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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ANTOLOGIA


EFEITO DE UM SAKÉ QUENTE…
por Camilo Martins de Oliveira


Camilo Maria esteve no Japão, em duas estadias relativamente longas, mais de dez anos antes de mim. Apanhou um Japão esforçado, a tentar redimir-se do que simultaneamente sentia como o erro e a culpa da guerra que, ao gosto napoleónico (?), as elites militares da era Showa tinham insistido em chamar "pan-asiática". E, mais ainda, um povo que, por educação e tradição, valorizava a comunhão com a sua natureza e os seus antepassados. E, por esse sentimento profundo de pertença e dívida (que é motivo de dádiva), conseguia encher a consciência de brio, isto é, da vontade de bem fazer - ou fazer bem - o que nos é confiado. Reside, neste fundo solidário da alma, a receita secreta, única, de tantos êxitos do Japão. E, no apagamento possível (?) dessa consciência do dever solidário (que é dádiva), na eventualidade de se trocar a comunhão com o nosso sentido de nós e dos outros (que é a responsabilidade), de se "substituir o valor pelo preço", talvez se venha a desenhar a perda dos frutos, pois não há frutos sem árvore. O Japão da era Meiji (1867-1912) é uma força nova no concerto das nações, sai de dois séculos e meio de relações cortadas com o mundo para um deslumbramento na emulação das potências ocidentais... E consegue, logo em 1905, ser a primeira potência asiática a vencer, em guerra, uma potência europeia (o Império Russo). "Moderniza-se", mas rasga a alma. Entre os que insistem na necessidade de ser tão "desenvolvidos" e fortes como os "maiores" (ocidentais) e proceder em tudo como eles (inclusive em pretensões colonizadoras de outros povos), e os que defendem a preservação da alma e do modo nipónico, está o drama de muitos intelectuais e populares que, intuindo a duração e a demora, procuram um equilíbrio naquele momento impossível. A "modernização" comanda a industrialização e urbanização de territórios e pessoas, o enquadramento social e ético tradicional vai perder-se...  Finalmente, goradas as expectativas "liberais" da era Taisho (1912-1923), chegará a hora fatídica em que forças reunidas num "complexo militaro-industrial" (que os EUA voltariam a reconhecer, no seu próprio caso, depois da tal guerra), poderão desencadear a barbárie que sabemos. Como Camilo Maria observou, numa das suas cartas à Princesa de..., é comovente e perturbante essa contradição (conflito?) da alma japonesa, entre o "giri" e o "ninjo"… A novela de "O médico e o monstro", de Stevenson, é pós-iluminista e romântica, coloca tudo no âmbito dos sentimentos pessoais, como se a consciência fosse um universo individualista. A consciência japonesa, como aqui falamos dela, está inicialmente dividida, não entre o mal e o bem - como nós moralmente os separamos - mas entre mim e a minha circunstância (terá o grande Ortega sonhado com isto? Ele me perdoe!). Por convenção tradicional, isto é, por uma sistematização da educação que, na oscilação das épocas e dos regimes - e imponentemente desde o século XVII - sempre procurou normalizar as gentes, as classes e comportamentos delas, o "giri" foi condicionante. Camilo Maria definiu-o - e bem - como sendo "a obrigação de se comportar, para com os seus círculos familiares e sociais, de acordo com as normas de reciprocidade, fidelidade e obediência, seja qual for o sacrifício exigido"... Para mim, é admirável, mais do que a obrigação do "giri", o milagre da sobrevivência do "ninjo" que tão bem se expressa nas obras dos artífices e artesãos japoneses. Volto a Camilo Maria: "A arte, o "design" japonês, minha Princesa de mim, distinguem-se por uma intuição da assimetria. Na natureza, tudo é como é, e a arte não tem de a violentar. O olhar do artista contempla, não embeleza. Tenta perceber, no gesto com que desenha ou molda, a essência mutante e permanente das coisas. O Verbo que criou o mundo não é lógico. O logos é inicial, criador e sempre amante. A arte é um caminho de conversão. A obra de arte é o fruto da transformação do amador na cousa amada. Nós, os ocidentais, não resistimos à tentação edénica da pressa em explicar tudo. Por isso reduzimos tudo à nossa imagem e semelhança.  Tenho visitado museus e exposições... Mas nada me dá o gosto, sentido na alma, tão livre e enorme, como o de olhar para uma peça rudimentar de cerâmica, bambu ou pano, na tenda de um artesão de Kyoto. Esses homens e mulheres acolhem-me sem pressa nem objetivo, apenas com um sorriso tão discreto que só pode estar na alma, e comigo contemplam o misterioso encontro de mãos humanas com a natureza. E é no reconhecimento desse encontro que reside a alegria e o valor sem preço daquela obra. Só um silêncio comungado pode celebrar esse entendimento íntimo. Assim também te sinto no silêncio infinitamente secreto do coração, quando à noite rezo e dou graças a Deus por sentir tão bem tantas coisas que não sei explicar. Aconchego-me-te neste mistério". Numa folha solta, talvez perdida de um maço de apontamentos sobre o gosto japonês, encontrei este manuscrito do Marquês de Sarolea, onde se fala de um célebre restaurante tradicional de Kyoto, o Waranji-ya, onde também já tive o prazer de um delicado jantar: "Se me pusesse agora a escrever sobre estética japonesa, parece-me que anteporia às minhas considerações um trecho do "Iniei Raisan" (o elogio da sombra) do Junichiro Tanizaki. Ocorreu-me há pouco, enquanto saboreava, em cerâmica do século XVIII, o meu jantar no Waranji-ya. Reza assim: "Quando substituíram a lâmpada elétrica em forma de lanterna por uma candeia ainda mais escura, e pude então observar as travessas e as tijelas à luz vacilante da chama, descobri, nos reflexos das lacas, profundos e espessos como os de um lago, um encanto novo e todo diferente. E soube que se os nossos antepassados tinham descoberto esse unto que tem por nome "laca" e se tinham deixado enfeitiçar pelas cores e o lustro dos utensílios dele revestidos, isso não fora fruto do acaso..." Inspirado, pedi também que, na minha sala, substituíssem a lanterna elétrica pela candeia antiga. E ganhei uma experiência estética nova, até na contemplação da gravura ao gosto chinês, do vaso de barro e do arranjo de flores dispostos no "toko no ma". E lembrei-me do Georges de la Tour, do Menino que alumia, com uma vela segura por sua mão, o S. José carpinteiro que prepara o madeiro da crucifixão... Será, quiçá, efeito do "saké" quente que me ajuda a abrir memórias e, por vezes, as confunde. Sorrio, pensando nessa verdade que Bernanos tão bem disse em "La Joie": Tudo é graça!"


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 16.04.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


UM INESPERADO BARROCO…
por Camilo Martins de Oliveira


"Ma Petite Princesse,
À ton âge, tu t’imagines, encore et usque ad pulverem, ma Petite Princesse... É simples e enternecedora esta verdade: a melhor expressão de um amor maior é um diminuitivo! A intimidade do que se sente no fundo do coração desconhece a grandiloquência. Na memória de um crente - e de tantos incréus! - não há lembrança mais doce do que a do Deus Menino. Nem oração em boca de mulher poderá ser mais cheia de graça do que a da rendição de Maria ao Menino soprado no seu ventre... A fundação da nossa religião é a ternura carinhosa de Deus, que somos convidados a partilhar. O amor é manso, debruça-se sobre o outro, não violenta nem conquista, apenas acolhe e é acolhido. Os japoneses têm uma palavra curiosa: "amae". Significará a vocação da dependência, ou o desejo inato dela. Tem a mesma raiz etimológica de "amai", que significa doce, doçura. Há quem pretenda - como o psiquiatra Tadeo Doi - que essa vocação para a dependência é como um desejo de regresso da criança à união inicial com sua mãe, e que se traduz por uma expressão que evoca a nostalgia de uma intimidade tornada sensível, após o nascimento, pela doçura do leite materno. "Amae" será então um desejo vindo da antiguidade da infância, a recusa do desamparo que, afinal, mais não é do que um modo da orfandade. A forma verbal de "amae" é "amaeru", que poderemos traduzir por desejar depender do amor dos outros. O que S. Paulo diz do amor: que "é paciente, é amável (…) tudo encobre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" - eis o que o japonês menino (mesmo já crescido e a diminuir para velho) deseja encontrar. Nem que tenha de se servir de truques ou manhas infantis: curiosamente, o mesmo verbo "amaeru" também quer dizer "ser mimado, portar-se como um bebé"... Para o Doutor Doi, o conceito de "amae" é chave para o entendimento da confrontação de "giri" e "ninjo" que, aliás, é o tema fulcral do romance "A Bailarina", de Ôgai Mori (1862-1922), um dos textos fundadores da moderna literatura japonesa. Conta-nos a história do grande amor do autor (médico militar de alta patente e pertencente à elite do império Meiji) e de uma bailarina que conheceu na Alemanha, onde estudava a cultura e civilização do Ocidente. Convidou-a a vir ter com ele ao Japão, para se casarem, mas por pressão familiar e social obrigou-se, em consciência, a renunciar a esse compromisso do coração. Prevaleceu o "giri", a obrigação de se comportar, para com os seus círculos familiares e sociais, de acordo com normas de reciprocidade, fidelidade e obediência, seja qual for o sacrifício exigido. Explicam-se assim comportamentos como os dos pilotos suicidas ("kamikaze" ou ventos dos espíritos), ou os suicídios rituais ("seppuku" ou "harakiri") pela morte, derrota ou vergonha do senhor ou mestre. Ou ainda, a troca obrigatória e, muitas vezes, normalizada e até ritualizada de favores - que nós ocidentais tendencialmente consideramos corrupção... O "ninjo" que, neste caso, saiu vencido, é esse universo de sentimentos de simpatia, compaixão, afeto ou submissão do coração - o amor humano que, diria Tadeo Doi, nasce nessa dependência inicial da criança e da mãe e se vai reproduzindo com amigos, amantes, família, no decurso das vidas. O amor é um menino pequenino que nos enche o coração. Voltei hoje ao Byodoin, onde já não ia há mais de uma década. Fica um pouco afastado de Kyoto, mas é talvez a obra-prima da arquitetura do budismo da Terra Pura no período Heian (794 a 1160 ou 85). Foi Yorimichi Fujiwara - na altura "kampaku", ou 1º Conselheiro do imperador - que iniciou, em 1052 a construção do templo no sítio de uma casa de recreio de seu pai, prática aliás repetida por outros, inclusive pelos "shogun" Ashikaga, no séc. XV/XVI, com a edificação ou transformação em templos dos pavilhões "Ginkakuji" e "Kinkakuji" (prateado e dourado). Mas falo-te no Byodoin, por essa orientação do budismo Mahayana (da Porta Larga) que se apelidava de Terra Pura, e foi adotada pelas seitas Shingon e Tendai. O Buda aí venerado e invocado é o Amida ou Amitaba, cuja estátua está neste templo guardada no "shumidan" do pavilhão da Fénix, e tem 3 metros de altura, sentado. Todo ele é de madeira laqueada a ouro, e o rosto pacífico e quase feminino ilumina-se diariamente, a hora variável conforme a incidência do sol, que penetra por uma larga escotilha, aberta na parede sul. O "milagre" da iluminação de Amitaba Tatagata é visível, de fora do pavilhão, para quem estiver na margem sul do lago artificial aos pés do edifício do templo cujo desenho evoca uma fénix pousada, abrindo, extensas, as suas asas... O culto de Amida, como tantos outros votos e devoções na prática budista, não é uniforme: pode ficar-se pela contemplação da pureza que resultará da libertação das coisas mundanas, ou poderá crer e esperar no salvador que receberá todos na sua Terra Pura (e esta foi a crença, iniciada na China, que predominou na era Heian), ou ainda como uma salvação que libertará e acolherá todos mesmo os mais pecadores. No Byodoin, em sala anexa ao "shumidan", somos envolvidos por representações esculpidas, ao gosto, diria eu, do barroco europeu (este, cinco séculos depois), de apsaras, seres celestes que, como os anjos da nossa tradição, evoluem sobre nuvens, tangendo, percutindo, soprando vários instrumentos de sonora - e, esperemos, melodiosa - música. Rodeiam o Buda, e exultam com as suas virtudes. Por isso, haverá quem lhes chame bobisatvas. Santos, diríamos nós, que chegaram ao Nirvana. Tudo isto é "kawai" (japonês), "cute" (inglês), "mignon" (francês), precioso - dirão os meridionais - como um Menino... Por isso me despeço de Vossa Alteza, minha Princesa de mim, com esta diminuta banalidade "brusseler": au revoir, "chouke" (mon petit choux)."  Traduzo: até à vista, minha couvezinha, diria Camilo Maria em português.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 12.04.13 neste blogue.

ANTOLOGIA


O DESLUMBRANTE "MOMIJI"
por Camilo Martins de Oliveira


Minha Princesa de mim:

Está um outono lindo, sinto-me com alma japonesa. O "ryokan" em que me alojaram nesta visita a Kyoto fica à beirinha de um ribeiro de águas claras, na parte oriental da cidade, no sopé do Higashiyama, em terra de arvoredo e águas, propícia a longos passeios a pé até ao recolhimento de templos budistas, com os seus jardins "zen" ou a surpresa de verduras mansas. Mas, nesta altura do ano, deslumbram-me os "momiji"! É inigualável o esplendor colorido do envelhecimento das folhas dos bordos ("érables" em francês, no texto), visto do patamar do Kyomizu, como se o anúncio do Inverno que se aproxima, branco e frio, fosse já um aleluia à primavera, ao renascimento depois do silêncio (como o silêncio do abismo inicial sobre o qual pairava o Espírito)... Penso que, na alma do japonês, todos, todos, ciclicamente recolhemos à mansão dos mortos, onde nos reunimos com os que foram a nossa vida antes de nós... E ressurgimos na comunhão de todos connosco e com a natureza a que chamamos universo... Há aí um sentimento que - não me custa imaginá-lo - Francisco Xavier "compaixonou", ao ponto de afirmar que nenhum outro povo do Oriente seria tão fecunda seara para a boa nova do Senhor Jesus... Ocorre-me, minha Princesa de mim, muitas vezes, pensar como o bom louco desse missionário ainda tão venerado na longínqua Ásia, talvez, no fundo da sua alma consagrada à missão do seu Deus, tivesse, em verdade consigo, preferido a alegria do encontro místico - atingível, mas intangível e inefável - à afirmação dogmática - escolástica, argumentista, apologética - de princípios quiçá inteligíveis e, portanto, pelo menos discutíveis na moldura intelectual de uma cultura cujas referências "lógicas" são estruturalmente estranhas a outros. O "Ocidente" tem cometido o erro - que, não devo ocultá-lo, é fruto também duma crença de benquerer - de pretender transmitir e, infelizmente, muitas vezes, impor um encontro com a verdade formatado pelas suas próprias coordenadas culturais. É certamente bom que cada povo ou sociedade ou civilização. procure identificar-se com as raízes e parâmetros da sua cultura, isto é, do como a sua história o construiu. Pois só na consciência de nós nos assumimos como sendo. Mas somos sempre, sempre, ontologicamente, seres em relação. Com Deus, o mundo, os outros. O nosso próprio faz a nossa diferença. O reconhecimento desta deve levar-nos ao reconhecimento dos outros. Para que possamos entender como partilhar o que nos é querido. A essência do amor é a comunicação. Guardo no coração, profundamente, essa intuição judia de família agnóstica que, lenta e refletidamente, se aproximou da Igreja Católica, sem nunca ter, aos olhos dos homens - e certamente por magnífica (e quando digo magnífica penso no "magnificat" de Maria como aceitação de uma vontade acima das nossas pretenções) iluminação - escreveu: "Antes de tudo mais, Deus é amor. Antes de tudo Deus ama-se a si mesmo. Esse amor, essa amizade em Deus é a Trindade..." E ainda: "O verdadeiro Deus é o Deus concebido como todo poderoso, mas como não comandando em toda a parte onde tem poder; porque Ele está nos céus, ou então, aqui em baixo, no segredo". Tenho deambulado pelo acolhimento desta natureza que, diria a Simone Weil, respira a beleza que nos afaga a alma carnal. Passeando, sinto-te muito neste coração que habitas e dou comigo a murmurar (em português, vê tu bem!) uns versos que o nosso Alberto recitava: "teu coração dentro do meu descansa / teu coração desde que lá entrou / e tem tão bom dormir essa criança /deitou-se, ali caiu, ali ficou"... Dizia o Alberto que o autor, António Nobre, era o poeta do coração português. Faz-me isto pensar em como a minha lembrança de ti é esta tua presença no meu peito. De ti, não recordo nem prazeres nem zangas. Tampouco te imagino. Estás aqui, incessantemente presente, e nós sempre à espera um do outro. Nem a proximidade nos junta, nem nos separa a distância. Entrámo-nos, e o nosso futuro é esta presença que espera estar adiante. Connosco estamos fora do tempo que dura, o nosso encontro pertence ao tempo eterno. Quando, há mais de uma década, vim a Kyoto pela primeira vez, foi em meados de agosto, na despedida do Verão. Para o "Dai-monji", vos fogos que alumiam a cidade, em que se apagaram luzes e "néons" publicitários, para que surjam os "incêndios" provocados nas encostas de cinco montes do Higashiyama. Chamam-lhes "Lumes de Escolta", luzes flamejantes acesas para o acompanhamento das almas que regressam aos espaços celestes. Yasunari Kawabata - grande e trágico romancista, nascido ainda na era Meiji, e por isso tão sensível ao que, para muitos dos seus contemporâneos, foi a "estrangeirização" do Japão - diz-nos no seu "Kyoto": "As tintas das montanhas abrasadas pelos ´Lumes da Escolta´, essas, lá de longe, das trevas do céu, despertavam, no coração de Chieko, os tons do Outono nascente". Apesar do choque de uma qualquer inculturação, permanecem verdades mais sentidas do que eloquentemente dizíveis. Serão essas, talvez, as universais, ininformáveis. As que não se transmitem por argumentação, nem, através da tortura, por imposição. Só pelo reconhecimento de que Deus habita o coração dos homens, criados à sua imagem e semelhança. O nosso tempo escatológico - sujeito a dramatismos milenaristas - parece opor-se à serenidade do tempo circular destes orientais. Mas é facto que, ano após ano, a nossa liturgia católica vai celebrando, não a nossa pressa ocidental de acabar depressa o máximo possível, mas a contemplação da história de Deus entre os homens, como esgotamento do tempo-duração e esperança de eternidade. Aconchego-me-te. E contigo me deslumbro na contemplação dos "momiji". Dizem-nos, no seu esplendor cromático, cheio de sol intrínseco, que o Outono da vida será uma Primavera, depois da morte aparente do Inverno. À sua maneira, budistas e shintoístas, os japoneses também comungam com os santos. Deus é grande». Hesitei em traduzir e transcrever esta carta de Camilo Maria. Convenceu-me a sinceridade do Marquês de Sarolea e sua atualidade, décadas depois, num mundo que se interroga (ou devia) sobre os valores da sua "globalização".        


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 05.04.13 neste blogue.

 

ANTOLOGIA

  


A MAGIA DO PRESÉPIO
por Camilo Martins de Oliveira


Para nos apercebermos bem das origens populares (que se encontram em textos apócrifos ou em múltiplas tradições escritas ou orais, por vezes de difícil identificação) da maioria da literatura e iconografia que a devoção cristã foi produzindo sobre temas da infância de Cristo, bastará olharmos para representações de cenas ou episódios da vida da família de Jesus, e dele mesmo, antes do momento entre os doutores, este diretamente inspirado no relato do Evangelho de S. Lucas. Vejamos:


1. As representações e histórias de S. Joaquim e Santa Ana, pais da Virgem Maria, o nascimento e a educação desta (lembramo-nos da enternecedora cena de Santa Ana ensinando Maria a ler), a sua apresentação no templo e o seu casamento com S. José, tudo isto não está nos textos canónicos e foi retomado por Tiago Voragino de outras fontes, entre as quais está sempre o Proto Evangelho de S.Tiago.


2. S. José é referido nos evangelhos de S. Lucas e S. Mateus, surge em episódios do Pseudo Mateus e do Proto de S. Tiago, mas ganha uma biografia no apócrifo grego do séc. V "A História de José, o Carpinteiro"... É cheia de antevisão da cruz a cena em que Georges Latour (numa pintura de 1640 que está no Louvre) representa S. José furando uma peça de madeira à luz de uma vela segura nas mãos do Menino Jesus.


3. As representações da Anunciação inspiram-se em S. Lucas, mas também no Proto pela Legenda Áurea, enquanto que as imagens da Senhora do Ó, ou Virgem grávida, correspondem a visões naturalistas da piedade popular, e surgem, ainda que raras,  por toda a cristandade até ao séc. XVI.


4. As representações do presépio (que significa curral, tal como crèche quer dizer manjedoura) seguem o evangelho de S. Lucas, mas sobretudo replicam, como temos visto, as personagens e cenas do Proto e do Pseudo, tal como são traduzidas na obra do Voragino. Se a adoração dos pastores é claramente inspirada em Lucas, já todos os evangelistas omitem o episódio da parteira Salomé, que assiste ao livramento de Maria e confirma - como S. Tomé o Cristo vivo depois da Ressurreição - a virgindade ante et post partum. Esta cena vem do Proto e do Pseudo até à Legenda, como ilustração e confirmação de um dogma pela piedade popular.


5. A jornada e a adoração dos magos têm fonte no Evangelho de S. Mateus. Mas muitos pormenores da extensa iconografia destes episódios foram inspirados, sempre por via da compilação feita por Frei Tiago Voragino, nos apócrifos já referidos e em muitas lendas e narrativas sírias, arménias e gregas.


A Incarnação ou Natividade do Senhor surge na tradição popular da cristandade (vox populi, vox Dei) como a penetração de Deus na totalidade do cosmos, através da sua realização na carne e na história do ser humano. Os deuses pagãos e as forças animistas são projeções de medos e ansiedades, defeitos e virtudes, pedidos de socorro, turbulências do coração humano. O Natal é o momento em que o Criador das cinco categorias de seres, de que fala Voragino, se revela, aquém do Outro absoluto que os monoteísmos descobriram, como Aquele que é tudo em todos. Já O vimos manifestado pela terceira categoria, a dos animais (o boi e o burro), e pela primeira, a dos corpos materiais (opacos, translúcidos e transparentes, e celestes ou luminosos). Mas diz-nos ainda frei Tiago que "a Natividade foi mostrada e manifestada pelas criaturas que possuem a existência e a vida, como as plantas e as árvores. Nessa noite, como testemunha Bartolomeu na sua compilação, as vinhas de Engadi, que produzem o bálsamo, floriram, produziram frutos, e deram-nos o licor balsâmico"...


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 07.12.12 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


SEXTA-FEIRA MAIOR…
por Camilo Martins de Oliveira


"Sinto hoje muito, minha Princesa de mim, esta partilha, íntima e secreta, do meu diálogo interior contigo. É quase hora de tércia, aqui em Nagasaki, madruga aí esta Sexta-Feira Santa. Diz-nos a tradição evangélica que à terceira hora morreu Jesus. E propõe-nos a liturgia católica das horas o capítulo 53 do livro judeu do profeta Isaías: "Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. E nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva. Pelas suas chagas fomos curados. Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes; cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as culpas de todos nós. Maltratado, resignou-se e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca". Um dos primeiros livros sobre os bombardeamentos atómicos cuja publicação, no Japão, foi autorizada pelo ocupante americano intitula-se "Kono Ko o Nokoshite" («Ao Deixar Estas Crianças»). Estas eram os filhos, uma e um, que lhe dera a mulher que a terrível bomba matara. A despedida anunciada, agora já só ele a podia dizer, sabendo bem que as radiações que o tinham atingido o matariam. Ao fim de quase seis anos, em 1951... Receberia a bênção papal, a visita de Helen Keller e do imperador Hiohito, em maio de 1949, já depois de ter publicado "Nagasaki no Kane" (Os Sinos de Nagasaki), que seria aproveitado pelo cinema. Sobre isto, como sobre a visita do imperador Showa (Hirohito), inibe-me um pudor quase religioso de dizer seja o que for. Mas deixo-te, Princesa da minha confidência, uma interrogação: oportunismo ou arrependimento? O Professor Takeshi Nagai era um respeitado médico radiologista e um cientista investigador que, já antes da explosão atómica, se expusera, por condição e dever de ofício, a raios X... Esse homem brilhante e considerado morre, vítima da força destruidora do átomo, aos 43 anos. É japonês, um dos muitos que, em Nagasaki, são cristãos católicos. Será, pelo misterioso lado bom dessa péssima ironia do destino - que tantos inocentes castiga - um dos inspiradores do profundo sentimento pacifista que crescentemente se irá apoderando da alma japonesa. De budistas e shintoístas, dos cristãos que são, quiçá,1% da população… A humilhação do Império do Sol Nascente tinha gerado, na circunstância condicionante da ocupação americana, a resignação. Mas a resignação não é um exercício de liberdade. Não é nobre. Tem propensão para a manha, para o "peut êt’e bien qu’oui,peut êt’e bien que non" dos "auvegnat"... ou o albiónico "wait and see"... A nobreza dos homens exige-lhes, não o oportunismo míope do bem-haver imediato, mas um esforço de entendimento do que somos, donde vimos, para onde vamos. A revolta - que tanto opomos à resignação - é certamente compreensível, muitas vezes legítima e até necessária. Mesmo S. Tomás de Aquino assim a entendeu. Mas pode sofrer de um excesso de propensão à violência destruidora. Daí a importância, para as nossas vidas, da harmonia, não como receita (a harmonia não se impõe), mas como procura. Como na música de Haydn, de que tanto gosto. Até nas "Sete palavras de Cristo na Cruz". Procurar a harmonia é abrir uma janela à angústia. Hoje, em Sexta-Feira Santa, recolhido na catedral de Urakami, em Nagasaki, cuja construção foi iniciada em 1895, na era Meiji, e terminada  -- qual obra das nossas catedrais medievais  - em 1925, para ser destruída pela bomba de 1945, e reconstruída em 1959, recordo essa abertura mística de Takeshi Nagai, cientista japonês: "Não terá sido Nagasaki a vítima escolhida, o cordeiro sem mancha, sacrificado numa fogueira total, num altar de sacrifício, respondendo pelos pecados de todas as nações durante a 2ª Guerra Mundial?". Ocorrem-me esses versículos do Apocalipse de S. João: "Digno é o Cordeiro sacrificado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor!..." Mas que sabemos nós, Princesa de mim, dos misteriosos desígnios de Deus? Continuaremos a inventar milagres que O domestiquem e reduzam ao temor do nosso entendimento? Ou bradaremos aos céus, com gestos feios, que Ele não existe e o seu conceito vago apenas nos atormenta? Penso, neste dia, em Nagasaki, lembrando as frustrações de esforços missionários, os silêncios e desvios sincretistas de igrejas remotas, que foram sobrevivendo na fé exilada mas fiel dos seus santos. Sinto-me em comunhão com eles, talvez mais do que com tantos outros que, pela pressão de "lobbies beatos" por cúrias romanas foram sendo canonizados... Se Deus existe, são dele, e dele só, o poder e a glória, o segredo do absurdo e da redenção... E no coração de Deus habitarão todos os povos e religiões do mundo. Dou-lhe hoje graças por acreditar que Ele se me revelou em Jesus Cristo. Na contemplação do Deus humanizado e crucificado comungo o mistério da cosmogénese (diria Teilhard) que conhecemos como sofrimento do mundo E lá me volta, e dá voltas, o nosso Bernanos e sua alegria: "Tudo é graça!". Percorri, anos mais tarde, os mesmos passos de Camilo Maria em Nagasaki.


Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 29.03.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


DE NAGASAKI…
por Camilo Martins de Oliveira


"E cá estou, uma vez mais, em Nagasaki. Se tivesses vindo comigo, deambularíamos ambos por aí, visitando a cidade que desconheces. Mas estou só, minha Princesa de mim, e assim me vou ficando por pontos de vista que já conheço, a imaginar a Nagasaki que não conheci.
Foi com a chegada dos portugueses ao sul de Kyushu, em meados do séc. XVI, que o Japão iniciou contactos com produtos, gentes e culturas de outras áreas do globo, e é nesta circunstância que Nagasaki passou de simples aldeia de pescadores a porto, cidade e ponto de encontro do Oriente nipónico com o Ocidente europeu. Foi o "daimyo" Omura Sumitada que abriu o seu feudo aos missionários jesuítas do Padroado Português do Oriente, depois de um encontro com o padre Cosme de Torres que, então, nomeou o padre Gaspar Vilela para a aldeia de Nagasaki, onde vivia uma pequena comunidade de cristãos, governada por Nagasaki Jinzaemon, genro do "daimyo", e que se batizara com o nome de Bernardo. A proteção oferecida por Sumitada e a cristianização da população encorajam o estabelecimento dos jesuítas, que para lá vão chamando cristãos perseguidos noutras regiões. É assim que, em 1570, o padre Melchior de Figueiredo começa a estudar a baía, com vista na instalação de um porto comercial. No ano seguinte, já se urbanizava Nagasaki, feita cidade onde afluíam navios e mercadores de outras paragens. Entre eles, a nau de Tristão Vaz da Veiga, que inaugura o período das visitas anuais da Nau do Trato. Começa assim uma era de prosperidade, com algumas vicissitudes devidas à cobiça que a cidade, seu porto e comércio despertam em senhorios vizinhos. Mas durante 69 anos Nagasaki será o porto por excelência dos portugueses e a cidade dos jesuítas, por 35 anos, aliás, sede de bispado e da missão católica no Japão. Ali nascem e dali se propagam a moda e o gosto "nanban" - e não resisto a transcrever dois saborosos textos coevos, um do Padre Visitador, Alessandro Valignano, outro do padre João Rodrigues, o "Tçuzu" (intérprete). O primeiro refere-se a uma missão dos padres e dignitários cristãos à cidade imperial (Miyako, hoje Kyoto): "Na manhã seguinte, os Portugueses, revestidos do seu mais fino vestuário, formaram filas e saíram. Era um espetáculo maravilhoso ver cachos de gente que se juntava, vindos de longe e de perto, para mirar a procissão antes dela chegar a Miyako. À medida que nos aproximávamos da cidade, todas as ruas por onde assava a nossa procissão estavam cheias de gente sem conta, e todos os que observavam aquele ordeiro cortejo de inabituais e exóticas pessoas que passavam em vestidos resplandecentes estavam muito admirados e falavam uns com os outros, dizendo que cada uma delas devia ser um "bodisatva" descido dos céus...". O segundo é respigado de uma carta de João Rodrigues: "Quando Hideyoshi deixou Nagoya para atender sua mãe doente em Kyoto, todos os "daimyo" que estavam em Ngoya o acompanharam a Miyako, vestidos à moda do nosso país. Os alfaiates de Nagasaki estão todos tão ocupados que não têm um momento livre, mas mesmo assim o acompanharam a Miyako. Recentemente joias de âmbar, cordões de ouro e botões tornaram-se populares entre eles. Agrada-lhes a nossa comida, especialmente ovos de galinha e carne de vaca, que os japoneses dantes detestavam. O próprio Hideyoshi começou a gostar grandemente desses alimentos. É bastante admirável como tantas coisas dos Portugueses acabaram por ter tão boa fama entre eles". Outro missionário, Francesco Pasio, escreve em 1594: "Hideyoshi gosta muito de vestuário português, e os membros da sua corte, por emulação, vestem-se muitas vezes ao estilo português. Isto é verdade mesmo para "daimyo" não cristãos. Usam rosários de madeira exótica ao peito, penduram crucifixos no ombro ou à cintura, e às vezes até traze um lenço na mão. Alguns, especialmente dispostos à gentileza, decoraram o Pai-Nosso e a Avé-Maria, e recitam-nos enquanto andam pela rua. Não o fazem por troça dos cristãos, mas simplesmente para mostrarem a sua familiaridade com a última moda, ou porque pensam que é coisa boa e eficaz para o sucesso da sua vida quotidiana. Isso leva-os a gastar grandes somas na compra de brincos ovais com representações de Nosso Senhor e de Sua Santa Mãe". Essa Nagasaki e o cristianismo foram abafados e os portugueses definitivamente expulsos, mesmo da ilha artificial de Deshima (de fora), à qual haviam sido confinados. Só a partir desta - e durante dois séculos e meio - holandeses (e chineses) foram autorizados a assegurar um mínimo de comércio internacional. Quando, em finais do séc. XIX, após a reabertura do Japão ao estrangeiro, um padre francês celebrou, em latim, missa em Nagasaki, um grupo de japoneses que estivera recolhido ao fundo da igreja, veio perguntar-lhe se acreditava na presença de Cristo na hóstia e na Virgem Maria sua Mãe, e se obedecia ao Papa em Roma... Perante a resposta afirmativa terão exclamado: - Então és dos nossos! Mas a cidade em que reconheciam o regresso da religião banida há séculos já era outra e acolhia projetos industriais e de construção naval, em parceria com estrangeiros, que serviriam de pretexto ao bombardeamento atómico de 1945 naquele local". Camilo Maria continua esta carta, sem mais ironia do que a do destino cruel: "esta - diz ele - é muitas vezes mais amarga e cáustica do que risonha. E chega a ser feia, quando castiga inocentes, com tanta injustiça que quase perdemos a fé em Deus. Pois, todavia, Jesus disse aos seus discípulos: "Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados"...  E o Marquês de Sarolea contará, como leremos, a história de Takashi Nagai, o médico radiologista, e cientista japonês, católico de Nagasaki, que sofreu e morreu dos efeitos da radiação nuclear da bomba atómica. O tempo dos homens, por vezes, não parece ser o tempo de Deus.


Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 27.03.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


ENTRE SIMONE WEIL E O FADO
por Camilo Martins de Oliveira


«Minha Princesa de mim:

Passar-se-ão anos, se Deus quiser  -  e já se passaram tantos! - sem que nem eu chegue a perceber porque sempre te chamo “minha Princesa de mim” ... Não fui eu que te fiz princesa, nem te fiz de mim. Princesa de... eras e és, de mim ficaste, por um encontro inesperado. Sem te ter procurado como Stanley a Livingstone, foi no dia em que me vi no teu olhar magoado que, no íntimo de mim, te disse: “Princess of mine, I presume...” Talvez, em teu segredo, me cantasses já, como Dalila a Sansão na ópera do meu homónimo Saint-Saens: Ah, réponds moi, réponds à ma tendresse... Talvez já não se use, mas dura muito e é bom esse encontro de ternuras que se fidelizam. Aqui, em Paris, além das reuniões que me obrigam a passar o dia no Château de la Muette, sabes bem o que faço: um salto às livrarias do "Quartier", um jantarinho no "Le Muniche" (onde conheci a Romy Schneider...) e o regresso pacato ao nosso Georges V, onde me recolho lendo banda desenhada e outros filósofos. Comprei e leio hoje, editadas pela Plon, as "Leçons de Philosophie" de Simone Weil. Sinto muito o nosso abraço ao ler este pensamento recolhido de "La Connaissance Surnaturelle": “A fé é acreditar que Deus é amor e nada mais. Esta expressão ainda não diz tudo. A fé é crer que a realidade é amor e nada mais...”. Direi eu, na esteira de Simone, que a fé é profética: como primeira virtude teologal, motiva a esperança, e a esperança empurra-nos para o amor. Gosto muito dessa expressão "a realidade é amor e nada mais". Afinal, tudo muda e parece, parece sempre. Mas só o amor permanece. Como a verdade. E a verdade que podemos atingir não é o que julgamos compreender e afirmamos. É o que soubermos comungar com o ser íntimo e permanente de tudo, para que tudo seja, com o pouco que somos, um pouco mais belo. Outro apontamento da Simone Weil, para uma das suas lições: “La Beauté, sentimento do belo, sentimento sensível à parte carnal da alma e mesmo ao corpo, essa necessidade que é constrangimento e também obediência a Deus”. É interessante comparar, nas lições de Weil, essa ideia do amor como existente fora da duração, pois que o seu tempo é a eternidade, com a servidão do tempo. Recordo este passo de "Attente de Dieu": "Os amantes, os amigos, têm dois desejos. Um, o de se amarem tanto que entrem um no outro e sejam só um. Outro, o de se amarem tanto que, tendo entre eles metade do globo terrestre, a sua união não seja por isso diminuida. Tudo o que o homem deseja em vão cá na terra é perfeito e real em Deus". O encontro e a separação (e não será a morte a mais radical?) são, assim, inseparáveis na amizade. A comunhão é eterna. Nos seus apontamentos para uma lição sobre o tempo, Simone Weil escreve: "O tempo é a preocupação mais profunda e mais trágica dos seres humanos; pode mesmo dizer-se que é a única trágica. Todas as tragédias que possamos imaginar vêm dar a uma única tragédia: o escoamento do tempo". Mas considera que "o homem tem uma tendência invisível para a eternidade"... "Tudo o que é belo tem um carácter de eternidade. Os sentimentos puros para com os seres humanos: amor, amizade, afeto... Esses sentimentos não só se consideram como eternos, mas consideram eterno o seu objeto. Portanto,não há nada em nós que não proteste contra o curso do tempo e, todavia, tudo em nós está submetido ao tempo". Agora penso eu: que força nos faz durar na precaridade, nos mantém vivos e atentos através do processo degenerativo da nossa biologia, até ao nosso esgotamento? Será que o tempo, no qual Pascal pressentia a origem do sentimento do nada ser da existência, é já parte da eternidade? Vivendo esta vida no tempo que conhecemos, será que, afinal, existimos antes e depois dele e habitamos as cavernas de Platão?". Deixo aqui esta carta de Camilo Maria, que ia agora entrar por Sto. Agostinho. Para lembrar uma glosa que fiz a cada uma das seis estrofes de um célebre fado do Alfredo Marceneiro. Dá outro fado e é do tempo em que com fados também me entretinha (para fugir ao tempo?): Amor é água que corre,/ tudo passa, tudo morre,/ só este amor vai viver!/ Ó minha pombinha mansa,/ nosso amor é uma criança/ que ensinamos a crescer! // Amor é sonho e é encanto/que mesmo lavado em pranto/ sempre a si mesmo recorre.../ Forte, fiel, crente e brando,/ persistente mesmo quando/ tudo passa, tudo morre! // Amor é triste lamento/se,levado pelo vento,/ao longe se vai perder.../Mas não falto à minha jura:/é minha a tua ventura/e este amor vai viver! // Tudo é vário neste mundo,/mesmo o amor mais profundo/ se tenta a entrar na dança/e a deixar-se morrer.../ Mas amar-te é meu querer,/ ó minha pombinha mansa! // Foi bem efémero o desejo/de tantos amores que vejo/em danças de contradança.../Mas se  amar é desejar,/deixa-nos lá continuar:/o nosso amor é criança! // Hei-de esquecer o teu amor?/ E o teu corpo encantador,/ que a minha alma sempre quer?/ Dou-te a mão, fico contigo:/ o nosso abraço é o amigo/ que ensinámos a crescer!”. Até fadistando se filosofa. Não é necessário ir à Sorbonne. Basta um saltinho à Travessa dos Palpites. Há coisas que se entendem em todas as línguas.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 22.03.13 neste blogue.

 

ANTOLOGIA


EVELYN WAUGH VEM À BAILA…
por Camilo Martins de Oliveira

 

Minha Princesa de mim:

Escrevi uma longa carta ao nosso Camilo, falando-lhe de morte, dor e serenidade. Sabes o que sinto e sei como o sentes comigo. Mas também acabei por dissertar um pouco sobre as idades da morte. Tenho vindo a ler os "Essais sur l´histoire de la mort en Occident" do Philippe Ariès, publicados em volume este ano (1975). Penso que fiz aí um esforço de objetivação, necessário ao equilíbrio emocional que nem sempre consigo controlar. Aliás, escrevi ao Camilo neste 50º aniversário da morte do G..., por receio de me comover ou, melhor, de nos comovermos muito, se contigo o abordasse. Sinto todavia que anda em mim um remorso vagabundo, um escrúpulo de lhe ter escrito sobre situações e sentimentos que nos atingem até aos limites da nossa compreensão das coisas: Portugal está em plena revolução, o Camilo está em Bruxelas, bem sei, mas deve sentir-se afetado, para além de tudo o que possa compreender e até explicar, pelo que também é, no imediato, incompreensível e incerto. Mantem-se calado, mas referiu-me, em carta recente, como lhe doeu o coração, com "saudade" da Pátria, ao escutar, na catedral de Saint Michel e Sainte Gudule, umas "lamentações" de Jeremias adaptadas e postas em música, em 1663(?), por Matthias Weckmann, em Hamburgo, depois da peste lhe ter levado a mulher: "Wie liegt die Stadt so wüste, die voll Volkes war..." A cidade solitária e abandonada lembra uma viúva: grande entre as nações, soberana entre os estados, está reduzida à servidão. É bem verdade que não se força a realização de um sonho. E que a grandeza das nações é como a que os homens se pretendem: chega sempre o dia em que tudo isso se reduz a pó. Talvez porque, afinal, já o era: "Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris..." O sonho do Estado Novo foi o do Portugal restaurado nas suas raízes históricas e na sua vocação universal e imperial. Tanto quanto sei, o sonho do "Quinto Império" não foi estranho a visionários como o jesuíta António Vieira ou o modernista Fernando Pessoa. Hoje, a "Revolução dos Cravos" pretende anunciar uma era nova de liberdade, abundância e paz... Uma nova Jerusalém, construída sobre o abandono de uma ordem política económica e social, com os seus valores, e de um império, com os seus recursos e oportunidades. Como será? Até que ponto o bom senso prevalecerá sobre a euforia, e o esforço sobre a irresponsabilidade? O projeto grandioso - e, acredito, com intenção patriótica - do Estado Novo falhou por ter parado no tempo, não ter percebido que a melhoria das condições de vida de um povo, ou o crescimento do produto de uma economia, não são calmantes de aspirações e desejos, antes são incentivos a novas ambições. Desconfiado, provinciano íntegro chocado com a "luxúria" da burguesia citadina da República Portuguesa, num período em que se fizeram grandes fortunas (na indústria, no comércio e na finança) e se acentuou a exploração de um proletariado urbano crescente  -   e uma mão de obra forçada, nas colónias  -  o professor de Coimbra, determinado, entendeu que o seu projeto de Estado Corporativo, inspirado pela procura da harmonia social preconizada pela «Rerum Novarum», passaria pela moralização e disciplinação da burguesia liberal enriquecida, e pela "domesticação" das massas operárias e dos movimentos e partidos que, a seu ver, ameaçariam a ordem e bom funcionamento do Estado e abririam a porta à entrada do totalitarismo comunista. A imposição autoritária da disciplina política e social, bem como da economia financeira do Estado, permitiu três décadas de crescimento económico, limitando todavia o exercício de certas liberdades cívicas e também da iniciativa económica (a que não foi estranho o regime do condicionamento industrial). Mas a expansão de uma pequena e média burguesia, e a melhoria das suas condições de vida e do seu estatuto social, transformaram a sociedade portuguesa e criaram uma tensão crescente entre as aspirações a um tipo de vida - que o cotejo (pela experiência dos emigrantes e pela televisão) com o de outros povos europeus tornava cada vez mais apetecível - e a ideologia e cultura do conservadorismo ambiente. A guerra nos domínios africanos foi o catalizador da derrocada: quer porque pedia sacrifícios financeiros e humanos a populações aspirantes ao bem-estar e bem-gozar a vida, quer porque o êxito de uma nova classe de africanistas (entre os quais se contavam universitários, grandes empresários e quadros mais qualificados) criava algum ressentimento entre a gente da "metópole" que pensava ser sacrificada para os proteger. O projeto grandioso de um Portugal multirracial e pluricontinental tornava-se inviável pela incapacidade do Estado em mobilizar o povo para uma ação comum e a longo prazo, sobretudo num ambiente internacional demissionário e hostil. Prevaleceu a vontade de conforto e a esperança de que a possível integração numa Europa abastada e liberal seria o destino prometido aos portugueses... Neste momento, todavia, o oportunismo da esquerda radical tenta atirar o país para a loucura de um socialismo utópico. Acredito mais no poder de oposição a esta nefasta pretensão que a pequena e média burguesia portuguesa - desde o norte e centro rural e conservador até ao operariado ligado ao PS - possam mover, do que numa mobilização política da CE para "salvar" Portugal. A solidariedade europeia como ação ética e prática está por provar na universalidade. O núcleo de nações que a formou é interesseiro, com políticos que vão ao mercado dos votos. Mais tarde, se felizmente se concretizar essa aspiração europeia de Portugal, veremos se os novos benefícios adquiridos não irão provocar novos desejos de rendimentos e consumo, tal como vem sucedendo nas nossas sociedades afluentes, materialistas e míopes. Lembro-me de te ter ouvido dizer naquele jantar cheio de cabeças pós-modernistas: ´Não cuidem da moral e depois queixem-se!´  Eu talvez seja conservador, mas tu és reacionária. Por vezes, com graça e com razão. Por isso também penso em ti, sempre, sempre, com muita ternura...". Esta carta de Camilo Maria à sua Princesa serve aqui para realçar a atenção lúcida com que o Marquês de Sarolea acompanhou o PREC, desligando-se da consideração de efemérides para se concentrar na compreensão de fatores dos processos sociais e políticos que ao longo do tempo são, afinal, identificáveis pela sua permanência no coração dos homens. Pelo gosto dessa visão elevada (filosófica) dos acontecimentos, mentalidades e comportamentos ao longo da história, traduzirei outros trechos da carta que ele me escreveu dissertando sobre os "Essais" do Ariès acima referidos. Para descortinarmos sinais dos tempos na diferença das ideias da morte e seu acolhimento na "Chanson de Roland" ou no "Tristão e Isolda" e no que Evelyn Waugh ironizou no seu "The Loved One"...


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 15.03.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


FOLHEANDO MONTAIGNE…

por Camilo Martins de Oliveira


"Folheando o volume I dos "Essais" de Michel de Montaigne, paro no capítulo XXVIII, que é, afinal, a dedicatória, em jeito prefacial, da edição - que ele promoveu - dos vinte e nove sonetos do seu amigo Étienne de la Boétie a Diane d’Andoins: "Senhora, nada vos ofereço de meu, ou porque isso já é vosso, ou porque nisso nada encontro digno de vós"... É bonito, mas levanta uma pergunta: será sincero? Ou ainda uma questão: não será uma das faces, ou máscaras, que a necessidade de atrair a atenção do outro (dela) vai escolher e exibir? A outra, no oposto desta confissão de rendição irreparável, será a prosápia ou a autovalorização a pavonear-se... Como se o amor que se busca devesse ser uma esmola ou, pelo contrário, uma adoração... Os desenganos de amor são fruto desses truques do amante sobre a coisa amada. Ora, a verdade do amor não pode ser um artifício, mas é simplesmente o infindável caminho que incessantemente nos leva ao encontro de um encontro. Só assim ele não engana nem cansa: quando a paixão se define pela fidelidade à descoberta de caminhos comuns para o bem de estar e continuar a estar. Não é, nem pode ser, submissão, nem tampouco dominação. Deve até excluir qualquer preocupação com estatutos de igualdade ou cálculos de reciprocidade. O diálogo é o caminho das diferenças que se acompanham e respeitam, sem que qualquer delas se sinta superior ou inferior à outra. Pois se tal acontecer, se esvairá a liberdade de sentir e de dizer”. Estes pensamentos aliam-se ao que o mesmo Montaigne diz no capítulo anterior (o XXVII) do mesmo livro I dos "Essais", que é uma elegia da sua amizade com Étienne de la Boétie, que falecera. Para ti, Princesa querida (não pelo título genealógico, mas pelo do meu coração, minha Princesa de mim), transcrevo, dali, estes passos: "Assim, a união de tais amigos sendo verdadeiramente perfeita os leva a perder o sentimento de tais deveres, e odiar e afastar deles essas palavras de divisão e de diferença: favor, obrigação, reconhecimento, súplica, agradecimento, e outras que tais. Já que tudo isso existe por comum efeito entre eles: vontades, pensamentos, juízos, mulheres, filhos, honra e vida. E o seu convénio não sendo senão uma alma em dois corpos, segundo a própria definição de Aristóteles, não podem aí prestar nem dar nada. Eis porque é que os que fazem leis, a fim de honrarem o matrimónio com uma qualquer parecença imaginária com essa divina relação, proíbem as doações entre marido e mulher. Querem por aí inferir que tudo deve ser de cada um deles, e que nada haja para dividirem ou entre si fazer partilhas. Se, na amizade de que falo, um pudesse dar ao outro, seria aquele que recebe a benfeitoria que obrigaria o seu companheiro. Pois que, procurando um e outro, acima de qualquer outra coisa, entre-fazerem-se bem, aquele que se presta a objeto e ocasião, é esse que, de facto, é o liberal, pois que dá ao seu amigo o contentamento de lhe fazer, a ele mesmo, aquilo que ele mais deseja..." Camilo Maria regressa aqui à mesma ideia que Camões versejara:" transforma-se o amador na coisa amada..." Os trechos acima foram, aliás, respigados de uma carta que, em parte, já aqui traduzi. O premiado filme de Michael Hanneke, "Amor", é, no fundo, uma meditação trágica sobre o amor como comunicação. Amar é, afinal, comunicar infinitamente, até nos entendermos no silêncio: na osmose das almas se transforma o amador na coisa amada. Pego na edição dos "Essais" na Pléiade, para voltar à leitura de Camilo Maria, e diz-nos Montaigne: "As nossas almas confluíram tão unamente juntas, consideraram-se com uma afeição tão ardente, e com tal afeto se descobriram até ao fundo último das entranhas uma à outra, que não só eu conhecia a sua como minha, como de boa vontade me confiaria mais de mim a ele do que a mim mesmo"... No filme de Hanneke, a incomunicabilidade que a doença de Anne vai cruelmente impondo ao casal leva à tragédia do uxoricídio. Mas não faz do marido executor um assassino. Como confessará num testamento escrito, foi depois incapaz de matar o pombo que apanhara. O desfecho da história é-nos revelado em duas sequências: na primeira, a filha adulta do casal, que nunca comunicara bem com o universo a dois dos pais, em que não penetra, percorre uma casa vazia. Na segunda e última sequência, na mesma casa vazia, o casal (fantasmas ou seres reais?) encontra-se post mortem e sai para um passeio. Fora da casa que encerrou um mundo. E além da morte, pois o amor é como Deus: enche o universo, vem do princípio esquecido do tempo até à eternidade, do fundo ignoto do coração dos homens até à plenitude.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 01.03.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


LEMBRANDO TRISTÃO E ISOLDA
por Camilo Martins de Oliveira


Escrevo em noite tranquila de sábado de Carnaval. Vi TV e jornais, surpreendeu-me a insistência publicitária na promoção do "Dia dos Namorados" que, por coincidência com o calendário do tempo litúrgico - o qual, curiosamente, assemelha a perspetiva escatológica do ocidente cristão à noção cíclica do tempo circular dos orientais -  com a celebração adventícia e, para nós, pós-modernista, da "festa" de S. Valentim, apaga da "comunicação social" a nossa "Quarta-Feira de Cinzas"... A fé é - ou melhor deve ser, para os crentes de qualquer religião que acreditem que Deus não é a minha verdade nem o meu código, mas o Senhor da minha libertação - motivo de esperança e vocação de amor. O propósito do ciclo quaresmal, que esta 4ª feira anualmente inicia, é lembrar-nos o paradoxo da condição humana: a morte que não é fim, mas regresso ao estado inicial, onde somos recriados. Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. Aqui, mutatis mutandis, também não estamos longe de filosofias orientais.... Com a diferença de que acreditamos que a nova criação resulta do envolvimento histórico de Deus na condição do mundo e das pessoas que criou. Esta fé, ou simples crença, ou mesmo só um mito fundador da nossa cultura, torna a memória das nossas cinzas uma celebração bem mais vital para a sociedade hodierna do que o festejo comercial de entusiasmos efémeros. O amor - e penso no amor humano, de corpo e alma - mesmo esse pode, e deve ser celebrado na consciência da nossa precaridade, mas também no conforto "terreal" que nos oferece a promessa da plenitude por vir. A moral cristã não é maniqueísta. E, por isso mesmo, não pode ser leviana. O funcionamento da consciência cristã é como o aparelho digestivo. Já Jesus dizia, que não é o que entra em nós que nos torna impuros, mas o que de nós sai. Será, quiçá, "nosso dever e nossa salvação" rever uma qualquer insistência mórbida num cristianismo contrito, que nos leva a esquecer a alegria natural da promessa que é a vivência do amor em cada dia, em cada um de nós segundo a sua vocação e a circunstância da sua vida. Até na celebração eucarística, a postura sofredora dos comungantes lembra, a quem de fora assista, mais uma condenação do que a libertação dos filhos de Deus. Por outro lado, sou negativamente sensível a essoutra manifestação de precaridade, a tal a que Zigmunt Bauman chamou "amor líquido", como a vemos no "Dia dos Namorados". Revela, afinal, o apego contemporâneo à aparência agradável das coisas, que determina, precisamente ao invés das "Cinzas", o esquecimento ou o disfarce da morte. Assim regresso a uma carta que Camilo Maria me escreveu: "Os quatro primeiros "Essais sur l´histoire de la mort en Occident" são os textos das quatro conferências que Phillipe Ariès proferiu, no início desta década (1970) na John Hopkins University, nos EUA. O primeiro tem por título "La mort apprivoisée" e cobre mil anos de uma mesma atitude perante a morte, tal como a encontramos desde a "Chanson de Roland" (em Roncesvales, Rolando, Olivier e o arcebispo Turpin, todos sentem que a morte se aproxima e os vai tomando), ou nos romances da "Távola Redonda" (a morte de Lancelote, p. ex.) e de "Tristão e Isolda" (esta, vendo Tristão morto, sabe que morrerá também e a seu lado se deita, virada para o Oriente), até, séculos mais tarde no "Dom Quixote": "minha sobrinha, diz ele, muito serenamente, sinto-me perto da morte". Esta anuncia-se sem sinais sobrenaturais ou mágicos, mas simplesmente por circunstâncias naturais e uma convicção íntima. Como nos "Três mortos" de Tolstoi - que Ariès refere - quando um velho cocheiro agoniza e uma mulherzinha lhe pergunta “como vai isso?” e ele responde “a morte está aí, eis o que é”. Da sua convivência com os mujiks, gente do campo, aprendeu o grande escritor russo a resposta natural à pergunta que ele mesmo formularia, na hora da sua morte, numa estação de província: E os mujiks? Como morrem os mujiks? Cada um aceita a sua morte e todos convivem com a morte dos outros. Saltarei agora as conferências sobre a "Mort de soi" e a "Mort de toi", muito embora, meu caro Camilo Lusitano, ainda tenhamos de debater - pese a nossa diferença de idades - essa questão da aproximação de Eros e Thanatos que atraiu tantas atenções místicas, literárias e artísticas, sobretudo no século XVI... Pois quero hoje chegar à contraposição da morte domesticada (apprivoisée) com a morte interdita, ou tabu. Mas não me esqueço daquele jantar que tivémos (foi no "Le Muniche" ou no "Le Diplomate"?) em que, dessa tua sageza juvenil que sempre me "iscou", me atiraste a afirmação lapidar de Georges Bataille: "L’érotisme c’est l'affirmation de la vie jusque dans la mort"... Sabes bem - e o que agora pronuncio será, talvez, mais do que um laço de sangue, ou uma pertença de classe, contigo, uma atitude cultural comum - que, sobretudo para um aristocrata, já não é afirmar ou impor. Importante, sim, é partilhar o gosto e o conhecimento que, por privilégio de nascimento ou condição, nos foi dado, de modo a que a partilha possa despertar noutros espíritos a ousadia de novas descobertas. Um aristocrata que só olha para trás é um idiota... Não vou, portanto, formatar ideias. Vou simplesmente deixar-te para reflexão, dois passos dos tais "Essais" do Ariès: "Hoje, a iniciativa passou da família, tão alienada como o moribundo, para o médico e para o hospital. São eles os patrões da morte, e, também, do momento e das circunstâncias da morte, e verificámos que se esforçam por obter do seu paciente um "acceptable style of living while dying", um "acceptable style of facing death". A tónica cai no "acceptable". Lendo isto, receio perceber que o aceitável é hoje o que nos convém, e não o como e o para que fomos feitos... Mas volto a Philippe Ariés, quando cita o sociólogo inglês Geoffrey Gorer que, num artigo publicado em 1955, sob o título "The Pornography of Death", afirmava que, no séc. XX, a morte substituiu o sexo como principal tabu ou interdito. Traduzo do Ariès: "Dantes, dizia-se às crianças que tinham vindo ao mundo numa couve. Mas elas assistiam à grande cena do adeus, à cabeceira do moribundo. Hoje, são iniciadas, desde tenra idade, na fisiologia do amor, mas quando já não veem o avô e perguntam por ele, dizem-lhes que está a descansar num jardim, entre flores."

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 22.02.2013 neste blogue.