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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há noite que me dê sono antigo, um daqueles de acordar só de manhã, cedo, bem cedo, como tanto gostei ao longo da vida. Hoje, por muito que sossegue o espírito e em mim acalme as agitações dos dias findos, lá vou despertando, agora e daqui a pouco, para os sonhos que me assaltam. Como se entrasse em cena, para vir desempenhar um papel que talvez tenha aprendido, ou devesse saber de cor(ação), mas sempre me deixa entregue àquela qualquer ilusão ou expectativa cujo repentino acordar-me, mais do que lembrar-me, me interroga. Pois que, de todos os sonhos que recordo, ainda que muito nebulosa ou vagamente, apenas sei que insistem em chamar-me ao passado ou, talvez assim te lo diga melhor, aos passados desta minha vida...

 

   Hoje, surpreendentemente, à hora de alba, dei comigo a pensarsentir os movimentos celestes, e a Terra neles, e eu, na ilusão de que o universo gira à volta desta esfera em que pouso os pés, a dar voltas, afinal, inconsciente da rotação e translação do planeta em que sou suposto viver. Mas, todavia, sejamos clarividentes, são esses movimentos circulares ou parabólicos ou algo assim, com as suas oscilações, que nos vão contando o tempo, tal como vão gastando as superfícies do nosso chão e dos nossos horizontes. E nesse mundo onírico em que, sem querer nem sequer desejar, o meu pobre de mim mergulhara, emergiu, como imperativo profético, o sentido pensamento de uma qualquer revolução nada mais ser do que retorno ao ponto de partida. O tempo que nos desgasta e gasta será circular, para nos lembrar a promessa de um reinício sempre desejado. Mas, para que este aconteça, o próprio tempo que agora conhecemos - ou julgamos conhecer - terá de ter chegado ao termo da sua provisória necessidade. Estranho fado, o da humana condição: nascemos no tempo finito, para, quiçá, viver no sem fim de um universo que se expande...

 

   E já digo agora, como canta o fado: Mas isto, meus senhores, foi a sonhar... Só que, digo eu, experientemente, sonhar nem sempre é fácil. Muito menos quando, no espaço-tempo finito, ainda que mal definido e sempre ambulante, o nosso sonho nos leva à cabeceira do infinito. Onde, subjetivamente e sempre sós, tentamos um vislumbre... A qualquer ser humano a morte desgosta tanto que, a bem dizer, não é que ele não goste de morrer mas, verdadeiramente, não quer. E é tal, mais do que desgosto, fúria à morte que nos tem levado a todas essas experiências de prolongamento da vida - hoje tanto em moda - nem que se tenha de congelar um cadáver para que este aguarde a hora em que a ciência humana saiba tirá-lo de tão frio purgatório para novamente o animar...

 

   Essa coisa de nos recusarmos à nossa própria finitude ganha por vezes força maior do que a nossa esperança racional, deixa de ser ponderável, mas é tão somente reação exacerbada a qualquer adivinhado desafio de infinita omnipotência. No teatro onírico de que acima te falo, Princesa de mim, ela representa-se, no concerto astral, como viagem estratosférica, desejada descoberta de um desconhecido que se quer conhecer. Como nos sonhos milenários das religiões antigas, vai-se em busca de um encontro, de um abrigo, de uma morada que, como tudo aquilo que mais amamos, poderá ser fugidio ou inatingível, mas é, como a fé, a substância (o que sub-está) das coisas que hão de vir. Receamos aproximar-nos do sol ou das estrelas, pois que com Ícaro aprendemos como se derrete a cera dos nossos projetos e ardem as asas das nossas iniciativas. Mas tentaremos pousar num planeta, esfera apagada, estrela morta onde esperamos recuperar vida. Quiçá sem realizarmos que, afinal, voltamos à caça do efémero, esse fogo fátuo, repetido aceno do eterno. Mesmo encetada num espaço-tempo que se imagina infinito, qualquer peregrinação nossa, na nossa presente condição humana, nunca passará de uma viagem pelo finito, pela simples razão de que não podemos agora, na nossa presente circunstância, conceber a infinitude. Paradoxo essencial: o infinito, por definição mental, não tem definição possível. Por isso o místico Mestre Eckhart dizia nada para referir o Deus que, todos os dias, pensavassentia a acompanhá-lo, e o teólogo São Tomás de Aquino, autor da Summa Theologiae, afirmava que ninguém jamais vira Deus e que tudo o que ele, frei Tomás, sobre Deus escrevera era palha...

 

   Nesses saltos que os humanos vão ensaiando pelo espaço extraterrestre, vejo, depois de acordado - e talvez influenciado pela leitura de notícias sobre o esgotamento de recursos do nosso planeta - uma tentativa urgente de mudar de casa, de encontrar sítio mais acolhedor, quiçá mais abundante, farto e generoso (sonhar é ainda mais fácil, quando julgamos estar bem acordados...). Então carinhosamente me lembro da nossa Mãe Terra a pedir-nos, como a raposa ao Principezinho, a presença atenta de um amor sábio.

 

   A raposa calou-se e fixou o olhar no Principezinho: «Por favor... Domestica-me!» -  disse.
   - Bem gostaria, respondeu o Principezinho, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos por descobrir e muitas coisas por conhecer.
   - Só conhecemos as coisas que domesticamos, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para conhecer seja o que for. Compram coisas já todas prontas nos mercados. Mas como não existe qualquer mercado de amigos, os homens já não têm amigos. Se quiseres um amigo, domestica-me.
   - Que devo fazer? disse o Principezinho.
   - É preciso ser muito paciente, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco longe de mim, assim na relva. Olhar-te-ei pelo canto do olho, mas nada dirás. A linguagem é fonte de mal entendidos. Mas, dia após dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...

...

   - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
   - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o Principezinho, para se recordar.

   - Foi o tempo que gastaste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.

   - Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o Principezinho, para se lembrar.

   - Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecê-la. Tornas-te responsável para sempre por aquilo que domesticaste. És responsável pela tua rosa...

   - Sou responsável pela minha rosa, repetiu o Principezinho, para se lembrar.

 

   Traduzi o francês apprivoiser pelo português domesticar. O termo gaulês vem do latino apprivatiare, que significa tornar privado, familiar. Trata-se, provavelmente, de evolução a partir do baixo-latim, no século XI. O português também deriva do latim, mas da palavrga domesticus, que radica em domus, que quer dizer casa. Domesticar vem significar então tornar caseiro, familiar. E não será a Terra a nossa casa, sempre à espera da paciência amorosa dos nossos cuidados? O que me seduz nessas etimologias é, sobretudo, o substrato ou substância de relacionamento ou relação: afinal, quem domestica domestica-se... Encontramos assim, não uma dialética de afrontamento, mas uma de harmonização.

 

   Desta minha saída de um pesadelo onírico para um sonho de Antoine de Saint-Exupéry no deserto, em que o Petit Prince vai meditando lições de vida por planetas bem mais exíguos do que o nosso, tiro o ensinamento de que andava precisado e contigo, Princesa de mim, quis partilhar.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não te escrevo para cumprir o prometido devido. Venho fazer-te companhia, e assim também me sinto acompanhado. Escrever é não querer a solidão. Não é bem o mesmo que não querer estar sozinho, a solidão não é física, antes é sentida por essa parte do nosso humano, a tal que não sabemos exatamente o que é, e à qual chamamos espiritual. No passado, muitas vezes te disse que a solidão se me parece à morte, acontece-me pensarsentir que ela é a incomunicabilidade, essa impossibilidade de nos encontrarmos em relação. Pois, humanos, somos necessariamente em relação: cada eu e a sua circunstância. E, ainda, o invisível, o Inefável. Tomás de Aquino tinha uma oração, que recitávamos no colégio, antes de cada primeira aula do dia, e começava por esta invocação: Criador Inefável! Dirigíamo-nos ao invisível, ao inenarrável, a pedir-lhe a fortaleza necessária para enfrentar mais um dia da nossa vida, que seria, como todos os outros, mais um percurso no desconhecido, nessa realidade que insistimos em chamar futuro, apesar de não sabermos, à partida, se, como, e quando virá a existir. Não precisamos de esperar pela morte para saber que uma boa parte de nós é um mistério mergulhado noutro mistério maior. Afinal, todos os dias aprendemos que o caminho da nossa liberdade humana, movida pela inteligência e pela vontade, é o da busca incessante das nossas relações, pois só elas nos realizam e nos explicam... Sobretudo, são essas relações que nos vão ajudando a construir a Relação cujo apocalipse é o triunfo da Vida. Então também lhes podemos chamar «referências».

 

   Quando vivemos os dias e semanas sequentes à morte de um ente querido, podemos experimentar reações inesperadas, tais como nos lembrarmos de lhe telefonar, para contar um episódio, partilhar um pensarsentir, estender uma interrogação. Digo inesperadas, porque não as construímos racionalmente, de modo previsível. Por isso mesmo, pensando melhor, talvez também pudesse dizer que são expetáveis: na verdade, elas obedecem a esse impulso vital, muito profundo, essencial, que é a nossa necessidade inata de comunicação. Quiçá mesmo biológica: quem lidou ou lida com crianças pequenas, ou ainda em gestação, perceberá melhor esta minha intuição. O ser em relação é tão inicial e perseverante que até pode viver noutra circunstância. E assim chego eu, novamente, Princesa de mim, à dimensão divina do humanismo cristão, que vive na permanência do amor: Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte (1ª Carta de São João, 3, 14).

 

   Mas hoje, Princesa, vou deixar as meditações que me assaltam, para dar um passeio contigo por entre outras que me ocorreram a partir de uma metáfora do ser pessoal em ser cultural. Explico-me. Melhor: começo por deixar-te uma explicação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Queensland (Austrália), Christian Reus-Smit, no seu On Cultural Diversity - International Theory in a World of Difference (Cambridge University Press, 2018):

 

   As culturas - sejam elas estruturas mentais estratégicas, nações, civilizações, ou mentalidades coletivas - são geralmente imaginadas como coisas coerentes: integradas, diferenciadas e fortemente constitutivas dos respetivos efeitos...  ...Mas partirei de uma posição completamente diferente. Devemos começar por assumir a diversidade cultural existencial, assumindo que o terreno cultural em que a política joga é polivalente, estratificado, riscado por fraturas muitas vezes contraditórias, muito longe de estar coerentemente integrado ou ligado. Como argumenta Andrew Hurrell, «são precisamente as diferenças das práticas sociais, valores, crenças, que representam a expressão mais importante da nossa humanidade comum... O que nos torna diferentes é precisamente o que nos faz humanos».

 

   Se recuarmos a 1871, encontraremos a definição inicial de Edward Tylor: Cultura ou Civilização é todo esse complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Assim, poderemos dizer que qualquer «cultura» é a circunstância arquetípica da sociedade que se lhe refere, ou que ela envolve. Simultaneamente seu produto e sua condicionante, resulta, de cada vez à sua própria maneira, da relação como um corpo social se estabelece no seu meio ambiente - tal como, já no século XIV/XV, defendia o mouro Ibn Khaldun, de quem te falei já em cartas antigas - e, depois, do modo dialético como se for organizando, económica e politicamente. Curiosamente, o pensamento do vitoriano Tylor foi-se orientando, e até fez escola, no sentido de pretender que, assim explica Reus-Smit, todas as culturas têm características semelhantes, resultantes de causas comuns, pelo que, consequentemente, todas formam parte de uma história humana uniforme... Sem negar o alicerce comum da nossa humanidade, um dos mais famosos críticos das teses de Tylor, o norte americano Frank Boas, embora concordando na verificação de feições culturais reaparecidas em diferentes culturas (quando estudamos a cultura de qualquer tribo, mais ou menos análogas feições de tal cultura se poderão encontrar entre uma grande diversidade de povos, escreve ele no seu Race, Language , and Culture - University of Chicago Press, 1940), irá, todavia, negar vigorosamente que elas tenham necessariamente as mesmas causas : Não podemos afirmar que a ocorrência do mesmo fenómeno é sempre devida às mesmas causas e que, portanto, a mente humana em toda a parte obedece às mesmas leis.

 

   É nesse sentido que, de forma enfática, te repito, Princesa de mim, que aquilo que nos torna mais humanos é a tal diferença que faz de cada um de nós um ser outro do que todos. Sendo que o próprio alicerce da nossa comum humanidade assim nos modelou, todos e cada um, à própria imagem e semelhança de Deus. A tal que nos iguala e nos proíbe de julgar que há pessoas ou culturas superiores ou inferiores. Por isso nos disseram já que Deus é tudo em todos, e aprendemos que o paradoxo humano é o seu valor divino.

 

   Isto assente, sou levado a uma perspetiva dialética das histórias pessoais, como das dos conjuntos sociais que, no decurso do tempo nos vão congregando em movimentos que, tal como cada pessoa face às outras, nos colocam em situações de afrontamento, não necessariamente conflituosas, apesar da própria propensão a sê-lo... Por isso mesmo, tal perspetiva dialética nos poderá ensinar a melhor entender a evolução dos povos, nações, estados, culturas e civilizações, sobretudo se soubermos apanhar essa subtileza de que qualquer confronto poderá parecer-se mais ao encontro do dó com o ré - o tal que, conta António Vitorino de Almeida, gerou o mi, assim nascendo a música - do que a um catastrófico choque de civilizações, como no pesadelo do Huntington.

 

   Espanta-me muito - não só no sentido de me pôr boquiaberto, mas sobretudo por me afugentar o gosto de conversar racionalmente - a moda "viral", como hodiernamente se diz, de se proclamar o drama fatal do declínio e queda do «Ocidente», isto é, da "cultura e civilização ocidental". Pelos tempos que correm, é relativamente fácil saber-se, por aí, que as culturas em que pensamos não são propriedade de ninguém, como, aliás, exemplifica a nossa própria cultura, que outras várias geraram e variegadas gentes nos legaram... E não esqueças, Princesa de mim, que o próprio Huntington foi nebuloso na circunscrição geográfica do «Ocidente» cultural. Niall Ferguson, no seu Civilisation (2011), observa bem que a definição hoje mais conhecida da cultura ocidental, a de Samuel Huntington, no Choque das Civilizações, exclui a Rússia e todos os países de tradição ortodoxa. Aplica-se apenas à Europa Ocidental e à europa Central (sem o Leste ortodoxo), à América do Norte (sem o México) e à Australásia (Austrália e Nova Zelândia). A Grécia, Israel, a Roménia e a Ucrânia não passam no teste. Nem as Caraíbas, quando, pelo menos algumas delas são tão ocidentais como a Florida.

 

   Deduz Ferguson que o Ocidente é mais do que simples noção geográfica: Um conjunto de normas, de comportamentos e de instituições com fronteiras muito nebulosas... Sem querer agora discutir contigo, Princesa, pormenores e fatores constitutivos dessa tal ideia de «Ocidente» - coisa que quiçá farei mais tarde - deixa-me só dizer-te que, hoje em dia, o conceito de cultura ou civilização ocidental é memória histórica, isto é, entra numa categoria conceitual que nos serve de referência para um entendimento do passado. É também, e sobretudo, um mito a marcar o panorama das nossas angústias, medos e desilusões espantadas... Tal não quer, todavia, significar que esse conceito, geograficamente tão vago, seja vazio, destituído de conteúdos próprios, ideais, valores, instituições... Pelo contrário, muitos destes ainda hoje orientam as condutas de muitos povos deste mundo, nem é preciso ser-se europeu ou de raça branca, do hemisfério norte ou do ocidental para nos referirmos a esse complexo de padrões, modelos e estilos de vida a que chamamos cultura ou civilização ocidental. E mais ainda: do mesmo modo que as sociedades nórdicas e ocidentais vão adotando normas, usos e costumes de outros povos e lugares, também nestes se vai impondo uma cultura crescente (por vezes, até, um verdadeiro culto) de valores e referências a que gostamos de chamar nossos; tal como nós, quiçá infelizmente, tendemos a desertá-los...

 

   Chegamos mesmo a ser surpreendidos com inesperadas novidades : à cultura do Iluminismo atribuímos a libertação do espírito crítico entre nós, com o consequente reforço da racionalidade, o declínio da crendice e, até, da própria religião, e um triunfo progressivo das correntes agnósticas e ateístas do pensamento ocidental ; contudo, é no mundo islâmico que hoje mais rapidamente se vão afirmando correntes de opinião sem Deus nem religião, enquanto nas sociedades do ocidente geográfico se vão anichando movimentos que cultivam espiritualidades que, embora estranhas ao cristianismo, a muita gente impõem meditações e motivações da vida humana elaboradas por culturas de alhures, não necessariamente deístas, mas tampouco ateias.

 

   Niall Ferguson pergunta: Mas será verdadeiramente possível uma sociedade asiática tornar-se ocidental se adotar as regras de vestuário e comerciais do Ocidente - como faz o Japão desde a época Meiji - e como hoje, parece, faz quase toda a Ásia? Outrora, chegou a dizer-se que o «sistema-mundo» capitalista impunha uma divisão permanente do trabalho entre o centro - o Ocidente - e a periferia - o resto do mundo. Mas que se passaria se todo o mundo se ocidentalizasse? A menos que as outras civilizações - como defendeu Huntington - se revelem mais resilientes, designadamente a civilização chinesa e o Islão com as suas «fronteiras e vísceras sangrentas»? Em que medida a sua adoção do "modus operandi" ocidental não passará duma modernização superficial sem enraizamento cultural?

 

   Pessoalmente, ainda creio que, precisamente por ser variavelmente dialética (se assim me posso exprimir), a história dos povos, culturas e civilizações não é linear, nem facilmente previsível, passeia muitas cores, pela sombra e pela luz, não é verticalmente a preto e branco, ou seja, ou escura, ou luminosa... Voltarei a esta questão - tal como em correspondência passada tu e eu, Princesa de mim, falámos de inculturações e confrontos - em cartas próximas. Por hoje, permite-me que te deixe com uma orientação a que muitas vezes recorro, na edição francesa (Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, 2002) da Autobiographie e de Muqaddima de Ibn-Khaldun (Túnis,1332-Cairo, 1406), magnificamente apresentada por Abdeselam Cheddadi. Traduzo breves trechos, mas uma lição com mais de seis séculos.

 

   Ibn-Khaldun insiste em ver a história como ciência que investiga os factos, de forma crítica e procurando entendê-los com inteligência. Assim, haverá quem veja o lado de fora da história que, desse modo, se reduzirá a narrativas de dias gloriosos e de dinastias, não se dando conta de como essas narrativas nos dão a conhecer o estado das criaturas e as mudanças que afetaram as suas condições, nem de como se expandiram as dinastias e se estabeleceram na terra até desaparecerem. E haverá outros que a veem do interior, tornando-a investigação especulativa e verificação, estudo minucioso das causas e princípios das coisas existentes, conhecimento aprofundado das circunstâncias e das causas dos acontecimentos.

 

   Ia já assinar esta carta, quando deparo com um artigo de Francisco Bethendourt, professor no King´s College de Londres, intitulado Emancipação (Público, 30 de julho de 2019) e, a respeito da abolição da escravatura, lembrando que a ideia de superioridade implica visão hierárquica entre culturas superiores e inferiores que está desatualizada. E alegra-me, Princesa de mim, poder terminar esta citando esse historiador de prestígio internacional, sobre temas que tanto te referi em cartas antigas : A vantagem de uma atitude de recusa de preconceitos é facilitar a tradução de experiências alheias e produzir um conhecimento acrescido de outras culturas, nas suas formas de resolver conflitos, obter trabalho recíproco, acolher estrangeiros, estabelecer regras comunitárias, relacionar-se com a natureza, mobilizar investimento, recolher informação ou desenvolver reflexão...   ... É esta atitude de abertura e hospitalidade perante outras culturas que nos deverá estimular no presente e no futuro, em lugar de mantermos uma visão virada para um passado mitificado que ignora ruturas, lutas e conflitos entre perspetivas completamente diferentes.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei ainda explicar por que deixei a tua companhia ou, melhor dizendo, porque deixei de te levar a companhia das minhas cartas. É certo que a morte sucessiva de vários e queridos amigos - e, sobretudo, a do meu último irmão, o Gaëtan - me abalou e destruiu paredes cujo convívio, à minha volta, me protegia. Assim fiquei, não sei se entre ruínas ou se apenas só e perdido num deserto que desconhecia. Mas até os desertos - ou eles mesmos mais ainda - abrigam, na aparente e infinita desolação, oásis onde renascem e desabrocham as flores de muitas amizades. E têm sido muitas as que carinhosamente me acolhem e dão sustento, sempre mais presentes e prontas na vida real do que miragens que, por aí, se lançam aos ventos. Muitas vezes pensossinto comigo que nunca perderei essa forma temporal e terrena da esperança, que creio ser a confiança visceral no valor divino do humano, enquanto for conseguindo enxergar tantos bons samaritanos pelos caminhos das nossas vidas.

 

   São esses santos, sempre, hierofanias, manifestações do sagrado, da presença de Deus connosco no quotidiano. Jesus diria que só gente de pouca fé pedirá outros sinais, milagres e aparições, ou mais ainda, por uma qualquer eficácia de gestos mágicos sacrificiais. Mas só o amor do próximo é como um raio do divino em qualquer coração da humanidade. Li hoje (17/9/19), no jornal em linha Sete Margens, um texto de Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Moçambique), intitulado "Albino não morre, só desparece"E se fôssemos "bons samaritanos"?:

 

   ... Amar o próximo é um mandamento em qualquer tradição do mundo. Já o referi, neste espaço, quando comparei os mandamentos da "lei de Deus", de tradição católica, aos mandamentos da cultura e religião bantu, e acredito que nenhuma religião no mundo nos mande o contrário. Haverá, certamente, em cada canto deste mundo, um convite a sermos bons samaritanos.

 

   São Leão Magno, o Papa que enfrentou Átila, o Huno, diz, de modo muitíssimo melhor do que eu, o essencial dos meus textos intitulados COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS, já publicados no bloque do Centro Nacional de Cultura - e que também te enviarei, a ti e a mutos amigos - nos trechos do seu Sermão XII e da sua Carta XXVIII a Flaviano, aqui transcritos:

 

   É indubitável, caríssimos, que o Filho de Deus se uniu à natureza humana tão intimamente que não só nesse homem, que é o Primogénito de toda a criatura, mas também em todos os seus santos, está o mesmo Cristo. E como a Cabeça se não pode separar dos membros, também os membros se não podem separar da Cabeça.  

 

   E se é certo que não é próprio desta vida, mas da eterna, que Deus seja tudo em todos, também é verdade que, já desde agora, Ele habita inseparavelmente no seu templo, que é a Igreja, segundo a sua promessa: Eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos.

 

   Portanto, tudo o que o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, podemos reconhecê-lo não só na história do passado, mas senti-lo também na eficácia do que ele opera no presente.

 

... A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida da nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à nossa natureza passível, a fim de que, como convinha para nosso remédio, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, pudesse ser submetido à morte como homem e dela estivesse imune como Deus.

 

   Numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na sua humanidade. Por «nossa humanidade» queremos dizer a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que Ele assumiu para a renovar.

 

   E se, seja qual for a nossa religião, ou mesmo nenhuma, soubermos ouvir esse apelo do amor de Deus que atravessa a nossa humanidade, a de todos nós, não será só ela a renovar-se, mas toda a face da terra... O meu irmão Gaëtan será, como tanta outra gente que, por aí, vai aprendendo a olhar-se e aos outros, um exemplo de que o amor do próximo, ou seja, a atenção aos outros, não nos nega, não nos esconde, antes nos projeta e põe no nosso lugar: na «nossa humanidade», nessa natureza que o Criador desde o início formou em nós...

 

   Tal «natureza» que, de si mesmo, tão bem - e sempre tão perscrutadora e interrogativamente - foi desenhando nos seus autorretratos, procurou também, quiçá se como comunhão eucarística, nos rostos humanos que encontrava, ao longo de muitos anos, nas ceias de Natal com sem-abrigo, que servia e partilhava, de preferência a sentar-se à mesa mais rica (?) de familiares e amigos. Talvez lembrado do que Jesus dizia sobre quem era a sua família... Nunca lhe perguntei porquê. Hoje, quando já não posso ouvir qualquer resposta da sua boca, talvez escute, num murmúrio da alma, minha Princesa de mim, a história antiga de que ser humano é andar peregrinamente à procura.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS - III

   

   Continuando o rosário de observações e lembranças encetado em textos anteriores, acrescentarei mais algumas que, tal como sempre, procuro tornar mais propostas de curiosidade e interrogações do que afirmações conclusivas ou referências dogmáticas. Aliás, nem pretendo escrever história, o título destas crónicas é o de um livro que vos convido a ler, sendo, para mim, uma interrogação sobre como me (nos) poderei (poderemos) tornar mais cristão sendo mais católico. 

 

   Assim, quanto à construção teológica e canónica do sacramento da ordem - sobretudo no tocante aos poderes que atribui e à sua exclusividade sacra -, ocorrem-me algumas perguntas radicalmente ligadas ao conceito de sagrado no cristianismo. Parto do princípio de que o leitor conhece, tal como eu mesmo ou qualquer leigo interessado, a chamada "doutrina do magistério eclesial"(ou, melhor dizendo, eclesiástico), pelo que procederei sem a invocar, limitando-me a formular interrogações advenientes. Todavia, não deixarei de recordar trechos da tradição da fé cristã, bem como passos dos textos neotestamentários que parecem melhor enquadrar as minhas propostas de reflexão.

 

   Há muito que pensossinto que o conceito inspirador do Corpo Místico é fulcral para o entendimento, não só do cristianismo original, como da sua evolução ecuménica e católica, designadamente através da diáspora judaica e helenística. Mais ainda: ele finalmente ilumina e anima, por um percurso de séculos, a orientação fundamentalmente mais cristã da Igreja, entendida como a comunhão de todos os fiéis (dos que têm fé). Compreendamo-lo lendo este trecho da epístola de S. Paulo aos Efésios (4, 11-16) : E Ele próprio providenciou que uns sejam apóstolos; outros, profetas; outros, anunciadores da boa nova; outros, pastores e professores, com vista ao aperfeiçoamento dos santos [assim eram designados os fiéis, na tradição judaica], até que atinjamos todos a unidade da fé e o conhecimento do filho de Deus e até que atinjamos o estado de homem realizado e a medida da estatura da plenitude de Cristo, para que já não sejamos crianças, batidos pelas ondas e levados por todo o vento da doutrina na batota das pessoas, na iniquidade com vista ao planeamento do equívoco; porém, ao sermos verdadeiros em amor, cresçamos em direção a ele em relação a todas as coisas, Ele que é cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, ajustado e unido através de todo o ligamento da provisão (segundo a eficácia na medida de cada membro), efetua o aumento do corpo com vista à sua própria edificação em amor. A tradução, do grego, é de Frederico Lourenço.


   A celebração eucarística da comunhão de todos com Cristo, por Cristo e em Cristo é efetivamente o sacramento essencial da morte e ressurreição de Jesus, a reconciliação da humanidade consigo mesma e com Deus, de que a Igreja é memória, testemunho e corpo. E tal celebração é sempre o ato sacerdotal por excelência, o próprio Jesus Cristo convida a comunidade inteira a realizar com Ele. Quando, na epístola aos hebreus, se afirma que por conseguinte, tendo nós um grande sumo sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o filho de Deus, fortaleçamos a fé professada. Pois não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas: foi provado em todas as coisas à nossa semelhança, excetuando o pecado. Aproximemo-nos, portanto, com liberdade do trono da graça, para que recebamos misericórdia e encontremos graça para uma ajuda em boa hora. (Hebreus, 4, 14-16). Ou ainda: Este é o sumo sacerdote que nos convinha: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e elevado acima dos céus, que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer vítimas todos os dias, primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos do povo. Pois ele fê-lo de uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo. A lei institui como sumos sacerdotes homens detentores de fraqueza, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui o filho perfeito para sempre. (Hebreus, 7, 26-28)

 

   Chegamos aqui a um ponto de reflexão que muitos dos meus leitores poderão achar insólito, talvez despropositado: que terá a ver o sagrado com a religião cristã? Fará sentido haver, nos templos cristãos um "santo dos santos", um lugar sacro, apenas habitado pela divindade, e em que só pessoas autorizadas podem privar? Será o sacerdócio uma ordem - tal como era no judaísmo e noutras religiões - ou será, antes, próprio do povo dos fiéis, por união ao único sumo sacerdote, no corpo místico? Sou levado a refletir na hierofania (ou manifestação do sagrado), no cristianismo, como celebração de uma memória, algo, aliás, alheio a qualquer magia. Na nascente da religião cristã está a memória da encarnação, morte e ressurreição de Jesus, desse ato único da presença de Deus na história da humanidade, em que o Santíssimo (solus sanctus, hagios) vem revestir-se da nossa condição e para sempre permanecer connosco no seu Corpo Místico, e pela ação do Espírito Paráclito. O sagrado (sacer, hieros) habita entre nós, não por obra ritual, nem sacrifício, nem magia do poder de qualquer ungido - mas apenas em virtude do único sacrifício redentor que é a morte e ressurreição de Jesus Cristo, que incessantemente comemoramos na celebração da eucaristia, ceia sempre festiva da reconciliação e da partilha do pão da vida, por todos, pois por todos Jesus ofereceu o corpo e a vida, vencendo finalmente a morte.

 

   O sagrado, em muitas religiões, como na aceção geral, tanto convoca a adoração como a interdição, o tabu. Tocar no sagrado é, então, algo que vai da blasfémia à profanação. Profanar é tornar profano, dessacralizar ou, mais correntemente, macular o inefável.

 

   Mas também será possível alguém profanar-se, no sentido de tocar algo de interdito, porque maculador: por exemplo, um cadáver.

 

   Não necessariamente humano, como nos conta o estatuto de pária, a que são reduzidas pessoas ostracizadas por lidarem com o abate de animais ou o aproveitamento da sua pele (caso dos curtidores), etc. No Japão futurista, por exemplo, ainda hoje há quem conserve registos de pessoas e famílias que exercem ou exerceram essas profissões, para as banirem de qualquer possível relação familiar ou laboral; a esses excluídos se chama burakumin. Casos semelhantes se encontram noutras regiões e religiões da Ásia.

 

   Reiterando lembrança de que não pretendo fazer nem ciência nem doutrina, mas tão somente acordar ou estimular reflexões, direi que, da minha leitura dos textos neotestamentários, ressalta que o cristianismo mais próximo do ensino de Jesus Cristo, me parece o mesmo ser uma dessacralização - se assim, ainda que em termos pouco hábeis, me posso exprimir - da religião enquanto relação do humano ao divino. O Evangelho, a Boa Nova, é a do regresso do Verbo inicial, a vinda de Deus, em Jesus Cristo, para o meio de nós, simultaneamente anúncio do advento final do fim dos tempos, quando cada um será julgado, não conformemente a qualquer código de ritos ou obrigações canónicas, mas em função do seu esforço de proximidade àqueles a quem deu de comer e beber, visitou e consolou na aflição, acompanhou e fortificou na paz... O sagrado, memória e construção do Corpo de Cristo, é, afinal, obra de todos nós em comunhão com Ele, e em cumprimento do único mandamento, o tal que tudo encerra: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei, e será perfeita a vossa alegria.

 

Camilo Martins de Oliveira

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS – II

   

  Nicole Lemaître é professora de História Moderna na Universidade de Paris I-Panthéon-Sorbonne e, ainda, docente no Institut Catholique de Paris. Como comentário e aditamento ao meu texto anterior - cujo título e tema este agora presente retoma - traduzo passos do que ela escreveu sobre o tema do Padre. Será longa a citação, mas os trechos seguintes certamente nos ajudarão a ter uma visão mais abrangente da temática e problemática do sacerdócio na Igreja:

 

  O padre torna-se celibatário e modelo de cristão a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanha periodicamente tal ser posto à parte, particularmente nos séculos XVI e XVII, quando a figura do padre se constrói por oposição aos pastores cismáticos e, posteriormente, entre 1800 e 1950, na peomoção eclesial duma sociedade perfeita. Mas no primeiro milénio as coisas não eram assim tão claras. Na origem, o enquadramento das comunidades era assegurado por ministros diversos, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos, exercia um verdadeiro apostolado, e em caso algum era um «separado». Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça. São eles que guardam cada igreja e têm por missão apascentar o rebanho de Deus. Passadas as primeiras gerações, uma hierarquia a três filas é instalada: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros que os diáconos assistem. Mas não é necessário passar por todas essas etapas - São Cipriano tornou-se bispo sem nunca ter sido padre nem diácono: na verdade, o ministério põe-nos a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, enquanto sucessores dos apóstolos, a todos qualifica para serem intendentes de Deus. Embora recebam a imposição das mãos, prosseguem todavia a sua vida normal, casam-se e exercem um ofício.

 

   Não é meu propósito comentar sequer aquela instituição de "separado" ou "posto à parte" que, por outras palavras, se pode dizer "sectário". Ou ainda, no seio da mesma sociedade, "pertencente a uma casta". Todos poderemos entender como, em sociedades maioritária ou crescentemente cristãs, que procuram reorganizar-se depois da queda do Império Romano, e no advento de um mundo de senhores feudais, se pretendesse assegurar a independência das comunidades e autoridades religiosas pela invocação de inspirações, princípios e normas que acentuassem o carácter eminentemente religioso e divino dos mandatos das autoridades eclesiásticas em circunstâncias fás ou nefas, como, em contextos bem diferentes, diria o Embaixador Franco Nogueira. Na preocupação com o reforço do poder espiritual ou eclesial face ao político, numa cristandade que evolui em tempos e modos novos, a maior legitimidade divina do primeiro é princípio que conveniente e evidentemente se impõe, até como justificação da sua independência própria. Assim, a afirmação de um estatuto sacerdotal distinto e marcado será fator de existência política. A par dos ritos de iniciação e ordenação, dos sinais sacramentais e paramentais desenvolvidos, a exigência do celibato (não simplesmente da castidade, que é coisa também própria das relações matrimoniais) torna-se constitutiva da pessoa e da classe sacerdotal.

 

   Paralelamente se irá desenvolvendo uma espiritualidade condizente, acentuadamente induzida pela ideia de vida consagrada ao serviço exclusivo das coisas de Deus. Tal sentido de serviço da caridade, incarnada em vidas como as do santo cura d’Ars - e tantas outras, ao longo de séculos e hoje ainda - ou em ficções tão profundamente inspiradas e tocantes, como Le Journal d´un Curé de Campagne, do Georges Bernanos, para falarmos só de casos de padres inseridos no drama das vidas quotidianas da gente comum (que todos nós somos), tal sentido do serviço evangélico e fraterno foi sendo a boia de salvação de uma Igreja que o clericalismo teimou entregar nas mãos da vaidade temporal e do autoritarismo soez. Recentemente, a canonização de frei Bartolomeu dos Mártires, o arcebispo peregrino das serranias nortenhas e suas gentes perdidas num Portugal esquecido, aviva-nos a memória da consciência cristã.

 

   Mas todas essas espirituais exceções também nos convidam a repensar as regras de que se distinguiram. Fica para outra conversa.

 

Camilo Martins de Oliveira

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS

   

   O título deste texto é a tradução literal do que a professora da Sorbonne Marie-Françoise Baslez deu ao seu último livro, editado este ano pela Tallandier: Comment les Chrétiens sont devenus Catholiques (1er-5ème siècle), obra cuja leitura recomendo a quem se disponha a refletir, em tempos interrogadores, sobre o nascimento e o(s) desenvolvimento(s) da Igreja Católica e a consciência da sua identidade própria. A história, isto é, a vivência do cristianismo inicial descobre-se fundamentalmente nos escritos do Novo Testamento que constituem os textos das epístolas apostólicas e dessa crónica coeva a que chamamos Atos dos Apóstolos, existindo ainda outros testemunhos na correspondência trocada e conservada pelas várias igrejas ou assembleias daquele tempo, bem como nos registos de documentos administrativos e cronistas exteriores às comunidades cristãs. Muito de todo este acervo foi redigido em cima dos acontecimentos e em virtude deles, sendo, aliás, anterior à redação dos Evangelhos (canónicos e apócrifos) que são sobretudo memórias da vida e dos ensinamentos de Jesus, guardadas e transmitidas pelas tradições de diferentes pregões e movimentos do apostolado e das igrejas consequentes à mobilização do Pentecostes.

 

   Por mim, entusiasmo-me sempre com essas narrativas de uma vida espiritual e religiosa que é essencialmente social, comunitária, contos velhinhos da juventude do abraço de Deus à reunião dos homens no amor, pela intercessão redentora de Jesus e o sopro incessante e livre do Espírito Santo. Aí encontro uma porta aberta sobre o mistério criador do cristianismo - que não é uma doutrina, nem ideologia, nem qualquer código, mas uma mensagem apenas: amai-vos uns aos outros como Deus vos amou e ama, para que seja completa a vossa alegria. Na verdade, peça-se à volta deste mundo, seja onde for, uma definição do amor e tal terá sempre um denominador comum: Amor é o que dá sentido à vida. Nada mais. É edificante observarmos como a Igreja cristã não surge como instituição divina, pré formada e organizada por Cristo, como tantas vezes alguns pretendem fazer-nos crer. E é lapidar a análise da Prof.ª Baslez:

 

   Os textos fundadores do Novo Testamento não puderam servir sozinhos para fundamentos teológicos de qualquer modelo organizacional que seria suficiente repetir, pois de modo algum se interessam pela questão das estruturas eclesiais. No princípio, não há doutrina, mas uma mensagem, um «evangelho» que comunidades recebem e meditam desenvolvendo uma consciência eclesial prévia a qualquer institucionalização. A primeira Igreja de Jerusalém, figuradora da Igreja Universal e projetora da Jerusalém celeste está definida nos Actos dos Apóstolos como «comunidade do múltiplo» (plethos), sem mais nenhuma referência estruturante além da lei da maioria.

 

   Foram as assembleias das Igrejas o berço das Escrituras. Os relatos de batismos e de refeições circulavam, como demonstra Paulo quanto à «refeição do Senhor», em texto bem anterior aos evangelhos. [Cf. Coríntios I, 11, 23-25: Pois eu recebi do Senhor o que também vos ofereci: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão e, tendo dado graças partiu-o e disse : «Isto é o meu corpo que é para vós; isto fazei para a minha memória.» Do mesmo modo, também o cálice tomou depois da ceia, dizendo: «Este cálice é a nova aliança no meu sangue; isto fazei - quantas vezes o beberdes - para a minha memória.» Pois quantas vezes comerdes este pão e beberdes este cálice, a morte do Senhor anunciais, até que ele venha. Tradução do trecho paulino por Frederico Lourenço.]

 

   Naquele tempo, era comum, na diáspora judaica, as comunidades ou sinagogas reunirem-se, para a celebração de festas ou em dias de preceito, numa casa escolhida para o efeito, e juntarem aos ritos religiosos a participação dos fiéis num repasto comum. Tal prática, aliás, também se realizava entre outras assembleias, designadamente nas cristãs, onde a ação de graças, ou eucaristia, se fazia como memória da Ceia do Senhor, atualização sacramental da Nova Aliança, isto é, da reconciliação de Deus com a humanidade inteira, com Cristo, por Cristo, em Cristo. A partilha do pão e do vinho entre todos e por todos significava assim substancialmente o sacrifício redentor de Jesus e a presença contínua do Senhor Ressuscitado entre nós: "Sempre que estiverdes reunidos em meu nome, eu estarei no meio de vós". A comunhão eucarística surge assim como união dos batizados no Corpo de Cristo, em ação de graças e como resposta efetiva à vocação da humanidade para a construção da nova terra e dos novos céus.

 

   Pela propensão obsessiva a defender o "Santíssimo Sacramento" como presença real do Corpo de Jesus, no sentido de um gesto de magia sagrada ter fisicamente transformado pão e vinho em carne e sangue, muita pregação eclesial e devota também vai encobrindo a realidade mística - realidade, sim, em sentido pleno - do Corpo de Deus como sacramento do sublime sacrifício de Cristo, pelo qual toda a humanidade se encontra reconciliada em Deus e com Deus. Os primeiros cristãos, aqueles que testemunhavam a Palavra e reproduziam os gestos do Senhor, celebravam a eucaristia como momento comunitário, não dispunham de sacerdote algum para consagrar o pão e o vinho, essa consagração fazia-se pela união dos batizados em torno da memória de Jesus Cristo. Aliás, por alguma razão, nos escritos neotestamentários, "sacerdote" é termo exclusivamente referido apenas ao Povo de Deus, jamais a alguém em particular. O conceito atualmente corrente de "sacerdote" data apenas do 2º milénio do cristianismo, surge na Idade Média e fixa-se, com o direito canónico, no século XII, quando se regulamenta que sacerdote é quem recebeu o sacramento da ordem e, por este, o poder divino, transmitido pela Igreja hierárquica, de batizar, abençoar, celebrar a eucaristia e perdoar os pecados. Tal estatuto foi gerando muitos e vários privilégios, desde as imunidades do foro eclesiástico à atribuição de funções e competências para as quais nem todo clero estava evidentemente preparado. Está aí a raiz histórica do clericalismo - mal ainda hoje viral na Igreja - que, todavia, não tem qualquer fundamentação teológica aceitável mas, muito pelo contrário, encontra nos próprios textos evangélicos palavras de repúdio e condenação por parte de Jesus.

 

    Não sei se estamos hoje no limiar de um novo período de avanço das comunidades cristãs para a catolicidade, mas o dinamismo atual dos movimentos ecuménicos, bem como sinais de abertura e progresso por parte de vários sectores da hierarquia eclesial, deixam-me esperar que sim. Vejamos a notícia da eleição do novo superior provincial dos frades capuchinhos de Mid America (EUA), um irmão leigo (isto é, sem ordens sacras, mas professo, ou seja, tendo já pronunciado os votos de obediência, pobreza e castidade exigidos pelo regulamento da Ordem dos Frades Menores). Eleito pela maioria absoluta dos seus irmãos em São Francisco de Assis (que tampouco era "sacerdote") viu a validação desse ato rejeitada pela Congregação da Santa Sé para os Religiosos, no Vaticano, com o fundamento de não ser ordenado, conforme exigido pelo artº 129-1 do Código de Direito Canónico: "Quem recebeu a ordem sagrada é capaz, segundo as normas do direito, do poder de governo que, por instituição divina, existe na Igreja, e que também é chamado poder de jurisdição". Mesmo que o pretensiosismo soez e desajeitado deste preceito canónico, nos faça sorrir, não deixa o mesmo de ser revelador da pobreza intelectual do clericalismo e seus defensores, com alguma confusão entre disposições canónicas e instituições divinas... Mas os capuchinhos americanos recorreram para o Papa, que anulou o veto e promulgou a eleição. É bom que se vá lembrando à Igreja como todos somos filhos de Deus através da fé em Jesus Cristo. Todos os que fomos batizados para Cristo estamos vestidos de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem pessoa livre, não há macho e fêmea: todos nós somos um em Cristo Jesus. Se nós somos de Cristo, então somos semente de Abraão e herdeiros segundo uma promessa (S. Paulo aos Gálatas, 3, 26-29). Assim, já não somos estrangeiros nem estranhos, mas concidadãos dos santos e pessoas da casa de Deus, edificados sobre a fundação dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular, na qual todo o edifício, bem ajustado, aumenta de modo a tornar-se templo sagrado no Senhor, no qual também nós somos edificados para habitação de Deus em espírito (aos Efésios, 2, 19-22). A instituição eclesial é a comunhão de todos em Cristo, os ministérios eclesiais são desempenhos de serviços dessa comunhão e não conferem a quem os exerce qualquer estatuto distinto ou acima dos outros comungantes. E porque Cristo é tudo em todos, chamamos católica à sua Igreja.

 

Camilo Martins de Oliveira

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - IV

 

   O instante que nos surpreende pela beleza ou irradiação da efemeridade que revela é, assim, simultaneamente, um sacramento do inefável que não alcançamos, do invisível que ainda não sabemos ver, da palavra que, pronunciada, cria. Mas outrossim podemos imaginar ou inventar um instante, criando então um instantâneo artificial, seja visão infernal de terror, seja aparição abençoada e benfazeja... Tal artifício também poderá servir para exprimir desejo nosso, ou aspiração, ou, mais devotamente, uma prece. Assim, dizemos, se formulam votos. Assim também poderá uma ilusão consolar-nos de uma perda, do desaparecimento de alguém ou, em jeito mais chão, do nosso desespero de reencontro com um amor avistado, fugido e já perdido.

 

   De Sir Thomas Wyatt, diplomata e homem da corte de Henrique VIII, disse C. S. Lewis que esteve sempre enamorado de mulheres de quem não gostava. Talvez assim fosse para com Ana Bolena, dama da rainha Catarina de Aragão, mais tarde, ela também, mulher do rei e mãe da futura rainha Isabel I. Dum caso amoroso mal esclarecido, entre tantos devaneios e namoros corteses e cortesãos, ficou-nos, entre outros documentos, um soneto de Wyatt, que transcrevo e traduzo:

           

Whoso list to hunt, I know where is an hint
But as for me, alas, I may no more.       
The vain travail hath wearied me so sore           
I am of them that fartes cometh behind.
Yet may I, by no means, my wearied mind         
Draw from the deer, but as she fleeth afore,  
Fainting I follow. I leave off therefore,      
Since in a net I seek to hold the wind.                                       
Who list her hunt, I put him out of doubt,   
As well as I, may spend his time in vain.         
And grave with diamonds in letters plain
There is written, her fair neck round about,  
"Noli me tangere, for Ceasar´s I am,             
And wild for to hold, though I seem tame."                
         

Para quem queira caçar, eu sei onde a cerva está
Mas quanto a mim, pobrezinho, mais não posso.
Pois que empresa tão vã me gastou e amargou
E de mim fez o derradeiro de todos os que a seguem.    
E todavia não posso minha alma cansada desligar
Daquela cerva e, enquanto ela à minha frente foge,
Desfalecendo a sigo e logo desisto e abandono,
Pois que numa rede quis prender o vento.
E a quem a quiser caçar eu posso assegurar
Que tal como eu em vão irá desperdiçar o tempo.
Eis com diamantes escrito em letra cheia,
Na coleira à volta do seu pescoço esbelto,
"Noli me tangere, pois pertenço a César,
E, parecendo mansa, brava demais  para segurar."

 

 

   Cerva  - cervo (veado) no masculino  -  diz-se, em inglês, deer, palavra homófona de dear (caro, querido) prestando-se assim a metáforas bastante usadas na literatura inglesa da Renascença. Neste soneto, inspirado em Petrarca, como aliás muitas outras composições do poeta e diplomata inglês (chegou a ser embaixador junto da corte de Carlos V), interessa-me aqui  mais do que o caso dos amores com Ana Bolena (incluindo o anúncio da próxima posse dela pelo rei  -  for Ceasar´s I am), a metáfora da caça como perseguição amorosa e, sobretudo, o recurso à efeméride da aparição da cerva como imagem de amor bruxo e breve. Em Petrarca, no soneto que a seguir transcrevo e traduzo, tal aparição corresponde à evanescência de Laura, sua tão amada, sobre quem Deus tinha poder absoluto:

 

Una candida cerva sopra l´erba   
verde m´apparve con duo corne d´oro,  
fra due riviere, all´ombra d´un alloro,             
levando ´l sole, a la stagione acerba.  
                          
Era sua vista sí dolce superba,    
ch´i´ laciai per seguirla ogni lavoro;                                
come l´avaro, che´n cercar tesoro,  
com diletto l´affanno disacerba,

«
Nessun mi tocchi  -  al bel collo d´intorno  
scrito avea di diamante e di topazi  -           
libera farmi al mio Cesare parve».      
                         

Et era ´l sol già volto al mezzo giorno;                            
gli occhi miei stanchi di mirar non sazi,
quando´io caddi ne l´acqua, et ella sparve.                

Cândida cerva sobre a erva verde 
com dois cornos de ouro me aparece,
entre dois ribeiros à sombra dum loureiro,
quando se erguia o sol na primavera.

 

Tão doce e soberba era tal visão;   
que para segui-la deixei qualquer labor
como o avaro que para buscar tesouro
com deleite abandona outros afãs.

 

«Ninguém me toque  -  à volta do pescoço belo     
com diamante e topázio estava escrito  - 
ao meu César pôr-me livre aprouve.»

 

E já chegava o sol ao meio dia;
com os olhos meus cansados de mirar
caio à água e ela desvanece.

 

     

A lenda da cerva de César é antiga, começou a circular talvez trezentos anos depois da morte do augusto romano. Como metáfora é plurivalente, ambígua até, como, aliás, se vê pelas duas versões acima retidas, a de Wyatt e a de Petrarca. Para a primeira, a cerva é intocável porque pertence, é presa de César. Para a segunda, ela é livre, pois que livre a fez um poder mais alto. Num texto ou carta que há anos atrás escrevi, falava de uma ilustração japonesa do Conto do Genji, em que uma menina segura em suas mãos um pássaro que, afinal, não consegue prender: símbolo do amor, simultaneamente como liberdade e prisão necessária. Não há volta a dar-lhe: as almas e as vidas humanas são tecidas pelo engenho e as tensões - dos nossos paradoxos e contradições. Construímo-nos de efemeridades a que pretendemos encontrar ou dar sentido. 

 

   Pela sua recitação - ou aparente repetição - a fugaz aparição perdura. E é essa sua própria, essencial, fugacidade que torna o efémero sacramento do permanente. Assim intuímos como o sentido da nossa vida é a graça da incessante procura da visão.

  

Camilo Martins de Oliveira

A ESTÉTICA DO EFÉMERO – III

   

Da apresentação de Debussy et le mystère de l´instant (PerrinParis, 1972), de Vladimir Yankélévitch, destaco (traduzo): Dois movimentos inversos parecem, em Debussy, percorrer o espaço musical: um é descida aos infernos da profundidade; o outro, regresso ao ar livre, ascensão aos grandes espaços de luz. Mas quando estudamos esses dois movimentos, depressa compreendemos que, para Debussy, nem um nem outro é essencial: o essencial é o instante impalpável, esse mesmo a que chamamos aparição em desaparecimento, surto em fundo de silêncio e de trevas; esse instante é o relâmpago, ou, inversamente (o que vai dar ao mesmo) a fagulha que a aparição é quando a surpreendemos a desaparecer: o Meio dia é, no mesmo instante, o zénite da luz e a luz surpreendida no primeiro instante do seu declínio.

 

   Debussy dá voz às coisas mais imponderáveis e mais precárias, às mais inconsistentes e às mais inexistentes da criação: um breve encontro e uma leve respiração, uma reminiscência fugitiva que, como estrela cadente, atravessa o espaço noturno da memória, um reflexo que estremece na água, um sopro de vento passando pelo ar da tardinha, uma nuvem no céu.

 

   Ocorreu-me este trecho, talvez, pela associação do seu último parágrafo à inspiração de haiku e de muita caligrafia e pintura japonesa. Por algo que é a surpresa do infinito intemporal - que, enquanto tal, só pode existir fora da criação inteligível - na fugacidade dum instante apenas desta vida.Tal privilégio é um dom, uma graça. Talvez pareça poder repetir-se, mas jamais se repete, como a história da nossa humanidade. Tal como Debussy não pôs em música a vespertina sesta de um fauno, mas sonhou o Prélude à l´après midi d´un faune. Prelúdio que acabo de escutar, com direção do seu maestro titular, D. E. Inghelbrecht, na interpretação do Orchestre National (orquestra, em francês, é substantivo masculino), em 1962. Inspirada num poema de Mallarmé, escrito em 1865, a obra orquestral tem, mais ou menos, trinta anos de atraso (1892-1894), mas, para o que aqui proponho, guarda esta atualidade, em palavras do próprio Debussy, numa carta a H. G. Villars, futuro marido de Colette: O Prélude à l´après-midi d´un faune talvez seja o resto de sonho que ficou no fundo da flauta do fauno? Mais precisamente, é a impressão geral do poema, pois, se o seguíssemos mais de perto, a música perderia o fôlego como cavalo de tiro que concorresse ao Grande Prémio contra um puro sangue. É também o desdém dessa "ciência de castores" que torna pesados os nossos briosos cérebros, e depois não tem respeito pelo tom! e tem um modo que procura conter todos os matizes, o que é muito logicamente demonstrável. Mas, ainda assim, segue o movimento ascendente do poema, e é esse cenário maravilhoso descrito no texto que, com mais humanidade talvez, nos trazem trinta e dois violinistas bem cedo levantados! O final é o último verso prolongado: Adeus casal, vou ver a sombra em que te tornas. Contudo, é sobre tal expectativa que se fecha esta obra musical, que se ficou pelo prelúdio só, sem os previstos interlúdios e uma paráfrase final. Apesar da novidade do estilo, foi muito aplaudida a sua primeira audição pública, em dezembro de 1894, na Société Nationale, em Paris, sob a direção do maestro suíço Gustave Doret. Só a partir de 1912, com o balé de Diaghilev, coreografia e interpretação de Nijinsky, vai a representação à cena, provocando uma onda de escândalos que tornaram famosa a composição musical de Debussy, mais ainda do que o poema lascivo de Mallarmé. Por mim, sempre gostei de sonambular ao som do Prélude à l´après-midi d´un faune, cujo erotismo se esvanece pelo suave embalar da melodia hipnótica, mergulhando-me num sossego tão esquecido de mim que talvez me fizesse lembrar aquele anúncio de que o sono é a antecâmara da morte. Nesta peça, afinal, Debussy traz-nos, em nove minutos, um instante revelador, e põe-nos dentro dele, como se aquela contemplação do efémero mais não fosse do que uma canção de embalar a morte no gosto da vida que a sustenta...

 

Camilo Martins de Oliveira

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - II

Comme la lune au milieu de l'eau.jpg

 

 

   Do primeiro passo que démos para circunscrever um conceito possível de estética do efémero, no texto anterior, Yoko Orimo conclui : Com esta noção de impermanência, revestida da filigrana da sua dimensão permanente, de tudo se poderá  libertar uma infinidade de matizes. Face aos acontecimentos dramáticos do mundo, às vicissitudes e ao mistério da vida humana, no nosso coração se misturam então a dor e a aceitação, a tristeza e a serenidade, o lamento do que desapareceu e a alegria da espera do que vai nascer. O budismo antigo, nascido na Índia, atingiu assim no Japão o cumprimento final da sua transformação ou alteração doutrinária. Assim se elaborou, sobretudo a partir da era Muromachi (1392-1573), o fruto de tal aculturação : a estética japonesa do efémero.

   Será que a inspiração desta  -  tal como a teremos visto  -  pouco ou nada ou talvez muito tenha a ver com a dos actuais movimentos de arte efémera? O conceito hodierno de efemeridade parece ter mais a ver com o propósito de vanidade e lixo do que com a procura de permanência na natureza perecível. Seremos já vítimas do embaciamento de um olhar maravilhado para a beleza do universo, que afinal revela a perda do nosso olhar interior que nos vai incapacitando de ver o mundo pela transparência do espelho da nossa alma? O espelho onde nos vamos mirando tão somente nos devolve a imagem que de nós já temos, incapazes de amor e vistas para além das nossas limitações. Talvez por isso a nossa nova arte do efémero pareça sobretudo desespero e renúncia, e um doentio e profundo desprezo pela nossa incapacidade, não só de regenerar, mas de, sequer, imaginar restaurado. Mais propensos a lamentar o que se vai do que a alegrar-nos com a novidade que possa vir, podemos comprazer-nos na representação da decadência, da fragilidade, na desilusão de nós. Ou, mais radicalmente, em habitar o absurdo. Todavia  -  graças a Deus!, direi eu à moda antiga  -  também andam por aí muitos outros que  -  trânsfugas dessa obsessão narcísica com o irreparável  -  com arte vão revestindo ruínas ou, mais ainda, com arte vão erguendo obras de esperança feitas com material reciclado do lixo a que a propensão egoísta e destruidora do consumismo teria condenado. Em vez de olhar para o efémero como fatalidade, destino final de tudo, vêem-no como momento e promessa, como terminação anunciadora de novidade. Porque esta, com todo o seu potencial, já lá está, não para ser esquecida ou repudiada, mas para que, em qualquer forma, ressurja na sua permanência.

   Assim, a estética do efémero é uma estética de contemplação ou, como escreve Yoko Orimo, uma estética que não se apoia na invenção nem na originalidade, mas na reflexão no sentido de reflexo. É como a luz do Japão, luz indirecta : uma meia-luz, tamisada por uma taxa sempre muito alta de humidade atmosférica. Ou então é como a luz da lua, luz que é um reflexo. Revestir-se do Despertar deve pois querer dizer reflectir o Despertar que escapa a qualquer tentativa de posse. Diz Mestre Dogen : «O ser humano chega ao despertar tal como a lua permanece no meio da água : a lua não se molha, a água não se quebra...» Apesar de indissociavelmente ligadas, nem a lua nem a água exercem qualquer poder, uma sobre a outra ; cada qual fica perfeitamente livre e autónoma. A lua que se reflecte no meio da água, esse reflexo do reflexo, não é, aliás, verdadeira nem falsa, como a parábola da luz, como a imagem acantonada num espelho.

   Afinal, mesmo quando for ou nos parecer feia a nossa circunstância, teremos de aprender a abrir os olhos do coração. Porque será da bondade do olhar que tivermos sobre o mundo, natureza, pessoas e coisas, que crescerá a força do amor que contempla, redime, restaura e torna completa a nossa alegria. Assim aprendi também com S. João Evangelista. E tal me ocorre em tarde de Pentecostes, a festa da multidão dos dons, que sempre nos chama a recriar o Universo. Pois por nós o Espírito irá renovando, em feitos e promessas, no tempo escatológico, a face da terra.

 

                  Camilo Martins de Oliveira

Camilo Martins de Oliveira

 

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - I

  

Por qualquer razão, ou nenhuma, pareceu-me curial iniciar a publicação de post scripta, isto é, escritos posteriores às minhas cartas à Princesa de mim, apontamentos anotados na sequência delas, quer porque os redigira e não enviara, quer porque apenas os rascunhara para outros textos de reflexão. Reencontrados agora, apresentam, quanto a mim, uma virtude rara: a de descobrirem momentos de um qualquer discurso do meu pensarsentir, sem pretender concluir mais além do que a sugestão de caminhos para o entendimento de culturas que povoam a terra nossa, com as suas condicionantes e aparentes divergências, convergências, contradições e semelhanças. Sem pretender ensinar seja o que for, mas apenas recordar o que nos ajude a aproximar-nos. Não trago teses, trago hipóteses talvez só adivinhadas, mais insinuadas do que expostas.  

 

          Haru wa hana                     À Primavera as flores

          Natsu hototogisu               Ao Verão o cuco               

          Aki wa tsuki                        Ao Outono a lua

          Fuyu yuki sae te                 Ao Inverno a neve

          Suzushi kari keri                Cristalina  imaculada

 

   Este poema encontra-se no cancioneiro Shobogenzo (abram os ós e leiam guê) que Mestre Dogen (idem para a pronúncia do nome) redigiu entre 1231 e 1253, ano de sua morte. Tal coletânea é obra marcante e reveladora da cultura e da literatura japonesas: na verdade, todos os waka que a compõem foram escritos em japonês clássico. Mas, como nos esclarece Yoko Orimo no seu inspirador Comme la lune au milieu de l´eau, Art et spiritualité du Japon (Le Prunier, Sully, Paris, 2018) -, feitas as contas, mais não são do que traduções e comentários de sutras e textos escritos em chinês...   ... No seio do espaço literário essencialmente compósito da obra, concebido e estruturado como espelho sem estanho, o japonês e o chinês mutuamente se refletem. E é graças ao reflexo dessas duas línguas e civilizações, simultaneamente tão próximas e tão diferentes, que conseguimos ver e entender o que ainda não tínhamos visto nem entendido até agora...

 

   Esta autora japonesa, diplomada pela École Pratique des Hautes Études de Paris é sobretudo conhecida, precisamente, pela sua tradução e interpretação do Shobogenzo - a verdadeira Lei, Tesouro do Olhar (Sully, Vannes, 2014), de Mestre Dogen (1200-1253). Talvez por aqui inicie ela a sua interpretação da cultura japonesa como cultura de empréstimo, ideia que não andará muito longe da de outros, mas sempre no sentido em que Shusaku Endo nos fala da assimilação pelo "pântano" japonês, que tudo engole, digere e devolve seu. Tenho para mim, e não só, que a caraterística marcante da cultura japonesa - tal como entendo o que é uma cultura - é o seu extraordinário poder de assimilação de outras, sempre concomitante à sua perseverança em ser ele própria.

 

   Mas prefiro hoje abordar a questão do tempo como essência da própria cultura nipónica. Em cartas muitas à minha Princesa de mim falei da perceção e cultura do efémero como forma de espiritualidade... Sobre outras teses da presença essencial do tempo em culturas como a do Sol Nascente, talvez diga que sim, mas enquanto momento. Arrisco então a hipótese de que o instante no tempo circular é como eternidade, essência mais do que efeméride.

 

   Será isto mais difícil de entender em mentes que pensam em tempo escatológico.  Todavia, também nós, os que vivemos em culturas de forte sentido escatológico, muita vezes nos surpreendemos a viver, pensarsentir ou desejar como eternidade um instante só. Então dizemos que, durando apenas um minuto ou uma hora, nos pareceu uma eternidade. Poderá ter sido assim por força do nosso lado passivo, sofredor ou ansioso. Ou, para nossa satisfação, por virtude desta nossa entranha amante, ou por essa aspiração à completude perfeita que, para tanto ser, só é concebível na intemporalidade, num algures ainda desconhecido e, como tal, quiçá um nenhures a que chamamos utopia. Assim imaginaremos a nossa ressurreição possível apenas noutro mundo, ou num universo transformado, como a face da terra renovada pelo Espírito, tudo isso, afinal no final do tempo, quando a duração já não é possível, pois nenhuma mensuração poderá então fazer qualquer sentido.

 

   Em tempo circular, já os instantes e suas manifestações próprias se sucedem em roda de eterno retorno, como se a passagem das horas, dos dias, das luas e das estações fossem constante advento e regresso. Assim devemos entender aquele ditado japonês que diz que a flor é o espelho do tempo, pois que pela variação infinita das suas formas e cores, lembra-nos Yoko Orimo, a flor nos deixa ver o tempo: fazendo-se eco do que é nela invisível, a flor anuncia a estação que chega e que parte. Com esta inspiração devemos entender esse ensinamento de Mestre Dogen: A multidão de cores não está reservada apenas às flores, a multidão dos tempos também se reveste de cores como o azul, o amarelo, o vermelho, o branco, etc. A Primavera atrai as flores; as flores atraem a Primavera.

 

   Sobre esta intuição, Yoko Orimo elabora a seguinte premissa: Se a flor é o espelho do tempo, espelho que traz a imagem do invisível, o tempo é já, ele próprio, o espelho. E conclui: Refletindo-se a si mesmo e em si mesmo, o tempo torna visível a imagem deste Presente tal qual, Presente eterno. Já dizia Mestre Dogen que, sendo a imagem e o espelho apenas um, esse espelho é a Natureza. E Orimo esclarece que, contrariamente aos espelhos feitos por mão humana, o espelho que é a Natureza é um espelho sem estanho, «Não tem verso nem reverso, ambos os lados oferecem visão. Parecem coração e olho. E parecer significa que uma pessoa encontra outra» (Dogen)... A cada instante, em cada estação, a Natureza realiza a sua própria imagem, fazendo-se eco dela mesma e nela mesma, desde sempre e para sempre. Isto porque no coração da Natureza se encontra a Ressonância do universo. Nada mais além dessa Ressonância do universo, idêntica ao coração da Natureza, se cristaliza na Primavera em imagem de flores, no Outono em imagem da lua, no Inverno em imagem da neve.

 

   Assim a própria natureza se contempla nela mesma: ver e ver-se, o visível e o invisível, o dentro e o fora, a profundidade e a superfície são apenas um. E como essa visão da Natureza pertence ao coração da Natureza, o povo japonês diz que «A flor tem coração». E perante a terra toda coberta de neve, Mestre Dogen afirma: «todo o verso e todo o reverso estão cobertos de neve profunda. O universo inteiro é a terra do coração, o universo inteiro é sentimentos e emoções das flores!» Por paradoxal que pareça, só o coração da Natureza, puro e transparente como um espelho, cria a primazia da superfície na estética japonesa...

 

   Tal dimensão espiritual da Natureza, e a profunda comunhão do ser humano com ela, será o que explica a frase de Paul Claudel: Nesse belo e feliz país o natural e o sobrenatural são apenas um... Eu próprio que, desde muito novo, enveredei pela busca insistente da consistência de algo permanente, sendo aliás sempre curioso e sobretudo atento a processos de aculturação, tentei - talvez inspirado pela minha juvenil leitura de Teilhard de Chardin e de Lévy-Strauss - perceber melhor os progressos e falhanços das inculturações religiosas e filosóficas no Japão. Já falei bastante sobre isso, e até publiquei escritos dispersos, designadamente sobre os modos budistas de aculturação com o shintoísmo nativo, bem como o estigma de estrangeirado que sempre marcou o cristianismo naquela cultura. Sobre a seara que hoje escolhi para talho de minha fouce, nada repetirei do que já afirmei ou interroguei. Apenas traduzirei uns trechos da obra de Yoko Orimo aqui citada, que oportunamente introduzirei nestas reflexões sobre a estética do efémero. Por agora, regresso a lições colhidas em leituras da minha mocidade e que, pensossinto, paradoxalmente ainda hoje me ajudam a conviver melhor com espiritualidades inspiradas por outras diferentes filosofias, tal como por visões do universo e perceções do tempo certamente contrárias e aparentemente contraditórias daquelas em que fui criado. Ao melhor recordarmos raízes, troncos e ramos da nossa cultura nativa, tanto melhor nos aperceberemos das diferenças dos conceitos inerentes a discursos e sensibilidades diversas e, por exercício dialético, nos aproximaremos de um olhar comum do coração da humanidade.

 

   Assim, é curioso como o grande paleontólogo, antropólogo, visionário e místico, francês e jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin, autor de obras cujos títulos apenas já muito dizem (La Place de l´Homme dans la Nature; Le Phénomène Humain; Le Milieu Divin), evolucionista crente na obra de Deus como motor da história natural, suspeito de panteísmo pela Igreja, tenha começado a sua aventura interior, científica e mística, por um firme propósito de procura do imperecível e duradouro. Escreve um seu biógrafo, o dominicano Jacques Arnould - doutor em ciências e em teologia, investigador da vida e sua evolução e das dimensões éticas, sociais e culturais da chamada "conquista do espaço" - em Teilhard de Chardin (Perrin, Paris, 2005:

 

   Sempre em busca do imperecível e do duradouro, atravessa um período dito "do Ferro". Sessenta anos depois, escreverá em Le Coeur de la Matière: «Não devia ter mais de seis ou sete anos quando comecei a sentir-me atraído pela Matéria ou, mais exatamente, por algo que "luzia" no coração da Matéria». É verdade que, esclarece, sob a influência duma mãe tão piedosa como a sua, ele tem muito amor ao Menino Jesus. Todavia, reconhece, o seu "eu" está alhures nesses momentos em que, secretamente, se recolhe «na contemplação, na posse, na existência saboreada do seu "Deus de Ferro"». Uma chave de charrua encontrada no campo, ou um estilhaço de obus, a cabeça duma cunha de reforço, claro que metálica, emergindo dum soalho: eis uns ídolos que o miúdo literalmente adora. «E porquê o Ferro? e porquê, mais especialmente, tal pedaço de ferro (tinha de ser, o mais possível, espesso e maciço), só porque, para a minha experiência infantil, nada neste mundo era mais duro, mais pesado, mais tenaz, mais duradouro do que essa maravilhosa substância apanhada em forma tão plena quanto possível...» De que andará já à procura o rapazito de Sarcenat, que prefere o robusto coleóptero à muito frágil borboleta, a não ser da consistência e, sobretudo, do inalterável? «Até hoje (e sinto que até ao fim) essa primazia do Inalterável, isto é, do Irreversível, não cessou, não cessará nunca de marcar irrevogavelmente as minhas preferências pelo Necessário, pelo Geral, pelo "Natural" - por oposição ao Contingente, ao Particular e ao Artificial - tal disposição tendo, aliás, e por muito tempo, obscurecido a meus olhos os valores supremos do Pessoal e do Humano. Sentido da Plenitude, já nitidamente individualizado, e procurando já satisfazer-se pelo agarrar de um Objeto onde se concentrasse a Essência das Coisas». Ser-lhe-ão precisos muitos mais anos para descobrir «até que ponto a Consistência é então um efeito, não de "substância", mas de "convergência". 

 

     Agora, neste instante mesmo, cá estou eu a tentar olhar para isso a que se chama "Essência das Coisas" por diversas perspetivas, e procurando apor dois discursos diferentes, em vez de os opor. A perspetiva do tempo escatológico, prisma cristão, e a do tempo circular, não só prisma budista, mas shintoísta também e, na cultura japonesa, com a sua versão shinto-budista. Traduzo mais um trecho do livro de Yoko Orimo:

 

   Deve ressaltar-se que, no decurso do longo processo de aculturação do budismo em terra japonesa, se desenvolveu, sobretudo a partir do fim do século XI, o sincretismo shinto-budista, em cujo seio a pouco e pouco se operou uma revolução doutrinal acerca da noção de impermanência: mujo. Se o budismo antigo concebia, com forte pendor pessimista, a existência humana como que atirada para o oceano do sofrimento em que os seres transmigram infinitamente, para o shinto, o mesmo movimento perpétuo do aparecer e desaparecer neste mundo fenomenal mais não é do que o processo natural e global da regeneração da vida do universo, incitando o ser humano a contemplá-la e exaltá-la. Nos confins destas duas óticas espirituais radicalmente opostas [a budista antiga e a shinto-budista], o sincretismo shinto-budista acaba por proclamar que a impermanência é permanente enquanto impermanente e é precisamente a própria manifestação da natureza do Despertado (Buda) abraçando a vida de todos os existentes, incluindo minerais e vegetais.

 

   Regresso afinal à minha tradução e meditação do waka de Dogen, acima transcrito: a Primavera (haru) é flor (hana), como as flores são Primavera; o Verão (natsu) cuco (hototogisu), como é cuco o Verão que o pássaro do tempo (hototogisu) acorda; o Outono (aki) é lua (tsuki), e esta em suas fases passa pelo quarto minguante e outonal do ciclo; anunciando o Inverno (fuyu), neve (yuki) gélida que, cristalina, nítida, nos cobre como manto. Os perecíveis impermanentes da Natureza falam-nos da permanência da vida, fazem-nos ver o invisível. Também aqui descobrimos que a Consistência não é efeito da substância, mas da convergência do Espírito e da Matéria. Simultaneamente material e visível, espiritual e invisível.  Será?

 

Camilo Martins de Oliveira