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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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À MARGEM DE ANTIGAS CARTAS


SÓ PERGUNTO AONDE VAIS?
 


Persigo sobre a areia só
   
e é fugaz e fugidia
a deste deserto   
nas vagas impressões
  
dos teus muito frágeis passos
 


São de outrora, de depois ou só
 
de porvir
   
conformes a tempos e modos
de sentir  
porém de ti sempre


Porque como teus só
  
os reconheço

ou talvez por mim
os adivinhe 
e me transformem


Já tanto de ti só
  
no coração de Deus existe
e eu estou fora ainda 
por pegadas de vento buscando

na saudade o teu caminho


   Quando um de nós se perde na demência, só num deserto estranho o outro o pode encontrar. Eis como a comunicação possível se torna monólogo e se inventa outra existência. Perdeu-se alguém, de tão brutal maneira que a própria ausência é impossível de se conceber. No fundo de mim, terei de criar uma presença nova e fazê-la comunicar, por um caminho do espírito que em si só, no seu mistério, guarda o seu segredo.


   Quem morreu, sabemos que não está aqui, imaginamo-lo algures ou nenhures, mas sem nunca o ver, e a sua própria incomunicabilidade pertence à ordem natural das coisas. Não lhe pertence. Tortura maior é, sim, procurar quem vemos mas não nos fala, tentar escutar no silêncio o bater de outro coração, desvendar num segredo inacessível essa presença amorosa qe Deus nos esconde. Porquê? Saberás tu responder-me, ouvir-me-ás perguntar-te aonde vais?


   Como escrevi, em carta com mais de sete anos, no passado domingo republicada pelo blogue do CNC, "o silêncio interroga o silêncio. E é mais sentida a ferida".

 

Camilo Maria     

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:


   Dizes-me que tens estranhado o meu silêncio, melhor dirias o apagão da minha escrita... Ando apagado, sim, porque me estranho. Quiçá a mudança de habitação, a troca de um meio urbano pelo sossego isolado do campo, envolto em silêncio, me tenha disposto a ensimesmar-me. E nesta minha idade, qualquer encontro a sós comigo, fatalmente me remete para a proximidade desse muro que só transporemos como fantasmas atravessam paredes. Talvez também por não me sentir saudoso, ainda que habitado por muitas lembranças, sobretudo agora, quando o abrir de tantas caixas me confronta com o destino atual de muitas coisas passadas. Calhou-me abrir e reler um opúsculo do José Ortega e Gasset, escrito em 1943, creio que no Estoril, esboço de uma hipótese sobre a saudade, mito e segredo lusitano. Cito-te um trecho que se atém ao que te venho dizendo: Las circunstancias del mundo me han traído aquí y las razones por las que aquí estoy me aconsejan la vida retirada. Mas aunque nada de esto fuese, causas personales me impedirían ya de entrar en la intimidad de Portugal.  Ésta solo puede ser vista desde dentro de ella, como la fisiognomía es visión desde fuera. Y "entrar" en un pueblo es lisa y llanamente no solo estar en sus calles sino vivir en él, ser en él. Ahora bien, es aquí donde he empezado a sentir que soy viejo y ser viejo es para el hombre la manera normal de ir dejando de ser, de vivir. A cierta edad el hombre se va volviendo "ausente" allí mismo donde está,se va alejando de las cosas y éstas comienzan a non serle. Es la iniciación de un proceso que termina en el "espectro", idea ésta muy profunda que los primitivos tenían del muerto. La muerte que ellos no concebían (por supuesto, nosotros tampoco) se les representaba como una pervivencia en nueva forma. Los muertos siguen viviendo una "vida espectral". 


  
Ortega y Gasset, o mesmo que dizia que a filosofia é a forma que toma a juventude ao florescer e amadurecer no homem velho, escreve no tal esboço de ensaio que te lembro: La Saudade no es un tema portugués, sino el tema portugués por excelência. Si algún otro pude situar-se a su vera es, acaso, la "Descoberta". Ambos polarizan la realidade histórica que es Portugal. Y resulta que son una contraposición: la "Descoberta" es el ansia de irse, la "Saudade" el ansia de volver. La ex-patriación (una vez) y la re-patriación permanente: antes e después de la Descoberta. Portugal es el "hijo pródigo" de si mismo. Qué es en él lo más autentico, el irse o el volver? Aquéllo lo hizo una vez: esto lo há hecho y lo está haciendo siempre. Cada dia, cada hora, el português vuelve a si.


  
Aqui tens, Princesa, como entre eu e mim me sinto agora. Sabendo ainda que tudo o que disse, diga ou hoje possa dizer, outros já disseram ou dirão melhor. Neste momento, sobretudo pensossinto que uma súbita mudança das referências do meu quotidiano - do próprio quadro físico da minha vida - logo me tornou, sozinho, na alcançável (?) referência de mim. Em novos ares, só em mim poderei reconhecer-me, procuro encontrar-me não com o que fui, mas com um ser familiar e simultaneamente estranho, e nesse sentido sou o filho pródigo de mim.


   Quiçá tal seja uma conversão, sou como Saulo derrubado, que se levanta e já é Paulo. Ou como Mateus, no quadro do Caravaggio, que Cristo aponta e um raio de luz toca no peito, Mateus que leva a mão ao próprio coração que se pergunta: Eu, Senhor? Assim este Advento me vem trazendo outro Natal: sempre me fascinou no cristianismo essa nova de Deus ter tornado humana a sua transcendência. O Mistério da Encarnação é, desse modo, a contemplação de uma incógnita: qual é a relação ontológica de Deus com o homem, o mundo, a história? Por este Natal de 2016, ocorre-me um caudal largo e sereno de questões que, no decurso da minha vida, sempre vieram bater a uma qualquer porta bem dentro de mim: onde está Deus? poderei encontra-lo? E, ao longo dos anos, vou sentindo e pensando que cresce em mim essa torrente invisível do meu renascimento no perpétuo Natal do cosmos.


   Por isso mesmo sempre digo e desejo FELIZ NATAL! - seja feliz o vir à luz do nosso livramento. O Reino de Deus começa por uma criança que nunca envelhece. Repito: desejo-te - a ti e a todos os que lerem esta carta - a continuação de um Feliz Natal!

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 18.12.2016 neste blogue.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:


   Quando, há anos atrás, me arrisquei a traduzir cartas do Marquês de Sarolea à Minha (sua, dele) Princesa de mim (dele), nem sonhava com meter-me nesta alhada de lhe continuar o hábito epistolar e acabar indefinidamente escrevendo cartas a esta (tu mesma) indefinida Princesa de mim. Talvez deva esclarecer melhor o assunto, já que tanto insistes em limpar o teu nome e seres absolvida de qualquer eventual responsabilidade pelos meus devaneios senis... E já o fiz, sabes bem que sim, mas repeti-lo-ei ao editar em papel de livro, como tantos insistem, as cartas da minha crise. Por agora, vou dormindo sestas, e escutando-me. Sem disfarce nem traduções, escrevo-te umas cartas, relatos simples do meu pensarsentir. É sempre bom partilhar.


   E falando de partilha, deixo-te agora esta mensagem tão linda que recebi de velho amigo, feliz com a dádiva de neto seu: hoje o Rodrigo (tem sete anitos) ficou em casa, doente, e para não ser só TV mandei-o para o quarto fazer uma cópia. Assim foi, mas apareceu também com uma oração que escreveu (juro que não lhe pedi para escrever nem ajudei com nada!):


   Oração de Jesus: A vida é a melhor coisa que nos aconteceu. A vida é tudo para nós. A vida tem que ser bem aproveitada. A vida fez um favor e nós temos que retribuir esse favor. Nós agradecemos a graça e a bondade da vida.


  
Sem querer meter-nos em filosofias, nem fazer epistemologia (ou seja, evitando irritar-te!...), lembro o famoso dito cartesiano: penso, logo existo. Talvez nem seja preciso pensar muito, a vida é um dado, não só no sentido de estar aí sem que eu tenha feito por isso, mas como dádiva... Assim escreveu o Rodrigo: A vida fez um favor e nós temos que retribuir esse favor.  Drogado em leituras, pensamentos e lembranças, ocorre-me um passo das Obras de António Mora (Fernando Pessoa), quando se refere ao paganismo do heterónimo Alberto Caeiro: Como o que está na inteligência tem de estar primeiro nos sentidos (aqui dito sem inútil filosofia, mas apontando apenas o facto material), o paganismo tinha que ser instintivo, de sensibilidade, antes de poder ser novamente uma ideia formada e consciente. Era preciso, para que pudesse renascer o paganismo, que começasse por aparecer um pagão. Digo-te eu: para que nasça a vida é só preciso que haja vida. Neste sentido, a vida humana é a consciência inata dela própria: vivemos e sabemos que vivemos, simplesmente porque estamos vivos. E creio que o paraíso eterno mais não é do que viver com o Deus dos vivos. O inferno não terá fogueiras nem gemidos, será simplesmente o esquecimento da vida, o nenhures dos mortos, nada.


   Todos nós conhecemos pessoas que padecem de síndromas estranhos, malefícios esquisitos, que desde meninas as retiram da vivacidade de qualquer convívio social. Não lhes falamos nem as escutamos, mas, mesmo assim, comungamos com elas na vida. Respeitamo-las, quiçá com mais sentido e cuidadoso carinho, por nelas reconhecermos a vida que nós próprios somos, porque, diz o Rodrigo, a vida é a melhor coisa que nos aconteceu, a vida é tudo para nós. A atenção ao outro, o cuidar dele, é o nosso único modo possível de, como lembra o Rodrigo, nós agradecermos a graça e a bondade da vida. Arrisco-me a dizer-te, Princesa de mim, que a alegria da vida é sempre necessariamente recíproca: na vida dos outros reconhecemos, como num espelho, a nossa própria vida. Pensossinto, mesmo, que esse é o nosso modo comum de sermos todos Mãe, essa cuja vida, apesar dos incómodos, enjoos e cuidados, se alegra na felicidade que sente vibrar no seu ventre.


   Assim termino esta carta, bem mais jovem do que quando a comecei. É certo que a doença, sofrimento e morte de tantos amigos, recentemente, me abalaram, sobretudo por me doer a dor deles, e por me faltarem, repentinamente, memórias e marcos do meu percurso nesta terra. Mas, afinal, o miúdo Rodrigo, profeticamente, veio lembrar-me de que todos temos uma única referência comum, que é a vida. Essa que, diz São João na sua epístola, se manifestou: vimo-la, damos testemunho dela e anunciamo-vos essa Vida eterna...  ...para que também vós estejais em comunhão connosco...  ...Tudo isto vo-lo escrevemos, para que a nossa alegria seja completa.

                         

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 04.03.2016 neste blogue.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:


      A nação judia, livre e independente, dispõe-se a colaborar com os seus vizinhos árabes livres, para promover a verdadeira independência de todos os países semitas do Médio Oriente... -  afirmava Ben Gurion um dos pais e primeiros governantes do atual estado de Israel. Aliás, foi ele quem pronunciou a declaração de constituição e independência do estado de Israel, em 14 de maio de 1948.


   Já no século I da nossa era, Flávio José, judeu, cidadão romano, cronista ou historiador de seu ofício, propunha, na sua obra Antiguidades Judaicas (I, 180; VII, 67), a seguinte etimologia para o topónimo Jerusalém: Visão da Paz. O topónimo terá raiz muito antiga, surge no século XIX antes de Cristo gravado num figurino egípcio: Rushalimin. 


   Em Lettrines, março de 1967, Julien Gracq escrevia: Jerusalém, cometa histórico cuja história quase se reduz a um longo rasto inflamado, pousada na sua colina como foguetão em rampa de lançamento - tanta fúria de eternidade em tão pequeno corpo - cidade Pítia, cidade epiléptica, soluçando sem tréguas do transe do porvir...


   No seu Éthique de la Considération, a professora de filosofia na Universidade de Paris-Est-Marne-la-Vallée, Corine Pelluchon, que tem a idade da minha filha Teresa, cita São Bernardo de Claraval, pai da reforma beneditina de Cister e pregador de Cruzada - sim, esse mesmo, o tal que é evocado, em azulejos do nosso mosteiro de Alcobaça, pelos seus monges e conversos, obreiros da colonização agrícola de grande parte de Portugal, nos tempos d´El Rei Dom Afonso Henriques, o Fundador:


   Bernard de Clairvaux écrit au pape Eugene III en exil: «Lembra-te de que nasceste de uma mulher!» É impossível governarmos sem nos lembrarmos, nós mesmos, de que saímos nus do ventre de uma mulher, de que somos um ser engendrado. Para mim, todavia, a humildade, mais do que uma virtude, é antes do mais um método. Porque nos permite purificar o olhar, e deixarmos de estar em pleno poder e domínio, que são as tentações constantes do humano. A humildade é uma experiência que despoja o indivíduo dos seus atributos sociais, permitindo-lhe agarrar a sua nua humanidade, e ter compaixão para com outro, e então compreender o seu próprio lugar no mundo, sem perder o sentido da justa medida. Isso que hoje falta a tanta gente brilhante...


   Lembrei-me destes passos e trechos - ouvidos ou lidos há mais ou menos tempo, sem precisão de datas ou ocasiões, pois que cada vez mais indiferentes se me tornam as horas e distâncias - ao refletir hoje, dia 27 de janeiro de 2018, na memória do Holocausto. Que a lembrança da barbárie nazi e de tantas outras perseguições e injustiças de que judeus foram vítimas possa levar hoje Israel a pensarsentir, não ressentimento ou vingança, nem sequer desforra - muito menos a custas de populações de cristãos e muçulmanos palestinos, inocentes de genocídios e, na sua esmagadora maioria, povos há mais tempo radicados na Palestina do que os judeus de origem caucasiana e descendentes de outros convertidos, que o movimento sionista veio trazendo para aquelas paragens, ali adquirindo e, depois, expropriando terras, nem sempre de forma condizente com as leis e usos locais, menos ainda com o respeito devido a paisanos sujeitos, primeiro, ao domínio otomano (até 1917) e, a seguir, ao do mandato britânico (de 1917 a 1945).


   Recordo, comovido, um trecho de Pour l´Amour de Bethléem, ma Ville Emmurée, de Vera Baboun, eleita, em 2012, presidente da Câmara Municipal de Belém, professora universitária, católica palestina, de origem árabe e arménia, mãe de cinco filhos, viúva de um palestino morto por forças israelitas de ocupação: Acontecia-me ir diretamente, à saída da escola São José, assistir à missa das 17horas na igreja de Santa Catarina. Lembro-me especialmente desse dia de maio, mês da Virgem Maria. Tinha 16 anos. Estava sentada na nave, com a farda da escola, e a pasta ao lado. Escutava a homilia. Foi então que o padre pronunciou esta frase: «As bênçãos e as graças escondem-se no coração dos sofrimentos. Aprendei a fazê-las nascer!» Falava em árabe, e fascinava-me o ritmo, mesmo se ainda não lhe percebia o sentido. De regresso a casa, apressei-me a apontá-la num canto do diário íntimo que então escrevia. Tal como a ouvira. «As bênçãos e as graças escondem-se no coração dos sofrimentos. Aprendei a fazê-las nascer!» Quem era eu então? Uma filha de boa família, que se ia casar, tão jovem ainda, com um rapaz vindo também de um meio considerado bem. Tinha pais amorosos. A vida era bela! Não conhecia o sentido da palavra «sofrimento». E todavia aquela frase ia mudar a minha vida.  


   Acrescento, Princesa de mim, mais duas breves citações do livro de Vera Baboun, porque também nos fazem refletir:


   Trinta e sete anos depois, Belém está muito mudada. Do lado de Jerusalém, um muro com oito metros de altura encerra-nos cada vez mais hermeticamente...  ...Doravante, a avenida de Hebron, a artéria principal, dantes com tanta vida, que levava a Jerusalém, é um beco sem saída...  ...O muro impõe-se à nossa vida quotidiana, pesando sobre cada um dos nossos movimentos, penetrando insidiosamente nos nossos espíritos...


   Geralmente, a primeira pergunta que os visitantes fazem ao presidente da Câmara de Belém é «Fale-nos das relações entre cristãos e muçulmanos!», como se estas devessem ser necessariamente más. Mas não é assim. Cristãos ou muçulmanos, em Belém vivemos sempre juntos. Quando era nova, todos os nossos vizinhos eram muçulmanos e mantínhamos as melhores relações do mundo. Vinham a nossa casa, íamos a casa deles. Partilhávamos almoço ou jantar. Jogávamos futebol na rua, rapazes e raparigas, muçulmanos e cristãos. Hoje, face ao muro, seja qual for a nossa religião, nós, Palestinos, somos todos arrumados pelo mesmo labéu.


  
O detestável surto de terrorismo cego que se reclama de inspiração islâmica (imagina, Princesa, outro qualquer movimento de violência "evangélica" que se pretendesse sequaz da expulsão dos vendilhões do Templo) tem gerado reações que, cada vez mais, tendem a apontar motivações religiosas ao espírito bélico e suas inerentes sevícias e injustiças gritantes. Juízo que, apesar de substanciado por atos e factos indesmentíveis, não deixa, finalmente, de ser temerário pela extensão generalizadora e discriminatória que fomenta, e pouco lúcido pela estreiteza da compreensão da própria natureza humana. Não chegarei ao exagero de afirmar que em cada um de nós habita um médico e o seu monstro, mas sei que todos sofremos a tentação de impulsos para o bem e para o mal. Muitos textos religiosos, da Bíblia ao Corão, e outros ainda, conservam palavras de ordem, pretensamente reveladas ou ditadas por divina voz, incitando a uma qualquer guerra santa, que todavia podem ser interpretadas pela perspetiva do bem, sobretudo para quem crê que se Deus fala o fará por bem. Claro que há nisto muito de subjetivo ou, se preferires, de cultural. Mas também é verdade que, em todas as religiões, incluindo as monoteístas, desde sempre despertaram movimentos de universalização da igual dignidade humana e de paz.


   A vida religiosa ou qualquer vida conscientemente espiritual, é sempre uma relação e, como tal, necessariamente subjetiva ou, melhor, intersubjetiva. Se esta aparente banalidade que acabo de te escrever pode ser facilmente captável por pessoas praticantes de diferentes formas de religião - no sentido de tentativa de comunicação com o transcendente, o invisível, ou o poder ignoto -,  já a sua instituição social - no sentido cripto-jurídico de ideia que se corporiza em organizações providas de funções normalizadas e hierarquias gestoras - poderá torna-la em propriedade mobilizadora de um poder político, de vocação totalitária ou discriminatória, de que temos tantos infelizes exemplos históricos (e os judeus basto sofreram de perseguições). A Igreja Católica ainda hoje carrega o peso institucional que lhe foi moldado, no século IV, pela sua "constantinização", isto é, pela assimilação de conceitos e relações, regras e práticas, jurídicas e rituais, próprias do Império Romano e seu aparelho de Estado. Quem se dedicar um pouco - ou talvez mesmo muito - à leitura de textos coevos perceberá melhor o balanço de deve-e-haver dessa transformação das comunidades cristãs primitivas (as dos séculos I, II e III) na cristandade romana bizantina e latina do século IV. No judaísmo, quiçá por nunca ter convertido o poder imperial, a tradição religiosa (melhor diria: as tradições) foi-se transmitindo descentralizadamente pelas sinagogas da diáspora, em que, além da Torah, Jerusalém era um ponto de reencontro e união espiritual em redor da Promessa. Nesse sentido, o mito da Cidade do Templo, de David e Salomão, com mais ou menos veracidade histórica ou evidência arqueológica, é certamente respeitável e, pelo seu símbolo teológico da prometida Cidade de Deus, admirável.


   Mas isso não faz dela a capital política do recente estado de Israel, não só por razões abundantes de ordem histórica, política e jurídica, como ainda pelo facto de 55% dos atuais cidadãos israelitas se declararem não religiosos. E muitos israelitas judeus contestam a fundamentação religiosa exclusiva de Jerusalém-capital e defendem os direitos dos palestinos. Aliás, Israel é o segundo estado judaico do mundo (com 5 milhões de habitantes), sendo os EUA o primeiro (com 6 milhões e meio). Nessa América, onde constituem + ou - 2% da população têm uma representação de 33% do Congresso. O que ninguém contestará: na verdade, estão lá por mérito próprio, não por serem judeus ou como tal considerados. São representantes do povo americano, a que pertencem. E assumindo várias nacionalidades e culturas, vivendo entre as gentes, praticando a sua religião, outra, ou até nenhuma, as comunidades judias são testemunhas de um princípio fundador da nossa civilização: Deus, o Ser, o Nome, a Palavra, escolheu o ser humano para, no tempo histórico, ir fazendo do universo a Jerusalém Celeste.


   Aquilo a que hoje se chama «a Política» nada deve considerar nem resolver sem olhar para as pessoas, as populações, os povos, com suas vidas. Sem excluir ninguém, antes procurando sempre acolher os mais abandonados. Por isso, Princesa de mim, te deixo com mais uma citação de Vera Baboun, que talvez nos ajude a meditar (traduzo-te o epílogo de Pour l´Amour de Bethléem):


   Belém é o paraíso dos indesejados. Abrigamos o «Presépio», um lar que acolhe as crianças nascidas fora do casamento; e ainda outro abrigo, animado por freiras, que recebe mulheres espancadas ou violadas, vindas de toda a Palestina: um excelente hospital para crianças atrasadas mentais; outro, novo, para tratar dependências da droga... Porquê? Porque a piedade, a paz, o amor são o credo da Natividade. Foi sobre isto que nos construímos. Aqui estamos, cristãos de Belém, para lembrar ao resto do mundo o que aqui se passou. Belém não é apenas uma cidade, é um modo de ser, uma unção de paz que apenas pede para se espalhar pelo planeta. Mas, ai de nós, enquanto a nossa cidade, que foi o berço do Príncipe da Paz, estiver emuralhada, não reinará a paz. Nós somos o estandarte da paz, os seus guardiães e defensores. Não merecemos esta desgraça. Em Belém se encontra a gruta onde Nosso Senhor, pelo seu nascimento, mudou o calendário do mundo! A humanidade poderia dar-lhe bom ou mau uso, mas foi sinal de uma civilização nova, de uma nova leitura do nosso destino. Possa o mundo aperceber-se disso, antes de que seja tarde demais!


   Ninguém pode hoje provar e demonstrar que Jesus Cristo nasceu mesmo numa gruta ou em Belém. Mas tal não tira qualquer força à mensagem emitida, à vocação da paz. Tampouco sabemos tudo, ou nem sequer muito, da história de Jerusalém, que conheceu muitos e desvairados conquistadores e reinantes, vindos de perto e de longe, confessando fés diferentes (até as cruzadas lá impuseram um reino cristão). Mas, para além do conhecimento histórico, e ainda aquém de definitivas decisões políticas, pensemos em Rushalimin - Jerusalém, e desejemos, com a força das varas todas do nosso coração A Visão da Paz.


Camilo Maria    

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Solicitou-se a reposição deste texto publicado em 2018 neste blogue.

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

Sandrine Piau.jpg

 

Minha Princesa de mim:

 

     Habituei-me a escutar a soprano francesa Sandrine Piau cantando árias de Haendel e Mozart, e revejo com alguma frequência o registo videográfico da ópera Alcina, em que o seu desempenho da personagem com o mesmo nome me comove profundamente. Esta manhã descubro-a noutras interpretações, que me encantam mais do que surpreendem : em canções de vários compositores franceses dos séculos XIX e XX, em que se faz acompanhar por Le Concert de la Loge, dirigido, ao violino, por Julien Chauvin. Mas não será deste álbum  -  que a editora Alpha intitulou Si j´ai aimé e publicou este ano  -  que te falarei aqui e agora. Esta presente carta minha vai curta, quero tão somente deixar-te o texto original e a minha versão portuguesa (que é muito simples e não pretende ser criativa) do poema de Victor Hugo -  Extase  -  que, posto em música pelo meu homónimo Camille Saint-Saëns, abre esta colectânea. Não o faço por grande amor ao romantismo, ou a Victor Hugo em especial, mas porque bebi, no canto deste poema, um pensarsentir tão simples, tão lindo e tão forte  -  que logo o reconduzi à leitura desse passo do Livro da Sabedoria que nos é proposto neste primeiro domingo de Novembro, quando já se anuncia um tempo novo e nos vamos aconchegando à misteriosa ternura do Natal que vem aí. Vai este passo do capítulo 11 para o 12 :

     Perante Ti, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho na manhã. De tudo Te compadeces, porque és omnipotente e não procuras ver os pecados, mas o arrependimento. Amas tudo o que existe e não odeias nada do que fizeste...   ...Tu amas a vida, Senhor...   ...o teu espírito incorruptível está em todas as coisas...

     Assim me ocorreu como poderia ter sido Victor Hugo inspirado quando disse aos anos rápidos : A minha alma tem mais chama do que vós cinzas! / O meu coração mais amor do que vós esquecimento! Vamos então ao Extase:

 

          Puis-que j´ai mis ma lèvre à ta coupe encore pleine;            Porque aos lábios levei o teu cálice cheio;

          Puisque j´ai dans tes mains posé mon front pâli ;                 E em tuas mãos pousei meu pálido rosto;

          Puisque j´ai respiré parfois la douce haleine                         Porque fui respirando o hálito suave

          De ton âme, parfum dans l´ombre enseveli;                          Da tua alma, perfume em sombras amortalhado;

 

          Puisqu´il me fut donné de t´entendre me dire                         Porque tive a dita de te ouvir dizer

          les mots où se répand le coeur mistérieux;                             palavras em que se verte o coração misterioso;

         

          Puisque j´ai vu pleurer, puisque j´ai vu sourire                        Porque vi chorar, já que vi sorrir
         

          Ta bouche sur ma bouche, et tes yeux sur mes yeux ;            A tua boca na minha, os teus olhos nos meus;

 

          Puisque  j´ai vu briller sur ma tête ravie                                   Porque vi cintilar e encantar-me a cabeça

          Un rayon de ton astre, hélas! Voilé toujours;                           Um raio do teu astro, que triste fado encobre;

          Puisque j´ai vu tomber dans l´onde de ma vie                         Porque vi cair na onda da minha vida

          Une feuille de rose arrachée à tes jours                                   Uma folha de rosa arrancada aos teus dias

          Je puis maintenant dire aux rapides années :                          Posso agora dizer aos anos rápidos :                     

          - Passez ! Passez toujours! Je n´ai plus à vieillir!                    - Passai! Passai quanto quiserdes, que velho não ficarei !

          Allez-vous-en avec vos fleurs toutes fanées;                           E passai levando as vossas flores todas murchas, pois

          J´ai dans l´âme une fleur que nul ne peut cueillir!                    Trago na alma uma flor que ninguém pode arrancar !

          Votre aile en le heurtant ne fera rien répandre                         Nem lhe tocando poderá vossa asa entornar

          Du vase où je m´abreuve et que j´ai bien rempli.                     O vaso que me mata a sede e trago bem cheio.

          Mon âme a plus de feu que vous n´avez de cendre                Tem mais chama a minha alma, do que vós tendes cinzas          

         Mon coeur a plus d´amour que vous n´avez d´oubli!                Meu coração mais amor do que vós esquecimento !

 

     O dom do amor, seja como ele for, é a primeira graça de Deus. E o poeta, qualquer poeta, é, na sua alma, um pastor que, como os bem aventurados puros de coração, durante toda a vida conduz, sem cansaço, medida ou duração, pelos longos caminhos da transumância, essa inicial e essencial memória da infância.

     Nesta terça feira, 5 de Novembro, recebi um livro escrito pelo meu amigo José Manuel de Braga Dias:  As Cores do Tempo (Causa das Regras, Oeiras, Outubro de 2019). Nele achei muitas coisas bonitas, talvez por me saberem a sentidas verdades de gente. Coisas que afinal todos partilhamos, como estas:

 

           ...Se não fossem os meus netos

           Não recordaria como fazer contas

           Juntar letras, criar palavras,

           Alinhar palavras para construir frases

           Juntar e dividir frases para fazer um conto

           Que me recordasse alguém que também foi menino

           E gostava de inventar a felicidade

           Nos escritos e palavras que criava.

 

   Bem hajas, Zé Manel!

 

     Camilo Maria                

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta sexta feira grisalha e um tanto quanto chuvosa e ventosa em que, neste ano de 2019, aterrou entre nós a celestial festa de Todos os Santos, as minhas ferrugens obrigaram-me a participar pela televisão na missa celebrada na Igreja de Santa Beatriz da Silva, em Lisboa. Eis um dia de alegria muito íntima - tão íntima que me faz chorar - e todos os anos a comemoro com o todo de mim, pois que é memória não de mortos mas de vivos, alguns dos quais foram habitantes do meu sangue antigo, muito antes de eu mesmo saber que por eles existo, outros da minha vida remota já ou próxima ainda, das minhas casas, amizades e amores, encantos e desilusões, inquietações, anseios e interrogações... E mais tantos, tantos, com quem partilhei ou quis partilhar a minha fé, sem contar com todos os de mim ignorados companheiros, que creio sempre amigos, não sei, mas necessariamente comungantes da mesma humana condição.

 

   Gosto deste amor universal que nos abraça na festa dos vivos, e tão solar e feliz me faz sorrir em dia aparentemente cinzento: reúno-me com a vida que não vejo agora -  com a dos que, incluindo meu irmão mais novo, saíram este ano da nossa vista -  e essa miríade de incógnitos de mim, agora junta, na memória presente do amor eterno, à de todos aqueles mais próximos cujas lembranças, dia após dia, me povoam de afetos a alma.

 

   Eis-me assim a pensarsentir, simultaneamente, o desprendimento e o reencontro, como se estivesse em Antan, o lugar situado no meio do universo e centro dessa fábula e parábola que é o maravilhoso livro da polaca Olga Tocarczuk (Nobel da Literatura 2019), intitulado - traduzo da versão francesa - Deus , o tempo, os homens e os anjos...

 

   No centro de Antan, Deus elevou uma colina que todos os anos é invadida por uma nuvem de besouros. Por isso a gente lhe chama a Montanha dos Besouros. Porque Deus trata de criar, e o homem de inventar nomes. Mais adiante, quase a chegar ao fim do livro, a escritora conta-nos, em curto trecho intitulado O Tempo do Jogo:

 

   «No sétimo mundo, os descendentes dos primeiros homens viajaram de país em país e acabaram por chegar a um vale mirífico. "Vamos lá, disseram eles, vamos construir uma cidade e uma torre que atinja o céu, para permanecermos um só povo e não nos deixarmos dispersar por Deus..." Logo se entregaram ao trabalho, juntaram pedras e utilizaram alcatrão como cimento. Assim edificaram uma cidade imensa, no meio da qual se erguia a torre. Acabou por atingir tal altura que, lá de cima, se conseguia ver o que estava para além dos oito mundos. Quando o céu estava limpo, os que trabalhavam lá em cima faziam uma pala com as mãos - para não serem cegos pelo sol - e conseguiam enxergar os pés de Deus, tal como o corpo monstruoso da serpente devoradora do tempo.

 

   Com a ajuda de paus, alguns deles tentavam sondar o espaço acima das suas cabeças.

 

   Deus observava-os com inquietação e pensava consigo: "Enquanto forem um só povo e falarem uma só língua, só poderão agir à sua maneira... Vou confundir as suas línguas e encerrá-los dentro deles próprios. Farei com que já não se entendam entre eles. E então se levantarão uns contra os outros. E Me deixarão, a Mim, em paz." E Deus fez o que tinha decidido.

 

   Os homens dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, e tornaram-se inimigos uns dos outros. Mas guardaram a lembrança do que tinham visto. Ora, aquele que viu a cerca do mundo sofre mais do que ninguém a sua condição de prisioneiro».

 

   Já no primeiro capítulo - O Tempo de Antan - está escrito, todavia, que Antan está rodeada por dois rios: o Negro, profundo e sombrio, que se junta, no moinho, ao Branco, pouco fundo e vivo. Então se encontram os seus cursos, primeiro "lado a lado, indecisos, intimidados por essa aproximação tão aguardada". Logo se "precipitam um no outro e se perdem no seu abraço. E o rio que dali nasce já não é Branco nem Negro, mas é poderoso e faz girar sem pena a roda do moinho". Será porque os quatro pontos cardeais de Antan estão guardados pelos arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel, como nos diz o conto? Ou antes não estará Olga Tokarczuk a evocar uma revelação apocalíptica (perdoa-me a forma enfática) de São João, lida na missa de hoje? Assim:

 

   Eu, João, vi um anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em voz alta aos quatro anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus.» E ouvi o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.»

 

   Esses todos, diz-nos depois o mesmo São João, "são os que vieram da grande tribulação, cujas túnicas foram lavadas e branqueadas pelo sangue do Cordeiro."

 

   Só de pensarmos nele já nos faz bem o amor universal.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Afligido por dores insistentes - e que me vão acometendo com maior frequência - tenho todavia passado uma deliciosa manhã outonal, posto em casa e avistando os campos largos em redor, e que, aqui e ali, vão amarelecendo e despindo-se. Escuto música da Renascença e do Barroco nascente, interpretada por Il Giardino Armonico sob direção de Giovanni Antonini. Gratificante álbum este, reunindo peças de dezassete compositores, produzido e editado pela Alpha-Classics, sob o título genérico de La Morte della Ragione, claramente respigado de um verso do Cancioneiro do grande Petrarca (Canzoniere, CCXI): Reinam os sentidos, é morta a razão. Contudo, quer esta música, quer a sua ilustração por imagens de Hyeronimus Bosch, de Caravaggio, e doutros pintores dos séculos XVI/XVII levam-me a refletir sobre o ensinamento de Erasmo (Moriae Encomium, ou Elogio da Loucura, capítulo XXXVIII) sobre as duas formas da loucura (traduzo): Na verdade, há dois tipos de loucura: a primeira é a que as fúrias vingadoras fazem surgir dos infernos sempre que, soltando as suas serpentes, introduzem no coração dos mortais o ardor da guerra ou a insaciável sede de ouro... A segunda é muito diferente desta, já que é loucura filha da Loucura e, portanto, aquilo que no mundo mais desejável é. Produz-se de cada vez que uma doce ilusão do espírito liberta a alma de angustiantes cuidados e a mergulha em alegrias maiores.

 

   Haverá, quiçá, outras mais loucuras. Talvez as que são simultaneamente origem e fruto de prazeres vários, por regra geral ditos prazeres da carne. Ao contemplar, neste preciso instante, cenas do Jardim das Delícias, do Bosch, ocorre-me uma sentença de Stéphane Audeguy, escritor francês, no seu artigo sugestivamente intitulado L´Empire de l´Incandescense (Le Nouveau Magazine Littéraire, nº 21, setembro de 2019) sobre Georges Simenon, erotómano inveterado, que se gabava de ter conhecido carnalmente 10.000 mulheres. Traduzo: De facto, o jovem Simenon, aluno de padres, depressa perdeu qualquer vocação religiosa, posto que se impunha que escolhesse o seu campo em matéria da origem do mundo. Ou, mais precisamente: a partir do momento em que Simenon faz a experiência essencial dessa desordem do mundo que se chama prazer gozado, deixa de acreditar seja no que for.

 

   Gustave Flaubert, quando viajava por Itália em companhia de sua irmã Carolina e do marido desta, Émile Hamard, perturbou-se, em Génova, com a visão da Tentação de Santo Antão de Breughel, ao ponto de, em carta a seu amigo Alfred Le Poittevin, com data de 13 de Maio de 1845, confidenciar que a obra do pintor flamengo o incitara a escrever, para teatro, sobre tal tentação... ou loucura: A Tentação, de Breughel: uma mulher deitada, nua, com um Amor a um canto... Enquanto olhava para a Tentação de Breughel, chegaram um senhor e uma senhora que se foram logo embora. A expressão dos seus semblantes diante daquelas telas era algo de muito profundo como estupidez. Cumpriam um dever...

 

   Nos seus apontamentos de viagem (Notes de Voyage - Palais Balbi, à Gênes - La Tentation de Saint Antoine, de Breughel), o mesmo escritor diz mais: Ao fundo, de ambos os lados, sobre cada uma das colinas, duas cabeças monstruosas de diabos, meio vivos, meio montanhas. Em baixo, à esquerda, Santo Antão entre três mulheres, e ele a desviar a cabeça para evitar as carícias delas; elas estão nuas, brancas, sorriem e procuram envolve-lo nos braços. Frente ao espectador, mesmo na parte de baixo do quadro, a Gula, nua até à cintura, magra, com a cabeça ornada de ornamentos vermelhos e verdes, triste cara, pescoço demasiado longo e esticado como o dum guindaste, desenhando uma curva na direção da nuca, com clavículas salientes lhe apresenta um prato cheio de coloridos petiscos. Homem a cavalo num barril; cabeças surgindo do ventre de animais; rãs com braços e a saltar no chão; homem com nariz vermelho em cima dum cavalo disforme, rodeado de demónios ; dragão alado a planar, tudo no mesmo plano. Conjunto em formigueiro, grasnando e gargalhando, em jeito grotesco e arrebatado, sob a bonomia de cada pormenor. Tal quadro parece-nos inicialmente confuso, mas, depois, torna-se estranho para a maioria, divertido para alguns, algo mais ainda para outros: para mim, apagou toda a galeria em que está exposto, já nem sequer me lembro do resto...

 

   No próprio texto da Tentation de Saint Antoine, Flaubert escreve um monólogo do santo eremita, ao ler um passo da Bíblia que diz: «A Rainha de Sabá, conhecendo a glória de Salomão, veio tentá-lo, propondo-lhe enigmas». Como é que ela contava tentá-lo? Também o Diabo quis tentar Jesus! Mas Jesus triunfou porque era Deus, e Salomão graças, talvez, à sua ciência de mágico. E como tal ciência é sublime! Pois o mundo - assim me explicou um filósofo - forma um todo cujas partes todas se influenciam umas às outras, como órgãos do mesmo corpo. Trata-se de conhecer os amores e as repulsões naturais das coisas, e pô-las depois em jogo?... Poderemos então modificar o que nos parece ordem imutável?

 

   Eis a questão, Princesa de mim, que me ocorreu durante a leitura daquela afirmação do Audeguy, acima citada: a partir do momento em que faz essa experiência da desordem do mundo, que é o prazer gozado, Simenon deixa de acreditar seja no que for. Mas será assim o prazer desordem sempre e, concomitantemente, inimigo original da fé? Em cada vez que experimento e sinto prazer, será que o delicioso desabrochar dos meus sentidos é advertente sinal de rebelião e insurreição? Tal, na verdade, parece ter sido frequentemente a conclusão de muito pensamento moral e religioso. Daí a estima em que eram tidos os chamados exemplos de culpabilização, penitência, sofrimentos, sacrifícios e sevícias auto infligidos em castigo desse pecado, ou dessa fraqueza moral, que seria cair na tentação da carne, obra do diabo ou, simplesmente, razão primeira de relaxamento e desordem vital. Aliás, essas fraquezas da carne, em representações pictóricas ou literárias, são quase sempre a cedência e cadência de homens (machos) ao demoníaco poder de sedução de mulheres nuas ou fêmeas oferecidas... Tanto isto nos diz sobre a misoginia da nossa cultura, e de Santo Agostinho e o maniqueísmo... A tal ponto, que até o que, nos quadros de Breughel e doutros, nos pode parecer meramente cómico ou alegórico, se torna, nos comentários de Flaubert, numa profunda impressão de carne despida para o sexo. Pelo que me parece legítimo perguntar-nos, Princesa de mim, que obscuras razões levaram a que o prazer que Deus criou para que se fosse gerando a vida tivesse sido estranhamente "convertido" em algo abominável e digno do fogo de qualquer suposto inferno. Lê as Bem Aventuranças da Boa Nova, bem como - ainda segundo Jesus Cristo - o inquérito a que cada um de nós será submetido no dia do Juízo. Fala-se aí de sexo ou de misericórdia? 

 

   Noutra ordem de reflexões, também me pergunto porque é que o século XVIII, o das Luzes, do triunfo do iluminismo racional, terá sido, sobretudo na pátria dos filósofos, uma época tão prolífera da literatura libertina e da própria libertinagem dos comportamentos. Ordem e desordem, como as duas faces de Janus? Ou não será que um certo rigorismo moral é de per si provocador, catalisador de revoltas, ousadias e atos desordeiros? Como também poderemos pensar que, afinal, o pecado maior não estará nas fraquezas da carne, mas no orgulho do espírito, seja este religioso (iluminado pela revelação divina, tantas vezes mal entendida) ou laico (iluminado pela razão humana, tantas vezes abusiva). A primeira edição, que eu conheça, de La Philosophie dans le Boudoir ou les Instituteurs immoraux, do Marquês de Sade, data de 1795, e apresenta-se como obra póstuma do autor de Justine. O respetivo subtítulo elucida-nos de que se trata de Dialogues destinés à l´éducation des jeunes demoiselles. Isto é: uma obra, quase compêndio, de iniciação à libertinagem. Não vou comentá-la, nem observar de perto a pornografia ali descrita em cenas a que, com certeira ironia, Roland Barthes chamou "pornogramas." Mas como o livro está recheado de considerações filosóficas sobre o prazer, a liberdade, a natureza, a religião e a política, traduzo-te uma delas, referente ao filósofo Dolmancé, personagem que, provavelmente, representará Sade (como mostrarei adiante): Só sacrificando tudo à voluptuosidade é que esse indivíduo infeliz chamado homem, sem culpa de ter sido atirado para este triste universo, poderá conseguir semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Mas não esqueçamos o retrato do autor dessas afirmações: Alto e de bela figura, olhos vivos e espirituosos, mas em cujos traços também se desenha algo de duro e um pouco mau...   ...o ateu mais famoso, o homem mais imoral...   ...a corrupção mais completa e mais inteira, o indivíduo mais malevolente e celerado que pode haver no mundo... Afinal, parece que a raiz do mal estará num qualquer uso da nossa consciência. Ora, a consciência humana é um paradoxo entre a natureza, em sentido bruto, e a graça como destino. Pelo que pensossinto que os moralistas, em vez de pregarem códigos minuciosos e castigadores, talvez devessem promover a promoção das consciências da gente para a liberdade da vida.

 

   As línguas dos povos ou, melhor dizendo, a língua que o povo fala é, nos seus modos vários e evolutivos, nas suas modas vocabulares, sinal atento de como vão mudando os valores, com suas referências (a cultura), e os comportamentos das gentes. Recordo, Princesa de mim, como, há décadas atrás, ser relaxado significava ser descuidado, relapso, imoral; nos tempos hodiernos, relaxar é descontrair, procurar sentir-se bem, recuperar tranquilidade e gosto da vida. Independentemente das normas por que nos regemos, a aspiração universal do ser moral é ser feliz. Apesar de se ter enformado em igrejas e doutrinas viciadas na "delícia" da pregação e exercício duma certa "justiça imperial", o próprio Cristianismo, logo nos seus textos neotestamentários e patrísticos, ressuma a esse anseio de felicidade, gosto de viver, alegria de libertação. Este profundo e antiquíssimo impulso do ser humano para a vida (ou, como escreveu S. João, para que seja completa a nossa alegria) não deve, não pode, ser ignorado. Não te digo isto agora, Princesa de mim, em defesa e promoção de libertinagem, mas a pensar na ordem da caridade, ou progresso do amor, de que nos fala São Bernardo, o reformador cisterciense da Ordem de São Bento. Um milénio, ou quase, antes de nós. Noutro contexto cultural e não só. Mas, mutatis mutandis, e fazendo nós algum esforço de entendimento do dito na sua própria circunstância, talvez possamos animar-nos um pouco com o olhar da clemência divina sobre a nossa sempre paradoxal condição. Traduzo trechos dos Sermones in Canticum Canticorum,coisas que um monge medievo disse e escreveu sobre o poema erótico que é o Cântico dos Cânticos:

 

   O rei introduziu-me na adega do vinho e ordenou em mim a caridade (Cântico dos Cânticos 2, 4). Eis qual me parece ser o sentido literal do primeiro capítulo: em conformidade com os seus desejos, a esposa teve um interlúdio doce e íntimo com o seu bem amado e, assim que este se afastou, regressa para junto das moças. Foi de tal modo excitada e acesa pela vista e palavras do Esposo, que parece etilizada. E como as moças se espantam com tal novidade e lhe perguntam porquê, responde que não há que estranhar que ela tenha sido aquecida pelo vinho, já que entrou na adega. Eis aqui o sentido literal. Em sentido espiritual, ela também não nega estar embriagada, mas de amor, que não de vinho...

 

   A fechar esta parábola, ou enigma, não sei, chama-lhe o que quiseres, minha Princesa de mim, não resisto a traduzir-te, da versão original francesa da Bible de Jérusalem, os versículos 3, 4 e 5 da parte 2 do primeiro poema do Cântico dos Cânticos:

 

               Como macieira entre as árvores de um pomar,
               assim é o meu amante entre os rapazes.
               À sua tão desejada sombra me sentei,
               e é tão doce o seu fruto ao meu sabor.
               Levou-me à adega,
               e o estandarte que sobre mim levanta é amor.
               Sustentai-me com bolos de passas,
               reanimai-me com maçãs,
               pois que de amor desfaleço.
               Pôs o seu braço esquerdo sob a minha cabeça
               e com o seu direito me abraça.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembrei-me agora de uma frase de Umberto Eco, mas não me recordo de quando nem onde a li:

               «A galinha é um artifício de que o ovo se serve para produzir outro ovo».

 

 Eis um mote para muitas glosas. Já li algures que até Aristóteles se pronunciou sobre o dilema, e terá concluído que a galinha antecedeu o ovo. Talvez, minha Princesa de mim, concluas o mesmo, pensando que Deus criou todos os seres, especialmente os vivos, entre eles os galináceos, dando-lhes os meios necessários à respetiva reprodução... Não vou discutir tal raciocínio, mas permitir-me-ás recordar-te de que, apesar de tantos cientistas se terem debruçado sobre esse facto-questão que é a origem da vida, e terem até concluído conjunções de fatores necessários à sua emergência, ainda ninguém explicou cabalmente a partir de quê e como elas se deram... Daí discorro que, «ovistas» ou «galinhistas», ficamos na mesma. Exceto no artifício... O evolucionismo propõe que um(a) pré-galináceo(a) tenha posto um ovo, o qual, em vez de pré-galinacear, tomou as suas liberdades e abriu-se em pinto. O criacionismo fecha-se então em copas, e clama que Deus só criou a vida, sem que saibamos bem como: ovo ou galinha, que importa? Assim, qualquer aborto voluntariamente provocado será um assassínio. E de artifício em artifício irá a nossa mente peregrinando.

 

   Todavia, e não sei bem porquê, para mim foi sempre mais intrigante a questão da questão, isto é, a razão de nos interrogarmos sobre o ovo, a galinha e a vida... afinal, Princesa, sobre o que somos, donde viemos, para onde vamos. Jovem adolescente, comprei certo dia um postal que reproduzia um quadro de Paul Gauguin, pintado em Tahiti, em que a questão aparece posta pela própria inocência desnuda de corpos humanos. Comecei então a interessar-me pelo que Teilhard de Chardin investigava como La Place de l´Homme dans la Nature, isto é, por tentar perceber, não só como surgira a vida, mas como dela nascera a inteligência. Primeiro, enquanto capacidade potencial de entender e, finalmente, como estado ou condição humana, ou seja, enquanto propriamente entendimento, visão organizada, explicação da pessoa e da sua circunstância, o mundo à sua volta.

 

   Nessa altura, fiz outra leitura da narrativa do Génesis sobre a expulsão do ser humano (homem e mulher) do Paraíso. Na verdade, deveu-se tal (e tão grande) castigo à desobediência ou violação do princípio divino de não poderem comer do fruto da árvore do conhecimento, pois assim se libertariam do estado original de inocência, e se poriam a caminho de uma nova condição: a de quem terá de padecer as torturas de sucessivas interrogações para ir tentando aproximar-se de um estado, conquistado a custas próprias e já não mais inocente, de participação do entendimento divino. Lê, Princesa de mim, este saboroso trecho bíblico (Génesis, 3, 4-11), que te traduzo a partir da resposta da serpente à afirmação de Eva de que «Nós podemos comer frutos das árvores do jardim, mas não da que está no meio do jardim, porque Deus disse: "Não comereis desse fruto, nem lhe tocareis, sob pena de morte!":

 

   A serpente replicou: "Nada disso, não ireis morrer! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos e sereis como deuses que conhecem o bem e o mal". A mulher percebeu que o fruto da árvore era bom de comer e agradável à vista, e que aquela árvore era desejável para adquirirem o discernimento. Colheu um fruto e comeu. Também deu um a seu marido, que com ela estava, e ele comeu. Abriram-se então os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus. Por isso ataram folhas de figueira para fazerem tangas. Ouviram os passos de Yahvé Deus, que passeava pelo jardim gozando a brisa, e o homem e sua mulher esconderam-se de Yahvé Deus, no meio das árvores do jardim. Yahvé Deus chamou pelo homem: "Onde estás?"  Ouvi os teus passos no jardim, respondeu o homem, e tive medo porque estou nu, e escondi-me. "E quem te disse que estavas nu? Queres dizer-me que comeste do fruto da árvore proibida?".

 

   Pessoalmente, gosto de continuar a leitura bíblica deste texto bem mais adiante, já no capítulo 12 do Génesis, 1, quando se fala da vocação de Abraão: Yahvé disse a Abraão: "Deixa o teu país, a tua parentela e a casa de teu pai, pelo país que te indicarei!" Teologicamente, penso eu, pode enraizar-se, neste passo, o início do discurso bíblico da Redenção, que desde logo surge, também, como aventura humana de regresso do exílio - tema que, aliás, vai estando presente, de várias formas e narrativas, em toda a Bíblia, incluindo na voz de Jesus, quando repetidamente fala do seu próprio regresso ao Pai. Condenados a ganhar o pão com o suor dos nossos rostos, também pela procura do conhecimento, em cumprimento da nossa vocação de descobridores, nos vamos chegando à visão final do princípio da vida e do percurso da história.

 

   Pesar-nos-á, entretanto e sempre, a sucessão de ovos e galinhas que vai pautando o andamento lento, por vezes sinuoso, ou mesmo hesitante entre tantos semáforos, do trânsito da nossa aprendizagem e conhecimento. Mas não esqueçamos que a própria ciência humana é um artifício, como galinha para ovo. E até acontece não sabermos, nem tampouco prevermos, o que sairá do ovo que tal galinha põe. A evolução da nossa ciência tem fases de desenvolvimento quase linear e previsível, enquanto se vai esgotando uma opção, um método, uma tecnologia. E também tem crises, ou tempos de rutura e mutação, quando se lhe abrem outros horizontes, aproximáveis por métodos diversos, exploráveis por tecnologias novas. Em vários campos do labor científico, desde a investigação do cancro à aventura espacial. Assim continua interrogando o pensarsentir humano, e será, quiçá, no tempo, o nosso modo de perseverar no ser que somos. A ciência não nos dá, creio que jamais dará, o ser, mas vai mantendo em andamento, de ovo para galinha e de galinha para ovo, este misterioso aparelho do nosso entendimento. É por fazê-lo que muitos cientistas se abrem à contemplação do mistério, aqui entendido como realidade presente no nosso horizonte, e que incessantemente interrogamos sem por agora chegarmos à resposta final, isto é, à que plenamente seja certeza que nos satisfaça.  Por aí também poderemos perceber que nenhuma religião consegue ser fábrica de certezas definitivas, mas que a fé pode alimentar as forças do nosso percurso em busca da verdade, por quanto possa ser esse sustento das coisas que hão de vir. A fé - aquela que nos anima de contemplação e perguntas e torna ser crente mais estimulante e laborioso do que ser ateu. A famosa frase «nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi» não está errada, está certa - mas também não serve de critério epistemológico. Tal como pretender-se que «ser cristão (e, acrescento eu, outro crente ou agnóstico ou ateu) é um risco e ser humano um grande risco» é uma banalidade pretensiosa, já que a condição humana é, evidentemente, uma condição inata e involuntária, enquanto qualquer opção religiosa ou filosófica, como todas as orientações que tomemos na vida, são opções pessoais e, nessa medida, arriscadas. Aliás, em qualquer caso, não se podem sobrepor os motivos: posso declarar-me cristão por receio ou temor, por tradição, educação ou necessidade de certezas abonadas, como por livre escolha de um caminho de descoberta. E todas essas opções, como todas as outras, são um risco assumido, nunca podem ser uma condição imposta.  Aqui e agora, a nossa inteligência padece das suas próprias limitações, e das da sua circunstância. Habitando o tempo e o espaço, é posta a funcionar no e com o mensurável. Assim me parece, atrevo-me a dizê-lo, um artifício natural - o qual é, evidentemente, condição paradoxal. Mas, na verdade, discorremos necessariamente no tempo e no espaço, categorias mentais artificiais que, todavia, surgiram como indispensáveis ao funcionamento intelectual do ser humano naturado. Ora, no infinito, como na eternidade, nem tempo nem espaço fazem qualquer sentido, pois apenas a imensidão será medida certa. Quando ouço falar de vida eterna - ou da sua negação - pensossinto sempre que, quer a imaginemos como este mundo que conhecemos finalmente despido de todo o mal, quer como fim definitivo de todos os nossos horizontes atuais, nos esquecemos, nessa fé ou na sua negação, de que a vida eterna não tem duração nem limite, habita algo que a nossa inteligência atual não é capaz de compreender: o Reino de Deus, já Jesus nos dizia, não é deste mundo, porque é imenso. E imenso quer precisamente dizer sem medida.

 

   A talho de fouce, recordo, Princesa de mim, como aquele dito de Jesus a Pilatos, que o interrogava, tem sido - até por muitos católicos - interpretado como se não enquadrasse neste mundo o Reino de justiça, amor e paz, reservado para o "outro mundo". Mas a Boa Nova ensina-nos que só neste tempo e nesta hora nos é dada a oportunidade de praticar esse amor do próximo que, de acordo com os relatos evangélicos das bem-aventuranças e do juízo final, será o critério de entrada de qualquer de nós no Reino do Imenso onde, sem constrangimentos, só a Vida está e, finalmente, é. Aliás, a esta carta que, alegremente encetada como glosa a uma frase do Umberto Eco, acabei por levar às portas de uma meditação especulativa, falta acrescentar a funda impressão, que já tantas vezes te confidenciei, em mim aberta e em mim deixada por pensarsentir, no caso da humana vida e morte, como entre esta e a vida que temos não há que procurar nem ovo nem galinha : ambos intimamente se confundem. Na verdade, a vida só nasce da morte depois da morte da vida, posto que, no seu início terrenal, esta é transmitida por outra vida. Ou, quiçá, em razão da necessidade fatal de gerar vidas que possam suceder a outras mortes futuras, já que também só neste mundo se faz história. Lembro sempre a assertividade de Georges Bataille: L´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort... E, afinal, não poderemos nós dizer, parafraseando o começo do Evangelho de S. João, que no princípio era a Vida ? Noutra carta, talvez contigo me interrogue sobre quem nasce primeiro: se o beijo que o revela, ou o amor que o dá. Por alguma razão muitos de nós toda a vida se recordam do seu primeiro amor, do primeiro beijo. E alguns sussurrarão o refrão daquela tão simples canção do Georges Brassens: Jamais de la vie / on ne l´oubliera / la première fille / qu´on a pris dans ses bras... Foi esse beijo que deu vida ao amor, ou o amor que acendeu o beijo?

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

           

Minha Princesa de mim:

 

    Hoje em dia, quando tanto se apregoam - sobretudo em Portugal - cultores sentimentalistas do que chega a pretender ser "uma exegese poética" da Bíblia (?), diverte-me evocar um subtítulo da obra de Umberto Eco que te referi: São Tomás e a liquidação do universo alegórico. E até te traduzirei uns trechos desse autor, sobretudo uns que me parecem ajudar à diferenciação entre simbologia e "liberdades poéticas" (título, aliás, dum poema do Saramago).

 

   Interroga-se São Tomás, em primeiro lugar, sobre a licitude de metáforas poéticas na Bíblia, concluindo pela negativa, visto que a poesia mais não é do que «infima doctrina» (Summa Theologiae, I, 1, 9): Poetica non capiuntur a ratione humana propter defectus veritatis qui est in eis. (A poética escapa à razão humana pela falta de verdade que nela está - Summa Theologiae, 1-11, 2 ad 2). E comenta Umberto Eco: Tal afirmação não deve todavia ser entendida como um rebaixamento da poesia, nem como definir-se o ato poético, como na terminologia do século XVIII, enquanto «perceptio confusa». Antes se trata de reconhecer à poesia o direito de figurar entre as artes (isto é, a sua qualidade de «recta ratio factibilium»), sem deixar de admitir, por outro lado, que essa operação - esse «facere» - permanece inferior, por natureza, ao depurado conhecimento que nos trazem a filosofia e a teologia. A Metafísica de Aristóteles ensinara a São Tomás que as tentativas de efabulação dos primeiros poetas teólogos tinham constituído uma maneira ainda infantil de tomar conhecimento racional do universo. Na verdade, tal como todos os pensadores escolásticos, ele não sente qualquer interesse por uma teoria da poesia: assunto bom para especialistas de retórica, que ensinavam na Faculdade das Artes e não na Faculdade de Teologia. Quanto a si, São Tomás foi poeta (e poeta excelente); mas em todas as páginas em que fala de conhecimento poético e de conhecimento teológico, ele nunca se desmarca de um tipo de oposição canónica, nem se refere à maneira dos poetas como algo para além de simples termo de comparação (que não é objeto de análise).

 

   A dado passo do trecho dos seus Scritti sul Pensiero Medievale, sobre O Alegorismo nas Escrituras, Umberto Eco aconselha-se com Henri de Lubac - grande teólogo jesuíta, contemporâneo e amigo do dominicano Yves Congar, com quem, aliás, trabalhou em tempos do Concílio Vaticano II e foi igualmente feito cardeal por João Paulo II; mais recentemente foram ambos lembrados pelo papa Francisco que, nesse período de renovação da Igreja, acompanhou, como discípulo, a obra deles. Recorrendo a Henri de Lubac, sobre o modo expressivo e cognitivo medievo, Eco escreve (traduzo):

 

    Na sua tentativa de contrariar a sobreavaliação gnóstica do Novo Testamento em detrimento do Antigo, Clemente de Alexandria estabelece uma distinção e uma complementaridade entre ambos, diligência que Orígenes aperfeiçoará ao proclamar a necessidade de uma leitura paralela das duas escrituras. O Antigo Testamento é esboço do outro, e nele se precisa a letra cujo espírito o Novo encerra. Ou, para falarmos em termos de semiótica, é a expressão retórica do que, no Novo Testamento é o conteúdo. Por sua vez e parte, o Novo Testamento contém uma significação figurativa, já que é promessa de acontecimentos por vir. É com Orígenes que nasce o «discurso teologal», um discurso que deixa de ser - apenas e tão somente - discurso sobre Deus, para ser também sobre a sua Escritura.

 

   E é assim que já desde Orígenes se começa o ouvir falar de sentido literal, de sentido moral (psíquico), e de sentido místico (pneumático). A partir daí se constitui a tríade que associa o literal, o tropológico e o alegórico, que nos conduzirá progressivamente à teoria dos quatro níveis de significação da Escritura: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico.

 

   Cabe lembrar-te aqui, Princesa de mim, o título da monumental obra de Henri de Lubac: Éxégèse Médiévale: les quatre sens de l´Écriture (Aubier, Paris, 1959-1964). Esta 1ª, como todas as outras edições seguintes, hoje praticamente esgotadas.

 

   E vou levar-te, por Umberto Eco (agnóstico já quando escreveu a sua tese de doutoramento sobre São Tomás de Aquino), ao dominicano patrono da nossa teologia. Não seguiremos pelo caminho da análise mais profunda da evolução do pensamento medieval sobre os quatro sentidos da Escritura, surpreenderemos um momento revelador do foco e do rigor aquinenses.   

 

   Eco considera que São Tomás admite ser normal as Escrituras apresentarem-nos realidades divinas e espirituais - precisamente porque estas ultrapassam a nossa compreensão - sob o aspecto de coisas corpóreas: conveniens est sacrae scripturae divina et spirituali sub similitudine corporalium tradere (Summa Theologiae, I, 1,9). Quanto à nossa leitura do texto sagrado, Aquino diz que devemos procurar o seu fundamento literal e histórico: na verdade, tratando-se de história sacra, o literal é histórico, pois que relata um acontecimento compreensível (a saída dos Hebreus do Egipto, p. ex.) e este determina a narrativa. Illa vero significatio qua res significatae per voces, iterum res alia significant, dicitur sensus spiritualis, qui super litteralem fundatur, et eum supponit -  "chamamos sentido espiritual a essa forma de significação pela qual as coisas significadas por meio de palavras vão, por sua vez, significar outras; tal sentido espiritual assenta no sentido literal, e pressupõe-no" (Summa Theologiae, I, 1, 10, resp.)

 

   E Umberto Eco, percebendo que São Tomás designa por sensus spiritualis os diversos supersentidos que podem ser atribuídos a um texto, também entende que o Aquino vai direito à questão fulcral de interpretar o sentido literal como sendo precisamente a intenção do autor, ou seja, o sentido quem auctor intendit. E comenta então: Tal precisão é da maior importância para apreciarmos as posteriores manifestações da sua teoria de interpretação das Escrituras. Ao falar de sentido literal, São Tomás não fala de sentido do enunciado (do que um enunciado exprime pelo código linguístico a que se refere), mas, certamente, ao sentido que lhe é atribuído pelo próprio autor da enunciação. Em linguagem hodierna, se, numa sala cheia de gente, eu disser que «há muito fumo aqui», pode ser para afirmar (é o sentido do enunciado) que há fumo demais na sala; mas também posso querer exprimir a ideia (em função das circunstâncias da enunciação) de que seria oportuno abrir a janela, ou, então, deixar de fumar. É evidente que, para Tomás de Aquino, os dois significados são parte integrante do sentido literal, pela simples razão de que ambos pertencem a um contexto que o enunciador se propunha enunciar. Como duvidar então de que Deus, sendo o autor das Escrituras e, simultaneamente, capaz de apreender e interpretar uma data de coisas ao mesmo tempo, nada obsta a que possamos supor que haja, nas Escrituras, uma pluralidade de sentidos - plures sensus - nem que apenas em virtude só do rudimentar sentido literal?

 

   Creio que poderei dizer-te, Princesa de mim, que esta análise é também pedagógica, porque nos desarma de preconceitos e nos põe a procurar responder às nossas próprias interrogações. Mas, sobretudo, pensossinto que nos ensina o respeito pelo texto e a humildade na sua leitura. Se reparares bem, é por assim nos tornarmos mais pequeninos que ganharemos altura para mais largo e livre entendimento do que nos é dado ler.

 

   E quiçá algum recolhimento reflexivo sobre hiatos, obscuridades e interrogações, com que vamos diariamente deparando na babel leviana da "comunicação" contemporânea, nos pudesse ajudar  -  não só nem principalmente  -  a falar e escrever melhor, mas  -  sobretudo  -  a conseguir pensar e discorrer com mais construção e associação de ideias, em vez de repetirmos (ainda por cima através, tantas vezes, de neologismos disparatados e dispensáveis estrangeirismos que, para quem estiver atento,  são denunciadores de ignorância e relaxamento mental) o que por aí se vai considerando e apregoando convencionalmente correto ou "poeticamente hermenêutico".

 

Camilo Maria          

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vamos então visitar São Tomás de Aquino, pela mão de Umberto Eco nos seus Scritti sul Pensiero Medievale (Bompiani, 2012). Retomo agora o fio da minha carta nova nº XI, que fechara com uma citação de Huizinga contra o declínio do simbolismo e, para metermos já Umberto Eco na nossa conversa, traduzo o que ele escreve: A propósito do simbolismo medieval, Huizinga deu-nos uma análise magistral, ao levar-nos a compreender que a predisposição para uma visão simbolizante do universo também se pode manifestar no homem contemporâneo. Eis uma interessante perspetiva.

 

   Na verdade, o pensador italiano, autor também de apreciados romances, procura desde logo chamar a nossa atenção para algo que, talvez por uma certa incultura contemporânea e consequente desleixo do espírito crítico, temos vindo a menosprezar ou, alternativamente, a idolatrar: o símbolo como acesso ao invisível, ao suposto, ou ao dificilmente ilustrável por si mesmo, em virtude da sua própria ininteligibilidade, quando não se lhe conhecem possíveis referências já alcançáveis. É certo também que bastas vezes nos servimos de símbolos, em sentido inverso, isto é, para significar (digamos que erga omnes) algo que veneramos e queremos mostrar. Chamamos-lhes então emblemas, mas, afinal, também estes procuram traduzir a maior intensidade de um sentimento ou algo inexplicável mesmo naquilo que julgamos conhecer. Pode, pois, dizer-se que um símbolo é tentativa de concretização de algo que só em abstração concebemos. Não é nem fantasia, nem ídolo: é sinal, referência. Tal como os milagres de Jesus que os Evangelhos relatam, não para contar maravilhas, mas enquanto sinais do Emanuel, do Deus connosco. Ainda esta manhã isso penseissenti, ao ler um trecho do Evangelho de São Lucas (7, 11-17), designadamente este passo: Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores». Jesus aproximou-se e tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, eu te ordeno: levanta-te!». O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus entregou-o à mãe. Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: apareceu no meio de nós um grande profeta, Deus visitou o seu povo».

 

   Este texto relata um acontecimento, hoje inverificável, impossível de confirmar. Apenas sabemos que estas narrativas evangélicas registam por escrito memórias de contemporâneos de Jesus, testemunhas privilegiadas da sua vida terrenal e suas circunstâncias. Mas tal testemunho não se confina aos factos relatados, vai além deles, confere-lhes um sentido descoberto, achado, pela mensagem do próprio Jesus. Portanto, mais do que como notícia, leio-o com encanto, quase posso dizer que maravilhado com a maravilha, sem todavia me fixar nela. E aí reside, precisamente, mais do que a beleza que tenha, a sua verdade. Não no facto em si, mas no seu simbolismo. Se Jesus ressuscitou aquele rapaz, como nos é contado, tal não significa que irá continuar a retornar a esta vida todos os mortos com que se for cruzando pelos caminhos da Judeia e da Galileia. Nem tão somente que aquele seu gesto se destinava exclusivamente a consolar a mãe viúva e a granjear admiradores ente os presentes. O próprio texto evangélico, aliás, é bem claro: Todos se encheram de temor e davam glória a Deus. O temor a Deus, na Bíblia toda, é sempre sinal, não de receio ou medo, no nosso sentido corrente, mas do sentimento devorador da presença próxima do Quem É, daquele absoluto inefável, cujo nome mesmo é impronunciável pelas bocas e as próprias escrituras do judaísmo. Como poderia o humano que pretendesse chegar-se a Deus esquecer o castigo de ter caído na tentação de comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, e não viver em terror permanente, roído pelo medo constante de cair na voragem do buraco negro que tudo consome. Já no caso do rapaz tornado a sua mãe, o sinal da proximidade de Deus é o gesto misericordioso de Jesus, que o ressuscita, em sinal também da sua própria Ressurreição libertadora de todos, símbolo ainda do inimaginável poder redentor do Pai que, na figura ou pessoa do Filho, visitou o seu povo! E todavia, não é propriamente uma visão clara de Deus que nos é dada, senão apenas um gesto simbólico da sua presença entre nós. Porque a fé apenas é a substância ou sustentação das coisas que virão. Por outro lado, há cenas ou afirmações que serão apenas fruto da imaginação humana, sem qualquer possibilidade de verificação experimental ou científica (sei lá... a assunção de Nossa Senhora não faz dela uma astronauta, nem a sua virgindade  -  no sentido físico de hímen não rompido, quer antes, quer após o nascimento de Jesus, como pretendem textos apócrifos e o próprio Corão  -  será uma exceção biológica), mas que contudo têm sentido místico e significam realidades tão fortes como a omnipotência de Deus ou o advento final de novos céus e duma nova terra, uma vez vencidas a corrupção e a morte e tudo retornado à imaculada condição inicial.

 

   Assim, Princesa de mim, muitos relatos constantes de textos bíblicos são considerados hoje, por muitos teólogos mais rigorosos, narrativas simbólicas - coisa que, curiosamente, quiçá os sábios medievos, pela sua cultura, terão considerado com maior naturalidade. Em carta próxima voltarei à Legenda Aurea de Tiago Voragino, da qual também muitas vezes já falámos, e da qual o grande medievalista Jacques Le Goff (cf. À la Recherche du Temps Sacré, Perrin, Paris, 2011) escreve:

 

   A Legenda Aurea é extraordinária, simultaneamente por si mesma e pela sua fortuna. Escrito no último terço do século XIII, este texto, cujos cento e setenta e oito capítulos ocupam mais de um milhar de páginas na edição de La Pléiade, foi objeto de mais de um milhar de manuscritos medievais conservados até hoje, o que lhe confere, sob esta perspetiva o segundo lugar, na Idade Média, a seguir à Bíblia... Le Goff refere-se aí ao facto de, em tempos anteriores à imprensa, aquela obra do dominicano arcebispo de Génova - e coevo do seu confrade Tomás de Aquino  -  ter sido a mais reproduzida pelos copistas, isto é, a que foi mais editada, logo a seguir à Bíblia. A razão para voltarmos às conversas sobre ela será, essencialmente, tratar-se de uma Summa, não Theologiae, mas sobre o tempo. Aliás, o Voragino começa assim o seu texto: Universum tempus presentis vitae in quatuor distinguitur ou O tempo todo da vida presente divide-se em quatro. Para  Le Goff, a grande originalidade do Voragino não está só na "consideração e abrangência do tempo na sua totalidade,  grande interrogação de todas as civilizações e religiões, mas em como chegar a esse tempo total pela combinação de três tipos de tempo : o temporal, isto é, o tempo da liturgia cristã, que é cíclico; o santoral, ou tempo marcado pela sucessão da vida dos santos, que é linear; e, last not least, o escatológico, de que o cristianismo faz o caminho temporal que conduz a humanidade ao Juízo Final."

 

   Afinal, escreve o medievalista francês, o nosso dominicano quer afinal mostrar como só o cristianismo soube estruturar e sacralizar o tempo da vida humana, para levar a humanidade à salvação. Porque a Legenda Aurea não trata de um tempo abstrato, mas dum tempo humano, querido por Deus e sacralizado ou santificado pelo cristianismo. Retomando uma expressão de Max Weber, Marcel Gauchet deu ao seu livro maior o título Le Désenchantement du Monde (o desencanto do mundo). A empresa de Tiago Voragino era em sentido inverso: apoiar-se no tempo para encantar e sacralizar o mundo e a humanidade. Pela minha parte, creio que tal "sacralização" do tempo humano, como enquadramento e caminho do percurso salvífico, não é, de modo algum, despiciendo para a nossa melhor compreensão da cultura simbolista medieval.

 

   Mas deixaremos, para mais tarde, as reflexões sobre esses pontos. Por hoje, apenas quero sublinhar, Princesa de mim, que a Legenda Aurea frequentemente se apoia em textos apócrifos, sobre alguns dos quais, aliás, se construíram devoções e cultos universais da Igreja, bem como dogmas, entre os quais o da Assunção da Santíssima Virgem que, como sabes, não tem qualquer suporte em textos bíblicos. Reparo ainda na, por mim descuidada, saturação desta carta, que já vai longa, e reservo para a seguinte - que com esta te envio - o nosso próximo prometido encontro com São Tomás de Aquino.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira