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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


AVISTANDO AO LONGE AS PIRÂMIDES…
por Camilo Martins de Oliveira


"Cheguei ao Cairo, instalei-me, escrevo-te da varanda do meu quarto, avistando ao longe as pirâmides de Gizé. Sinto-me um qualquer Professor Mortimer e quero desvendar mistérios, daqueles que se escondem nas grandes pirâmides, por serem túmulos, e se encerram no pensamento imperturbável das esfinges, por serem do outro mundo... Mas outra lembrança me desperta e me enche o coração de ternura e benquerer: leva-me à mesa de um restaurante debruçado sobre um mar que se agita muito, ao princípio de uma tarde de inverno, em que o sol vai surgindo e logo foge, soprado pelo vento e batido pela chuva. Estamos só nós dois, acabámos de almoçar e conversamos com a intimidade e confiança de um convívio antigo e secreto. Não sei porquê, solta-se-me simplesmente o gesto, e acaricio com dois dedos as rugas da pele do teu pescoço... Olhas-me como se esse contacto fosse esperado e habitual desde a antiguidade de ti. E ofereces-me um sorriso leve e breve, tão leve que o trago sempre comigo, tão breve que ainda me dura no coração. Não há discurso nem exaltação do amor que diga tanto como esse reconhecimento íntimo e silencioso da alma a que chamamos irmã, porque estava, quiçá, connosco desde antes da memória. No avião que me trouxe, fui lendo as "Lettres d´Égypte" do Pe. Teilhard de Chardin que, ouvi dizer, serão traduzidas para português por um sobrinho nosso. Endereçadas, entre 1905 e 1908, a seus pais, por Pierre Teilhard, são relatos coloquiais das mil e uma descobertas do Egipto por um jovem de vinte e tal anos. Sobre o Cairo de então, paira o fantasma do império otomano, cujo fim, na Turquia, virá com a proclamação da república: Mustafá Kemal (Atatürk) é eleito presidente em 1923. No Egipto, já os ingleses se lhe substituíram em 1882, tal como o farão, em 1917, na Palestina. Transcrevo-te este trecho de uma das cartas: "Finalmente, visitei as ruínas de uma mesquita muito antiga do Cairo... ...tem-se uma vista magnífica sobre todos os velhos bairros do Cairo, cobertos de minaretes, percorridos por ruas tortuosas, apinhadas de camelos, de melancias, de ovelhas e de árabes. Todo este movimento, visto de cima, longe do cheiro e da curiosidade indígena, era duplamente curioso de observar. Está-se a restaurar esta mesquita, como muitas outras na cidade. É uma boa obra, porque nisso fizeram os turcos coisas muito bonitas. Nestes dias, li um livro cheio de interesse para quem viu um pouco as coisas do Oriente: "Les mémoires du Marquis de  Noinel", por Vandal: a maioria dos aspetos dos costumes observados em Constantinopla, no reinado de Luís XIV, encontram-se ainda hoje por cá...".


Fui a esta carta do Marquês de Sarolea - e a esta citação do jovem Teilhard - por me ter chegado de Paris, ainda com cheiro a tinta, um livro de Vincent Lemire intitulado "Jérusalem 1900 - La ville sainte à l´âge des possibles", em que se fala do facto e feito histórico que foi o município intercomunitário, como entidade única e partilhada de gestão daquela urbe, de 1860 a 1930. A sua instituição facultou um período de convívio pacífico e governo comum (de muçulmanos, judeus e cristãos) e ainda se aguentou por mais treze anos, depois da substituição do império otomano pelo mandato britânico. Aquele ocupou Jerusalém durante quatro séculos, de 1517 a 1917. No tempo para que iremos olhar, a tolerância do governo otomano produziu frutos. Personagem central do pensamento fundador e da ação executora desse projeto de coexistência, partilha e identidade na cidadania da Cidade Santa, o palestino jerusalemita Yussuf Ziya al-Khalidi, que foi presidente da Câmara Municipal de Jerusalém e deputado, pelo mesmo círculo, ao Parlamento Otomano em Istambul. Escrevia ele, a 1 de março de 1899, ao Grande Rabino de França, Zadoc Kahn, este envolvido no crescente movimento sionista: "Gabo-me de não precisar de falar nos meus sentimentos para com o Vosso povo. Todos os que me conhecem sabem bem que não faço qualquer distinção entre Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Inspiro-me sempre na sublime palavra do Nosso profeta Maleaqui: "Então não temos um pai comum a todos nós? Não foi o mesmo Deus que nos criou a todos?" E, noutro passo, sobre o Sionismo: "A ideia em si mesma é totalmente natural, bela e justa. Quem pode contestar o direito dos Judeus sobre a Palestina? Deus meu! Historicamente é mesmo o Vosso país! E que maravilhoso espetáculo seria se os Judeus, tão talentosos, fossem novamente reconstituídos numa nação independente, respeitada, feliz, podendo prestar, como outrora, serviços à humanidade!" Mas, com o realismo de um político palestiniano, que viu mundo, fala e escreve francês, alemão e inglês, além de turco otomano e árabe, acrescenta: "Temos de contar com a realidade, com os factos adquiridos, com a força brutal das circunstâncias. Ora a realidade é que a Palestina é agora parte integrante do Império otomano e, mais grave ainda, é habitada por outros além dos israelitas. Esta realidade, estes factos adquiridos, esta brutalidade das circunstâncias não deixam ao Sionismo, geograficamente, qualquer esperança de realização, e é sobretudo uma ameaça para os Judeus da Turquia". Tem razão Vincent Lemire quando considera que as reservas de al-Khalidi ao projeto sionista se fundamentam na sua experiência de gestão da Cidade Santa: "Fui durante dez anos presidente da Câmara de Jerusalém e, depois, deputado desta cidade ao Parlamento imperial, e ainda o sou; estou a trabalhar para o bem da cidade, para lhe levar água potável. Falo-vos pois com conhecimento de causa. Consideramo-nos, nós, Árabes e Turcos, como guardiães dos lugares sagrados para três religiões: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. Pois bem: como podem os condutores do Sionismo imaginar que poderão arrancar esses lugares sagrados às duas outras religiões que são largamente maioritárias?" Da história dessa teimosia, nem o Tintin se livrou. Em "Au Pays de l´Or Noir", desembarcado em Haïfa, o nosso herói é raptado por terroristas judeus da "Irgoun", que o tomam por Salomão Goldstein. Por aí vai parar ao deserto, depois de um bando árabe ter interceptado o carro em que os seus primeiros raptores o levavam... O primeiro "Tintin" que recebi - e li com gosto - foi, em 1947, o "Tintin en Amérique". Presente de Camilo Maria. De então em diante, ao ritmo das suas edições, fui recebendo as outras aventuras do jornalista sem idade. Foi outro modo de o Marquês de Sarolea me abrir portas para o mundo...


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 15.02.2013 neste blogue.

ANTOLOGIA

DE REGRESSO À MISTERIOSA PRINCESA _ CMO.jpg

 

DE REGRESSO À MISTERIOSA PRINCESA…
por Camilo Martins de Oliveira

 

O acervo de apontamentos e várias anotações e comentários, de poemas e tentativas poéticas e de cartas do Marquês de Sarolea, foi-me por este confiado no decurso de encontros e conversas em que fomos convivendo, em Bruxelas, de 1973 a 1979, ano da sua morte. Posso dizer que, se ele me conhecia desde a minha infância, só a partir de então eu comecei a conhecê-lo, pois ainda hoje o vou descobrindo e tentando compreender uma pessoa aparentemente complexa, mas finalmente tão direta nas suas contradições e tão verdadeira consigo, mesmo frente à angústia.

Tenho vindo a percorrer esse espólio, espreitando, aqui e ali, coisas que possa ou deva comunicar. Eis um labor difícil, porque sei que a escolha será sempre subjetivamente minha... e também pelo pudor de revelar a intimidade de alguém tão próximo de mim, ainda que outro. Todavia, não foi minha a iniciativa destas revelações.

A ideia partiu da Princesa de... que, aí por 1978, entregou a Camilo Maria as cartas que ele lhe escrevera ao longo de muitos anos. Com o conselho de que ele fosse ali buscar, para posterior publicação, os trechos que, em seu entendimento, melhor transmitissem a riqueza de tantos pensamentos e da expressão de sentimentos, de que apenas ela, até à data, usufruíra. Em contrapartida das cartas assim devolvidas, apenas pediu que nenhuma das que ela escrevera fosse sequer referida, nem ela mesma identificada, nem qualquer data que permitisse situá-la na vida do seu "único e tão especial amigo". O mesmo amigo, citando T. S. Elliot, disse-me que o tempo passado encerra o tempo futuro. E Camilo Maria - que ganhara horror a datas e à contagem do tempo - confiou a este Camilo a tarefa de o comunicar: "Tenho mais 42 anos do que tu, nascemos no mesmo dia, no mesmo signo, recebemos a graça pelo mesmo nome. Somos parentes iguais, só nos separa a idade, que é um modo do tempo: não conta."

E cá estou eu. Deparo-me com muitas páginas de dissertação sobre temas de filosofia moral, política e social; sobre artes, letras e música. Mas demoro-me mais naqueles textos em que Camilo Maria se exprime (se confessa?) sobre a sua relação com Deus e os homens, com a Igreja da sua fé e o mundo como condição. E gosto muito do que tenho lido sobre o amor humano, a relação entre homem e mulher. Em papéis esparsos - e creio que separados também no tempo - há ideias e sentimentos que repetidamente se revelam. Um dos mais fortes é a procura constante do encontro espiritual com o outro (ela), como se o amor entre esses dois seres se formasse e existisse fora do tempo e do espaço, nascido de uma mútua descoberta e sustentado por íntima fidelidade:

     "Penélope me sinto.
     Faço e desfaço, refaço
     a teia da saudade em que me prendes...
     Fico à tua espera
     e bem mereces
     um coração fiel
     que te pertença."

Num apontamento espúrio, dos tais que hesito em recolher e fixar, conta que se deliciou, na ópera de Viena, com "Cosí fan tutte" de Mozart, dirigida por Karl Böhm. Regressado a casa e ao chocolate quente, acrescenta: "A fidelidade, a verdadeira, não é um comportamento social que representa - ou simula - o respeito pela cláusula pertinente de um contrato. Tal como um comportamento menos convencional - e até aparentemente transgressor - pode não ser uma infidelidade. Não digo que seja recomendável..., mas no que toca à relação amorosa entre duas pessoas, poderá certamente ser um simples fait divers! Porque a fidelidade pode ter ou sofrer amolgadelas ou feridas, mas só define o seu sentido essencial se for mais consistente e densa (mais fiel) do que um desvio. E para assim ser, não pode nem deve a fidelidade ficar estática, adormecida. Qualquer compromisso que eu assuma, antes de ser com outro, é comigo, com a minha consciência, perante a qual respondo. Em coisas e vidas de amor, a fidelidade é, por isso mesmo, uma procura, diria mesmo uma obrigação de procura do outro.

Na contingência da minha condição humana, só saberei resistir às forças centrífugas com que a minha circunstância me vai tentando, se quiser acompanhar a força centrípeta que é a procura constante, a incessante descoberta do amor que encontrei. Quando assim é, quando me entrego à aventura difícil, até o ciúme deixa de ser manifestação de posse (é impossível e indesejável possuirmo-nos: a descoberta do outro é sempre um caminho de liberdade reconhecida, porque é renúncia e responsabilidade), para se tornar no acicate da procura da proximidade pelo despojamento de si."

Não sei se isto vai bem escrito em português. Mas ainda suei umas gotas na tradução.

 

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 08.02.2013 neste blogue.

ANTOLOGIA

 

Erasmo-de-Roterdao.jpg

 

INDO A ERASMO DE ROTERDÃO…
por Camilo Martins de Oliveira

 

Dizia eu que um dos motivos do meu regresso ao espólio do meu homónimo Camilo Maria fora uma edição discográfica inspirada no "Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdão". (Mais uma iniciativa de Jordi Savall, na sua preocupação com itinerários de diálogos pluriculturais). Aquele que foi amigo de Thomas More e Damião de Góis, entre outros, e que foi considerado um "reformador" da Igreja - com Melanchthon e Lutero, e outros mais (no entanto, contra o próprio Lutero recusou-se a abandonar a fé católica) -, era um homem de sageza e espírito aberto e benevolente, que se manteve fiel à confissão pública de uma Igreja que, por vezes "oficialmente" pouco atenta ao mundo e receosa dos homens e da história, nem sempre foi capaz de entender os ideais de informação racional e crítica, e de diálogo, do humanismo renascentista. Terá muitas vezes sentido - ele que recusou o barrete cardinalício proposto pelo papa Paulo III, mas foi conselheiro de Carlos V e amigo do papa Adriano VI - quanta fé e serenidade inteligente são por vezes necessárias para se cultivar e manter bem viva a fidelidade à misteriosa comunhão dos santos.

 

Foi este apego simultâneo à fidelidade na fé e na comunhão da Igreja, mas também ao exercício da liberdade responsável - já que, como disse S. Paulo aos Coríntios, "em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum" - que levou o Marquês de Sarolea a interessar-se por Erasmo, como, mais tarde, pelo pensamento eclesiológico do Padre Yves Congar, dominicano perseguido, depois perito do Concílio Vaticano II e, finalmente, cardeal.

 

Apesar de nos desviar deste discurso - e só por citar Erasmo de Roterdão (Erasmus van Rotterdam) e o seu "elogio" ou "Laus Stultitiae" ou, ainda, "Encomium Moriae" - não resisto a traduzir uns passos de uma carta de Camilo Maria à Princesa de... aqui vai:

«Posto que o bom senso se deve à experiência, a quem deve ele ser reconhecido? Ao Sábio que nada empreende, por modéstia ou timidez de carácter; ou ao Louco, isento de modéstia, que não pode ser tímido porque não conhece o perigo? O Sábio refugia-se nos livros dos antigos, e nada aí aprende, além de frias abstrações; mas o louco, abordando as realidades e os perigos, adquire, a meu ver, o verdadeiro bom senso...". "Ocorre-me, minha muito querida, este passo de Erasmo, por me ter lembrado da nossa visita, em Roma, à igreja de San Luigi dei Francesi. Parámos longamente a contemplar "O chamamento (ou a vocação) de S.Mateus" de Caravaggio: um raio de sol entra pelo lado superior direito do quadro, apanha a mão direita, indicadora, de Cristo, e vai iluminar a mão de Levi (Mateus) que ao seu próprio peito pergunta: sou eu?

 

No Evangelho atribuído a Mateus (pouco importa se o seu autor material foi a mesma pessoa) o episódio é descrito com intensa brevidade: "Ao passar (Jesus), viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: Segue-me. Ele levantou-se e seguiu Jesus". Eis um ato de loucura simples: Levi abandona-se ao perigo, a um salto no desconhecido...

 

Mas não será o desconhecido metade, pelo menos das nossas vidas? O que é, afinal, a realidade? Aquilo que presumimos nosso e segurável, indiscutível, inalterável?

 

Por me teres dito que relesse o evangelho de S. Mateus, dei com os versículos seguintes a este relato: "Encontrando-se Jesus à mesa em casa de Levi, muitos publicanos e pecadores estavam também à mesa com Jesus... ao verem-no comer com eles, os fariseus interrogavam os discípulos: Porque é que ele come com publicanos e pecadores?... Jesus respondeu-lhes: eu não vim chamar os justos mas os pecadores!"

 

Jesus Cristo, pelo seu desafio das convenções e da morte, era certamente louco. Isso mesmo concluirá Moria (Loucura, em latim) no "Elogio". Como se, parafraseando S. Paulo, dissesse que a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens.

 

As lembranças são como uma sobremesa de cerejas... com "champagne" a refrescar a gorja e a memória e as cerejinhas a puxarem por uma e por outra!

 

A esperança dos pecadores, levou-me de Roma a Washington, ao “Regresso do filho pródigo" do Bartolomé Murillo, exposto na National Gallery of Art. Não sei porquê, há nessa cena de um pai velhinho que se debruça para abraçar um filho suplicante, não só uma representação, quiçá edificante, da misericórdia de Deus. Há mais: há uma alegoria do Amor. Tout court. Como escreveu um grande poeta português: "Transforma-se o amador na cousa amada..."

 

Transforma-se, digo agora, o misericordioso no perdoado... A misericórdia - chamemos-lhe mesmo perdão - está na essência do Amor. Não é possível perdoar sem sentir o que é a sublime alegria de se ser perdoado. Não quero ser blasfemo: mas muitas vezes me ocorreu que a compaixão de Deus - esse sofrer (com os homens) que é a crucifixão e morte de Jesus e que se repete na eucaristia - é Deus que perdoa e pede perdão. É a única resposta possível à existência do mal. Fora disto, tudo é absurdo. Nem haveria ressurreição.

 

Também de misericórdia recíproca se alimenta afinal o amor humano. Recordo aqueles versos que há anos te escrevi:

     Amo a transparência  
     do teu olhar magoado
     e guardo em meu silêncio
     a memória desse olhar...
     e é tão bom tê-lo em mim
     assim guardado
     por muito que me pese
     o seu pesar:
     tão leve é o peso
     das penas partilhadas
     e tão manso e doce
     podê-las partilhar.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs.: Reposição de texto publicado em 01.02.13 neste blogue.

ANTOLOGIA


RECORDAÇÕES MUSICAIS E UMA PRINCESA…
por Camilo Martins de Oliveira


Três edições discográficas recentes e um livro que recebi ainda com cheiro a tinta trazem-me à memória uma pessoa querida de mim, logo direi quem. Os discos são recordações de géneros musicais (e não só) diferentes (graças a Deus!): um, que me chegou de Londres, dá pelo título de "18th-century Portuguese Love Songs"; o segundo reúne várias gravações de música do séc. XVI sob o tema do "Elogio da Loucura" de Erasmus van Rotterdam; o terceiro é uma interessante e sentida achega ao fado, não só enquanto expressão musical, mas como tradição de sensibilidades culturais e seu encontro. Também já veremos como. A pessoa recordada por mim foi - e é-me - muito próxima: pelo seu nome (incompleto) de batismo era meu homónimo: Camilo Maria, 15º marquês de Sarolea, nascido em 1900 e falecido em 1979. Confiou-me um perturbante espólio de cartas e apontamentos vários, alguns dos quais se referem às obras ou temas que acima invoquei. Os textos respetivos foram redigidos em várias línguas: francês, alemão, algum inglês, castelhano, italiano e português. Por vezes recheados de citações e trechos em latim e grego. Confesso que, muitas vezes, me inspirei neles para o que, ao sabor do gosto de dizer ou da necessidade íntima de fazê-lo, eu mesmo escrevi autenticamente meu. Hesitei em rever essa herança interior, por receio ao espelho. E mais ainda receei manifestá-lo, porque o pudor deverá ser discreto. Mas nem sempre resistimos à tentação de comunicar o que temos por indizível. Ao escrever estas linhas (quantas serão?), move-me um como reconhecimento da brevidade da vida, e o assentimento de que há um coração dos homens cuja idade não sabemos, talvez por ser na eternidade. Numa carta escrita a uma princesa que não ouso identificar, Camilo Maria cita estes versos de "modinhas" portuguesas de fins de setecentos ou princípio de oitocentos, as tais de que William Beckford dizia que "os que nunca as escutaram nunca conhecerão a música mais voluptuosa e feiticeira que existiu desde os Sibaritas. "Foi por mim, foi pela sorte /minha desgraça tecida/sou, ó céus, bem desgraçada / nem morro nem tenho vida!" Ou ainda: "Amor vem manso, mansinho, / no coração habitar. / E depois de estar de dentro, quer só ele as regras dar... / Ai amor, amor, amor / vocês zombam com amor / e não é para zombar..." Vêm as citações na sequência de uma referência circunstancial: "Achei-te triste e fechada esta manhã, eu que te estava (e estou!) tão grato por me teres visitado. Talvez depois da tua partida, pela tarde, o dia entristeceu e se fechou. Mas rezo e penso que as nuvens tão baixas nos trazem para perto o céu... e que esta chuva miudinha vai encharcando os campos de frutas e flores, de sombras futuras e benignas, e de cores, tantas cores, que ainda não vemos! Tudo afinal se cria no escuro silencioso do mistério, nesta promessa ininteligível do Deus que esperamos... É bom contemplar, neste despojamento húmido e incolor do inverno, o Ser que é e está além das aparências. Na saudade, que se exprime sempre em português, estás comigo, dou-te a mão e olho. E o que vejo é uma paisagem que se despe com um misterioso pudor, lento e manso, verde, amarelo, castanho, cinzento, melancólico e frio... tão cheio da graça que emprenha a terra e nos torna sublimes de esperança! Bem hajas!" Nenhuma correspondência entre Sarolea e a Princesa (de …)  é datada. Tampouco achei nela indicação de lugar ou destino. Mesmo a simples alusão a efemérides ou a tempos circunstanciais não me permitem datá-la ou localizá-la. Como se tudo se situasse fora do tempo e do espaço. Ou como se a atualidade de coisas passadas reclamasse a constância de algum modo de ser... Talvez o ser tenha, para além do ser-se, uma consistência própria. Uma densidade ignota, entre a gravidade e a graça, na alma de cada ser humano. Somos, como diz Ortega y Gasset, que tanto gosto de citar, trânsfugas da natureza... Mas seremos também, acredito, trânsfugas de nós mesmos. Há um qualquer território da nossa alma, dessa parte de nós que inconscientemente, por vezes, definimos arriscando dizer "sou eu mas não sei explicar"... há, em cada um de nós, esse território ou terra de ninguém. Onde Jacob lutará com o anjo. Ou onde, talvez, infelizmente, já não haja luta alguma. A ideia da condição humana como batalha, o desgosto do mundo a par da insatisfação com o silêncio de Deus, tudo isto marca a pessoa e os escritos de Camilo Maria que tantas vezes usava uma tradução italiana dum seu apelido alemão, apresentando-se como Vecchio Borgo. Veremos, se for eu capaz de os traduzir, outros passos de textos em que ele quis dizer um percurso espiritual que, todavia, para quem o conheceu "em sociedade", era insuspeitado. Estava simplesmente no lado de lá, no lado do silêncio. Transcrevo, de uma das cartas (de amor?) que sou tentado a revelar, este trecho: "Alheio, mudo, indiferente,/ nos leva o tempo o momento,/ o dia, a hora, a vida toda.../ na roda desse vento acordamos e sabemos/ a manhã que já foi ou já se irá embora!/ Peregrinos hoje e sempre.../ Em qualquer hora!


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 25.01.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


RECORDANDO MOZART
por Camilo Martins de Oliveira


A Maçonaria, como muitas outras instituições, também tem os seus mitos fundadores: neste caso, teria sido fundada por Hiram, o arquiteto do templo de Salomão, em Jerusalém. Ou, ainda, ascende à criação do mundo pelo próprio Grande Arquiteto, momento fixado, num calendário maçónico, em 4 mil anos antes de Cristo... Mais prosaicamente, as ordens que hoje incluímos na designação genérica de Maçonaria, resultam da transformação, na Inglaterra do princípio do século XVIII, de corporações de pedreiros, que até aí existiam para defesa de um ofício e da classe que o exercia, em centros de reflexão filosófica orientada pela procura do aperfeiçoamento dos indivíduos e das sociedades, em conformidade com valores próprios do Iluminismo: autonomia das pessoas e do pensamento, racionalismo, solidariedade e universalismo. A iniciação na nova ordem não obrigava à renúncia da fé religiosa de cada um, nem à contestação da tradição eclesial ou da legitimidade do poder político, desde que fosse aceite o preceito de que aqueles não eram nem podiam ser isentos de crítica racional... A esse sentido junta-se uma oportunidade de promoção social que - num ambiente político e convencional diferente, em que as próprias instituições eclesiásticas se deviam sujeitar ao poder do príncipe "iluminado" - servia também as ambições dos músicos (Haydn e Mozart, p. exemplo), por vezes cansados do tratamento que lhes impunham os seus senhores temporais, fossem estes príncipes da Igreja (como Colloredo) ou seculares (como os Esterhazy). A adesão à Maçonaria, tal como a submissão ao novo poder imperial, traduzem sobretudo o desejo, e a cautela, de se manterem na crista da onda, mais livres como homens e como artistas, e poderem privar com uma elite de patrocinadores que já não corresponde ao padrão do senhor feudal que os tratava como lacaios... Mas não duvidemos da sinceridade e do entusiasmo de Mozart quanto aos ideais de racionalidade, liberdade e fraternidade com que a Maçonaria lhe acena: testemunham-no vários passos da sua correspondência familiar. E, ainda, os hinos ou cânticos escritos para várias solenidades ou efemérides maçónicas. Há um sentimento de emancipação que se contrapõe ao "jugo" do arcebispo Colloredo de Salzburg e à lembrança das vezes em que este terá humilhado e magoado o genial compositor que tinha ao seu serviço. É evidente que o reconhecimento da primazia da razão implica o da liberdade da consciência e, colateralmente, o da igualdade entre os homens e a afirmação da fraternidade como valor universal. Num tempo em que o absolutismo monárquico se afirmava e as igrejas cristãs, na esteira das lutas da Reforma e Contra-Reforma eram ferozmente apologéticas e afirmavam a sua autoridade sobre as consciências, tal reclamação da autonomia intrínseca aos seres racionais era, para muitos, fascinante. Aliás, já a própria evolução das corporações "operárias" para círculos mais especulativos contou com a presença influente de membros do clero, da nobreza e da alta burguesia que se pretendiam ou desejavam "esclarecidos". As designações das lojas maçónicas, como veremos acompanhando Mozart, são proclamações dos ideais acima apontados. Mozart, como Haydn e Leopoldo Mozart, iniciam-se na Maçonaria da Viena do imperador José II, quando esses ideais se manifestam com mais força na capital do império austríaco, em ascensão e expansão rápidas, mas finalmente breve. Se aquando da iniciação destes músicos praticamente no último dos 5 anos do apogeu das lojas vienenses, estas eram oito, em breve não seriam mais de duas, na sequência da determinação "Freimaurerpatent" de José II, com data de 11 de dezembro de 1785. O "despotismo iluminado", pressentindo a crise de que a Revolução Francesa seria a referência máxima, impunha a sua ordem. Com o encerramento de lojas como sua causa e efeito, as deserções aumentam: o próprio Ignaz von Born, Grão-Mestre da loja "Zur wahrer Eintracht" (da verdadeira concórdia), em que Haydn fora iniciado a 11 de fevereiro de 1785 (Mozart, nessa altura já com o grau de mestre na loja "Die Woltätigkeit" - o benfazer - assistiu à cerimónia) abandonará a ordem em 21 de agosto de 1786. A sociedade dos livre-pensadores e bem-pensantes vienenses que, ao abrigo do suposto liberalismo secular e crítico do imperador, se reunia e reconhecia nas lojas maçónicas, resignou-se. Os éditos imperiais visavam as lojas "deístas", mais fiéis à tradição britânica "newtoniana", como a "Zur wahren Eintracht", que muitos suspeitavam, ou mesmo acusavam, de materialismo e ateísmo, pelo que os respetivos membros não seriam nem verdadeiros católicos nem austríacos de verdade… A loja de Mozart, "Zur Wohltätigkeit", apesar da desconfiança dos seus relativamente ao que consideravam a hegemonia e autoritarismo da Igreja Romana sobre o pensamento e as consciências, apoiou as reformas de José II, vincando bem a sua fidelidade aos princípios e valores de um catolicismo "iluminado". O próprio Mozart compôs, em janeiro de 1786, dois hinos maçónicos ("Ihr unsre neue Leiter" e "Zerfliesset heut"), em celebração do encerramento da "Zur Wohltätigkeit" e da abertura da "Zur neugekrönte Hoffnung", resultante da fusão, conforme à determinação imperial, da loja em que fora iniciado com a "Zur gekrönte Hoffnung". A primeira é um apelo, no momento do encerramento, à colaboração de todos na continuidade da construção do edifício maçónico: "Vós que sois os nossos novos mestres/sede agradecidos também pela vossa fidelidade/guiai-nos constantemente pela senda da virtude/para que cada um se alegre com a cadeia/que o une a seres melhores/e lhe adoça o cálice da vida..." A segunda é claramente um aplauso às reformas josefinas: "Entregai-vos hoje, caros irmãos,/a arroubos de contentamento e cânticos de alegria/ porque a benevolência de José/ de novo nos coroou, a nós cujo peito/ arde de uma tripla chama,/ e coroou a nossa esperança..." Ambos estes cânticos foram escritos para solista (tenor),coro masculino e órgão, em jeito de cantata. Curiosamente, a música sacra composta por Mozart para celebrações litúrgicas católicas é bastante mais rica do que a maçónica: 19 missas (incluindo a de Requiem), vésperas, litanias, motetes e outras peças, além de muitas sonatas de igreja para órgão. Também as suas cartas testemunham, em vários passos a sua fé religiosa e crença firme na imortalidade da alma: "Dizes que não devo esquecer-me de que tenho uma alma imortal - escreve ele, em 1781 ,ao pai - e eu, não só me lembro disso como nisso firmemente acredito. Se assim não fosse, que diferença haveria entre os homens e os animais?". Homem do seu tempo, Wolfgang Amadeus não só não deixou de interrogar a sua fé, como deixou que esta interrogasse o tempo e o modo do mundo em que viveu... E neste a Maçonaria inspirava-se também do que alguém apelidou de "religio duplex", encontrando-lhe a presumível fonte na coexistência, no antigo Egipto, de uma religião exotérica (para todos) e outra esotérica (só para alguns iniciados). "A Flauta Mágica", pelo seu enredo e desfecho, como pelo recurso à evocação de divindades egípcias, é disso exemplo. Mas confrontado com a "reforma" josefina - que visou coartar o secretismo e a influência conspiratória que vocacionam organizações de "iniciados" - Mozart não hesitou em apoiá-la, por inspiração da sua fé católica.

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 18.01.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


O ESQUECIMENTO DO OUTRO…

por Camilo Martins de Oliveira


"Quem se diminuir crescerá; quem se engrandecer diminuirá". Estas palavras têm para nós uma ressonância evangélica. Tal como são de indiscutível atualidade as seguintes: "Há três espécies de perigos no mundo dos homens: o primeiro, ser pouco virtuoso mas receber muitos favores; o segundo, ser pouco competente mas ocupar um posto bastante elevado; o terceiro, não ter realizado nada de extraordinário mas serem-lhe atribuídos chorudos emolumentos". Estes pensamentos são retirados do capítulo XVIII ("Do mundo dos homens") do Huainan zi, tratado de filosofia taoísta e forte influência confucionista, elaborado, no sul da China, na segunda metade do séc. II antes de Cristo, sob a égide de Liu An, príncipe de Huainan e neto do imperador Liu Bang, fundador da dinastia Han. Esta obra revela, subjacentes aos ensaios que a constituem, ou à preocupação de síntese entre o pragmatismo político de Lao Zi e o individualismo místico de Zhuang zi, um conhecimento enciclopédico das lendas e narrativas, tradições religiosas e filosóficas, ciências e técnicas, eventos políticos e outros, dos tempos iniciais da era Han, como de outras anteriores. A ilustração ou fundamentação dos pensamentos expressos no Huainan zi é feita pela referência a textos e memórias de antanho (e não foi este também o método que Frei Tiago Voragino usou, quinze séculos mais tarde, para a sua Legenda Aurea?). A título de exemplo, transcrevo este passo: "Que quer dizer: quem se engrandecer diminuirá? Outrora, o duque Li de Jin declarou a guerra, no sul, a Chu, a leste, a Qi, a oeste, a Qin e, no norte, a Yan. Por todo o lado, o seu exército fazia lei e impunha, sem hesitar, o seu poder. Conseguiu assim concluir uma aliança em Jialing,"o belo outeiro", com senhores feudatários. Então, ufano das suas vitórias e cheio de arrogância, levou uma vida de deboche e tiranizou os dez mil povos, de tal modo que nenhum ministro o quis assistir, nem senhor algum dos outros principados quis prestar-lhe o seu apoio. Mandou executar um dos seus principais ministros e tornou obsequiosos os seus íntimos. No ano seguinte, aquando da sua incursão em terras do clã Jiangli, Luang Shu e Zhonghang, raptaram-no à força e prenderam-no. Nenhum senhor feudatário o quis socorrer, nem as cem famílias se afligiram. Sofreu portanto a morte, ao terceiro mês. Com efeito, numerosos eram os príncipes que alimentavam a ambição de aumentarem os seus territórios e imporem ao respeito os seus nomes por vitórias militares e ganhos de guerras ofensivas, mas o duque Li de Jin acabou por perder a vida e o principado. Eis um exemplo do que dissemos acima: quem se engrandecer diminuirá". Liu An, apesar de neto, primo e tio de imperadores - e ele mesmo ter sido considerado para o efeito - foi liquidado "por razões de Estado". Como, aliás, uns séculos depois, numa Palestina fora da órbitra do Império do Meio, o seria Jesus Cristo... Os demónios que nos habitam não gostam da verdade que nos obriga a ser humildes e generosos. E tem sido enorme, monstruoso, o mal que o orgulho e a ganância têm trazido, por milénios e séculos, à história dos homens. "A essência do pecado - dizia o dominicano francês Jean Cardonnel - é a estupidez". A prepotência e o egoísmo são o esquecimento do outro e, por aí, a afirmação de um vazio. Pois nada somos sem os outros connosco: o ser humano é, ontologicamente um ser em relação. A crise das sociedades hodiernas é a do pronunciamento humano - desde logo necessariamente solidário - da globalização que queremos. Se esta for a da imposição de leis ditas "do mercado", que são simplesmente a aposta dos atuais detentores do poder financeiro num jogo que lhes parece convir-lhes, talvez nos enganemos e percamos o futuro. Não sei se iremos ainda a tempo de corrigir o rumo, mas sejamos, pelo menos, fiéis ao nosso princípio: o Homem como medida de todas as coisas. Porque nas guerras que já se adivinham num horizonte cada vez mais negro, seremos nós os duques Li de Jin.

 

Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 11.01.13 neste blogue.

ANTOLOGIA


O INÍCIO DE UMA NOVA ERA
por Camilo Martins de Oliveira


Frei Tiago Voragino conclui o seu sermão sobre a Natividade do Senhor - de acordo com o texto incluído na Legenda Aurea - com o comentário sobre a utilidade dessa manifestação de Deus, depois de ter comentado, como vimos, o maravilhoso do acontecimento e o modo múltiplo, cósmico, como este se manifestou. "Ela vale, antes de mais, porque confunde os demónios: o inimigo já não pode prevaler-se do poder que tinha antes desse nascimento". Como ilustração, refere episódios sucedidos em mosteiros clunicenses, onde o virtuoso comportamento e a disciplina dos monges afugenta o diabo, que ali procurava instalar-se. A mensagem é clara: o Natal de Jesus marca o início de uma nova era na história da humanidade, que pode enfim libertar-se do pecado e das suas servidões. "Em segundo lugar, esta manifestação é útil para a obtenção do perdão. Lemos num livro de exemplos que uma mulher de má vida, que regressara enfim à sua consciência, desesperava do seu perdão; pensando no Juízo, considerava-se culpada; pensando no inferno, estimava-se merecedora de ali ser torturada; pensando no paraíso, estimava-se impura; pensando na Paixão, considerava-se ingrata. Mas, tendo ideia de que as crianças se deixam facilmente enternecer, rezou a Cristo pelo nome da sua infância e teve a graça de ouvir uma voz que lhe concedia o perdão".  O que Frei Tiago diz é que o Cristo infante é já o Cristo da Paixão, Aquele que padeceu, com infinita simpatia, o pecado do homem, para que com Ele ressuscitasse Homem Novo. "A terceira utilidade toca na cura dos nossos males. Diz S. Bernardo: "O género humano sofria de três doenças, ao princípio, no meio e no fim, isto é, no seu nascimento, na sua vida, na sua morte... ... O seu nascimento (de Cristo) purificou o nosso, a sua vida ordenou a nossa, e a sua morte destruiu a nossa". E continua Voragino: "A quarta utilidade dessa manifestação consiste na humilhação do orgulho. Por isso Agostinho diz que "a humildade do Filho de Deus, que a mostrou na incarnação, foi para nós um exemplo, um sacramento e um remédio. Ofereceu um exemplo muito apropriado, imitável pelo homem; um alto sacramento, capaz de nos livrar das amarras do pecado; e um remédio poderosíssimo, capaz de curar o abcesso do nosso orgulho"...  E Frei Tiago conclui: "A sua humildade desencadeou-se pelos homens, para serviço e salvação deles, até eles, por um modo de nascer análogo ao deles; e acima deles, por um modo de nascer diferente. Pois o seu nascimento foi, por um lado, análogo ao nosso: nasceu de uma mulher e saiu pela mesma porta de filiação. Por outro lado, o seu nascimento foi diferente: nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria". Que atualidade têm estas reflexões sobre a lição do Natal, feitas na segunda metade do século XIII? Num tempo que foi, quiçá, até ao Iluminismo do século XVIII, o período de maior cosmopolitismo de ideias na Europa, pois procurou reunir, analisar e comparar, as heranças bíblicas e patrísticas, gregas e romanas, árabes e das tradições "bárbaras" e populares que permaneceram, assentes em variados suportes, desde a queda do império romano até ao advento da sociedade urbana, pré-industrial, comercial e universitária da Europa pré-renascentista. Fala-se aí do poder do demónio, do pecado como negação, e da humildade como força de redenção e esperança. Ora bem: essa do demónio - ou dos demónios que habitam os homens e Shakespeare tão intensamente evocaria, três séculos depois da "Legenda" - não é uma ideia originalmente cristã, pois que a ideia do mal e seus agentes é tão velha como a humanidade e a consciência; a ideia de pecado como culpa própria ou fatídica de ofensa ou omissão, já estava nos temores literários anteriores a gregos, troianos e hebreus; como também não é exclusiva a ideia cristã de que se pode sempre fazer diferente, mais e melhor. E também será claro, para quem pense e procure tentar o bem - para os de boa vontade, sejam crentes ou não - que só a humildade nos pode levar ao reconhecimento do outro, ao diálogo e à construção da justiça e da paz. E o que é ser humilde? Não é, certamente, aceitar com recalcamento o jugo que nos é imposto, nem, por outro lado, considerarmo-nos acima do direito dos outros. Da lição da Natividade de Jesus, que vimos acompanhando, ressalta o exemplo de ter-se o próprio Deus feito igual aos homens... Por ser Deus com os homens é Deus sempre, e acompanha-nos no esforço de construção de uma sociedade mais justa e anunciadora de paz. As igrejas cristãs - católica incluída - talvez tenham insistido demais no pecado como culpa individual, concentrando-o, ainda por cima, sobretudo na transgressão de normas de comportamento sexual e de outras fraquezas da carne. Mas não será pecado maior aquele que ofende o Espírito Santo, isto é, a estupidez de se pretender o igual de Deus no juízo dos homens? O mandamento primeiro e maior é o do amor: o que fizeres a cada um destes pequeninos, a mim o fazes; antes de apresentares a tua oferta no altar, reconcilia-te com teu irmão.  Justiça e paz.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 04.01.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


TRÊS OBRAS SINGULARES

por Camilo Martins de Oliveira


A quinta categoria das criaturas, aquela que está acima das outras por possuir o intelecto, isto é, conhecerem Deus, de Quem são mensageiras, são os anjos. A manifestação da Natividade pelos anjos é anunciadora: no momento da conceção por Maria, ou na chamada feita aos pastores. Mas é também uma proclamação, na terra e nos céus: "Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade!" - cantam anjos feitos de luz, entoando cânticos de júbilo...Na homilia de Frei Tiago Voragino, as cinco ordens de manifestações do Natal do Senhor, que fomos acompanhando, preenchem o comentário mais extenso dos três que o dominicano faz nessa ocasião: "Note-se que o nascimento de Cristo chegou de modo maravilhoso, manifestou-se de modo múltiplo, e demonstrou-se útil". Vejamos então o modo maravilhoso do acontecimento e a utilidade deste. O modo maravilhoso advém da mãe, do menino dela nascido, e de como este foi gerado: a mãe era virgem antes de dar à luz e virgem permaneceu; o menino que então nasceu" reuniu na mesma pessoa, como diz S. Bernardo, o eterno, o antigo e o novo. O eterno é a divindade, o antigo é a carne transmitida desde Adão, o novo é uma alma criada de novo. Além disso, como Bernardo diz: "Nesse dia, Deus realizou três misturas, três obras tão maravilhosamente singulares, que nada semelhante nunca fora feito nem jamais o será. Trata-se da conjunção de Deus e do homem, da mãe e da virgem, da fé e do coração humano..." E o modo como esse menino foi gerado é maravilhoso porque, diz o Voragino,"o livramento ultrapassou a natureza, posto que uma virgem concebeu. Ultrapassou a razão, pois foi Deus que ela engendrou. Ultrapassou a condição humana, visto que deu à luz sem dor. Ultrapassou as normas, porque concebeu pelo Espírito Santo: a Virgem, com efeito, não engendrou a partir da semente humana, mas a partir de um sopro místico. Pois o Espírito Santo tomou o que de mais puro e casto havia no sangue da Virgem para com isso formar um corpo. E assim manifestou Deus uma quarta maneira de criar o homem. Assim o diz Sto. Anselmo: "Deus pode criar o homem de quatro maneiras: sem homem nem mulher, como o fez para Adão; pelo homem sem mulher, como o fez para Eva; pelo o homem e a mulher, segundo o modo comum; e pela mulher sem o homem, como milagrosamente se fez neste dia."O que acabámos de ler não é o relato factual e literal de realidades sensorialmente apreensíveis. É a narração de um acontecimento que, pela sua natureza inefável, divina, só intuiremos pela sua ilustração. Traduzir-nos o invisível, é procurar essa conjunção da fé e do coração humano, sabendo que ainda não podemos ver mas apenas acreditar no que não vemos. As narrativas bíblicas, a literatura patrística, a própria tradição popular da revelação são eminentemente significantes de realidades e verdades ontológicas que as criaturas humanas que somos - e não possuem a tal quinta qualidade, a do intelecto, que só os anjos têm - não podem ainda ver... A revelação cristã é uma promessa feita na e pela história dos homens. A fé é uma resposta a essa promessa com outra: a da fidelidade ao que ainda não vemos mas esperamos ver um dia plenamente. No séc. XIII, um frade dominicano, depois arcebispo de Génova, dedicou trinta anos a reunir e traduzir, para contemporâneos e vindouros, lendas, narrativas, comentários e lições de antanho. Meditou sobre esses textos, e deles extraiu conceitos e pistas que os abrissem a uma nova contemplação da condição humana e do seu destino. Não insistiu em superstições e medos, antes procurou dar ânimo ao necessário afrontamento do mistério e do infinito depois dele. Do Natal tirou ainda mais umas lições, como proximamente veremos.

 

Camilo Martins de Oliveira

ANTOLOGIA

  


FREI TIAGO VORAGINO

por Camilo Martins de Oliveira


A iconografia dos antepassados, da família, do nascimento e da infância de Jesus que a tradição dos crentes, pelo imaginário popular, foi reproduzindo em inúmeras imagens e outras representações artesanais, ou ainda, através de magníficas obras de arte hoje espalhadas pelos museus do mundo e pelas igrejas, do Vaticano a Portugal, ao Brasil, às Filipinas, pela terra inteira... é maioritariamente inspirada pelas descrições que se encontram na "Legenda Aurea", que já conhecemos e visitámos. As fontes dessa obra de Frei Tiago Voragino são muitas, desde os livros canónicos da Bíblia a textos cristãos primitivos apócrifos até aos escritos dos Padres da Igreja, de bispos, monges, eremitas e santos, cronistas e comentadores, dos primórdios da cristandade até ao séc. XIII. Escreve Jacques Le Goff: "Tiago Voragino explora os géneros tradicionais da Idade Média: a compilação e, especialmente no séc. XIII, a enciclopédia. Os clérigos da Idade Média fizeram da compilação um método original e criativo... Quanto à enciclopédia, é uma especialidade que ocupa um bom lugar no grande movimento do progresso intelectual do séc. XIII: é uma suma que permite dar a medida dos conhecimentos acumulados, para que sirvam de apoio a ir-se mais longe." Para esta quadra natalícia, retenhamos também esta afirmação do professor e historiador francês:"Como diz Tiago Voragino no princípio da "Legenda Aurea", o mais importante neste desenrolar do tempo litúrgico, que é também o tempo da história, é a Incarnação de Deus: "pelo advento de Jesus Cristo tudo foi renovado". O séc. XIII é um século em que os valores descidos do céu à terra permitem aos homens apoiar-se no presente para seguirem em frente. É um sécúlo de otimismo e esperança". No presépio cósmico de Voragino que começámos a visitar entrando, por uma pintura de Fra Angelico, na manifestação da Natividade pela terceira categoria das criaturas, ou seja, pelos animais (burro e boi), a primeira proclamação da Incarnação de Deus é todavia feita pelo primeiro tipo de seres criados: os corpos puramente materiais. Pelos opacos, primeiro, com a queda da estátua de Rómulo e a sua destruição com o templo de Roma e a de muitas outras estátuas em inúmeros lugares. Já o profeta Jeremias dissera aos reis do Egipto que os seus ídolos cairiam quando uma virgem desse à luz um filho... Mas também corpos transparentes e translúcidos deram a conhecer o nascimento do Salvador, como predissera a Sibila: nessa noite, a escuridão do ar se transformou em dia claro, e uma nascente de água em fonte de óleo a desaguar no Tibre... Finalmente, deram sinal os " corpos puramente materiais luminosos como os corpos celestes"... "Segundo a narrativa dos antigos, como diz João Crisóstomo, aos Magos que rezavam no cimo de uma montanha apareceu uma estrela, mesmo sobre eles. Essa estrela tinha a forma de um lindo menino, sobre cuja cabeça brilhava uma estrela. Esse menino dirigiu-se-lhes e disse-lhes que fossem à Judeia, onde encontrariam um recém-nascido. E nesse mesmo dia, três sóis apareceram no oriente, que, a pouco e pouco, se fundiram num único corpo solar. Assim se significava que o conhecimento de Deus trino e uno se espalharia por todo o universo, ou então que tinha nascido aquele em que três coisas, a alma, a carne e a divindade se conjuntavam numa só pessoa..." Frei Tiago, que viria a ser arcebispo de Génova, vai agarrando notícias, lendas e narrativas constantes da tradição romano-latina numa Europa que fora dominada e dividida pelos "bárbaros" conquistadores do Império Romano, e procura servir-se delas para consolidar a história e o pensamento de uma cultura em que se enraíze uma sociedade nova: a que se desenvolverá por burgos e cidades, em corporações e universidades, em comércio, indústria e navegação. Saída dos medos e da insegurança dos campos e florestas, a gente europeia começa a lidar mais racionalmente com o escuro da história e as superstições antigas.

  

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 21.12.12 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


LEGENDA AUREA

por Camilo Martins de Oliveira

 

A quarta categoria de criaturas, as que possuem a existência, a vida, a sensação e a razão, segundo o frade dominicano Tiago Voragino, reúne os seres humanos. No presépio cósmico da Legenda Aurea, o homem manifesta a Natividade através dos pastores e de César Augusto. A fonte do relato da adoração dos pastores é o Evangelho de S. Lucas; a do episódio do imperador Octávio encontra-se nas "Historiae adversus paganos" de Orósio. Traduzo os pertinentes trechos da Legenda: "No instante da Natividade, os pastores vigiavam os seus rebanhos, como era costume duas vezes por ano, na noite mais longa e na noite mais curta do ano. Era com efeito um costume antigo entre os Gentios, observarem-se essas vigílias em cada um dos dois solstícios, o do verão por volta da festa de S. João Baptista, e o do Inverno, por volta do Natal, por veneração pelo sol. E esse costume desenvolvera-se sem dúvida entre os judeus, por força dos contactos entre populações. Ora, um anjo do Senhor apareceu aos pastores, anunciou-lhes o nascimento do Salvador e onde encontrariam o sinal dele. Uma multidão de anjos reuniu-se para cantar "Glória a Deus nas alturas..." Assim vieram os pastores e encontraram tudo o que o anjo tinha anunciado. Este nascimento foi também manifestado por César Augusto, que então ordenou que mais ninguém tivesse a audácia de lhe chamar "senhor", segundo o testemunho de Orósio. Foi, sem dúvida, depois de ter tido essa visão à volta do sol, que se lembrou simultaneamente da queda do templo e da nascente de óleo; compreendeu então que um ser maior do que ele tinha nascido para o mundo, e nunca mais quis ser chamado deus nem senhor..." Torna-se aqui evidente que este relato recolhido de Orósio, é um trecho das "Historiae adversus paganos", de coisas contadas contra os pagãos. Mais de mil anos depois do nascimento de Jesus Cristo, na era do imperador Octávio, o Voragino vai colher a uma história apologética mais antiga, mas provavelmente divulgada, um argumento para afirmar a razão primeira do poder de Deus sobre todas as coisas, inclusive o exercício do poder temporal ou político. Não defende uma teocracia, mas diz que o soberano não deve ser jamais considerado nem deus, nem senhor: a Deus o que é de Deus, a César o que de César é. E, no conjunto desta cosmogonia, sobressairá também uma lição de democracia: o séc.XIII  -  que será, aliás, o século da Magna Carta, antecessora do Habeas Corpus inglês - é um tempo de afirmação de identidades nacionais, certamente, mas pela força das cortes que reúnem os três estados sociais, e reclamam o exercício do princípio do direito romano de Ulpiano: "Justitia est jus suum cuique tribuendi", ou seja, a justiça é o dever de se dar a cada um o seu direito. O fim do feudalismo, que terá, em muitos aspetos, uma longa e lenta agonia, inicia-se com este movimento do surto de classes médias, independentes do poder feudal, que prenunciam uma sociedade nova, em que os desvalidos da mudança de regime político-económico e a necessidade de desvendar e ordenar uma cultura que enraíze as gentes e as faça crescer como árvores, para o porvir, encontram, no eco-sistema religioso em que vivem, uma resposta organizada e ativa nas ordens religiosas mendicantes: franciscanos que, como subproletários, praticam a pobreza como evangelho de esperança; dominicanos, que, no despojamento de riquezas e preconceitos estabelecidos, apelam à razão para esclarecer a fé. A meditação da Legenda Aurea sobre o nascimento de Jesus, para ser mais claramente entendida, deverá ser olhada no caleidoscópio da circunstância do seu tempo. Mas, por aí, também nos aperceberemos que, tendo data, não é datada, antes atual será, mutatis mutandis, claro está.


Obs: Reposição de texto publicado em 14.12.12 neste blogue.