Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nous ne voulons pas d’une hégémonie mondiale - dos EUA, claro - declarava há dias Emmanuel Macron, e já vários dirigentes do G7, dum ou doutro modo, têm deixado entender que também se podem aguentar num G6, e se deve sobretudo respeitar o direito internacional, a soberania de todas as nações e os compromissos assumidos. Entretanto, e na sequência de preocupações que contigo tenho partilhado em cartas anteriores, refleti hoje sobre dois passos do Tianxia, tout sous le même ciel, de Zhao Tingyang:

 

  1. Suponhamos que o nascente poder mundial sistémico mantenha a sua forma combinada «capital-tecnologia-serviço» e que o seu poder económico se transforme em poder político... [[ Tal poder mundial sistémico será, se bem te lembras, o mesmo sobre o qual, em carta anterior, eu te escrevia que, "na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político... - Aproveito agora para acrescentar que, em seu andamento, vai corrompendo pessoas e deslegitimizando titulares eleitos - ... Esta questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações, e pode não ter pátria nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos e acionistas"]]. 

 

  2. O despotismo tecnológico do novo poder sistémico pertence, por enquanto, apenas ao futuro. O perigo mais iminente está no grande interesse os imperialismos ainda hegemónicos mantêm pelos desenvolvimentos tecnológicos e na sua intenção de deles se servirem para consolidarem o seu poder. Desenvolver tecnologias com riscos imprevisíveis é irracional e virá reforçar as grandes potências. Consequentemente, é ilusório pensar ser possível impedir os atos irracionais dos poderes estatais ou sistémicos graças às organizações internacionais. Só construindo uma ordem universal mundial superior ao sistema dos estados é que se poderá refrear a hegemonia imperialista e os novos poderes sistémicos mundiais, evitar ao mundo uma ditadura tecnológica sem escapatória possível, ou poupar o mundo à loucura e à destruição. Eis o sentido do sistema Tianxiá. [[Fica aqui prometido que, em carta ou cartas próximas, voltarei ao tema chinês do "tudo debaixo do mesmo Céu", aos modos de olhar para o mundo a partir da Ásia. Por agora, deixo-te essas citações como alerta]].

 

   As citações seguintes também tê-las faço como temas de reflexão, ainda na sequência do que te disse em cartas anteriores. Estas e as que acima te deixo entreajudam-se-nos a pensarsentir a tecelagem de perspetivas com que vamos deparando:

 

  1. No seu Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado em 1942, Joseph Schumpeter (1883-1950economista austríaco exilado nos EUA) estima que a democracia não deve ser considerada como a fonte do bem comum, nem ser associada a valores: aos seus olhos, ela representa simplesmente um processo de designação útil. Em tal visão, inspirada pela teoria económica, o que conta é que o indivíduo tenha a capacidade de escolher uma oferta política, tal como o homo Economicus escolhe uma oferta económica - recorda o filósofo francês Florent Guénard, autor de La Démocratie Universelle (Seuil, Paris, 2016).

 

  2. Deste mesmo autor, e para nos ajudar a refletir no populismo, no que possam ser "democracias iliberais" e, mesmo, no "fenómeno" Trump: Aqueles que defendem uma conceção iliberal da democracia, têm a obsessão da espontaneidade e da incarnação, fundamentam-se numa conceção específica do povo: é suposto este receber do chefe a sua unidade, tal chefe sendo uma figura em comunhão com o povo, e que instintivamente conhece a vontade popular.

 

  3. E ainda, eu que sou impenitente releitor de Georges Bernanos, como sabes - e, pensossinto o sabor profético de muitos textos e frases da sua abundante e sempre participante prosa -, não te dispenso da reflexão sobre estes dois passos de La France contre les robots, datados de 5 de janeiro de 1945, dia em que cumpri três anos de vida: Un monde gagné pour la Technique est perdu pour la Liberté (um mundo ganho para a Técnica está perdido para a Liberdade). E explica num trecho adiante (traduzo): Intitule-se capitalista ou socialista, este mundo alicerçou-se sobre uma determinada conceção do homem, comum tanto aos economistas ingleses do século XVIII, como a Marx ou Lenine. Já se tem dito que o homem é um animal religioso. Este sistema já o definiu, uma vez por todas, como animal económico, não somente escravo mas objeto, quase matéria inerte, irresponsável sob o determinismo económico, e sem esperança de se libertar, pois não conhece outro motivo certo para além do interesse, do lucro. Limitado a si próprio pelo egoísmo, o indivíduo não parece mais do que uma quantidade menosprezível, sujeita à lei dos grandes números, como se apenas pudesse ser empregue por grosso, graças ao conhecimento das leis que o regem. Assim sendo, o progresso já não está no homem, está na técnica, no aperfeiçoamento de métodos capazes de permitir uma utilização cada vez mais eficaz do material humano.

 

  4. Ocorre-me citar-te ainda William Morris, inglês e socialista sui generis, utópico cavaleiro andante para defesa do trabalho humano e humanizado, sonhando com a conversão do operário industrial, mecanizado em linhas de produção em série, num artesão, num artista que se fosse realizando pela própria criação do seu trabalho: Eis, em resumo, a nossa posição de artistas : somos os últimos representantes do artesanato, no qual a produção mercantil desferiu um golpe fatal... -  diz ele numa conferência em Edimburgo, em 1889.Fundador, em meados do século XIX, em plena revolução industrial, do movimento Arts & Crafts, merecerá, quase 150 anos mais tarde, esta reflexão de Michel Houellebecq (sim, o tal, o autor de Soumission) este comentário: Para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a conceção e a execução, devia ser abolida: qualquer homem, à sua escala, poderia ser produtor de beleza - seja na realização de um quadro, de um vestido, de um móvel; e qualquer homem, igualmente, teria direito, na sua vida quotidiana, de se rodear de belos objetos... 

 

  5. E ainda, neste sábado em que algum neto me grita, pelo telefone, que a Islândia empatou com a Argentina no campeonato do mundo de futebol, e este seu avô, passando por um escaparate dos jornais do dia, lê em caracteres garrafais, na primeira página dum jornal generalista português: RONALDO DEUS, etc., etc. ..., alegra-me citar-te um dito do professor de sociologia Vidar Halldorson, da Universidade da Islândia: Sabemos jogar como profissionais, sem cair nas ratoeiras do desporto comercial, onde o dinheiro e o ego muitas vezes ficam por cima... O mesmo académico viking que também nos diz que Quando os nossos (deles) jogadores regressam à pátria, não se entrincheiram em clubes privados nem luxuosas moradias. Numa pequena cidade como Reykjavik, podemos encontra-los a qualquer hora na piscina monumental, num restaurante, na rua... Na verdade, quase todos eles trabalham ou estudam.

 

  6. Estes reparos levam-me a Le Figaro, à sua edição de 5ªfeira, 14 de junho, dia da inauguração do dito campeonato na Rússia, a um artigo do filósofo Robert Redeker, aliás autor dum livro intitulado Peut-on encore aimer le football? (Le Rocher, Paris): Ela (a Copa do Mundo) oferece-se na forma de um espetáculo planetário, ao qual é impossível escapar. Mas, para além das apostas desportivas, do comércio e dos comentários de café, da abafante saturação mediática, que acompanham este acontecimento, da atmosfera kitsch e de mau gosto com que envolve a existência coletiva, torna-se importante ganhar recuo para lhe compreendermos o sentido, através da seguinte interrogação: a Copa do Mundo será, afinal o espetáculo de quê? E Redeker, com lúcida intuição, começa por responder que não se trata essencialmente do espetáculo de uma competição desportiva: Segundo Pascal, o divertimento afasta-nos do essencial; entregamo-nos a ele para escapar ao que devemos ser. O futebol, pelo contrário, reconduz-nos ao que o mundo moderno exige de nós, ao que ele toma por nossa essência: a competitividade e a "performance". Depois de verificar que o Campeonato do Mundo é sobretudo um acontecimento televisivo, como testemunham os milhões de ecrãs por aí disseminados - desde a intimidade dos lares aos gigantescos estádios acesos nas praças públicasconclui que, pelo milagre do numérico, o mundo se fusiona com o estádio, nele se dissolve e dele já não se diferencia... ...Paul Virilio tinha razão: o ecrã é o instrumento da evaporação do real.

 

  7. Já não ousarei tentar, acompanhando o filósofo francês, o salto seguinte em todo o seu alcance. Todavia, reconheço-lhe uma proposta convidativa a uma reflexão sobre a concentração canalizadora das nossas forças ou impulsos para a consciência coletiva, a solidariedade, o patriotismo, a eclesialidade, nessa sugestão de que o espetáculo futebolístico é a retoma, desde o descalabro do império romano, do papel ativo do espetáculo na constituição de um universo pagão:

 

   O neopaganismo é a religião veiculada pelo futebol. Qualquer de nós o verifica: os jogadores ascendem a ídolos. São, nos tempos atuais, a reincarnação dos deuses e semideuses da Antiguidade. Consideremos a desmedida dos seus salários, o recinto sagrado que os isola da restante humanidade. Na verdade, a sacralização é um gesto que traça uma divisão entre dois universos. Assim, a hibris financeira serve para os sacralizar, para os pôr fora de alcance, além do mundo comum. Na verdade, este espetáculo futebolístico toma o caminho duma regressão para um diante - o de antes do cristianismo. Com dimensão planetária, esse espetáculo é, manifestamente, uma fábrica: tem por ofício fabricar ídolos. No mundo futebolizado, o fetichismo, ou seja, a própria liturgia de qualquer paganismo, novo ou ancestral, surge em todo o lado, até nas costas de seres humanos envergando uma tee-shirt impressa com o nome de um jogador...

 

  8. Mas, nas fronteiras dos EUA, separam-se crianças de seus pais ; no Mediterrânio, migrantes pais e seus filhos andam à deriva, as duas Coreias anunciam novas cheganças, a "opinião" pública portuguesa baba-se de futebol, tudo se funde neste mundo hodierno: a tragédia, o inescapável fado, alimenta-se igualmente de tristezas e alegrias, de dramático e lúdico, é cansativo e frustrante entender, ou tentar compreender o fundo das coisas - ou procurar entendermo-nos  - as nossas vidas são apenas episódios de um espetáculo leviano... Com ligeireza apontamos o dedo a todo o universo islâmico -  porque há, é infelizmente um facto, terrorismo islamista - mas não nos ocorre sequer a possibilidade de fazermos juízos temerários, generalizando a todos os crentes de uma religião, incluindo àqueles que são pacíficos e, até, vítimas dos outros, uma acusação que também é uma tentativa de encontrar, fora de nós, bodes expiatórios de um mal que nos rói a todos, e entre cujas raízes poderemos descobrir responsabilidades nossas. O Islão também reúne muitas gentes que invocam o Deus Misericordioso. Quiçá de modo e em verdade diferentes do ministro norte-americano da Justiça, Jeff Sessions, quando defende as medidas sancionatórias da violação das normas anti-imigração da Administração Trump (designadamente a forçada separação de crianças e seus pais): Citar-vos-ei S. Paulo que, com sageza e clarividência, nos manda obedecer às leis do Governo, que Deus estabeleceu para fazer cumprir a sua vontade...

  

   O meu dia a dia, Princesa de mim, é feito de escutas. Hoje, dia tão cheio de futebol universal (?), fui repetidamente ouvindo os seis motetos sobre textos de Franz Kafka (Sechs Motetten nach Worten von Franz Kafka) de Ernst Krenek, compostos quando, aos 59 anos, já estava, esse vienense de alma e coração, exilado nos EUA, desde 1938. Como não posso deixar-te aqui o som da música, traduzo-te o texto do primeiro moteto, Der Weg, der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespanngt ist, sondem knapp über dem Boden...: O caminho, o verdadeiro caminho, passa por cima de uma corda que não se estica no ar alto, mas quase ao rés do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser transposta. A partir de certo ponto já não há retorno. É esse ponto que se deve atingir. Os esconderijos são muitos. Há só uma salvação, mas as possibilidades de salvação são tão numerosas quanto os esconderijos. Quantos mais cavalos atrelares, mais depressa se andará. Não, certamente, o arrancar do bloco às suas fundações, o que é impossível, mas a rutura das rédeas e, daí, o curso livre, alegre. Tinha-lhes sido dado a escolha entre tornarem-se reis ou correios dos reis. Ao jeito das crianças, todos quiseram ser correios. Eis porque já só há correios e, como já não há reis, percorrem o mundo gritando uns aos outros mensagens que já não fazem sentido. De bom grado poriam fim às suas vidas miseráveis. Mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram. Há um fim, mas sem caminho. Não há caminho? Não há caminho, não: isso a que se chama caminho é hesitar.

 

   Mas, se queres saber, Princesa de mim, pensossinto como é natural, quase ou tanto uma crise em processo de evolução, esse hesitar de quem, nesta encruzilhada global a que chegámos, até já nem se reconhece numa identidade presente, passada, possível ou sonhada. Desde as migrações e suas consequências nas configurações demográficas e culturais das nações, à percutante presença do alienígena, dos estranhos (do Oriente ao Ocidente, os antigos chamavam-lhes bárbaros) na intimidade, hoje televisiva e online, das nossas casas, tudo, ou quase tudo, nos interroga. E pouco convincentes são já as dissertações ou os meros palpites acerca do fim receado ou da resiliência esperançada da chamada democracia liberal, e das perspetivas que se abrem ou propõem à governança do mundo. A esperança é a última a morrer. Quero e peço a Deus que a minha esperança viva. E talvez eu morra antes dela.

 

Camilo Maria   


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Começo esta, reproduzindo dois versos de Angelus Silesius, citados e traduzidos noutra carta:

 

              Sem querer saber de si

              nem vontade de ser vista

 

   O que, afinal, aí fica dito é, segundo François Cheng, que o porquê de uma rosa sendo ser plenamente uma rosa, o instante da sua plenitude de ser coincide com o próprio Ser. Dito de outro modo: o desejo da beleza absorve-se na beleza e esta já não tem que se justificar. E, agora, com o poeta-filósofo sino-francês recordo o que ele disse das três aceções da palavra sentido: sensação, direção, significado, aqui pela rosa enumeradas como sendo três estados essenciais do Ser. Mas presta atenção, Princesa: a sensação não poderá limitar-se ao seu nível sensorial, e a beleza é mesmo essa potencialidade e essa virtualidade para que tende qualquer ser. Eis que, quase inevitavelmente ainda, deslizamos da palavra portuguesa «sentido» (du mot français «sens», no texto original de Cheng) para um caracter chinês que lhe é equivalente, talvez mais rico, o caracter yi.

 

   Vou falar-te muito dele, levar-nos-á longe -  esmo até à tianxiá - só tenho pena de não poder (saber) reproduzi-lo, para ti, na escrita deste computador, pois tal nos ajudaria a acertar o passo com um discurso bem chinês. Confio, contudo, a François Cheng, a explicação do respetivo desenho (13 traços) ou significado, cada caracter sínico sendo, não uma letra, nem necessariamente uma palavra, mas, sim, a representação gráfica da formação de um conceito:

 

   Basicamente, o ideograma yi designa o que vem da profundeza de um ser, o impulso, o desejo, a intenção, a inclinação; o conjunto desses sentidos pode ser aproximadamente englobado pela ideia de «intencionalidade». Combinado com outros caracteres, dá uma série de palavras compostas e de variados sentidos, mas tendo entre elas laços orgânicos: grosso modo, podemos arrumá-las em duas categorias. A das que relevam do espírito: ideia, consciência, desígnio, vontade, orientação, significação. E a das que pertencem à alma: encanto, saber, desejo, sentimento, aspiração, impulso do coração. Finalmente, a encimá-las todas, a expressão yi-jing, «estado superior do espírito, dimensão suprema da alma».

 

   Essa noção, yi-jing, deve ser sublinhada. Tornou-se, para os chineses, no critério mais importante para ajuizar o valor duma obra poética ou pictórica. Pela sua definição, vemos que ela se atém tanto ao espírito como à alma. Quer aos do artista que cria a obra, mas igualmente aos do universo vivo, um universo que se faz, que se cria, que a língua designa por Zao-wu, «Criação», ou ainda Zao-wu-zhe, «Criador». Dum modo geral, diz-se muitas vezes que o pensamento chinês não teve a ideia da «Criação», no sentido bíblico do termo. É verdade que esse pensamento não foi assombrado pela ideia dum Deus pessoal; mas em contrapartida tem eminentemente o sentido da proveniência e da geração, como atestam as afirmações de Laozi: «O que há provém do que não há»; «O Tao original gera o Um, o Um gera o Dois, o Dois gera o Três, o Três gera os Dez mil seres». [Terá sido ao Taoísmo que o António Victorino d´Almeida foi buscar aquela, bem achada, do nascimento da música? «O dó conheceu o ré, e simpatizaram; dessa simpatia nasceu o mi, e assim se fez música»... Ele tinha graça, a explicar isto ao piano!]

 

   Ora a escrita sínica e o seu pensamento desenvolve-se precisamente por processo de encontro e geração. Procurando não te dar sono nem, menos ainda!, aborrecimento, explicarei o que quero dizer através da génese e constituição de um caracter chinês. Antes, e a título de apontamento sugestivo, lembro-te de que, quando se aprende a caligrafar tais caracteres, se começa pelos primeiros: um traço horizontal para escrever um, outro horizontal abaixo dele e ambos nos dizem dois, e o terceiro, debaixo desses vem anunciar três. E se evocarmos o Tao original, perceberemos o modo linear e simplíssimo como se inicia a ordem do universo todo, já que do três se parte para a geração dos Dez mil seres. Leio nos Sinais Celestes (Tianwen) do Huainan zi, uma "Summa" taoista com mais de dois mil anos: O Dao começou pelo Um. O Um não engendrou, mas, dividindo-se gerou o yin e o yang. O yin e o yang uniram-se harmoniosamente e assim foram engendrados os dez mil seres. Por isso dizemos: Um engendrou dois, dois engendrou três, três engendrou os dez mil seres. [[Dita assim, ou assim traduzida, como faz François Cheng na citação acima, esta última frase reproduz a de Laodan ou Laozi no Daode jing (século IV a.C.)]] O um representa assim a unidade primordial, e é o primeiro radical de todos os outros caracteres. Nesta função, se for traçado no topo de um composto, por exemplo, sobre os três traços que dizem homem, tal nova composição significará o céu, tian, isto é, o espaço infinito que está acima do ser humano, que é a mais alta das criaturas, e o governa. Mas se for traçado por baixo do caracter que designa o dia, ou o sol, irá compor o ideograma que diz madrugada, o princípio do dia... Espero ter conseguido dar-te uma ideia aproximada da formação de um discurso de perceção e representação, pegando num caracter primitivo e acenando o seu papel de radical, embora não entrando por qualquer possível (e real) função fonética.

 

   Nota bem que os caracteres sínicos existentes são aos milhares, o aumento do seu número, aliás, tendo acontecido por impulso ou necessidade de expressão... Só as autoridades e as escolas, afinal, foram impondo limitações canónicas. Indo a regras de facto, desde 1716 (dicionário de Kang-hsi), contam-se 40 mil caracteres, dos quais 4 mil são de uso corrente, 2 mil para nomes próprios ou raros, e 34 mil sem utilidade. E, se a arte da caligrafia pode permitir liberdades de estilo, há regras obrigatórias, tal como as que ordenam a sequência e a direção de cada traço : de cima para baixo; da esquerda para a direita; quando um vertical e um horizontal se cruzam, este risca-se primeiro, embora haja exceções; três verticais na mesma linha traçam-se ao centro, logo à esquerda, depois à direita; mas o traço que corte um central é o último; e os diagonais da direita para a esquerda (a partir de cima) precedem os da esquerda para a direita. Estas foram as regras que primeiro aprendi, tentando entender um método de ligação do pensarsentir com a mão que desenha e a representação traçada. Neste instante, conversando contigo, Princesa, olho para o caracter yi - que François Cheng diz designar o que vem da profundeza de um ser, impulso, desejo, intenção, inclinação, podendo o conjunto destes sentidos ser aproximada e globalmente definido pela ideia de «intencionalidade» - e nele encontro três caracteresjá meus conhecidosque o compõem : em cima está, como leio pelo meu dicionário japonês de 1850 kanji essenciais, ritsu (5 traços), que quer dizer levantar, erguer, estar de pé ; no centro, nichi, jitsu ou hi (4 traços), isto é, o dia, o sol; em baixo, shin (4 traços), a dizer espírito, coração, mente. Posso assim sentir que yi designa a ascensão ou o erguer do espírito esclarecido, iluminado. Ou, seguindo a ideia de «intencionalidade», pensá-lo como esse íntimo impulso do espírito humano com destino às coisas superiores, algo quase como essa definição do grego Plotino (270aC): A inteligência é o pensamento que se desvia das coisas inferiores, para elevar a alma ao que é superior.

 

   A escrita chinesa é só ideográfica, nem sequer dispõe de silabários fonéticos, como os hiragana katakana com que o japonês socorre as próprias carências, visto que os kanji (caracteres chineses, com que começou a ser escrito) não o traduziam totalmente enquanto língua falada, que já era. De facto, o chinês falado ou, se assim preferires, Princesa, o chinês fonético vive em diversos dialetos, dos quais são mais conhecidos o mandarim e o cantonês, sendo o primeiro praticado nas escolas, com o objetivo de normalizar uma fonética oficial que também cimente a união de vastíssimo e populosíssimo império. O chinês escrito, ou literário, é como que uma língua à parte, só se escreve e lê, por isso tem uma autonomia que lhe permite ser utilizado por várias línguas e dialetos.

 

   Cada sinal, ou caracter, é uma palavra, um ideograma traduzindo um conceito linguístico. Durante a escolaridade elementar, as crianças já devem memorizar centenas de caracteres e, no decurso das suas vidas, os chineses (e, noutra medida, os japoneses) irão estudando e aprendendo, pelo menos, mais um ou dois milhares. Ser letrado, na cultura sínica, mais do que erudito, é ser sempre aprendiz. Assim podemos afirmar que a consciência de devir inspira e informa o ser chinês, o yi é isso mesmo, como vimos, o yi-jing sendo o estado superior da alma. Conto-te tudo isto, Princesa de mim, para pensarsentires como o "aprender a ler e a escrever" é, no caso do Império do Meio, simultaneamente a construção de um caminho e de uma identidade em que as pessoas e a nação estão intimamente ligadas pela inspiração e pela formação.

 

   Não sou antropólogo nem linguista, e tenho mais curiosidade e apreço pelas culturas do Extremo Oriente - sobretudo numa época em que ressurge e se vai afirmando, já não como império recluso cuja capital é cidade interdita, mas no concerto internacional, uma China gigantesca, progressista e aberta ao mundo todo - do que conhecimento profundo delas. Mas gosto de ir aprendendo e partilhando contigo, Princesa. Pouco mais posso ou sei fazer, na minha idade. Não te ensino nada. Apenas partilho contigo, repito, a minha própria aprendizagem, com os seus-meus erros e percalços, mas também com os horizontes que se me abrem ao olhar da alma e me ajudam a ver e rever o mundo.

 

   Podia ter-te falado do Um, não só como imagem do Todo inicial, do Dao que não é a causa primeira em sentido aristotélico, nem o Deus pessoal e criador das três religiões monoteístas, o Deus de Abraão, mas do sem forma definida, cuja natureza é dada a tudo o que existe, que é o Céu e o conhecimento perfeito, o onde habita o homem verdadeiro, qua aí tem o coração ligado, e onde serão reconduzidas todas as dez mil diferenças. O Yuandao, ou Dao original, diz-nos, logo no começo, o Huainan zi, o Dao ...

               

cobre o Céu e carrega a Terra.
Estende-se pelas quatro direções e abre-se até às oito extremidades.
A sua altura é inacessível, insondável a sua profundeza; abraça o Céu e a Terra e, do
sem forma, faz advir os seres.
Nascente jorrando do côncavo, a pouco e pouco tudo enche; fluxo lamacento e turvo, a pouco e pouco se aclara. 
Erguido, enche o espaço entre o Céu e a Terra, vertido cobre os quatro mares.
Posto a laborar, nunca se esgota, nem conhece aurora nem crepúsculo.

 

Desenrolado, envolve as seis conjunções do mundo, enrolado nem chega a encher a cova da mão.
Concentrado, pode desdobrar-se; obscuro, pode brilhar; fraco, pode ser vigoroso; flexível, pode ser rígido.
Estende as quatro amarras e contém o yin e o yang; coordena o espaço-tempo e faz luzir as três luminárias. 

 

Ora lamacento e lodoso, ora fino e subtil! 
Por ele se elevam as montanhas, e os abismos se cavam,
os quadrúpedes correm e as aves voam,
brilham o sol e a lua,
seguem sua rota planetas e estrelas,
pulam os licórnios e planam as fénixes.

 

   Traduzo-te este poema inicial do Huainan zi, da versão francesa de Charles Le Blanc, publicada na Bibliothèque de la Pléiade (Gallimard, Paris, 2003). Em cartas por seguir te envio outras traduções de trechos desse, tão belo como antigo, texto poético e místico do Império do Meio.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   A Foreign Affairs publicou um artigo assinado por Jeremy Shapiro, com elucidativo título: WHY TRUMP CAN SAFELY IGNORE EUROPE: Its Leaders Readily Condemn But Never Act.

 

   Talvez tenha vindo a ser assim há tempo de mais. Proximamente - depois da retirada americana do acordo com o Irão (sobretudo tendo em vista as ameaças de penalização, pelos EUA, das empresas europeias que mantenham os seus negócios persas) e da extemporânea e provocatória mudança da sua embaixada para Jerusalém - veremos se e como, parafraseando jargão jurídico, a UE e cada um dos seus membros irão continuar a "promulgar" os "decretos" estadunidenses, ou optarão por "derrogá-los" ou, mesmo, "revogá-los", isto é, como continuarão a seguir as orientações americanas : se total, parcialmente, ou de modo nenhum. Ou ainda, e melhor seria, se ousarão enfrentar desafios diretos lançados pelos EUA, tais como esta última decisão unilateral de agravamento de direitos aduaneiros americanos sobre produtos europeus. Wait and see... 

 

   Tal dilema, é difícil resolvê-lo já e só por via diplomática, sabendo nós que os negociadores europeus estão fraturados (p. ex.: quatro países membros estiveram na "festa" da embaixada em Jerusalém; a Itália, um dos fundadores da CE - com a França, a RFA e os três do BENELUX - é hoje uma interrogação a juntar ao Brexit), além de que, na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político. Esta última questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações; e também não tem pátria, nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos ou acionistas. Cansado de noticiários recitados por "jornalistas" que pouco ou nada sabem do que dizem - e, tantas vezes, até mal conhecem o significado das palavras que usam -, farto de fake news e de mentiras de trumps, putins e quejandos, lembrado do Bernanos que, há tantas décadas já, ergueu a voz contra a robotização dos espíritos, chamo, Princesa, a tua atenção para um livro do alemão Richard David Precht, recentemente publicado: Jäger, Hirten, Kritiker - Eine Utopie für die digitale Gesellschaft (Goldmann, 2018). Traduzo o título: «Caçadores, Pastores, Críticos - Uma Utopia para a Sociedade digital». Numa entrevista à revista Der Spiegel (o espelho), o autor afirma que a Silicon Valley vê no ser humano um organismo que funciona segundo reflexos mecânicos, como um rato de laboratório... Uma minha sucinta interpretação do que diz o próprio livro é que o projeto de sociedade digital ali analisado padece de uma vocação totalitária mais coadunável com um regime iliberal do que com aquilo a que chamamos democracia liberal (no sentido político de sociedade em liberdade de consciência e participação nas decisões coletivas). No fundo, está bem longe dos ideais humanistas da Renascença e da racionalidade das Luzes... Acrescento que nada tem, certamente, a ver com essa espiritualidade a que Romano Guardini tão bem chamou O Valor Divino do Humano (livro que li bem jovem, e ainda guardo)...

 

   Mas, ficando pelo universo internacional, passam por aí veleidades e prenúncios de recomposições, precárias ou, quiçá, mais duradouras, de entendimentos e alianças: a busca de um entendimento de europeus com russos (que são não só, mas também, um pouco europeus) sobre a salvaguarda do acordo nuclear com o Irão, é disso exemplo, como de nova arrumação do xadrez diplomático, visto que outros parceiros aparecem, incluindo uma potência maior (a China). E também surgem desafios à periclitante centralidade ou superioridade dos ocidentais, não só vindos dum qualquer misterioso "oriente" - que a nossa corrente vox populi teima em considerar exótico, já que só acha normal e normativo, sempre, evidentemente, o "ocidente" - mas de outras zonas do planeta, como a América Latina, colonizada, larga e continuamente povoada por imigrantes europeus. Lembro, para nossa ilustração, Princesa de mim, um livro recente do colombiano Arturo Escobar, para o qual fui inicialmente atraído pela primeira palavra do título, vocábulo que eu só conhecia, sob a forma pensarsentir, da minha própria escrita: Sentipensar con la tierra. Nuevas lecturas sobre desarrollo, território y diferencia. Basta traduzir-te uma frase desse conhecido militante e antropólogo colombiano, para também perceberes o despertar de uma nova consciência da dignidade dos povos: Nós somos diferentes de vós, Ocidentais, porque beneficiamos de outro modo de sentirpensar com a Terra, porque lutamos contra o individualismo, e temos uma cosmologia muito mais rica e relacional do que a vossa. E assim também volto a pensar no tianxiá.  Sorrindo pelo jeito com que as duas Coreias e a China, falando entre si, lá conseguiram voltar a sentar o presidente Trump à mesa...dando-lhe, presumo, as necessárias garantias de graxa com renovado brilho. Ou, em contrapartida da "compreensão" americana para com a ZTE (empresa chinesa que tem violado os limites impostos pelos EUA para negócios com o Irão e a Coreia do Norte), oferecendo mais reconhecimento de marcas comerciais, e proteção das mesmas, à sua filha Ivanka que, como sabemos, além de empresária, trabalha na Casa Branca e, ocasionalmente, representa o senhor seu pai, como aconteceu na cerimónia de inauguração da embaixada americana em Jerusalém...

 

   A política de Obama não era perfeita, mas tinha o mérito indiscutível de considerar como sua premissa a realidade do atual advento de um mundo plural para o fomento e a prática de uma cultura da paz e do respeito democrático. Os slogans trumpistas de America first! Make America great again!, como o seu comportamento errático-oportunista em todas as negociações e disputas internacionais onde se mete (incluindo as de matéria ou consequências económicas e comerciais), deixam-nos temer, Princesa de mim, um mundo de conflitos cujos manipuladores nem sempre serão só os que deixam os rabos de fora... Poderia escrever-te agora muitos parágrafos acerca do modo aparentemente caprichoso como a política externa americana tem sido "conduzida", desde a obsessão de Trump com o seu "estrelato" (uma quase olímpica primazia) ao seu receio de ser menosprezado ou desconsiderado, tudo isso refletido naquele seu tique de que tudo estava e continua mal, mas será, brevemente, por ele, o Magno Donald, totalmente banido, destruído, ou, então, revisto, corrigido e bem melhorado. Não faz política enquanto ciência e prudência, vontade de consenso e bem querer, mas apenas busca que surjam ou possam surgir -   há que aproveitá-las! - oportunidades de "brilhar" ou afirmar primazia. É, assumidamente, um "business man".

 

   Mas desde há muito que te vou dizendo como, na raiz profunda de tanta confusão - ao ponto de, por vezes, nem sabermos bem quem somos, onde nos situamos ou devemos situar - está uma cultura em crise. A explosiva disseminação de notícias e semânticas novas por meios ditos de "comunicação social", com a consequente superficialização das perceções e variação dos sentimentos, vai minando a nossa capacidade de ponderação e reflexão, isto é, vai fazendo de nós baratas tontas. O que já foi pensarsentir, uma construção mental e espiritual do nosso ser humano na sua circunstância, tende progressivamente a tornar-se numa mera reprodução mimética de fantasmas que nos são propostos ou impostos de fora. Aliás, os casos mais alarmantes de autismo adventício que hoje vão surgindo entre tantos jovens, que se fecham nos seus quartos com um ecrã e um computador, são "vidas virtuais" de seres humanos cuja circunstância real é feita de fantasias.

 

   Por enquanto, todavia, a consequência mais imediatamente gritante desta presente cultura da banalidade e superficialidade, com o seu rodopio de imediatismos proponentes de gozos e usufrutos logo esgotados e substituídos, é esse pulular estulto de idolatrias: desde as dietas adelgaçadoras ao melhor champô, do melhor jogador do mundo ao ator mais sexy, ou à modelo mais glamour; do meu clube que só pode ser campeão, ao meu partido que tem sempre razão, ao líder que tudo sabe e conduz o modelo económico sempre gerador de riqueza, etc... etc... Tal criação de riqueza servindo, obviamente, para me assegurar, na estabilidade garantida pelo tal líder, tranquilo usufruto do maior número possível de bens e serviços adquiríveis.  Num mundo que a chamada globalização progressivamente concentra (o que também quer dizer que vai tornando as suas nações e culturas cada vez mais centrais e menos periféricas), um "ocidente" descuidado e incauto, se não arrogante e distraído, delicia-se, por exemplo, a importar terapias físicas e psíquicas de qualquer arquétipo "oriental", como novidades a juntar à sua panóplia de consumos disponíveis... - mas queda-se sem a inteligência e a vontade (diria mesmo a prudência, esse amor sagaz) necessárias ao entendimento e convívio com novos vultos e outros protagonistas da cena internacional. Isto é: o "ocidente" teima em pensarsentir que o seu modelo económico, o seu regime político, a sua ética de êxito materialista, são o que há de melhor, são incontornáveis e impõem-se universalmente. Desejamos doidamente enriquecermo-nos; mas a riqueza por que ansiamos pouco ou nada tem a ver com a alma, a mente e o coração dos humanos, com essa única perfeição possível pela nossa condição existencial que é o amor na relação de uns com os outros, a busca da utopia das bem aventuranças.

 

   Finalmente, ou seja, para acabar esta carta - que, como todas as outras, é mera conversa entre nós, Princesa, para puxar a cabeça um ao outro - deixa-me referir-te que a França das luzes tem andado a olhar bastante para uma Itália politicamente caótica (que vai, paradoxalmente, assustando e, a talho de fouce, alertando e despertando a Europa). Parece-me, pelas traduções do italiano que em francês se vão sucedendo, que a Gália, também inquieta com a sua própria crise de identidade e valores, procura ali encontrar memórias, razões e motivos para voltar a beber mais das águas que regaram as nossas greco-latinas raízes culturais. Sabes como, pessoalmente, penso que o abandono, no ensino liceal, de letras clássicas, por retirar etimologia ao aprender da nossa própria língua, e fechar outro acesso à literatura e à filosofia, foi um erro de "casting"(autorizas-me esta modernice?) dos curricula escolares. Sobretudo - e compreendê-lo-ás melhor quando te falar da escrita chinesa na própria estruturação do discurso intelectual -  a medida em que nos prejudicou a base de construção verbal e escrita dos nossos modos de discorrer. Hoje, direi, caricaturando, já nem neologismos há. O que por aí se ouve é um chorrilho de ditos na moda, cujo próprio significado os seus mesmos emissores não tiveram tempo de compreender. Não faz mal, pensarão alguns: amanhã teremos mais novidades. Traduzo uns trechos do professor Lucien d´Azay (escritor e tradutor, ensina francês no liceu Marco Polo, em Veneza) respigados de um artigo publicado no Figaro Littéraire de 24 de maio p.p., em que fazia a resenha de duas obras vertidas do italiano para francês: La Langue Géniale - 9 bonnes raisons d´aimer le Grec, de Andrea Marcolongo (Les Belles Lettres, Paris) e Vive le Latin - Histoires et Beauté d´une Langue Inutile, de Nicola Gardini (Éditions de Fallois):

 

   Porque nos chegam de Itália estes dois livros? Porque esse país, diferentemente da França, nunca duvidou da sua herança clássica, nem do estudo, desde o liceu, do que outrora se chamava «humanidades greco-latinas». Na Itália, o filão mais prestigiado do segundo ciclo do ensino secundário permaneceu o liceu dito «classico», cujas matérias principais, durante cinco anos (dois anos de «ginnasio» e três de «liceo» propriamente dito), são precisamente o latim e o grego antigo. Deve-se atribuir a essa escolha o sentido da urbanidade, o bom humor e a alegria de viver que qualquer cidade italiana testemunha? É certo que o clima e a beleza do cenário para tal muito contribuem. Mas o gosto da civilização clássica participa do mesmo espírito, da mesma graça.

 

   Seria curioso que uma sociedade como a nossa, que tão ostensivamente aspira ao hedonismo e à beleza, quisesse sacrificar o imenso prazer providenciado pela aprendizagem e a prática das línguas antigas, com o pretexto de que elas já não servem para uma cultura sujeita à atualidade, às mercadorias e à tecnologia. Na Renascença, o latim e o grego galvanizavam aqueles homens universais, modelos de humanitas, como foram Aldo Manuce e Ange Policiano. Inspiremo-nos neles. Gaudeamus igitur!

 

   Apesar de ser um "bota de elástico", não estou a propor que se restaure, em Portugal, a escolástica! Mas parece-me razoável poder, pelo menos, esperar mais cultura na educação da fala, da leitura e da escrita. Quanto mais não seja, para que a gente não fale por falar e como ouviu soar, mas para procurar exprimir algo que faça sentido. E deixo o sentido do yi chinês para a próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Na sua segunda meditação sobre a beleza (cf. Cinq méditations sur la beauté, Albin Michel, Paris 2008), François Cheng, um dos meus companheiros espirituais, exclui qualquer utilização de beleza como instrumento de engano ou dominação, pois tal seria a própria feieza (os dicionários dizem fealdade, mas eu, ao dizer beleza, não digo beldade...). E explica que sim, deve sempre evitar-se a confusão entre a essência de uma coisa e o uso que lhe possamos dar. E como isto é verdade quanto à beleza! Cito-te esta afirmação agora, porque me recorda a reflexão medieva - e os debates! - sobre estética, que Umberto Eco tão metodicamente analisou, ele que se conta entre os grandes estudiosos do pensamento medieval europeu e, neste capítulo, da filosofia estética de Tomás de Aquino. Iremos lá depois, noutra carta. Por enquanto, deixa-me recitar François Cheng: a beleza é algo virtualmente aí, desde sempre aí, um desejo que jorra do interior dos seres, ou do Ser, qual inesgotável fonte que, mais do que figura anónima e isolada, se manifesta como presença radiante e religante, que incita ao consenso, à interação, à transfiguração. Relevando do ser e não do ter, a verdadeira beleza não poderá ser definida como meio ou instrumento. Por essência, é uma maneira de ser, um estado de existência. Observemo-la através de um dos símbolos da beleza: a rosa.

 

   Curiosamente, correndo o risco de entrar em banalização, o filósofo-poeta colhe a flor, lembrando-me aquela lindíssima ária de Il trionfo del Tempo e del Disingano do Haendel, em que Piacere (o Prazer) tenta converter a si a Beleza, contra a razão do Tempo e do Desengano, personagens que sobre o Prazer triunfarão, neste primeiro oratório de Georg Friedrich Händel, ainda nos seus vinte anos, com libreto do cardeal Benedetto Pamphili, já com cinquenta e quatro de idade (em carta por te enviar falo mais dessa obra e seus autores): Lascia la spina, / cogli la rosa; / tu vai cercando / il tuo dolor... Traduzo a ária toda: "Deixa o espinho, colhe a rosa ; estás buscando a tua dor. Encanecida geada furtivamente te cobrirá, quando menos a espera o coração". Mas, já no oratório de Händel, sairá derrotado o prazer, pois o efémero escolherá a eternidade. Pensossinto, ó de mim Princesa, que sempre, a contemplação do efémero é uma cancela sobre dois caminhos: o da complacência no imediato da beldade, ou o da sublimação até à essência da beleza. Tal como diz Paul Claudel numa das suas intimíssimas Cent Phrases pour Éventails, inspiradas por haiku japoneses: Seule la Rose / est assez fragile / por exprimer / l´Éternité - pois sentimo-la, como diz Claudel ainda, e eu traduzo, um certo perfume / que só cheiramos / fechando os olhos... e... Fechamos os olhos / e a Rosa diz / Sou eu!  François Cheng vai buscar a Angelus Silesius, poeta germânico setecentista, que se filia na tradição mística renano-flamenga -que também tenho como muito minha, sobretudo por Mestre Eckhart, dominicano do século XIII, de quem já muito te falei - estes versos que livremente te traduzo:

 

               A rosa é sem porquê,

               floresce por florescer,

               sem ter de olhar para si,

               sem desejo de ser vista.

 

   Da atualidade da rosa, te posso lembrar, Princesa, traduzindo-te a abertura da primeira meditação de Cheng sobre a beleza: Nestes tempos de misérias omnipresentes, de violências cegas, de catástrofes naturais ou ecológicas, falar da beleza poderá parecer incongruente, inconveniente, quiçá provocador. Quase um escândalo. Mas precisamente em razão disso, vemos que, no oposto ao mal, se situa a beleza, mesmo na outra ponta de uma realidade que temos de enfrentar. Estou persuadido de que temos a tarefa urgente, e permanente, de encarar esses dois mistérios que constituem as extremidades do universo vivo: de um lado, o mal; do outro, a beleza. E prossegue dizendo que o mal é sobretudo aquele que o homem inflige ao homem, a beleza sendo como que uma enigmática evidência que nos espanta: o universo não tem obrigação de ser belo mas é, contudo, belo... E interroga-se sobre o que significa então a beleza para a nossa existência, procurando entender o que significa a frase de Dostoïevsky no Idiota: A beleza salvará o mundo. Chega assim a esse inescapável sentimento íntimo - que já tantas vezes nos desafiou nestas cartas - de que o mal e a beleza são antagónicos mas inseparáveis, na medida em que nesta se tende a encaixar aquele, a fazer dela uma máscara enganadora do maligno... Eis como me leva a reencontrar essa preocupação da nossa tradição greco-cristã acerca de uma qualquer hipotética dissociabilidade do vero-bom-belo. Mas não voltarei agora, Princesa de mim, ao meu outro mestre, Tomás de Aquino, que tanto se interrogou sobre a estética como fundamento da independência artística, musical e poética - se assim posso, ao jeito hodierno, exprimir-me. Nem tampouco abordarei o tema da iconofilia e da iconoclastia, nas tradições monoteístas, judia, cristã e muçulmana. Fico-me, com o nosso tão amigo François Cheng, pela meditação, em modo talvez taoista - mas tão próximo da mística e da arte cristãs que mais venero -, dessa surpresa sempre inesperada na sua permanência, talvez o laço que mais firme e fielmente nos una ao universo que é nossa morada: a beleza como raiz e devir de tudo. Aprendi muito com a minha cerejeira do Japão, que todos os anos floresce porque floresce, e não dá frutos, e cujas flores sem saber de si me encantam e me levam para muito longe quando fogem com o vento, talvez então muito mais próximas de mim comigo, porque não as tenho e apenas sou com elas, simplesmente. O efémero torna-se assim num sacramento de eternidade.

 

   Regresso por aí à meditação de François Cheng sobre a beleza e a rosa, escolho um trecho que me ocorrera ao ler um bilhete  de uma amiga minha, pintora, mulher, mãe e avó, completada pela família e pelo campo onde vive em natureza, e pelo ateliê, onde nem todos os dias são tranquilos ou gloriosos, porque até nas coisas que mais gostamos de fazer, ou que maiores alegrias nos dão, pode insinuar-se a perplexidade, um quase desânimo, talvez mesmo a tentação maléfica (?) de desistir, de destruir até. O mal detesta a beleza, tentará aniquilá-la, mas a beleza não se livra do mal pela violência de um apagão, tal não é próprio dela. Ela é positiva, criadora, não é negativa. Lembras-te, Princesa, de que já nas aulas de física, no liceu, sabíamos que um corpo frio não pode acender outro, mas um corpo quente sempre transmite o seu calor? Diz então o poeta sino-francês:

 

   Na verdade, a rosa é sem porquê, como todos os viventes, como todos nós. Se todavia um observador ingénuo quisesse acrescentar algo, poderia dizer isto: ser plenamente uma rosa, na sua unicidade, e nada mais, eis o que já constitui suficiente razão de ser. Tal exige da rosa que ela ponha em combate toda a energia vital de que está carregada. Desde o instante em que emerge do solo, o seu esteio irá crescendo como que movido por inabalável vontade. Através dele se fixa uma linha de força que se cristaliza num botão. A partir desse botão, as folhas e depois as pétalas ir-se-ão formando e dispondo, seguindo esta curva, aquela sinuosidade, optando por este tom, aquele aroma. Doravante nada a poderá impedir de aceder à sua assinatura, ao seu desejo de cumprimento, alimentando-se da substância vinda do chão, mas também do vento, do orvalho, dos raios do sol. Tudo isto com vista à plenitude do seu ser, uma plenitude posta já no seu germe, já num muito longínquo começo, podemos até dizer que desde toda a eternidade.

 

   Eis enfim a rosa que se manifesta em todo o brilho da sua presença, propagando as suas ondas rítmicas para aquilo a que aspira, o puro espaço sem limites. Nesta tarde tão cinzenta e mansamente chuvosa, estou, tolhido de dores físicas que me desafiam, conseguem irritar, mas fugirão assim que eu me cale e olhe para os campos que avisto, verdes e agradecidos à grisalha húmida que os cobre, na quietação do meu gabinete, há meia hora acompanhando o lento deslizar de um caracol que, do lado de fora, percorre vários vidros da janela que me alumia. Ao vê-lo solto da casa que transporta, esticado, mas creio que ondulante sobre a superfície lisa e transparente - que me deixa vê-lo por debaixo e, à luz pálida do dia silente, me revela o seu corpo translúcido - recordo uma do católico Claudel no seu Connaissance de l´Est, que François Cheng cita (et pour cause!):

 

      Mas o que é o Tao? ... Por debaixo de todas as formas, o que não tem forma, o que vê sem olhos, o que guia sem saber, a ignorância que é o supremo conhecimento. Seria errado chamar Mãe a esse suco, a esse sabor secreto das coisas, a esse gosto de Causa, a esse estremecimento de autenticidade, a esse leite que nos ensina a Nascente? Ah!, estamos no meio da natureza como ninhada de leitões que mamam numa cerda morta! Que nos diz Lao Tseu, se não que cerremos os olhos e ponhamos a boca na própria fonte da Criação? E fecho esta carta acentuando a sua nota intimista, com uma citação de São Bernardo de Claraval (Sermones in Cantica256): Pulchrum interius speciosus est omni ornatu extrínseco, omni etiam regio cultu... Ou seja, Princesa: A Beleza mais íntima brilha melhor do que qualquer ornamento extrínseco, bem mais, até, do que qualquer paramento régio.

 

   Mas como, em dias de penumbra pluviosa, sempre me acodem, inesperadamente, lembranças que vêm mesmo a calhar para me ilustrar o pensarsentir, deixo-te mais uma que ora me socorreu. É do filme La Strada, do Fellini (1954), quando o equilibrista louco (Il Matto) diz a Gelsomina (representada pela inesquecível Giulietta Masina): Se eu soubesse para que serve este calhau, seria Deus, que tudo sabe. Quando nasces. E também quando morres. Este calhau serve com certeza para qualquer coisa. Se for inútil, tudo o mais será inútil, mesmo as estrelas. E também tu, com essa cara de alcachofra, para alguma coisa hás de servir.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Foi hoje mesmo: tinha acabado de ler, no Público, o manifesto de cem africanos contra o eventual museu das descobertas, quando comecei a ver, no canal Mezzo, A Volta ao Mundo em 80 Minutos - um espetáculo da companhia de bailado Maurice Béjart, coreógrafo suíço hoje já falecido, que ainda conheci, há meio século, em Bruxelas, quando por lá tinha sedeado o seu corpo de balé. Recordo-me de, nesses tempos longínquos, me ter chamado a atenção uma frase do grande poeta senegalês Léopold Senghor, a afirmar, mais ou menos isto: A coreografia do Sacre du Printemps de Stravinsky por Maurice Béjart só se explica pelo sangue africano dos antepassados deste... Foi por esses anos, em 1975, que me aconteceu, na qualidade de perito da ONU para o PNUD, ter de visitar a República Popular do Congo e, ao desembarcar em Brazzaville, no meio de um controlo de chegadas apertado pela evidência de pistolas metralhadoras, ter sido identificado e conduzido a um encontro com o então primeiro ministro daquela república social-comunista, Henri Lopes. De ascendência portuguesa e bantu, logo me contou que me chamara pelo gosto de conhecer um português que, enviado por uma universidade europeia num programa da ONU, vinha prestar um serviço ao seu país. E falou-me, com sentido afeto e alguma melancólica amargura, na família da mestiçagem, tema que, aliás, redescobri no seu romance Le Chercheur d´Afriques (Seuil, Paris, 1990), que ganhou o Grand Prix Jules Verne, narrativa quiçá autobiográfica de um jovem mestiço que vai procurando, na saudade, a memória de seu pai branco...   Quase trinta anos mais tarde, para recordar a história, mandou-me um livro seu - que ainda guardo - intitulado Ma grand-mère bantoue et mes ancêtres les Gaullois. Como saberás, Princesa de mim, nas colónias francesas as crianças logo no abc aprendiam a recitar nos ancêtres les Gaullois... Mas também sabes que, em processos de integração ou assimilação voluntarista, a aculturação das gentes pode desvirtuar-se e, para além de confusões e crises de identidade, pode obstruir as janelas de lucidez de que todos precisamos. Por tudo isso se torna imperioso praticarmos a lição de Tomás de Aquino que nos ensina a diferenciar para compreender. A aventura humana, científica, técnica, moral, económica, política das Descobertas, das grandes viagens de descobrimento do mundo, isto é, de uma revelação de terras, povos e culturas até então ignorados, quer pelos que partiram primeiro para a busca, quer pelos que, ao serem por esses descobertos, reciprocamente os descobriram, é um evento maior, melhor, um encadeamento de acontecimentos que muito mudaram o mundo de antes e fomentaram encontros novos. Nestes, como em todos as cheganças das nossas vidas, houve, ocasional ou forçosamente, um pouco de tudo: compreensões e incompreensões, simpatias e antipatias, acordos e beligerância, guerras ganhas e perdidas, dominadores e dominados...eu sei lá... tudo do que o género humano é capaz! Mas a celebração ou, sequer, a memória museológica das Grandes Descobertas, não é necessariamente, um sancionamento do colonialismo, nem da escravatura (sendo, aliás, o primeiro uma prática europeia novecentista, e a segunda muito anterior às Descobertas)  Muito pelo contrário, se o seu projeto for concebido em partilha e com espírito de verdade e justiça, ele poderá ser motivo de novo encontro e redescoberta mútua. Permito-me agora, Princesa de mim, uma longa citação do ensaio de Henri Lopes Ma grand-mère bantoue et mes ancêtres les Gaulois, por vir de quem vem, de um homem que começou a sua vida política na esquerda africana anticolonialista:

 

   A África foi descoberta pela Europa no século XIX. A África redescobriu-se duas vezes no século XX. Uma primeira vez na véspera das Independências, tomando consciência do seu passado, da sua história, assumindo a sua negritude e as suas identidades. Uma segunda vez com as guerras civis de fim de século.

 

   A nossa primeira redescoberta foi salutar para a nossa dignidade. Despertou-nos, convenceu-nos de que não éramos esses selvagens sem história e sem direito, que os nossos senhores humilhavam, mas povos ricos de uma herança suscetível de fertilizar o património da humanidade. Essa tomada de consciência pôs em combate o movimento de reconquista das nossas soberanias. Mas a vitória embriagou-nos e considerámo-nos incensuráveis.

 

   A segunda redescoberta impõe-nos, simultaneamente, uma meditação e uma ação imediata. Porque o Rwanda mais não foi do que a reedição do que já se tinha passado no Burundi, na Libéria, no Katanga, no Sudão, exemplo extremo do que tinha acontecido no Congo, do que ameaçou o processo de normalização na África do Sul, do que grassa noutras regiões da África. A primeira lição a tirar é a de que devemos tornarmo-nos modestos e pôr termo à nossa logomaquia. Tal como as outras sociedades humanas, nós temos antepassados de que nos podemos orgulhar e outros que não valem grande coisa... [...]

 

... A segunda lição a tirar desses acontecimentos é a de que as nossas culturas, como todas as culturas, tinham zonas de luz e zonas de sombra, onde a barbárie se dava à tripa forra. O nazismo tropical tem raízes profundas. Estava em maceração nos nossos inconscientes coletivos. Bestava um catalisador para o acordar. Sabíamos acolher com consideração e calor o estrangeiro de passagem, mas também alimentávamos inimizades tenazes com alguns dos nossos vizinhos. Era às terras deles que íamos buscar os nossos rebanhos de escravos.

 

   Ao dizer isto, tenho consciência de estar a revelar tabus embaraçosos... [...]

 

   ... O francês, tal como o inglês, o espanhol, o português ou o árabe, devem o seu estatuto internacional à sua larga difusão. O chinês e o hindi são, cada um deles, falados num só país... ... Será preciso acrescentar mais comentários?

 

   Primos gauleses: nós temos corpos e, quiçá, espíritos diferentes, mas certamente uma alma comum. Tal implica deveres recíprocos. Acima de todos, o da solidariedade.

 

   Antes de terminar esta carta, que vai longa, permite-me, Princesa de mim, confiar-te mais duas recordações pessoais:

 

   O Senghor, que foi Presidente do Senegal e membro da Academia Francesa, orgulhava-se de dizer que a família era originária da Casamança, território inicialmente administrado por Portugal (que depois o trocou, com a França, por outro no sul da atual Guiné-Bissau, em Catió) e que o seu apelido derivava do português Senhor. Foi isto várias vezes assim dito e escrito por esse chantre da negritude. Ouvi-o da própria boca do grande poeta francófono senegalês.

 

   Ainda em viagem "onudense" pela África (selecionava então candidatos a bolseiros para a Universidade Católica de Lovaina), ia eu embarcar, no aeroporto de Lomé (Togo), num voo da Air Afrique para Libreville, quando os altifalantes clamam:  Monsieur d´Oliveira, passager d´Air Afrique à destination de Libreville, est prié de se rendre au comptoir de la compagnie. Lá vou, intrigado, até ao balcão em que me acolhe uma hospedeira sorridente numa farda de garridas chitas africanas, anunciando-me que Monsieur Oliveira désire  vous parler... Retorqui Mais... monsieur Oliveira c´est moi! e eis que ela larga um riso aberto e me aponta um oficial da companhia aérea, negro africano em alva farda branca, distinto e amável, que me estende um carão de visita onde li: Fernand HOliveira - Commissaire de Bord. Sorri e ele disse-me Il se peut qu´on soit cousins... Ao que respondi: J´en suis absolument sûr! Meses depois, ao fazer uma escala em Bruxelas, veio visitar-me e oferecer-me uma bela lembrança de África. Almoçámos juntos, como primos que se estimam.

 

   Já várias vezes te escrevi sobre o ressentimento e a história, e sabes bem como pensossinto que o ressentir pode ser masoquismo ou, quando não é remoer o que na nossa própria vida nos afetou ou magoou, poderá ser ainda pior, como que uma busca insistente do que nos afasta ou antagoniza. A História foi, certamente, a nossa vida antes de nós, essa parte dela em que não fomos atores nem somos atuais. Nesse passado comum, houve de tudo, ou de tudo um pouco mais ou menos explicável - julgamos e discutimos - pelas ou nas circunstâncias de outros tempos. O que disso resta, o que ficou guardado, é parte da nossa cultura partilhada. O que disso vale ainda é o reconhecimento mútuo, e o comum anseio de que a memória nos ajude, no presente, a construir, em paz e justiça, o futuro de todos. Devidamente arrumados os agravos e as falsas "glórias", saibamos celebrar a descoberta recíproca e continuá-la em respeito mútuo e obra comum. Assim entendido, um Museu das Descobertas, sem os preciosismos rebuscados - até no nome (Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, p. ex., que disparate!) - nem laivos de pretensiosismos de primazia, precedência ou superioridade (o nosso ridículo jeito de nos pormos em bicos de pés) poderá ser um ponto de encontro e repartida. A História é já testemunha de obras esforçadas, como de erros e omissões. Mas, gostemos ou não, o que assim foi é o nosso passado comum. E é natural e amável o sentimento do pequeno povo português quando recorda os seus varões assinalados / que em perigos e guerras esforçados / mais do que permitia a força humana / passaram inda além da Tabrobana... Paul Butel, bretão que foi professor de história moderna na Universidade de Bordéus, abre a sua Histoire de l´Atlantique com o seguinte parágrafo:

 

   Pretende uma lenda que aqueles que iam ver o pôr do sol ao alto do cabo de São Vicente, em Portugal, o viam cem vezes maior do que parecia noutros sítios, e podiam ouvir o assobio do astro imenso a apagar-se nas ondas. A visão lendária aumenta com o sol a dimensão de um horizonte marinho que sempre fascinou os homens para simultaneamente os atrair e afastar...

 

   Vencer o medo para que a audácia nos leve ao encontro do desconhecido, ter esperança de que mergulhar na névoa pode não ser desaparecimento, mas achamento de um novo abraço do mundo - eis, Princesa de mim a descoberta que queremos recordar. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Gabriel Fauré (1845-1924), compositor francês, foi mestre de capela na igreja da Madalena, em Paris. Gosto de o pensarsentir como um agnóstico de alma profundamente religiosa, e talvez seja no seu Requiem que ele assim tal qual mais se revela. Li algures - não me recordo de onde nem quando - a notícia de que essa obra foi executada pela primeira vez na própria igreja da Madalena, nas exéquias de um paroquiano. No final, o pároco perguntou a Fauré que peça era aquela, pois não a conhecia. O compositor respondeu que era uma missa de requiem sua, o que lhe valeu uma reprimenda e a injunção de não voltar a repeti-la ali, pois no acervo da Madalena já havia coisas dessas em número suficiente... Por outro lado, sei que a primeira intenção de Fauré foi comemorar a morte do pai, terminando a primeira versão da obra já para acompanhar a morte da mãe, dois anos mais tarde. Digo-te isto por sentir que a mansidão da música desta encomenda de almas se inspira muito na devoção de um amor filial.

 

   É verdade que, como muito bem aponta Lionel Salter na apresentação do registo da peça na EMI (entre os Great Recordings of the Century), interpretada pela Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire e os Choeurs Elisabeth Brasseur, sob direção do belga André Cluytens, e com os solistas Victoria de los Angeles (soprano espanhola) e Dietrich Fischer Dieskau (barítono alemão), este Requiem se afasta muito dos modelos clássicos, de Mozart a Cherubini, da ênfase teatral do Requiem dramático de Verdi, em que o homem tremendo de terror fala, balbuciando, em morte eterna, e sobretudo da visão apocalíptica grandiosa de Berlioz, com as suas "fanfarras fulminantes"... O próprio Gabriel Fauré disse, em carta a um amigo, que o meu Requiem é tão meigo como eu. O meu Requiem... já alguém disse que ele não exprime o susto da morte, já lhe chamaram uma cantiga de embalar a morte. Mas é assim que sinto a morte: como feliz libertação, aspiração à felicidade do além, mais do que um trânsito doloroso. Compreendo Fauré:  todo ele, pensossinto eu, se exprime essencialmente nessa prece pelo descanso do coração na mão de Deus, na sua mão direita, como sonhou o nosso Antero, e que o breve Pie Jesu exprime : Pie Jesu, Domine, / dona eis requiem. / Pie Jesu, Domine, / dona eis requiem sempiternam. Escuto hoje esse sereno pedido de ternura («piedoso Jesus, Senhor, dá-lhes descanso, / misericordioso Jesus, Senhor, dá-lhes eterno descanso») na voz de Victoria de los Angeles e, já noutro registo, nas dos meninos do Choir of New College de Oxford, sob a direcção de Edward Higginbottom (ERATO). Na verdade, fui buscar ambos os discos, para me acompanharem na reflexão  sobre a primeira das Cinq méditations sur la mort - autrement dit sur la vie, de François Cheng (Albin Michel, Paris, 2013). A morte, afinal, terá o mérito de - traduzo - nos levar a tomar consciência do que é, na essência, a noção de vida. Vem-nos ao espírito uma palavra que parece caracterizar essa noção: a palavra «devir». Sim, é isso a vida: algo que advém e que devém. Logo que vinda, entra em processo de devir. Sem devir, não haveria vida: a vida só é vida enquanto devir. A partir daí, compreendemos a importância do tempo. É no tempo que aquilo se passa. Ora, é precisamente a existência da morte que nos confere o tempo. Vida-tempo-morte: eis um todo indissociável, a não ser que seja morte-tempo-vida. Façamos os malabarismos que quisermos, não conseguiremos escapar a essas três entidades concomitantes e cúmplices, que determinam qualquer fenómeno vivo. Pois se o tempo nos parece um terrível devorador de vidas, ele é simultaneamente o seu grande fornecedor. Sujeitar-nos ao seu domínio é o preço que temos de pagar para entrar no processo do devir. Esse domínio manifesta-se por incessantes ciclos de nascimentos e de mortes; fixa a condição trágica do nosso destino, condição essa que também poderá ser fundação de uma certa grandeza.

 

   Nesse sentido, para o sino-francês François Cheng, refugiado em França aos vinte anos, sem saber uma palavra da língua local, hoje membro da Académie Française, poeta e pensador que respira uma espiritualidade alimentada de taoísmo e cristianismo (que descobriu, anos depois de chegar à Europa, em Assis, pelo exemplo da São Francisco), a morte corporal, que tanto nos angustia e assusta, pode revelar-se como a dimensão mais íntima, mais secreta, mais pessoal, da nossa existência. Pode ser esse núcleo de necessidade à volta do qual a vida se articula. Neste sentido, é mesmo revolucionário o Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, que à morte corporal chama «nossa irmã». Abre-se-nos então uma mudança de perspectiva : em vez de encararmos a morte como um espantalho, a partir deste lado da vida, poderíamos encarar a vida a partir do outro lado, que é a nossa morte. Nessa postura, enquanto estivermos em vida, a nossa orientação e os nossos actos serão sempre impulsos para a vida.

 

   O mesmo Cheng conta, no seu opúsculo Assise - une rencontre inattendue (Albin Michel, Paris, 2014) como, em 1971, no momento em que se naturalizava francês, teve o privilégio de escolher um nome próprio: François. É certo que tal nome tem o condão de significar «francês», minha nova cidadania. Mas a razão mais determinante foi que, dez anos antes, em 1961, me tinha encontrado com o irmão universal que todo o Ocidente conhece, e no qual qualquer ser, mesmo vindo de longe, se pode reconhecer : Francisco de Assis.

 

   O autor deste encantador livrinho, Princesa de mim, que te aconselho a ler, fez questão em publicá-lo anexando-lhe o Laudato si´... esse canto franciscano das criaturas, que acaba assim:

 

               Louvado sejas, meu Senhor,

               pela nossa irmã, a Morte corporal,

               a quem nenhum homem vivo pode escapar.

               Infelizes os que morrem

               em pecado mortal ;

               felizes aqueles que ela surpreende

               a fazer a tua vontade,

               pois não lhes será ruim segunda morte.

 

               Louvai e bendizei o meu Senhor,

               dai-lhe graças

               e servi-o com toda a humildade!

 

   Fiz esta tradução da versão francesa de François Cheng, por dele falarmos agora. Lembro-me todavia de já te ter enviado outra minha versão para português, essa directamente feita do dialecto úmbrio original, em que foi composto o Laudes Creaturarum - ou Cantico di Frate Sole, assim chamado por virtude da 2ª estrofe (versos 5 a 9) - provavelmente em 1224-25, em São Damião (Assis), onde Cheng também se demorou, 736 anos depois. Para ilustrar o que se diz a seguir, deixo-te hoje, sem tradução, essa estância, como São Francisco a cantou:

 

               Laudato sie, mi´Signore, cum tucte le tue creature,

               Spetialmente messor lo fratre sole,

               Lo qual´è iorno, et allumini noi per lui.

               Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore :

               De te, Altissimo, porta significatione.

 

   Pelos vistos, Princesa de mim, o nosso Sto. António não teria tido grande dificuldade em traduzir o seu português alfacinha para um dialecto italiano... Quiçá menos ainda em comungar nesse amor universal, divino, telúrico e humano. Já muitos autores observaram também como o texto franciscano «os laços que tece com a cultura latina, essa escrita ornamentada com rimas e assonâncias, poderosamente ritmadas pelo modelo dos salmos...» (Danielle Boillet) ou sublinharam, como Frédéric Ozanam (Les Poètes franciscains en Italie au treizième siècle, Paris 1882), o «valor humano e religioso deste texto». Traduzo:

 

   O poema de São Francisco é bem curto, e todavia nele encontramos toda a sua alma : a sua fraterna amizade das criaturas; a caridade que guiava esse homem humilde e tímido através das querelas públicas ; esse amor infinito que, depois de ter procurado Deus na natureza e de o ter servido na humanidade sofredora, a mais não aspirava do que a encontrar a morte. 

 

   E é por este santo pobre de Deus que o intelectual, e também poeta, chinês, François Cheng verá em Jesus Cristo a Via (dao) do seu taoísmo de raízes milenares. A fechar esta carta, Princesa, traduzo-te um trecho significativo do Assise - une rencontre inattendue, onde, através dum chinês que escreve em francês também eu experimento um encontro meu que, louvado seja!, é sempre inesperado:

 

   O que ele vê diz-lhe que, apesar de tudo, há sempre razão de louvor. E que outra coisa louvar, se não a própria Criação, com o esplendor do céu estrelado e a magnificência da terra fecunda, essa Criação que, certo dia, a partir do Nada, fez advir o Tudo? Ao louvar, vemos desenrolar-se todo o processo do advento, uma doação total, pela qual só podemos e devemos dizer o nosso reconhecimento. Ele reconhece o facto de que milagrosamente o Ser é, e de que graças a esse facto primeiro, ele mesmo, por minúsculo que seja, ele é. Ao louvar, mergulha totalmente no infinito, no Aberto. Sabe-se parte legítima de uma imensa aventura em devir, a da Vida, com tudo o que ela comporta de desafios e paixões, de dores e de alegrias, de corridas para o abismo e de elevação para a transcendência. Os sofrimentos de cada um e de todos só podem ser ultrapassados no abandono constante à marcha da Via, a única que não nos trairá. Por experiência, Francisco sabe que o que move a aventura da Vida não se limita à potência material, antes é o próprio amor. Por isso, depois de ter louvado as criaturas, cada uma enquanto dom único, ele distingue em particular o destino humano : «Louvado sejas tu, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti ; que suportam provações e doenças ; felizes os que se mantêm em paz, pois que, por ti, ó Altíssimo, serão coroados!»

 

   Eis o que cantam os versos 23 a 26 do Laudes Creaturarum:

 

               Laudato si´mi´Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore

               Et sostengo infirmitate et tribulatione.

 

               Beati quelli ke´l sosterrano in pace,

               Ka da te, Altissimo, sirano incoronati.

 

   Há muita vida, Princesa, para além da vanglória e do conforto, da desilusão e do pessimismo, de tudo o que afinal é esse individualismo tacanho que ensombra os nossos dias...

              

Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Zhao Tingyang avisa-nos de que Tianxiá é uma redefinição da política, um tratamento do mundo como sujeito político. A China é uma narrativa, enquanto que o Tianxiá é uma teoria. Vamos então ao seu Tianxia - tout sous un mêma ciel (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018), de que já te falei, ler o que o filósofo chinês - que alguns pretendem ser um ideólogo do nacionalismo chinês na atualidade - nos diz de um conceito trimilenário que ele hoje retoma. Traduzo:

 

   A mundialização, no seu turbilhão, arrasta tudo e por todos os lados, e nada doravante existe fora desse fenómeno. Menos prezar este novo contexto político tornaria difícil uma pertinaz definição dos problemas do mundo contemporâneo. Na verdade, não é só a questão política que se transforma, mas também a maneira de existir do mundo, que deixa pressagiar um mundo do futuro a necessitar de uma ordem de ser que lhe corresponda, a saber, uma ordem que realize a sua inclusão: chamo-lhe o sistema Tianxiá. É certo que o Tianxiá é um conceito nascido na China antiga, mas não é específico da China: os problemas a que se atém ultrapassam a China, são problemas universais que envolvem o mundo. O termo Tianxiá designa um mundo que possui a sua própria mundialidade. Também podemos interpretá-lo como um processo de formação dinâmica que se refere então à mundialização do mundo. O sistema Tianxiá da dinastia dos Zhou na China (1046-256 a.C.) desapareceu há muito, mas o conceito de Tianxiá que esta nos legou tornou-se em fonte de inspiração para imaginarmos o futuro do mundo. Ninguém conhece o porvir, mas não podemos calar-nos acerca dele, e uma ordem mundial cuja intenção fosse a bondade universal mereceria ainda mais a nossa imaginação.

 

   Vês assim, Princesa, como retomo a tentação de cair em utopia - ou em utopias de que te falei em carta recente - por me parecer ainda que a invenção dum mundo novo se fará apenas pelo propósito da descoberta de uma nova cultura da paz. E revejo-me -  lembra-te do que então te escrevi - no Zhao Tingyang que diz: Os conceitos políticos internacionais definidos pelos Estados Nações, os imperialismos e as rivalidades pela hegemonia vão perdendo a sua pertinência face à realidade da mundialização. Se esta não tiver retrocesso, os poderes supremos definidos pelos Estados Nações, tal como os jogos de política internacional que deles decorrem, pertencerão ao passado, enquanto que os novos poderes de redes mundializadas pós contemporâneas e uma política autenticamente mundial constituirão o futuro.

 

   [Hoje mesmo, domingo 13 de maio, assisti pela TV à missa celebrada pelo cardeal chinês, bispo emérito de Hong Kong (há por aí cada vez mais eméritos, caramba!), que, adolescente ainda, foi de Cantão para o seminário de Macau, quando a sua família se refugiava na colónia britânica de Hong Kong, nesse pós guerra perdida pelos japoneses e retomada pelo confronto entre nacionalistas e comunistas chineses. Trágico mas real. Também assisti na véspera à procissão das velas, uma maré de peregrinos acesos por dentro e por fora, vivos de uma fé que não se cansa de lhes dar esperança, e me comove no íntimo de mim porque não sei que mais fazer para que assim seja. Comungo com eles nessa estranha força que jorra dentro de nós e nos diz a certeza de um dia encontrarmos a utopia.  E lá me lembrei de outras notícias, mais ou menos fresquíssimas, que nos dizem o susto europeu (sobretudo francês e alemão) com as ameaçadoras sanções da américa trumpista a empresas europeias com interesses praticados no Irão, sublinham os bombardeamentos israelitas a posições iranianas, bem como o pronto sim-sim e aplauso de Netanyahou à vitória da sua bandeira na Eurovisão e à possibilidade de, em 2019, o dito festival se realizar em Jerusalém! Tudo já combinado, "pacífico" e animador, como poderás imaginar. Perigoso, a tal ponto, que já se fala da eventualidade do secretário de estado Pompeo servir de mediador entre a agressividade de Bolton/Trump na questão iraniana e a moderação diplomática do secretário da defesa Jim Mattis. Seria uma boa obra, mas penso agora nos palestinos, cristãos e muçulmanos, vítimas dos "nazis" israelitas. Este parêntese serve para te mostrar como as boas intenções religiosas nem sempre vencem o maligno, nem Nossa Senhora de Fátima, em 1917, conseguiu que a guerra terminasse imediatamente, como tampouco evitou o massacre de milhares de portugueses em La Lys. Isto é: impõe-se despertar as consciências humanas para a ação redentora. Era menino e ensinaram-me: Aide toi et le Ciel t´aidera!]

 

   A grande dúvida estará entre se a inteligência e a vontade dos humanos saberão levar avante um olhar limpo e novo e o gosto de construir em comunhão a terra, até hoje de nenhures (a Utopia), onde todos convivamos... ou se a pertinácia do preconceito e da soberba continuará a fechar-nos, uns aos outros, os olhos e o coração. Dirás, Princesa de mim, que eu sou um lírico - responder-te-ei "Sim, Senhora, gosto de sonhar para esquecer". Mas, voltando ao Tianxiá, devo acrescentar que tal conceito é como Janus, tem duas faces, ou poderá tê-las conforme o pensarsentir que se propuser realizá-lo: ou visando converter os povos todos à disciplina anunciada pelo "dono" do mesmo; ou acreditando que será possível despertar em todas as gentes uma consciência militante da construção partilhada da paz. Interrogando-me sobre a China hodierna, recorro ao meu velho amigo João de Deus Ramos, primeiro diplomata português na China, após o reatamento de relações diplomáticas, tendo aberto, em 1979, a Embaixada de Portugal em Beijing, estudioso das coisas do Oriente, sobretudo sínico, e que também esteve colocado no Japão, uma década e meia antes da minha prolongada missão por lá. É frequente, hoje ainda e depois de 65 anos de amizade, conversarmos sobre aquelas experiências. E tive o gosto de reconhecer o labor da sua obra no fomento do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, quando, em 2014, um jovem intelectual e empresário portuense, cujo estágio, no Japão e na Coreia, acompanhei, o Pedro A. Vieira, me ofereceu um exemplar de A Herança de Confúcio - Dez ensaios sobre a China, publicado em novembro de 2013 por aquele instituto, e reunindo, com organização da doutora Sun Lam (natural de Beijing, licenciada pela Jinan de Cantão, doutorada pela Universidade do Minho!),  a colaboração de dez autores, entre os quais os meus amigos de que te falo acima. É consolador ver que, em Portugal, também se iniciam estudos sínicos. Mas não irei agora respigar o texto do embaixador João de Deus sobre o relacionamento da China com o exterior. Antes irei buscar ao texto do doutor Luís Cabral, uma Introdução à Filosofia Clássica Chinesa, um esclarecedor esquema que lhe foi sugerido por João de Deus Ramos, e que Luís Cabral assim apresenta:

 

   Passando ao conceito de Tian, que correntemente se poderá traduzir por "Céu", terá porventura na estrutura mental e de pensamento chinês muito mais uma conotação ética e política do que propriamente religiosa. Para uma melhor compreensão do que dizemos, propomos a seguinte narrativa. Pelo século XI a.C., a dinastia Shang foi derrubada pelos Zhou, tendo estes sentido a obrigação ou necessidade de conceber uma teoria filosófica e teológica que justificasse a tomada e o exercício do poder.

 

   A visualização desta filosofia política, filosofia que porventura estará ainda bem presente na mentalidade dos chineses e chinesas modernos, governantes ou governados, poderá melhor esclarecer a importância do conceito, em articulação com outros caracteres conforme o esquema que segue:

 

                                                                                  tian

                                                                   xià           zi          ming

 

em que tian, o Céu (numa tradução simplista, já referimos) teria o direito de oferecer (ou retirar, em caso de má administração) o tianming, ou Mandato Celestial, para que tianzi, o Filho do Céu (Imperador ou Partido Comunista) administre tudo quanto existe, tianxiá, tudo debaixo do Céu, ou seja, a China. É com este esquema elementar que a China foi fazendo a sua história, dinastia sobre dinastia. Não é isto figura de retórica. Sempre que tianxiá está em muito más condições e tianzi é demasiado mau administrador, tian manifesta-se (catástrofes naturais, cheias e fomes, pragas, terramotos, revoluções, etc.) retirando-lhe o tianming. E a dinastia necessariamente muda.

 

   Este esquema de João de Deus (quase uma cartilha maternal da língua sínica) entender-se-ia bem melhor se eu soubesse traçar aqui, nesta carta, os pertinentes caracteres chineses: o tian que diz Céu, o ming que diz mandato ou missão, o zi que diz menino ou filho, o xiá que diz debaixo de... Mas, tal como está, também dá para perceber que tudo se refere ao Céu. No nosso Ocidente, ao que parece hoje em dia, a medida de todas as coisas é o dinheiro. O que, evidentemente, e apesar de não pensarmos nisso, vai afastando qualquer referência estratégica do plano e da prática política do Ocidente. Pois que é bem verdade que o objetivo dinheiro logo torna a atenção e o comportamento numa busca de oportunidades de enriquecimento (e quanto mais imediato, tanto melhor), com esquecimento da prossecução a prazo de valores constitutivos de humanidade: ordem e progresso, justiça e paz. A ideia de riqueza, finalmente, comanda a política. Não aludo apenas à corrupção, nem sequer à cumplicidade do poder político com o financeiro, ao ponto de tranquilamente se aceitar o viático da porta giratória. Refiro-me à propagada idealização do êxito (a que chamam "sucesso", isto é, "acontecido") medido por critérios quantitativos de PIB, lucros, dividendos, salários, e respetivo crescimento...ou de custo, dívida, défice, e respetiva diminuição. Nas relações internacionais, tudo se vai medindo por balanças comerciais e de pagamentos, por compensações e mercados rentáveis, a venda de armamento, por exemplo, não conhecendo, de facto, qualquer limite ético, e todos os bens ditos estratégicos sendo transacionados em função do pagamento ou como armas de chantagem. A cena internacional é também eleita para palco da exibição de megalomanias - de propaganda nacional, partidária ou pessoal (sobretudo para diversão das atenções internas) - ou simples encenação de recados, ameaças ou provocações. Viste, Princesa de mim, a comédia da inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém? Até deu lugar a discursos incendiados de dois pregadores, pastores "evangélicos" apoiantes de Trump e das posições hegemónicas de Israel (de que já te falei numa carta onde também referia o vice-presidente Pence) - um dos quais, aliás, leva no currículo (paradoxalmente?) umas diatribes clamando que os judeus que não se converterem vão para o inferno -  ... E, mais ainda, da presidencial filha Ivanka e seu marido, Jared Kushner, falando em nome dos EUA e em representação do seu presidente, assim violando a lei americana, que é, e bem, muito rigorosa em matéria de nepotismos e tentações imperiais! Talvez por isto, ou pelo disparate da própria declaração, apagou o registo oficial americano uma frase proferida pelo genro do presidente, no decurso da cerimónia e da violência israelita em Gaza: as we have seen from the protests of last month and today, those provoking violence are part of the problem and not part of the solution...  Tal espetáculo, a que assistia um Netanyahou babado, representava-se a menos de 50km do horror da repressão de manifestantes na faixa de Gaza, que reclamam o regresso à pátria e aos direitos que os sionistas violentamente continuam a roubar-lhes. Nesta perspectiva, e para um Kushner também, os palestinos são só problema, a excluir de qualquer solução...

 

    Já percebeste, Princesa que todos estes acontecimentos têm perturbado a tranquilidade da distância que habitualmente ponho entre o meu pensarsentir, com a decorrente escrita, e a agitação barulhenta de um mundo sempre confuso - e hoje cada vez mais, porque ao alvoroço noticiado se somam comentários exaltados, quase sempre facciosos e pouco, ou desonestamente, refletidos. Assim, eu também me afastei da pedagógica, e proveitosa, consideração da sabedoria, e utopia, do Tianxiá. Mas lá voltarei, consciente de que não há bela sem senão, e de que tudo é o que é - ou o que se formula - e a sua circunstância. E lembrado de ditos de Ji Zhe, professor no francês INALCO (Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais), numa resenha à 1ªedição chinesa do livro de Zhao Tinyang, publicada, em 2008, na revista La Vie des idées. Citando um filósofo de Beijing, Zhou Lian, Ji Zhe observa que Zhao põe em dúvida o individualismo metodológico que domina a filosofia ocidental e procura justificar o Estado a partir dos indivíduos considerados como seres atomizados, racionais e egoístas... daí concluindo que o seu conceito de Tianxiá seria uma poderosa alavanca do nacionalismo chinês. Já neste ano da graça de 2018, Ji Zhe ressurge mais crítico ainda: Tianxiá é um conceito ético poderoso que, no pensamento tradicional chinês, se inscreve num espaço universal e imaginário, e se distingue claramente do Estado. Tianxiá até permite criticar o atual poder chinês. Ora Zhao Tingyang critica o Ocidente e as relações internacionais, mas não a China. Permite, pois, uma aliança objetiva entre o mundo académico e o mundo político que pode ser perigosa.

 

   Vai longa esta carta, deixo para futuras o regresso ao tema. Mas desde já te lembro, Princesa de mim, que Ji Zhe vive e trabalha em Paris; Zhao Tingyang em Beijing. O nosso habitat condiciona-nos. E quiçá Zhao tenha de encontrar outros modos de tratar a China. Para terminar, deixo-te um trecho da parte II do seu livro, que trata de O Ser e o Devir da China, que traduzo:

 

   A China tem origens e uma composição complexas e mutáveis, e todavia transforma-se sem se afastar das suas origens. Zhang Guangzhi qualificava a civilização chinesa de «forma contínua». A razão da existência contínua da China explica-se pelo facto da China ser, em si mesma, uma maneira de crescer.

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua edição de maio/junho deste ano, a revista Books publica, em antevisão da saída a público, no próximo outono, do livro Quatre Essais sur la Traduction, do sinólogo suíço Jean-François Billeter, uma entrevista com este autor. Na linha das teses de outros notáveis estudiosos da China, designadamente da actualidade do seu pensamento e cultura (incluindo, claro está, a filosofia chinesa), tais como Anne Cheng e os coautores de La pensée en Chine aujourd´hui, de que já te falei, Billeter contesta o fundamentalismo da ideia tão difundida - e tão central, por exemplo, na obra do grande sinólogo francês François Julien - de que o Ocidente e a China são dois mundos, não só diferentes e alheios, mas até opostos, no plano do pensamento. Além das razões de fundo que invoca, o autor suíço considera que tal ideia de que a China seja radicalmente diferente é perniciosa, pois segue o discurso que o actual regime chinês tenta impor, deixando crer que a democracia, os direitos do homem, a ideia republicana são invenções ocidentais incompatíveis com a mentalidade chinesa... Para Billeter, o mito da alteridade chinesa, tão divulgado na Europa, surge com Voltaire e os iluministas que, curiosamente, como aliás te disse em carta anterior, o foram buscar aos missionários jesuítas, que procuravam justificar a sua política de conversão do império chinês a partir de cima e, por isso, criaram uma imagem favorável dos soberanos chineses, do seu governo, do mandarinato que governava o império, e do confucionismo que constituía a chave da abóbada do universo intelectual mandarínico.

 

   Retomarei esta reflexão nas considerações acerca do Tianxiao, que te prometi, Princesa de mim. Mas deixa-me agora só traduzir-te uns trechos da entrevista de Billeter à Books, que nos ajudam a perceber a configuração familiar da organização política, de que te falei em conversa sobre o encontro intercoreano. Na verdade, o sinólogo suíço não nega que haja profundas diferenças entre o Ocidente e a China, mas insiste em que, simplesmente, prefere postular a unidade da experiência humana e, a partir daí, procurar compreender a realidade chinesa no que ela tem de particular, do que seguir o caminho inverso. Quando damos prioridade à diferença, perdemos de vista o fundo comum, enquanto que, se partirmos deste, as diferenças surgem por si próprias... E quais serão essas diferenças? Responde:

 

   A China caracteriza-se por uma certa concepção do poder e do seu exercício, em que o político, o familiar e o religioso se confundem. Tal é inegável e é uma chave para a compreensão do país - o fio de Ariana da sua história. [Já te referia esta nota, ao falar-te, Princesa, no Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine de Bernard Brizay]. Mas, afinal, que tão certo conceito é esse?

 

   Nasceu por volta do ano mil  antes da nossa era, quando a dinastia dos Zhou derrubou a dos Shang. Criou-se então uma ordem nova, para que a vitória conseguida nos campos de batalha tivesse amanhã. O fundador da dinastia Zhou procurou transformar os aliados circunstanciais que o tinham ajudado a tomar o poder em aliados permanentes, e, para o efeito, ele e os seus conselheiros tiveram uma ideia genial: reinterpretar as relações do rei com os seus vassalos em relações familiares. Todos se tornaram irmãos, sendo o rei considerado o primogénito. Como era fácil prever que tal família aristocrática fosse, no decurso das gerações, crescendo e multiplicando-se, e que tal multiplicação acabasse por fazer perigar a estrutura familiar, os Zhou conceberam maneira dela se poder estender sem que nela se introduzisse qualquer desordem. Criaram um sistema capaz de organizar uma família de várias dezenas, ou centenas ou mesmo milhares de membros, reunindo até quatro gerações em simultâneo, sem que alguma vez pudesse haver ambiguidade sobre a ordem de precedência de sequer dois dos seus membros, fossem eles quem fossem. Forjaram uma nomenclatura capaz de identificar exactamente o lugar de cada um nessa hierarquia geral. Tal nomenclatura, que faz da organização familiar um sistema de domínio político, perpetuou-se, no essencial, até hoje. É sem dúvida uma das grandes criações do espírito humano e uma especificidade chinesa.

 

   E assim, Princesa de mim, quem hoje quiser entender o que é o poder do actual presidente Xi Jinping, terá de ter presente esta herança histórica, bem iluminada por aquele texto de Sun Yatsen, primeiro presidente da República da China, no princípio do século passado, que te citei em carta passada, e do qual hoje apenas te repito a última frase: Os países estrangeiros fizeram guerras de religião ou bateram-se pela liberdade; na China, desde há milhares de anos que perpetuamente nos batemos por esta simples questão: tornarmo-nos imperador. A consolidação e persistente reforço da autoridade de Xi Jinping parece trazer-nos mais um exemplo de tal vocação. Mas a circunstância em que o poder central (imperial?) tende a afirmar-se também poderá travar-lhe ou desviar-lhe o percurso, por força, isolada ou simultânea, de irreversíveis crises: sejam elas da economia (abrandamento, estagnação do crescimento), da sociedade (desequilíbrios regionais e desigualdades sociais), do aparelho político (surto de movimentos contestatários ou lutas intestinas no próprio PC), e ainda das relações internacionais (conflitos geoestratégicos no sudeste asiático, excedentes comerciais). É todavia opinião de conceituados politólogos como Jean-Pierre Cabestan, investigador no CNRS francês e director do departamento de ciências políticas e estudos internacionais da Universidade Baptista de Hong Kong, que se mantêm sólidos os obstáculos a qualquer mudança política, faça-se esta por calma evolução ou por ruptura: o poderio e a modernização do Partido-Estado, o carácter soviético e, portanto, eficaz do seu sistema repressivo, o inegável, prodigioso até, êxito económico de que pode vangloriar-se, a despolitização da sociedade, o seu nacionalismo e a superficialidade da sua cultura democrática, a fraqueza da sociedade civil e o conservadorismo geral das elites económicas e intelectuais, tal com a sua dependência relativamente às elites políticas do PC.

 

   Resumindo o discurso, Princesa de mim, e continuando a seguir Jean-Pierre Cabestan, a China tem mais probabilidades de evoluir para um regime ainda bastante autoritário, elitista, paternalista e imperial. O PC continuará a alternar períodos de endurecimento e de alívio político, mas recusará propor qualquer saída do sistema actual. Pelo contrário, ao instrumentalizar a sua alteridade cultural, a República Popular continuará provavelmente a constituir o principal desafio político às nossas democracias e, mais ainda, ao modo como compreendemos o político e a vida política.

 

   Num artigo intitulado L´utopie inclusive - Zhao Tingyang, publicado no suplemento Idées de Le Monde (24/03/2018), Frédéric Lemaître argumenta que, apesar do filósofo chinês Zhao Tingyang pretender que a sua filosofia nada tem a ver com a política chinesa actual, o mesmo desenvolveu o conceito milenário de tianxia, que visa pensar o mundo como um todo, suprimindo qualquer ideia de estrangeiro ou de inimigo. Na orla das realidades actuais, tal teoria política é por alguns percebida como alavanca do nacionalismo chinês. Já te-lo tinha referido, Princesa, repito-o agora para ligar o que nesta te escrevi ao que te direi em próxima carta sobre tal filosofia: tenho comigo duas versões francesas, ambas em tradução de Jean-Paul Tchang, a de Tianxia - tout sous un même ciel, de Zhao Tingyang (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018) e a de Du Ciel à la Terre - La Chine et l´Occident ( Les Arènes, Paris, 2014) selecta de correspondência entre o filósofo chinês e o francês Régis Debray. Para te abrir o apetite do tema, traduzo-te as primeiras linhas do epílogo do Adam Smith in Beijing, do falecido Giovanni Arrighi (Verso, 2007):

 

   Partimos de uma questão central: podemos ou não considerar que, apesar das suas insuficiências e dos reveses que não deixará de encontrar, a ascensão da China constitui um sinal anunciador de uma era de maior igualdade e respeito mútuo entre os povos de origem europeia e os povos de origem não europeia, tal como Smith predizia há duzentos e trinta anos? A análise proposta neste livro tende para uma resposta positiva, o que não exclui importantes reservas.

 

   Continua em próxima carta...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Em 2015, Scotty Allen, californiano de 38 anos, promissora cabeça de Silicon Valley, visitou Shenzen, cidade chinesa de entre dez a vinte milhões de habitantes que, nos anos 70, não passava de uma aldeia de pescadores. O que aquele americano, vanguardista de tecnologias de ponta, ali descobriu deixou-o estupefacto: Ora esta! Estamos lixados! - exclamou perante a imensidão de arranha-céus de vanguarda acenando com as últimas descobertas e progressos da informática e da electrónica. E acabou por concluir que a China está mesmo, mesmo, a ultrapassar o Ocidente no domínio das novas tecnologias: Chegar a Shenzen é como viajar no futuro. Há ali uma energia incrível, e toda a gente parece beneficiar da maré a subir. As pessoas de lá são espertas, inovadoras e criativas... Saberás, Princesa, que Shenzen também é hoje um dos dois maiores portos do mundo, oferecendo à região de Cantão - onde se concentra 12% do PIB chinês e a maioria da indústria exportadora do Império do Meio - uma saída para o seu comércio externo. O delta do rio das Pérolas, na região, tinha, nos finais do século XVIII, um nível de desenvolvimento superior à da outra «economia-mundo» (no conceito de Braudel) daquele tempo: a Holanda em redor de Amsterdão. E em Cantão estiveram, no século XVI, muitos portugueses negociando, alguns ficando prisioneiros. Inclusive a célebre embaixada de Tomé Pires, enviado por Dom Manuel I ao imperador da China...

 

   Sob o título de Autocracy´s Global Ascendace e assinatura de Yascha Mounk e Roberto Stefan Foa, a revista Foreign Affairs chama-nos a atenção para o facto de, no auge da 2ªGuerra Mundial, Henry Luce, fundador da revista TIME, ter arguido que os EUA tinham amassado tanta riqueza e poderio, que o século XX seria simplesmente conhecido como o "Século Americano". A sua predição revelou-se presciente : apesar de ter visto a sua supremacia ameaçada pela Alemanha Nazi e, mais tarde, pela URSS, os EUA prevaleceram sobre os seus adversários. Na viragem do milénio, a sua posição de mais poderoso e influente estado do mundo parecia indiscutível. Consequentemente, o século XX foi marcado pelo domínio, não só de um país em particular, mas também do sistema político que o mesmo ajudou a difundi : a democracia liberal. [Há pouco, ouvi Donald Trump afirmar que a UE foi inventada para prejudicar os EUA, quiçá reflexo pós prandial do presidente, logos após as visitas de Macron e Merkel à Casa Branca...]

 

   O artigo procede então à análise desse fenómeno de vocação universal, assinalando que seria tentador atribuir tal apelo à inerente bondade de tal sistema: se cidadãos indianos, italianos ou venezuelanos pareciam leais ao seu regime político, seria certamente por terem desenvolvido um profundo compromisso, quer para com os direitos individuais, quer para com a autodeterminação colectiva. E polacos e filipinos iniciariam a transição da ditadura para a democracia porque, afinal, também viriam a partilhar da universal aspiração à democracia liberal.

 

   Só que os eventos da 2ª metade do século XX também se podem interpretar de modo muito diferente. Por esse mundo fora, muitos cidadãos foram atraídos pela democracia liberal, não simplesmente em razão das normas e valores desta, mas por lhes prometer o mais conveniente modelo de êxito económico e geopolítico. Todavia, segundo os mesmos articulistas, parece virar-se o feitiço contra o feiticeiro: Como as democracias têm piorado no fomento dos padrões de vida dos seus cidadãos, movimentos populistas que descartam o liberalismo vão emergindo, de Bruxelas a Brasília, de Varsóvia a Washington. Um impressionante número de cidadãos começa a dar menos importância ao facto de viver em democracia : enquanto 2/3 dos americanos com mais de 65 anos afirmam que lhes é essencial viver em democracia, menos de 1/3 dos com menos de 35 diz o mesmo. E uma minoria crescente de cidadãos se vai declarando aberta a alternativas autoritárias : de 1995 a 2017, a faixa de franceses, alemães e italianos que se dizem favoráveis a regimes autoritários mais do que triplicou.

 

   A preocupação destes articulistas da Foreign Affairs é sobretudo resultante do facto de que, enquanto a proeminência das democracias tem empalidecido, a parte do produto económico atribuível aos estados autoritários tem rapidamente crescido. Em 1990, países considerados "não livres" pela Freedom House (a categoria mais baixa, que exclui países "parcialmente livres", como Singapura) representavam 12% do rendimento global. Hoje, respondem por 33% dele, chegando ao nível que haviam conseguido no início dos anos 1930, durante o surto do fascismo na Europa, e ultrapassando as alturas que atingiram na Guerra Fria, quando o poder soviético estava no auge... [Nota bem, Princesa, que não se comparam aqui, nas duas épocas, os mesmos países nas categorias de livres e não livres...]

 

   Consequentemente, o mundo aproxima-se agora de um marco chocante: dentro dos próximos cinco anos, a parte do rendimento global detida por países considerados "não livres" - como a China, a Rússia e a Arábia Saudita - ultrapassará a parte pertencente às democracias liberais ocidentais. No prazo de um quarto de século, as democracias liberais terão passado de uma posição de força económica sem precedentes para uma inaudita posição de fraqueza económica.

 

   Eis mais um exemplo de como continuamos a reflectir a realidade em espelhos do passado. O crescimento económico não mais é função do liberalismo dito democrático, pode verificar-se em regimes autoritários, onde coabitam um capitalismo de estado e um sector privado por aquele controlado. Tal como, nas democracias ditas liberais, a concentração da acumulação da riqueza criada em grandes grupos económicos já conseguiu mesmo contornar as legislações anti trust, quer pelo anonimato, quer pela obscuridade dos reais detentores do poder financeiro. A razão de tudo isto é que nos entregámos às promessas do êxito económico que por aí se chama sucesso (como repetia um nosso ex-primeiro e ex-presidente: "Portugal é um país de sucesso!"  - como hoje, ironicamente, verificamos), e nos esquecemos de que só pode haver desenvolvimento económico se ele for, por natureza, por vontade, por prática, por participação e por finalidade, uma melhoria social das condições de vida de todos os membros de uma comunidade e um processo de reciclagem sustentável da riqueza criada, pela responsabilização e para o benefício de todos. E as ditas democracias pretensamente liberais têm falhado tanto esse propósito, que já hoje surgem alternativas, aparentemente viáveis, à cegueira soviética e à selvajaria capitalista, se assim me posso exprimir. 

 

   E talvez não devêssemos esquecer o apelo milenar da mensagem evangélica à justiça económica e social, que hoje o papa Francisco incessantemente recorda e João Paulo II gritou, na esperança de ver o fim da ilusão soviética e da Guerra Fria abrir os olhos do Ocidente para uma possibilidade democrática livre da obsessão do triunfo do dinheiro e criadora de valor humano.

 

   Será mesmo assim tão difícil percebermos que, em economia política, há só uma prioridade cristã?

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Os primeiros parágrafos da presente carta foram redigidos bem depois de todos os outros. Acrescento-os agora, em lembrança de que os últimos são os primeiros, sobretudo a abrir um texto que, afinal e sub-repticiamente, vai discorrendo sobre a utopia ou, partindo da selecção e apontamento quotidiano de factos noticiados e declarações, res et verba, vai sonhando alternativas. Não sou nada, nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo - diz Fernando Pessoa, pela boca de Álvaro de Campos que, não esqueças, era engenheiro. A dado passo do seu Bárbaros e Iluminados (Dom Quixote, Lisboa, 2017), Jaime Nogueira Pinto fala-nos Da Utopia à Revolução: Vinham de muito longe as utopias e era velho o desejo de «uma nova humanidade», mesmo pondo de parte as visões platónicas e bíblicas de cidades e comunidades ideais, perfeitas, ou as múltiplas projecções medievais dos países da Cocanha e das Cidades do Sol.

 

   Em 1516, Sir Thomas More, chanceler de Henrique VIII de Inglaterra e depois santo da Igreja Católica de Roma, escrevera a mais famosa, a Utopia propriamente dita : o primeiro tratado político-filosófico dessa natureza nos tempos modernos, pioneiro de um género literário e político que, a partir de sociedades ideais, procurava fazer a crítica do presente e apresentar, racionalmente, uma sociedade tão perfeita quanto possível.

 

   Na afortunada ilha da Utopia eram pequenas as diferenças sociais, o trabalho era para todos e todos estudavam. Queria-se uma sociedade austera, regrada, baseada na família monogâmica, em que os cidadãos, libertos das dificuldades materiais, pudessem dedicar-se às coisas do espírito. Assim, naquela ilha perdida em vagos e remotos mares, More construía um modelo alternativo e exemplar, um ideal a considerar e não um manual pronto a ser executado.

 

   Não pretendo - tomo Deus por testemunha! - esboçar sequer o índice de qualquer tratado ou modelo de sociedade das nações ou de relações internacionais, estou, pela própria limitação das minhas capacidades, constrangido à ousadia receosa de algumas interrogações suscitadas pelos tais factos e declarações apontados. Foi o que fiz, ao longo de umas semanas, e ora te envio. Regressemos então ao dia da passada cimeira coreana.

 

   Deu-se hoje o encontro dos dois coreanos, o do norte e o do sul. Ambos vivem acima ou abaixo do paralelo 38N, fronteira ou linha de divisão entre o mesmo povo, ali riscada pela régua da trégua ou armistício da chamada Guerra da Coreia. Quero com isto metaforicamente sublinhar que o que se vai passando é mais importante e profundo do que qualquer diligência de natureza diplomática ou política: é uma tentativa de reunião de uma família, numa nação em que, tal como na China, alguém modelou o estado político pelo gregarismo familiar. Noutra carta te falarei disso. Neste momento só posso alegrar-me com a boa nova e fazer votos por que tudo continue a harmonizar-se. Vemos o mundo mudar: assim seja, para melhor! E talvez eu possa fazer votos por que se deixe a maioria do percurso deste caminho ser feita pelos dois atuais estados coreanos... Trump já começou a reclamar louros, mas a desnuclearização da península coreana - que terá, certamente como contrapartida, a indispensável "desamericanização" militar da Coreia do Sul - deveria ser negociada entre os dois governos indígenas, pelo que os EUA só se deveriam limitar a aceder ao pedido que lhes for feito pelo aliado de Seul. É fundamental respeitar-se a dignidade dos povos, sobretudo a dos que já tão castigados foram. Aliás, tal propósito parece-me fundamental na construção de uma via credível e praticável por todos, a caminho de uma nova cultura da paz. Os EUA deveriam remeter-se ao papel de garantes da aliança com a Coreia do Sul (e com o Japão), respeitando os compromissos que há muito, assumiram. Não têm de se arvorar em árbitros de uma região onde, todos sabemos, a China e a Rússia são igualmente estados soberanos... Deixem, tanto quanto possível, a Coreia aos coreanos, e a vizinhança aos vizinhos.

 

   Três dias depois de te ter escrito isto, fala-se em atribuir o Nobel da Paz a Trump. Por mim tudo bem, há muitos anos que penso não ser qualquer prémio Nobel uma "estrelinha do norte a alumiar o meu caminho"... Mas haja, não só decência, mas tento, bom senso... Republicanos made in USA logo alvitraram tal hipótese, que se repercutiu e ganhou eco. Já a viúva do ex-presidente sul coreano Kim Dae-jung, quando enviou ao actual, Moon Jae-in, uma mensagem de felicitações, disse-lhe que ele merecia o Nobel, que, aliás fora também dado ao seu defunto marido... Ao que este artífice de paz, a quem também chamam o Mandela coreano, pela sua resistência à ditadura e luta cívica por democracia autêntica e livre, respondeu: "Dêem o Nobel ao Trump e ao presidente da Coreia do Norte... desde que assim a paz se faça!"

 

   Quatro dias depois, tiro o chapéu, uma vez mais, ao presidente da Coreia do Sul: diz ele que a monitorização da desnuclearização da Coreia do Norte deverá ser confiada à ONU... No dia em que Trump aprova os argumentos de Netanyahu sobre o desrespeito do acordo nuclear pelo Irão, para apoiar a sua própria decisão (?) de retirar os EUA do mesmo, tal alvitre ganha ainda mais sentido. Tal como o estado de direito só existe se for garantida a separação dos poderes político e judicial, assim também a pacificidade das relações entre nações só poderá ser assegurada pela independência dos árbitros de diferendos e conflitos e dos monitores do bom cumprimento de decisões e acordos.  E que a virtude pessoal de despojamento de Moon Jae-in, não nos faça esquecer que, já para muitos, é difícil aceitar a actual composição do Conselho de Segurança da ONU, guardando lugares cativos para os seus membros permanentes e assegurando direitos de veto só para alguns : não deveria antes tal órgão ser simplesmente eleito periodicamente por maioria de votos, em listas presentes à Assembleia Geral, de todos os estados membros, conformando-se ainda o direito de veto à maioria absoluta (+de 50%) dos votos dos membros, todos eleitos, do Conselho de Segurança? Por muito mais debates e negociações que tal sistema  viesse a exigir, não só seria mais equitativo o resultado, pondo termo à situação de claro privilégio e prepotência das maiores potências, como talvez fortalecesse a consciência da responsabilidade internacional. E é nesta responsabilização de cada nação face às outras, no incontornável concerto de todas, que penso agora. Sem esperar uma qualquer maior eficácia das medidas de intervenção da ONU: quanto a estas, não me esqueço de que o direito internacional público não dispõe, mesmo no regime hoje vigente na ONU, do poder coercivo necessário a fazer respeitar decisões, decretos ou sentenças. Bastará referir - para simples entendimento da questão - a impunidade com que o estado de Israel continua a ser uma potência colonial na Palestina, agredindo populações autóctones e ocupando territórios que não lhe pertencem nem lhe foram confiados (a título de protectorado ou outro), fazendo tábua rasa de acordos firmados, tudo isso fundamentado, tão só, no facto da sua vitória militar de 1967. Incluindo a declaração de Jerusalém como capital de Israel, em desrespeito da divisão da cidade (leste/oeste) como condição da partilha da Palestina e reconhecimento´internacional de um estado de Israel há setenta anos atrás. Eu mesmo, lamentando e repudiando as odiosas declarações antijudaicas do presidente Abbas, sobretudo ao insinuar que o holocausto resultou de uma reacção à agiotagem gananciosa dos judeus - das quais, aliás, o líder palestiniano já se penitenciou - sinto-me na obrigação moral de lembrar que o espírito e a política sionista dos governantes do actual estado de Israel não deixam de evocar as perseguições nazis e outras. Faço-o sem qualquer gosto, antes com muita amargura. Já poderei tremulamente sorrir, a esconder o susto, ao recordar-me de que o presidente Trump, no passado outono dizia cobras e lagartos do presidente norte coreano, e nesta primavera já afirmava que Kim Jong-un é "pessoa muito aberta e muito honorável". (Sic.)

 

    Lembra-te, Princesa, do que há dias disse o presidente Rohani, do Irão, sobre o possível acordo coreano de que te falo acima: Problema é não se poder confiar nos EUA... Na verdade, o que justifica a retirada americana do acordo firmado com o Irão, que compromete os EUA que o assinaram? No dia em que Trump vai anunciá-la, a Casa Branca também noticia que, afinal, o presidente americano não irá à inauguração da nova embaixada dos EUA em Jerusalém. Não percebo porque é que tantos jornalistas não gostam do Donald : ele está sempre a dar-lhes novidades... Mais certinho é o Netanyahou: hoje mesmo, quando Trump retira os EUA do acordo iraniano, dando também razão ao primeiro israelita que acusa o Irão de ser terrível agressor e terrorista, um perigo para a paz, Israel chuta uns mísseis para cima de posições iranianas na Síria, as quais, antes, durante ou depois, também atiram com uns às forças israelitas estacionadas no Golan, território sírio que estas ocuparam em 1987. Pouco importa quem disparou primeiro, ou se foram milícias chitas sustentadas pelo Irão. Antes pergunto se não será possível que a comunidade internacional, através das suas próprias instituições e regras acoradas, intervenha para solucionar o conflito. Porque a verdade é que nem Irão, directamente ou por interpostas milícias, nem Israel, como ocupante, têm de estar no Golan. Tampouco haveria guerra na Síria, com matança de tantos inocentes indefesos, se nenhuma potência estrangeira fornecesse armamento.

 

   E, já de seguida, Trump volta a embandeirar em arco com os três americanos (coreanos) que Kim Jong-un libertou e Pompeo traz no seu avião de regresso aos EUA. Dois deles trabalhavam para a Pyongyang University of Science and Technology  e foram detidos em 2017. O outro era um pastor cristão, agricultor e negociante entre Coreia do Norte e China, numa zona económica especial, preso em 2016. De seus nomes: Kim Hak-song, Kim Sang-duk (ou Tony Kim) e Kim Dong-chul. Que tipo de contactos teriam e que informações fariam circular, não sabemos e de nada serve imaginar. Mas é certo que o governo Obama, ao contrário do que o seu sucessor se apressou a proclamar agora, não terá falhado na procura da libertação destes "wonderful gentlemen" (palavras de Trump), um tendo sido preso já em finais do mandato dele, os outros dois já durante o "reinado" do imperador Donald. Mas todo esse floreado nos permite suspeitar de que Kim Jong-un estará a jogar na vaidade americana para conseguir alguma vantagem, ou que essa mesma jogada já fora premeditada como garantia de a Coreia do Norte conseguir um estatuto de parceiro igual nas negociações com os EUA... Vai tudo dar ao mesmo, e também neste momento político-diplomático China e Coreia do Norte tiveram outra cimeira... O Oriente fia mais fino do que Trump, sabes? 

 

   No tocante ao Irão, está certamente por detrás da atitude americana esse senhor John Bolton, de quem te falei em carta anterior. Como esteve por detrás de G .W. Bush, na disparatada decisão sobre o Iraque. Mas refiro-te todos estes factos, não por achá-los muito interessantes, mas porque, simplesmente, seja qual for a sua confirmação ou evolução e, mais ainda, independentemente das suas consequências - que nenhum de nós, Princesa de mim, deseja gravosas seja para quem for - eles talvez possam fazer-nos refletir um pouco mais, com alguma distância e orientação valorativa, na pertinência dos nossos pensamentos, actos e omissões. Sobretudo, enquanto filhos deste velho continente, na necessidade de nos reencontrarmos na comunhão da cristandade constitutiva e das luzes emancipadoras, e não hesitarmos em enfrentar o materialismo negociante nem o imediatismo mediático. União europeia na firmeza, no respeito pela igualdade dos povos e dignidade dos Estados, independentemente do seu poderio ou da sua bazófia, abertura ao diálogo global que perspective e condicione a construção de um mundo de paz, cada vez mais livre de prepotências e chantagens. Exemplo : o princípio iraniano que, em latim clássico, se diz Delenda est Israel, é certamente inaceitável, e deverá ser retirado pelos seus próprios líderes do seu programa. Mas acusar o Irão, contrariamente ao parecer da própria agência monitora internacionalmente aceite, de desrespeito do acordo nuclear acordado, e permitindo que Israel persista em provocações e mentiras, progrida na ocupação ilegítima e ilegal de territórios palestinianos, agrida manifestantes em Gaza, etc., etc., não será propriamente o melhor começo para uma persuasão dos dirigentes de Teerão a colaborar num processo de paz. Por outro lado, talvez não fosse despiciendo reflectir sobre de que modo, e com que consequências, o conceito chinês de tiangxia se poderá afirmar como alternativa, no concerto das nações, a proclamações de índole «America first!»    

 

   Eis aqui muito para pensarsentir.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira