Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entendeste bem o significado das minhas duas últimas cartas sobre imperadores e providencialismos. Não busco ninguém em particular, apenas evoco exemplos de como as chamadas figuras importantes, sobretudo as que consideramos históricas, têm sempre duas existências: a real, aquela que foi ou ainda é facto, e a mitológica, essa que se fabricou, fabrica, e finalmente perdura no imaginário das pessoas. [Nota que isso pode acontecer com gente medíocre, como muitos que povoam a via láctea do empíreo político português]. A primeira é bastante desconhecida, ignota, secreta ou, melhor ainda, como diz o povo, só Deus a conhece. Nós, o vulgo, procuramos descobri-la pela recolha de informação ou por investigação histórica, mas dificilmente lá chegamos, ainda que possamos progredir numa compreensão mais objetiva e honesta de personagens e acontecimentos. Já a segunda, quando não é construção nossa, nem faz parte do nosso património cultural valorativo, pode ser livremente interpretada e (des)valorizada, mas não a controlamos: será mais um dado de facto, um fator condicionante dos eventos sociais que tentamos perspetivar e analisar. E, neste caso, a pessoa mitológica é realmente persona, isto é, muito mais ficção ou ator do que ser humano em carne e osso. Eis como a vida política é tão encenada.

 

   E, em política, constrói-se assim uma personagem muito complexa na sua aparente simplicidade de líder. No subconsciente dos grupos sociais obram desilusões e ressentimentos, nostalgias e recordações de perdas, que se tornarão em reclamações e desejos de desforra, em aspirações a grandezas imaginadas e reformas genéticas de passados por completar, se puderem incarnar-se na persona providencial e daí apelarem a todos os corações. Tal "ungido" de muitos procurará então valer-se das legitimidades necessárias à sua afirmação e ao seu percurso. Sobretudo à dos valores históricos e constitutivos de uma nação, incluindo a fidelidade religiosa. Casos claríssimos são o de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa, o de Modi com uma versão hindu extrema e exclusiva do hinduísmo, ou de Erdogan, disfarçado de Ataturk (mas ao contrário), e outros vários líderes islâmicos, e o dos governantes ditos populistas em países europeus, incluindo os membros da UE situados no Leste europeu que constituem o grupo de Visegrad (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria), apelando ao nacionalismo eurocético, às suas tradições étnicas e religiosas. É claro que o atual jogo russo não os deixa indiferentes, mas pensossinto, Princesa de mim, que se sentem um pouco órfãos: ali mesmo onde passava geograficamente a Cortina de Ferro, avolumam-se hoje promessas por cumprir, a par de sonhos de identidade a recuperar. [Talvez por isso o papa Francisco - que tão energicamente tem reclamado o acolhimento de migrantes pela Europa - tem sido bastante discreto a questionar estes países...]

 

   Mas, além dos exemplos apontados e alguns mais, não esqueçamos, Princesa, outros "populismos" por aí disseminados que, pouco indigitados, têm todavia o que se lhes diga em matéria eleitoralista e suas consequências, mesmo na política internacional. Curiosa ilustração é o movimento sionista ou messiânico cristão, nos EUA, do qual aliás te falei numa das minhas cartas sobre Jerusalém, quando referia um discurso do vice-presidente Pence. Já então deixei claro que tais cristãos milenaristas partilham, com os sionistas judeus, a crença de que, no fim dos tempos, a Terra Santa ficará totalmente na posse do Povo de Israel, pois que lhe está prometida na Bíblia, e então virá o Messias. Na cena final, as duas fés divergem quanto à questão de o Messias regressar ou vir finalmente pela primeira vez e, sobretudo, quanto a quem sofrerá a conversão final: se todos os judeus ao cristianismo, ou se os cristãos ao judaísmo. O certo é que os sionistas cristãos apoiam e financiam a ocupação da Palestina pelo estado de Israel, e exercem pressão influente sobre o presidente Trump quanto ao reconhecimento de Jerusalém como sua capital. Imagina, Princesa de mim, que até aludem à oxigenada poupa trumpista como evocação da cabeleira do rei David, descrita na Bíblia. Tudo isto nos faria rir imenso se, com John Bolton a Conselheiro da Segurança Nacional, depois do ex-CIA Mike Pompeo a Secretary of State, os EUA não estivessem tentados a ir para a guerra ao lado de Israel, até porque cada um dos grupos milenaristas acredita que será inevitável a destruição bélica do terceiro lugar mais sagrado do Islão, hoje sito onde, no longínquo outrora, estivera localizado o Templo de David e Salomão. 81% desses cristãos sionistas votaram em Donald Trump nas presidenciais americanas e são-lhe, no conjunto do Bible Belt, um trunfo eleitoral indispensável. 

 

   Já os valores que o atual presidente americano invoca para granjear apoios são populistas, populares com pouca transcendência, pretendendo sobretudo entusiasmar um sonho americano de superioridade mundial e nacionalista (America First), tudo ou muito projetado ao jeito de um empresário obcecado pelo regresso da sua empresa a indiscutível nº1 do mercado, e utilizando métodos semelhantes (vg. os sucessivos despedimentos e substituições de pessoal, sem outra razão que a do quero, posso e mando; ou, ainda, a chantagem negocial). Os seus apoios não são, por isso, institucionais nem históricos (até procura desdizer, maldizer ou destruir outras políticas nacionais recentes). São apostas oportunistas, tal como o trumpista fazer e desfazer de propostas internacionais. Donde os meios de comunicação on line que privilegia.

 

   No seu notável China - a New History (Harvard University Press, 1992), John King Fairbank tem um capítulo sobre o que chama Imperial Confucianism, sucintamente definido como uma amálgama de legalismo e confucianismo: O recurso à violência pelo governante permaneceu sua prerrogativa relativamente ao seu povo como aos seus funcionários. Mas não podia governar apenas pela força e precisava portanto da ajuda Confucionista para mostrar o seu constante propósito moral de benevolência e conduta apropriada. Sob orientação Confucionista, o imperador cada dia cumpria rituais e cerimónias que eram a sua específica função de Filho do Céu. (Today`s White House foto-ops and sound-bites would have seemed quite natural to him.) A ironia da frase final, que deixei propositadamente em inglês, sugere e disfarça uma semelhança e um abismo. Paradoxal simultaneidade, uma tendo a ver com os métodos de publicitação de atos políticos, o outro separando a durabilidade de tradições, ancoradas no subconsciente coletivo, da leviandade do mero "marketing" político. Reparaste já, Princesa de mim, nos grupos que rodeiam Trump, na Casa Branca, para as fotografias de promulgação de um decreto? No anúncio de medidas protecionistas, até estavam figurantes operários de várias etnias, incluindo hispânicos de tez e feições claramente meso americanas... A primeira grande diferença entre a RPC e os EUA, hoje em dia, é que a primeira tem consciência das opções de política interna necessárias e possíveis ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano e social da China, e dispõe do poder político suficiente para as pôr em marcha. A segunda é que a própria noção dessa vantagem, enquanto ordenada pelo poder político, está inculturada no seu povo e é por essa mesma cultura popular disciplinada, sendo o "show off", o "marketing" político mais arte para o exterior, exposição de fachada. Mas com clara perceção do mundo hodierno, onde terão de investir, ser investidos, comprar e vender, pois há muito já entenderam que o declínio da potência chinesa começou quando a dinastia Ming desistiu da expansão... Esta atitude é mais uma vantagem competitiva sobre a trumpista política supremo-isolacionista. A China dos nossos dias sente-se preparada e pronta para entrar na globalização, muito à sua maneira, é certo, mas também com a força necessária para participar no concerto das nações. E um concerto, como bem sabes, Princesa, é um conjunto de instrumentos vários e frases musicais que se afrontam e desafiam, tendo por fim a harmonia. Em carta futura te falarei dum conceito chinês milenário, que dá pelo nome de tianxia, uma visão do mundo como um todo, onde se apaga o sentimento de estrangeiro ou de inimigo. Conceito hoje retomado pelo filósofo Zhao Tingyang, quiçá em vias de aproveitamento pelo poder político chinês, para afirmação universal do seu nacionalismo.

 

   A grande vantagem da China hodierna, pois, é a sua cultura milenária dispor um povo à obediência e dispensar excessos de "marketing" político para uso interno. E, curiosamente, esse profundo sentimento de identidade parece estar a dar-se muito bem com as perspetivas duma entrada mais descontraída nas cenas que estão em palco no mundo... Da música clássica ao futebol e à "loja do chinês", do turismo à filosofia. E mesmo, até, às relações com o Vaticano, que talvez redefinam uma nova forma de cristianismo parcialmente cesarista, a juntar, historicamente, à moda romana antiga, ou à bizantina, ou à ortodoxa russa... E, no caso específico da guerra comercial que os EUA iniciaram, a China aguentar-se-á bem melhor a prazo.

 

   Este último cesarismo ou tzarismo é o que Vladimir Putin, com alguma habilidade, e bastante violência ao jeito soviético, mas também com raízes na antiga autocracia imperial, procura ressuscitar numa Federação Russa economicamente esgotada e militarmente ultrapassada. Aliás, com recurso a métodos de fácil paralelismo com os trumpistas. Por exemplo - conta-nos o jornalista russo independente Mikhail Zygar (num livro publicado em francês pela Cherche Midi, intitulado Les Hommes du Kremlin) - que o homólogo de John Bolton é hoje um ex-chefe do FSB (ex-KGB), Nikolaï Patruchev, o novo Secretário Geral do Conselho Russo de Segurança, o principal falcão da Rússia, assim como ponta de lança do anti ocidentalismo e do anti americanismo no seio do poder russo. Curiosamente, Hélène Carrère d´Encausse, a franco-russa (georgiana como Estaline), que foi politicamente próxima de Jacques Chirac, deputada pelo RPR ao Parlamento Europeu, e é hoje Secretária Perpétua da Academia Francesa, autora de um livro que li há décadas e me abriu um olhar novo sobre a URSS (L’Empire Éclaté,  Flammarion, Paris,1978), pediu recentemente (3ª feira, 3 de Abril, na Salle Gaveau, em Paris) que se matizassem um pouco os juízos sobre Vladimir Putin, lembrando que, até 2004, ele fora homem de mão estendida ao Ocidente (cf. Le Figaro de 5/4/2018)...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   O golpe de estado do 18 de Brumário (9 de novembro) de 1799, termo da primeira década da Revolução Francesa, traz à tona a nova burguesia, aquela classe de oportunistas que foi sabendo mexer os cordões do PREC coevo, e até foi designada por Nação, quando mais não era do que a faixa de 2% da plebe, os privilegiados que faziam negócios e ganhavam fortunas. No Antigo Regime, a assembleia dos representantes da nação (em Portugal chamada Cortes), reunia três classes: clero, nobreza e povo. Com a revolução, acabou por congregar só uma - em liberdade, igualdade e fraternidade -, mas, nessa mesma, uma minoria era mais livre, mais igual e, com ironia, mais fraterna do que o povo em geral. Este, acabou por ser constituído por citoyens passifs (expressão de Sieyès), assim se respeitando o conselho de Voltaire que diz ser país bem organizado aquele em que le petit nombre fait travailler le grand nombre, est nourri par lui, et le gouverne.  

 

   Seguir-se-á o Consulado e o Primeiro Cônsul tornado Imperador. Napoleão será a reincarnação "republicana" da monarquia, muito próxima, aliás, da fórmula de Luís XIV: L´État c´est moi.

 

   A China também terá, a partir de 1912, os seus imperadores republicanos: Sun Yat-sen, fundador da modernidade sínica, e Chang Kai-shek, durante a primeira república, Mao Zedong, Deng Xiaoping e Xi Jinping, em tempos de república popular. Deixa-me ler-te um texto de Sun Yat-sen:

 

   Na China, desde a Antiguidade, a maioria dos indivíduos dotados de forte ambição sonhou ser imperador...  ... Esse tipo de ambicioso encontra-se em todas as idades da história, sem interrupção...  ... Assim, na história da China, em qualquer idade, sempre se lutou pelo trono imperial, e todos os períodos de anarquia que o país sucessivamente atravessou tiveram a sua nascente nessa luta pelo trono. Os países estrangeiros fizeram guerras de religião, ou bateram-se pela liberdade. Na China, desde há milhares de anos, lutou-se perpetuamente por essa única questão:  vir a ser imperador.

 

   [Introduzo aqui uma máxima de Benjamin Constant, amante de Mme. de Staël, filha de Necker, conspirador do 18 Brumário, que Napoleão fez Tribuno: a política é, antes do mais, l´art de présenter les choses sous la forme la plus propre à les faire accepter. Sugiro, Princesa, que a tenhas sempre, subconscientemente, como lembrete].

 

   Para melhor entendermos a figura do Imperador no imaginário religioso, ético e político chinês, na sua própria visão do mundo, cito-te, primeiro, Confúcio: Quem governa pela virtude é comparável à estrela polar, imutável no seu eixo, mas centro de atração de todo o planeta. Dito este, claramente, nos antípodas do de Constant. O Imperador Celeste é paradoxal, ser humano e ser divino, senhor e chefe de todos, mas por todos, finalmente, controlado. Recorro a duas longas transcrições para entendermos melhor. A primeira é tirada de La Vie des Chinois au temps des Ming (Paris, Larousse, 2003), de Gilles Baud-Berthier e outros:

 

   Fils du Ciel, l´empereur est un être quasi divin. E traduzo: Manda em todos e só obedece ao Céu e aos seus próprios antepassados. Mas é também aquele que cumpre os ritos oficiais, o chefe dos funcionários, o pai dos seus súbditos. E finalmente é um homem como os outros, movido pelas suas ambições, as suas inclinações, as suas fraquezas...

 

   A segunda transcrição, muito mais longa, traduzo-a de um livro recente (Paris, Perrin, fevereiro de 2018), da autoria de Bernard Brizay, cuja leitura te recomendo: Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine. Trata-se, aliás, não de um texto do próprio Brizay, mas de um trecho que ele respigou de La Chine devant l´Europe, livrito escrito pelo marquês de Hervey de Saint-Denys, em meados do século XIX, e publicado no reinado de Xianfeng:

 

   Chamam-lhe Filho do Céu, desejam-lhe dez mil anos de vida, prestam-lhe honras divinas. Ninguém pode passar diante da porta exterior do seu palácio, de carro ou a cavalo. O seu trono, mesmo vazio, é respeitado tanto como ele mesmo seria. Recebem de joelhos os seus despachos, queimando incenso. Comanda 400 milhões de homens. A sua morada é uma autêntica cidade, rodeada de altas muralhas, recinto reservado aos inúmeros serviços de uma corte sumptuosa. Ali se encontram casas de habitação para o imperador, a imperatriz, as princesas ou damas de segunda classe, as de terceira e até de quarta classe; pavilhões de trabalho para os ministros; salas de receção, de representação, de audiência; outras consagradas às cerimónias religiosas ou às festas do monarca; exércitos de oficiais de todas as patentes, de servos e de eunucos; oficinas imensas onde todo um mundo de operários se ocupa no fabrico sem interrupção dos objetos necessários aos sete ou oito mil habitantes dessa cidade privilegiada. Nenhum príncipe se encontra rodeado de maior prestígio, pompa e magnificência...

 

   Mas o arguto marquês francês acrescenta: No meio de todos os atributos do poder soberano, o temido monarca não pode dar um passo como entender. O seu vestuário, os seus atos, as suas posturas e as palavras que pronuncia são regulados por minucioso cerimonial. A ordem das suas refeições, a natureza e a quantidade dos alimentos que lhe são servidos em cada estação, em cada circunstância, são igualmente determinadas... Numa palavra: a sua vida é o cumprimento de um rito.

 

   Assim também, ainda nos nossos dias, se desenrola a vida do imperador e família do Japão, Império do Sol Nascente. Herança vinda, da dinastia sínica dos Tang, para a corte nipónica de Nara. Na tradição sino-nipónica, a personagem cuja designação traduzimos, nas línguas ocidentais, por imperador, tem um carácter hermético, que encerra a presença do divino numa terra eleita, podíamos até chamar-lhe mistério, um sacramento da união do Céu com a Terra, pois estabelece essa ligação. Não é exatamente o mesmo que o imperator romano, este apenas um deus entre deuses vários, assim por política obrigatoriedade de veneração dum soberano, mais fácil de impor a um universo de povos, culturas e religiões diversas quando tal poder é sacralizado. Sabes, Princesa, o que a recusa do reconhecimento da divindade imperial custou aos judeus e aos cristãos primitivos. Para estes, a perseguição político-religiosa durou até à conversão de Constantino, em 322. Mais tarde, Roma irá servir-se da religião cristã - já também religião do próprio imperador - como cimento do império, tornando-a religião oficial. E assim se iniciarão séculos de conflitos entre o poder temporal e o espiritual, e períodos de confusão entre ambos. Quando o nosso Afonso Henriques busca e consegue o reconhecimento papal dele como rei, por exemplo, não é só uma bênção religiosa que procura, é a afirmação do poder papal como o único entre o rei e Deus. Para melhor entendermos tal diligência e o seu objetivo final, transcrevo-te um trecho do prólogo da obra El Rey, Historia de la Monarquia, por vários autores (Editorial Planeta, Barcelona, 2008), escrito por Rafael Escudero (das Reales Academias de la Historia y de la Jurisprudencia e Legislación):

 

   Hay, sin embargo, una forma egrégia y superior de ser rey, la de ser rey de reyes o emperador, de lo que en nuestra historia constatamos un intento frustrado (el de Alfonso X, que trató en vano de conseguir el imperio alemán) y dos bellas realidades en la Edad Media y en la Moderna. En aquella, com la Península articulada en diversos reinos, el caso del Imperio castellanoleonés, com un rey, Alfonso VI, que aparece como «emperador de toda España» o «emperador de las dos religiones», o de Alfonso VII, coronado emperador en la catedral leonesa de Santa María en 1135. En la Edad Moderna, en fin, el emperador por antonomásia, Carlos, que se hizo com la Corona imperial en 1519 y de quien diria ante las Cortes el doctor Pedro Ruiz de Mota que «él sólo en la tierra es rey de reyes». [Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico e, em Espanha, Carlos I]

 

   O imperador Afonso VI tivera duas filhas: uma bastarda, Teresa, casada com Henrique, da linhagem dos Duques de Borgonha, mãe de Dom Afonso Henriques, o qual de seus pais herdaria o título de Conde de Portugal; outra, legítima, Urraca, casada com Raimundo, da casa dos Condes de Amous, o qual foi feito, em virtude do seu casamento, Conde da Galiza, sendo o filho de ambos reconhecido como sucessor do Imperador castelhano-leonês com o nome de Afonso VII. De acordo com o costume feudal que confundia soberania e propriedade, Afonso VII, primo direito de Dom Afonso Henriques, ao morrer, em 1155, deixou o império dividido pelos seus dois filhos: Sancho herdou o reino de Castela, Fernando o de Leão. Mas nessa altura, já Portugal tinha rei seu, pois o uso desse título régio já constava do tratado de Zamora, celebrado entre os primos Afonso (VII e Henriques), o que parece traduzir o reconhecimento da sua legitimidade pela autoridade do imperador. Todavia, outros cronistas, como Rodrigo Ximenez de Rada no De Rebus Hispaniae, não referem essa eventualidade, pretendendo que Afonso Henriques era o primeiro que em Portugal tomou por si mesmo (sibi imposuit) o nome de rei, pois seu pai usava o título de conde, e ele, inicialmente, o de dux. Pediu ao papa Eugénio III, de que se constituiu vassalo (censuale), muitos privilégios... Sobre esta questão, como sobre o nosso primeiro rei, recomendo-te a leitura da biografia de D. Afonso Henriques do José Mattoso (Lisboa, Círculo de Leitores, 2008). Mas deixa-me reter aqui duas observações: a primeira aponta para o facto aparente de que o primeiro Rei de Portugal - que, aliás, mesmo filho de bastarda do imperador Afonso VI, pertencia, pela linhagem paterna a uma nobreza franca superior à de seu tio Raimundo, pois seu avô Henrique, Duque da Borgonha era neto de Roberto II, rei de França -, Afonso Henriques ter desde logo procurado o reconhecimento direto do papa, prestando vassalagem a Eugénio III; a segunda verifica que, apesar de tal reconhecimento papal apenas se ter oficializado em Maio de 1179, pela bula Manifestis probatum , de Alexandre III, o Rei de Portugal nunca se considerou vassalo do primo, mas antes seu igual, porque ambos descendentes diretos, ainda que por via uterina do imperador Afonso VI.

 

   Reconhecimentos papais fazem-me reevocar Napoleão. E, para te deixar entretida com esta carta, trago-te um trecho longo do Alain Minc (Une Histoire de France, Paris, Grasset, 2008, pag. 235): Le sénatus-consulte du 18 mai 1804 lui conférant le titre bizarre d´«Empereur héréditaire des Français» est ratifié lors d´un plebiscite, par une majorité encore plus écrasante que la Constitution de l´an VIII. E passo a traduzir:

 

   Napoleão não se contenta com isso. Quer os fastos e pompas de uma sagração e sobretudo a presença do papa. Incrível ressurreição da tradição monárquica. A França galicana, a França da Constituição civil do clero, negoceia a vinda a Paris do soberano pontífice para presidir à cerimónia! Nessa altura, Napoleão nada em surrealismo político. Cospe na cara das monarquias europeias com a execução do duque de Enghien e, depois, quer imitá-las, talvez macaqueá-las. A mímica da sagração de Reims é para pôr um ponto final à Revolução.Tenta vincular a sua dinastia ao precedente dos Carolíngios - donde o título de Imperador - e trata os mil anos de reinado capetiano como um parêntese. Deseja a bênção do papa mas, no momento da cerimónia, tira-lhe a coroa das mãos...   ... Estranha monarquia que cortou o cordão umbilical com Deus, mas que mantém a filiação com as conquistas da Revolução! O Consulado  correspondera à fase racional do bonapartismo; o Império será o seu período barroco.

 

    E isto me leva a Vladimir Putin, abrindo a porta para a minha-tua próxima carta, que começará por desenvolver a notícia que seguidamente te traduzo de Le Monde Diplomatique, deste mês de março, transmitida num artigo de Anaïs Llobet: Debaixo de muito sol, em maio de 2017, o patriarca Cirilo de Moscovo e de toda a Rússia, inaugura a igreja do mosteiro de Stretenski, no coração da capital. A seu lado, o presidente Vladimir Putin, de semblante solene e impassível, acompanha integralmente o ritual. Depois, entrega ao patriarca um ícone antigo de quatro séculos representando João Baptista, o profeta que anunciou a vinda de Jesus, imagem que até então estivera em lugar de destaque no seu gabinete no Kremlin. Ficará doravante exposta no altar do novo local de culto.

 

   Isto tem que se lhe diga, tal como as conversações em curso entre o Vaticano e a China oficial, ou a expansão económica, cultural, política e militar do Império do Meio nos dias que vão correndo, em manifesto contraste com o recuo e total proibição, ainda durante a dinastia Ming, da exploração, por via marítima, do mundo exterior de então. Como português, terei também de recordar o falhanço da embaixada de Tomé Pires, no século XV, num tempo em que, fora da China, os servidores do Filho do Céu só procuravam quem lhe prestasse vassalagem, e o Rei de Portugal lhe enviava uma carta a reclamar-lhe o mesmo...  

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta a falar-te de imperadores, e a prometer-te falarmos de Putin (não do político tanto quanto do mítico), já te dizia que o Imperador Celeste é paradoxal, ente divino subjugado, homem também, como os outros, movido pelas suas paixões, ambições e fraquezas... No decurso deste divertido passeio por imperiais galerias de retratos, vamos deparando com essa curiosa condição do poderoso cuja teatral grandeza se vai reduzindo a mesquinhas ridicularias... Tal seria, todavia, risível apenas num palco de diversões; infelizmente tem muito menos graça e pode até ser maldição no seu contexto real, aí onde gera sofrimento e injustiça.

 

   Mas deixa-me ser lúdico agora e, antes de voltar a Vladimir Putin, servir-te, como aperitivo, episódios ilustres da pequenez do "grande" Napoleão Bonaparte. E não só. Recorro a Henri Guillemin, no seu Napoléon Tel Quel (Éditions de Trévise, Paris, 1969), uma biografia iconoclasta. Traduzo:

 

   Esses pobres Bourbons, coitaditos, iam para a província, a uma catedral subalterna, para serem ungidos por um arcebispo qualquer. Para «Napoleão», o eclesiástico de serviço não será um arcebispo, mas Sua Santidade o próprio papa. E «Nabou» ultrapassa mesmo Carlos Magno, a quem se refere por cima de séculos: Carlos Magno, na sua pequenez, tinha ido ter com o papa; para o "caïd" corso, será o papa que, chamado pelo apito, se deslocará. E desloca-se mesmo. E diz, em Notre-Dame: «Deus todo poderoso e eterno, Vós que haveis derramado a santa unção sobre as cabeças de Saúl e de David, derramai por minhas mãos o tesouro das Vossas graças e das Vossas bênçãos sobre o Vosso servo Napoleão que hoje sagramos Imperador em Vosso nome». E Napoleão, a retorquir: «Juro fazer respeitar as leis da Concordata, a igualdade de direitos, a liberdade cívica e política, e a irrevocabilidade da venda dos bens nacionais». Algo inesperada, esta alusão mercantil na boca do Ungido do Senhor, mas tranquilizadora e necessária à sua clientela de base, os abastados do Thermidor e os camponeses. Sua Santidade pelava-se por que lhe fossem devolvidas, pelo menos em parte, as províncias que o Ungido do Senhor lhe tinha roubado para as anexar ao seu reino de Itália. Mas o Ungido mandará que lhe respondam, rindo baixinho, que, «protetor de um Estado estrangeiro», ele não se reconhecia «o direito de lhe diminuir o território». E todavia nascera, na roda do papa, uma ideia considerada sedutora: a canonização de um tal Pedro Boaventura Bonaparte, que haveria maneira de fazer passar por antepassado do imperador. E, como dizia a Chancelaria romana, «uma canonização é sempre, da parte de Roma, um favor; não poderia ser melhor atribuída do que aqui». Vende-se o que se pode. Desapontamento. Por muito "sacro" que fosse, o imperador permanecerá insensível a esse projeto de promoção celeste na sua família. Pelo menos, decide-se em Roma que a 15 de agosto, doravante, o nascimento de Napoleão eclipsará a «gloriosa Assunção da Santíssima Virgem». O núncio achará a fórmula adequada, decretando que, «de pela autoridade apostólica, a festa da Assunção da Santíssima Virgem e a de São Napoleão [claro que se trata só de festas!] ficarão perpetuamente unidas». Perpetuamente! Em Roma não se poupa tempo, posto que se dispõe da eternidade. Mas não deu resultado. Não houve a mais pequena restituição territorial. O "caid" é um duro em negócios...

 

   Alguns aforismos do próprio imperador nos ajudarão a entender o seu elegante pensamento: Para governar é preciso ser militar: só se governa bem com botas e esporas!...   ... Não se trata de ser amado: importa ser-se temido!...   ... A França? Durmo com ela, e ela dá-me o seu sangue e os seus tesouros! Mas, para deixar Napoleão em passado histórico, volto ao seu aproveitamento da religião-igreja tradicional - para iluminar um olhar sobre Putin -, recorrendo ainda a Henri Michelin:

 

   Tem maçadas com o papa que pretendeu excomunga-lo depois da ocupação de Roma por tropas francesas; mas não desiste de o acalmar: quereria tê-lo em Paris, ali à mão, e tornar esse Bonzo-em-chefe, simultaneamente, capelão da Corte e uma espécie de arquichanceler para assuntos eclesiásticos. O «catecismo imperial» continua em vigor; o núncio Caprara declarou-o «conforme à doutrina católica», e todas as crianças de França devem saber de cor os artigos essenciais que eis aqui:

 

   «D. - Quais são os vossos deveres para com Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Nós devemos a Napoleão I, nosso imperador, amor, respeito, obediência, serviço militar e os impostos determinados para a conservação e a defesa do Império e do trono.

   D. - Mas não há motivos especiais que devem vincular-nos mais estreitamente a Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Há, sim, porque ele é aquele que Deus suscitou em circunstâncias difíceis para restabelecer a santa religião dos nossos pais e a proteger. E, pela sagração que recebeu do Santo Pontífice, tornou-se no Ungido do Senhor. Cumulando o nosso imperador com os seus dons, na paz como na guerra, Deus tornou-o ministro do seu poder e sua imagem na terra.

   D. - Que se deve pensar daqueles que faltariam aos seus deveres para com Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Segundo o apóstolo São Paulo, aqueles que resistissem à ordem estabelecida por Deus tornar-se-iam passíveis de condenação eterna»...

 

   [Antes do esclarecedor cotejo do acima transcrito com factos relativos ao "tzar" Putin, abaixo relatados, deixa-me só, Princesa de mim, recordar-te este trecho de um bilhete do Cardeal Cerejeira ao Professor Salazar, datado de 13 de novembro de 1945: ... Nesta hora de tantas preocupações, desgostos e talvez dúvidas para ti, envio-te este trecho de uma carta da irmã Lúcia, a vidente de Fátima, que acabo de receber...  ... Escuso de dizer que isto que ela diz não o diz dela mesma, mas por indicação divina (segundo ela deixa entender)...   ... De uma carta de Lúcia, datada de Tui, 7-11-1945:

 

   «... o Salazar é a pessoa por Ele (Deus) escolhida para continuar a governar a nossa Pátria, a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade.»

 

   E já em carta a Oliveira Salazar, de 26 de maio de 1945, o Patriarca de Lisboa o declarava ungido por Deus.]

 

   Respondendo a jornalistas, pouco depois de conhecer os resultados avassaladores da sua reeleição presidencial, Vladimir Putin, finalmente, lá concordou com ser possível que refletisse e propusesse emendas da Constituição, no sentido de lhe possibilitar mais mandatos para além de só dois seguidos, como hoje estipulado. Até brincou com a ideia de ainda ser presidente aos cem anos... Ao que parece, tal será possível, aceitável e aclamável - para e pelo povo russo -, se Putin lhes surgir como uma incarnação da ortodoxia da Santa Rússia. Curiosamente, o episódio da inauguração da igreja do mosteiro Sretenski - que fui buscar a um artigo de Anaïs Llobet em Le Monde Diplomatique - passou-se ali ao lado da Lubianka, casa - traduzo do jornal francês - do Ministério do Interior soviético, símbolo da grande repressão dos anos 1930, sendo agora a igreja dedicada à «memória dos mártires da perseguição anti religiosa». A decisão de a consagrar no ano do centenário das revoluções de fevereiro e outubro de 1917 constitui um «símbolo importante», sublinhou o Sr. Putin, tomando a palavra no fim da cerimónia. «Sabemos até que ponto a paz civil é frágil. Nunca deveremos esquecer quão difícil é sarar as feridas nascidas de divisões. Eis a nossa responsabilidade comum: fazer todos os possíveis para preservar a unidade da nação russa!» Recorda-te aqui, Princesa de mim, de que os bolcheviques perseguiram violentamente a religião e os crentes ortodoxos russos, não só por razões ideológicas e em virtude da sua praxis política, mas também pela fortíssima ligação do clero à autocracia tzarista. Mas, como nos conta Anaïs Llobet, face à invasão das tropas alemãs, Joseph Stalin reabilita a Igreja para apoiar a mobilização geral, na longa tradição das guerras «sagradas» conduzidas pela Rússia contra as invasões bárbaras. «Irmãos e irmãs: um perigo mortal ameaça a nossa pátria!» lança ele a 3 de julho de 1941, numa mensagem que ficou célebre. O reconhecimento do clero em 1943 faz-se todavia sob apertada vigilância da polícia política e do Conselho para os assuntos da Igreja ortodoxa russa. Tolerada para assegurar discretamente o exercício do culto, a Igreja viu ser-lhe interdita qualquer intervenção na vida pública. Mais tarde, o desmoronamento da URSS levou um número crescente de cidadãos a voltar-se para Deus: só um terço dos russos se declaravam ortodoxos em 1991; eram já 74% em 2012...

 

   ... Nos seus dois primeiros mandatos de presidente (2000-2008), o Sr. Putin apresentava-se como um bom gestor sem ideologia. Tempera então as ambições da Igreja, recusando-lhe a criação dum imposto para financiar o culto e também um canal da televisão federal. Mas quando primeiro ministro, com o seu "faz tudo" Medvedev a presidente (em razão da tal impossibilidade constitucional de mais de dois mandatos seguidos), vai suavizando e progredindo na aproximação à Igreja, sobretudo depois da morte do patriarca Alexis II e da eleição do sucessor Cirilo, que lhe acena com o modelo de governação do imperador bizantino do século VI, Justiniano, a «sinfonia dos poderes», preconizando a cooperação e apoio mútuos do espiritual e do temporal. Para este, que é o político, o movimento é bem vindo. Como Llobet bem entende, no seu regresso à presidência, em março de 2012, Putin, contestado, decide mobilizar a população, já não em volta da sua pessoa, mas em volta de uma prioridade largamente aceite: a defesa dos valores russos tradicionais contra um Ocidente que, segundo Moscovo, procura cercar militarmente a Rússia e deitar abaixo os regimes que não corresponderem às suas permissivas disposições nem aos seus interesses geopolíticos. «Sem os padrões morais formados durante séculos, as gentes perderão inevitavelmente a sua dignidade humana», afirmará o presidente em 2013 e insistirá um ano depois: Para que a sociedade exista, convém sustentar o respeito das nossas tradições e das grandes religiões. E a jornalista lembra que o padre Smirnov, pope ortodoxo, se congratula com essa ofensiva presidencial: Como é que um Russo, um ortodoxo, pode aceitar o casamento homossexual? Não! A Rússia e a Igreja não podem aceitá-lo, tampouco o nosso presidente.

 

   E este teu antigo amigo Camilo-bota-de-elástico, Princesa, lembra-se agora do espetáculo de apresentação dos novos e poderosíssimos mísseis intercontinentais russos, por Vladimir Putin, em véspera de eleição: estou convencido de que qualquer especialista ocidental em tais questões bélico-estratégicas terá complacentemente sorrido. A recuperação do atraso económico e social soviético, iniciada com a glasnost e a perestroika, também aumentou a distância entre o poderio e o potencial militar russo e o americano. Este, "by the way", continua a ser o mais assustador do mundo. Mas o "show" putiniano não era para estrangeiro ver (ainda que possa ter influenciado alguns): era, e foi, para consumo interno. E pagou. Também não sei, não posso ter qualquer certeza, de que o assassínio de espiões no Reino Unido tivesse sido mesmo obra russa. Fosse ou não, disso estou seguro, pairará sempre, no Ocidente (curiosa designação que nos mantém em guerra fria), o fantasma e o receio. Talvez Jeremy Corbyn tenha razão em dizer que seria melhor aguardar por cabal esclarecimento dos factos. Que, presumo, nunca se verificará. Mas a espera traria o esquecimento: assim, na Rússia ninguém se sentiria atacado por mentiras ocidentais e talvez nós nos sentíssemos mais confortáveis com a ideia de que, afinal, não lhes fizemos mal algum, nem têm, portanto, mais razão de queixa. Claro que Theresa May, "à la Poutine", quis capitalizar votos para as eleições de maio próximo... Chacun governa-se...

 

   E na complicadíssima Europa que por aí se anda a elucubrar, ou fabricar, não sei bem, tenho reparado nas bandeiras históricas que reaparecem nos países de leste, algumas, até, de breves e extintas monarquias nacionais. Estar-se-á a levantar outra cortina de ferro? Para tua-nossa meditação, Princesa de mim, traduzo, do Courrier International, este trecho do sociólogo polaco Stawomir Sierakowski, publicado no Project Syndicate, de Praga: Em quinze países da Europa da Leste, os partidos populistas estão atualmente no poder em sete, pertencem à coligação governamental em dois, e representam a principal oposição em três. E se, em 2000, os partidos populistas apenas tinham conquistado 20% de votos em dois países de Leste, hoje já os conseguiram em dez. Sobre tudo isso, Princesa, e mais ainda sobre a China, te falarei em próxima carta.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

FELIZ PÁSCOA!

"A Ceia em Emaús" por Caravaggio, 1601. Atualmente na National Gallery, em Londres.  

 

   Muitas vezes me perguntam porque faço sempre votos de Feliz Páscoa e nunca digo Santa Páscoa. Pela simples razão de desejar a todos e cada um a feliz viagem a partir da porta que Jesus abriu para que, passando por ela, caminhemos à descoberta da boa nova que Cristo assim anuncia na narrativa de S. Lucas lida na missa crismal de 5ª feira santa: Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, ao abri-lo, encontrou o trecho em que estava escrito «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois, enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Disse-lhes então: «Cumpriu-se hoje mesmo este trecho da Escritura que acabais de ouvir».
 
   O caminho da Páscoa é a libertação. E toda a liberdade implica uma conversão interior, porque quem deixou de ser servo, jamais agirá por ser mandado, mas terá de agir por amor.
 
   No tríduo pascal, entre a celebração do drama da Paixão e a festa da Ressurreição, há um dia mais silencioso do que litúrgico, em que nos retiramos para uma comunhão da humanidade inteira com a morte e a vida, talvez o momento em que mais sentimos esse rasgão que é a condição humana na sua própria consciência de si. Aspiramos a saber tudo e nada afinal sabemos, estamos às escuras, e mesmo a fé só vê o invisível. No sábado santo, também os familiares e discípulos de Jesus, e todos aqueles que o seguiam e aguardavam, se sentem profundamente desamparados. Como quem empreendeu uma longa viagem e chega à beira de um rio torrencial, fundo e largo, sem ponte nem barca. Todos eles se lembram certamente do Cristo crucificado que grita: «Meu Deus, Deus meu, porque me abandonaste?». Chegam-nos então ao coração todos os que sofrem, mais do que tentação, uma experiência do mal, uma vertigem de negação, desespero, incompreensão.
 
   Tenho aqui comigo um exemplar velhinho (de 1950) da Attente de Dieu, pequena colectânea de cartas e outros textos de Simone Weil, que o padre J.-M. Perrin reuniu em 1949. Simone, judia francesa de educação agnóstica, morreu em 23 de Agosto de 1943, aos 34 anos, no sanatório de Ashford, sem ter sido baptizada, ainda que prosseguindo o seu caminho de busca da fé. Diz o padre Perrin, seu confidente e correspondente, que, através dos textos precedendo a sua morte nota-se que ela estaria ainda, em muitos pontos, longe da fé católica na sua plenitude, e que sentia perfeitamente que só a morte a transportaria a essa verdade de que se sabia ainda afastada. Traduzo seguidamente um texto de Simone Weil, que pertence a uma meditação sobre a oração ao Pai Nosso. O trecho respigado é um comentário aos versículos finais (e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal) daquela prece. Para melhor entendimento da inspiração de Simone transcrevo aqui a versão francesa desse passo, que ela traduziu diretamente do grego: Et nous ne jette pas dans l´épreuve, mais protège nous du mal. Termino com a tradução do comentário da filósofa judia francesa, que aqui deixo com votos muito amigos de santa e feliz viagem de Páscoa!
 
   A única provação do homem é ser abandonado a si mesmo ao contacto do mal. O nada do homem é então experimentalmente verificado. Apesar da alma ter recebido o pão sobrenatural no momento em que o pediu, a sua alegria mistura-se com receio, porque apenas para o presente o pôde pedir. O porvir permanece temível. Ela não tem o direito de pedir pão para amanhã, mas exprime o seu receio em forma de súplica. Assim acaba. A palavra "Pai" começou a oração, a palavra "mal" termina-a. É necessário ir da confiança ao receio. Só a confiança traz a força necessária a que o receio não seja causa de queda. Depois de ter contemplado o nome, o reino e a vontade de Deus [recitemos o Pai Nosso], depois de ter recebido o pão sobrenatural e ter sido purificada do mal, a alma está pronta para a verdadeira humildade que coroa todas as virtudes. A humildade consiste em saber que, neste mundo, a alma toda, e não somente o que chamamos eu, a alma na sua totalidade, i. e., também na parte sobrenatural da alma que é Deus presente nela, está sujeita ao tempo e às vicissitudes da mudança. É preciso aceitar absolutamente a possibilidade de que seja destruído tudo o que em nós mesmos é natural. Mas é simultaneamente necessário aceitar e rejeitar a possibilidade de que desapareça a parte sobrenatural da alma. Aceitá-lo como acontecimento que só em conformidade com a vontade de Deus se produziria. Rejeitá-lo como sendo algo horrível. É preciso ter medo disso. Mas que o medo seja como que o acabamento da confiança.
 
   Gosto, eu, de dizer que o percurso da Páscoa é um caminho de confiança.
 
 
   Camilo Martins de Oliveira
  

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A Árvore de Jacarandá, ficção de memórias (?) da minha querida amiga Maria de Lourdes Lopes Dias, já no próprio título nos recorda um país mítico, paraíso terrestre, harmonia adivinhada, anseio de florescência que os acidentes das vidas e as brutalidades das circunstâncias podem matar e quase sempre vão adiando. O nome da árvore de flores lilases surge no linguajar português já no último quartel do século XVI, não sei quem o escreveu primeiro, mas foi certamente transcrição de nome indígena, registado pelo padre Fernão Cardim, em 1584, no seu Do Clima & Terra do Brasil. Para Maria de Lourdes, todavia, isso pouco importa, escolhe outra origem para o nome e a árvore: tal angiospérmica nasceu e cresceu no Reino de Jacarandá, lugar longínquo algures na galáxia, próximo contudo em corações que o sentem. As flores violáceas da árvore são bandeira e promessa do reino onomástico, ao qual sempre regressamos em cada primavera, quando ruas do Monte Estoril se cobrem de lilás, ou ainda, como acontece com Joana, a heroína da novela, só quando a Desejada, a Primavera do amor ansiado e tantas vezes quase desesperado, finalmente nos amarra e nos tira daquele Desapego de que um dia falou Cecília Meireles:

         

          A vida vai depressa e devagar.

          Mas a todo momento

          penso que posso acabar.

 

          Porque o bem da vida seria ter

          mesmo no sofrimento

          gosto de prazer.

     

          Já nem tenho vontade de falar

          senão com árvores, vento,

          estrelas e as águas do mar.

 

          E isso pela certeza de saber

          que nem ouvem meu lamento

          nem me podem responder.

 

   Num universo semeado de amores e desamores, sucessos e insucessos - de que a novela nos dá notícias e alguns juízos -  a floração do Reino de Jacarandá traz a cor da paixão, que é um sofrer em companhia, que engana a morte e gera um nascimento novo, um novo apego à vida, como tão bem diz Gabriel Garcia Márquez no seu El amor en los tiempos del cólera:

 

   El capitán miró a Fermina Daza y vio en sus pestañas los primeiros destellos de una escarcha invernal. Luego miró a Florentino Ariza, su dominio invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardia de que es la vida, más que la muerte, la que no tiene límites.

 

   - Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? - le preguntó.

 

   Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y três años, siete meses y once días com sus noches.

 

   - Toda la vida - dijo.

 

   Eis o fim-princípio da história do amor de Fermiza Daza e Florentino Ariza, iniciada e interrompida muitas décadas antes, por artes do mundo e malefícios das contingências. Eis agora um amor reencontrado, quando os corpos têm mais desejos da alma do que explosões físicas, eis, sim, um amor recuperado, redescoberto, renovado, ressuscitado, como o de Abraão e Sara, quando esta, na sua adiantada velhice, concebe Isaac. Também Fermina e Florentino, decrépitos e impotentes, conversam deitados, para entreter o tempo. Hablaron de ellos, de sus vidas distintas, de la casualidad inverosímil de estar desnudos en el camarote oscuro de un buque varado, quando lo justo era pensar que ya no es tiempo sino para esperar a la muerte. Ella no habia oído nunca decir que él tuviera una mujer, ni una siquiera, en una ciudad donde todo se sabia inclusive antes de que fuera cierto. Se lo dijo de un modo casual, y él le replicó de inmediato sin un tremblor en la voz:

 

  - Es que me he conservado virgen para ti.

 

   A Joana dos jacarandás também melhor recordará não ter cedido ao desejo insistente de seu primo João, companheiro da adolescência, quando ambos, "de mão dada e olhar enamorado", passeavam o seu mistério telúrico pela floração lilás do Monte Estoril, do que a insatisfação, sentimental e sexual, dum breve amor sueco. Afinal, pouco importa o que tivesse sucedido: o que ela desvenda ao reencontrar Alexandre é a fortaleza da frágil semente do amor, aquela que se enterra e permanece até desabrochar e dar fruto. Na história que Maria de Lourdes conta, casaram e tiveram três filhos. Nos tempos da cólera, Fermina e Florentino já não farão filhos, nem por milagre de Deus, como Abraão e Sara. Mas encontram finalmente aquele que nunca os tinha deixado e sempre tinha andado a saltar de um para o outro, durante cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com suas noites. Como na Turandot do Puccini, o seu nome é Amor.

 

   Neste fim de inverno, agora ventoso e chuvoso, vejo pela janela do meu gabinete a "minha" cerejeira do Japão, que de lá até cá veio para me lembrar que a Flor da Primavera é universal, parece ser repetição mas existe sempre igual em toda a parte. Está ainda despida e silenciosa, sem brilho nem promessa visível. Dir-se-ia velha, mas para mim é sempre magnífica. A beleza é interior, não está na aparência que seduz, existe na escuridão de uma intimidade que ilumina. Quando percebemos essa fé, também entendemos a esperança e conhecemos o amor. A sua alegria já vive nesta árvore nua que nos oferecerá flores, a lembrar-nos de como, afinal, o efémero é uma promessa que não cansa.

 

   E porque falo de cerejeiras do Japão, não resisto a trazer aqui um trecho do Caminhos da Terra Florida de Armando Martins Janeiro: Para mim, a mais grata recordação desse dia, e das mais belas de muitos anos, será a de uma velhinha a caminhar por uma rua de aldeia, ao longo da qual os ramos das cerejeiras faziam um túnel de flores. Trazia à cabeça uma pequena trouxa e o peito descoberto, como ainda é costume aqui no campo, com os longos seios secos caídos. Fiquei-me de propósito sentado, à espera de ver o que ela faria, se taparia os seios, se desceria os olhos ao chão, de pudor, ao passar em frente de mim. Não, sorriu-me apenas. Sorriu-me com um sorriso simples e natural, sazonado, de quem deu leite a filhos e muitas lágrimas a netos, - mas um sorriso de tanta bondade e tão puro, que me pareceu que em todas as flores de Abril, em toda a natureza, não há nada que iguale a pureza de um sorriso humano verdadeiro.

 

   Tampouco murcham as flores verdadeiras. Quando o vento as leva, desfazem-se, para nos lembrar de que será só nossa a esperança que deixaram. A fé no amor é a mesma nos romances continuados, nos interrompidos, nos interrogados, nos imaginados. Tal como nas histórias de um sapo que o beijo da princesa torna príncipe, ou da borralheira a quem o príncipe calça o sapato mágico, o final sonhado desenha-se também para Joana de Jacarandá: casaram-se, viveram felizes e tiveram muitos filhos. O sentimento do amor, todavia, pode morrer quando a traição ou o abandono o mata, porque mesmo a morte o metamorfoseia em saudade. O amor morto por ter sido matado é como filho do desespero. Assim acontecerá, com a irmã de Joana, Alice, que se suicida, destruída por marido malévolo.

 

   Ocorre-me - por me revoltar essa ou qualquer história de desespero - como, na perspetiva existencialista de Sartre, não podemos escapar à liberdade, por muito que ela nos aflija, porque, pura e simplesmente, é liberdade que somos. Vira-se assim do avesso a máxima cartesiana Penso, logo existo que, no seu original francês, diz: Je pense, donc je suis. Mas Sartre dirá Je ne suis rien, donc je suis libre (L´Être et le Néant, Paris, 1943). E recorro a Sarah Bakewell (At the Existentialist Café, Chatto & Windus, Londres, 2016), para explicar melhor a minha tentação sartriana, ao ler o relato do suicídio de Ana: Não nos espante que essa liberdade radical torne inquietas as pessoas. Se já é difícil pensarmo-nos livres, Sartre vai mais longe ainda: não sou literalmente nada além do que decido ser. Medir a extensão da minha liberdade é mergulhar no que, ambos, Heidegger e Kierkegaard, chamaram angústia (Angst). Não é o medo de algo em particular, mas uma angústia penetrante relativamente a nós e à nossa existência. Sartre vai buscar a imagem kierkegaardiana da vertigem: se olhar à beira de uma falésia e sentir vertigem, esta tenderá a tornar-se na sensação/náusea de que poderei, de maneira compulsiva e inexplicável, atirar-me para o abismo. E penso agora, lembrado de tantas histórias tristíssimas de desistência de nós, como é verdade que só em liberdade existimos, e como todos os atos e situações que nos amarram e prendem, mais do que tolher-nos, nos afogam e matam. Assim, em qualquer amor humano, ecoa aquela palavra de Deus numa das narrativas míticas da Criação (Gen. 2, 18 e 22-25): Deus disse: «Não é bom que o homem esteja sozinho. Tenho de lhe fazer uma ajuda que se lhe assemelhe»...  ... Da costela que tinha tirado ao homem, Deus modelou uma mulher e levou-a ao homem. Então, este exclamou: «Ora bem, é o osso do meu osso e a carne da minha carne! Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem!» Por isso o homem deixará pai e mãe e se juntará à mulher e serão uma só carne. Ora, ambos estavam nus, o homem e a mulher, e não sentiam vergonha um do outro. A solidão do abandono ou da traição, a humilhação da prepotência da soberba ou da sevícia, condenam quem as sofre à perplexidade debruçada sobre um abismo.

 

   Mas será inevitável a aniquilação de si? No prefácio à edição americana do seu Le Mythe de Sisyphe, Albert Camus escreve: no próprio interior do niilismo é possível encontrar algo com que ultrapassar o niilismo. Para ele, todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos têm um começo irrisório. As grandes obras nascem muitas vezes na curva de uma rua ou na porta rolante dum restaurante. E assim é com a absurdidade. O mundo absurdo, mais do que outro, vai buscar a sua nobreza a esse nascimento miserável... O vazio da repetição, dia após dia, de gestos e comportamentos quotidianos torna-se eloquente... eis que será o primeiro sinal da absurdidade...   ... Certo dia, o «porquê» levanta-se e tudo começa, na lassidão pintada de espanto. ... No fim do despertar, chega, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento. Na história mítica, como sabemos, Sísifo - o rei que desafiara os deuses que, para seu castigo, decidiram condená-lo a levar, rolando-o, um pedregulho até ao cume de um monte, donde a mesma rocha voltaria a rolar encosta abaixo, obrigando-o a novo esforço para arriba - lá irá subindo-descendo-subindo sem parar, como quem se resigna ao absurdo. E Camus escreve (traduzo): Toda a silenciosa alegria de Sísifo está aí. O seu destino pertence-lhe. A sua rocha é a sua coisa. Assim também, o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, cala todos os ídolos. E termina o livro: A própria luta em direção aos cimos basta para encher um coração de homem. Temos de imaginar Sísifo feliz.

 

   Assim se adivinha o suicídio como irreconhecimento de si: não sou quem nem como penso ser, ninguém me ama para que eu exista. E o restabelecimento, como lhe chama Camus, como uma conformação com a frustração, a aceitação do absurdo como dado de facto. Não há, então, recuperação possível, reconversão à vida? Bastará a sempre recorrente "luta em direção aos cimos, para encher um coração de homem?" Teremos mesmo "de imaginar Sísifo feliz", porque, condenado ao absurdo, aceita e "contempla o seu silêncio"? Mas, afinal, não poderá ele sentir-se mais feliz ainda, se o rolar da rocha for sentido como chegada-e-partida-e-chegada das flores da Árvore de Jacarandá como promessa?

 

   Na tragédia de Alice, já a esperança é mais difícil, quiçá impossível: eis o irreconhecimento de si como desaparecimento de quem se sente aniquilado. O grande Mal do Amor é a sua negação: o amor traído, humilhado, desprezado, espancado, odiado ou detestado, aniquila-se. Quem se deu deixa então de existir, pois que a dádiva de si era a sua própria vida, que outrem recebeu para desfazer. Morrer de amor é uma expressão poética, ninguém morre de amor, menos ainda os que morrem por amor. Mas muitos morremos por negação dele. Eis a extrema ignomínia, que tantos sofrem e tantos infligem. Por isso gosto de pensarsentir a vida imaginando que a própria consciência de mim se sustenta em "caminhos da terra florida" e "árvores de jacarandá": precisamente por ser efémera, a Primavera  é promessa. E a promessa faz bater os corações dos homens. Chamam-lhe, então, esperança.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nos dias de hoje, a própria Igreja Católica, em Portugal, acolhe - disseram-me - para o ministério das suas paróquias e sacramentos, padres vindos de leste, praticantes do rito bizantino, alguns deles casados. Também os cristãos ortodoxos, de obediência grega ou russa - e não romana - aceitam, tal como os anglicanos, os luteranos e muitos outros - que os seus pastores sejam homens casados, e com famílias constituídas. É condição humana natural, responde a uma vocação universal que, na Bíblia, se regista logo no livro do Génesis, ainda no paraíso: Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, criou-o homem e mulher. Deus abençoou-os e disse-lhes: «Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra»... Já noutras cartas, Princesa de mim, te dizia que não penso que a permissão de ordenação de homens casados ou de mulheres deva ser aprovada pelas autoridades eclesiásticas em razão da escassez de ministros da eucaristia e doutros sacramentos. Essa questão da falta de gente, a meu ver, levanta-se desde antes, da simples verificação, sobretudo nos países cristãos do ocidente, do assombroso decréscimo no número de batizados e, entre estes, dos chamados praticantes (frequentadores dos ofícios eclesiais e dos sacramentos). Faltam ministros porque são menos numerosos os fiéis ou, dito de outro modo, porque a Igreja se foi alienando do mundo em que vivemos, se fechou em dogmatismos doutrinais, rituais e sociais, que a afastam do convívio dialogante com as gentes hodiernas, as suas angústias e preocupações (ou leviandades), as suas condições de vida.

 

   Temos, pois, duas básicas questões bem distintas: uma, a conversão do magistério eclesiástico à pregação da Boa Nova, isto é, como infatigavelmente diz o papa Francisco, a uma saída para a rua, ao encontro dos outros; outra, a necessidade desse tal magistério entender que a mensagem que Cristo lhe confiou é sempre ela e a sua circunstância, pelo que a tradição da Igreja não pode ser a repetição de ensinamentos e práticas nascidas, criadas - aliás nem sempre com todo a justiça e discernimento - em circunstâncias passadas. Assim sendo, eu não quero que se ordenem mulheres ou homens casados, nem que tal seja proibido: apenas peço que qualquer decisão canónica a esse respeito não invoque fundamentos bíblicos ou teológicos que, mesmo tendo sido muito usados no passado, são, por um lado e pelo menos, discutíveis e, por outro, não encontram qualquer recetividade em sectores crescentes das nossas sociedades, nem qualquer entendimento favorável nas mentes contemporâneas. E ninguém me venha dizer que "isso é relativismo!", pois trata-se precisamente do contrário: muito mais relativismo é isso a que chamam fundamentalismo, pois este nega a possibilidade do entendimento universal de um princípio, de um valor, de uma mensagem noutro modo que não aquele - relativo como tudo o que é dito para ser ouvido - no qual se defende ou pretende ter sido formulado ou proferida. Ou então, como também já te disse, Princesa de mim, acordemos que Jesus Cristo foi o grande relativista. Tampouco quero que se "liberalize" (como sói dizer-se hoje) o divórcio canónico, ainda que um puxãozinho de orelha pudesse levar certas pessoas a refletirem mais objetivamente, e com maior espírito crítico, nas "declarações de nulidade" dos tribunais eclesiásticos. Na verdade, defendo o princípio da indissolubilidade, precisamente por ser princípio, e defrontar os possíveis nubentes com a necessidade de assumirem a sua responsabilidade.  O matrimónio não é um contrato comercial (com ironia penso: bem... há exceções!), desde logo envolve vidas presentes e quiçá por vir, sentimentos e aspirações, intimidades, sobretudo entregas de si em confiança mútua... Não é coisa para ser tratada com ligeireza e, por isso, até no plano institucional, religioso ou simplesmente civil, tem de ser encarado com respeito enormíssimo, com a prudência (o tal amor sagaz de que tanto já te falei, Princesa) necessária a precaver o seu melhor decurso possível, mas infelizmente, também as consequências da sua eventual derrocada. Encurtando a dissertação: o divórcio não é desejável, mas pode ser inevitável, quer para salvaguarda da saúde mental ou da própria vida dos cônjuges, quer ainda para evitar que filhos aprendam, no seio da sua própria família, a discórdia, a raiva, a agressão, a maldade. Fílon de Alexandria, filósofo judeu helenista, e Flávio José, historiador judeu romano, + ou - coevos de Jesus, testemunham que a prática corrente, naquele tempo, de permissão do divórcio - que só o marido podia solicitar - se fundamentava até em alegações tão simples quanto a de a mulher ter deixado comida queimar-se ao lume, argumento defendido por uma das grandes escolas de escribas, enquanto outra escola apenas o legitimava em caso de adultério. Mas, para Jesus, até o adultério merecia perdão, enquanto que o divórcio, como direito do marido estipulado na lei mosaica, fora reconhecido apenas em razão da dureza dos corações... E não separasse o homem o que Deus uniu! Outra interpretação desse passo do ensino de Jesus, para além do imperativo de uma lei erga omnes, isto é, de uma norma que nem sequer é derrogável, pode pois ser a de que o marido sozinho não possa desunir o que a mulher também não pode, e até talvez possa não querer.

 

   Tenho amigos e amigas divorciados, crentes e não crentes, uns ou umas aliviados e enfim felizes, outros e outras (muitas) com feridas que não saram ou levaram muito tempo a sarar. Nenhum deles, nem qualquer delas, alguma vez me disse que o seu divórcio tivesse sido simples felicidade, nem sequer desejo genuíno. Mesmo para quem, desde o início do processo de separação, ansiou pelo seu termo, ou até procurou o esquecimento de uma vida comum, a simples perspetiva de um afastamento necessário foi sempre traumática, mais ou menos dolorosa, a menorização da dor sendo, frequentemente, função da esperança numa vida melhor. Quando conseguiram esquecer e refazer uma família - que, aliás, em muitos casos, também acolheu filhos anteriores - redescobriram, reconhecendo-a como tal (os crentes) ou saboreando apenas o seu conforto (os não crentes), a misericórdia de Deus. Da qual cada cristão deve procurar ser sacramento. Abriu-se-lhes a porta da alegria para que Deus os criou. Homem e mulher, na sua integridade humana. Acabo, Princesa de mim, transcrevendo o parágrafo 152 da exortação apostólica pós sinodal do papa Francisco, a Amoris Laetitia:

 

   Assim, não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro torna-se «uma afirmação amorosa plena e cristalina» mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, «sente-se que a existência humana foi um sucesso». As citações feitas pelo Papa são respigadas de Über die Liebe (Sobre o Amor), de Josef Pieper (Munique, 2014).

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    Nestes dias de início de Quaresma, tenho sido chamado a ler e reler as bem aventuranças, as obras de misericórdia e outros recados de Jesus acerca do bem e do mal, sobretudo dos atos em que se reconhece o amor, este sim, como a lei de Cristo. O Reino de Deus é dos pobres, dos que têm fome e sede de bem, dos que procuram construir a paz pela justiça, pela generosidade e pela misericórdia. No dies irae, os chamados serão os que socorreram, deram de comer e de beber, acolheram e abrigaram, visitaram e consolaram, percorreram caminhos difíceis em busca dos que se tinham perdido ou desviado, lembraram aos humanos a vocação do Pai, para que nenhum deles ficasse de fora da grande reunião... O perdão que, no Pai Nosso, a Deus pedimos tem como condição perdoarmos quem nos ofendeu... Já há tempos te escrevi, Princesa de mim, que sempre pensei na parábola do filho pródigo como se o próprio Deus, ao abraçar-me, pedisse perdão comigo. Mesmo no Antigo Testamento, os textos a que, em sentido lato, chamo proféticos falam-nos de aliança, faltas e reconciliação. E muito me lembro desse passo do evangelho de Mateus (6, 14), logo a seguir ao "não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal"... Diz assim: Sim, se desculpardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos desculpará; mas se não os desculpardes, tampouco o vosso Pai desculpará as vossas faltas. Como recordo S. Marcos (11, 25): E quando estiverdes de pé, em oração, se tiverdes algo contra o vosso irmão, desculpai-o, para que o vosso Pai que está nos céus vos desculpe também das vossas ofensas. A religião que Jesus prega é interior, vive no segredo dos corações. Os atos rituais visíveis são meras manifestações - por vezes podendo ser enganadoras, hipócritas - de uma pertença ou filiação religiosa. Por isso, a segunda condição da oração agradável a Deus, logo depois da sine qua non que é a disponibilidade para o perdão, é o retiro:  E quando rezardes, não façais como os hipócritas, que gostam de se exibir nas sinagogas e nas ruas, para serem vistos. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. Quanto a ti, quando rezares, retira-te no teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai em segredo. E teu Pai, que está no segredo e te vê, recompensar-te-á. Mas tal oração, que é como uma entrega à presença invisível do Pai, tem outra face, nascida desse silêncio e dessa comunhão: o amor do próximo. No seu Jesus (Piper-Verlag, München, 2012), Hans Küng escreve luminosamente, sob o título de Aquele que justamente precisa de mim: Jesus não se interessa muito pelo amor universal, teórico ou poético. Para ele, amar não é, em primeiro lugar, ter palavras, sensações, sentimentos. Para ele, amar é, antes de mais, agir com força e coragem. Exige um amor prático, logo concreto. À pergunta sobre o amor, torna-se-nos, desde logo, necessário dar uma segunda resposta, mais precisa: para Jesus, o amor não significa apenas o amor dos homens, mas essencialmente o amor do próximo...   ... É no amor do próximo que se verifica o amor de Deus. Mais ainda: o amor do próximo é a exata medida do amor de Deus. Só amo Deus pelo quanto amar o meu próximo

 

   Por todas estas - e outras - meditações, fui vivendo a minha fé cristã como vocação, isto é, como resposta a um misterioso apelo a ir descobrindo o Deus que se esconde e me chama desde o coração de tudo. Caminho no escuro, mas vou-me lembrando de que, afinal - como tantas vezes, Princesa, te repeti -  tudo é graça, sobretudo essa visão do rosto - quiçá imaginário em traços desenhados, mas tão humano e próximo do meu coração - do Deus que acredito incarnado em Jesus Cristo. Nem me canso de perseguir, por muitas leituras de escritores em várias línguas e de diversas confissões, os retratos múltiplos do chamado "Jesus histórico", eu que, desde muito novo, tanto me fixei na figura joanina do Verbo princípio de todas as coisas, que veio habitar connosco, para que, conhecendo-o, acreditássemos no Pai, aprendêssemos o amor, o vivêssemos, e assim fosse completa a nossa alegria. Várias vezes te confessei que, da muita literatura em diferentes línguas dos povos do mundo que fui lendo ao longo da vida, o prólogo do Evangelho de S. João é, muito provavelmente, o texto que mais intimamente me marcou: como se, em vez de ter ficado com um Z de Zorro na testa, ter o V, ferido pelo Verbo, no coração. Toda a minha religião se pode resumir nessa vocação que me deixou essa leitura e o desenvolvimento dela na primeira carta do mesmo João. Apesar do rigor ou maior veracidade de calendários, datas, personagens e ambientes da vida de Jesus, em cotejo com os relatos dos sinópticos, estes falam-nos mais do judeu que ele era, do ser humano, e serão, assim, campo mais propício à reconstituição do Jesus histórico como ser real. O Jesus Cristo de S. João, o "meu", é mais teológico e místico, menos terrenal, chama-me mais a compreender o mundo e a vida com um olhar novo, e assim também me ilumina a leitura dos sinópticos, onde muitos episódios, afinal, apontam para esse escândalo, para alguns, metanoia para muitos, que é a relativização da Lei e do Templo que Jesus, judeu piedoso, traz : a Lei não é um fim em si, nem encerra todas as vias para Deus, o sábado é feito para o homem, não o homem para o sábado; servir o homem, assisti-lo, tem prioridade sobre a observância da lei; a devoção ao templo, o culto, a liturgia, tudo isso vem depois da reconciliação com os outros e do serviço que lhes devemos.   

 

    Por outro lado, Princesa, quero ainda deixar-te claro que não me assusta nem indigna qualquer trabalho de investigação histórica, arqueológica, exegética, hermenêutica, acerca dos textos e circunstâncias da vida de Jesus e dos relatos dela, nem misturo trabalho sério e pesquisa científica com invenções de escritores sensacionalistas. Tal como não confundo a perspetiva da fé com a análise racional de factos e documentos. Surgem hoje, com frequência, publicações de trabalhos de pesquisa e teses várias acerca, por exemplo, de textos bíblicos, sua datação, identificação dos seus autores e redatores, circunscrição dos momentos e ambientes históricos e culturais em que foram escritos... Isto é: mesmo para um crente, o suporte material e a perspetivação cultural de qualquer texto pode e deve ser objeto de análise disciplinar objetiva e rigorosa. O que, pelo prisma da minha fé e exercício espiritual, Deus me diz passa-se noutra zona, nessa intimidade em que cada um de nós ouve e se pode abrir à aparição do desafio de Deus... Assim, o magistério da Igreja justifica-se enquanto lembrança, memória da vocação universal de Deus, pelo que, parece-me, deverá procurar que a boa nova da alegria do amor, com o que este implica de entendimento e compaixão, reciprocidade e dádiva, acolhimento e perdão, não seja esquecida e, menos ainda, encoberta por monolitismos dogmáticos e seus discursos. Sobretudo será aconselhável que os pertinentes pregadores entendam os sinais dos tempos, o movimento e mudança do mundo e das culturas, as circunstâncias diversas em que todos e cada um de nós nasce e medra, se interroga, hesita, erra e sofre, mas afinal sempre procura ser feliz.

 

   Comecei esta carta com outras ideias para te contar, mas termino aqui. Deixo para próximas umas reflexões: sobre o pensamento teológico como instrumento do entendimento religioso do mundo; sobre um direito canónico que teima em enquadrar e regular o presente e o futuro por normas datadas, talvez adaptadas a circunstâncias históricas e culturais já desvanecidas ; sobre o escândalo de uma excomunhão de divorciados recasados (tantas vezes vítimas de abandono, sevícias e injustiças perpetradas pelos seus (EX)-cônjuges canónicos) dos sacramentos administrados por uma igreja em que, todavia, muitos bispos têm consentido que permaneçam ou retomem serviço padres pedófilos renitentes, enquanto excluem do ministério eclesial padres que assumem, livre e cristãmente, a paternidade de filhos e suas responsabilidades familiares.

 

    Repara, Princesa de mim, que eu não contesto a opção da abstinência sexual como caminho de realização do amor. Conheço inúmeros exemplos de monges e monjas, freiras e frades de olhar claro e sorriso aberto que assim vão descobrindo a plenitude dos seus corações, e eu mesmo, quando tentei igual caminho, admirava até leigos casados, como Raïssa e Jacques Maritain, que, convertidos, acabaram por acordar que a sua metanoia também se manifestasse numa união tão só espiritual do seu casal. Só que - eis os factos - não somos todos assim, nem da mesma força. Quiçá por bem: deserto estaria o mundo se o prazer da carne não nos incitasse à reprodução da espécie, e nem sabemos até que ponto o "ódio ao sexo" não o terá, afinal, descontextualizado, atirando-o para fora da alegria responsável, para a zona do prazer "irresistível"... Basta vermos publicidades na TV e ouvirmos os curas falarem de contraceção.

 

   Já o Santo Papa João XXIII dizia - ouvi-o por relato fidedigno de testemunhas presenciais de um encontro em que estavam também portugueses: «Deixem a decisão sobre a pílula aos casais...» Na verdade, há sexo e sexo, há atos manifestos de amor, como os há de agressão e violência, há gozo pelo prazer e alegria pelo encontro. Jesus Cristo não fala de sexo, muito menos legislou sobre ele. A obsessão clerical com o tema, além de ter outras raízes obscuras, algumas certamente para serem olhadas psicanaliticamente, surge primeiro e num ambiente de ansiedade milenarista, logo já no século I, quando primitivas comunidades cristãs esperavam o fim deste mundo e a vinda do Reino de Deus. Mas esse reino não veio, nem no tempo da vida terrena de Jesus, nem depois dele... ...talvez porque tenha ainda de ser construído connosco como fermento que leveda, ou grão de mostarda que se enterra e virá ser uma grande árvore, à sombra da qual, sem distinção, virão descansar além das aves do céu, os pastores e as ovelhas tresmalhadas que eles incansavelmente vão procurar para que recolham à bênção do rebanho. A vocação cristã é a amoris laetitia, a alegria do encontro e da reconciliação. Está no oposto da exclusão, recusa-a.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Aproveito essas horas pendentes entre visitas, refeições ou conversas com familiares e amigos, durante os fins de semana, para percorrer com mais ou menos atenção, sem esforço especial, títulos ou pequenos trechos da imprensa genérica e dos jornais "on line" que pouco consulto e não leio. Será como estar na espera do dentista e, distraído, mastigar umas letras. Ou soltar uma espécie de curiosidade secundária, para que vá farejando. Já em tempos úteis, visito fielmente outras publicações periódicas e várias revistas literárias europeias e norte-americanas e vou aprendendo umas coisas, observando outras. A leitura, sobretudo de livros, novos e revisitados, na relativa solidão em que vivo, é afinal o meu convívio mais frequente. Mas, voltando às tais horas pendentes dos acasos dos fins de semana, acontecem-me surpresas divertidas-maçadoras-inesperadas -previsíveis, pelo que, infelizmente, também vou deparando com ditos tontos em tom professoral, ou humores pretensiosa e presunçosamente engraçados. Deste cariz:

 

   A abstinência sexual exigida pela lei de Cristo...

 

   ... Embora não seja aficionado ao Carnaval, não posso deixar de reconhecer que é um tempo que me é muito proveitoso em termos profissionais. Com efeito o meu negócio é o pecado - o pecado dos outros, entenda-se!  -  e não há dúvida de que o Carnaval é época alta para qualquer sacerdote que se preze. Este ano, as expectativas eram ainda melhores, porque o lema do Carnaval de Torres Vedras era muito promissor: ´Delírio em las Vedras!´  

 

  Assim, Princesa, tal qual, apenas transcrevo. Sem comentários, perguntando-me apenas se haverá mesmo padres assim, que se tomam por polícias do trânsito da gente, da nossa vida, e verificam se cumprimos ou não o que entendem ser o código dessa estrada, designadamente a exigência de abstinência sexual determinada pela lei de Cristo. Como tão explicitamente define este auto identificado sacerdote, o seu negócio é o pecado, sobretudo os delírios eróticos do comum dos mortais, claríssimas violações da lei de Cristo, que exige "abstinência sexual, como afirmação de um amor maior". Nos Evangelhos, não descubro Cristo a legislar sobre sexualidade (tema mais tarde tratado por S. Paulo), nem sequer muito preocupado com ela: encontro-o muito mais a dizer-nos (Lucas, 6, 36-38): Sede compassivos como vosso Pai é compassivo. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado; e uma boa medida, bem cheia e transbordante, será derramada no vosso seio; pois que pela medida com que medirdes sereis medidos de volta. Ou à mulher adúltera, após a retirada dos que a iam lapidar e aos quais Jesus respondera que lhe atirasse a primeira pedra quem nunca tivesse pecado (João 8, 3-12) : «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela disse: «Ninguém, Senhor.» E Jesus disse então: «Eu também não te condeno. Vai e não voltes a pecar». 

 

   Lembro-me de ser criança e preparar-me para a primeira comunhão. Deram-me um livrito em que se alinhavam perguntas destinadas a ajudar-me a fazer o exame de consciência. Uma delas inquiria-nos sobre se tivéramos maus pensamentos. No meu íntimo, respondia sempre que sim: tivera ganas de dar um murro ao meu irmão mais novo, pensara enfiar o termómetro no leite com chocolate quente do pequeno almoço, para ficar em casa com febre, ou, pior ainda, sem abrir a boca, chamara besta, estúpido, animal, etc., etc., a colegas de escola, professores, etc., etc... Consequentemente, Princesa, quando me fui confessar - e em todas as confissões seguintes - sempre informei o padre de que tinha pecado por maus pensamentos. Até ao dia, anos mais tarde, em que o bisbilhoteiro confessor, insistente, me perguntou: «Olha lá, quando andas nas ruas da Baixa, não costumas parar para ver as montras de roupa interior das senhoras? E não ficas então com mais maus pensamentos?» Como nunca me passara sequer pela cabeça demorar-me a olhar para calcinhas e sutiãs que não usava, e sem entender logo todo o alcance da libidinosa inquirição, respondi com infantil franqueza: «Não, Senhor Padre, nunca me lembrei disso.» Penso que este episódio dispensa comentários, és adulta, eu também já o devia ser... 

 

   A obsessão da igreja clerical com a sexualidade tem muito que se lhe diga: é sem dúvida com estranheza que nos podemos interrogar ,Princesa, sobre as contradições inerentes a um pensarsentir tradicional que tanto enaltece o «crescei e multiplicai-vos», como se obceca com a abstenção sexual, a tal ponto que um manual para confessores de Sto. Afonso Maria de Ligório (do século XVII, mas só conheço a versão francesa de 1854 : Pratique des Confesseurs) é bastante exaustivo no exame das tentações e quedas no pecado da carne). A moral dita burguesa do século XIX educou meninas no horror ao sexo, absolvendo em confissão os mancebos que se aliviavam em bordéis. Deveriam as futuras mães, nossas avoengas - não podendo, et pour cause, ser virgens para o efeito - serem "imaculadas" até à "bênção nupcial", civil e eclesial, que as entregasse à função reprodutora - e/ou, menos canonicamente, à luxúria dos maridos legítimos... Donde adveio, com as febres do romantismo, a posterior exaltação do adultério, não do marido  -  que já tinha todos os direitos, inclusive o da cedência às fraquezas da carne, sempre que esta reclamasse  -  mas da mulher. O nosso Eça de Queiroz percebeu bem, como Flaubert e outros, essa estranha praxis, essa cumplicidade entre luxúria romântica e falta de educação humana e religiosa... Certo também é que esse paradoxo, o preconceito de que o amor humano (entenda-se entre homem e mulher e, portanto, sexuado) é antagónico ou limitador do amor de Deus, prevaleceu na cultura dos primitivos cristãos e marcou Santo Agostinho. A misoginia terá também marcado certas correntes ou seitas do judaísmo, como os essénios, no tempo de Jesus, mas a regra geral, incluindo entre os hassidim ou piedosos, e no ensinamento rabínico, era a do casamento, já que a família era uma bênção e o ato procriador cumprimento de uma norma divina: crescei e multiplicai-vos. Jesus não era misógino, muito pelo contrário: convivia com mulheres, até com samaritanas e mesmo prostitutas, defendi-as e admirava-as, curava-as de males, como fluxos de sangue, que eram considerados sinais de impureza ritual e não só. E até na sua resposta à farisaica pergunta sobre a licitude do divórcio, que a lei judaica reconhecia só à iniciativa do homem, nunca da mulher, Jesus coloca esta ao mesmo nível do homem, ao recordar a versão do Génese «Deus criou-os homem e mulher», de preferência à que pretendia ter ela saído de Adão. Voltarei a falar-te do divórcio, já que outras confissões cristãs, não de obediência romana, reconhecem a possibilidade de divórcio. Na tradição luterana, o matrimónio não é um sacramento, visto que «em todo o sacramento tem de dar-se a palavra de uma promessa divina, à qual preste assentimento a pessoa que recebe o signo. Mas em trecho algum da Escritura se lê que o que casa recebe qualquer graça de Deus, que no matrimónio se passe qualquer signo instituído por Deus, nem que ele tenha sido estabelecido pelo próprio Deus, com vista a uma significação especial, embora todas as realidades visíveis possam entender-se como figuras e alegorias das invisíveis. Mas nem figuras nem alegorias são sacramentos próprio sensu (M. Lutero). Assim, sendo o casamento um contrato consensual, os cônjuges podem acordar a sua desvinculação. Para Calvino, a norma coincide com certa leitura dos evangelhos sinópticos, permitindo o divórcio apenas em caso de adultério. Em todas as tradições, incluindo as ortodoxas que, como a católica, reconhece um sacramento os próprios ministros do sacramento do matrimónio ou do seu simples contrato são os cônjuges.

 

   Mas, até pela sua vida, Jesus apontou o celibato como caminho de mais plena entrega ao serviço do Pai, indo além dos interditos rituais já vigentes no judaísmo, que proibiam relações sexuais durante certos períodos da vida das mulheres (menstruação, gravidez e pós-parto) ou aos soldados em campanha e aos sacerdotes e fiéis em tempo de serviço no Templo. Mas tal "voto de castidade" - ainda hoje praticado por livre opção de quem escolhe a via da chamada "vida religiosa" (monjas e monges, frades e freiras) -  insere-se, numa perspetiva escatológica, na renúncia à vida própria deste mundo e é, portanto, e precisamente por isso, sempre acompanhado dos votos de pobreza e obediência. Não é condição necessária do exercício de um ministério eclesial, é parte de uma opção de vida, em resposta a uma vocação necessariamente íntima e pessoal. Mas já o celibato sine qua non do padre é uma determinação do direito canónico e, como tal, derrogável e revogável.

 

   Acima sugeri apenas um exemplo da acomodação da "doutrina" da igreja às exigências dos privilégios do tempo, através de uma prática que mantinha as senhoras na "ordem" dos confessionários e diretores espirituais e abrangia os homens na imensa tolerância da compaixão cristã pelos pecados da carne. Até os curas, que não tinham filhos, mas "afilhados", embora todos fossem, em obediência à "lei de Cristo" do Concílio de Trento, abstinentes celibatários, já que então não foi ouvida a petição do nosso beatificado Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, dominicano arcebispo de Braga, padre conciliar, para que fossem os seus padres das serranias do Barroso autorizados a casar... Em S. Paulo, na primeira epístola aos Coríntios, todo o capítulo 7º trata do problema da virgindade e da união, a primeira surgindo como ideal, a segunda como concessão, na perspetiva escatológica do advento do Reino de Deus, que se pensava então iminente, num ambiente de temor milenarista   que a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70, acentuara: É bom para o homem abster-se de mulher. Todavia, por causa dos deboches, tenha cada homem a sua mulher e cada mulher o seu marido. Que o marido cumpra o seu dever para com sua mulher, e assim também a mulher para com seu marido. Não dispõe a mulher de seu corpo, mas o marido. Assim também o marido não dispõe do seu corpo, mas a mulher. Não vos recuseis um ao outro, a não ser por comum acordo, por algum tempo, para vagardes à oração. E logo ficai novamente unidos, por receio de que Satanás, para vos tentar, se aproveite da vossa incontinência... [Este sábio conselho de pastor quiçá deva ser entendido, nos tempos hodiernos e nas sociedades devassadas por separações, divisões e divórcios, como extensível aos casais católicos divorciados e recasados, até pelo que deveria ser preocupação maternal da Igreja com a saúde espiritual das novas famílias constituídas...] 

 

    Mais curiosamente, como pastor da Igreja, Paulo defende que os bispos devem ser escolhidos entre homens casados, porque aqueles devem refletir as comunidades que os escolhem. Os textos que adiante te cito são trechos das epístolas a Timóteo (1ª e 2ª) e Tito, possivelmente escritas por discípulos de São Paulo, ainda que em seu nome, em tempos «já de desvanecimento do entusiasmo escatológico gerado por Jesus e manifestado por Paulo nos primórdios do seu ministério» (cf. Geza Vermes, in Christian Beginnings- From Nazareth to Nicaea, AD 30-325) : Assim, será necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que seja sóbrio, ponderado, cortês, hospitaleiro, apto para o ensino, nem bebedolas nem quezilento, mas benevolente, inimigo de chicanas, desligado do dinheiro, sabendo governar bem a sua própria casa e manter obedientes os filhos de modo perfeitamente digno. Pois se alguém não souber governar a sua própria casa, como poderá tomar conta da Igreja de Deus? (I Timóteo, 3, 2-5)...   ... Se te deixei em Creta, foi para terminares a organização e estabeleceres em cada cidade presbíteros, conforme as minhas instruções. Cada candidato deve ser irrepreensível, marido de uma só mulher, ter filhos crentes, que não possam ser acusados de mau comportamento nem desobediência...(Tito, 1, 5-6).

 

   Vou-te escrevendo, Princesa de mim, esta carta - como, bem sabes, todas as outras  -  ao correr da pena sobre lembranças e o meu presente pensarsentir. Corresponder assim é conversar, só que sou eu a escrever, tal como leio e, muitas vezes, porque li convivendo. Esta conversa continua, dou-te mais em próximas cartas, a nossa correspondência é simplesmente uma maneira de irmos trocando referências e reflexões. Até à próxima!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Para nos ajudar na reflexão sobre esta problemática da legitimação de Jerusalém como capital do presente estado de Israel, isto é, com a dimensão territorial e histórica que lhe pretendem atribuir, tantas vezes ao arrepio dos direitos internacional e humano, traduzo-te (da edição francesa do Courrier International, da primeira semana deste fevereiro) passos dum trecho de artigo originalmente publicado (a 23 de janeiro) no Maariv de Tel Aviv e assinado pelo israelita Ben Caspit:

 

   Ao pronunciar o seu discurso diante da Knesset [a 22 de janeiro], Mike Pence inundou-nos de louvores e de beijos, de apaixonadas declarações de amor. Nada fingido, bastava ver o seu olhar determinado. O discurso era quase perfeito. O seu amor por esta terra está cheio de admiração por Israel, o povo judeu, a santidade do país de Israel, e mais não digo. Mesmo Netanyahu, o rei do género, não poderia ter feito melhor, e eis sem dúvida o maior elogio que podemos fazer a Mike Pence, sem ironia.

 

   Pence parece, à primeira vista, um homem político americano clássico. Cabelos brancos bem penteados, fato de bom corte, palavra fluida e carisma tranquilo. Pence pronunciou um discurso impressionante, cheio de referências e inovações. Marcou para o fim de 2019 a data limite da transferência da embaixada americana para Jerusalém. Confirmou que se o acordo sobre o nuclear iraniano não fosse corrigido pelas partes envolvidas, os Estados Unidos dele se retirariam unilateralmente. Repetiu que Israel é o aliado mais essencial da América.

 

   Mike Pence é a incarnação dos sonhos da direita israelita em geral e de Netanyahu em particular. Contrariamente ao atual presidente americano, caprichoso e imprevisível, Pence é um homem calmo e piedoso. Ao pronunciar um discurso em que pesou bem cada palavra, deu-nos essa massagem tailandesa com fundo de música apaziguadora.

 

   O amor de Pence pelo povo de Israel e os judeus mergulha as raízes nas suas convicções evangélicas. Segundo a fé evangélica, quando vierem a Redenção e o Messias (entenda-se: Cristo) todos os judeus se reunirão em Israel e se converterão imediatamente ao cristianismo. Mesmo que pensemos que esse dia nunca chegará, é bom sabê-lo, já que, nos Estados Unidos, há 60 milhões de sionistas em potência, evangélicos que se supõe estarem enamorados de nós até ao fim dos tempos...

 

   ... Mas não são as apaixonadas declarações de Mike Pence em Jerusalém que nos ajudarão a resolver o nosso conflito com os Palestinos. Quando formos grandes, caber-nos-á decidir o que queremos ser, definir, de uma vez por todas, as fronteiras do nosso Estado. É pena não ser possível substituir todos esses Árabes por cristãos evangélicos que acreditam na vinda de um Redentor a Sião. Ainda que talvez fosse preferível que esse Messias nunca viesse, porque teríamos então de nos converter ao cristianismo!

 

   Não conheço o senhor Ben Caspit, não sei que juízo fazer das sua palavras. Mas sei que, para o movimento sionista, com motivação religiosa e escatológica, o regresso a Sião (que significa a terra de Israel (Eretz Israel) e Jerusalém, o regresso do «Povo Eleito» a esse lugar histórico-teológico é condição sine qua non da vinda do Messias, pelo que a reivindicação do poder absoluto do estado de Israel sobre a «Terra Santa» é assim fundamentada politicamente... Ou sê-lo-á teocraticamente, sem qualquer fundamento no direito internacional, que é, este sim, o direito positivo das gentes? Pessoalmente -  e não sendo eu próprio judeu, mas tendo muitos amigos que, com ou sem religião, se reclamam do judaísmo -  gostaria de poder dar a uma declaração de Theodor Hertzl, fundador do sionismo, uma interpretação rigorosamente política e respeitadora do Direito, tal como o entendemos na definição de justiça dada por Ulpiano, jurista romano, que tantas vezes, Princesa, já te citei: Justitia est jus suum cuique tribuendi. Quero crer que, ao escrever no seu O Estado Judaico as frases seguintes, Hertzl quis mesmo dizer o que lá está escrito: Eu considero a questão judaica não como uma questão religiosa ou social, mas como uma questão bem nacional. Para resolvê-la é necessário, antes de mais, colocá-la em termos políticos à escala mundial. Poderá então ser regulada no quadro do conselho dos povos civilizados. Nós somos um povo. Com toda a certeza: um povo como os outros. sem mais nem menos direitos do que os que a justiça a cada um deve atribuir ou reconhecer. Li, creio que no jornal Le Monde do passado dia 2 de fevereiro, passos dum relatório dos representantes diplomáticos dos países da União Europeia em Israel, considerando que "a administração Trump quebrou o consenso internacional acerca do conflito israelo-palestino, baseado no direito e nas resoluções das Nações Unidas". Tal relatório aponta os malefícios da já antiga política israelita de marginalização económica, política e social dos palestinos em Jerusalém...   ...e como, em razão do isolamento físico e da política israelita restritiva de salvo condutos, a cidade já deixou de ser o centro económico, urbano e comercial palestino que costumava ser... Para não falarmos da continuação da ocupação, por decisão unilateral, ilegal e violadora de direitos territoriais e humanos, de terras palestinas por "colonatos" israelitas (não se lembram dos «espaços vitais» que Hitler reclamava?). Recordo que, pelo armistício de 1949, entre a Jordânia e Israel, Jerusalém permanece dividida entre dois países; e, pelo acordo de paz de 1994, entre eles celebrado, mutuamente se reconhecem a OLP e o Estado de Israel. Infelizmente, já nas conversações de paz, entre palestinos e israelitas, retomadas na Turquia, em 2008, a questão de Jerusalém não é abordada. Anos antes, o poeta judeu Yehuda Amihai (1924-2000) dissera que Jerusalém é uma operação cirúrgica que ficou aberta. Mas, no século XV (em 1434?), um viajante judeu, Elias de Ferrara, vindo da Itália à Jerusalém já sob domínio otomano, escreveu: Os Judeus de Jerusalém fazem, taco a taco, tratados com os Ismaelitas (isto é, os Árabes), e eles não desconfiam uns dos outros...

 

   Resumindo o meu pensarsentir a questão palestina, designadamente a do estatuto de Jerusalém, tal como atual e dramaticamente se coloca:

 

   Aos estado-unidenses diria que se lembrem dos seus "Pais Fundadores", dos constitucionalistas que criaram o Distrito de Colúmbia para aí fixarem - e nunca em qualquer um dos estados federados - a capital federal dos EUA: Washington, D.C. Não vos parece recomendável que uma cidade-mundo, como Jerusalém é, que até já deu provas de poder ser a cidade santa de vários povos e credos, e símbolo de um encontro e convívio universal, seja uma entidade com administração própria, livre, independente de outros poderes políticos - inclusive e sobretudo dos que geograficamente a rodeiam e que, por consenso, a devem reconhecer como tal e proteger, sem que qualquer dos estados envolvidos faça dela sua capital própria?

 

   Aos líderes de um estado de Israel, em que mais de metade da população judia se declara laica, e menos de 35% ortodoxa ou apenas praticante, pediria que refletissem no mal que outros terríveis nacionalismos populistas fizeram a milhões de judeus da diáspora, para finalmente também eles próprios, perseguidores, acabarem mal; e que pensem melhor no símbolo universal que Jerusalém, desde sempre mais cidade do Templo do que capital política, hoje é, para judeus e muitos que não o são, promessa de encontro, terrestre e celeste, de todos os povos da terra. E fazendo este apelo, nem preciso seria recorrer à insinuação de que a sorte das armas e dos povos não fica sempre virada para o mesmo lado... Basta-me evocar a memória do próprio judaísmo e o nome hebraico da cidade de que já te lembrei outras etimologias. Até acabam todas por concordar: a Shelem ou Salém referida no livro do Génese (cujo rei é o sacerdote Melquisedeque, que a Abraão oferece pão e vinho) já quererá dizer Shalom, Paz; Yerusalahim, em hebraico, cidade integral, Cidade da Paz. Lugar santo, acolhia todos os peregrinos, oferecia-lhes alojamento gratuito. Não foi dividida pelas doze tribos, nem entregue a reinos, porque era símbolo da paz entre todos. Na profecia de Isaías (2, 2-5), Jerusalém, centro da fé de Jacob/Israel, tornar-se-á na vocação religiosa de todos os povos: Pelo andar dos tempos acontecerá que a montanha da Casa de Yahvé se estabelecerá acima das montanhas e se erguerá acima das colinas. Então, todas as nações convergirão para ela, então virão inúmeros povos que dirão: «Vinde! Subamos à montanha de Yahvé, à casa do Deus de Jacob, assim nos ensine ele as suas vias e sigamos os seus caminhos». Pois que de Sião nos chega a lei, e de Jerusalém a palavra de Yahvé. Julgará entre as nações e será árbitro de numerosos povos, que quebrarão as espadas para fazer arados e as lanças para fazer foices. Já as nações não levantarão espadas contra as outras, e jamais se aprenderá a fazer guerra. Vamos, Casa de Jacob, marchemos à luz de Yahvé!  Infelizmente, correntes do judaísmo insistiram em vincar uma linha de superioridade do seu povo e da sua religião, numa perspetiva nacionalista, tantas vezes soez, que talvez tenha marcado para mal o destino de uma nação que, enquanto tal, e fiel à Aliança, poderia sem mácula ser portadora de uma mensagem universal de paz. 

 

   Não me parece, pois, justificar-se qualquer receio de "ofensa" religiosa ou tibieza argumentativa no exercício do dever internacional de impor ao atual estado de Israel o respeito devido às disposições, acordos e resoluções que têm vindo a ser tomadas, consentidos e decididas no concerto das nações, relativamente à arrogância e à atuação de posição de força (sustentada pelo apoio dos EUA) de que aquele Estado vem impunemente usando e abusando.

 

   E, ao afirmá-lo, não estou a falar de política, estou simplesmente a lembrar-me do dever fraterno de cultivar o espírito.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Deixa-me voltar à história do povo hebraico, muito resumidamente, apenas como referência.  Datas e factos citados por opção minha, de preferência respigados de autores judeus, com confiança naqueles que procuram aproximar-se das "verdades" que a historiografia contemporânea vai apurando. Esqueço as polémicas e vou escolhendo uns "diz-se que". Tampouco hesito em saltar por cima de hiatos ou relatos pouco verificados. Simplifico tudo, serei telegráfico, não estou a dar aulas, muito menos sobre matérias em que sou muito mais curioso do que sabedor.

 

    Diz-se que, por volta de 1760 a.C., Abraão, patriarca e pai dos povos (árabe, por via do seu primogénito Ismael, filho de Agar, serva de Sara, sua mulher, e, claro está, no relato da Bíblia hebraica, de Isaac, donde descendem os hebreus, filho da própria Sara, anciã que concebe por milagre de Yahvé), terá saído da Suméria (Ur?) para Canaã, entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. Por lá ficam os patriarcas sucessores, até que secas e fome os empurram para o Egipto. Poupo-te aqui os relatos sobre Isaac, seus filhos Esaú e Jacob, os doze filhos deste, que originam as tribos de Israel, ou a sua luta com o anjo, que lhe trará o nome de Israel ("Deus é forte", ou "forte contra Deus"). Lembro-te um deles, Judá, e outro ainda, cuja história, contada na Bíblia, merece leitura e atenção: é a história de José, undécimo filho de Jacob e, com Benjamim, um dos dois de Raquel, serrana bela, o início, ainda no livro do Génese, do Êxodo que de lá tirará os israelitas, dessa libertação que marca bem o princípio do que será Israel como nação, nem sempre, nem por sombras, constituída em Estado. A passagem do Egipto para Canaã, onde os israelitas se estabelecem (com ou sem conquista, discute-se), é marcada pela paragem no monte Sinai e a atribuição da Lei (Torá) por Moisés. Seguem-se quase três séculos de reinos ou governos tribais - há quem lhes chame democracias... -, até ao início do período monárquico (Samuel, Saúl, David e Salomão) em 1020 a.C. No final do reino de Salomão, este divide-se entre Judá e Israel, e inicia-se um período de independência política por excelência, com reis sucessivos e muitos profetas a avisá-los. Em 722 a. C., os assírios destroem Israel e, em 582, os babilónios ocupam Judá e exilam a população: Sôbolos rios que vão / por Babilónia me achei / onde sentado chorei / as lembranças de Sião… Regressa o povo, mais tarde virão as conquistas persa e helenística (Alexandre Magno), até 165 a.C. (recuperação de soberania com os príncipes asmónidas) e, finalmente, a conquista romana que, em 135 d.C., porá fim definitivo à independência possível de qualquer estado judeu. O Templo de Jerusalém fora arrasado, acentua-se, nos judeus restantes e nos inúmeros de uma Diáspora prosélita - que vai convertendo gente, tal com também albergará, nas suas sinagogas, reuniões do cristianismo nascente - uma consciência nacional israelita que é, como desde o início fora, eminentemente crença religiosa. 

 

   Sobre a língua hebraica, deixa-me dizer-te mais pouco do que sei que foi, foi sendo e hoje é. E também como terá sido, tal como o aramaico, língua bíblica mais por tradição oral do que escrita, ainda que qualquer daqueles dois idiomas palestinos tenha veiculado textos bíblicos redigidos, desde o século X a.C., como demonstram documentos entretanto descobertos. O hebraico antigo evoluiu de línguas faladas pelas populações de Canaã, já antes do estabelecimento dos israelitas, tais como o fenício, o moabita e o aramaico, todas pertencentes, como o árabe, ao ramo ocidental das línguas semitas, descendentes do acádio. O aramaico, numa região muito influenciada, culturalmente, pelos encontros entre vários povos nómadas, terá sido o idioma que mais se espalhou, e dele descenderia, parcial e diretamente, o hebraico antigo. Os textos dos diferentes livros da Bíblia judaica registaram, entre o século X a.C. e a nossa era, tradições orais, postas então por escrito, maioritariamente em hebraico, mas também em aramaico.

 

   Para o que aqui nos interessa, Princesa de mim, hebraico e aramaico eram falados pelos judeus palestinos desde meados do século IV a.C. até ao primeiro terço do século II da nossa era, já que depois de 135, ano da queda final do estado de Israel (que, aliás, muito antes, desde a tomada de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C., caíra sob o controlo e, depois, domínio romano, como sabes), o hebraico se foi apagando, mantendo-se como língua vernácula o aramaico e, na Diáspora como na própria Palestina, o grego. A importância do idioma helénico já se tornara notada pela tradução dos Setenta, na Alexandria da Diáspora. O texto grego, a partir do século II, com o acrescento do Novo Testamento, que, junto à Bíblia judia, formaria a cristã, torna-se então referência para muitas traduções (e, ainda agora, em Portugal, Frederico Lourenço vai publicando a sua versão lusíada do texto helénico).

 

   O hebraico permaneceu todavia a língua religiosa e litúrgica do judaísmo, bem como a dos sábios e teólogos judeus. Além disso, sobrevive sob outra forma, literária, a mishnaica, apelido derivado da antologia Mishná que, no século II, reuniu vários textos, sobretudo, creio, comentários à Lei, escritos num hebraico literário do tempo. Recolhe, este, vocábulos provenientes do aramaico, do persa, do grego, do latim, e sofre, por essas influências externas, variações semânticas e gramaticais estranhas à língua antiga. Não te contarei mais história do hebraico, que aliás conheço pouco e mal: olhando para um texto escrito nessa língua, tudo o que sei é que se lê na horizontal, e da direita para a esquerda, como o árabe. E disse. Mas traduzo-te passos dum artigo do professor V. Nikiprowatzky, do Collège de France, que nos ajudam, Princesa de mim, a entender melhor observações de David Grossman:

 

   O período moderno do hebraico começa na segunda metade do século XIX, com a predominância do estilo russo. O despertar da nação judia e a sua afirmação política transformam a língua forjada pelos grandes autores do judaísmo russo em vernáculo, isto é, no atual hebraico vivo, ou israelita.

 

   A necessidade de exprimir as realidades complexas da vida contemporânea tinha obrigado o hebraico dos autores russos a recorrer a todas as potencialidades do vocabulário hebraico, em vez de se restringirem ao léxico da Bíblia. Prolongando e sistematizando esse esforço de renovação linguística, E. Ben-Yehuda publica, na segunda década do século XX, um "Thesaurus totius hebraitatis" [acho curioso, Princesa, o título em latim], que tem um papel decisivo na formação do hebraico atualmente falado no novo estado nacional. Ben-Yehuda nem sequer hesita em preconizar empréstimos de certas línguas vivas, como o árabe. Voltando a ser língua quotidiana, o hebraico não pára, doravante, de enriquecer, como qualquer língua viva, o seu dicionário, ao sabor das contingências históricas...

 

   ... A pronúncia do hebraico moderno é conforme à dos judeus orientais, ou sefarditas. A pronúncia dos judeus da Europa, ou asquenazes, mantém-se por vezes na poesia...

 

   Pessoalmente, não só compreendo a necessidade de recriação duma língua nacional (se não, como se entenderiam os cidadãos israelitas provenientes de desvairadas partes?), como admiro o engenho, a persistência e a modernidade com que tem vindo a ser constituída e articulada. Por outro lado, devo reconhecer que tal também pertence ao génio judaico que a Diáspora, enquanto estar em mundos sem ser deles, incansavelmente foi alimentando. Lembra-te, Princesa de mim, do ídiche e do ladino.  

 

   Ídiche tem raiz alemã, vem de Jiddish que, evidentemente, que dizer Jüdisch (judeu). Terá surgido por volta do ano 1000, na Renânia alemã, e levado para a Europa Oriental (Polónia e Rússia, entre outros) a partir do século XIV. Pelo Leste europeu se foi espalhando como língua das comunidades judias e, a partir dos anos 20 do século XX, tornou-se mais língua nacional (da nação judaica na diáspora russa) do que língua religiosa. Calcula-se que, cerca de 1939, 12 milhões de europeus falariam ídiche.

 

   Já o ladino surge como língua litúrgica dos sefarditas, judeus da diáspora greco-turca, magrebina e ibérica, por ordem de deslocação histórica e geográfica e a mesma, mas inversa. O seu vernáculo, ou língua popular, será o judio-espanhol ou judio-português, sendo que todas estas designações são muitas vezes confundidas. Ao que parece (repito o que já li ou ouvi dizer), rabinos ibéricos terão traduzido a Bíblia hebraica para ladino, essa espécie de luso-castelhano hablar-falar, que as comunidades judias, que já não sabiam hebraico, usavam no seu seio. Claro que o «papiá judeu» - digo assim lembrado do «papiá cristiano» que descobri em Malaca e na Indonésia, curioso crioulo português -  também acolhera palavras do turco, do grego, do latim, etc.... O meu querido Espinosa também falou assim.

 

   Tudo isto, Princesa de mim, me leva a pensarsentir mais profundamente a profunda verdade universal daquele dito do nosso padre António Vieira, que abrevio: Para nascer, pouca terra, Portugal. Para morrer, o mundo inteiro. No sentido espiritual, no que a peregrinação nos é essencial, há muito de judeu em nós, Princesa.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira