sevícias sexuais, domésticas e não só, também fora da Igreja se vão cometendo... Esta deverá concentrar-se no exercício da misericórdia cristã para com todos os que, mesmo criminosos, para ela devem ser apenas pecadores. Evitando o disparate de pensar que, com absolvições e promessas de boas intenções se corrigem problemas deste gabarito. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Lembra-te, Princesa de mim, da palavra de Jesus que bem distingue crime e pecado: quem consentiu no desejo ou vontade de o fazer, já cometeu pecado no seu coração. Aos olhos do deus cristão, o pecado não está nos factos, mas sim no mal que deixarmos habitar o nosso pensarsentir. Os feitos dos homens são certamente passíveis de chamadas de atenção e correção fraterna, sem prejuízo da sua ponderação pelo poder judicial civil, ou consideração pelas medicinas humanas. Mas a consciência, a casa do pecado, essa responde perante Deus, e a Igreja apenas deve abrir-lhe sempre a porta da conversão e reconciliação. A catalogação dos pecados, suas penitências e indulgências, até tem servido para que catecismos não tenham reparado que não se fala, por exemplo, de sexo, nas bem aventuranças, nem no Juízo Final. O que, neste, nos será perguntado é se acudimos e acolhemos quem precisava, que esperava. Revejam-se os catecismos e, já agora, debatam-se em sínodos mais participados questões como  a contracepção e o divórcio que, não sendo crime perante a lei civil, nem sempre serão pecado aos olhos justos de Deus... Para terminar esta carta - em que podia ter-te dito ainda muito mais - deixo-te um parágrafo dum artigo do teólogo americano Stanley Hauerwas, significativamente intitulado The Demands of a Truthful Story: Ethics and the Patoral Task , e publicado na revista Chicago Studies (nº21, 1982). Traduzo:

 

   A primeira tarefa da ética cristã implica uma tentativa de nos ajudar a ver. Porque apenas poderemos agir no mundo que pudermos ver, e só poderemos ver bem o mundo se formos treinados para ver. Não conseguiremos ver só a olhar, mas sim através de habilitações disciplinadas, que se desenvolvem pela iniciação a uma narrativa.

 

   O conceituado professor de teologia no King´s College, em Londres, Alister McGrath, diz (cf. Heresy, Society for Promoting Christian Knowledge, London, 2009) que aquele teólogo americano é um dos muitos escritores contemporâneos a enfatizar que tratar o Cristianismo simplesmente como uma colecção de doutrinas ou declarações de fé leva a uma grave distorção do seu carácter. Antes e mais, ele deve ser visto como diferente caminho de vida, tornado possível pela ação da graça do Espírito Santo, que orienta os seus fiéis para o Pai através de Jesus Cristo.

 

   Sobretudo em sociedades onde o clero se constitui em classe ordenada e "consagrada" pela segregação (com mais fundamentação canónica ou pseudoteológica do que evangélica), e é maioritariamente instruído pela aprendizagem de catecismos, mais do que por formação intelectual adequada a questões teológicas e pastorais, o clima necessário à meditação e reflexão entre a fé e o mundo parece ausente. E, todavia, o caminho da Igreja no mundo deve ser percorrido pela comunhão dos crentes, essa fé que interpela o mundo e deixa o mundo interpelá-la. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreve Sylvie Courtine-Denamy em Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil): Para Arendt, o perdão é um conceito com função importante: «Se não fôssemos perdoados, libertados das consequências do que fizemos, a nossa capacidade de agir seria como que encerrada num ato único do qual nunca mais nos poderíamos levantar; ficaríamos para sempre vítimas dessas consequências, tal como um aprendiz de feiticeiro que, à falta de fórmula mágica, não poderia quebrar o encanto». O perdão surge assim como libertação possível da irreversibilidade da ação, «quando não sabíamos, não podíamos saber o que fazíamos». É a Jesus de Nazaré que ela aqui se refere, a Ele ter sabido suster que o poder  de perdoar «não vem de Deus [...] mas deve, pelo contrário, trocar-se entre os homens que, só depois disso, poderão esperar ser também perdoados por Deus». As citações de Arendt aqui feitas por Courtine-Denamy são todas respigadas da versão francesa de "The Condition of Modern Man", publicada em 1961 e 1983, pela Calmann-Lévy (La Condition de homme moderne, tradução de G. Fradier, com prefácio de Paul Ricoeur). Mais adiante, observa: Por outras palavras, o perdão é libertador. Na verdade, só o amor pode perdoar, na medida em que «se desinteressa, a ponto de ser totalmente ausente do mundo, daquilo que possa ser a pessoa amada, das suas qualidades e dos seus defeitos, como dos seus êxitos, omissões ou transgressões». Eis porque é que o amor, sendo «estranho ao mundo» é, não só «a-político», mas «antipolítico». Temos, pois, de concluir que se Hannah Arendt muito perdoou a Heidegger, foi também por tê-lo amado muito. Está assim aqui resumido tudo o que, mutatis mutandis, eu te irei dizendo a seguir.

 

   Comove-me aquela evocação do dito de Jesus Cristo sobre a origem do poder de perdoar, que reside no coração das pessoas humanas quando estas se deixam habitar pelo amor de Deus que, no cristianismo, não pode existir marginalizado do amor dos outros, nossos próximos. Será que, cultivados por gerações sucessivas de "mestres"  (alguns deles lembrando a contrario o dito de Jesus : o mais pequeno entre todos vós, esse é o grande)  -  "mestres" esses mais inspirados pelo formalismo do rigor canónico, pelo resguardo da sua autoridade, ou pelo policiamento de adventícias "heresias", do que pela mensagem fulcral do cristianismo que é o mandamento do amor com toda a misericórdia de que ele é capaz  - , já não nos conseguimos libertar o infinito que desafia cada extensão do nosso coração, isto é, a primazia ética de saber "perdoar não apenas sete vezes, nem sete vezes sete, mas setenta e sete vezes sete"? O perdão não pode ostracizar, ele é, como tão bem nos conta a parábola do Filho Pródigo, cujo Pai sai ao seu encontro para lhe abençoar o regresso, acolhimento por excelência. Quando refletirmos sobre casos de divorciados recasados e muitos outros, é bom que o nosso pensarsentir seja, primeiro, acolhimento e reconciliação.  Quiçá essa reflexão também nos leve a reconsiderar a qualificação, como pecado, de divórcios e segundos casamentos. Até haverá casos em que sejam inevitáveis ou, mesmo, sejam a melhor solução para pais e crianças envolvidos. Parafraseando: "a instituição matrimonial é feita para o homem, não o homem para a instituição".  E, ao interrogarmo-nos sobre qualquer repúdio de homossexuais (que, ainda por cima, para quem esteja ao corrente das ciências de hoje, de modo algum podem ser considerados deficientes, diminuídos, psicopatas ou, menos ainda, pecadores por natureza), deveremos lembrar-nos do ser humano, nosso igual irmão em Cristo, e esquecer preconceitos culturais insustentáveis. E ninguém se esqueça de que nenhum de nós é juiz do outro, verdade que o Papa Francisco tem lembrado: Quem sou eu para julgar? Entristece-me muito deparar com tantas situações em que ministros ao serviço da Igreja de todos, se atêm à ideia de que o poder de perdoar lhes vem de Deus  -  que lhes entregou não só códigos ou regras definidoras dos pecados, como ainda tabelas de classificação destes e das respetivas penas aplicáveis, para que eles, e só eles, possam exercer, por delegação do Altíssimo Juiz, o poder de absolver ou condenar  -  e se esquecem de que perdoar, reconciliar, é o dever fundamental da nova lei de Cristo, de cumprimento a todos exigível, ao ponto de ser inaceitável uma oferta presente no altar, enquanto não me reconciliar com meu irmão. Na Igreja Apostólica, a confissão dos pecados e a determinação da pertinente penitência era comunitária, como ainda hoje se pratica nos capítulos das antigas ordens monásticas e religiosas. E o pecado que cada um anunciava ao perdão dos seus irmãos não era uma acusação escrupulosa, ou mais ou menos narcísica de um ato individual, mas a apresentação, à correção fraterna de cada igreja ou comunidade, de intenções consentidas, atos praticados ou omissos que, de um ou outro modo, pudessem ser ou tivessem sido atentatórios da caridade comunitária, isto é, da justiça como direito de todos e de cada um. Donde o lema: "Deus habita a caridade". 

 

   E porque o acolhimento é desígnio de Deus, a igreja não se fecha à chave [conclave, só cardeais para eleição do papa, o que diz muito sobre o clima de conspirações e intrigas, e as movimentações de influências que tiverem de ser controladas], mas é bom pastor aquele que deixa o rebanho no redil para ir lá longe buscar a ovelha transviada. Ou que, a exemplo de Jesus, acolhe La Traviata, a transviada. Conta-nos o Evangelho de Lucas (8, 36-50), em tradução de Frederico Lourenço:

 

   Convidou-o um dos fariseus para comer consigo e, entrando em casa do fariseu, tomou o seu lugar à mesa. E eis que certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. E colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; secava-os com os cabelos e beijava os pés dele e ungia-os com perfume.

 

   Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem e que tipo de mulher é esta que lhe está a tocar, porque é uma pecadora.»

 

   Então Jesus disse-lhe em resposta: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» Ele disse: «Fala, Mestre.»  «Dois devedores tinham um prestamista: um deles devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão disse em resposta: «Aquele a quem perdoou mais dívida, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Não me deste um beijo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com azeite, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele, a quem pouco se perdoa, pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.»

 

   Começaram então os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher:

«A tua fé te salvou. Vai em paz.»

 

   À atenção e ao cuidado de qualquer pecador e de qualquer "mestre", entre os muitos que todos nós somos, deixo a nota observadora do professor Frederico Lourenço: «estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama» -a formulação da frase em grego (hai hamartíai hai pollaí) sustém a interpretação de que foram perdoados todos os pecados da mulher. O amor, como circunstância mitigadora do pecado («porque muito amou») - faz pensar em I Pedro48: «acima de tudo mantende entre vós um amor intensoporque o amor cobre a multidão dos pecados. Curiosa é a ideia de que aqueles que têm poucos pecados por perdoar são pessoas que pouco amam. Nesta última frase, o tempo verbal é o presente; no caso do amor da pecadora, é o aoristo (égapêsen: amou pontualmente no passado); e no caso dos pecados perdoados, temos o perfeito, permitindo a tradução «os teus pecados foram e continuam perdoados», em virtude da força semântica do perfeito grego como resultado presente de uma ação passada.

 

   Esta afirmação de que «os teus pecados foram e continuam perdoados» parece apontar para um amor misericordioso sempre ativo e sem repouso, uma vocação à conversão que, como diria Hannah Arendt, nos liberta das consequências do que fizemos e restaura a nossa capacidade de agir. O repúdio da pena de morte fundamenta-se no respeito da vida até às suas próprias capacidades de renovação, a misericórdia do Deus dos vivos não se seca, não é juíza impositora de sentenças e penas, é, sempre e só, um apelo à metanoia... Escrevo-te a 21 de setembro, dia de festejar São Mateus, o cobrador de impostos e a sua pessoa nova que seguirá Jesus como seu apóstolo. E leio um passo do Evangelho do seu homónimo (nada, em verdade, nos permite identificar o apóstolo com o evangelista), trecho que está em Mateus, 9, 11-13:

 

   E os fariseus disseram aos discípulos dele: «Porque razão come o vosso mestre com cobradores de impostos e com pecadores?» Jesus, porém, ouviu e disse: «Os saudáveis não têm necessidade de um médico, mas sim os doentes. Mas ide e aprendei o que é isto: quero misericórdia e não sacrifício. Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores».

 

   Aqui chegada esta carta, sei que deixarei para outras o quase tudo que tenho ainda para te dizer. Porque, na verdade, não é fácil agir com justiça, nem superar a nossa perplexidade, sempre que nos deparamos com o dilema que contrapõe o rigor do juízo à misericórdia do pensarsentir. E bem sabemos que não há vida social possível sem ordenamento jurídico, nem direitos de todos e cada um sem justiça.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira