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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em cartas passadas, falava-te de Vladimir Jankélévitch. Hoje, o meu amigo Marcello Duarte Mathias, chama-me a atenção para uma nota de pé de página (a 7, na pág. 362 do seu Caminhos e Destinos - A memória dos outros, tomo II), que reza assim: Numerosos intelectuais de confissão judaica sofreram idêntica dificuldade no seu relacionamento com a cultura germânica por virtude da perseguição aos judeus ocorrida durante o nazismo. Entre outros, é de citar o caso do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (1903-1985). Germanista de formação, autor de uma tese sobre Schelling, melómano erudito e apaixonado, deixou de estudar os grandes filósofos alemães a par dos músicos do universo germânico Mozart, Brahms, Beethoven, Schubert, excluindo uns e outros do seu universo cultural, por mera força de vontade. Caso deveras excecional esta espécie de exílio mental imposto a si próprio, que redunda num corte radical com o passado, abolindo-o de vez. (Se tanto nos é possível...)

 

   Este conceito de exílio mental é, desde logo, por si mesmo fascinante, e tal fascínio vai finalmente iluminando o notável texto de Marcello Mathias, recolhido na obra acima citada com o título O Escritor e o Sentimento de Exílio.Tema mordente, ali abordado sob a bênção inspiradora destes versos de Saint-John Perse: Ô toi hanté, comme la mer, de choses / lointaines et majeures  (...)  La nuit où tu navigues n´aura-t-elle point son île, son rivage? / Qui donc en toi toujours s´aliène et se renie?

 

   "A ti que, como o mar, és perseguido por coisas / longínquas e maiores (...) Quando te dará a noite em que navegas uma ilha, uma costa? Quem será que em ti sempre se aliena e se renega?"

 

   Alguém sabe? Frequentemente penso nos intelectuais judeus  -  russos, romenos, alemães, austríacos e não só  -  que, desde os pogrom  do tempo do tzarismo às perseguições nazis, se depararam com crises de identidade, sobretudo os que mais se tinham assimilado a outras culturas, desde o austríaco Hertzl, que se tornou pioneiro do sionismo, movimento para encontrar uma pátria aos judeus rejeitados pelas suas pátrias europeias (e, no início, tal pátria não seria necessariamente na Palestina, chegando mesmo a estudar-se a possibilidade de uma localização na África subsaariana). Aliás, Theodore Hertzl, abastado burguês vienense, começou por procurar ajudar os judeus expulsos da Rússia pelos progom, e teve a revelação do problema da sua própria identidade ao dar-se conta de que aqueles eram pouco, mal, ou reticente e ressentidamente acolhidos pelas nações da Europa Ocidental.

 

   Voltando aos anos loucos do século XX europeu, interroguemo-nos agora sobre os sentimentos - e o próprio sentimento de si - dos judeus, e dos intelectuais judeus, apanhados pela ascensão e o "triunfo" do nazismo. Casos diferentes uns dos outros, em todos eles me impressiona a variedade de respostas encontradas para enfrentar o ostracismo votado à muito sua identidade, quiçá mista judia e de uma nacionalidade europeia. De Hannah Arendt - que perdoou Heidegger, por muito ter amado, sem todavia fazer qualquer desconto ao desvario nazi - a Stefan Zweig, que afinal não conseguiu digerir a sofrida desconsideração da sua identidade vienense, austríaca ("habsburgamente" vivida!), germânica e europeia, e se suicidou no Brasil, em 1945.

 

   Samuel Jankélévitch, pai de Vladimir, era médico e foi tradutor de Hegel, Schelling e Freud. Seu filho, o judeu filósofo e musicólogo franco-russo, foi pelo pai assim criado no gosto e amor da cultura germânica. Não me parece que o seu posterior alheamento de músicos e filósofos germânicos assinale o desejo de apagar o passado, antes talvez o de afastar ou alhear de si qualquer sinal de pertença a uma cultura de se sentiu repudiado... Creio que procurará revestir-se de outra identidade, esta já ligada às suas raízes russas e ao seu abrigo e alimento francês, permitindo-lhe fugir à apagada e vil tristeza que matou Zweig. Talvez isso também lhe tenha permitido perdoar aos que lhe "furtaram" uma identidade sua (pensa, Princesa de mim, quanto tanto poderá magoar), sem todavia o impedir de, já em 1976, ainda declarar: J´ai pour Heidegger une profonde aversion, et je vis sans m´en occuper... Certo, e verificável, no plano musical, é que ele tampouco se debruçou muito sobre música italiana, ou americana, ou outra, ainda que com notórias exceções, como Liszt, Chopin, Bartok, Falla ou Albeniz, Mompou, Dvorak, Smetana e Janacek... Orientou-se para Fauré, Saint-Saens, Ravel e Debussy, Rimsky-Korsakov, Tchaikovsky  e Stravinsky, franceses e russos. Creio que tinha muito afecto por Fauré, como já te disse, certamente Debussy, Ravel sendo todavia aquele sobre o qual mais escreveu (ainda guardo o seu Ravel, publicado na coleção Solfèges, da Seuil, em 1956, mas cujo original data de 1939, editado pela Rieder, em Paris, logo dois anos após a morte do compositor. Jankélévitch talvez procurasse outro som interior (e digo interior também porque ele não era amigo de discos, preferia partições e o seu piano), mais próximo dessa parte de si que já não queria ser o que lhe tinham tirado. Mas sobre o que poderá ser um som alemão, e outras sensações, te falo já de seguida, recorrendo às confidências do grande maestro japonês Seiji Ozawa ao seu compatriota, escritor universal, Haruki Murakami. [Só por graça - porque nada tem que ver com o que te irei contar, os apelidos Ozawa e Murakami, literalmente traduzidos por este curioso lusitano, querem dizer, respetivamente: Grande Pântano e Acima da Aldeia, que, substituindo o significado topológico de Kami pelo espiritual, eu traduzia por Espíritos da Aldeia... Nos meus anos de Japão, há mais de duas décadas, os meus amigos divertiam-se muito com estas minhas "observações"].

 

   Em 2011, a editora Shinchosa (que, atendo-me ao som destes romaji ou caracteres latinos, que fazem transcrições fonéticas, seria tentado a traduzir por Nova Investigação) publicava em Tokyo um livro intitulado (e volto a recorrer à transcrição da escrita em kanji e hiragana para romaji) Ozawa Seiji-san to ongaku ni tsuite hanashi o suru, isto é, em jeito simples, o Senhor Ozawa Seiji e a música, em conversas registadas. A versão inglesa desta memória de conversas do Maestro japonês com Murakami Haruki foi editada em New York, pela Penguin Random House em 2016., com o título de Absolutely on Music: conversations with Seiji Ozawa. Desta foi traduzida a versão francesa, intitulada De la Musique: conversations, com indicação de autoria de Haruki Murakami e Seiji Ozawa.

 

   O livro tem vários motivos de interesse, desde o facto de reproduzir conversas muito eruditas de dois japoneses sobre música ocidental clássica (se bem que ambos confessem o seu amor ao jazz), até à revelação de pormenores significativos do árduo labor dos músicos profissionais, que nunca deixam, não podem deixar, de treinar o ouvido musical, as expressões de toques e de gestos de execução e direção musical, a concentração e abertura necessárias aos possíveis entendimentos de uma partitura. E vão surgindo várias comparações de artes e artistas, de inspirações e acústicas, de momentos e de estilos. Tudo isso se lê com muito gosto e enriquecimento humano, e nos introduz num universo onde as pessoas se encontram, se reúnem e comunicam, quiçá todas em busca do mesmo sopro, nem sempre em harmonia, mas com as suas próprias dissonâncias.

 

   Ozawa foi maestro assistente de Bernstein e de Karajan, bem diferentes um do outro. E foi, durante umas três décadas, diretor musical da Orquestra Sinfónica de Boston, à qual pretendeu "dar um som alemão"... Mas durante a sua permanência no cargo pôde verificar como o som da Boston Symphonic mudava conforme os maestros que a dirigiam (e houve muitos maestros convidados). Traduzo-te um trecho das "confissões" de Seiji Ozawa:

 

   Cerca de dois ou três anos após a minha chegada, o som da orquestra mudou para se orientar para o estilo alemão puro e concentrado a que chamo «into the strings». Os músicos regulam o seu arco [fala de instrumentos de cordas, claro, maioritários na orquestra] de modo a obterem um som mais pesado. Até aí, o som da Boston Symphony tinha sido sempre claro e fremente, isso porque a música francesa constituía o essencial do seu repertório. Munch e Pierre Monteux tinham exercido sobre ela uma influência profunda: Monteux já não era diretor musical, mas permanecia omnipresente. Quanto a Leinsdorf, ele tampouco tinha fosse o que fosse de alemão.

 

   Comenta Murakami: Chegara portanto a hora da orquestra mudar de som... E Ozawa acrescenta:

 

   Eu queria mesmo fazer música alemã. Queria interpretar Brahms e Beethoven, Bruckner e Mahler. Assim, pedi que se tocasse «into the strings». Depois de me ter resistido algum tempo, o primeiro violino, Joseph Silverstein, acabou por me apresentar a sua demissão. Também era o chefe assistente, e detestava aquele modo de tocar. Achava que diminuía o som. Levantou fortes objeções mas, no final de contas, o chefe era eu, e ele pouco mais podia fazer, além de renunciar.

 

   Pelo apelido se percebe que Silverstein era judeu, mas também Bernstein o era, o que não o impediu de brilhar em Beethoven, Brahms e Mahler, nem de transmitir a Seiji Ozawa grande gosto por esses compositores. Mais tarde Daniel Barenboim, judeu ecuménico, dirigirá um dos mais notáveis registos da tetralogia wagneriana... O maestro japonês que se nos confessa, quando Haruki Murakami lhe pergunta se, tendo dirigido a Orchestre National de France, não estará tão bem com a música francesa como com a alemã, contesta:

 

   Não é bem assim. Estudei com o maestro Karajan, e a minha prática da música é fundamentalmente alemã. Mas depois da minha chegada a Boston, apreciei muito Munch e assim toquei muita música francesa. Dirigi as integrais das obras orquestrais de Ravel e Debussy, cheguei mesmo a gravá-las. Descobri a música francesa depois de ter ido para Boston. O maestro Karajan nunca me tinha mandado trabalhar esse repertório - quiçá com exceção do Prélude à l´après midi d´un faune... E confidenciará ainda que, antes de Boston, apenas interpretara a Sinfonia Fantástica de Berlioz, cuja música não só é difícil, mas demencial, ao ponto de, por vezes, eu já não saber bem o que lá se passa! Mas talvez por isso ela se preste tão bem à direção de um chefe asiático. Posso fazer dela o que quiser. Certo dia, em Roma, há muito tempo, dirigi a ópera Benvenuto Cellini. Pois bem: deixei-me levar, entreguei-me a todos os meus desejos. O público adorou.

 

   O universo da música: tempo e lugar etéreo de reunião numa linguagem única da partilha. Espaço de liberdade comum.

 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na minha já idosa discoteca, constituída passo a passo, escuta a escuta, ao longo de muitas décadas, ainda se arrumam discos em vinil (78, 45 e 33 rotações) e inúmeros cd. Quando, com alguma nostálgica paciência, a percorro como catálogo dos meus gostos e preferências musicais, e caleidoscópio de tantas e tão diversas emoções, consigo sempre desenhar mais um traço, feição ou expressão, de um retrato meu que a vida, com as suas fidelidades, mutações e caprichos, foi animando. Assim me surpreendo a olhar para facetas menos lembradas da minha complexidade, tal como me repouso no encontro com o que talvez seja o meu pensarsentir estrutural, aquele corpo-e-alma que, de múltiplas maneiras, mais revelado ou mais escondido, se terá vestido para um novo encontro. Aparências ou manifestações que a circunstância de mim foi e vai desvendando e o meu pudor agasalhando em mistérios musicais que são a forma universal de segredar e entender o indizível. Por isso também guardo diversas interpretações das mesmas obras que, como te dizia em carta passada, são sempre, no tempo e no modo de cada momento, aquilo que foi composto e o que se escuta. Diz Jankélévitch que a música de Debussy nos fala da solidariedade simultaneamente impossível e necessária do ser e do não-ser...   ...numa linguagem que jamais alguém tinha falado, nem nunca mais alguém falará. Mas qualquer música, em diversas interpretações, é sempre nova. Adiante voltarei a citar-te um luminoso texto do melómano filósofo francês.

 

   Por mim, pois, prefiro dizer que, por muito clara que seja a sua partitura, qualquer momento musical é irrepetível: nasce de uma inspiração e da sua escrita, cuja tradição é depois traduzida por quem lhe dá o som da sua reanimação. Ganha outra vida própria, partilha que desabrocha em ofertas, como no milagre da multiplicação dos pães (que aliás, curiosamente, tão "filosoficamente" comoveu José Saramago) ou na conversão humana de Valjean (em Les Misérables de Victor Hugo, "comprada" pelo clérigo que o deixou fugir com a prata que lhe roubara).

 

   Em cartas futuras voltarei a todos estes temas. Mas nesta apenas quero levar-te a um cantinho da minha discoteca, onde com alguma frequência me acontece conviver com música inglesa dos séculos XVI e XVII: Dowland, Purcell, Byrd, e tantos outros. Esta manhã, já radiosa e ainda fria, repetidamente escutei If music be the food of love, título e primeiro verso duma ária para voz solo e contínuo, de Purcell. Canta a soprano Catherine Bott, no registo editado pela Chandos. O poema é de Henry Heveningham, apolónio a alumiar uma sensualidade sufocada por condição cortesã, exaltando prazeres que nos invadam olhos e ouvidos e tenham transportes tão violentos que magoem... e a própria veemência da música paradoxalmente vem enaltecer um secreto erótico desejo: Certo é que morrerei pelos vossos encantos, a menos que os vossos braços me salvem...

 

   Aquele primeiro verso, que dá título, Se a música é o alimento do amor..., esse, e só esse, é de Shakespeare. Ao escrever discorrendo esta carta, ocorreu-me que a música, nesse verso, talvez seja alimento do amor pelo poder de confundir desejos apenas dizíveis pelo inefável, na expressão livre e sem alvo de um só Desejo. Certos místicos, com os quais não me identifico nem achego (não sou cantante judeu, inda que bíblico, como Salomão, nem alumbrado espanhol, como Teresa d´Ávila), vivem e testemunham, ou imaginam, transes em que desejos se confundem.  Como noutro soneto de Shakespeare (CXXXV, na edição da Cambridge University Press, 1966), que agora mesmo para ti traduzo:

 

Whoever hath her wish, thou hast thy will,  
And ´Will´ to boot , and ´Will´ in over plus,  
More than enough and I that vex thee still, 
To thy sweet will making addition thus. 


Wilt thou whose will is large and spacious, 
Not once vouchsafe to hide my will in thine?  
Shall will in others seem right gracious,  
And in my will no fair acceptance shine?   

 

The sea all water yet receives rain still,  
And in abundance addeth to his store
So thou be rich in will add to thy will     

 

One will of mine to make thy large will more
Let no unkind, no fair beseechers kill,
Think all but one, and me in that one ´Will´.


Uma qualquer faz votos, tu só desejo tens,
E Desejo de sobra, Desejo para esbanjar.
E mesmo sofrendo mais dos teus desdéns
Ao teu terno desejo me quero somar.

 

 Não irás tu, cujo desejo é vasto e espaçoso,
Deixar que o meu no teu se abrigue?
Se doutros o desejo tens por gracioso,
Porque lanças sobre o meu sombra que o castigue?

 

Se o mar que é todo água acolhe chuva ainda
P´ra que em abundância a si a acrescente,
Tu, tão rica de desejo, o teu desejo alinda

 

E acresce com um só desejo de mim...
Não deixes que o teu  desprezo nos ausente,
Deixa só que o meu seja teu  desejo enfim...

 

         

   Esta tradução não é nem literal nem literária. Foi momentânea, talvez fácil, certamente conveniente. Também teve opções: como a de traduzir wish - que quer dizer desejo, aspiração, mas também voto como desejo de bem - por este voto; e Will que significa vontade, capacidade de decisão (até um testamento se chama will), por Desejo, no sentido de vontade condicionada por outra, isto é, não coerciva. Para exprimir-te dois sentidos: 1- o de que o desejo humano só verdadeiramente o é se partilhado, pois que, não o sendo, ou será suspiro contínuo, ou ira e violência ; 2- e o de que só a música - que é linguagem que nada afirma nem representa - pode em boa verdade (que, como o pensarsentir, é sempre uma vitória sobre a tentação do dogma) pôr-nos na onda inefável do indizível, caminho para a realidade invisível que, diz-me o sentimento de mim, do amor humano e do desejo de Deus, é afinal, ela só, a verdade ontológica, sem formulações tentativas. Pode assim ser outro modo do misticismo. 

 

   Quiçá o que, afinal, Princesa de mim, eu hoje te quero dizer antes seja bem dito pelo grande Shakespeare, nestes versos de The Passionate Pilgrim:

 

    If music and sweet poetry agree,
    As they must needs, the sister and the brother, 
    Then must the love be great ´
twixt thee and me,
 
    Because thou lov´st the one, and I the other,
 
    Dowland to thee is dear, whose heavenly touch
   
    Upon the lute doth ravish human sense;
  
    Spenser to me, whose deep conceit is such
 
    As, passing all conceit, needs no defence.

 

   Gosto muito dessa referência a Dowland, tocador de alaúde e compositor, e a Edmund Spenser, poeta, ambos admirados por Shakespeare. Não te traduzo o poema, apenas recordo, por essencial ao tema de que te falo, que ´twixt é a abreviatura de betwixt, palavra de origem saxónica, já arcaísmo poético ao tempo de Shakespeare, para significar between. Assim, o verso em que surge diz, em português: deve então ser grande o amor entre ti e mim / porque tu amas um e eu o outro... Partindo da condição de que se a música e a doce poesia concordam, / como, necessariamente (as they must needs), irmão e irmã, / deve então ser grande o amor entre ti e mim, porque amas um e eu o outro (mais do que a ideia de troca está aqui a de completação, a comunhão pela diferença): o poeta traz a inspiração de Spenser, mais fecunda que outra qualquer, a sua amada traz Dowland, cujo divinal toque de alaúde rapta os humanos sentidos.

 

   Do amor erótico a qualquer mística, o desejo que se despoja e vive livre transforma-se de impulso a possuir em busca de comunhão. Para tanto, precisa sempre de parceiro. Tal como o Evangelho também não distingue o amor de Deus do amor ao próximo. Mas termino traduzindo o prometido trecho de La musique et l´ineffable de Vladimir Jankélévitch. Por ele começa o capítulo 3 (Le charme et l´alibi) do livro. Com o subtítulo de L´opération poétique:

 

   A obra de encantamento que é o espressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético. Faz música, ordena o sonho a Sócrates, e não pares de operar. Fazer é de uma ordem totalmente diferente de dizer. Compor música, tocá-la interpretando-a, cantá-la ou mesmo escutá-la recriando-a não serão, afinal, três modos de operar, três atitudes bem mais drásticas do que gnósticas? O criador, o executante que é recriador ativo, o ouvinte que é recriador fictício, todos três participam numa espécie de operação mágica: o executante coopera com o primeiro operador fazendo com que a obra exista efetivamente no ar vibrante durante um certo lapso de tempo, e o ouvinte recriador terciário coopera pela imaginação ou por gestos adventícios...

 

   Nota, Princesa de mim, que a frase A obra de encantamento que é o expressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético se inspira também na Poética musical de Igor Stravinsky. E não será isso ainda o que Shakespeare sugere ao juntar a evocação de Dowland à de Spenser?

 

Camilo Maria           

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   «O não-sei-quê é para o intelectualismo um tema inesgotável de inquietude e perplexidade: cultiva em nós essa espécie de desconforto intelectual e de má consciência, esse mal-estar nascido da incompletude que Platão designava por aporia e que, à sua maneira, é bem um mal de amor, uma nostalgia erótica, uma insuficiência amorosa. Esse «desejo de coisas inexistentes», pelo qual Gabriel Fauré caracteriza a divina frase do adagio do seu segundo quarteto, não será ele também o segredo do não-sei-quê e do encanto quase doloroso que ele por vezes segrega?

 

   Este trecho da apresentação, pelo próprio autor, do livro La manière et l´occasion, primeiro volume da obra Le Je-ne-sais-quoi et le Presque-rien, publicada pelas Éditions du Seuil (Paris,1980), diz-me pessoalmente muito, não só sobre o espírito que animou toda a escrita do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (judeu de origem russa), como sobre a inspiração que ela foi para mim, desde 1957, quando descobri esta obra, então editada pelas PUF (Presses Universitaires de France) num só volume. A edição presente (1980) alarga-se por três volumes, correspondendo o primeiro e o terceiro a textos da primeira edição (1957), ainda que profundamente revistos, e sendo o segundo um texto totalmente inédito. Os títulos dos outros dois volumes da trilogia atual são La Méconnaissance, le Malentendu La Volonté de Vouloir.

 

   Lembro-te ainda, Princesa de mim, dessa coincidência no gosto pela música de Gabriel Fauré, sobretudo a de câmara, de que Jankélévitch recorda o adagio do segundo quarteto, mas também, no meu caso, pelo amor à sua missa de requiem, de que te falei em carta quase recente. Se releres algumas das minhas cartas, verás bem como a noção de imperfeição (como algo inacabado, incompleto) é recorrente no meu discorrer, é sempre a perspetiva por que olho para a nossa própria condição humana, sem nunca pretender adivinhar-lhe o tempo e o modo de adventícia perfeição, mas amando-a sem cessar, na esperança do não-sei-quê, apesar de sermos um quase-nada. Eis o meu "mal de amor, nostalgia erótica, insuficiência amorosa, desejo de coisas inexistentes"... E é nessa contemplação do não-sei-quê pelo eu-quase-nada, que todos os dias renasço feito fé, a fé cuja substância é o tudo do algo que há de vir. Não sei quanto da "minha filosofia" foi influenciado ou será coincidente com o pensamento filosófico de Jankélévitch, mas neste encontro uma inspiração que me anima a pensar, quiçá em busca daquele algures no inacabado que dá título à coletânea de conversas de Vladimir com Beatrice Berlowitz:

 

Quelque part dans l´inachevé (Gallimard, Paris, 1978). O inacabado, para mim, disse-te eu, abre-se sobre o algo que há de vir. Mas antes, por seu lado, o filósofo francês escreveu:

 

   É verdade que esse algo é a unidade da natureza primitiva, a qual é coisa assinalável e, em suma, dizível: mas o facto de ser objeto de uma reminiscência pré-natal e dum voto meta-empírico maiores do que qualquer desejo sensível obriga Aristófanes a expô-lo metafisicamente e a dar-lhe um carácter tão inexplicável quanto inesgotável. Sem esse misterioso e sobrenatural Allo ti, a aporia de amor descrita em Fedra seria, ela também, uma evasiva? Tendo enumerado à maneira de Aristóteles as características da beleza poética, o jesuíta Rapin escreve: «Ainda há na poesia certas coisas inefáveis que não podemos explicar. Tais coisas são como que os mistérios dela.»

 

...   ...Esse «ainda» poético, tal como o algo erótico do discurso de Aristófanes, é uma alusão ao infinito e uma abertura ao indizível; esse "resíduo" de mistério é a única coisa que vale a pena, a única que importaria conhecer e que, como se propositadamente, permanece irreconhecível. O segredo, tal como diríamos da morte, está decididamente bem guardado, a ignorância humana foi decididamente bem combinada! Muitos nomes puderam ter sido dados a esse inominado inominável, muitas definições propostas para esse «algo outro» que não é precisamente como os outros porque em geral não é nenhuma coisa, nem coisa alguma.

 

   Tenho feito, vezes sem conta, uma experiência sensível, uma contemplação sensorial, de tal mistério secreto - se assim, Princesa de mim, lhe quiseres chamar. Atalhando, dir-te-ei que o monumento português que mais amorosamente visito é aquele céu aberto pelo inacabamento das capelas imperfeitas, no Convento de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha. É magnífica aquela estrutura de humana arquitetura, edificada para se fechar no topo e todavia incompleta, tão comovente testemunha, já meio milenar, da nossa imperfeição, por esforçada que esta seja... Como seria a nossa humanidade se todos nós aprendêssemos a reconhecer e amar com gratidão e alegria fraterna esta nossa imperfeita condição? Não te falo de resignação mas, antes e só, de consciência da nossa realidade presente, que também aspira à ascensão pelo espaço aberto da nossa liberdade. O nosso ser humano, imperfeito sim, mas em aberto, porque livre, não o vejo, não o pensossinto como vítima castigada de um pecado original, nem tampouco, nihilisticamente, como acaso sem porvir, destituído de qualquer sentido. Cada um de nós sabe que morrerá, mas não sabe quando. Nem sequer sabe o que é verdadeiramente a morte, para além do biologicamente verificável e juridicamente determinável. E, como discorre Jankélévitch num texto esclarecidamente intitulado Mors certa, hora incerta, tal ignorância cronológica basta para tornar lacunar o nosso conhecimento do que a morte realmente é:

 

   O conhecimento cronológico, dizíamos nós, implica, a fortiori, o conhecimento «ontológico». Ou, se tal linguagem me for permitida, é a «quandoïdade» que implica a «quodidade», e não inversamente! [Ou seja: só se sabe quando, quando se sabe o quê].

 

   E não será por tal razão que a data da nossa própria morte nos é sempre subtraída? Mors certa, hora incerta! Platão conta como Zeus, tendo retirado aos homens o dom da imortalidade, mas desejando todavia tornar-lhes mais suportável o castigo, decidiu que eles morreriam mas não teriam a presciência do dia nem da hora: foi-lhes assim poupado o suplício contranatura do condenado à morte. O homem sabe que morrerá, mas não sabe quando; e quem não sabe quando nem sequer sabe o quê, apenas sabe o facto na intensidade e urgência dramática; não sente a angústia crescer; ou, melhor, só «sabe que», mas por ciência geral e, de certo modo, silogística. Tudo se passa como se o destino nos subtraísse a data da morte para nos desviar do aprofundamento da sua natureza. 

 

   A partir duma certa idade, mais ditada pela condição própria do que propriamente pela nossa contagem cronológica, a morte surge-nos - mais do que como certeza preanunciada mas sem rosto nem data conhecida - como uma lembrança, uma antecipada recordação de nós, que entretanto já nos habituamos a evocar os nossos próximos que vão partindo. E só sabemos que o-não-sei-quê que nos espera em quando ignorado terá nesse momento uma resposta nossa, não instantânea mas longamente conservada no percurso desta vida que deixamos. Será um sim sincero e só nosso, tão inato como aquele que, ao nascermos, o nosso primeiro choro disse à vida. Porque, tal como ao princípio queríamos ver e depois querer, também agora ousaremos aquilo para que não sabíamos estar tão bem preparados. Talvez por não nos termos reconhecido nesse quase-nada (le Presque rien). Para ilustração do que te escrevo, Princesa de mim, vou buscar uma imagem de Vladimir Jankélévitch, escrita num contexto muito diferente, pela ocasião e pelo propósito, do deste final de carta minha:

 

   O pássaro não é um doutor em ciências que possa explicar aos seus confrades o segredo do voo. Enquanto vamos discutindo sobre o seu caso, a andorinha, sem mais explicações, levanta voo perante os espantados doutores... E, assim também, não há vontade sábia que possa explicar à Academia o mecanismo da decisão: mas em menos tempo do que o necessário para dizer o monossílabo Fiat, o pássaro Vontade já cumpriu o perigoso salto, o passo aventureiro, o voo heroico do querer; a vontade, deixando o firme apoio do ser, já se lançou no vácuo. 

 

   Há momentos em que, estranha e entranhadamente, sentimos confiança, afinal, no tudo desconhecido da nossa condição.

 

Camilo Maria

      
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   As meças de forças da Ordem do Templo com o poder político - e não só - foram-se sucedendo, acompanhando o crescimento daquela milícia religiosa, e do seu próprio poder financeiro e militar, aliás traduzido em praças fortes e territórios ocupados e governados por ela. Se, em 1147, o papa Eugénio III se desloca pessoalmente a Paris para assistir ao primeiro capítulo geral da Ordem, cujos cavaleiros partirão, como guarda especial do rei Luís VII de França na 2º cruzada, para a Terra Santa - expedição que foi um fracasso, obrigando o rei a colocar-se, ainda mais, sob a proteção  dos Templários - já em 1153, para proteger Jerusalém, onde reinava o jovem Balduíno III, com este participam na conquista da praça turca de Ascalão e, por terem sido quarenta dos seus cavaleiros os primeiros a nela entrar, o mestre Bernardo de Trémolay guardou-a para o Templo, o que foi mal percebido... Aliás, de nada lhes valeu, antes mal lhes veio, pois acabaram por ser massacrados pelos turcos, que a ocuparam até à sua reconquista, pouco depois, por Balduíno. O sucessor deste, o rei Amaury de Jerusalém, aliado ao imperador bizantino, irá romper a aliança do reino franco com o Egipto, em 1168. Tal expedição conta com a participação dos cavaleiros do Hospital, mas Bertrand de Blanquefort, mestre do Templo, recusa a dos seus monges guerreiros... E com razão, como reconhece o cronista Guilherme de Tyr: O mestre do Templo e seus frades nunca quiseram intervir em tal operação e disseram que não acompanhariam o rei nessa guerra. Pode bem ser que se tivessem apercebido de que o rei não tinha boa razão para guerrear os egípcios, violando as convenções garantidas pelo seu juramento. Logo depois, o advento de Saladino marcará o início da decadência e queda final do reino cristão na Palestina. Mas ainda levará algum tempo, posto que, antes da morte de Saladino, em 1193, perturbações entre muçulmanos os enfraquecerão e permitirão que S. João de Acre seja reconquistada por Filipe Augusto de França e Ricardo Coração de Leão, com notório apoio dos Templários, cujo Grão Mestre era Roberto de Sablé, nobre vassalo do rei inglês e seu amigo pessoal.

 

   Penso, Princesa, aqui neste sossego dos campos a que a aproximação do Inverno vai retirando os tons de oiro e fogo com que o Outono os cobrira, que - como tão bem o explanou Ibn Khaldun, de quem várias vezes te falei - o percurso histórico de reinos e instituições é, à imagem da mãe natureza, um surto e florescimento, um apogeu de frutos, ceifas e colheitas, um esplendor decadentista, já glorioso como um canto de cisne moribundo, e finalmente um esquecimento silencioso, onde apenas os olhos do coração vêem o invisível...

 

   Para a Ordem do Templo, a dos Pobres Cavaleiros de Cristo, a secreta fecundidade do Inverno deu-lhes nova vida nos reinos ibéricos, ainda a braços com o fim da Reconquista e a ameaça costeira de piratas mouros, já tentados por aventuras africanas e, ainda, pelo rodeio do aperto islâmico através da circunvalação de África e o acesso ao riquíssimo comércio do Oriente longínquo. Assim se transformaram, em Portugal, os Templários em cavaleiros só de Cristo, e a Ordem desempenhou o papel de sustento, até financeiro, das Descobertas.

 

   Já não me recordo da data em que te escrevi as linhas acima, nem sequer se foi no Outono passado ou noutro anterior. Mas lá falo da aproximação do Inverno... Hoje, ocorreu-me vir recuperá-las, lembro-me ainda de que iniciavam uma carta que era sequência de outras que te enviara. Assim sucede agora, por ter lido, no Figaro Littéraire deste 6 de dezembro, a resenha de um livro da professora italiana Simonetta Cerrini, agora traduzido para francês, com o título Le Dernier Jugement des Templiers (Flammarion, 2018). Tal obra vem ao encontro do que há muito penso e já em parte te dissera: houve (e há) mais fantasia e muito gosto de fábulas misteriosas - do que trabalho aturado e sério de investigação - em muito do que por aí se tem contado dos Templários. O livro da historiadora Simonetta Cerrini, doutorada pela Universidade Católica de Milão, deve certamente ser obra fundamentada e documentada, até porque a autora há muito se dedica ao estudo da Ordem do Templo. Não resisto a deixar-te aqui um trecho longo e elucidativo da resenha feita, no Figaro, por Paul-François Paoli. Traduzo:

 

   Ela retraça a história do que acha que constitui o primeiro grande processo político da história de França, enquanto nos vai propondo uma leitura dos documentos da época. Designadamente, a decifração de uma bula do papa Clemente V, Vox in excelso, datada de 22 de março de 1312, e da qual encontrou várias cópias. Nela o papa aprovava a dissolução da Ordem dos Templários, sem contudo se solidarizar com os métodos de terror utilizados por Filipe o Belo, que acusava os cavaleiros de todos os pecados do mundo...   ... As acusações que Filipe o Belo levantava contra esses briosos que haviam feito voto de pobreza e castidade, e cuja missão era, na origem, proteger os peregrinos que partiam para as cruzadas [melhor dito, penso eu : para a Terra Santa] eram as piores que se podiam fazer. A mais grave era a heresia e a blasfémia, sem esquecer a avareza, a acumulação de riquezas, a sodomia, etc. Para a historiadora, que recorda que Dante, no Purgatório, acusa Filipe o Belo de cupidez e crueldade, não há qualquer dúvida de que o grande culpado de todo este caso é o próprio rei, que quer deitar mão às riquezas de uma Ordem cujos membros se pensa estarem ao serviço dos pobres. Não é que os Templários nada tivessem de censurável, pois até Jacques de Molay, seu derradeiro grão mestre, desejava reformar essa contestada Ordem. Mas o que surge patente, ao correr das páginas, é o carácter monstruoso da maquinação de Filipe o Belo, cujos métodos parecem prefigurar os piores processos por bruxaria dos estados totalitários...

 

    Quase a fechar esta, vou a palavras da própria Simonetta Cerrini, onde encontrarás lembranças de apontamentos feitos nas minhas cartas sobre Templários, escritas após uma visita especial ao Convento de Cristo, em Tomar, onde o nosso guia povoou o cenário de fantasmas. O que me traz escritos e datas à memória: são nove (9!) cartas que te escrevi, publicadas depois pelo blogue do CNC entre 23 de outubro e 27 novembro de 2016. Escreve a professora Cerrini no seu último livro:

 

   Nenhum soberano seguirá o rei de França nessa cruzada contra o Templo...   ... Quando o papa Clemente alargou o seu inquérito a todos os países que albergavam casas templárias, deve ter-se apercebido, ainda que demasiado tarde, de que Filipe o Belo tinha criado, não só uma bolha financeira, mas também uma bolha místico-mediática destinada a apoiar um "Estado totalitário", sobre cujo altar os guardiães do Templo de Salomão deviam ser sacrificados.

 

   Tardia embora, a "revisão" papal todavia permitiu a "conversão" da Ordem do Templo noutras novas ordens. Em Portugal, como sabemos, na de Cristo, por vontade também, e militante, d´El-Rei Dom Diniz, o Lavrador. Este monarca foi muito ativo em política de consolidação da soberania portuguesa e reforço do poder régio. O que explica como, durante o seu reinado, as relações com o papado tivessem sido muito marcadas por questões relacionadas com as ordens religiosas militares. Assim, é nessa época que os cavaleiros portugueses da Ordem de Santiago passam a eleger, direta e separadamente de Castela, o seu mestre. E, após a extinção papal da Ordem do Templo, Dom Diniz opõe-se à entrega dos seus pertinentes bens à Ordem do Hospital, e à própria Igreja, colocando-os sob a alçada da coroa. Finalmente, consegue, em 1319, que o papa João XXII institua, pela bula Ad ea ex quibus, a Ordem de Cristo, bem portuguesa, recetora de todos os bens dos nossos Templários.

 

    Assim te voltei a falar dos Templários, cumprindo, Princesa de mim, o desejo que formularas, e sorrindo amareladamente à lembrança de que já em tempos idos - sem tweeters, televisões, rádios, revistas e jornais - os autores políticos criavam histórias e lançavam caçadas a possíveis bruxas, em busca de um conveniente desenho de bodes expiatórios que vocacionassem iras... Hoje, democraticamente, tal panorama alastrou e quotidianamente vai tentando preencher os nossos horizontes. Os debates de ideias e projetos vão cedendo espaço à multiplicidade dos ataques ad hominem, a promiscuidade do aparelho judicial com o mediático vai gerando borradas confusões, juízes e processos em justiça tornam-se actores e cenários de outras guerras e disputas. O celebrado, consagrado princípio da separação de poderes (o executivo - e o moderador - o legislativo e o judicial) cada vez mais dificilmente consegue afirmar a independência judicial, quer por não se conseguir libertar este poder da contínua conspiração política em que vivemos, quer por demagogicamente o substituírem pela chamada comunicação de massas (pelas redes públicas e pelas ditas sociais). Um dos mais graves problemas a resolver nas democracias hodiernas tem, precisamente a ver com a afirmação, estruturação, disciplina e independência erga omnes do poder judicial e seus aparelhos.

 

    Não será esta carta para ti, Princesa de mim, o foro curial para uma reflexão sobre tão complexa questão política, jurídica e comunitária. Mas todavia  -  quiçá por tanto me enjoar o meu desgosto das comuns intrusões na privacidade alheia, dos processos de intenções, das sistemáticas violações do direito ao bom nome e ao juízo justo (ter-nos-emos esquecido desse ensinamento que nos deram quando crianças - do próximo, ou bem ou nada - ?), sim, Princesa, talvez por isso, não resisto a falar-te do último livro da historiadora britânica da cultura, Tiffany Watt Smith: Schadenfreude: The Joy of Another´s Misfortune, Little, Brown Spark, 2018). Este título recorre à união de dois termos germânicos (Schaden, prejuízo, pena, e Freude, alegria) para exprimir o sentimento mesquinho que é a satisfação pelo mal infligido ou acontecido a outrem. Não te contarei aqui as várias teorias que a autora refere para explicação de vício humano tão antigo. Até os gregos já o denunciavam, designadamente por palavra atribuída a Aristóteles: epichairekakia. Mas pretendo salientar a observação que Tiffany Watt Smith faz de que os tempos hodiernos são a idade de ouro da alegria malévola (ou do gozo malevolente). As redes sociais, ao abrirem-nos múltiplas oportunidades para nos maldizermos uns aos outros, lisonjeiam os nossos instintos mais baixos e proporcionam-nos algumas miseráveis delícias.

 

   Perante tão afligente panorama, mais intensamente pensossinto a necessidade imperiosa de um pacto do regime democrático que veicule a construção política de um sistema de justiça que possa cumprir, tanto quanto possível, a sua finalidade, isto é, dar a cada um o seu direito: jus suum cuique tribuendi, dizia Ulpiano, que tanto gosto de citar. Tal aparelho terá, provavelmente, de ser concebido fora da lengalenga habitual da limitada imaginação política reinante, de forma a assegurar a sua imprescindível independência e a necessária transparência dos seus procedimentos. E para nos ir ajudando a acabar com essa praga de "processos públicos", tão tristemente marcados por intenções persecutórias e sanhas ou, ainda, em contradição, por habilidades e manobras dilatórias e encobridoras... Até chego a perguntar-me se, ao fim e ao cabo, não andarão por aí muitos mais culpados em liberdade (mesmo que relativa, vigiada ou condicionada), do que menos culpados em prisões.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Chamou-me há dias a atenção o título de uma crónica de Ana Ruepp no blogue do Centro Nacional de Cultura: A cidade segundo George Perec. Assim mesmo, George escrito à inglesa, e não Georges à francesa. No texto, todavia, a ortografia do nome do escritor francês está correta, ainda que as citações de passos da sua obra, nesse caso do ensaio Espèces d´Espaces (ou Spaces Species na tradução inglesa da Penguin) sejam todas reproduzidas da versão anglo-saxónica, e sem tradução para português. Estranhei o facto, até porque Georges Perec apenas publicou um ensaio, esse mesmo, sendo o resto da sua obra livresca publicada em vida constituída por seis romances (alguns bem longos), mais dois livros de poesia, dois autobiográficos, e duas peças de teatro. Nascido em Paris, em 1936, de pais judeus polacos imigrados em França e vítimas da guerra e da ocupação nazi logo no início dos anos 40. Será admitido no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) em 1961, como documentalista no laboratório de neurofisiologia médica, que deixará em 1978 para se tornar exclusivamente um homem de letras. Nesse ano, quatro antes de morrer de cancro no pulmão (1982), publica La Vie mode d´emploi, romance originalíssimo, que lhe valeu ser entrevistado por Jean-Louis Ézine para o Magazine Littéraire:

 

   - V. é o acrobata da literatura contemporânea...  ...faz proezas, mas será romancista? - Quero ser!

 

   Na verdade, se, além do volume e da importância do género romance no conjunto da sua obra, considerarmos que os dois maiores prémios literários que recebeu foram atribuídos a romances seus (o Renaudot a Les Choses e o Médicis a La Vie mode d´emploi), ou ainda o que, afinal, ele próprio pretende dizer de si numa conferência proferida na Universidade de Warwick, que intitulou Pouvoir et limites du romancier français contemporain, é indiscutível que ele se reconhecia na vontade e na realidade da sua condição de romancista. Mesmo apesar da versatilidade da sua obra (Bernard Magné diz bem: Ses romans se suivent sans se ressembler - os seus romances sucedem-se sem se parecerem), ou da sua desconcertante originalidade, que torna impossível classifica-lo em qualquer "escola" ou "estilo". Quando lemos Perec, espanta-nos a extensão da sua erudição por diversíssimos campos, e o trabalho da sua cultura, infatigável na procura e consideração de coisas e conceitos, capaz ainda de criar e prover uma artesania do real e do imaginário. Mutatis mutandis - desculpa-me a ousadia, Princesa de mim, mas se fores psicanalista de textos talvez me entendas - ao ler as seis centenas e meia (?) de páginas de La Ve mode d´emploi, muitas vezes visualmente me ocorre a Sagrada Família de Barcelona, do "ourives" Gaudi.

 

   Magné, responsável pela edição e apresentação da coleção dos seis romances publicados em vida do autor e mais dois póstumos (La Pochotèque, 2004), observa como aquele «romancista francês contemporâneo», surpreendente pela sua versatilidade, gabando-se de «nunca ter escrito dois livros semelhantes», só poderá, evidentemente, oferecer aos seus leitores romances díspares, passando, em quatro anos, da pintura flaubertiana de uma geração (Les Choses, uma história dos anos 60) à narrativa burlesca de Quel petit vélo à guidon chromé au fond de la cour? (1966), cujo título constitui, por si só, uma provocação, voltando depois a ser sério, regressando a Proust e ao Bartleby de Melville para escrever o seu terceiro romance Un homme qui dort (1967), antes de redigir um romance inteiro sem E: La Disparition (1969). E será, Princesa de mim, tal ausência de letras E em todo o texto, sinal, estigma ou sacramento de O Desaparecimento?

 

   Mas parece-me acertado perceber, subjacente à sua incessante busca de originalidade e surpresa - e por paradoxal que este reparo surja -, uma intenção de realismo, no sentido em que Lukács significava o realismo crítico: O realismo não é um estilo entre muitos outros, mas a própria base de toda a literatura. Pensamento e sentida inspiração que Perec retoma ao dizer do realismo: Não se trata de uma escola, de uma técnica, de uma tradição: a função da literatura é ser realista. Ou ainda: A primeira exigência do realismo é a vontade de totalidade.

 

   Tal intuição e procura da realidade escondida e fecundante das coisas será, talvez, o início propulsor de uma visão quase inversora da ordem de tudo o que vemos e julgamos conhecer. Nesse sentido, Espèces d´espaces talvez não seja, de facto, propriamente um ensaio sobre a plasticidade, a ocupação ou a construção do espaço, nem do seu desenho ou arquitetura, mas muito mais um exercício de entendimento dos espaços como apenas função da presença humana que os habita. Assim, são certeiramente reveladoras do olhar pereciano as citações que dele faz Ana Ruepp, por exemplo: Não há nada desumano numa cidade, a não ser a nossa própria humanidade...   ... Gosto da minha cidade, mas não sei dizer exatamente de que é que gosto nela. A ilustração dos espaços desenhados pela íntima habitação deles pelos humanos é, afinal, o "enredo" dos romances de La Vie mode d´emploi, que mais não são do que narrativas curtas e incisivas de momentos ou segmentos de vidas, gestos e memórias dos moradores e ex-moradores dum edifício de apartamentos em Paris, todos estes, aliás, identificados pelos nomes dos seus ocupantes, quer nos subtítulos dos capítulos respetivos, quer numa "planta" vertical do próprio edifício. E, definitivamente, se as escadas do prédio, cujo elevador está quase sempre avariado, são caminho de encontros e intercâmbios, mesmo essas são habitadas, animadas, por gente: Nas escadas passam as sombras furtivas de todos os que um dia lá estiveram (Capítulo XVII, Dans l´escalier, 2). E as sucessivas visitas que o leitor vai fazendo por todo o edifício são como um percurso de diaporamas, em que as pessoas e a disposição, formas e cores, dos espaços e objetos são histórias ilustradas. Até lá poderia estar a Casa da Mariquinhas, do Alfredo Marceneiro. [ai vê-la ao Museu do Fado, é lá que está, não é?]. As salas e quartos podem estar desertos de gentes, os móveis e coisas várias dizem-nos quem elas são. Textos inteiros só nos descrevem objetos em espaços que foram ou são habitados, simples inertes testemunhos de presenças vivas: Será algo como uma lembrança petrificada - escreve Perec - como um desses quadros de Magritte em que não sabemos muito bem se a pedra se tornou viva ou se a vida se mumificou, algo como uma imagem fixada uma vez por todas, indelével...

 

   O texto de La Vie mode d´emploi é fracionado, como um puzzle, em minúsculos capítulos e subcapítulos, e o próprio subtítulo da capa do livro indica que não se trata de um romance, mas de romances: La Vie mode d´emploi - Romans. O capítulo I subintitula-se Dans l´escalier (Nas escadas), sendo que tal intitulação se repetirá em vários capítulos seguintes: o espaço é parte integrante das personagens, como se estas o definissem sem lhe dar identidade própria. As escadas comuns são o acesso de todos e cada um ao seu próprio espaço, assim têm os espaços espécies. E assim começa esse capítulo I(traduzo):

 

   Sim, isso poderia começar assim, aqui mesmo, desta maneira um pouco pesada e lenta, neste local neutro que é de todos e de ninguém, onde as pessoas se cruzam sem quase se verem, onde a vida do imóvel se repercute, longínqua e regular. Do que se passa por detrás das pesadas portas dos apartamentos, quase sempre só percebemos ecos afastados, esses pedaços, esses restos. esses esboços, esses começos, esses incidentes ou acidentes que se desenrolam no que chamamos as «partes comuns». esses barulhinhos filtrados que o tapete de lã vermelha abafa, esses embriões de vida comunitária que nunca passam dos patamares. Os habitantes dum mesmo imóvel vivem a poucos centímetros uns dos outros, uma mera divisória os separa, partilham os mesmos espaços que se repetem ao longo dos andares, fazem os mesmos gestos ao mesmo tempo, abrir a torneira, puxar o autoclismo, acender a luz, pôr a mesa, algumas dezenas de existências simultâneas que se repetem de andar em andar, e de imóvel em imóvel, e de rua em rua.

 

   No fundo, fica por descobrir a arquitetura comum, o enigma (puzzle, em inglês) do ser urbano. No preambulo do livro de que falamos, Princesa de mim, Georges Perec cita Paul Klee (cf. Pädagogisches Skizzenbuch): O olhar segue os caminhos que a obra lhe preparou. E analisa então o seu conceito do puzzle como lição sobre a perceção do real e do seu espaço:

 

   À partida, a arte do puzzle parece uma arte breve, uma arte esguia, cabendo inteirinha num magro ensinamento da Gestalttheorie (teoria da forma): o objeto visado  -  quer se trate de um ato percetivo, duma aprendizagem, dum sistema fisiológico ou, no caso presente, dum puzzle de madeira  -  não é uma soma de elementos que se deveriam isolar e analisar primeiro, mas um conjunto, isto é, uma forma, uma estrutura : o elemento não é preexistente ao conjunto, nem mais imediato nem mais antigo, não são os elementos que determinam o conjunto, mas o conjunto que determina os elementos : o conhecimento do todo e das suas leis, do conjunto e da sua estrutura, não poderá ser deduzido do conhecimento separado das partes que o compõem : quer isso dizer que podemos olhar para uma peça de puzzle durante três dias e julgar tudo saber da sua configuração e da sua cor sem termos avançado sequer um pouquinho : apenas conta a possibilidade de ligar essa peça a outras peças, e nesse sentido há algo de comum entre a arte do puzzle e a arte do gô; só as pedras reunidas ganharão um carácter legível, ganharão sentido: considerada isoladamente uma peça dum puzzle não quer dizer nada ; é somente uma questão impossível, desafio opaco ; mas logo que tivermos conseguido, ao fim de vários minutos de ensaios e erros, ou em meio segundo prodigiosamente inspirado, a conectá-la com uma das suas vizinhas, eis que a peça deixa de existir enquanto peça : a intensa dificuldade que precedeu essa aproximação, não só já não tem razão de existir, mas até parece nunca a ter tido, a tal ponto se tornou evidência : as duas peças milagrosamente reunidas mais não são do que uma só, por sua vez fonte de erro, de hesitação, de desapontamento e de expectativa.

 

   Tenho os Romans § Récits de Georges Perec entre os livros vários que me tentam, e me desafiam o sono, à cabeceira da cama. Nesta viragem de um algarismo da data anual (de 8 para 9), longe da estridência das cidades, encontrei neles o meu espaço interior, como voz clamando no silêncio dos campos. Mais do que levar-me a refletir sobre as efemérides do ano terminado - e ano em que me foram morrendo tantos amigos de décadas - este estado de mediatização entre o passado e o interrogado, o visto, o entrevisto e o invisível, prende-me à meditação de Valène, o mais antigo locatário desse edifício de apartamentos no XVIIème de Paris:

 

   Valène, por vezes, tinha a impressão de que o tempo se tinha quedado, suspenso, imóvel em redor de uma espera que ele desconhecia. A própria ideia daquele quadro que ele projetava fazer e cujas imagens expostas, explodidas, tinham começado a assombrar todos os seus instantes, mobilando os seus sonhos, forçando as suas lembranças, a própria ideia desse imóvel esventrado pondo a nu as rachas do seu passado, o desmoronamento do seu presente, esse amontoamento sem continuação de histórias grandiosas ou irrisórias, frívolas ou lamentáveis, faziam-lhe o efeito de um mausoléu grotesco levantado à memória de comparsas petrificados em posturas derradeiras tão insignificantes na solenidade como na banalidade, como se ele tivesse querido simultaneamente prevenir e atrasar essas mortes lentas ou vivas que, de piso para piso, pareciam querer invadir a casa inteira.

 

   Georges Perec bem sente e sabe que, se o passamento dos humanos pelo espaço-tempo neste sempre deixa o rasto dessa passagem, indelevelmente também o marca como efémero: Um dia sobretudo, será a casa inteira a desaparecer, e morrerão aquela rua e o bairro inteiro. Levará tempo. Ao princípio, parecerá uma lenda, um rumor apenas plausível: teremos ouvido falar duma extensão possível do parque Monceau, ou dum projeto de grande hotel, ou duma ligação direta entre o Eliseu e Roissy que tomará para ir ter ao periférico o trajeto da avenida de Courcelles. Depois, serão mais precisos os boatos; dir-nos-ão o nome dos promotores e a natureza exata das suas ambições, que luxuosas brochuras em quadricromia virão ilustrar...

 

   ... Mas antes que do solo surjam esses cubos de vidro, de aço e de betão, haverá o longo apalavrar das vendas e das retomas, das indemnizações, das permutas, dos realojamentos, das expulsões. Uma após uma, serão encerradas as lojas, e não serão trespassadas, uma a uma serão muradas as janelas dos apartamentos devolutos, e arrombados os seus soalhos para desencorajar aproveitadores e sem-abrigo. A rua mais não será do que uma sequência de fachadas cegas - janelas semelhantes a olhos sem pensamento - alternando com paliçadas maculadas de cartazes e grafiti nostálgicos...

 

   ... Quem é que, diante dum imóvel parisiense, nunca pensou que ele era indestrutível? Uma bomba, um incêndio, um tremor de terra poderão certamente derrubá-lo, mas se assim não for? Comparado a um indivíduo, uma família, ou mesmo uma dinastia, parecem inalteráveis uma cidade, uma rua, uma casa, inacessíveis ao tempo, aos acidentes da vida humana, a tal ponto que cremos poder confrontar e opor a fragilidade da nossa condição à invulnerabilidade da pedra. Mas a mesma febre que, por volta de 1850, nas Batignolles como em Clichy, em Ménilmontant como na Butte-aux-Cailles, em Balard como no Pré Saint-Gervais, fez surgir da terra estes edifícios, esganar-se-á doravante a destruí-los...

 

   ... Os bulldozers infatigáveis dos niveladores virão levar os restos: toneladas e mais toneladas de detritos e de poeiras. 

 

   E mais te digo, Princesa de mim: quem se lembrará hoje de que o Arco do Triunfo, em Paris, foi levantado no campo? ou quantos se avisarão de olhar para as matrículas dos autocarros para saber se estão nessa cidade? Retomo afinal, nestas duas interrogações, mais duas citações de Georges Perec feitas na tradução inglesa utilizada pelo artigo referido no início desta carta. E revejo-me em Paris - onde hoje vivem filha, genro e três netos -, cidade entre outras a que pertenço, porque qualquer ser humano guarda sempre um pouco, ou muito, dos espaços que habitou.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de, no princípio dos anos 70, ir muito a Paris, às vezes com o João Cravinho, para reuniões na OCDE. [Ambos trabalhávamos então com o Secretário de Estado da Indústria (SEI), Rogério Martins: o João, muito mais qualificado, era o diretor geral do GEBEI - Gabinete de Estudos Básicos de Economia Industrial; eu era jovem assessor do SEI para as relações internacionais, e delegado ao Comité de Indústria da OCDE].  Costumávamos ficar num pequeno hotel da rue du Bois de Boulogne, à avenue Foch, donde, a pé, partíamos todas as manhãs, em passeio higiénico, para os nossos trabalhos no Château de la Muette. No regresso, ao fim do dia, acontecia-nos, quando mais cansados e com menos tempo, jantar algures nos Champs Élysées e ir comprar uns jornais ou revistas, nalguma drugstore. Por mim, juntava-lhes quase sempre uma banda desenhada, para surpresa do João Cravinho, que não entendia como é que eu podia gostar "daquilo". A verdade é que, desde os meus cinco anos, toda a vida me deliciei com histórias aos quadradinhos, e hoje ainda releio com confessado gosto muitas delas. Esta noite ainda, quase em 2019, calhou-me uma curiosa aventura do Tintin, em dois volumes: Les Sept Boules de Cristal e Le Temple du Soleil. Digo curiosa, porque, para além de temas comuns a muita literatura - como a ilusão e a magia, o secretismo, a descoberta e a maldição - o fio condutor desta história, a sua intriga fulcral, me parece ser a loucura. É ela o castigo que o espírito inca reserva para os cientistas aventureiros que ousem violar os seus mistérios, é dela que eles serão finalmente libertados, depois de Tintin ordenar ao sol em eclipse que reapareça - para assim obter, além do fim da maldição dos sábios hospitalizados, a própria libertação, e a dos seus inseparáveis amigos, em troco da promessa de manter secretos os segredos dos incas clandestinos, escondidos nas altitudes da sua milenar terra natal, em ruínas conservadas do seu perdido império. Mais: é a loucura, sobretudo ela, que espreita toda a gente, desde logo, nas páginas iniciais, a dos pacíficos burgueses que, no compartimento de comboio em que Tintin lê o jornal, espreitam os títulos das notícias de maldições, e logo se assustam muito, receosos do contágio da loucura de sonhos aventureiros... 

 

   Nota bem, Princesa de mim, que, de certo modo, é com audácia -- à qual, como à clarividência, tantas vezes chamamos louca - que Tintin vence a loucura. Esta surge manifestada por histerismos doentios, pelo medo, ou qualquer terror inspirado por fantasmas íntimos que as vítimas sofrem mas não conseguem expulsar. Como se, confusa, a consciência a si mesma se perseguisse... Ou um sonho tenebroso nos habitasse como se fosse real. Tintin também é perseguido: está a dormir no seu quarto, na enorme moradia do professor Bergamotte, onde se conserva a múmia de Rascar Capac, quando esta fantasmática figura lhe entra pela janela aberta e lança ao chão, quebrando-a, uma bola de cristal contendo gás de loucura. Assustado, o nosso herói salta da cama e verifica que, afinal, o vento e a chuva de uma borrasca é que lhe haviam aberto a janela, e quebrando-lhe os vidros. Tudo o mais não passara de sonho. Reparei numa jarra azul com flores, posta numa mesa de canto, junto à janela. Com a violência da rajada que a abriu, esta tombou aquela sobre a tal mesa, e caíram as flores. O pormenor da jarra vê-se claramente em três dos quadradinhos em que surge Rascar Capac. Tombada, surge noutros três, em que o fantasma está ausente e Tintin, bem acordado, regressa à realidade. Ocorreu-me a semelhança entre essa jarra e suas flores e o quadro de Van Gogh, Fleurs dans un Vase Bleu... Evocação da loucura, de uma intoxicação? Apenas pensossinto que, mesmo inconscientemente, Georges Rémy evoca ali, sob a aparência de coloridas flores, a perturbação que o pintor holandês também experimentou. A angústia é ali insídia interior, talvez a nossa consciência imperfeita em atroz desespero por não se nos encontrar nas explicações do universo e da vida. Histórias, novelas, desenhos e filmes de terror são exorcismos dessa coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

   Só saímos dessa perplexidade respirando fundo, contando até dez, somando dois mais dois, e indo chamar pessoas e coisas pelos nomes que sabemos. Ou, mesmo antes, tocando fisicamente em algo à mão. Ser e sentir-se animal é melhor antídoto da angústia do que qualquer metafísica. Come chocolates, pequena..." aconselharia o Álvaro de Campos. Ou, melhor ainda, outro dos heterónimos do Fernando Pessoa (qualquer deles um exorcista das suas angústias), sabiamente:

 

Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Esta confissão de Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, é uma profissão de fé quando o mesmo assim fala: Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou...

 

   Alternamente formuladas - outra vez pelo engenheiro Álvaro de Campos, agora no seu Lisbon Revisited (1926) - as mesmas sugestões vão-se deixando tentar pela metafísica literária:

 

   Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
   Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces, 
   Para que chames desconhecido a qualquer cousa em especial?

 

   Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
   Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
   Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
   Dispersa-te, sistema físico-químico
   De células noturnamente conscientes
   Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
   Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
   Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
   Pela névoa atómica das cousas,
   Pelas paredes turbilhonantes
   Do vácuo dominante do mundo...

 

   A religião não é mezinha nem cura para a angústia. Não a tentes para o efeito, Princesa de mim. A própria experiência religiosa, mesmo mística, pode sofrer angústia. A presença sentida de Deus não o torna visível nem palpável, já são Paulo ensinava aos hebreus que a fé é a substância das coisas por vir. Todos os dias chamamos: Vinde Senhor Jesus! Como já o salmista interpelava "de profundis da sua angústia" o Senhor que não via.

 

   Ao que outros percebem como inexistência de Deus - por falta de prova experimental ou científica -, e, outros ainda, como simples ausência, chamam os crentes o silêncio de Deus. Destes, há os que reclamam sinais - dos tais que Jesus repetia terem sido já dados - talvez esquecidos da lição a São Tomé: acreditas porque viste; bem aventurados os que creem sem ter visto. Em religião, a resposta ao silêncio de Deus é o nosso silêncio que escuta. A experiência mística não é uma prece.  É uma comunhão. Esta pressupõe disponibilidade e despojamento, cujo exercício é ascese espiritual, a qual não se funde com quaisquer regras mecânicas ou rituais de calculada ou previsível eficácia, ou seja, não é um tratamento. Antes e só uma predisposição à escuta do silêncio que fala. Será difícil, em tempos de pressas e correrias, de fabricação constante de palavras e discursos, explicações e receitas, e, porque pensa que tudo se faz, considera que a escuta do silêncio é uma atitude passiva. Mas, de outro modo, poderemos entendê-la como essa talvez esperança que suspende o final da Ode Mortal de Álvaro de Campos:

 

   E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,
   E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
   E será o Inesperado que eu esperava -
   O Desconhecido que eu conheci sempre -
   O único que eu sempre conheci...

 

   Afinal, pela sua imperfeição, talvez a condição humana seja heroica. E talvez por ser louca e longa a silenciosa espera, na escuridão da noite vá nascendo o dia. Para que possamos dizer, como Ungaretti: M´illumino d´immenso... Poema brevíssimo, intitulado Mattina (Manhã na versão portuguesa de Orlando de Carvalho - Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, 1971 - que reza assim: Deslumbro-me / de imenso). Na minha tradução, opto por Alumio-me de imenso: não só, nem tanto, pela maior proximidade ao original italiano, mas por me parecer que, antes do deslumbramento (talvez mais sensorial e subjetivo) a iluminação vem de além, é o dom da luz, é a clarividência, a lucidez. Deslumbro-me depois de ter sido aceso como o Buda ou Paul Claudel em Notre Dame de Paris, ou claramente derrubado - porque perseguia ou desafiava - como São Paulo a caminho de Damasco. Sobre tão imensa luz que me alumia te escrevi, em 18 de maio de 2014, uma carta que o blogue do CNC publicou naquela data... Relia-a hoje.

 

Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua biografia de Pio V (sim, esse, o papa de Lepanto) - Saint Pie V, le pape intempestif (Le Cerf, 2018) - frei Philippe Verdin, também dominicano, entusiasma-se com o facto de três personalidades tão distintas (Pio V, Carlos Borromeo, Filipe Néri, todos aliás posteriormente canonizados) se terem conjugado para desenvolver a reforma católica da Igreja pós tridentina. Vale a pena traduzir-te um trecho saboroso e esclarecedor, em que o biógrafo coteja Pio com Filipe, ambos eles amigos e veneradores de Carlos, que lhes retribuía na mesma moeda:

 

   Pio V não o compreende (a Filipe Néri). O papa inquieta-se com a sua doutrina e amizades com judeus e ciganos. Não gosta dessa loucura saltitante, a raiar o desrespeito, daquelas pantominas. Convoca-o e põe-no em sentido. Mas Filipe é edificante pela submissão e humildade. E Carlos intervém para lembrar os frutos do ministério oratoriano - [Filipe é fundador da Congregação do Oratório, à qual, mais tarde, pertencerão os nossos Bartolomeu do Quental, Manuel Bernardes e Luís António Verney] - e diz ao papa: «Filipe e vós combateis o mesmo combate, Santo Padre. Tendes a mesma paixão pela liturgia, os mesmos mestres teatinos, o mesmo zelo pela Igreja. Nunca Vossa Santidade ouvirá o Filipe criticar a autoridade pontifícia, nem pôr em causa uma só vírgula das vossas bulas. Todavia, vós agis em conformidade com o vosso papel e à vossa maneira, com autoridade, enquanto que ele o faz pela influência.»  A título de curiosidade, Princesa de mim, lembro-te de que Sto. Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, conheceu pessoalmente S. Filipe Néri e admirava a bonomia da sua pastoral. S. Pio V, todavia, não se agradava com a sua aparente leviandade de maneiras, mas tolerava-as, pensando que ele era um santo, e aos santos tudo se perdoa. Escreve frei Filipe Verdin que o seu biografado diria para consigo: Ele é um amigo de Deus e há muitas moradas na casa comum, muitos membros diferentes no Corpo de Cristo. Esta diversidade é espantosa, mas inconfortável.

 

   E o dominicano francês continua: Tal incompreensão lembra-me os dois dominicanos mais famosos ao tempo da minha entrada na Ordem, e dos quais terei a sorte de me tornar amigo: Christof Schönborn, cardeal arcebispo de Viena e autor do Catecismo Católico, tal como Pio V; Timothy Radcliffe, inglês fantasista e cheio de humor, Mestre Geral da Ordem. Esses dois homens respeitavam-se, mas não se compreendiam. Timothy, de jeans rasgados e cabelo em desordem, irritava Christof, um clássico, amigo de Bento XVI. Eis o equilíbrio precário, que encontramos em cada época da Igreja, necessário à vida dela, entre a retenção hierárquica e o impulso carismático.

 

   Vem esta carta falar-te dessa misteriosa coexistência, debaixo do mesmo tecto - como também há milénios ensina o Tianxiá chinês, e podemos nós, cristãos de muitos e diversos tempos e berços, repetir, talvez chamando-lhe, não já céu, mas manto de misericórdia - de todos os homens de boa vontade que, na mensagem cristã, são a glória de Deus. Tal coexistência não é apenas simultaneidade, mas convívio e cooperação. E traz-me à memória aquela sentença de Paul Claudel: Um católico não tem aliados, só pode ter irmãos.

 

   Un catholique n´a pas d´alliés - eis o título de uma coletânea da correspondência epistolar de Jacques Maritain com Paul Claudel, Georges Bernanos e François Mauriac, todos franceses do século XX, e católicos, o primeiro  sendo um filósofo oriundo de família protestante e republicana,  os outros três grandes escritores, dois deles, aliás, consagrados pelo Nobel e membros da Académie Française.[Só Bernanos ficou fora das honras oficiais, por opção própria, tendo recusado três vezes a Légion d´Honneur - considerando que só a soldados era devida - e chegado a dizer, bem ao seu jeito, acerca da Academia: Je ne voudrais empêcher personne de s´habiller d´une manière ridicule, mais il y a des vérités qu´on ne saurait dire, ni même écrire, en habit de carnaval.] O professor Henri Quantin, organizador desta edição (Éditions du Cerf, 2018), a dado passo da sua introdução, escreve: As cartas aqui reunidas testemunham que pode haver correspondência epistolar sem «correspondência de ideias e de gostos», porque o Evangelho é uma boa nova para anunciar, não uma ideologia para triunfar. A Igreja não é um partido político cujos membros tenham de, ou seguir uma linha eleitoral ou, então, bater com a porta, mas uma família cujas reuniões podem exaltar-se, vez sim, vez não, sem que os irmãos deixem por isso de ter o mesmo Pai. Eis palavras de uma das últimas cartas de Claudel a Maritain: «Espero que tenha esquecido os nossos pequenos desentendimentos, que pessoalmente nunca me impediram de reconhecer em si um irmão com quem tenho orgulho de partilhar uma fé comum». Aquando desses «pequenos desentendimentos», Claudel até chegara a chamar imbecil a Maritain, mas trata-se, afinal, de um adjetivo muitas vezes utilizado entre irmãos... 

 

   Explica Quantrain queTal fraternidade conflitual explica a ordem escolhida para este volume: começar por Mauriac, continuar com Claudel e acabar com Bernanos é uma maneira de submeter a caridade e a paciência dos Maritain a provas de dificuldade crescente. É certo que os irmãos não são aliados, mas certas alianças feitas por um irmão podem tornar mais difícil a vida em fraternidade. A defesa de Drumont por Bernanos será, por exemplo, difícil de aceitar pelo autor de L´impossible antisémitisme. De maneira geral, na ordem das ideias políticas em sentido lato, Claudel e Bernanos afastam-se muitas vezes de Mauriac, ficando este mais próximo das posições de Maritain. Note-se que esses papéis não estão estabelecidos para sempre: se a oposição a Maurras junta, pelo menos de 1927 a 1932, Maritain, Mauriac e Claudel contra Bernanos, a guerra de Espanha, pelo contrário, vê uma frente Maritain-Mauriac-Bernanos opor-se a um Claudel fervente defensor da Igreja espanhola e dos nacionalistas. O sabor dessas trocas deve, aliás, muito aos dramas históricos que lhes são, simultaneamente, pano de fundo e campo de batalha.

 

   Na minha mocidade, li muito estes quatro autores de que te falo agora, com gosto especial por Mauriac romancista e Bernanos escritor de combate, que devorava. E essas leituras feitas entre os catorze e os dezassete anos marcaram-me muito: hoje ainda, quando penso em honestidade intelectual e frontalidade profética, recordo Les grands cimetières sous la lune, La France et les robots, La grande peur des biens pensants; e para falar de língua francesa lindamente escrita, vou buscar trechos de Mauriac para ilustração... tal como me abismo nas suas visões de negruras e alvuras das almas. 

 

   Aliás, para partilhar essas experiências contigo, traduzo-te um passo do Bloc-notes de François Mauriac, com data de Domingo, 6 de novembro de 1960, registando o velório a Raïssa Maritain [Ocorreu-me este trecho várias vezes, neste mês e meio, ao meditar na morte recente de dois muito queridos amigos, ambos embaixadores, João de Deus Bramão Ramos e Nuno da Cunha e Távora Silveira e Lorena. Amizades com mais, ou muito mais, de seis décadas, apesar de as vidas vagabundas de todos três nos terem, com frequência, geograficamente afastado, sem todavia quebrar diálogos e partilhas]:

 

   Ajoelhado ao lado de Jacques Maritain, no quarto em que Raïssa Maritain descansa, contemplo avidamente essa bela fronte, donde se retirou o pensamento, e que todavia dele conserva a irradiação. O corpo tornado coisa deveria ser igual às coisas (que é no que se torna um bicho morto). Podem dizer que não acreditam na alma: ela nunca me parece tão visível como quando já lá não está: o rosto dessa mulher duas vezes inspirada, pois que vivia de Deus e era poeta, esse rosto, no momento de se desfazer e voltar a ser pó, de não ser nada, guarda o estigma de um pensamento para sempre ausente, mas é infinitamente mais do que um pensamento. 

 

   O original está num francês muito bonito, mas reflete bem essa sensibilidade da alma, tão feminina, que levava François Mauriac a tão bem escrever sobre as mulheres, como nesse romance do claro-escuro de uma vida humana que é Thérèse Desqueyroux. E já que te falo desta, também te digo como entre o filósofo tomista, de origem republicana e protestante, e o escritor burguês, de origem conservadora e católica, se foi desenvolvendo - até pelos processos de conversão próprios a cada um deles - um profundo entendimento espiritual (apesar da embirração de Mauriac com o tomismo). Este trecho de Maritain, que de seguida te traduzo - tirado da Réponse à Jean Cocteau, que a Librairie Stock publicou, em maio de 1926, simultaneamente com a Lettre à Jacques Maritain, do mesmo Cocteau - mostra bem, como diz Michel Bressolette, um ponto de encontro Maritain-Mauriac muito íntimo. Qualquer leitor de Thérèse Desqueyroux, por exemplo, o notará:

 

   Entre o mundo da poesia e o da santidade há uma relação de analogia, e tomo esta palavra com toda a força que lhe dão os metafísicos, com tudo o que ela significa, para eles, de parentesco e de distância.

 

   Mesmo para com o pecado, a arte ainda imita a graça. Quem não conhece as regiões do mal pouco entende desse universo. O artista também conhece as rugas do coração, e visita os lugares inferiores.

 

   Quiçá outro jeito de confirmar esta afirmação de Jacques Maritain seja a troca de incompreensões mútuas e contrições sentidas entre o filósofo e Georges Bernanos. Este, quando panfletário, deixava-se cair em tentações de grandiloquência feroz, daquelas que, tantas vezes assediam os corações proféticos. Nalgumas delas terá sido, foi mesmo, injusto, acintoso até, para com Jacques Maritain, por tabela magoando muito Raissa. Não vou agora, Princesa de mim, contar-te histórias dessas, muito menos comentá-las. Espero que sejam suficientemente elucidativos - e servindo o propósito desta minha carta - os trechos dos próprios protagonistas, que seguidamente traduzo. São bilhetes e cartas:

  

           De Raissa Maritain a Georges Bernanos, a 4 de abril de 1930:

 

                      Excelentíssimo Senhor:

   Se o bilhete que lhe enviei, na ausência de Jacques, lhe causou mágoa, lamento imenso. Mas como podia eu pensar que o senhor quisesse mesmo comunicar a sua dor a alguém que publicamente acusou de ensinar aos amigos «a ciência e as delícias do pecado mortal»? O meu primeiro impulso foi escrever-lhe, mas disse para comigo que alguém que não cessa de desentender as intenções do Jacques só poderia acolher mal um testemunho de amizade da nossa parte...   ... Se hoje lhe escrevo é porque, no fim de uma carta dura, pede todavia ao Jacques que reze por si. E isso toca-me profundamente. Creia, senhor, que perdemos um amigo que nunca deixámos de amar, e que toda a pena é nossa.

 

          De G. B. para Jacques Maritain, a 30 de agosto de 1930:

 

                     Meu Caro Maritain:

 ...Perdoe-me não lhe ter agradecido as suas duas cartas, estive muito doente. Parece-me que me conhece mal. Mas dizemos isso sempre! Ao fim e ao cabo, nem tenho bem a certeza de saber mais do que V. acerca do mesmo assunto. Assim sendo, creio que será melhor aturarmo-nos tal qual somos, pacientemente, ou mesmo alegremente (ambos temos lados cómicos!), esperando que a meiga piedade de Deus nos cubra.

   As minhas melhores e especiais homenagens à Senhora Maritain, com a minha afetuosa mágoa de, por vezes, lhe causar pena. E pense em mim diante de Deus.

 

          De R. M. a G. B., a 24 de maio de 1931

 

                   Caro Amigo:

 ...Toca-me, mais do que sei dizer, a amizade que V. me testemunha. Sensibilizo-me, admirada, porque não a mereço.  Mas é desse mais acima dos meus méritos que verdadeiramente preciso, porque só o dom opera a salvação.

   Procuro, à luz dessa amizade, situar o mal tão gravoso que V. disse do Jacques, e compreendo que V. só possa pensá-lo quando entra nessa região, a certos títulos não-humana, da polémica cujo objetivo não é a verdade mas a batalha por uma causa à qual julgamos tudo poder sacrificar, mesmo a amizade e a justiça, porque milagrosamente parece em si conter tudo isso, e sobre tudo o mais prevalecer.

   É nessa região da polémica que também incluo o seu livro sobre Drumont. [Raïssa refere-se a La Grande peur des bien pensants, onde, na verdade, se encontram textos suspeitosamente inspirados de algum antissemitismo].

   O amor apaixonado da França, o conhecimento concreto, vital, da pessoa e da sua história são como labaredas a percorrer todas essas páginas, e ali tudo serve para alimentar esse fogo e propagar esse incêndio. Mas como poderei levar-lho a mal? Pois se, quando a palha de certos argumentos tiver ardido, ficará o rasto imortal de um coração que muito amou.

   Tampouco é o antissemitismo que me magoa no seu livro. Na verdade, pouco lugar lhe deu. E não tenho o menor desejo de defender as «potências do dinheiro», mesmo que sejam judias. Aliás, pessoalmente, não conheço judeus ricos. Na minha família, sempre fomos pobres, e talvez por isso eu tivesse tido, pelo Mendiant Ingrat, amor à primeira vista. [Referência, aqui, a Léon Bloy, de quem já te falei, admirado por Bernanos, padrinho de batismo dos Maritain, que ele próprio apoiara no caminho da conversão. Como verás, Princesa de mim, Bernanos, na resposta, terminará a carta recordando a memória do "velho padrinho, na meiga piedade de Deus, que um dia nos reunirá"]

 

             De G.B. para R. M., a 28 de março de 1933

 

                                   Querida Senhora e Amiga:

 ... há por vezes uma espécie de florinha no terreno vago ao qual, apesar de tudo, não posso chamar jardim nem vida minha. Eis aqui uma que colhi para si: fui muito estúpido, outrora, ao magoá-la, e peço-lhe perdão por isso. Com muito afeto, na memória do vosso velho padrinho e na meiga piedade de Deus, que certamente um dia nos reunirá.

 

                       De R. M. para G. B., a 31 de março de 1933

 

                    Caro Amigo:

   Essa florinha que me envia não pode ter sido colhida num «terreno vago», vem direitinha do jardim da caridade.

   Dizer: magoei-a, peço-lhe perdão, é de uma simplicidade rara, é algo raro e puro como a boa vontade.

   Considerava a questão resolvida entre nós; a sua carta é, pois, um belo excesso, pelo qual vos fico infinitamente reconhecida.

 

   Afinal, sobre a relação, por vezes difícil, entre Bernanos e os Maritain sempre planou a lição de Léon Bloy, o «mendigo ingrato»: a busca de Deus como caminho de reconciliação. Em fevereiro da 1947, ano e meio antes de morrer Georges Bernanos escrevia, num texto intitulado Dans l´amitié de Léon Bloy: O nosso Bloy, o nosso velho Bloy, que de acordo com a predição do senhor seu pai, terá falhado tudo, não nos falhou a nós, a nós seus amigos, e até seus discípulos, pelo menos seus afilhados ao mesmo título que Maritain e Van der Meer.

   Esses livros, recentemente ou agora publicados, de que te falo, levam-me a revisitar a biblioteca de meus pais - da qual pouco me sobra, à parte edições antigas do Eça e do Camilo, em português, e outras mais esparsas de autores franceses et alia... Estes são sobretudo católicos militantes, dos que minha Mãe lia na Universidade de Lovaina, quando por lá andava. Até conservo uma tese de doutoramento, escrita em francês, por um português, sobre a nossa Constituição de 1933... Interessante, nunca encontrei nada parecido em Portugal. Curiosamente, antes de assinar esta carta, surge-me a imagem de minha Mãe, comodamente sentada na sua sala de estar, de óculos postos, a ler Maritain; e a de meu Pai, mais sonora, já deitado no quarto onde lhe ia dar as boas noites, rindo com gosto em divertida leitura de A Relíquia ou do Tintin en Amérique. Por acaso, ainda tenho os mesmos exemplares (hoje dizem cópias) de ambos... E dou graças a Deus pela minha vida ter tido tantos momentos de Graça com graça.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim,

                                              

Queridos Amigos:

 

                                           Nuvem neste instante

                                              feita nossa

                                           libertação

                                              do exílio

 

   Quadra não sei, recolhi-a de Enfin le royaume - quatrains (Gallimard, 2018), de François Cheng. Presumindo que o poeta chinês da Académie Française a tenha escrito em francês, dessa versão a traduzi. O original reza assim:

 

                                           Nuage un instant

                                              apprivoisé,

                                           Tu nous délivres

                                              de notre exil.

 

   A coletânea de poemas (quadras chinesas, poderá dizer-se?) que este livro encerra é um insistente, melodioso e exigente, apelo a sair de nós. Como aquela definição que Plotino (270 a.C.) dá da inteligência, como movimento do nosso pensamento que o ergue das coisas inferiores para nos levantar a alma até ao que é superior. Mas tal movimento, mesmo nesse instante da nossa busca em que cativamos a passageira nuvem que nos livra deste exílio, ou nos liberta como verdade encontrada, só pode existir e ter sentido na nossa consciência. Ou seja, citando São Tomás de Aquino (Summa Theologiae, Ia IIae q. 19a.5): Se a tua razão se revoltar contra a afirmação de que Cristo é Filho de Deus, seria ofensa a Deus acreditares na divindade de Cristo. Eis, Princesa de mim, o que muitos convictos ateus e devotos crentes nem sempre entendem: qualquer de nós só verdadeiramente pensassente a verdade, em liberdade... Veritas liberabit vos, isto é, a verdade vos libertará - não significa que um achado científico, nem qualquer dogma ortodoxo, por si só, ou por muita pregação, seja definitivo e triunfador. Antes nos alerta para que, tal como o conhecimento científico é contínua descoberta, a Boa Nova é incessante anúncio da libertação do nosso exílio. Chama-nos a ser vigilantes, atentos à chegada de cada instante em que se manifesta como vocação à conversão. Tal como a ciência, a fé, o amor ou a paz, nunca estão perfeitos: são vocações, sempre a pedir resposta, um passo mais de ação renovadora. E a precisar de cultura, de um espírito que se lavre para se abrir à sementeira. Dessas vocações se pode dizer que são graça, um dom. Repetindo Raïssa Maritain, só o dom opera a salvação.

 

   Ora, nem todos recebemos o dom da fé, ou não o descobrimos a chamar por nós. E se não nos tocou nem toca, mantem-se estranho, porque não há força nem lógica que imponha a fé. Quem a tem, ou julga ter, dela apenas pode dar testemunho. Para o cristão, o testemunho da fé dá-se pelo amor e pela paz. Eu não posso dar a fé seja a quem for, posso procurar dar o meu amor e a minha paz a toda a gente.

 

   Em tempos de tantas incertezas, interrogações, expectativas e desilusões, a fé cada vez menos se anuncia como dogma, e cada vez mais se testemunha pelo amor e pela paz que soubermos irradiar, para comunhão de todos na esperança que a todos nos deve animar. E é dando esse testemunho, com empenho na defesa da terra e na construção de uma casa comum, que se anuncia, no dia a dia, a Boa Nova. Que 2019 seja ano mais despido de preconceitos, desconfianças e negações, para que nos nossos dons de amor e de paz se manifeste a Graça.

 

Camilo Maria  

                                         
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tinhas razão ao dizer-me que aguardarias a continuação da minha carta acerca da entrevista do Peter Atkins, feita pelo Carlos Piolhais e divulgada pelo jornal Público a 19 deste novembro. Escrevendo-a de corrida, reagia - como, aliás, candidamente o disse - à sobranceria de um professor universitário de química, tão estouvada, que o levou a afirmações impertinentes e marginais ao seu próprio trabalho de investigação. Não lhe guardo, todavia, qualquer inimizade, antes lhe faço o pedido de, esquecendo qualquer auto suficiência, atender e escutar melhor outras vozes. Não minimizo - e muito menos contesto - o seu trabalho científico, que está, evidentemente, fora da minha competência, só lhe peço que considere a possibilidade de outras achegas, de ordem filosófica, lógica ou metafísica, e espiritual, ascética ou mística, não sejam varridas para debaixo do tapete que a condição humana pisa. 

 

   Que ele seja ateu, por conclusão ou convicção sua, e o declare, não me merece, nem tem de merecer, qualquer reparo: é uma posição pessoal e livre, que respeito, tal como sempre respeitei a profissão de ateísmo ou de agnosticismo de muitos dos meus melhores e mais fiéis amigos. De comum acordo, aliás, e com ânimo, frequentemente temos debatido as questões da origem e destino do Universo, da existência necessária ou desnecessária de um Criador  -  as quais, mesmo com ajuda das ciências ditas positivas, não deixam de ser temas filosóficos, no sentido próprio de gostar e querer saber, isto é, procurar e encontrar respostas  -  tal como também nos debruçamos sobre a experiência, ou a ausência, da fé, questão bem pessoal, eminentemente  subjetiva, que, nas nossas conversas, se aborda pelos testemunhos, mais ou menos íntimos e abertos, ou comunicativos, de cada um. Nesses momentos, por vezes assaz difíceis, mas generosamente amigos, creio que conseguimos coincidir na humanidade inata dos nossos anseios, das nossas perplexidades, das nossas interrogações e dúvidas, das nossas esperanças... e partilhar as nossas possíveis certezas, ainda que não comunguemos todos nas mesmas... [Curiosamente, tal experiência inspirou as minhas Cartas a José Saramago, que o CNC editou no seu blogue, e que, depois, vieram à conversa com alguns daqueles meus amigos, designadamente o João de Deus Bramão Ramos, meu amigo de sete décadas, recentemente falecido e com quem, apesar disso, ainda falo "às escondidas"... Diplomata de profissão e tradição, herdara de D. Vasco Bramão, seu avô materno, um certo gosto do rigor matemático e entregava-se com gosto a deambulações da física quântica. Agnóstico, procurava sempre um ponto de encontro comigo, uma plataforma de debate, a que chamava "o couto da espiritualidade". Isso também o levava a ler criticamente escritos meus, sobre os quais conscienciosamente se pronunciava, o que sempre me foi muito gratificante. Todavia, nunca lhe ouvi uma palavra sobre os meus Sonetos de amor mordido, nem qualquer outro texto mais "poético". O lirismo ficou sempre de fora dos nossos registos. Sem prejuízo da elegância do trato do João para o que eu escrevesse. 

 

   O desconforto que me provocam várias afirmações de Atkins não difere muito, nas raízes da minha consciência, do que decorre da teimosia, ou arrogante suficiência, de certos dogmáticos religiosos, que insistem em formulações que já não apelam a mentes científicas hodiernas, avessas a "verdades" impostas. Muitos dos espíritos acríticos que hoje insistem, por exemplo, no que chamam "as irrefutáveis cinco provas da existência de Deus" de São Tomás de Aquino, não se dão conta de que, para mentes treinadas na experimentação científica como prova, a questão de saber como é que do nada surgiu algo, não tem resposta satisfatória por qualquer afirmação metafísica ou raciocínio lógico. [E não te refiro os casos em que se confunde teologia com catecismo de seminário e este com dogma.] Mas também me parece, por isso mesmo, que o discurso científico anda de contingência em contingência, e que os seus autores estacionam onde não há um contingente que "explique" os outros. Aí, terão de discorrer, ou que já não sabem mais mas talvez lá cheguem, ou que talvez possam mudar de método daí em diante. Todavia, o que não poderão honestamente (cientificamente?) afirmar é que não há outras hipóteses possíveis. O exercício filosófico pode ser metafísico - e, enquanto tal, também é legítimo, ainda que não isento do risco de errar e, concomitantemente, da possibilidade de ser criticado. Mas igualmente suscetível de erro ou engano próprio é qualquer processo científico, nem preciso de te lembrar inúmeras conclusões de teorias científicas ultrapassadas, nem as suspeitas ou dúvidas que pairam ou são levantadas pelas críticas a muitas delas. Experimental ou metafísico, qualquer labor para a descoberta ou inteligência da realidade é, aliás, passível de sobre ele se exercer uma crítica epistemológica.

 

   A questão de Deus ou, neste caso, a interrogação sobre a origem do Universo, pelo simples facto de tanta gente, e por tantos e diversos métodos e achegas, continuar e tentar dar-lhe resposta é, inegavelmente, uma questão em aberto. Porque há seres humanos que a sofrem, ninguém tem o direito de impor soluções pretensamente universais com certezas ou verdades propriamente apenas suas.

 

   Já eu, que tenho devoção especial pelo Doutor Angélico, acredito que, mesmo depois de ter concluído que Deus é causa primeira do Universo, pois que todas as criaturas (ou as realidades que experimentamos) são contingentes e só o Ser Necessário - anterior ao espaço-tempo, isto é, à contingência  -  pode ter criado, ou seja, feito do nada (ex nihilo), sem recurso a qualquer extensão de si próprio (assim é transcendente) nem a algo de outro (ex aliquo),  se daria conta de que, como narra uma biografia, de Deus não sabia nada, e teria confessado que era palha tudo o que ele, frei Tomás, escrevera (ou ditara) : o Ser Que É escapa ao nosso entendimento, mesmo quando o nosso pensarsentir nos diz que Ele está connosco. Mas tampouco essa nossa ignorância poderá roubar o encontro místico que marca uma vida. A fé move-nos, vive-se e testemunha-se pelo amor e suas obras, que são o seu emblema.  Nada justifica, em Atkins ou qualquer outro cientista, afirmar que a hipótese de Deus Criador é fácil e descartável. Muito menos antes de terem conseguido, pela experimentação, como pretendem, demonstrar como algo surgiu do nada. Nem lhes peço que me digam que nada era esse, pois que necessariamente estaria antes ou fora do espaço/tempo - não obedecendo portanto a qualquer lei natural investigável... Assim não me ofende a negação da verificabilidade de Deus pela ciência no seu estádio atual, nem a negação de uma fé em Deus por essa razão (que não partilho mas respeito): mas já acho deselegante que se recuse a outros a simples hipótese do Ser de Deus. Até porque, cientificamente, não provaram o contrário. 


   No século XIII, Tomás, frade mendicante, dominicano contra vontade de seus pais, que preferiam tê-lo feito abastado abade feudal, dedicou toda a sua vida a tentar responder, com os recursos intelectuais e científicos do seu tempo, a questões presentes, então e agora, mas de imemorável surto, sobre a origem do Universo e a existência do ser humano, este sendo a própria alvorada de uma consciência que se surpreende como da sein e se interroga sobre si, a sua circunstância, e o destino de tudo. 

 

   No século XXI, um professor emérito da Universidade de Oxford acha que esse "facilitista", e muitos outros, deram respostas etéreas ou fingidas a perguntas incontornáveis, a que ele próprio não sabe responder, a não ser dizendo, como cientista que se preza : «Espera só um pouco, havemos de lá chegar.» (sic, na entrevista). 

 

   Nesse contexto, busco compreender melhor a razão da resposta de Atkins à pergunta de Fiolhais ("O que acha da posição do seu colega de Oxford, Richard Dawkins, que pretende lutar contra a religião em nome da ciência? Mesmo aceitando a sua ideia de incompatibilidade, acha que deve haver uma guerra, uma espécie de cruzada?"):

 

   Deixe-me responder cuidadosamente. Consigo perceber que, no final da vida, alguém com pouca educação e que tenha tido uma vida dura reconheça o conforto que a religião oferece, a ideia de que teremos uma vida feliz para além da morte pode ser reconfortante e útil. Mas não gosto que a religião penetre no ambiente das pessoas quando elas são novas, porque destrói o seu. "Destrói" é um termo um pouco exagerado, diminui o prazer da vida com a ideia de que, se se portarem bem nesta vida, vão encontrar uma vida feliz depois.

 

   Em primeiro lugar, reparo nesse sentimento de superioridade (será desdém?), manifesto em expressões como "alguém com pouca educação", ou no tom professoral (não digo científico, porque a frase começa com o subjetivo Mas não gosto)... não gosto que a religião penetre no ambiente das pessoas quando são novas. A exemplo, ou por provocação, de qualquer ignorante ou fanático, o professor Peter Atkins diz saber muito bem o que é bom e é mau para os outros, sejam velhos pouco educados ou jovens por educar. Mas já parece ser mais razoável, como qualquer cristão que se inspire na alegria pascal do Evangelho, quando aponta o malefício do medo como motor de vida e afirma: Devemos aproveitar a vida... Os antigos diziam carpe diem, isto é, "aproveita o dia".

 

   Tal máxima latina - que, literalmente, traduziria por "agarra o dia!", como quem diz não deixes fugir a oportunidade - surge nas Odes de Horácio: carpe diem quam mínimum credula postero, isto é, agarra este dia, não te fies no amanhã... Ou, como mais claramente a foram interpretando sucessivas gerações, goza bem o que hoje te é oferecido, não esperes pelo porvir. Até parece que serviu de exortação a meninas virgens, para que logo trocassem a sua flor de laranjeira pelas delícias do amor erótico. Na sua fábula Le Loup et le Renard, La Fontaine, avisadamente, recorda-nos: Et chacun croit fort aisément / Ce qu´il craint et ce qu´il désire. E é bem verdade que demasiado facilmente usamos a nossa liberdade, o nosso possível arbítrio, para acreditarmos no nosso receio ou no nosso desejo. Assim tantas vezes nos confundimos e perdemos o sentido das coisas. Abreviando caminho e discurso, procuro dizer que o entendimento evangélico da vida cristã não é uma obsessão com a recusa de uma felicidade pecadora, para, à custa de tantos sacrifícios, ou do cumprimento rigoroso de um código de conduta, se conquistar a Boaventura eterna. A velha história do cristão que virou budista para não ter de continuar a submeter-se ao sofrimento que o conduziria ao Céu, inspira-se numa versão deformada, sadomasoquista, do desafio cristão. Este, na verdade, propõe-nos misericórdia em vez de sacrifício, alegria em vez de sofrimento (deixem os mortos enterrar os mortos e sigam-me!), conversão em vez de castigo. E a conversão é o caminho de um olhar novo, cuja fé e cuja esperança são apenas razões e alicerces de amor. O cristianismo não é um processo judicial, nem sequer o temor dele. É uma vocação da alegria de Deus. Esta não é demonstrável pelas "leis naturais" (seja isso o que for), é sempre misteriosa, mesmo quando se revela no sorriso solar que ilumina os olhos de pessoas que todos os dias entregam as suas vidas ao serviço de pobres, doentes e moribundos. Que lei natural sabe explicar o Evangelii Gaudium de Teresa de Calcutá e das suas irmãzinhas?

 

Camilo Maria   

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - FELIZ NATAL!

 

Minha Princesa de mim,

 

   Queridos Amigos:

 

   Vem-me à lembrança uma velha canção do Gilbert Bécaud, com uma profissão de fé: À chaque enfant qui naît, le monde recommence... -  por cada criança que nasce, recomeça o mundo!

 

   Desde o início deste período do Advento, venho-me interrogando sobre a celebração do Natal que se aproxima e o mundo em que vivemos. Aí estão as luzes, a publicidade, o comércio e os festejos, tudo tendo, como pano de fundo (ou cenário real?) um mundo perplexo e crescentemente inquieto, sem respostas para desesperos, agitações, reivindicações, ódios e agressões.

 

   Entretidos com os nossos hábitos de consumo e algumas fantasias, prazenteiros, será que andaremos a esquecer tantos factos da vida, todas essas humanidades iguaizinhas à nossa, todos esses seres que todos os dias nascem para que recomece o mundo - este mundo de todos e para todos - que o nosso esquecimento vai destruindo ou deixando destruir?

 

   Entre outros alertas e sinais dos tempos, o atentado no mercado de Natal de Estrasburgo desafia a nossa estupefação para nos propôr pensarsentir o nosso Natal, o nosso renascimento. É altura de cuidarmos deste mundo de todos, pois Deus fez-se carne e veio habitar entre nós. Quando nasce uma criança, nasce uma esperança. E qualquer esperança merece ser cumprida. Só assim será Feliz este Natal, e o Ano Bom! Não no sentido de entrar já perfeito, mas no esforço de ser melhor, pelo nosso abraço.

 

  Votos de um Feliz Natal de todos nós! E um abraço.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira