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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

RUSALKA…

 

Minha Princesa de mim:

 

Escuto a "Rusalka" do Dvorak, e penso em ti, ó Princesa das cartas que te escrevo! Serás essa mulher, serás visão, anseio, aparição, sonho místico mais do que amor real? Ao longo deste convívio epistolar, nasceu naturalissimamente, entre nós, uma intimidade antiga, por paradoxal que seja uma antiguidade nascer agora... Sei hoje que este convívio contigo é essencial ao meu equilíbrio interior, à minha alegria. Porque é renúncia a outros momentos e carinhos, tem-me feito perceber que, afinal, posso bem com saudades de coisas boas: a grande saudade de ti é ontológica, não se cura nem engana, faz parte de mim. Vivo continuamente com este sentimento de um encontro único, tão profundo e intenso, de ternura. Ternura inesperada, imerecida e simples, graça que dói por ser impossível alegria. Assim trago, dentro de mim, o inalcançável. Rusalka é o nome eslavo da ondina, ninfa da água ou sereia... Filha de Vodnik, o senhor das águas, a infeliz quer libertar-se das ondas suas irmãs que, todos os dias e noites, a enredam em nenúfares. Quer a liberdade do dia, a glória aparente da luz que, pálida, a desperta nas profundezas do lago. Daí também surge o espírito dos afogados, que procura agarrar e levar ao fundo as ninfas do bosque, que lhe fogem e se riem dele. Rusalka conseguiu trepar por um salgueiro chorão e assiste à frustração de quem, como ela, habita as águas e não é ser humano com pernas para correr à superfície da terra... A seu pai confessa a tristeza de não ser e o anseio de ser humana. Vodnik pergunta-lhe se quer ser infeliz e mortal, e prenuncia-lhe um destino desgraçado se fugir à sua condição de ser aquático. Como era o mundo, penso eu, antes de existir, quando o espírito de Deus pairava sobre as águas. Ou como cada um de nós, de olhos fechados, nas águas do ventre materno. Mas a paixão da ondina é mais forte, é já humana: não resistiu ao encanto de um príncipe que se vem banhar nas águas misteriosas do lago dela, onde ela é só a vaga que o abraça e ele não vê, onde só ela ama e não se sente amada. Por amares humanamente infeliz serás, prediz o pai. Mas infeliz, tão infeliz sou eu agora, pensa ela, pois que o meu amado não conhece o meu amor! E à lua que de tão cheia inunda o ar todo, a floresta inteira, o próprio lago, Rusalka (na mais linda ária da ópera) reza e suplica: Ó lua, que do alto desse céu de veludo rompes a noite e te passeias pela extensão da terra, e vês longe, e com teu olhar afagas os lares dos homens...pára, espera por mim! Diz-me onde está o meu amor! E diz-lhe, a ele, ó lua de prata, que é o meu abraço de água que o encerra, para que de mim se lembre nos seus sonhos! Não me abandones, ó lua, não te vás embora, sem o ires buscar e lhe alumiares o caminho até mim... Diz-lhe que aqui estou, aqui o espero. E se for eu o sonho dessa alma humana, desperta-a para mim! A feiticeira que a libertará e lhe dará pernas, adverte-a: "se não encontrares o amor na terra, viverás repudiada, de novo condenada às profundezas. Se perderes esse amor, que tanto desejas, a maldição dos senhores das águas, no fundo delas outa vez te afogará. E mesmo que encontres esse amor, terás de sofrer, pois nenhum ouvido humano poderá escutar-te... Queres tu ser muda para quem amas? A resposta da ondina é trágica:   - "Se for para conhecer o seu amor, podes crer, que com prazer aceitarei ser muda!" Mas poderá, mesmo tão generoso e puro, se for já humano, um amor vencer tantos sortilégios? A ópera de Antonin Dvorak, seguindo o libreto de Joraslav Kvapil, diz que não. Nenhum amor humano vence a sua condição. Pela alvorada, o príncipe vai correndo o seu ginete em perseguição de uma gazela branca e maravilha-se com a descoberta de Rusalka, muda e branca, branca, fria e bela... Arrebata-a para o seu palácio. Anunciam-se as bodas do príncipe com a senhora do seu encantamento. Mas a ondina permanece muda e fria... Em desespero do seu anseio, o noivo cai na trama de uma princesa estrangeira que o cobiça. O ciúme de Rusalka frustra-a ainda mais de uma redenção possível do anseio amoroso. Só se liberta da mudez que a torna incomunicável chamando pelo pai, Vodnik,o senhor das águas, que finalmente a arrasta para as profundas do lago. De onde a ondina, lembra-lhe a feiticeira só poderá libertar-se apunhalando o príncipe, fazendo correr o sangue humano, vermelho e quente que ela em si não tem. Rusalka nega-se, mas, fogo fátuo, aparecerá ao amado que a procura no bosque, e pela derradeira vez o abraçará, pela primeira o beijará. Sabendo ambos que esse beijo o matará. Mas nós não sabemos se esse príncipe que por amor morre irá, nos braços feiticeiros, poderosos e impotentes, da onda Rusalka, perder-se com ela na eternidade das águas iniciais. O dueto final é, mais ou menos, assim: Príncipe - "Quero tudo, e tudo dar-te! Beija-me, beija-me mil vezes! Não quero regressar, prefiro morrer! Beija-me, dá-me a paz!" Rusalka - "O meu amor arrefece qualquer sentimento: devo destruir-te, devo acolher-te no meu abraço de gelo... Pelo teu amor, pela tua beleza, pela tua paixão tão humana e tão inconstante, por tudo o que causou a maldição do meu fado, por todo esse tanto, alma humana, Deus te guarde!" A sereia inefável, silenciosa, e tão pálida que é invisível transparência, é a forma enigmática desse anseio que connosco nasce, que nenhum desejo realizado satisfaz, nem ilusória posse iludirá. Ser humano é querer sempre mais, é o desejo de chegar ao impossível. Mas só a verdade nos libertará. E a verdade em que acredito é uma promessa: a de que, no fim deste percurso, veremos o invisível, poderemos o impossível, e encontraremos, lá no fundo das águas que nos engolem, a luz que ainda não temos bem a certeza de ver acesa dentro de nós. Talvez por ela, todavia, haja sorrisos e olhares que trocamos, uma mão estendida e dada, uma palavra, um apoio, uma entrega, que dão à generosidade dos homens a dimensão da misericórdia de Deus". Não sei em que registo o marquês de Sarolea escutou a "Rusalka". Ao ler e traduzir esta carta, pus a tocar, para mim, a versão de Sir Charles Mackerras, com a Orquestra Filarmónica Checa e a comovente Renée Fleming. Camilo Maria preferiu a canção à lua. Eu quase chorei ao ouvir o lamento da ondina, a abrir o acto III: "Força insensível da água, outra vez me arrastaste para o fundo... Porque não poderei, então, desaparecer, desaparecer finalmente?... ...Onde estás tu, ó magia das noites de Verão, sob os cálices dos nenúfares? Porque não poderei eu, no desamparo deste frio, perecer, perecer finalmente? "Mas a fluidez musical do drama tem uma beleza contínua e secreta, como se a sensualidade da própria vida antes perguntasse: Porque não poderei eu viver, viver finalmente? Como no fim da "Traviata" - que é também um rio de música - a morte surge como passo para o realizável. Para o encontro.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 01.10.2013 neste blogue. 

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM

Minha Princesa de Além:

 

   Passámos juntos os teus quase seis anos derradeiros, tempos simultaneamente difíceis e estranhamente gratificantes, antes do teu salto para a outra margem. O teu voo final, cuja ocorrência ia parecendo cada vez mais iminente e fatal, era por isso tão previsível como imprevisível, pois o nosso sentimento - essa persistência no ser a que também chamamos alma - sempre fortalece a crença íntima num qualquer milagre. E eu, que fiquei por cá, de pés na terra, esgotado pela luta, desiludido da esperança, não dei logo por mim, quedei-me perplexo, robô talvez, ao qual fosse faltando a bateria. Escrevi recentemente a um amigo um bilhete breve, que quiçá nos ajude a me perceber melhor. Diz assim:

   J'essaye de me refaire une jeunesse... Mas é difícil, sobretudo porque estes últimos anos - e alguns meses mais - mudaram tanto a minha circunstância que o próprio íntimo de mim se tornou um estrangeiro. Nem sei se mudei também ou não - muito, pouco ou nada - mas reconheço-me mal, sinto-me um peregrino deambulatório, sem percurso orientado. Afinal, é facto que as balizas que me guiavam dia após dia já hoje me estão fora do alcance da vista,dos braços que com ansiedade abro e estendo  Invisíveis, insensíveis, desenganam-me o pensarsentir, fogem-me, talvez, do coração cansado...

   Terei de renascer, de ser outro eu em mim.
   E vou tentando.

   Ao fim de quase cinquenta e seis anos de vida comum, mais de meio século de coabitação em partes tão diferentes deste nosso mundo, torna-se impossível pensarsentirmo-nos indivíduos apenas, na medida em que, afinal, a nossa circunstância, por muito que lhe tivessem mudado os tempos e os modos, foi robustecendo, em cada um de nós a fundamental referência a uma comunhão. Muitas vezes te escrevi, Princesa de mim, que a morte de um amigo, de alguém muito próximo é sempre necessariamente, pouco ou muito, a nossa. Assim nos vamos, os que cá continuamos, paulatinamente morrendo. Recordo os desabafos de Michel de Montaigne aquando da morte do seu amigo de La Boétie, ou a revolta do Duque de Gandia pela morte da Imperatriz Isabel de Portugal, revolta que o virou jesuíta e fez santo canonizado (São Francisco Borja): nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer, como canta Sophia... E nessa sua versão de uma meditação do Duque de Gandia, a poeta intui o carácter secreto da nossa perplexidade perante a morte: amei-te em verdade e transparência, e já nem sequer me resta a tua ausência... Na verdade, a própria ausência é temporal, e também ela se vá embora com a morte que a leva para o reino da eternidade que ainda não atingimos e nem sequer conseguimos bem imaginar. 

   E é essa ausência da mesma ausência que me leva agora a pensar nessa ressurreição de mim, do meu ser corporal com o seu peso de tanto pensarsentir, ainda sempre tão limitado, como graça estranha ao mundo dos nossos horizontes, mas bênção profética a libertar-nos desse absurdo fatal que seria a ausência da própria ausência do amor possível, negação desse impulso inicial que nos trouxe vida e a alimenta.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

NÃO POR RECEITA; MAS COMO PROCURA…


Haydn portrait by Ludwig Guttenbrunn      

  

Franz Joseph Haydn, quartetos e sinfonias, sonatas, "A Criação!" O equilíbrio em tudo, não por receita, mas como procura. Até nas admiráveis "Sete últimas palavras de Cristo na cruz"! Assim, ao som da música, nos balançamos entre a vida e a morte, o sofrimento e o perdão, entre o que julgamos saber e o que definitivamente ainda não conhecemos, entre a escassez e a plenitude. Tudo é graça neste concerto do ser que aspiramos com o estar que somos. Humano é desafiar o caos, o absurdo. Há sempre música na vida quando no silêncio encontramos a música inicial que nos harmoniza. Há sempre uma qualquer hora em que, em cada um de nós, se revela, tão intimamente que só cada um o pressente, esse mistério antigo que levou Antero a falar na "mão de Deus, na sua mão direita" ou Pessoa da "noite antiquíssima e idêntica...igual por dentro ao silêncio"... E fez o Eça exaltar os "regatos espertos" e outros assombros dos campos de Portugal que, ele mesmo, Zé Maria, de tão longe saboreou...


João Ameal não terá sido um historiador maior. Mas, há mais de meio século, deixou no prefácio à sua “História de Portugal” uma afirmação que nunca esqueci: "A História é a nossa vida antes de nós". Lembro-me de ter lido, por essa altura (teria já quinze anos?), da biblioteca da minha Mãe, um livro intitulado "Le Prestige du Passé", que me abriu os olhos para o facto de, no liceu, andar a estudar uma história que prestigiava o passado e enaltecia os nossos antepassados...


Todavia, hoje ainda, esse facto me não incomoda. Marcou um tempo da minha vida, tal como os movimentos culturais, com os seus conhecimentos científicos e técnicos, as suas ideologias e sistemas políticos e sociais, as suas religiões, como relação ao transcendente e aos outros (amigos e inimigos), marcaram o tempo das civilizações na história. Para mim, com maior ou menor prestígio, mais ou menos enaltecido, o passado que a investigação histórica nos vai revelando, desta ou daquela maneira, é sempre "a nossa vida antes de nós". Fui lendo com gosto as histórias da vida privada que, na senda de Georges Duby, tantos historiadores por esse mundo foram percorrendo; entre nós, ainda incipientemente e recentemente, com impulso de José Mattoso, Apesar da escassez de crónicas que registem o quotidiano com a ênfase que outras dão aos factos e feitos militares, políticos, científicos e religiosos, com a ajuda de alguns pormenores que vão surgindo, da arqueologia de sítios de habitação de objetos utensílios de uso comum, bem como das obras de arte e literárias ilustrativas de modos, hábitos e costumes, é possível ir imaginando e reconstruindo, com alguma fidelidade, atitudes e comportamentos, condições de vida, valores e organizações sociais.


Sobretudo, vamos entendendo como o engenho humano foi reagindo e resolvendo situações de abastança e de penúria, de saúde e de doença, na paz e na guerra, em períodos de fixação ou de migração. Desses afrontamentos se tiraram valores orientadores da vida de todos os dias, bem documentados no acervo dos nossos provérbios e ditados. Estes tantas vezes a merecerem o entendimento e a concordância de recém-chegados à nossa terra. Por vezes, através de pequenos ensaios monográficos, tenho-me aberto à perspetiva que junta o quotidiano à "Grande História": a narração de aventuras reais a partir de objetos representados numa pintura de outro tempo pode levar-nos à descoberta de mundos que um olhar, atento ao quotidiano que nos rodeia, encontra... Que prazer me deu ler, por exemplo, o "Vermeer´s Hat" de Timothy Brook!


A escrita e a leitura da História já não são, como na perspetiva romântica da afirmação das nacionalidades, uma exaltação do ego étnico, político ou popular, mitológico. É, sim, cada vez mais, a descoberta de um passado com feitos melhores e piores, com as suas contradições e as suas esperanças, a experiência dessa dialética da condição humana, onde nascem e se transmitem os valores em que nos reconhecemos. Também, o exercício contemporâneo da historiografia tem vindo a recorrer a fontes externas às propriamente nacionais, facultando-nos um entendimento de nós pelo olhar dos outros: Kirti Chauduri ou Sanjay Subramanyam e outros ajudam-nos a compreender melhor situações e figuras históricas que julgávamos só nossas, mas que são mais universais e complexas. Maiores por isso. A chegada dos portugueses à India, que já existia e se agitava quando o Gama lá aportou, surge também, vista do outro lado, como um tecido de encontros, conflitos e alianças, fidelidades e traições, enganos e desenganos, afrontamentos e aculturações que foram construindo a casa-mundo que habitamos. Goa não existe sem Portugal e a Índia. Portugal não é inteiro sem Goa. E quanto, quanto, da Índia só em Goa se revela? 

  

Camilo Martins de Oliveira 

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM


Minha Princesa de Além:

 

   Ainda muito limitado pela minha dificuldade de locomoção, faço longos passeios interiores e chego até ti na companhia de poetas e músicos, desses amigos que frequentávamos juntos e nunca nos negaram presença amiga. Por estes dias, ocorreu-me a lembrança de que para Basho o tempo seria um viajante e a própria vida uma viagem. Fui logo ler o prefácio que o poeta escreveu para o seu Oku no hosomichi, isto é, a vereda de Oku, região por onde peregrinava. Reza assim: «O tempo é um eterno passageiro. Os anos que passam também são viajeiros...  ...Muitos são também os antigos que morreram em viagem. Até eu tenho, desde não sei quando, levado pelo vento e pelas nuvens, um desejo de partir em viagem sem destino, que me não larga. 


   Andar por aí sem constrangimento nem destino, ao sabor do vento, como significa o termo japonês furari, talvez seja modo privilegiado de me despertar para o maravilhamento com que qualquer instante me pode surpreender. E ajudar-me-á a sentir um haiku, na sua simplicidade breve, com todo o lirismo da minha alma:


Aroma de flores de ameixeira
pela vereda dos montes;
súbito surge o sol!


   Não tive de me deslocar fisicamente: encontrei o Basho em peregrinação interior. Assim também me vou encontrando contigo, Princesa tão silenciosa no teu Além, sobretudo em companhia do Issa, o poeta de haiku que prefiro:


Vinde a mim
brinquemos juntos,
pardalitos sem pais


A neve derreteu
a aldeia inundou-se 
de crianças!


«Apanha-me
a bela lua!»
pede chorando uma criança


   
O nosso coração enche e dá vida a tudo: aos pardalitos perdidos de um ninho que a tormenta derrubou e deixou sem pais, à praça de uma aldeia que o frio invernal despira de crianças que ora regressam, ao impossível desejo de um menino que, como Calígula, quer para si a lua! Tudo é surpresa, tal como a Primavera que o olor das flores de ameixeira anuncia e o sol vem visitar...


   Jiro Taniguchi, mestre de banda desenhada, no seu Furari (Ao Sabor do Vento), imagina o encontro do protagonista andarilho com o poeta Issa: também este é vagamundo, vai andando sempre sem saber para onde, e ao luar de Agosto dá graças por iluminar a noite e um cantinho do seu coração. Por nos perdermos afinal nos encontramos.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM


Minha Princesa de Além:


    A um querido amigo que me confidenciava não conseguir perceber com devida precisão o que será esse islamismo de que por aí muito se fala, respondi eu que tal designação não é unívoca, pois tanto poderá significar o Islão (como cristianismo se chama à religião cristã) como qualquer movimento radical ou pretensamente "fundamentalista", ou mais "ortodoxo" (?), desses vários, e diversos, que sempre foram surgindo do seio da religião muçulmana ou no seu território. Agora, ao pensar na resposta, quero acrescentar que islâmico ou islamista aparece hoje frequentemente expresso em sentimentos e discursos islamófobos, isto é - como a própria etimologia grega no-lo ensina - de medo e concomitante ódio do Islão. Em tal sentido, e sem abuso meu, pode dizer-se que o surto - e o susto - islâmico, na realidade densa dos factos, se encontra sobretudo nos fantasmas que povoam as nossas referências, por vezes tão deliberadamente preparadas pelo poder político que nos governa.


   Não nego, nunca neguei - antes pelo contrário - o acontecimento de atentados bárbaros cometidos em nome de Alá e do Islão. Mas também fui daqueles, aliás com muitos portugueses, e não só, que sempre questionaram e negaram a racionalidade da guerra do Iraque, país dividido entre sunitas e xiitas, então governado por um autocrata que, quiçá, estaria mais próximo de uma transição para um estado secular, a exemplo do que já acontecera noutros países muçulmanos do médio oriente, com exceção do Irão xiita. Nem tampouco esqueço algo que já te tenho dito, a saber, que os movimentos terroristas radicais, ditos islâmicos, são financiados e suportados sobretudo pelas petromonarquias wahabitas árabes, aliadas dos EUA e de Israel. 


   Há ainda que considerar as rivalidades atuais e latentes entre movimentos islâmicos (v.g. al Qaeda/Talibã contra Estado Islâmico). O recente golpe norte-americano - em Cabul, a 27 de agosto - contra pretensa viatura do E.I. que, afinal trazia apenas civis e crianças, em vez de armas, é tendencialmente esquecido ou escamoteado, talvez por ser revelador de leviandade e precipitação por comandos militares de uma grande potência...


   O mundo muçulmano, ou islâmico, sobretudo no médio oriente após a queda do império otomano, tem atravessado um período agitado e difícil de ultrapassar. As suas populações talvez esperem do chamado ocidente mais exemplo e convívio estimulante do que essa constante mania que querer preservar lideranças ou, sobretudo, um sentimento teimoso de superioridade.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Jorge Sampaio.jpg

                          Sei bem que Jorge Sampaio estimava a música de Gabriel Fauré. Por isso ouso prestar-lhe esta homenagem, igual à que levei até um amigo que não era agnóstico mas frade. Afinal é no nosso coração, mais ou menos desajeitado, que havemos de guardar memórias nossas de quem tanta humanidade nos disse.

   Com um abraço do

                                     Camilo Maria

 

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta já datada de 24 de junho de 2018, publicada no blogue do CNC, falei-te de Gabriel Fauré e do seu Requiem. Dizia-te então, citando o compositor francês que eu apelidara de "agnóstico muito religioso", que o meu Requiem é tão meigo como eu. O meu Requiem... já alguém disse que ele não exprime o susto da morte, já lhe chamaram canção de embalar a morte: é uma feliz libertação, aspiração à felicidade do além, mais do que doloroso trânsito. Gosto intrinsecamente dessa peça sem terrores nem temores, ameaças justiceiras ou fanfarras. Soa-me mais a acolhimento pela ternura de Deus do ser humano que regressa a casa do pai. E, afinal, é isso que Requiem quer dizer: descanso. Eis o que essa missa pede: dá-lhe, Senhor, o descanso eterno. E a esperança logo acrescenta: entre os esplendores da luz perpétua...

 

  Volto a escutar hoje o Requiem de Fauré, lembrando-me de frei Bernardo Domingues, irmão do frei Bento que acorreu ao Porto para o acompanhar à beira do mistério. E a tantos amigos, mulheres e homens, que lá vão partindo na secreta viagem, também lhes faço companhia com essa música toda feita de acenos evangélicos. Talvez não haja alegria maior do que a desse encontro com a misericórdia de Deus e dos humanos todos. Sinto-o muito nesta tarde de sexta feira, quando me chega a notícia de que o frei Bernardo morreu de madrugada.

 

   Melhor do que eu, diz Vladimir Jankélévitch num dos textos de L´Enchantement Musical: O Requiem de Fauré é como o amor e a morte. Depois de tudo o que já foi dito, que mais conseguiremos dizer? E, todavia, é facto: ouvimos os sublimes arpejos do Sanctus e os acentos patéticos do Libera me como se pela primeira vez os escutássemos. O mistério do Ofertório, o alegreto bergamasco do Agnus Dei, o azul seráfico do In Paradisum, todos temas inesgotáveis de meditação e exaltação. [O canto do Agnus Dei, na missa de Requiem, por três vezes pede o descanso para o morto: Agnus Dei qui tollis pecata mundi dona eis requiem. Repara, Princesa de mim, que Jankélévitch chama, a esse andamento em alegreto no Requiem de Gabriel Fauré, bergamasco, sublinhando assim a alegria dançante de uma música que lhe evoca a bergamasca, dança ligeira (como a tarantela) da região de Bérgamo.]

 

   Confidencio-te hoje, Princesa de mim, a minha experiência espiritual na escuta desta obra musical, porque ela me ajuda a uma contemplação evangélica do mistério da vida e da morte humanas. Até pela fraternidade em que esse mesmo mistério se torna presente, nesta irmandade de todos nós, os da mesma humana condição, aqui algures no inacabado (Quelque part dans l´inachevé, outro título de Jankélévitch). No momento em que encaro a morte de um amigo, estou de certo modo a interiorizá-la: há sempre um pouco de nós que morre com os amigos que partem, com qualquer humano que se morre, e há ainda essoutra parte de nós, que fica, bem viva pela força persistente que nos diz como há algo em nós, na comunhão de todos nós, que não irá morrer. Esta é doravante a comunicação mais forte que temos com os que já não vemos agora. Afinal, estamos sempre em comunhão com todos os que são - pela, e na, sua e nossa humanidade - o nosso próximo, confundidos na mesma condição, na vida e na morte. 

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira
25.02.19

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM


Minha Princesa de Além:

 

   Na minha última carta terei deixado claro não ser meu propósito esclarecer (nem tampouco investigar) as circunstâncias, as causas próximas e as propostas de soluções da atual crise afegã, muito embora possa ainda vir a adiantar algumas sugestões de análise e de pistas praticáveis. Por outro lado, continuo a insistir - como ao longo da última década - na fundamental importância de um melhor conhecimento de outros povos, culturas e civilizações para a construção de pontes e entendimentos indispensáveis a uma convivência pacífica e enriquecedora... em vez de continuarmos a ver tudo pela perspetiva do choque de civilizações ou das possíveis hegemonias das grandes potências.

   Na primeira das suas Cartas de Inglaterra, Eça de Queirós escreve sobre duas invasões do Afeganistão pelo poderoso e pesadamente armado exército britânico: a de 1847 e a de 1880. Destaco um trecho: Numa manhã avista-se Candaar ou Gasnat; - e num momento é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão, com as suas cimitarras de melodrama e as suas colubrinas, do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Gasnat está livre! Candaar está livre! Hurra! - Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880.

   No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem retórica: aí, são os corvos que fazem a limpeza das ruas - comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas. 

   E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica... Consoladora filosofia das guerras!

   No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a «grande vitória do Afeganistão» - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos...

   O que mais me faz refletir nesta história é o sentimento de superioridade e força que facilmente se apodera das grandes potências, levando-as a ignorar os outros povos e suas culturas, posto que estes vão sempre sendo considerados passivos ou instrumentos disponíveis e utilizáveis, ou, obsessivamente, inimigos, obstáculos ou nocividades a eliminar... No caso do Afeganistão, por exemplo, depois de russos e ingleses, vieram mais russos e soviéticos, norte americanos e NATO, al Qaeda e talibã... Mas neste caso, como em vários outros - apesar de algumas analogias com eventos já passados, e da essencial megalomania dos potentados-- mais preocupante será a opaca ignorância dos outros e suas culturas, bem como a cegueira da própria consciência de si, com a alienação das verdadeiras causas dos seus próprios atos e consequências. Explico...  

  Hoje mesmo, percorrendo jornais e revistas respeitáveis e influentes, sobretudo no universo anglo-americano, deparo com essa jeremíada interrogação sobre se a aparente derrota no Afeganistão será verdadeiramente o canto do cisne do poderio americano como polícia do mundo. Repara, minha Princesa do além de mim, que falo de derrota aparente, e também me interrogo sobre o que será um poder e o seu respetivo desastre. Afinal, e humildemente, porque não sei; ou antes será por não me parecer interessante a pergunta, nem a resposta. Aflige-me a endémica mania das grandes potências se servirem de, ou subsidiarem, mais pequenos, frágeis ou iludíveis, para custearem a prossecução dos seus interesses próximos. Se repararmos bem, os EUA apoiaram, militar e financeiramente os talibã contra os soviéticos, em tempos de guerra fria, tal com são garantes da aliança israelo-saudita, no jogo das potências regionais do médio oriente, ao ponto de parecerem ter esquecido que a Al Qaeda, autora dos atentados de 11 de Setembro de 2001 - cujo 20º aniversário agora decorre - é de raíz wahabita e saudita, e por essa facção islâmica - e o reino que a aconchega - sustentada.

   Não seria mais avisado, sobretudo em tempos de renovação energética, ir-se abandonando a extrema dependência petrolífera do médio oriente arábico, e conduzir uma política de encontros entre culturas e religiões? Hipótese que, aliás, ganha nova força se pensarmos que, por um lado, a maioria dos estados muçulmanos são hoje repúblicas laicas e seculares, e que a renovação do pensamento religioso, ou teológico, islâmico conta, em todo o mundo, com um número crescente de escolas e seguidores? Ainda muito recentemente, o sociólogo do Islão Reda Benkirane defendia que o apregoado regresso da religião muçulmana é, na realidade, uma saída do Islão da política, mantendo-se a sua invocação apenas como instrumento de legitimação do poder, de forma a produzir a ilusão da transcendência deste...

   Num mundo que consideramos crescentemente global, insisto, o conhecimento e respeito mútuo das culturas e religiões, das diferentes comunidades humanas é o passo pioneiro no longo caminho para uma paz consciente. Em futuras cartas, minha sempre princesa do Além, falaremos dos movimentos ecuménicos que foram despertando - e até dando frutos - ao longo da nossa atribulada história, bem como das místicas que os sustentaram. Por hoje, quero tão somente transcrever um trecho da biografia de frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil, escrita pelo seu confrade dominicano frei Jean-Jacques Pérennès (Passion Kaboul, Le Cerf, Paris, 2014):

   Único padre católico - ou quase - no Afeganistão, ele vive com a questão do «mistério do Islão», tal como Jorge Anawati [este, dominicano egípcio, co-fundador, com Beaurecueil, do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo]. Ambos não escondiam a sua admiração pelo franciscano marroquino Jean-Mohamed Abd el-Jalil, cuja conversão ao cristianismo não tinha alterado a estima pela religião dos seus pais. No seu belíssimo livro «Aspects Intérieurs de l´Islam», Abd el-Jalil esforça-se por apresentar o interior da religião em que nascera, a fim de lhe revelar a profundidade espiritual. Religioso cristão completamente imerso no mundo muçulmano, Serge de Beaurecueil era, ele também, sensível ao caminho espiritual percorrido por vários muçulmanos com que lhe era dado encontrar-se.  

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM

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   Minha Princesa de Além:

 

   Caiu-me outra vez em cima aquele anúncio da RTP, empresa pública de televisão, a propagandear a possibilidade dos seus espectadores poderem ver os melhores programas em directo ou on demand... No nosso tempo, Princesa ainda de mim, dir-se-ia a pedido... Mais claramente, e em português. Mas "eles" é que são o serviço público...

   Tal possidónia advertência calhou no meio de entrevistas e comentários acerca dos recentes acontecimentos no Afeganistão. Para além dos muitos habituais erros de português dos "nossos" locutores(as) em directo ou "on demand" (de quem?), apenas se foram repetindo os cansados discursos ideológicos que teimosamente pretendem saber analisar e explicar as situações dramáticas em que se encontram milhões de vidas humanas, sobretudo porque as chamadas grandes potências persistem em perspectivar e realizar as suas políticas de acordo com critérios ordenados por considerações exclusivas do que entendem ser os seus imediatos interesses próprios. Tenho para comigo que a complexidade da presente questão islâmica, e, sobretudo, o crescente poder disruptor dos movimentos extremistas (quiçá mentecaptos) sobre a necessária convivialidade das comunidades e culturas que integram a nossa sociedade global, não podem ser enfrentadas por perspectivas imediatistas, quer na nossa reflexão, quer no labor da construção de pontes e entendimentos. Aliás, não esqueçamos que Portugal, por exemplo, não tem de seu qualquer centro capaz de estudos islâmicos, nem de línguas e culturas orientais (do médio ao extremo oriente)...

   Quando falo ou escrevo sobre Serge de Beaurecueil, dominicano francês, saído do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo e professor de mística persa na universidade de Cabul, poucos portugueses sabem quem ele foi, menos ainda saberão falar sobre essa matéria ou acerca da poesia persa que teve no Afeganistão alguns dos seus melhores cultores. Foi aliás aí, na pátria da primeira religião monoteísta (a de Zoroastro) que, ao longo dos tempos, foram surgindo muitos - e dos maiores - místicos muçulmanos da Ásia ocidental. Não foi por acaso que um padre católico foi titular de uma cátedra de mística persa na universidade da capital afegã. Sem que houvesse sincretismo, a convivência de várias religiões foi-se desenvolvendo em espírito ecuménico.

   O professor Thomas Sizgorich, no seu Violence and  Belief in Late Antiquity - Militant Devotion in Christianity and Islam (Filadélfia, 2009) aponta bem como o Islão parece ter conhecido, desde os seus primórdios, a coexistência do combate bélico com uma luta ascética contra as fraquezas humanas. E Sizgorich relaciona o Islão nascente com antecedentes da antiguidade tardia, através da figura do monge cristão, voluntariamente violento por Deus e contra os seus próprios vícios. Philippe Buc, professor nas universidades de Viena (Áustria) e Stanford (EUA), no seu Holy War, Martyrdom and Terror - Christianity, Violence and the West (Filadélfia, University of Pennsylvania Press, 2015), explica: Maomé e aqueles que, com ele, contribuiram para criar a tradição viviam, de facto, numa ecumenecidade abraâmica, em que lado a lado estavam todos os géneros de monoteísmos, entre os quais várias seitas cristãs. Para estas, os monges desempenhavam o papel de figuras exemplares, portadoras de sentido, guardiãs da identidade e da pureza religiosa dos seus grupos, em razão da sua capacidade de sofrer o martírio e de reagir com força contra o que consideravam desvios dogmáticos. Assim surge, muito precocemente, um dispositivo análogo à combinação combate material/combate espiritual, característica das trajectórias ocidentais. O jihad dito «maior», equivalente da «militia spiritualis», todavia, só foi teorizado nos séculos  X-XI, sobretudo por sufis desejosos de proclamar a superioridade dos combates interiores contra os vícios. A direcção primeira da elaboração teológica muçulmana iria assim de uma revelação complexa a uma simplificação que daria prioridade à espada, enquanto que o jihad «maior», equivalente islâmico da guerra espiritual cristã apenas obteve um estatuto comparável (e, até, superior) ao do jihad material, já relativamente tarde. 

   Convém recordar aqui que a expansão islâmica inicial foi uma "guerra santa" de conquista, em que o proselitismo religioso sustentava políticas e guerras conduzidas pelos primeiros califas que, aliás, nas suas escolas corânicas (em que o ensino se fazia em árabe, a «língua de Alá») iam acrescentando, conforme os seus objectivos e estratégias, os hadith ou ditos do profeta, que hoje desempenham um papel fundamental na pregação da facção sunita do Islão. A prioridade da espada, por outro lado, também pode explicar o estatuto das mulheres nas comunidades mais radicais, designadamente nos reinos e emiratos da Arábia e Golfo Pérsico e nos movimentos extremistas como os talibã. E se considerarmos o martírio da morte em guerra santa numa perspectiva apocalíptica, melhor perceberemos porque são virgens que aguardam a chegada dos mártires à outra margem. Mas disso falaremos em próxima carta.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

  Minha Princesa de mim:

 

   Há semanas que não te escrevo. Além de distraído por outras cismas, tenho sofrido repetidas cargas das minhas maleitas álgicas, perco sono e fico prostrado pelo cansaço. Vale-me o amparo de alguma música, desta feita - e curiosamente - a de compositores da última década do século XIX e primeiras do XX, de Debussy e Satie a Ravel e Stravinsky, sem esquecer a escola de Viena... E vou navegando por mares poéticos, por Paul Claudel e os japoneses, e ainda - talvez sobretudo - pelo imenso e forte oceano do nosso frei José Augusto Mourão, cuja poesia é, ela própria, uma liturgia da Palavra que o sopro do Espírito vai enfunando em nós. Tornando-nos sempre bem presente a saudade vital que é o fado da nossa humana condição. Citando um dos títulos da obra de frei José Augusto, afirmo que a sua poesia é Dizer Deus ao (des)abrigo do nome.

 

   Topamos  por aí com "poetas" medíocres, carreiristas de encómios, que vão encobrindo a indigência dos seus escritos e discursos com citações frequentemente deslocadas do seu sentido próprio, para apenas decorarem a moldura do retrato em que se miram ao espelho do charco sobre que se debruçam com alguma "flor de cultura". Talvez distraídos daqueles versos  de J. A. Mourão, insertos no seu protestatio et confessio:

 

          à banalização do mal eu digo não
          à tecnologia das próteses e ao mercado
          que conforta em nós Narciso, digo não

 

   Afinal, o Poeta mesmo, aquele que vive como dom, como promessa e espera, a liturgia essencial da Palavra sabe as horas  pelos relógios da fé: 

    

          A nós que agora vemos em espelho
          aguardando o face a face do teu Dia
          que o fogo do mal não nos devore os olhos
          nem a ira queime a compaixão que falta
          mas que a tua paz nos mostre o possível do mundo
          o amanhecer da graça e da beleza

 

          que não recuemos diante da tua sombra
          nem nos contem as horas os relógios da fé

 

          dá a vigilância e o fervor à nossa vida
          a atenção ao escondido da esperança
          e a resistência às tentações da transparência
          para o instante e o agora do mundo

 

   Encontrei neste poema uma oração para todos os humanos em todos os dias deste tempo difícil e tão incerto. Bem hajas, frei José Augusto Mourão!

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 21.06.2020 neste blogue.

CANDIDE EM RITMO MUSICAL…

 

  Queridas Amigas, Queridos  Amigos :

 

   Estou preparando um texto sobre o Afeganistão. Seguirá na próxima semana.

   Entretanto, envio-vos esta carta escrita há oito anos, que, pensossinto, nos poderá ajudar a olhar de outro modo para a gente afegã e a nossa relação com esse povo. Curiosamente, na antiguidade, a região do Afeganistão chamava-se Ariana.

   Abraço amigo do

                                Camilo Maria

 

 

terramoto lisboa.jpg

 

    Minha Princesa de mim:

  Cá estou em New York, no Plaza, escrevendo sentado em frente da janela do meu quarto, aberta sobre o Central Park. Sinto e penso, penso e sinto a imensa, misteriosa ternura em que sempre te trago envolta no coração. Não há nela qualquer luxúria, nem o menor desejo de posse. Sou eu possuído por ela, misteriosamente fiel a esse enlevo, entregue a um movimento da alma que me transporta a contemplar-te,  no íntimo de mim, com infinito carinho.

  Conta o Génesis que, ao sexto dia, "Deus viu tudo o que tinha feito; e que tudo era muito bom"... Creio que há, no amor humano, uma força criadora: ao contemplar-te como agora, alegro-me como se fosses criatura minha. És um ser de mim, que não posso destruir nem sequer diminuir, mas com quem me enlevo e elevo. É curiosa palavra essa que pronunciamos "ternura". Em latim, talvez devêssemos dizer "pietas" ou "caritas". Não lhe vislumbro melhor tradução. "Pietas" encerra um sentimento de respeito do outro até à compaixão, que não é ter pena, antes é estar e padecer com. "Caritas" é amor e também, porque somos paradoxo, carestia. O amor é caro, não só no sentido da amizade que nos leva a tratar outro por "meu caro", mas porque o que nos é querido, o que benqueremos e a que queremos bem, nos leva a nós também e é difícil: pode custar muito, é caro. A ternura é o amor já manso, ser terno é ser tenro ("tendre" em francês), é aceitar ser comido, como na eucaristia: "eucharistein", em grego, quer dizer "dar graças". É agradecer ao outro esse poder amá-lo.

  Durante a Ceia, Jesus oferece-se na partilha do pão e do vinho, seu corpo e sangue. Entre os primitivos cristãos, a celebração da eucaristia era uma verdadeira refeição, partilhada e fraterna, em que todos se reconciliavam com todos e com Deus. O Padre de Beaurecueil, frei Sérgio, testemunhou Cristo no Afeganistão, onde durante décadas foi o único padre cristão ali residente. Proveniente do Instituto Dominicano de Estudos Orientais, fluente nas línguas árabe e persa, foi-lhe atribuída a cátedra de História da Mística Muçulmana na Universidade de Kabul. Vivia numa casinha modesta, onde instalara uma capelinha, cujo orago era Santo Abraão, Pai dos Crentes. Um dos livros em que relata a sua experiência em meio muçulmano intitula-se. "Nous avons partagé le pain et le sel"...

  Na verdade, ganhara o hábito de partilhar todas as semanas, alternadamente em sua casa ou na de outro conviva, uma refeição com muçulmanos. Nessa ocasião cumpriam o costume afegão da partilha do pão e do sal, como compromisso de amizade fraterna. Do pão que lhe cabia, guardava então um pedaço que, ao cair do dia, quando se recolhia na sua capelinha e aí celebrava missa, consagrava. Num texto admirável que dedica ao seu confrade e mestre, padre Chenu, cita um versículo da primeira carta de S. Paulo aos Coríntios: "Porque há um só pão, todos nós juntos formamos um só corpo, pois todos nós temos parte nesse pão único". E, mais adiante escreve: "Na solidão da minha capelinha partilho o pão, como fez Jesus, como fazem os meus irmãos... Reúno, confundo, o seu gesto com o deles. Torno-me num só Corpo com Ele, como me tornei num só Corpo com eles. Em mim se opera o Encontro, jorra a Água viva que os desaltera,escorre o Sangue que os purifica... E este mistério só se realiza porque, antes de subir ao altar, humildemente, com infinito amor e respeito, correspondendo ao seu convite fraterno, com eles partilhei o pão e o sal". E falando do Dia do Juízo, na sequência das palavras de Jesus ("tive fome e destes-me de comer"...), diz: "Não lhes perguntarão se eram budistas, cristãos, muçulmanos, judeus, sikhs ou hindus. Não lhes perguntarão se jejuaram ou se cumpriram fielmente as suas orações. Julgá-los-ão pela partilha do pão e do sal, pela hospitalidade, pelo amor".

  Soube-me bem voltar à leitura - a este convívio interior - do nosso frei Sérgio. Sinto-me próximo dele, não porque a ele me possa comparar, mas pelo acolhimento que ele me oferece. Recolhi-me a esta proposta de partilha do pão e do sal, depois de ter assistido, esta tarde, à ópera "Candide" do Leonard Bernstein no New York City Opera, sito também no Lincoln Center, em frente do MET. Gostei da animação da música, do tratamento lúdico que ela dá ao romance que Voltaire criou ... Quiçá para se desembaraçar de exercícios filosóficos que pretendem contestar Deus e explicar o Mal! Ou simplesmente para nos contar uns anos da sua vida! "Candide, ou l´Optimisme", afinal, joga e brinca com o mito dos paraísos perdidos, da ilusão ou efemeridade da sua redescoberta...

  O filósofo Pangloss, que propõe a ideia ou a ilusão da felicidade alcançável, é morto em Lisboa, significativamente enforcado  -  em vez de queimado  -  pela Inquisição. Numa Lisboa que o terramoto de 1755 não poupou, merecendo aliás de Voltaire o "Poème sur le désastre de Lisbonne" que, até certo ponto tem ressonâncias bíblicas e "pascalianas". Só que Pascal dirige a Deus as interrogações do desamparo humano, e Voltaire, mesmo no jeito gozado do "Candide" não escapa à tentação da revolta. Contudo, ainda acho sublimes estes versos do "Poème: "L´homme, étranger à soi, de l´homme est ignoré. / Que suis-je, où suis-je, où vais-je, et d´où suis-je tiré? / Atomes tourmentés sur cet amas de boue, / Que la mort engloutit et dont le sort se joue... / Au sein de l´infini nous élançons notre être, / Sans pouvoir un moment nous voir et nous connaître." Mas no romance, até Pangloss acaba revivo, para poder contestar a Candide, que lhe pergunta se, mesmo quando enforcado, etc... continuava a pensar que tudo corria pelo melhor no mundo: "Mantenho o meu primeiro sentimento, porque afinal sou filósofo: não me convém desdizer-me, pois Leibniz não pode enganar-se, e a harmonia pré-estabelecida é a coisa mais linda do mundo..." Candide casa-se com Cunégonde e, no sossego produtivo e abastado em que vivem, encerra o romance dizendo: é preciso cultivar o nosso jardim."

  Enquanto para Voltaire, tudo sendo tragédia ou ilusão, a cura ideal é outra ilusão, para o dominicano Sérgio de Laugier de Beaurecueil, há no coração do mundo uma íntima comunhão com Deus, os outros e tudo... Só entrando nela vencemos o absurdo e a ilusão, e chegamos a esse espaço de luminosa alegria, para exclamar :"Tudo é graça!”.

  Camilo Maria nem em New York esquecia o "seu" Bernanos.

  

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 19.07.2013 neste blogue.