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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A ESTÉTICA DO EFÉMERO – III

   

Da apresentação de Debussy et le mystère de l´instant (PerrinParis, 1972), de Vladimir Yankélévitch, destaco (traduzo): Dois movimentos inversos parecem, em Debussy, percorrer o espaço musical: um é descida aos infernos da profundidade; o outro, regresso ao ar livre, ascensão aos grandes espaços de luz. Mas quando estudamos esses dois movimentos, depressa compreendemos que, para Debussy, nem um nem outro é essencial: o essencial é o instante impalpável, esse mesmo a que chamamos aparição em desaparecimento, surto em fundo de silêncio e de trevas; esse instante é o relâmpago, ou, inversamente (o que vai dar ao mesmo) a fagulha que a aparição é quando a surpreendemos a desaparecer: o Meio dia é, no mesmo instante, o zénite da luz e a luz surpreendida no primeiro instante do seu declínio.

 

   Debussy dá voz às coisas mais imponderáveis e mais precárias, às mais inconsistentes e às mais inexistentes da criação: um breve encontro e uma leve respiração, uma reminiscência fugitiva que, como estrela cadente, atravessa o espaço noturno da memória, um reflexo que estremece na água, um sopro de vento passando pelo ar da tardinha, uma nuvem no céu.

 

   Ocorreu-me este trecho, talvez, pela associação do seu último parágrafo à inspiração de haiku e de muita caligrafia e pintura japonesa. Por algo que é a surpresa do infinito intemporal - que, enquanto tal, só pode existir fora da criação inteligível - na fugacidade dum instante apenas desta vida.Tal privilégio é um dom, uma graça. Talvez pareça poder repetir-se, mas jamais se repete, como a história da nossa humanidade. Tal como Debussy não pôs em música a vespertina sesta de um fauno, mas sonhou o Prélude à l´après midi d´un faune. Prelúdio que acabo de escutar, com direção do seu maestro titular, D. E. Inghelbrecht, na interpretação do Orchestre National (orquestra, em francês, é substantivo masculino), em 1962. Inspirada num poema de Mallarmé, escrito em 1865, a obra orquestral tem, mais ou menos, trinta anos de atraso (1892-1894), mas, para o que aqui proponho, guarda esta atualidade, em palavras do próprio Debussy, numa carta a H. G. Villars, futuro marido de Colette: O Prélude à l´après-midi d´un faune talvez seja o resto de sonho que ficou no fundo da flauta do fauno? Mais precisamente, é a impressão geral do poema, pois, se o seguíssemos mais de perto, a música perderia o fôlego como cavalo de tiro que concorresse ao Grande Prémio contra um puro sangue. É também o desdém dessa "ciência de castores" que torna pesados os nossos briosos cérebros, e depois não tem respeito pelo tom! e tem um modo que procura conter todos os matizes, o que é muito logicamente demonstrável. Mas, ainda assim, segue o movimento ascendente do poema, e é esse cenário maravilhoso descrito no texto que, com mais humanidade talvez, nos trazem trinta e dois violinistas bem cedo levantados! O final é o último verso prolongado: Adeus casal, vou ver a sombra em que te tornas. Contudo, é sobre tal expectativa que se fecha esta obra musical, que se ficou pelo prelúdio só, sem os previstos interlúdios e uma paráfrase final. Apesar da novidade do estilo, foi muito aplaudida a sua primeira audição pública, em dezembro de 1894, na Société Nationale, em Paris, sob a direção do maestro suíço Gustave Doret. Só a partir de 1912, com o balé de Diaghilev, coreografia e interpretação de Nijinsky, vai a representação à cena, provocando uma onda de escândalos que tornaram famosa a composição musical de Debussy, mais ainda do que o poema lascivo de Mallarmé. Por mim, sempre gostei de sonambular ao som do Prélude à l´après-midi d´un faune, cujo erotismo se esvanece pelo suave embalar da melodia hipnótica, mergulhando-me num sossego tão esquecido de mim que talvez me fizesse lembrar aquele anúncio de que o sono é a antecâmara da morte. Nesta peça, afinal, Debussy traz-nos, em nove minutos, um instante revelador, e põe-nos dentro dele, como se aquela contemplação do efémero mais não fosse do que uma canção de embalar a morte no gosto da vida que a sustenta...

 

Camilo Martins de Oliveira

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - II

Comme la lune au milieu de l'eau.jpg

 

 

   Do primeiro passo que démos para circunscrever um conceito possível de estética do efémero, no texto anterior, Yoko Orimo conclui : Com esta noção de impermanência, revestida da filigrana da sua dimensão permanente, de tudo se poderá  libertar uma infinidade de matizes. Face aos acontecimentos dramáticos do mundo, às vicissitudes e ao mistério da vida humana, no nosso coração se misturam então a dor e a aceitação, a tristeza e a serenidade, o lamento do que desapareceu e a alegria da espera do que vai nascer. O budismo antigo, nascido na Índia, atingiu assim no Japão o cumprimento final da sua transformação ou alteração doutrinária. Assim se elaborou, sobretudo a partir da era Muromachi (1392-1573), o fruto de tal aculturação : a estética japonesa do efémero.

   Será que a inspiração desta  -  tal como a teremos visto  -  pouco ou nada ou talvez muito tenha a ver com a dos actuais movimentos de arte efémera? O conceito hodierno de efemeridade parece ter mais a ver com o propósito de vanidade e lixo do que com a procura de permanência na natureza perecível. Seremos já vítimas do embaciamento de um olhar maravilhado para a beleza do universo, que afinal revela a perda do nosso olhar interior que nos vai incapacitando de ver o mundo pela transparência do espelho da nossa alma? O espelho onde nos vamos mirando tão somente nos devolve a imagem que de nós já temos, incapazes de amor e vistas para além das nossas limitações. Talvez por isso a nossa nova arte do efémero pareça sobretudo desespero e renúncia, e um doentio e profundo desprezo pela nossa incapacidade, não só de regenerar, mas de, sequer, imaginar restaurado. Mais propensos a lamentar o que se vai do que a alegrar-nos com a novidade que possa vir, podemos comprazer-nos na representação da decadência, da fragilidade, na desilusão de nós. Ou, mais radicalmente, em habitar o absurdo. Todavia  -  graças a Deus!, direi eu à moda antiga  -  também andam por aí muitos outros que  -  trânsfugas dessa obsessão narcísica com o irreparável  -  com arte vão revestindo ruínas ou, mais ainda, com arte vão erguendo obras de esperança feitas com material reciclado do lixo a que a propensão egoísta e destruidora do consumismo teria condenado. Em vez de olhar para o efémero como fatalidade, destino final de tudo, vêem-no como momento e promessa, como terminação anunciadora de novidade. Porque esta, com todo o seu potencial, já lá está, não para ser esquecida ou repudiada, mas para que, em qualquer forma, ressurja na sua permanência.

   Assim, a estética do efémero é uma estética de contemplação ou, como escreve Yoko Orimo, uma estética que não se apoia na invenção nem na originalidade, mas na reflexão no sentido de reflexo. É como a luz do Japão, luz indirecta : uma meia-luz, tamisada por uma taxa sempre muito alta de humidade atmosférica. Ou então é como a luz da lua, luz que é um reflexo. Revestir-se do Despertar deve pois querer dizer reflectir o Despertar que escapa a qualquer tentativa de posse. Diz Mestre Dogen : «O ser humano chega ao despertar tal como a lua permanece no meio da água : a lua não se molha, a água não se quebra...» Apesar de indissociavelmente ligadas, nem a lua nem a água exercem qualquer poder, uma sobre a outra ; cada qual fica perfeitamente livre e autónoma. A lua que se reflecte no meio da água, esse reflexo do reflexo, não é, aliás, verdadeira nem falsa, como a parábola da luz, como a imagem acantonada num espelho.

   Afinal, mesmo quando for ou nos parecer feia a nossa circunstância, teremos de aprender a abrir os olhos do coração. Porque será da bondade do olhar que tivermos sobre o mundo, natureza, pessoas e coisas, que crescerá a força do amor que contempla, redime, restaura e torna completa a nossa alegria. Assim aprendi também com S. João Evangelista. E tal me ocorre em tarde de Pentecostes, a festa da multidão dos dons, que sempre nos chama a recriar o Universo. Pois por nós o Espírito irá renovando, em feitos e promessas, no tempo escatológico, a face da terra.

 

                  Camilo Martins de Oliveira

Camilo Martins de Oliveira

 

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - I

  

Por qualquer razão, ou nenhuma, pareceu-me curial iniciar a publicação de post scripta, isto é, escritos posteriores às minhas cartas à Princesa de mim, apontamentos anotados na sequência delas, quer porque os redigira e não enviara, quer porque apenas os rascunhara para outros textos de reflexão. Reencontrados agora, apresentam, quanto a mim, uma virtude rara: a de descobrirem momentos de um qualquer discurso do meu pensarsentir, sem pretender concluir mais além do que a sugestão de caminhos para o entendimento de culturas que povoam a terra nossa, com as suas condicionantes e aparentes divergências, convergências, contradições e semelhanças. Sem pretender ensinar seja o que for, mas apenas recordar o que nos ajude a aproximar-nos. Não trago teses, trago hipóteses talvez só adivinhadas, mais insinuadas do que expostas.  

 

          Haru wa hana                     À Primavera as flores

          Natsu hototogisu               Ao Verão o cuco               

          Aki wa tsuki                        Ao Outono a lua

          Fuyu yuki sae te                 Ao Inverno a neve

          Suzushi kari keri                Cristalina  imaculada

 

   Este poema encontra-se no cancioneiro Shobogenzo (abram os ós e leiam guê) que Mestre Dogen (idem para a pronúncia do nome) redigiu entre 1231 e 1253, ano de sua morte. Tal coletânea é obra marcante e reveladora da cultura e da literatura japonesas: na verdade, todos os waka que a compõem foram escritos em japonês clássico. Mas, como nos esclarece Yoko Orimo no seu inspirador Comme la lune au milieu de l´eau, Art et spiritualité du Japon (Le Prunier, Sully, Paris, 2018) -, feitas as contas, mais não são do que traduções e comentários de sutras e textos escritos em chinês...   ... No seio do espaço literário essencialmente compósito da obra, concebido e estruturado como espelho sem estanho, o japonês e o chinês mutuamente se refletem. E é graças ao reflexo dessas duas línguas e civilizações, simultaneamente tão próximas e tão diferentes, que conseguimos ver e entender o que ainda não tínhamos visto nem entendido até agora...

 

   Esta autora japonesa, diplomada pela École Pratique des Hautes Études de Paris é sobretudo conhecida, precisamente, pela sua tradução e interpretação do Shobogenzo - a verdadeira Lei, Tesouro do Olhar (Sully, Vannes, 2014), de Mestre Dogen (1200-1253). Talvez por aqui inicie ela a sua interpretação da cultura japonesa como cultura de empréstimo, ideia que não andará muito longe da de outros, mas sempre no sentido em que Shusaku Endo nos fala da assimilação pelo "pântano" japonês, que tudo engole, digere e devolve seu. Tenho para mim, e não só, que a caraterística marcante da cultura japonesa - tal como entendo o que é uma cultura - é o seu extraordinário poder de assimilação de outras, sempre concomitante à sua perseverança em ser ele própria.

 

   Mas prefiro hoje abordar a questão do tempo como essência da própria cultura nipónica. Em cartas muitas à minha Princesa de mim falei da perceção e cultura do efémero como forma de espiritualidade... Sobre outras teses da presença essencial do tempo em culturas como a do Sol Nascente, talvez diga que sim, mas enquanto momento. Arrisco então a hipótese de que o instante no tempo circular é como eternidade, essência mais do que efeméride.

 

   Será isto mais difícil de entender em mentes que pensam em tempo escatológico.  Todavia, também nós, os que vivemos em culturas de forte sentido escatológico, muita vezes nos surpreendemos a viver, pensarsentir ou desejar como eternidade um instante só. Então dizemos que, durando apenas um minuto ou uma hora, nos pareceu uma eternidade. Poderá ter sido assim por força do nosso lado passivo, sofredor ou ansioso. Ou, para nossa satisfação, por virtude desta nossa entranha amante, ou por essa aspiração à completude perfeita que, para tanto ser, só é concebível na intemporalidade, num algures ainda desconhecido e, como tal, quiçá um nenhures a que chamamos utopia. Assim imaginaremos a nossa ressurreição possível apenas noutro mundo, ou num universo transformado, como a face da terra renovada pelo Espírito, tudo isso, afinal no final do tempo, quando a duração já não é possível, pois nenhuma mensuração poderá então fazer qualquer sentido.

 

   Em tempo circular, já os instantes e suas manifestações próprias se sucedem em roda de eterno retorno, como se a passagem das horas, dos dias, das luas e das estações fossem constante advento e regresso. Assim devemos entender aquele ditado japonês que diz que a flor é o espelho do tempo, pois que pela variação infinita das suas formas e cores, lembra-nos Yoko Orimo, a flor nos deixa ver o tempo: fazendo-se eco do que é nela invisível, a flor anuncia a estação que chega e que parte. Com esta inspiração devemos entender esse ensinamento de Mestre Dogen: A multidão de cores não está reservada apenas às flores, a multidão dos tempos também se reveste de cores como o azul, o amarelo, o vermelho, o branco, etc. A Primavera atrai as flores; as flores atraem a Primavera.

 

   Sobre esta intuição, Yoko Orimo elabora a seguinte premissa: Se a flor é o espelho do tempo, espelho que traz a imagem do invisível, o tempo é já, ele próprio, o espelho. E conclui: Refletindo-se a si mesmo e em si mesmo, o tempo torna visível a imagem deste Presente tal qual, Presente eterno. Já dizia Mestre Dogen que, sendo a imagem e o espelho apenas um, esse espelho é a Natureza. E Orimo esclarece que, contrariamente aos espelhos feitos por mão humana, o espelho que é a Natureza é um espelho sem estanho, «Não tem verso nem reverso, ambos os lados oferecem visão. Parecem coração e olho. E parecer significa que uma pessoa encontra outra» (Dogen)... A cada instante, em cada estação, a Natureza realiza a sua própria imagem, fazendo-se eco dela mesma e nela mesma, desde sempre e para sempre. Isto porque no coração da Natureza se encontra a Ressonância do universo. Nada mais além dessa Ressonância do universo, idêntica ao coração da Natureza, se cristaliza na Primavera em imagem de flores, no Outono em imagem da lua, no Inverno em imagem da neve.

 

   Assim a própria natureza se contempla nela mesma: ver e ver-se, o visível e o invisível, o dentro e o fora, a profundidade e a superfície são apenas um. E como essa visão da Natureza pertence ao coração da Natureza, o povo japonês diz que «A flor tem coração». E perante a terra toda coberta de neve, Mestre Dogen afirma: «todo o verso e todo o reverso estão cobertos de neve profunda. O universo inteiro é a terra do coração, o universo inteiro é sentimentos e emoções das flores!» Por paradoxal que pareça, só o coração da Natureza, puro e transparente como um espelho, cria a primazia da superfície na estética japonesa...

 

   Tal dimensão espiritual da Natureza, e a profunda comunhão do ser humano com ela, será o que explica a frase de Paul Claudel: Nesse belo e feliz país o natural e o sobrenatural são apenas um... Eu próprio que, desde muito novo, enveredei pela busca insistente da consistência de algo permanente, sendo aliás sempre curioso e sobretudo atento a processos de aculturação, tentei - talvez inspirado pela minha juvenil leitura de Teilhard de Chardin e de Lévy-Strauss - perceber melhor os progressos e falhanços das inculturações religiosas e filosóficas no Japão. Já falei bastante sobre isso, e até publiquei escritos dispersos, designadamente sobre os modos budistas de aculturação com o shintoísmo nativo, bem como o estigma de estrangeirado que sempre marcou o cristianismo naquela cultura. Sobre a seara que hoje escolhi para talho de minha fouce, nada repetirei do que já afirmei ou interroguei. Apenas traduzirei uns trechos da obra de Yoko Orimo aqui citada, que oportunamente introduzirei nestas reflexões sobre a estética do efémero. Por agora, regresso a lições colhidas em leituras da minha mocidade e que, pensossinto, paradoxalmente ainda hoje me ajudam a conviver melhor com espiritualidades inspiradas por outras diferentes filosofias, tal como por visões do universo e perceções do tempo certamente contrárias e aparentemente contraditórias daquelas em que fui criado. Ao melhor recordarmos raízes, troncos e ramos da nossa cultura nativa, tanto melhor nos aperceberemos das diferenças dos conceitos inerentes a discursos e sensibilidades diversas e, por exercício dialético, nos aproximaremos de um olhar comum do coração da humanidade.

 

   Assim, é curioso como o grande paleontólogo, antropólogo, visionário e místico, francês e jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin, autor de obras cujos títulos apenas já muito dizem (La Place de l´Homme dans la Nature; Le Phénomène Humain; Le Milieu Divin), evolucionista crente na obra de Deus como motor da história natural, suspeito de panteísmo pela Igreja, tenha começado a sua aventura interior, científica e mística, por um firme propósito de procura do imperecível e duradouro. Escreve um seu biógrafo, o dominicano Jacques Arnould - doutor em ciências e em teologia, investigador da vida e sua evolução e das dimensões éticas, sociais e culturais da chamada "conquista do espaço" - em Teilhard de Chardin (Perrin, Paris, 2005:

 

   Sempre em busca do imperecível e do duradouro, atravessa um período dito "do Ferro". Sessenta anos depois, escreverá em Le Coeur de la Matière: «Não devia ter mais de seis ou sete anos quando comecei a sentir-me atraído pela Matéria ou, mais exatamente, por algo que "luzia" no coração da Matéria». É verdade que, esclarece, sob a influência duma mãe tão piedosa como a sua, ele tem muito amor ao Menino Jesus. Todavia, reconhece, o seu "eu" está alhures nesses momentos em que, secretamente, se recolhe «na contemplação, na posse, na existência saboreada do seu "Deus de Ferro"». Uma chave de charrua encontrada no campo, ou um estilhaço de obus, a cabeça duma cunha de reforço, claro que metálica, emergindo dum soalho: eis uns ídolos que o miúdo literalmente adora. «E porquê o Ferro? e porquê, mais especialmente, tal pedaço de ferro (tinha de ser, o mais possível, espesso e maciço), só porque, para a minha experiência infantil, nada neste mundo era mais duro, mais pesado, mais tenaz, mais duradouro do que essa maravilhosa substância apanhada em forma tão plena quanto possível...» De que andará já à procura o rapazito de Sarcenat, que prefere o robusto coleóptero à muito frágil borboleta, a não ser da consistência e, sobretudo, do inalterável? «Até hoje (e sinto que até ao fim) essa primazia do Inalterável, isto é, do Irreversível, não cessou, não cessará nunca de marcar irrevogavelmente as minhas preferências pelo Necessário, pelo Geral, pelo "Natural" - por oposição ao Contingente, ao Particular e ao Artificial - tal disposição tendo, aliás, e por muito tempo, obscurecido a meus olhos os valores supremos do Pessoal e do Humano. Sentido da Plenitude, já nitidamente individualizado, e procurando já satisfazer-se pelo agarrar de um Objeto onde se concentrasse a Essência das Coisas». Ser-lhe-ão precisos muitos mais anos para descobrir «até que ponto a Consistência é então um efeito, não de "substância", mas de "convergência". 

 

     Agora, neste instante mesmo, cá estou eu a tentar olhar para isso a que se chama "Essência das Coisas" por diversas perspetivas, e procurando apor dois discursos diferentes, em vez de os opor. A perspetiva do tempo escatológico, prisma cristão, e a do tempo circular, não só prisma budista, mas shintoísta também e, na cultura japonesa, com a sua versão shinto-budista. Traduzo mais um trecho do livro de Yoko Orimo:

 

   Deve ressaltar-se que, no decurso do longo processo de aculturação do budismo em terra japonesa, se desenvolveu, sobretudo a partir do fim do século XI, o sincretismo shinto-budista, em cujo seio a pouco e pouco se operou uma revolução doutrinal acerca da noção de impermanência: mujo. Se o budismo antigo concebia, com forte pendor pessimista, a existência humana como que atirada para o oceano do sofrimento em que os seres transmigram infinitamente, para o shinto, o mesmo movimento perpétuo do aparecer e desaparecer neste mundo fenomenal mais não é do que o processo natural e global da regeneração da vida do universo, incitando o ser humano a contemplá-la e exaltá-la. Nos confins destas duas óticas espirituais radicalmente opostas [a budista antiga e a shinto-budista], o sincretismo shinto-budista acaba por proclamar que a impermanência é permanente enquanto impermanente e é precisamente a própria manifestação da natureza do Despertado (Buda) abraçando a vida de todos os existentes, incluindo minerais e vegetais.

 

   Regresso afinal à minha tradução e meditação do waka de Dogen, acima transcrito: a Primavera (haru) é flor (hana), como as flores são Primavera; o Verão (natsu) cuco (hototogisu), como é cuco o Verão que o pássaro do tempo (hototogisu) acorda; o Outono (aki) é lua (tsuki), e esta em suas fases passa pelo quarto minguante e outonal do ciclo; anunciando o Inverno (fuyu), neve (yuki) gélida que, cristalina, nítida, nos cobre como manto. Os perecíveis impermanentes da Natureza falam-nos da permanência da vida, fazem-nos ver o invisível. Também aqui descobrimos que a Consistência não é efeito da substância, mas da convergência do Espírito e da Matéria. Simultaneamente material e visível, espiritual e invisível.  Será?

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei se esta duodécima das derradeiras será a última que te escrevo por agora. O tempo o dirá. Como tão bem sabes e tantas vezes te lo disse, tenho uma relação ambígua, ou talvez apenas ambivalente, com isso a que só chamarmos tempo. Nele terei sempre de situar-me, por mim e pelos outros, pela curiosidade do passado, a verificação do presente e a tentativa perscrutação do futuro. Será só uma necessária categoria mental, como a noção do espaço, mas se nos situarmos fora da sua circunstância seremos, nós próprios, perturbados na perspetiva do olhar e na sua justeza sobre as coisas e os humanos, o mundo e a vida. Quiçá também sobre Deus, o Quem transcendente, O que está ontologicamente fora do visível. E que, enquanto tal, nunca é, nem pode ser, relativo, como são todas as coisas e pessoas, pensamentos atos e omissões que vão preenchendo a História. O que não significa que seja absoluto, não relativo, o nosso olhar sobre Ele. Assim, por outro lado de mim, como tantas e tantas vezes te disse e escrevi, pensossinto-me além do tempo. Sinceramente te lo digo: em tal tensão vivo e não esmoreço. Nem nada quero, desejo ou, sequer, anseio deslindar. Sempre fiel ao que chamo "minha dialética com a vida", que vai animando o mundo das coisas e das pessoas, sou igualmente fiel a esta íntima consciência de mim: a de estar de partida ou, se preferires, de regresso a casa. Tal é o sentido que dou a essa frase de S. Paulo (Hebreus, 11, 1, na tradução de Frederico Lourenço): Fé é garantia de coisas que se esperam e certeza de coisas que não se veem.  Muitas vezes a leio, dizendo que a fé é a substância, a essência das coisas que hão de vir. A tradução de F. Lourenço é praticamente idêntica à versão francesa, também diretamente do original grego, do dominicano C. Spicq para a edição da Escola Bíblica de Jerusalém. Pessoalmente, gosto muito da leitura feita pelo cónego José Falcão na sua versão portuguesa, a partir do texto grego, publicada pela Gráfica de Coimbra em 1965 (e que nesse mesmo ano adquiri por 65$00): A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam, a prova da realidade das coisas que se não veem. "Sustentáculo" traduz aqui o grego "hypostasis", isto é, o que está por baixo, o apoio, o pedestal. Na verdade, a nossa relação com o transcendente está necessariamente acima do nosso entendimento e, não sendo necessariamente uma estupidez ou cegueira, necessita porém do sustentáculo da fé.

 

    Talvez por isso mesmo, há tantos anos já, quando o Ernâni Lopes me mostrou o seu Francisco de Borja meditando, qual São Jerónimo, sobre a caveira da morte, lhe recitei duma assentada a meditação do duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, poema da Sophia que eu há muito decorara por sentir como intimamente meus alguns versos seus: ... nunca mais darei ao tempo a minha vida... nunca mais servirei senhor que possa morrer... nunca mais servirei quem não possa viver sempre... porque eu amei como se fossem eternos a luz a glória e o brilho do teu ser... amei-te em verdade e transparência... e nem se quer me resta a tua ausência... és um rosto de nojo e negação... e eu fecho os olhos para não te ver...

 

   A experiência da morte próxima, seja quem for que morra, tanto quanto a solitária ideia dela, eis que nos surpreende o ser e se nos anuncia como dor funda, agudíssima, contrária a nós. Pois que é a própria persistência do ser no ser que o mantém vivo, a morte só me é concebível no tempo, nunca na eternidade, o seu momento sendo apenas um passo desconhecido. Ao terminar, qualquer tempo é um buraco negro que em voragem final até os seus vestígios leva: ...e nem sequer me resta a tua ausência. Por paradoxal que possa ser, a própria ideia da morte nos repugna visceralmente, a nós humanos que recusamos o que é próprio a todo o mundo biológico: a consumação post mortem na reciclagem da natureza, onde nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Assim, contrariando o que seria natural, encaramos a morte como sendo contra natura. E tal invenção da nossa própria eternidade é-nos tão íntima que ainda pequeninos nos acontece reclamá-la, como já te narrei num dos contos breves dos meus netos. Mais precisamente, naquele em que o Tomás, então com quatro anitos apenas, se passeava comigo pelo Jardim dos Passarinhos, no Monte Estoril, quando deparamos com um cágado velhinho, e a minha neta Inês, sua irmã, me questiona: "Ó Avô, esta tartaruga vai morrer? Porquê?" E eu respondo: "Talvez, é natural, pois tudo o que nasce morre"... E logo o Tomás, rápido: "Então o Tomás não nasceu!"

 

   Há milénios que sucessivas gerações vivem a condição humana nessa tensão entre o da sein em que cada um se descobre e o ser em infinitude que se sente interiormente. Aqui estamos e somos, mas a nossa própria imperfeição, o nosso inacabamento - todos os dias verificável - parece acordar-nos e vocacionar-nos para uma qualquer completude, perfeição ou acabamento do nosso ser. Mas aqui aprenderemos também que tal não será possível no tempo, pois este é duração medida, e todo o mensurável tem princípio, meio e fim, tem horizonte traçado. O tempo é um espaço de finitude, medido pela duração. Por isso tanto falamos de um período de tempo como num espaço de tempo, e a marcação de uma frase musical se pode fazer pela cadência, e esta imaginar-se como a distância da queda de uma nota para outra. Qualquer eternidade do ser não é, portanto, não pode ser, sequer, concebível sem a transformação do espaço-tempo em algo que transcende a nossa verificação possível, e a que a nossa ignorância chama o Infinito, conceito paradoxal por excelência, ambíguo mesmo, já que infinito não é só o que não foi acabado, o imperfeito, é, enquanto ser, ele mesmo, o Ser Infinito.

 

   O Quem, assim o apelidou Saramago; YHWH, o tetragrama hebraico que nos diz ser impronunciável o nome do Deus bíblico, que é raiz do verbo ser ("Eu Sou" ou simplesmente "Ser"); o Nada dos grandes místicos como o meu tão querido Mestre Eckhart, que escreve no seu sermão 71, que mais de uma vez te lembrei nas minhas cartas, citando um passo dos Atos dos Apóstolos, na versão latina da Vulgata: Surrexit autem Saulus de terra, aperitisque oculis nihi videbat ("Levantou-se Saulo do chão e de olhos abertos não via nada"): Parece-me que esta frase tem quatro sentidos. O primeiro deles é: quando se levantou do chão, com os olhos abertos, nada viu, e esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou nada viu, mas apenas Deus. Terceiro sentido: em todas as coisas apenas viu Deus. Quarto: quando viu Deus, viu todas as coisas como nada.

 

   O Quem de Saramago surge, nas leituras de cabine do seu imaginado Ricardo Reis (cf. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de que te falei nas minhas "Cartas a José Saramago"), como personagem misteriosa e título de uma aventura "policial" (ou de investigação). Será uma questão persecutória, não é ainda pausa ou conclusão filosófica, muito menos intuição metafísica. O tetragrama bíblico estará na fronteira de tal intuição como uma revelação teológica. A contemplação mística do medievo dominicano alemão é já um exercício propriamente teológico, um desenvolvimento da fé pelo labor da razão. Afinal, de nada ou muito pouco estamos sempre absolutamente seguros. Vivemos na contingência. Mas pecado, mesmo, será apenas contentarmo-nos com os limites dela e fecharmos o olhar, o caminho e a vida à possibilidade de novo progresso.

 

   Fecho esta carta, citando-te um passo do Corão (versículo 34 da Sura 21, dita "Dos Profetas"): Não demos a imortalidade a homem algum antes de ti. Seriam eles imortais, enquanto que tu vais morrer? E outro ainda (vers. 4 da Sura 10, dita Jonas)

 

  Todos voltareis a Ele. Eis a verdadeira promessa de Deus: Ele faz emanar a criação e depois fá-la regressar, a recompensar aqueles que creem, que praticam as boas obras com equidade. O destino do mortal cumpre-se com a morte, a que não pode escapar. Mas o destino da humanidade é a vida com Deus, no advento da Nova Criação. Creio que há aí, no Islão, uma tradição cristã. Tal como S. Paulo, na sua Carta aos Romanos (6, 2-11, tradução de F .Lourenço) teologicamente expõe: Nós que morremos para o erro, como viveremos nele? Ou ignorais que tantos quantos fomos batizados para Cristo Jesus, para a morte dele fomos batizados? Fomos sepultados com ele através do batismo para a morte, para que, tal como Cristo ressuscitou dos mortos através de glória do Pai, do mesmo modo também nós caminhemos em novidade de vida. Pois se nos tornámos unidos à semelhança da morte dele, também o seremos na semelhança da ressurreição. Saibamos isto: que o homem antigo que havia dentro de nós foi crucificado, para que fosse anulado o corpo do erro; e saibamos que não somos escravos do erro. Pois quem morre foi ilibado do erro. Se morremos com Cristo, acreditamos que também viveremos com ele, sabendo que Cristo ressuscitado dos mortos já não morre: a morte já não tem senhorio sobre ele. Pois aquilo que ele morreu, para o erro morreu de uma vez por todas; aquilo que ele vive, vive para Deus. Do mesmo modo, considerai-vos também vós mortos para o erro e vivos para Deus em Cristo Jesus.

 

   A fé é a minha aproximação a tudo o que ainda não posso ver. Vou aprendendo a contemplar o invisível,

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XI

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreves-me, em resposta à minha última carta, que te pareci adoentado e pessimista... Dizes mal: na verdade, continuo afligido por dores e maleitas velhinhas e não me refugio em sonhos de recuperações passadas que, próprias de outras idades e viços, não creio que possam repetir-se. Mas, se dou comigo a cair em tentações de lástima ou resmunguice, logo tento eu mesmo entrar em dialética com a vida, neste tempo atual e em modos possíveis. Esqueço o que me pesa, tampouco olho para trás, procuro descortinar na realidade presente a substância das coisas por vir. Ganho a leveza necessária para, em vez de me prender ao que fui, voar até onde não estive ainda.

 

   Entrar em dialética com a vida que anima o mundo das pessoas e das coisas visíveis e invisíveis é como estabelecer uma relação de contacto e afeto com a realidade, isso a que, quiçá, muitas vezes chamamos progresso. Costumo, aliás, dizer para comigo que a diferença entre essa minha perspetiva dialética e a hegeliana, ou a marxista, é que a minha não é obsessivamente determinável, nem necessariamente fatal, antes se desenrola numa dinâmica de liberdade, isto é, em animação do espírito criador.

 

   E a talho deste, calha falar-te dum opúsculo de Paul Valéry, originalmente escrito em francês, mas para tradução em inglês e sua publicação na famosa e já antiga revista londrina Athenaeum - hoje dirigida por John Middleton Murry - em abril de 1919. Há um século... A Amazon, para comemorar tal centenário, edita agora, pela primeira vez, o original francês, intitulado La Crise de l´Esprit. O texto breve distribui-se por duas cartas, tendo a primeira sido publicada pela Athenaeum em 11 de abril de 1919, e a segunda em 2 de maio. Com um século, eis um documento profético, na medida em que já anuncia preocupações do nosso tempo, ecoadas em raros mas pertinazes passos de discursos e comentários hodiernos, no quadro desta campanha para as eleições europeias de 2019. Traduzo-te seguidamente alguns trechos das seculares cartas de Paul Valéry:

 

   Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais.

 

   Ouvimos falar de mundos inteiramente desaparecidos, de impérios afundados a pique com todos os seus homens e engenhos; levados até ao fundo inexplorável dos séculos com os seus deuses e leis, as suas academias e as suas ciências puras e aplicadas; com as suas gramáticas, os seus dicionários, os seus clássicos, seus românticos e simbolistas, seus críticos e os críticos dos seus críticos. Sabemos bem que toda a terra aparente é feita de cinzas, que a cinza significa alguma coisa. Apercebemo-nos, através da espessura da história, dos fantasmas de imensos navios que vogavam cheios de riqueza e de espírito. Não podíamos contá-los. Mas esses naufrágios, ao fim e ao cabo, não eram de nossa conta.

 

   Elam, Nínive, Babilónia, eram belos nomes etéreos, e a ruína total desses mundos tinha para nós tão pouco significado como a sua própria existência. Mas França, Inglaterra, Rússia... seriam também belos nomes. Lusitânia também é um belo nome. E vemos agora que o abismo da história chega para todos. Sentimos que uma civilização é tão frágil quanto uma vida. As circunstâncias que atirariam as obras de Keats e de Baudelaire para o pé das obras de Meandro já não são inconcebíveis: vêm nos jornais. 

 

   ... ... Uma primeira ideia surge. A ideia de cultura, de inteligência, de obras magistrais, tem para nós uma relação muito antiga - tão antiga que raramente subimos até ela - com a ideia de Europa.

 

   Outras partes do mundo tiveram civilizações admiráveis, poetas de primeira ordem, construtores e até sábios. Mas nenhuma parte do mundo possuiu esta singular propriedade física: o mais intenso poder emissor unido ao mais intenso poder absorvente.

 

   Tudo veio à Europa e tudo dela veio. Ou quase tudo...

 

   Ora, no presente, levanta-se esta questão capital: irá a Europa conservar a sua preeminência em todos os géneros?

 

   Tornar-se-á a Europa no que, na realidade é: um pequeno cabo do continente asiático?

 

   Ou permanecerá a Europa aquilo que parece, ou seja: a parte preciosa do universo terrestre, a pérola da esfera, o cérebro de um vasto corpo?

 

 

   [Abro aqui um parêntese entre as citações de Valéry, para te lembrar, Princesa de mim, um passo de Os Lusíadas do nosso Camões (Canto III, 20):

 

                                       Eis aqui, quase cume da cabeça

                                       De Europa toda, o Reino Lusitano,

                                       Onde a terra se acaba e o mar começa

                                       E onde Febo repousa no Oceano.

                                       Este quis o Céu justo que floreça...

   Aí nos tens.]

 

   E termino as citações de La Crise de l´Esprit traduzindo o fim da segunda daquelas centenárias cartas do francês:

 

   Mas o Espírito europeu - ou, pelo menos, o que le tem de mais precioso - será totalmente difundível? O fenómeno da entrega do globo à exploração, o fenómeno da igualização das técnicas, o fenómeno democrático, que nos levam a prever uma deminutio capitis da Europa deverão ser considerados decisões absolutas do destino? Ou teremos nós ainda alguma liberdade de contrariar tal ameaçadora conjunção das coisas?

 

   Talvez procurando essa liberdade a criemos. Mas para tal procura será necessário abandonar por uns tempos a consideração dos conjuntos, e estudar no indivíduo pensante, a luta da vida pessoal com a vida social.

 

   E assim chego ao que te queria dizer. Como em cartas, mais recentes do que remotas, já te escrevi, a crise do mundo atual é, em sentido próprio, um ponto crítico, ou seja, um instante insistente, um momento em que se confrontam encruzilhadas, e caminhos parecem abrir-se como opções de orientação: não tenho nenhum dom profético, tampouco pensossinto que o profeta seja ou possa ser um adivinho... Mesmo profetizar é apenas anunciar que dado momento ou a presente hora é do apelo, da vocação, essa do chamamento que nos oriente, no íntimo de nós, para a via que nos aparece como a da virtude, isto é, da fortaleza na construção da cidade aberta a todos. Pois que não há convívio possível no mundo sem consciência da humanidade comum. E digo-te isto, minha Princesa de mim, não primeiramente por razão evangélica tão insistente nos escritos de S. João, mas por não poder, eu próprio, pensarsentir-me noutra condição que não seja essa, genética, comum a todos nós: Deus criou o Homem, e criou-o homem e mulher. Pertencemo-nos na nossa humanidade.

 

   Cada vez menos, e muito rapidamente, o mundo nosso habitat se divide entre centro e periferia, antes na ribalta vão surgindo povos e culturas clamando igualdade. Até o próprio fenómeno migratório massivo que todos os dias é invasivo mais não é do que um sintoma do impulso generalizado de emergência das gentes e da sua dignidade, a reclamarem o espaço de liberdade e progresso que perderam nas pátrias em que a ganância e o poderio de outros as submergiram.

 

   A urgência do momento atual não é equacionar poderes dominantes ou para tal vocacionados, é saber aceitar e compreender o diálogo como condição indispensável do convívio inevitável, para que este antes seja fator de construção de um mundo de justiça e paz. O Espírito da Europa - com a qual tudo foi ter, e da qual tudo, ou quase tudo veio - diz Valéry logo após o fim da Grande Guerra, talvez tenha essa missão de propor o caminho da liberdade, da tal liberdade que criamos quando a procuramos. Demanda só possível em jeito e amor de távola redonda dos povos todos, nos antípodas das tentações hegemónicas das grandes ou maiores potências ou das pretensões nacionalistas de pequenos satélites votados a sonhar com qualquer Retrotopia.  E, por falar nisto, fecho esta carta traduzindo-te trechos do final do livro de Sygmunt Bauman com o mesmo título (originalmente editado, em inglês, na versão que possuo, pela Polity Press, Cambridge, 2017):

 

   Todavia, há condições a respeitar para nos percebermos e tratarmos uns aos outros como ´válidos parceiros de diálogo´. As probabilidades de diálogo frutífero, tal como o Papa Francisco nos recorda, dependem do nosso recíproco respeito e a assumida, garantida e mutuamente reconhecida igualdade de estatuto:

 

   «A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É uma obrigação moral. Se quisermos repensar a nossa sociedade, precisamos de criar empregos dignificantes e bem pagos, especialmente para a gente nova. Fazê-lo requer conceber novos, mais inclusivos e igualitários modelos económicos, visando não só servir uns poucos mas beneficiar gente comum e a sociedade no seu conjunto. Isto chama-nos a passar de uma economia líquida para uma economia social.» 

 

   Não há atalhos para um regresso rápido, hábil e sem esforço à construção de diques contra a corrente - seja a Hobbes, às tribos, à desigualdade, ou ao ventre materno. Repito: a tarefa presente de se elevar a integração humana ao nível de toda a humanidade não terá provavelmente qualquer precedente, precisamente por se revelar tão árdua, onerosa e perturbante de perspetivar, realizar e completar. Temos que nos preparar para um longo período, marcado por mais perguntas do que respostas, mais problemas do que soluções, tal como para agirmos na penumbra de difíceis equilíbrios entre as probabilidades de êxitos e de derrotas. Mas neste caso - contrariamente aos casos em que Margaret Thatcher invocava falta de alternativas - o veredito de que "não há alternativa"

 

depressa perderá sentido e não beneficiará de qualquer apelo. Mais do que em quaisquer outros tempos, nós - habitantes humanos da Terra - estamos numa situação de ou/ou, assim ou assado: ou nos damos as mãos, ou iremos cair na mesma sepultura.

 

   As campanhas eleitorais europeias perderam mais uma oportunidade de suscitar uma reflexão cidadã.

 


Camilo Maria       

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - X

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    Minha Princesa de mim:

 

  Quando passo dias de aturo de nevralgias, mialgias e outras algias roedoras, acontece-me pensar como nem a lenta duração do tempo nos ajuda sequer a adivinhar o que virá aí. Em situações de incómodo ou aflição, a ânsia de um alívio é sempre mais autoritária do que a imaginação de qualquer outro porvir. E, entretanto, será também mais paliativa a evocação ou recordação de recuperações e confortos passados, ainda que assim se possa confundir a força expressiva do desejo com a imaginação que nos constrói um pretérito cujo regresso desejamos precisamente porque o revestimos de curativas bondades. Aliás, quase nos sói dizer "já passei por pior e aqui estou, e bem melhor do que dantes!", ou, ainda, "estou como novo, é sempre assim!".  As fezadas talvez não sejam ingénuas, mas tão somente inocentes. Certo é que lá vamos vivendo e desaborrecendo o nosso anjo de serviço que, lá em cima, vai sorrindo por achar graça a resmungões resignados... Muito embora, e todavia, nova resmunguice nos vá minando ao pensarsentir que muita gente à nossa volta é mal agradecida, pois nem se dá conta de como vamos, briosos, calando ou, mais eufemísticos, mascarando tantas e tão justas queixas...

 

  Imagina tu agora, Princesa de mim, como se sentirá qualquer de nós se, em vez de se ver ao espelho de si ou de olhar para o retrovisor, abrir a vista para o que tem à sua frente, o imediato tangível, o nevoeiro próximo, o além desconhecido. Desde logo nos desconcentramos de nós próprios e vamos perdendo peso, não será tão depressa que nos afundaremos. E, logo também, o tangível se torna palavra e acto ao nosso alcance, sobretudo consciência e caminho de relação com coisas e gente que dão vida ao mundo, a este mundo a que pertencemos e a cuja obra somos chamados. A seguir, perscrutamos a neblina próxima, que vai recuando como se a intensidade concentrada do nosso olhar a empurrasse para libertação da nossa descoberta. E quando finalmente chegamos ao início do invisível, paramos para o contemplar, livres do peso de nós, feitos só interrogação. Muitas vezes pensossinto, Princesa de mim, que então se consciencializa a quintessência desta condição humana: quando já não é uma voz a perguntar-me Quo vadis?, mas o íntimo de mim que me questiona: Quo vado?

 

  Chova ou faça sol, sofra eu ou regozije-me, nada disso tem sentido em si. Ainda que pareça teimosia, só esse convívio anímico com tal interrogação me traz sentido à vida: para onde vou? Como se eu fosse fora de mim e no caminho da vida me encontrasse.

 

      Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - IX

 

Minha Princesa de mim:

 

   Porém se eu ousasse e as minhas palavras tivessem muitas cãs, elas abririam este coração onde jazem algumas coisas que sente, e a tenra idade não quer que diga... Este misterioso passo da Crónica do Imperador Clarimundo de João de Barros, o  autor das Décadas da Índia, surge-me do século XVI e faz-me pensarsentir em dantes e muito para além do episódio daquele romance de cavalaria, em que o imaginário imperador da Hungria e raiz da linhagem dos reis de Portugal, recebe um escudo pintado, como assim resume Eduardo Lourenço no seu Clarimundo: simbologia imperial e saudade (em Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade (Gradiva, 1999): Fanimor enviara a Clarimundo um escudo pintado, tendo no centro uma ilha escondida por nuvens, alegoria do império do mar, ainda por vir. Agora, na última parte fá-lo passar pelos Açores e aí lhe anuncia que um dia estas ilhas pertencerão a um senhor do seu sangue. É nesta ocasião que Barros se refere com insistência à figura mais misteriosa da sua narrativa, àquele que ele chama «o filho do bravo leão e da mansa cordeira», que, em princípio, só pode ser o infante Dom Henrique. Como sabes, e sobre tal já te escrevi, não sou um adepto da tecelagem de considerações sobre qualquer identidade nacional entendida como fruto da ou a própria constituição histórica duma personalidade a que chamamos nação ou raça. Daí que possa subscrever sem hesitação o seguinte trecho de Eduardo Lourenço:

 

   É tentador assimilar o destino de um povo ao do indivíduo, com o seu nascimento, a sua adolescência, maturidade e declínio. A analogia organicista é, naturalmente, falaciosa. Nem a povos ou civilizações extintos o paradigma humano se aplica. O tempo do indivíduo, a leitura que ele faz do seu percurso, pode ajustar-se a esse processo de surgimento, afirmação e desaparição. Um povo tem igualmente uma história e, por comodidade hermenêutica, pode ser tentado a ler o seu percurso em termos subjetivos de afirmação de si, de presença mais ou menos forte entre os outros ou de existência precária ou ameaçada neste ou naquele momento. Mas o tempo dessa história não é, como o dos indivíduos, percebido ao mesmo tempo como finito e irreversível. O tempo de um povo é trans-histórico na própria medida em que é «historicidade», jogo imprevisível com os tempos diversos em que o seu destino se espelhou até ao presente, e que o futuro reorganizará de maneira misteriosa.

 

   Cada povo só o é por se conceber e viver justamente como destino.

 

   Creio ser importante repetirmo-nos, nos dias hodiernos, esta frase, como motor e meta de meditação. Por duas razões fundamentais: antes do mais, porque a nossa identidade comunitária, enquanto povo e nação, deverá, necessariamente, orientar-se e definir-se em função de um projeto de vida e justiça comum; depois, porque a própria legitimidade da nossa existência política (como estado-nação organizado) já não é atributo nem consequência de linhagem, mas justifica-se pela vontade democrática de construção da casa comum. Hoje, nenhum português pretenderá radicar a linhagem nacional num qualquer Borgonha filho do imperador Clarimundo e de sua mulher Clarinda, por via da qual ele será feito imperador de Bizâncio, sucedendo a seu sogro. Nem romano algum tratará mais do que como ficção literária ou artística a pretensa ascendência da genealogia lendária de Roma ao navegante Eneias. Não há passado verdadeiramente constitutivo da unidade política de um povo se não houver projeto de destino comum de e para quem vive hoje aqui. Pensossinto que uma nação tem necessariamente, como Janus, duas faces: uma vira-se para trás e olha o caminho percorrido; outra está voltada para a frente, perscruta o porvir, em busca da Cidade onde todos poderão conviver melhor e encontrar a felicidade possível.

 

   Por isso também as propostas desses movimentos nacionalistas xenófobos que por aí vêm pululando me parecem, muitas vezes, não só injustas mas violadoras de princípios elementares da cultura de inspiração cristã que ainda nos anima. Além de que, ansiosos por acordarem fantasmas que depois possam espantar incarnados em pessoas, geram muita confusão e pouco tino. Na verdade, a «descristianização do ocidente» não é obra de imigrantes oriundos de outras culturas, senão desgaste nosso. A mutação das nossas paisagens demográficas tampouco se pode fundamentalmente atribuir à presença de outros entre nós, pois mais decorre da nossa baixa natalidade e envelhecimento das populações nativas. E se nos pensarmos dentro da humanidade como um todo, talvez sintamos mais gravosa e preocupante a submissão das nossas sociedades (até incluindo nestas os recém vindos) ao materialismo consumista reinante do que a oportunidade de trabalharmos em aculturações de valores humanos e tradições diferentes. Aliás, tal tarefa é hoje inevitável, dada a trama alastrante das redes de informação e comunicação, de contactos e trocas várias em todo o mundo. Não mais vivemos em período de descobrimentos e conquistas europeias pelo mundo fora, nem de proposição e imposição de valores religiosos, éticos ou culturais do "Ocidente", ou das suas instituições jurídicas e políticas, em todo os lados da terra. Mas se muito de tudo isso foi ficando por toda a parte, também por lá muito o "Ocidente" descobriu e adotou. Aos encantos orientais do nosso século XIX - fascínios do Egipto, da Mesopotâmia, Magrebe ou Palestina, bem como da Índia, da China e do Japão -, que entretiveram a curiosidade das nossas sociedades abastadas e diletantes, sucederam já as modas assimiladas do ioga, da filosofia e da gastronomia extremo orientais... Para não contarmos agora os astros chineses e japoneses da nossa música clássica (maestros, cantores, pianistas, violinos, etc.) E para não falarmos do êxito, nos nossos países, da música latino-americana ou, mais simples e genuinamente, africana. São hoje inúmeros os exemplos de inculturação, e ainda bem que assim é: aprendemos todos, uns com os outros. E há mais: a revista mensal Books, por exemplo, na sua edição deste mês de maio de 2019, faz uma resenha da versão francesa (L´Âge de la colère. Une histoire du présent) do último livro do ensaísta indiano Pankaj Mishra, e refere os elogios que o mesmo recebe do universitário paquistanês (repara, Princesa de mim, paquistanês e muçulmano) Ali Ahmed, no jornal diário Dawn:

 

   «Tendo tido a vantagem de crescer num mundo (perpetuamente) em desenvolvimento, compreendo a modernidade, tal como Mishra, como podendo ser um projeto não viável se perseguir o interesse pessoal quebrando todos os laços de fraternidade».

 

   E eu pergunto: não estaremos todos nós, afinal, a viver num mundo em vias de desenvolvimento? Já ninguém leva a sério as teorias do fim da História. Esta continua, num mundo composto de mudança, tomando sempre novas qualidades... Por vezes surpreendentes! As resistências ao surto e assimilação de uma nova cultura comum a todos -  ou, se preferires, à inculturação de valores constituintes de uma ética de referência para o futuro - surge, por vezes, de onde menos se espera. O filósofo André Comte-Sponville assina, na revista Le Monde des Religions de maio-junho deste ano, um artigo intitulado Dieu est Femme, donde te traduzo alguns trechos: Cada um de nós sabe bem que não é suposto Deus ter um corpo e, portanto, um sexo. Mas todos falamos dele no masculino, e a língua, como sempre, estrutura o imaginário. As deusas, para nós, fazem parte da mitologia, isto é, do passado. Deus, do presente ou da eternidade. Eis um dos raros pontos em que o monoteísmo opera uma espécie de regressão, pela exclusão de qualquer divindade feminina. «Pai Nosso que estais no céu...» Nesse céu mais não vemos do que uma metáfora. Mas quanto à paternidade divina? Porque não «Mãe Nossa»? Tal seria perfeitamente concebível teologicamente. Na prática, todavia, não é nada assim. Cada uma das três «pessoas» da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo) se dizem também no masculino. Poderão objetar que a Virgem Santíssima... Mas eis que esta, precisamente, não é Deus: contenta-se com ser virgem e mãe, o que diz muito sobre o ideal feminino que a Igreja veicula...   ...Entre os crentes, as mulheres são, pelo menos, tantas quanto os homens, e muitas vezes mais praticantes; mas quase sempre em situação de inferioridade ou de subordinação hierárquica no seio das instituições religiosas. Assim se fecha a ratoeira: numa sociedade patriarcal, atribui-se a Deus uma ilusória masculinidade; depois, faz-se da masculinidade, em matéria de culto, uma espécie de privilégio que reforça o patriarcado. «Senhor Padre» («Mon Père», em francês, ou «Meu Pai»), assim falamos ao padre católico, e também isso diz muito, tal como a tola recusa, tantas vezes reiterada, de ordenar mulheres...   ... «A mulher é o futuro do homem», dizia Aragon. E, por aí também, o futuro das religiões. Tanto pior para aquelas que não o quiserem compreender, ou o compreenderão tarde demais.

 

   Virginie Larousse, chefe da redação da mesma revista, escreve em editorial da edição citada: «Há grandeza em ser-se apóstolo. Eles eram eminentes por causa das suas obras, por causa do seu êxito. Glória a eles! Quão grande deve ter sido a sageza desta mulher, para ser considerada digna do título de apóstolo.» Não, não estamos a sonhar: trata-se mesmo de uma mulher apóstolo, de acordo com as próprias palavras de S. João Crisóstomo (344-407), arcebispo de Constantinopla e doutor da Igreja. A mulher a que se refere é citada por Paulo na sua Epístola aos Romanos. No final dessa carta, o apóstolo saúda muitas pessoas que deram uma boa mão à Igreja nascente. «Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de cativeiro: são apóstolos marcantes que me precederam em Cristo» (Rom.16, 7).

 

   Nunca ouviram falar desta mulher? Era de esperar, porque a tradição foi progressivamente fazendo dela um homem... Todavia, durante séculos se soube que Júnia era mulher - como assim o provam as palavras de João Crisóstomo. Até que, no século XIX, sábios entendessem ser impossível considerar «apóstolo» uma pessoa do sexo fraco. E começa-se a transformar o nome próprio dela em «Junias», patronímico masculino, e até a propor-se uma nova tradução -incorreta gramaticalmente - daquele passo da Epístola (cf. o estudo de Eldon Jay Epp, professor na Divinity School da Universidade de Harvard, Junia, uma mulher apóstolo ressuscitada pela exegese, em Labor et Fides, 2014).

 

   Os tempos e modos hodiernos, contudo, não parecem muito entusiastas na defesa do patriarcado, eufemismo significando superioridade masculina, mesmo no seio do Vaticano: veja-se, por exemplo, a demissão, por iniciativa própria, da equipa de redatoras do suplemento feminino do Osservatore Romano, Donne Chiesa Mondo. Tal como, curiosamente, nos devemos recordar de que, apesar de todos os preconceitos respeitantes à condição feminina ainda ativos no mundo islâmico, muito, ali também, vai mudando. Designadamente nas comunidades residentes em democracias plurais, que procuram identificar-se nessas circunstâncias. Apesar de, já há 1400 anos, o Islão autorizar mulheres imãs, isto é, presidentes e condutoras de assembleias de orantes, só muito recentemente se tem assistido ao revigorar dessa prática, designadamente pela fundação de mesquitas com espaços de oração comuns a ambos os sexos, cuidando embora da disposição dos participantes, já que o exercício físico das preces muçulmanas a tal precaução aconselhará... Os respetivos imãs (chamemos-lhes "párocos") tanto podem ser homens como mulheres que se revezam, como só homens ou só mulheres. Seja como for, esta prática, não só abre às mulheres uma participação mais ativa e igualitária na vida religiosa comunitária, como, finalmente, lhe reconhece um estatuto social que poderá repercutir-se na sua vida empresarial e política.

 

   Confesso que me é difícil entender como é que a Igreja Católica, maioritária em sociedades onde tantas mulheres exercem já funções dirigentes, na política, empresas, magistratura, forças armadas e tantas profissões, continua a vedar-lhes o acesso a funções pastorais...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VIII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em oitava de Páscoa, na cultura em que respiramos, interrogamos e debatemos, até a incréus acontece - se acaso convivem de perto com pessoas já idosas que sofram degeneração implacável das suas faculdades de concentração e de memória, sobretudo no imediato ou a curto prazo - refletir mais sentidamente nesse mistério da nossa vida e morte, a que Milan Kundera chamaria, apesar de poder pesar-nos, a insustentável leveza do ser. Na verdade, lembrados da nossa infância ou já confortados pelo espetáculo oferecido por netos e bisnetos, sempre recordamos primeiros passos e, desde logo, a extraordinária e gratificante aventura da curiosidade humana como motor de procura. Meninos, até à nossa custa vamos aprendendo a descobrir o mundo, as pessoas, a comunicação. E alegram-se-nos os corações com tal e tanta empresa milhentas vezes repetida, mas em cada uma delas sempre animada pelo impulso de uma ressurreição interior em dialética com a progressiva descoberta do mundo...

 

   Por isso a princípio nos inquieta e entristece a cena de quem já não entende porque não percebe nem sabe distinguir, nem mais nada consegue guardar por que já não se fixa nem sabe registar. Eis uma experiência de vida e convívio que será desanimadora e dolorosa, mas que em período pascal também poderá ser embarque para nova viagem. Pois que nessa idade em que o descobrimento vai dando lugar ao encobrimento, e o discorrer ao confundir, também tudo parece cobrir-se de noite, daquela noite que tantas vezes evoco nos versos de Álvaro de Campos, como sabes. E, neste final de tarde de Pascoela, vejo bem, e com incontida ternura, esta figura de mulher cujo olhar se vai enchendo da penumbra que cresce lá fora e vem entrando pela janela vasta, aberta sobre os campos e que, ajoelhada num sofá macio, ela perdidamente contempla... Não deverá lembrar-se - para os ir recitando - dos versos do Poeta que, todavia, talvez dissessem aquilo que ela simultaneamente vai vendo, perdendo e profundamente sentindo:

     

      Vem, vagamente,
      vem, levemente,
      vem sozinha, solene, com as mãos caídas
      ao teu lado, vem
      e traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
      funde num campo teu todos os campos que vejo,
      faze da montanha um bloco só do teu corpo,
      apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
      todas as estradas que a sobem,
      todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
      todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
      e deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
      na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
      na distância subitamente impossível de percorrer.

 

   A alma ali ajoelhada talvez já não saiba, nem sequer pensa nessa oculta vontade de soluçar que, todavia, sente a tentar trepar-lhe pelo íntimo de si. Terá agora, pensossinto eu, outra sageza, talvez porque a alma é grande e a vida é pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar...

 

   Assim me imagino a genufletir a seu lado, rezando, diante da noite que sobre nós vai caindo, com as palavras suplicantes do Poeta:

 

      Vem, Noite silenciosa e extática,
      vem envolver na noite manto branco
      o meu coração...
      Serenamente, como uma brisa na tarde leve,
      tranquilamente, como um gesto materno afagando,
      com as estrelas luzindo nas tuas mãos
      e a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
      Todos os sons soam de outra maneira
      quando tu vens.
      Quando tu entras baixam todas as vozes,
      ninguém te vê entrar,
      ninguém sabe quando entraste,
      senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
      que tudo perde as arestas e as cores,
      e que no alto céu ainda claramente azul
      já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

 

      a lua começa a ser real.

 

   Esta ode do Pessoa Álvaro de Campos, muitas vezes a leio e recito como oração à morte in hora mortis. Aliás, até posso substituir, em quase todos os versos, a palavra noite por morte. Ambas têm cinco letras, três delas idênticas e na mesma posição. Mas, no último verso, lembro-me da lumen vitae, e digo a vida começa a ser real. Aí, afinal, escrevo a morada da minha, da nossa, esperança. Porque somos inquietos por natureza, muitas vezes insatisfeitos só por precipitação, há em nós essa propensão ao descontentamento: resmungamos, ou disparatamos, ou desesperamos, vamo-nos pondo a jeito de nos ocultarmos esse pisca-pisca interior que nos avisa de que a paragem é um convite à paciência. A partir de certa idade, quiçá mais difícil connosco do que para com os outros... Ao ponto de até nos esquecermos de que a substância da nossa esperança é, precisamente, a nossa vida, esta sendo um facto evidente. Nem será necessário recorrermos ao que poderia chamar-se, por contraposição à intuição metafisica, a conclusão biológica do António Damásio quando nos fala na perseverança celular do ser vivo. Em momentos difíceis, recordo muitas vezes a primeira quadra de um fado de Coimbra que, há seis décadas atrás, ouvi em serenata frente à Sé Velha de Coimbra ao Fernando Machado Soares:

 

      A vida é negra, tão negra,
      como a noite nos pinhais!
      Mas é nas noites mais negras
      que as estrelas brilham mais!

 

   Até qualquer passado romantismo nos pode ensinar que tudo é graça... Tal como o Livro do Apocalipse de S. João nos diz: Mas ele pousou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-me vivo»... Pelos tempos que correm, talvez nos fizesse bem voltar ao treino da contemplação dos mistérios.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há testemunhas presenciais do levantamento de Jesus Cristo do chão dos mortos. Não há relatos, reportagens, desse momento fundamental, fundador, da fé cristã. As narrativas existentes do sucesso, ou acontecimento, dessa Ressurreição apenas nos contam a descoberta do sepulcro vazio. O capítulo XVI do Evangelho de Marcos - que a seguir te transcrevo na tradução de Frederico Lourenço - é curta, incisiva, interrogadora, quiçá cheia de uma verdade que, todavia, para a condição humana do leitor, poderá não ser assim tão evidente:

 

   Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para irem embalsamá-lo. E muito cedo de manhã, no primeiro dia da semana, elas vão até ao sepulcro tendo já nascido o sol.

 

   E diziam entre si: «Quem rolará para nós a pedra da entrada do sepulcro?» E tendo olhado à sua volta, veem que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. E entrando elas no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram apavoradas.

 

   Ele diz-lhes: «Não vos assusteis. É Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o depuseram. Mas ide e dizei aos seus discípulos e a Pedro: "Ele vai à vossa frente, a caminho da Galileia; lá o vereis, tal como ele vos disse.»

 

   E elas, saindo, fugiram do sepulcro, pois dominava-as um tremor e um êxtase. E nada disseram a ninguém: tinham medo, pois.

  

   Assim termina uma das quatro narrativas canónicas da Boa Nova de Jesus Cristo, esta sendo, provavelmente, a mais antiga. Como se fossem todos saduceus ou, noutra hipótese, considerassem que a ressurreição dos mortos fosse algo só imaginável no após fim do mundo, do tempo e do espaço, quando rebentassem inúmeras catástrofes. Tinham medo dos fantasmas, como todos nós, nas nossas culturas, ao longo de milénios... Qualquer contacto com os espíritos dos mortos seria necessariamente obra do maligno, ou como descer aos infernos, ao Hades donde nem Orfeu logrou tirar Eurídice, mas apenas o castigo que o levou a quedar-se explodido na abóboda estelar...

 

   Já o mais tardio dos evangelhos, o de João, no seu penúltimo capítulo (o XX), reportando embora o túmulo vazio e a ausência imediata de Jesus, conta que Maria Madalena desatou a correr e foi ter com Pedro e o discípulo que Jesus amava: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram!» Ambos então acorreram ao local, entraram no túmulo e encontraram e viram que os panos que envolviam o corpo estavam depostos, e o sudário que estivera à volta da cabeça dele não jazia juntamente com os panos, mas dobrado à parte em lugar próprio. Então, o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo, entrou e viu e acreditou. Ainda não conheciam o trecho da Escritura, segundo o qual ele tinha de ressuscitar dos mortos. Os discípulos voltaram de novo para junto dos seus. E o Evangelho segundo S. João prossegue o relato da cena que nos deixa adivinhar o mistério da Ressurreição e nos põe a interroga-lo. Não só sobre o que será ou possa ser ressurgir dos mortos, mas, desde logo, sobre os modos como nos poderemos relacionar com essa eventualidade anunciada. Todos e qualquer de nós, mesmo quem tenha ou creia ter fé. Os textos de João Evangelista que seguidamente transcrevo (sempre na versão de Frederico Lourenço) são bem elucidativos do paradoxo da fé:

 

   Maria Madalena ficou de pé a chorar no exterior do túmulo. Enquanto chorava, espreitou para dentro do túmulo e viu dois anjos sentados, vestidos de branco, um à cabeça, outro aos pés, no sítio onde jazera o corpo de Jesus. E eles dizem-lhe: «Mulher, porque choras?» Ela diz-lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Enquanto ela dizia isto, voltou-se para trás e viu Jesus e pé e não sabia que era Jesus. Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que ele é o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus: «Maria!» Ela, voltando-se, diz-lhe em hebraico: «Rabounî!» (o que quer dizer Mestre). Jesus diz-lhe: «Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmãos e diz-lhes: "Subo para meu Pai e vosso, Deus meu e Deus vosso".» Chega Maria Madalena anunciando aos discípulos que «vi o Senhor!» e as coisas que ele lhe disse.

 

   Antes de passar ao trecho seguinte - para voltarmos aos diferentes modos da fé - deixa-me, Princesa de mim, fazer sobre este um comentário linguístico e trazer-te uma recordação pictórica. O primeiro manifesta a minha maior simpatia por outra tradução da expressão grega "mé mo hapto": não me retenhas! Em vez de não me toques, como na latina da Vulgata, por que é sobejamente conhecida, noli me tangere. Dir-te-ei porquê, ao comentar duas representações da mesma cena: a de Hans Holbein Júnior e a de Lavínia Fontana, uma hoje presente na galeria real de Hampton Court, perto de Londres, onde a visitei com os meus netos, outra nos Uffizi de Florença, que também contemplei em tempos mais meus... À primeira, curiosamente e sem machismo algum, chamam-lhe Noli me tangere; à segunda, pintada por uma mulher, chamam Aparição de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena...


   Jean-Luc Nancy, filósofo, escreve no seu Noli Me Tangere (Paris, Bayard, 2003): Na maioria das suas representações pictóricas, Noli me tangere dá azo a notáveis jogos de mãos: aproximação e designação do outro, arabesco de dedos afinados, prece e bênção, esboço de um toque, de um afago, indicação de prudência ou de um aviso. Todas essas mãos desenham uma promessa tenção ou retenção, de se ligarem uma às outras: na verdade, estão, muitas vezes, não só bem no centro do desenho, mas como se fossem o próprio desenho, como as mãos do pintor que diligencia e manipula o desligar dos seus dedos e das suas palmas...   ... Na verdade, essas mãos são signos e sinais da intriga de uma chegada (a de Madalena) e de uma partida (a de Jesus), mãos prontas a juntarem-se, mas já disjuntas, e tão distantes quanto a sombra da luz, mãos que trocam saudações mescladas de desejos, mãos que apontam os corpos tanto quanto designam o céu...

 

   No quadro de Holbein o Jovem, Jesus e Maria estão ambos de pé, mas ela, segurando o vaso de bálsamo com a mão esquerda, inclina-se para a frente, estendendo a direita, como para tocar em Jesus e certificar-se de que ali está mesmo o seu Mestre. Este, pelo contrário, inclina-se para trás, frustrando-se à mão que o procura, e atirando para a frente os seus dois braços, como que a mandá-la parar.

 

   Na pintura de Lavínia Fontana, também do século XVI, Jesus, vestido de jardineiro, com chapéu de palha na cabeça e uma pá ou sacho na mão esquerda, estende a direita sobre a cabeça de Madalena ajoelhada a seus pés, de braços abertos e vaso perfumador na sua mão esquerda, enquanto a direita revela uma íntima ação de graças, como se o gesto suspenso do Mestre, que não lhe toca, fosse simultaneamente uma bênção de despedida e uma promessa.

 

   Apesar das suas muitas diferenças, ambas estas representações ilustram a mesma narrativa evangélica, são a sua reportagem pictórica. Comumente, Cristo Ressuscitado é mais representado vestido de luminoso tecido branco e segurando na mão esquerda um estandarte, de semelhante alvura, sobre a qual surge uma cruz vermelha, e por vezes parece lança espetada sobre o túmulo da própria morte, pois só esta agora ali se encontra, como celebração do triunfo do Ressuscitado. Nestas duas que temos vindo a ver, apenas se conta um episódio, não há qualquer retrato de um corpo ressuscitado. A este sói chamar-se corpo glorioso, quiçá para o diferenciar dos fantasmas imaginários que tanto assombramento causam. Talvez para vencer o medo que o desconhecido sempre nos mete cá dentro. Seja o que for, se até deste mundo sabemos muito pouco, apesar de o situarmos no espaço/tempo que nos permita entendê-lo, que poderemos dizer do outro, infinito e intemporal? Assim, a glória, tal como suas derivadas verbalizações e adjetivações, são apenas conceitos que criamos, neste caso, para designar o indesignável: a realidade (que não é condicionada) da imortalidade, e o seu lugar (que ou é nenhures ou omnipresente).

 

   A fé na Ressurreição não é, pois, não pode ser, o conhecimento, nem sequer a imaginação, de algo palpável. Cristo ressuscitado já não pode continuar entre nós em condição humana, pois esta é periclitante e terminal. Muitos gostaríamos de poder retê-lo e tocar-lhe. Mas, desde o início do seu ensino, Jesus diz-nos que terá de padecer, morrer e ressuscitar para voltar para o Pai. E, em troca da sua ausência necessária, deixa-nos a memória de si e o Espírito de Vida. Deus não está connosco como se o Transcendente pudesse existir submetido à condição humana. Veio uma vez e revolucionou a nossa vida, em sentido próprio: deu-lhe a volta completa para nos pôr, a nós, outra vez, no início do mundo. Agora já como seu Corpo Místico, celebrado na ação de graças que é a Eucaristia, mas vivificado pelo Espírito Paráclito que anima o sacramento cristão por excelência: amai-vos uns aos outros.

 

   O mesmíssimo capítulo XX do Evangelho de João conta-nos, depois da narrativa da Madalena que, sem sequer ter podido tocar o Senhor, o reconheceu e foi, correndo, contar aos discípulos fechados em medos que o tinha visto, a visita que Cristo Ressuscitado lhes faz, ali onde, temerosos, se tinham trancado: «Paz para vós». E dizendo-lhes isto, mostrou-lhes as mãos e o flanco. Então, os discípulos alegraram-se ao verem o Senhor...   ... Mas Tomé, um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos diziam-lhe: «Vimos o Senhor!» Mas ele disse-lhes: «A não ser que veja nas mãos dele a marca dos pregos e ponha o meu dedo na marca dos pregos e ponha a minha mão dentro do flanco dele, não acreditarei». E oito dias depois, os discípulos estavam de novo dentro, e Tomé estava com eles. Chega Jesus, estando trancadas as portas, e pôs-se de pé a meio e disse: «Paz para vós.» Depois diz a Tomé: «Aproxima o teu dedo daqui e vê as minhas mãos e aproxima a tua mão e põe-na no meu flanco e não te tornes descrente mas sim crente.» Tomé respondeu e disse-lhe: «Meu Senhor e meu Deus.» Diz-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste? Bem aventurados os que não viram e acreditaram».

 

   Caravaggio, na sua Incredulidade de São Tomé (1600-1)que vi no Neues Palais, em Potsdam, pinta com intenso realismo físico o dedo do apóstolo a meter-se no lado lancetado do Mestre, cuja mão esquerda lhe segura e empurra a direita para que toque bem a ferida. Há uma força voluntarista e serena no rosto atento de Jesus, enquanto Tomé parece atónito e confuso, e outros dois apóstolos (Pedro e João?) se debruçam como quem quer certificar-se. Não surge sangue algum, um corpo ressuscitado já está livre de qualquer sinal ou atributo de vida carnal. E qualquer certeza física da Ressurreição parece aqui deslocada, quase absurda. Pertence já ao domínio da simples fé, substância das coisas que hão de vir.

 

   Outra tela do Caravaggio, coeva desta (1601), oferece-nos, na National Gallery, em Londres, A Ceia de Emaús, um conto neotestamentário que resume bem a herança que Jesus Cristo deixa depois de morto e ressuscitado. Sentado à mesa já composta para a ceia, o Senhor é figura central, cujo braço direito se ergue sobre os alimentos presentes, em que se reconhecem o pão e o vinho eucarísticos, num gesto de bênção e oferta. À sua esquerda senta-se um discípulo (Pedro?) que, com os braços abertos em cruz, se debruça como quem abraça o gesto do Mestre. Diante deste senta-se outro discípulo que, segurando-se com força ao seu assento, fita o mesmo gesto com o maravilhamento de quem assiste a uma revelação. De pé, quase por detrás de Jesus, o estalajadeiro, com semblante muito sério, contempla e escuta os gestos e palavras do celebrante, interrogando-se, talvez, sobre o que se está na realidade passando.

 

   E em 2019, por chuvosa semana de Páscoa a tornar mais verdejantes os campos largos que avisto, também eu, minha Princesa de mim, continuo a contemplar e interrogar um mistério, na esperança de que certo dia me seja desvendado.

 

Camilo Maria    

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VI

 

Minha Princesa de mim:

 

   No início da celebração desta Páscoa cristã, em Domingo de Ramos, antes da narrativa evangélica da Paixão de Jesus (que em cada ano é recolhida dum dos três sinópticos, Mateus, Marcos ou Lucas), somos sempre chamados a meditá-la com a ajuda de dois textos bíblicos, cuja leitura precede aquela: o primeiro, extraído do Livro de Isaías, vem lembrar-nos a virtude da fortaleza ; o segundo, tirado da Carta de São Paulo aos Filipenses, irá concluir que a auto aniquilação em serviço dos outros é sinal de vitória do bem sobre o mal, e razão de glória. Não é fraqueza, é fortaleza suprema. Vejamos cada um deles:

 

   Isaías - O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos que me insultavam ou cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

   Não consta haver aqui qualquer tibieza. Apenas força e profunda consciência dela como dom e aprendizagem.

 

   Paulo - Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte na cruz. Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e que toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

   Repara bem, minha Princesa de mim: não há vida sem morte, nem qualquer possível glória sem padecimento e obediência. Por não ter entendido isto do mesmo modo, o Islão primitivo logo se distingue do Cristianismo: apesar de acolher Jesus como um dos seus profetas maiores, e também celebrar Maria como sua mãe sempre virgem, o Corão negará bem expressamente a crucifixão e morte de Jesus, pois que admiti-las seria como aceitar a fraqueza de Deus. As primeiras comunidades cristãs, pelo contrário, desde muito cedo comemoram a Paixão e Morte de Jesus Cristo, sendo o dia aniversário desta, Sexta Feira Santa, dia de muita celebração religiosa, sobretudo na própria comunidade de Jerusalém. Na verdade, aí se situam os lugares dos próprios autos narrados no evangelho de João, cuja leitura é hoje feita na liturgia da Palavra de Sexta Feira Santa, que também compreende mais um trecho do "Servo do Senhor" de Isaías e um passo da carta de Paulo aos Hebreus, assim retomando as lições de Domingo de Ramos ou da Paixão. E nessa tarde da crucifixão e morte do Senhor, esta é lembrada como redentora (a morte de Cristo é a morte da morte) e suscita uma oração universal que confia todos os seres à obra dessa Redenção. Os participantes em tal liturgia vão ainda adorar a cruz como seu símbolo triunfante, rezar o Pai Nosso e comungar no Corpo de Cristo.

 

   Já no sábado imediato, ficam os lugares de culto silenciosos e vazios, como os seus próprios tabernáculos. É dia de silêncio a alimentar a esperança que na Vigília Pascal explodirá em alegria e cânticos de aleluia. Nesse dia, sempre contemplo e medito a descida à mansão dos mortos. Faço-o no mesmo modo em que olhando, por dias sombrios de Inverno, a aparente desolação de campos mudos e tristes, escuto o silêncio a dizer-me que há muita vida ali esconsa, vida que verei quando, colorida e alegre, estalar a Primavera.  E é disso que te quero falar hoje. Pertence a uma tradição muito antiga da piedade cristã, sem todavia ter qualquer fundamentação bíblica, com exceção, talvez, de um passo da 1.ª carta de S. Pedro (3, 18-19): O próprio Cristo morreu uma vez só pelos pecados - o Justo pelos injustos - para vos levar a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. Foi por este Espírito que ele foi pregar às almas que estavam na prisão da morte... Só um século depois, a literatura patrística comentará o tema. Começo por citar Santo Ireneu de Lyon, e continuarei com as observações de Éliane e Régis Burnet (Décoder un tableau religieux, Paris, Le Cerf, 2018) sobre o fresco de Andrea da Firenze, reproduzido no livro, que representa a descida de Cristo aos limbos ou, se preferires, aos infernos, em Sábado Santo, pintado entre 1365-1368, e que pude ver na capela espanhola de Santa Maria Novella, em Florença). Escreve, na sua Contra as Heresias, IV, 27, 1, aquele Padre da Igreja, do século IV:

 

O Senhor, o Santo de Israel, pensou nos seus mortos, que dormiam em seus túmulos, e desceu até eles para anunciar a salvação, para os tirar de lá e libertá-los... Continua o casal Burnet: Entretanto, Santo Efrém, o Sírio (+373), acrescenta, num hino litúrgico : «Glória a ti que desceste e mergulhaste nas profundezas, para ali ires buscar Adão, que libertaste do Hades, a fim de o conduzires ao Paraíso!» (Carmina Nisebena, 65). E todos os da minha geração se lembram ainda do Símbolo dos Apóstolos ou Credo que aprendemos a recitar ainda pequenos, e em que professávamos a fé em Jesus Cristo que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos (hoje diz-se "à mansão dos mortos"), ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai, e donde virá julgar os vivos e os mortos...

 

   Continuam então os Burdet: Mas estes textos fornecem poucos elementos suscetíveis de dar lugar a representações iconográficas. Um pretexto virá com o «Evangelho de Nicodemos», obra do século IV:

 

   «Então, o Rei de Glória, esmagando sob a sua Majestade a Morte a seus pés, e prendendo Satanás, privou o inferno de todo o seu poder e reconduziu Adão à claridade da sua luz. E o Senhor, estendendo a mão, fez o sinal da cruz sobre Adão e todos os santos e, pegando na mão direita de Adão, ergueu-o dos infernos. Com todos os santos atrás dele.

 

   Eis aí todos os elementos que serão depois retomados: o esmagamento da Morte e de Satanás; o sinal da cruz sobre os santos; o pegar na mão direita de Adão e o cortejo dos santos em direção ao céu.

 

   Tudo isso é representado no fresco de Andrea da Firenze. E me faz pensarsentir um mistério com que vibro mais intensamente em dias de silêncio, quando o luto e a alegria entre si disputam o meu espaço mais íntimo: algo que me ensinaram quando menino, e dá pelo nome secreto de comunhão dos santos. Jovem ainda, parafraseava para os meus botões uns versos do Alexandre O´Neill que eu dizia assim: "Humanos somos nós todos / desde pequenos / Humanos somos nós todos / e nunca menos"... [Se não me falha a memória, como diria o Nemésio, os versos do O´Neill (eram, ou não dele?) rezavam assim: "Burgueses somos nós todos / desde pequenos / burgueses somos nós todos / ou ainda menos"... Como doutros, na minha memória, a ordem desses versos é arbitrária.]

 

   É claro que te falo de experiências vividas por mim na minha cultura. Mas marcaram-me, e continuo a vivê-las. Entretanto, também fui aprendendo que os primeiros cristãos - pese embora a proximidade histórica com o próprio Jesus Cristo, ou quiçá por isso mesmo - tiveram de ir aprendendo a reler a mensagem de Jesus, como apontado por Enrico Norelli (La Nascita del Cristianesimo, Il Mulino, Bolonha, 2014): Tal mensagem parecia estar ligada à perspetiva da eminência de um tempo em que Deus iria mudar radicalmente a condição dos pobres e dos excluídos. Tal expectativa foi completada pelos discípulos com a espera do regresso glorioso (a "parusia") de Jesus como enviado de Deus. Mas também se gorou esta expectativa, e os historiadores modernos facilmente atribuíram a tal «atraso da parusia» a profunda transformação da mensagem de Jesus: substituiu-se a tensão para a iminência do Reino de Deus pela adaptação temporária ao mundo, por tempo indeterminado, e criaram-se os instrumentos assim necessários. Por mim, Princesa, comecei a olhar pela perspetiva da comunhão dos santos para essa tão piedosa tradição que lembrava, em Sábado Santo, festa tumular, a descida de Jesus à mansão dos mortos, para os ir buscar e levar na sua Ressurreição. Uma grande e feliz Páscoa para os humanos que a morte fez esquecer...

 

   Feliz Páscoa, digo, demos todos nós também esse feliz passo para além, minha Princesa de mim!

 

 Camilo Maria

  

P.S. - A notícia, violenta e súbita, do incêndio destruidor de Notre Dame de Paris, vem realçar a lembrança de que vivemos no efémero, bem como, paradoxalmente, ao efémero sempre nos atemos, em busca da permanência... A catedral de Paris, por exemplo, esteve para ser demolida, propositadamente, devido ao estado de abandono e decrepitude em que se encontrava, no segundo quartel do século XIX. Salvou-a a popularidade que lhe conseguiu o romance de Victor Hugo, em que Nostradamus e Esmeralda viveram os seus amores no refúgio de um terraço superior do templo. Creio que foi em 1843, que começaram, então, as obras de restauração do monumento antes condenado, agora com a flecha central, creio eu, arquitetada por Viollet Le Duc. Parece que, agora, o incêndio terá começado precisamente em estruturas de novas obras de restauração... Esta memória leva-me a visitar, por fotografias e filmes, já que não posso mais viajar, a exposição Tu me fais revivre, da pintora e pastora protestante Beatrice Hollard-Beau, patente no claustro das Billettes, em Paris, de 11 a 23 deste mês de abril. Diz a própria artista: Reviver é uma longa experiência. É recair e voltar a subir e, a dada altura, tomar consciência de que, quando pensávamos reviver graças às nossas próprias forças, não revivemos sozinhos...   ... Reviver é Deus que nos encontra no meio da Cruz, no meio das nossas cruzes. Deus que nos dá um projeto mais forte do que imagináramos. Creio que é no fundo da Cruz e nas coisas piores que podem acontecer as mais bonitas. É preciso ir até lá, mesmo até à morte. Porque é a morte que nos dá a esperança viva do Cristo vivo.

Camilo Martins de Oliveira