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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


VERDI, VERDE-GAIO, PÁSSARO, VIDA VAI…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:


Fui ao mercado com o Alberto. É sempre com imenso gosto que percorro com ele a Ribeira de Lisboa e conversando deambulamos por esse mercado à beira-rio... O Alberto correu mundo e fala línguas, mas nunca deixou de ser o beirão cuja primeira revelação de Deus e sentimento da graça foi essa convivência, desde pequenino, com a Natureza: temor e tormenta, bonança e libertação na alegria calorosa do sol, vida que morre na terra e da terra nasce, sombras e segredos, flores e cores, frutos e prazeres, transpiração e trabalho, mas sempre, sempre, contemplação e ação. Os campos maravilham-nos e oferecem-se-nos. O lema dos monges antigos - "ora et labora" - resume bem esse encontro do homem com Deus, da mística com a cultura, que é o trabalho agrícola. Também no Oriente acabam por se fundir no círculo da vida o ying e o yiang, a harmonia é uma submissão recíproca de quem fecunda e é fecundado, e as estações do ano acompanham essa conversão contínua da morte e da ressurreição. Talvez seja mais difícil encontrar na cidade essa íntima, genética, comunhão com o mundo. O nosso Alberto vai aos legumes, escolhe-os para que lhe saibam melhor as sopas camponesas que a Diamantina (a cozinheira lá de casa) preparará em lume brando e tapando os tachos, "p’ra que fique lá a riqueza toda, meu senhor!" Eu compro fruta e flores para levar à tua irmã. Antes de partirmos, o Alberto chama o motorista, para o ajudar a carregar no carro as gaiolas cheias de passarinhos, com cuja compra se despede. Ao chegar a casa, abrirá as gaiolas que pendurou numa parede do vasto terraço que se debruça sobre o jardim, e largará os pássaros. Com uma alegria amiga, quase infantil. Muitos deles voltarão a abrigar-se nas prisões de porta aberta, alguns virão comer à mão que esse homem lhes estende, com alpista. E este nórdico que sou, citadino e bruto, pasma para a cena, como menino para o sorriso de sua mãe. Descubro e encontro. Hoje, comprei cerejas, portuguesas da Beira, as melhores do mundo. Já lá fomos colhê-las, lembras-te? Passámos dos "boulevards" gelados de Paris no Inverno para a floração da Primavera em Sintra, até aos cerejais da Gardunha, no início do verão. Já no outono, fomos às castanhas, a Marvão... Citadinos embora, respirámos juntos. "A Lui che nell’erba del campo / La spiga vitale nascose, / Il fil di tue vesti compose, / De´pharmachi il succo temprò"... // "ÀquEle que na erva do campo / a espiga vital escondeu, / teceu o fio dos teus vestidos, / doseou o suco das plantas curativas, / criou o pinheiro inflexível ao suão, / o salgueiro que obedece à nossa mão, / e o larício que o inverno afronta / e o álamo que a água aguenta. / A Esse pergunta,ó desdenhoso, / porque é que na inóspita charneca, / ao sopro da brisa brava, / faz surgir a tácita flor, / que abre, perante Ele só, / o fausto do seu véu cheio de cor, / que espalha aos desertos do céu / os olores do seu cálice, e morre". Respigo estes versos do "Ognissanti" de Alessandro Manzoni, último e incompleto hino do projeto de poemas sacros que, cinquenta anos antes, em 1810,na sequência da sua conversão, esse Verdi da literatura italiana do "risorgimento" iniciara: entre 1812 e 1815, publicara "La Risurrezione", "Il Nome di Maria", "Il Natale" e "La Passione". Em 1822, publicaria ainda "La Pentecoste". Sinto no "Ognissanti", nesta contemplação poética da ação da graça, ou da presença íntima de Deus no coração de tudo - e no coração do homem que não desdenha mas abre ao mundo o límpido olhar da humildade para, em festa de Todos os Santos, comungar também no mistério da vida de todas as coisas - o mesmo louvor das criaturas que se manifesta no "Cantico di Frate Sole" de S. Francisco de Assis. Aliás, o hino de Manzoni chama Sol a Deus, logo na primeira quadra: "Quel Sol che in sua limpida piena / V´avvolge or beati lassú...", esse Sol que no seu pleno esplendor vos envolve, ó bem-aventurados! Mas já o poeta de Assis cantava: "Laudato sie, mi´Signore, cum tucte le tue creature, / Spetialmente messor lo frate sole, / O qual é dia e pelo qual nos alumias. / E ele é belo e radiante, com grão esplendor: / de ti, Altíssimo, traz significação....  ...Laudato si’, mi’Signore, per sora nostra matre terra, / la qual ne sustente et governa, / e produz diversos frutos com flores coloridas e erva..." Aristocrata milanês, o conde Alessandro Manzoni era, por sua mãe, neto do marquês Cesare de Beccaria autor do tratado "Dei dilliti e delle penne" e, com os irmãos Verri, parte fundadora, nos anos 60 do século XVIII, de uma tertúlia que se denominava "I Pugni" e publicava um jornal: "Il Caffe". Títulos sintomáticos de um desejo de renovação cultural e social que desabrochará no "Risorgimento". Tendo ido viver para Paris, com sua mãe, depois da morte do companheiro de exílio dela, Carlo Imbonati, é na Cidade-Luz que, curiosamente, Manzoni regressará à Igreja Católica, por altura do seu casamento com Henriette Blondel, filha de um banqueiro de Genebra, e calvinista entretanto também convertida à confissão católica. Ao que parece por influência do padre Eustachio Degola, com tendências jansenistas. Tudo reunido para que o regresso à Igreja se faça como procura do espírito evangélico, do amor dos pobres e da justiça. Penso que aquele cenáculo de "Os Punhos" (não sorrias...) queria mais a restauração da tradição "italiana" do poder autárquico do que uma união nacional da península itálica. Tal como Verdi, nas suas primeiras óperas, procuraria mais a realização desse vulcão dramatúrgico que lhe musicava a alma do que a proclamação de uma Itália una e livre. Mas o império austríaco era inimigo de si próprio, não teve governo capaz de entender sentimentos ancestrais de pertença a memórias que, se reunidas e conjugadas por uma simples ideia mobilizadora de elites (que se sentem estrangeiras) e de populações (que são a maioria dos 80% de analfabetos que estatisticamente então se registam), são fermento do que chamamos "Nação". A qual, uma vez controlado um território, que com o povo institucionalmente se organiza, realiza outra ideia. Que é a de Estado. O artífice da Itália ressurgida, foi um Camillo, o Benso, conde de Cavour, ligado ainda aos nossos, pelos Lamporecchi. Soube jogar com tudo e todos, até com Garibaldi que, natural de Nice, não lhe perdoou a cedência, à França de Napoleão III, da Savoye e de Nice, ou ainda a retenção do ataque final aos Estados Pontifícios - que, a concretizar-se, embaraçaria o imperador dos franceses - em compensação pelo apoio que recebeu para a afirmação da independência e da hegemonia do reino do Piemonte na Itália libertada de Áustria... Quando morreu, em 1862, Verdi fica sem voz: Camillo Cavour fora, não só a força política subjacente ao movimento elitista e popular que tornara o grito de "Viva Verdi!" na manifestação pública da sigla "Viva Vittorio Emannuelle Re d’Italia!", mas o homem de Estado que o convencera, como a Alessandro Manzoni, a aceitar ser eleito para o parlamento do novo reino, em fevereiro de 1861. Demite-se logo a seguir à morte do político que tanto admirava. Não tem coragem para assistir às cerimónias fúnebres. Tal como essa coragem novamente lhe faltará, onze anos depois, pela morte de Manzoni, o unificador da língua italiana pelo dialeto toscano (e foi propositadamente passar uma temporada a Florença para "lavar nas águas do Arno" o estilo e a língua), o autor de "Adelchi", sobre o desmoronamento do reino lombardo na Itália do século VIII, e da joia do romantismo literário italiano que é o romance "I Promessi Sposi", em que a narrativa das vicissitudes do amor entre um casal lombardo será finalmente guiada pela preocupação com a pauta toscana do italiano (língua oficial e nova) e pela fidelidade ao cristianismo evangélico, na aceitação, humilde e obediente, dos desígnios da Providência... Mas Giuseppe Verdi, oferecerá à memória de Manzoni, a "Messa da Requiem" que já pensara para Rossini e Cavour. A 22 de maio de 1874, na igreja de S. Marcos, em Milão, um ano depois da morte de Alessandro Manzoni, canta-se pela primeira vez o "Requiem", cuja intenção Verdi expusera, em carta a Ricordi, datada de 3 de junho de 1873, escrita portanto no dia seguinte ao do seu retiro e oração junto à campa do escritor: "Gostaria de manifestar o afeto e a adoração que sempre prestei a esse Grande Homem que já não está e que Milão tão dignamente honrou. Gostaria de compor uma missa pelos mortos, para ser executada no próximo ano, no aniversário da sua morte. A missa terá dimensões muito vastas e, além de uma grande orquestra e de um coro importante, exigirá também (não posso, de momento, ser mais preciso) quatro ou cinco cantores principais. Pode considerar esta carta como um compromisso formal". A 24 de Janeiro de 1901 (já eu tinha um anito, vê tu bem!), pela madrugada, Giuseppe sente a hora da despedida. Para o encontro com a sombra e a luz, chamam à sua cabeceira o pároco de San Fedele, o padre que acarinhou os momentos derradeiros de Alessandro, quase trinta anos antes. "Um demorado aperto de mão, um olhar dizendo, uma expressão profunda, asseguravam-me de que ele tinha entrado num pensamento religioso. Foi apenas um instante, mas, para ele, para mim, um instante precioso. Tinha a língua parada, mas os seus olhos falavam-me, como me falava o aperto da sua mão. Foi o último olhar, a última saudação do grande músico italiano. Tive só tempo de os recolher. Não deu mais sinal de si e expirou serenamente"... O Alberto, depois do jantar, por me ter ouvido falar do que - disse eu - seria o "Requiem" de Verdi por ele-mesmo, pôs no gira-discos a gravação feita por Carlo Maria Giulini, com a Elisabeth Schwartzkopf, a Christa Ludwig, e os Nicolai, o Gedda e o Ghiaurov. Cerrou os olhos e deixou-se estar. Admirei-o ainda mais: estava ali, sereno como um franciscano, o homem que não quer que lhe plantem ciprestes na quinta, só porque lhe lembram um cemitério... O céu é bem maior do que nós, Princesa". Alberto Martins de Oliveira morreria alguns meses depois. Terá sido levado pelos pássaros que libertou?


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 10.09.13 neste blogue. 

ANTOLOGIA

  


UMA QUESTÃO DE TÁXIS…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa:


Estou desde domingo em Lisboa, vim passar a semana com o Alberto e a tua irmã. Cheguei cansado da viagem, não parei naqueles quinze dias de Japão, e a paragem em Paris não chegou para me desvanecer o "jet-lag". Imagina que esta noite tive um sonho estranho. Estava em Tokyo, apanhei um táxi na Aoyama-dori, ia jantar com os Sakai, ali para as bandas de Jiyugaoka. Conheço o percurso, pois a rua, como tantas em Tokyo, não tem nome, mas sei desembrulhar algum japonês para explicar ao taxista por onde seguir: "masugu", "hidari ni magaté kudasai", "ano... aré migi desu!". Mas, repentinamente, ao chegarmos a Omoté-Sandô, já não estávamos na Aoyama-dori: íamos pela avenida de Roma fora, já perto da praça de Londres, em Lisboa! O bom do motorista entra em pânico, vendo todos os carros a circular pela direita e só ele pela esquerda. E eu mergulho em angústia quando, por detrás da igreja de S. João de Deus, o táxi pára num beco que termina numa capoeira. O sonho acaba comigo, interdito, imóvel, a ver o motorista pegar num saco de grãos de milho e ir lançá-los às galinhas, cacarejando como elas. Ocorreu-me Pascal: "Je ne sais qui m’a mis au monde, ni ce que c’est que le monde, ni que moi-même; je suis dans une ignorance terrible de toutes choses; je ne sais ce que c´est que mon corps, que mes sens, que mon âme et que cette partie même de moi qui pense ce que je dis, qui fait réflexion sur tout et sur elle-même, et ne se connaît non plus que tout le reste"...  Jean Guitton cita este texto para afirmar, numa nota biográfica introdutória a uma edição das "Pensées" de Pascal: "Toda a vida dele é uma tentativa desesperada, até à morte, para tentar compreender". O facto de sofrer de um mal congénito - que recorrentemente lhe trazia tremuras e perturbações intestinais e, quando criança, fobias histéricas (à água ou à aproximação dos pais um do outro) tê-lo-á empurrado para esse desespero de querer tudo entender... É curioso observar como Pascal, desde pequeno, se interessou pela geometria e pela aritmética, pela física e pela matemática. Deixou-nos ensaios sobre os corpos cónicos, o triângulo aritmético, o vácuo, o equilíbrio dos licores ou a gravidade da massa do ar. Foi considerado, por Leibniz, "um dos melhores espíritos do século". A investigação científica, que nunca abandonou, não o desviou, todavia, do recurso ao que estimava serem, pelo percurso da sua conversão religiosa, outros meios de acesso ao conhecimento. 


Daí a sua crítica de Descartes: "Não posso perdoar a Descartes: ele bem quisera, em toda a sua filosofia, poder passar sem Deus; mas não conseguiu impedir-se de O levar a dar um piparote para pôr o mundo em movimento; desde então, já não sabe o que fazer de Deus...  A ciência das coisas exteriores não me consolará da ignorância da moral no tempo da aflição; mas a ciência dos costumes consolar-me-á sempre da ignorância das ciências exteriores". Pessoalmente, penso que Pascal esteve mais perto dos jansenistas, afetivamente - até porque a sua irmã Jacqueline, que lhe era tão querida, professara em Port-Royal - do que, teologicamente, do jansenismo. Mas é inegável que "pensassente", na tradição de Sto. Agostinho, de modo próximo do flamengo Jansenius, bispo de Ypres, no seu "Augustinus". A conversão do homem, escravizado pelo prazer, corrompido pela concupiscência, só é possível pela graça agente de Deus que, sem destruir o livre arbítrio humano, não o submete necessariamente. Conhecida por "tese da graça eficaz", opõe-se à "tese da graça suficiente", defendida, na esteira de Molina, pelos jesuítas coevos de Pascal, que afirma a ineficácia da graça sem participação do livre arbítrio. Deixemos a teólogos escolásticos as argumentações de diferenças e oposições. Creio que, em Pascal, a religião é sobretudo um exercício de abertura mística à operação da Graça. Pois que, "se não nos devemos admirar por ver pessoas simples acreditarem sem raciocinarem", também é verdade que "a maior das verdades cristãs é o amor da verdade". São aparentemente muitos os paradoxos em Pascal. Mas são os nossos, os da nossa condição. Os "Pensamentos" são uma obra incompleta, até desligada: Pascal ia-os anotando em folhas de papel, riscava depois uns, corrigia outros...ou, ainda, cortava as folhas em tiras, para separar ideias, e perfurava-as depois, de modo a poder arquivá-las diferentemente ligadas por um cordel. Numa dessas seleções, reunida sob o título "divertimento", escreve: "A nossa natureza está no movimento; o inteiro repouso é a morte... Condição do homem: inconstância, aborrecimento, inquietação... Se o homem fosse feliz, sê-lo-ia tanto mais quanto fosse menos divertido, como os santos e Deus... A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e todavia é a maior das nossas misérias. Porque é o que nos impede principalmente de pensar em nós, e o que insensivelmente nos perde. Sem isso estaríamos no aborrecimento, e esse aborrecimento empurrar-nos-ia a procurar um meio mais sólido para sair dele. Mas o divertimento agrada-nos e faz-nos chegar insensivelmente à morte.” Este homem, filho da nobreza de toga - não histórica, mas de ciência e cargos remunerados - fez amigos em meios muito diversos, desde a alta nobreza aos intelectuais, dos boémios aos religiosos confessos. Morreu aos trinta e nove anos, deixando obra: para além dos ensaios científicos e dos "Pensamentos", muito disto só postumamente publicado, escreveu em colaboração, ou redigiu a maior parte dos textos que compõem os "Écrits des Curés de Paris" e a "Lettre d’un avocat au Parlement à un de ses amis", que, aliás, dão continuidade às suas "Provinciales", nas polémicas com os jesuítas. As cartas ao provincial dos jesuítas,"Les Provinciales", são assinadas por Louis de Montalgue que, alhures, o próprio Pascal trata como outra pessoa, tal como fará com Amos Detonville que, relativamente aos seus trabalhos matemáticos para o "concours de la roulette, que ele abre, assinará a " Lettre à M. de Carcavy"; o mesmo fará com Salomon de Tultie, autor da "Apologie de la réligion chrétienne". Nenhum deles é simplesmente um pseudónimo: Pascal imagina-os e cria-os como personalidades distintas dele mesmo. São heterónimos, são outras pessoas. Recentemente, na sequência daquela antologia que o Adolfo Casais Monteiro publicou no Brasil - e de que te oferecerei um exemplar, que me fora cedido pelo Alberto - fala-se muito, aqui em Portugal, do poeta Fernando Pessoa e dos seus heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis Talvez venha a ser uma das maiores revelações literárias do nosso século...Tenho-me interessado por ele, fascina-me esse tal desespero de uma procura de si. Como em Pascal. Por mim, vou-me hoje contentando com a luz acolhedora de Lisboa, que aqui no jardim ilumina as minhas leituras e a procura de ti, que esta carta é. Afinal, sempre procurei, em mim e na minha relação a ti, um caminho para que te sentisses bem... E o amor talvez seja esse querer bem, um caminho com curvas e alguns enganos, mas que segue procurando. Será isso a fidelidade. Esta, tão funda, que até ti me trouxe, num táxi que apanhei em Tokyo, se perdeu em Lisboa, e acabou por embarcar Pascal e Fernando Pessoa".


Desde que li e traduzi esta carta de Camilo Maria, só ando de táxi! 


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 06.09.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


VAMOS INDO… LEMBRANÇA DE ANNA, SOROR…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Menina de mim:


És pequenina hoje, não digo idade, porque a idade é um passeio que as almas não percorrem. Mas rompeste a escuridão inicial das águas, donde nascemos todos, como o universo. O espírito de Deus pairava sobre as águas, a terra era vazia e vaga e Deus disse: Que a luz seja! E a luz surgiu. E S. João dirá: "No princípio era o Verbo"... Nasces, luz do meu coração, no ano em que abriu os olhos essa Marguerite Antoinette Jeanne Marie Ghislaine, filha de Michel Creenewerck de Crayencour e de Fernande de Cartier de Marchienne, minha parente ainda, ali das bandas de Namur. Conhecem-na hoje por Marguerite Yourcenar. E por esses escritos - "Mémoires d’Hadrien" e "L’Oeuvre au Noir" - que a levarão um dia à fama universal. Mas é de "Anna, Soror..." que te venho falar hoje. "Nascera em Nápoles, em 1575, por detrás das espessas muralhas do forte de Sant´Elmo, de que seu pai era governador..." A novela escrita, abandonada, retomada por Marguerite Yourcenar, conta vidas e mortes várias, de antepassados parentes, mais teus do que meus, dos Crayencour certamente. Mudou-lhes os nomes, as nossas famílias têm hoje, afinal, os apelidos e títulos que as últimas conveniências guardaram, e as memórias guardadas para novas conveniências...se vierem!  "Anna Soror..." é uma meditação sobre a linhagem e o incesto, sobre a devoção à paixão de um deus incarnado e o espinho agudo do amor humano, sobre a condição de quem se debate entre um horizonte além e um impulso imediatamente poderoso. De Anna se apodera o ideal indefinido e incerto de Séneca e Platão - que Valentine, a mãe de ambos, Anna e Miguel, lhes lia -  e, ainda, o da entrega religiosa ao ciúme de um cristo crucificado... Tudo o que, no interior das defesas do forte de Sant´Elmo, a faça afastar de si e dos seus desejos. Ela mais não quer, verdadeiramente, do que quedar-se, ali, a forças que lhe dão forma. Quando se descobre e se entrega ao amor do irmão - quando ele mesmo não resiste mais a essa força sem data nem explicação possível, mas que já o empurrou também para a aventura militar em que vai encontrar a morte - Anna sabe que, por muitos anos que viva, já morreu. Marguerite Yourcenar confessa que esse texto, escrito quando tinha apenas 22 anos, é o que menos modificações sofreu, para edição posterior, de todos os que escreveu na juventude. Li algures - ou talvez lhe tenha ouvido dizer - que o amor de Anna e Miguel (Miguel é um nome recorrente no ramo ítalo-espanhol da família dela, como Camilo na nossa) - "entre “Pietàs” desoladas, “Marias-das-Sete-Espadas”, santas “cantando pela boca das suas feridas”, no fundo de igrejas sombrias e douradas que são para eles o enquadramento familiar da infância e um supremo asilo"... Marguerite sentiu, na Nápoles "espanhola" do século XVI, profundamente, o contraste entre o sol lúdico da canção livre e a autoridade tão negra dos Filipes da Contra-Reforma. Anna aceitará, depois de ter acompanhado Dom Álvaro, seu pai, no exílio da Flandres - a que o dever de obediência ao rei católico o obrigou - o casamento com um francês flamengo, cujo nome quero esquecer, ao serviço dos Habsburgos de Espanha. A recomendação de sua mãe, na sua hora derradeira, “Quoi qu’il advienne n’arrivez jamais à vous haïr”, determinará a fuga de Miguel para a morte em combate pela cristandade, e a constância de Anna. Diz Marguerite: "A noção social do interdito e a noção cristã da culpa fundiram-se nessa chama que dura toda a vida". Alhures, disse ela que, no exercício da escrita, se lembrara da narrativa bíblica do incesto dos filhos de David, Amnon e Tamar, no 2º livro dos Reis. Naquele tempo, ela lera a Bíblia na versão de S. Jerónimo - ou "vulgata" latina - em que os dois livros de Samuel, mais os dois dos Reis, se incorporavam no conjunto chamado dos Reis ou dos Reinos. Essa história é narrada no 2º de Samuel, nas edições de hoje. Pessoalmente, acho-a curiosa: não me parece que haja nela uma intenção de apontar o incesto fraterno, mas, claramente, uma condenação da violação. O livro do Levítico, que costumo chamar livro dos interditos, até pela literalidade de tantos tabus e proibições que ainda hoje tentam impor rabinos judeus e imãs muçulmanos  -  para não falarmos de "mensageiros católicos" que não terão meditado o evangelho - inclui o incesto nos crimes contra a família merecedores de castigos radicais. O Deuterenómio insistirá nas normas reguladoras das relações sexuais no seu contexto familiar e social. Recordo que, num qualquer dia em que falávamos de Donnizetti e da sua ópera "Dom Sébastien, Roi de Portugal", a última do compositor, o Alberto me disse que o desgraçado rei concentrara em si mazelas e fraquezas, por força da consanguinidade de casamentos endogâmicos: tivera pai e mãe, como todos nós, e quatro avós, mas também só quatro bisavós. Melhor teria sido se fossem, estes, oito... No relato bíblico do 2º livro de Samuel, o rei David, "quando soube daquela história, irritou-se muito, mas não quis penalizar o seu filho Amnon, porque era o seu primogénito. Quanto a Absalão (irmão de Amnon e Tamar), esse não falou mais com Amnon, pela violência que infligira à sua irmã"... Quando, antes do estupro, Amnon, pela manha aconselhada por Yononadab, sobrinho de David, alcançou o momento oportuno para dizer a Tamar “Vem! Deita-te comigo, minha irmã!”, ela respondeu-lhe: “Não, meu irmão, não me violentes, porque não é assim que se age em Israel, não cometas essa infâmia!. Para onde irei eu com a minha vergonha? E tu serias um infame em Israel! Agora, fala com o rei: ele não recusará dar-me a ti. “Mas ele não quis ouvi-la, dominou-a e, com violência, deitou-se com ela." Há aqui uma exceção ao interdito do incesto. Ao longo da História e, transversalmente, por civilizações e culturas, encontramos interdições e revogações (ou, melhor, derrogações) delas.  O casamento endogâmico até de papas católicos recebeu bênçãos, ainda que com algum cuidado na ponderação dos graus de parentesco, não fosse a necessidade política ofender demais o que seria o "direito natural"... Entre os egípcios antigos, foram frequentes as uniões de faraós de sucessivas dinastias com suas irmãs. Todos conhecemos, já no período helenístico do Egipto, o matrimónio da do "nariz que mandou na história", Cleópatra VI, com seu irmão Ptolomeu XIII. Não deu grande resultado. Tudo isto me conduz à etnologia, à demanda antropológica de Claude Lévi-Strauss, no seu "Les Structures élémentaires de la parenté", sobretudo a essa interrogação da fronteira entre a Natureza e a Cultura: "O carácter primitivo e irredutível da definição do parentesco resulta imediatamente da existência universal da proibição do incesto...  ...Um sistema de parentesco não consiste nos laços objetivos de filiação ou consanguinidade entre os indivíduos; não existe senão na consciência dos homens; é um sistema arbitrário de representações, e não o desenvolvimento espontâneo de uma situação de facto"... Penso, cada vez mais profundamente, que a abordagem da cultura, ou das culturas vigentes, em que as pessoas vivem, é a achega necessária - aos homens de boa vontade e à Igreja - para uma compreensão adequada de muitas interrogações, reclamações e manifestações geradoras de conflitos e clivagens sociais, que por aí cada vez mais se veem. A transumância do homem é a cultura..." Mas foi, ou não foi? Jesus que disse que não é impuro o que no homem entra, mas o que dele sai?"

A tradução de cartas do Marquês de Sarolea à Princesa... dele!... vai-me entretendo. Para bem, espero.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 03.09.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


UM DOM MUITO PURO…
por Camilo Martins de Oliveira


Alteza Altíssima:


Estou novamente em Paris, conto desta vez com a companhia do Alberto, que veio a negócios. Gosto dele, da sua grande alegria de viver, como dessa melancolia tão portuguesa que sempre me lembra o cair da tarde em dias sem vento, no fim do Verão. Falei-lhe de ti, de como me habitas o coração, com a insistência que tão bem diz esse verso do Rilke: "Wie soll Ich meine Seele halten dass Sie nicht an deine rührt?"E ele logo veio com um sentimento português: "Saudade...sabes o que é a saudade? Escuta:" Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe... ...Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, pela ventura, a que me fez ser leda. Mas depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha." Assim escreveu Bernardim Ribeiro, no século XVI. Já no século XIII, reza uma crónica que um frade dominicano, de regresso ao seu convento no alto de Montejunto, se lembrou da água pura que ali o saciara e "sentiu grande soledade daquela água"...É isso a saudade: é estar sozinho de alguém, e a solidão só se sente quando uma presença não nos larga." Sejamos ambos portugueses, pelo tempo deste segredo que te digo: sinto grande saudade de ti, porque me habitas. Pensossinto-te fora do tempo, do lugar e da memória. És. Assim descubro que te amo essencialmente. Não te pensossinto em função da beleza, da idade, do teu modo de ser ou da tua história. Mas tão só pela ternura que me descobriste imensa e me inunda. Para mim és, todos os dias, o amor que desperta, a alegria intensa e inesperada da revelação. "É no invisível que se produz o essencial", disse Jacques Maritain sobre a sua relação com Raïssa, mulher da sua vida, mesmo depois de morta, com quem se casou aos vinte anos e se converteu ao catolicismo. Com quem viveu sempre uma intimidade em que se confundiam, mesmo   - ainda ou talvez mais - depois de se terem feito voto de castidade. Penso muitas vezes neles, quando me lembro de nós e deste amor a que a renúncia dá uma dimensão intangível. Mas tenho pensado nos Maritain, também pela necessidade que senti de algum regresso a S. Tomás de Aquino. Quem os acompanhou na escalada espiritual e intelectual da conversão foi um dominicano, francês e monárquico, o padre Clérissac, que mereceu de Raïssa esta referência tão sentida e tão bonita: "Caiu sobre nós, e recebemo-lo - o Jacques e eu - o olhar estrelado e penetrante de dois olhos profundos, cheios de segredo e de conhecimento, e diante desses olhos nos sentimos totalmente novos e totalmente ignorantes". Todos os dias peço a Deus que refaça em mim essa alegria de me sentir novo por me saber ignorante e querer aprender. Seguindo o conselho do padre Clérissac quando sugeriu a Summa Theologica para aproximação racional dos Maritain à fé que procuravam: "Não andemos mais depressa do que Deus. É da nossa sede e do nosso vazio que Ele precisa, não da nossa plenitude". Curiosamente, é a judia Raïssa que entrará primeiro por S.Tomás: "Esta primeira leitura da Suma Teológica foi para mim um dom muito puro. Recebi, uma vez por todas, a certeza das verdades primeiras acerca da inteligência, e a alegria de ver esta suficientemente forte para conduzir até ao seio da noite estrelada da fé os princípios da razão. Recebia o que podia receber segundo a minha fraca capacidade, mas com plenitude. Os problemas tinham desaparecido - como acontece no tempo da felicidade - para reaparecerem mais tarde. Mas mais tarde não me caberia, a mim, aplicar-me, mas ao Jacques, filósofo por vocação...Recordo o meu primeiro encontro com o casal e Vera, a irmã de Raïssa, que compunha aquela comunidade monástico-familiar a três. Tinha eu vinte e poucos anos, e embasbacava perante aquela gente cheia de rigor tomista e misticismo religioso, mas que acompanhava Satie e Stravinsky, Diaghilev e Rouault, e era amiga de Cocteau e Chagal. Voltei a vê-los, quase trinta anos depois, já Jacques Maritain terminara a sua missão de embaixador de França junto da Santa Sé, em Paris, precisamente com o Stravinsky e o Cocteau, por ocasião dum Oedipus Rex no Théâtre des Champs Élysées. A Raïssa, como sabes, era de origem russa, Oumançoff era o seu apelido de solteira. Quando, muito novinha ainda, iniciara os seus estudos em Mariopol, junto ao Mar Negro, interessou-se muito pela literatura russa. Foi ela quem, pela primeira vez, me falou de Pushkin. E, por ser melómana, me referiu as óperas russas cujos libretos se inspiraram em obras do grande poeta, aliás com os mesmos títulos: "A Dama de Espadas" e "Eugénio Oneguin" de Tchaikovsky, "Boris Goudonov" de Mussorgsky. Através de conhecidos do Alberto, pudémos assistir a ensaios desta, na Salle Wagram, sob a direção de André Cluytens, com o Boris Christoff e o coro dos seus compatriotas búlgaros da Ópera Nacional de Sofia. Como sabes, esta ópera tem seis versões musicais: duas do próprio compositor, duas do Rimsky-Korsakoff, uma do Shostakovitch e ainda outra arranjada por dois americanos para o MET. Ouvimos a segunda versão do Rimsky, que é a mais repetida. Voltei a lembrar-me de Shakespeare - que Pushkin muito admirava - não só pelo modo de composição do drama em sucessivos quadros (ou cenas) como em "Macbeth", mas pela história contada que, mesmo com fundamento na "História do Império Russo" de Nikolai Karamzin, é muito semelhante à de "King Richard the Third" do dramaturgo inglês. Lembras-te de termos assistido, em Londres, a um inesquecível Ricardo III pelo Lawrence Oliver? Claro que te lembras, porque é mesmo inesquecível! Deixo-te esse monólogo do rei que vai morrer: "What do I fear? Myself? There´s none else by. / Richard loves Richard; that is, I am I. / Is there a murderer here? No - yes, I am. Then fly. What, from myself? Great reason why - / Lest I revenge. What, myself upon myself!”. Continuo, mas traduzindo, sem cuidados de rimas, métricas ou tónicas. Só pela força do texto, porque, fraco embora, sei que a maravilha do espírito é não ter dono. "Com pena me amo. Por que razão? Por algum bem que eu mesmo a mim me tenha feito? Ai, não! Infelizmente, antes mais me detesto pelos odiosos feitos que eu mesmo cometi! Sou um vilão; e ainda minto, não sou. Tolo, de ti falas bem. Tolo, não te vanglories. A minha consciência tinha milhares de línguas diversas, e cada língua em si traz ditos diferentes, e cada dito me condena como vilão. Perjúrio, perjúrio ao mais alto grau; assassínio, impiedoso assassínio, ao nível mais sujo; todos pecado, todos a cada passo cometidos, juntos na barreira, todos gritando "Culpado! culpado! Desespero. Nenhuma criatura me ama; e se morrer nenhuma alma terá piedade de mim: e porque haveriam de ter, já que eu mesmo em mim não tenho piedade para mim?". Boris Goudonov, no fim, ainda suplica perdão... Talvez por virtude desse cristianismo ortodoxo que tanto acredita na intercessão do povo fiel, dos monges, dos santos e dos anjos. Aqui tens, minha Renúncia de mim, nascida, como Vénus, deusa do amor, do mar de contradições e paradoxos da vida, a diferença entre tormento e sofrimento: tormento é tormenta, tempestade, revolução, morte, incomunicabilidade; o sofrimento é paixão e compaixão, aceita-se como semente que germina. Aqui, no Georges V, fazem-me sempre o favor de instalarem um gira-discos no meu quarto. Talvez adormeça, mas vou ouvindo a "Paixão segundo S. Mateus" de Bach. Sei que dormirei em paz, porque, no fundo do meu coração, sempre trémulo e fiel, ficarei escutando esse paradoxo inicial da nossa condição humana. E que Deus nos veja, pois mais não posso."  Confesso que hesitei em publicar esta carta de Camilo Maria. Outras tenho traduzidas, e também não sei...


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 30.08.13 neste blogue. 

ANTOLOGIA

  


AINDA VERDI…
por Camilo Martins de Oliveira 


"Rigoletto", uma das óperas mais cantadas em todo o mundo, situa-se cronologicamente a pouco mais do meio das compostas por Verdi (é 16ª em 27), imediatamente antes de "Il Trovatore" e de "La Traviata", ambas terminadas dois anos depois, em 1853. Na "Rigoletto" está quase todo Verdi, é como o ponto sublime das invenções já anteriormente anunciadas e, simultaneamente, o anúncio do que está para vir. Não é já só uma sucessão de cenas, pois toda a expressão dramática se traduz em música que, mesmo quando só orquestral, é também narrativa. O libreto, como sabes, foi retirado pelo Francesco Maria Piave (que também escreveu os de "Macbeth" e de "Ernâni", e o de "La Traviata" e mais outros seis) de um drama de Victor Hugo: "Le roi s’amuse" que, levado à cena vinte anos antes, em Paris, só teve uma representação, por intervenção da polícia, e esperou cinquenta anos para voltar ao teatro. Conta a história do abuso, pelo rei Francisco I de França, da filha do seu bobo Triboulet (em italiano, Triboletto e, mais tarde, Rigoletto - inspirado pelo francês "rigoler" ou divertir-se à custa de...). Também a censura austríaca se opôs à estreia da ópera, com a mesma história, no La Fenice, em Veneza. Após negociações várias, Piave e Verdi conseguiram a necessária autorização, mediante a mudança do título inscrito no libreto ("La Maledizione") para "Rigoletto" e, sobretudo, a mudança dos nomes das personagens e do local do drama: ficou-se em Mântua, com um duque local, inventado. No mesmo teatro foram estreadas outras óperas de Verdi com libreto de Piave, entre elas "La Traviata" e "Ernâni", esta também inspirada numa peça de Victor Hugo: "Hernani". Ao grande francês foi, pois, o compositor do "risorgimento" buscar dois temas, tal como três a Shakespeare ("Macbeth", ainda por Piave, "Othello" e "Falstaff", ambas por Arrigo Boito). É interessante observá-lo, quando sabemos que o bardo inglês do séc.XVI/XVII era o dramaturgo preferido de Hugo como de Verdi. Pessoalmente, senti sopros shakespeareanos no "Rigoletto". Não do ator-autor teatral que, em tantas das suas obras e atuações, procurou superar com bom humor e até alguma bonomia, o clima de suspeições e desconfianças que, na Inglaterra elizabeteana, envenenava as relações entre pessoas e grupos, anglicanos, papistas, puritanos...e alimentava tensões, conspirações e conflitos, aliás com alguma tradição, por esta ou aquela razão, no reino insular. Mas senti o Shakespeare do início do século XVII, o que perde o pai e é traído no amor, e sofre o fracasso dos condes de Essex e de Southhampton: patronos do bardo, o primeiro seria executado por Isabel I, o segundo encarcerado na Torre de Londres, de onde seria libertado por Jaime I, depois da morte da Rainha-Virgem. São anos em que William Shakespeare escreve em empatia com o gosto popular pelo drama sórdido, pela violência horrível que pesa sobre os homens como uma inevitabilidade, um castigo, ou, simplesmente, pela expressão do maligno que lhes habita o coração: Hamlet, Othello, Lear, Macbeth serão, entre 1602 e 1607, os heróis dessa desumanidade ou da tragédia dos homens que se acham esquecidos de Deus... Rigoletto, feio bobo, disforme e sarcástico, é criatura de Hugo, não de William. Mas recebe deste a fé na maldição, pois quem nasceu malfeito, ridículo e repugnante, tem de ser maldito e amaldiçoar o bem dos outros e regozijar-se com o mal deles: assim, é o ódio à beleza que ele não tem que o leva a detestar o duque e a corte, sem distinção alguma, nem sequer compaixão pelos condes de Monterone e de Ceprano, cujas filha e mulher soçobraram à luxúria cúpida do duque de Mântua. E que o impele a negociar com um bandido o assassinato do duque, que lhe seduziu a filha: Gilda que, por misteriosa fidelidade ao sedutor que a enganou e abandona, em segredo o substituirá no sacrifício a que o pai dela o condenara. É-me difícil compreender tal entrega de si em tão sinistro contexto: só no grito final de Rigoletto -  "Ah! la maledizione!" -  talvez... Mas é belo, como oásis no deserto  -  ou esse raro brilho dos teus olhos, que tão bem conheço  -  o dueto entre pai e filha que te referi no início desta carta, quando Rigoletto, temendo o mal que paira sobre Gilda, canta que a Deus pedira que sobre si só caísse a maldição, e à filha pede que lhe chore em cima do coração: "piangi, fanciulla, piangi"... É o grande momento de grandeza humana  -  quase divina  -  da ópera, em que o bobo se transfigura em pai, por um impulso de sentida generosidade e compaixão. Nesse instante, Gilda deixa de ser um objeto de paixão possessiva, de que ele ciosamente se apropria, e transforma-se também - ao ponto de reconhecer no pai um anjo consolador - em ser humano desamparado que só o carinho de outro conforta. Antes, já o mentiroso duque declarara à menina reclusa que "il Dio d´amore stringeva tuo fato al mio!" O teu fado e o meu, inseparavelmente, ligados pelo Deus do amor. "É il sol dell’anima, la vita é amore, sua voce é il palpito del nostro core..." Ocorreu-me aí o tema de "La Traviata": "L’amor é palpito del universo intero...". Com as mesmas palavras se dizem, até em música, palpitações diferentes. As palavras, como os gestos e as obras dos homens, em qualquer caso, são sempre artifício. É próprio da natureza do homem comunicar com as coisas todas, e com os outros, por artifício. A "fábrica" que cada um de nós é transforma tudo aquilo em que toca. E por muito rigorosas que sejam as regras impostas ao nosso comportamento - e por muito convencionais que possamos parecer - a verdade de cada um, só os olhos de Deus a vê no fundo dos corações. O "palpito" do coração do duque de Mântua vai mudando de velocidade e estímulo consoante "la donna é mobile: qual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero...".  O bater dos corações de Violetta e Alfredo acompanha o ritmo íntimo e misterioso do universo sem fim, para lá do visível, do imediato, do possuível. Na cena final de "La Traviata", a morte dela levanta-se como ressurreição. Olha, Princesa, lembra-me esse verso do Ungaretti: "M´illumino d’inmenso...". Camilo Maria voltou várias vezes a Milão e ao Scalla. Quase dez anos deste "Rigoletto", passara por Lisboa e levou-me a S. Carlos, a uma inesquecível "La Traviata", com a Maria Callas e o Alfredo Kraus, dirigida pelo Claudio Scimone. Escreveu sobre isso à Princesa. Guardo essa carta para mim.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 27.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


TENHO RECEBIDO CARTAS, TELEFONEMAS, MENSAGENS.
por Camilo Martins de Oliveira


Tenho recebido - com frequência bem maior do que a minha capacidade de resposta - cartas, telefonemas, mensagens, em simpatia ou empatia com o desenrolar da relação entre o Marquês de Sarolea e a sua Princesa... Algumas até me lembram o Conan Doyle, que tantas recebeu a pedir-lhe que ressuscitasse o Sherlock. Mas, na verdade, eu nada posso fazer para dar outro rumo a duas vidas que encontraram, que se aconteceram - uma à outra, em vicissitudes várias - e já estão do outro lado: Camilo Maria morreu em 1979, a Princesa dele em 1994. Eu cá estou, depositário de uma correspondência vasta e por muitos anos secreta, de fotografias e outras recordações deixadas ao meu arbítrio, para publicação (ou não). Para além de poder ordená-las por qualquer critério, mesmo sem respeitar a cronologia, ou amputá-las sem lhes retirar o sentido, não tenho sobre elas qualquer direito. Contrariamente ao que pensam alguns leitores - que se acham mais perspicazes - nas traduções seletivas que vou fazendo, não posso mudar destinos nem transpor fronteiras de discrição. Ocorre-me, pelo atalho destas observações, uma carta de Camilo Maria à sua inesquecível Princesa: "Assisti hoje, aqui na UNESCO, a uma conferência do Emmanuel Mounier, intitulada "Pour un temps d´Apocalipse". A certo passo, disse: "Se o homem foi feito para se tornar num deus, natural ou sobrenaturalmente, não se pode aceitar que a sageza seja para ele uma conformidade prudente e monótona a uma natureza definida de uma vez para sempre... O homem assim posto no seu lugar é essencialmente "artifex", criador de formas, feitor de artifício... Os cavaleiros andantes da natureza têm razão ao lembrar que a condição humana não se estica em todas as direções, e que é necessário tempo para que a humanidade se assimile as suas próprias deformações. Mas o descrédito sistemático que lançam sobre o artificial parte de uma visão radicalmente falseada do que é mesmo próprio do homem. Podemos dizer, sem forçar muito as palavras, que a natureza do homem é o artifício". Este conceito de que "la nature de l’homme c’est l’artifice" insere-se na procura de um humanismo cristão que dê sentido à "civilização do trabalho". Pode perspetivar-se pela filosofia da natureza e a antropologia de Aristóteles que, por via de Averroes, entrou no pensamento da cristandade com S.Tomás de Aquino. Ou, ainda, pela história que vai revelando o homem na natureza e na sociedade. Na natureza, da qual se vai escapando sem nunca lhe fugir; na sociedade, na qual se vai refugiando, porque nela, primeiro, com ela se defende da natureza e vai, depois, procurando a harmonia possível. O "homo artifex" é, afinal,a síntese do "homo faber" com o "homo sapiens". Ou seja: é a expressão natural da criatura que em si reúne corpo e espírito, evolução e consciência dela. Mas o homem é, ontologicamente, um ser em relação: com a natureza e com a transcendência, mesmo quando esta surge indefinida; com os outros homens, como é sempre evidente. O "homo oeconomicus" tece-se nessa rede complexa de relações sociais, que historicamente vão evoluindo. A afirmação de Karl Marx, retomada no prefácio a "Das Kapital", de que "o desenvolvimento da formação económica da sociedade é assimilável à marcha da natureza e da sua história" é verificável. E, como observará o Padre Chenu, é na tragédia contemporânea do homem escravo do seu trabalho que Marx teve a revelação do "homo oeconomicus" ...  homem que se aliena no seu trabalho. Todavia, o trabalho, ainda que sendo natureza sua, não é a essência do homem, pelo que, contrariamente à profecia de Marx, não será a sua apropriação pelo proletariado a pôr um ponto final na história. Como diz Pio XII: "Acima da distinção entre patrões e empregados, que, cada vez mais, ameaça tornar-se numa separação inexorável, está o trabalho, ele mesmo, capaz, em virtude da sua própria natureza, de verdadeira e intimamente unir os homens..." É necessário valorizar o trabalho, porque valoriza as pessoas. Pelo trabalho transforma o homem a natureza e, nesta, o natural do homem é ser artífice. Na sua etimologia latina encontramos um substantivo (feminino!): "ars, artis" que tando significa arte como ofício, indústria, artifício, expediente, obra, produto, talento... Transformação, afinal, não será? Relembrando São Máximo: "O homem é uma oficina viva, em permanente continuidade de ação em todos os seres". União substancial de corpo e alma, o ser humano, para os cristãos, funciona na natureza como a roda da dialética desta com a graça de Deus que a criou e transforma até à plenitude dos tempos. Por isso, no dever e na prática e no fruto do trabalho, a todos deve ser reconhecida a mesma dignidade. Releio o que acima escrevi e percebo que, por vezes, as visitas que te faço – mesmo as epistolares – possam ser pesadotas e parecer pretensiosas. Antes serão parte de mim. Se eu fosse o inspetor Maigret - e casado contigo, não com Madame Maigret - chegaria a casa, calçaria as pantufas e, servindo-me de um "apéro", acenderia o cachimbo... Ficaria a ruminar os meus enigmas, ali, na casa de jantar... Falar-te-ia de quê? Não consigo sequer imaginar, estarias atarefada na cozinha, se te ocorresse uma lembrança, um recado, virias, pé ante pé, cúmplice e mansa, pousar silenciosamente um papel rabiscado no tampo da mesa. Apesar de tudo, mesmo quando me tratas de "convencido", sempre sou mais comunicativo. E nunca escondo a misteriosa ternura em que te abrigo... Mas, muito embora procure para ti o modo e as palavras que te digam esta ternura toda com que me enches a alma, é sem artifício algum que te amo muito e tanto, tanto, te quero bem. Mais, bem mais, do que sou capaz. Muitas vezes se me afigurou fácil a solução de me afastar de ti, pelo que de mim não queres. Não posso, não consigo, é mais natural em mim este encanto amoroso, que me faz sofrer, do que o artifício da fuga que talvez me libertasse. Penso que me mantém mentalmente saudável este jeito que tenho de lidar com o paradoxo: aceitar-te, aceitar-me, e à nossa circunstância... Ofereceu-me o Alberto um livro de poesia em português: "Desaparecido" de Carlos Queirós. No "Apelo à Poesia" ele diz algo que eu te diria, a ti, quando interrompes uma das tuas ausências ou silêncios e sabes que vens ao meu coração entrar pela porta aberta da ternura: "É verdade que vens, como se fosses / uma parte de mim que vive longe, / presa ao meu coração / por um elo invisível; / mas não regresses mais sem que eu te chame, / - não sejas como a saudade!". Quase, quase, vinte anos depois, Sarolea escrevia, de Milão, em julho, à sua impossível Princesa: "Estive esta noite no Teatro alla Scala. Pasmando para um "Rigoletto", dirigido pelo Kubelik, cantado,"ladies first", pela Renata Scotto e a Fiorenza Cossotto, e admiravelmente pelo Fischer-Dieskau e o Carlo Bergonzi. Verdi é "vero Verdi", ópera é obra! Não me larga o ouvido aquele dueto do Rigoletto com a Gilda: "Ah! solo per me l’infamia a te chiedeva, o Dio... Pudesse ela subir tanto quanto eu caí!... Piangi, fanciulla piangi, chora menina, chora, deixa o teu pranto escorrer pelo meu coração!  "Mas essa carta...deixo-a para outro dia!  


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 23.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


DE PROFUNDIS…
por Camilo Martins de Oliveira 


"Minha Princesa de mim:

Não te tenho escrito, talvez por mágoa. Nada tenho contra ti, nem nunca terei. Mas sofro a dor do teu silêncio cruel, porque voluntário e premeditado. Diabolizas-me, tornas-me personificação do mal, mas deverás saber, no fundo mais sólido do teu coração, que jamais desejei o menor mal fosse a quem fosse. Quero bem a todos, a começar pelo bem da luz que nos liberta das trevas - a tal que levou o homem primitivo a adorar o sol e inventar o fogo em que se guardaria da noite. Não pretendo ter razão, falo, discuto, debato, com a gana de um troglodita que esfregava pedras para criar faísca. Pensarmos é o nosso modo obrigatório de termos consciência no tempo mutante. E é sempre, também, o início da comunicação, da comunhão com os outros. O diálogo é pensamento expresso e silêncio expectante do pensamento do outro. E por aí fora. Aliás, a própria mística é o pensamento que procura escutar Deus. Em silêncio. Eis o que os apologetas apressados, os falsos pregadores, não entendem: o silêncio como escuta. Tal como os desconfiados, muitas vezes, preferem calar-se. Hoje, aliviado momentaneamente das dores que me limitam o movimento físico, fui buscar, às prateleiras altas destas estantes cheias de livros e pó, uns álbuns de fotografias antigas que a tua irmã carinhosamente guardava. Entre elas, achei várias da "divina condessa" - tão parecida com ela, fisicamente. Virão as parecenças do ramo florentino da família, os Lamporecchi, mas entre a nossa G. e a Virginia Oldoini, condessa de Castiglione, não há outra semelhança. A G. poderia ser enérgica, impositiva, autoritária até, mas era esquecida de si, procurava o serviço dos outros e não olhava para o espelho. A condessa era narcisa. Foi muito bela, desde muito cedo soube que o era, muito tarde se deu conta de que a beleza física é um episódio. Tinha 41 anos quando, vivendo então em Paris, se encerrou num apartamento na Place Vendôme, protegido do exterior por três portas de entrada, e no interior pintado muito de preto, sem espelhos nem vidros refletores. Até então, tivera inúmeros amantes, pelo gosto inato de exercer o poder da sua sedução. Um deles foi Napoleão III, diz-se que por ter sido enviada por outro dos nossos Camillo, o Cavour, primeiro-ministro de Vittorio Emanuele, rei do Piemonte, para aliciar o imperador dos franceses para a causa do "risorgimento" de Itália contra os Habsburgos... Teria então 19 anos, estava casada havia dois, era mãe de Giorgio, com um. As fotografias que a tua irmã guardou mostram-na, sempre em estúdio, ou quase sempre, personificando heroínas e mitos, com uma presença e uma intensidade dramática que me lembrou a Callas, de que tanto gosto. Poderá ser mais bela e pura e certa a voz da Renata Tebaldi, mas a Callas tem... esse não-sei-quê, que mexe connosco! A nossa "divina condessa" - assim a conheciam admiradores e amantes - para mim, de divino pouco tinha, de condessa o título do marido atraiçoadíssimo que a adorava, de marquesa o título dos pais, quando menina. Não será pessoa de que uma família conservadora e católica se possa orgulhar muito... Não é, de modo algum, o "meu género". E, todavia, ao olhar para estas fotografias, com as loucuras que as habitam, não é a superficialidade de quem andou nas bocas do mundo, por ser mulher fatal nos braços de muitos, que mais me impressiona. O que, afinal, me atrai, ao ponto de chegar a ferir-me, é a solidão quase inimaginável, para mim, pelo menos, de uma mulher que se pensou como não era, de um ser humano que procurou, quiçá, um encontro em tantos desencontros. Ou de quem sonhou com a satisfação impossível do amor pela conquista, pela sedução ou pelo engano... Ou ainda, talvez, que sei eu disto?, de quem, mesmo nos dias tardios da vida, não se deixou vulnerabilizar, e se quedou fechada. No caso de Virgínia Oldoini, num apartamento oposto ao olhar dos outros por três portas, e ao seu próprio olhar por negras paredes e ausentes espelhos. Lembra-me o inferno, o supremo castigo da incomunicabilidade. Ela morreu um ano antes de eu ter nascido. Há mais de 70 anos. Pouco me falaram dela, talvez por ser conversa aconselhavelmente evitável. Entrou hoje no sossego quase monástico do meu gabinete de trabalho. E, mesmo tão diferente de mim - ou tão longe do que eu sinta como gosto meu - sentou-se, altiva, hermética, à lareira do meu coração. E, por um qualquer milagre - como outros que me surpreenderam e comoveram na vida - vi-lhe uma lágrima escorrendo pela face até ao sorriso súbito e breve. Talvez se salve. Que sabemos nós da misericórdia de Deus?". Sou herdeiro e depositário desse álbum. E da misteriosa comoção de Camilo Maria.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 20.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA


RETOMANDO O FIO DE ARIANA…
por Camilo Martins de Oliveira


"Meu Marquês de quem...


De quem não sei. Talvez de mim, ou de mim também. Dás-te, deste-te, eu sei-o bem e sinto-o muito. Há em ti essa força misteriosa, uma ternura imensa que não se explica, uma fidelidade de anos, um carinho atento a cada momento da minha vida. Mas há também o universo do teu ser, e uma afirmação de ti em tudo. Muitas vezes repetiste esse dito do nosso Alberto: "Prefiro perder um "bom" amigo a uma boa piada!" E explicavas: "se o amigo for mesmo bom, saberá sempre apreciar a boa piada..." Tenho este problema contigo: aceito mal que alguém se esqueça da minha sensibilidade a certos temas... Que te custa a ti aceitar-me sensivelmente diferente? Custa-te assim tanto perceber que o que afirmas do "alto da tua cátedra" me pode ofender ou ferir, mesmo que não seja eu visada? Será assim tão difícil, para ti, compreenderes as minhas hesitações entre o amor maior que te tenho e as fidelidades a escrúpulos ou considerações pessoais que também são minhas? Sou mulher, não te esqueças, e habituei-me a viver as coisas nas tarefas quotidianas, no horizonte que os gestos de cada dia vão abrindo. Encontrei em ti um sonho e, contigo, uma misteriosa intimidade. Não foi, nem é quimera. É simultaneamente uma alegria imensa, etérea e rica, e um peso duro, grave e sóbrio. Ao dizer isto, dão-me ganas de apagar o que escrevi agora, porque pensossinto (como dizes) que tu mesmo o poderias dizer de igual maneira. Sei que o dirias. E não quero! Ou talvez queira, não sei. Estendi-te um dia a minha mão vazia...e fiquei com ela cheia da tua! Até à morte. Serei para ti a Violaine de "L'Annonce faite à Marie", virgem desde e para sempre. Mas poderia ser outra mulher qualquer: sei que, no teu coração, há uma lareira para mim e, apesar de não seres lusitano, "dois braços à minha espera", como na casa portuguesa da Amália Rodrigues. Talvez por isso, pelo gosto do teu acolhimento, eu te perdoe tanto: as tuas irritações, que não são contra mim mas me magoam, o teu desprezo aristocrático pela insanidade do mundo. Terás muitas vezes razão, mas não consigo dizer-te que a reconheço. Sou mulher e quero paz. Quero esse repouso que as mães querem sentir quando um menino cresce no seu seio... Como te quis e te quero ainda tanto: não como coisa minha - tu nunca serás de ninguém - mas como o amigo fidelíssimo que, por divino ou humano capricho, Deus me deu. Vês? Digo divino ou humano, porque uma mulher nem sempre diferencia um do outro: estamos na origem da vida, com um mistério que é só sensivelmente nosso. Tens ainda muito a aprender, Camilo Maria, se calhar, até coisas que me ensinaste - ou que aprendi contigo - mas que terás de ver por outro prisma. Eu sei que as tuas perspetivas são sempre caleidoscópicas. Talvez por isso tenhas tanta dificuldade em te fixares numa. Gostei e gosto dessa variedade de olhares. E quando os partilhei contigo, é verdade que, para mim, enriqueceste o mundo. Mas serás tu capaz de calçar umas pantufas mentais, de te sentares comigo à lareira do coração, e de procurares, seguindo o meu, projetar o teu olhar por outro lado? Camilito, serás capaz, sequer, de perceber o que te digo agora? Ao fazer-te esta pergunta, já respondi: acho que sim, que és capaz de tudo. És como comida ao lume: enquanto se cozinha há que estar atento, não vá ferver demais. Se soubesse a que temperatura ferves, tinha-me casado contigo. Ou talvez estejamos já casados. Não sei. E assim me despeço: contigo, nunca sei nada. Ou saberei tudo: todas as manhãs sinto o meu coração maior, pela imensa ternura que, por ti, o alarga tanto. E sei que, deste ou do outro lado do mundo, há uma fidelidade amiga e íntima que responde há minha. Hesito entre o desejo furioso de te dar uma sova desmedida e o gesto manso de te dar a paz. Fica em paz." Este bilhete da Princesa de... é dos poucos que o Marquês de Sarolea guardou. Por isso me pareceu que poderia traduzi-lo e publicá-lo. Não sei se faço bem. Pessoalmente, sempre tive alguma dificuldade em perceber as mulheres. Pretendem ter - e talvez tenham - razão em tudo.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 16.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


SIC TRANSIT GLORIA MUNDI…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim: 


Prolongo esta estadia em Viena, "noblesse oblige". Mas também me dá tempo para voltar à ópera, desta vez na Grosses Spielhaus, em Salzburg. Ontem, tive uma "Salomé", do Richard Strauss, dirigida pelo Karajan. Valeu muito mais pela música e pela direção nervosa do maestro do que pela encenação. De certo modo, o Herbert von Karajan parece ser feito para esta "Salomé" que, aliás, dirigiu pela primeira vez há quase meio século, tinha ele 21 anos, e eu poucos mais. Então, como agora, tremi naquele monólogo final da filha de Herodíades, dirigindo-se à cabeça cortada de S. João Baptista: "Ah! Ich habe deinen Mund geküsst, Jochanaan!" Beijei a tua boca e os teus lábios tinham um sabor amargo... Seria o gosto do sangue? Não! Talvez fosse o gosto do amor, dizem que o amor tem um sabor amargo. Hoje, aproveito a minha folga da noite para ficar no quarto do Hotel Sacher a ler as notas do programa e o libreto. E sou recordado do drama de Oscar Wilde que inspirou a trama da ópera, e da sua relação ao poema "Hérodiade" do Mallarmé e ao "À Rebours" do Huysmans, onde se descrevem duas pinturas do Gustave Moreau: uma representando a dança dos sete véus  -  a que Strauss dedica, na partitura, uma suite para orquestra que durará cerca de dez minutos  -  e outra intitulada "L’Apparition", em que a Salomé, vinda do Evangelho de S. Mateus, ganha novas proporções: "Ici, elle était vraiment fille; obedecia ao seu temperamento de mulher ardente e cruel; vivia,mais refinada e mais selvagem, mais execrável e mais delicada; despertava mais energicamente os sentidos em letargia do homem, enfeitiçava, domava com mais segurança as suas vontades, com o seu encanto de grande flor venérea, crescida em solos sacrílegos, cultivada em estufas ímpias". E Oscar Wilde, achando demasiado dócil a Salomé das escrituras, dirá que será por isso que os séculos seguintes foram depositando a seus pés sonhos e visões que a convertessem na "cardinal flower of the perverse garden"... Assim me ocorreu a tese do Jean Guitton, de que já te falei, sobre o tema do amor na literatura, a transgressão de Tristão e Isolda divinizada pela tradição romântica ou romanesca. Finalmente, talvez pela evocação de Huysmans ou de Mallarmé (já verás porquê), chego ao Tolstoi de "O que é a arte?", que vou lendo agora. Confesso que é bem possível que este encontro se deva a ti, que me habitas o pensamento e o coração e comigo percorres estas divagações... Foste tu quem me sugeriu esta visita a Tolstoi. Para ele, o apagamento da consciência religiosa e a perda da fé nas classes mais altas da sociedade europeia, em conjugação com a separação entre a arte que lhes dá prazer e a tradição da arte popular, reduziram a emoção estética ou artística a três sentimentos básicos e pobres: orgulho, desejo sexual e tédio da vida. O sentimento do orgulho surge na Renascença, com a arte paga pelos ricos feita em seu próprio louvor e enaltecimento; depois veio a exaltação da carne como motor da produção artística e literária; finalmente, o cansaço de tudo isso, o tédio de viver. E nessa viragem do século XIX para o XX - em que, quiçá?, as filosofias de Nietzsche e Schopenhauer serão já proféticas do orgulho, do pessimismo, do medo e da destruição resultante - o Leão russo ruge e zanga-se com os literatos (sobretudo franceses), Mallarmé e Huysmans, Baudelaire e Verlaine, Zola, etc... Com os compositores, desde a última fase de Beethoven ao Richard Strauss, passando por Wagner, Brahms e Liszt... Para ele, tudo lhe parece pornografia e decadentismo, bem longe do que foram as obras de Goethe, Schiller, Victor Hugo, Dickens, Mozart, Bach, Chopin, da Vinci, Rafael ou Miguel Ângelo... muito embora morda nalgumas dessas ou encontre a desculpa de que as massas populares não as teriam sempre entendido por estarem deficientemente educadas! Subjacente a esta raiva crítica está a inspiração evangélica e a profunda solidariedade humana do desejo tolstoiano de um mundo novo. Será utópico, talvez risível. Mas vindo de um aristocrata russo que morreu sete anos antes da revolução de 1917 - curiosamente, em 1910, quando Sir Thomas Beecham dirigiu, no Covent Garden de Londres, a "première" da "Salomé" de Strauss - tem ela, pelo menos, o mérito de nos incomodar... Nós que, diletantemente, nos entregamos ao gozo privilegiado de tanta literatura, espetáculo e artes plásticas, que o dinheiro paga para nosso bel-prazer, e não nos apercebemos de como a celebração de novidades, efemérides ou gostos raros - tal como certas práticas e ritos bacocos de pietismos em que pretendemos encerrar, para consumo próprio, a grandiosidade generosa e abundante do divino - nos afastam dos outros e nos reduzem. A arte, em todas as suas formas e manifestações, deve ser uma procura - simultaneamente dolorosa e alegre, como um parto - da comunicação. É partilha. Leio contigo este passo de "O que é a arte?" de Tolstoi: "Em consequência da descrença das pessoas das classes altas, a arte dessas pessoas tornou-se pobre em conteúdo. Mas, além disso, tornando-se cada vez mais exclusiva, tornou-se por esse motivo mais complicada, extravagante e obscura. Quando um artista do povo - como eram os artistas gregos e os profetas hebreus - criava a sua obra procurava evidentemente dizer aquilo que tinha para dizer de maneira a que a obra dele fosse compreendida por todas as pessoas. No entanto, quando o artista criava para um pequeno círculo de pessoas que viviam em condições excecionais, ou até para um indivíduo e os seus cortesãos, para um papa, um cardeal, um rei, um duque, uma rainha, uma amante do rei, empenhava-se naturalmente em produzir efeito apenas sobre essas pessoas que lhe eram conhecidas e que viviam em condições que também lhe eram conhecidas. Este método mais fácil de despertar sentimentos conduzia involuntariamente o artista a expressar-se por alusões incompreensíveis para todos a não ser para os iniciados..." (Tradução do russo por Ekaterina Kucheruk, para a Gradiva). Sem concordar com todos os pressupostos da análise de Tolstoi, confesso que, muitas vezes, até a simples leitura de crónicas ou resenhas críticas publicadas nos jornais me causa o desconforto de me sentir metido numa conversa que não me diz respeito. E é verdade que os círculos artísticos e literários tendem a produzir linguagens e modos herméticos e "sectários". Um pouco como aqueles adolescentes que se reúnem na zona de Shibuya, em Tokyo, e falam entre si um "japonês" inacessível até para seus pais... Não creio que a arte possa ou deva ser elitista e exclusiva. Antes penso que a arte é a procura da perfeição, de modo a que a expressão do belo se torne numa mensagem universal, comunicante e libertadora. O artista não impõe nem define. Desperta. Nesse sentido a obra de arte é, como a graça de Deus, um apelo, uma chamada. Quem contempla uma gravura ou escuta uma sonata não sentirá exatamente o impulso ou a ideia do autor, mas é pela obra deste libertado para o sentimento ou a contemplação de uma perfeição sempre imperfeita, porque sempre procurada. Volto ao nosso Ortega y Gasset: "El hombre es un trânsfuga de la naturaleza". Somos viandantes, precisamos de estrelas. E para as vermos, temos de olhar para cima. A importância da educação literária, musical e artística é esse convite a olhar para cima. E, também, a de ensinar que a busca da perfeição das coisas e das belezas do espírito é - como o amor e a ternura - difícil. Nesse sentido, o artista, como artesão, é um asceta. Um canteiro de flores ou uma horta bem cultivada, tal como uma mesa ou uma ponte bem construídas, ou um saboroso almoço, são obras de arte também. Feitas pelo trabalho dos homens, sujeito ao gosto e à disciplina de fazer melhor. Vou buscar ao "Pour une Théologie du Travail" do Padre Marie-Dominique Chenu um texto do teólogo oriental São Máximo (morto em 668) que o teólogo dominicano apresenta assim: "Ao contrário dos Padres latinos, que, sobretudo com Santo Agostinho, se agarraram à interioridade do homem contra as dispersões do mundo exterior, os Gregos prestavam grande atenção à relação do homem com a natureza. Retomando um dos grandes temas antropológicos da Antiguidade, definiam o homem como um "microcosmos": o homem recapitula em si os elementos e os valores do cosmos; recapitula-os estaticamente, no cimo de todas as naturezas; recapitula-os, graças a essa comunhão física e vital, dinamicamente, numa escalada hierárquica para a Unidade suprema." Minha Princesa: eu diria, do artista, isto que São Máximo aqui diz do homem: "O homem é uma oficina viva, em permanente continuidade de ação, em todos os seres. Através das realidades mais diferentes e segundo toda a sua diversidade, ele é, por si mesmo e em natureza, no bem e na beleza, segundo a génese de cada ser, o artesão da unificação delas... ...Essa potência unificadora, exercendo-se na causalidade do devir desses diversos seres, revela, cumprindo-o, o grande mistério do plano divino; porque determina harmoniosamente a coerência mútua dos seres opostos, dos mais próximos aos mais longínquos, dos menores aos maiores, e assim os conduz por um regresso progressivo à sua unidade em Deus...” Nas suas viagens pelo mundo, Camilo Maria, além de uma maleta de cabine em que levava alguma leitura e papel para escrever, e da mala da roupa, tinha sempre outra, mais pesada, cheia de livros. Quando lhe perguntavam o que nela trazia, invariavelmente respondia: "É a minha maquilhagem!"  


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 13.08.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


ONDE SE FALA DO «RAPTO DO SERRALHO»…
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Já passou meia semana da minha estadia em Viena, no Sacher. Encontrei cá, imagina!, o nosso Camilo português, que integra uma delegação a uma reunião interministerial da EFTA, cuja presidência é, neste momento, austríaca. Íamos todos a sair -  eu e uns cinco portugueses - aqui do hotel para... (é só atravessar a rua!)... a Wiener Staatsoper, onde assistimos a uma magnífica "Die Entführung aus dem Serail", dirigida pelo Karl Böhm. "O Rapto do Serralho" tem sido, desde a sua estreia no Burgtheater de Viena, a 16 de julho de 1782, uma (senão a) das mais populares e representadas óperas de Wolfgang Amadeus Mozart. Tem um sabor especial vê-la aqui, nesta cidade que os turcos otomanos tentaram por quatro vezes conquistar, a última das quais em 1683. Vive-se mais esse sentimento do "turco", como receio de ameaça secular, mas como curiosidade também, e gosto do exótico e certas modas, incluindo a pastelaria que até toma a forma do crescente ("croissant"). E essa desforra popular ("folclórica") que faz do tema do sultão apaixonado pela bela europeia cristã, que o repudia e engana, o "leitmotiv" de contos e peças de teatro, de inúmeras "singspiele" e óperas... O mesmo Mozart, antes do "Rapto", compusera uma "singspiel", cuja heroína é Zaïde - nome que daria, mais tarde, o título a essa opereta incompleta - escrava cristã do harém do sultão Solimão, de onde foge com o seu amante Gomatz, com a cumplicidade de Allazim, "renegado" cristão, hoje braço direito de Solimão. Apanhados pelo feroz Osmin (que reaparecerá no "Rapto"), capitão da guarda do sultão, serão, mais uma vez, salvos pela intercessão do "renegado". Este, na verdade, quando comandava um navio espanhol no Mediterrâneo, livrara a galera turca - em que Solimão, ainda jovem, seguia - de um ataque de piratas. Mas, enquanto a galera turca pôde assim fugir do perigo, o vaso de guerra espanhol foi surpreendido por uma esquadra de piratas, e Allazim, depois de preso, vendido como escravo ao próprio sultão e obrigado a converter-se... Surpreendido pela revelação de que Allazim fora o seu salvador, Solimão é clemente e salomónico: Zaïde e Gomatz são perdoados e poderão partir; mas Allazim deverá ficar com ele, pois maior amigo não tem nem pode ter! "Dein Edelmut, Allazim, hat den weg zu meinem Herzen gefunden... A tua nobreza, Allazim, encontrou o caminho para o meu coração. Um muçulmano pode ser tão generoso como um espanhol! Libertai-os, portanto, e conduzi-os a um navio que veleje até à pátria deles. Adeus Zaïde, adeus Gomatz. Procura ser digno dela. Mas tu, Allazim, não me deixes. Ajuda-me a tornar-me tão nobre como tu. Isto não é ordem de senhor, é pedido de irmão." Assim acaba a "Zaïde". Esta história leva-me à bacia do Mediterrâneo nos séculos XV a XVIII, tal como a descreve Fernand Braudel. E a outras histórias de corsos, razias, raptos, apostasias e regressos, escravizações e resgates, conflitos, tréguas e alianças. Lá irei, é fabulosamente tentadora a viagem por esse mundo em que judeus, muçulmanos e cristãos - e tantos povos e etnias da Europa, do Médio Oriente e do Norte de África - se relacionaram. Mas vou primeiro ao tema das óperas: a paixão não correspondida do sultão pela europeia, a tentativa de fuga desta com o seu namorado, a perseguição movida pelo carrancudo, vingativo e ambicioso capitão de guardas, o inesperado intercessor, a magnanimidade final do altivo soberano muçulmano, tudo isto se repete - desde a "singspiel" de Christoph Friedrich Bretzner "Belmonte und Konstanze oder die Enfuhrung aus dem Serail", levada à cena em Berlim com música de Johann André - em inúmeras realizações de compositores do século XVIII. E tem analogias com obras de Gluck ("La Rencontre Imprévue"), Haydn (“L’Incontro improviso”) e ainda "L’Italiana in Algeri" ou "Il Turco in Italia" do Rossini (onde a heroína, aliás, se chama Zaida)… A "ameaça" otomana pesou seriamente sobre a Europa cristã durante século e meio, desde a tomada de Constantinopla em 1453 até ao tratado de Carlowitz, em 1699, que devolveu a Hungria e a Transilvânia aos Habsburgos austríacos. Pelo meio, estiveram os reinados de Carlos V (1516-1556) e de Solimão, o Magnífico (1520-1566), com a autoridade do imperador cristão contestada por Francisco I de França, que se aliou aos turcos, com desfeitas de um e de outro lado. Antes e depois da batalha naval de Lepanto (1571), quando a coligação da Santa Liga, organizada pelo papa S. Pio V e comandada pelo bastardo João de Áustria, travou o avanço otomano. Já Carlos e Solimão não estavam cá. Nem François. Por entre conquistas e reconquistas, vitórias tão efémeras como derrotas, movia-se o corso e a pirataria, o comércio "internacional", com e sem carta. Como o dos Barbaroxa. E iam caindo nas redes dos interesses políticos e mercantis uns surpreendidos pela ganância dos outros. Mais ou menos inocentes ou aventureiros, desde meninos e meninas colhidos nas razias costeiras até tripulantes e guerreiros em navios de combate ou comércio. Ou prisioneiros de guerra, como portugueses depois de Alcácer-Quibir (1578). Surge daí um universo de destinos vários, tratados, muitas vezes, mesmo pela Santa Inquisição, de modo mais tolerante e benévolo, do que o reservado aos hereges cristãos, ou aos judeus e marranos, na cristandade: protestantes e judaizantes eram uma sabotagem interna; renegados, circuncisos conforme a lei islâmica, podiam ser um alívio, uma diminuição das forças do inimigo. Mas também me parece que o grau de miscigenação - aliás estimulada, curiosamente, por ambas as partes, muito embora os maometanos tivessem alguma vantagem na oferta, aos homens, de um estatuto de relacionamento sexual mais...agradável - apontava para a possibilidade de assimilação afetiva, tanto mais eficaz quanto, em tempo de guerrilhas e incertezas, cada um poderia guardar no coração a sua fé, desde que convencionalmente praticasse publicamente os rituais próprios da religião do seu príncipe... Já agora: não foi assim que se resolveram guerras de "religião" na Europa cristã coeva?  Entre papistas e reformados: "Ejus religio cujus regio". Li algures que Gaspar Ramos, um pagem português, feito prisioneiro em Alcácer-Quibir, foi levado à conversão à fé maometana pelo seu novo senhor, alcaide do rei vencedor El Mansour. Anos mais tarde, depois de circunciso, foi-lhe dada em casamento uma jovem moura. Com ela terá regressado a Portugal, ao cabo de trinta anos, em 1610, para viver na cristandade. Contei esta casualidade ao nosso Camilo. Sorriu e disse: "Por essas e outras, o tio ainda vai levar na touca..." Retorqui: "Na minha idade, posso levar à vontade, tenho cabeleira robusta. Mas tu, meu rapaz, já estás muito careca: não desenvolvas este nem outros temas, no teu jeito platónico de que a ideia tem sempre prioridade..." Mudei-lhe o sorriso em riso amigo. Mas receio que, quando chegar à minha idade, tenha desgostos. Sobretudo se não corrigir esse gosto de abrir, sem preconceitos, os olhos ao mundo. É tarde, vou dormir, bem preciso. Mas voltarei a partilhar contigo estas e outras histórias, em mil e uma noites...de insónia, em que só as estrelas nos falam."


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 09.08.13 neste blogue.