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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O breve epílogo do livro L'Immortalité biologique (Odile Jacob, Paris, janeiro de 2020) da médica hematologista, investigadora e professora universitária Hélène Merle-Béral, em tradução minha, reza assim:

 

   Qual quer livro sobre a imortalidade fica sempre inacabado. Alguns dirão que a vivem no virtual da fé, mas tal imortalidade apenas é outra forma da esperança. Então, como poderemos aproximar-nos dela? Talvez ousasse dizer que tive a impressão de a ter observado quase todos os dias, num período da minha vida em que, debruçada sobre o microscópio, analisava células cancerosas de pacientes feridos de leucemia. Tinha debaixo dos olhos uma proliferação exuberante de células imortais, e tinha o poder de as propagar em cultura, para manter a sua imortalidade fora do corpo humano, de as fazer viajar, parcelas de eternidade num tubo de ensaio, para que servissem, sendo modelos privilegiados, objetivos de investigação do ciclo celular, da apoptose, da sobrevivência ... Esse fascínio por formas de vida imortal levou-me a pesquisar, ao microscópio como na literatura científica, as origens e potencialidades da imortalidade biológica. Sem nunca ter chegado a descobrir-lhe todos os mecanismos, tal investigação tem um ponto em comum com o seu objeto: é infinita...

 

   Esta obra que, na sua edição original, acima referida, tem apenas cerca de 170 páginas, está escrita de forma escorreita, assim facilitando e estimulando a sua leitura, muito embora pressuponha, da parte do leitor, alguma informação pertinente e noções básicas acerca de problemáticas que se estendem de doutrinas, crenças e mitos sobre a questão da humanidade face à morte até às tentativas históricas e contemporâneas de contrariar o envelhecimento e vencer a morte, para não se mencionar algum elementar conhecimento de variadas e raras formas de vida vegetal e animal ou, ainda, de análises e experimentações em busca, não já do "humano aumentado ou alongado", mas do "pós-humano e do transumano". Aqui surgem os ensaios de manipulação genética e clonagem, de gestão algorítmica da beleza e da saúde, de numerização do cérebro, de inteligência artificial...

 

   Afinal, este universo novo de investigação não será, enquanto atitude de seres humanos, muito diferente da primitiva epopeia de Gilgamesh, nem de tantas outras fezadas na descoberta da imortalidade, incluindo a longa história da alquimia. Como se essa indelével ânsia de encontrar outra dimensão da vida humana fosse também o motivo do furto e consumo do fruto da árvore genética do conhecimento, da queda de Ícaro ou da falta de Sísifo que lhe valeu aquele castigo que Homero assim regista na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço):

 

          Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
          tentando levantar cm as mãos uma pedra monstruosa.
          Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
          conseguia levá-la até ao cume do monte, mas quando ia
          a chegar ao cume mais alto, o peso fazia-a regredir,
          e rolava para a planície a pedra sem vergonha.
         Ele esforçava-se de novo para a empurrar, dos seus membros
         escorria o suor, e poeira da sua cabeça se elevava.

 

   Esta visão de Sísifo no Hades é, afinal, a do inferno que o absurdo é, ao ponto de nele caber o próprio esforço do ser humano. A dado passo do seu Le Mythe de Sisyphe, Albert Camus escreve - e respigo estas citações para que nos ajudem à reflexão adveniente desta carta - que os homens também segregam desumanidade... E diz mais:

 

  Chego enfim à morte e ao sentimento que dela temos. Sobre tal ponto já tudo foi dito e parece-me decente evitarmos o patético. Todavia, nunca nos espantaremos bastante com o facto de toda a gente viver "como se ninguém soubesse". É que, na realidade não há experiência da morte. Em sentido próprio só se experimenta o que foi vivido e tornado consciente. No caso presente, só é possível falar-se da experiência da morte dos outros. 

 

    São inúmeros os exemplos da tentação de longevidade, e de imortalidade, na literatura universal, desde o Graal e lendas de elixires da juventude ao Fausto de Goethe. O que a presente corrente de pensamento transumanista reflete vai, todavia, para além de tudo isso: From chance to choice (da contingência à opção), eis o lema de quem pensa que, graças aos progressos das novas biotecnologias, a espécie humana deveria extrair-se do determinismo da sua programação genética para realizar façanhas fabulosas em matéria de inteligência e longevidade, ultrapassar os seus limites biológicos e sublimar as suas capacidades intelectuais e fisiológicas...   ...O ser humano deverá libertar-se da dependência da injustiça da natureza para decidir do seu futuro e, permanentemente conectado a um computador, deverá libertar-se da servidão do seu corpo, graças à inteligência artificial...

 

   Tal melhoramento do ser humano vai ultrapassando as fronteiras naturais - dizem os seus prosélitos - graças à convergência das biotecnologias NBIC, isto é, à sinergia entre as nanotecnologias (N), a biologia (B), a informática (I) e as ciências cognitivas (C). Tal conceito foi articulado pela primeira vez em 2002, nos EUA, num relatório da National Science Foundation que desenha um leque das principais tecnologias referidas : as nano, reunindo técnicas a nível atómico e molecular ; as bio, incluindo a engenharia genética, com anúncio de fabricação dos primeiros clones humanos ; a informática, que comporta eletrónica, telecomunicações, robótica e inteligência artificial ; e, finalmente, as cognitivas, cujo último objetivo será a perfeita compreensão do funcionamento do cérebro humano. [Com tua licença, Princesa de mim, abro e logo fecho aqui um parêntese, precisamente para incluir uma interrogação: será que o cérebro humano é tão somente um órgão calculador, computador, amputado dessa misteriosa função que tanto gosto de chamar "pensarsentir"? E será que a presente pretensão a substituir-se a ciência enquanto descoberta ou conhecimento novo, por reorientação da própria natureza das coisas (da rerum natura, como diria o ateu Lucrécio) não é mais pretensiosa do que científica? Evidentemente que, por sermos humanos, somos, como disse Ortega y Gasset, trânsfugas da natureza, e desde sempre nos interrogámos sobre ela. Como sua própria consciência, sobre ela e nós mesmos inquirimos...]

 

   Este último ponto traz-me à memória uma citação que a professora Merle-Béral faz de António Damásio (entre outras, todas elas, salvo erro, respigadas na Estranha Ordem das Coisas, obra de que já em carta te falei): A inteligência artificial pode simular os sentimentos, não pode duplica-los. Os organismos artificiais não têm vida. O espírito humano não é feito de cérebro apenas.

 

   Sabes tão bem como eu, Princesa de mim, como todos os dias contemplo a visão evangélica da morte. Nestes últimos tempos, quiçá com mais forte pensarsentir, já que vou acompanhando a última travessia de tantos amigos que partem. Para tua e minha reflexão, ocorrem-me alguns trechos de uma entrevista de Emmanuel Levinas a Christian Chabanis (Le Philosophe et la Mort: la mort, un terme ou un commencement? - Fayard, Paris, 1982) que traduzo:

 

   A morte é o mais desconhecido dos desconhecidos. É mesmo mais desconhecida do que qualquer desconhecido. Parece-me - sejam quais forem as posteriores reações de outros filósofos e do próprio público - que a morte é, antes do mais, o nada do saber. Não estou a dizer que ela nada é, pois que ela também é a plenitude da questão. Mas, antes de mais, ela é não se sabe...

 

   ... para nós que assistimos à morte de outro homem, nunca saberemos o que ela significa para o próprio morto. Nem sequer sabemos se será legítima a fórmula: para o próprio morto. Mas para o sobrevivo, há na morte de outrem o seu desaparecimento, e a extrema solidão desse desaparecimento. Penso que o Humano consiste precisamente em abrir-se à morte do outro, em preocupar-se com a morte dele. O que acabo de dizer pode parecer pensamento piedoso, mas estou persuadido de que, acerca da morte do meu próximo se manifesta aquilo a que chamava a humanidade do homem. 

 

   Para terminar esta carta com um toque propositado de focalização sobre realidades circunstantes, num mundo em que a cultura reinante tudo vai apagando para dar espaço a fantasias e sonhos de apropriação, riqueza individual, dominação e conquista, quero só lembrar-te, Princesa de mim, a ação, cada vez mais cartelizada, de grupos económicos e financeiros que sustentam o surto comercial e lucrativo das novas esperanças, bem como o papel que desempenham, necessariamente, no agravamento das desigualdades sociais : a morte, ou a sua fatalidade, já não iguala ninguém, antes se vai tornando em mais um sinal contrário à condenação do rico que Abraão desiludiu no sonho em que lhe pedia autorizá-lo a avisar e prevenir os seus próximos sobre que tratamento deveriam dar aos pobres... Mas deixo le dernier mot a Hélène Merle-Béral:

 

    O futuro é cada vez mais inimaginável e imprevisível, com potencialidades infinitas. Para o homem deste dealbar do século XXI, é desmesurada a alternativa do pior e do melhor. Sucedem-se as imagens, sobrepõem-se, contradizem-se.

 

   Bem real é a ameaça do apocalipse, da destruição do nosso planeta, de que, há décadas, nos vão avisando os ecologistas, tal como a do desmoronamento da nossa civilização socio-industrial, que predizem os adeptos dessa nova ciência que é a colapsologia.

 

   Nos nossos piores fantasmas surge sempre, incontornável, o espectro de um corpo virtual, com um cérebro reduzido a dados numéricos não controlados, o homem tornado máquina (e espera-se que esta sempre possa desligar-se...).

 

   Mas o triunfo do humano está ao nosso alcance: venceu a velhice e a morte, graças aos fabulosos progressos das biotecnologias que continua a controlar. Soube preservar os sentimentos, o desejo, o amor, o maravilhamento, a liberdade de escolha. Pode atacar novos desafios e progredir na sua própria aventura.

 

    É agora que tudo está em jogo.

 

   Pessoalmente, também gosto de ser otimista. Por isso pensossinto e faço votos por que as novas tecnologias, para lá de nos aperfeiçoarem conhecimentos e ações, sejam cada vez mais expostas à reflexão e consciência do inestimável bem que é o comum, com solidariedade e justiça. E com humildade, muita humildade, também, pois esta é a atitude fundamental para enfrentarmos o absurdo. Apocalipse, para mim, continua a ter o seu significado etimológico de revelação, descoberta. Nunca de cataclismo, de destruição do que também somos feitos.

 

 Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O prémio literário mais prestigiado no Japão é o Akutagawa, que, além de ser distinção de talentos das letras nipónicas, é, pelo seu próprio nome, uma memória e uma homenagem ao grande escritor da era Taisho que foi Ryunosuke Akutagawa, morto aos 37 anos de idade, em 1926. Nas duas noites passadas o meu gosto da leitura deliciou-se com alguns dos seus contos (ou novelas breves), entre eles o saborosíssimo Nezumi-Kozo, história de um Robin Hood japonês ou, melhor, do desmascaramento de uma personagem pela sua própria ironia. Seguindo a narrativa feita pelo próprio, somos transportados para um teatro de Kabuki, onde assistimos ao desenrolar estoirar da farsa que o romancista seu autor apresenta assim (traduzo):

 

   Tradicionalmente, no Japão, Nezumi-Kozo (1795-1802) é apresentado como um ladrão cavalheiresco que tirou aos ricos para dar aos pobres, e bem pode ser chamado Robim dos Bosques japonês. É geralmente aceite que ele era um mestre de «ninjútsu», a arte de nos tornarmos invisíveis, e que levava um saco de «nezumi» (ratos) quando assaltava casas de «daimyo» (senhores feudais), e os soltava para enganar os dorminhocos que acordassem, fazendo-lhes crer que o barulho era feito pelos ratos. Em japonês, «kozo» quer dizer «aprendiz» ou «ouriço». [Pessoalmente, pensossinto-me melhor traduzindo por diabrete... Digo isto porque, em inglês, «urchin», referido a um garoto, significa travesso...]     

  

   Nos anos que se seguiram à revolução de 1868, que derrubou o shogunato e restaurou o poder executivo do imperador, as peças de kabuki que tinham Nezumi Kozo por protagonista e herói ganharam imensa popularidade entre o povo japonês, acabado de se emancipar do feudalismo que, durante séculos, impusera uma rígida hierarquia de quatro castas, assim ordenadas do topo para baixo: militares, agricultores, industriais e comerciantes. Por isso, a gente do povo se deliciava e divertia com representações que diminuíam ou gozavam os antigos senhores feudais, seus governantes, e os respetivos sequazes que, de todas as maneiras possíveis, os tinham sujeitado a vexames e humilhações, hoje dificilmente imagináveis.

 

   A história que aqui apresento é um episódio, em jeito de farsa, do popular e tradicional herói num palco de kabuki.

 

   E agora, Princesa de mim, cabe-me resumir para ti a farsa contada por Ryunosuke Akutagawa. A história começa em Edo (a atual Tokyo no shogunato Tokugawa), numa taberna em que dois velhos amigos vão saboreando conversa e saké. Um deles, com ar imponente e aspeto de forte, vai evasivamente falando da sua ausência de três anos, aliás menosprezando a fama de justiceiro e carrasco de ladrões que o outro encomiasticamente lhe atribui, tal como minimizando o facto da própria fama ser jubilosamente festejada pelo povo, feliz com o seu regresso. Pessoalmente, pensa que noutros tempos as pessoas eram melhores, mais interessantes, e até havia ladrões com classe, como Nezumi Kozo. Falando neste, confessa que a lembrança dele lhe dá riso, por causa de algo que lhe aconteceu, há precisamente três anos, quando deixara Edo.

 

   Encontrara na estrada um comerciante simpático que, por seguir para o mesmo destino, se fizera seu companheiro de jornada. Assim, ambos pernoitaram na mesma estalagem, depois de jantarem e beberem juntos. Pesadamente adormecido com ajuda do éter ingurgitado, o nosso homem, pela madrugada, ainda sentiu que uma mão estranha lhe vagueava pelo leito e encontrava a bolsa presa ao cinto apertado, tentando furtá-la... Num "Ai, Buda!" (o "Ai Jesus!" local), prende tal mão torce-lhe o braço, atira ao chão o candidato a ladrão. O ruído da peleja acordou outros hóspedes, trouxeram luzes e, para surpresa de todos, reconheceu-se o homem dominado no chão: era o horado comerciante, companheiro de viagem. Logo ad hoc se reuniu um tribunal popular, perante o qual o frustrado gatuno se defendeu, dizendo que procedera com a louvável intenção de tirar a um rico para dar a muitos pobres. Instado a ser mais claro, acaba por confessar que, na verdade, é o mui famoso Nezumi Kozo. Espera, pois, que a popularidade de um herói nacional o salve da condenação. Só que o "nosso imponente fortalhaço" lhe troca as voltas, interrogando-o sobre a pretendida identidade, enquanto o vai avisando de que, se fosse ele mesmo juiz, não perderia a oportunidade de deter, julgar e condenar tão manifesto e descarado ladrão: ao crime agora presente, juntaria com gosto os muitos outros que a fama do outro por aí tem proclamado. Acossado, desorientado, aflito, o desgraçado comerciante lá se retrata e retira, sem cheta, debaixo de um coro de gargalhadas...

 

   Voltando à conversa dos dois velhos amigos naquela taberna de Edo, depois de contada a divertida ocorrência: "Afinal, pergunta o ouvinte ao narrador, ele não era mesmo o Nezumi, nem sabia quem este era?" - "Acho que não."  - "Tens a certeza?" - "Tenho." - "Porquê?". - "Porque o Nezumi Kozo sou eu..."

  
Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vai curta a carta, começa apenas a cumprir a promessa, que te fiz, de falar da gastronomia na cultura japonesa. Hoje, vamos contemplar um aspeto da circunstância estética do gosto de comer, prazer que começa, precisamente, por um olhar. E regresso ao Inei Raisan (Elogio da Sombra) do "nobel" Junichiro Tanizaki, livro que também recomenda a utilização de lacas como continentes de sopas servidas. Sem propriamente seguir a ordem do texto do romancista japonês, irei traduzindo trechos do que ele nos quer dizer:

 

   Já houve quem dissesse que a cozinha japonesa não é coisa que se coma, mas coisa que se contempla. Assim sendo, vejo-me tentado a dizer melhor ainda: não só que se contempla, mas que se medita! Tal é, com efeito, o resultado da silenciosa harmonia entre o tremeluzir das velas na sombra e o reflexo das lacas. Outrora, Mestre Soseki [Natsume Soseki - 1867-1916 - foi um dos maiores escritores da era Meiji] celebrava no seu romance Kusa-makura (1906) as cores dos yokan [pasta gelatinosa da feijão encarnado e agar-agar, açucarada e com sabores a frutos vários] e, de certo modo, penso que tais cores também nos podem levar à meditação. A sua superfície tremida, meio translúcida como um jade, a impressão que dão de absorver até na própria massa a luz do sol, de envolverem uma claridade indecisa como um sonho, esse profundo acordo de tintas, essa complexidade, nada disso poderemos encontrar em qualquer bolo ocidental. Compará-los a qualquer creme seria superficial e ingénuo.

 

   Vamos então dispor, num prato de laca para bolos, essa harmonia colorida que um yokan é, colocai-o numa sombra que torne difícil discernir-lhe a cor, e ele ficará ainda mais propício à contemplação, E quando, finalmente, levarmos à boca essa matéria fresca e lisa, sentiremos a derreter-se na ponta da nossa língua como que uma parcela da obscuridade da sala, solidificada numa massa doce, e descobriremos nesse yokan que, afinal, até é um tanto insípido, uma estranha densidade que lhe realça o gosto.

 

   O caldo de miso encarnado, por exemplo, que tomamos todas as manhãs: basta olharmos-lhe para a cor para facilmente compreendermos que tenha sido inventado nas sombrias casas de outrora. Aconteceu-me certo dia que, convidado para um chá, me tivessem servido, a ferver, sopa de miso, cor de tijolo, da tal que já tantas vezes comera sem lhe prestar muita atenção; desta feita, porém, ao vê-la à luz difusa das candeias, no fundo de uma tijela da laca preta, descobri-lhe uma verdadeira profundidade e um ar mais apetitoso.

 

   É assim também com o shoyu, sobretudo quando nos servimos dele, como se faz na região de Kyoto, para temperar peixe cru, legumes confeitos ou cozidos, daquela variedade espessa que se chama tamari. Tal molho oleoso e luzidio tem melhor aspeto se visto na sombra, em perfeito acordo com a obscuridade. Por outro lado, o miso branco, o tofu, o kamaboko, os peixes brancos e todos os alimentos brancos não podem ser valorizados se se iluminar o ambiente. E, desde logo, o arroz, cujo aspeto, quando é apresentado numa caixa de laca negra e brilhante, disposta num canto obscuro, satisfaz o nosso sentido estético e logo nos abre o apetite. Esse arroz imaculado, cozido no ponto, acumulado numa caixa preta, no instante em que se levanta a tampa desta, emite um vapor quente, e cada grão brilha como pérola. Não há japonês algum que, ao vê-lo, não sinta a sua insubstituível generosidade. Aqui chegados, damo-nos conta de que a nossa cozinha se acorda com a sombra, e de que entre ela e a obscuridade existem laços indestrutíveis.

 

   Não vou aborrecer-te, Princesa de mim, com explicações pormenorizadas do que é o shoyu (molho ou tempero de soja), o kamaboko (pasta de peixe cozido a vapor), e quejandos. Desculpar-me-ás também da exiguidade de texto escrito por mim mesmo, mas a tradução deu-me muito trabalho... E penseissenti que soaria mal ser eu próprio a falar com tanta convicção da cozinha do Japão. Lembro-me sempre deste e de outros escritos quando como japonês, pois ao sabor de uma cozinha tão diferente da nossa eles acrescentam outra dimensão, espiritual talvez, num jeito bem diferente do consumismo reinante.

  
Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os Jotas festejam este ano dez de casados. Assim, João e Joana, felizes autores de três descendentes diretos, todos varões, vão passar umas férias de mel no Japão. Pediram-me umas sugestões de itinerários e estadias (o João, em solteiro, já passara uma temporadazinha em nossa casa, em Tokyo), procuraram outras também, e lá traçaram programa e percurso nipónico. Faço votos de boa viagem e feliz encantamento por uma terra que julgo conhecer tão bem quanto me foi possível e que pacificamente amo.

 

   Entretanto, dizem-me que Kamakura, cidade antiga e de muitos templos será uma das suas etapas. Curiosamente, na semana passada, os dois livros que me ajudaram a mobilar umas horas de insónia tratavam ambos de cozinha e gastronomia japonesa: Sandwich wa Ginza de, da escritora Yoko Hiramatsu (versão francesa pelas Éditions Picquier em 2019: Un sandwich à Ginza) e Kodoku no Gourmet, do mangaka Jiro Taniguchi (versão francesa pela Casterman em 2016: Les Rêveries d´un gourmet solitaire). Em japonês, kodoku significa solidão, isolamento, e Taniguchi, com guião de Masayuki Kusumi, desenhou dois livros sobre um petisqueiro abstémio que gosta de, solitário, ir experimentando a gastronomia de vários restaurantes de diversas cozinhas. Penso que, em português, um título que diria bem o conteúdo da obra seria "Deambulações e Devaneios dum Petisqueiro Solitário". Ou talvez devesse antes dizer Solteiro, em vez de Solitário, lembrado duma sonora gargalhada do Avô do Jota, o embaixador João de Deus Bataglia Ramos, há uns bons sessenta anos, em plena baixa lisboeta, quando, de passeio com ele e o filho mais velho, outro João de Deus, tio e padrinho deste Jota de que te falo, e meu querido amigo, larguei uma evidência que me houvera ocorrido: "De repente, percebi que ser solteiro quer dizer andar à solta!" Ao escrever-te esta carta, recordo-me dessa referência, creio que sem prejuízo das razões que seguidamente explano, e a pensar sugerir aos Jotas um certo almoço em Kamakura.

 

   O templo de Komyo (o Komyo-ji) é budista, foi fundado no século XIII por um mestre da seita ou escola de Jodo-shu, ou da "Terra Pura", creio eu ; ganhou fama, ultimamente, pelas refeições vegetarianas que serve a visitantes turistas. A Yoko Hiramatsu lembra-nos que shoguns antigos dedicaram este templo ao estudo, mas que, hoje em dia, é um jovem cozinheiro, Takashi Ueda, do restaurante Miyokawa, conhecido em Kamakura, o autor e diretor das ementas respeitadoras das regras dietéticas e culinárias budistas que são servidas no templo. Apesar da sua juventude, o chefe Ueda é um mestre na preparação do caldo budista, arte básica daquela cozinha. Diz ele que manda vir de Hokaido, no norte, as algas kombu, e do Kyushu, no sul, os cogumelos secos shiitaké. "Para o caldo, utilizo meia centena de algas e uns noventa cogumelos. Na cozinha budista, é costume preparar-se um caldo gostoso e rico que sirva depois para uma série de pratos, desde sopas a guisados". [Sabes bem, Princesa de mim, porque já provaste, que também eu me entretenho, por vezes, a fazer uns caldos de cogumelos variados e dentes de alho, a que junto folhas de espinafre ou agriões, e um fio de azeite, para uma abençoada sopa!]

 

   A Yoko descreve-nos a "Ementa do Exegeta" do chefe Ueda, que ela provou, para saudar a Primavera, em fins de fevereiro. Traduzo:

 

      Prato liso: feijões pretos, confeito de legumes da horta do Komyo-ji, gengibre "myoga" com vinagre doce, favas "à jade".

 

      Prato fundo: pele de tofu, taro, beringela descascada, algas hijiki com massa de glúten, ervilhas.
      Prato liso: rolo de pele de tofu fresco com pepinos e acompanhamento, flores de wasabi.
      Prato liso: tempuras budistas (angélica do Japão, beringela, abóbora menina).
      Taça: feijão verde em caldo me "miso" e sésamo.
      Tacinha: tofu com sésamo (wasabi e molho de soja perfumado).
      Tijela de arroz com legumes.
      Pires: três legumes em salmoura.
      Tijela de sopa de batata doce (batata doce, "daikon", cenoura, lâminas de tofu frito, bardana, alho porro).

 

   A escolha dos legumes e flores presentes obedece ao propósito de configurar a ementa à celebração do advento da Primavera, que os filhos do Império do Sol Nascente iniciam na segunda metade de fevereiro. Assim, também a decoração dos pratos e taças em que tudo é servido se inspira de imagens e símbolos da estação em que a natureza parece renascer. Este princípio aplica-se também nos restaurantes e refeitórios que não fazem cozinha budista nem sequer vegetariana.

 

   A oração antes da refeição vem escrita no invólucro dos pauzinhos para comer, e reza assim: 

 

      Recebemos este alimento
      No respeito dos benefícios da natureza
      E com gratidão pelo trabalho que foi feito.
      Após dez encantações
      Comecemos o repasto.

 

   A ação de graças está sempre presente nas refeições japonesas, faz mesmo parte essencial da devoção xintó-budista à natureza e ao mundo todo. O nosso "bom proveito" ou " bom apetite", pronunciado no início de qualquer refeição partilhada, diz-se "itàdàkimás!" em japonês, isto é, "demos graças!"

 

   Acabada a mesma, os convivas, de mãos postas para orar - e, nos mosteiros budistas, a convite de um monge assistente, que apenas aparece antes e depois do ágape - recitam esta reza:

 

      Terminada a nossa refeição, com o espírito e o corpo satisfeitos
      Retomamos as nossas atividades
      E comprometemo-nos a honrar este dom.
      Recitemos dez encantações
      Para agradecer este repasto.

 

   Não concluas, Princesa de mim, que ação de graças, respeito pela natureza e pelo trabalho humano, tal como a prestação de honras aos produtos consumidos, são exclusivos do budismo vegetariano mais rigoroso ou de qualquer religião ou filosofia. Na cultura nipónica, o ser humano é indissociável da natureza que o cria e da qual depende. Vou trazer-te uma curiosa ilustração, traduzida do "Sanduíche em Ginza" da Yoko Hiramatsu, que relata a sua experiência de um almoço de tsuki-nabe, em Hira-Sanso, na região de Shiga, a noroeste de Kyoto. São curtos trechos, mas muito elucidativos:

 

   O senhor Matsubara, caçador, diz-me que, «no Inverno, os ursos são três vezes maiores do que no Verão, porque têm de se preparar para passar três meses sem comer nem beber. As bolotas são o seu alimento preferido. Da Primavera a meados do Verão, comem amoras e também se alimentam da seiva dos cedros e carvalhos». O urso é o mensageiro da montanha, o servo da floresta. Eis, sem dúvida, o que confere à sua carne delicadeza e generosidade. A sua gordura imaculadamente branca e luzidia é a banha das bolotas e das árvores...

 

   ... Na manhã seguinte, no coração do Inverno, a estalagem de Hira-Sanso está banhada de uma luz muito terna. Ao longe, os montes estão envoltos em bruma matinal. Na floresta recôndita, os ursos estão certamente adormecidos, todos enrolados. Ontem, o senhor Ito explicou-me a origem do "tsuki-nabe", o "cozido de urso":

 

   «O urso come-se quando neva, antes da eclosão das flores na Primavera. Fui buscar um caracter à trilogia neve, lua, flores - tão cara a poetas e pintores - e escolhi tsuki (lua) para dar nome a este prato».

 

   Ontem, o urso, trazendo consigo a terra de Hira, penetrou-me no corpo. Comer seres vivos é uma maneira dos humanos marcarem o seu respeito pela natureza, de lhe exprimirem gratidão, de acompanhá-la. Senti-o profundamente.

 

   Ando a matutar, Princesa de mim, a divagação, em próximas cartas, por vários temas referentes à gastronomia japonesa, quer de índole religiosa ou filosófica, quer a tradições e superstições populares, quer, ainda, ao calendário e estações do ano, como a estéticas e etiquetas, à literatura e às artes plásticas e decorativas... A arte da mesa é, na verdade, uma festa contínua, um banquete de reunião da cultura nipónica. E como pensei em sugerir aos Jotas dois restaurantes especializados em kaiseki (dois ryotei), apenas lembro que tal estilo de refeição em 12 a 14 pratos os escolhe e dispõe atendendo a diversos tipos de culinária, de modo a contrastar paladares. Já te escrevi sobre isso, e creio que lhe fiz um apontamento para o meu Fomos em Busca do Japão. O primeiro desses ryotei, o Nanzen-ji Hyotei, situa-se em Kyoto Oriental, na zona do templo de Nanzen, quase visita obrigatória. O outro, o Waranji-ya, também em Kyoto, já foi por mim descrito numa das cartas para ti, com uma recordação do grande escritor Junichiro Tanizaki: Os compartimentos particulares do Waranji-ya são salinhas de quatro tatami e meio (+ ou - 7m2) em que o toko-no-ma e o tecto têm manchas escuras, dando uma impressão de escuridão que nem um candeeiro elétrico consegue totalmente eliminar. Mas substituindo o candeeiro por um castiçal, descubro, à luz tremente da chama, que as lacas ganham reflexos profundos e densos como pântanos. Eis um encanto novo que nos deixa compreender como os nossos antepassados, ao descobrirem esse unto a que chamamos laca, se tinham deixado encantar por esse lustro das cores do utensílios, e que tal não fora certamente obra do acaso.

 

   Mas se, sempre em Kyoto, a par ou em vez de uma refeição de luxuoso requinte, os nossos Jotas - ou tu, Princesa - quiserem, antes ou também, descobrir o espírito culinário zen, vegetariano e rigoroso, poderão ir até ao Isuzen, no mosteiro Daitoku-ji, na zona norte da cidade, onde o almoço lhes será servido em teppatsu. As teppatsu são malgas de ferro, iguais às que, em tempos idos, os monges levavam para pedir esmola.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não tenho prestado muita atenção ao reacender da polémica acerca do chamado celibato sacerdotal, certamente por já me ter cansado tanta discussão em quarto fechado (huis clos? conclave?) sobre uma questão que alguns teimam em referir, quer essencialmente, quer sistematicamente, a um estatuto especial, para não dizer sobrenatural, dos presbíteros e epíscopos - que, afinal são só ministros ou servidores da Igreja ou assembleias de cristãos - de forma a que não seja colocada, nem debatida no seu contexto próprio que é o da preocupação e providência pastoral.

 

   Aliás, um número crescente de teólogos, como já te disse, vai descobrindo ou apenas recordando que, no cristianismo, o único sacerdote é Jesus Cristo, sendo a função sacerdotal propriamente dita atribuída ao povo dos batizados, mormente na celebração da memória de Cristo pela comunhão eucarística. E os exegetas neotestamentários reconhecem que, nos próprios textos bíblicos canónicos, a designação de sacerdote não se aplica aos ministros dos sacramentos e do culto, mas apenas ao conjunto dos batizados. Assim, os textos testemunhais das comunidades da Igreja nascente - que não foi institucionalmente fundada por Jesus, mas vai medrando pela profissão e celebração da memória de Cristo -, Atos e Epístolas, dão fé de que os ministros (diáconos, presbíteros e bispos) são eleitos pelas próprias assembleias, nunca são chamados sacerdotes e são, muitas vezes, casados. Já te citei, em carta passada, o retrato ideal que São Paulo taça do bispo, em carta a Timóteo, antes ainda de se estabelecer a distinção entre epíscopo e presbítero, e com exigências muito próximas das pedidas aos diáconos:

 

   Confiável é o ditado: «Quem aspira ao episcopado, deseja um excelente ofício.» É preciso que o bispo seja irrepreensível, homem de uma só mulher, sóbrio, pudico, respeitável, hospitaleiro, didático, que não seja bêbado nem espancador, mas gentil, não violento, nem seja amante do dinheiro; que governe bem a própria casa, mantendo os filhos em submissão, com toda a dignidade: pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da assembleia de Deus? (1ª a Timóteo, 3, 1-5, tradução de Frederico Lourenço)

 

   Este, noutros passos, como mais trechos do Novo Testamento, também fazem alusão a mulheres, sem qualquer intenção ostracista, nem sequer exclusivista, o que, nesta minha carta escrita na conjuntura de uma certa polémica, me recorda um passo curioso da já tão sabida argumentação de Joseph Ratzinger no texto que é apresentado como seu   -  pior : como de Bento XVI, quando sabemos que a Igreja Católica tem só um papa, e a figura de papa emérito não tem sentido algum - incluído no livro publicado por ou com o cardeal Sarah. Deixo a palavra a Jean-Pierre Denis, diretor do semanário católico francês La Vie, que não será propriamente meu companheiro de pensamento sobre todas as questões:

 

   Leia-se então o famoso artigo. Nele encontramos a precisão do pensamento, a força da argumentação e a limpidez da escrita que foram timbre dos artigos do professor Ratzinger para a revista Communio. Ler esse texto é ter um momento de leitura feliz. É breve - umas quarenta páginas, depois de deduzidas longas auto citações, como se a oficina do pintor tivesse sustentado a mão do mestre. Mas não há dúvidas quanto ao fundo, cem por cento ratzingueriano.

 

   O papa emérito defende o celibato dos padres sublinhando a articulação entre o Antigo e o Novo Testamento. O culto católico é simultaneamente crítica e ultrapassagem em Jesus do culto do Templo. De facto, em muitas religiões, o exercício do culto está ligado à abstinências sexual. Mas esta é funcional, e apenas dura para o exercício do culto. Ora, para o padre católico, o compromisso é total, simultaneamente permanente e definitivo. De funcional, a abstinência passa a ontológica. Ratzinger acompanha a sua reflexão exegética com recordações da sua mocidade. A sua vocação foi um dom total. Não podemos deixar de nos comover com tal cultura e tal testemunho!

 

   Evitando fazer ataques ad hominem, não posso deixar de observar que qualquer vivência pessoal pode ser apresentada como exemplo a seguir, ou mesmo proposta ou incentivo a comportamentos semelhantes. Mas não me parece que sirva para definição nem, menos ainda, imposição de regras obrigatórias de conduta, como qualquer norma de direito positivo, mesmo canónico. No caso das condições exigíveis para o exercício de ministérios religiosos de comunidades cristãs, aliás, os próprios textos paulinos as enunciam, sem que elas sequer incluam a vocação à castidade total, a tal que, aliás, São Paulo todavia enaltece noutros passos das suas cartas, sem todavia deixar de prevenir - nota bem, Princesa de mim - que será preferível o casamento à prática de atos sexuais ilícitos. Tudo isso, afinal, deve ser objeto de bom senso, de prudência (o tal amor sagaz que sempre refiro), e de uma ação pastoral atenta e amiga dos fiéis e suas assembleias.

 

   O celibato eclesiástico, por outro lado, apenas começou a ser obrigatório com a reforma gregoriana do século XI e, definitivamente, com o Concílio de Trento, no XVI, durante o qual o nosso São Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e padre conciliar respeitado, defendeu, lembrado dos seus padres isolados nas serranias do Barroso, que não se impusesse tal obrigação. Até lá, só as várias vocações eremíticas e as regras das ordens religiosas abraçavam tal mandato, como parte de um projeto voluntário de vida chamada consagrada. E entre esses "consagrados" e "consagradas", a maioria não recebia, ordens de habilitação para o exercício de ministérios sacramentais e cultuais, confiado aos clérigos, sobretudo ao clero dito secular (por viver no mundo, entre as gentes). A título de mais uma curiosidade, lembro-te aqui algo que te contei em cara antiga: a prática da confissão auricular foi, durante muito tempo, exercida apenas por monges (inicialmente, creio, por monges russos e, na Igreja do Ocidente, depois, por irlandeses), nem sempre ordenados. Eram ouvintes de confissões e medianeiros do perdão divino, não por possuírem ordens sacras, mas por serem considerados homens santos.

 

   Muitos institutos e normas da vida da Igreja são fruto de circunstâncias históricas e culturais, resultantes, assim, não só de interpretações dos textos bíblicos de sua referência, mas de leituras diversas dos sinais dos tempos. Ao recordar estas contingências, estou evidentemente a manifestar algum espanto por ver, em pleno século XXI, uma argumentação sustentada por máxima misoginia primitiva, pela ideia de que a mulher (em razão da sua menstruação) e o ato sexual (esse, sim, ontologicamente cocriador) são poluidores da pureza exigida pelo culto divino... Tampouco entendo como, falando de sacerdócio e articulação do Antigo e Novo Testamentos, qualquer teólogo possa sobretudo ignorar, ou mal interpretar, este texto da Epístola aos Hebreus (10, 9-25), que transcrevo na tradução portuguesa - diretamente do grego - de Frederico Lourenço:

 

   Então disse:
   Eis que venho para fazer a tua vontade.  

 

   Suprime assim o primeiro culto para Ele instaurar o segundo. Vontade essa na qual fomos santificados, através da oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.

 

   E todo o sacerdote se apresenta cada dia para oferecer o culto, oferecendo amiúde os mesmos sacrifícios, que nunca conseguem apagar os pecados. Porém este, depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus, doravante aguardando que os seus inimigos sejam colocados como estrado dos seus pés.

 

   Pois com uma só oferta Ele tornou para sempre perfeitos os santificados. Testemunha-nos isto também o espírito santo. Após ter dito:

 

   Esta é a aliança que estabelecerei com eles,
   Depois daqueles dias, diz o Senhor:
   «Dando as minhas leis aos seus corações,
   Na mente deles eu as gravarei.
   E dos pecados deles e das suas iniquidades, não mais Me recordarei.»

 

   Onde existe perdão destes, já não existe oferenda pelo pecado.

 

   Por conseguinte, irmãos, tendo nós liberdade para a entrada no santuário no sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que Ele nos dedicou através do véu que é a sua carne; e tendo um sumo sacerdote à frente da casa de Deus, aproximemo-nos dele com um coração verdadeiro em plena segurança de fé, com os corações limpos de qualquer mancha de uma má consciência e o corpo lavado com água pura.

 

   Mantenhamos sem vacilar a profissão da esperança, pois fiel é Quem fez a promessa; e demos atenção uns aos outros com vista ao paroxismo de amor e boas obras, sem abandonarmos a reunião uns com os outros (como é costume de alguns), mas encorajando-nos.

 

   Trago-te, Princesa de mim, esta longa citação, por ser consoladora lição da novidade do ensinamento de Jesus, da Boa Nova! E, para nos ajudar a interpretar melhor a referida "articulação do Antigo e Novo Testamento" podemos ler outro trecho da mesma Epístola aos Hebreus que, como o comentário do próprio Ratzinger deixa suspeitar, tem sido, de forma abusiva, utilizado para a configuração da figura ideal e regulamentar do padre católico pelo modelo de Jesus. Remeto para a ideia expressa pelo ex-Papa de que se, noutras religiões, a abstinência sexual se impõe no período de exercício do culto, tal obrigação é apenas conjuntural, enquanto a do padre católico é um compromisso total e definitivo. Estará, talvez, aí um pecado original do clericalismo, inicialmente gerado pela preocupação em morigerar certos hábitos do clero, mas logo caindo na tentação de fazer de um exemplo de vida cristã uma norma geral que, significativamente, não só moralizasse clérigos, como lhes oferecesse um estatuto de exceção de entre os batizados. (Aliás, foi percetível a obsessão com a hagiografia eremítica e monacal). Mas, na verdade, parece-me que a tal articulação dos Testamentos - ou a sua diferenciação - resulta mais clara duma nova leitura de trechos do capítulo 8 da Carta aos Hebreus, donde depreendemos a orientação e afirmação cristocêntrica que nos conduz ao reconhecimento do próprio Cristo como único sacerdote, não só relativamente aos levíticos do judaísmo, que substitui, mas por ser o único a ser simultaneamente oficiante e vítima do sacrifício redentor. Assim, sacerdote e sacrifício são, estes sim, ontologicamente o mesmo, e a consequente posterior celebração da Eucaristia (que quer dizer ação de graças) mais não sendo que memória efetiva disso mesmo pelas igrejas, isto é, pelas assembleias de batizados e seus ministros. Traduzo eu, da versão francesa da Bíblia de Jerusalém (edição de bolso, que trago muitas vezes comigo), um trecho de Hebreus, 8, 1-5:

 

    O ponto capital das nossas afirmações é que temos um sumo sacerdote sentado à direita do trono da Majestade nos céus, ministro do santuário e da Tenda, da verdadeira, daquela que o Senhor, e nenhum homem levantou. Qualquer sumo sacerdote, com efeito, foi constituído para oferecer dons e sacrifícios; donde a sua necessidade de ter algo para oferecer. Na verdade, se Jesus estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, pois os há a oferecer dons em conformidade com a lei; esses oferecem o serviço de uma cópia e de uma sombra das realidades celestes...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em todos os passados anos da minha vida, se me têm misturado na alma sentimentos antigos e, com esses, outros sempre novos também, mais tradicionais uns, mas todos partilhados, que a conjunção especial dos astros natalícios me faz reviver por alguns dias (duas semanas) em que sucessivamente celebro a Encarnação de Deus como anúncio inicial da Boa Nova aos pobres que todos somos, o tempo novo do Ano Bom, e a data encanecida do meu próprio nascimento.

 

   Não sei já, Princesa de mim, se acaso alguma vez te confessei a profunda comunhão em que, neste período que é marco da contínua viragem dos nossos anos contados, me reúne aos vivos que já morreram e aos que ainda por cá andam, quiçá em busca dos primeiros sons dessa música que o Gerôncio de Newman - lembro-me de te lo ter referido em carta recente - torna imortal:

 

                            De tal música ao certo não sei dizer
                            Se a ouço, toco ou lhe provo os tons...
                            É só melodia que subjuga o coração!

 

    Eis que a escuto, pelo coro da nossa humana comunhão, no secreto âmago de mim, aí onde ela, a tantas vozes cantada, faz jorrar, em misterioso murmúrio, um choro tão manso como a alegre e silente ternura da vida.

 

   Sei bem - e tu tem-lo visto - que sou bastante emotivo, comovo-me inesperadamente em circunstâncias pouco propícias ao surto de manifestos do coração. Na verdade, pouca ou nenhuma gente entende o porquê e ali daquela vibração que, de tão propriamente íntima, se deveria manter silente e encoberta. Mas também sei que, afinal, nada então se revela, nem coisa alguma transparece. Choro breve, soluço, pausa ou hesitação, tudo isso apenas serve para marcar um tempo de usufruto interior de um bem maior, que nenhuma medida comporta nem qualquer aparição poderia desenhar. Quase sempre, quem assiste à minha perturbação não alcança esse milagre de ser, ele próprio também, parte duma comunhão mais profunda da nossa humanidade.

 

   Nunca é um pormenor, nem qualquer fait divers, a fazer vibrar qualquer corda invisível do meu pensarsentir. Antes é o apocalipse da humanidade comum, quando algo ou alguém consegue levar-me à clareza do invisível ou à palavra que está no princípio de todas as coisas. Sou pouco sensível às retóricas, e certamente insensível às imagens e ditos que, sem qualquer repouso meditado, nos são lançados por aqueles muitos que se vão treinando nos artifícios impressionistas da insinuação, do poder de influenciar ou, de modo mais chão, na "conquista de audiências". O que me anima no convívio com Bach, Mozart ou Stravinsky, num fado, balada, morna ou cante alentejano, Fra Angélico, Fujita, Amadeo, Jiro Taniguchi ou Kandinsky, Homero, Madame de la Fayette, Camões, Sophia, Shakespeare, Frei Luís de Sousa, Saramago ou Bernanos, não são rodriguinhos, é tão somente esse encontro profundo na comunhão da mesma condição humana. Menciono estes, cujos nomes me ocorrem no momento em que te escrevo, poderia falar-te de muitos outros, quiçá desconhecidos para ti ou, mesmo, já por mim pouco lembrados. O importante, nestes tantos encontros que me trazem as músicas, artes e letras que me acompanham pelos caminhos e estâncias da vida, é sobretudo o reconhecimento de mim também na própria diferença, como se olhares tão diversos sobre a mesma comum humanidade e sua circunstância me transformassem em próximo, no sentido mais evangélico do termo, isto é, no eu que sou ontologicamente humanidade inteira.

 

   A passagem de ano, ou seja, este passo presente do passado para o futuro que logo vai também passando, percorri-a escutando os cinco discos antológicos da morna cabo-verdiana, editados sob direção do professor universitário e antropólogo Manuel Brito-Semedo, por ocasião da Candidatura da Morna a Património Cultural da Humanidade. Aconselho-te a escuta deste documento musical excecional, apoiando-a ainda na leitura da poesia das líricas cantadas e dos textos de comentário e circunstância. Agora mesmo, neste dia de Ano Bom, pergunto-me porque tanto me comovem (mexem comigo mais intima do que fisicamente) estas músicas, em que portugueses, brasileiros e outros poderão surpreender sons, frases e entoações, que lhes serão familiares em música da sua própria terra, e eu encontro ainda lembranças de cantares (até de missa!) que ouvi em ilhas perdidas na imensidão do Pacífico.

 

   E respondo que, feitas análises e contas, talvez não se deva a minha profunda emoção a qualquer efeméride passada, a parecenças ou gosto. Antes - perdoa-me, Princesa de mim, a insistência - se radicará o meu sentir no choro antigo de todos nós, nesse grito inicial das nossas vidas, que todos soltamos, no natal de cada um de nós, a querer pronunciar aquela Palavra que, já no princípio de tudo, animou e se fez nossa humanidade, e para sempre veio habitar entre nós. 

 

   Em cartas novas hei de voltar a falar-te de Natal e do cante alentejano que, em registo feito pelo professor Joaquim Roque, em 1948, da canção entoada pelo Coro Dr. Bento Ferreira do Amaral, na Papelaria Nova Esperança, Beja, tão lindamente nos lembra o princípio do anúncio da Boa Nova aos pobres. Também o cante é já, com o fado e a morna, Património cultural da Humanidade. Hoje, para terminar esta, traduzo-te apenas um texto de apresentação de uma história aos quadradinhos de Cyril Pedrosa, francês luso-descendente, editada pela Air Libre (Paris, 2011) e intitulada Portugal:

 

   A vida é cinzenta. Simon Muchat [o protagonista, luso descendente também], autor de bandas desenhadas, tem avariada a inspiração e vai perdendo sentido à vida. Convidado a passar alguns dias em Portugal, encontra por acaso aquilo de que não tinha vindo à procura: os odores da infância, o canto dos risos de férias, o calor luminoso duma família esquecida - quiçá abandonada. Qual é o mistério dos Muchat? Porque se sentirá Simon como se viesse de nenhures? E porque vibrará ele com os sons dessa língua estrangeira, sem que perceba patavina? Respostas e mais interrogações esperam-no no decurso dessa viagem regeneradora...   ... Na fronteira da autoficção, com humor e vivacidade, Cyril Pedrosa assina uma narrativa essencial sobre a busca da identidade.

 

   Ocorre-me, Princesa de mim, esse passo de L´Être et le Néant em que Jean-Paul Sartre diz algo como " ser humano é desejar ser Deus"... Isto, dito e escrito por alguém que era ateu confesso e definia o existencialismo como humanismo - já que, para ele, a existência humana é o devir do ser humano, pois é nessa existência que nos vamos fazendo (donde a importância fulcral da liberdade) -, sublinha, a meu ver, a essencialidade própria da busca da identidade.

 

   E Emmanuel Levinas, filósofo judeu, nascido na Lituânia em 1906, estudante na Alemanha, introdutor da fenomenologia husserliana em França, país onde se naturalizou em 1930 e foi universitário, definia a diáspora como resignação, un renoncement foncier à une destinée, tal como não considerava Israel como a terra prometida, porque as escrituras nos levam bem mais fundo do que o solo...   ...A pessoa é mais sagrada do que uma terra. Para esse também migrante e judeu sempre, que se tornou amigo de São João Paulo II, a experiência fundamental da metafísica é o encontro do outrem, pelo que a ética é a filosofia primeira.

 

   A questão das migrações humanas e, sobretudo, do acolhimento e convivência do outro (do nosso próximo, assim devemos pensar) é fundamentalmente a interrogação da nossa identidade de comum humanidade. Quando pessoas em situações de abandono ou desespero de causa atravessam aflições e privações, muitos riscos, para irem bater à porta de outros seres humanos, não vão movidas apenas por fatores circunstanciais ou necessidades imediatas e urgentes. Na verdade, partem em demanda da igual dignidade que as identifica como seres humanos. E a nós também, pois não há humanidade possível sem comunhão.

 

   Neste quinto de janeiro, ao cumprir-se mais um ano de mim por cá, fecho esta carta para ti, Princesa, companheira de memórias cheias de vozes e de silêncios. Bem hajas!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Achei, num destes meus passeios por livros e mudanças de ares, um trecho curioso de uma homónima de minha Mãe, Germaine Necker, mais conhecida por baronesa ou Madame de Staël-Holstein, constante do seu De la Littérature, publicado em 1800:

 

    A glória dos grandes homens é património de um povo livre. Depois da morte deles, todo o povo  herda. O amor da pátria é só composto de lembranças.

 

   Aconteceu-me esta manhã, a 4 de dezembro de 2019, quando sozinho começava, pelo sexagésimo ano seguinte à morte de meu Pai, a celebrar a sua memória, neste dia do seu aniversário natalício. Assim vou vivendo estes meus hábitos de perenes encontros.

 

 Assim também, com sucessivos obituários, se vai enchendo este meu calendário litúrgico, deixando-me a cismar que à crescente falta de dias livres de celebrações próprias, chamados feriais, corresponderá certamente uma qualquer contagem decrescente do meu tempo presente. Não me perturba, até me faz sorrir com aquela pontinha de ironia que, graças a Deus e sem mérito meu, me foi apimentando o paladar da vida. Mas também receio que as minhas repetidas elucubrações à volta dos temas da presença e da ausência, do ser que, para além da sua circunstância - em que se percebe como relação -, ainda não sabe bem o que é, a não ser que "está p´ràqui", te possam fatigar a leitura destas cartas. Apesar da fé que sempre nos alimenta, porque, na humildade da nossa condição, e conhecendo a nossa ignorância, aguardamos o Apocalipse, a revelação final de Quem é tudo em todos. 

 

   Entretanto, lá se vão paulatinamente convertendo e sobrevivendo em lembranças os nossos afetos, transformando os nossos convívios em contas de um rosário de saudades - que se rezam baixinho e na nossa alma ganham uma grandeza nova. Sem darmos bem por isso, vamos nós também trilhando já caminhos de outra vida e entrando num não-espaço-nem-tempo, absorvidos por poderosa luz que nos acende olhares de infinita intimidade. Sem sabermos bem por onde e aonde vamos, estamos certos de percorrer o itinerário que nos conduz ao segredo do nosso encontro. 

 

   E aqui recordo agora um poema de São João da Cruz, que traduzi e te enviei há poucos anos atrás, e o blogue do CNC publicou no 1º de janeiro de 2017: Noite Escura da Alma. Afinal, talvez nos fale desse percurso que vamos fazendo pela margem calada da nossa vida. Fugindo da noite escura para a claridade adivinhada de um novo dia... Mas a luz que ilumina esse caminho interior e secreto é, diz-nos o místico carmelita, a chama do coração que em nós arde, mais forte e clara que o sol meridiano. Silenciosamente irá, na noite escura, a nossa alma repousar entre açucenas. Itinerário que nos leva ao incessante convívio com esses vivos a que chamamos defuntos. Falo de convívio, e bem digo, Princesa de mim, posto que com eles também eu vou vivendo, deles recebendo o alento para operar, com os outros mais habitantes deste ainda tempo finito em que me encontro, obras de justiça e de paz que só a alegria de uma esperança comum poderá sustentar. Eis a nossa fé. A nossa comunhão.

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Muitos consideram Friedrich Hölderlin o maior poeta germânico. Pobre de mim, nunca fui adepto de tabelas classificativas de artistas, autores e suas obras, sinto-me bem melhor saboreando apenas o diálogo invisível que me abrem esses outros ares que para minha saúde respiro. O meu irmão Gaëtan, artista com mui cocegueiro sentido do humor, chegou a distribuir cartões de visita que o identificavam assim:

 

Gaëtan Martins de Oliveira
Especialista em Mudança de Ares

 

   Na literatura de língua tedesca talvez prefira Rilke, Hofmannstahl, Schiller, ou mesmo Goethe, a Hölderlin. Mas hoje, mudando de ares, caiu-me sob os olhos, no gosto e no goto, um poema do Hölderlin, intitulado Die Heimat, que começa assim:

 

Froh kehrt der Schiffer heim an den stillen Strom...

 

o qual, sem rodriguinhos, abaixo, e livremente, traduzo para ti, para contigo partilhar o que será uma faceta, um instante, da minha insistente meditação, em ano de tantas mortes de gente próxima, sobre como pensarsentir essa pertença-distância-proximidade-ausência. Aliás, ocorreu-me agora que, em língua inglesa, o verbo intransitivo to long for significa ter saudades de, ou desejar ardentemente, e o seu derivado to belong to quer dizer pertencer a... Não sei porquê, talvez por me ter vindo a aconchegar à lembrança de coisas que, ditas de muitas várias maneiras, nos dizem afinal o mesmo e por isso nos soam mais verdadeiras. Ou, quiçá, por me apetecer discordar q.b. de Hegel que, na carta a Niethammer, em 1808, pretendia que a realidade não resiste à revolução do reino das representações. Prefiro pensarsentir, com Novalis, que quanto mais poético algo for, mais real é. A arte, literária ou plástica, - creio eu - está mais junto ao real precisamente porque consegue dizer, simultaneamente, algo e o seu contrário, não exclusivamente numa perspetiva dialética, pois pode fazê-lo por tempos e modos diferentemente inspiradores e entendíveis, ou seja, a arte não tem de representar isto ou aquilo, de dizer o que é, de que se trata, surge apenas como apocalipse ou revelação das potencialidades das coisas, precisamente por catalisar as disponibilidades e os alcances da nossa escuta, do nosso olhar. Os nossos passeios pelas obras que outros partilham connosco são autênticos percursos de encontros e mudança de ares. Mesmo quando vamos ter, no século XIX, com um autor romântico alemão.  

 

A Minha Terra
Por silente corrente regressa o marinheiro,
terminada a safra nas ilhas tão distantes;
assim também gostaria eu de voltar à minha terra
se tanta riqueza colhesse quanto as dores sofridas.

 

E vós, margens queridas em que outrora fui criado,
podeis vós sossegar meus males de amor e prometer-me,
arvoredos da minha mocidade, que no meu regresso
encontrarei ainda aquele meu repouso?

 

Junto ao ribeiro fresco onde ondulações brincavam,
e ao rio em que barcos deslizavam, em breve estarei.
Bem cedo vos saudarei, e aos montes familiares
que outrora me abrigavam e eram as fronteiras

 

veneradas e seguras da minha terra, casa de minha mãe,
onde irmãos e irmãs com amor me abraçarão.
Agasalhado de carinhos, assim cuidado,
poderá enfim meu pobre coração sarar.

 

Sempre vos soube fiéis, mas também sei
como mal de amor não tem cura instantânea.
Nem há canção de embalar, que mortais cantem,
que me possa consolar, de meu peito afugentando o mal.

 

 Os deuses que nos transmitem celeste fogo,
logo também nos trazem sagrada dor.
Que assim seja. Pois assim sou eu também 
 filho da terra, feito de amor e sofrimento.

 

   Traduzi Die Heimat por A Minha Terra, poderia também ter escrito "A Pátria" ou "A Minha Casa". Qualquer delas traduz o mesmo pensarsentir a distância como proximidade, a realidade como sonho, a saudade afinal como pertença. Só em relação somos, pertencemos sempre à Terra-Mãe e uns aos outros, e ao pensarsenti-lo vamos desenhando na nossa vida um perfil, uma presença invisível, esse mistério permanente que até é tema daquele livro que o Ricardo Reis do José Saramago lê no barco que o traz para o derradeiro ano da sua vida: QUEM. Falo-te dum livro de Saramago de que tanto gosto: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Sempre que o li e releio me sinto também mais próximo desse Fernando Pessoa - de heterónimos e outros vários mundos - que tão bem ilustra como a nossa humanidade vai vivendo algures e alhures, nem sempre arribando ou dando à costa, mas certamente trazendo e levando consigo o seu berço e a sua campa, ambos sua casa e sua terra. E sonho ainda, visão íntima dessa pátria prometida onde Quem é tudo em todos.

 

   Em tão cinzento novembro terminal, escuto essa corrente silenciosa que nos leva até à saudade essencial da vida e, com Hölderlin, murmuro:

 

So käm auch ich zur Heimat, hätt ich  assim também gostaria eu de voltar à minha terra
Güter so viele, wie Leid, geerntet. se tanta riqueza colhesse quanto a dor sofrida.

 

   Outrora, já o nosso Bernardim Ribeiro contara uma vida em que, menina e moça, me levaram de casa de meu Pai. Eis um percurso de saudade, eis a nossa vida afinal. A única riqueza que nos compensa a dor é essa saudade acumulada que sustenta a fé, a fazer-nos entender o alcance duma promessa inata, cujo cumprimento é ainda invisível, porque pretende-lo, agora já, seria cativarmo-nos. Como disse o António Ferro: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto / e agora quando me sinto / é com saudades de mim. A saudade absoluta é uma porta interior aberta sobre um infinito passeio para muito além de nós. Os retratos do Gaëtan - os seus autorretratos - constroem um percurso pelo seu labirinto íntimo, são passos ou instantes de uma busca que, ainda incompleta, esgotou o seu tempo e chegou enfim ao destino em que já tudo se lhe descobre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O blogue do CNC entendeu que e reedição da carta que segue anexa à presente - e foi escrita há uns anos, e por ele publicada a 2 de agosto de 2015, quando eu, feito heterónimo, redigia correspondência de um tio meu para outra Princesa, isto é, uma Princesa dele  -  poderia ser um complemento de leitura a uma crónica do Professor Anselmo Borges, publicada, no Diário de Notícias e no mesmo blogue, a 12 e 13 do corrente, intitulada A Pena de Morte e o Inferno.  

                                                               

   Acontece que deparei com os textos que acima refiro, em certo dia desta semana (2ª de novembro de 2019) que me dera umas horas para escutar o oratório The Dream of Gerontius, de Edward Elgar, magnífica peça musical composta para um texto escrito pelo cardeal John Henry Newman, lá para finais do século XIX. O registo de que disponho deve-se, além dos três solistas (a mezzo Catherine Wyn-Rogers, o tenor Andrew Staples e o barítono Thomas Hampson), ao Staatsopernchor Berlin e ao RIAS Kammerchor, todos com a Staatskapelle Berlin, sob a direção de Daniel Barenboim. Não sei porquê - o que, aliás, me sucede com frequência -, talvez pela força da música, penseissenti a peça inteira e todos os momentos em que me envolveu, como uma e poderosa mensagem, a dizer que o valor divino do humano nos leva a celebrar a nossa vida como inesgotável oportunidade de renovação, como contínuo convite a uma conversão que sempre nos surge a ser destino nosso.

 

   Por isso mesmo há tantas maneiras de afirmá-lo e, todavia, o que diz o japonês Kenzaburo Oe, o anglo católico cardeal Newman, o tio meu heterónimo e o douto filósofo Anselmo Borges me parece indivisível na sua própria simplicidade: a vida humana, ela própria, é a quintessência da sua dignidade que se consubstancia nessa mesma vida. Nos escritos vários que nestes meus textos vou referindo ou citando, a consideração da vida humana pressupõe sempre pensarsentir que, independentemente das fraquezas e faltas de cada um, do maior ou menor poder coercivo de qualquer circunstância, a dignidade divina dessa mesma vida lhe é inata e inalienável. No Sonho de Gerôncio, ela própria é colocada já numa circunstância post mortem, em que a sua alma canta a conversão final - a pura, misericordiosa graça - como destino finalmente cumprido. Deixo-te o original inglês da lírica de Newman, acompanhado de tradução minha, feita para esta carta, apenas com alguma preocupação com encontrar palavras que nos ajudassem a meditar na nossa língua... Talvez por me ter lembrado de que me ditar poderia querer significar dizer-me, a mim mesmo, as palavras que iluminam.

 

   O sonho de Gerôncio é uma experiência onírica às portas da morte, uma vida que se redescobre na outra margem da corrente de Caronte - como se morrer fosse acordar de novo e nenhuma outra esperança ou simples expectativa pudesse ter sentido, além do cumprimento da promessa inicial da vida como destino. Atentar contra uma vida humana, seja como for, é apenas soberba loucura. Qualquer vida está recolhida no segredo de Deus.

 

   A abrir a parte segunda do oratório, a alma de Gerôncio canta:   

 

I went to sleep and now I am refreshed,
A strange refreshment : for I feel in me 
An inexpressive lightness, and a sense
Of freedom, as I were at length myself
And never had been before. How still it is!
I hear no more the busy beat of time,
No, nor my fluttering breath, nor struggling pulse;
Nor does one moment differ from the next
This silence pours a solitariness
Into the very essence of my soul;
And the deep rest, so soothing and so sweet, 
Hath something too of sternness and of pain.

 
Another marvel: someone has me fast 
Within his ample palm; 
A uniform
And gentle pressure tells me I am not
Selfmoving, but borne forward on my way.
And hark! I hear a singing ; yet in sooth
I cannot of that music rightly say  
Whether I hear, or touch, or taste the tones.                         
Oh, what a heart subdoing melody!

 

Fui dormir, dormi, e fiquei fresco,
Com bem estranha frescura: pois então me senti
Tão indizivelmente leve e livre  
Que nem de me cuidar soía,

Como dantes. Mágico silêncio este!
Já não ouço o reincidente bater do tempo,
Nem o meu respirar vibrante  e agitado pulso;
Já nenhum momento é diferente do próximo.
Este silêncio derrama soledade
Na quintessência da minha alma.
E a repouso tão carinhoso e doce
Não falta severidade e pena.


Maravilha nova: alguém me agasalha

Na palma da sua mão;
Uma pressão
Uniforme e gentil diz-me que não vim por mim
Mas que, a caminho, me trouxeram para     aqui.
Escutai bem! Ouço cantar; mas, na verdade,
De tal música ao certo não sei dizer 
Se a ouço, toco ou provo os tons.
É só melodia que subjuga o coração!

 

   Tal como, tantas vezes, no decurso desta vida, nos vemos perdidos, assim talvez seja ao descobrirmo-nos do lado de lá. Mas algo nos dirá que não chegámos ali por nossa auto moção, e que uma qualquer música, inaudita ainda, nos encherá e guiará o coração.

 

Camilo Maria

                

PS.- Queres então abrir o texto que partilho?

 

Camilo Martins de Oliveira

FELIZ NATAL DE ANO BOM E FUTUROS MELHORES!

 

   Pela sua própria etimologia latina, e na linguagem corrente, profecia quer dizer predição, quase como adivinhar o futuro. Todavia, a figura do profeta, bíblica e não só, desenha-se mais pela sua inspiração divina do que por habilitações de pitonisa. Nesse sentido, a profecia é sobretudo o anúncio ou transmissão de desígnios divinos sobre a vida e a história dos seres humanos. Não tem termo certo, é sempre o início de um percurso de conversão, a partir de uma nova leitura dos sinais dos tempos. Assim também, as narrativas bíblicas, tantas vezes inspiradas ou copiadas de tradições antigas, serão mitos, tal como os seus respetivos originais. Mitos, sim, mas não no sentido de fantasias pretensamente reais. Antes como interrogações sobre a nossa humana condição. Frei Philipe Lefebvre, frade dominicano e professor de teologia e exegese bíblica na Universidade de Friburgo (que é, como outras na Suíça, uma universidade do Estado) realça bem que há pais assassinos na Bíblia, como nos mitos, como na vida real.

 

  Resumindo, a questão não é saber se tal caso aconteceu, mas se a parábola mítica nos faculta uma palavra mais fundamental sobre a condição humana. Respondo que sim e que, por isso mesmo, os autores bíblicos retomaram e utilizaram os mitos por conta própria. 

 

   A celebração do Natal de Jesus é, profeticamente, em cada aniversário, o anúncio da glória celestial de Deus que se irá realizando na terra pela boa vontade dos humanos na construção da justiça e da paz. Na verdade, cada festa desse Natal é afinal um apelo, uma vocação, a que tudo façamos para que o novo ano que se aproxima seja, como lhe chamavam os nossos antigos, ANO BOM... e assim também sejam todos os mais em tempos da nossa vida. Eis o que quero acentuar quando dou um jeito especial aos meus votos e desejo Feliz Natal de Ano Bom: peço que este Natal seja nascimento de um Ano Novo Bom e com vista para outros, melhores ainda, que hão de vir! Faço votos de um Feliz Natal de tempos novos!

 

   Talvez por pensar e senti-lo tanto assim este ano, me ocorreu concentrar o meu olhar sobre sinais dos tempos que vivemos. Dizem-nos, diariamente, os noticiários que este mundo se vai cobrindo de dramas da migração de infelizes, e, por outro lado, de greves e reivindicações de tudo e sobre o mais que houver... E à chuva noticiosa vem depois ainda acrescentar-se, mais ou menos conformemente aos variegados indignados em moda, uma invasão de comentários que falam de tudo sem o fôlego requerido por qualquer alma que queira mesmo chegar ao fundo das questões. Ficamos sem perceber porque permanecem tantas perguntas sem resposta capaz.  

 

   Dos muitos sinais que por aí se vão  intermitentemente acendendo escolhi, para esta breve mensagem de Natal, os muitos afrontamentos que se agitam em redor da distribuição dos rendimentos e, nas avaliações de orçamentos de receitas e despesas públicas, sobre a questão do jurado equilíbrio das contas ou da fugidia sustentabilidade da segurança social. Conflitos que, aliás, surgem num cenário geral de desigualdade económica e social, mesmo em sociedades afluentes ou relativamente abastadas, cujas populações já não padecem situações de grande pobreza e necessidade, violência infligida, esquecimento ou ostracismo. Na verdade, nos países ditos desenvolvidos ou industrializados, as contendas mais comuns e frequentes traduzem sobretudo contradições inerentes ao modelo em voga do chamado capitalismo liberal. A desenfreada promoção do consumismo  -  fomento de compras muitas vezes supérfluas para aumentar lucros do capital e seus agentes, correndo até o risco da facilitação do crédito ao consumo que já tantos "buracos" financeiros gerou  -  não tem tido apenas efeitos económicos, pois atinge confusamente a própria racionalidade das opções do comportamento do mesmo homo economicus, e cria fantasiosas visões do mundo, da vida, do futuro, que cativam as mentes e comprometem a liberdade interior de cada um e a boa relação de pessoas e comunidades. A outra face dessa bússola moral e social em que se tornou a prossecução do lucro, é já hoje a generalizada orientação das gentes para o máximo usufruto e conforto dos bens oferecidos nos mercados. Consequentemente, o desejo de encontrar e garantir maior aumento das suas posses, através do crescimento máximo dos seus rendimentos próprios. Só marginalmente, na periferia dos debates próprios do sistema político, social e económico, vem finalmente ocorrer qualquer chamada à responsabilidade pública e coletiva - preferiria chamar-lhe comunitária - na solução de situações puramente humanas de abandono por desleixo. Os cuidados paliativos que tantas organizações civis e muitas pessoas generosamente providenciam são, para além do seu mérito próprio, mais gritos de alerta do que reformas eficazes de um sistema político e social, cuja cultura inspiradora e envolvente temos de rever urgentemente. Para um cristão, por exemplo, o tempo do advento e a celebração do Natal anunciam claramente que o Evangelho de Jesus é o anúncio da Boa Nova aos pobres.

 

   Perante tantas insolúveis questões sobre concórdia, justiça e paz nos sistemas vigentes, impõe-se que saibamos rever o atual modelo económico e social e, inspirados pela profundíssima humanidade do nascimento de Jesus, Deus e Palavra feito carne, e que trabalhemos pelo bem por vir.  Bem lembrados ainda das desutilidades, deseconomias e mais desastres que tal sistema vai provocando, sobretudo nas regiões do globo em que se esquecem as pessoas pela ganância do proveito, e se exploram riquezas naturais, sem cuidar dos prejuízos que, em consequência, possamos causar à casa de todos nós. As reformas necessárias a um sério esforço de melhoria da situação global, que inevitavelmente passará pelo estabelecimento da justiça económica e social não são essencialmente problemas técnicos a resolver. Antes radicam, devem radicar, em considerações humanistas e fortaleza moral. É hora de escolhermos, contra o princípio do lucro ou da riqueza como medida de todas as coisas, uma economia humanista em que seja o ser humano a nossa medida e a nossa bússola. Como já disse o Prof. Adriano Moreira, pobres de nós que substituímos o valor pelo lucro.

 

   Façamos votos de que o carinho que reunir, na noite deste Natal, tantas famílias tradicionais - e tantas outras que a emoção do momento ou a cultivada generosidade do amor fraterno conseguir congregar - nos aqueça, a todos nós, o coração. E que esse maravilhoso instante de comunhão não nos deixe esquecer o cumprimento do dever cívico de trabalharmos, com inteligência e vontade, pela realização dessa profecia que nos anuncia ser glória de Deus o anúncio da boa nova aos pobres. E pobres somos todos, sobretudo em tempos tão carenciados de solidariedade e da inteligência e boa vontade necessárias à sua construção.

 

   Mando-vos um abraço a dizer Feliz Natal!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira