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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

2022

 

As coisas da condição humana continuam a ser coisas simples, verdades antigas como a necessidade de entender o mundo, a procura da origem, a raiz dos fenómenos e dos sentires.


Poder falar destas realidades, é domínio de quem com extrema sabedoria, consegue a simplicidade de as dizer.


Descuidam – ou não?-  as gentes, no atribuir-se si mesmas utilidades com tamanha facilidade e jeito tão atreito ao seu milímetro, que explicam com aptidão o sucesso dos maus canais televisivos, bem como os seus viveres reveladores de que sem o tal vil metal, se descarnavam espalmadas as consequências das suas próprias descobertas.


Afinal, quando será que num novo ano, nos congratularemos com a coragem da pergunta sincera que as gentes farão ao seu pensamento, não recuando nas consequências do ato?


Afinal referimo-nos a uma prática de honestidade intelectual que descobre o átomo da mente não serventuário, nem dócil ao embuste em que se vive.


Afinal a condição humana continua a não ser apenas o discurso de lugares-comuns que tudo mostram para que pouco se veja.


Afinal o que está em jogo é a felicidade do homem numa historicidade que os tem dominado belicosamente numa relação de poder e não de sentido como afirmava Michel Foucault.


Cremos que a orientação no mundo, é uma necessidade humana que deve ser bem mais desenvolvida do que aquela que se investe nos ginásios para orientação física.


Vive-se um tempo de universo concentracionário e exposto sem pudor. Nem parece o quanto dele é ainda tabu, viagem, liberdade, coisas de substância da condição humana.


Sugere Drummond

(…)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(extrato do poema “Receita de Ano Novo”)

 

Teresa Bracinha Vieira

FAREWELL

 

Depois de reler estes teus versos, Drummond, recordou-me assim, porventura, o escrito numa teia.

 

Quando as noites de novembro são eternidades nas tuas mãos de julho, eu quero dizer-te que é mentira estarmos sós, que te cerco de constelações atentas ao nascimento do teu sorrir, sem qualquer vírgula rastejante que do chão te possa alcançar e empatar um sol só teu, no apogeu do teu coração que pecou no crime que não perpetraste. E claro, amor meu, que na inocência dos sofrimentos nos tornamos tão vulneráveis que só mesmo cumprindo os ritos de existir se amará as imperfeições tanto quanto as maravilhas, e com gratidão, a ambas, em ti me sinto dividida, qual campo de batalha sem lado de vitória, mas lá onde me sinto que estou, podes crer, que te acolherei sempre, e sofro e sou feliz e reparto-me em pedacinhos tão pequeninos que logo nos teus olhos acolhes, enfim, a minha transcendência que afinal nada mais é do que eu inteira e única, na prisão do ar que ambos respiramos. E chega o momento de sermos pássaro livre, bem livre e tão livre que só a notícia o preserva. Chegou então o momento de fugirmos, um para o outro, suplicantes, evaporados, do pensar e do sentir, e assim sermos uma outra essência, num anel de beijos que as nossas bocas repetem e nele se fecham a conversarem promessas sobre universais assuntos. Então, as tuas noites de novembro, nas tuas mãos de julho, abrem-se para mim numa fotoviagem interior que entendo descendente de um sofrimento não revolucionário, mas atento ao rumo do mar, rumo sem uma ruga castrada, rumo tão só, alcançado sem opressões familiares ou outras do mundo ou até de nós mesmos, robustas todas em fervor e suor, país dentro do mundo e nele a rua da nossa casa, lá mesmo onde aceitamos as horas sendo ou não tempo – não importa – que o amor, segredo químico, é um tigre que se enrosca também em afagos e sendo tigre, é fera, é luta, é volúpia, imaginação longa e longe da nossa realidade e por isso é doer fundo pois que partimos, ficando, e é presente, quando ficando não estamos perto, e ambos signo da selva negra de gozo, muito gozo, triste também – caso exista - por tudo o que não pôde ser chorado do que já não lembramos mais, ou ainda nos deleitamos numa alquimia, logo celebrando a viagem funda, qual projeto interrompido – às vezes - e tu e eu rechaçando a inutilidade do nascer, fazemos da lição dos olhos nosso olhar, nosso resgate de noite amante - natureza, afinal, imperecível alegria, e enfim nos amamos quites de uma lei do esquecimento. Nós os inicialmente destinados, nus e tão nus de tão nus enquanto aos ouvidos um do outro, sussurramos: ó minh’alma, for this very love always both, will come back after all!

 

Uma origem o confiar-se; uma origem, o lance: farewell!

 

Teresa Bracinha Vieira