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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Prosseguindo na mesma linha de pensamento, ou de encadeamento de interrogações - mas noutro registo - falo-te nesta carta de uma resenha que Éric Zemmour, intelectual tenor da direita francesa, faz, em Le Figaro de 4/10/2018, ao livro de Régis Debray, figura da esquerda universal, intitulado L'Angle Mort (Éditions du Cerf, Paris, 2018). Este opúsculo, aliás, mais não é do que a reprodução de uma conferência do autor, proferida, a convite de Élie Barnavi, ex-embaixador de Israel em França, como lição inaugural do último encontro dos Rendez-vous du Bastogne War Museum, cujo tema foi, em março deste ano de 2018: Le Terrorisme: sommes nous en guerre? Traduzo alguns trechos do artigo do Zemmour:

 

   Há duas maneiras de ler a última obra de Régis Debray: ficarmos pelo que ele escreve, ou compreendermos - e adivinharmos - o que ele diz por meias palavras. Também há dois livros nesse texto: uma penetrante análise da confrontação entre djihadistas e as nossas sociedades ocidentais, através da relação - antagónica - de cada lado com a morte; e uma reflexão sobre a capacidade duma civilização - a nossa - sobreviver quando já não acredita numa vida depois da morte.

 

   Zemmour observa atentamente essa distinção diamantina, cortante, que Debray firmemente traça assim: onde nós vemos vazio, eles vêem plenitude...   ... desde que rompemos com a origem, apenas poderíamos perder o fim...   ... para que haja um paraíso prometido, é preciso que haja um paraíso perdido. Sou, como sabes, leitor fiel de Régis Debray, já várias vezes de falei do seu Dieu, un itinéraire - de que há tradução portuguesa (Deus, um itinerário, Ambar, Porto, 2002) - e lembrei que o filósofo francês faz, entre outras, a distinção entre religiões com clero e sem clero, com o propósito de demarcar as que, pela autoridade da interpretação eclesial de textos sagrados, asseguram, como a Igreja Católica, uma unidade de doutrina, em oposição às que deitam fogo à pradaria, como movimentos do fundamentalismo islâmico ou, já nos séculos XVI/XVII, do sectarismo de confissões protestantes. Sendo eu - tal como tu e tanta gente sabe - anticlerical (isto é: contra o clericalismo como regime de poder de classe) sou insuspeito quando afirmo que não pode haver serviço de igreja sem clero, o que não significa que este, como classe, tenha qualquer poder exclusivo discricionário e pouco atento à vida eclesial. Pois antes deve ser parte da organização do ministério necessário à comunidade dos crentes. Também aprecio um retrato de Debray por Zemmour: Debray é um progressista contrariado, tal como há canhotos contrariados. Ele acreditou nos amanhãs que cantam, nesses 1789 e 1917, todas essas novas alvoradas da humanidade que nos prometiam futuros radiosos, todas essas versões laicizadas do messianismo judeo-cristão. A experiência e a História sempre o desembriagaram um pouco. Mas prefiro, até por essa experiência, que iniciada na sua juventude, foi refletidamente evoluindo, a sincera descoberta ou novidades de Régis Debray: Progressismo, cientismo, socialismo. A perda do Deus futuro fez do futuro o nosso Deus...   ... Quem poderá ainda duvidar de que a pós-modernidade será cada vez mais arcaizante? Arcaico não é o que está caduco, é o enterrado que remonta à superfície em caso de crise geral, visto que o mais resistente, num indivíduo como numa coletividade, é o que nele é mais antigo.

 

   Eis palavras luminosas na busca de um sentido para a vida humana, seja no oriente ou no ocidente, no tempo circular ou no tempo escatológico. Não nos falam de uma relíquia, algo que resta ou sobrou, mas de algo vivo, alma que, no fim do percurso, se reconhece no princípio de tudo.

 

   E vamos vendo, cada vez mais, em comunidades e escolas do Islão, um número crescente de crentes que buscam na leitura dos seus textos fundamentais a visão do Deus Vivo dos vivos, já não o castigador deus dos mortos, mas o Misericordioso. Infelizmente, a nossa generalizada ocidental cultura ainda largamente reserva, no seu seio, desconfianças agrestes e fobias de outras culturas e expressões religiosas, o que muito dificulta o exercício da saída para o encontro e o diálogo, este nunca sendo possível sem um esforço de escuta atenta dos outros para se iniciar o cultivo cooperante dos campos do entendimento e da paz. Bíblia hebraica, Novo Testamento cristão, Alcorão - todos esses livros e coletâneas têm várias leituras possíveis. Se assim não fosse, talvez não tivesse havido tanta guerra religiosa, menos ainda tantos cismas que ainda hoje dividem cada confissão em diferentes igrejas, sinagogas, madraças, seitas e escolas... Parece-me, e tanto o tenho dito, que não há cultura da paz possível sem essa entreajuda cooperativa, não só das religiões, como de todos os seres humanos de boa vontade, no sentido apocalíptico da descoberta da dignidade e da misericórdia de todos e cada um, e a todos comum, em cada uma das diferentes expressões de que se reveste. Mais vale apoiarmo-nos na busca da paz do Deus misericordioso de tantos muçulmanos, do que fechar-lhes a porta do diálogo, só pelo receio ou o ódio que nos suscita o fanatismo religioso de muitos outros. Sem saída e caminho não há encontro possível.

 

   Para já, o fanatismo suicidário, por exemplo, dos que se fazem explodir para atentar contra outros, apesar da repugnante desumanidade que também é sua, pode também levar-nos a outra interrogação. Esta, igualmente assustadora, por nos confrontar com o nosso comodismo materialista - e, consequentemente, com a fraqueza relativa da nossa civilização num hipotético cenário de choque, à Samuel Huntington - deixo-ta aqui, para nossa reflexão, nas palavras de Régis Debray:

 

   Abismo negro e escancarado, o terrorismo de invocação divina merece, nos nossos países, para além de uma resposta musculada e sem hesitações, ser cada vez melhor localizado e perseguido. Mas que tal nos não faça fugir de um leal regresso sobre nós mesmos. O ato frequentemente suicidário do terrorista força-nos a pensar no que já não queremos, e até, com a ajuda da habituação, naquilo em que já não podemos pensar: o lugar da morte na nossa vida. Ou, mais precisamente, no facto de que ela já não tem esse lugar. Nunca nos saberemos explicar com esses "loucos de Deus", sem nos explicarmos com a nossa própria situação, nós que, como parece, nos tornámos sages ao ponto de já não acreditarmos em qualquer vida futura.

 

   Façamos o esforço de não confundir a árvore com a floresta e, sobretudo, de vermos primeiro as traves que nos tapam os olhos...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A atual Comissária Europeia para a Concorrência, Margrethe Verstager, filiada no partido social democrata, dinamarquês e europeu, tem sido visivelmente ativa no controlo, em defesa da livre concorrência, dos comportamentos, no mercado, de empresas ou grupos mais suscetíveis de a violarem. Receia que, sendo o presente governo do seu país de confissão conservadora, não venha a ser proposta para repetir o mesmo mandato na comissão a ser designada em 2019. Um velho amigo meu, muito rodado em andanças eurocráticas, diverte-se a cognominar a Comissária Verstager de "Margarida das Multas", em memória daquelas coimas bem pesadas que, por iniciativa dela, a Comissão Europeia aplicou aos gigantes Apple e Google (esta, aliás, tendo-as sofrido já por duas vezes, por abuso de posição dominante do seu comparador de preços e do sistema de exploração móvel Android).

 

   Outra grandeza do mercado, Amazon, está hoje sob investigação por nova suspeita de abuso de posição dominante. Diz a senhora comissária que se pretende assim facilitar a outras empresas a entrada em competição no mercado europeu, muito embora, cito, as quotas de mercado se mantenham sensivelmente inalteradas. Mas penso que o consumidor tem mais escolha e que o eco sistema empresarial europeu está mais dinâmico do que há uma década.

 

   ... Não queremos interferir nos negócios das empresas. Mas se suspeitarmos de que não fazem jogo limpo no mercado europeu, agiremos. Essas plataformas têm a especial responsabilidade de não utilizarem o seu tamanho para tornar as coisas mais difíceis para os actores mais pequenos. [Fim de citação].

 

   Destas notícias e declarações retirarei, Princesa de mim, uns tópicos para nossa reflexão conjunta:

 

  1. A excessiva partidarização de qualquer show off político, em jeito de marketing, em prejuízo da propriamente dita ação política, cuja motivação e cuja crítica ou, até, maior ou menor oposição, deveriam ser orientadas exclusivamente pelo discernimento do bem comum e sua prossecução, independentemente da cor partidária dos seus protagonistas e respetivas ambições estelares.

 

  2. A verificação da possibilidade de se garantir qualquer liberdade de concorrência nos mercados, a partir do momento em que se assegura, e até se fomenta, o aparecimento de gigantes empresariais com a capacidade financeira requerida para uma posição dominante no desenvolvimento e controlo (com vocação monopolista) de tecnologias de vanguarda.

 

  3. A interrogação das possíveis contradições dos sistemas e regimes políticos e económicos em vigor. Designadamente, da fé na "liberalização" dos mercados como fator sine qua non da otimização da eficiência económica e da justiça social. Exemplo bem conhecido de muitas regiões e cidades europeias, e não só, tem vindo a ser o que, em recente editorial, Le Monde intitulou Le Tourisme au Bord de l´Overdose: Um pouco por todo o lado, os autóctones exprimem a sua saturação dessa invasão incontrolada, até porque o maná financeiro trazido pelos turistas dificilmente compensa os desgastes colaterais. Os preços do imobiliário disparam, o emprego concentra-se em ofícios sazonais e mal pagos, o meio ambiente degrada-se, as cidades transformam-se em museus, em parques de atração ou em centros de permanentes libações...

 

  4. A interpelação ética da "filosofia" ou "sabedoria" consumista que motiva e orienta o nosso funcionamento socioeconómico. Tal será, mais ou menos, repetir a pergunta que serve de título a uma obra de Zygmunt Bauman, recentemente falecido e de quem tanto te tenho falado: Does ethics have a chance in a world of consumers? (Harvard University Press, 2008). Isto é: só se ainda acreditarmos que a ética deve ter um desempenho importante na nossa vida pessoal e coletiva, só assim será possível fazermos essa pergunta. Cuja resposta quiçá nos levará a perceber o sem sentido ou absurdo das ilusões materialistas correntes. Para refletires, traduzo-te palavras luminosas de Bauman: A vida de consumo não consiste em adquirir e possuir. Nem tampouco em nos desembaraçarmos do que adquirimos antes de ontem e de que nos gabávamos ontem ainda. Não, ela consiste, antes de tudo, a estar em movimento. A maior ameaça que pesa sobre uma sociedade que faz da "satisfação do consumidor" a sua motivação e finalidade, é precisamente a do consumidor satisfeito. Não tenhamos dúvidas de que o "consumidor satisfeito" seria uma catástrofe tão grave para ele próprio como para a economia consumista. Nada mais a desejar? Nada mais a procurar? Limitados ao que possuímos (logo ao que somos)? Tal situação - breve, se tudo correr bem - só poderia receber um nome de batismo: aborrecimento.

 

   A redução do ser humano a homo consumens, ou seja, a uma função inadvertida num processo económico de sentido totalitário, não só é limitativa da liberdade, como também da própria consciência de si e dos outros. A figura marxista da alienação denunciava, numa sociedade industrializada, o furto ou transferência objetiva do valor do trabalho. A figura do consumista, na nossa sociedade pós-industrial, representa uma forma nova de alienação da pessoa humana num processo económico em que ela serve a troco de objetivos materialistas a cuja busca ela é sistematicamente induzida. E esse passo dado, de ser para ter, a vai paulatinamente encerrando num egoísmo cego, que lhe tolhe o coração aos outros e lhe reduz o respeito por si mesma à capacidade do seu poder de compra. Ou ao "glamour" de qualquer possível exibicionismo.

 

   Entretanto, talvez por efeito do Prémio Nobel de Economia que lhe foi atribuído em 2017, o economista norte-americano Richard Thaler - tem ganho uma audiência internacional que os seus colegas em ciências sociais tardavam em dar-lhe. Sendo um dos pais (com Daniel Kahnerman, Amos Tversky, George Akerlof e outros) da dita economia comportamental, que se foi afirmando nos anos 80 do século passado, Thaler publicou, em 2015, com o título de Misbehaving - The Making of Behavorial Economics, um livro que resume as experiências que foram marcando o caminho da formação da economia comportamental como ramo da ciência económica que, contrariamente ao que afirma a teoria clássica, pretende que os seres humanos não agem racionalmente em função dos seus interesses individuais, mas, sim, da conjugação de fatores psicológicos, institucionais, culturais, históricos, biológicos... Ou seja: esta escola retorna a visão económica à sua circunstância social e cultural, não se fiando apenas nos modelos matemáticos construídos. Mas não será, então, básico reconhecer aí o ser humano, com suas frustrações e aspirações e, sobretudo, com essa parte de si que é insaciável e livre, de modo a que as propostas da ciência e da política económicas sejam mais libertadoras das pessoas e dos seus caminhos espirituais - e não mais, teimosamente, ir utilizando a perceção de comportamentos, suas motivações e condicionantes, para ir "aperfeiçoando" propostas de mais refinado "marketing" escravizante?

 

   Afinal, impõe-se reconhecer o valor, ou a necessidade, da ciência económica se ir debruçando sobre outras áreas circunstantes do próprio funcionamento ou intervenção do homo economicus, entidade abstrata, de que Richard Thaler já falava assim: O problema decorre do modelo utilizado pelos economistas, modelo esse que substitui o homo sapiens por uma criatura fictícia chamada homo economicus, e que, cá por mim, prefiro chamar econo. Mas fundamentalmente necessário, mesmo indispensável, será a conversão da ciência económica em ciência humanista, de modo a que, também na política, o ser humano seja o centro - e o bem comum a finalidade - do exercício e da regulamentação económica. Já em carta anterior, Princesa de mim, eu te perguntava por quem se lembre ainda do padre Lebret, dominicano francês, e do seu movimento, e escola, o tal chamado Économie et Humanisme...

 

    Todos nós diariamente ouvimos ou lemos acerca de orçamentos, défices, impostos, competitividade das empresas, produto nacional... mas quantos se lembrarão de que o número dos nossos irmãos portugueses que se encontram em situação de pobreza efetiva representa quase um quarto de todos nós? Para que serve tanta economia científica, diplomada e politizada? Podem apontar-me a dedo como idiota ou pateta - que talvez seja - mas tenham a caridade de responder à pergunta de Deus a Caim: Que fizeste de teu irmão?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A dado passo (página 72) do meu Fomos em Busca do Japão, escrevi: Já referi Shusaku Endo, e com ele nos interrogámos sobre o porquê do cristianismo surgir, aos japoneses, como estrangeiro. E verificámos, com o professor Suzuki Norihisa, como o cristianismo progrediu no Japão em tempos de mutação social e subversão de valores, mas esses são, simultaneamente, períodos em que também se faz sentir uma maior necessidade de coesão nacional. Esta manhã, relendo este trecho e outros que adiante citarei, ocorreu-me ainda um passo do An 1000 An 2000 - Sur les Traces de nos Peurs, de Georges Duby (Textuel, Paris, 1995), livro que comprei e li em Tokyo, comparando a Europa medieval (aqui no século XIII) à presente: Também temos uma visão clara da evolução das mentalidades. Nesse período de forte crescimento, como atualmente, os filhos não pensavam como os pais. Apesar dessa sociedade muito hierarquizada cultivar de modo fundamental o respeito dos antigos. Qualquer súbito e novo modo de pensar é sinal, não só de mudança da circunstância económica, social, política e referencial (ou cultural), mas de um sequente salto para a frente de uma nova geração, seus modos de pensar e artifícios. O tempo e o modo: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

 

   O tempo e o modo do Japão - escrevia eu então - à hora da chegada dos portugueses, será a circunstância em que se desenvolverá o chamado século cristão, com o progresso rápido da evangelização e, depois, com as perseguições, até ao martírio de muitos (sobretudo japoneses) e à expulsão de todos os missionários e dos portugueses mercadores. As rivalidades entre senhores feudais, a sua própria concorrência ao batismo cristão para obterem armas de fogo e o benefício do comércio dos portugueses (sobretudo este, posto que, quanto a mosquetes, depressa os japoneses os fabricaram em Sakai); o movimento de unificação conduzido pelos senhores da guerra Nobunaga, Hideyoshi e Yeasu, este vindo a ser o iniciador do shogunato Tokugawa; a influência política das seitas e mosteiros budistas (e falarei dos kenmon); a desconfiança dos bakufu, aliás alimentada por adventícios holandeses e ingleses, de que a evangelização católica visava objetivos de cruzada e conquista política... Tudo isto pesou no destino do cristianismo e dos portugueses no Japão! Diga-se, a talho de fouce, que a tal ideia de cruzada não era apenas pura invenção protestante: os próprios Xavier, Valignano e outros jesuítas tiveram muitas vezes de enfrentar pessoas e conceitos firmados nas cortes portuguesa e espanhola, que defendiam que o Japão deveria ser outro Peru, como terra de conquista espiritual e temporal!

 

   Claro fique que os concorrentes holandeses e ingleses exploraram quanto possível o receio semeado, servindo-se da sua qualidade de cristãos protestantes e adversários dos católicos ibéricos. Não esqueças, Princesa, que aquilo a que hoje se chama a primeira globalização - e foi a expansão, primeiro ibérica, logo europeia, pelos cantos do mundo - a toda a parte levou essa mistura política, traduzida em guerras, de rivalidades económicas, concorrências comerciais, e confrontos religiosos fratricidas. Aliás, lutas entre irmãos, e intrigas, não foram apanágio exclusivo de reformados contra tridentinos e vice-versa: no Japão, por exemplo, a partir do momento em que se relaxou o Padroado Português e, pela rota de Manila, foram chegando missionários de outras ordens religiosas, também os católicos entre si se foram pregando umas partidinhas... Não quero fazer alarde de investigação histórica (nem sequer historiador sou, muito menos investigador) e procuro não te dar aulas, mas tão somente propor-te uma leitura descontraída de coisas passadas. Portanto, passo a ilustrar o período de que te falo com textos respigados do The Christian Century in Japan (1549-1650) de Charles Boxer (University of Califórnia Press, 1951). Traduzo-te alguns:

 

   Um dos lugares comuns da história é que não há confrontações mais amargas do que as engendradas pelo odium theologicum, que parece inseparável de qualquer disputa doutrinal e, mais ainda, em religiões como o Cristianismo e o Budismo que teoricamente deixam tal tensão à paz e boa vontade. O registo da Igreja Cristã a este respeito até é mais negro do que o dos sequazes do Iluminado, e a calúnia mútua a que as ordens católicas romanas chegaram no Extremo Oriente foi uma das principais causas do relativo falhanço das suas missões na China e no Japão. Como observou o Professor Murdoch [cf. Murdoch, James, e Isso, Yamagata, A History of Japan during the Century of Early Foreign Intercourse, 1542-1651, Kobe, 1903], a simples verdade dos factos é que, entre 1564 e 1614, pelo menos, entre jesuítas e franciscanos, no Japão, se chegou quase à guerra à facada, tal como sucederia no Paraguai, poucos anos depois. Não há historiações da Igreja que cheguem para esconder tal verdade a quem queira dar-se ao trabalho de gastar algum tempo a analisar as cartas que as missões daquelas Ordem e Companhia enviaram às respetivas sedes.

 

   Não tenho bem a certeza de em quem é que o Professor Murdoch pensava quando empregou o termo "historiações da Igreja" [Church historianizing], visto que os coevos participantes em tão pouco edificantes disputas não tentaram esconder o que tinham por verdade histórica, nem tampouco o fizeram os protagonistas Jesuítas e Dominicanos da igualmente amarga querela acerca dos ritos chineses, que convulsionou a Igreja Católica no século seguinte. Pelo contrário, a franqueza e chã linguagem dos seus respetivos porta-vozes não deixam a mínima dúvida da sua sinceridade, pense-se o que se pensar dos motivos (muitas vezes irrisórios quanto baste) que inspiraram essas erupções de inveja, ódio, malícia e falta de caridade. Frailes idiotas era um termo de opróbio usado pelos jesuítas muito antes de se tornar num grito de guerra dos anticlericais espanhóis no século XIX.

 

   [Ainda que não te escreva esta para te falar de história, aproveito-lhe a oportunidade de abrir um trecho só para te dizer que, na circunstância do Padroado Português do Oriente, em que se incluíam China e Japão, e apesar da sede do paralelo Patronazgo Espanhol estar nas Filipinas, a norma estabelecida pela coroa dos Áustria espanhóis, que submetia a si os dois reinos (Espanha e Portugal) e seus impérios, ordenava que a administração ultramarina de cada um fosse independente da do outro, bem como separadas as respetivas áreas de missionação. Desse modo, a presença e atividade das missões espanholas de outras ordens religiosas no Japão era ilegal, visto que, desde Dom João III, o Padroado fora confiado aos cuidados da Companhia de Jesus. Mas não te será difícil entender como o mui lucrativo comércio triangular (luso-nipo-chinês) era naturalmente cobiçado pelos mercadores espanhóis estabelecidos em Manila, onde arribavam pela rota do Pacífico, vindos do Peru... E a ganância pode muito.]

 

   Fechado o parêntese, volto ao tema da distorção de outrem e do próprio, por força, não tanto de divergências ou de propostas alternativas, em si mesmas, mas da concorrência entre rivais e das consequentes ganas de cada qual ser superior aos outros. É interessante verificar como a ideia das virtudes da concorrência como indispensáveis fatores de progresso e, finalmente, de justiça, não só fez dela a palavra de ordem para a viabilização de qualquer sociedade política e económica verdadeiramente liberal e democrática, como até canonizaram a agressividade como virtude heroica, e a ambição de dinheiro e poder como causa efetiva de saúde social e fim último do esforço individual.

 

  Concomitantemente se esquecem os efeitos colaterais ou secundários decorrentes da degenerescência da competição em tirania concorrencial. Ou, se assim melhor entenderes, Princesa de mim, se olvida a parábola do barranco de cegos. Tal como os missionários cristãos, no Japão do século XVI/XVII, não aprenderam com a lembrança de que uma das razões do seu êxito inicial na conversão de japoneses estar precisamente na incerteza que os nipónicos experimentavam com a divisão e a concorrência agressiva das seitas budistas entre si, tal acontecendo, diria o professor Norihisa, em período de necessidade de coesão nacional. Assim também hoje, muito se fala de crise das democracias liberais, ameaçadas por populismos, nacionalismos estremes ou, ainda, por agressões de fundamentalismos islâmicos e sabotagens russas e chinesas... Mas pouco se faz uma nossa introspeção -  exercício que talvez nos conduzisse à perceção de revisões necessárias da nossa cultura e comportamentos. Ao correr da pena epistolográfica - que, neste caso, é um teclado de computador portátil - vou então desafiar-te a recordares comigo alguns exemplos das nossas correntes contradições e perplexidades. Não seguirei qualquer ordem preestabelecida, vai tudo ao jeito do Vitorino Nemésio, isto é, do meu se bem me lembro... E assim irá por etapas, isto é, por cartas várias.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Não te falo agora, Princesa de mim, de um problema da consciência pessoal de cada um de nós, mas antes me preocupa a inspiração de uma atitude eclesial, isto é, o olhar da caridade sobre o justo e o injusto. E terei de te falar de uma questão insidiosa: a confusão corrente, que se pensa ser a da Igreja "oficial", entre crime e pecado. E, claro está, do embrulho mental e sentimental em que nos meteu tudo isso, pela  insistência em se manter uma intervenção jurisdicional da Igreja sobre o comportamento das pessoas, e em quase todos os aspectos das suas vidas. Entre amigos, como bem sabes, Princesa de mim, costumo dizer que a Igreja padece de um excesso de moralismo canónico e duma correspondente carência de esperança evangélica na acção do Espírito Santo... E esse moralismo começa assim que se considera qualquer ato mais importante do que a inspiração donde decorre ( A.-N. Bertrand, citado em A. Lalande: Vocabulaire technique et critique de la philosophie, 8ª edição, Paris, 1960). Caímos assim no domínio objetivo do direito positivo, a lei de Deus passa a ser lida mais como um código de conduta, com infrações textualmente identificadas, concretamente verificáveis por factos reconhecidos ou pelo reconhecimento, em confissão, dos seus próprios autores. Ora, parece-me que, em sentido ou espírito evangélico, o mandamento novo antes é uma vocação à santidade, um caminho de perfeição cujo prémio é a alegria da semelhança ao Pai (os nossos Padres até lhe chamavam regras de vida santa) do que uma regra totalitária que incessantemente nos ameaça com o inferno. O jugo de Jesus Cristo é suave, dá à nossa liberdade a oportunidade sempre renovada de cooperarmos com o Senhor Deus. Gosto muito daquela definição que o dominicano frei Jean Cardonnel dá do pecado: Le péché c'est la passion de nos limites. Na verdade, o pecado é essencialmente a desmesura do nosso contentamento com a nossa mesquinhez. É como querer fechar-se em casa, cerrando portas e janelas, em dia de sol e brisa mansa.

 

   A realidade do pecado não é catalogável, do mesmo modo em que o é, e tem de ser, pelo direito positivo, qualquer crime, com suas atenuantes e agravantes, como ato que é facto punível por pena objetivamente estipulada. Por isso mesmo, todos os crimes cometidos por gentes da Igreja - e a Igreja somos todos nós - devem ser devidamente denunciados e entregues ao juízo e sentença da justiça civil, pois que até a reparação possível de qualquer infração da lei e da violência sofrida por vítimas, ou da simples violação dos seus direitos, não pode ser isenta da norma que, por fundamento e definição, é, e deve sempre ser, equitativa, isto é, igual para todos.

 

   Outrossim, a Igreja não é um tribunal, nem humano nem divino. É, entre nós, a comunidade da misericórdia de Deus na terra dos homens. O seu serviço não é o de ameaçar ou punir, é o de nos chamarmos, uns aos outros, ao cumprimento da regra do amor, que conduz à visão de Deus. Pelo acolhimento na fé e pela esperança no amor misericordioso de Deus, pelo labor de lançar a ponte sobre esse abismo a que o diplomata e grande poeta francês Alexis Leger (conhecido como Saint-John Perse) assim se referia no discurso que proferiu quando lhe foi entregue o prémio Nobel, em 1960: O verdadeiro drama deste século está na distância que temos deixado crescer entre o homem temporal e o homem intemporal.

 

   E é certo:  a vocação, o risco e o compromisso da - chamemos-lhe assim - "aventura evangélica" de cada um não são sempre iguais, já São Paulo explicava bem como, no corpo da comunhão em Cristo, são muitas e diversas as funções, consoante os dons e o carisma, os serviços e as capacidades. E se a todos nos é pedido seguir Jesus na amoris laetitia, nem a todos é feita a mesma chamada a uma resposta absoluta, ou quase, que é renúncia a família e amigos, a bens e arbitrariedades... Por isso mesmo, a Igreja dos Apóstolos não exigia o celibato aos seus ministros, e o próprio São Paulo aconselhava a escolha dos bispos de entre homens casados e considerados bons pais de família. E o beato Bartolomeu dos Mártires, frade mendicante e dominicano (voluntariamente comprometido com os três votos: pobreza, castidade e obediência) enquanto arcebispo de Braga defendeu, no Concílio de Trento, que não se impusesse a obrigatoriedade do celibato aos padres católicos, pensando na dura vida dos seus párocos em serranias de Barroso.   

 

   A Igreja, hoje tão perplexa pelos escândalos de pedofilia no seu seio - sobretudo pelo envolvimento direto ou encobrimento dos mesmos por muitas das suas "Altas Patentes" (é minha a ironia da designação) - só tem todavia, como repetidamente disse, uma forma de tolerância zero para com os crimes cometidos: entregá-los ao poder judicial da sociedade civil, para que sejam julgados conformemente à lei comum. Aliás, tal gesto talvez inspire outros grupos sociais, confessionais ou laicos, todos, como a Igreja Católica, aí simplesmente cívicos, a diligenciarem o mesmo - pois sabemos bem quantos mais abusos de menores e sevícias sexuais, domésticas e não só, também fora da Igreja se vão cometendo... Esta deverá concentrar-se no exercício da misericórdia cristã para com todos os que, mesmo criminosos, para ela devem ser apenas pecadores. Evitando o disparate de pensar que, com absolvições e promessas de boas intenções se corrigem problemas deste gabarito. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Lembra-te, Princesa de mim, da palavra de Jesus que bem distingue crime e pecado: quem consentiu no desejo ou vontade de o fazer, já cometeu pecado no seu coração. Aos olhos do deus cristão, o pecado não está nos factos, mas sim no mal que deixarmos habitar o nosso pensarsentir. Os feitos dos homens são certamente passíveis de chamadas de atenção e correção fraterna, sem prejuízo da sua ponderação pelo poder judicial civil, ou consideração pelas medicinas humanas. Mas a consciência, a casa do pecado, essa responde perante Deus, e a Igreja apenas deve abrir-lhe sempre a porta da conversão e reconciliação. A catalogação dos pecados, suas penitências e indulgências, até tem servido para que catecismos não tenham reparado que não se fala, por exemplo, de sexo, nas bem aventuranças, nem no Juízo Final. O que, neste, nos será perguntado é se acudimos e acolhemos quem precisava, que esperava. Revejam-se os catecismos e, já agora, debatam-se em sínodos mais participados questões como  a contracepção e o divórcio que, não sendo crime perante a lei civil, nem sempre serão pecado aos olhos justos de Deus... Para terminar esta carta - em que podia ter-te dito ainda muito mais - deixo-te um parágrafo dum artigo do teólogo americano Stanley Hauerwas, significativamente intitulado The Demands of a Truthful Story: Ethics and the Patoral Task , e publicado na revista Chicago Studies (nº21, 1982). Traduzo:

 

   A primeira tarefa da ética cristã implica uma tentativa de nos ajudar a ver. Porque apenas poderemos agir no mundo que pudermos ver, e só poderemos ver bem o mundo se formos treinados para ver. Não conseguiremos ver só a olhar, mas sim através de habilitações disciplinadas, que se desenvolvem pela iniciação a uma narrativa.

 

   O conceituado professor de teologia no King´s College, em Londres, Alister McGrath, diz (cf. Heresy, Society for Promoting Christian Knowledge, London, 2009) que aquele teólogo americano é um dos muitos escritores contemporâneos a enfatizar que tratar o Cristianismo simplesmente como uma colecção de doutrinas ou declarações de fé leva a uma grave distorção do seu carácter. Antes e mais, ele deve ser visto como diferente caminho de vida, tornado possível pela ação da graça do Espírito Santo, que orienta os seus fiéis para o Pai através de Jesus Cristo.

 

   Sobretudo em sociedades onde o clero se constitui em classe ordenada e "consagrada" pela segregação (com mais fundamentação canónica ou pseudoteológica do que evangélica), e é maioritariamente instruído pela aprendizagem de catecismos, mais do que por formação intelectual adequada a questões teológicas e pastorais, o clima necessário à meditação e reflexão entre a fé e o mundo parece ausente. E, todavia, o caminho da Igreja no mundo deve ser percorrido pela comunhão dos crentes, essa fé que interpela o mundo e deixa o mundo interpelá-la. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreve Sylvie Courtine-Denamy em Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil): Para Arendt, o perdão é um conceito com função importante: «Se não fôssemos perdoados, libertados das consequências do que fizemos, a nossa capacidade de agir seria como que encerrada num ato único do qual nunca mais nos poderíamos levantar; ficaríamos para sempre vítimas dessas consequências, tal como um aprendiz de feiticeiro que, à falta de fórmula mágica, não poderia quebrar o encanto». O perdão surge assim como libertação possível da irreversibilidade da ação, «quando não sabíamos, não podíamos saber o que fazíamos». É a Jesus de Nazaré que ela aqui se refere, a Ele ter sabido suster que o poder  de perdoar «não vem de Deus [...] mas deve, pelo contrário, trocar-se entre os homens que, só depois disso, poderão esperar ser também perdoados por Deus». As citações de Arendt aqui feitas por Courtine-Denamy são todas respigadas da versão francesa de "The Condition of Modern Man", publicada em 1961 e 1983, pela Calmann-Lévy (La Condition de homme moderne, tradução de G. Fradier, com prefácio de Paul Ricoeur). Mais adiante, observa: Por outras palavras, o perdão é libertador. Na verdade, só o amor pode perdoar, na medida em que «se desinteressa, a ponto de ser totalmente ausente do mundo, daquilo que possa ser a pessoa amada, das suas qualidades e dos seus defeitos, como dos seus êxitos, omissões ou transgressões». Eis porque é que o amor, sendo «estranho ao mundo» é, não só «a-político», mas «antipolítico». Temos, pois, de concluir que se Hannah Arendt muito perdoou a Heidegger, foi também por tê-lo amado muito. Está assim aqui resumido tudo o que, mutatis mutandis, eu te irei dizendo a seguir.

 

   Comove-me aquela evocação do dito de Jesus Cristo sobre a origem do poder de perdoar, que reside no coração das pessoas humanas quando estas se deixam habitar pelo amor de Deus que, no cristianismo, não pode existir marginalizado do amor dos outros, nossos próximos. Será que, cultivados por gerações sucessivas de "mestres"  (alguns deles lembrando a contrario o dito de Jesus : o mais pequeno entre todos vós, esse é o grande)  -  "mestres" esses mais inspirados pelo formalismo do rigor canónico, pelo resguardo da sua autoridade, ou pelo policiamento de adventícias "heresias", do que pela mensagem fulcral do cristianismo que é o mandamento do amor com toda a misericórdia de que ele é capaz  - , já não nos conseguimos libertar o infinito que desafia cada extensão do nosso coração, isto é, a primazia ética de saber "perdoar não apenas sete vezes, nem sete vezes sete, mas setenta e sete vezes sete"? O perdão não pode ostracizar, ele é, como tão bem nos conta a parábola do Filho Pródigo, cujo Pai sai ao seu encontro para lhe abençoar o regresso, acolhimento por excelência. Quando refletirmos sobre casos de divorciados recasados e muitos outros, é bom que o nosso pensarsentir seja, primeiro, acolhimento e reconciliação.  Quiçá essa reflexão também nos leve a reconsiderar a qualificação, como pecado, de divórcios e segundos casamentos. Até haverá casos em que sejam inevitáveis ou, mesmo, sejam a melhor solução para pais e crianças envolvidos. Parafraseando: "a instituição matrimonial é feita para o homem, não o homem para a instituição".  E, ao interrogarmo-nos sobre qualquer repúdio de homossexuais (que, ainda por cima, para quem esteja ao corrente das ciências de hoje, de modo algum podem ser considerados deficientes, diminuídos, psicopatas ou, menos ainda, pecadores por natureza), deveremos lembrar-nos do ser humano, nosso igual irmão em Cristo, e esquecer preconceitos culturais insustentáveis. E ninguém se esqueça de que nenhum de nós é juiz do outro, verdade que o Papa Francisco tem lembrado: Quem sou eu para julgar? Entristece-me muito deparar com tantas situações em que ministros ao serviço da Igreja de todos, se atêm à ideia de que o poder de perdoar lhes vem de Deus  -  que lhes entregou não só códigos ou regras definidoras dos pecados, como ainda tabelas de classificação destes e das respetivas penas aplicáveis, para que eles, e só eles, possam exercer, por delegação do Altíssimo Juiz, o poder de absolver ou condenar  -  e se esquecem de que perdoar, reconciliar, é o dever fundamental da nova lei de Cristo, de cumprimento a todos exigível, ao ponto de ser inaceitável uma oferta presente no altar, enquanto não me reconciliar com meu irmão. Na Igreja Apostólica, a confissão dos pecados e a determinação da pertinente penitência era comunitária, como ainda hoje se pratica nos capítulos das antigas ordens monásticas e religiosas. E o pecado que cada um anunciava ao perdão dos seus irmãos não era uma acusação escrupulosa, ou mais ou menos narcísica de um ato individual, mas a apresentação, à correção fraterna de cada igreja ou comunidade, de intenções consentidas, atos praticados ou omissos que, de um ou outro modo, pudessem ser ou tivessem sido atentatórios da caridade comunitária, isto é, da justiça como direito de todos e de cada um. Donde o lema: "Deus habita a caridade". 

 

   E porque o acolhimento é desígnio de Deus, a igreja não se fecha à chave [conclave, só cardeais para eleição do papa, o que diz muito sobre o clima de conspirações e intrigas, e as movimentações de influências que tiverem de ser controladas], mas é bom pastor aquele que deixa o rebanho no redil para ir lá longe buscar a ovelha transviada. Ou que, a exemplo de Jesus, acolhe La Traviata, a transviada. Conta-nos o Evangelho de Lucas (8, 36-50), em tradução de Frederico Lourenço:

 

   Convidou-o um dos fariseus para comer consigo e, entrando em casa do fariseu, tomou o seu lugar à mesa. E eis que certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. E colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; secava-os com os cabelos e beijava os pés dele e ungia-os com perfume.

 

   Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem e que tipo de mulher é esta que lhe está a tocar, porque é uma pecadora.»

 

   Então Jesus disse-lhe em resposta: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» Ele disse: «Fala, Mestre.»  «Dois devedores tinham um prestamista: um deles devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão disse em resposta: «Aquele a quem perdoou mais dívida, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Não me deste um beijo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com azeite, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele, a quem pouco se perdoa, pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.»

 

   Começaram então os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher:

«A tua fé te salvou. Vai em paz.»

 

   À atenção e ao cuidado de qualquer pecador e de qualquer "mestre", entre os muitos que todos nós somos, deixo a nota observadora do professor Frederico Lourenço: «estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama» -a formulação da frase em grego (hai hamartíai hai pollaí) sustém a interpretação de que foram perdoados todos os pecados da mulher. O amor, como circunstância mitigadora do pecado («porque muito amou») - faz pensar em I Pedro48: «acima de tudo mantende entre vós um amor intensoporque o amor cobre a multidão dos pecados. Curiosa é a ideia de que aqueles que têm poucos pecados por perdoar são pessoas que pouco amam. Nesta última frase, o tempo verbal é o presente; no caso do amor da pecadora, é o aoristo (égapêsen: amou pontualmente no passado); e no caso dos pecados perdoados, temos o perfeito, permitindo a tradução «os teus pecados foram e continuam perdoados», em virtude da força semântica do perfeito grego como resultado presente de uma ação passada.

 

   Esta afirmação de que «os teus pecados foram e continuam perdoados» parece apontar para um amor misericordioso sempre ativo e sem repouso, uma vocação à conversão que, como diria Hannah Arendt, nos liberta das consequências do que fizemos e restaura a nossa capacidade de agir. O repúdio da pena de morte fundamenta-se no respeito da vida até às suas próprias capacidades de renovação, a misericórdia do Deus dos vivos não se seca, não é juíza impositora de sentenças e penas, é, sempre e só, um apelo à metanoia... Escrevo-te a 21 de setembro, dia de festejar São Mateus, o cobrador de impostos e a sua pessoa nova que seguirá Jesus como seu apóstolo. E leio um passo do Evangelho do seu homónimo (nada, em verdade, nos permite identificar o apóstolo com o evangelista), trecho que está em Mateus, 9, 11-13:

 

   E os fariseus disseram aos discípulos dele: «Porque razão come o vosso mestre com cobradores de impostos e com pecadores?» Jesus, porém, ouviu e disse: «Os saudáveis não têm necessidade de um médico, mas sim os doentes. Mas ide e aprendei o que é isto: quero misericórdia e não sacrifício. Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores».

 

   Aqui chegada esta carta, sei que deixarei para outras o quase tudo que tenho ainda para te dizer. Porque, na verdade, não é fácil agir com justiça, nem superar a nossa perplexidade, sempre que nos deparamos com o dilema que contrapõe o rigor do juízo à misericórdia do pensarsentir. E bem sabemos que não há vida social possível sem ordenamento jurídico, nem direitos de todos e cada um sem justiça.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Ia-te dizendo que a eclesiologia ou tratado da Igreja começa a constituir-se como tal, e como disciplina autónoma, num período de lutas entre papado e monarcas. Congar observa, e bem, que já nos finais do século XIII e princípios do XIV se sente que um modo jurídico de discorrer vai invadindo largos sectores da teologia: Sentimo-lo até à evidência, quando passamos dos textos de São Tomás de Aquino ou São Boaventura, ambos mortos em 1274 (a caminho ou participando no Concílio de Lyon) aos textos de Henrique de Gand (morto em 1293), por exemplo, mas sobretudo aos de Guilherme de Ocam (morto em 1349/50). Achamos posições teológicas e conclusões menos determinadas por razões internas tiradas duma consideração contemplativa da natureza íntima das coisas, do que por autoridades puramente positivas, textos de decreto cujo valor mais ou menos coercivo se aprecia...

 

   ... O juridismo em teologia, em ética, em liturgia, etc., levanta a questão das condições mais positivas e mais estritas a que uma coisa possa ainda dar o nome, ser válida, satisfazer uma obrigação. [Quem se familiarizou com o método discursivo do Aquino, sabe bem a importância da distinção entre as coisas, conceitos e premissas para o progresso e a fecundidade do pensamento ou, dito doutra maneira, Princesa de mim, para se saber discorrer ou raciocinar. Mas, depois, a escolástica foi transformando esse espírito analítico num exercício de separação e dissociação, quantas vezes esvaziador de realidade]. Tal atitude dominou e prejudicou especialmente a liturgia. Favoreceu um velho instinto coisista e muito pouco espiritual, em virtude do qual as pessoas se interessam pelo rito, pela materialidade de uma prestação procurada, obrigatória, e não pela atitude pessoal profunda de quem, para além da satisfação de uma dívida, empenha o seu "coração": interessam-se pelas condições legais mínimas de validade, necessárias a estar em regra com a lei, pelo menos com a letra desta e com a autoridade, e não pelo sentido das coisas. [O escrito em itálico é sempre de Congar].

 

   Pessoalmente, com alguma frequência pensossinto que o irrealismo - com que a igreja clerical (em que incluo não só clérigos, e nem todos, mas muitos leigos igualmente imobilistas) considera circunstâncias e questões do nosso tempo  -  é fundamentalmente decorrente de um conceito de Igreja como instituição sociopolítica de direito divino, dotada de poderes jud jurisdicionais e judiciais sobre todos os aspetos da vida humana, tais poderes sendo exclusivamente atribuídos a, e por,  uma nomenclatura chamada "hierarquia". Coloca-se esta num plano diferente (superior), não só ao do comum dos mortais, mas ao da própria comunidade dos fiéis. Tal separação conduz ao seu desfasamento da realidade e, infelizmente e sobretudo, à degradação, e até rutura, do essencial entendimento - e diálogo dialético - no seio da comunhão cristã.

 

     Voltando ao início de uma minha carta anterior, aperto e espremo o trecho onde vem dito «tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja!». Palavra pronunciada na sequência de uma inaudita confissão de fé, como decorre do próprio texto do evangelho de Mateus (16, 13-20), na tradução portuguesa, diretamente do grego, do professor Frederico Lourenço:

 

   Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: «Quem dizem as pessoas ser o Filho da Humanidade?» Eles disseram: «Uns dizem João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou um dos profetas.» Diz-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Simão Pedro, respondendo, disse: «Tu és o Cristo, o filho do Deus, do Vivo.» Jesus, respondendo, disse-lhe: «Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque carne e sangue não te revelaram ´isto´, mas sim o meu Pai, o que ´está´ nos céus. E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia e os portões do Hades não terão poder sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus e aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e aquilo que desligares na terra terá sido desligado nos céus». Jesus recomendou então aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele é o Cristo. 

 

   Sempre meditei esta fortíssima bendição de Pedro como anúncio da renovação da fé no Pai Eterno, pelo reconhecimento e confissão da sua incarnação em Jesus Cristo. O que proclama o prólogo ou abertura do evangelho de João - No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele nem uma só coisa existiu. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz - eis, precisamente, o que, segundo Mateus, Pedro responde a Jesus. E a fé de Pedro, pescador iletrado, é tão profunda, e tão profundamente clara, que não pode ter surgido do seu ser humano e carnal, mas apenas pelo próprio Deus revelada: a confissão de Pedro, como a profissão de fé de cada crente cristão e da assembleia ou reunião dos crentes que é a Igreja, proclama algo que existe nos céus desde o princípio dos tempos. O que Pedro diz, na sua resposta à pergunta de Jesus, liga o Verbo, o Cristo do Vivo, ao próprio Deus na sua realidade ontológica, que já assim era una nos céus. É evidentemente difícil, quiçá rigorosamente impossível - e sempre tentativo e ousado - procurar definir ontologicamente seja o que for: o próprio Deus, que é Ser absoluto, escapará sempre a qualquer definição.  Até dizemos, ao professar, no Credo, a nossa fé em Jesus Cristo - não só na pessoa humana e histórica que Deus quis ser, mas na pessoa divina e eterna que Ele é, desde o todo sempre - Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro... Deus é só de Deus, é já antes do princípio de tudo, é no vácuo, no meio de nada, a potência de tudo. Afinal, o início do Evangelho de São João remete-nos para o primeiro trecho da Bíblia (Génese 1, 1-3): No princípio Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra era vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus revolvia-se sobre as águas. Deus disse: «Faça-se luz!"- e a luz fez-se.

 

   Não sendo eu tradutor nem exegeta de textos bíblicos, deixo ao teu dispor a transcrição de algumas notas do professor Frederico Lourenço, tradutor dos textos evangélicos reproduzidos nesta carta. Por ordem, as duas primeiras observações referem-se aos trechos do evangelho de Mateus, a terceira ao prólogo do de João. Todas respigadas do volume I (Os Quatro Evangelhos) da tradução da Bíblia publicada pela Quetzal (Lisboa, 2016):

 

   16,18 - «tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia»: Jesus não está a dar agora o nome de Pedro a Simão, pois já antes se dissera (4, 18) que Simão se chamava Pedro. Mateus é o único evangelista a empregar a palavra "ekklêsía" («assembleia»; mais tarde «igreja» - não esquecer que «igreja» como edifício de pedra e cal é uma realidade que não existe antes do século IV). Uma das dificuldades desta célebre passagem (lida, durante séculos, para legitimar a identidade do Papa romano como sucessor de Pedro e, por isso, único representante autorizado de Cristo na terra) centra-se no próprio anacronismo de "ekklêsía", palavra que muitos comentadores têm dificuldade em admitir que pudesse ter sido dita pelo Jesus histórico, uma vez que a ideia da existência de uma «assembleia» de cristãos pressupõe a morte e ressurreição de Jesus. Não é por acaso que, das mais de cem ocorrências de "ekklêsía" no NT, só encontramos três (Mateus 16,18 e duas vezes em Mateus, 18,17) fora do "corpus" constituído por Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse.

 

   16, 19 - «aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus»: note-se aqui a utilização do futuro perfeito passivo (perifrástico: "éstai dedeménon"). Não é fácil determinar ao certo o sentido que Mateus pretende dar a esta construção verbal. «Aquilo que ligares na terra será aquilo que já foi ligado por Deus»? Ou tratar-se-á, antes, de sublinhar a simultaneidade do ato de ligar, que acontece ao mesmo tempo na terra e no céu? Um aspeto importante a ter em conta é o facto de «aquilo» corresponder ao pronome relativo neutro em grego: trata-se de ligar (e desligar) algo - não alguém.

 

   Prólogo - «No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. João inicia o seu Evangelho com uma das mais intraduzíveis afirmações alguma vez registadas por meio da palavra escrita: uma afirmação de fulminante arrojo assertivo, de sublime alcance teológico, carregada de múltiplos e complexos sentidos. A palavra-chave é "lógos", celebremente traduzida na Vulgata de São Jerónimo por "verbum" ("In principio erat verbum"), opção que condicionou desde então todos os que traduziram o quarto Evangelho para uma língua neolatina.

 

   Não entremos agora, Princesa de mim, pela esclarecedora explicação de Lourenço sobre o facto de que, embora inescapável (por falta de outra opção convincente em português) «verbo» não é uma tradução satisfatória... Já em cartas anteriores, falando-te deste magnífico prólogo que, desde uma infância de mim, sempre considero uma página luminosa da literatura universal, te repeti que o logos grego tanto é palavra significante de um raciocínio, como a própria razão deste, isto é, o ser. Mas está bem lembrado, pelo nosso erudito professor, um trecho de Goethe:

 

   Quem leu o Fausto de Goethe (vv.1224-1227) lembrar-se-á da cena em que o herói procura traduzir o início do Evangelho de João por «no princípio era a palavra» ("am Anfang war das Wort"), chegando de imediato à conclusão de que não faz sentido dar à palavra tão excelso estatuto. Na realidade, o que João diz ter existido «no princípio» não é só a razão na sua forma de pensamento já verbalizado, mas também a Razão em si mesma. Recorde-se que a própria palavra "lógos" já servira aos primeiros filósofos helénicos (e mais tarde aos estoicos) para designar a inteligência que preside ao universo. Um desses filósofos, também morador (como tradicionalmente se pensa de João Evangelista) de cidade de Éfeso, falou inclusive do "lógos" («segundo o qual todas as coisas acontecem») como sendo eterno (cf. Heraclito, fragmento 1). João dá ao termo "lógos" um novo sentido teológico, mais transcendente do que aquele que lhe é próprio no âmbito da filosofia grega. Deste "lógos" - desta Razão desde sempre «com Deus» que ao mesmo tempo é Deus - nos dirá o Evangelista que se tornou carne (1, 14) e tomou forma humana. É da Razão Divina encarnada em forma de homem - Jesus - e da sua passagem pelo mundo dos homens que trata, pois, este Evangelho.

 

   Se para aqui te trago, Princesa, todas esta considerações não será apenas pela meditação que, só em si mesmas, elas merecem. Mas porque pensossinto muito aquela resposta de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus, do Vivo!». Só porque tal lhe foi revelado é que aquele humilde pescador galileu, sem instrução, certamente com enorme coração - no qual, todavia, até por qualquer engolida resignação ao seu estatuto social, haveria quiçá mais medos e silêncios do que ambições e protestos - perguntaria depois: «Para onde iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna?». E deixaria a sua terra e o seu lago ou mar da Galileia, para apontar a Roma e ser crucificado. Desafiara um poder imperial, ele que não tivera nem brio nem coragem para reconhecer Jesus defronte de pobres serviçais judias... A confissão de fé de Simão Pedro, que acima registamos segundo o Evangelho de São Mateus, tem sido muito frequentemente destinada, na pregação do clero e no ensino usual da Igreja Católica para fundamentar a primazia de Pedro e a decorrente hierarquia clerical com todos os seus poderes de origem divina. À imagem e semelhança das monarquias imperiais. Muito menos se fala e proclama a extraordinária profissão de uma apocalíptica visão de Deus em Jesus Cristo! E, todavia, é esta fé tremenda que nos é revelada pelo próprio Deus, e não pela carne nem pelo sangue. Simão Pedro não teve uma aparição, uma alucinação, uma visão: Teve Quem, à sua frente, lhe perguntou: e tu, Quem dizes que eu sou?. E deu então uma resposta muito acima da sua própria capacidade, algo que antes não sabia mas ora ficara a saber, naquele momento de revelação. E é sobre essa rocha, essa fé substantiva da união ontológica de Deus, já ligada no céu, que assentará a verdade e a comunhão dos fiéis. Não, certamente que não, na instituição de jurisdições e poderes que pretendam impor e executar o que entendam ser mandamentos e desígnios divinos.

 

   Jesus Cristo não fundou "Igreja" alguma, no sentido institucional, isto é, como se constituíram estados nacionais, a ONU, a Companhia de Jesus ou o Sporting Clube de Portugal. As primeiras comunidades cristãs eram reuniões de fiéis que confessavam a união das naturezas humana e divina na pessoa de Jesus, celebravam a eucaristia, ação de graças, pela partilha do pão, sacramento do corpo morto e ressuscitado de Jesus Cristo, e do seu corpo místico. Assim, a eucaristia era, já ela própria, sacramento de reconciliação (antes de levares a tua oferta ao altar, reconcilia-te com teu irmão), memória do sacrifício redentor de Cristo e da sua ressurreição, celebração da sempre presença do Senhor na sua Igreja, comunhão fraterna. Pode até dizer-se que, nesse sentido, a Igreja é a eucaristia comungada, não há eucaristia sem Igreja. Nem Igreja de Cristo sem abertura aos seres humanos, a começar por todos nós pecadores, para que todos encontremos respostas à vocação universal de Deus.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

    Como prometido, vamos então descontraidamente procurar pistas que nos guiem num passeio histórico pelas institucionalizações humanas, mais ou menos ideológicas, "políticas", sempre canónicas, desse corpo místico cuja cabeça é Jesus Cristo, e é, no mundo, conhecido por assembleia ou Igreja dos seus fiéis ou batizados. Pelo Novo Testamento é esse povo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, o único sacerdote.

 

   Para frei (e cardeal) Yves Congar, a Igreja inicial, ou dos Apóstolos, continua no período dos mártires (não esqueças, Princesa, que mártir quer dizer testemunha) até à paz constantiniana (1ª metade do século IV); segue-se-lhe o período dito "monástico", de que te falei em carta anterior, que mantém o princípio da autoridade episcopal como fator de união, em osmose com a comunidade dos cristãos e com carácter acentuadamente carismático ou espiritual. Período definido até ao século XI. Volto a citar-te São Cipriano (2ª metade do século III): Tenho por regra, desde o inicio do meu episcopado, nada decidir sem o vosso conselho (de padres e diáconos) e sem o sufrágio do povo, algo que fosse só da minha opinião pessoal... E traduzo o comentário de Yves Congar:

 

   De facto, todo o povo eclesial, e especialmente os leigos, intervinha na eleição dos bispos e na designação dos ministros, nos concílios aonde levavam informações, e, finalmente, na criação dos costumes pelos quais as próprias comunidades regulavam em grande parte as suas vidas. Contribuição tanto melhor acolhida quanto, apesar de bem estruturada canonicamente, a Igreja primitiva se queria dócil às intervenções do Espírito Santo. Ora, é do agrado de Deus dar a conhecer a sua vontade através do mais pequenos ou menos considerados...

 

   Pergunto-nos, Princesa de mim, se, na atual instituição clerical da Igreja Católica, não acabaremos por estar mais próximos da igreja senhorial, a da classe social chamada "primeiro estado" na nomenclatura sociopolítica medieval (clero, nobreza e povo, lembras-te?), do que da inicial Igreja dos Apóstolos, já que com tanta pujança se mantém o uso - pode dizer-se o costume, a consuetudo - das designações dos ministros dos fiéis (diáconos, presbíteros e epíscopos, sejam bispos ou arcebispos) como títulos honoríficos e até graus de uma carreira de honras clericais. Assim, continuam a ser nomeados bispos ou arcebispos de dioceses desaparecidas, clérigos nomeados para funções (que, por vezes, nem pastorais são) na cúria vaticana ou, até, junto a entidades estranhas à Igreja. Esquece-se que diácono, padre, bispo ou arcebispo não são patentes nem sequer graus hierárquicos, são designações de prestadores de serviços das comunidades eclesiais. Ou, dito de outra maneira: no povo de sacerdotes que são os batizados, escolhem-se ou elegem-se (como é, claramente, o caso do bispo de Roma ou papa) pessoas preparadas para o exercício de certas funções da palavra, do culto, dos sacramentos. O conceito - e a respetiva prática socio-eclesial - de uma classe de batizados de primeira (também erradamente chamados, a meu ver, consagrados) gerou a praga do clericalismo, que é sentimento de si e atitude de presumida superioridade de quem pensa deter e poder dispor do poder divino na terra, sobretudo o de absolver erros e pecados, declarar nulidades, ou mesmo ainda o de, no passado, se terem pregado e justificado guerras religiosas. Parece-me indispensável erradicar este mal clericalista... Por isso mesmo penso também que é verdadeiramente justa e digna de louvor a disposição da Igreja denunciar às legítimas instâncias judiciais civis os crimes cometidos pelos seus ministros.

 

   Vai-se alongando esta carta e ainda não cheguei a falar-te de parte do pensarsentir que me inspirou a escrevê-la. Ficará para a seguinte. Todavia, deixa-me dizer-te agora coisas que, creio eu, poderão ajudar a melhor entendermos o que a seguir vier. Sobretudo na medida em que for capaz de te pôr a adivinhar outro rosto de uma Igreja que, sendo mais fiel àquelas que os Apóstolos fundaram, seja também uma comunidade do nosso tempo, mais livre de tantos rebocos e pinturas que lhe foram fazendo, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos da sua alma evangélica, para antes a encararmos como uma organização ideológica e jurídica de funcionários do sagrado  -  ou mesmo como um Estado transnacional, com sistema jurisdicional próprio e funcionalismo dispensador de passaportes para o paraíso...

 

   Recorro, uma vez mais, a Congar e ao seu Pour une Église servante et pauvre, livrinho que muitos consideram o "livro-programa do Papa Francisco". Refere-se a um artigo de Chateaubriand, publicado a 5 de Julho de 1824 e citado nas Mémoires d´outre-tombe, que diz assim (traduzo Chateaubriand): O tempo reduziu esta monarquia [a francesa] ao que ela tem de real : em política, já se ultrapassou a idade das ficções; já não se pode ter um governo de adoração, de culto e de mistério : cada qual conhece os seus direitos, nada é possível fora dos limites da razão, e até mesmo o favor, última ilusão das monarquias absolutas, é, como tudo o mais, pesado e apreciado nos dias de hoje. O teólogo e historiador dominicano transpõe assim a inspiração deste trecho:

 

   A sociedade moderna tende a construir-se sobre a razão, não sobre o sagrado. E pergunto se a Igreja operou a crítica correspondente, ou seja, a dessa parte de profano, de imperial, de feudal e de senhorial, que durante tanto tempo não só tolerou como buscou... Já não há Sacro Império, mas muitos títulos e insígnias, muitos cerimoniais ou ritos de visibilidade do seu prestigiado esplendor ficaram na Igreja... Não será já tempo, não haveria benefício nisso, de «sacudir a poeirada imperial que se foi depositando, desde Constantino, no trono de São Pedro?»

O dito é de João XXIII…

 

   Creio que nos será ainda útil respigar e traduzir mais uns trechos de frei Yves Congar, que nos ajudarão a melhor considerar certos aspetos ou facetas da Igreja que, sendo historicamente datados e circunstancialmente explicáveis, tendem muitas vezes a ser apresentados como traços essenciais da tal "Igreja fundada por Cristo"... Vou busca-los a um capítulo que aquele autor dominicano intitulou L’invasion du juridisme:

 

   Se interrogarmos os Padres [os Padres da Igreja, a Patrística] e a liturgia sobre o sentido que dão à Igreja, damos connosco num clima diferente do da eclesiologia moderna, pelo menos da que tem prevalecido nas escolas desde finais do século XVI ou quiçá começos do século XIV e a renovação atual [Vaticano II]. Essa eclesiologia das escolas mais não era do que a versão apologética de um tratado de direito público eclesiástico: só falava de poderes e direitos. Os Padres, a liturgia, falam de Igreja em termos de vida e comunidade espirituais, de Cidade santa, de combate espiritual do espírito contra a carne. Dela falam com os símbolos ou tipos dos patriarcas, de Rahab, a cortesã salva pela fita vermelha que põe à janela e pressagia a fé no sangue de Cristo, de Madalena, a impura que se torna pura, da Virgem Maria, mais feliz por ter acreditado do que por ter gerado Jesus Cristo... É que a Igreja deles é feita do conjunto dos homens que se convertem ao Evangelho. A sua eclesiologia inclui uma antropologia e os meios (sacramentos, regras de vida santa) pelos quais os homens podem viver na comunhão com Deus em Jesus Cristo.

 

... A alta Idade Média, e os grandes escolásticos, são ainda largamente tributários de tal perspetiva... Mas, pelo final do século XI, impõe-se a reforma gregoriana (de Gregório VII, papa): ... para operar a necessária conversão do clero, libertando-o do mal do nicolaísmo (incontinência) e sobretudo da simonia [transação comercial de bens religiosos] pela retirada da Igreja da sujeição a poderes laicos, reforçando a autoridade do papado e, consequentemente, a ação deste.

 

    Desta conjuntura surgirá necessariamente a procura e elaboração de um ordenamento jurídico da sociedade eclesial, donde o desenvolvimento do direito canónico cuja proeminência se revelará, por exemplo, no facto de que, após Alexandre III (papa de 1159 a 1181) e por dois séculos, quase todos os papas terem sido juristas, não apenas canonistas mas também doutores in utroque jure, isto é em direito romano e eclesiástico. Escreve frei Ivo:

 

   Esse desenvolvimento, essa ascensão do direito serviram sobretudo o papado nos conflitos com as potências seculares, conflitos esses que cobrem todos os «séculos de fé»: são os séculos da «cristandade», ou seja, esses em que, idealmente, os dois poderes são como os dois braços de um mesmo corpo, dois «ministérios» de uma única sociedade cristã...   ... É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV que se situa essa palavra de Gregório VII: «Ecclesia non est ancilla sed domina», "a Igreja não é serva mas senhora". Palavra que se deve entender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, ou a dominação, da potência temporal), mas que não deixa de ser embaraçosa, por representar, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare, "não dominar mas servir".

 

   Aqui te ficam umas pistas para tua reflexão - como também orientam a minha: na verdade, é a todos nós, cristãos batizados, que compete essa abertura ao Espírito Santo para, em comunhão, irmos renovando a face da Igreja...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Eufemisticamente falando, não deixa de ser curioso que a Igreja Católica, contando ainda hoje - estatística e oficialmente - com mil e duzentos milhões de fiéis neste mundo terrenal, pareça mergulhada, aqui e ali, numa espiral descendente da sua afluência, precisamente no decurso de um pontificado (no sentido de fazedor de pontes) que lhe trouxe uma aragem de evangelho e a promessa de cara lavada... Ao escrever-te esta palavra afluência, pergunto-me se, afinal, tal decréscimo - também atribuível, no seio da própria Igreja, a sectores erradamente designados por conservadores ou fundamentalistas (pois não me parece que o que pretendem conservar seja propriamente o espírito evangélico ou o novo mandamento do amor fundador da comunhão eclesial) - não será atribuível à infeliz propensão histórica de uma instituição clerical para tentar assegurar, e garantir, uma praxis temporal do seu dogma, deixando a assembleia dos crentes sem ares do Espírito Santo, da vocação evangélica, da boa nova cuja transmissão Jesus Cristo confiou, precisamente, à confissão fiel dos seus discípulos... O escândalo dramático do abuso sexual de menores, sobretudo pela flagrante injustiça que tem sido a proteção sistemática de clérigos criminosos - cuja contrapartida é, sem atenuante possível, a negação de qualquer reparação devida às vítimas inocentes - não só tem minado a confiança de crentes e incréus na instituição eclesiástica, como, pior ainda, não tem gerado maior diligência na renovação, em espírito evangélico, da Igreja dos fiéis de Jesus Cristo. Pois não basta, nem me parece eficiente, procurar apenas restaurar a "imagem da Igreja", mesmo sem recear tomar as mais drásticas medidas punitivas e também dissuasoras de tal criminalidade... Na verdade, ninguém dotado de lucidez negará que esses casos não se tratam com confissões secretas e absolvições, mas deverão ser acompanhados por clínicos devidamente qualificados (na verdade, deparamos com séries de reincidências maníacas, não com quedas súbitas em tentações exaltantes), nem tampouco que os mesmos e os seus encobridores ou absolvidores devam ser sujeitos à lei penal comum. Repito: qualquer crime de pedofilia, nas igrejas ou fora delas, como qualquer outro abuso ou assédio sexual, ou violência doméstica, é prioritariamente matéria para tratamento médico e psiquiátrico e, também, para ser submetido à jurisdição dos tribunais competentes. Num Estado de direito, não é, não pode ser considerado, primeiro, objeto de qualquer processo canónico, e o seu eventual socorro sacramental nem sequer pode antepor-se ou derrogar a prioritária aplicação do direito positivo da sociedade civil.

 

   É evidente que, nem a fé cristã e seus mandamentos, nem a comunhão dos seus fiéis (que é a Igreja), podem ser responsabilizados por crimes cometidos no seu seio, ainda que os seus agentes e encobridores sejam seus ministros. Mas todos estes, mais os pastores encarregados da vigilância da sua disciplina, não podem ser sujeitos isentos das medidas sanitária e legalmente previstas para tais casos, na sociedade civil, jurídica e politicamente organizada, em que vivem. A Deus o que é de Deus, mas sempre, e em tempo oportuno, a César o que é de César. Cumprida a obrigação para com César, terá então a Igreja tempo e disponibilidade, caridade, para procurar restaurar-se (no sentido de refazer forças) e seguir o caminho da sua vocação. E quiçá encontre muito em que meditar e muito para restaurar (no sentido de repor a pujança original). E não bastará sacudir o pó e acomodar-se.

 

   Outrossim me parece urgente um regresso da inspiração cristã aos ensinamentos elementares de Jesus e ao espírito do Pentecostes que animou a constituição das primeiras comunidades e igrejas cristãs. A Igreja Católica que hoje nos é dado ver é a instituição resultante de uma longa evolução histórica, em que atuaram circunstâncias e fatores demográficos, culturais, económicos, políticos e teológicos, variadíssimos e até contraditórios. Simplificando, Princesa de mim, posso arriscar dizer-te que, basicamente, ela terá tido duas tipologias : 1.- A das igrejas locais, nascidas em comunidades judaicas da Palestina e da diáspora, tal como em populações gentias convertidas no mundo helénico; as tais que, por habitarem o Império Romano, no seio do mesmo comunicavam entre si, ganhando assim uma comum identidade, que a frequência de sínodos e de concílios ia solidificando (pois essas reuniões de epíscopos representantes iam definindo expressões comungantes da fé), tendo naturalmente concordado na primazia do bispo de Roma como sinal de união católica de todas elas. 2.- E, mais tardiamente, vai-se impondo, quer pelo fim das perseguições, quer pela conversão dos imperadores e a proclamação do cristianismo como religião do Império (até em modo de substituição do culto divino do imperador) um modelo mais marcadamente centralizado - e, por isso mesmo, gerador de autoritarismo e de hierarquia, seguindo o exemplo político do próprio Império Romano, sobretudo quando o desmoronar dessa entidade, pelas invasões bárbaras, abriu à Igreja Romana um espaço novo de afirmação. E foi fazendo dela uma instituição "política" e administrativamente organizada, formatada por um padrão que hoje ainda prevalece, a tal ponto que muitas vezes nos esquecemos de que Jesus Cristo não fundou qualquer instituição...

 

   No jeito informal que me permite a nossa comunicação epistolar, e tão somente com o mero propósito de refletirmos conversando, em próximas cartas procurarei descobrir pistas para uma Igreja mais evangélica nos tempos que corremos.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   A questão do celibato voluntário tem sido obnubilada pela obsessão com a obrigatoriedade do celibato eclesiástico. Esta padece, pela sua própria natureza obcecante, de falta de racionalidade nas aproximações opostas, ou contrárias, de que é objeto: há quem defenda o princípio brandindo pretensas fundamentações bíblicas, teológicas, históricas ou, simplesmente, pragmáticas (maior liberdade e independência na dedicação ao ministério religioso), como há os que se insurgem contra a imposição de um mandamento contra natura e as fatais consequências (pedofilia, etc.) de tal aberração.

 

   Já várias vezes te escrevi, Princesa de mim, que não considero pertinentes os argumentos de uns, nem me parece que a pretensa indignação de outros assente em aceitáveis razões erga omnes. Isto é: não encontro justificação plausível para o carácter coercivo do celibato de quem exerça ou pretenda exercer um ministério eclesial, como tampouco creio que o abuso de menores, o desvio de mulheres casadas, ou a frequentação de bordéis sejam o resultado necessário e exclusivo de falta de alívio conjugal. Por um lado, sei de um número crescente de pastores casados -  e de pastoras! - cuja generosa devoção ao serviço das suas igrejas é admirável, tal como, por outro lado, infelizmente sei de pessoas casadas que violam menores, e, sendo quer homo quer hétero sexuais, se viciam em "aventuras" extraconjugais ou se comprazem em encontros remunerados e em "partouses"...

 

   É precisamente porque somos livres que somos responsáveis, isto é, que necessariamente devemos responder pelos motivos e consequências dos nossos atos. Não é por alguém ter nascido homossexual que será incontrolavelmente pederasta ou esteticamente narciso; nem por ser hétero galifão que deverá imparavelmente "iniciar" meninas ou "consolar" senhoras mal desposadas por outrem. Antigo conselho do bom senso comum continua a recordar: "Haja juízo!"

 

   Ou, como prefiro dizer, evocando a definição agostiniano-tomista de prudência: procuremos sempre o amor sagaz. Este deverá inspirar a revisão de conceitos obsessivos e decorrentes modos normativos que a Igreja Católica ainda hoje mantém relativamente à sexualidade. Pretender que "abstinência sexual é exigida pela lei de Cristo" não só revela fraco convívio com a mensagem evangélica, como desconhecimento do plano bíblico do Criador, além de poder indiciar temores insanos das próprias e naturalíssimas pulsões sexuais. Dito isto, repito o que tantas vezes te confidenciei: acredito que haja vocações para a castidade como estado de vida, tais sendo, todavia, aspirações a uma forma muito própria de maior liberdade interior, cuja realização, na tradição cristã, se inicia com os primeiros cenobitas. E volto a recordar-te que, em todos os apelos de Jesus registados nos evangelhos, a quem quiser segui-lo totalmente, não surge qualquer referência ao celibato ou à abstinência sexual, mas sempre se refere o abandono dos bens materiais e terrenos, a pobreza, esta, sim, evidentemente constitutiva de liberdade interior. Para evitar repisar discursos meus, inscritos em cartas anteriores  -  e, sobretudo, para te trazer uma excelente análise desta questão do celibato feita pelo filósofo ateu e homossexual francês Michel Foucault (1926-1984), cujo conhecimento dos escritos patrísticos cristãos surpreende pela vastidão e profundidade  -  traduzo seguidamente alguns trechos do capítulo Virginité et Connaissance de Soi, do 4º volume, postumamente editado este ano apenas, com o título Les aveux de la chair, da sua obra Histoire de la Sexualité (Bibliothèque des Histoires, Gallimard, Paris, 2018). Trata-se de um longo comentário dos capítulos que João Cassiano (século IV), nas suas Instituições e nas Conferências dedica às questões da pureza na existência monástica. No mundo hodierno que é o nosso, todo esse discurso poderá soar estranho. Todavia, refletindo, talvez nele encontremos um ar cheio de frescura, bem diferente do ambiente sórdido com que, bem-pensantes, moralmente corretos ou libertinos envolvem qualquer debate sobre assuntos de sexo. Haja arejo!

 

   Cassiano raramente emprega a palavra virgindade. Surge duas vezes nas "Conferências" e, em ambos os casos, em oposição ao casamento. A propósito de Elias e Jeremias que «não querendo servir-se do casamento, preferiram perseverar na virgindade». E a respeito das virgens loucas e das virgens prudentes, umas e outras ditas virgens por não terem esposo, mas as primeiras apenas praticando a virgindade do corpo. É o termo castidade - castitas - que em Cassiano cobre a maioria das questões ou dos temas que Gregório de Nissa, Basílio de Ancira, Crisóstomo ou, de um modo geral os Padres gregos referiam à prática da virgindade e às regras interiores a esse estado.

 

   Tal como os seus predecessores haviam procedido quanto à virgindade, Cassiano diferencia a continência da castidade. Nas "Instituições", assenta essa distinção no uso tradicional das palavras gregas e, simultaneamente, marca a hierarquia de valores entre os dois termos: «Não negamos que, nas comunidades, também se encontram homens continentes, e reconhecemos que tal pode facilmente acontecer. Na verdade, trata-se de duas coisas diferentes ser continente - isto é "enkratés" - e ser casto, passando assim a esse estado de integridade ou de incorrupção a que chamamos "hagnos", virtude que só é concedida àqueles que permanecem virgens na sua carne e no seu espírito, como foram Jeremias e Daniel.» Entre as duas noções há a diferença do negativo para o positivo. De um lado, abstenção exterior de sexo; do outro, um movimento interior do coração. «A incorrupção da carne reside menos na privação de mulher do que na integridade do coração que guarda sem corrupção a sua santidade por temor a Deus ou amor da castidade»...

 

   ... Para se chegar à castidade, diz Cassiano num texto notável, «deve cada qual inflamar-se com o mesmo desejo e o mesmo amor que encontramos no avarento devorado pela cupidez, no ambicioso que labora a sede de honrarias, no homem arrebatado pela violência intolerável da sua paixão por uma beldade feminina, quando, no ardor de excessiva impaciência, querem saciar o seu desejo.»

 

   Apesar de bastantes pontos em comum com os grandes teóricos da virgindade no século IV, a distinção que Cassiano estabelece entre continência e castidade revela, de facto, uma paisagem muito diferente, dominada pelas noções de pureza de coração e combate espiritual que ganham sentido na especificidade da vida monástica, em que se inspira.

 

   Vocação singular de um projeto especial de vida, aliás de origem oriental, como testemunham hinduístas e budistas, ou também, no judaísmo do tempo de Jesus, a comunidade de Qumran. Ainda que se diferenciem entre eles por outros fatores próprios a cada um dos universos ascéticos ou religiosos. A designação "monaquismo", como a de "monge", deriva do grego "monachos", que indica quem escolhe a solidão, ou a separação do "mundo" para se consagrar à oração e exercícios espirituais e ascéticos que o aproximem do imaterial, do invisível, do Nirvana, de Deus. No ocidente europeu, os monges surgem na 2ª metade do século IV, vindo, entre outros, no sul de França, Jean Cassien (360-430), ou João Cassiano, a instigar, na Provença, em Leiris e Marselha, a formação de comunidades ascéticas e a escrever textos muito influentes sobre a espiritualidade cristã: as Instituições Cenobíticas e as Conferências. Nestas duas obras se encontram tratados os temas que, de acordo com Nicole Lemaître, professora na Sorbonne e no Institut Catholique de Paris, constituirão, durante séculos, os arquétipos fundamentais do monaquismo: forma perfeita da vida cristã, na senda de Cristo, pelo qual o monge a tudo renuncia. Num mundo onde as perseguições violentas se tinham tornado raras [o cristianismo já era religião do Império Romano] a vida monástica será o substituto do martírio sangrento dos primeiros séculos, na medida em que implicava mortificação do corpo e da consciência, luta contra os demónios e suas tentações, perseverança até à vitória final.

 

   Já a instituição do chamado sacerdócio católico, tal como hoje a conhecemos, é bem mais tardia, remonta ao século XII, com a fixação do direito canónico que faz do padre - e volto a citar Nicole Lemaître - aquele que recebeu o sacramento da ordem, pelo qual lhe foi remetido, por Deus e pela Igreja, o poder de batizar, abençoar, celebrar, e absolver os pecados. Doravante, e por muito tempo, esse estatuto permitiu-lhe dispor de privilégios, em especial o do foro eclesiástico que o protegia das justiças seculares. O padre torna-se celibatário, e modelo do cristão, a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanhará a sua excecionalidade... na promoção eclesial de uma sociedade perfeita.

 

   Foi-se então buscar à exceção que sempre fora a vocação monástica um elemento normativo da condição de servidor do ministério eclesial. Ora, no primeiro milénio, as coisas eram bem diferentes: na origem da Igreja, o enquadramento das comunidades era assegurado por diversos ministros, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos (Mateus, 10, 42) exercia um autêntico apostolado, não era, de modo algum, um separado, uma exceção. Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça (Atos, 14,23). São eles que vigiam cada Igreja e têm por missão velar pelo rebanho de Deus (Atos, 20, 28; I Pedro, 5, 4). Passadas as primeiras gerações, estabelece-se uma hierarquia a três níveis: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros assistidos por diáconos. Não é necessário percorrer todas as etapas [isto é: não há carreiras eclesiásticas] - São Cipriano tornou-se bispo sem ter sido padre nem diácono. Na verdade, o ministério põe-os a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, como sucessores dos Apóstolos, qualifica-os para serem intendentes de Deus. Recebem a imposição das mãos, mas prosseguem a sua vida normal, casam-se e exercem uma profissão.

 

    Estarás lembrada, Princesa de mim, de que, em carta talvez já distante, eu te falava de conselhos de São Paulo, no sentido de serem os ministros escolhidos de preferência entre bons pais de família, pois estes já deram provas de saber guiar um "rebanho". Revogar a obrigatoriedade do celibato eclesiástico parece-me ser questão do foro do bom senso, tal como a ordenação de mulheres deve ser encarada no contexto cultural das nossas sociedades hodiernas. Além de que já passou o tempo em que, cautelarmente, se escolhiam entre eunucos os bons servidores. Sem prejuízo de continuar a haver quem possa escolher um caminho que o próprio Jesus Cristo enunciou, avisando logo que seria radical e que poucos compreenderiam agora o que é ser eunuco por amor de Deus. Todavia quem responde a uma vocação à vida monástica ou religiosa, não o fará por contemptatio mundi, mas porque tal separação o leva, no seu próprio sacrifício pessoal, à misteriosa presença de Deus. Enquanto que os ministros do culto, da palavra, dos sacramentos, homens ou mulheres, são servidores escolhidos entre aqueles que permanecem vivendo no mundo humano.

 

   Referindo-se a São Cipriano (século III), que acima te recordo, frei Yves Congar escreve: Para o cristianismo antigo, a realidade primeira é a ecclesia. Ora, esta palavra, diferentemente da palavra "Igreja" tal como hoje a usamos, significa a comunidade cristã, a assembleia ou unidade dos cristãos. São Cipriano diz: a Igreja é o povo unido ao seu pontífice e o rebanho que permanece junto ao seu pastor. Por aí deveis compreender que o bispo está na Igreja e a Igreja no bispo.

 

   É essa ecclesia toda inteira que exerce a maternidade espiritual, pela sua caridade, pela sua unidade, pela sua oração, pela sua penitência; é ela mesmo que é o autêntico e adequado sujeito das ações santas e santificantes. E eis que encontramos esta mesma compreensão da ecclesia nos textos litúrgicos, expressão da Tradição: a ecclesia é assembleia de irmãos realizada por um ato do Senhor e pela sua presença entre eles. A liturgia antiga não conhece um eu separado do nós comunitário: o celebrante, isto é, o presidente da assembleia e chefe da comunidade, fala ali em nome de todos e a todos estando unido. [Cf. Yves Congar, o.p., L´Église e Pour une Église Servante et Pauvre, Les Éditions du Cerf, Paris, 1963].

 

   Deixo-te aqui, Princesa de mim, estas reflexões sobre a Igreja para que, meditando-as, possamos juntar mais uma achega circunstancial ao debate, tantas vezes descontextualizado, acerca da pedofilia e celibato eclesiástico, etc., etc. ... Até arrisco um olhar diferente: tal como não parece provado (longe disso!) que a Igreja Católica tenha, no seu seio, o exclusivo ou sequer a maioria dos casos de abuso de menores, também não creio que se possa estabelecer uma relação direta de causa a efeito entre celibato e violência sexual. Na verdade, nas notícias ou revelações de abusos que têm vindo a lume, o pecado ou responsabilidade da instituição eclesial descobre-se e encontra-se sobretudo no seu encobrimento e na recusa ou reticência de entrega às autoridades judiciais competentes (falando claramente, sem rodeios e sem prejuízo das medidas canónicas, isto é, do foro eclesiástico, que também devam ser tomadas), autoridades essas legitimamente constituídas pelo poder civil dos Estados de direito em que vivemos. Que as "hierarquias" religiosas metam bem nas suas cabeças que qualquer crime deve ser denunciado e entregue ao processo inalienável e sem exceções dos tribunais dependentes do poder judicial do Estado.

 

   Por outro lado, já será tempo de nós, católicos, revermos alguns dos preconceitos que guardamos quanto à função clerical ou, mesmo, à natureza da própria instituição. Os trechos de testemunhos e reflexões que te deixei acima podem ajudar-nos a perguntar se, abreviando, o padre é mesmo uma exceção consagrada, e se, até por isso, deverá ser assexuado e renunciar a constituir uma família, tal como o podem fazer magistrados, médicos, professores, militares, missionários leigos... E já agora, não poderão ser mulheres, como tantas há nessoutras profissões e missões pelo bem comum?

 

   Creio que é no 2º volume da sua Histoire de la sexualité (L´ Usage des Plaisirs) que Michel Foucault escreve estas seguintes linhas que eu próprio, que sempre quis ser filósofo, repito pensando que filósofos, afinal, com alguma curiosidade e esforço, todos podemos ser:

   Mas, aliás, o que é a filosofia - quero dizer a atividade filosófica - se não o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo? E se, afinal, não consistirá, em vez de legitimação do que já sabemos, no empreendimento de saber como e até onde poderemos pensar de outro modo?

 

  Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira