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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM


Minha Princesa de mim:


   Tumular me surge a manhã deste Sábado Santo. Acordo e levanto-me num dia cinzento, silencioso e quieto. Da varanda larga do meu quarto, avisto os campos inumados numa atmosfera incolor até ao horizonte. Não bole uma folha nas árvores dos pomares que acompanham a encosta até à estrada deserta de carros e pessoas. Desço ao meu gabinete, ponho-me à escuta das Lamentações de Jeremias, em composições de vários autores, de Alexandre Agricola a Orlando di Lasso, passando por Cristobal de Morales e Jacob Arcadelt, interpretadas pelo Egidius Kwartet, em julho de 2007 na Laurentius Kerk Mijnsheerenland, na Holanda. Cada Lamento é rematado pela conhecida exortação: Jerusalem convertere ad Dominum Deum tuum... Abro os olhos e, cá em baixo, já vejo, no quadro desta janela, a minha sakura florida e viçosa, a lembrar-me lição sage da natureza onde a permanência se descobre na humildade da constante mutação das coisas. No pensarsentir humano, chamamos-lhe conversão ou metanoia. Associamos-lhe, em regra, a ideia de arrependimento e penitência, ou renúncia (para melhor troca?). Mas nesta manhã cinzenta de Sábado Santo, quando o nosso silêncio ecoa o do Senhor Jesus, envolto em panos no segredo do seu sepulcro, e ainda o sofrimento e morte que vai ferindo tantos humanos por esse mundo fora, a flor da cerejeira que trouxe do Japão sorridente me acena com a promessa da alegria maior que encontrarei na simples contemplação do amor redentor de Deus, se assim o quiser também seguir a fidelidade do meu pensarsentir. Medito em como o próprio transitório pode, em silêncio, revelar-nos, num só vislumbre que seja, a inesgotável permanência... E ocorre-me essa resposta de Higuchi Ichiyo (1872-1896), jovem escritora (e autor clássico das letras japonesas, morta tuberculosa com apenas 24 anos) à pergunta sobre o que a faz mais feliz: Desde logo, não são roupas de brocado. O que me faz feliz é a natureza. Há uma verdade, uma honestidade na natureza que por vezes me traz o sentimento de comunicar com as flores silenciosas e a lua tranquila. Esqueço então completamente o mundo flutuante (ukiyo). É como se dançasse no centro de uma esplêndida flor, a propósito criada para aquele instante. Eis como são os meus momentos de felicidade.


   
Acontece-me recordar palavras de Jesus, ao dar comigo em busca de comunhão e paz: Não quero sacrifício, mas misericórdia. A ideia de sacrifício, aliás, traduz sobretudo, vezes demais, a do pagamento duma obrigação ou dívida para com a divindade, como se cumprir um dever ou uma renúncia fosse, em si e por si, ato sacralizante e sempre meritório, transformador do profano em sagrado. Menos vezes entendemos que a misericórdia não é um ato individual, nem qualquer renúncia à espera de compensação. Misericórdia é partilha de coração, com tristezas e alegrias, vida e afetos, êxitos e fracassos, na comunhão do amor. Isto é, anima-se, vive por todos, com todos e em todos. Ninguém pode amar sozinho. Nem sequer perdoar é solitário, o perdão é sempre recíproco: assim leio a parábola do filho pródigo, em que vejo como o pai, ao perdoar o filho, procura também perdão para si. A misericórdia é, necessariamente, uma relação indissociável. O ofertório maior do sacrifício do próprio Filho de Deus só tem sentido no vínculo indestrutível ao Verbo redentor. No seu sepulcro, Jesus inumou consigo a humanidade inteira, para dali ela surgir nova. Qual flor que desabrocha, a meditação sobre o Santo Sepulcro é também momento de alegria. Faz-me feliz pensar que todos podemos comungar na esperança que só o amor partilhado traz.


   Este Domingo de Páscoa surge-me solar, caloroso, criador. É certo que ninguém assistiu à Ressurreição, apenas alguns poucos viram o túmulo vazio, só Maria Madalena viu e falou com o Mestre que, aliás, primeiro confundiu com um jardineiro... Interpelando este, confessou que buscava o seu Senhor, e é essa procura que veicula e realiza o primeiro encontro. Contudo, não pode tocar-lhe: Jesus já não é uma presença física, torna-se naquele que, em comunhão eucarística, os seus seguidores deverão, ao longo da história, reconhecer e anunciar através da partilha do pão. O "sagrado" cristão viverá pela fraternidade humana: as bem aventuranças são bênção do Cristo glorioso descendo sobre quem der de comer ao faminto, de beber ao sedento, praticar a justiça e construir a paz. O beneficiário dessa solidariedade é o próprio Jesus, que, com cada um de nós, vive no coração do Pai. Na celebração eucarística e comungante da Páscoa, mesmo quando solitária, mais do que muitos, estamos todos unidos na alegria da libertação da morte pela comunhão fraterna. A Boa Nova não veio para nos ensimesmar. Veio para nos anunciar a vida que é essa alegria de nos amarmos uns aos outros. Efetivamente, na busca e construção da justiça e da paz. 


   Assim este teu amigo, Princesa de mim, foi refletindo na celebração confinada desta Páscoa cristã.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

FELIZ PÁSCOA!

 

   Páscoa é designação que nos remete para a língua, a história e a cultura religiosa do povo de Judá e Israel ou, melhor dizendo, para a sua libertação e saída do território e do jugo egípcio e sequente passagem à terra prometida. Na versão latina da Vulgata, o pertinente salmo de celebração canta: In exitu Israel de Aegypto / Jacob de populo barbaro / facta est Judea sanctificatio ejus / Israel potestas ejus. Afinal é ao poder santificante de Deus que se deve a libertação. Mas na ação de Deus está implícita a vontade passiva e activa do ser humano, como tão bem ilustra o episódio da luta com Deus (ou de Jacob com o Anjo) relatado no capítulo 32 do Génesis (versículos 23 e seguintes): alguém lutou contra ele até ao alvorecer. Vendo que não conseguia dominá-lo, bateu-lhe na articulação da anca, e a anca de Jacob deslocou-se enquanto lutavam. Disse-lhe: «larga-me, porque já se levantou a aurora». Mas Jacob respondeu: «Não te largarei, sem que me tenhas abençoado». - «Como te chamas?» - «Jacob». Então prosseguiu: «Não mais te chamarão Jacob, mas Israel, porque foste forte contra Deus e contra os homens, e levaste a melhor». Jacob fez-lhe este pedido : «Revela-me o teu nome, por favor». Mas respondeu-lhe o outro: «Porque me perguntas o meu nome?» E ali mesmo o abençoou.


   Seria ele mesmo o inominável, o que respondeu a Moisés dizendo «Eu sou aquele que é» e o mandou dizer aos israelitas que «Eu sou enviou-me até vós»? Aquele que, quiçá até para todos nós - e não só para incréus ou agnósticos - em qualquer momento surge misterioso, interrogação ainda quando se nos afirma e connosco luta, o Quem ou o Quem? que nos defronta em inesperado instante da vida?


   Nesta celebração da Páscoa como festa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, talvez pelo clima de pandemia, muita incerteza e tanta aflição que a envolve, proponho-me pensarsenti-la como se me investisse daquele Jacob que lutou com a presença não evidente de Deus. Por Jesus, com Jesus e em Jesus, Ele partilha connosco um destino que só pode ser o nosso próprio. Chama-nos ao combate, à luta contra a limitação das nossas fraquezas e vulnerabilidades, resignações e preconceitos. A Páscoa de Cristo é passagem, sim, o nosso passo para a liberdade que nem o tempo, nem espaço algum, por muito confinado, poderá diminuir. 


   Feliz Páscoa!

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM


Minha Princesa de mim:


   Verifico, com surpresa, talvez mágoa, não sei, que as notícias e comentários de órgãos de comunicação católicos portugueses se referem à recente visita do papa Francisco ao Iraque enaltecendo sobretudo a coragem, a resposta ao desafio dos riscos, a "loucura" que apelidam de profética, etc., sem se lembrarem de que aquela peregrinação foi a de um homem de fé, que nos trouxe a contemplação essencial desta virtude teologal e das outras duas: esperança e amor. O espírito cristão parece, assim, quase ausente do nosso sentimento da aventura quotidiana... ou será que preferimos, a uma visão íntima, mística, da vida e da história, a emoção proporcionada por feitos humanos, à nossa medida? 


   Por outro lado, surpreendeu-me também um boletim do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, órgão da Conferência Episcopal Portuguesa, em que se destacava um suplemento do Jornal de Notícias sobre o cardeal José Tolentino Mendonça, um dos fundadores do tal boletim, seu diretor durante anos e que tem sido, em tempos recentes, assunto de artigos bastante encomiásticos, pelo mesmo publicados.


   Na verdade, de Tolentino ou outra pessoa qualquer um de nós pensará, por bem, o que lhe parecer, e o Jornal de Notícias está no seu direito de publicar o que melhor entender. Os eventuais leitores, por seu lado, farão sobre o que lerem um juízo conforme ao exercício do espírito crítico de cada um. Pessoalmente, é-me indiferente que Maria João Avillez escreva que aquele clérigo é a única pessoa que consegue trazer o sagrado para perto dela, ou que "o investigador" Luís Mah o considere único e veja nele o próximo papa. Já me escandaliza que um boletim do episcopado que ele fundou e dirigiu reúna todo esse material numa espécie de panfleto propagandístico, com um título que retoma o dito da jornalista Avillez: «Ninguém como ele nos traz o sagrado para tão próximo de nós».


   Aliás, também me parece assaz incorreta a afirmação da mesma jornalista, ali reproduzida: «O Papa Francisco sabia bem o que fazia quando foi pescar este padre ainda jovem no nosso mar português». Cheira-me a tentativa de ligar umbilicalmente à figura extraordinária do papa atual o perfil de José Tolentino. Sabemos que a carreira vaticana do atual cardeal português se iniciou ainda no pontificado de Bento XVI, embora já sob o patrocínio do cardeal Gianfranco Ravasi, padrinho de um dos mais conhecidos grupos de pressão da Cúria Romana. Foi em 2011 que foi nomeado, pelo papa Ratzinger, consultor do Conselho Pontifício para a Cultura, presidido pelo cardeal italiano. 


   Sabes bem, minha Princesa de mim, quanto me repugna falar dos outros, precisamente pelas mesmas razões que me levam a aborrecer (no sentido antigo, etimológico, de ter horror a) as campanhas malévolas ad hominem ou as mitoconstrutoras pro homine, umas e outras claramente fulanistas. As pessoas podem discutir gostos e ideias, não têm, nem devem, discutir-se umas às outras enquanto tais. E é por isso que te recito agora um poema de frei José Augusto Mourão, o.p., que foi professor de semiótica de José Tolentino que, aliás escreveu o prefácio ao seu livro de poesia reunida (O Nome e a Forma, Pedra Angular, 2009), donde os versos seguintes são retirados, com os meus votos de que Tolentino consiga vir ainda a partilhar da respiração mística que anima o sopro poético daquele seu falecido mestre:


                            introito


          não somos a fonte
          nem o rio
          mas a sede,
          o desejo do permanecer
          e do louvor
          corre em nós como o rio
          e a fonte
          nunca passaremos do átrio
          o santo dos santos sobre que se detêm
          os nossos pés
          é a vida misteriosa de Deus


          a hora é para suspirar,
          para louvar,
          para pedir a água eu irrigava o Templo
          e no batismo nos introduziu
          no mistério de sermos hoje o templo do Espírito


         II


          Nós somos o corpo que o Amor reúne
          nós procuramos todos um colo onde repousar
          dos trabalhos e dos dias,
          do desamor e das trevas
          que também nos assaltam
          e nos tolhem


          nós procuramos a paz e o perdão
          sem disfarces nem armas


          que a misericórdia de Deus nos cubra
          neste momento de graça e de perdão


   Creio mesmo, Princesa de mim, que estes versos do frei José Augusto, já falecido, são todos os dias repetidos pelo papa Francisco e por todos aqueles que, sem ambições nem narcisismos, vão procurando achegar-se a essa presença do amor misericordioso, bem maior do que algo a que se possa chamar sagrado, pois é o próprio Deus em comunhão connosco.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

EM REBUSCA DO JAPÃO XXII

   

   O segredo do entendimento da essência viva da cultura está em agarrá-la tal como surge, em toda a sua concreticidade real, escreve Kuki Shuzo (Iki no kozo, Tokyo, Iwanami Shoten, 1930). Afinal, quando falamos da cultura de uma dada comunidade humana, no seu habitat, nesta ou naquela época, procuramos entender os valores ou referências que, naquela circunstância de espaço e tempo, orientam (dão sentido) a condutas e modos de vida observados. Assim, por exemplo, as «histórias da vida privada», sobretudo porque escritas de uma perspetiva antropológica, contam-nos muito mais acerca de uma cultura, do que as simples narrativas políticas e militares, literárias ou artísticas... O seu trabalho de observação e análise é, afinal, um labor quase arqueológico, na medida em que busca indícios concretos, quotidianos, que nos permitam ir reconstruindo "a nossa vida antes de nós" (dizia João Ameal). E se o jesuíta Luís Fróis é mundialmente considerado, não só a fonte estrangeira mais segura, mas também o mais abrangente testemunho da vida japonesa no século XVI, tal se deve ao olhar sempre lúcido e descomprometido com que esse português foi observando as realidades concretas que a cultura nipónica naquele tempo envolvia.


   Uma mulher honrada não será tida em grande estima se não souber escrever, dizia ele, tal como, um século mais tarde, Ihara Saikaku (escritor seiscentista de que já falámos aqui) diria que uma senhora fina deve entregar-se às artes da harpa, do jogo de damas (go), dos perfumes 3 dos poemas, e em nada se deve mostrar ignorante. Mas talvez as damas da corte de Heian-kyo, ainda que inultrapassáveis no seu génio literário e poético, tivessem permanecido, durante séculos, como modelos de "classe", ao ponto de as próprias "tayo" (cortesãs, prostitutas "finas") do período Edo (ou Tokugawa) se terem considerado suas legítimas herdeiras... Um dia viremos falar sobre geisha, ou "pessoas de artes", artistas do entretenimento, incluindo conversa literária e recitação de poesia, canto e execução de instrumentos musicais. Poucos sabem que os primeiros gei (artes) sha (pessoa) foram homens, aparecidos quando o shogunato Tokugawa, ainda no século XVII, proibiu a exibição de mulheres em palco, para evitar prostituição não licenciada. Todavia, nos bairros de prazer e noutros locais confinados, as primeiras geisha profissionais foram prostitutas reconvertidas em artistas de entretenimento sofisticado e culto que, com o andar dos tempos, acabariam por ser, conforme desejo próprio ou fados da vida, também prostitutas ocasionais ou nada disso e apenas animadoras de festas... Aliás, chegou-se a emitir licenças para geisha com ou sem exercício de prostituição autorizada. Fosse como fosse, algumas delas tornaram-se "estrelas" sociais e várias foram esposas, concubinas, ou simplesmente amigas e conselheiras, até de primeiros ministros.


   Também o nosso padre Luís Fróis, já em finais do século XVI, observara a prática do divórcio no Japão: no Japão qualquer um pode repudiar sua mulher quando quiser, sem que por isso a mulher perca a honra ou o casamento. Tal repúdio fazia-se normalmente por carta chamada mikudarihan, em três linhas e meia. Explicam Pons e Souyri que dizia: «Tendo em conta a nossa recíproca incompatibilidade, e com base em conversas longamente refletidas, separo-me da minha esposa.» O homem não era obrigado a justificar-se nem a explicar as circunstâncias que o levavam a repudiar a mulher. Bastava-lhe afirmar o desejo de se separar dela. Tal bilhete tinha força de lei perante as autoridades judiciais. A sua formulação lapidar pode interpretar-se como exemplo da omnipotência dos homens sobre a casa...   ...Masem 1987o historiador Takagi Tadashi mostrou quetodaviaas coisas eram bem mais complexas: 


   Apesar de práticas que, aparentemente, punham a mulher  em posição de inferioridade no seio do casal, ela podia, muito bem, divorciar-se por iniciativa sua, se assim o desejasse. Por exemplo, acontecia que, na sequência de uma zanga, a mulher abandonasse o domicílio conjugal, para reintegrar a sua própria família, deste modo obrigando o marido abandonado a redigir o tal famoso bilhete. 
[Luís Fróis comenta: No Japão, são muitas vezes as mulheres  a repudiar os homens...] 


   Na verdade, havia uma forma de divórcio resumida pela expressão popular «tsuba no tobidashi rikon», isto é, por «quando a mulher  se vai embora, batendo com a porta»... Então, se ela se recusar a voltar para casa do marido, este ver-se-á obrigado - «posto que é ele que chora» - a escrever o famoso bilhete. Em tais condições, o divórcio não é a expulsão da mulher, mas o contrário: é ela que toma a iniciativa de partir (ou de fugir de casa?)... 


   Ihara Saikaku conta-nos a história duma rapariga que aceitou o casamento «para não desobedecer aos pais», mas que, na noite de núpcias, se recusa ao marido, porque ama outro homem. Furioso, o marido, «tendo escrito uma carta de repúdio, atirou-lha à cara, mas ela, por seu lado, aceitou-a com gratidão»... No seio da nova burguesia do período Edo, designadamente na classe dos comerciantes, eram frequentes os divórcios, até porque os casamentos eram arranjados pelas famílias e ninguém contava com um amor certo entre os esposos, cujas relações se limitavam a assegurar  a continuidade da "casa", seu nome e património. Além disso, o instituto jurídico da adoção permitia o recurso a esta prática por famílias sem descendência. Assim, as relações amorosas, sexuais, eram parte constante das vidas dos casais das classes rurais e populares dos meios urbanos. 


   No fundo, tudo isto pode ser entendido por qualquer ocidental com experiência ou simples conhecimento das instituições e regras, usos e costumes, pautados ou licenciados pelas nossas próprias culturas... Talvez apenas com a diferença subtil do culto estético da circunstância e da prática do prazer sexual que, no Japão, foi sobrevivendo, desde os tempos galantes da corte imperial de Heian até aos artifícios lúdicos dos bairros de divertimento da era Edo.


   A vida sexual da gente comum, todavia, correspondia à diferença natural das respetivas culturas, sem que fossem necessariamente abalados certos pilares dum sentimento original partilhado por todos: a natural inocência do sexo, a complementaridade dos parceiros, a igualdade dos direitos de cada um ao prazer da união. Aliás, é abundante a literatura de iniciação e instrução sexual, num país onde - é bom recordá-lo - a literacia está muito generalizada. As visitas e encontros noturnos (yobai) eram hábitos frequentes, ao ponto de, mesmo em zonas rurais, os quartos das raparigas nunca estarem longe das portas de entrada das casas. Nada de muito diferente das práticas da corte de Heian. No século XIX, um médico da ilha de Shikoku (onde se situa Tokushima e estão as cinzas de Wenceslau de Moraes) escrevia: Na minha Iyo natal não há qualquer tipo de prostituta. Em contrapartida, as raparigas solteiras, as criadas, as viúvas, e as mulheres maduras, facilmente têm relações sexuais. Mas como tal não é, só por si, caso de prostituição, elas não se entregam a homem que não seja do gosto delas. Também isto era verdade para as geisha, tal como para as tayu que, aliás, faziam muitas vezes gala em só receber um pretendente ao fim de várias insistentes visitas. 

   

Camilo Martins de Oliveira

EM REBUSCA DO JAPÃO XXI

   
   No seu Tsurezuregusa (ou "Horas de Lazer"), cuja versão francesa, de Charles Grosbois e Tomiko Yoshida (Les Heures Oisives) foi publicada pela Gallimard-Unesco em 1968, Urabe Kenko (1283-1350) conta-nos que, referindo-se a um poema do ex-imperador Go Toba, se perguntou ao nobre senhor Teika: será sinal de mau gosto aliar-se o termo "sode" (manga) ao termo "tamoto" (ponta da manga)? 


   Existe um precedente, respondeu o senhor Teika: «A espiga do caniço, no meio das ervas do prado outonal, não nos lembrará a ponta da manga (tamoto) de um kimono? E não revelará seu rosto o seu amor e não se parecerá com a manga (sode) de uma mulher a chamar o seu amante? Não há pois inconveniente algum em aliar estas duas palavras».


   
Para bem entendermos esta referência, convirá lembrarmo-nos de que as mangas dos vestidos, na China, como no Japão, quando largas, permitem exprimir, de forma plástica, sentimentos, e a própria poesia gosta de evocar tais imagens e artifícios. O poema aqui citado por Teika encontra-se no capítulo do Outono da antologia Shin Kokinshu. As alusões à natureza e suas coisas, tal como ao papel e símbolos do vestuário (padrões, desenhos, cores, jeitos de vestir) são correntes na literatura da era Heian e, mesmo depois das cenas descritas deixarem de ocorrer nos palácios da corte imperial e acontecerem alhures, inclusive nos bairros de prazer, tais alusões se foram mantendo.


   A historiadora Tanaka Yuko, autora de várias obras acerca das representações eróticas (incluindo shunga) no imaginário nipónico, sobretudo na arte e literatura do período Edo, chega mesmo a escrever que aquelas gravuras, as shunga, são como que «o reino do vestuário». Recorro a uma longa citação de Philippe Pons e Pierre-François Souyri (L’Esprit de Plaisir, Payot, 2020) para compreensiva explicação de tal afirmação:


   O vestuário tem um papel importante nas cenas eróticas. Por várias razões. Primeiro, porque a maioria das pessoas no período Edo tinha apenas um fato, e admirar lindas mulheres em sugestivas poses, revestidas de kimonos com cores magníficas devia estimular a imaginação. Além disso, fazer amor meio vestido também lembrava práticas bastante comuns, se pensarmos que fazia frio por vários meses do ano e as casas não estavam especialmente bem equipadas para resistir ao Inverno... Os vestidos japoneses (para homens como para mulheres) são além disso fáceis de arregaçar e não se usava mais roupa interior do que uma espécie de tangas, muitas vezes de cor encarnada quando trazidas por mulheres. Os criadores de shunga tiravam disso partido para revelarem à sua vontade os órgãos sexuais.  


   Nas estampas eróticas, os corpos são, portanto, raramente despidos. 80% das personagens femininas estão vestidas. Desde a era Heian que os tecidos de cores atraentes e os acessórios têm sido descritos na literatura e pintados na iconografia. Tal acontece ainda a partir do século XVII nas shunga, graças ao desenvolvimento das técnicas de coloração das estampas. Os vestidos, sumptuosos e representados até ao ínfimo pormenor, eram parte integrante da imagem erótica. Tornam-se então um elemento discursivo central da estampa e não apenas um pretexto ou elemento decorativo.


   ... Aliás, muitos pintores de shunga eram também desenhadores de moda que conservavam «cadernos de moda» (hinagata bon), de que se serviam com frequência para desenhar kimonos.


  
Será ousado - talvez não disparatado - sugerir que a focalização do poder socialmente correto na regulamentação das práticas sexuais deu azo a que o imaginário popular se escapasse para o reino da exploração de novos fantasmas... Mas não terá o mesmo, ou algo semelhante, ocorrido nas sociedades ocidentais, a partir sobretudo dos anos loucos de entre-guerras? Seja como for, a mania da moda testemunha um novo olhar sobre o corpo humano (designadamente feminino) em sociedade, mais focalizado no erótico e sua circunstância, praticamente esquecido da inocência original da nudez. De certo modo, pode-se concluir que a moda, afinal, é a erotização dos corpos depois de lhes ter sido interdita a exposição pública da sua própria nudez inocente.


   Pela mesma altura, a influência moral e jurídica do "Ocidente" na construção japonesa de conceitos politicamente corretos de pudor e virtude, bem como do respetivo suporte legal e regulamentar produziu o aparecimento e divulgação de vocabulário novo, tal como waisetsu (obscenidade) que surge no código penal de 1880 (art.º 259, sobre "atos obscenos" (waisetsu shogyo) que, no código napoleónico, são mencionados como attentats à la pudeur... Cabe aqui outra longa citação do L’Esprit de Plaisir, que inclui referências a vários comentários de estrangeiros e japoneses:


   No quadro da sua política «virtuosa», o Estado Meiji trata com rigor os banhos públicos mistos. Com mais êxito do que as autoridades shogunais. Tais banhos eram mencionados na maioria dos relatos de quase todos os visitantes estrangeiros da época. Suscitavam a curiosidade dos espíritos mais abertos e a ultra reprovação dos apóstolos da pudibonderia vitoriana. No decurso da sua viagem ao Japão, em 1889, Rudyard Kipling (1865-1936) experimentara uma surpresa entre divertida e reprovadora quando, ao tomar um banho no Hotel Oriental de Kobe, uma jovem cortez lhe propusera juntar-se a ele, oferta que recusou... O homem de negócios e arqueólogo alemão Heinrich Schliemann (1822-1890), que o precedera no Japão, ficou, pelo contrário, chocado. Escreve, em 1865: «Nem concebo como é que sentimentos de pureza e de santidade podem existir na vida de um povo em que, não somente ambos os sexos frequentam os mesmos banhos públicos, mas até mulheres de todas as idades se divertem imenso como espectadoras de pinturas obscenas»... [Alusão às estampas eróticas e a certos espetáculos de rua].


   A intrépida viajante britânica Isabella Bird (1831-1904), que chegou ao Japão em 1878 e por lá peregrinou, é mais tolerante. Filha de pastor anglicano, não parece nada incomodada pela promiscuidade «desses lugares de convívio comunitário». Até via «na presença das mulheres uma garantia contra qualquer consequência perigosa». 


   A despreocupação dos japoneses com a nudez, que punha a maioria dos estrangeiros aos berros, era a expressão de uma atitude desinibida perante o corpo. Os britânicos também se tinham sentido muito chocados pela nudez dos indianos, quando aportaram ao subcontinente. Todos eram habitados pelo puritanismo da época: a nudez era assimilada à desordem, à negrura da alma, à impureza, à vergonha e, portanto, ao pecado. No seu etnocentrismo, recusavam-se a conceber que o limiar do pudor pudesse variar com os diferentes contextos, estima a historiadora Kawano Satsuki. Os banhos públicos, fossem mistos ou não, eram geralmente sombrios, e o vapor esfumava as formas dos corpos. O prazer das abluções e a tranquilidade trazida pelo calor da água levavam a melhor sobre o olhar indiscreto. O romancista Natsume Soseki 
[de quem já falei e é um dos pioneiros da moderna literatura japonesa] evoca em 1909 a imagem de uma mulher vislumbrada no banho de uma estalagem:


   «A silhueta que surgiu à minha frente em toda a sua beleza nada tem de ordinário. Se eu dissesse que ela se despiu, caíria no mundo da trivialidade. A visão é natural, como se aquela silhueta tivesse nascido na era dos deuses, no meio das nuvens, num mundo sem artifício, em que o vestido não tinha razão de ser...   ...Tal visão não se impõe à minha vista com o imediatismo do nu. Surge confusamente, como que numa atmosfera sobrenatural que transforma o real para nos deixar adivinhar a sua beleza cheia de graça».


   
Interessante também será registar aqui duas observações europeias. Uma do nosso já conhecido Basil Hall Chamberlain (1850-1935) e outra de um suiço, Aimé Humbert (1814-1900), que foi ao Japão em 1860. Diz o britânico que "a higiene é mais importante para os japoneses do que a pudicícia artificial ocidental". E escreve o suíço: Por muito estranhos que esses costumes nos possam parecer, nenhum japonês, antes da chegada dos europeus, imaginaria  que a prática de banhos públicos pudesse ser repreensível. Foi o olhar europeu que tornou feio o que antes não o era...


   
Neste trecho de «Em Rebusca do Japão» - tal como noutros - procuro registar narrativas de factos e comentários de outros tempos, Não tomo, nem quero tomar, qualquer partido sobre o maior ou menor fundamento ético das atitudes e comportamentos revelados. Deixo-nos, a todos, a oportunidade de nos refletirmos em diferentes circunstâncias. Até por uma questão de higiene mental que nos livre de preconceitos e juízos temerários.  


   Aliás, no próprio Japão abundam outros exemplos de estilos de vida e códigos morais, e até de promiscuidades envoltas em ambientes e culturas de vária natureza, como que disfarçados. Atentemos, por exemplo, na corte e na aristocracia de Heian Kyo (a capital da paz, atual Kyoto) que, de finais do século VIII aos do século XII, foi um centro de convívio e cultura sui generis, em que a atividade literária era exercício quotidiano e a prática poética instrumento sistemático de comunicação amorosa.


   Já aqui se falou de Murasaki Shikibu e de Sei Shonagon, duas enormes escritoras do século X-XI, cujas obras, com discrição e espírito crítico, nos desvendam a vida social da aristocracia da corte imperial do tempo. Ficamos assim a conhecer os segredos do make up, do vestuário, das boas maneiras e da elegância, quer dos homens, quer das mulheres, os seus jogos e passatempos. Hoje, ressalto a importância da vida amorosa e sexual: Para os homens de Heian-kyo, havia muito campo aberto. Eram todos casados, como soía, mas, de acordo com os preceitos confucionistas de governo das sociedades, o casamento era puramente uma questão política tratada pelos pais quando ambos os parceiros eram jovens, tendo em vista a criação de vantajosas alianças entre famílias. Normalmente, marido e mulher passavam pouco tempo juntos e encontravam-se apenas para procriar. Amor e casamento nada tinham em comum, ainda que a posição da primeira mulher no topo da hierarquia devesse ser respeitada. [Ainda há poucas décadas, falando, no Japão, com japoneses que me anunciavam o seu próximo matrimónio, eu lhes perguntava se conheciam bem as noivas e obtinha como resposta que não ou nem por isso, tudo fora combinado na sequência de um omiai entre famílias e empresas... O amor, diziam, se tiver de vir, virá depois...]


   Além da mulher primeira, o homem suficientemente rico e poderoso para poder fazê-lo, tinha concubinas, digamos que entre quatro e oito. Estas eram mulheres de classes altas, que ele tinha de tratar de acordo com os procedimentos formais e desposar em cerimónia formal. Além disso, nada o impedia de ter relações ocasionais com mulheres ou concubinas de outros homens, damas de companhia e, até, senhoras de inferior condição social (com as quais, evidentemente, não podia estabelecer um vínculo formal) ou, ainda, "mulheres de prazer". A promiscuidade era parte da vida, e um homem que fosse fiel a uma só mulher era considerado algo estranho e incitado a corrigir-se...


  
Estas considerações da britânica Lesley Downer (Geisha - the secret history of a vanishing world, Londres, Headline, 2000) desenham bem o cenário em que se desenrolou a vida aristocrática, e se desenvolveu o gosto estético e a literatura, na cidade e era de Heian-kyo. Mas também nos abrem uma janela para o que viria a ser, em séculos posteriores, a íntima ligação do amor e do sexo (ou do tal "espírito de prazer") com as artes e letras, desde a beleza dos tecidos e adereços ao engenho dos poemas compostos para comunicar mensagens.


   A título de exemplo, traduzo um dos Ise Monogatari (sécIX) e, para cotejo, um trecho dos Ukiyo Monogatari (séc. XVII), ou seja, um poema da era de Heian-kyo e outro da era de Edo ou Tokugawa, em que, com o advento de uma nova burguesia mercantil e endinheirada, se levantaram, confinaram e regulamentaram os bairros do prazer.


   Outrora, um homem endereçou o seguinte a uma dama que raramente encontrava:


               O tempo dos nossos encontros,
               digo eu para comigo,
               é instante como relâmpago
               mas longa me parece
               a vossa crueldade...

   Sete séculos depois:
   Vivendo só para o instante, entregando todo o nosso tempo só aos prazeres da lua, da neve, das cerejeiras em flor, e dos momiji. Cantando, bebendo vinho, acariciando-nos, e deixando-nos ir à deriva, sempre sem rumo. Não fazendo caso de não termos dinheiro, nem deixando a tristeza entrar-nos no coração. Só como planta seguindo a corrente do rio: eis o que chamamos ukiyo, o mundo flutuante...


   A  presença sempre aguda do sentimento de fatalidade do efémero, é milenar na cultura japonesa, a nossa permanente circunstância sendo tão só o instante. Esquecê-lo seria abrir à dor a porta do coração. O ukiyo de que, em 1661, nos fala o escritor Ryoi Asai, no texto citado acima, era originalmente um conceito budista referindo a transitoriedade de todas as coisas.

   

  Camilo Martins de Oliveira

EM REBUSCA DO JAPÃO XX

 

   A cultura japonesa, desde os mitos fundadores, nunca tratou com inibição qualquer sexo ou relações sexuais. Estas são tão naturais como o mundo em que vivemos, não há razão para as demonizar como concupiscentes, nem para as culpabilizar como pecado. Já nas duas crónicas mais antigas, o Kojiki (712) e o Nihonshoki (720) isso se afirma. No Kojiki (ou Recolha de coisas antigas) se pode ler a descrição do nascimento da terra japonesa, resultante da cópula de duas divindades, uma masculina, outra feminina: Tenho em mim um sítio que sai para fora, disse Izanagi, e eu tenho um que é côncavo disse Izanami; e Izanagi prosseguiu: disto deveria nascer a Terra. Muito bem, respondeu a deusa. É ainda no mesmo Kojiki que lemos a história da deusa do sol Amaterasu omikami que, por zanga com seu irmão Susanoo, se encerra numa gruta, deixando assim o mundo às escuras. Para a tirar cá para fora, a deusa Ama no Uzume lembra-se de encenar uma dança em que o seu vestido se rasga e abre deixando à vista de todos os encantos da sua feminilidade: A deusa, no furor do transe, arrancou o tecido que lhe tapava o peito e, desatando o cinto, fez cair o vestido para exibir toda a sua nudez... Então, em uníssono, as oito mil miríades  de deuses e deusas do planalto celeste desataram a rir. Eis que aqui se descreve como Amaterasu, alertada por tanto alvoroço, entreabriu a entrada da gruta e foi puxada para fora, ou ainda como o erotismo japonês tem, desde o início, algo de divertimento, de brincadeira, de comédia...


   De qualquer forma, esse universo a que chamamos sexo nunca ali foi, propriamente, objeto ou sujeito de regras morais, excetuando talvez o período Meiji, quando, em sequela da abertura do Império do Sol Nascente ao Ocidente, também certos conceitos e valores de ordem ética foram tentativamente impostos pelas autoridades nipónicas competentes, ao comportamento sexual do comum dos cidadãos. [A moral política e socialmente correta então reinante no mundo anglo-saxónico tornou-se conhecida como moral "victoriana"]. Em contrapartida, apesar da muita consideração e respeito granjeados sobretudo pelas prostitutas de primeira classe, foi prevalecendo uma cultura de proteção da família (ou da "casa", a ie, como já vimos) enquanto pilar importante do sistema económico e social vigente. Este, por um lado, submetia a filha, mulher e mãe a uma vida regrada (e dura), mas garantia-lhes um estatuto funcional de especial qualidade.


   O nosso quinhentista jesuíta Luís Fróis, arguto e rigoroso observador de muitas facetas da vida japonesa - que cotejava sistematicamente com os nossos próprios conceitos, usos e costumes  -  já em 1585 escrevia que a nossa gente lava o corpo sem se mostrar, mas no Japão homens, mulheres e bonzos se lavam em banhos públicos, tal como, à noite, na rua, em frente da porta de casa... Na verdade, confirmam em pleno século XXI Philippe Pons e Pierre-François Souyri (L’Esprit de Plaisir, Payot, 2020), os banhos coletivos, instalados designadamente em templos, existiam desde tempos remotos. Os «banhos públicos», que existiam nos burgos desde o século XIII, desenvolveram-se desde o fim do século XVI, com o nome de yuya. Homens e mulheres banhavam-se juntos sem que alguém se escandalizasse. Estava-se pois habituado a ver, desde a infância, pessoas nuas, homens ou mulheres. Aliás, é por isso que as pinturas eróticas apresentam corpos meio vestidos e raramente nus, porque os corpos, em si, não são eróticos... [Ter isto em conta talvez nos ajude a compreender a inocência básica dos campos nudistas. Tal como será interessante - embora à margem do tema deste texto - interrogarmo-nos sobre  o porquê de Adão e Eva só terem descoberto a sua nudez depois de terem comido o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Pensamos na palavra de Jesus: não é o que entra no humano que é impuro; impuro é o que dele sai.]


   Em 1810, ainda dois terços dos banhos públicos em Tokyo eram mistos, numa altura em que a simples autorização e existência dos mesmos seria impensável na China ou em qualquer país ocidental. Mas a política de restrição e interdição dos mesmos, iniciada já nos finais do período Edo e, rigorosamente, a partir de 1869, no início da era Meiji, conseguiu que em 1890 eles tivessem desaparecido de Tokyo. Para além de testemunhos mais antigos, como o de Fróis no século XVI, muitos outros nos expõem a realidade:


   Carl Peter Thunberg, botânico sueco que residiu um ano na feitoria holandesa de Deshima (Nagasaki), escreve em 1776 que as mulheres não tomam qualquer precaução para cobrir a sua nudez quando se banham num lugar público, nem que se trate de sítio onde se exponham aos olhos dos holandeses e de todos os que por lá passarem; 
o francês conde de Beauvoir, em 1872, já no início da era Meiji, avisa: «Não vos escandalizeis: no Japão vive-se à luz do dia, não se sabe o que é pudor ou impudor...  ...Todos para ali estão, aos molhos, homens, mulheres, rapazes e raparigas, como arcanjos... Esfrega-se, esfrega-se. Passeia-se, até se vem pedir um cigarro aos nobres estrangeiros [presumo que mirones]; as tatuagens mais esplêndidas dos homens brilham no meio de rosas cor de ninfas enleadas que os esfregadores profissionais ensaboam e limpam: aquela boa gente faz tudo isso com muito sangue frio, com ar de achar a coisa tão natural, que por um triz entraríamos no grupo sem pensar derrogar esse preconceito social que se chama «shocking»; o nosso já conhecido Basil Hall Chamberlain - que, em passo anterior desta rebusca do Japão, Lévy-Strauss apresentava como um sucessor de Luís Fróis no século XIX - afirmava que no Japão «a nudez é vista, mas não é olhada»; e Charles Grosbois, estudioso da cultura japonesa, dizia, por volta de 1960, que o banho japonês tradicional reunia homens e mulheres nus sem implicações sexuais.


   
Valerá a pena recorrer aqui à obra de Philippe Pons e Pierre-François Souyri acima referida para evitar conclusões imperfeitas ou apressadas. Cito: A atmosfera do banho público impunha alguma retenção e não era um lugar propriamente erótico. Mas não deixaria de ser um lugar de fantasmas, como testemunha um tríptico de Utagawa Kunisada (1786-1865) representando uma cena orgíaca ali se desenrolando. Muitas estampas apresentam cenas de copulação improvisada num banho público.


   A estrutura das casas japonesas, com as suas leves divisórias e papel translúcido (shoji), não abafava os ruídos, deixava ver as sombras e favorecia a exposição dos corpos. Nas casas de gente abastada, não era raro ser-se visto a fazer amor, por qualquer criada ou criado que espreitasse - cena aliás muitas vezes representada em estampas eróticas. O mais das vezes, a criada contempla a cena com algum desejo, ou até se toca.


   Mirone? Talvez não. Este conceito não aparece antes da era Meiji. Não se trata de surpreender à revelia uma cena considerada interdita. Os japoneses daquele tempo não tinham clara consciência de que fossem tabu as relações sexuais entre um homem e uma mulher que, livres, não eram, em si mesmas, objeto de opróbio. Contavam-se sem rebuço histórias ligadas ao sexo, desenhavam-se figuras sexuais e se, por acaso, se assistisse a jogos amorosos de um casal, tal era considerado permitido. Não existiam, nos meios populares, espaços íntimos como quartos de dormir, e, sobretudo no verão, as casas japonesas abriam-se sobre a rua. O ato sexual era frequentemente considerado como uma brincadeira.


   
Volto-me novamente para o excelente observador que foi o padre Luís Fróis, que notava como as raparigas japonesas (no século XVI!) podem ir onde muito bem lhes apetece, por um ou mais dias, sem terem de prestar contas a seus pais.


   Aliás, as frequentes peregrinações a santuários vários eram pretexto para tais deslocações e, como os peregrinos eram alojados em salas comuns, sucediam encontros mais íntimos e muitas jovens então perdiam a virgindade, sem que tal ofuscasse fosse quem fosse. O nosso quinhentista jesuíta reparou em que as mulheres do Japão não ligam nada à pureza virginal e, quando a perdem, tal não as desonra nem impede de virem a casar-se. Curiosamente, o cônsul plenipotenciário dos EUA, Townsend Harris, anota, com data de 16 de janeiro de 1856, no seu diário, o teor de uma conversa que tivera com o vice-governador japonês: Perguntei-lhe então o que fazia um homem que, tendo casado com uma mulher que supunha virgem, veio a descobrir que afinal ela não o era. «Não faz nada, que poderia ele fazer? Isso já me aconteceu, mas que podia eu fazer? De qualquer modo, a culpa não era minha».


   
Deixo para posterior desenvolvimento temas decorrentes do acima relatado, incluindo questões relativas ao enquadramento social (e administrativo) da sexualidade, bem como ao seu tratamento estético e literário. Sempre que nos debruçamos sobre as diversas perspetivas religiosas, morais, jurídicas, culturais, sociais e legais pelas quais as variegadas humanas gentes foram olhando para essa complexidade a que chamamos "sexo", surpreende-nos o seu carácter e força viral: transmite-se a tudo e tudo influencia, qual princípio fulcral da vida, essa perseverança do ser no ser - de que tão bem fala António Damásio ou tão brilhantemente definiu Georges Bataille (l’érotisme c’est l’affirmation de la vie jusque dans la mort). Mas não serão, afinal, as culturas humanas que tornam complexa, libertina ou tabu, a própria expressão do nosso inescapável princípio vital?  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Guilherme d'Oliveira Martins chamou-me a atenção para o facto de, na minha última carta, eu atribuir a autoria de uma quadra de Mário de Sá Carneiro a António Ferro: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto, / e hoje, quando me sinto, / é com saudades de mim. Tem toda a razão  o meu amigo Guilherme: na verdade - e tal qual os transcrevo - estes versos integram um conjunto de quadras feitas e reunidas por Sá Carneiro numa poesia intitulada Dispersão que, aliás, dá  nome a um livro, publicado em 1914, mas composto em maio de 1913, marco cronológico das edições da obra poética do autor. Terá acontecido que  António Ferro, amigo de Mário, usou aquela primeira quadra de Dispersão como epígrafe (ou dedicatória) de um livro de poemas seus: Saudades de Mim. Li-os em 1957, ano da sua publicação, e nunca mais vi o livro. Mas a quadra de Sá Carneiro, que o encabeçava, ficou-me na memória e, quiçá por tê-la lido no livro de Ferro, associei-a a este. Mas terá sido assim? Estaria essa quadra mesmo lá? Eis que é antiga a lembrança, nada posso garantir para além de ter decorado esses versos... Curioso ainda é o facto de eu não encontrar, entre as dezenas de milhares de livros da minha biblioteca pessoal, a obra de António Ferro, mas de lá estarem as opera omnia de Mário de Sá Carneiro, cujo 2.º volume, na edição da Ática (em 1953), dá pelo nome de Poesias e inclui Dispersão e suas quadras. Neste volume, o adolescente que eu então era registou a data em que o adquiri: CALMO (as letras iniciais do meu nome e apelidos) 1956. Possuo ainda outras edições das Poesias, incluindo do poema Diapasão, como, por exemplo, a do Círculo de Leitores (1990) ou a chamada Obra Essencial, planeada por Fernando Pessoa, conforme desejo expresso do autor, e editada pela E-Imprimatur em 2016. Dessa respigo estes trechos do poema de Pessoa (1934) cujo título é SÁ CARNEIRO:

 

                     Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
                     Com rosas e estrelas em um mundo novo.

 

                     Nunca supus que isto que chamam morte
                    Tivesse qualquer espécie de sentido...
                    Cada um de nós, aqui aparecido,
                    Onde manda a lei e a falsa sorte,

 

                   Tem só uma demora de passagem
                   Entre um comboio e outro, entroncamento
                   Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
                   Mas seja como for segue a viagem.

                   [...]

                   Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
                   Há almas pares, as que conheceram
                  Onde os seres são almas.

 

                 Como éramos só um, falando!
                  Éramos como um diálogo numa alma.
                  Não sei se dormes... calma,
                  Sei que, falho de ti, estou um a sós.

 

   A releitura destes versos traz-me memórias da amizade, em tempos bem mais antigos, entre Montaigne e La Boétie: esqueço a distância do tempo e das culturas, pensossinto a igual consciência de pertença e comunhão com o próximo. A morte de um amigo é sempre também um pouco de mim que me deixa só. [E todos nós o teremos experimentado, sobretudo depois de chegados a uma certa idade: ainda quando iniciava esta carta para ti recebi a nova da morte, consequente a uma contaminação por covid 19, do meu grande amigo e compadre Miguel João Rodrigues Bastos. Tê-la-ei sentido mais, talvez por não ter sequer havido uma despedida, nem a possibilidade de eu dar um abraço amigo à família...]  

   Quando, em carta anterior à presente, Princesa de mim, citei a quadra que de cor guardava, não pretendia falar doutro tema que não fosse a meditação que então fiz contigo. Hoje, já que veio à baila Mário de Sá-Carneiro (o hífen entre apelidos pondo-lhe o nome "à francesa", tal como ele quis durante o "exílio" parisiense), falaremos mais sobre o poeta.

   No prefácio que escreveu para a edição do Círculo de Leitores acima referida, Nuno Júdice começa por afirmar; Podia-se começar por uma constatação: a de que a escrita de Sá-Carneiro  é uma escrita doente. Não é uma doença física, mas «qualquer coisa de intermédio», como ele próprio diria - entre o corpo e a alma. E esta divisão reflete-se dolorosamente na sua imagem do mundo, transportando para o interior da ficção e da poesia um drama que o consumirá até ao instante do suicídio. Esse «qualquer coisa de intermédio» acima referido é verso de um poema, o 7, de Indícios de Ouro:

 

                    Eu não sou eu nem sou o outro,
                    Sou qualquer coisa de intermédio:
                    Pilar da ponte de tédio 
                    Que vai de mim para o Outro.

 

   Este é de 1914, mas já em 1911, no seu A um suicida, Sá-Carneiro escrevia:

 

                    Tu, morreste.

 

                    Foste vencido? Não sei.
                    Morrer não é ser vencido,
                    Nem é tão pouco vencer.

 

                    Eu, por mim, continuei
                    Espojado, adormecido,
                    A existir sem viver.

 

                   Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte - 
                   Mais triste do que a minha e malaventurada.
                   ... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
                   E há tantos como eu que não alcançam nada...

 

   Pensossinto que a morte, precisamente por ser certa e certeira, não é algo que deva estar ao nosso alcance. Não é preciso. Ela virá, e nunca sabemos nem o  dia, nem a hora. O que podemos sempre tentar alcançar é a vida, na medida possível  do nosso alcance. Afinal, é ela a nossa vocação, a alma que nos anima (perdoa-me o pleonasmo). E a vida é-nos dada, não nos pertence: chama-nos, mesmo que para fora de nós. É no dom de si mesmo que se semeia o amor e se comunica (e comunga) a vida. Mais um dos nossos humanos paradoxos: se o grão de trigo lançado à terra não morrer, permanecerá sozinho. Mas se morrer dará muito fruto. Quem amar a sua vida perdê-la-á... (João, 12, 24-25). E até sem citar os evangelhos, Georges Bataille escreveu que l´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort... 

   O drama, a tragédia, de Sá-Carneiro foi nunca ter percebido que é grande ilusão alguém ter saudades de si mesmo. Como, afinal, num texto publicado na revista Athena, nº. 2, Novembro de 1924, escreve, a dado passo, Fernando Pessoa: Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor. Dito que não é assim tão contrário ao que escrevo acima, já que pensossinto que tais deuses não morrem de amores.

   Mas para nos dar uma visão pela perspetiva de um crítico literáriotrago-te agora, Princesa de mim, uns trechos de João Gaspar Simões, que recolhi do estudo que esse crítico publica em apresentação do poeta. Pensando também como teriam certamente cabimento nas considerações da minha carta anterior, se então me tivesse lembrado de Sá-Carneiro, logo quando parti duma citação de versos seus pelo António Ferro. Vamos a Gaspar Simões:

   Os simbolistas, de acordo com os progressos da psicologia, inverteram os termos da inspiração. O poeta deixou de se inspirar na natureza, para se inspirar em si mesmo. Já não precisa de olhar as águas para ver que as mágoas correm como elas. Começa por olhar as suas mágoas e só depois procura, no domínio dos símbolos, quer naturais quer espirituais, uma correspondência equivalente...   ...O simbolismo é, portanto, um movimento poético em que o centro da poesia está no poeta. O poeta constitui-se fulcro do poema. A poesia não é uma introversão do mundo no poeta; o poeta é que o extroverte. O mundo está nele: dele, poeta, é preciso partir para encontrar o mundo...

   ... Tendência nativa, vento de feição - eis que o simbolismo nos trouxe os mais subjetivos dos nossos poetas. Mário de Sá Carneiro é a quinta essência desse simbolismo: será mesmo o seu símbolo vivo. 

   Todavia, não foi por isso que citei a primeira quadra de Dispersão. Fi-lo tão somente por ter guardado comigo aqueles versos, durante muitos e muitos anos. Talvez por eles me terem dito algo que, aos meus quinze anos, já sentira como tentação de auto refúgio e que, a pouco e pouco, paulatinamente, por lindos que os versos fossem, penseissenti que devia ultrapassar, buscando na minha circunstância, não a minha essência impossivelmente reconhecível, mas a minha existência efémera na sua razão de ser estando. 

   Finalmente, Princesa de mim, devo confessar-te que, ao reler escrupulosamente o poema Dispersão, alertaram-me a memória três outras quadras que, se bem recordo agora, me impressionaram há quase sete décadas, negativamente. Aqui vão:

 

                    Como se chora um amante,
                    Assim me choro a mim mesmo:
                    Eu fui amante inconstante
                    Que se traiu a si mesmo.

 

                   Não sinto o espaço que encerro
                   Nem as linhas que projeto:
                  Se me olho a um espelho, erro - 
                  Não me acho no que projeto.

 

                  Regresso dentro de mim
                  Mas nada me fala, nada!
                  Tenho a alma amortalhada,
                  Sequinha, dentro de mim.

 

      E concluo com a primeira: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto... Pois não será a ensimesmar-nos que daremos com uma saída airosa para qualquer crise do drama da nossa tão paradoxal condição humana. Não sei em quê a educação e o meio possam ter contribuído para Sá Carneiro ter sido o que foi. É esse um problema a que me não quero abalançar - escreveu, em 1940, João Gaspar Simões. Tampouco quero fazê-lo, mas talvez se possam situar já na infância do poeta algumas das raízes do tão doentio narcisismo que o desesperou. Perde-se no labirinto de si, não só o órfão de mãe mimado por avós e uma ama, e cujo pai se ausenta frequentemente, mas todo aquele que, talvez por outras razões, acaba por se sentir apenas na saudade de um si mesmo utópico que, por ser imaginável, ele próprio todavia desconhece. O encontro de mim com eu mesmo só será possível pelo Outro, que me dá a minha auto descoberta na minha circunstância. Na cultura japonesa, por exemplo, a contemplação da natureza é anterior à poesia. E brevemente te falarei, em rebusca do Japão, do conceito de fusosei, que o filósofo Watsuji Tetsuro define com elemento estrutural da existência humana. E talvez seja interessante comparar o livro dele, intitulado, na versão francesa Fudo, le milieu humain com uma obra de Teilhard de Chardin, lida também na minha adolescência, Le Milieu Divin.

   O velho que hoje sou aprendeu desta vez que até as falhas de memória podem abrir-nos portas para novas peregrinações. Bem haja, Guilherme amigo! 

 

Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM


Minha Princesa de mim:


   Vieram ter comigo agora uns versos de António Ferro que li na minha adolescência. Se a memória me não trai, diziam, mais ou menos, isto: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto / e hoje quando me sinto / é com saudades de mim... Mas não garanto a justeza da citação, vai para sete décadas que os li.


   Na teima de alguém se enfronhar no seu eu (ou no que julga ser ele) acaba sim, por se perder, pois o eu mesmo é uma utopia. Quiçá saudades de mim sejam, mais propriamente, saudades da infância, do tempo natalício da consciência de si. Tempo de relações zelosas, em que o mimetismo vai construindo esse paradoxo do ser humano ser ele, a sua alteridade e o que os rodeia. E pela vida adiante vamos sempre sendo eu e a minha circunstância ou, talvez melhor dizendo, a minha circunstância e eu. E será o dasein, isto é, o "ser ou estar aí", como que um momento dialético, algo só existencialmente verificável em dado instante desse entendimento do si mesmo com a sua circunstância?


   Ser-se será diferente de estar-se? Ou será, apenas e contudo, o estar, ou mesmo ser-se, ansioso de permanência? Desde que se "libertou" da lógica dita aristotélica, a filosofia "ocidental" foi-se enredando numa espécie de labirinto ontológico. E, certamente, os progressos da descoberta do universo extraterrestre abriram brechas por onde entram dúvidas e interrogações novas, abalando fundações antigas do nosso pensarsentir o espaço e o tempo onde  pressupúnhamos mover-nos. Serão finitos, em expansão, ou infinitos?  E poderão ser quer  categorias mentais, quer seres em si - classificações lógicas, ou realidades ontológicas?


   A simples circunstância deste novo pensarsentir faz de mim um eu mesmo diferente do que terei sido ontem, não na realidade de mim, que desconheço, mas no estar aqui, na minha circunstância. Todavia, posso estar enganado, na medida em que for eu mesmo o sustento do diferente, já que sou a minha circunstância e eu mesmo. Ou não será assim? A recusa oriental do eu, de que já falámos, pretende que este mais não seja do que um aglomerado de contingências biológicas e outras, ilusório e evanescível. Mas, seja como for, ele surge sempre como um momento de consciência de si em circunstância. E continuará a revelar-se por essa presença recíproca na relação que o constitui, o faz evoluir, o torna atual (no próprio sentido aristotélico do termo). 


   Receando  reconhecer-me essencialmente, contento-me com verificar-me existencialmente enquanto eu e a circunstância minha que, qual mundo flutuante, é sempre efémera, mas sempre deixa um rasto, promessa de permanência. Tudo junto e misturado dá um "panaché", faz de cada um de nós um mestiço de passado e presente e mais sonhos de futuro, de contrastes e combates, de esperanças apesar das desilusões, de loucuras apesar das evidências...


   Mas, contas feitas, o que fica do rosário de efemérides da nossa vida? Eu que para aqui estou - e, nesse estar aí, como eu mesmo me surpreendo agora e em qualquer instante do meu existir - sou, afinal, o quê? Uma relação, um ténue fio no tecido imenso, infinito, do universo? Que sentido tem o ser humano? Poderemos construir um humanismo? E como deverá ele ser? Sobre a sua obra Autrement qu'être ou au delà de l´essence, diz Emmanuel Levinas (traduzo): Falo aqui  da responsabilidade enquanto estrutura essencial, primeira, fundamental, da subjetividade. Pois é em termos éticos que descrevo a subjetividade. A ética não aparece aqui como suplemento para uma base existencial precedente: é na ética entendida como responsabilidade que se dá o próprio nó do subjetivo...  


   
Deves lembrar-te, Princesa de mim, de alguns passos antigos dessas minhas cartas, em que, inspirado por trechos de S. João evangelista, meditava sobre o amor constitutivo das pessoas, ou o valor divino do humano, para que maior seja a nossa alegria. Curiosamente, descobri hoje - dia de chuva intensa, em que, confinado numa casa de quinta solitária entre o silêncio cúmplice dos campos invernosos, escutei um ofício de trevas do Couperin interpretado pelo Arts Florissants e seu William Christie - uns trechos do belíssimo Humanisme de l´autre homme, do Emmanuel Levinas, que te traduzo:


   O homem livre está votado ao próximo, ninguém pode salvar-se sem os outros. O campo do outro lado da alma não se fecha por dentro. Foi «o Eterno que fechou sobre Noé a porta da Arca», diz-nos um trecho do Génesis com precisão admirável. Como se fecharia ela na hora em que perecia a humanidade? Haverá horas em que o dilúvio não seja ameaçador? E eis aqui a interioridade impossível que desorienta e reorienta as ciências humanas nos nossos dias. Impossibilidade que não nos ensina nem a metafísica, nem o fim da metafísica. Distância entre o mim e o si, recorrência impossível, identidade impossível. Ninguém pode ficar em si: a humanidade do homem, a subjetividade, é uma responsabilidade para os outros, uma vulnerabilidade extrema. O regresso a si torna-se interminável desvio. Antes da consciência e da opção - antes que a criatura se recomponha em presente e representação para se tornar essência - o homem aproxima-se do homem. Está tecido por responsabilidades. Por elas, lacera a essência. Já não se trata de um sujeito assumindo responsabilidades ou furtando-se a elas, dum sujeito constituído, posto em si e para si como identidade livre.


   Talvez devêssemos pensarsentir melhor a advertência sobre a vigilância perene: não sabemos o dia nem a hora...Tal pouco ou nada tem a ver com a surpresa de sermos enviados para um qualquer eterno castigo. Antes nos diz, e ensina, que o alerta da nossa circunstância  -  sobretudo a evolução e a situação da natureza e dos nossos próximos  -  é algo que devemos ter sempre presente à nossa atenção. É precisamente a nossa incompletude ou imperfeição que nos induzirá a estarmos sempre atentos aos sinais dos tempos e à circunstância do nosso ser estando. A parábola do Bom Samaritano ensina-nos a ser o próximo dos outros pela atenção e descoberta, pelo encontro e o cuidado. Aliás, a simples atenção ao outro poderá conduzir-nos à descoberta de nós mesmos e a uma metanoia: na cena evangélica da mulher adúltera, todos os que se prontificavam a lapidá-la foram saindo, depois de Jesus lhes ter dito que quem não tivesse pecado lhe atirasse a primeira pedra... 


   O humano ser estando é a nossa consciência ética, formada pelo si e a sua circunstância. Estranho a si próprio, obcecado pelos outros, o eu é refém, até na própria recorrência de um eu que incessantemente se falha a si, como escreve Levinas. Mas acrescenta : E fica assim cada vez mais próximo dos outros, mais obrigado, agravando a falta que se faz a si mesmo. Tal passivo só se reabsorve alargando-se: glória da não-essência!


   
Ao dissertar sobre a "estranheza ao ser", conceito filiado na ideia heideggeriana da "estranheza do homem ao mundo" - ou, se assim melhor entenderes, Princesa de mim, ao exílio que é a condição humana -, Levinas cita um passo do salmo 119 (v.119): Sou um estrangeiro na terra, não me ocultes os teus mandamentos. E encontra esta afirmação fundamentada no Levítico (25, 23), anterior aos gregos Sócrates e Platão: Terra alguma poderá ser irrevogavelmente alienada, porque a terra pertence-me, e vós mais não sois do que estrangeiros que moram em casa minha. E o filósofo judeu prossegue: Não se trata aí da estranheza da alma eterna exilada entre sombras fugazes, nem de um desterro que a construção de uma casa e a posse de uma terra pudessem ultrapassar, eliminando pela sua construção, a hospitalidade de um sítio que a terra envolve. Porque, tal como no salmo 119, que apela aos mandamentos, esta diferença entre eu e o mundo  prolonga-se pelas obrigações para com os outros... ... A condição, ou incondição, de estrangeiros e de escravos no Egipto aproxima o homem do próximo. Os homens procuram-se na incondição de estrangeiros. Ninguém está em sua casa. A lembrança dessa servidão reúne a humanidade. A diferença que se abre entre mim e si, a não-coincidência do idêntico, é uma profunda não-indiferença relativamente aos homens.


   
Na circunstância geral da nossa presente atualidade, enfrentando uma pandemia soez, levantam-se vozes de protesto contra algumas das medidas sanitárias impostas profilaticamente, tais como a obrigatoriedade do uso de máscara, do confinamento domiciliário, ou do encerramento de estabelecimentos comerciais, etc. Esses protestos surgem de diferentes quadrantes, refletindo sobretudo a indignação de desconfortos pessoais e rebeldia de indisciplinas confundidas com liberdades individuais, mesmo quando recorrem a diatribes solenes acerca da ameaça de estados totalitários contra princípios fundadores da democracia... Muito embora existam casos pungentes de injustiça sofrida - e por inimputáveis autores, ou apenas imagináveis bodes expiatórios...


   Todavia, a questão que agora se levanta não tem, nem pode nem deve ter, uma base ética individualista, egocêntrica, mas antes nos coloca, a todos, perante essa realidade que é cada um e a sua circunstância, o eu mesmo como próximo de todos os outros. Ninguém se salvará sozinho. Qualquer de nós sente bem, sendo honesto consigo, que todo o nosso relacionamento é, em cada um, também um elemento da sua própria subjetividade. Yo soy yo y mi circunstancia.


   
Hoje, nenhum de nós está fora, é  estrangeiro, nem pode ser estranho a esta pandemia que nos obriga a ser um por todos, todos por um.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

P.S. Na verdade, como me lembrou um amigo, os versos citados não são de António Ferro, mas de Mário de Sá Carneiro. No labirinto por vezes escuro da minha memória, ficaram mal registados, quiçá por tê-los lido citados num livro de António Ferro.

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM / EM REBUSCA DO JAPÃO XIX


Minha Princesa de mim:


   Como bem sabes, desde muito jovem convivi com os livros e o pensamento de Ortega y Gasset. E fui guardando e remoendo certas ideias que me enchiam o coração. De algumas delas amiúde te falei, sobretudo quando as surpreendia na liça das minhas cogitações. Mas creio que nunca te disse algo especial que me ocorreu aquando da minha primeira visita ao Japão, há décadas.


   Um esforçado professor universitário nipónico procurava explicar-me a "timidez" de pronomes pessoais no falar japonês, recorrendo a conceitos e exemplos - de que já tratei noutras cartas e textos meus - enraizados numa visão abrangente do mundo, do humano e da natureza. Com o desenrolar das explanações, ia-se acentuando em mim uma qualquer impressão de "já visto", mas de pernas para o ar. Ao fim e ao cabo, ocorreu-me então que a noção "gassetiana" de que yo soy yo y mi circunstancia, se poderia traduzir, em japonês, por yo soy mi circunstancia y yo... Pouco ou nada sabendo que, quatro décadas mais tarde,  acharia em Lévi-Strauss, antropólogo que eu pouco lera antes, uma interessante interpretação do "mistério". Descobri-a relendo o texto de uma conferência que ele proferiu em Kyoto, a 9 de março de 1988, sobre o tema de La Place de la Culture Japonaise dans le Monde, de que seguidamente traduzo alguns trechos.


   Os filósofos ocidentais veem duas diferenças maiores entre o pensamento oriental e o deles. A seus olhos, o pensamento oriental caracteriza-se por uma dupla recusa. Primeiro, a recusa do sujeito, já que, de modos diversos, o hinduísmo, o taoísmo, o budismo negam o que, para o Ocidente, constitui uma evidência elementar: o eu, cujo carácter ilusório aquelas doutrinas insistem em demonstrar. Para elas, cada ser mais não é do que uma montagem provisória de fenómenos biológicos e psíquicos, sem elemento duradouro como é um si mesmo: aparência vã, inelutavelmente destinada a dissolver-se.


   A segunda recusa é a do discurso. Desde os gregos que o Ocidente julga que o homem tem a faculdade de apreender o mundo, utilizando a linguagem ao serviço da razão: um discurso bem construído coincide com a realidade, atinge e reflete a ordem das coisas. Pelo contrário, segundo o conceito oriental, qualquer discurso está irremediavelmente inadequado ao real. A natureza essencial do mundo  -  a supor-se que tal noção tenha sentido - escapa-nos. Transcende as nossas faculdades de expressão e de reflexão. Dela nada sabemos, sendo assim melhor que nada digamos. 
[Lembrando a simetria, ou inversão de imagem, de que já vínhamos falando, Princesa de mim, ocorre-me que o próprio São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja - e estrela da escolástica - já dizia, no século XIII, que de Deus só não sabia nada. Na verdade, da Sua existência, avançou provas várias, racionais. Mas sabia e reconhecia que, da Sua essência, nada sabia...]. 


   A ambas as recusas 
[do sujeito e do discurso], reage o Japão de modo inteiramente original. Não dá ao sujeito uma importância comparável à que o Ocidente lhe atribui, nem dele faz o obrigatório ponto de partida duma reflexão filosófica, nem de qualquer tentativa de reconstrução do mundo pelo pensamento. Houve mesmo quem dissesse que o «Penso, logo existo», de Descartes é, em rigor, intraduzível em japonês...


   Mas também não parece que o pensamento japonês aniquile o sujeito: antes fará, dele, não uma causa, mas um resultado. A filosofia ocidental do sujeito é centrífuga, já que tudo parte dele. Mas o conceito japonês do sujeito é centrípeto. Tal como a sintaxe japonesa constrói as frases por determinações sucessivas, que vão do geral ao particular, o pensamento japonês põe o sujeito na meta: ele resulta do modo como os grupos sociais e profissionais, cada vez mais restritos, encaixam uns nos outros. O sujeito volta assim a encontrar uma realidade, como se fosse o último lugar em que se refletem as suas pertenças. 


   Este modo de construir o sujeito pelo lado de fora também serve à língua, propensa a evitar o pronome pessoal, tal como à estrutura social em que a «consciência de si» (jigaishi) se exprime no e pelo sentimento que cada um, mesmo o mais humilde, tem de participar numa obra coletiva. Até ferramentas de conceção chinesa, como certas serras e tipos de plainas, só foram adotadas no Japão, há seis ou sete séculos, com um modo de emprego invertido: o artífice puxa a si a ferramenta em vez de a empurrar para a frente. Situar-se à chegada, e não à partida, de uma ação exercida sobre a matéria revela profunda propensão a definir-se pelo exterior, em função do lugar que se ocupa numa família, num grupo profissional, em dado meio geográfico, ou, de modo mais geral, no país e na sociedade. Dir-se-ia que o Japão revirou, como se revira uma luva, a recusa do sujeito, para extrair dessa negação um efeito positivo e aí encontrar um princípio dinâmico de organização social que ponha esta também a salvo da renúncia metafísica das religiões orientais, da sociologia estática do confucionismo e do atomismo a que o primado do eu expõe as sociedades ocidentais.


   A resposta japonesa à segunda recusa é de género diferente. O Japão operou uma completa reviravolta de um sistema de pensamento: posto pelo Ocidente na presença de outro sistema, retém o que lhe convém e afasta o resto. Visto que, longe de repudiar em bloco o logos, tal como os gregos o entendiam - isto é, enquanto correspondência da verdade racional ao mundo - o Japão tomou resolutamente partido pelo conhecimento científico, onde, aliás, vem a ocupar um lugar de primeiro plano.


   
Seja como for, proponho-me agora sublinhar a importância pragmática de pensarsentirmos o indivíduo, o eu, não como centro mas como parte de um conjunto solidário, necessário ontologicamente. O ser humano, e não só, é um ser em relação, não se explica, nem sequer existe por si e para si. Ao cartesiano cogitoergo sumprefiro o gassetiano yo soy yo y mi circunstancia, posto que, sendo arbitrária a ordem dos fatores, o mesmo é dizer que yo soy mi circunstancia y yo... Aliás, as últimas encíclicas do papa Francisco lembram à nossa cultura hodierna o dever de nos pensarsentir prioritariamente na fraternidade da nossa humanidade comum e com a terra, nossa mãe e abrigo. Assim também me ensinou, ao longo destes anos todos, o meu convívio japonês.

 

Camilo Maria    

   

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM / EM REBUSCA DO JAPÃO XVIII


Minha Princesa de mim:


   Apprivoiser l’ Étrangeté, de Claude Lévi-Strauss, aparece encabeçado por uma citação de Platão: Pois que é o mais contrário, acima de tudo, o maior amigo do que lhe é mais contrário... Assim, Princesa de mim, há paradoxos em que os contrários nos surgem como alter-ego do outro. Também é verdade que prudência é grande amiga da perspicácia e, por isso mesmo, ao querer aproximar-me do ignoto, do desconhecido, tenho sempre bem presente aquela definição "agostino-aquinense" da prudência como amor sagaz. Mas hoje vamos deixar Lévi-Strauss falar-nos do padre Luís Fróis. Traduzirei trechos do tal Apprivoiser l'Étrangeté.


   O Ocidente descobriu o Japão por duas vezes: em meados do século XVI, quando os jesuítas, na senda dos mercadores portugueses, ali entraram (mas foram expulsos um século depois); e trezentos anos mais tarde, com a ação naval conduzida pelos Estados Unidos para obrigar o Império do Sol Nascente a abrir-se ao comércio internacional.


   O padre Luís Fróis foi um dos principais atores da primeira descoberta. Papel comparável desempenhou, na segunda, o inglês Basil Hall Chamberlain, de quem Fróis surge hoje como o precursor. Nascido em 1850, Chamberlain visitou o Japão, por lá ficou e lá se tornou professor da Universidade de Tokyo. Num dos seus livros, "Things Japanese", publicado em 1890  e composto como um dicionário, na letra T desenvolve um artigo intitulado "Topsy-Turvy Dom" (
o mundo com tudo do avesso) em que afirma que «os japoneses fazem muitas coisas de maneira exatamente contrária à que os europeus consideram natural e conveniente»...


   ...Se ele tivesse conhecido o tratado de Fróis, teria encontrado um repertório fascinante de observações por vezes idênticas às suas, mas mais numerosas, e conduzindo todas à mesma conclusão...


   
Alimentado pelo seu trabalho antropológico, Lévi-Strauss vai então buscar um interessante termo de comparação das notas de Fróis (séc. XVI) e Chamberlain (XIX) com outras, acerca do Egipto, feitas por  Heródoto no século V antes de Cristo! Diz o grego antigo: «Os egípcios conduzem-se, em todas as coisas, ao contrário dos outros povos.» As mulheres dedicam-se ao comércio, enquanto os homens ficam em casa. E são estes, e não elas, quem tece. E começam a tessitura na parte de baixo do tear, e não pela de cima, como nos outros países. As mulheres urinam em pé, os homens de cócoras... E o antropólogo francês comenta: E não continuo a lista, que põe em evidência uma atitude de espírito comum aos três autores. E acrescenta: 


   Não devemos ver só contradições nas disparidades que enumeram. Têm muitas vezes um estatuto mais modesto: ora simples diferenças, ora presença aqui, ausência ali. E Fróis bem o sabia, pois que, no título da sua obra, as palavras contradições diferenças [em português no texto francês] estão lado a lado. E todavia, nele, muito mais do que nos outros dois autores, existe um esforço para que todos os contrastes caibam no mesmo quadro. Centenas de comparações, formuladas de modo conciso e construídas de modo paralelo sugerem ao leitor que não se lhe assinalam apenas diferenças, mas que todas essas oposições constituem, de facto, inversões. Entre os usos de duas civilizações, uma exótica, outra doméstica, Heródoto, Fróis, Chamberlain, partilharam a mesma ambição: para lá da ininteligibilidade recíproca dessas civilizações, eles insistiam em poder ver relações transparentes de simetria. 


   
Pessoalmente, sempre procurei tentar perceber a razão e o modo de pensamentos, sentimentos e comportamentos que me pareciam estranhos, interrogando-me também, simultaneamente, sobre as razões e modos dos meus próprios. Talvez por isso, cedo compreendi que, antes de qualquer construção mental e afetiva, e por detrás das suas expressões, existe um húmus humano comum, graças ao qual nos podemos reconhecer no que, em primeira abordagem, nos aparecia contraditório. Sei, Princesa de mim, que reincido na tradução de longas citações, mas acho bem deixar-te aqui uma conclusão de Lévi-Strauss:


   Assim, teremos de reconhecer que o Egipto, para Heródoto, tal como o Japão, para Fróis e Chamberlain, tinham uma civilização em nada desigual à deles? A simetria que reconhecemos entre duas culturas une-as ao opô-las. Surgem-nos simultaneamente semelhantes e diferentes, como a imagem simétrica de nós mesmos refletida por um espelho que nos fica irredutível, apesar de nos descobrirmos em cada pormenor. Quando o viajante se convence de que usos em total oposição aos seus o tentariam a desprezá-los e rejeitar com desgosto, na realidade lhes são idênticos quando vistos ao contrário, aprende a domesticar o estranho, a torná-lo familiar. 


   Ao sublinhar que os usos dos egípcios e os dos seus próprios compatriotas estavam numa relação de inversão sistemática, Heródoto punha-os realmente no mesmo plano, e indiretamente dava conta do lugar que cabia ao Egipto segundo os gregos: civilização de respeitável antiguidade, depositária de um saber esotérico ao qual se podiam ir buscar ainda ensinamentos.


   Tal como noutros tempos, posto numa conjuntura comparável em presença doutra civilização, é também pelo recurso à simetria que Fróis, sem o saber, pois era cedo demais, e Chamberlain, sabendo-o, nos deram um meio de melhor compreender a profunda razão pela qual, por volta de meados do século XIX, o Ocidente ganhou o sentimento de se redescobrir nas formas de sensibilidade estética e poética que o Japão lhe propunha.

 

Camilo Maria    

   

Camilo Martins de Oliveira