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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembrei-me agora de uma frase de Umberto Eco, mas não me recordo de quando nem onde a li:

               «A galinha é um artifício de que o ovo se serve para produzir outro ovo».

 

 Eis um mote para muitas glosas. Já li algures que até Aristóteles se pronunciou sobre o dilema, e terá concluído que a galinha antecedeu o ovo. Talvez, minha Princesa de mim, concluas o mesmo, pensando que Deus criou todos os seres, especialmente os vivos, entre eles os galináceos, dando-lhes os meios necessários à respetiva reprodução... Não vou discutir tal raciocínio, mas permitir-me-ás recordar-te de que, apesar de tantos cientistas se terem debruçado sobre esse facto-questão que é a origem da vida, e terem até concluído conjunções de fatores necessários à sua emergência, ainda ninguém explicou cabalmente a partir de quê e como elas se deram... Daí discorro que, «ovistas» ou «galinhistas», ficamos na mesma. Exceto no artifício... O evolucionismo propõe que um(a) pré-galináceo(a) tenha posto um ovo, o qual, em vez de pré-galinacear, tomou as suas liberdades e abriu-se em pinto. O criacionismo fecha-se então em copas, e clama que Deus só criou a vida, sem que saibamos bem como: ovo ou galinha, que importa? Assim, qualquer aborto voluntariamente provocado será um assassínio. E de artifício em artifício irá a nossa mente peregrinando.

 

   Todavia, e não sei bem porquê, para mim foi sempre mais intrigante a questão da questão, isto é, a razão de nos interrogarmos sobre o ovo, a galinha e a vida... afinal, Princesa, sobre o que somos, donde viemos, para onde vamos. Jovem adolescente, comprei certo dia um postal que reproduzia um quadro de Paul Gauguin, pintado em Tahiti, em que a questão aparece posta pela própria inocência desnuda de corpos humanos. Comecei então a interessar-me pelo que Teilhard de Chardin investigava como La Place de l´Homme dans la Nature, isto é, por tentar perceber, não só como surgira a vida, mas como dela nascera a inteligência. Primeiro, enquanto capacidade potencial de entender e, finalmente, como estado ou condição humana, ou seja, enquanto propriamente entendimento, visão organizada, explicação da pessoa e da sua circunstância, o mundo à sua volta.

 

   Nessa altura, fiz outra leitura da narrativa do Génesis sobre a expulsão do ser humano (homem e mulher) do Paraíso. Na verdade, deveu-se tal (e tão grande) castigo à desobediência ou violação do princípio divino de não poderem comer do fruto da árvore do conhecimento, pois assim se libertariam do estado original de inocência, e se poriam a caminho de uma nova condição: a de quem terá de padecer as torturas de sucessivas interrogações para ir tentando aproximar-se de um estado, conquistado a custas próprias e já não mais inocente, de participação do entendimento divino. Lê, Princesa de mim, este saboroso trecho bíblico (Génesis, 3, 4-11), que te traduzo a partir da resposta da serpente à afirmação de Eva de que «Nós podemos comer frutos das árvores do jardim, mas não da que está no meio do jardim, porque Deus disse: "Não comereis desse fruto, nem lhe tocareis, sob pena de morte!":

 

   A serpente replicou: "Nada disso, não ireis morrer! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos e sereis como deuses que conhecem o bem e o mal". A mulher percebeu que o fruto da árvore era bom de comer e agradável à vista, e que aquela árvore era desejável para adquirirem o discernimento. Colheu um fruto e comeu. Também deu um a seu marido, que com ela estava, e ele comeu. Abriram-se então os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus. Por isso ataram folhas de figueira para fazerem tangas. Ouviram os passos de Yahvé Deus, que passeava pelo jardim gozando a brisa, e o homem e sua mulher esconderam-se de Yahvé Deus, no meio das árvores do jardim. Yahvé Deus chamou pelo homem: "Onde estás?"  Ouvi os teus passos no jardim, respondeu o homem, e tive medo porque estou nu, e escondi-me. "E quem te disse que estavas nu? Queres dizer-me que comeste do fruto da árvore proibida?".

 

   Pessoalmente, gosto de continuar a leitura bíblica deste texto bem mais adiante, já no capítulo 12 do Génesis, 1, quando se fala da vocação de Abraão: Yahvé disse a Abraão: "Deixa o teu país, a tua parentela e a casa de teu pai, pelo país que te indicarei!" Teologicamente, penso eu, pode enraizar-se, neste passo, o início do discurso bíblico da Redenção, que desde logo surge, também, como aventura humana de regresso do exílio - tema que, aliás, vai estando presente, de várias formas e narrativas, em toda a Bíblia, incluindo na voz de Jesus, quando repetidamente fala do seu próprio regresso ao Pai. Condenados a ganhar o pão com o suor dos nossos rostos, também pela procura do conhecimento, em cumprimento da nossa vocação de descobridores, nos vamos chegando à visão final do princípio da vida e do percurso da história.

 

   Pesar-nos-á, entretanto e sempre, a sucessão de ovos e galinhas que vai pautando o andamento lento, por vezes sinuoso, ou mesmo hesitante entre tantos semáforos, do trânsito da nossa aprendizagem e conhecimento. Mas não esqueçamos que a própria ciência humana é um artifício, como galinha para ovo. E até acontece não sabermos, nem tampouco prevermos, o que sairá do ovo que tal galinha põe. A evolução da nossa ciência tem fases de desenvolvimento quase linear e previsível, enquanto se vai esgotando uma opção, um método, uma tecnologia. E também tem crises, ou tempos de rutura e mutação, quando se lhe abrem outros horizontes, aproximáveis por métodos diversos, exploráveis por tecnologias novas. Em vários campos do labor científico, desde a investigação do cancro à aventura espacial. Assim continua interrogando o pensarsentir humano, e será, quiçá, no tempo, o nosso modo de perseverar no ser que somos. A ciência não nos dá, creio que jamais dará, o ser, mas vai mantendo em andamento, de ovo para galinha e de galinha para ovo, este misterioso aparelho do nosso entendimento. É por fazê-lo que muitos cientistas se abrem à contemplação do mistério, aqui entendido como realidade presente no nosso horizonte, e que incessantemente interrogamos sem por agora chegarmos à resposta final, isto é, à que plenamente seja certeza que nos satisfaça.  Por aí também poderemos perceber que nenhuma religião consegue ser fábrica de certezas definitivas, mas que a fé pode alimentar as forças do nosso percurso em busca da verdade, por quanto possa ser esse sustento das coisas que hão de vir. A fé - aquela que nos anima de contemplação e perguntas e torna ser crente mais estimulante e laborioso do que ser ateu. A famosa frase «nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi» não está errada, está certa - mas também não serve de critério epistemológico. Tal como pretender-se que «ser cristão (e, acrescento eu, outro crente ou agnóstico ou ateu) é um risco e ser humano um grande risco» é uma banalidade pretensiosa, já que a condição humana é, evidentemente, uma condição inata e involuntária, enquanto qualquer opção religiosa ou filosófica, como todas as orientações que tomemos na vida, são opções pessoais e, nessa medida, arriscadas. Aliás, em qualquer caso, não se podem sobrepor os motivos: posso declarar-me cristão por receio ou temor, por tradição, educação ou necessidade de certezas abonadas, como por livre escolha de um caminho de descoberta. E todas essas opções, como todas as outras, são um risco assumido, nunca podem ser uma condição imposta.  Aqui e agora, a nossa inteligência padece das suas próprias limitações, e das da sua circunstância. Habitando o tempo e o espaço, é posta a funcionar no e com o mensurável. Assim me parece, atrevo-me a dizê-lo, um artifício natural - o qual é, evidentemente, condição paradoxal. Mas, na verdade, discorremos necessariamente no tempo e no espaço, categorias mentais artificiais que, todavia, surgiram como indispensáveis ao funcionamento intelectual do ser humano naturado. Ora, no infinito, como na eternidade, nem tempo nem espaço fazem qualquer sentido, pois apenas a imensidão será medida certa. Quando ouço falar de vida eterna - ou da sua negação - pensossinto sempre que, quer a imaginemos como este mundo que conhecemos finalmente despido de todo o mal, quer como fim definitivo de todos os nossos horizontes atuais, nos esquecemos, nessa fé ou na sua negação, de que a vida eterna não tem duração nem limite, habita algo que a nossa inteligência atual não é capaz de compreender: o Reino de Deus, já Jesus nos dizia, não é deste mundo, porque é imenso. E imenso quer precisamente dizer sem medida.

 

   A talho de fouce, recordo, Princesa de mim, como aquele dito de Jesus a Pilatos, que o interrogava, tem sido - até por muitos católicos - interpretado como se não enquadrasse neste mundo o Reino de justiça, amor e paz, reservado para o "outro mundo". Mas a Boa Nova ensina-nos que só neste tempo e nesta hora nos é dada a oportunidade de praticar esse amor do próximo que, de acordo com os relatos evangélicos das bem-aventuranças e do juízo final, será o critério de entrada de qualquer de nós no Reino do Imenso onde, sem constrangimentos, só a Vida está e, finalmente, é. Aliás, a esta carta que, alegremente encetada como glosa a uma frase do Umberto Eco, acabei por levar às portas de uma meditação especulativa, falta acrescentar a funda impressão, que já tantas vezes te confidenciei, em mim aberta e em mim deixada por pensarsentir, no caso da humana vida e morte, como entre esta e a vida que temos não há que procurar nem ovo nem galinha : ambos intimamente se confundem. Na verdade, a vida só nasce da morte depois da morte da vida, posto que, no seu início terrenal, esta é transmitida por outra vida. Ou, quiçá, em razão da necessidade fatal de gerar vidas que possam suceder a outras mortes futuras, já que também só neste mundo se faz história. Lembro sempre a assertividade de Georges Bataille: L´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort... E, afinal, não poderemos nós dizer, parafraseando o começo do Evangelho de S. João, que no princípio era a Vida ? Noutra carta, talvez contigo me interrogue sobre quem nasce primeiro: se o beijo que o revela, ou o amor que o dá. Por alguma razão muitos de nós toda a vida se recordam do seu primeiro amor, do primeiro beijo. E alguns sussurrarão o refrão daquela tão simples canção do Georges Brassens: Jamais de la vie / on ne l´oubliera / la première fille / qu´on a pris dans ses bras... Foi esse beijo que deu vida ao amor, ou o amor que acendeu o beijo?

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

           

Minha Princesa de mim:

 

    Hoje em dia, quando tanto se apregoam - sobretudo em Portugal - cultores sentimentalistas do que chega a pretender ser "uma exegese poética" da Bíblia (?), diverte-me evocar um subtítulo da obra de Umberto Eco que te referi: São Tomás e a liquidação do universo alegórico. E até te traduzirei uns trechos desse autor, sobretudo uns que me parecem ajudar à diferenciação entre simbologia e "liberdades poéticas" (título, aliás, dum poema do Saramago).

 

   Interroga-se São Tomás, em primeiro lugar, sobre a licitude de metáforas poéticas na Bíblia, concluindo pela negativa, visto que a poesia mais não é do que «infima doctrina» (Summa Theologiae, I, 1, 9): Poetica non capiuntur a ratione humana propter defectus veritatis qui est in eis. (A poética escapa à razão humana pela falta de verdade que nela está - Summa Theologiae, 1-11, 2 ad 2). E comenta Umberto Eco: Tal afirmação não deve todavia ser entendida como um rebaixamento da poesia, nem como definir-se o ato poético, como na terminologia do século XVIII, enquanto «perceptio confusa». Antes se trata de reconhecer à poesia o direito de figurar entre as artes (isto é, a sua qualidade de «recta ratio factibilium»), sem deixar de admitir, por outro lado, que essa operação - esse «facere» - permanece inferior, por natureza, ao depurado conhecimento que nos trazem a filosofia e a teologia. A Metafísica de Aristóteles ensinara a São Tomás que as tentativas de efabulação dos primeiros poetas teólogos tinham constituído uma maneira ainda infantil de tomar conhecimento racional do universo. Na verdade, tal como todos os pensadores escolásticos, ele não sente qualquer interesse por uma teoria da poesia: assunto bom para especialistas de retórica, que ensinavam na Faculdade das Artes e não na Faculdade de Teologia. Quanto a si, São Tomás foi poeta (e poeta excelente); mas em todas as páginas em que fala de conhecimento poético e de conhecimento teológico, ele nunca se desmarca de um tipo de oposição canónica, nem se refere à maneira dos poetas como algo para além de simples termo de comparação (que não é objeto de análise).

 

   A dado passo do trecho dos seus Scritti sul Pensiero Medievale, sobre O Alegorismo nas Escrituras, Umberto Eco aconselha-se com Henri de Lubac - grande teólogo jesuíta, contemporâneo e amigo do dominicano Yves Congar, com quem, aliás, trabalhou em tempos do Concílio Vaticano II e foi igualmente feito cardeal por João Paulo II; mais recentemente foram ambos lembrados pelo papa Francisco que, nesse período de renovação da Igreja, acompanhou, como discípulo, a obra deles. Recorrendo a Henri de Lubac, sobre o modo expressivo e cognitivo medievo, Eco escreve (traduzo):

 

    Na sua tentativa de contrariar a sobreavaliação gnóstica do Novo Testamento em detrimento do Antigo, Clemente de Alexandria estabelece uma distinção e uma complementaridade entre ambos, diligência que Orígenes aperfeiçoará ao proclamar a necessidade de uma leitura paralela das duas escrituras. O Antigo Testamento é esboço do outro, e nele se precisa a letra cujo espírito o Novo encerra. Ou, para falarmos em termos de semiótica, é a expressão retórica do que, no Novo Testamento é o conteúdo. Por sua vez e parte, o Novo Testamento contém uma significação figurativa, já que é promessa de acontecimentos por vir. É com Orígenes que nasce o «discurso teologal», um discurso que deixa de ser - apenas e tão somente - discurso sobre Deus, para ser também sobre a sua Escritura.

 

   E é assim que já desde Orígenes se começa o ouvir falar de sentido literal, de sentido moral (psíquico), e de sentido místico (pneumático). A partir daí se constitui a tríade que associa o literal, o tropológico e o alegórico, que nos conduzirá progressivamente à teoria dos quatro níveis de significação da Escritura: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico.

 

   Cabe lembrar-te aqui, Princesa de mim, o título da monumental obra de Henri de Lubac: Éxégèse Médiévale: les quatre sens de l´Écriture (Aubier, Paris, 1959-1964). Esta 1ª, como todas as outras edições seguintes, hoje praticamente esgotadas.

 

   E vou levar-te, por Umberto Eco (agnóstico já quando escreveu a sua tese de doutoramento sobre São Tomás de Aquino), ao dominicano patrono da nossa teologia. Não seguiremos pelo caminho da análise mais profunda da evolução do pensamento medieval sobre os quatro sentidos da Escritura, surpreenderemos um momento revelador do foco e do rigor aquinenses.   

 

   Eco considera que São Tomás admite ser normal as Escrituras apresentarem-nos realidades divinas e espirituais - precisamente porque estas ultrapassam a nossa compreensão - sob o aspecto de coisas corpóreas: conveniens est sacrae scripturae divina et spirituali sub similitudine corporalium tradere (Summa Theologiae, I, 1,9). Quanto à nossa leitura do texto sagrado, Aquino diz que devemos procurar o seu fundamento literal e histórico: na verdade, tratando-se de história sacra, o literal é histórico, pois que relata um acontecimento compreensível (a saída dos Hebreus do Egipto, p. ex.) e este determina a narrativa. Illa vero significatio qua res significatae per voces, iterum res alia significant, dicitur sensus spiritualis, qui super litteralem fundatur, et eum supponit -  "chamamos sentido espiritual a essa forma de significação pela qual as coisas significadas por meio de palavras vão, por sua vez, significar outras; tal sentido espiritual assenta no sentido literal, e pressupõe-no" (Summa Theologiae, I, 1, 10, resp.)

 

   E Umberto Eco, percebendo que São Tomás designa por sensus spiritualis os diversos supersentidos que podem ser atribuídos a um texto, também entende que o Aquino vai direito à questão fulcral de interpretar o sentido literal como sendo precisamente a intenção do autor, ou seja, o sentido quem auctor intendit. E comenta então: Tal precisão é da maior importância para apreciarmos as posteriores manifestações da sua teoria de interpretação das Escrituras. Ao falar de sentido literal, São Tomás não fala de sentido do enunciado (do que um enunciado exprime pelo código linguístico a que se refere), mas, certamente, ao sentido que lhe é atribuído pelo próprio autor da enunciação. Em linguagem hodierna, se, numa sala cheia de gente, eu disser que «há muito fumo aqui», pode ser para afirmar (é o sentido do enunciado) que há fumo demais na sala; mas também posso querer exprimir a ideia (em função das circunstâncias da enunciação) de que seria oportuno abrir a janela, ou, então, deixar de fumar. É evidente que, para Tomás de Aquino, os dois significados são parte integrante do sentido literal, pela simples razão de que ambos pertencem a um contexto que o enunciador se propunha enunciar. Como duvidar então de que Deus, sendo o autor das Escrituras e, simultaneamente, capaz de apreender e interpretar uma data de coisas ao mesmo tempo, nada obsta a que possamos supor que haja, nas Escrituras, uma pluralidade de sentidos - plures sensus - nem que apenas em virtude só do rudimentar sentido literal?

 

   Creio que poderei dizer-te, Princesa de mim, que esta análise é também pedagógica, porque nos desarma de preconceitos e nos põe a procurar responder às nossas próprias interrogações. Mas, sobretudo, pensossinto que nos ensina o respeito pelo texto e a humildade na sua leitura. Se reparares bem, é por assim nos tornarmos mais pequeninos que ganharemos altura para mais largo e livre entendimento do que nos é dado ler.

 

   E quiçá algum recolhimento reflexivo sobre hiatos, obscuridades e interrogações, com que vamos diariamente deparando na babel leviana da "comunicação" contemporânea, nos pudesse ajudar  -  não só nem principalmente  -  a falar e escrever melhor, mas  -  sobretudo  -  a conseguir pensar e discorrer com mais construção e associação de ideias, em vez de repetirmos (ainda por cima através, tantas vezes, de neologismos disparatados e dispensáveis estrangeirismos que, para quem estiver atento,  são denunciadores de ignorância e relaxamento mental) o que por aí se vai considerando e apregoando convencionalmente correto ou "poeticamente hermenêutico".

 

Camilo Maria          

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vamos então visitar São Tomás de Aquino, pela mão de Umberto Eco nos seus Scritti sul Pensiero Medievale (Bompiani, 2012). Retomo agora o fio da minha carta nova nº XI, que fechara com uma citação de Huizinga contra o declínio do simbolismo e, para metermos já Umberto Eco na nossa conversa, traduzo o que ele escreve: A propósito do simbolismo medieval, Huizinga deu-nos uma análise magistral, ao levar-nos a compreender que a predisposição para uma visão simbolizante do universo também se pode manifestar no homem contemporâneo. Eis uma interessante perspetiva.

 

   Na verdade, o pensador italiano, autor também de apreciados romances, procura desde logo chamar a nossa atenção para algo que, talvez por uma certa incultura contemporânea e consequente desleixo do espírito crítico, temos vindo a menosprezar ou, alternativamente, a idolatrar: o símbolo como acesso ao invisível, ao suposto, ou ao dificilmente ilustrável por si mesmo, em virtude da sua própria ininteligibilidade, quando não se lhe conhecem possíveis referências já alcançáveis. É certo também que bastas vezes nos servimos de símbolos, em sentido inverso, isto é, para significar (digamos que erga omnes) algo que veneramos e queremos mostrar. Chamamos-lhes então emblemas, mas, afinal, também estes procuram traduzir a maior intensidade de um sentimento ou algo inexplicável mesmo naquilo que julgamos conhecer. Pode, pois, dizer-se que um símbolo é tentativa de concretização de algo que só em abstração concebemos. Não é nem fantasia, nem ídolo: é sinal, referência. Tal como os milagres de Jesus que os Evangelhos relatam, não para contar maravilhas, mas enquanto sinais do Emanuel, do Deus connosco. Ainda esta manhã isso penseissenti, ao ler um trecho do Evangelho de São Lucas (7, 11-17), designadamente este passo: Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores». Jesus aproximou-se e tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, eu te ordeno: levanta-te!». O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus entregou-o à mãe. Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: apareceu no meio de nós um grande profeta, Deus visitou o seu povo».

 

   Este texto relata um acontecimento, hoje inverificável, impossível de confirmar. Apenas sabemos que estas narrativas evangélicas registam por escrito memórias de contemporâneos de Jesus, testemunhas privilegiadas da sua vida terrenal e suas circunstâncias. Mas tal testemunho não se confina aos factos relatados, vai além deles, confere-lhes um sentido descoberto, achado, pela mensagem do próprio Jesus. Portanto, mais do que como notícia, leio-o com encanto, quase posso dizer que maravilhado com a maravilha, sem todavia me fixar nela. E aí reside, precisamente, mais do que a beleza que tenha, a sua verdade. Não no facto em si, mas no seu simbolismo. Se Jesus ressuscitou aquele rapaz, como nos é contado, tal não significa que irá continuar a retornar a esta vida todos os mortos com que se for cruzando pelos caminhos da Judeia e da Galileia. Nem tão somente que aquele seu gesto se destinava exclusivamente a consolar a mãe viúva e a granjear admiradores ente os presentes. O próprio texto evangélico, aliás, é bem claro: Todos se encheram de temor e davam glória a Deus. O temor a Deus, na Bíblia toda, é sempre sinal, não de receio ou medo, no nosso sentido corrente, mas do sentimento devorador da presença próxima do Quem É, daquele absoluto inefável, cujo nome mesmo é impronunciável pelas bocas e as próprias escrituras do judaísmo. Como poderia o humano que pretendesse chegar-se a Deus esquecer o castigo de ter caído na tentação de comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, e não viver em terror permanente, roído pelo medo constante de cair na voragem do buraco negro que tudo consome. Já no caso do rapaz tornado a sua mãe, o sinal da proximidade de Deus é o gesto misericordioso de Jesus, que o ressuscita, em sinal também da sua própria Ressurreição libertadora de todos, símbolo ainda do inimaginável poder redentor do Pai que, na figura ou pessoa do Filho, visitou o seu povo! E todavia, não é propriamente uma visão clara de Deus que nos é dada, senão apenas um gesto simbólico da sua presença entre nós. Porque a fé apenas é a substância ou sustentação das coisas que virão. Por outro lado, há cenas ou afirmações que serão apenas fruto da imaginação humana, sem qualquer possibilidade de verificação experimental ou científica (sei lá... a assunção de Nossa Senhora não faz dela uma astronauta, nem a sua virgindade  -  no sentido físico de hímen não rompido, quer antes, quer após o nascimento de Jesus, como pretendem textos apócrifos e o próprio Corão  -  será uma exceção biológica), mas que contudo têm sentido místico e significam realidades tão fortes como a omnipotência de Deus ou o advento final de novos céus e duma nova terra, uma vez vencidas a corrupção e a morte e tudo retornado à imaculada condição inicial.

 

   Assim, Princesa de mim, muitos relatos constantes de textos bíblicos são considerados hoje, por muitos teólogos mais rigorosos, narrativas simbólicas - coisa que, curiosamente, quiçá os sábios medievos, pela sua cultura, terão considerado com maior naturalidade. Em carta próxima voltarei à Legenda Aurea de Tiago Voragino, da qual também muitas vezes já falámos, e da qual o grande medievalista Jacques Le Goff (cf. À la Recherche du Temps Sacré, Perrin, Paris, 2011) escreve:

 

   A Legenda Aurea é extraordinária, simultaneamente por si mesma e pela sua fortuna. Escrito no último terço do século XIII, este texto, cujos cento e setenta e oito capítulos ocupam mais de um milhar de páginas na edição de La Pléiade, foi objeto de mais de um milhar de manuscritos medievais conservados até hoje, o que lhe confere, sob esta perspetiva o segundo lugar, na Idade Média, a seguir à Bíblia... Le Goff refere-se aí ao facto de, em tempos anteriores à imprensa, aquela obra do dominicano arcebispo de Génova - e coevo do seu confrade Tomás de Aquino  -  ter sido a mais reproduzida pelos copistas, isto é, a que foi mais editada, logo a seguir à Bíblia. A razão para voltarmos às conversas sobre ela será, essencialmente, tratar-se de uma Summa, não Theologiae, mas sobre o tempo. Aliás, o Voragino começa assim o seu texto: Universum tempus presentis vitae in quatuor distinguitur ou O tempo todo da vida presente divide-se em quatro. Para  Le Goff, a grande originalidade do Voragino não está só na "consideração e abrangência do tempo na sua totalidade,  grande interrogação de todas as civilizações e religiões, mas em como chegar a esse tempo total pela combinação de três tipos de tempo : o temporal, isto é, o tempo da liturgia cristã, que é cíclico; o santoral, ou tempo marcado pela sucessão da vida dos santos, que é linear; e, last not least, o escatológico, de que o cristianismo faz o caminho temporal que conduz a humanidade ao Juízo Final."

 

   Afinal, escreve o medievalista francês, o nosso dominicano quer afinal mostrar como só o cristianismo soube estruturar e sacralizar o tempo da vida humana, para levar a humanidade à salvação. Porque a Legenda Aurea não trata de um tempo abstrato, mas dum tempo humano, querido por Deus e sacralizado ou santificado pelo cristianismo. Retomando uma expressão de Max Weber, Marcel Gauchet deu ao seu livro maior o título Le Désenchantement du Monde (o desencanto do mundo). A empresa de Tiago Voragino era em sentido inverso: apoiar-se no tempo para encantar e sacralizar o mundo e a humanidade. Pela minha parte, creio que tal "sacralização" do tempo humano, como enquadramento e caminho do percurso salvífico, não é, de modo algum, despiciendo para a nossa melhor compreensão da cultura simbolista medieval.

 

   Mas deixaremos, para mais tarde, as reflexões sobre esses pontos. Por hoje, apenas quero sublinhar, Princesa de mim, que a Legenda Aurea frequentemente se apoia em textos apócrifos, sobre alguns dos quais, aliás, se construíram devoções e cultos universais da Igreja, bem como dogmas, entre os quais o da Assunção da Santíssima Virgem que, como sabes, não tem qualquer suporte em textos bíblicos. Reparo ainda na, por mim descuidada, saturação desta carta, que já vai longa, e reservo para a seguinte - que com esta te envio - o nosso próximo prometido encontro com São Tomás de Aquino.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Hoje, comecei a reler os doze volumes de A Dance to the Music of Time de Anthony Powell. É obra de ficção, mas alimentada por um olhar atento, minucioso e crítico - e aliás, por tudo isso, amistoso - sobre a sociedade inglesa, de 1914 a 1970. Não sendo, portanto, obra historiográfica, é contudo uma crónica de vidas e comportamentos coevos do autor. Chamemos-lhe registo subjetivo - se assim entenderes, Princesa de mim - apesar de tal apelido me parecer redundante, posto que tudo o que dizemos ou escrevemos, inventado, estudado ou copiado, é, necessariamente, um tantinho subjetivo. Essa obra maior de Powell tem sido diferentemente apreciada pela crítica, como por exemplo nos testemunham, quer os elogios de seu amigo (desde os tempos de Oxford) Evelyn Waugh, quer as grandes reservas de outro amigo, e também celebrado escritor como Waugh, o V.S. Naipaul. Também em França, muitos o comparam a Marcel Proust, talvez porque o compasso do tempo vá marcando labirintos da memória (?). Mas acho-os diferentes. Seja como for, A Dance to the Music of Time tem, pelo menos, o mérito de nos levar a observar de mais perto a high society inglesa, ainda que pelos olhos de um dos seus membros. Nascido em 1905, numa família de tradição militar, e com fortes relações à alta aristocracia, o seu autor frequentou as grandes escolas, como Eton e Oxford, mas ainda recusou a nobilitação que lhe foi proposta por Sua Majestade britânica. Isto é: esteve sempre dentro e fora, como qualquer cavalheiro que preze a própria independência. Assim também outros e outras, chamem-se simplesmente Richard Jones ou, elegantemente, Georgiana Spencer... Ou sejam simples cidadãos, por vezes perdidos nos labirintos mais ou menos enigmáticos do seu tempo e seus modos. Para tua meditação, em pleno século XXI, sobre as contradições e turbulências que surpreendem a circunstância do nosso pensarsentir, e nos confundem, traduzo-te um trecho de S. Zizek em La naturaleza no existe (Mirando al Sesgo, Paidós, Buenos aires, 1991):

 

  Um autêntico ecologista horroriza-se com jardins perfeitos e canteiros limpos. Eis o que realmente mais teme, o seu pior pesadelo: um verde prado agradável, um terreno de que se fez desaparecer o lixo. Creio que uma sociedade ecológica idealmente equilibrada (para usar um termo que os ambientalistas usam) seria um espaço totalmente caótico, de que o lixo não teria sido segregado, mas fosse simplesmente um elemento da paisagem.

  

   À medida que me vou, com o peso da idade, debruçando um pouco mais sobre o mundo terrenal (assim lhe chamaria Gil Vicente), nossa circunstância, e também examinando, mais curiosa e misericordiosamente, as perspetivas, passadas e presentes, pelas quais o fui olhando (e talvez julgando)... vou percebendo melhor algo que frequentemente me demorou na reflexão. Certamente te lembrarás, Princesa de mim, de como, já há muito tempo, me fui tentando a amar a imperfeição. Porque, na verdade, o amor nunca é possível quando apenas idealizamos o objeto dele, esquecendo que este, pessoa ou outra qualquer existência, está, pela própria natureza da sua presente condição, necessariamente inacabada. Só sabendo aceitar tal condição necessária poderemos começar a amar algo como se de nós se tratasse. Porque então entendemos também que somos igualmente imperfeitos, e que o caminho para a perfeição (a que também se chama santidade, bondade, beleza) apenas se percorre em verdade e partilha, pela participação dos seres humanos na obra de Deus. Se olharmos bem para toda a simbologia, e designadamente a cristã medieva, compreenderemos como tudo não é apenas aquilo que vemos, ouvimos ou alcançamos: é isso, sim, certamente e pela medida em que o progresso científico no lo vai descobrindo. Mas é também o seu acabamento, a sua realização plena, a perfeição com que tudo e cada coisa está inscrita no coração de Deus, e nos espera. Até esse dia em que deixaremos de conhecer tudo apenas pelo espelho deste mundo, nesta vida terrenal, mas tudo veremos na sua plenitude. Bem sei que há algo de platónico em mim. Será amor?

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

  Minha Princesa de mim:

 

    Já que tanto gostei de escutar obras do londrino Richard Jones, morto em 1744, sem data de nascimento conhecida, nem muito mais da sua vida, fui ao meu precioso The New Grove Dictionary of Music and Musicians, em vinte grossos (e pesados) volumes, editado em 1980 pela Macmillan, Londres, onde encontrei, na página 702 do nono volume, o artigo referente ao "nosso" compositor, redigido por Stoddard Lincoln, que confirma saber-se apenas que Jones terá nascido por finais do século XVII: All that is known of his life is that he succeeded Stefano Carbonelli as the leader of the orchestra at Drury Lane about 1730, and that he was succeeded in turn by one of his pupils, Michael Festing, and by Richard Clarke. An announcement of his death is found in the Daily Advertiser of 20 January 1744.

 

   Aprendi um pouco mais sobre o compositor, através de comentários à sua obra, dos quais ressalto o trecho que agora para ti traduzo, ao pensarsentir como pode um artista, seja ele um misfit ou desadaptado, soberanamente entender a sua (e nossa) herança cultural e, depois, dizer-nos muito mais do que os nossos ouvidos tenham escutado ou os nossos olhos enxergado:

 

   É evidente para quem examinar a sua música para violino que ele terá sido um excelentíssimo executante desse instrumento. Cheia de duplas pausas, largos intervalos, padrões de cruzamentos de cordas e ornamentações florais, está escrita num idioma técnico extremamente avançado para o seu tempo. Igual carácter violinístico se encontra na sua música para cravo, e com frequência temos a impressão de estar a tocar uma transcrição de qualquer concerto grosso de Corelli ou Vivaldi pelos acentuados contrastes que implica a diferenciação entre "solo" e "tutti". Apesar do estilo de Jones ser essencialmente italiano, é extraordinário pela sua originalidade. A música é ritmicamente vigorosa, são ricas as harmonias e largas as melodias, caracterizadas por cadências inesperadas e frequentes mudanças de rumo...

 

   Em 1757, treze anos após a morte de Richard Jones, nascia Lady Georgiana Spencer, numa família a que também, mais tarde, e noutro século, pertenceriam, quer Winston Churchill, quer Diana Spencer, ou Lady Di, princesa de Gales. Georgiana tornar-se-ia, pelo casamento com o 5º do título, Duquesa de Devonshire, e, por suas paixões - amorosas e outras - uma figura emblemática do século XVIII inglês. Aconselho-te, Princesa de mim, a sua biografia por Amanda Foreman, publicada pela Harper Collins, Londres, em 1998, que me ajudou a familiarizar-me com a Inglaterra aristocrática, cultural e política do tempo. Mas, para nada te esconder, confesso que me cativou sobretudo a personalidade contrastante de Georgiana Spencer: podia ser caprichosa e quebrar louça, mas nunca deixou de admirar e amar a sua amiga Lady Elisabeth (Bess) Foster, mesmo enquanto esta foi amante do duque seu marido. "My dear Bess, do you hear the voice of my heart crying to you? Do you feel what is for me to be separated from you...? Mandaram os fados que, com exceção, talvez, do conde Charles Grey - do qual teve a sua única filha ilegítima, Eliza Courtney, e com quem teve de romper, por imposição do duque seu marido, que lhe deu a escolher entre o amante e os seus próprios filhos - os seus amores foram todos casos de sofrimento e desgraça. Mas é-me difícil não admirar a beleza, não só de feições, mas de um olhar e uma expressão de afirmação determinada, da mulher que Thomas Gainsborough tão bem retratou. E é igualmente esta biografia, escrita por Amanda Foreman dois séculos mais tarde, um belo retrato de uma mulher em tempos passados. Creio que será a literatura histórica anglo-saxónica a maior cultivadora da biografia como arte de melhor se entenderem tempos idos através de um olhar perscrutador de personagens que, talvez por serem pessoas humanas, como que nos dão a mão para um passeio mais próximo da vida então partilhada.

 

    A minha carta seguinte, Princesa de mim, retoma o fio da meada desta. Mas até lá deixa-me explicar-te por que é que esta minha lembrança de Georgiana Spencer me levou a reler The Dance to the Music of Time, escrito, já no século XX, por Anthony Powell, livro de que te falarei nessa próxima carta. Muito simplesmente te digo que frequentemente me acontece pensarsentir as possíveis razões que levaram o Gaëtan, meu irmão - e, contrariamente a mim, que sou canhoto (não necessariamente sinistro), destro de nascença - a desenhar com a mão esquerda. Seria realmente a sageza tantas vezes invocada de querer que o gesto do carvão sobre o papel não saísse espontâneo, mas antes obedecesse a um reflexo mentalmente controlado? A partir daqui, refleti eu nas razões que nos levam a suspeitar ou mesmo apontar qualquer traço autobiográfico em textos de ficcionistas. Será que qualquer analogia ou coincidência entre autor e personagem - ou, tão somente, circunstâncias de vida - necessariamente marca tal intenção ou apenas descuidada inconfidência? Antes, não poderá, pelo contrário, um autor procurar desenhar ou escrever o que crê diferente ou mesmo oposto? Ainda que o faça, não enquanto poeta fingidor e pessoano, mas pelo rigor mental que pretende? Dou a palavra, agora, ao início do capítulo 2 do 1º volume de The Dance to the Music of Time (são doze volumes). Vais gostar, traduzo:

 

   Não é fácil - aliás, talvez nem seja desejável - julgar os outros por critérios uniformes.  Um comportamento odioso, mesmo inaceitável, de uma pessoa poderá ser perfeitamente tolerável noutra; princípios de conduta aparentemente indispensáveis serão relaxados na prática - o que até pode ser arriscado - para bem daqueles cuja natureza pareça exigir tais medidas excecionais. Eis uma das dificuldades com que deparamos ao lançar no papel a condição humana, e assim sofremos uma perplexidade que de facto justifica que no drama shakespeariano a comédia alterne com a tragédia: assim, certas personagens e certas ações apenas se podem conceber em termos que só a elas se aplicam, independentemente das consequências. No palco, todavia, as máscaras correspondem a certo tipos de caracteres; na vida de todos os dias, os actores desempenham o seu papel sem contudo se preocuparem com o propósito da cena, nem das palavras proferidas pelo resto da distribuição; daí resulta uma tendência geral a levar tudo para o nível da farsa, mesmo tratando-se de um tema mais sério. Esse menos prezo das unidades não pode ser admitido na vida humana, apesar de existirem momentos em que a observação atenta revela, desta ou daquela maneira, que os diferentes elementos já não são, no fim da peça, tão irreconciliáveis quanto pudéssemos imaginar durante o 1º ato.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

  

   Seguem, neste mesmo correio, três cartas para ti. Escrevi-as de fio a pavio, envio-tas juntas, para que as leias no mesmo contexto. Cada uma a seu tempo, como manda a paciência própria de quem sabe saborear momentos de partilha.

 

   Para meu concerto pós prandial, neste início de tarde morna, ao nono dia de um Setembro que se anunciou quente, escolhi escutar umas áreas de música de câmara, da primeira metade do século XVIII, compostas - repara bem, Princesa de mim - for a violin and through bass by Mr. Richard Jones... O registo de que disponho é o do Beggar’s Ensemble, gravado em Poitiers, de 27 a 30 de outubro de 2017, que para o efeito utiliza um violino, um violoncelo, um violone, duas violas da gamba, um fagote e um cravo. As quatro peças deste programa - com, respetivamente, três, sete, quatro e quatro andamentos cada - foram escolhidas e organizadas, de modo a criar uma operazinha instrumental à volta de Richard Jones, conta, na apresentação do disco, Tom Namias, que eu não conheço: o contínuo, muito rico e variado, foi escolhido para reforçar a teatralidade das árias, e criar o efeito de um coro, com personagens diversas a responder ou acompanhar o discurso do violino. A força bastante moderna desse contínuo também valoriza a escritura rítmica excecional de Jones e o seu gosto por frases assimétricas e rebuscadas.

 

   Como explicar tal independência, tal virtuosidade de escrita, nesse homem que, pela informação disponível, nunca estudou com os grandes deste mundo nem, muito provavelmente, andou com eles? Como conciliar a obscuridade em que se mergulhou a sua obra, e o seu aspeto absolutamente revolucionário?  E, fossem quais fossem as razões, que ensinamentos dali poderemos recolher, passados três séculos?

 

   Jones é homem do seu tempo. Vivendo numa Londres cosmopolita e debochada, embebedada por qualquer gin de má qualidade, ele vai buscar, a essa assustadora beleza cacofónica da cidade à beira do desabamento, a inspiração necessária à criação duma obra maior do século XVIII. 

 

   Confesso que, para mim, sem preconceito nem qualquer formação musical aplicada, me maravilhou este concerto tão livremente escutado no silêncio bucólico de uma tarde dolente, quase outonal, sem vento, sequer, a bulir nos campos verdes que avisto. E esqueci as arruaças pintadas pelo William Hogarth (1697-1764) na quarta (Chairing the Members, 1758) das suas Four Prints of an Election, que ilustra a capa do disco produzido pela editora Flora, embora tenha apreço por esse pintor sarcástico da Inglaterra do século XVIII. Tempo de guerras, iluminismos, filósofos e debochados, ditadores e fomentadores de revoluções, libertinos e devotos, o século XVIII - mais do que tudo isso, e mesmo, até, dos esplêndidos edifícios e decorações que nos deixou - talvez tenha sido sobretudo um século de música. Porquê? Além de muitos outros temas de estudo da nossa condição, esse século das luzes, das perucas, talcos e perfumes, do maneirismo e galanteio, do urbanismo e da engenharia (lembra-te da "baixa" pombalina, dos esgotos de Mafra, do aqueduto das águas livres) foi, mais do que isso e a "Passarola" do padre Gusmão, tempo de conspirações e governos autoritários. E o reverso de disso tudo, na vida dos espíritos livres, na literatura, na música e, até, na religião... Foi o tempo em que os hiatos do poder foram sendo ocupados, e em que o paradoxo da condição humana mais dialeticamente se demonstrou. Nas colónias de emigrantes britânicos na América do Norte, esses perseguidos e fugitivos das suas pátrias de origem, para além da reprodução, mutatis mutandis, ou, mais claramente, do estabelecimento, em seu favor, das estruturas socioeconómicas que os ostracizaram, ainda iniciaram movimentos de ocupação de novos territórios, com os governos de colónias, recém independentes da coroa britânica, a violentar as vidas e os direitos dos povos autóctones e dos escravos africanos importados. E, em Portugal, quantos edifícios, da coroa ou privados, sobretudo religiosos, com suas talhas douradas, terão sido pagos com ouros do Brasil?

 

   Tão cheio de contradições e caminhos perdidos, o século de Mozart e dos enciclopedistas, dos direitos do homem e da razão (redescoberta, deslumbrada e logo deslumbradora), foi o do despotismo iluminado, e terminaria pela Revolução Francesa, que também abriu novos campos de batalha e ressuscitaria impérios, repúblicas, calendários não cristãos e velhas monarquias. Por cá, reconstruiu-se exemplarmente Lisboa, logo após o Terramoto (com maiúscula), rolaram cabeças da alta nobreza, expulsaram-se jesuítas, Bocage foi-se divertindo e sofrendo, além de ser popular pelo verso e a pilhéria... Entretanto, a sábia Alcipe, uma Távora, escrevia e compunha poesia ao jeito clássico. Além de tudo o que ninguém pode negar, quiçá inspiradas por toda aquela cacofonia, surgem obras musicais sublimes, óperas brilhantes, elegantes e vigorosas sinfonias, sonatas e peças para câmara que, dos seus instrumentos, tiram espantosos sons e vibrações, que se harmonizam como se a função da música fosse extrair beleza para entendimento e perdão da desordem do humano mundo.

 

   [Sou, só por isso, levado a evocar outro tempo, este hodierno e nosso, que assim também se deixa mostrar, como nessa frase do celebrado Abbé Pierre: Temos de andar sempre com os dois olhos bem abertos, um a ver a miséria deste mundo, o outro a beleza do inefável. O que já levou alguém a clamar pelo testemunho da música minimalista ou pós-minimalista, como a dita zen, do compositor Gavin Bryars. Conta-se que este, no seu jeito de compor a partir de objetos achados (tal como artistas plásticos reciclam) se terá, certo dia, emocionado com a gravação abandonada de um canto, que lhe pareceu religioso, na voz de um homem idoso, sem abrigo : Jesus Blood never failed me yet... Decidiu aproveitá-la para nova obra sua, tema musical que se foi desenvolvendo pela integração de outros instrumentos a sustentá-lo. Tornou-se, quando publicamente executado e no seu registo magnético, um dos seus maiores êxitos].

 

   Regressando ao século XVIII, reencontramos Haydn e Mozart, mas também, com seu estilo italiano, o alemão Haendel em Inglaterra, Domenico Scarlatti na Ibéria, onde começou por ser mestre da capela real de D. João V e professor da infanta Maria Bárbara, a qual o levou para a vizinha Espanha, quando por lá se casou e fez rainha... E também, desta nativos, António Soler, conhecido pelo seu vigoroso fandango, e outros sonatistas como Josep Gallés e José Ferrer, próximos, no modo, doutro italiano amante da nossa península: Luigi Boccherini, famoso pelo seu minueto, mas também pelo quinteto em ré maior, para cordas, guitarra e castanholas (1798), cujo fandango se ergue ao nível dos melhores autóctones. Tudo isso é uma plêiade de músicos e suas obras a fazer vibrar e reunir-se uma Europa cheia de contradições e paradoxos, onde grandes igrejas e bibliotecas, no esplendor do seu barroco terminal, a pedir um neoclássico que já se anuncia, concorrem com a animação intelectual dos cafés em moda e os novos cultos maçónicos. Entre os maiores, contamos também portugueses, como Carlos Seixas que, pelos seus quinze anos, pediu a Domenico Scarlatti que o recebesse como discípulo. Diz-se que, ao ouvir a sua prova, o mestre italiano ficou tão embevecido que o dispensou, considerando-o tão bom ou melhor do que ele próprio... Ou o alentejano Sousa Carvalho e António Teixeira, autor da música de A Guerra do Alecrim e da Manjerona, cujo texto, como o de outras óperas, fora escrito por António José da Silva, o Judeu. Nascido no Brasil, a ele se devem muitas peças e libretos de óperas, representadas sobretudo no Teatro do Bairro Alto, antes de ter sido entregue pela Inquisição, após julgamento, ao braço secular e ter sido então executado. Aquele teatro era apenas um entre vários já desparecidos, o maior tendo sido a Ópera do Tejo, que o terramoto de 1755 destruiu. Quase quarenta anos depois, concretizar-se-ia um projeto iniciado ainda no reinado de D. José, e muito apoiado pelo intendente Pina Manique - que dali contava tirar receitas para apoio à Casa Pia: o nosso, sempre de pé, São Carlos, ao Chiado.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Terminava a minha última carta, Princesa, falando-te do cair do pano sobre o tempo de cada um de nós, e sobre todos os tempos. Chamava-lhe véu apocalíptico, pois mais nada oculta, mas tudo descobre e revela. Será assim a minha visão ao morrer. Mas até lá, todos teremos de olhar, escutar, e interpretar. Sim, todos vamos interpretando, lendo sinais dos tempos, decifrando símbolos. Estes são obra humana, dizem sobretudo o que nos é difícil exprimir, ou serão, talvez, mais abrangentes, e propõem mais caminhos de leitura do real do que muito passo lógico.

 

   No seu Pour les Siècles des Siècles (Vendémiaire, Paris, 2017), de que já te falei, o professor Oleg Voskoboynikov, escreve sobre o encanto dessa visão medieval da natureza, que é poética, alegórica. E continua: Ao abandonar, até ao século XIII, qualquer estética do olhar direto e independente sobre a natureza, olhar esse muito prezado por Aristóteles, o cristão medievo fez do mundo «um livro escrito pela mão de Deus» (Hugues de Saint-Victor); era preciso saber ler tal livro. Para um bom aluno de Hugues, Richard de Saint-Victor, «quer se interrogue a natureza, quer se leia a Bíblia, ambas exprimem o mesmo sentido». Os múltiplos sentidos da Escritura são outros tantos do «livro das criaturas», ou seja, do mundo: já Agostinho fala desse paralelismo entre escritura e natureza, e o século XII desenvolveu essa ideia. Tal posição não negava o mundo nem a necessidade de o estudar ou de falar dele. Muito pelo contrário, um discurso sobre a natureza das coisas, de natura rerum, é bem medieval, representa em si mesmo um género literário, de cariz enciclopédico, desde o século IX, com Robert Maur, aos enciclopedistas do século XIII [de que já te falei, Princesa de mim, em cartas antigas, a respeito de Tiago Voragino]. Pode até dizer-se que, de certo ponto de vista, a «natureza» medieval terá mais «necessidade» de «lei» do que a natureza aristotélica, já que, no seu próprio conceito, participa do Ser divino [cf. Étienne Gilson em L´Esprit de la Philosophie Médiévale, Paris, Vrin, 1989 ; a 1ª edição é de 1932].


   Com ajudas do "nosso" professor Voskoboynikov - e é ou não é entusiasmante encontrar um universitário russo famoso por ser um dos melhores estudiosos, a nível mundial, da paleografia latina e, designadamente, da cultura e do pensamento medievo europeu, além de excelente tradutor, para a íngua russa, de textos filosóficos ocidentais dos séculos XII e XIII?  -  avancemos, então, Princesa de mim, para um melhor entendimento do pensamento simbólico da Idade Média da Europa Ocidental.

 

   Distinguia-se então natura, a natureza no singular, em sentido geral, de naturae, no plural, as naturezas diversas, ou as propriedades naturais das coisas. Pensa o "nosso" professor que tal discernimento, pelo menos até à profunda aceitação, já no século XIII, da física e da metafísica aristotélicas (e, em qualquer próxima carta, lá voltaremos a Tomás de Aquino, pela mão de Umberto Eco), submetia a realidade sensível, empírica, a quatro interpretações: literal, simbólica, moral, mais raramente, anagógica - sendo que esta última, quiçá a mais sofisticada, era suposta conduzir a alma à Salvação. Não deixa de ser interessante que Voskoboynikov recorra a uma carta do grande Dante ao seu mecenas, Cangrande della Scala - a quem o Poeta explica como a sua Comedia (a tal a que ainda chamamos Divina) comporta vários sentidos - isso para nos iluminar quanto ao funcionamento de tal simbólico pensamento. [Trata-se de um trecho da XIII carta de Dante a della Scala]:

 

   Pois uma coisa é o sentido que a carta transmite, e outra coisa o sentido trazido pelas próprias coisas. Chama-se literal ao primeiro, o segundo sendo alegórico ou moral. Para tornar claro tal modo de expressão, podemos acompanhá-lo na frase seguinte: «Quando Israel saiu do Egipto, quando a casa de Jacó se afastou de um povo bárbaro, tornou-se Judá o seu santuário, Israel a sua força». [Puxo aqui pela memória antiga de salmos cantados, e assim recordo o texto da Vulgata destes versículos 1 e 2 do salmo 114: In exitu Israel de Egypto, Jacob de populo barbaro, facta est Judea sanctificatio ejus, Israel potestas ejus]. Se olharmos só para a letra, veremos que se trata do êxodo dos filhos de Israel do Egipto, no tempo de Moisés; em sentido alegórico, trata-se da salvação trazida por Cristo; o sentido moral levanta-nos a alma, das lágrimas e penas, à bem aventurança; anagogicamente, a alma passa da escravidão da corrupção terrena para a liberdade da glória eterna. Apesar de todos esses sentidos misteriosos terem nomes diferentes, a todos podemos chamar alegóricos, pois são distintos do sentido literal ou histórico...

 

   ... O sentido literal serve sempre de objeto e matéria para os outros, designadamente ao sentido alegórico. Assim, não conseguiríamos, portanto, aceder ao conhecimento de outros significados sem conhecer a letra...   ... Não há coisa alguma, natural ou artificial, que possamos penetrar sem primeiro construir fundações, tal como fazemos para uma casa ou um saber.

 

   Este rigor intelectual de Dante Alighieri, no século XIII, encontramo-lo também nos dominicanos Alberto Magno e Tomás de Aquino que, em próxima carta, visitaremos, na companhia de Umberto Eco, como te prometi, Princesa de mim. Mas já no século XII, Hughes de Sain-Victor, grande renovador da ciência bíblica, repreendia, como lembra o "nosso" professor russo, os mestres e falsos mestres que, referindo-se à famosa fórmula de São Paulo «A letra mata, mas o espírito vivifica» (2ª aos Coríntios, 3, 6) se punham a falar do espírito sem se demorarem na letra. Escreveu ele: «Os nossos sábios, não querem ou não sabem respeitar a ordem coerente dos estudos, e por isso mesmo vemos muitos estudantes e poucos sábios». Porque, para ele, tal ordem reproduz a ordem do universo e corresponde à ordem da restauração da natureza humana. Para outro grande espírito da geração seguinte, John of Salisbury, a verdade está na natureza das coisas, mas também na natureza das palavras, pois a gramática imita a natureza, e assim temos de aprender a trabalhar com os textos.

 

   Por tão facilmente, no tempo hodierno, nos deixarmos facilmente cair na tentação recorrentemente omnipresente das ideias "pronto a pensar", insistimos em olhar para a nossa meia idade como época de trevas e noturna ignorância, sem sequer descobrirmos e admirarmos um período em que a barbárie e o barbarismo foram sendo vencidos por um esforço consistente e persistente de clarividência e disciplina do espírito. Como aperitivo à nossa próxima deambulação em redor deste tema, na companhia de Umberto Eco, traduzo-te um trecho do Herfsstijder Middeleeuwen (ou "Outono da Idade Média") do holandês Johan Huitzinga, publicado em Harlem, em 1919):

 

   Nenhuma verdade estava mais presente ao espírito medievo do que essa palavra de São Paulo  aos Coríntios: Videmus nunc per speculum in aenigmate, tunc autem facie ad faciem ["Hoje apenas vemos por um espelho de enigmas, mas então veremos cara a cara]. A Idade Média nunca se esqueceu de que todas as coisas seriam absurdas se o seu significado se limitasse às suas funções imediatas e à sua fenomenalidade e que, ao contrário, pela sua essência, todas as coisas tendiam para o além. Tal ideia é-nos familiar, mesmo à margem de qualquer pensamento expressamente religioso. Quem não passou por momentos em que as coisas vulgares parecem ter um significado diferente e mais profundo do que o seu significado comum? Esta sensação, ora se apresenta como apreensão mórbida, que faz com que todas as coisas pareçam cheias de ameaças ou enigmas que teremos de resolver a todo o custo, ora, e mais frequentemente, nos enche de tranquilidade e confiança, convencendo-nos de que somos parte desse sentido secreto do mundo.

 

   Tu sabes bem, Princesa de mim - muitas vezes te lo disse - como, posto em sossego, quanto gosto de contemplar esta nossa tão paradoxal condição humana no mistério em que a resguardam, e inquietam, silêncios de Deus.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

               Herdeira de ti mesma, recuperas forças ali onde
               nos espera a morte. Das cinzas da fogueira te é dado
               teu nascimento. Morre a velhice, mas tu nunca partes,
               tu que viste tudo o que passou, testemunhas os séculos,
               e sabes quando escorreram dos rochedos imóveis as ondas
               tempestuosas que tudo inundaram e quando o fogo
               desencadeado destruiu os desatinos de Faetonte,
               escapaste a esse flagelo, foste a única intacta
               sobre a Terra domada. E nem as Parcas têm direito
               de te fiar em suas rocas.

 

   Estes versos foram escritos em latim por um dos maiores poetas da Antiguidade Clássica, Claudius Claudianus. Glorificam a fénix, essa ave mitológica, cuja lenda nos conta que é única e põe um ovo na fogueira, arde... e das cinzas renasce no seu próprio pinto! Disse Santo Agostinho que tal poema não era aplicável a Cristo Ressuscitado, pois constava que o seu autor fosse anti cristão. Todavia, cem anos antes, já o bom cristão Lactâncio escrevera, por volta do ano 300, o seu Phoenix (Fénix), e a mítica ave foi servindo de símbolo e ilustração da glória da Ressurreição do Senhor. Parece-me que é importante observar como, paradoxalmente (?), a recuperação de imaginário pagão pela iconografia e literatura cristãs, não só não é sinal de idolatria, antes será, pelo contrário, realização de uma potestas - no sentido de poder e domínio de tal imaginário pela fé cristã. Como se todos os deuses antigos, seus mitos e lendas, fossem anúncios do Deus Único, desse Quem então ignorado, que São Paulo anunciou em Atenas, apontando o pedestal vazio, reservado para o Desconhecido: "Pois é desse Deus desconhecido que vos venho falar!" [O agnóstico e Régis Debray, no seu Dieu, un Itinéraire, procura traçar esse percurso de uma revelação progressiva, quiçá multifacetada, de Deus na história da humanidade...]

 

   Acontece que, quando um imaginário coletivo adota um símbolo, não se compromete a mantê-lo sempre no mesmo desenho, mas vai variando os seus contornos e as lendas que conta à sua volta. A título de exemplo, Princesa de mim, traduzo-te a entrada Phoenix do Handbook of Symbols in Christian Art de Gertrude Grace Sill (Macmillan, New York, 1975): A fénix é uma ave mítica de grande beleza, semelhante à águia, mas com cabeça de faisão. Podia viver mais de quinhentos anos. Quando começou a sentir-se velha, ergueu a sua própria pira de aromáticos galhos ao sol meridiano, acendendo-a com o abano de suas asas. Um pequeno verme foi deixado entre as cinzas, e em três dias se tornou em nova fénix. E tornou-se a fénix em símbolo popular da Ressurreição de Cristo, triunfo da vida sobre a morte.

 

   O trecho de poema que acima traduzi talvez deva ser lido como se olha para um mistério, sobretudo por ilustrar a eternidade da Fénix evocando o seu poder de ressurgimento (ou sua "resiliência", para fazermos uso desse conceito da física dos materiais hoje tanto em voga no discurso político...) recorrendo à tragédia mítica de Faetonte ou Fáeton que, na sua versão homérica, é filho da oceânide Clímene e do deus Hélio (Sol), também assimilado a Apolo. Este jovem trágico é geralmente representado, seja a pedir a seu pai autorização para conduzir o seu carro solar, seja, o mais das vezes, a precipitar-se em queda mortal, atingidos, carro, cavalos e condutor, pelos raios fulminantes que Zeus sobre eles dispara. São, já percebeste, Princesa de mim, relâmpagos que os queimam. Na pintura europeia da Renascença e do Barroco é certamente esta versão a mais praticada, prestando-se, aliás, à decoração de tetos: olhamos para cima e vemos cair sobre nós o carro ardente do castigo divino. 

 

   Será essa a representação mais impressionante? Talvez, indubitavelmente, quando a pensamos e sentimos, com receio, como presságio. Na moral da história mítica original (?), o jovem Fáeton desatina mais por inexperiência e verdura de idade, do que por desafio ou soberba: ao guiar o seu fáeton de fogo (quando, no século XIX, foram surgindo, nos parques e lugares de passeio, mais carrinhos daqueles, descapotáveis e leves, deram-lhes o nome mítico, mas sem o fogo...) o rapaz não o aguentava bem no itinerário que Hélios lhe havia fixado e, desatinado, ia espalhando um fogo olímpico (mas não inofensivo), que ameaçava destruir as próprias estrelas e a Terra inteira. Assim, mais por cautela e profilaxia, do que por inveja ou punição, Zeus, pai dos deuses, achou benéfico fulminá-lo. Clímene, mãe do infeliz, e as irmãs dele, quando lhe foram chorar a morte. junto à sepultura, foram transformadas em choupos. Terá sido esta a origem do Choupal lírico, saudoso e lacrimejante, do Mondego coimbrão? Não te sei responder, Princesa de mim. Mas posso recordar uns versos de Luís Vaz de Camões (na Elegia X):

 

               Se acaso a caída e má ventura
               de Fáeton te lembra, cuja morte
               te deu sempre jamais tanta tristura,
               o não teres tu culpa te conforte,
               que o moço, de soberbo, não podia
               cair em menos miserável sorte.
               Mas vós, castas Irmãs, que, noite e dia,
               cantais em versos élegos o choro,
               com o cândido Cisne em companhia,
               unidas todas, a-vicenda, em coro,
               um padre consolai tão descontente,
               em módulo cantar doce e canoro.

 

   Esta elegia, também conhecida por Elegia de Sexta Feira de Endoenças, começa por uma dedicatória do Poeta, reveladora da "cristianização" de imagens e símbolos clássicos na cultura da Renascença. Repara bem, Princesa:

 

               A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
               nutrem e cibam de poção divina,
               não as da fonte Délia Cabalina,
               que são Medeias, Circes e Medusas,
               mas aquelas em cujo peito, infusas,
               as leis estão que a Lei da Graça ensina,
               beninas no amor e na doutrina,
               e não soberbas, cegas e confusas;
               este pequeno parto, produzido
               de meu saber e fraco entendimento,
               uma vontade grande te oferece.
               Se for de ti notado de atrevido,
               daqui peço perdão do atrevimento,
               o qual esta vontade te merece.

 

   Tenho aqui uma reprodução de A Queda de Fáeton (1703-4), de Sebastiano Ricci, que está no Museu Cívico de Belluno. A fúria fulminadora de Zeus-Júpiter, precipitando Fáeton no abismo aberto, lembra-me, não sei porquê (hoje só imagino o que te escrevo), a criação do homem, representada por Miguel Ângelo na Capela Sistina. Talvez por ser o castigo mortal precisamente uma negação da criação que tira do nada a vida. Mas também me aparecem outras visões gémeas (?) do carro solar de Hélios-Sol-Apolo, que o desditoso Fáeton quis conduzir, ou aprender a guiar... A primeira é a do carro, puxado por cavalos de fogo, que arrebata ao céu o profeta Elias: Então como fogo se levantou o profeta Elias, a sua palavra ardia como facho (Si.,48,1). A palavra de Deus é como fogo, como nos recordam vários passos da profecia de Jeremias: Farei com as minhas palavras uma fogueira na tua boca, e deste povo a madeira que esse fogo devorará (Jer, 5,14)... Não é a minha palavra como o fogo? (Jr, 23, 29). E ainda, aquele passo do profeta Isaías (Is., 66, 15-16): Eis que o Senhor chega envolto em fogo, e os seus carros são como um furacão que lhe acalma a cólera pelo incêndio, e a ameaça por chamas de fogo. Pois que, pelo fogo, o Senhor se faz juiz...

 

   A presença do fogo de Deus parece ser absoluta e em si contraditória. Tal como o amor é fogo que arde sem se ver, o fogo de Deus tudo consome, sem todavia ser apenas destruidor, pois que também dizemos que purifica, limpa, tal como o sangue do Cordeiro lava. Não é só castigo, nem vindicta, antes será promessa de restauração, Ressurreição e vitória sobre a Morte. Ressurgindo das próprias cinzas, a fabulosa Fénix é, assim, símbolo de Cristo. E este Jesus, fogo e Sol, não só purifica, mas como Hélios e Apolo em seu percurso, é pancrator, governa tudo, o Tempo e sua cronologia, a Vida que desperta. No nosso imaginário se misturam todos esses símbolos, plásticos ou literários, com os seus nomes vários e as realidades e sonhos que representam; são marcos e sinais no nosso caminho para a visão real do fim de tudo o que alcançamos, quando sobre nós cair o pano, qual véu apocalíptico que deixa de esconder mistérios e os revela. 

              

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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   Minha Princesa de mim:

 

   Fizeste-me pensarsentir, por atenta observação, aliás já antes feita pela nossa amiga Maria Otília Medina, de como me suspeitas de, através da escrita, fugir ao real... Será assim? De certo modo, todos temos uma costela de fugitivo (ou, mais insolente e certa, de fugidio) na peregrinação das nossas vidas. Estas, na verdade, bastas vezes parecem esbracejar entre forças centrípetas e centrífugas e, na aflição, nem sempre sabemos onde temos os olhos postos. Olhamos para o centro, presumindo  que esteja lá a substância que a fé procura; tenta-nos a periferia em cujos horizontes julgamos estar a aventura que talvez desejemos. Afinal, quiçá seja a luta de Jacó com o Anjo a melhor resumir a condição humana, pois nunca conhecemos bem a nossa fortaleza nem as forças com que deverá medir-se. Quanto a fugir do ou ao real, tanto poderá ser em corrida para o centro como a caminho da periferia. Vamos, então, partir em busca do real, sem que, à partida, saibamos o que ele ontologicamente é?

   O real do meu quotidiano  -  tal como, mesmo sem o conheceres pelo sentimento da experiência, poderás imaginá-lo  -  é simples e chão, como o de um monge. Encarrego-me de quase todas as tarefas domésticas (compras, cozinha, mesa, louça, roupa, medicação), com excepção das grandes limpezas caseiras que empregadas de fora fazem ; leio, escuto música, escrevo e, sobretudo, calo-me. O silêncio é como a criação : começa do nada para se tornar vida, é oração, meditação, reflexão, pensarsentir-me, a mim, aos outros, ao mundo, ao cosmos, na origem. [E, dado que sou uma espécie de maníaco etimologista, recordo a raiz, o significado inicial, das palavras cosmos e mundo: a primeira, em grego, diz belo ; a segunda, latina, diz limpo, puro]. Assim olhada, a realidade do universo e da terra, é amável e desejável no seu próprio ser, quer na sua criação, quer no seu apocalipse ou revelação final. Neste sentido, procurar descobrir e amar a pura beleza da essência de tudo, não é fugir ao real, antes é abrir uma rota até ao centro dele. Assim também creio que a minha estranha (?) forma de vida tem uma motivação íntima, curiosamente mais inspirada do que virtuosa ou simplesmente deontológica : ver alguém feliz pelo conforto que eu possa trazer à sua circunstância. A degenerescência de certas faculdades  -  tais como o poder de concentração, o exercício da memória, o tempo e certeza dos reflexos  -  afecta as vidas de muita gente, designadamente daquela a que a idade vai limitando as capacidades de correcção e recuperação. Desse progressivo mas irreversível "divórcio" do mundo que a rodeia, da sua própria circunstância, pode resultar um estado de alma depressivo, angustiado por um sentimento crescente de solidão, angústia essa agravada pelo seu próprio receio. Este mal sem cura poderá, todavia, ter outra realidade, essa que nasce duma nova experiência de liberdade e segurança, de confiança em si através de quem lhe for próximo... Chama-se a tal "benfeitoria" : Alegria de Viver. Aqui no campo, em vida muito isolada, aparentemente, pela diminuição dos contactos expressos, múltiplos e próximos, com tantos amigos, e com a própria periferia do "meu" mundo, sou eu feliz também, porque todos os dias sou presenteado com a despreocupada alegria de alguém ao meu lado, que se sente em casa como quando era menina e moça, sem sequer precisar de saber as horas do dia pelo relógio que já não usa, porque lhe basta perguntar a quem responde. A morte é só o incomunicável ; a vida é a livre respiração da reunião.

   Tampouco será despiciendo o tempo que em raros dias consagro a conversar (pelo telefone, ou em almoços com amigos que me vêm visitar a este retiro donde me é, fisicamente, difícil sair) e a ler jornais e ver um pouco de televisão. Ainda que com reservas e cuidados que me vão balizando as extensões das notícias, declarações várias e comentários que desse modo me chegam, não fico alheio ao que se vai passando nessa periferia. Mas evito, propositadamente, intrometer-me ou, menos ainda, intervir em debates que, logo à nascença, são provocados e conduzidos por "estratégias" (não é assim que dizem?) de concorrência, competitividade e afrontamento, mais assentes em proclamações de atitudes ou "valores" que possam agradar e cativar eleitorados e admirações, do que na serena, estudada e séria análise das raízes, circunstâncias e condicionantes das situações e problemas que, tratando-os comunitariamente, deveríamos resolver. Lembra-te, Princesa de mim, de questões como os incêndios, a Amazónia, os migrantes, as greves de transportes vários, professores, médicos e enfermeiros... Todas essas questões são equacionáveis e atendíveis, comunitariamente, independentemente de desejos ou pretensões a dar, seja a quem for, razão ou ganho. Quando as nossas sociedades políticas deixarem de se focar, quase exclusivamente, em concursos a votos mais facciosos do que racionais, talvez tal seja possível. Mas por enquanto, e por defeito nosso, o espaço público do debate analítico e construtivo tem sido ocupado pela paródia declamatória de inúmeros cultores do fulanismo. O culto ou o ostracismo de fulano ou beltrano ecoa por toda a nossa volta, chegando a ser asfixiante, como no caso do nevoeiro da crónica futebolística que, insistentemente, mais do que apenas perturbar alguns, vicia o juízo de muitos e sugere-lhes, ou mesmo ensina, comportamentos radicalmente facciosos e mercenários. 

   Entretanto, sabes bem que não comento nem gracejo - fora do círculo das conversas hílares (Deo gratias!) entre amigos - "selfies" políticos de Trump et alia... Et pour cause... Tais personagens de comédias da cena política que todos os dias nos é apresentada na ribalta dos media, não são certamente líderes (como também se diz), nem sequer actores, mas apenas máscaras das massas eleitorais manipuladas pelos poderes disfarçados que pretendem governar-nos. Costumo dizer, Princesa de mim, como tão bem sabes, que não há Trump que me preocupe ou assuste. Assusta-me, sim, que seja possível concentrar tanto poder em mãos de um só. E preocupa-me, muito, que a razia crescente da nossa cultura humanista e a progressiva eliminação do espírito crítico, apanágio do humano, resulte no surto de multidões que votem para eleger tais espelhos da sua ignorância e insensatez. Por isso mesmo me pensossinto no dever de ir dizendo e escrevendo, noutro registo, talvez uma escapadela a tal espectáculo, coisas que a maioria não gostará de ler e não lerá, mas que são um modo meu de não fugir ao real, mesmo tentando remar para um quiçá inalcançável centro (?).

   Por outro lado de mim, não resisto a rir-me de tanta comédia, mesmo sabendo que é privilégio de "rico" (salvo seja eu de tal apanágio!) Só que os tais ricos, os consagrados, os grandes, os importantes deste circo e sua assistência, assim como aqueles que lhes vão aparando o jogo, não se riem   -  nem sequer deles próprios  -  mas tomam muito a sério, até pela mesquinhez dos seus interesses, aquilo que os poderá enfim levar à tal fotografia que lhes trará um voto. Curiosamente, eis aqui uma área em que até estaremos a regredir em liberdades, não sei se por excessiva consideração das susceptibilidades das nossas vedetas : repara, Princesa de mim, nas críticas crescentes e descarada censura que se tem feito à arte da caricatura. Aproveita, vai deitar o olho a "bonecos" do século XIX, e nota bem com quanta maior liberdade se gozava então o pagode.

   Parece-me, portanto, claro que nem sequer essa minha propensão a "gozar com a política"  -  como gosta de lembrar um grande amigo, dos tais que me telefona sempre que se sente preocupado ou indisposto, para que eu o faça rir  -  possa considerar-se uma fuga ao real. Afinal a realidade é o que for, sempre difícil de ser acomodada aos gostos e desiderata de cada um. Reconhecendo isto, reconheço também que o meu divertimento é modo de fugir, sim, a qualquer ansiedade, receio ou preocupação que não comando. No fundo, e por muito estranho que possa parecer, pensossinto que o estado do mundo resulta do lugar que nele conseguir ocupar a cultura do espírito e seus atributos. Por isso mesmo vou procurando, na minha pequenez e com a insignificância das minhas capacidades, partilhar  -  com todos os que me lêem e escutam  -  caminhos de liberdade do espírito que nos conduzam dos epifenómenos periféricos ao centro inicial das coisas, ou, talvez ainda, a Quem é tudo em todos.

 

               Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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   Minha Princesa de mim:

 

   O último capítulo, o XXVIII, do Pilote de Guerre não tem mais de duas páginas, em que Saint-Exupéry exprime o seu próprio  cansaço e o dos seus poucos camaradas da esquadrilha de reconhecimento aéreo G2/33, num estilo quase telegráfico, como qualquer fatalidade. Estamos em 1940, a França foi derrotada pelo III Reich. Mas o grupo, na véspera da retirada, mantém-se unido e, sem ter dormido durante três noites seguidas, vê cada um recolher a sua lassidão ao rendido cansaço dos outros :

   Não diremos nada. Asseguraremos a mudança. Só o Lacordaire esperará pela alba para descolar, a fim de cumprir a sua missão. E, caso sobreviva, regressará directamente à nova base.

   Tampouco amanhã diremos algo. Amanhã, para as testemunhas, seremos uns vencidos. E os vencidos devem calar-se. Como as sementes.

   Como as sementes! Haverá maneira mais bonita, mais cristã, de ressuscitar da derrota? A comunhão humana no silêncio de qualquer perda faz com que esta deixe de ser desamparo e solidão, para se tornar solidariedade e esperança !

   O mistério da morte, no cristianismo, leva-nos ao paroxismo do paradoxo humano, do que "está aí" (ou p´raí) e aspira a Ser. E a sua contemplação ensina-nos a via do silêncio, esse calar, cá bem no fundo de nós, o labor restaurador da semente que apodrece para nascer de novo, como o Reino dos Céus.

 

   Oleg Voskoboynikov, medievalista russo formado na Universidade de Lomonossov, onde é professor de paleografia latina, foi também discípulo de Jacques Le Goff e é autor, entre outros livros e inúmeros artigos científicos, do notável Pour les Siècles de Siècles  -  La Civilisation Chrétienne de l´Occident Medieval, obra que a Vendémiaire (Paris) publicou em 2017. Gosto muito, Princesa de mim, de, às vezes, me deixar envolver pela atmosfera espiritual duma Idade Média, europeia e latina, que, neste caso, é percorrida do início do século IV ao início do XIV, do imperador Constantino ao Dante Alighieri. E é aqui apresentada, essa Alta Idade Média, pela ilustração de que, na verdade, longe de ser repúdio ou destruição da cultura clássica, não só greco-romana, como síria e copta, antes foi cadinho da sua assimilação pelo cristianismo. A semente de vida que acima refiro evocou-me, enquanto te escrevia, aquela expressão cristã que fala da humanidade de Deus em Jesus Cristo, que se humilhou até à morte, e morte na cruz  -  a qual, mais ainda do que suplício, é infâmia. Mas da morte infamante, ignominiosa, ficou, para nós também, então vindouros, a imagem daquele crucificado que, em miríades de representações advenientes, se tornou sinal de vitória :  hoc signum vincit. A suprema humilhação surge-nos assim como humildade ressuscitada, isto é, feita nova, força e sustento de vida sobre a morte.

   A dado passo deparo com um trecho da carta XXX de São Paulino de Nola (edição de G. de Hartel, Viena, F. Tempsky, 1894) que o professor Voskoboynikov apresenta assim : A autoridade moral e cultural de Paulino, construtor de igrejas, poeta, escritor, pregador, ultrapassava em muito a sua diocese italiana. É sintomático que ele abdique do direito de aparecer no espaço litúrgico, que os bispos partilhavam com os imperadores. [Estamos ainda em meados do século IV, no início do império romano cristão...] Não se trata de falsa modéstia, mas de uma nova concepção da dignidade humana : ele sabe que foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas também se recorda de que, na vida real, «tantum in imagine ambulat homo, tantum frustra turbatur». Eis citado um versículo do salmo 39, que traduzirei assim : «Quanto mais um homem se passear em retrato, tanto mais se alienará em vão». 
   Quando, numa cristandade então já liberta de perseguições e livre de se exprimir, os fiéis entre si debatiam a razão, o alcance e configuração, e o próprio culto das imagens religiosas, tal questão punha-se também para o retrato-exemplo dos pastores eleitos pelas suas igrejas ou comunidades ; erguiam-se vozes, não tanto contra a aproximação do divino pela representação memorizável, como pela reserva, ou prudência, relativamente aos riscos de alienação que o imaginário necessariamente implica. Preocupação que, hoje, tem a maior actualidade e nós, espantados, esquecemos. A tal ponto que nem nos apercebemos de que vamos deslizando do que já alguém chamara "civilização da imagem" para uma circunstância de carrossel caleidoscópico próxima da barbárie. Diariamente sobre nós chovem imagens e coscuvilhices que, em vez de nos ajudarem a reflectir sobre a realidade do nosso mundo e da nossa vida, nos atiram para um baile de máscaras ilusórias e alienadoras... E até talvez possamos dizer que, se a iconoclastia foi, muitas vezes, uma fobia idolátrica (mais do que receio pelo divino), a "imagofilia" hodierna, em seu omnipresente exagero, é sinal certo de propensão a nova idolatria...

   Volto então ao "nosso" S. Paulino de Nola, nobre romano nascido em Bordéus, que chegou a ser cônsul e prefeito de Roma, se converteu ao cristianismo com sua mulher, após o que distribuíram os seus bens pelos mais necessitados e se ocuparam do próximo, desse tal que adquirira, em cada pessoa, o rosto de Cristo Jesus.  Foi Paulino eleito bispo de Nola, em Itália. Conta-nos o livro do professor russo : Cerca do ano 400, um autêntico Romano e bispo culto, Sulpício Severo, pediu ao seu amigo Paulino, bispo de Nola, na Campânia, ele também Romano autêntico e futuro santo, que lhe enviasse para a Gália, o seu retrato. Queria pô-lo, a título de amizade e de respeito pelas suas virtudes, ao lado de uma imagem de São Martinho, no novo baptistério de Primiliacum (provavelmente a Primilhac de hoje). Comovido, Paulino respondeu-lhe assim:

   Suplico-te, por tudo o que de melhor há na nossa amizade, porque havemos de pedir provas da nossa amizade em formas vãs? De mim, de que homem queres tu a imagem? Celeste ou terrestre? Sei que queres essa imagem real, em ti amada pelo Rei Celeste. Não deves precisar de outra imagem nossa, além dessa pela qual foste tu mesmo criado.  ... Mas eu sou pobre e fraco, humilhado pela minha imagem rude e terrestre, pelos meus sentimentos carnais e as minhas obras na Terra. Pareço-me mais com o primeiro Adão do que com o segundo. Como posso então ter a ousadia de me fazer pintar, esmagando a meus pés a imagem celeste com os meus delitos terrestres? Terei sempre vergonha : fazer-me representar tal qual é vergonhoso, fazer-me representar tal como na realidade não sou é uma insolência.

   Concordemos ou não com elas, reconheçamos que se diziam lindamente, em latim, e há quase dois mil anos atrás, coisas que, hoje ainda, nos podem ajudar a pensarsentir-nos mais e melhor do que todas essas celebrantes imagens da vaidade nossa contemporânea...

   Ao escrever-te isto, Princesa de mim, revejo  -  para meu equilíbrio interior, pois é neste hoje que vivo agora  -  tantas imagens de seres humanos que vamos ignorando, abandonando, matando, e ainda assim nos fazem esse nosso imerecido dom de si próprios, que é, afinal, esse, também nosso, rosto de dor. A presente imagem da humanidade que padece e sofre vem lembrar-nos de que precisamos dum silêncio que seja semente. Comovido, sinto a presença misteriosa do meu irmão Gaëtan, que, em tantos muitos retratos que desenhou, sempre se concentrou numa qualquer, mas mais uma, interpelação da condição humana.

 

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira