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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

  

   Seguem, neste mesmo correio, três cartas para ti. Escrevi-as de fio a pavio, envio-tas juntas, para que as leias no mesmo contexto. Cada uma a seu tempo, como manda a paciência própria de quem sabe saborear momentos de partilha.

 

   Para meu concerto pós prandial, neste início de tarde morna, ao nono dia de um Setembro que se anunciou quente, escolhi escutar umas áreas de música de câmara, da primeira metade do século XVIII, compostas - repara bem, Princesa de mim - for a violin and through bass by Mr. Richard Jones... O registo de que disponho é o do Beggar’s Ensemble, gravado em Poitiers, de 27 a 30 de outubro de 2017, que para o efeito utiliza um violino, um violoncelo, um violone, duas violas da gamba, um fagote e um cravo. As quatro peças deste programa - com, respetivamente, três, sete, quatro e quatro andamentos cada - foram escolhidas e organizadas, de modo a criar uma operazinha instrumental à volta de Richard Jones, conta, na apresentação do disco, Tom Namias, que eu não conheço: o contínuo, muito rico e variado, foi escolhido para reforçar a teatralidade das árias, e criar o efeito de um coro, com personagens diversas a responder ou acompanhar o discurso do violino. A força bastante moderna desse contínuo também valoriza a escritura rítmica excecional de Jones e o seu gosto por frases assimétricas e rebuscadas.

 

   Como explicar tal independência, tal virtuosidade de escrita, nesse homem que, pela informação disponível, nunca estudou com os grandes deste mundo nem, muito provavelmente, andou com eles? Como conciliar a obscuridade em que se mergulhou a sua obra, e o seu aspeto absolutamente revolucionário?  E, fossem quais fossem as razões, que ensinamentos dali poderemos recolher, passados três séculos?

 

   Jones é homem do seu tempo. Vivendo numa Londres cosmopolita e debochada, embebedada por qualquer gin de má qualidade, ele vai buscar, a essa assustadora beleza cacofónica da cidade à beira do desabamento, a inspiração necessária à criação duma obra maior do século XVIII. 

 

   Confesso que, para mim, sem preconceito nem qualquer formação musical aplicada, me maravilhou este concerto tão livremente escutado no silêncio bucólico de uma tarde dolente, quase outonal, sem vento, sequer, a bulir nos campos verdes que avisto. E esqueci as arruaças pintadas pelo William Hogarth (1697-1764) na quarta (Chairing the Members, 1758) das suas Four Prints of an Election, que ilustra a capa do disco produzido pela editora Flora, embora tenha apreço por esse pintor sarcástico da Inglaterra do século XVIII. Tempo de guerras, iluminismos, filósofos e debochados, ditadores e fomentadores de revoluções, libertinos e devotos, o século XVIII - mais do que tudo isso, e mesmo, até, dos esplêndidos edifícios e decorações que nos deixou - talvez tenha sido sobretudo um século de música. Porquê? Além de muitos outros temas de estudo da nossa condição, esse século das luzes, das perucas, talcos e perfumes, do maneirismo e galanteio, do urbanismo e da engenharia (lembra-te da "baixa" pombalina, dos esgotos de Mafra, do aqueduto das águas livres) foi, mais do que isso e a "Passarola" do padre Gusmão, tempo de conspirações e governos autoritários. E o reverso de disso tudo, na vida dos espíritos livres, na literatura, na música e, até, na religião... Foi o tempo em que os hiatos do poder foram sendo ocupados, e em que o paradoxo da condição humana mais dialeticamente se demonstrou. Nas colónias de emigrantes britânicos na América do Norte, esses perseguidos e fugitivos das suas pátrias de origem, para além da reprodução, mutatis mutandis, ou, mais claramente, do estabelecimento, em seu favor, das estruturas socioeconómicas que os ostracizaram, ainda iniciaram movimentos de ocupação de novos territórios, com os governos de colónias, recém independentes da coroa britânica, a violentar as vidas e os direitos dos povos autóctones e dos escravos africanos importados. E, em Portugal, quantos edifícios, da coroa ou privados, sobretudo religiosos, com suas talhas douradas, terão sido pagos com ouros do Brasil?

 

   Tão cheio de contradições e caminhos perdidos, o século de Mozart e dos enciclopedistas, dos direitos do homem e da razão (redescoberta, deslumbrada e logo deslumbradora), foi o do despotismo iluminado, e terminaria pela Revolução Francesa, que também abriu novos campos de batalha e ressuscitaria impérios, repúblicas, calendários não cristãos e velhas monarquias. Por cá, reconstruiu-se exemplarmente Lisboa, logo após o Terramoto (com maiúscula), rolaram cabeças da alta nobreza, expulsaram-se jesuítas, Bocage foi-se divertindo e sofrendo, além de ser popular pelo verso e a pilhéria... Entretanto, a sábia Alcipe, uma Távora, escrevia e compunha poesia ao jeito clássico. Além de tudo o que ninguém pode negar, quiçá inspiradas por toda aquela cacofonia, surgem obras musicais sublimes, óperas brilhantes, elegantes e vigorosas sinfonias, sonatas e peças para câmara que, dos seus instrumentos, tiram espantosos sons e vibrações, que se harmonizam como se a função da música fosse extrair beleza para entendimento e perdão da desordem do humano mundo.

 

   [Sou, só por isso, levado a evocar outro tempo, este hodierno e nosso, que assim também se deixa mostrar, como nessa frase do celebrado Abbé Pierre: Temos de andar sempre com os dois olhos bem abertos, um a ver a miséria deste mundo, o outro a beleza do inefável. O que já levou alguém a clamar pelo testemunho da música minimalista ou pós-minimalista, como a dita zen, do compositor Gavin Bryars. Conta-se que este, no seu jeito de compor a partir de objetos achados (tal como artistas plásticos reciclam) se terá, certo dia, emocionado com a gravação abandonada de um canto, que lhe pareceu religioso, na voz de um homem idoso, sem abrigo : Jesus Blood never failed me yet... Decidiu aproveitá-la para nova obra sua, tema musical que se foi desenvolvendo pela integração de outros instrumentos a sustentá-lo. Tornou-se, quando publicamente executado e no seu registo magnético, um dos seus maiores êxitos].

 

   Regressando ao século XVIII, reencontramos Haydn e Mozart, mas também, com seu estilo italiano, o alemão Haendel em Inglaterra, Domenico Scarlatti na Ibéria, onde começou por ser mestre da capela real de D. João V e professor da infanta Maria Bárbara, a qual o levou para a vizinha Espanha, quando por lá se casou e fez rainha... E também, desta nativos, António Soler, conhecido pelo seu vigoroso fandango, e outros sonatistas como Josep Gallés e José Ferrer, próximos, no modo, doutro italiano amante da nossa península: Luigi Boccherini, famoso pelo seu minueto, mas também pelo quinteto em ré maior, para cordas, guitarra e castanholas (1798), cujo fandango se ergue ao nível dos melhores autóctones. Tudo isso é uma plêiade de músicos e suas obras a fazer vibrar e reunir-se uma Europa cheia de contradições e paradoxos, onde grandes igrejas e bibliotecas, no esplendor do seu barroco terminal, a pedir um neoclássico que já se anuncia, concorrem com a animação intelectual dos cafés em moda e os novos cultos maçónicos. Entre os maiores, contamos também portugueses, como Carlos Seixas que, pelos seus quinze anos, pediu a Domenico Scarlatti que o recebesse como discípulo. Diz-se que, ao ouvir a sua prova, o mestre italiano ficou tão embevecido que o dispensou, considerando-o tão bom ou melhor do que ele próprio... Ou o alentejano Sousa Carvalho e António Teixeira, autor da música de A Guerra do Alecrim e da Manjerona, cujo texto, como o de outras óperas, fora escrito por António José da Silva, o Judeu. Nascido no Brasil, a ele se devem muitas peças e libretos de óperas, representadas sobretudo no Teatro do Bairro Alto, antes de ter sido entregue pela Inquisição, após julgamento, ao braço secular e ter sido então executado. Aquele teatro era apenas um entre vários já desparecidos, o maior tendo sido a Ópera do Tejo, que o terramoto de 1755 destruiu. Quase quarenta anos depois, concretizar-se-ia um projeto iniciado ainda no reinado de D. José, e muito apoiado pelo intendente Pina Manique - que dali contava tirar receitas para apoio à Casa Pia: o nosso, sempre de pé, São Carlos, ao Chiado.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Terminava a minha última carta, Princesa, falando-te do cair do pano sobre o tempo de cada um de nós, e sobre todos os tempos. Chamava-lhe véu apocalíptico, pois mais nada oculta, mas tudo descobre e revela. Será assim a minha visão ao morrer. Mas até lá, todos teremos de olhar, escutar, e interpretar. Sim, todos vamos interpretando, lendo sinais dos tempos, decifrando símbolos. Estes são obra humana, dizem sobretudo o que nos é difícil exprimir, ou serão, talvez, mais abrangentes, e propõem mais caminhos de leitura do real do que muito passo lógico.

 

   No seu Pour les Siècles des Siècles (Vendémiaire, Paris, 2017), de que já te falei, o professor Oleg Voskoboynikov, escreve sobre o encanto dessa visão medieval da natureza, que é poética, alegórica. E continua: Ao abandonar, até ao século XIII, qualquer estética do olhar direto e independente sobre a natureza, olhar esse muito prezado por Aristóteles, o cristão medievo fez do mundo «um livro escrito pela mão de Deus» (Hugues de Saint-Victor); era preciso saber ler tal livro. Para um bom aluno de Hugues, Richard de Saint-Victor, «quer se interrogue a natureza, quer se leia a Bíblia, ambas exprimem o mesmo sentido». Os múltiplos sentidos da Escritura são outros tantos do «livro das criaturas», ou seja, do mundo: já Agostinho fala desse paralelismo entre escritura e natureza, e o século XII desenvolveu essa ideia. Tal posição não negava o mundo nem a necessidade de o estudar ou de falar dele. Muito pelo contrário, um discurso sobre a natureza das coisas, de natura rerum, é bem medieval, representa em si mesmo um género literário, de cariz enciclopédico, desde o século IX, com Robert Maur, aos enciclopedistas do século XIII [de que já te falei, Princesa de mim, em cartas antigas, a respeito de Tiago Voragino]. Pode até dizer-se que, de certo ponto de vista, a «natureza» medieval terá mais «necessidade» de «lei» do que a natureza aristotélica, já que, no seu próprio conceito, participa do Ser divino [cf. Étienne Gilson em L´Esprit de la Philosophie Médiévale, Paris, Vrin, 1989 ; a 1ª edição é de 1932].


   Com ajudas do "nosso" professor Voskoboynikov - e é ou não é entusiasmante encontrar um universitário russo famoso por ser um dos melhores estudiosos, a nível mundial, da paleografia latina e, designadamente, da cultura e do pensamento medievo europeu, além de excelente tradutor, para a íngua russa, de textos filosóficos ocidentais dos séculos XII e XIII?  -  avancemos, então, Princesa de mim, para um melhor entendimento do pensamento simbólico da Idade Média da Europa Ocidental.

 

   Distinguia-se então natura, a natureza no singular, em sentido geral, de naturae, no plural, as naturezas diversas, ou as propriedades naturais das coisas. Pensa o "nosso" professor que tal discernimento, pelo menos até à profunda aceitação, já no século XIII, da física e da metafísica aristotélicas (e, em qualquer próxima carta, lá voltaremos a Tomás de Aquino, pela mão de Umberto Eco), submetia a realidade sensível, empírica, a quatro interpretações: literal, simbólica, moral, mais raramente, anagógica - sendo que esta última, quiçá a mais sofisticada, era suposta conduzir a alma à Salvação. Não deixa de ser interessante que Voskoboynikov recorra a uma carta do grande Dante ao seu mecenas, Cangrande della Scala - a quem o Poeta explica como a sua Comedia (a tal a que ainda chamamos Divina) comporta vários sentidos - isso para nos iluminar quanto ao funcionamento de tal simbólico pensamento. [Trata-se de um trecho da XIII carta de Dante a della Scala]:

 

   Pois uma coisa é o sentido que a carta transmite, e outra coisa o sentido trazido pelas próprias coisas. Chama-se literal ao primeiro, o segundo sendo alegórico ou moral. Para tornar claro tal modo de expressão, podemos acompanhá-lo na frase seguinte: «Quando Israel saiu do Egipto, quando a casa de Jacó se afastou de um povo bárbaro, tornou-se Judá o seu santuário, Israel a sua força». [Puxo aqui pela memória antiga de salmos cantados, e assim recordo o texto da Vulgata destes versículos 1 e 2 do salmo 114: In exitu Israel de Egypto, Jacob de populo barbaro, facta est Judea sanctificatio ejus, Israel potestas ejus]. Se olharmos só para a letra, veremos que se trata do êxodo dos filhos de Israel do Egipto, no tempo de Moisés; em sentido alegórico, trata-se da salvação trazida por Cristo; o sentido moral levanta-nos a alma, das lágrimas e penas, à bem aventurança; anagogicamente, a alma passa da escravidão da corrupção terrena para a liberdade da glória eterna. Apesar de todos esses sentidos misteriosos terem nomes diferentes, a todos podemos chamar alegóricos, pois são distintos do sentido literal ou histórico...

 

   ... O sentido literal serve sempre de objeto e matéria para os outros, designadamente ao sentido alegórico. Assim, não conseguiríamos, portanto, aceder ao conhecimento de outros significados sem conhecer a letra...   ... Não há coisa alguma, natural ou artificial, que possamos penetrar sem primeiro construir fundações, tal como fazemos para uma casa ou um saber.

 

   Este rigor intelectual de Dante Alighieri, no século XIII, encontramo-lo também nos dominicanos Alberto Magno e Tomás de Aquino que, em próxima carta, visitaremos, na companhia de Umberto Eco, como te prometi, Princesa de mim. Mas já no século XII, Hughes de Sain-Victor, grande renovador da ciência bíblica, repreendia, como lembra o "nosso" professor russo, os mestres e falsos mestres que, referindo-se à famosa fórmula de São Paulo «A letra mata, mas o espírito vivifica» (2ª aos Coríntios, 3, 6) se punham a falar do espírito sem se demorarem na letra. Escreveu ele: «Os nossos sábios, não querem ou não sabem respeitar a ordem coerente dos estudos, e por isso mesmo vemos muitos estudantes e poucos sábios». Porque, para ele, tal ordem reproduz a ordem do universo e corresponde à ordem da restauração da natureza humana. Para outro grande espírito da geração seguinte, John of Salisbury, a verdade está na natureza das coisas, mas também na natureza das palavras, pois a gramática imita a natureza, e assim temos de aprender a trabalhar com os textos.

 

   Por tão facilmente, no tempo hodierno, nos deixarmos facilmente cair na tentação recorrentemente omnipresente das ideias "pronto a pensar", insistimos em olhar para a nossa meia idade como época de trevas e noturna ignorância, sem sequer descobrirmos e admirarmos um período em que a barbárie e o barbarismo foram sendo vencidos por um esforço consistente e persistente de clarividência e disciplina do espírito. Como aperitivo à nossa próxima deambulação em redor deste tema, na companhia de Umberto Eco, traduzo-te um trecho do Herfsstijder Middeleeuwen (ou "Outono da Idade Média") do holandês Johan Huitzinga, publicado em Harlem, em 1919):

 

   Nenhuma verdade estava mais presente ao espírito medievo do que essa palavra de São Paulo  aos Coríntios: Videmus nunc per speculum in aenigmate, tunc autem facie ad faciem ["Hoje apenas vemos por um espelho de enigmas, mas então veremos cara a cara]. A Idade Média nunca se esqueceu de que todas as coisas seriam absurdas se o seu significado se limitasse às suas funções imediatas e à sua fenomenalidade e que, ao contrário, pela sua essência, todas as coisas tendiam para o além. Tal ideia é-nos familiar, mesmo à margem de qualquer pensamento expressamente religioso. Quem não passou por momentos em que as coisas vulgares parecem ter um significado diferente e mais profundo do que o seu significado comum? Esta sensação, ora se apresenta como apreensão mórbida, que faz com que todas as coisas pareçam cheias de ameaças ou enigmas que teremos de resolver a todo o custo, ora, e mais frequentemente, nos enche de tranquilidade e confiança, convencendo-nos de que somos parte desse sentido secreto do mundo.

 

   Tu sabes bem, Princesa de mim - muitas vezes te lo disse - como, posto em sossego, quanto gosto de contemplar esta nossa tão paradoxal condição humana no mistério em que a resguardam, e inquietam, silêncios de Deus.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

               Herdeira de ti mesma, recuperas forças ali onde
               nos espera a morte. Das cinzas da fogueira te é dado
               teu nascimento. Morre a velhice, mas tu nunca partes,
               tu que viste tudo o que passou, testemunhas os séculos,
               e sabes quando escorreram dos rochedos imóveis as ondas
               tempestuosas que tudo inundaram e quando o fogo
               desencadeado destruiu os desatinos de Faetonte,
               escapaste a esse flagelo, foste a única intacta
               sobre a Terra domada. E nem as Parcas têm direito
               de te fiar em suas rocas.

 

   Estes versos foram escritos em latim por um dos maiores poetas da Antiguidade Clássica, Claudius Claudianus. Glorificam a fénix, essa ave mitológica, cuja lenda nos conta que é única e põe um ovo na fogueira, arde... e das cinzas renasce no seu próprio pinto! Disse Santo Agostinho que tal poema não era aplicável a Cristo Ressuscitado, pois constava que o seu autor fosse anti cristão. Todavia, cem anos antes, já o bom cristão Lactâncio escrevera, por volta do ano 300, o seu Phoenix (Fénix), e a mítica ave foi servindo de símbolo e ilustração da glória da Ressurreição do Senhor. Parece-me que é importante observar como, paradoxalmente (?), a recuperação de imaginário pagão pela iconografia e literatura cristãs, não só não é sinal de idolatria, antes será, pelo contrário, realização de uma potestas - no sentido de poder e domínio de tal imaginário pela fé cristã. Como se todos os deuses antigos, seus mitos e lendas, fossem anúncios do Deus Único, desse Quem então ignorado, que São Paulo anunciou em Atenas, apontando o pedestal vazio, reservado para o Desconhecido: "Pois é desse Deus desconhecido que vos venho falar!" [O agnóstico e Régis Debray, no seu Dieu, un Itinéraire, procura traçar esse percurso de uma revelação progressiva, quiçá multifacetada, de Deus na história da humanidade...]

 

   Acontece que, quando um imaginário coletivo adota um símbolo, não se compromete a mantê-lo sempre no mesmo desenho, mas vai variando os seus contornos e as lendas que conta à sua volta. A título de exemplo, Princesa de mim, traduzo-te a entrada Phoenix do Handbook of Symbols in Christian Art de Gertrude Grace Sill (Macmillan, New York, 1975): A fénix é uma ave mítica de grande beleza, semelhante à águia, mas com cabeça de faisão. Podia viver mais de quinhentos anos. Quando começou a sentir-se velha, ergueu a sua própria pira de aromáticos galhos ao sol meridiano, acendendo-a com o abano de suas asas. Um pequeno verme foi deixado entre as cinzas, e em três dias se tornou em nova fénix. E tornou-se a fénix em símbolo popular da Ressurreição de Cristo, triunfo da vida sobre a morte.

 

   O trecho de poema que acima traduzi talvez deva ser lido como se olha para um mistério, sobretudo por ilustrar a eternidade da Fénix evocando o seu poder de ressurgimento (ou sua "resiliência", para fazermos uso desse conceito da física dos materiais hoje tanto em voga no discurso político...) recorrendo à tragédia mítica de Faetonte ou Fáeton que, na sua versão homérica, é filho da oceânide Clímene e do deus Hélio (Sol), também assimilado a Apolo. Este jovem trágico é geralmente representado, seja a pedir a seu pai autorização para conduzir o seu carro solar, seja, o mais das vezes, a precipitar-se em queda mortal, atingidos, carro, cavalos e condutor, pelos raios fulminantes que Zeus sobre eles dispara. São, já percebeste, Princesa de mim, relâmpagos que os queimam. Na pintura europeia da Renascença e do Barroco é certamente esta versão a mais praticada, prestando-se, aliás, à decoração de tetos: olhamos para cima e vemos cair sobre nós o carro ardente do castigo divino. 

 

   Será essa a representação mais impressionante? Talvez, indubitavelmente, quando a pensamos e sentimos, com receio, como presságio. Na moral da história mítica original (?), o jovem Fáeton desatina mais por inexperiência e verdura de idade, do que por desafio ou soberba: ao guiar o seu fáeton de fogo (quando, no século XIX, foram surgindo, nos parques e lugares de passeio, mais carrinhos daqueles, descapotáveis e leves, deram-lhes o nome mítico, mas sem o fogo...) o rapaz não o aguentava bem no itinerário que Hélios lhe havia fixado e, desatinado, ia espalhando um fogo olímpico (mas não inofensivo), que ameaçava destruir as próprias estrelas e a Terra inteira. Assim, mais por cautela e profilaxia, do que por inveja ou punição, Zeus, pai dos deuses, achou benéfico fulminá-lo. Clímene, mãe do infeliz, e as irmãs dele, quando lhe foram chorar a morte. junto à sepultura, foram transformadas em choupos. Terá sido esta a origem do Choupal lírico, saudoso e lacrimejante, do Mondego coimbrão? Não te sei responder, Princesa de mim. Mas posso recordar uns versos de Luís Vaz de Camões (na Elegia X):

 

               Se acaso a caída e má ventura
               de Fáeton te lembra, cuja morte
               te deu sempre jamais tanta tristura,
               o não teres tu culpa te conforte,
               que o moço, de soberbo, não podia
               cair em menos miserável sorte.
               Mas vós, castas Irmãs, que, noite e dia,
               cantais em versos élegos o choro,
               com o cândido Cisne em companhia,
               unidas todas, a-vicenda, em coro,
               um padre consolai tão descontente,
               em módulo cantar doce e canoro.

 

   Esta elegia, também conhecida por Elegia de Sexta Feira de Endoenças, começa por uma dedicatória do Poeta, reveladora da "cristianização" de imagens e símbolos clássicos na cultura da Renascença. Repara bem, Princesa:

 

               A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
               nutrem e cibam de poção divina,
               não as da fonte Délia Cabalina,
               que são Medeias, Circes e Medusas,
               mas aquelas em cujo peito, infusas,
               as leis estão que a Lei da Graça ensina,
               beninas no amor e na doutrina,
               e não soberbas, cegas e confusas;
               este pequeno parto, produzido
               de meu saber e fraco entendimento,
               uma vontade grande te oferece.
               Se for de ti notado de atrevido,
               daqui peço perdão do atrevimento,
               o qual esta vontade te merece.

 

   Tenho aqui uma reprodução de A Queda de Fáeton (1703-4), de Sebastiano Ricci, que está no Museu Cívico de Belluno. A fúria fulminadora de Zeus-Júpiter, precipitando Fáeton no abismo aberto, lembra-me, não sei porquê (hoje só imagino o que te escrevo), a criação do homem, representada por Miguel Ângelo na Capela Sistina. Talvez por ser o castigo mortal precisamente uma negação da criação que tira do nada a vida. Mas também me aparecem outras visões gémeas (?) do carro solar de Hélios-Sol-Apolo, que o desditoso Fáeton quis conduzir, ou aprender a guiar... A primeira é a do carro, puxado por cavalos de fogo, que arrebata ao céu o profeta Elias: Então como fogo se levantou o profeta Elias, a sua palavra ardia como facho (Si.,48,1). A palavra de Deus é como fogo, como nos recordam vários passos da profecia de Jeremias: Farei com as minhas palavras uma fogueira na tua boca, e deste povo a madeira que esse fogo devorará (Jer, 5,14)... Não é a minha palavra como o fogo? (Jr, 23, 29). E ainda, aquele passo do profeta Isaías (Is., 66, 15-16): Eis que o Senhor chega envolto em fogo, e os seus carros são como um furacão que lhe acalma a cólera pelo incêndio, e a ameaça por chamas de fogo. Pois que, pelo fogo, o Senhor se faz juiz...

 

   A presença do fogo de Deus parece ser absoluta e em si contraditória. Tal como o amor é fogo que arde sem se ver, o fogo de Deus tudo consome, sem todavia ser apenas destruidor, pois que também dizemos que purifica, limpa, tal como o sangue do Cordeiro lava. Não é só castigo, nem vindicta, antes será promessa de restauração, Ressurreição e vitória sobre a Morte. Ressurgindo das próprias cinzas, a fabulosa Fénix é, assim, símbolo de Cristo. E este Jesus, fogo e Sol, não só purifica, mas como Hélios e Apolo em seu percurso, é pancrator, governa tudo, o Tempo e sua cronologia, a Vida que desperta. No nosso imaginário se misturam todos esses símbolos, plásticos ou literários, com os seus nomes vários e as realidades e sonhos que representam; são marcos e sinais no nosso caminho para a visão real do fim de tudo o que alcançamos, quando sobre nós cair o pano, qual véu apocalíptico que deixa de esconder mistérios e os revela. 

              

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

Cartas novas.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Fizeste-me pensarsentir, por atenta observação, aliás já antes feita pela nossa amiga Maria Otília Medina, de como me suspeitas de, através da escrita, fugir ao real... Será assim? De certo modo, todos temos uma costela de fugitivo (ou, mais insolente e certa, de fugidio) na peregrinação das nossas vidas. Estas, na verdade, bastas vezes parecem esbracejar entre forças centrípetas e centrífugas e, na aflição, nem sempre sabemos onde temos os olhos postos. Olhamos para o centro, presumindo  que esteja lá a substância que a fé procura; tenta-nos a periferia em cujos horizontes julgamos estar a aventura que talvez desejemos. Afinal, quiçá seja a luta de Jacó com o Anjo a melhor resumir a condição humana, pois nunca conhecemos bem a nossa fortaleza nem as forças com que deverá medir-se. Quanto a fugir do ou ao real, tanto poderá ser em corrida para o centro como a caminho da periferia. Vamos, então, partir em busca do real, sem que, à partida, saibamos o que ele ontologicamente é?

   O real do meu quotidiano  -  tal como, mesmo sem o conheceres pelo sentimento da experiência, poderás imaginá-lo  -  é simples e chão, como o de um monge. Encarrego-me de quase todas as tarefas domésticas (compras, cozinha, mesa, louça, roupa, medicação), com excepção das grandes limpezas caseiras que empregadas de fora fazem ; leio, escuto música, escrevo e, sobretudo, calo-me. O silêncio é como a criação : começa do nada para se tornar vida, é oração, meditação, reflexão, pensarsentir-me, a mim, aos outros, ao mundo, ao cosmos, na origem. [E, dado que sou uma espécie de maníaco etimologista, recordo a raiz, o significado inicial, das palavras cosmos e mundo: a primeira, em grego, diz belo ; a segunda, latina, diz limpo, puro]. Assim olhada, a realidade do universo e da terra, é amável e desejável no seu próprio ser, quer na sua criação, quer no seu apocalipse ou revelação final. Neste sentido, procurar descobrir e amar a pura beleza da essência de tudo, não é fugir ao real, antes é abrir uma rota até ao centro dele. Assim também creio que a minha estranha (?) forma de vida tem uma motivação íntima, curiosamente mais inspirada do que virtuosa ou simplesmente deontológica : ver alguém feliz pelo conforto que eu possa trazer à sua circunstância. A degenerescência de certas faculdades  -  tais como o poder de concentração, o exercício da memória, o tempo e certeza dos reflexos  -  afecta as vidas de muita gente, designadamente daquela a que a idade vai limitando as capacidades de correcção e recuperação. Desse progressivo mas irreversível "divórcio" do mundo que a rodeia, da sua própria circunstância, pode resultar um estado de alma depressivo, angustiado por um sentimento crescente de solidão, angústia essa agravada pelo seu próprio receio. Este mal sem cura poderá, todavia, ter outra realidade, essa que nasce duma nova experiência de liberdade e segurança, de confiança em si através de quem lhe for próximo... Chama-se a tal "benfeitoria" : Alegria de Viver. Aqui no campo, em vida muito isolada, aparentemente, pela diminuição dos contactos expressos, múltiplos e próximos, com tantos amigos, e com a própria periferia do "meu" mundo, sou eu feliz também, porque todos os dias sou presenteado com a despreocupada alegria de alguém ao meu lado, que se sente em casa como quando era menina e moça, sem sequer precisar de saber as horas do dia pelo relógio que já não usa, porque lhe basta perguntar a quem responde. A morte é só o incomunicável ; a vida é a livre respiração da reunião.

   Tampouco será despiciendo o tempo que em raros dias consagro a conversar (pelo telefone, ou em almoços com amigos que me vêm visitar a este retiro donde me é, fisicamente, difícil sair) e a ler jornais e ver um pouco de televisão. Ainda que com reservas e cuidados que me vão balizando as extensões das notícias, declarações várias e comentários que desse modo me chegam, não fico alheio ao que se vai passando nessa periferia. Mas evito, propositadamente, intrometer-me ou, menos ainda, intervir em debates que, logo à nascença, são provocados e conduzidos por "estratégias" (não é assim que dizem?) de concorrência, competitividade e afrontamento, mais assentes em proclamações de atitudes ou "valores" que possam agradar e cativar eleitorados e admirações, do que na serena, estudada e séria análise das raízes, circunstâncias e condicionantes das situações e problemas que, tratando-os comunitariamente, deveríamos resolver. Lembra-te, Princesa de mim, de questões como os incêndios, a Amazónia, os migrantes, as greves de transportes vários, professores, médicos e enfermeiros... Todas essas questões são equacionáveis e atendíveis, comunitariamente, independentemente de desejos ou pretensões a dar, seja a quem for, razão ou ganho. Quando as nossas sociedades políticas deixarem de se focar, quase exclusivamente, em concursos a votos mais facciosos do que racionais, talvez tal seja possível. Mas por enquanto, e por defeito nosso, o espaço público do debate analítico e construtivo tem sido ocupado pela paródia declamatória de inúmeros cultores do fulanismo. O culto ou o ostracismo de fulano ou beltrano ecoa por toda a nossa volta, chegando a ser asfixiante, como no caso do nevoeiro da crónica futebolística que, insistentemente, mais do que apenas perturbar alguns, vicia o juízo de muitos e sugere-lhes, ou mesmo ensina, comportamentos radicalmente facciosos e mercenários. 

   Entretanto, sabes bem que não comento nem gracejo - fora do círculo das conversas hílares (Deo gratias!) entre amigos - "selfies" políticos de Trump et alia... Et pour cause... Tais personagens de comédias da cena política que todos os dias nos é apresentada na ribalta dos media, não são certamente líderes (como também se diz), nem sequer actores, mas apenas máscaras das massas eleitorais manipuladas pelos poderes disfarçados que pretendem governar-nos. Costumo dizer, Princesa de mim, como tão bem sabes, que não há Trump que me preocupe ou assuste. Assusta-me, sim, que seja possível concentrar tanto poder em mãos de um só. E preocupa-me, muito, que a razia crescente da nossa cultura humanista e a progressiva eliminação do espírito crítico, apanágio do humano, resulte no surto de multidões que votem para eleger tais espelhos da sua ignorância e insensatez. Por isso mesmo me pensossinto no dever de ir dizendo e escrevendo, noutro registo, talvez uma escapadela a tal espectáculo, coisas que a maioria não gostará de ler e não lerá, mas que são um modo meu de não fugir ao real, mesmo tentando remar para um quiçá inalcançável centro (?).

   Por outro lado de mim, não resisto a rir-me de tanta comédia, mesmo sabendo que é privilégio de "rico" (salvo seja eu de tal apanágio!) Só que os tais ricos, os consagrados, os grandes, os importantes deste circo e sua assistência, assim como aqueles que lhes vão aparando o jogo, não se riem   -  nem sequer deles próprios  -  mas tomam muito a sério, até pela mesquinhez dos seus interesses, aquilo que os poderá enfim levar à tal fotografia que lhes trará um voto. Curiosamente, eis aqui uma área em que até estaremos a regredir em liberdades, não sei se por excessiva consideração das susceptibilidades das nossas vedetas : repara, Princesa de mim, nas críticas crescentes e descarada censura que se tem feito à arte da caricatura. Aproveita, vai deitar o olho a "bonecos" do século XIX, e nota bem com quanta maior liberdade se gozava então o pagode.

   Parece-me, portanto, claro que nem sequer essa minha propensão a "gozar com a política"  -  como gosta de lembrar um grande amigo, dos tais que me telefona sempre que se sente preocupado ou indisposto, para que eu o faça rir  -  possa considerar-se uma fuga ao real. Afinal a realidade é o que for, sempre difícil de ser acomodada aos gostos e desiderata de cada um. Reconhecendo isto, reconheço também que o meu divertimento é modo de fugir, sim, a qualquer ansiedade, receio ou preocupação que não comando. No fundo, e por muito estranho que possa parecer, pensossinto que o estado do mundo resulta do lugar que nele conseguir ocupar a cultura do espírito e seus atributos. Por isso mesmo vou procurando, na minha pequenez e com a insignificância das minhas capacidades, partilhar  -  com todos os que me lêem e escutam  -  caminhos de liberdade do espírito que nos conduzam dos epifenómenos periféricos ao centro inicial das coisas, ou, talvez ainda, a Quem é tudo em todos.

 

               Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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   Minha Princesa de mim:

 

   O último capítulo, o XXVIII, do Pilote de Guerre não tem mais de duas páginas, em que Saint-Exupéry exprime o seu próprio  cansaço e o dos seus poucos camaradas da esquadrilha de reconhecimento aéreo G2/33, num estilo quase telegráfico, como qualquer fatalidade. Estamos em 1940, a França foi derrotada pelo III Reich. Mas o grupo, na véspera da retirada, mantém-se unido e, sem ter dormido durante três noites seguidas, vê cada um recolher a sua lassidão ao rendido cansaço dos outros :

   Não diremos nada. Asseguraremos a mudança. Só o Lacordaire esperará pela alba para descolar, a fim de cumprir a sua missão. E, caso sobreviva, regressará directamente à nova base.

   Tampouco amanhã diremos algo. Amanhã, para as testemunhas, seremos uns vencidos. E os vencidos devem calar-se. Como as sementes.

   Como as sementes! Haverá maneira mais bonita, mais cristã, de ressuscitar da derrota? A comunhão humana no silêncio de qualquer perda faz com que esta deixe de ser desamparo e solidão, para se tornar solidariedade e esperança !

   O mistério da morte, no cristianismo, leva-nos ao paroxismo do paradoxo humano, do que "está aí" (ou p´raí) e aspira a Ser. E a sua contemplação ensina-nos a via do silêncio, esse calar, cá bem no fundo de nós, o labor restaurador da semente que apodrece para nascer de novo, como o Reino dos Céus.

 

   Oleg Voskoboynikov, medievalista russo formado na Universidade de Lomonossov, onde é professor de paleografia latina, foi também discípulo de Jacques Le Goff e é autor, entre outros livros e inúmeros artigos científicos, do notável Pour les Siècles de Siècles  -  La Civilisation Chrétienne de l´Occident Medieval, obra que a Vendémiaire (Paris) publicou em 2017. Gosto muito, Princesa de mim, de, às vezes, me deixar envolver pela atmosfera espiritual duma Idade Média, europeia e latina, que, neste caso, é percorrida do início do século IV ao início do XIV, do imperador Constantino ao Dante Alighieri. E é aqui apresentada, essa Alta Idade Média, pela ilustração de que, na verdade, longe de ser repúdio ou destruição da cultura clássica, não só greco-romana, como síria e copta, antes foi cadinho da sua assimilação pelo cristianismo. A semente de vida que acima refiro evocou-me, enquanto te escrevia, aquela expressão cristã que fala da humanidade de Deus em Jesus Cristo, que se humilhou até à morte, e morte na cruz  -  a qual, mais ainda do que suplício, é infâmia. Mas da morte infamante, ignominiosa, ficou, para nós também, então vindouros, a imagem daquele crucificado que, em miríades de representações advenientes, se tornou sinal de vitória :  hoc signum vincit. A suprema humilhação surge-nos assim como humildade ressuscitada, isto é, feita nova, força e sustento de vida sobre a morte.

   A dado passo deparo com um trecho da carta XXX de São Paulino de Nola (edição de G. de Hartel, Viena, F. Tempsky, 1894) que o professor Voskoboynikov apresenta assim : A autoridade moral e cultural de Paulino, construtor de igrejas, poeta, escritor, pregador, ultrapassava em muito a sua diocese italiana. É sintomático que ele abdique do direito de aparecer no espaço litúrgico, que os bispos partilhavam com os imperadores. [Estamos ainda em meados do século IV, no início do império romano cristão...] Não se trata de falsa modéstia, mas de uma nova concepção da dignidade humana : ele sabe que foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas também se recorda de que, na vida real, «tantum in imagine ambulat homo, tantum frustra turbatur». Eis citado um versículo do salmo 39, que traduzirei assim : «Quanto mais um homem se passear em retrato, tanto mais se alienará em vão». 
   Quando, numa cristandade então já liberta de perseguições e livre de se exprimir, os fiéis entre si debatiam a razão, o alcance e configuração, e o próprio culto das imagens religiosas, tal questão punha-se também para o retrato-exemplo dos pastores eleitos pelas suas igrejas ou comunidades ; erguiam-se vozes, não tanto contra a aproximação do divino pela representação memorizável, como pela reserva, ou prudência, relativamente aos riscos de alienação que o imaginário necessariamente implica. Preocupação que, hoje, tem a maior actualidade e nós, espantados, esquecemos. A tal ponto que nem nos apercebemos de que vamos deslizando do que já alguém chamara "civilização da imagem" para uma circunstância de carrossel caleidoscópico próxima da barbárie. Diariamente sobre nós chovem imagens e coscuvilhices que, em vez de nos ajudarem a reflectir sobre a realidade do nosso mundo e da nossa vida, nos atiram para um baile de máscaras ilusórias e alienadoras... E até talvez possamos dizer que, se a iconoclastia foi, muitas vezes, uma fobia idolátrica (mais do que receio pelo divino), a "imagofilia" hodierna, em seu omnipresente exagero, é sinal certo de propensão a nova idolatria...

   Volto então ao "nosso" S. Paulino de Nola, nobre romano nascido em Bordéus, que chegou a ser cônsul e prefeito de Roma, se converteu ao cristianismo com sua mulher, após o que distribuíram os seus bens pelos mais necessitados e se ocuparam do próximo, desse tal que adquirira, em cada pessoa, o rosto de Cristo Jesus.  Foi Paulino eleito bispo de Nola, em Itália. Conta-nos o livro do professor russo : Cerca do ano 400, um autêntico Romano e bispo culto, Sulpício Severo, pediu ao seu amigo Paulino, bispo de Nola, na Campânia, ele também Romano autêntico e futuro santo, que lhe enviasse para a Gália, o seu retrato. Queria pô-lo, a título de amizade e de respeito pelas suas virtudes, ao lado de uma imagem de São Martinho, no novo baptistério de Primiliacum (provavelmente a Primilhac de hoje). Comovido, Paulino respondeu-lhe assim:

   Suplico-te, por tudo o que de melhor há na nossa amizade, porque havemos de pedir provas da nossa amizade em formas vãs? De mim, de que homem queres tu a imagem? Celeste ou terrestre? Sei que queres essa imagem real, em ti amada pelo Rei Celeste. Não deves precisar de outra imagem nossa, além dessa pela qual foste tu mesmo criado.  ... Mas eu sou pobre e fraco, humilhado pela minha imagem rude e terrestre, pelos meus sentimentos carnais e as minhas obras na Terra. Pareço-me mais com o primeiro Adão do que com o segundo. Como posso então ter a ousadia de me fazer pintar, esmagando a meus pés a imagem celeste com os meus delitos terrestres? Terei sempre vergonha : fazer-me representar tal qual é vergonhoso, fazer-me representar tal como na realidade não sou é uma insolência.

   Concordemos ou não com elas, reconheçamos que se diziam lindamente, em latim, e há quase dois mil anos atrás, coisas que, hoje ainda, nos podem ajudar a pensarsentir-nos mais e melhor do que todas essas celebrantes imagens da vaidade nossa contemporânea...

   Ao escrever-te isto, Princesa de mim, revejo  -  para meu equilíbrio interior, pois é neste hoje que vivo agora  -  tantas imagens de seres humanos que vamos ignorando, abandonando, matando, e ainda assim nos fazem esse nosso imerecido dom de si próprios, que é, afinal, esse, também nosso, rosto de dor. A presente imagem da humanidade que padece e sofre vem lembrar-nos de que precisamos dum silêncio que seja semente. Comovido, sinto a presença misteriosa do meu irmão Gaëtan, que, em tantos muitos retratos que desenhou, sempre se concentrou numa qualquer, mas mais uma, interpelação da condição humana.

 

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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     Minha Princesa de mim:

 

   Para começar esta em consonância com coisas que, em carta anterior te disse, Princesa, traduzo-te um trecho, quiçá algo longo, do capítulo XXVII do Pilote de Guerre do nosso já amigo Antoine de Saint-Exupéry. Mas creio também que nos ajudará a perceber porque é que alguns sages dizem que o cristianismo não é um humanismo... Sabes? Penso que é, talvez transcendental, pela pessoa de Cristo com duas naturezas, a divina e a humana. Afinal, conceitos e palavras valem sobretudo pelo sentido que lhes atribuímos... Sabemos bem que o cristianismo não é panteísta, nem os santos que inspiram devoções e cultos cristãos são deuses ; nem sequer budas. Mas não negaremos que o Novo Testamento está cheio de referências à humanidade nova, chamada à união com Deus pelo sacrifício e ressurreição de Jesus Cristo, o Novo Adão, de cujo corpo todos somos membros. Posso até dizer que o cristianismo é um humanismo resgatado e preparado para um mundo novo. E, no final de contas, é certamente a religião que professa a humanidade de Deus. A tal ponto, que até nos leva a perceber que já no Antigo Testamento o Deus Único do povo judeu vai surgindo no quotidiano dos homens.

   Os trechos que abaixo traduzo são todos respigados do penúltimo capítulo do Pilote de Guerre, o XXVIII. No seu conjunto, constituem, mais do que o cerne da meditação proposta pelo autor do livro, quiçá uma summa do pensarsentir de Antoine de Saint-Exupéry :

   Estraguei tudo. Delapidei a herança. Deixei apodrecer a noção de homem (humano).

   Para salvar esse culto de um príncipe contemplado através dos indivíduos, e a alta qualidade das relações que esse culto fundava, a minha civilização tinha, todavia, gasto uma energia e um génio consideráveis. Todos os esforços do «humanismo» se consagraram a esse objectivo. O humanismo escolheu para sua exclusiva missão iluminar e perpetuar a primazia do homem sobre o indivíduo. O humanismo apregoou o homem.

   Mas quando se trata de falar sobre o homem, torna-se incómoda a linguagem. Diferencia-se o homem dos homens. Não se diz nada de essencial sobre a catedral, se se falar só das pedras. E nada de essencial se diz do homem, se se procurar defini-lo por qualidades de homem. Assim sendo, o humanismo laborou em direcção a uma barreira. Procurou encontrar a noção de homem por uma argumentação lógica e moral, e a transportá-lo assim para as consciências.

   Não há explicação verbal capaz de substituir a contemplação. A unidade do ser não é transportável pelas palavras. Se quisesse ensinar a homens, cuja civilização o ignorasse, o amor de uma pátria ou de uma terra própria, não disporia de qualquer argumento para os comover. O que compõe uma terra nossa são campos, pastagens, e gado. Cada um, e todos juntos, têm por função enriquecer. E todavia, na terra nossa, algo escapa à análise dos materiais, já que há proprietários que, por amor à sua terra, se arruinariam para salvá-la. É pois pelo contrário esse «algo» que enobrece com particular qualidade os materiais. Estes tornam-se gado de uma terra, prados de uma terra, campos de uma terra...

   Assim também nos tornamos no homem de uma pátria, dum ofício, duma civilização, de uma religião. Mas antes de nos reclamarmos de tais seres, convém fundá-los em nós. Pois que linguagem alguma transportará o sentimento da pátria até onde ele não estiver. Só por actos fundaremos em nós o ser que reclamamos. Um ser não pertence ao império da linguagem, mas ao dos actos. O nosso humanismo menosprezou os actos. Falhou em sua tentativa.

 

   [Apenas este parêntese, Princesa de mim, para te lembrar ditos antigos, máximas e propósitos de vida, que ouvíamos na infância, tais como : Res non verba. Ou, já jovens crescidos, aqueles rasgos de divertidas observações queirosianas, em que, por exemplo, se comparavam profissões de fé patrioteiras a declarações de amor declamadas "a uma espanhola barata".]

  

   Eis que o acto essencial recebe aqui um nome : é o sacrifício.

   Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um acto. É um dom de si mesmo ao ser que se pretende reclamar. Só compreenderá o que é uma terra sua aquele que lhe tiver sacrificado uma parte de si, tiver lutado para a salvar, e esforçado por torna-la mais bela. Então lhe virá o amor da sua terra. A nossa terra não é uma soma de interesses, e será errado pensá-lo. É a soma dos dons.

   Enquanto a minha civilização se apoiou em Deus, conseguiu salvar essa noção do sacrifício que fundava Deus no coração do homem (humano). O humanismo menosprezou o papel essencial do sacrifício. Pretendeu transportar o homem (humano) por palavras e não por actos.

 

   Estas palavras foram sendo escritas pelo capitão piloto aviador Antoine de Saint-Exupéry, no activo, nos primeiros anos da segunda grande guerra. Reflectem actos efectivos, e sobre eles pensamsentem. O seu avião foi finamente abatido sobre o mar, em missão de reconhecimento, já próximo do fim da guerra. E desapareceu. Mas recordo-o sempre, ao ler este passo da 1ª Carta de São João : «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte." Na verdade, é do ensinamento, não só de São João, mas da própria essência do cristianismo : já que nenhum de nós viu Deus, não poderemos então dizer que amamos a Deus, que ninguém vê (ou o Homem, conceito abstracto), se não amarmos os indivíduos que são nossos irmãos.

   Aliás, vou confidenciar-te, Princesa de mim, uma experiência íntima que tenho vindo a viver, ao longo do ano que passa. Parece-me que o amor fraterno é como que um adiantamento do nosso encontro final com Deus. Neste sentido, é um verdadeiro acto de fé, pois é substância das coisas que esperamos. Venho perdendo, como sabes, a companhia física de muitos amigos, cujos corpos são cremados ou enterrados. Acabo, agora mesmo, enquanto te escrevo, de saber que morreu o meu querido amigo João Maria Torre do Valle, exímio guitarrista, que tantas vezes, e em tantas partes do mundo, com sua guitarra portuguesa e a companhia da viola de fado do Fernando Alvim, me acompanhou quando eu cantava. Também falávamos muito, desde os tempos da Faculdade de Direito de Lisboa, de outros temas, e esses diálogos ainda não morreram. Acontece-me agarrar no telefone para falar ao Gaëtan, meu irmão de sangue, morto há quase dois meses, ou ao João de Deus ou ao Nuno Lorena.. e a muitos outros que a morte nos tirou da vista  -  alguns há quinze anos, como o António Luciano Sousa Franco, ou mais ou menos, como o Francisco Sá Carneiro, o Magalhães Mota, o Rogério Martins ou o Vítor Wengorovius. Todavia diferentes entre si, a cada um deles e muitos outros, e outras, me ligaram laços de profunda amizade, dessa tal que a liberdade e o gosto do diálogo edificam dentro de nós e em nós permanece para sempre. Ainda há dias, quando deveria fazer anos a Maria Benedita, falei com o Gonçalo, viúvo e triste, mas sustentado por essa presença invisível do amor, que é muito mais do que memória. E também ele me confidenciou que nunca apagava das suas listas os números de telefone dos amigos por agora longe do alcance das nossas redes de comunicação...

   Todos individualmente reconhecidos e amados. Todos vivos na nossa humanidade comum, a tal que mora no coração de Deus.

                                      Camilo Maria

  

 Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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  Minha Princesa de mim :

 

   É ao Pilote de Guerre que vou buscar as formulações transparentes do peculiar pensamento humanista de Antoine de Saint-Exupéry que seguidamente  -  e prosseguindo reflexões encetadas em cartas anteriores  -  para ti traduzo :

   Escorregámos  -  por falta de método eficaz  -  da humanidade que assentava no ser humano, para este formigueiro que assenta na soma dos indivíduos.

   Que tínhamos para opor às religiões do Estado ou de massas? Que acontecera à nossa grande imagem do ser humano nascido de Deus? Já se tornara dificilmente reconhecível através de um vocabulário que se esvaziara da sua substância.

   A pouco e pouco, esquecendo o humano, limitámos a nossa moral aos problemas do indivíduo. Exigimos que ele não lesasse o outro indivíduo. A cada pedra que ela não lesasse outra pedra. E é certo que não se lesam entre si quando estão a monte num campo. Mas lesam a catedral que teriam fundado e que, em retorno, teria fundado o próprio significado deles.

   Eis um trecho de manifesto anti-individualista. Mas, na verdade, o conceito de indivíduo, em Saint-Exupéry, pode parecer ambíguo, pois se o respeito do homem [do humano] não implica prosternação degradante perante a mediocridade do indivíduo, a estupidez ou a ignorância, para a sua formação cristã, que evoca, o exercício da caridade, por exemplo, nunca é uma homenagem prestada à mediocridade, à estupidez ou à ignorância. O médico tinha o dever de empenhar a vida nos cuidados ao pestífero mais ordinário. Servia Deus. Nem se amesquinhava pela noite insone passada à cabeceira de um ladrão. A minha civilização, herdeira de Deus, assim tornou a caridade num dom ao homem através do indivíduo. No fundo, o que se pretende afirmar é que cada um de nós, sendo indivíduo, deve ser preservado do individualismo, precisamente para não ser destruído como pessoa humana.

    Curiosamente, o papa Francisco  -  que não sei de terá lido o nosso Saint.-Ex (pois que tal santo não consta do calendário nem do catálogo santoral)  -  tem vindo a pregar uma cruzada (perdoa-me, Princesa de mim, o antiquado conceito e suas quaisquer consonâncias menos abonatórias, e concordemos em que, tomada sem malícia, é iniciativa louvável num apóstolo) de combate ao individualismo reinante, assim lucidamente vislumbrando a ameaça em que o mesmo se tornou para a saúde mental, cultural e social, e para a democracia idealmente entendida e desejada. Vem o Papa, incansavelmente, lembrando às gentes que não há salvação possível à margem da sorte de tantos indivíduos, que vão sendo esquecidos ou abandonados, São nossos irmãos na humanidade de Deus. Pessoalmente, pensossinto que o mais arrepiante, nesses dramas do ostracismo dos migrantes, ou refugiados sem nada, é os mesmos, ainda por cima, apenas serem sintomas da crescente generalização da desumanidade nas sociedades hodiernas mais abastadas. Como esquecer que o desenvolvimento e difusão de novas tecnologias se vem processando, cada vez mais, pela concentração do poder financeiro seu condutor, e à custa da subjectiva alienação dos utentes em jogos, falsas notícias, postiças ilusões? Ou, talvez pior ainda, pela sua objectiva alienação do discernimento e da liberdade próprios nas garras de poderes políticos que controlam a identidade e a vida de cada indivíduo... Profética, sem dúvida, essa frase de Sint-Ex :

   Bastas vezes te escrevi que estas cartas não são, nem tampouco pretendem ser, sermões ou tratados. São fios de uma conversa que vamos pensando e sentindo, em companhia e partilha. O que a seguir te proponho, a partir de curtas citações do Pilote de Guerre, são pistas para reflexões sobre certos aspectos das nossas sociedades hodiernas : igualdade e identidade, liberdade e respeito próprio, fraternidade e diferença.

   O enunciado dos valores que sustentam (deveriam sustentar) a própria ideia de democracia  -  e a respectiva realização social e política  -  é sobejamente badalado: liberdade, igualdade, fraternidade. Aliás, com várias condicionantes e limitações, tal trilogia já inspirara, muito antes da Revolução Francesa, diferentes utopias, tentativas, ou simples aspirações, de organização social e constituição política. Sou tentado a dizer, Princesa de mim, que o mais recorrente obstáculo à boa realização e progresso de tais projectos terá sido a insistente interferência de certos sentimentos ou preconceitos de superioridade comparativa, de identificações consagradas, de rigorosa estruturação das sociedades pelo ordenamento de classes, com mais propensão ao definitivo gerador de entidade, do que à mobilidade de transições geradoras de inovação e justiça. A universal aspiração da humanidade ao seu próprio autorreconhecimento, em coexistência e convívio fraternos, foi-se todavia mantendo  -  creio, Princesa, por essa misteriosa força a que já chamei, noutras cartas, a original e compulsiva perseverança do ser no ser. E tal mensagem ontológica foi sendo lembrada pela boa nova evangélica, apesar dos todos muitos desvios e atentados contra ela perpetrados pelas igrejas cristãs (ou por tal conhecidas), sobretudo sempre que mais se deixaram cair nas tentações do clericalismo, do sectarismo, e do fanatismo de um deus sem irmãos.

   Para melhor entendimento de alguns problemas ou simples tricas que, hoje em dia, afectam o funcionamento e o próprio desabrochar das nossa democracias, ajudar-nos-á certamente, Princesa de mim, um olhar mais atento sobre o panorama recente da evolução das aspirações sociais, fundamentalmente sobre o que dantes era e depois tem vindo a ser a cultura das suas raízes e da sua flora. Tal exercício assemelha-se quiçá ao dos maiores cultores da ficção literária, às análises que esses escritores fazem de tanto pensarsentir particular, para delas, afinal, ressaltarem o substrato universal. Por outro lado, e aqui entre nós, talvez também nos surpreendamos a sorrir (com alguma malícia?) ao pensar baixinho : "Cá se fazem, cá se pagam!" Mas vamos lá às máximas morais de Antoine de Saint-Exupéry : «Escorregámos  -  por falta de método eficaz  -  dessa humanidade que assentava no ser humano, para este formigueiro que assenta na soma dos indivíduos».

   É fácil fundar a ordem de uma sociedade sobre a submissão de cada um a regras fixas. É fácil modelar um homem cego que se submeta, sem protestar, a um mestre ou um corão. Mas é completamente diferente e mais elevado conseguir que, para libertar o ser humano, ele saiba reinar sobre si mesmo.

   Mas o que é libertar? Se se libertar, num deserto, um homem que nada sofre ou experimenta, que significará a sua liberdade? Só há liberdade para «alguém» que vá a qualquer lado. Libertar aquele homem seria ensinar-lhe a sede e traçar-lhe um caminho que leve a um poço. Só então se lhe proporiam as diligências que já fariam sentido. Libertar uma pedra nada significa se não houver gravidade. Pois que, apenas livre, a pedra não irá a parte alguma.

   Ora, a minha civilização procurou fundar as relações humanas sobre o culto do homem para além do indivíduo, a fim de que o comportamento de cada um para consigo mesmo ou para com outrem já não fosse mais conformismo cego aos usos do formigueiro, mas livre exercício do amor...

... Assim claramente compreendo, a esta luz, o significado da liberdade. É a liberdade do crescimento de uma árvore no campo de forças da sua semente. É o clima da ascensão do homem. É semelhante a um vento favorável. Só pela graça do vento são livres os veleiros no mar.

   Um homem assim construído disporia dos poderes da árvore. E quanto espaço não cobriria com as sua raízes! Que massa humana não absorveria para a fazer desabrochar ao sol!

   [Trechos traduzidos do capítulo XXVI do Pilote de Guerre. As alternâncias entre as traduções do original homme (homem, no sentido global de ser humano) por homem ou humano são sempre arbitrariedades minhas].

 

                 Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há noite que me dê sono antigo, um daqueles de acordar só de manhã, cedo, bem cedo, como tanto gostei ao longo da vida. Hoje, por muito que sossegue o espírito e em mim acalme as agitações dos dias findos, lá vou despertando, agora e daqui a pouco, para os sonhos que me assaltam. Como se entrasse em cena, para vir desempenhar um papel que talvez tenha aprendido, ou devesse saber de cor(ação), mas sempre me deixa entregue àquela qualquer ilusão ou expectativa cujo repentino acordar-me, mais do que lembrar-me, me interroga. Pois que, de todos os sonhos que recordo, ainda que muito nebulosa ou vagamente, apenas sei que insistem em chamar-me ao passado ou, talvez assim te lo diga melhor, aos passados desta minha vida...

 

   Hoje, surpreendentemente, à hora de alba, dei comigo a pensarsentir os movimentos celestes, e a Terra neles, e eu, na ilusão de que o universo gira à volta desta esfera em que pouso os pés, a dar voltas, afinal, inconsciente da rotação e translação do planeta em que sou suposto viver. Mas, todavia, sejamos clarividentes, são esses movimentos circulares ou parabólicos ou algo assim, com as suas oscilações, que nos vão contando o tempo, tal como vão gastando as superfícies do nosso chão e dos nossos horizontes. E nesse mundo onírico em que, sem querer nem sequer desejar, o meu pobre de mim mergulhara, emergiu, como imperativo profético, o sentido pensamento de uma qualquer revolução nada mais ser do que retorno ao ponto de partida. O tempo que nos desgasta e gasta será circular, para nos lembrar a promessa de um reinício sempre desejado. Mas, para que este aconteça, o próprio tempo que agora conhecemos - ou julgamos conhecer - terá de ter chegado ao termo da sua provisória necessidade. Estranho fado, o da humana condição: nascemos no tempo finito, para, quiçá, viver no sem fim de um universo que se expande...

 

   E já digo agora, como canta o fado: Mas isto, meus senhores, foi a sonhar... Só que, digo eu, experientemente, sonhar nem sempre é fácil. Muito menos quando, no espaço-tempo finito, ainda que mal definido e sempre ambulante, o nosso sonho nos leva à cabeceira do infinito. Onde, subjetivamente e sempre sós, tentamos um vislumbre... A qualquer ser humano a morte desgosta tanto que, a bem dizer, não é que ele não goste de morrer mas, verdadeiramente, não quer. E é tal, mais do que desgosto, fúria à morte que nos tem levado a todas essas experiências de prolongamento da vida - hoje tanto em moda - nem que se tenha de congelar um cadáver para que este aguarde a hora em que a ciência humana saiba tirá-lo de tão frio purgatório para novamente o animar...

 

   Essa coisa de nos recusarmos à nossa própria finitude ganha por vezes força maior do que a nossa esperança racional, deixa de ser ponderável, mas é tão somente reação exacerbada a qualquer adivinhado desafio de infinita omnipotência. No teatro onírico de que acima te falo, Princesa de mim, ela representa-se, no concerto astral, como viagem estratosférica, desejada descoberta de um desconhecido que se quer conhecer. Como nos sonhos milenários das religiões antigas, vai-se em busca de um encontro, de um abrigo, de uma morada que, como tudo aquilo que mais amamos, poderá ser fugidio ou inatingível, mas é, como a fé, a substância (o que sub-está) das coisas que hão de vir. Receamos aproximar-nos do sol ou das estrelas, pois que com Ícaro aprendemos como se derrete a cera dos nossos projetos e ardem as asas das nossas iniciativas. Mas tentaremos pousar num planeta, esfera apagada, estrela morta onde esperamos recuperar vida. Quiçá sem realizarmos que, afinal, voltamos à caça do efémero, esse fogo fátuo, repetido aceno do eterno. Mesmo encetada num espaço-tempo que se imagina infinito, qualquer peregrinação nossa, na nossa presente condição humana, nunca passará de uma viagem pelo finito, pela simples razão de que não podemos agora, na nossa presente circunstância, conceber a infinitude. Paradoxo essencial: o infinito, por definição mental, não tem definição possível. Por isso o místico Mestre Eckhart dizia nada para referir o Deus que, todos os dias, pensavassentia a acompanhá-lo, e o teólogo São Tomás de Aquino, autor da Summa Theologiae, afirmava que ninguém jamais vira Deus e que tudo o que ele, frei Tomás, sobre Deus escrevera era palha...

 

   Nesses saltos que os humanos vão ensaiando pelo espaço extraterrestre, vejo, depois de acordado - e talvez influenciado pela leitura de notícias sobre o esgotamento de recursos do nosso planeta - uma tentativa urgente de mudar de casa, de encontrar sítio mais acolhedor, quiçá mais abundante, farto e generoso (sonhar é ainda mais fácil, quando julgamos estar bem acordados...). Então carinhosamente me lembro da nossa Mãe Terra a pedir-nos, como a raposa ao Principezinho, a presença atenta de um amor sábio.

 

   A raposa calou-se e fixou o olhar no Principezinho: «Por favor... Domestica-me!» -  disse.
   - Bem gostaria, respondeu o Principezinho, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos por descobrir e muitas coisas por conhecer.
   - Só conhecemos as coisas que domesticamos, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para conhecer seja o que for. Compram coisas já todas prontas nos mercados. Mas como não existe qualquer mercado de amigos, os homens já não têm amigos. Se quiseres um amigo, domestica-me.
   - Que devo fazer? disse o Principezinho.
   - É preciso ser muito paciente, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco longe de mim, assim na relva. Olhar-te-ei pelo canto do olho, mas nada dirás. A linguagem é fonte de mal entendidos. Mas, dia após dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...

...

   - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
   - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o Principezinho, para se recordar.

   - Foi o tempo que gastaste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.

   - Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o Principezinho, para se lembrar.

   - Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecê-la. Tornas-te responsável para sempre por aquilo que domesticaste. És responsável pela tua rosa...

   - Sou responsável pela minha rosa, repetiu o Principezinho, para se lembrar.

 

   Traduzi o francês apprivoiser pelo português domesticar. O termo gaulês vem do latino apprivatiare, que significa tornar privado, familiar. Trata-se, provavelmente, de evolução a partir do baixo-latim, no século XI. O português também deriva do latim, mas da palavrga domesticus, que radica em domus, que quer dizer casa. Domesticar vem significar então tornar caseiro, familiar. E não será a Terra a nossa casa, sempre à espera da paciência amorosa dos nossos cuidados? O que me seduz nessas etimologias é, sobretudo, o substrato ou substância de relacionamento ou relação: afinal, quem domestica domestica-se... Encontramos assim, não uma dialética de afrontamento, mas uma de harmonização.

 

   Desta minha saída de um pesadelo onírico para um sonho de Antoine de Saint-Exupéry no deserto, em que o Petit Prince vai meditando lições de vida por planetas bem mais exíguos do que o nosso, tiro o ensinamento de que andava precisado e contigo, Princesa de mim, quis partilhar.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não te escrevo para cumprir o prometido devido. Venho fazer-te companhia, e assim também me sinto acompanhado. Escrever é não querer a solidão. Não é bem o mesmo que não querer estar sozinho, a solidão não é física, antes é sentida por essa parte do nosso humano, a tal que não sabemos exatamente o que é, e à qual chamamos espiritual. No passado, muitas vezes te disse que a solidão se me parece à morte, acontece-me pensarsentir que ela é a incomunicabilidade, essa impossibilidade de nos encontrarmos em relação. Pois, humanos, somos necessariamente em relação: cada eu e a sua circunstância. E, ainda, o invisível, o Inefável. Tomás de Aquino tinha uma oração, que recitávamos no colégio, antes de cada primeira aula do dia, e começava por esta invocação: Criador Inefável! Dirigíamo-nos ao invisível, ao inenarrável, a pedir-lhe a fortaleza necessária para enfrentar mais um dia da nossa vida, que seria, como todos os outros, mais um percurso no desconhecido, nessa realidade que insistimos em chamar futuro, apesar de não sabermos, à partida, se, como, e quando virá a existir. Não precisamos de esperar pela morte para saber que uma boa parte de nós é um mistério mergulhado noutro mistério maior. Afinal, todos os dias aprendemos que o caminho da nossa liberdade humana, movida pela inteligência e pela vontade, é o da busca incessante das nossas relações, pois só elas nos realizam e nos explicam... Sobretudo, são essas relações que nos vão ajudando a construir a Relação cujo apocalipse é o triunfo da Vida. Então também lhes podemos chamar «referências».

 

   Quando vivemos os dias e semanas sequentes à morte de um ente querido, podemos experimentar reações inesperadas, tais como nos lembrarmos de lhe telefonar, para contar um episódio, partilhar um pensarsentir, estender uma interrogação. Digo inesperadas, porque não as construímos racionalmente, de modo previsível. Por isso mesmo, pensando melhor, talvez também pudesse dizer que são expetáveis: na verdade, elas obedecem a esse impulso vital, muito profundo, essencial, que é a nossa necessidade inata de comunicação. Quiçá mesmo biológica: quem lidou ou lida com crianças pequenas, ou ainda em gestação, perceberá melhor esta minha intuição. O ser em relação é tão inicial e perseverante que até pode viver noutra circunstância. E assim chego eu, novamente, Princesa de mim, à dimensão divina do humanismo cristão, que vive na permanência do amor: Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte (1ª Carta de São João, 3, 14).

 

   Mas hoje, Princesa, vou deixar as meditações que me assaltam, para dar um passeio contigo por entre outras que me ocorreram a partir de uma metáfora do ser pessoal em ser cultural. Explico-me. Melhor: começo por deixar-te uma explicação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Queensland (Austrália), Christian Reus-Smit, no seu On Cultural Diversity - International Theory in a World of Difference (Cambridge University Press, 2018):

 

   As culturas - sejam elas estruturas mentais estratégicas, nações, civilizações, ou mentalidades coletivas - são geralmente imaginadas como coisas coerentes: integradas, diferenciadas e fortemente constitutivas dos respetivos efeitos...  ...Mas partirei de uma posição completamente diferente. Devemos começar por assumir a diversidade cultural existencial, assumindo que o terreno cultural em que a política joga é polivalente, estratificado, riscado por fraturas muitas vezes contraditórias, muito longe de estar coerentemente integrado ou ligado. Como argumenta Andrew Hurrell, «são precisamente as diferenças das práticas sociais, valores, crenças, que representam a expressão mais importante da nossa humanidade comum... O que nos torna diferentes é precisamente o que nos faz humanos».

 

   Se recuarmos a 1871, encontraremos a definição inicial de Edward Tylor: Cultura ou Civilização é todo esse complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Assim, poderemos dizer que qualquer «cultura» é a circunstância arquetípica da sociedade que se lhe refere, ou que ela envolve. Simultaneamente seu produto e sua condicionante, resulta, de cada vez à sua própria maneira, da relação como um corpo social se estabelece no seu meio ambiente - tal como, já no século XIV/XV, defendia o mouro Ibn Khaldun, de quem te falei já em cartas antigas - e, depois, do modo dialético como se for organizando, económica e politicamente. Curiosamente, o pensamento do vitoriano Tylor foi-se orientando, e até fez escola, no sentido de pretender que, assim explica Reus-Smit, todas as culturas têm características semelhantes, resultantes de causas comuns, pelo que, consequentemente, todas formam parte de uma história humana uniforme... Sem negar o alicerce comum da nossa humanidade, um dos mais famosos críticos das teses de Tylor, o norte americano Frank Boas, embora concordando na verificação de feições culturais reaparecidas em diferentes culturas (quando estudamos a cultura de qualquer tribo, mais ou menos análogas feições de tal cultura se poderão encontrar entre uma grande diversidade de povos, escreve ele no seu Race, Language , and Culture - University of Chicago Press, 1940), irá, todavia, negar vigorosamente que elas tenham necessariamente as mesmas causas : Não podemos afirmar que a ocorrência do mesmo fenómeno é sempre devida às mesmas causas e que, portanto, a mente humana em toda a parte obedece às mesmas leis.

 

   É nesse sentido que, de forma enfática, te repito, Princesa de mim, que aquilo que nos torna mais humanos é a tal diferença que faz de cada um de nós um ser outro do que todos. Sendo que o próprio alicerce da nossa comum humanidade assim nos modelou, todos e cada um, à própria imagem e semelhança de Deus. A tal que nos iguala e nos proíbe de julgar que há pessoas ou culturas superiores ou inferiores. Por isso nos disseram já que Deus é tudo em todos, e aprendemos que o paradoxo humano é o seu valor divino.

 

   Isto assente, sou levado a uma perspetiva dialética das histórias pessoais, como das dos conjuntos sociais que, no decurso do tempo nos vão congregando em movimentos que, tal como cada pessoa face às outras, nos colocam em situações de afrontamento, não necessariamente conflituosas, apesar da própria propensão a sê-lo... Por isso mesmo, tal perspetiva dialética nos poderá ensinar a melhor entender a evolução dos povos, nações, estados, culturas e civilizações, sobretudo se soubermos apanhar essa subtileza de que qualquer confronto poderá parecer-se mais ao encontro do dó com o ré - o tal que, conta António Vitorino de Almeida, gerou o mi, assim nascendo a música - do que a um catastrófico choque de civilizações, como no pesadelo do Huntington.

 

   Espanta-me muito - não só no sentido de me pôr boquiaberto, mas sobretudo por me afugentar o gosto de conversar racionalmente - a moda "viral", como hodiernamente se diz, de se proclamar o drama fatal do declínio e queda do «Ocidente», isto é, da "cultura e civilização ocidental". Pelos tempos que correm, é relativamente fácil saber-se, por aí, que as culturas em que pensamos não são propriedade de ninguém, como, aliás, exemplifica a nossa própria cultura, que outras várias geraram e variegadas gentes nos legaram... E não esqueças, Princesa de mim, que o próprio Huntington foi nebuloso na circunscrição geográfica do «Ocidente» cultural. Niall Ferguson, no seu Civilisation (2011), observa bem que a definição hoje mais conhecida da cultura ocidental, a de Samuel Huntington, no Choque das Civilizações, exclui a Rússia e todos os países de tradição ortodoxa. Aplica-se apenas à Europa Ocidental e à europa Central (sem o Leste ortodoxo), à América do Norte (sem o México) e à Australásia (Austrália e Nova Zelândia). A Grécia, Israel, a Roménia e a Ucrânia não passam no teste. Nem as Caraíbas, quando, pelo menos algumas delas são tão ocidentais como a Florida.

 

   Deduz Ferguson que o Ocidente é mais do que simples noção geográfica: Um conjunto de normas, de comportamentos e de instituições com fronteiras muito nebulosas... Sem querer agora discutir contigo, Princesa, pormenores e fatores constitutivos dessa tal ideia de «Ocidente» - coisa que quiçá farei mais tarde - deixa-me só dizer-te que, hoje em dia, o conceito de cultura ou civilização ocidental é memória histórica, isto é, entra numa categoria conceitual que nos serve de referência para um entendimento do passado. É também, e sobretudo, um mito a marcar o panorama das nossas angústias, medos e desilusões espantadas... Tal não quer, todavia, significar que esse conceito, geograficamente tão vago, seja vazio, destituído de conteúdos próprios, ideais, valores, instituições... Pelo contrário, muitos destes ainda hoje orientam as condutas de muitos povos deste mundo, nem é preciso ser-se europeu ou de raça branca, do hemisfério norte ou do ocidental para nos referirmos a esse complexo de padrões, modelos e estilos de vida a que chamamos cultura ou civilização ocidental. E mais ainda: do mesmo modo que as sociedades nórdicas e ocidentais vão adotando normas, usos e costumes de outros povos e lugares, também nestes se vai impondo uma cultura crescente (por vezes, até, um verdadeiro culto) de valores e referências a que gostamos de chamar nossos; tal como nós, quiçá infelizmente, tendemos a desertá-los...

 

   Chegamos mesmo a ser surpreendidos com inesperadas novidades : à cultura do Iluminismo atribuímos a libertação do espírito crítico entre nós, com o consequente reforço da racionalidade, o declínio da crendice e, até, da própria religião, e um triunfo progressivo das correntes agnósticas e ateístas do pensamento ocidental ; contudo, é no mundo islâmico que hoje mais rapidamente se vão afirmando correntes de opinião sem Deus nem religião, enquanto nas sociedades do ocidente geográfico se vão anichando movimentos que cultivam espiritualidades que, embora estranhas ao cristianismo, a muita gente impõem meditações e motivações da vida humana elaboradas por culturas de alhures, não necessariamente deístas, mas tampouco ateias.

 

   Niall Ferguson pergunta: Mas será verdadeiramente possível uma sociedade asiática tornar-se ocidental se adotar as regras de vestuário e comerciais do Ocidente - como faz o Japão desde a época Meiji - e como hoje, parece, faz quase toda a Ásia? Outrora, chegou a dizer-se que o «sistema-mundo» capitalista impunha uma divisão permanente do trabalho entre o centro - o Ocidente - e a periferia - o resto do mundo. Mas que se passaria se todo o mundo se ocidentalizasse? A menos que as outras civilizações - como defendeu Huntington - se revelem mais resilientes, designadamente a civilização chinesa e o Islão com as suas «fronteiras e vísceras sangrentas»? Em que medida a sua adoção do "modus operandi" ocidental não passará duma modernização superficial sem enraizamento cultural?

 

   Pessoalmente, ainda creio que, precisamente por ser variavelmente dialética (se assim me posso exprimir), a história dos povos, culturas e civilizações não é linear, nem facilmente previsível, passeia muitas cores, pela sombra e pela luz, não é verticalmente a preto e branco, ou seja, ou escura, ou luminosa... Voltarei a esta questão - tal como em correspondência passada tu e eu, Princesa de mim, falámos de inculturações e confrontos - em cartas próximas. Por hoje, permite-me que te deixe com uma orientação a que muitas vezes recorro, na edição francesa (Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, 2002) da Autobiographie e de Muqaddima de Ibn-Khaldun (Túnis,1332-Cairo, 1406), magnificamente apresentada por Abdeselam Cheddadi. Traduzo breves trechos, mas uma lição com mais de seis séculos.

 

   Ibn-Khaldun insiste em ver a história como ciência que investiga os factos, de forma crítica e procurando entendê-los com inteligência. Assim, haverá quem veja o lado de fora da história que, desse modo, se reduzirá a narrativas de dias gloriosos e de dinastias, não se dando conta de como essas narrativas nos dão a conhecer o estado das criaturas e as mudanças que afetaram as suas condições, nem de como se expandiram as dinastias e se estabeleceram na terra até desaparecerem. E haverá outros que a veem do interior, tornando-a investigação especulativa e verificação, estudo minucioso das causas e princípios das coisas existentes, conhecimento aprofundado das circunstâncias e das causas dos acontecimentos.

 

   Ia já assinar esta carta, quando deparo com um artigo de Francisco Bethendourt, professor no King´s College de Londres, intitulado Emancipação (Público, 30 de julho de 2019) e, a respeito da abolição da escravatura, lembrando que a ideia de superioridade implica visão hierárquica entre culturas superiores e inferiores que está desatualizada. E alegra-me, Princesa de mim, poder terminar esta citando esse historiador de prestígio internacional, sobre temas que tanto te referi em cartas antigas : A vantagem de uma atitude de recusa de preconceitos é facilitar a tradução de experiências alheias e produzir um conhecimento acrescido de outras culturas, nas suas formas de resolver conflitos, obter trabalho recíproco, acolher estrangeiros, estabelecer regras comunitárias, relacionar-se com a natureza, mobilizar investimento, recolher informação ou desenvolver reflexão...   ... É esta atitude de abertura e hospitalidade perante outras culturas que nos deverá estimular no presente e no futuro, em lugar de mantermos uma visão virada para um passado mitificado que ignora ruturas, lutas e conflitos entre perspetivas completamente diferentes.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei ainda explicar por que deixei a tua companhia ou, melhor dizendo, porque deixei de te levar a companhia das minhas cartas. É certo que a morte sucessiva de vários e queridos amigos - e, sobretudo, a do meu último irmão, o Gaëtan - me abalou e destruiu paredes cujo convívio, à minha volta, me protegia. Assim fiquei, não sei se entre ruínas ou se apenas só e perdido num deserto que desconhecia. Mas até os desertos - ou eles mesmos mais ainda - abrigam, na aparente e infinita desolação, oásis onde renascem e desabrocham as flores de muitas amizades. E têm sido muitas as que carinhosamente me acolhem e dão sustento, sempre mais presentes e prontas na vida real do que miragens que, por aí, se lançam aos ventos. Muitas vezes pensossinto comigo que nunca perderei essa forma temporal e terrena da esperança, que creio ser a confiança visceral no valor divino do humano, enquanto for conseguindo enxergar tantos bons samaritanos pelos caminhos das nossas vidas.

 

   São esses santos, sempre, hierofanias, manifestações do sagrado, da presença de Deus connosco no quotidiano. Jesus diria que só gente de pouca fé pedirá outros sinais, milagres e aparições, ou mais ainda, por uma qualquer eficácia de gestos mágicos sacrificiais. Mas só o amor do próximo é como um raio do divino em qualquer coração da humanidade. Li hoje (17/9/19), no jornal em linha Sete Margens, um texto de Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Moçambique), intitulado "Albino não morre, só desparece"E se fôssemos "bons samaritanos"?:

 

   ... Amar o próximo é um mandamento em qualquer tradição do mundo. Já o referi, neste espaço, quando comparei os mandamentos da "lei de Deus", de tradição católica, aos mandamentos da cultura e religião bantu, e acredito que nenhuma religião no mundo nos mande o contrário. Haverá, certamente, em cada canto deste mundo, um convite a sermos bons samaritanos.

 

   São Leão Magno, o Papa que enfrentou Átila, o Huno, diz, de modo muitíssimo melhor do que eu, o essencial dos meus textos intitulados COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS, já publicados no bloque do Centro Nacional de Cultura - e que também te enviarei, a ti e a mutos amigos - nos trechos do seu Sermão XII e da sua Carta XXVIII a Flaviano, aqui transcritos:

 

   É indubitável, caríssimos, que o Filho de Deus se uniu à natureza humana tão intimamente que não só nesse homem, que é o Primogénito de toda a criatura, mas também em todos os seus santos, está o mesmo Cristo. E como a Cabeça se não pode separar dos membros, também os membros se não podem separar da Cabeça.  

 

   E se é certo que não é próprio desta vida, mas da eterna, que Deus seja tudo em todos, também é verdade que, já desde agora, Ele habita inseparavelmente no seu templo, que é a Igreja, segundo a sua promessa: Eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos.

 

   Portanto, tudo o que o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, podemos reconhecê-lo não só na história do passado, mas senti-lo também na eficácia do que ele opera no presente.

 

... A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida da nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à nossa natureza passível, a fim de que, como convinha para nosso remédio, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, pudesse ser submetido à morte como homem e dela estivesse imune como Deus.

 

   Numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na sua humanidade. Por «nossa humanidade» queremos dizer a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que Ele assumiu para a renovar.

 

   E se, seja qual for a nossa religião, ou mesmo nenhuma, soubermos ouvir esse apelo do amor de Deus que atravessa a nossa humanidade, a de todos nós, não será só ela a renovar-se, mas toda a face da terra... O meu irmão Gaëtan será, como tanta outra gente que, por aí, vai aprendendo a olhar-se e aos outros, um exemplo de que o amor do próximo, ou seja, a atenção aos outros, não nos nega, não nos esconde, antes nos projeta e põe no nosso lugar: na «nossa humanidade», nessa natureza que o Criador desde o início formou em nós...

 

   Tal «natureza» que, de si mesmo, tão bem - e sempre tão perscrutadora e interrogativamente - foi desenhando nos seus autorretratos, procurou também, quiçá se como comunhão eucarística, nos rostos humanos que encontrava, ao longo de muitos anos, nas ceias de Natal com sem-abrigo, que servia e partilhava, de preferência a sentar-se à mesa mais rica (?) de familiares e amigos. Talvez lembrado do que Jesus dizia sobre quem era a sua família... Nunca lhe perguntei porquê. Hoje, quando já não posso ouvir qualquer resposta da sua boca, talvez escute, num murmúrio da alma, minha Princesa de mim, a história antiga de que ser humano é andar peregrinamente à procura.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira