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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ANTOLOGIA

  


LEGENDA AUREA

por Camilo Martins de Oliveira

 

A quarta categoria de criaturas, as que possuem a existência, a vida, a sensação e a razão, segundo o frade dominicano Tiago Voragino, reúne os seres humanos. No presépio cósmico da Legenda Aurea, o homem manifesta a Natividade através dos pastores e de César Augusto. A fonte do relato da adoração dos pastores é o Evangelho de S. Lucas; a do episódio do imperador Octávio encontra-se nas "Historiae adversus paganos" de Orósio. Traduzo os pertinentes trechos da Legenda: "No instante da Natividade, os pastores vigiavam os seus rebanhos, como era costume duas vezes por ano, na noite mais longa e na noite mais curta do ano. Era com efeito um costume antigo entre os Gentios, observarem-se essas vigílias em cada um dos dois solstícios, o do verão por volta da festa de S. João Baptista, e o do Inverno, por volta do Natal, por veneração pelo sol. E esse costume desenvolvera-se sem dúvida entre os judeus, por força dos contactos entre populações. Ora, um anjo do Senhor apareceu aos pastores, anunciou-lhes o nascimento do Salvador e onde encontrariam o sinal dele. Uma multidão de anjos reuniu-se para cantar "Glória a Deus nas alturas..." Assim vieram os pastores e encontraram tudo o que o anjo tinha anunciado. Este nascimento foi também manifestado por César Augusto, que então ordenou que mais ninguém tivesse a audácia de lhe chamar "senhor", segundo o testemunho de Orósio. Foi, sem dúvida, depois de ter tido essa visão à volta do sol, que se lembrou simultaneamente da queda do templo e da nascente de óleo; compreendeu então que um ser maior do que ele tinha nascido para o mundo, e nunca mais quis ser chamado deus nem senhor..." Torna-se aqui evidente que este relato recolhido de Orósio, é um trecho das "Historiae adversus paganos", de coisas contadas contra os pagãos. Mais de mil anos depois do nascimento de Jesus Cristo, na era do imperador Octávio, o Voragino vai colher a uma história apologética mais antiga, mas provavelmente divulgada, um argumento para afirmar a razão primeira do poder de Deus sobre todas as coisas, inclusive o exercício do poder temporal ou político. Não defende uma teocracia, mas diz que o soberano não deve ser jamais considerado nem deus, nem senhor: a Deus o que é de Deus, a César o que de César é. E, no conjunto desta cosmogonia, sobressairá também uma lição de democracia: o séc.XIII  -  que será, aliás, o século da Magna Carta, antecessora do Habeas Corpus inglês - é um tempo de afirmação de identidades nacionais, certamente, mas pela força das cortes que reúnem os três estados sociais, e reclamam o exercício do princípio do direito romano de Ulpiano: "Justitia est jus suum cuique tribuendi", ou seja, a justiça é o dever de se dar a cada um o seu direito. O fim do feudalismo, que terá, em muitos aspetos, uma longa e lenta agonia, inicia-se com este movimento do surto de classes médias, independentes do poder feudal, que prenunciam uma sociedade nova, em que os desvalidos da mudança de regime político-económico e a necessidade de desvendar e ordenar uma cultura que enraíze as gentes e as faça crescer como árvores, para o porvir, encontram, no eco-sistema religioso em que vivem, uma resposta organizada e ativa nas ordens religiosas mendicantes: franciscanos que, como subproletários, praticam a pobreza como evangelho de esperança; dominicanos, que, no despojamento de riquezas e preconceitos estabelecidos, apelam à razão para esclarecer a fé. A meditação da Legenda Aurea sobre o nascimento de Jesus, para ser mais claramente entendida, deverá ser olhada no caleidoscópio da circunstância do seu tempo. Mas, por aí, também nos aperceberemos que, tendo data, não é datada, antes atual será, mutatis mutandis, claro está.


Obs: Reposição de texto publicado em 14.12.12 neste blogue.

 

A VIDA DOS LIVROS

  

De 9 a 15 de maio de 2022.


“Fomos em Busca do Japão” (Verbo, 2015) de Camilo Martins de Oliveira, com fotografias de José de Guimarães é um livro fascinante que não permite que esqueçamos o seu autor e a sua viagem.


NO RASTO DE HERÓIS
Quando soube que o meu amigo Camilo Martins de Oliveira (1942-2022) tinha partido, veio-me à lembrança, imagem por imagem, a maravilhosa viagem que em 2010 fizemos ao Japão, sob a sua coordenação, acompanhados de José Tolentino Mendonça e de José de Guimarães.  E fui reler o pequeno livro que escreveu, cheio de boas recordações, Fomos em Busca do Japão. Partimos no rasto de Fernão Mendes Pinto, de Francisco Xavier e de Wenceslau de Moraes e ainda hoje sentimos o peso de um conhecimento ancestral, já que os portugueses foram os primeiros europeus a ter contacto com o Japão, quando em 1543 três naufragaram em Tanegashima e deram a conhecer a primeira arma de fogo. Conheci Camilo Martins de Oliveira, ao longo de quase cinquenta anos, como bom amigo e exemplar diplomata no campo económico. A primeira vez que nos encontrámos foi em Bruxelas e com ele comecei a percorrer os corredores comunitários. O seu currículo já merecia atenção. Como católico inconformista, foi em 1965 um dos subscritores do Documento dos 101 contra a ditadura. Na Morais e em “O Tempo e o Modo” traduziu e publicou Teilhard de Chardin. Depois de ter estado na Guiné como alferes, veio trabalhar em 1969 com Rogério Martins, então Secretário de Estado da Indústria, tendo tido papel relevante no fim do condicionamento industrial e do protecionismo. Depois seguiu-se um percurso notável no exterior: como delegado na OCDE, diretor da Missão Comercial em Bruxelas, perito em Missões das Nações Unidas, representante económico nos Estados Unidos e depois em Tóquio (1987-2001), com funções no Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia, sendo ainda Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão). Era um conversador extraordinário; num serão, começávamos por falar da história de um biombo Namban, continuávamos na reflexão sobre a arte contemporânea, muitas vezes com a presença discreta, mas agradabilíssima, do irmão Gaëtan Martins de Oliveira, e terminávamos discreteando sobre a economia, a política internacional, a integração europeia, e ainda história ou filosofia, tantas vezes em diálogo com António Sousa Franco, grande amigo comum. Além do mais, era um leitor insaciável, imbatível no conhecimento da última novidade literária.


VIAGEM FANTÁSTICA
E volto à lembrança dessa viagem fantástica. Quando chegámos a Quioto sentimos a tradição japonesa, como sinal de um povo antigo, sereno, amável e hospitaleiro. No bairro de Gion, que conhecíamos das narrativas e descrições romanescas, testemunhámos o desenho tradicional de uma antiga cidade nipónica. O movimento é intenso, os edifícios baixos e pequenos, em madeira, bem ordenados, assinalados com balões coloridos de papel iluminado e vemos geishas em trajes de função. As ruas são estreitas e limpas, a ordem e a organização imperam. A cada passo, as pessoas saúdam-nos com vénias, ora para nos convidarem a entrar, ora para nos agradecerem se lhes demos primazia no burburinho dos passeios. Era no Outono, uma das estações privilegiadas do Japão, e havia uma especial alegria e jovialidade no ar, mesmo que a noite já tivesse caído. Não havia humidade e a temperatura rondava os 12 graus. Ao passar pela zona dos teatros, recordamos a importância do Kabuki e a sua evolução. No restaurante Nishisaka, usufruímos a refeição de um delicioso shabu shabu, pequenas fatias de carne de vaca cozidas por nós em água a ferver, que Camilo Martins de Oliveira nos aconselhou, com aplauso geral. As árvores que rodeiam a cidade no Outono têm as folhas vermelhas ou amarelas. Wenceslau de Morais (1854-1929), cujos textos nos acompanham, lembra que «as espécies europeias não oferecem igual maravilha em colorido». Sentimos entusiasmo ao ver as grandes massas desta folhagem belíssima do “moimiji”. O Pavilhão de Prata, o Ginkaku-ji, literalmente apagava-se diante da natureza outonal pujante. Era a memória do xógum Yoshimasa, no século XIV, que estava presente, a partir da recordação de seu avô Yoshimitsu, que num gesto de suprema audácia, cobriu de folha de ouro o Pavilhão Dourado, o surpreendente Kinkaku-ji, celebrado por Mishima… O importante foi o enaltecer da natureza em toda a sua intensidade. O momiji tudo domina, parecendo dizer que a natureza culta, domada pelo ser humano, é dominada pelas folhas escarlate, como se fossem flores. Deambulamos pelas veredas do jardim, contamos as suas pedras, deslumbramo-nos com os musgos tratados, com as águas, com os lagos, com os jardins secos, com o saibro riscado ou a terra cuidadosamente penteada, a representar o mundo.


CAMINHO DOS FILÓSOFOS
Seguimos pelo caminho dos filósofos ou via dos mestres. Um canal ladeado de cerejeiras segue sinuoso pelo sopé das Montanhas Orientais e há muita gente que caminha, gozando a natureza, conversando, lendo ou simplesmente indo ao templo zen de Nanzen-ji. E recordamos Nishida Kitaro (1870-1945), professor da universidade de Quioto, que tornou este lugar obrigatório para a compreensão da cultura japonesa. Os tons vermelhos e amarelos das folhas do Outono inebriam-nos, o sol e o dia ameno contribuem para o nosso deleite. E com que esmero Camilo nos indicava todos os pormenores. Em Nanzen-ji aprendemos a lição «sê mestre da tua mente». A colossal Sanmon à entrada do recinto do templo demonstra estarmos num lugar essencial da cultura zen. O portão descomunal não tem um prego, foi erguido no século XVII apenas com encaixes que põem à prova a habilidade e a inteligência humanas. Tudo para consolar as almas dos que morreram no cerco do Castelo de Osaka. Nos aposentos do Abade do Convento deparamos com o célebre “Tigre a beber água”, obra-prima da pintura japonesa do século XVII de Tamyu Kano, além de uma intervenção de Kobori Enshu, com seixos e pinheiros num impressionante jardim seco. Na relação do tempo e do universo, sentimos o equilíbrio entre a arte e a natureza, nos jardins, nos seixos, nas representações, mas especialmente na cerimónia do chá, no templo de Kodai-ji. Tudo exige o domínio do corpo e o respeito, da tranquilidade, da pureza e da harmonia e a cerimónia do chá é um gesto litúrgico, como ficou demonstrado por Wenceslau de Moraes no clássico “O Culto Chá”. E Camilo Martins de Oliveira levou-nos para além da imaginação até ao âmago do encontro entre culturas e afetos, com as belas fotografias de José de Guimarães. Tratou-se de uma peregrinação que correspondeu a um desafio, para que conhecêssemos melhor o Japão…   E ficou a lembrança viva de que “para o japonês, o que se procura, o que determina a entrega à contemplação, é o que não se vê. Olhar ou escutar – assistir a um concerto no Japão - é perceber como o silêncio é participante – torna-se, assim, mais do que um exercício de sentidos, uma extensão da alma. E é esse olhar ou escuta da alma que traz a obra de arte – cheia do mundo invisível e inaudível para o convívio quotidiano”.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A PROPÓSTO DE «DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO»

  


Entre a primeira e a segunda cenas do segundo ato da sua ópera Thaïs, Jules Massenet introduz um "intermezzo" musical que intitulou "Méditation Religieuse": é nesse momento que se dá a conversão da prostituta em santa nascente, enquanto Athanaël, o monge que a motivou ao arrependimento e à busca do amor espiritual de Deus, começa a sofrer a fortíssima tentação de Eros. A "Méditation" soa-nos aí como o fluir sereno de uma alma que, renunciando aos prazeres ruidosos do mundo, se vai refugiando na doçura silenciosa do misterioso amor de Deus. Mas o mesmo tema musical se repetirá, primeiro, na cena inicial do terceiro ato, quando Thaïs, ingressando no mosteiro do deserto, diz para sempre adeus a Athanaël e este, ao som da "Méditation", dolorosamente compreende que jamais voltará a vê-la. E, depois, já no fim desse terceiro e último acto da ópera, no dueto final, quando Thaïs entra na morte e na visão de Deus, Athanaël mais não pode do que gritar o amor erótico que apaixonadamente o submergiu. Assim, da novela homónima e intencionalmente anticlerical de Gustave Flaubert, mais do que o libreto que dela Louis Gallet escreveu para a ópera, é a música de Massenet que nos encaminha para uma meditação sobre a condição humana, dividida entre "La Pesanteur et la Grâce" como a definiu Simone Weil. Nesta história, há duas pessoas que se encontram e seguem em direções opostas, mas o mesmo mistério marca o destino dos seus percursos.


Afinal, estamos, como no filme de Joaquim Sapinho, "Deste lado da Ressurreição". Aqui, entre a terra e o céu, entre o amor humano e a força telúrica do Guincho, que conduz ao silêncio sombrio, à austeridade acolhedora para além de qualquer acolhimento sensível de uma serra de Sintra enclausurada no Convento dos Capuchos, também não é a flagelação castigadora do corpo de Rafael que o libertará. Frente à tentação da transcendência, e no silêncio de Deus sobre a terra, as águas iniciais, o espírito também chama ao Agapè, ao amor dos outros, em que incarnou o que era o Outro absoluto, para ser tudo em todos. "Deste lado da Ressurreição" é uma Peregrinação Interior" - diria o nosso António Alçada Baptista - contada com um pudor manso e secreto: entre a gravidade e a graça, sentimos, misteriosamente, como Bernanos, que "tudo é graça". Os vislumbres de amores humanos são, uns, superficiais e fugitivos, enamoramentos sem mais; mas outros, consubstanciados nas relações familiares, ganham a densidade (que é outra "pesanteur") que o amor, a única virtude intemporal, tem de aguentar do lado de cá do Apocalipse. Lembro-me dessa imagem de S. Tomás de Aquino, aureolado de sabedoria e santidade, mas com o indicador sobre os lábios, impondo à boca o silêncio da contemplação. A história de Santa Thaïs é recolhida das "Vitae Patrum" pelo dominicano genovês Tiago Voragino, que a inclui na sua "Legenda Aurea". Aí, Athanaël chama-se Padre Panúcio que, contrariamente ao monge de Flaubert, se mantém fiel à sua vocação e votos. Mas a versão mais antiga que dela se conhece é em grego do séc. V, em que o nosso monge se chama Serapião. Esta "vida" pode ser facilmente comparada a outra, cuja versão mais antiga, em grego também, data do séc. VII: a de Santa Maria Egipcíaca, cortesã que se converte e vai viver 47 anos no deserto. Esta hagiografia inscreve-se na tradição de Maria Madalena, pecadora arrependida, que data dos primeiros séculos do cristianismo e tem a ver com a conversão pela função salvífica da penitência. Curiosamente, nas histórias de que falamos, à luxúria da carne associa-se a acumulação de riquezas, fruto daquela. Todavia, porque é que a fraqueza carnal será, ao longo da vida bimilenária da Igreja, mais estigmatizada como pecado do que a ganância ou a injustiça social? Haverá algum paganismo nessa demonização de Eros? "O pagão - diz Denis de Rougemont em "O Amor e o Ocidente" na belíssima tradução do saudoso João Bénard da Costa - não podia deixar de fazer de Eros um deus: era o seu poder mais forte, o mais perigoso e o mais misterioso, o mais profundamente ligado ao facto de viver." (Ocorre-me aqui essa definição de Georges Bataille: "L’érotisme c’est l’afirmation de la vie jusque dans la mort"...). E, depois de dizer de Agapé, do amor cristão, que ele é "a afirmação do ser em ato", Rougemont escreve: «Foi Eros, o amor-paixão, o amor pagão, quem espalhou no nosso mundo ocidental o veneno da ascese idealista - tudo o que um Nietzsche injustamente censura ao cristianismo. Foi Eros e não Agapè que glorificou o nosso instinto de morte e quis "idealizá-lo". Mas Agapè vinga-se de Eros salvando-o. Porque Agapè não sabe destruir e não quer destruir nem sequer aquilo que destrói. Não quero a morte do pecador, mas a sua vida».

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 23.11.12 neste blogue.

MEDITAÇÃO JAPONESA

O texto que publicamos foi expressamente escolhido por Camilo Martins de Oliveira, que há pouco nos deixou.
Agradecemos toda a sua generosidade e o seu empenho permanente.  
 

  


A abertura do Japão ao convívio internacional, em meados do séc. XIX e após mais de dois séculos de reclusão imposta pelo shogunato Tokugawa, começou por promover algum comércio e a instalação de pequenas colónias de estrangeiros em Kobe e Yokohama. Mas depressa produziu efeitos de outra ordem de grandeza, quer no tocante à "modernização" tecnológica, económica e social, jurídico-política e administrativa do Japão - que aliás gerou dilemas e crises de identidade cuja "digestão" ainda hoje não está terminada - quer ainda quanto à projeção de representações tradicionais da cultura nipónica sobre o gosto e as artes do ocidente europeu e norte-americano.


Gravuras dos mestres do ukiyo-e, como Hokusai e Hiroshige, quimonos e leques, cerâmicas e lacas, desenho de objetos e arquitetura de edifícios impuseram-se com tal veemência ao gosto europeu, que logo se espalhou uma moda a que, em França, se chamou "japonisme"...


Lembremo-nos da influência daquelas gravuras nos cartazes de Toulouse-Lautrec, da sensualidade e erotismo da "japonaise au bain" de James Tissot e outras cenas de banho do Degas. Sem esquecer a elegância e os cenários nipónicos de tantos quadros do Whistler ou da Mary Cassat, nem o "Portrait du Père Tanguy" do Van Gogh, os guaches de Gauguin sobre papel recortado pele forma de leques japoneses. E há tantos outros motivos nipónicos na pintura de Manet, Pissarro e muitos outros!


Nas artes decorativas, em porcelanas de Worcester, da Minton e da Martin Brothers, em pratas e casquinhas da Christofle e da Tiffanys, em vidros do Daum ou do Gallé. Generalizou-se o uso de biombos e a decoração japonizante de portas, paredes e móveis, e outro jeito de arranjar flores. No vestuário e acessórios, novos padrões de tecidos, quimonos, leques e sombrinhas.


O ocidente de fim de século descobre, mitifica e imita o gosto japonês. Mas que fazem os japoneses coevos? Mandam políticos e samurais, juristas e médicos, engenheiros e artistas plásticos, à Europa e aos EUA, para conhecerem as nossas constituições e o nosso direito, a nossa medicina e os nossos hospitais, os nossos caminhos de ferro, estradas e pontes, as nossas indústrias, os nossos exércitos, as nossas escolas.


Num esforço de emulação do que entendem ser as melhores realizações do génio ocidental, os japoneses da era Meiji erguem fábricas e estaleiros navais, montam um Estado com imperador, parlamento, constituição e organização política e administrativa. Constroem ferrovias, pontes e telégrafos, organizam o serviço militar obrigatório. Abrem universidades, empresas e bancos. Fazem de Ginza, em Tokyo, uma zona de comércio de luxo, com avenidas largas e grandes armazéns, para suplantar o que de semelhante viram em Londres, Paris, Berlim ou New York.


Mas não se pode falar de ocidentalização do Japão, para além da importação, adaptação, assimilação e eventual melhoramento de técnicas sistemas. A alma nipónica recebe e rejeita tudo isso, serve-se do que é instrumentalizável, mas não se converte. A era Meiji formou a matriz do pensamento e das reações japonesas no sec. XX até aos nossos dias. Diz-nos um escritor nosso contemporâneo: "Desde essa época e até hoje, a civilização ocidental, pelos nossos contactos e fricções com ela, foi-nos pródiga em benfeitorias e, simultaneamente, fez-nos sofrer. Mais precisamente, os sofrimentos do Japão - ou talvez mesmo da Ásia - começaram quando os ocidentais se tornaram, aos nossos olhos, mais belos do que os asiáticos. E essa mágoa ou, pelo menos, esse mal estar permanece em mim, que aqui vivo, sem conseguir liquidá-la..."


Não resisto a transcrever um trecho de uma entrevista que Shosaku Endo, escritor católico japonês, há anos deu à revista Kumo:


"Fui batizado em criança, isto é, o meu catolicismo foi um pronto a vestir. Depois, tive de decidir se faria o fato adaptar-se ao meu corpo ou se o deitaria fora, para vestir outro. Muitas vezes senti que queria desfazer-me do meu catolicismo, mas finalmente fui incapaz de o fazer. Não foi só não deitá-lo fora, foi sentir-me incapaz de o deitar fora. A razão disto talvez seja ele ter acabado por se tornar parte de mim. O facto de ter penetrado tão profundamente em mim quando era jovem era um sinal de que, pelo menos em parte, se tornava numa coextensão minha. Mesmo assim, não conseguia desembaraçar-me do sentimento de tratar-se de algo emprestado, e comecei a perguntar-me o que seria o meu "ser eu mesmo"... Penso que isso é o pântano de lama japonês em mim. Desde que comecei a escrever romances até hoje, esta confrontação do meu "ser eu mesmo" católico com o "ser eu mesmo" que lhe está subjacente tem, como refrão repetido por um idiota, ecoado e voltado a ecoar no meu trabalho. Senti que tinha de encontrar maneira de reconciliar ambos." Endo fala de pântano japonês como metáfora de uma condição cultural que suga sentimentos e ideias e dentro de si os transforma.


Qualquer processo de aculturação é necessariamente complexo e demorado. Quando ouço por aí o pregão de receitas de cura socioeconómica e financeira "à americana" lembro-me sempre de um chinês famoso que, há poucos anos atrás, respondeu assim à pergunta sobre quais teriam sido os efeitos da Revolução Francesa de 1789 na China: "Ainda é demasiado cedo para o dizer."

 

Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 16.11.12 neste blogue.

EM TORNO DE UMA MEMÓRIA...

  

 

No seu autobiográfico "Joseph Anton - A Memoir", Salman Rushdie conta-nos que Anis, seu pai, era um "godless man", mas um homem sem deus que sabia e pensava muito acerca de Deus ("a godless man who knew and thought a great deal about God"). E continua (a tradução é minha): "O nascimento do Islão fascinava-o, porque era a única das grandes religiões do mundo a ter nascido no contexto da história registada, e cujo profeta não era uma lenda descrita e glorificada por ‘evangelistas’ escrevendo cem anos ou mais depois da vida e morte do homem real, nem um prato recozinhado para fácil consumo global pelo brilhante prosélito São Paulo, mas antes um homem cuja vida estava largamente registada, cujas circunstâncias sociais e económicas eram bem conhecidas, um homem vivendo num tempo de profunda mudança social, um órfão que cresceu até se tornar num bem sucedido mercador com tendências místicas, e que viu um dia, no Monte Hira, próximo de Meca, o Arcanjo Gabriel levantado sobre o horizonte e enchendo o céu e instruindo-o paras que ´recitasse´ e assim, lentamente, criasse o livro conhecido como a Recitação: Al Corão". Não nos demoremos no simplismo (e quiçá algum azedume feito ironia) com que Rushdie contrapõe ao registo histórico de Maomé a recordação histórica de Jesus. Sobre o Jesus histórico tem-se falado e escrito muito (com seriedade de investigação e honestidade intelectual, ou sem uma nem outra). Do que conheço, posso recomendar, a quem tiver tempo e particular interesse na investigação histórica, os quatro volumes do "Jesus, A Marginal Jew - Rethinking the Historical Jesus", do Prof. John P. Meier, padre e universitário americano, e, ao comum da gente como eu, o "Jesus de Nazaré" do Papa Bento XVI (que tem o carisma de ser uma interrogação histórica e teológica da figura temporal e intemporal de Jesus Cristo, feita por um crente que é Papa) e o belíssimo "Jésus" do historiador francês (conhecido biógrafo de Luís XIII, Luís XIV e Luís XVI) Jean-Christian Petitfils. Esta última obra, trabalhada sobre um conhecimento muito atualizado das investigações históricas e bíblicas (arqueológicas e exegéticas) "filma-nos" um Jesus que se move na cultura social, religiosa e política do seu tempo. E assim nos vai abrindo uma porta sobre o mistério da fé cristã. Voltando a Salmon Rushdie, lembramo-nos do tal Arcanjo Gabriel, encontrado já noutras paragens, muitos séculos antes do bom Maomé... O que nos ajuda a perceber melhor como Rushdie conclui ser "a estória do nascimento do Islão fascinante, por ser um evento dentro da história que, portanto, enquanto tal, fora obviamente influenciado pelos eventos e pressões e ideias do tempo da sua criação; e que historicizar a estória, tentar perceber como uma grande ideia fora formatada por essas forças, era a única achega possível ao assunto"... "A Revelação teve de ser assim entendida como um evento interior, subjetivo, não como realidade objetiva, e um texto revelado tinha de ser escrutinado como qualquer outro texto, utilizando-se todas as ferramentas da crítica literária, histórica, psicológica, linguística e sociológica". Em virtude desta convicção foi Salmon Rushdie anatemizado por uma "fatwa"... Entre cristãos, dentro e fora do "christian belt" também encontramos apego a leituras literais da Bíblia. Mesmo entre católicos se instala o receio de questionar, investigar, encontrar o desconhecido, o simplesmente novo. E todavia, a Igreja que, por tantos séculos manteve a Bíblia aberta apenas na sua versão latina da Vulgata, e se foi reservando a capacidade de propor à leitura dos fiéis diferentes trechos dela, conta hoje com um número elevado de escolas de arqueologia e exegese bíblica de alta qualidade científica, na esteira da École Biblique de Jerusalém que, guiados pelo Padre Lagrange, os dominicanos franceses fundaram, já no séc. XIX, na Cidade Santa. Do conhecimento crescente que assim vamos tendo da história e da sociedade do tempo de Jesus, por exemplo, tal como do cotejo de textos em grego, hebraico e aramaico, de forma a datar mais precisamente os originais e a melhor entender o significado de palavras e expressões, resulta uma interpretação cientificamente mais fundamentada que obriga a um exercício teológico renovado, e novo também na sua atenção e resposta às preocupações e sinais dos tempos hodiernos. Para a Igreja Católica, a Revelação não se esgotou na Bíblia, antes é um processo objetivo pela ação do Espírito Santo que Jesus (o Emmanuel, a pessoa de Deus incarnado na história dos homens) deixou para que se prosseguisse a Redenção pela conversão até à visão final de Deus. Neste sentido, está sempre dentro e no coração da história, acompanha-a, não se repete como uma recitação, como na tradição islâmica preponderante. Por isso, em todos os planos da vida humana, na cultura, na economia, na sociedade, na política, o papel do cristão não é estático, como o de quem só assiste, observa e conserva. O Cristianismo não tem teocracia possível, nele, a presença do Deus transcendente no mundo e na história faz-se pela conversão de cada um ao apelo da Revelação subjetiva, na comunhão da Igreja. Por isso, foi sempre importante que os seus pastores não caíssem na tentação de um autoritarismo tentacular e totalitário. A liberdade da reflexão teológica, num clima eclesial de promoção do diálogo, é essencial ao cumprimento do mandato vital da fé cristã.  Aqui fica o testemunho de um leigo.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 09.11.12 neste blogue.

FALAMOS MUITO...

  


Falamos muito, e tememo-lo, nós os ocidentais, esse epifenómeno que dá pelo nome de "fundamentalismo islâmico". Para uma cultura da permissividade como prática de vida, é evidente que a cultura do culto da "lei" como norma de vida é incompreensível. Mais: é inaceitável. Isto é: em nome da liberdade de expressão e ação, lançamos um anátema sobre quem pensa que ela não é legítima ou, mais simplesmente, deve ser limitada. Até já se chamou, a este desentendimento, choque de civilizações... Mas também podemos evocar as cruzadas - com o que trouxeram de sofrimento imposto pelos cristãos do ocidente aos de Bizâncio - ou as guerras de religiões cristãs na Europa da reforma, os ódios entre chiitas e sunitas muçulmanos, o holocausto nazi a par do estalinista, as rivalidades entre cristãos além-mar, como as que alimentaram martírios de católicos no Japão dos sécs. XVI-XVII, ou o descalabro das missões jesuítas na América do Sul. Ou ainda as "bruxas de Salém", para não falar desse prenuncio de "técnicas científicas" nazis que foram as medições morfológicas de jesuítas e outros religiosos pela nossa 1ª República... E temos muito mais: Rwanda, Pol Pot no Cambodja, Sudão, Bósnia, eu sei lá! Somos, instintivamente, animais agressivos, quando tememos o outro. Ou quando o queremos comer. Quando nos fechamos no individualismo, de cada um ou do seu grupo, e esquecemos que a racionalidade que nos diferencia necessariamente nos obriga ao exercício crítico que S. Tomás de Aquino dizia ser "diferenciar (distinguir) para compreender." A diferença, ou a consciência dela, não é divisão (e muito menos guerra): é reconhecimento. Parafraseando Paul Claudel, para quem a "connaissance" - o conhecimento - é «nascer com»: o reconhecimento, neste sentido, é renascermos com os outros. Será a procura da harmonia, com a coragem que nos conduzirá ao encontro das raízes comuns a todos, que já o primeiro livro judeo-cristão assinalava dizendo que Deus nos criou, homem e mulher, à sua imagem e semelhança. A todos nós. A divisão, essa entre o bem e o mal, o belo e o feio, cada um de nós a traz em si, como o "visconde cortado ao meio" do Italo Calvino. "L’enfer c’est les autres" dizia Sartre. E assim existencialmente, demasiadas vezes, o entendemos. Mas o próprio sabia que o inferno está em nós e se propaga, como incêndio, na projeção da paixão de nós sobre os outros. "O pecado - escreveu um dominicano francês, Jean Cardonnel - é a paixão dos nossos limites". Os outros, os que não entendemos logo, são um apelo insistente a que sejamos mais firmes e fortes no que somos e mais abertos ao abraço dos outros, que é o que todos poderemos ser num mundo em globalização. Nesse mundo, que tão rapidamente nos cerca, só a fortaleza das nossas raízes nos ajudará a responder à nossa vocação do Outro. O diálogo só é possível com autenticidade. As rendições sempre começaram por traições.

 
Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 02.11.12 neste blogue.

COISAS DA CHINA...

  


"A terra da China produz todos os bens em abundância: porque deveríamos então comprar no estrangeiro pacotilha sem interesse?" - perguntava o imperador Ming Zhu Gaozhi (1425-26), justificando o termo brutalmente imposto às expedições ultramarinas iniciadas pelo eunuco muçulmano chinês Zheng He (1371-1433) sob o imperador Ming Yong Le (1360-1424), que terão possivelmente levado naves chinesas a dobrar, em sentido contrário, antes dos portugueses, o Cabo da Boa Esperança. Durante três décadas, de 1405 a 1433, Zheng He terá comandado sete expedições que chegam à Arábia e África Oriental, provavelmente até Sofala, tocando em caminho a Malásia, a Indonésia e a Índia. Algumas das esquadras compõem-se de mais de duzentos navios, transportando quase trinta mil homens e muitas mercadorias: sedas e porcelanas,etc... que se trocam por essências, resinas e madeiras, jade... Mas não os move a procura obsessiva do ganho, nem o proselitismo religioso que "empurraram" as descobertas europeias. Como diz Joseph Needham: "os chineses não procuravam contornar uma grande civilização estrangeira que se situasse no caminho das suas rotas comerciais; interessavam-se por objetos estranhos, por raridades e pela perceção de tributos de princípio, mais do que por qualquer tipo de comércio; não eram movidos pelo proselitismo religioso, não construíam fortes nem fundavam colónias. Durante menos de um século verifica-se a sua presença e, repentinamente, deixaram de aparecer e a China regressou à sua vocação agrícola voltada para o interior". Se a exaustão dos cofres do Estado, pelas elevadíssimas despesas com a construção do grande canal de união dos dois grandes rios, com a mudança da capital do sul (Nanjing) para o norte (Beijing) e a edificação da Cidade Interdita foram, tal como o custo das expedições ultramarinas, um fator de peso na terminação destas últimas, já o facto de Zhu Gaozhi, sucessor de Yong Le, e sobretudo Zhu Zhanji terem mandado destruir todos os navios, cartas e mapas, como tudo o que servisse à navegação, bem como proibido sob pena de morte qualquer viagem ou contacto com o estrangeiro, reflete uma política deliberada de regresso a um confucianismo agrário de exclusão do Império do Meio. Como se lê no "Livro dos Documentos": "Nós reinamos sobre tudo o que vive debaixo do céu, pacificando e governando os Chineses e os bárbaros com a mesma bondade e sem distinção entre o meu e o teu... E não há lugar algum em que não se tenha ouvido falar dos nossos costumes e admirado a nossa civilização!". Em 8 de novembro próximo, o Comité Central do Partido Comunista Chinês inicia o seu XVIII Congresso. Tema central das discussões e decisões políticas será o ritmo de crescimento do PIB e o próprio modelo económico do Império do Meio. O frenesim e a rapidez de grandes investimentos e obras tem sido posto em causa, não só por razões de ordem financeira, económica ou social, mas pela qualidade e segurança das mesmas. Assim, num jornal de Hangzhou, escreve Tong Dahuan: "Ó China,abranda o passo, deixa de correr a toda a velocidade! Espera um pouco pelo teu povo, espera um pouco pela tua alma! Espera um pouco pela tua moral! Espera um pouco pela tua boa consciência! Não deixes que os comboios descarrilem, nem que as pontes se abatam, nem que as estradas se transformem em ratoeiras e as casas se tornem perigosas! Abranda, para que todos os cidadãos cheguem sãos e salvos ao seu destino, para que a liberdade e a dignidade de todas as vidas humanas sejam respeitadas e para que nenhum cidadão fique de fora da sua época!". E  todavia a taxa de crescimento do PIB será, em 2012, de 7,5%, ou seja, quase metade da de 2007! Das suas componentes, baixam o investimento e as exportações, começa a crescer o consumo interno. Um dos intelectuais mais críticos e respeitados do Partido, Deng Yuen, escrevia há pouco: "O cerne do problema do abrandamento é que a China desenvolveu uma economia voltada para as exportações e assente numa mão de obra e em recursos baratos, ao ponto de já não ser capaz de encaixar o choque externo provocado pela recessão económica mundial".  Por isso, apela a uma transformação do modelo de crescimento, designadamente quanto à orientação dos investimentos públicos para o bem estar dos cidadãos, e não já em sectores industriais com capacidade excedentária. Mas também reclama um Estado de direito, a democratização e a reforma da vida política. Que farão os sucessores de Hu Jintao e Wen Jiabao, cujos nomes conheceremos oficialmente já neste novembro? Da China, como vimos pelo exemplo exposto no início do presente texto, tudo se pode esperar. Mas uma certeza temos: grande ou pequeno, qualquer país terá de se pensar hoje como parte de um mundo global. Pelo que a política e a diplomacia se deverão preocupar e ocupar, menos com manobras, e mais, muito mais, com a afirmação e partilha de valores e princípios de convivência e ação.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 26.10.12 neste blogue.

TRANSFUGA DA NATUREZA...


Não se volta atrás, não há regresso possível. O que era foi, sem repetição alcançável. Disse Ortega y Gasset que "el hombre es un transfuga de la naturaleza". E por isso, por em cada um de nós se iniciar e progredir sempre a consciência da liberdade de ser, somos, em música, uma fuga. Desenvolvemos um tema. Ou, em poética, glosamos um mote. À procura dessa qualquer harmonia, do que, à frente e para além, nos reconstitua na felicidade. Esta terá sido perdida - assim nos contam os relatos originais em textos religiosos e filosóficos - mas talvez volte a ser possível, não como regresso, só como porvir. Os homens são como as árvores: precisam de raízes para crescer, são uma semente cuja sombra possível ninguém conhece. Mas no advento de qualquer futuro - ainda que incógnito - de pessoas, instituições, nações, culturas ou civilizações, há sempre uma parte decorrente do exercício da nossa responsabilidade. E este é inalienável. Este ano, o Prémio Nobel da Paz foi atribuído à União Europeia. Qualquer "Nobel" vale o que qualquer pessoa lhe queira atribuir, é contingente como todas as coisas do mundo. Mas, em tempo de crise, este gesto dá que pensar: afinal, o que se destaca e premeia é a realização de alianças e instituições supranacionais que conduziram a Europa das guerras a décadas de paz; mas é também uma chamada de atenção para um projeto que, parecendo emperrado, terá de encontrar inspiração e caminhos para o futuro. Quando, sem grande surpresa, recebi a notícia de já se discutiria quem, de entre Barroso, Van Rompuy e Schultz, deveria ir a Oslo receber o prémio, encantou-me a sugestão da Comissária Cacilia Malmstrom: "Porque não enviar 27 crianças?" E ocorreu-me uma ideia de Jean- Louis Bourlanges que já aqui citei: "Não foi a Europa que fez a paz, mas a paz que fez a Europa". Na verdade, na sua memória histórica que lhe mostrou o quanto violou o princípio da paz, todavia bem presente na inspiração cristã das suas raízes espirituais, encontrou a Europa a razão da paz que a uniu. Mas é hoje necessário compreender como a paz só se mantem pela justiça e pela solidariedade. Na verdade, a frase de Bourlanges não se refere à paz no sentido inspirador com que dela aqui falamos, mas quer, sim, dizer que a CEE percursora da União só foi possível graças à pax americana, garantida pelo plano Marshall e pela proteção defensiva que os EUA asseguraram. Pessoalmente, penso que essa "entrega" da defesa europeia explica, em grande parte, quer a incapacidade de se constituir uma intervenção europeia independente e comum em palcos internacionais como os Balcãs ou a Líbia, quer o acento posto, pelos Estados Membros, na preferência por ações em que cada um considerava prosseguir objetivos de interesse ou prestígio nacional. Hoje, já não temos Plano Marshall e temos o euro. A continuidade da construção europeia, de modo a assegurar a harmonia interna e a sua irradiação, portadora de valores de justiça, esperança e paz, num mundo global, só será possível se os nossos povos e os nossos políticos tomarem consciência firme da riqueza espiritual da Europa, onde mergulham as nossas raízes comuns e ganham sentido propósitos de entreajuda e solidariedade social. É certamente necessário pôr cobro ao facilitismo de um despesismo imprudente ou irresponsável, seja dos indivíduos ou dos Estados. E aqui será indispensável corrigir os comportamentos e propostas, sobretudo os relativos a símbolos de riqueza ou de poder (v.g. a frota automóvel da classe política) e ao gosto do luxo e do supérfluo, que os noticiários e a publicidade todos os dias nos apresentam. Só porque o exemplo também manda nas mentalidades. Como é necessário que os Estados hoje menos afetados pela crise compreendam que esta, agravando-se, começa a bater-lhes à porta. E que não é com ressentimentos históricos (de que a Alemanha, p.ex., foi vítima entre as duas grandes guerras do séc. XX) que se cria o clima propício à correção de erros e à procura de um futuro melhor. Finalmente, teremos de tratar a res publica com sentido no bem comum, e jamais no modo doentio da prossecução de interesses particulares, classistas, sectoriais ou partidários, nem com o desejo de protagonismo que torna a ação dos nossos políticos num lamentável exercício de "marketing" político. Antes, e mais do que económica e financeira, a nossa crise é de cultura ética.

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 19.10.12 neste blogue.

EDUCAR O ESPÍRITO CRÍTICO

  


Leonel Narváez, padre católico, teólogo e sociólogo, criador da Fundación para la Reconciliación, que tanto tem feito pelo regresso da paz à Colômbia das FARC, veio a Portugal falar de "instaurar no mundo uma justiça reabilitadora" e também disse que "a educação que temos hoje é para competir, para o emprego"... mas... "o que temos de aprender é a conviver"! No seu "The Idea of Justice", Amartya Sen, prémio Nobel de Economia, começa por referir o que Charles Dickens pôs na boca de Pip: "No pequeno mundo em que as crianças têm a sua existência, não há nada que seja tão agudamente percebido e tão agudamente sentido como a injustiça"... E, olhando para o mundo dos adultos, Amartya Sen acrescenta: "O que nos move não é realizarmos que o mundo não chega a ser totalmente justo - o que poucos de nós esperaríamos - mas que, à nossa volta, há injustiças claramente remediáveis, que queremos eliminar". Se refletirmos um pouco mais extensa e profundamente sobre a "crise" e suas causas, encontraremos entre estas duas frustrações maiores: uma, que se espalha como incêndio, e é eminentemente subjetiva na origem, é o sentimento de injustiça; outra, que é fruto do individualismo a que nos acossou o culto do económico e a cultura do consumismo, é o desfazer dos tecidos do nosso convívio e solidariedade. No "mundo global", o indivíduo vai-se sentindo perdido, ao aperceber-se de que forças maiores e estranhas, fora do seu controle, o frustram dos paraísos consumistas que lhe prometeram. E não reencontra a sua dignidade de pessoa, como quando a sentia na solidariedade das comunidades familiares, locais, empresariais, etc, a que pertencia. Sempre pensei que o homem é, ontologicamente, um ser em relação. Ora, no cerne da "crise", está precisamente a pessoa, enquanto ser em relação. A popularização dos meios de comunicação (tv, redes eletrónicas) tem-nos tornado, simultaneamente, comunicáveis e incomunicantes. Somos, muitas vezes, seres emprestados, sem nome nem responsabilidade. O "zapping" televisivo e o "surfing" eletrónico são formas de vadiagem anónima. Aplaudimos, por exemplo, as "primaveras árabes" ou os "indignados ibéricos" como movimentos de libertação de ditaduras, sejam elas fundamentalismos político-religiosos ou mercantilo-capitalistas, plutocracias, afinal, sempre disfarçadas por ideologias e promessas de salvação transcendente ou bem-estar acenado, movidas por interesses e grupos que subsistem antes e para além do que, de ângulos de tiro diferentes, e aparentemente opostos, lhes apontamos. Mas sofremos de falta de democracia real: quer pelo lado do falhanço das instituições vigentes, quer pelo seguidismo de ideias e pessoas que não conhecemos."Brincamos" à cabra-cega. É hoje necessário educar o espírito crítico (é grave a iminência da sociedade de robôs de que Bernanos falava) para nos irmos chegando ao entendimento da democracia como "governo pela discussão", ideia que John Stuart Mill adiantou. E Amartya Sen acrescenta: "Mas a democracia deve ser, mais genericamente, encarada como a capacidade de enriquecer compromissos pensados pela insistência na disponibilidade de informação e na possibilidade de empreender discussões interativas. A democracia não tem de ser julgada pelas instituições que formalmente existem, mas pela extensão na qual vozes diferentes de diversos sectores do povo possam ser realmente ouvidas". Até para entendermos, num mundo agitado pelas propagandas várias dos media, a parábola do bom samaritano: o meu próximo é o Outro.

 
Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 12.10.12 neste blogue.