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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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   Minha Princesa de mim:

 

   O último capítulo, o XXVIII, do Pilote de Guerre não tem mais de duas páginas, em que Saint-Exupéry exprime o seu próprio  cansaço e o dos seus poucos camaradas da esquadrilha de reconhecimento aéreo G2/33, num estilo quase telegráfico, como qualquer fatalidade. Estamos em 1940, a França foi derrotada pelo III Reich. Mas o grupo, na véspera da retirada, mantém-se unido e, sem ter dormido durante três noites seguidas, vê cada um recolher a sua lassidão ao rendido cansaço dos outros :

   Não diremos nada. Asseguraremos a mudança. Só o Lacordaire esperará pela alba para descolar, a fim de cumprir a sua missão. E, caso sobreviva, regressará directamente à nova base.

   Tampouco amanhã diremos algo. Amanhã, para as testemunhas, seremos uns vencidos. E os vencidos devem calar-se. Como as sementes.

   Como as sementes! Haverá maneira mais bonita, mais cristã, de ressuscitar da derrota? A comunhão humana no silêncio de qualquer perda faz com que esta deixe de ser desamparo e solidão, para se tornar solidariedade e esperança !

   O mistério da morte, no cristianismo, leva-nos ao paroxismo do paradoxo humano, do que "está aí" (ou p´raí) e aspira a Ser. E a sua contemplação ensina-nos a via do silêncio, esse calar, cá bem no fundo de nós, o labor restaurador da semente que apodrece para nascer de novo, como o Reino dos Céus.

 

   Oleg Voskoboynikov, medievalista russo formado na Universidade de Lomonossov, onde é professor de paleografia latina, foi também discípulo de Jacques Le Goff e é autor, entre outros livros e inúmeros artigos científicos, do notável Pour les Siècles de Siècles  -  La Civilisation Chrétienne de l´Occident Medieval, obra que a Vendémiaire (Paris) publicou em 2017. Gosto muito, Princesa de mim, de, às vezes, me deixar envolver pela atmosfera espiritual duma Idade Média, europeia e latina, que, neste caso, é percorrida do início do século IV ao início do XIV, do imperador Constantino ao Dante Alighieri. E é aqui apresentada, essa Alta Idade Média, pela ilustração de que, na verdade, longe de ser repúdio ou destruição da cultura clássica, não só greco-romana, como síria e copta, antes foi cadinho da sua assimilação pelo cristianismo. A semente de vida que acima refiro evocou-me, enquanto te escrevia, aquela expressão cristã que fala da humanidade de Deus em Jesus Cristo, que se humilhou até à morte, e morte na cruz  -  a qual, mais ainda do que suplício, é infâmia. Mas da morte infamante, ignominiosa, ficou, para nós também, então vindouros, a imagem daquele crucificado que, em miríades de representações advenientes, se tornou sinal de vitória :  hoc signum vincit. A suprema humilhação surge-nos assim como humildade ressuscitada, isto é, feita nova, força e sustento de vida sobre a morte.

   A dado passo deparo com um trecho da carta XXX de São Paulino de Nola (edição de G. de Hartel, Viena, F. Tempsky, 1894) que o professor Voskoboynikov apresenta assim : A autoridade moral e cultural de Paulino, construtor de igrejas, poeta, escritor, pregador, ultrapassava em muito a sua diocese italiana. É sintomático que ele abdique do direito de aparecer no espaço litúrgico, que os bispos partilhavam com os imperadores. [Estamos ainda em meados do século IV, no início do império romano cristão...] Não se trata de falsa modéstia, mas de uma nova concepção da dignidade humana : ele sabe que foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas também se recorda de que, na vida real, «tantum in imagine ambulat homo, tantum frustra turbatur». Eis citado um versículo do salmo 39, que traduzirei assim : «Quanto mais um homem se passear em retrato, tanto mais se alienará em vão». 
   Quando, numa cristandade então já liberta de perseguições e livre de se exprimir, os fiéis entre si debatiam a razão, o alcance e configuração, e o próprio culto das imagens religiosas, tal questão punha-se também para o retrato-exemplo dos pastores eleitos pelas suas igrejas ou comunidades ; erguiam-se vozes, não tanto contra a aproximação do divino pela representação memorizável, como pela reserva, ou prudência, relativamente aos riscos de alienação que o imaginário necessariamente implica. Preocupação que, hoje, tem a maior actualidade e nós, espantados, esquecemos. A tal ponto que nem nos apercebemos de que vamos deslizando do que já alguém chamara "civilização da imagem" para uma circunstância de carrossel caleidoscópico próxima da barbárie. Diariamente sobre nós chovem imagens e coscuvilhices que, em vez de nos ajudarem a reflectir sobre a realidade do nosso mundo e da nossa vida, nos atiram para um baile de máscaras ilusórias e alienadoras... E até talvez possamos dizer que, se a iconoclastia foi, muitas vezes, uma fobia idolátrica (mais do que receio pelo divino), a "imagofilia" hodierna, em seu omnipresente exagero, é sinal certo de propensão a nova idolatria...

   Volto então ao "nosso" S. Paulino de Nola, nobre romano nascido em Bordéus, que chegou a ser cônsul e prefeito de Roma, se converteu ao cristianismo com sua mulher, após o que distribuíram os seus bens pelos mais necessitados e se ocuparam do próximo, desse tal que adquirira, em cada pessoa, o rosto de Cristo Jesus.  Foi Paulino eleito bispo de Nola, em Itália. Conta-nos o livro do professor russo : Cerca do ano 400, um autêntico Romano e bispo culto, Sulpício Severo, pediu ao seu amigo Paulino, bispo de Nola, na Campânia, ele também Romano autêntico e futuro santo, que lhe enviasse para a Gália, o seu retrato. Queria pô-lo, a título de amizade e de respeito pelas suas virtudes, ao lado de uma imagem de São Martinho, no novo baptistério de Primiliacum (provavelmente a Primilhac de hoje). Comovido, Paulino respondeu-lhe assim:

   Suplico-te, por tudo o que de melhor há na nossa amizade, porque havemos de pedir provas da nossa amizade em formas vãs? De mim, de que homem queres tu a imagem? Celeste ou terrestre? Sei que queres essa imagem real, em ti amada pelo Rei Celeste. Não deves precisar de outra imagem nossa, além dessa pela qual foste tu mesmo criado.  ... Mas eu sou pobre e fraco, humilhado pela minha imagem rude e terrestre, pelos meus sentimentos carnais e as minhas obras na Terra. Pareço-me mais com o primeiro Adão do que com o segundo. Como posso então ter a ousadia de me fazer pintar, esmagando a meus pés a imagem celeste com os meus delitos terrestres? Terei sempre vergonha : fazer-me representar tal qual é vergonhoso, fazer-me representar tal como na realidade não sou é uma insolência.

   Concordemos ou não com elas, reconheçamos que se diziam lindamente, em latim, e há quase dois mil anos atrás, coisas que, hoje ainda, nos podem ajudar a pensarsentir-nos mais e melhor do que todas essas celebrantes imagens da vaidade nossa contemporânea...

   Ao escrever-te isto, Princesa de mim, revejo  -  para meu equilíbrio interior, pois é neste hoje que vivo agora  -  tantas imagens de seres humanos que vamos ignorando, abandonando, matando, e ainda assim nos fazem esse nosso imerecido dom de si próprios, que é, afinal, esse, também nosso, rosto de dor. A presente imagem da humanidade que padece e sofre vem lembrar-nos de que precisamos dum silêncio que seja semente. Comovido, sinto a presença misteriosa do meu irmão Gaëtan, que, em tantos muitos retratos que desenhou, sempre se concentrou numa qualquer, mas mais uma, interpelação da condição humana.

 

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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     Minha Princesa de mim:

 

   Para começar esta em consonância com coisas que, em carta anterior te disse, Princesa, traduzo-te um trecho, quiçá algo longo, do capítulo XXVII do Pilote de Guerre do nosso já amigo Antoine de Saint-Exupéry. Mas creio também que nos ajudará a perceber porque é que alguns sages dizem que o cristianismo não é um humanismo... Sabes? Penso que é, talvez transcendental, pela pessoa de Cristo com duas naturezas, a divina e a humana. Afinal, conceitos e palavras valem sobretudo pelo sentido que lhes atribuímos... Sabemos bem que o cristianismo não é panteísta, nem os santos que inspiram devoções e cultos cristãos são deuses ; nem sequer budas. Mas não negaremos que o Novo Testamento está cheio de referências à humanidade nova, chamada à união com Deus pelo sacrifício e ressurreição de Jesus Cristo, o Novo Adão, de cujo corpo todos somos membros. Posso até dizer que o cristianismo é um humanismo resgatado e preparado para um mundo novo. E, no final de contas, é certamente a religião que professa a humanidade de Deus. A tal ponto, que até nos leva a perceber que já no Antigo Testamento o Deus Único do povo judeu vai surgindo no quotidiano dos homens.

   Os trechos que abaixo traduzo são todos respigados do penúltimo capítulo do Pilote de Guerre, o XXVIII. No seu conjunto, constituem, mais do que o cerne da meditação proposta pelo autor do livro, quiçá uma summa do pensarsentir de Antoine de Saint-Exupéry :

   Estraguei tudo. Delapidei a herança. Deixei apodrecer a noção de homem (humano).

   Para salvar esse culto de um príncipe contemplado através dos indivíduos, e a alta qualidade das relações que esse culto fundava, a minha civilização tinha, todavia, gasto uma energia e um génio consideráveis. Todos os esforços do «humanismo» se consagraram a esse objectivo. O humanismo escolheu para sua exclusiva missão iluminar e perpetuar a primazia do homem sobre o indivíduo. O humanismo apregoou o homem.

   Mas quando se trata de falar sobre o homem, torna-se incómoda a linguagem. Diferencia-se o homem dos homens. Não se diz nada de essencial sobre a catedral, se se falar só das pedras. E nada de essencial se diz do homem, se se procurar defini-lo por qualidades de homem. Assim sendo, o humanismo laborou em direcção a uma barreira. Procurou encontrar a noção de homem por uma argumentação lógica e moral, e a transportá-lo assim para as consciências.

   Não há explicação verbal capaz de substituir a contemplação. A unidade do ser não é transportável pelas palavras. Se quisesse ensinar a homens, cuja civilização o ignorasse, o amor de uma pátria ou de uma terra própria, não disporia de qualquer argumento para os comover. O que compõe uma terra nossa são campos, pastagens, e gado. Cada um, e todos juntos, têm por função enriquecer. E todavia, na terra nossa, algo escapa à análise dos materiais, já que há proprietários que, por amor à sua terra, se arruinariam para salvá-la. É pois pelo contrário esse «algo» que enobrece com particular qualidade os materiais. Estes tornam-se gado de uma terra, prados de uma terra, campos de uma terra...

   Assim também nos tornamos no homem de uma pátria, dum ofício, duma civilização, de uma religião. Mas antes de nos reclamarmos de tais seres, convém fundá-los em nós. Pois que linguagem alguma transportará o sentimento da pátria até onde ele não estiver. Só por actos fundaremos em nós o ser que reclamamos. Um ser não pertence ao império da linguagem, mas ao dos actos. O nosso humanismo menosprezou os actos. Falhou em sua tentativa.

 

   [Apenas este parêntese, Princesa de mim, para te lembrar ditos antigos, máximas e propósitos de vida, que ouvíamos na infância, tais como : Res non verba. Ou, já jovens crescidos, aqueles rasgos de divertidas observações queirosianas, em que, por exemplo, se comparavam profissões de fé patrioteiras a declarações de amor declamadas "a uma espanhola barata".]

  

   Eis que o acto essencial recebe aqui um nome : é o sacrifício.

   Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um acto. É um dom de si mesmo ao ser que se pretende reclamar. Só compreenderá o que é uma terra sua aquele que lhe tiver sacrificado uma parte de si, tiver lutado para a salvar, e esforçado por torna-la mais bela. Então lhe virá o amor da sua terra. A nossa terra não é uma soma de interesses, e será errado pensá-lo. É a soma dos dons.

   Enquanto a minha civilização se apoiou em Deus, conseguiu salvar essa noção do sacrifício que fundava Deus no coração do homem (humano). O humanismo menosprezou o papel essencial do sacrifício. Pretendeu transportar o homem (humano) por palavras e não por actos.

 

   Estas palavras foram sendo escritas pelo capitão piloto aviador Antoine de Saint-Exupéry, no activo, nos primeiros anos da segunda grande guerra. Reflectem actos efectivos, e sobre eles pensamsentem. O seu avião foi finamente abatido sobre o mar, em missão de reconhecimento, já próximo do fim da guerra. E desapareceu. Mas recordo-o sempre, ao ler este passo da 1ª Carta de São João : «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte." Na verdade, é do ensinamento, não só de São João, mas da própria essência do cristianismo : já que nenhum de nós viu Deus, não poderemos então dizer que amamos a Deus, que ninguém vê (ou o Homem, conceito abstracto), se não amarmos os indivíduos que são nossos irmãos.

   Aliás, vou confidenciar-te, Princesa de mim, uma experiência íntima que tenho vindo a viver, ao longo do ano que passa. Parece-me que o amor fraterno é como que um adiantamento do nosso encontro final com Deus. Neste sentido, é um verdadeiro acto de fé, pois é substância das coisas que esperamos. Venho perdendo, como sabes, a companhia física de muitos amigos, cujos corpos são cremados ou enterrados. Acabo, agora mesmo, enquanto te escrevo, de saber que morreu o meu querido amigo João Maria Torre do Valle, exímio guitarrista, que tantas vezes, e em tantas partes do mundo, com sua guitarra portuguesa e a companhia da viola de fado do Fernando Alvim, me acompanhou quando eu cantava. Também falávamos muito, desde os tempos da Faculdade de Direito de Lisboa, de outros temas, e esses diálogos ainda não morreram. Acontece-me agarrar no telefone para falar ao Gaëtan, meu irmão de sangue, morto há quase dois meses, ou ao João de Deus ou ao Nuno Lorena.. e a muitos outros que a morte nos tirou da vista  -  alguns há quinze anos, como o António Luciano Sousa Franco, ou mais ou menos, como o Francisco Sá Carneiro, o Magalhães Mota, o Rogério Martins ou o Vítor Wengorovius. Todavia diferentes entre si, a cada um deles e muitos outros, e outras, me ligaram laços de profunda amizade, dessa tal que a liberdade e o gosto do diálogo edificam dentro de nós e em nós permanece para sempre. Ainda há dias, quando deveria fazer anos a Maria Benedita, falei com o Gonçalo, viúvo e triste, mas sustentado por essa presença invisível do amor, que é muito mais do que memória. E também ele me confidenciou que nunca apagava das suas listas os números de telefone dos amigos por agora longe do alcance das nossas redes de comunicação...

   Todos individualmente reconhecidos e amados. Todos vivos na nossa humanidade comum, a tal que mora no coração de Deus.

                                      Camilo Maria

  

 Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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  Minha Princesa de mim :

 

   É ao Pilote de Guerre que vou buscar as formulações transparentes do peculiar pensamento humanista de Antoine de Saint-Exupéry que seguidamente  -  e prosseguindo reflexões encetadas em cartas anteriores  -  para ti traduzo :

   Escorregámos  -  por falta de método eficaz  -  da humanidade que assentava no ser humano, para este formigueiro que assenta na soma dos indivíduos.

   Que tínhamos para opor às religiões do Estado ou de massas? Que acontecera à nossa grande imagem do ser humano nascido de Deus? Já se tornara dificilmente reconhecível através de um vocabulário que se esvaziara da sua substância.

   A pouco e pouco, esquecendo o humano, limitámos a nossa moral aos problemas do indivíduo. Exigimos que ele não lesasse o outro indivíduo. A cada pedra que ela não lesasse outra pedra. E é certo que não se lesam entre si quando estão a monte num campo. Mas lesam a catedral que teriam fundado e que, em retorno, teria fundado o próprio significado deles.

   Eis um trecho de manifesto anti-individualista. Mas, na verdade, o conceito de indivíduo, em Saint-Exupéry, pode parecer ambíguo, pois se o respeito do homem [do humano] não implica prosternação degradante perante a mediocridade do indivíduo, a estupidez ou a ignorância, para a sua formação cristã, que evoca, o exercício da caridade, por exemplo, nunca é uma homenagem prestada à mediocridade, à estupidez ou à ignorância. O médico tinha o dever de empenhar a vida nos cuidados ao pestífero mais ordinário. Servia Deus. Nem se amesquinhava pela noite insone passada à cabeceira de um ladrão. A minha civilização, herdeira de Deus, assim tornou a caridade num dom ao homem através do indivíduo. No fundo, o que se pretende afirmar é que cada um de nós, sendo indivíduo, deve ser preservado do individualismo, precisamente para não ser destruído como pessoa humana.

    Curiosamente, o papa Francisco  -  que não sei de terá lido o nosso Saint.-Ex (pois que tal santo não consta do calendário nem do catálogo santoral)  -  tem vindo a pregar uma cruzada (perdoa-me, Princesa de mim, o antiquado conceito e suas quaisquer consonâncias menos abonatórias, e concordemos em que, tomada sem malícia, é iniciativa louvável num apóstolo) de combate ao individualismo reinante, assim lucidamente vislumbrando a ameaça em que o mesmo se tornou para a saúde mental, cultural e social, e para a democracia idealmente entendida e desejada. Vem o Papa, incansavelmente, lembrando às gentes que não há salvação possível à margem da sorte de tantos indivíduos, que vão sendo esquecidos ou abandonados, São nossos irmãos na humanidade de Deus. Pessoalmente, pensossinto que o mais arrepiante, nesses dramas do ostracismo dos migrantes, ou refugiados sem nada, é os mesmos, ainda por cima, apenas serem sintomas da crescente generalização da desumanidade nas sociedades hodiernas mais abastadas. Como esquecer que o desenvolvimento e difusão de novas tecnologias se vem processando, cada vez mais, pela concentração do poder financeiro seu condutor, e à custa da subjectiva alienação dos utentes em jogos, falsas notícias, postiças ilusões? Ou, talvez pior ainda, pela sua objectiva alienação do discernimento e da liberdade próprios nas garras de poderes políticos que controlam a identidade e a vida de cada indivíduo... Profética, sem dúvida, essa frase de Sint-Ex :

   Bastas vezes te escrevi que estas cartas não são, nem tampouco pretendem ser, sermões ou tratados. São fios de uma conversa que vamos pensando e sentindo, em companhia e partilha. O que a seguir te proponho, a partir de curtas citações do Pilote de Guerre, são pistas para reflexões sobre certos aspectos das nossas sociedades hodiernas : igualdade e identidade, liberdade e respeito próprio, fraternidade e diferença.

   O enunciado dos valores que sustentam (deveriam sustentar) a própria ideia de democracia  -  e a respectiva realização social e política  -  é sobejamente badalado: liberdade, igualdade, fraternidade. Aliás, com várias condicionantes e limitações, tal trilogia já inspirara, muito antes da Revolução Francesa, diferentes utopias, tentativas, ou simples aspirações, de organização social e constituição política. Sou tentado a dizer, Princesa de mim, que o mais recorrente obstáculo à boa realização e progresso de tais projectos terá sido a insistente interferência de certos sentimentos ou preconceitos de superioridade comparativa, de identificações consagradas, de rigorosa estruturação das sociedades pelo ordenamento de classes, com mais propensão ao definitivo gerador de entidade, do que à mobilidade de transições geradoras de inovação e justiça. A universal aspiração da humanidade ao seu próprio autorreconhecimento, em coexistência e convívio fraternos, foi-se todavia mantendo  -  creio, Princesa, por essa misteriosa força a que já chamei, noutras cartas, a original e compulsiva perseverança do ser no ser. E tal mensagem ontológica foi sendo lembrada pela boa nova evangélica, apesar dos todos muitos desvios e atentados contra ela perpetrados pelas igrejas cristãs (ou por tal conhecidas), sobretudo sempre que mais se deixaram cair nas tentações do clericalismo, do sectarismo, e do fanatismo de um deus sem irmãos.

   Para melhor entendimento de alguns problemas ou simples tricas que, hoje em dia, afectam o funcionamento e o próprio desabrochar das nossa democracias, ajudar-nos-á certamente, Princesa de mim, um olhar mais atento sobre o panorama recente da evolução das aspirações sociais, fundamentalmente sobre o que dantes era e depois tem vindo a ser a cultura das suas raízes e da sua flora. Tal exercício assemelha-se quiçá ao dos maiores cultores da ficção literária, às análises que esses escritores fazem de tanto pensarsentir particular, para delas, afinal, ressaltarem o substrato universal. Por outro lado, e aqui entre nós, talvez também nos surpreendamos a sorrir (com alguma malícia?) ao pensar baixinho : "Cá se fazem, cá se pagam!" Mas vamos lá às máximas morais de Antoine de Saint-Exupéry : «Escorregámos  -  por falta de método eficaz  -  dessa humanidade que assentava no ser humano, para este formigueiro que assenta na soma dos indivíduos».

   É fácil fundar a ordem de uma sociedade sobre a submissão de cada um a regras fixas. É fácil modelar um homem cego que se submeta, sem protestar, a um mestre ou um corão. Mas é completamente diferente e mais elevado conseguir que, para libertar o ser humano, ele saiba reinar sobre si mesmo.

   Mas o que é libertar? Se se libertar, num deserto, um homem que nada sofre ou experimenta, que significará a sua liberdade? Só há liberdade para «alguém» que vá a qualquer lado. Libertar aquele homem seria ensinar-lhe a sede e traçar-lhe um caminho que leve a um poço. Só então se lhe proporiam as diligências que já fariam sentido. Libertar uma pedra nada significa se não houver gravidade. Pois que, apenas livre, a pedra não irá a parte alguma.

   Ora, a minha civilização procurou fundar as relações humanas sobre o culto do homem para além do indivíduo, a fim de que o comportamento de cada um para consigo mesmo ou para com outrem já não fosse mais conformismo cego aos usos do formigueiro, mas livre exercício do amor...

... Assim claramente compreendo, a esta luz, o significado da liberdade. É a liberdade do crescimento de uma árvore no campo de forças da sua semente. É o clima da ascensão do homem. É semelhante a um vento favorável. Só pela graça do vento são livres os veleiros no mar.

   Um homem assim construído disporia dos poderes da árvore. E quanto espaço não cobriria com as sua raízes! Que massa humana não absorveria para a fazer desabrochar ao sol!

   [Trechos traduzidos do capítulo XXVI do Pilote de Guerre. As alternâncias entre as traduções do original homme (homem, no sentido global de ser humano) por homem ou humano são sempre arbitrariedades minhas].

 

                 Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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    Minha Princesa de mim:

 

   Como te disse na última carta, era ainda muito novo quando a leitura de Terre des Hommes me levou a reflectir sobre a complexidade crescente da relação do homem com a máquina, esta sendo aqui entendida em sentido lato, como aparelho abrangendo os de comando simplesmente manual e todos os que respondam a outras energias, mecânicas, eléctricas, ou ainda, nos tempos hodiernos, a programações informáticas que as tornem aparentemente autónomas no seu funcionamento. O livro de que te falo radica numa série de artigos sobre aviação que Saint-Ex. escreveu, a partir de 1932, para a revista Marianne. Reunidos, acabam por se tornar obra de ficção meditativa mais do que colectânea de notas ou reportagens jornalísticas, e dão nova amplitude á reflexão de um piloto aviador sobre o seu próprio ofício, considerado à luz da cultura e da civilização que o circunstanciam. Entre outras questões, levantam, Princesa de mim, a da cada vez mais intrigante dialéctica entre o ser humano e os seus instrumentos, as suas máquinas. E sempre, como sustento de qualquer conto moral, a obsessão perseguidora da nossa vida : O que é Ser Humano?

   Sentenças lapidares, escritas há quase noventa anos, são hoje interpelativas de aspectos importantes da nossa condição de homo faber. Assim, por exemplo : L´usage d´un instrument savant n´a pas fait de toi un technicien sec. Il me semble qu´ils confondent but et moyen ceux qui s´effraient par trop de nos progrès techniques. Quiconque lutte dans l´unique espoir de biens matériels, en effet, ne recolte rien qui vaille de vivre. Mais la machine n´est pas un but : c´est un Outil. Un Outil comme la charrue. Também deste texto se destaca a constante preocupação moral do escritor francês : não será por utilizarmos instrumentos aperfeiçoados que nos convertemos em puros técnicos, pois que o utente não se transforma  -  como o amante na coisa amada  -  na ferramenta que lhe viabiliza a acção. Além de que o humano que labuta não dará sentido ao seu labor se lhe der só a razão de ser simples gerador de bens apenas materiais. O trabalho humano, o ofício de cada um de nós, vale sobretudo como factor de relacionamento e sentido da nossa vida. E, todavia, a máquina que o sustenta e possibilita, mais não é do que uma ferramenta, um instrumento ao serviço da pessoa. A esta pertence e obedece, tal como a charrua só abrirá na terra os sulcos que o lavrador quiser.

   [Abro aqui este parêntese, para introduzir o alerta que, nestes tempos de informatização, digitalização e inteligências artificiais, me surge do pesadelo das notícias, e me assalta : a visão de famílias inteiras, às mesas dos restaurantes, "clicando telèlés e tabletes", de adolescentes que em seus quartos se encerram com as máquinas que lhes trazem "vidas" virtuais e essa contemptatio mundi, cuja seiva não é qualquer espiritualidade, nem contemplação apocalíptica, mas antes um atropelo de ilusões ininterruptamente oferecidas... Como se ser humano não fosse ser em relação, nem o amor convivial a circunstância necessária da construção de um mundo de justiça e paz. Curiosamente, tudo isso acontece numa época em que o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios de comunicação, ou media, deveria facultar a acessibilidade mútua de pessoas e culturas. E precisamente quando os centros de mais adiantada investigação e experiência do funcionamento do cérebro humano  -  designadamente entre os idosos, incluindo centenários  -  vem demonstrar que o grande tónico e forte conservante da saúde mental é o exercício do diálogo, do convívio, da tertúlia.]

   Devo, contudo, regressar à citação de Saint-Ex. respigada de Terre des Hommes (traduzo) : Se julgamos que a máquina estraga o homem, talvez seja por nos faltar o recuo necessário à avaliação dos efeitos de transformações tão rápidas quanto as que padecemos. Nos anos trinta do século passado, talvez tal fizesse mais sentido do que hoje, pensam alguns. Mas eu diria, Princesa de mim, que que me parece ainda bem pertinente  -  e não pode ser escamoteada  -  a preocupação de que nos falta o recuo necessário à avaliação dos efeitos de transformações tão rápidas quanto as que padecemos. Sobretudo pela força financeira da chamada revolução informática, cujo poder, crescentemente político também, se vai concentrando num grupo reduzido de agentes que, com seus produtos, invadem os mercados e as vidas de populações inteiras e ainda (só ainda? ou já?) destituídas de capacidades de resistência e libertação dos sistemas e comportamentos que lhes foram sendo impostos. Não te vou pintar um quadro do que se passa e vai aparecendo : olhando à tua volta, Princesa de mim, verás bem, quiçá melhor do que eu, como pode ser inquietante o panorama.

   Não consinto, todavia, em virar antiprogressista, considerando maléfico o progresso tecnológico só porque ainda não entendemos bem todos os seus efeitos, decorrentes e colaterais, ou nos sentimos mais seguros quando nos acomodamos ao passado. Escreve Saint-Ex. que a vida do passado nos parece responder melhor à nossa natureza, pela simples razão de que responde melhor à nossa linguagem. E continua, sempre no texto do capítulo III (L´Avion) de Terre des Hommes :

   Cada progresso nos foi expulsando para mais longe dos hábitos que tínhamos acabado de adquirir e, na verdade, somos emigrantes que ainda não fundaram a sua pátria.

   Todos somos jovens bárbaros maravilhados ainda pelos nossos novos brinquedos. As nossas corridas de aviões não têm nenhum outro sentido. Aquele sobe mais alto, corre mais depressa. Esquecemo-nos do porquê da corrida. Provisoriamente a corrida torna-se mais importante do que o seu objecto. E é sempre assim. Para o colonial que funda um império, o sentido da vida é conquistar. O soldado despreza o colono. Mas afinal o objectivo dessa conquista não seria, precisamente, o estabelecimento desse colono? Assim, na exaltação dos nossos progressos, fizemos os homens servirem para  assentar ferrovias, edificar  fábricas, perfurar  poços de petróleo. E acabámos por esquecer que levantávamos essas construções para servir os homens. A nossa moral foi, enquanto durou a conquista, uma moral de soldados. Mas agora temos de colonizar. Temos de tornar viva esta casa nova que ainda não tem rosto. Para uns, a verdade estará em construir, para outros em habitar.

   A nossa casa tornar-se-á sem dúvida, a pouco e pouco, mais humana. E a própria máquina, quanto mais aperfeiçoada, mais se apagará por detrás do seu papel.

   Um dos grandes desafios do nosso tempo é, sem sombra de dúvida, a aprendizagem da domesticação dos instrumentos novos, ou ferramentas, que o progresso tecnológico vem pondo ao nosso dispor. Para cumprirmos o preceito humanista de que O Homem é a medida de todas as coisas. Aliás, a lembrança presente deste princípio servirá também de sustento à nossa consideração de outras ameaças que, além da alienação da inteligência humana em aparelhos que nos embotam a consciência e exilam o espírito crítico, planam sobre uma civilização que, não só nos vai constrangendo a liberdade criadora do espírito, como esgotando os recursos da terra que é a nossa circunstância. Muitas vezes me acontece evocar, Princesa de mim, o famoso e já esquecido relatório Meadows (ou do Clube de Roma) que, apesar das suas incertezas e muita coisa incompleta, nos abria os olhos, já lá vão quase 50 anos! Entretanto, vão-se multiplicando os ensaios e as teses acerca do declínio ou desabamento da nossa civilização térmico-industrial, e surge uma nova disciplina da investigação científica : a colapsologia. Designação tão significativa quanto assustadora. O nosso meio-ambiente, a nossa terra, estariam em fase terminal, como já as espécies em vias de extinção! Que este grito, valha o que valer, não nos deixe todavia olvidar "o cerne da questão" : insistimos em ver tudo com estando fora de nós, não só porque nos tornamos estranhos ao mundo que é nossa circunstância, e nossa casa, mas também, quiçá sobretudo, porque todos os dias vamos obliterando a grandeza inigualável da nossa própria humanidade.

   Mas tal esquecimento é, simplesmente, o do princípio fundador do humanismo : o Ser Humano é a medida de todas as coisas. E diz bem Saint-Exupéry, na última frase de Terre des Hommes : Seul l´Esprit, s´il soufle sur la glaise, peut créer l´Homme. Pelo que não posso deixar de te referir aqui, lembrados também pelo meu amigo Marcello Duarte Mathias, os dois parágrafos do livro que antecedem essa sentença final. Começam por enquadrar a cena num compartimento de comboio, cujos "wagon-lits" e primeira classe seguiam vazios, mas cuja terceira ia cheia de gente, pobres polacos deportados de França para a sua terra natal, em vésperas de guerra. Traduzo:

   Sentei-me à frente de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança arranjara como pôde o seu nicho e dormia. Mas virou-se durante o sono e o seu rosto surgiu-me à luz da vigília. Ah! que adorável rosto! Daquele casal tinha nascido uma espécie de fruto de oiro. Daqueles monteses pesados nascera aquele milagre de encanto e graça. Debrucei-me sobre aquela fronte lisa, sobre aquela boca em beicinho, e disse para comigo: eis um rosto de músico, eis Mozart em criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das lendas em nada diferiam dele : protegido, rodeado, cultivado, em quanto não se poderia ele tornar! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, eis que todos os jardineiros se comovem. Isola-se a rosa, cultiva-se a rosa, é favorecida. Mas não há jardineiro para os homens. Mozart menino será, como os outros, marcado pela máquina de embutir. Mozart produzirá as suas mais altas alegrias de música podre, em malcheirosos cafés concerto. Mozart está condenado.

   E voltei para a minha carruagem. Dizia para comigo : estas pessoas em nada sofrem do seu fado. Não é, de modo algum, a caridade que aqui me atormenta. Não se trata, nunca, de nos enternecermos sobre uma chaga eternamente reaberta. As que a têm não a sentem. Antes é algo como a espécie humana, e não o indivíduo, que aqui é ferido, que é lesado. Em nada acredito na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. Não me atormenta esta miséria na qual, ao fim e ao cabo, nos instalamos tão bem como na preguiça. Gerações inteiras de orientais vivem na porcaria e gostam dela. O que me atormenta, não é curável pelas sopas populares. O que me atormenta não são essas covas, nem essas corcundas, nem essa fealdade. Antes é, em cada um desses homens, Mozart assassinado.

 

   Só o Espírito, se soprar sobre o barro, pode criar o Homem.

 

                                 Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Saudaste a minha lembrança de Le Petit Prince, do Antoine de Saint-Exupéry, na última carta que te enviei. Muitos amigos meus se admiram, em conversas espaçadas, com outras recordações que trago e partilho de passos de obras desse piloto aviador. Tal profissão foi, certamente, tão profissão religiosa como ofício e aventura, esta aqui entendida como amor fiel da descoberta desejada, algo intimamente perseguido por uma peregrinação interior. Os romances e narrativas de Saint-Exupéry, possuídos por essa intimidade de que te falo, são dela reveladores pelos próprios títulos: L´Aviateur, Courrier Sud, Vol de Nuit, Pilote de Guerre... Porque não se limitam a ser diários de bordo, registos de viagens e experiências, contos de amizades e ousadias, relatos ou reportagens. Mais, muito mais do que isso tudo  -  ou, mesmo, à margem de tudo isso  -  são meditações quase contemplativas sobre episódios da vida e suas circunstâncias, com propósito moral de ir descobrindo um sentido para ela, frágil existência que sempre desafia forças maiores (Le Pilote et les Puissances Naturelles), humano ser que a máquina ajuda a vencer a adversidade, num mundo em que o espreita a solidão e o esquecimento, e onde ele só poderá "tornar-se humano na medida em que se for confrontando com o obstáculo". Será então a vida humana um desafio moral?

 

    Coletânea de contos morais é certamente o Principezinho, que encerra sobretudo uma lição acima das outras todas: cumprir a vida é vencer a solidão, façanha tão chã que cabe no quotidiano de cada um de nós. Não é o exercício de feitos famosos, a busca da glória; antes será a paciente tecelagem de laços que nos unam ao mundo que descobrimos, a todos os outros humanos a cujo encontro devemos aspirar, e a esse Quem (diria o Saramago) que, com ou sem ponto de interrogação, sentimos e pensamos aquém e além de nós. Se é sábia a lição da raposa ao Principezinho, a figura central do livrito grande é a rosa - na sua fragilidade e com seus espinhos - cuidada pela cultura do coração. Pois que tudo mais é invisível para os olhos. A verdade não se deixa violentar.

 

   O que muitos consideram o testamento póstumo de Saint-Ex. é um livro quase bíblico (passe a redundância livro bíblico...) intitulado Citadelle. Fui seu leitor assíduo, mais do que repetente, durante a minha juventude. Ao começar esta carta, pensei vir falar-te de outro, que também várias vezes reli: Terre des Hommes. Aliás, ele encerra lições de prudência (o tal amor sagaz) que, embora meditadas pelo autor nos tempos em que se iniciava a aventura da aviação postal, tenho refletido em análises que hoje procuro fazer das relações entre o ser humano e a máquina (ou aparelho informático). Fica para próxima carta, deixo-te agora, em tradução minha, a longa citação dos seis parágrafos finais de Citadelle. Com a safra de vidas que a ceifeira caveirosa tem feito pelo campo de queridos familiares e amigos meus (o último foi, nesta semana passada, o já saudoso João de Barahona Núncio), recorro muitas vezes a esta confidência derradeira de um rei berbere, que me evoca uma rosa no deserto e uma figura de jardineiro como construtor de celeste cidade...

 

   Ocorre-me por vezes - posto que, cá para mim, não há rei que possa reembolsar-me com um sorriso - ser conveniente que vá até à hora em que Tu aceitarás receber-me e confundir-me com os do meu amor, e assim me chega, de tempos a tempos, a lassidão de estar só e a necessidade de ir ao encontro dos do meu povo, pois não estarei ainda suficientemente puro.

 

   Por julgar feliz o jardineiro que comunicava com seu amigo vem-me portanto o desejo de me ligar assim, conforme os deuses deles, aos jardineiros do meu império. E acontece-me descer em passo lento, pouco antes da hora de alba, os degraus do meu palácio para o jardim. Encaminho-me em direção aos roseirais. Olho para aqui e para ali, debruço-me atento sobre qualquer planta, eu que, ao meio dia, decidirei o perdão ou a morte, a paz ou a guerra. A sobrevivência ou a destruição dos impérios. Depois, levantando-me com esforço do meu trabalho, porque me vou tornando velho, digo simplesmente, no meu coração, para ir ao encontro deles pela única via mesmo eficaz, a todos os jardineiros vivos e mortos: «Também eu, esta manhã, podei as minhas roseiras.» E pouco importa que tal mensagem caminhe durante anos, ou chegue ou não a este ou àquele. Tal não é a razão da mensagem. Para encontrar os meus jardineiros apenas saudei o seu deus, que é roseira ao nascer do dia.

 

   Assim também, Senhor, para com o meu inimigo bem amado que só encontrarei para lá de mim mesmo, E com ele, pois se me assemelha, passa-se assim também. Faço, portanto, justiça de acordo com a minha sageza. Fá-la ele, conforme a sua. Elas parecem contraditórias e, se se afrontarem, alimentarão guerras. Mas ele e eu, por caminhos contrários, seguimos pelas nossas palmas as linhas de força do mesmo fogo. Só em Ti, Senhor, elas se encontram.

 

   Assim, acabado o meu trabalho, embelezei a alma do meu povo, Ele, acabado o seu, tornou bela a do dele. E eu que penso nele, e ele que pensa em mim, apesar de não nos ter sido oferecida linguagem alguma para os nossos encontros, sempre que somos juízes ou ditamos o cerimonial, ou castigamos ou perdoamos, podemos dizer, ele por mim e eu por ele: «Esta manhã podei as minhas roseiras...»

 

   Porque Tu és, Senhor, a comum medida de um e do outro. És o nó essencial de atos diversos.

 

   Na verdade, pensossinto agora, neste momento de invisíveis referências, como, apesar de desde menino ter vindo a beber na tradição apostólica do evangelho de Jesus, essa substância da minha vida, a convicção de Quem é tudo em todos habitar a comunhão dos humanos, também encontrei essa alegria, dolente como parto, na diversidade e sincretismo religioso do Oriente, e nas espiritualidades vagabundas de peregrinos que quiçá sejam jardineiros nómadas. Um deles até se apaixonou por uma rosa caprichosa em minúsculo planeta...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há noite que me dê sono antigo, um daqueles de acordar só de manhã, cedo, bem cedo, como tanto gostei ao longo da vida. Hoje, por muito que sossegue o espírito e em mim acalme as agitações dos dias findos, lá vou despertando, agora e daqui a pouco, para os sonhos que me assaltam. Como se entrasse em cena, para vir desempenhar um papel que talvez tenha aprendido, ou devesse saber de cor(ação), mas sempre me deixa entregue àquela qualquer ilusão ou expectativa cujo repentino acordar-me, mais do que lembrar-me, me interroga. Pois que, de todos os sonhos que recordo, ainda que muito nebulosa ou vagamente, apenas sei que insistem em chamar-me ao passado ou, talvez assim te lo diga melhor, aos passados desta minha vida...

 

   Hoje, surpreendentemente, à hora de alba, dei comigo a pensarsentir os movimentos celestes, e a Terra neles, e eu, na ilusão de que o universo gira à volta desta esfera em que pouso os pés, a dar voltas, afinal, inconsciente da rotação e translação do planeta em que sou suposto viver. Mas, todavia, sejamos clarividentes, são esses movimentos circulares ou parabólicos ou algo assim, com as suas oscilações, que nos vão contando o tempo, tal como vão gastando as superfícies do nosso chão e dos nossos horizontes. E nesse mundo onírico em que, sem querer nem sequer desejar, o meu pobre de mim mergulhara, emergiu, como imperativo profético, o sentido pensamento de uma qualquer revolução nada mais ser do que retorno ao ponto de partida. O tempo que nos desgasta e gasta será circular, para nos lembrar a promessa de um reinício sempre desejado. Mas, para que este aconteça, o próprio tempo que agora conhecemos - ou julgamos conhecer - terá de ter chegado ao termo da sua provisória necessidade. Estranho fado, o da humana condição: nascemos no tempo finito, para, quiçá, viver no sem fim de um universo que se expande...

 

   E já digo agora, como canta o fado: Mas isto, meus senhores, foi a sonhar... Só que, digo eu, experientemente, sonhar nem sempre é fácil. Muito menos quando, no espaço-tempo finito, ainda que mal definido e sempre ambulante, o nosso sonho nos leva à cabeceira do infinito. Onde, subjetivamente e sempre sós, tentamos um vislumbre... A qualquer ser humano a morte desgosta tanto que, a bem dizer, não é que ele não goste de morrer mas, verdadeiramente, não quer. E é tal, mais do que desgosto, fúria à morte que nos tem levado a todas essas experiências de prolongamento da vida - hoje tanto em moda - nem que se tenha de congelar um cadáver para que este aguarde a hora em que a ciência humana saiba tirá-lo de tão frio purgatório para novamente o animar...

 

   Essa coisa de nos recusarmos à nossa própria finitude ganha por vezes força maior do que a nossa esperança racional, deixa de ser ponderável, mas é tão somente reação exacerbada a qualquer adivinhado desafio de infinita omnipotência. No teatro onírico de que acima te falo, Princesa de mim, ela representa-se, no concerto astral, como viagem estratosférica, desejada descoberta de um desconhecido que se quer conhecer. Como nos sonhos milenários das religiões antigas, vai-se em busca de um encontro, de um abrigo, de uma morada que, como tudo aquilo que mais amamos, poderá ser fugidio ou inatingível, mas é, como a fé, a substância (o que sub-está) das coisas que hão de vir. Receamos aproximar-nos do sol ou das estrelas, pois que com Ícaro aprendemos como se derrete a cera dos nossos projetos e ardem as asas das nossas iniciativas. Mas tentaremos pousar num planeta, esfera apagada, estrela morta onde esperamos recuperar vida. Quiçá sem realizarmos que, afinal, voltamos à caça do efémero, esse fogo fátuo, repetido aceno do eterno. Mesmo encetada num espaço-tempo que se imagina infinito, qualquer peregrinação nossa, na nossa presente condição humana, nunca passará de uma viagem pelo finito, pela simples razão de que não podemos agora, na nossa presente circunstância, conceber a infinitude. Paradoxo essencial: o infinito, por definição mental, não tem definição possível. Por isso o místico Mestre Eckhart dizia nada para referir o Deus que, todos os dias, pensavassentia a acompanhá-lo, e o teólogo São Tomás de Aquino, autor da Summa Theologiae, afirmava que ninguém jamais vira Deus e que tudo o que ele, frei Tomás, sobre Deus escrevera era palha...

 

   Nesses saltos que os humanos vão ensaiando pelo espaço extraterrestre, vejo, depois de acordado - e talvez influenciado pela leitura de notícias sobre o esgotamento de recursos do nosso planeta - uma tentativa urgente de mudar de casa, de encontrar sítio mais acolhedor, quiçá mais abundante, farto e generoso (sonhar é ainda mais fácil, quando julgamos estar bem acordados...). Então carinhosamente me lembro da nossa Mãe Terra a pedir-nos, como a raposa ao Principezinho, a presença atenta de um amor sábio.

 

   A raposa calou-se e fixou o olhar no Principezinho: «Por favor... Domestica-me!» -  disse.
   - Bem gostaria, respondeu o Principezinho, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos por descobrir e muitas coisas por conhecer.
   - Só conhecemos as coisas que domesticamos, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para conhecer seja o que for. Compram coisas já todas prontas nos mercados. Mas como não existe qualquer mercado de amigos, os homens já não têm amigos. Se quiseres um amigo, domestica-me.
   - Que devo fazer? disse o Principezinho.
   - É preciso ser muito paciente, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco longe de mim, assim na relva. Olhar-te-ei pelo canto do olho, mas nada dirás. A linguagem é fonte de mal entendidos. Mas, dia após dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...

...

   - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
   - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o Principezinho, para se recordar.

   - Foi o tempo que gastaste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.

   - Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o Principezinho, para se lembrar.

   - Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecê-la. Tornas-te responsável para sempre por aquilo que domesticaste. És responsável pela tua rosa...

   - Sou responsável pela minha rosa, repetiu o Principezinho, para se lembrar.

 

   Traduzi o francês apprivoiser pelo português domesticar. O termo gaulês vem do latino apprivatiare, que significa tornar privado, familiar. Trata-se, provavelmente, de evolução a partir do baixo-latim, no século XI. O português também deriva do latim, mas da palavrga domesticus, que radica em domus, que quer dizer casa. Domesticar vem significar então tornar caseiro, familiar. E não será a Terra a nossa casa, sempre à espera da paciência amorosa dos nossos cuidados? O que me seduz nessas etimologias é, sobretudo, o substrato ou substância de relacionamento ou relação: afinal, quem domestica domestica-se... Encontramos assim, não uma dialética de afrontamento, mas uma de harmonização.

 

   Desta minha saída de um pesadelo onírico para um sonho de Antoine de Saint-Exupéry no deserto, em que o Petit Prince vai meditando lições de vida por planetas bem mais exíguos do que o nosso, tiro o ensinamento de que andava precisado e contigo, Princesa de mim, quis partilhar.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não te escrevo para cumprir o prometido devido. Venho fazer-te companhia, e assim também me sinto acompanhado. Escrever é não querer a solidão. Não é bem o mesmo que não querer estar sozinho, a solidão não é física, antes é sentida por essa parte do nosso humano, a tal que não sabemos exatamente o que é, e à qual chamamos espiritual. No passado, muitas vezes te disse que a solidão se me parece à morte, acontece-me pensarsentir que ela é a incomunicabilidade, essa impossibilidade de nos encontrarmos em relação. Pois, humanos, somos necessariamente em relação: cada eu e a sua circunstância. E, ainda, o invisível, o Inefável. Tomás de Aquino tinha uma oração, que recitávamos no colégio, antes de cada primeira aula do dia, e começava por esta invocação: Criador Inefável! Dirigíamo-nos ao invisível, ao inenarrável, a pedir-lhe a fortaleza necessária para enfrentar mais um dia da nossa vida, que seria, como todos os outros, mais um percurso no desconhecido, nessa realidade que insistimos em chamar futuro, apesar de não sabermos, à partida, se, como, e quando virá a existir. Não precisamos de esperar pela morte para saber que uma boa parte de nós é um mistério mergulhado noutro mistério maior. Afinal, todos os dias aprendemos que o caminho da nossa liberdade humana, movida pela inteligência e pela vontade, é o da busca incessante das nossas relações, pois só elas nos realizam e nos explicam... Sobretudo, são essas relações que nos vão ajudando a construir a Relação cujo apocalipse é o triunfo da Vida. Então também lhes podemos chamar «referências».

 

   Quando vivemos os dias e semanas sequentes à morte de um ente querido, podemos experimentar reações inesperadas, tais como nos lembrarmos de lhe telefonar, para contar um episódio, partilhar um pensarsentir, estender uma interrogação. Digo inesperadas, porque não as construímos racionalmente, de modo previsível. Por isso mesmo, pensando melhor, talvez também pudesse dizer que são expetáveis: na verdade, elas obedecem a esse impulso vital, muito profundo, essencial, que é a nossa necessidade inata de comunicação. Quiçá mesmo biológica: quem lidou ou lida com crianças pequenas, ou ainda em gestação, perceberá melhor esta minha intuição. O ser em relação é tão inicial e perseverante que até pode viver noutra circunstância. E assim chego eu, novamente, Princesa de mim, à dimensão divina do humanismo cristão, que vive na permanência do amor: Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte (1ª Carta de São João, 3, 14).

 

   Mas hoje, Princesa, vou deixar as meditações que me assaltam, para dar um passeio contigo por entre outras que me ocorreram a partir de uma metáfora do ser pessoal em ser cultural. Explico-me. Melhor: começo por deixar-te uma explicação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Queensland (Austrália), Christian Reus-Smit, no seu On Cultural Diversity - International Theory in a World of Difference (Cambridge University Press, 2018):

 

   As culturas - sejam elas estruturas mentais estratégicas, nações, civilizações, ou mentalidades coletivas - são geralmente imaginadas como coisas coerentes: integradas, diferenciadas e fortemente constitutivas dos respetivos efeitos...  ...Mas partirei de uma posição completamente diferente. Devemos começar por assumir a diversidade cultural existencial, assumindo que o terreno cultural em que a política joga é polivalente, estratificado, riscado por fraturas muitas vezes contraditórias, muito longe de estar coerentemente integrado ou ligado. Como argumenta Andrew Hurrell, «são precisamente as diferenças das práticas sociais, valores, crenças, que representam a expressão mais importante da nossa humanidade comum... O que nos torna diferentes é precisamente o que nos faz humanos».

 

   Se recuarmos a 1871, encontraremos a definição inicial de Edward Tylor: Cultura ou Civilização é todo esse complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Assim, poderemos dizer que qualquer «cultura» é a circunstância arquetípica da sociedade que se lhe refere, ou que ela envolve. Simultaneamente seu produto e sua condicionante, resulta, de cada vez à sua própria maneira, da relação como um corpo social se estabelece no seu meio ambiente - tal como, já no século XIV/XV, defendia o mouro Ibn Khaldun, de quem te falei já em cartas antigas - e, depois, do modo dialético como se for organizando, económica e politicamente. Curiosamente, o pensamento do vitoriano Tylor foi-se orientando, e até fez escola, no sentido de pretender que, assim explica Reus-Smit, todas as culturas têm características semelhantes, resultantes de causas comuns, pelo que, consequentemente, todas formam parte de uma história humana uniforme... Sem negar o alicerce comum da nossa humanidade, um dos mais famosos críticos das teses de Tylor, o norte americano Frank Boas, embora concordando na verificação de feições culturais reaparecidas em diferentes culturas (quando estudamos a cultura de qualquer tribo, mais ou menos análogas feições de tal cultura se poderão encontrar entre uma grande diversidade de povos, escreve ele no seu Race, Language , and Culture - University of Chicago Press, 1940), irá, todavia, negar vigorosamente que elas tenham necessariamente as mesmas causas : Não podemos afirmar que a ocorrência do mesmo fenómeno é sempre devida às mesmas causas e que, portanto, a mente humana em toda a parte obedece às mesmas leis.

 

   É nesse sentido que, de forma enfática, te repito, Princesa de mim, que aquilo que nos torna mais humanos é a tal diferença que faz de cada um de nós um ser outro do que todos. Sendo que o próprio alicerce da nossa comum humanidade assim nos modelou, todos e cada um, à própria imagem e semelhança de Deus. A tal que nos iguala e nos proíbe de julgar que há pessoas ou culturas superiores ou inferiores. Por isso nos disseram já que Deus é tudo em todos, e aprendemos que o paradoxo humano é o seu valor divino.

 

   Isto assente, sou levado a uma perspetiva dialética das histórias pessoais, como das dos conjuntos sociais que, no decurso do tempo nos vão congregando em movimentos que, tal como cada pessoa face às outras, nos colocam em situações de afrontamento, não necessariamente conflituosas, apesar da própria propensão a sê-lo... Por isso mesmo, tal perspetiva dialética nos poderá ensinar a melhor entender a evolução dos povos, nações, estados, culturas e civilizações, sobretudo se soubermos apanhar essa subtileza de que qualquer confronto poderá parecer-se mais ao encontro do dó com o ré - o tal que, conta António Vitorino de Almeida, gerou o mi, assim nascendo a música - do que a um catastrófico choque de civilizações, como no pesadelo do Huntington.

 

   Espanta-me muito - não só no sentido de me pôr boquiaberto, mas sobretudo por me afugentar o gosto de conversar racionalmente - a moda "viral", como hodiernamente se diz, de se proclamar o drama fatal do declínio e queda do «Ocidente», isto é, da "cultura e civilização ocidental". Pelos tempos que correm, é relativamente fácil saber-se, por aí, que as culturas em que pensamos não são propriedade de ninguém, como, aliás, exemplifica a nossa própria cultura, que outras várias geraram e variegadas gentes nos legaram... E não esqueças, Princesa de mim, que o próprio Huntington foi nebuloso na circunscrição geográfica do «Ocidente» cultural. Niall Ferguson, no seu Civilisation (2011), observa bem que a definição hoje mais conhecida da cultura ocidental, a de Samuel Huntington, no Choque das Civilizações, exclui a Rússia e todos os países de tradição ortodoxa. Aplica-se apenas à Europa Ocidental e à europa Central (sem o Leste ortodoxo), à América do Norte (sem o México) e à Australásia (Austrália e Nova Zelândia). A Grécia, Israel, a Roménia e a Ucrânia não passam no teste. Nem as Caraíbas, quando, pelo menos algumas delas são tão ocidentais como a Florida.

 

   Deduz Ferguson que o Ocidente é mais do que simples noção geográfica: Um conjunto de normas, de comportamentos e de instituições com fronteiras muito nebulosas... Sem querer agora discutir contigo, Princesa, pormenores e fatores constitutivos dessa tal ideia de «Ocidente» - coisa que quiçá farei mais tarde - deixa-me só dizer-te que, hoje em dia, o conceito de cultura ou civilização ocidental é memória histórica, isto é, entra numa categoria conceitual que nos serve de referência para um entendimento do passado. É também, e sobretudo, um mito a marcar o panorama das nossas angústias, medos e desilusões espantadas... Tal não quer, todavia, significar que esse conceito, geograficamente tão vago, seja vazio, destituído de conteúdos próprios, ideais, valores, instituições... Pelo contrário, muitos destes ainda hoje orientam as condutas de muitos povos deste mundo, nem é preciso ser-se europeu ou de raça branca, do hemisfério norte ou do ocidental para nos referirmos a esse complexo de padrões, modelos e estilos de vida a que chamamos cultura ou civilização ocidental. E mais ainda: do mesmo modo que as sociedades nórdicas e ocidentais vão adotando normas, usos e costumes de outros povos e lugares, também nestes se vai impondo uma cultura crescente (por vezes, até, um verdadeiro culto) de valores e referências a que gostamos de chamar nossos; tal como nós, quiçá infelizmente, tendemos a desertá-los...

 

   Chegamos mesmo a ser surpreendidos com inesperadas novidades : à cultura do Iluminismo atribuímos a libertação do espírito crítico entre nós, com o consequente reforço da racionalidade, o declínio da crendice e, até, da própria religião, e um triunfo progressivo das correntes agnósticas e ateístas do pensamento ocidental ; contudo, é no mundo islâmico que hoje mais rapidamente se vão afirmando correntes de opinião sem Deus nem religião, enquanto nas sociedades do ocidente geográfico se vão anichando movimentos que cultivam espiritualidades que, embora estranhas ao cristianismo, a muita gente impõem meditações e motivações da vida humana elaboradas por culturas de alhures, não necessariamente deístas, mas tampouco ateias.

 

   Niall Ferguson pergunta: Mas será verdadeiramente possível uma sociedade asiática tornar-se ocidental se adotar as regras de vestuário e comerciais do Ocidente - como faz o Japão desde a época Meiji - e como hoje, parece, faz quase toda a Ásia? Outrora, chegou a dizer-se que o «sistema-mundo» capitalista impunha uma divisão permanente do trabalho entre o centro - o Ocidente - e a periferia - o resto do mundo. Mas que se passaria se todo o mundo se ocidentalizasse? A menos que as outras civilizações - como defendeu Huntington - se revelem mais resilientes, designadamente a civilização chinesa e o Islão com as suas «fronteiras e vísceras sangrentas»? Em que medida a sua adoção do "modus operandi" ocidental não passará duma modernização superficial sem enraizamento cultural?

 

   Pessoalmente, ainda creio que, precisamente por ser variavelmente dialética (se assim me posso exprimir), a história dos povos, culturas e civilizações não é linear, nem facilmente previsível, passeia muitas cores, pela sombra e pela luz, não é verticalmente a preto e branco, ou seja, ou escura, ou luminosa... Voltarei a esta questão - tal como em correspondência passada tu e eu, Princesa de mim, falámos de inculturações e confrontos - em cartas próximas. Por hoje, permite-me que te deixe com uma orientação a que muitas vezes recorro, na edição francesa (Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, 2002) da Autobiographie e de Muqaddima de Ibn-Khaldun (Túnis,1332-Cairo, 1406), magnificamente apresentada por Abdeselam Cheddadi. Traduzo breves trechos, mas uma lição com mais de seis séculos.

 

   Ibn-Khaldun insiste em ver a história como ciência que investiga os factos, de forma crítica e procurando entendê-los com inteligência. Assim, haverá quem veja o lado de fora da história que, desse modo, se reduzirá a narrativas de dias gloriosos e de dinastias, não se dando conta de como essas narrativas nos dão a conhecer o estado das criaturas e as mudanças que afetaram as suas condições, nem de como se expandiram as dinastias e se estabeleceram na terra até desaparecerem. E haverá outros que a veem do interior, tornando-a investigação especulativa e verificação, estudo minucioso das causas e princípios das coisas existentes, conhecimento aprofundado das circunstâncias e das causas dos acontecimentos.

 

   Ia já assinar esta carta, quando deparo com um artigo de Francisco Bethendourt, professor no King´s College de Londres, intitulado Emancipação (Público, 30 de julho de 2019) e, a respeito da abolição da escravatura, lembrando que a ideia de superioridade implica visão hierárquica entre culturas superiores e inferiores que está desatualizada. E alegra-me, Princesa de mim, poder terminar esta citando esse historiador de prestígio internacional, sobre temas que tanto te referi em cartas antigas : A vantagem de uma atitude de recusa de preconceitos é facilitar a tradução de experiências alheias e produzir um conhecimento acrescido de outras culturas, nas suas formas de resolver conflitos, obter trabalho recíproco, acolher estrangeiros, estabelecer regras comunitárias, relacionar-se com a natureza, mobilizar investimento, recolher informação ou desenvolver reflexão...   ... É esta atitude de abertura e hospitalidade perante outras culturas que nos deverá estimular no presente e no futuro, em lugar de mantermos uma visão virada para um passado mitificado que ignora ruturas, lutas e conflitos entre perspetivas completamente diferentes.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - I

  

Por qualquer razão, ou nenhuma, pareceu-me curial iniciar a publicação de post scripta, isto é, escritos posteriores às minhas cartas à Princesa de mim, apontamentos anotados na sequência delas, quer porque os redigira e não enviara, quer porque apenas os rascunhara para outros textos de reflexão. Reencontrados agora, apresentam, quanto a mim, uma virtude rara: a de descobrirem momentos de um qualquer discurso do meu pensarsentir, sem pretender concluir mais além do que a sugestão de caminhos para o entendimento de culturas que povoam a terra nossa, com as suas condicionantes e aparentes divergências, convergências, contradições e semelhanças. Sem pretender ensinar seja o que for, mas apenas recordar o que nos ajude a aproximar-nos. Não trago teses, trago hipóteses talvez só adivinhadas, mais insinuadas do que expostas.  

 

          Haru wa hana                     À Primavera as flores

          Natsu hototogisu               Ao Verão o cuco               

          Aki wa tsuki                        Ao Outono a lua

          Fuyu yuki sae te                 Ao Inverno a neve

          Suzushi kari keri                Cristalina  imaculada

 

   Este poema encontra-se no cancioneiro Shobogenzo (abram os ós e leiam guê) que Mestre Dogen (idem para a pronúncia do nome) redigiu entre 1231 e 1253, ano de sua morte. Tal coletânea é obra marcante e reveladora da cultura e da literatura japonesas: na verdade, todos os waka que a compõem foram escritos em japonês clássico. Mas, como nos esclarece Yoko Orimo no seu inspirador Comme la lune au milieu de l´eau, Art et spiritualité du Japon (Le Prunier, Sully, Paris, 2018) -, feitas as contas, mais não são do que traduções e comentários de sutras e textos escritos em chinês...   ... No seio do espaço literário essencialmente compósito da obra, concebido e estruturado como espelho sem estanho, o japonês e o chinês mutuamente se refletem. E é graças ao reflexo dessas duas línguas e civilizações, simultaneamente tão próximas e tão diferentes, que conseguimos ver e entender o que ainda não tínhamos visto nem entendido até agora...

 

   Esta autora japonesa, diplomada pela École Pratique des Hautes Études de Paris é sobretudo conhecida, precisamente, pela sua tradução e interpretação do Shobogenzo - a verdadeira Lei, Tesouro do Olhar (Sully, Vannes, 2014), de Mestre Dogen (1200-1253). Talvez por aqui inicie ela a sua interpretação da cultura japonesa como cultura de empréstimo, ideia que não andará muito longe da de outros, mas sempre no sentido em que Shusaku Endo nos fala da assimilação pelo "pântano" japonês, que tudo engole, digere e devolve seu. Tenho para mim, e não só, que a caraterística marcante da cultura japonesa - tal como entendo o que é uma cultura - é o seu extraordinário poder de assimilação de outras, sempre concomitante à sua perseverança em ser ele própria.

 

   Mas prefiro hoje abordar a questão do tempo como essência da própria cultura nipónica. Em cartas muitas à minha Princesa de mim falei da perceção e cultura do efémero como forma de espiritualidade... Sobre outras teses da presença essencial do tempo em culturas como a do Sol Nascente, talvez diga que sim, mas enquanto momento. Arrisco então a hipótese de que o instante no tempo circular é como eternidade, essência mais do que efeméride.

 

   Será isto mais difícil de entender em mentes que pensam em tempo escatológico.  Todavia, também nós, os que vivemos em culturas de forte sentido escatológico, muita vezes nos surpreendemos a viver, pensarsentir ou desejar como eternidade um instante só. Então dizemos que, durando apenas um minuto ou uma hora, nos pareceu uma eternidade. Poderá ter sido assim por força do nosso lado passivo, sofredor ou ansioso. Ou, para nossa satisfação, por virtude desta nossa entranha amante, ou por essa aspiração à completude perfeita que, para tanto ser, só é concebível na intemporalidade, num algures ainda desconhecido e, como tal, quiçá um nenhures a que chamamos utopia. Assim imaginaremos a nossa ressurreição possível apenas noutro mundo, ou num universo transformado, como a face da terra renovada pelo Espírito, tudo isso, afinal no final do tempo, quando a duração já não é possível, pois nenhuma mensuração poderá então fazer qualquer sentido.

 

   Em tempo circular, já os instantes e suas manifestações próprias se sucedem em roda de eterno retorno, como se a passagem das horas, dos dias, das luas e das estações fossem constante advento e regresso. Assim devemos entender aquele ditado japonês que diz que a flor é o espelho do tempo, pois que pela variação infinita das suas formas e cores, lembra-nos Yoko Orimo, a flor nos deixa ver o tempo: fazendo-se eco do que é nela invisível, a flor anuncia a estação que chega e que parte. Com esta inspiração devemos entender esse ensinamento de Mestre Dogen: A multidão de cores não está reservada apenas às flores, a multidão dos tempos também se reveste de cores como o azul, o amarelo, o vermelho, o branco, etc. A Primavera atrai as flores; as flores atraem a Primavera.

 

   Sobre esta intuição, Yoko Orimo elabora a seguinte premissa: Se a flor é o espelho do tempo, espelho que traz a imagem do invisível, o tempo é já, ele próprio, o espelho. E conclui: Refletindo-se a si mesmo e em si mesmo, o tempo torna visível a imagem deste Presente tal qual, Presente eterno. Já dizia Mestre Dogen que, sendo a imagem e o espelho apenas um, esse espelho é a Natureza. E Orimo esclarece que, contrariamente aos espelhos feitos por mão humana, o espelho que é a Natureza é um espelho sem estanho, «Não tem verso nem reverso, ambos os lados oferecem visão. Parecem coração e olho. E parecer significa que uma pessoa encontra outra» (Dogen)... A cada instante, em cada estação, a Natureza realiza a sua própria imagem, fazendo-se eco dela mesma e nela mesma, desde sempre e para sempre. Isto porque no coração da Natureza se encontra a Ressonância do universo. Nada mais além dessa Ressonância do universo, idêntica ao coração da Natureza, se cristaliza na Primavera em imagem de flores, no Outono em imagem da lua, no Inverno em imagem da neve.

 

   Assim a própria natureza se contempla nela mesma: ver e ver-se, o visível e o invisível, o dentro e o fora, a profundidade e a superfície são apenas um. E como essa visão da Natureza pertence ao coração da Natureza, o povo japonês diz que «A flor tem coração». E perante a terra toda coberta de neve, Mestre Dogen afirma: «todo o verso e todo o reverso estão cobertos de neve profunda. O universo inteiro é a terra do coração, o universo inteiro é sentimentos e emoções das flores!» Por paradoxal que pareça, só o coração da Natureza, puro e transparente como um espelho, cria a primazia da superfície na estética japonesa...

 

   Tal dimensão espiritual da Natureza, e a profunda comunhão do ser humano com ela, será o que explica a frase de Paul Claudel: Nesse belo e feliz país o natural e o sobrenatural são apenas um... Eu próprio que, desde muito novo, enveredei pela busca insistente da consistência de algo permanente, sendo aliás sempre curioso e sobretudo atento a processos de aculturação, tentei - talvez inspirado pela minha juvenil leitura de Teilhard de Chardin e de Lévy-Strauss - perceber melhor os progressos e falhanços das inculturações religiosas e filosóficas no Japão. Já falei bastante sobre isso, e até publiquei escritos dispersos, designadamente sobre os modos budistas de aculturação com o shintoísmo nativo, bem como o estigma de estrangeirado que sempre marcou o cristianismo naquela cultura. Sobre a seara que hoje escolhi para talho de minha fouce, nada repetirei do que já afirmei ou interroguei. Apenas traduzirei uns trechos da obra de Yoko Orimo aqui citada, que oportunamente introduzirei nestas reflexões sobre a estética do efémero. Por agora, regresso a lições colhidas em leituras da minha mocidade e que, pensossinto, paradoxalmente ainda hoje me ajudam a conviver melhor com espiritualidades inspiradas por outras diferentes filosofias, tal como por visões do universo e perceções do tempo certamente contrárias e aparentemente contraditórias daquelas em que fui criado. Ao melhor recordarmos raízes, troncos e ramos da nossa cultura nativa, tanto melhor nos aperceberemos das diferenças dos conceitos inerentes a discursos e sensibilidades diversas e, por exercício dialético, nos aproximaremos de um olhar comum do coração da humanidade.

 

   Assim, é curioso como o grande paleontólogo, antropólogo, visionário e místico, francês e jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin, autor de obras cujos títulos apenas já muito dizem (La Place de l´Homme dans la Nature; Le Phénomène Humain; Le Milieu Divin), evolucionista crente na obra de Deus como motor da história natural, suspeito de panteísmo pela Igreja, tenha começado a sua aventura interior, científica e mística, por um firme propósito de procura do imperecível e duradouro. Escreve um seu biógrafo, o dominicano Jacques Arnould - doutor em ciências e em teologia, investigador da vida e sua evolução e das dimensões éticas, sociais e culturais da chamada "conquista do espaço" - em Teilhard de Chardin (Perrin, Paris, 2005:

 

   Sempre em busca do imperecível e do duradouro, atravessa um período dito "do Ferro". Sessenta anos depois, escreverá em Le Coeur de la Matière: «Não devia ter mais de seis ou sete anos quando comecei a sentir-me atraído pela Matéria ou, mais exatamente, por algo que "luzia" no coração da Matéria». É verdade que, esclarece, sob a influência duma mãe tão piedosa como a sua, ele tem muito amor ao Menino Jesus. Todavia, reconhece, o seu "eu" está alhures nesses momentos em que, secretamente, se recolhe «na contemplação, na posse, na existência saboreada do seu "Deus de Ferro"». Uma chave de charrua encontrada no campo, ou um estilhaço de obus, a cabeça duma cunha de reforço, claro que metálica, emergindo dum soalho: eis uns ídolos que o miúdo literalmente adora. «E porquê o Ferro? e porquê, mais especialmente, tal pedaço de ferro (tinha de ser, o mais possível, espesso e maciço), só porque, para a minha experiência infantil, nada neste mundo era mais duro, mais pesado, mais tenaz, mais duradouro do que essa maravilhosa substância apanhada em forma tão plena quanto possível...» De que andará já à procura o rapazito de Sarcenat, que prefere o robusto coleóptero à muito frágil borboleta, a não ser da consistência e, sobretudo, do inalterável? «Até hoje (e sinto que até ao fim) essa primazia do Inalterável, isto é, do Irreversível, não cessou, não cessará nunca de marcar irrevogavelmente as minhas preferências pelo Necessário, pelo Geral, pelo "Natural" - por oposição ao Contingente, ao Particular e ao Artificial - tal disposição tendo, aliás, e por muito tempo, obscurecido a meus olhos os valores supremos do Pessoal e do Humano. Sentido da Plenitude, já nitidamente individualizado, e procurando já satisfazer-se pelo agarrar de um Objeto onde se concentrasse a Essência das Coisas». Ser-lhe-ão precisos muitos mais anos para descobrir «até que ponto a Consistência é então um efeito, não de "substância", mas de "convergência". 

 

     Agora, neste instante mesmo, cá estou eu a tentar olhar para isso a que se chama "Essência das Coisas" por diversas perspetivas, e procurando apor dois discursos diferentes, em vez de os opor. A perspetiva do tempo escatológico, prisma cristão, e a do tempo circular, não só prisma budista, mas shintoísta também e, na cultura japonesa, com a sua versão shinto-budista. Traduzo mais um trecho do livro de Yoko Orimo:

 

   Deve ressaltar-se que, no decurso do longo processo de aculturação do budismo em terra japonesa, se desenvolveu, sobretudo a partir do fim do século XI, o sincretismo shinto-budista, em cujo seio a pouco e pouco se operou uma revolução doutrinal acerca da noção de impermanência: mujo. Se o budismo antigo concebia, com forte pendor pessimista, a existência humana como que atirada para o oceano do sofrimento em que os seres transmigram infinitamente, para o shinto, o mesmo movimento perpétuo do aparecer e desaparecer neste mundo fenomenal mais não é do que o processo natural e global da regeneração da vida do universo, incitando o ser humano a contemplá-la e exaltá-la. Nos confins destas duas óticas espirituais radicalmente opostas [a budista antiga e a shinto-budista], o sincretismo shinto-budista acaba por proclamar que a impermanência é permanente enquanto impermanente e é precisamente a própria manifestação da natureza do Despertado (Buda) abraçando a vida de todos os existentes, incluindo minerais e vegetais.

 

   Regresso afinal à minha tradução e meditação do waka de Dogen, acima transcrito: a Primavera (haru) é flor (hana), como as flores são Primavera; o Verão (natsu) cuco (hototogisu), como é cuco o Verão que o pássaro do tempo (hototogisu) acorda; o Outono (aki) é lua (tsuki), e esta em suas fases passa pelo quarto minguante e outonal do ciclo; anunciando o Inverno (fuyu), neve (yuki) gélida que, cristalina, nítida, nos cobre como manto. Os perecíveis impermanentes da Natureza falam-nos da permanência da vida, fazem-nos ver o invisível. Também aqui descobrimos que a Consistência não é efeito da substância, mas da convergência do Espírito e da Matéria. Simultaneamente material e visível, espiritual e invisível.  Será?

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não sei se esta duodécima das derradeiras será a última que te escrevo por agora. O tempo o dirá. Como tão bem sabes e tantas vezes te lo disse, tenho uma relação ambígua, ou talvez apenas ambivalente, com isso a que só chamarmos tempo. Nele terei sempre de situar-me, por mim e pelos outros, pela curiosidade do passado, a verificação do presente e a tentativa perscrutação do futuro. Será só uma necessária categoria mental, como a noção do espaço, mas se nos situarmos fora da sua circunstância seremos, nós próprios, perturbados na perspetiva do olhar e na sua justeza sobre as coisas e os humanos, o mundo e a vida. Quiçá também sobre Deus, o Quem transcendente, O que está ontologicamente fora do visível. E que, enquanto tal, nunca é, nem pode ser, relativo, como são todas as coisas e pessoas, pensamentos atos e omissões que vão preenchendo a História. O que não significa que seja absoluto, não relativo, o nosso olhar sobre Ele. Assim, por outro lado de mim, como tantas e tantas vezes te disse e escrevi, pensossinto-me além do tempo. Sinceramente te lo digo: em tal tensão vivo e não esmoreço. Nem nada quero, desejo ou, sequer, anseio deslindar. Sempre fiel ao que chamo "minha dialética com a vida", que vai animando o mundo das coisas e das pessoas, sou igualmente fiel a esta íntima consciência de mim: a de estar de partida ou, se preferires, de regresso a casa. Tal é o sentido que dou a essa frase de S. Paulo (Hebreus, 11, 1, na tradução de Frederico Lourenço): Fé é garantia de coisas que se esperam e certeza de coisas que não se veem.  Muitas vezes a leio, dizendo que a fé é a substância, a essência das coisas que hão de vir. A tradução de F. Lourenço é praticamente idêntica à versão francesa, também diretamente do original grego, do dominicano C. Spicq para a edição da Escola Bíblica de Jerusalém. Pessoalmente, gosto muito da leitura feita pelo cónego José Falcão na sua versão portuguesa, a partir do texto grego, publicada pela Gráfica de Coimbra em 1965 (e que nesse mesmo ano adquiri por 65$00): A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam, a prova da realidade das coisas que se não veem. "Sustentáculo" traduz aqui o grego "hypostasis", isto é, o que está por baixo, o apoio, o pedestal. Na verdade, a nossa relação com o transcendente está necessariamente acima do nosso entendimento e, não sendo necessariamente uma estupidez ou cegueira, necessita porém do sustentáculo da fé.

 

    Talvez por isso mesmo, há tantos anos já, quando o Ernâni Lopes me mostrou o seu Francisco de Borja meditando, qual São Jerónimo, sobre a caveira da morte, lhe recitei duma assentada a meditação do duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, poema da Sophia que eu há muito decorara por sentir como intimamente meus alguns versos seus: ... nunca mais darei ao tempo a minha vida... nunca mais servirei senhor que possa morrer... nunca mais servirei quem não possa viver sempre... porque eu amei como se fossem eternos a luz a glória e o brilho do teu ser... amei-te em verdade e transparência... e nem se quer me resta a tua ausência... és um rosto de nojo e negação... e eu fecho os olhos para não te ver...

 

   A experiência da morte próxima, seja quem for que morra, tanto quanto a solitária ideia dela, eis que nos surpreende o ser e se nos anuncia como dor funda, agudíssima, contrária a nós. Pois que é a própria persistência do ser no ser que o mantém vivo, a morte só me é concebível no tempo, nunca na eternidade, o seu momento sendo apenas um passo desconhecido. Ao terminar, qualquer tempo é um buraco negro que em voragem final até os seus vestígios leva: ...e nem sequer me resta a tua ausência. Por paradoxal que possa ser, a própria ideia da morte nos repugna visceralmente, a nós humanos que recusamos o que é próprio a todo o mundo biológico: a consumação post mortem na reciclagem da natureza, onde nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Assim, contrariando o que seria natural, encaramos a morte como sendo contra natura. E tal invenção da nossa própria eternidade é-nos tão íntima que ainda pequeninos nos acontece reclamá-la, como já te narrei num dos contos breves dos meus netos. Mais precisamente, naquele em que o Tomás, então com quatro anitos apenas, se passeava comigo pelo Jardim dos Passarinhos, no Monte Estoril, quando deparamos com um cágado velhinho, e a minha neta Inês, sua irmã, me questiona: "Ó Avô, esta tartaruga vai morrer? Porquê?" E eu respondo: "Talvez, é natural, pois tudo o que nasce morre"... E logo o Tomás, rápido: "Então o Tomás não nasceu!"

 

   Há milénios que sucessivas gerações vivem a condição humana nessa tensão entre o da sein em que cada um se descobre e o ser em infinitude que se sente interiormente. Aqui estamos e somos, mas a nossa própria imperfeição, o nosso inacabamento - todos os dias verificável - parece acordar-nos e vocacionar-nos para uma qualquer completude, perfeição ou acabamento do nosso ser. Mas aqui aprenderemos também que tal não será possível no tempo, pois este é duração medida, e todo o mensurável tem princípio, meio e fim, tem horizonte traçado. O tempo é um espaço de finitude, medido pela duração. Por isso tanto falamos de um período de tempo como num espaço de tempo, e a marcação de uma frase musical se pode fazer pela cadência, e esta imaginar-se como a distância da queda de uma nota para outra. Qualquer eternidade do ser não é, portanto, não pode ser, sequer, concebível sem a transformação do espaço-tempo em algo que transcende a nossa verificação possível, e a que a nossa ignorância chama o Infinito, conceito paradoxal por excelência, ambíguo mesmo, já que infinito não é só o que não foi acabado, o imperfeito, é, enquanto ser, ele mesmo, o Ser Infinito.

 

   O Quem, assim o apelidou Saramago; YHWH, o tetragrama hebraico que nos diz ser impronunciável o nome do Deus bíblico, que é raiz do verbo ser ("Eu Sou" ou simplesmente "Ser"); o Nada dos grandes místicos como o meu tão querido Mestre Eckhart, que escreve no seu sermão 71, que mais de uma vez te lembrei nas minhas cartas, citando um passo dos Atos dos Apóstolos, na versão latina da Vulgata: Surrexit autem Saulus de terra, aperitisque oculis nihi videbat ("Levantou-se Saulo do chão e de olhos abertos não via nada"): Parece-me que esta frase tem quatro sentidos. O primeiro deles é: quando se levantou do chão, com os olhos abertos, nada viu, e esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou nada viu, mas apenas Deus. Terceiro sentido: em todas as coisas apenas viu Deus. Quarto: quando viu Deus, viu todas as coisas como nada.

 

   O Quem de Saramago surge, nas leituras de cabine do seu imaginado Ricardo Reis (cf. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de que te falei nas minhas "Cartas a José Saramago"), como personagem misteriosa e título de uma aventura "policial" (ou de investigação). Será uma questão persecutória, não é ainda pausa ou conclusão filosófica, muito menos intuição metafísica. O tetragrama bíblico estará na fronteira de tal intuição como uma revelação teológica. A contemplação mística do medievo dominicano alemão é já um exercício propriamente teológico, um desenvolvimento da fé pelo labor da razão. Afinal, de nada ou muito pouco estamos sempre absolutamente seguros. Vivemos na contingência. Mas pecado, mesmo, será apenas contentarmo-nos com os limites dela e fecharmos o olhar, o caminho e a vida à possibilidade de novo progresso.

 

   Fecho esta carta, citando-te um passo do Corão (versículo 34 da Sura 21, dita "Dos Profetas"): Não demos a imortalidade a homem algum antes de ti. Seriam eles imortais, enquanto que tu vais morrer? E outro ainda (vers. 4 da Sura 10, dita Jonas)

 

  Todos voltareis a Ele. Eis a verdadeira promessa de Deus: Ele faz emanar a criação e depois fá-la regressar, a recompensar aqueles que creem, que praticam as boas obras com equidade. O destino do mortal cumpre-se com a morte, a que não pode escapar. Mas o destino da humanidade é a vida com Deus, no advento da Nova Criação. Creio que há aí, no Islão, uma tradição cristã. Tal como S. Paulo, na sua Carta aos Romanos (6, 2-11, tradução de F .Lourenço) teologicamente expõe: Nós que morremos para o erro, como viveremos nele? Ou ignorais que tantos quantos fomos batizados para Cristo Jesus, para a morte dele fomos batizados? Fomos sepultados com ele através do batismo para a morte, para que, tal como Cristo ressuscitou dos mortos através de glória do Pai, do mesmo modo também nós caminhemos em novidade de vida. Pois se nos tornámos unidos à semelhança da morte dele, também o seremos na semelhança da ressurreição. Saibamos isto: que o homem antigo que havia dentro de nós foi crucificado, para que fosse anulado o corpo do erro; e saibamos que não somos escravos do erro. Pois quem morre foi ilibado do erro. Se morremos com Cristo, acreditamos que também viveremos com ele, sabendo que Cristo ressuscitado dos mortos já não morre: a morte já não tem senhorio sobre ele. Pois aquilo que ele morreu, para o erro morreu de uma vez por todas; aquilo que ele vive, vive para Deus. Do mesmo modo, considerai-vos também vós mortos para o erro e vivos para Deus em Cristo Jesus.

 

   A fé é a minha aproximação a tudo o que ainda não posso ver. Vou aprendendo a contemplar o invisível,

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XI

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreves-me, em resposta à minha última carta, que te pareci adoentado e pessimista... Dizes mal: na verdade, continuo afligido por dores e maleitas velhinhas e não me refugio em sonhos de recuperações passadas que, próprias de outras idades e viços, não creio que possam repetir-se. Mas, se dou comigo a cair em tentações de lástima ou resmunguice, logo tento eu mesmo entrar em dialética com a vida, neste tempo atual e em modos possíveis. Esqueço o que me pesa, tampouco olho para trás, procuro descortinar na realidade presente a substância das coisas por vir. Ganho a leveza necessária para, em vez de me prender ao que fui, voar até onde não estive ainda.

 

   Entrar em dialética com a vida que anima o mundo das pessoas e das coisas visíveis e invisíveis é como estabelecer uma relação de contacto e afeto com a realidade, isso a que, quiçá, muitas vezes chamamos progresso. Costumo, aliás, dizer para comigo que a diferença entre essa minha perspetiva dialética e a hegeliana, ou a marxista, é que a minha não é obsessivamente determinável, nem necessariamente fatal, antes se desenrola numa dinâmica de liberdade, isto é, em animação do espírito criador.

 

   E a talho deste, calha falar-te dum opúsculo de Paul Valéry, originalmente escrito em francês, mas para tradução em inglês e sua publicação na famosa e já antiga revista londrina Athenaeum - hoje dirigida por John Middleton Murry - em abril de 1919. Há um século... A Amazon, para comemorar tal centenário, edita agora, pela primeira vez, o original francês, intitulado La Crise de l´Esprit. O texto breve distribui-se por duas cartas, tendo a primeira sido publicada pela Athenaeum em 11 de abril de 1919, e a segunda em 2 de maio. Com um século, eis um documento profético, na medida em que já anuncia preocupações do nosso tempo, ecoadas em raros mas pertinazes passos de discursos e comentários hodiernos, no quadro desta campanha para as eleições europeias de 2019. Traduzo-te seguidamente alguns trechos das seculares cartas de Paul Valéry:

 

   Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais.

 

   Ouvimos falar de mundos inteiramente desaparecidos, de impérios afundados a pique com todos os seus homens e engenhos; levados até ao fundo inexplorável dos séculos com os seus deuses e leis, as suas academias e as suas ciências puras e aplicadas; com as suas gramáticas, os seus dicionários, os seus clássicos, seus românticos e simbolistas, seus críticos e os críticos dos seus críticos. Sabemos bem que toda a terra aparente é feita de cinzas, que a cinza significa alguma coisa. Apercebemo-nos, através da espessura da história, dos fantasmas de imensos navios que vogavam cheios de riqueza e de espírito. Não podíamos contá-los. Mas esses naufrágios, ao fim e ao cabo, não eram de nossa conta.

 

   Elam, Nínive, Babilónia, eram belos nomes etéreos, e a ruína total desses mundos tinha para nós tão pouco significado como a sua própria existência. Mas França, Inglaterra, Rússia... seriam também belos nomes. Lusitânia também é um belo nome. E vemos agora que o abismo da história chega para todos. Sentimos que uma civilização é tão frágil quanto uma vida. As circunstâncias que atirariam as obras de Keats e de Baudelaire para o pé das obras de Meandro já não são inconcebíveis: vêm nos jornais. 

 

   ... ... Uma primeira ideia surge. A ideia de cultura, de inteligência, de obras magistrais, tem para nós uma relação muito antiga - tão antiga que raramente subimos até ela - com a ideia de Europa.

 

   Outras partes do mundo tiveram civilizações admiráveis, poetas de primeira ordem, construtores e até sábios. Mas nenhuma parte do mundo possuiu esta singular propriedade física: o mais intenso poder emissor unido ao mais intenso poder absorvente.

 

   Tudo veio à Europa e tudo dela veio. Ou quase tudo...

 

   Ora, no presente, levanta-se esta questão capital: irá a Europa conservar a sua preeminência em todos os géneros?

 

   Tornar-se-á a Europa no que, na realidade é: um pequeno cabo do continente asiático?

 

   Ou permanecerá a Europa aquilo que parece, ou seja: a parte preciosa do universo terrestre, a pérola da esfera, o cérebro de um vasto corpo?

 

 

   [Abro aqui um parêntese entre as citações de Valéry, para te lembrar, Princesa de mim, um passo de Os Lusíadas do nosso Camões (Canto III, 20):

 

                                       Eis aqui, quase cume da cabeça

                                       De Europa toda, o Reino Lusitano,

                                       Onde a terra se acaba e o mar começa

                                       E onde Febo repousa no Oceano.

                                       Este quis o Céu justo que floreça...

   Aí nos tens.]

 

   E termino as citações de La Crise de l´Esprit traduzindo o fim da segunda daquelas centenárias cartas do francês:

 

   Mas o Espírito europeu - ou, pelo menos, o que le tem de mais precioso - será totalmente difundível? O fenómeno da entrega do globo à exploração, o fenómeno da igualização das técnicas, o fenómeno democrático, que nos levam a prever uma deminutio capitis da Europa deverão ser considerados decisões absolutas do destino? Ou teremos nós ainda alguma liberdade de contrariar tal ameaçadora conjunção das coisas?

 

   Talvez procurando essa liberdade a criemos. Mas para tal procura será necessário abandonar por uns tempos a consideração dos conjuntos, e estudar no indivíduo pensante, a luta da vida pessoal com a vida social.

 

   E assim chego ao que te queria dizer. Como em cartas, mais recentes do que remotas, já te escrevi, a crise do mundo atual é, em sentido próprio, um ponto crítico, ou seja, um instante insistente, um momento em que se confrontam encruzilhadas, e caminhos parecem abrir-se como opções de orientação: não tenho nenhum dom profético, tampouco pensossinto que o profeta seja ou possa ser um adivinho... Mesmo profetizar é apenas anunciar que dado momento ou a presente hora é do apelo, da vocação, essa do chamamento que nos oriente, no íntimo de nós, para a via que nos aparece como a da virtude, isto é, da fortaleza na construção da cidade aberta a todos. Pois que não há convívio possível no mundo sem consciência da humanidade comum. E digo-te isto, minha Princesa de mim, não primeiramente por razão evangélica tão insistente nos escritos de S. João, mas por não poder, eu próprio, pensarsentir-me noutra condição que não seja essa, genética, comum a todos nós: Deus criou o Homem, e criou-o homem e mulher. Pertencemo-nos na nossa humanidade.

 

   Cada vez menos, e muito rapidamente, o mundo nosso habitat se divide entre centro e periferia, antes na ribalta vão surgindo povos e culturas clamando igualdade. Até o próprio fenómeno migratório massivo que todos os dias é invasivo mais não é do que um sintoma do impulso generalizado de emergência das gentes e da sua dignidade, a reclamarem o espaço de liberdade e progresso que perderam nas pátrias em que a ganância e o poderio de outros as submergiram.

 

   A urgência do momento atual não é equacionar poderes dominantes ou para tal vocacionados, é saber aceitar e compreender o diálogo como condição indispensável do convívio inevitável, para que este antes seja fator de construção de um mundo de justiça e paz. O Espírito da Europa - com a qual tudo foi ter, e da qual tudo, ou quase tudo veio - diz Valéry logo após o fim da Grande Guerra, talvez tenha essa missão de propor o caminho da liberdade, da tal liberdade que criamos quando a procuramos. Demanda só possível em jeito e amor de távola redonda dos povos todos, nos antípodas das tentações hegemónicas das grandes ou maiores potências ou das pretensões nacionalistas de pequenos satélites votados a sonhar com qualquer Retrotopia.  E, por falar nisto, fecho esta carta traduzindo-te trechos do final do livro de Sygmunt Bauman com o mesmo título (originalmente editado, em inglês, na versão que possuo, pela Polity Press, Cambridge, 2017):

 

   Todavia, há condições a respeitar para nos percebermos e tratarmos uns aos outros como ´válidos parceiros de diálogo´. As probabilidades de diálogo frutífero, tal como o Papa Francisco nos recorda, dependem do nosso recíproco respeito e a assumida, garantida e mutuamente reconhecida igualdade de estatuto:

 

   «A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É uma obrigação moral. Se quisermos repensar a nossa sociedade, precisamos de criar empregos dignificantes e bem pagos, especialmente para a gente nova. Fazê-lo requer conceber novos, mais inclusivos e igualitários modelos económicos, visando não só servir uns poucos mas beneficiar gente comum e a sociedade no seu conjunto. Isto chama-nos a passar de uma economia líquida para uma economia social.» 

 

   Não há atalhos para um regresso rápido, hábil e sem esforço à construção de diques contra a corrente - seja a Hobbes, às tribos, à desigualdade, ou ao ventre materno. Repito: a tarefa presente de se elevar a integração humana ao nível de toda a humanidade não terá provavelmente qualquer precedente, precisamente por se revelar tão árdua, onerosa e perturbante de perspetivar, realizar e completar. Temos que nos preparar para um longo período, marcado por mais perguntas do que respostas, mais problemas do que soluções, tal como para agirmos na penumbra de difíceis equilíbrios entre as probabilidades de êxitos e de derrotas. Mas neste caso - contrariamente aos casos em que Margaret Thatcher invocava falta de alternativas - o veredito de que "não há alternativa"

 

depressa perderá sentido e não beneficiará de qualquer apelo. Mais do que em quaisquer outros tempos, nós - habitantes humanos da Terra - estamos numa situação de ou/ou, assim ou assado: ou nos damos as mãos, ou iremos cair na mesma sepultura.

 

   As campanhas eleitorais europeias perderam mais uma oportunidade de suscitar uma reflexão cidadã.

 


Camilo Maria       

 

Camilo Martins de Oliveira