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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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À MARGEM DE CARTAS ANTIGAS


Recordo-me de que várias das minhas cartas à Princesa de mim, nos interrogavam acerca da fé. Duas delas me ocorreram mais profunda e assiduamente no decurso da minha presente caminhada pela areia fugidia de um deserto desconhecido, ardente talvez, todavia silencioso. Até por dentro me queima, a tal ponto que já nem gritar sei. E com silêncio, como num desafio, à minha mudez responde. Seco de recursos, só a mim pergunto o que tantas vezes implorei em versos velhinhos, como estes que compõem um dos meus Sonetos de Amor Mordido que enviei em carta à Princesa de mim, e o blogue do Centro Nacional de Cultura publicou em agosto de 2013. Rezava a carta: O amor humano é procura e sinal. Como no Cântico dos Cânticos, poderia dizer-te o grito que lanço a Deus:    


No deserto cresce o meu desejo
    
por ti tantas vezes destemido:
     
és a minha fome e o meu pedido
 
de ver-te, Senhor, a Quem não vejo...

Minha sede é seres, e só procuro    
a fonte da sede que me dás;
 
no desejo de ti vivo e duro 
   
com sede da sede que me traz
    

este deserto em que sou despojo,       
lixo de ser, graça do teu nojo...
Esqueleto ebúrneo me levanto,  

branco de areia, de morte e de espanto,  
e de ti te grito a minha fome.

E sei que te chamo pelo teu nome!
 


Ao evocar a definição de fé na epístola aos Hebreus (11, 1), automaticamente ela me ocorre na versão latina da Vulgata: Fides est substantia sperandarum rerum. Traduzo empiricamente: "A fé é a substância das coisas que devemos esperar". Tradução ambígua, significação ambivalente, já que substantia é o que está por baixo, ou seja, o assento ou sustentáculo, o apoio; mas também é o que constitui, isto é, aquilo de que algo é feito. Mas não será a fé isso tudo? Na respetiva tradução direta do grego, o cónego José Falcão escreve: "A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam". O professor Frederico Lourenço, por seu turno em tradução direta do grego: "Fé é garantia de coisas que se esperam", versão próxima da francesa de Bible de Jérusalem: "Or la foi est la garantie des biens que l´on espère... Assim sendo, pode pois concluir-se que sem fé não há esperança, da qual ela é, necessariamente, a base, o sustentáculo. Mas a fé surge também enquanto garantia de bens por vir, como se, não havendo ou faltando fé, esses futuríveis não se realizassem. A partir daqui, fará pleno sentido a afirmação latina constante da Vulgata, que traduzi por "a fé é a substância das coisas que devemos esperar", ou seja, que ela é mais do que sustentáculo e sustento, sendo afinal a própria essência delas, a sua realidade atual.


Para qualquer leitor assíduo do Novo Testamento - isto é, da Bíblia propriamente cristã -, tal como para qualquer observador atento da história e escritos dos primitivos cristãos, ressalta a evidência de que a sua fé se vota e devota fundamentalmente à pessoa de Jesus Cristo. A fé cristã é, assim, a confiança posta na pessoa do Verbo feito carne, com o qual, e pelo qual, todos nos tornamos filhos de Deus. Acreditamos na palavra do Senhor Jesus, e por ela sabemos que o bem que devemos esperar, o Reino, já está dentro de nós : Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes : «O Reino de Deus não vem de maneira observável. As pessoas não afirmarão "Ei-lo aqui" ou "Ei-lo ali". Pois o Reino de Deus está dentro de vós». (Lucas, 17, 20-21). A nós cabe fazê-lo crescer, somos parte integrante da sua vinda.


Quando vier o Filho da Humanidade na sua glória...   ...dirá o rei àqueles que estão à sua direita: «Vinde, benditos do meu Pai, e herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Eu tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, eu era estrangeiro e acolhestes-me, estava nu e vestistes-me, estava doente e visitastes-me, estava na prisão e viestes até mim».
(Mateus, 25, 34-36)


E dizia ainda: «Bem aventurados os mendigos, porque vosso é o Reino de Deus. Bem aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem aventurados os que chorais agora, porque rireis». (Lucas, 6, 20-21)


Vale a pena citar aqui a tradução, por Frederico Lourenço, dos versículos 1 a 10 do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus: 


Vendo as multidões, Jesus subiu até à montanha e, sentando-se, vieram ter com ele os seus discípulos. E abrindo a sua boca, ensinou-os, dizendo: 


   «Bem aventurados os mendigos pelo espírito,
   porque deles é o reino dos céus.
   Bem aventurados os que estão de luto,
   porque eles serão reconfortados.
   Bem aventurados os gentis,
   porque eles herdarão a terra.
   Bem aventurados os esfomeados e os sedentos de justiça,
   porque eles serão saciados.
   Bem aventurados os misericordiosos,
   porque eles serão alvo de misericórdia.
   Bem aventurados os puros pelo coração,
   porque eles verão Deus.
   Bem aventurados os que fazem a paz,
   porque eles serão chamados filhos de Deus.
   Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça,
   porque deles é o reino dos céus.


O Reino de Deus está dentro de nós: o luto ou saudade dorida, a gentileza ou mansidão, a sede de justiça e a misericórdia, a pureza de intenções e o amor da paz, a perseverança no bem, tudo isso, com sua paixão, nasce connosco, é parte integrante da nossa contraditória condição humana. E é essencialmente a nossa fé, desde já substância do bem que um dia nos será dado. O Reino, ensina-nos Jesus, não está fora de nós, antes em nós cresce, se o procurarmos. As suas bem-aventuranças são-nos dadas, como potencialidade e chamamento. A religião cristã é simples, no sentido em que não exige grandes especulações metafísicas ou teológicas, mas tão somente a humanidade benevolente de escutarmos e nos inspirarmos nas palavras misericordiosas de Jesus. E será pelo amor aos outros que nos reconhecerão.


Escrevia estas linhas, quando um telefonema de um hospital de Torres Vedras me anunciou a morte da Isabel Maria, minha Mulher há mais de 55 anos. Na dor que me enche o coração, encontro ainda a alegria de ter assistido, durante esses anos todos, à bondade cristã de uma mulher que amava e procurava a concórdia e a paz, a justiça e a misericórdia, a visão de Deus no coração da humanidade. Foi sempre construindo um pedacinho do Reino de Deus, atenta aos sinais temporais dos bens que devemos esperar, e sempre disponível para o acolhimento, a consolação e a partilha.


Regresso agora das exéquias fúnebres e retomo a escrita. Para acrescentar apenas que escolhi a versão portuguesa de Frederico Lourenço para citar o sermão da montanha, porque gosto das expressões mendigos pelo espírito e puros pelo  coração, já que me sugerem a ação do espírito e a do coração por ele movido. Essa é a lembrança que guardo da Isabel Maria, bem perto da fonte da nossa religião.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

À MARGEM DE ANTIGAS CARTAS


SÓ PERGUNTO AONDE VAIS?
 


Persigo sobre a areia só
   
e é fugaz e fugidia
a deste deserto   
nas vagas impressões
  
dos teus muito frágeis passos
 


São de outrora, de depois ou só
 
de porvir
   
conformes a tempos e modos
de sentir  
porém de ti sempre


Porque como teus só
  
os reconheço

ou talvez por mim
os adivinhe 
e me transformem


Já tanto de ti só
  
no coração de Deus existe
e eu estou fora ainda 
por pegadas de vento buscando

na saudade o teu caminho


   Quando um de nós se perde na demência, só num deserto estranho o outro o pode encontrar. Eis como a comunicação possível se torna monólogo e se inventa outra existência. Perdeu-se alguém, de tão brutal maneira que a própria ausência é impossível de se conceber. No fundo de mim, terei de criar uma presença nova e fazê-la comunicar, por um caminho do espírito que em si só, no seu mistério, guarda o seu segredo.


   Quem morreu, sabemos que não está aqui, imaginamo-lo algures ou nenhures, mas sem nunca o ver, e a sua própria incomunicabilidade pertence à ordem natural das coisas. Não lhe pertence. Tortura maior é, sim, procurar quem vemos mas não nos fala, tentar escutar no silêncio o bater de outro coração, desvendar num segredo inacessível essa presença amorosa qe Deus nos esconde. Porquê? Saberás tu responder-me, ouvir-me-ás perguntar-te aonde vais?


   Como escrevi, em carta com mais de sete anos, no passado domingo republicada pelo blogue do CNC, "o silêncio interroga o silêncio. E é mais sentida a ferida".

 

Camilo Maria     

 

Camilo Martins de Oliveira

E OUTRA AINDA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José Saramago:


   ...meu pai mal pode andar, acho que  lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar... diz Baltasar Sete Sóis, no Memorial do Convento,  quando, sob o efeito da saudade do desaparecido padre Bartolomeu e duns púcaros de vinho a mais, a sua mente oscila entre o aparente disparate de tal pensamento - que, todavia lhe inspira, a si, meu caro Saramago, essa frase que imagina a morte tão humana e tão bonita - e a confusão que as ideias sobre Deus geram em cabeças fragilizadas. Cito: ...Deus não tem a mão esquerda porque é à sua direita que senta os seus eleitos, e uma vez que os condenados vão para o inferno, à esquerda de Deus não vem a ficar ninguém, ora, se não fica lá ninguém, para que quereria Deus a mão esquerda, se a mão esquerda não serve, quer dizer que não existe, a minha mão serve porque não existe, é só a diferença, Talvez à esquerda de Deus esteja outro deus, talvez Deus esteja sentado à direita doutro deus, talvez Deus seja só um eleito doutro deus, talvez sejamos todos deuses sentados, donde é que estas coisas me vêm à cabeça é que eu não sei, disse Manuel Milho, e Baltasar rematou, Então sou eu o último da fila, à minha esquerda é que não se pode sentar ninguém, comigo acaba-se o mundo, donde vêm tais coisas à cabeça destes rústicos, analfabetos todos, menos João Anes, que tem algumas letras, é que nós não sabemos.


   
Venho saboreando a sua frase, tão humana e tão bonita: meu pai mal pode andar, acho que lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar.  Tantas vezes eu mesmo propriamente me sinto assim... tantas quantas me surpreendo a pensarsentir que um homem é árvore, nascida para crescer, dar sombra e fruto, e morrer de pé, num abraço ao chão que lhe sustentou a vida. Depois do abate, poderão queimar-me para dar calor e luz ainda, sem pretensões, apenas porque, para tal, possa ter algum préstimo. Nada me pertenceu ou pertence, só eu pertenci e pertencerei sempre a esse devir de que Deus é dono, e a que chamamos vida por vir, universo inteiro. 


   Nem aos filhos de Zebedeu Jesus garantiu lugares de privilégio no Reino do Pai, nem Baltasar sabe se, sentado no último lugar da fila, será ele o primeiro a cair pela esquerda, ou quando o mundo for acabar. Da mão esquerda de Deus, da sua utilidade e desígnios, tanto nada sabem os sábios humanos (incluindo os que se enaltecem de títulos sacerdotais) como João Anes ou qualquer dos seus analfabetos companheiros etilizados. Por mim, apenas ouso tentar adivinhar que, com mão esquerda ou sem ela, Deus terá decidido que o seu segredo só pode ser guardado no coração de cada humano de boa vontade.


    E ainda arrisco dizer que o José Saramago não discordará totalmente de mim, sobretudo se lhe ocorrer que, por me encontrar ainda do lado de cá da contemplação do mistério da vida e da morte, nesta idade e condição, também poderei sentir-me como quando era menino pequenino e carente de tudo, impotente ansiando por que uma inefável ternura tenha misericórdia de mim.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

MAIS OUTRA CARTA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José:


...e o padre Francisco Gonçalves, como lhe competia, respondeu, Todo o saber está em Deus, Assim é, respondeu o Voador, mas o saber de Deus é como um rio de água que vai correndo para o mar, é Deus a fonte, os homens o oceano, não valia a pena ter criado tanto universo se não fosse para ser assim, e a nós parece-nos impossível poder alguém dormir depois de ter dito ou  ouvido dizer coisas destas.


   
Ao escrever estas poucas linhas, mais do que as suas personagens, estaria o próprio autor inquieto. Você mesmo o confessa, meu caro José, ter-lhe-á sido difícil conciliar o sono depois de as ter pensado e redigido... A mente humana é muito sensível, por isso gosto de dizer que a expressão pensossinto me parece mais realista e acertada, e ainda mais conforme à inquietação que nos percorre e, por vezes, nos faz tremer, mesmo quando não tememos. Da ignorância diremos que é noite do espírito, escuridão, não temos medo necessariamente do que ela esconde, receamos, sim, a nossa própria incapacidade de desenhar as coisas e de, tão temerariamente quanto possível, as nomearmos. Noutro passo do seu Memorial, o José Saramago também se interroga sobre o significado de só Deus, o Sem Nome, saber o nome de tudo e todos, deixando-nos a nós, humanos, o labirinto que vamos semeando de invenções. Não ficou escrito assim, nem por esta ordem, mas assim veio habitar o meu pensarsentir.


   Aliás, a resposta do padre Francisco Gonçalves acima transcrita resulta de interpelação feita pelo padre Bartolomeu Lourenço, como significativamente o José conta no Memorial : Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso parecidos, mas nunca iguais, tão pouco rigoroso seria dizer Vi um homem, como Sonhei com água a correr, não chega isto para sabermos que homem era nem que água corria, a água que correu no sonho é água só do sonhador, não saberemos o que ela significa ao correr se não soubermos que sonhador é esse, e assim vamos do sonhador ao sonhado, do sonhado ao sonhador, perguntando, Um dia terão lástima de nós as gentes do futuro por sabermos tão pouco e tão mal, padre Francisco Gonçalves, isto dissera o padre Bartolomeu Lourenço antes de recolher ao seu quarto...


   
Tenho para comigo que a nossa humana inquietação brota duma qualquer mista consciência de perplexidade (ou, talvez, humilhação revolta) e de curiosidade (pertinaz, teimosa, ousada) - e, ao pensá-la assim, estou sentindo outra iluminação, um encanto novo no conto genético da tentação do fruto proibido da árvore do conhecimento. Será esse o paradoxo da condição humana, ou descoberta da nossa contingência na própria ânsia do cumprimento de uma promessa inicial e fundadora da nossa própria humanidade? Terão Adão e Eva errado por desejarem conhecer a verdade? Tal desejo não seria, afinal, já parte própria deles mesmo? Ou serão os erros cometidos condição necessária do conhecimento do bem e do mal?


   
No Memorial, eis o que diz padre Bartolomeu a Domenico Scarlatti: ... é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade, Porém, para que os homens possam cingir-se à verdade, terão primeiramente que conhecer os erros. E praticá-los, não saberei responder à pergunta com um simples sim ou um simples não, mas acredito na necessidade do erro...


... Tendes razão, disse o padre, mas, desse modo, não está homem livre de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a verdade, respondeu o músico, e logo disse o padre, Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, nem ele esperou pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta para tal pergunta.


 
Ou talvez fosse só Pilatos cético, pois Jesus, Deus que era, não só se manteve calado durante todo o processo, como quiçá entendia que não chegara a hora de revelar um vislumbre sequer da verdade ontológica que só a Deus pertence... A cada um de nós cabe a tarefa de procurar a verdade possível de encontrar, e só o amor posto nesse trabalho nos trará o perdão que o ter-se amado consegue. E bem diz, meu caro Saramago: Procura cada qual, por seu próprio caminho, a graça,  seja ela o que for, uma simples paisagem com algum céu por cima, uma hora do dia ou da noite, duas árvores, três se forem as de Rembrandt, um murmúrio, sem sabermos se com isto se fecha o caminho ou finalmente se abre, e para onde, para outra paisagem, ou hora, ou árvore, ou murmúrio, veja-se este padre que anda a tirar de si um Deus e a pôr outro, mal sabendo que proveito haverá na troca, e, se proveito houver, quem dele finalmente aproveitará, veja-se este músico que outra música que esta não saberia compor, que não estará vivo daqui a cem anos, para ouvir a primeira sinfonia do homem, erradamente chamada Nona...


   
Ao Deus sem nome - e talvez por isso mesmo - deram os humanos muitos nomes. Ao Deus desconhecido inventaram histórias e preceitos, de forma a torná-lo por vários gostos reconhecível. Mas há um - cujo nome está acima de qualquer nome - que nos envia o seu Primogénito a ensinar-nos o Santo Nome: PAI. E nós assim dizemos: Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o teu nome... Veja bem, meu caro José Saramago, como, por este caminho, me vou despindo de orfandade, e pensossinto que religiosa ou religioso é todo o ser humano que, dia a dia, sai de si para ir em busca do Pai...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTA NOVA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José Saramago:


   Nas minhas Cartas a José Saramago, todas publicadas, há uns anos (2013/14), no blogue do Centro Nacional de Cultura, nunca me debrucei sobre o Memorial do Convento, obra que sempre me falou menos do que outros escritos seus, com que dialoguei naqueles tempos... Dias atrás, todavia, resolvi pegar nesse livro de 1982, em edição donde não se apagara ainda a dedicatória do autor a Isabel da Nóbrega: À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova. Bonito dito, quase bíblico, deveria ter sido guardado pela mesma verdade que tão sinceramente o inspirou.


   Mas deixo o desabafo sozinho, ou talvez não. Acompanho-o de uma mais longa citação do próprio romance, quando o padre Bartolomeu Lourenço, em trabalhos de passarola, diz ao mutilado soldado Baltasar, conhecido pelo cognome de Sete-Sóis:


   «...maneta é Deus, e fez o universo».


   Baltasar recuou assustado, persignou-se rapidamente, como que para não dar tempo ao diabo de concluir as suas obras, Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda. 


   
Se estivesse agora a escrever-lhe, José Saramago, mais uma das minhas cartas intemporais (se fossem suas, seriam póstumas), dir-lhe-ia que, de Deus, nada sabemos, nem de direita, nem de esquerda. Todavia, por muitas e variadas imagens do Inferno que o engenho humano construa, nenhuma me parece tão verosímil como esta: à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência. Isso mesmo: o Inferno é a ausência de Deus. Tão somente bastante. É evidente que outras representações, como as de sofrimento eterno ou de infinita tortura, tantas vezes resultantes de uma intenção de castigo vindicativo, nascem de visões antropomórficas do ser divino: os humanos - uns mais, outros menos - são propensos a gostar do espetáculo, ainda que só imaginário, do padecer alheio. Vá lá a gente perceber porquê, somos tentados a ser assim, até a própria Igreja - Santa Madre Igreja - consentiu e fomentou o Santo Ofício, a Santa Inquisição, o Santo Temor de Deus, do Rex Tremendae Majestatis, Senhor absoluto do Dies Irae. Parte importante da pedagogia cristã e do que se entende por Magistério da Igreja se fez incutindo o medo, o horror às profundas do Inferno, este surgindo como lugar de sevícias infligidas aos humanos pecadores por diabos a soldo do Deus castigador... A abundante iconografia é esclarecedora da insistência sadomasoquista nas misérias diabólicas do Inferno.


   Ora, com exceção de alguns poucos episódios (como a expulsão dos vendilhões do templo), os evangelhos não recorrem ao castigo como indispensável coadjutor da conduta moral, antes apelam à vocação libertadora da conversão para abrir a via de ultrapassagem do pecado - pecado que é a nossa teimosa paixão de nos confinarmos nos nossos próprios limites - e nos levar à descoberta da vida nova. Vai em paz e não voltes a pecar. Curiosamente, os pecados referidos, tais são conforme a lei mosaica, Jesus não cria qualquer catálogo de pecados novos (como a igreja clerical mais tarde o fará, remoendo sobretudo, e misoginamente, práticas sexuais), apenas ensina que o bem e o mal se cozinham no pensarsentir dos seres humanos, e é de cada um de nós que, bem ou mal, têm voz de saída. O único mandamento novo é o do amor fraterno, para que a nossa alegria seja completa. E quando nos chama a atenção para a escuta dos sinais dos tempos, e de Deus, conta a parábola do rico que desprezava o pobre Lázaro em vida, e que ,depois de morto, sufocado de sede no Inferno, pediu autorização para poder avisar seu irmão de que não deveria proceder como ele próprio, pois correria risco de castigo grande... É-lhe negado tal alívio : quem não escuta em vida a voz de Deus, nas vozes tantas que a vida nos traz, não saberá arrepender-se depois de morto. Nosso é só o tempo desta vida.  


   Ao afirmá-lo ocorre-me outro passo do Memorial, páginas adiante do já citado: Não é verdade que a mão esquerda não faça falta. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto... Leio-o metaforicamente, Saramago toca aí em algo que as nossas ânsias de representação antropomórfica de Deus - teimamos em recriá-Lo à nossa imagem e semelhança - nos escondem: o Deus Vivo, não tem morte nem qualquer limitação, é simplesmente o Quem é, o Ser por si, alheio ao espaço e ao tempo. Nós, pelo contrário, somos contingentes, medimos o espaço que nos é alocado, contamos a vida e o tempo, organizamos a nossa mente e suas visões (é isso a cultura), moralizamos e legiferamos também, para podermos contar e julgar os atos. Agitamo-nos muito, condenamos ou "canonizamos", com feroz sofreguidão, sob o chicote da impaciente pressa do tempo. Esquecemos Deus, para quem um dia é igual a mil, e mais ainda nos esquecemos de que nada sabemos dele, nem da sua presença no coração de cada um de nós, cujo íntimo só Ele conhece. Estar à mão esquerda de Deus, poderá ser uma queda no esquecimento ou na nulidade, mas também significar que o Rex Tremendae Majestatis se esqueceu do castigo, pelo menos desde o dia em que o descobrimos na pessoa incarnada do Filho que nos ensinou como tudo é perdoado aos que muito amarem. Deus não tem mão esquerda. Mas nós temos inquietação. Nem o José, enquanto por cá andou, a conseguiu sempre disfarçar.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há noite que me dê sono antigo, um daqueles de acordar só de manhã, cedo, bem cedo, como tanto gostei ao longo da vida. Hoje, por muito que sossegue o espírito e em mim acalme as agitações dos dias findos, lá vou despertando, agora e daqui a pouco, para os sonhos que me assaltam. Como se entrasse em cena, para vir desempenhar um papel que talvez tenha aprendido, ou devesse saber de cor(ação), mas sempre me deixa entregue àquela qualquer ilusão ou expectativa cujo repentino acordar-me, mais do que lembrar-me, me interroga. Pois que, de todos os sonhos que recordo, ainda que muito nebulosa ou vagamente, apenas sei que insistem em chamar-me ao passado ou, talvez assim te lo diga melhor, aos passados desta minha vida...

 

   Hoje, surpreendentemente, à hora de alba, dei comigo a pensarsentir os movimentos celestes, e a Terra neles, e eu, na ilusão de que o universo gira à volta desta esfera em que pouso os pés, a dar voltas, afinal, inconsciente da rotação e translação do planeta em que sou suposto viver. Mas, todavia, sejamos clarividentes, são esses movimentos circulares ou parabólicos ou algo assim, com as suas oscilações, que nos vão contando o tempo, tal como vão gastando as superfícies do nosso chão e dos nossos horizontes. E nesse mundo onírico em que, sem querer nem sequer desejar, o meu pobre de mim mergulhara, emergiu, como imperativo profético, o sentido pensamento de uma qualquer revolução nada mais ser do que retorno ao ponto de partida. O tempo que nos desgasta e gasta será circular, para nos lembrar a promessa de um reinício sempre desejado. Mas, para que este aconteça, o próprio tempo que agora conhecemos - ou julgamos conhecer - terá de ter chegado ao termo da sua provisória necessidade. Estranho fado, o da humana condição: nascemos no tempo finito, para, quiçá, viver no sem fim de um universo que se expande...

 

   E já digo agora, como canta o fado: Mas isto, meus senhores, foi a sonhar... Só que, digo eu, experientemente, sonhar nem sempre é fácil. Muito menos quando, no espaço-tempo finito, ainda que mal definido e sempre ambulante, o nosso sonho nos leva à cabeceira do infinito. Onde, subjetivamente e sempre sós, tentamos um vislumbre... A qualquer ser humano a morte desgosta tanto que, a bem dizer, não é que ele não goste de morrer mas, verdadeiramente, não quer. E é tal, mais do que desgosto, fúria à morte que nos tem levado a todas essas experiências de prolongamento da vida - hoje tanto em moda - nem que se tenha de congelar um cadáver para que este aguarde a hora em que a ciência humana saiba tirá-lo de tão frio purgatório para novamente o animar...

 

   Essa coisa de nos recusarmos à nossa própria finitude ganha por vezes força maior do que a nossa esperança racional, deixa de ser ponderável, mas é tão somente reação exacerbada a qualquer adivinhado desafio de infinita omnipotência. No teatro onírico de que acima te falo, Princesa de mim, ela representa-se, no concerto astral, como viagem estratosférica, desejada descoberta de um desconhecido que se quer conhecer. Como nos sonhos milenários das religiões antigas, vai-se em busca de um encontro, de um abrigo, de uma morada que, como tudo aquilo que mais amamos, poderá ser fugidio ou inatingível, mas é, como a fé, a substância (o que sub-está) das coisas que hão de vir. Receamos aproximar-nos do sol ou das estrelas, pois que com Ícaro aprendemos como se derrete a cera dos nossos projetos e ardem as asas das nossas iniciativas. Mas tentaremos pousar num planeta, esfera apagada, estrela morta onde esperamos recuperar vida. Quiçá sem realizarmos que, afinal, voltamos à caça do efémero, esse fogo fátuo, repetido aceno do eterno. Mesmo encetada num espaço-tempo que se imagina infinito, qualquer peregrinação nossa, na nossa presente condição humana, nunca passará de uma viagem pelo finito, pela simples razão de que não podemos agora, na nossa presente circunstância, conceber a infinitude. Paradoxo essencial: o infinito, por definição mental, não tem definição possível. Por isso o místico Mestre Eckhart dizia nada para referir o Deus que, todos os dias, pensavassentia a acompanhá-lo, e o teólogo São Tomás de Aquino, autor da Summa Theologiae, afirmava que ninguém jamais vira Deus e que tudo o que ele, frei Tomás, sobre Deus escrevera era palha...

 

   Nesses saltos que os humanos vão ensaiando pelo espaço extraterrestre, vejo, depois de acordado - e talvez influenciado pela leitura de notícias sobre o esgotamento de recursos do nosso planeta - uma tentativa urgente de mudar de casa, de encontrar sítio mais acolhedor, quiçá mais abundante, farto e generoso (sonhar é ainda mais fácil, quando julgamos estar bem acordados...). Então carinhosamente me lembro da nossa Mãe Terra a pedir-nos, como a raposa ao Principezinho, a presença atenta de um amor sábio.

 

   A raposa calou-se e fixou o olhar no Principezinho: «Por favor... Domestica-me!» -  disse.
   - Bem gostaria, respondeu o Principezinho, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos por descobrir e muitas coisas por conhecer.
   - Só conhecemos as coisas que domesticamos, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para conhecer seja o que for. Compram coisas já todas prontas nos mercados. Mas como não existe qualquer mercado de amigos, os homens já não têm amigos. Se quiseres um amigo, domestica-me.
   - Que devo fazer? disse o Principezinho.
   - É preciso ser muito paciente, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco longe de mim, assim na relva. Olhar-te-ei pelo canto do olho, mas nada dirás. A linguagem é fonte de mal entendidos. Mas, dia após dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...

...

   - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
   - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o Principezinho, para se recordar.

   - Foi o tempo que gastaste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.

   - Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o Principezinho, para se lembrar.

   - Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecê-la. Tornas-te responsável para sempre por aquilo que domesticaste. És responsável pela tua rosa...

   - Sou responsável pela minha rosa, repetiu o Principezinho, para se lembrar.

 

   Traduzi o francês apprivoiser pelo português domesticar. O termo gaulês vem do latino apprivatiare, que significa tornar privado, familiar. Trata-se, provavelmente, de evolução a partir do baixo-latim, no século XI. O português também deriva do latim, mas da palavrga domesticus, que radica em domus, que quer dizer casa. Domesticar vem significar então tornar caseiro, familiar. E não será a Terra a nossa casa, sempre à espera da paciência amorosa dos nossos cuidados? O que me seduz nessas etimologias é, sobretudo, o substrato ou substância de relacionamento ou relação: afinal, quem domestica domestica-se... Encontramos assim, não uma dialética de afrontamento, mas uma de harmonização.

 

   Desta minha saída de um pesadelo onírico para um sonho de Antoine de Saint-Exupéry no deserto, em que o Petit Prince vai meditando lições de vida por planetas bem mais exíguos do que o nosso, tiro o ensinamento de que andava precisado e contigo, Princesa de mim, quis partilhar.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não te escrevo para cumprir o prometido devido. Venho fazer-te companhia, e assim também me sinto acompanhado. Escrever é não querer a solidão. Não é bem o mesmo que não querer estar sozinho, a solidão não é física, antes é sentida por essa parte do nosso humano, a tal que não sabemos exatamente o que é, e à qual chamamos espiritual. No passado, muitas vezes te disse que a solidão se me parece à morte, acontece-me pensarsentir que ela é a incomunicabilidade, essa impossibilidade de nos encontrarmos em relação. Pois, humanos, somos necessariamente em relação: cada eu e a sua circunstância. E, ainda, o invisível, o Inefável. Tomás de Aquino tinha uma oração, que recitávamos no colégio, antes de cada primeira aula do dia, e começava por esta invocação: Criador Inefável! Dirigíamo-nos ao invisível, ao inenarrável, a pedir-lhe a fortaleza necessária para enfrentar mais um dia da nossa vida, que seria, como todos os outros, mais um percurso no desconhecido, nessa realidade que insistimos em chamar futuro, apesar de não sabermos, à partida, se, como, e quando virá a existir. Não precisamos de esperar pela morte para saber que uma boa parte de nós é um mistério mergulhado noutro mistério maior. Afinal, todos os dias aprendemos que o caminho da nossa liberdade humana, movida pela inteligência e pela vontade, é o da busca incessante das nossas relações, pois só elas nos realizam e nos explicam... Sobretudo, são essas relações que nos vão ajudando a construir a Relação cujo apocalipse é o triunfo da Vida. Então também lhes podemos chamar «referências».

 

   Quando vivemos os dias e semanas sequentes à morte de um ente querido, podemos experimentar reações inesperadas, tais como nos lembrarmos de lhe telefonar, para contar um episódio, partilhar um pensarsentir, estender uma interrogação. Digo inesperadas, porque não as construímos racionalmente, de modo previsível. Por isso mesmo, pensando melhor, talvez também pudesse dizer que são expetáveis: na verdade, elas obedecem a esse impulso vital, muito profundo, essencial, que é a nossa necessidade inata de comunicação. Quiçá mesmo biológica: quem lidou ou lida com crianças pequenas, ou ainda em gestação, perceberá melhor esta minha intuição. O ser em relação é tão inicial e perseverante que até pode viver noutra circunstância. E assim chego eu, novamente, Princesa de mim, à dimensão divina do humanismo cristão, que vive na permanência do amor: Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte (1ª Carta de São João, 3, 14).

 

   Mas hoje, Princesa, vou deixar as meditações que me assaltam, para dar um passeio contigo por entre outras que me ocorreram a partir de uma metáfora do ser pessoal em ser cultural. Explico-me. Melhor: começo por deixar-te uma explicação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Queensland (Austrália), Christian Reus-Smit, no seu On Cultural Diversity - International Theory in a World of Difference (Cambridge University Press, 2018):

 

   As culturas - sejam elas estruturas mentais estratégicas, nações, civilizações, ou mentalidades coletivas - são geralmente imaginadas como coisas coerentes: integradas, diferenciadas e fortemente constitutivas dos respetivos efeitos...  ...Mas partirei de uma posição completamente diferente. Devemos começar por assumir a diversidade cultural existencial, assumindo que o terreno cultural em que a política joga é polivalente, estratificado, riscado por fraturas muitas vezes contraditórias, muito longe de estar coerentemente integrado ou ligado. Como argumenta Andrew Hurrell, «são precisamente as diferenças das práticas sociais, valores, crenças, que representam a expressão mais importante da nossa humanidade comum... O que nos torna diferentes é precisamente o que nos faz humanos».

 

   Se recuarmos a 1871, encontraremos a definição inicial de Edward Tylor: Cultura ou Civilização é todo esse complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Assim, poderemos dizer que qualquer «cultura» é a circunstância arquetípica da sociedade que se lhe refere, ou que ela envolve. Simultaneamente seu produto e sua condicionante, resulta, de cada vez à sua própria maneira, da relação como um corpo social se estabelece no seu meio ambiente - tal como, já no século XIV/XV, defendia o mouro Ibn Khaldun, de quem te falei já em cartas antigas - e, depois, do modo dialético como se for organizando, económica e politicamente. Curiosamente, o pensamento do vitoriano Tylor foi-se orientando, e até fez escola, no sentido de pretender que, assim explica Reus-Smit, todas as culturas têm características semelhantes, resultantes de causas comuns, pelo que, consequentemente, todas formam parte de uma história humana uniforme... Sem negar o alicerce comum da nossa humanidade, um dos mais famosos críticos das teses de Tylor, o norte americano Frank Boas, embora concordando na verificação de feições culturais reaparecidas em diferentes culturas (quando estudamos a cultura de qualquer tribo, mais ou menos análogas feições de tal cultura se poderão encontrar entre uma grande diversidade de povos, escreve ele no seu Race, Language , and Culture - University of Chicago Press, 1940), irá, todavia, negar vigorosamente que elas tenham necessariamente as mesmas causas : Não podemos afirmar que a ocorrência do mesmo fenómeno é sempre devida às mesmas causas e que, portanto, a mente humana em toda a parte obedece às mesmas leis.

 

   É nesse sentido que, de forma enfática, te repito, Princesa de mim, que aquilo que nos torna mais humanos é a tal diferença que faz de cada um de nós um ser outro do que todos. Sendo que o próprio alicerce da nossa comum humanidade assim nos modelou, todos e cada um, à própria imagem e semelhança de Deus. A tal que nos iguala e nos proíbe de julgar que há pessoas ou culturas superiores ou inferiores. Por isso nos disseram já que Deus é tudo em todos, e aprendemos que o paradoxo humano é o seu valor divino.

 

   Isto assente, sou levado a uma perspetiva dialética das histórias pessoais, como das dos conjuntos sociais que, no decurso do tempo nos vão congregando em movimentos que, tal como cada pessoa face às outras, nos colocam em situações de afrontamento, não necessariamente conflituosas, apesar da própria propensão a sê-lo... Por isso mesmo, tal perspetiva dialética nos poderá ensinar a melhor entender a evolução dos povos, nações, estados, culturas e civilizações, sobretudo se soubermos apanhar essa subtileza de que qualquer confronto poderá parecer-se mais ao encontro do dó com o ré - o tal que, conta António Vitorino de Almeida, gerou o mi, assim nascendo a música - do que a um catastrófico choque de civilizações, como no pesadelo do Huntington.

 

   Espanta-me muito - não só no sentido de me pôr boquiaberto, mas sobretudo por me afugentar o gosto de conversar racionalmente - a moda "viral", como hodiernamente se diz, de se proclamar o drama fatal do declínio e queda do «Ocidente», isto é, da "cultura e civilização ocidental". Pelos tempos que correm, é relativamente fácil saber-se, por aí, que as culturas em que pensamos não são propriedade de ninguém, como, aliás, exemplifica a nossa própria cultura, que outras várias geraram e variegadas gentes nos legaram... E não esqueças, Princesa de mim, que o próprio Huntington foi nebuloso na circunscrição geográfica do «Ocidente» cultural. Niall Ferguson, no seu Civilisation (2011), observa bem que a definição hoje mais conhecida da cultura ocidental, a de Samuel Huntington, no Choque das Civilizações, exclui a Rússia e todos os países de tradição ortodoxa. Aplica-se apenas à Europa Ocidental e à europa Central (sem o Leste ortodoxo), à América do Norte (sem o México) e à Australásia (Austrália e Nova Zelândia). A Grécia, Israel, a Roménia e a Ucrânia não passam no teste. Nem as Caraíbas, quando, pelo menos algumas delas são tão ocidentais como a Florida.

 

   Deduz Ferguson que o Ocidente é mais do que simples noção geográfica: Um conjunto de normas, de comportamentos e de instituições com fronteiras muito nebulosas... Sem querer agora discutir contigo, Princesa, pormenores e fatores constitutivos dessa tal ideia de «Ocidente» - coisa que quiçá farei mais tarde - deixa-me só dizer-te que, hoje em dia, o conceito de cultura ou civilização ocidental é memória histórica, isto é, entra numa categoria conceitual que nos serve de referência para um entendimento do passado. É também, e sobretudo, um mito a marcar o panorama das nossas angústias, medos e desilusões espantadas... Tal não quer, todavia, significar que esse conceito, geograficamente tão vago, seja vazio, destituído de conteúdos próprios, ideais, valores, instituições... Pelo contrário, muitos destes ainda hoje orientam as condutas de muitos povos deste mundo, nem é preciso ser-se europeu ou de raça branca, do hemisfério norte ou do ocidental para nos referirmos a esse complexo de padrões, modelos e estilos de vida a que chamamos cultura ou civilização ocidental. E mais ainda: do mesmo modo que as sociedades nórdicas e ocidentais vão adotando normas, usos e costumes de outros povos e lugares, também nestes se vai impondo uma cultura crescente (por vezes, até, um verdadeiro culto) de valores e referências a que gostamos de chamar nossos; tal como nós, quiçá infelizmente, tendemos a desertá-los...

 

   Chegamos mesmo a ser surpreendidos com inesperadas novidades : à cultura do Iluminismo atribuímos a libertação do espírito crítico entre nós, com o consequente reforço da racionalidade, o declínio da crendice e, até, da própria religião, e um triunfo progressivo das correntes agnósticas e ateístas do pensamento ocidental ; contudo, é no mundo islâmico que hoje mais rapidamente se vão afirmando correntes de opinião sem Deus nem religião, enquanto nas sociedades do ocidente geográfico se vão anichando movimentos que cultivam espiritualidades que, embora estranhas ao cristianismo, a muita gente impõem meditações e motivações da vida humana elaboradas por culturas de alhures, não necessariamente deístas, mas tampouco ateias.

 

   Niall Ferguson pergunta: Mas será verdadeiramente possível uma sociedade asiática tornar-se ocidental se adotar as regras de vestuário e comerciais do Ocidente - como faz o Japão desde a época Meiji - e como hoje, parece, faz quase toda a Ásia? Outrora, chegou a dizer-se que o «sistema-mundo» capitalista impunha uma divisão permanente do trabalho entre o centro - o Ocidente - e a periferia - o resto do mundo. Mas que se passaria se todo o mundo se ocidentalizasse? A menos que as outras civilizações - como defendeu Huntington - se revelem mais resilientes, designadamente a civilização chinesa e o Islão com as suas «fronteiras e vísceras sangrentas»? Em que medida a sua adoção do "modus operandi" ocidental não passará duma modernização superficial sem enraizamento cultural?

 

   Pessoalmente, ainda creio que, precisamente por ser variavelmente dialética (se assim me posso exprimir), a história dos povos, culturas e civilizações não é linear, nem facilmente previsível, passeia muitas cores, pela sombra e pela luz, não é verticalmente a preto e branco, ou seja, ou escura, ou luminosa... Voltarei a esta questão - tal como em correspondência passada tu e eu, Princesa de mim, falámos de inculturações e confrontos - em cartas próximas. Por hoje, permite-me que te deixe com uma orientação a que muitas vezes recorro, na edição francesa (Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, 2002) da Autobiographie e de Muqaddima de Ibn-Khaldun (Túnis,1332-Cairo, 1406), magnificamente apresentada por Abdeselam Cheddadi. Traduzo breves trechos, mas uma lição com mais de seis séculos.

 

   Ibn-Khaldun insiste em ver a história como ciência que investiga os factos, de forma crítica e procurando entendê-los com inteligência. Assim, haverá quem veja o lado de fora da história que, desse modo, se reduzirá a narrativas de dias gloriosos e de dinastias, não se dando conta de como essas narrativas nos dão a conhecer o estado das criaturas e as mudanças que afetaram as suas condições, nem de como se expandiram as dinastias e se estabeleceram na terra até desaparecerem. E haverá outros que a veem do interior, tornando-a investigação especulativa e verificação, estudo minucioso das causas e princípios das coisas existentes, conhecimento aprofundado das circunstâncias e das causas dos acontecimentos.

 

   Ia já assinar esta carta, quando deparo com um artigo de Francisco Bethendourt, professor no King´s College de Londres, intitulado Emancipação (Público, 30 de julho de 2019) e, a respeito da abolição da escravatura, lembrando que a ideia de superioridade implica visão hierárquica entre culturas superiores e inferiores que está desatualizada. E alegra-me, Princesa de mim, poder terminar esta citando esse historiador de prestígio internacional, sobre temas que tanto te referi em cartas antigas : A vantagem de uma atitude de recusa de preconceitos é facilitar a tradução de experiências alheias e produzir um conhecimento acrescido de outras culturas, nas suas formas de resolver conflitos, obter trabalho recíproco, acolher estrangeiros, estabelecer regras comunitárias, relacionar-se com a natureza, mobilizar investimento, recolher informação ou desenvolver reflexão...   ... É esta atitude de abertura e hospitalidade perante outras culturas que nos deverá estimular no presente e no futuro, em lugar de mantermos uma visão virada para um passado mitificado que ignora ruturas, lutas e conflitos entre perspetivas completamente diferentes.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei ainda explicar por que deixei a tua companhia ou, melhor dizendo, porque deixei de te levar a companhia das minhas cartas. É certo que a morte sucessiva de vários e queridos amigos - e, sobretudo, a do meu último irmão, o Gaëtan - me abalou e destruiu paredes cujo convívio, à minha volta, me protegia. Assim fiquei, não sei se entre ruínas ou se apenas só e perdido num deserto que desconhecia. Mas até os desertos - ou eles mesmos mais ainda - abrigam, na aparente e infinita desolação, oásis onde renascem e desabrocham as flores de muitas amizades. E têm sido muitas as que carinhosamente me acolhem e dão sustento, sempre mais presentes e prontas na vida real do que miragens que, por aí, se lançam aos ventos. Muitas vezes pensossinto comigo que nunca perderei essa forma temporal e terrena da esperança, que creio ser a confiança visceral no valor divino do humano, enquanto for conseguindo enxergar tantos bons samaritanos pelos caminhos das nossas vidas.

 

   São esses santos, sempre, hierofanias, manifestações do sagrado, da presença de Deus connosco no quotidiano. Jesus diria que só gente de pouca fé pedirá outros sinais, milagres e aparições, ou mais ainda, por uma qualquer eficácia de gestos mágicos sacrificiais. Mas só o amor do próximo é como um raio do divino em qualquer coração da humanidade. Li hoje (17/9/19), no jornal em linha Sete Margens, um texto de Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Moçambique), intitulado "Albino não morre, só desparece"E se fôssemos "bons samaritanos"?:

 

   ... Amar o próximo é um mandamento em qualquer tradição do mundo. Já o referi, neste espaço, quando comparei os mandamentos da "lei de Deus", de tradição católica, aos mandamentos da cultura e religião bantu, e acredito que nenhuma religião no mundo nos mande o contrário. Haverá, certamente, em cada canto deste mundo, um convite a sermos bons samaritanos.

 

   São Leão Magno, o Papa que enfrentou Átila, o Huno, diz, de modo muitíssimo melhor do que eu, o essencial dos meus textos intitulados COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS, já publicados no bloque do Centro Nacional de Cultura - e que também te enviarei, a ti e a mutos amigos - nos trechos do seu Sermão XII e da sua Carta XXVIII a Flaviano, aqui transcritos:

 

   É indubitável, caríssimos, que o Filho de Deus se uniu à natureza humana tão intimamente que não só nesse homem, que é o Primogénito de toda a criatura, mas também em todos os seus santos, está o mesmo Cristo. E como a Cabeça se não pode separar dos membros, também os membros se não podem separar da Cabeça.  

 

   E se é certo que não é próprio desta vida, mas da eterna, que Deus seja tudo em todos, também é verdade que, já desde agora, Ele habita inseparavelmente no seu templo, que é a Igreja, segundo a sua promessa: Eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos.

 

   Portanto, tudo o que o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, podemos reconhecê-lo não só na história do passado, mas senti-lo também na eficácia do que ele opera no presente.

 

... A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida da nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à nossa natureza passível, a fim de que, como convinha para nosso remédio, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, pudesse ser submetido à morte como homem e dela estivesse imune como Deus.

 

   Numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na sua humanidade. Por «nossa humanidade» queremos dizer a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que Ele assumiu para a renovar.

 

   E se, seja qual for a nossa religião, ou mesmo nenhuma, soubermos ouvir esse apelo do amor de Deus que atravessa a nossa humanidade, a de todos nós, não será só ela a renovar-se, mas toda a face da terra... O meu irmão Gaëtan será, como tanta outra gente que, por aí, vai aprendendo a olhar-se e aos outros, um exemplo de que o amor do próximo, ou seja, a atenção aos outros, não nos nega, não nos esconde, antes nos projeta e põe no nosso lugar: na «nossa humanidade», nessa natureza que o Criador desde o início formou em nós...

 

   Tal «natureza» que, de si mesmo, tão bem - e sempre tão perscrutadora e interrogativamente - foi desenhando nos seus autorretratos, procurou também, quiçá se como comunhão eucarística, nos rostos humanos que encontrava, ao longo de muitos anos, nas ceias de Natal com sem-abrigo, que servia e partilhava, de preferência a sentar-se à mesa mais rica (?) de familiares e amigos. Talvez lembrado do que Jesus dizia sobre quem era a sua família... Nunca lhe perguntei porquê. Hoje, quando já não posso ouvir qualquer resposta da sua boca, talvez escute, num murmúrio da alma, minha Princesa de mim, a história antiga de que ser humano é andar peregrinamente à procura.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

AS CARTAS E OS TEMPOS

 

Pedro L.,

 

Respondo-te, surpresa pelo teu contacto, como quem ante o teu rosto, regressasse da tua própria ausência. E sim, sabemos todos uns dos outros. Escrevemo-nos e vamos falando e quando possível estamos juntos. Nunca todos, a Leonor, o Miguel, nem sequer moram cá, contudo, quando falamos, a memória ajuda-nos a adquirir meios de conhecermos a razão de hoje sermos do modo que cada um é; de nos aceitarmos, ou não, dos outros nos quererem, ou não, com o que temos dentro. Falamos mais de vidas e ideias concretas e já não tanto de ângulos ideais, presença protetora ao desejo do acontecer do então. Como bem sabes, em seu tempo, quisemos crer que o mundo era aquele, aquele das transgressões e das batalhas decisivas onde tudo se passava nas estradas dos astros e das esferas por decifrar - a tua jovem mulher bem o intuiu, e, por ti, desconexa, adoeceu do teu viver.

 

Hoje, curiosamente, entre o nosso grupo, teve lugar uma religação, se assim lhe posso chamar, como se todos soubéssemos bem que desde a adolescência conjunta, o caminho de cada um se fez daquele modo que habitou todos, tecendo desgostos, alegrias, doenças, separações, mortes, profissões, verdades, furiosas mentiras, filhos a chegar e a partir, paixões, sensualidades, amores, e, afinal, a nossa pertença ainda é hoje nua à mercê do deslumbrar-se. Esta a tal religação ao passado que se despertou ao nosso peito de agora e que te queria referir. Enfim, tudo quanto me dizes Pedro L., não altera em nada o desejo de todos pela oficina secreta que consertasse os mistérios que se nos abrissem rotos de futuro; não altera em nada a força do teu encanto - só frágil de aparência - com que amavas a Leonor, não desconhecendo tu os teus sentires cheios de angústias, que, necessariamente, nela encontrariam tão inocente colo. Disse-me um dia a Leonor, que tinha sido preciso amar-te muito para entender que a tua fantástica modernidade estava refém de uma espécie de seita religiosa que vos levaria a nenhuma vida em vós poder perdurar, e mais, tudo terias feito para que a dor que lhe causaste expressasse bem a tua clara definitividade de a afastar.

 

Pedro L., bem sabes que do passado te falo pois me questionas como se acaso não me fosse claro que bem dominavas o esfriar e por essa razão vencerias sempre. Também hoje sei que a tua permanente depressão era tão forte quanto a tua sedução, ambas, juntas, fariam muito mal a quem acreditasse nos teus beijos. Na realidade, afastaste brutalmente a Leonor da tua vida, não vejo pois razão para ser eu a dar-te o seu contacto.

 

Queria ainda dizer-te que o Miguel nunca se considerou teu amigo. Achava-te demasiado polido na tua profissão para ser verdade a tua devoção a ela. Já o Nuno sempre gostou de ti, sempre te admirou, e tanto mas tanto que te seguiu as pisadas, na mesma universidade, dois anos mais tarde. Saberás porquê? Creio que sim. Ele diz que sim. A Beatriz adorava-te e ele copiando o teu estar haveria de a conquistar.

 

Pedro L., esta, uma carta de época, adequada à que me enviaste. De dizer-te ainda que de ti não tenho uma nova noção, sei apenas que no limiar estamos todos, e, ainda que perigosamente me deixe surpreender, aceito o café que me sugeres no nosso velho refúgio de Óbidos.

 

Abraço-te do meu avesso.

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na minha carta precedente, falei-te, muito livre e pessoalmente, da constituição e tradição dos nossos textos evangélicos. Por seu lado, o Corão deve a sua reunião em livro a um ato político, preparado pelo segundo califa (ou sucessor de Maomé), Omar, e feito pelo terceiro, Osmã. Na verdade, durante a vida e imediatamente depois da morte do Profeta fundador, apenas circulavam revelações divinas, lado a lado com ditos do mesmo Maomé, e relatos da sua vida. Tais ditos e relatos também seriam reduzidos a escritos, conhecidos, respetivamente, por Hadiths e Sira. Já as revelações divinas, recebidas pelo Profeta através do anjo Gabriel, seriam coligidas num livro a que se chamou Corão, precisamente por conter essas qurra ou recitações. Foram, aliás, os al qurrâ, os recitadores que se presumiam depositários exclusivos da revelação maometana, que mais se opuseram à versão oficial do Corão decretada pelo califa Osmã, como instrumento indispensável à preservação da unidade e força de um império nascente, que lutas intestinas, numa circunstância de rapidíssima expansão, ameaçavam. Não olvides que, após a morte do Profeta, em 632, ou seja, dez anos depois da hejira (início da era muçulmana, em 622), lhe sucederam, imediatamente, os quatro califas ortodoxos (os "bem guiados"): Abubacar, Omar e Osmã, até 657, período em que o islão conquista, para além da península arábica, o Egipto e o norte de África, e, derrotando os exércitos persa e bizantino, os territórios que hoje constituem a Síria e o Iraque; e Ali, o quarto, que Maomé teria preferido para sucessor, foi califa de 657 a 661, data em que foi assassinado. Nele radicará a secessão xiita. Apesar da importância do conceito de Umma ou comunidade dos crentes, no Islão, a continuação da mensagem de Maomé não se faz, como acontece no cristianismo primitivo, por uma Igreja independente do poder político, temporal, mas pela transmissão de um império.

 

   Escreve o doutor Nabil Mouline, no seu Le Califat - Histoire politique de l´islam (Paris, Flammarion, 2016): Desde o seu acesso ao poder, Abubacar [o primeiro califa, sucessor imediato de Maomé] tem de enfrentar um grave problema. A maioria das tribos e regiões que se aliaram à causa de Maomé, nomeadamente depois da conquista de Meca, rejeitam a autoridade de Medina [onde o Profeta falecera e está sepultado], por razões religiosas, económicas e políticas. Vários grupos estimam que o juramento de vassalagem prestado ao Profeta é estritamente pessoal. Recusam, portanto, reconhecer o novo chefe. Outros afirmam que, não deixando de ser muçulmanos e reconhecendo a preeminência de Medina, deixarão de pagar o imposto - sinal de subordinação universal. Outros grupos vão ainda mais longe: não se contentam com declarar a sua independência, mas põem profetas - que a tradição classificará como impostores - à cabeça, para se diferenciarem dos muçulmanos e mostrar que nada têm para invejar [...] Com força e determinação, Abubacar decide reprimir essas rebeliões.

 

   [Entendida esta e outras condicionantes, não quero deixar de te referir que, pouco antes de morrer, Maomé recebeu numa mesquita uma delegação  de cristãos de Najran, aos quais garantiu a proteção da Umma muçulmana. Facto para lembrar.]

 

   Mas daí também decorre outra questão quanto à interpretação das escrituras cristãs e muçulmanas: enquanto umas são consideradas inspiradas pelo Espírito Santo, mas obra humana, passíveis, portanto, de análise e interpretações que tenham em linha de conta o tempo e o modo  em que foram redigidas, ou seja, a sua circunstância, as outras são geralmente afirmadas como ditados de Alá, do Deus único que em árabe falou a Maomé, o analfabeto que as transmitiu, não por escrito, mas no seu dialeto da língua árabe, esta sendo, portanto, a língua divina por excelência. Posteriormente, é a autoridade do califa que as fixa por escrito. Aliás, talvez já Abubacar, por sugestão de Omar, que lhe sucederia, teria mandado redigir - antes, portanto da versão oficial de Osmã - a revelação de Maomé, texto que, então, viria a servir para as recitações ou qurra. Todavia, nota bem, Princesa de mim, a tentação totalitária de possuir a exclusiva revelação de Deus não envenenou apenas o islão, mas também a cristandade, como, hoje ainda, verificamos no "bible belt" dos EUA e noutras seitas de raiz cristã, ou, mais infelizmente, em agrupamentos ditos "católicos"... Também, no mundo islâmico, podemos entender diferentes achegas à interpretação, quer do Corão, quer dos hadith, quer da própria Sira, ou vida do profeta Maomé, pese embora o radicalismo intransigente de muitos imãs e ulemas.

 

   Dounia Bouzar, muçulmana francesa que a revista Time elegeu, em 2005, "herói europeu do ano", pelo seu trabalho inovador sobre o islão, respondia assim à jornalista que, em 2014, lhe perguntava se não seria necessária uma reforma teológica que impedisse os extremistas de se apoiarem em versículos do Corão, apelando à violência, para legitimarem um discurso que ignora outros trechos do Livro que defendem o respeito pelos outros: Qualquer muçulmano conhece, em teoria, a reforma de 1930, cujo objetivo era o de distinguir os passos do Corão ditos "principais" - que enunciam verdades constantes - dos "circunstanciais" - ligados ao contexto histórico da época da revelação. Ora os princípios básicos do Corão afirmam o respeito da vida humana, de toda a vida humana, inclusive a das pessoas de outras religiões ou mesmo ateus! Tal como o cristianismo conheceu episódios sangrentos - a Inquisição, o dia de S. Bartolomeu de 1572 - o islão também os teve. Mas tal não significa que a regra seja a violência. Do mesmo modo que no cristianismo, foi quando o islão se tornou religião de Estado que a violência emergiu.

 

   Acho interessante esta observação, eu próprio várias vezes te disse, Princesa, quanto receio a tentação totalitária dos monoteísmos, como de qualquer ideologia da exclusividade, tal como, em nossos dias, tantas vezes ocorre com o laicismo. Não sou, nem pretendo ser, filósofo, teólogo, historiador ou especialista seja do que for. Sou, simplesmente, um simples amador de pensar, procuro ir entendendo as coisas. Mas pensar é, também, correr o risco de me enganar. Tenho de ter a humildade de reconhecer que o erro é humano, como eu sou. Nisto de que agora te falo, penso que um problema que o islão tem com a circunstância histórica da sua revelação advém do facto desta se ter processado numa sociedade de clãs rivais e divididos, étnica, política e religiosamente, grupos que coexistiam, nem sempre pacificamente, sem um poder único que lhes fosse superior. Assim, se a pregação de Maomé se inscreve na descendência de Abraão, na linhagem do monoteísmo judaico-cristão, o ambiente em que ela se desenvolve não conta apenas com judeus e cristãos, mas maioritariamente com tribos politeístas. Além disso, o nomadismo, as caravanas comerciantes, por trilhos traçados entre oásis e poços de água, nessa terra de ninguém que é um deserto, por muitas regras e códigos de honra que se respeitem, são sempre propícios à eventualidade de afrontamentos e conflitos. Daí o pendor bélico, e a tentação do poder, na expansão original do islão. Aliás, o próprio Corão se distribui por quatro períodos de revelação, três em Meca e um em Medina, e sente-se bem, no longo decurso das sequentes discussões sobre a sucessão do Profeta, como se arrastaram fraturas e discórdias acerca da própria revelação e dos ensinamentos de Maomé. A fixação do texto do Corão, por ordem do califa Osmã, como acima te disse, é, pois, um ato eminentemente político... que se, por um lado, pretende uma versão "oficial" da mensagem transmitida pelo Profeta, por outro, não se dispõe a escamotear ditos circunstanciais, sobretudo aqueles que possam apoiar eventuais medidas coercivas.

 

   Diferentemente, cristianismo primitivo desenvolve-se principalmente em meio judeu, quer na Palestina, quer na Diáspora. No meio dum povo submetido ao império de Roma, isto é, ao poder político de um estado estrangeiro e ocupante, praticante de outra religião, que divinizava o imperador. O cristianismo torna-se, nessa época, não só na esperança do cumprimento da promessa messiânica ao povo judeu, mas num movimento de vocação universal e subversiva que, por outro lado, não tem qualquer possibilidade de pegar em armas. Aliás, até ideologicamente, o cristianismo inicial é uma variante do judaísmo que, deste, expressamente rejeita o projeto político da realização temporal do Reino de Deus: o meu Reino não é deste mundo. Ou ainda: a Deus o que é de Deus; a César o que é de César. Mas tal não significa que não tivesse havido, no próprio seio da Igreja, ou nas igrejas primitivas, divergências quanto a doutrinas e cultos, designadamente quanto à relação do cristianismo nascente ao judaísmo, quer no tocante à secessão da nova religião (lembra-te das polémicas em redor da obrigatoriedade de serem circuncidados os gentios que se convertessem à Boa Nova), quer à sua própria universalização, em oposição ou ultrapassagem da implantação próxima do reino messiânico prometido ao povo judeu. Ao São Paulo que defendia não haver, aos olhos de Deus, diferença entre judeu e gentio, escravo e homem livre, grego e romano, homem e mulher, igrejas cristãs - em Jerusalém ou na Galácia, por exemplo - insistiam na filiação prévia no povo eleito, o judeu, de qualquer pretendente a cristão. Aliás, os diferentes evangelhos atribuem ao Jesus histórico afirmações que tanto abonam um lado como outro. Serve este parêntese para ilustrar que tudo isso se passou em meio humano, cultural, tal como muitas outros debates e acontecimentos na vida da Igreja. Mas esta nasceu no Pentecostes, tem consigo e por si a fé em que o Espírito Santo vai soprando a vida do mundo...

 

   Alcorão começa por invocar o nome de Deus clemente e misericordioso. E todas as suas suras, exceto a nona, assim se iniciam. Tal é a fé de Abraão que, para as três religiões do Livro é o pai de todos os povos. Cronologicamente sendo o último dos monoteísmos vindos de Abraão, diz Ghaleb Bencheikh, doutor do Islão, franco-argelino de reconhecida autoridade, que a tradição religiosa islâmica se quer continuadora do ensinamento da Tora e propagadora da mensagem evangélica. Os seus valores assentam num alicerce ético comum ao judaísmo e ao cristianismo. Por muito tempo, aliás, a pregação maometana não falava de "islão", mas antes da imutável religião da coorte de Abraão. Em próxima carta falarei contigo sobre este tema.

 

   Sabes bem, Princesa, que sempre cuido mais de procurar o que aproxima do que o que separa, inclino-me mais para a descoberta da comunidade intrínseca da condição humana do que para a denúncia de conflitos de culturas ou civilizações. Onfray, a dado passo da sua reflexão sobre o islão, recorre às teses de Samuel Huntington. Todavia, eu penso que, para além da presença universal e indiscriminada do bem e do mal - ainda que, evidentemente, o tempo e o modo possam ser, e têm sido, mais ou menos propícios a um ou a outro - nenhuma etnia, cultura ou religião é necessariamente maligna ou benigna, nem qualquer conflito fatalmente inevitável. Não concordando com a opinião de muitos, inclusive Michel Onfray, de que há civilizações superiores a outras, prefiro uma achega antropológica e histórica, que nos ajude a compreendermo-nos nas nossas diferenças e a procurar o significado partilhado de um humanismo.

   Fica para outra carta, Princesa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira