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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VI

 

Minha Princesa de mim:

 

   No início da celebração desta Páscoa cristã, em Domingo de Ramos, antes da narrativa evangélica da Paixão de Jesus (que em cada ano é recolhida dum dos três sinópticos, Mateus, Marcos ou Lucas), somos sempre chamados a meditá-la com a ajuda de dois textos bíblicos, cuja leitura precede aquela: o primeiro, extraído do Livro de Isaías, vem lembrar-nos a virtude da fortaleza ; o segundo, tirado da Carta de São Paulo aos Filipenses, irá concluir que a auto aniquilação em serviço dos outros é sinal de vitória do bem sobre o mal, e razão de glória. Não é fraqueza, é fortaleza suprema. Vejamos cada um deles:

 

   Isaías - O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos que me insultavam ou cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

   Não consta haver aqui qualquer tibieza. Apenas força e profunda consciência dela como dom e aprendizagem.

 

   Paulo - Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte na cruz. Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e que toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

   Repara bem, minha Princesa de mim: não há vida sem morte, nem qualquer possível glória sem padecimento e obediência. Por não ter entendido isto do mesmo modo, o Islão primitivo logo se distingue do Cristianismo: apesar de acolher Jesus como um dos seus profetas maiores, e também celebrar Maria como sua mãe sempre virgem, o Corão negará bem expressamente a crucifixão e morte de Jesus, pois que admiti-las seria como aceitar a fraqueza de Deus. As primeiras comunidades cristãs, pelo contrário, desde muito cedo comemoram a Paixão e Morte de Jesus Cristo, sendo o dia aniversário desta, Sexta Feira Santa, dia de muita celebração religiosa, sobretudo na própria comunidade de Jerusalém. Na verdade, aí se situam os lugares dos próprios autos narrados no evangelho de João, cuja leitura é hoje feita na liturgia da Palavra de Sexta Feira Santa, que também compreende mais um trecho do "Servo do Senhor" de Isaías e um passo da carta de Paulo aos Hebreus, assim retomando as lições de Domingo de Ramos ou da Paixão. E nessa tarde da crucifixão e morte do Senhor, esta é lembrada como redentora (a morte de Cristo é a morte da morte) e suscita uma oração universal que confia todos os seres à obra dessa Redenção. Os participantes em tal liturgia vão ainda adorar a cruz como seu símbolo triunfante, rezar o Pai Nosso e comungar no Corpo de Cristo.

 

   Já no sábado imediato, ficam os lugares de culto silenciosos e vazios, como os seus próprios tabernáculos. É dia de silêncio a alimentar a esperança que na Vigília Pascal explodirá em alegria e cânticos de aleluia. Nesse dia, sempre contemplo e medito a descida à mansão dos mortos. Faço-o no mesmo modo em que olhando, por dias sombrios de Inverno, a aparente desolação de campos mudos e tristes, escuto o silêncio a dizer-me que há muita vida ali esconsa, vida que verei quando, colorida e alegre, estalar a Primavera.  E é disso que te quero falar hoje. Pertence a uma tradição muito antiga da piedade cristã, sem todavia ter qualquer fundamentação bíblica, com exceção, talvez, de um passo da 1.ª carta de S. Pedro (3, 18-19): O próprio Cristo morreu uma vez só pelos pecados - o Justo pelos injustos - para vos levar a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. Foi por este Espírito que ele foi pregar às almas que estavam na prisão da morte... Só um século depois, a literatura patrística comentará o tema. Começo por citar Santo Ireneu de Lyon, e continuarei com as observações de Éliane e Régis Burnet (Décoder un tableau religieux, Paris, Le Cerf, 2018) sobre o fresco de Andrea da Firenze, reproduzido no livro, que representa a descida de Cristo aos limbos ou, se preferires, aos infernos, em Sábado Santo, pintado entre 1365-1368, e que pude ver na capela espanhola de Santa Maria Novella, em Florença). Escreve, na sua Contra as Heresias, IV, 27, 1, aquele Padre da Igreja, do século IV:

 

O Senhor, o Santo de Israel, pensou nos seus mortos, que dormiam em seus túmulos, e desceu até eles para anunciar a salvação, para os tirar de lá e libertá-los... Continua o casal Burnet: Entretanto, Santo Efrém, o Sírio (+373), acrescenta, num hino litúrgico : «Glória a ti que desceste e mergulhaste nas profundezas, para ali ires buscar Adão, que libertaste do Hades, a fim de o conduzires ao Paraíso!» (Carmina Nisebena, 65). E todos os da minha geração se lembram ainda do Símbolo dos Apóstolos ou Credo que aprendemos a recitar ainda pequenos, e em que professávamos a fé em Jesus Cristo que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos (hoje diz-se "à mansão dos mortos"), ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai, e donde virá julgar os vivos e os mortos...

 

   Continuam então os Burdet: Mas estes textos fornecem poucos elementos suscetíveis de dar lugar a representações iconográficas. Um pretexto virá com o «Evangelho de Nicodemos», obra do século IV:

 

   «Então, o Rei de Glória, esmagando sob a sua Majestade a Morte a seus pés, e prendendo Satanás, privou o inferno de todo o seu poder e reconduziu Adão à claridade da sua luz. E o Senhor, estendendo a mão, fez o sinal da cruz sobre Adão e todos os santos e, pegando na mão direita de Adão, ergueu-o dos infernos. Com todos os santos atrás dele.

 

   Eis aí todos os elementos que serão depois retomados: o esmagamento da Morte e de Satanás; o sinal da cruz sobre os santos; o pegar na mão direita de Adão e o cortejo dos santos em direção ao céu.

 

   Tudo isso é representado no fresco de Andrea da Firenze. E me faz pensarsentir um mistério com que vibro mais intensamente em dias de silêncio, quando o luto e a alegria entre si disputam o meu espaço mais íntimo: algo que me ensinaram quando menino, e dá pelo nome secreto de comunhão dos santos. Jovem ainda, parafraseava para os meus botões uns versos do Alexandre O´Neill que eu dizia assim: "Humanos somos nós todos / desde pequenos / Humanos somos nós todos / e nunca menos"... [Se não me falha a memória, como diria o Nemésio, os versos do O´Neill (eram, ou não dele?) rezavam assim: "Burgueses somos nós todos / desde pequenos / burgueses somos nós todos / ou ainda menos"... Como doutros, na minha memória, a ordem desses versos é arbitrária.]

 

   É claro que te falo de experiências vividas por mim na minha cultura. Mas marcaram-me, e continuo a vivê-las. Entretanto, também fui aprendendo que os primeiros cristãos - pese embora a proximidade histórica com o próprio Jesus Cristo, ou quiçá por isso mesmo - tiveram de ir aprendendo a reler a mensagem de Jesus, como apontado por Enrico Norelli (La Nascita del Cristianesimo, Il Mulino, Bolonha, 2014): Tal mensagem parecia estar ligada à perspetiva da eminência de um tempo em que Deus iria mudar radicalmente a condição dos pobres e dos excluídos. Tal expectativa foi completada pelos discípulos com a espera do regresso glorioso (a "parusia") de Jesus como enviado de Deus. Mas também se gorou esta expectativa, e os historiadores modernos facilmente atribuíram a tal «atraso da parusia» a profunda transformação da mensagem de Jesus: substituiu-se a tensão para a iminência do Reino de Deus pela adaptação temporária ao mundo, por tempo indeterminado, e criaram-se os instrumentos assim necessários. Por mim, Princesa, comecei a olhar pela perspetiva da comunhão dos santos para essa tão piedosa tradição que lembrava, em Sábado Santo, festa tumular, a descida de Jesus à mansão dos mortos, para os ir buscar e levar na sua Ressurreição. Uma grande e feliz Páscoa para os humanos que a morte fez esquecer...

 

   Feliz Páscoa, digo, demos todos nós também esse feliz passo para além, minha Princesa de mim!

 

 Camilo Maria

  

P.S. - A notícia, violenta e súbita, do incêndio destruidor de Notre Dame de Paris, vem realçar a lembrança de que vivemos no efémero, bem como, paradoxalmente, ao efémero sempre nos atemos, em busca da permanência... A catedral de Paris, por exemplo, esteve para ser demolida, propositadamente, devido ao estado de abandono e decrepitude em que se encontrava, no segundo quartel do século XIX. Salvou-a a popularidade que lhe conseguiu o romance de Victor Hugo, em que Nostradamus e Esmeralda viveram os seus amores no refúgio de um terraço superior do templo. Creio que foi em 1843, que começaram, então, as obras de restauração do monumento antes condenado, agora com a flecha central, creio eu, arquitetada por Viollet Le Duc. Parece que, agora, o incêndio terá começado precisamente em estruturas de novas obras de restauração... Esta memória leva-me a visitar, por fotografias e filmes, já que não posso mais viajar, a exposição Tu me fais revivre, da pintora e pastora protestante Beatrice Hollard-Beau, patente no claustro das Billettes, em Paris, de 11 a 23 deste mês de abril. Diz a própria artista: Reviver é uma longa experiência. É recair e voltar a subir e, a dada altura, tomar consciência de que, quando pensávamos reviver graças às nossas próprias forças, não revivemos sozinhos...   ... Reviver é Deus que nos encontra no meio da Cruz, no meio das nossas cruzes. Deus que nos dá um projeto mais forte do que imagináramos. Creio que é no fundo da Cruz e nas coisas piores que podem acontecer as mais bonitas. É preciso ir até lá, mesmo até à morte. Porque é a morte que nos dá a esperança viva do Cristo vivo.

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - V

 

Minha Princesa de mim:

 

   Mona Ozouf, historiadora, professora universitária francesa e bretã (o bretão foi a sua língua materna), em entrevista recente a Jean Birnbaum, para o jornal Le Monde, quando a Flammarion publica um livro que amigos vários lhe dedicam, pelos seus 88 anos de idade (Mona Ozouf. Portrait d´une historienne), faz declarações que profundamente me tocam, até pela proximidade com temas, caminhos e interrogações que há muitos anos venho percorrendo. Traduzo-te, mais abaixo, uma pergunta que Birnbaum lhe faz e a pertinente resposta da historiadora. Mas deixa-me, antes, destacar desta uma frase que especialmente me atingiu, verás porquê: Para além das semelhanças, há todavia uma diferença fundamental entre 1789 e o atual movimento dos «coletes amarelos»: estes não sonham com futuro, estão na imediatidade. Esta palavra, pela qual traduzo immédiateté, não aparece em dicionários da língua portuguesa, mas atrevo-me a ela por me soar a um conceito distinto de imediatismo, no sentido de mais envolvente, como cultura. Talvez sem razão. Creio já te ter contado que, a seguir a um dos meus jantares com o Rogério Martins, ali no Grémio Literário, talvez um ou dois anos antes da sua morte, subindo a pé a rua Garrett, o nosso diálogo se preocupava com a esterilidade e tacanhez de grande parte da conversa política portuguesa. E eu lembrava ao Rogério os anos derradeiros do Estado Novo, os movimentos em que nos esforçávamos por sair do pântano em que se afundava a vida nacional, procurávamos abrir portas e janelas, para deixar entrar e respirar ar, ideias e projetos. Entristecia-me falar de tudo isso como se fosse já passado estéril, pois tínhamos sonhado com outro futuro coletivo, para hoje, afinal, darmos connosco a debater-nos na confusão de interesses imediatos. Foi então que o meu Amigo e Mestre, parou, pôs a mão no meu ombro e disse esta verdade simples: Nós tínhamos esperança, Camilo, vivíamos dela! Nas cartas que te fui enviando por estes tantos anos de utopias já varridas, tal como noutros escritos meus, de uma ou doutra forma andei quixotescamente lanceando fantasmas e velas de vento... Pelo menos assim julgaram muitos, quiçá menos atentos à insídia de forças mascaradas que vão transformando a bondade de ideias inspiradoras de bem fazer, e de propósitos motivadores das obras possíveis, em andaimes de construções destinadas ao bem estar de alguns. E tal aflige muito, quando nos descobrimos num mundo que insiste em orientar-se pela imediatidade (e imediação) do lucro e do prazer, proposta universalmente veiculada pela robotização da, ainda assim, chamada «comunicação». Perceberás melhor agora, minha Princesa de mim, porque me tocou cá dentro o trecho da referida entrevista que ora traduzo da secção Idées de Le Monde de 25/03/2019: porque põe em cena a imediatidade como cultura, isto é, como meio ambiente ou circunstância do pensarsentir hoje predominante. À pergunta:

 

- «Nós queremos igualdade real ou morte!», resumia o revolucionário Gracchus Babeuf. Quando temos na cabeça a memória de 1789, devemos ter especial atenção ao movimento dos «coletes amarelos», ou não? - responde:

 

    Os «coletes amarelos», na verdade, inscrevem-se na reivindicação da igualdade real. O problema é que a igualdade real é uma quimera. Não podemos «realizá-la» num mundo onde a natureza e a história semeiam desigualdades de toda a espécie.

 

A igualdade, portanto, só pode ser um horizonte, a tal ponto que os verdadeiros defensores da igualdade são aqueles que se propõem, não proclamar a igualdade real, o que está ao alcance de cada qual, mas reduzir laboriosamente as desigualdades, o que é completamente diferente.

 

   Quanto ao resto, lá que os «coletes amarelos» recuperam uma linguagem, uma simbólica e problemas que me remetem para a Revolução Francesa, é evidente que sim! Pense só nas queixas ou no problema da representação, que é concomitante à Revolução, quando a gente dos Estados Gerais chega a Versailles, com os bolsos cheios de reivindicações locais. Tal continua sendo, para mim, o mistério da Revolução: como é possível que essa gente, portadora de reivindicações contra os abusos da justiça senhorial ou a favor da abertura de um caminho vicinal, pode tão depressa batizar-se «Assembleia Nacional»?

 

   Ora, a partir do momento em que o faz, deixa de ser mandatária, essencialmente encarregada de levar até "lá acima" a reivindicação. Abre-se então a distância entre representados e representantes, o que continua a ser, hoje em dia, o nosso problema. Trata-se de saber como vamos conseguir proteger os representados da arrogância dos representantes, e estes da vindicta daqueles... Para além das semelhanças, há todavia uma diferença fundamental entre 1789 e o atual movimento dos «coletes amarelos» : estes não sonham o futuro, estão na imediatidade. As mulheres e os homens que entravam em revolução em 1789 herdavam das Luzes e tinham grandes ideias sobre o que poderia ser uma sociedade perfeita.

 

   Todos nós, afinal, com mais ou menos luzes, temos ideias sobre como e quão perfeita poderia ser uma sociedade... Mas "poderia" talvez mais queira dizer pudesse do que ser possível... A subtileza de tal distinção remete-me para essa saudade súbita da frase do Rogério Martins que dizia: Nós tínhamos esperança! Então busco por aí esperanças perdidas - não no sentido de serem já desesperos, mas porque não as encontramos logo, perdidas que estão entre a algazarra tão ruidosa das propagandas que dão pelo nome politicamente correto de "informação". São utopias bonitas de gente que sonha e quer construir futuros pelo humano, com o humano, no humano. Algo que, por só ter sentido na consciência da nossa humanidade como condição comum a todos, consegue levantar do chão e movimentar mesmo quem pensava ter o sofrimento por destino, e agora descobre uma boa nova que liberta e pode construir as solidariedades que são abrigo e lareira da nossa humanidade. Em África, e noutras partes do hemisfério sul americano e asiático, há hoje gente que se organiza para que os seus povos, as suas comunidades, respirem mais livres de ditaduras do poder e do dinheiro. Ditaduras que soem ser sempre vistas como políticas, porque, afinal, nos esquecemos de que podem residir em nós próprios, que somos alimentados por uma cultura sem jeito de ser porque logo ferozmente preocupada com fazer e ter...

 

   E outra gente - bem mais jovem, até porque menos envelhecida pelo uso do materialismo soez que o nosso modelo socio económico quer impor - chega mesmo a manifestar-se urbi et orbi pela proteção devida à Terra, casa de todos nós! Toda esta gente tem esperança, não se perde nem gasta em tricas políticas para reivindicação do alcançável tostão a mais - para a satisfação dos egoísmos - mas põe o olhar e as forças da vontade nesse horizonte misterioso em que, sendo humanos, descobrimos sempre a terra prometida! A verdadeira raiz dos problemas que hoje mais nos afligem, mas também perturbam a ordem social estabelecida não se encontra, evidentemente, nessa mesma possível desestabilização - até porque esta muitas vezes se justificará como último recurso para uma concertação da justiça que, entretanto, tanta gente tem ignorado. Antes vem do facto de o solo donde tudo isto surge ter vindo a ser revolvido por uma cultura nefasta, materialista, gananciosa, hedonista e imediatista. A crise do sistema socioeconómico e, consequentemente, do regime político das democracias hodiernas deve-se à lógica desumana gerada pelo próprio funcionamento de sociedades e economias sem transcendência possível, viciosamente girando sobre si mesmas, na busca de um horizonte imediato de satisfações mensuráveis e generalizadas. Assim se vão os fins esgotando nos seus próprios meios, e por estes. O drama fulcral do materialismo é não entender que, por definição, a matéria se esgota ou se torna obsoleta, e é perecível, determinada pela própria circunstância do espaço-tempo em que, por definição, existe.

 

   Só o espírito liberta, pois só ele sabe contemplar o mistério e desafia-lo, inventar soluções novas e ter esperança no que não vê, em vez da ganância ilusória do aparentemente alcançável... Temos visto, minha Princesa de mim, no meio de tantas infelicidades e desgraças, acidentais ou consentidas, que afligem populações inteiras, muita solidariedade humana, gestos e feitos de grande generosidade. Aí deve fortalecer-se a nossa esperança em dias melhores para todos. Assim possa tão generosa gente ser também cada vez mais visionária, para melhor poder prever e acautelar o porvir: a justiça, o respeito da dignidade humana, da liberdade e igualdade dos filhos de Deus, não se obtêm apenas socorrendo ou acorrendo ao mal já acontecido, permitido ou provocado. São necessariamente obra fraterna, construída a partir da consciência inicial de que é impossível ao espírito ético negar aos outros - ou, mais simplesmente, não providenciar - que tenham aquilo que não consentimos nos seja negado ou retirado.

 

   Doutra perspetiva, poderemos falar de manifestações "à coletes amarelos", refletindo nelas como crises entre o apelo da Utopia, no sentido etimológico de Thomas More (isto é, Nenhures ou o Lugar inexistente) e o da Retrotopia, título feliz da última obra de Zigmunt Bauman (isto é o Lugar atrás, dantes, o Passado), cuja edição original, em inglês, é da Polity Press, em Janeiro de 2017. Desse tópico ou "lugar" anti utópico se alimentam os populismos hodiernos, desde o Brexit a outros nacionalismos xenófobos, com maiores ou menores, e mais ou menos argumentáveis, saudades de passadas grandezas... O primeiro apelo, o que aponta o tal lugar que não existe, mas que o nosso mais íntimo sentido do humano pede que exista, é a verdadeira utopia, evangélica até no sentido da vontade de renovação da face da terra. Muito me alegrou, por exemplo, ver tantos jovens, em todo o mundo, manifestarem-se pela necessidade urgente de acudirmos à saúde da casa de todos nós... Qualquer revolução, no sentido de conversão a melhor mundo e melhores gentes, só faz sentido na fraterna alegria da esperança

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - IV

 

Minha Princesa de mim:

 

    Embora já há muito tivesse vindo a reunir a obra completa de Marcel Proust, pelas edições de La Pléiade, no princípio deste século, numa escala de Paris - a caminho de Tokyo - adquiri no aeroporto Charles De Gaulle uma maneirinha edição, pela Mille et Une Nuits, desse livrito principiante do autor de À la Recherche du Temps Perdu, publicado em 1896, mais de dez anos antes de ele ter começado a tal "busca" por que é universalmente conhecido. Falo-te de Les Plaisirs et les Jours. Custou-me poucos trocos, cabe-me na palma da mão, foi livro cómodo de ler no avião. Mas incómodo para o seu autor, que foi literalmente gozado pelos seus comparsas de tertúlia no Chat-Bourbon, ateliê de Jacques Bizet na ilha de Saint-Louis, no centro parisiense do rio Sena: o livro foi posto à venda por treze francos e meio daquele tempo, preço exorbitante para a primeira obra de um autor então ainda desconhecido. Donde resultou que, em vinte e dois anos, o seu editor apenas conseguiu vender 329 dos 1500 exemplares impressos... Contada a efeméride, vamos à prosa.

 

   Um dos contos ou novelas que o compõem dá pelo título de La Confession d´une Jeune Fille e tem, em epígrafe, uma citação da piedosa Imitação de Jesus Cristo de Tomás de Kêmpis: Os desejos dos sentidos arrastam-nos para cá e para lá, mas, passada a hora, que tiramos deles? remorsos de consciência e dissipação do espírito. Saímos em alegria e, muitas vezes, regressamos em tristeza, e os prazeres da noite entristecem a manhã. Assim, a alegria dos sentidos começa por ser lisonjeira mas, no final, magoa e mata (Livro I, capítulo XVIII). Mas o conto tem quatro partes, todas também encabeçadas por uma citação, exceto a segunda. As outras três trazem, em epígrafe, pela ordem respetiva (1ª, 3ª, 4ª) versos de Henri de Regnier e, por duas vezes, Charles Baudelaire. Não traduzo já, transcrevo:

 

     I.- Parmi l´oubli qu´on cherche aux fausses allégresses,

         Revient virginal, à travers les ivresses,

         Le doux parfum mélancolique du lilas.

 

  III.-  Et le vent furibond de la concupiscence

         Fait claquer votre chair ainsi qu´un vieux drapeau.

 

 IV.- À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve

        Jamais... jamais!

 

      A história contada pela Confession d´une Jeune Fille é isso mesmo: a confissão de uma jovem de vinte anos que falhou uma tentativa de suicídio. Traduzo o início da novela: Finalmente, está próxima a libertação. Fui certamente desajeitada, disparei mal, por pouco nem acertava em mim. Teria certamente sido melhor morrer logo à primeira, mas também não conseguiram extrair a bala, e começaram os acidentes cardíacos. Já não durarei muito, mas terei ainda oito dias! Oito dias, durante os quais mais não poderei fazer do que esforçar-me por reconstruir o terrível encadeamento. Se não estivesse tão fraca, se tivesse vontade bastante para me levantar, para partir, quereria ir morrer aos Olvidos, no parque em que passei todos os meus verões até aos quinze anos. Nenhum lugar está tão cheio de minha mãe, tanto a sua presença, e mais ainda a sua ausência, o impregnaram da sua pessoa. Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais vivaz, a mais indestrutível, a mais fiel de todas as presenças? 

 

   Eis, nesta última frase traduzida do francês, uma definição bem lusitana da saudade... O nome da casa grande e seu parque, local eleito das férias grandes da menina e moça que, ali mesmo, todos os anos pelo Verão, se despedia e aguardava sua mãe é a palavra chave de todo o conto: Les Oublis, os olvidos, o que se esqueceu. Esquecimento de que falo no meu Éloge de la Jouissance, ao abordá-lo enquanto artifício: l´artifice de l´oubli. Sim, porque esse tal esquecimento não é falta nem perda de memória, antes será, como na saudade, uma transfiguração dela... Os versos de Henri de Regnier, cuja citação por Proust reporto acima, dizem o mesmo (traduzo): Entre o olvido procurado para falsas alegrias, / Volta sempre, mais virginal através das embriaguezes, / O suave perfume melancólico do lilás... [Só aqui entre nós, Princesa de mim, estes versos talvez digam algo sobre o íntimo sentir do poeta que, com Madame de Regnier (Marie Heredia de solteira), sua mulher, não terá consumado o casamento, aliás para grande surpresa do primeiro amante e pretendente desta, Pierre Louÿs, que a encontrou intacta no dia do primeiro adultério...]

 

   Não te escrevo esta carta para te contar o conto, não quero roubar-te o gosto de o leres no texto francês tão sensível de Marcel Proust. Mas devo avisar-te de que a história me parece inverosímil ou, melhor, intencionalmente artificial. Afinal, tudo bem lido, concluo que se trata duma parábola do texto da Imitação de Cristo em epígrafe. Um conto moral, portanto. Ensinando que a embriaguez dos sentidos, o prazer carnal, tentador, em aparência gratificante, afinal se revela mortificador e letal. E Charles Baudelaire, o vate de Les Fleurs du Mal, parece corroborar o piedoso Tomás de Kêmpis, quando canta: E o vento furibundo da concupiscência / Faz estalar a vossa carne como bandeira velha... Ou, referindo-se talvez à virgindade ou inocência perdida, dedica a Seja quem for que tenha perdido aquilo que / Jamais...jamais se recupera!

 

   Reparo também numa ambiguidade, talvez insidiosa: a confissão da jovem enche o livro todo, do princípio ao fim, digamos ainda que é apocalíptica. Mas também inclui (para confusão de alguns leitores?) outra confissão, esta apenas a um padre que a absolve e aconselha a não fazer o que provavelmente devia: reconciliar-se ex ante, para que assim fosse, como em qualquer conversão, ab initio, com o noivo prometido, melhor dizendo, com a própria promessa dela. [E ao teu ouvido atento murmuro: o Se bem me lembro do grande Nemésio era, mais do que divertimento erudito, uma lição de vida. E a nossa vida consciente começa pela memória, nossa e do outro. Tal como uma coisa são os "pecados que só ofendem a Deus" -  assim como tantas vezes se ensina - e os que são também ofensa aos nossos próximos. O que já se diz menos é que todos são pecados igualmente, e Deus lá sabe porque poderá perdoá-los, mas a ofensa ao próximo não pode ser descartável num confessionário, exige diretamente o pedido de reconciliação e a reparação possível. Já a ofensa a Deus só, cada qual tratará dela, sua, como a sentir na sua própria consciência].

 

    Tenho para mim, há muitas décadas já, que o esquecimento talvez pouco perca, mas certamente nada recupera. Quando, em estado de boa saúde mental, esquecemos algo, esse tal pouca ou nenhuma importância terá para nós, nem marcas deixa. Mas tudo aquilo que, pela positiva, como pela negativa, valorizarmos não se esquece: a nossa memória é ciosa e zelosa de tudo o que, de um ou doutro modo, vai constituindo a circunstância da nossa própria consciência. O esquecimento, em condições de saúde mental, é sempre um artifício enganador. Ou uma auto-mentira caridosa: esquecemos para mais facilmente perdoarmos, a nós ou seja a quem for. Donde também depreendo que esse olvido é tão somente o apagar de um remorso ou dum ressentimento, para podermos aceder ao perdão de nós e dos outros. Só em paz o perdão é possível, já que ele mesmo é o triunfo da paz. Nem sempre entendemos essa lição de Jesus Cristo, que não nos manda ir confessar em segredo, mas nos envia à reconciliação com quem tenhamos por faltoso connosco ou nos possa sentir em falta para com ele.

 

   Assim, é interessante ler-se a seguinte análise de Marcel Proust, escrita neste conto que publicou com 25 anos. A jovem pecadora foi confessar-se, em vésperas do seu acordado casamento com um pretendente recomendado por sua mãe, um rapaz que, pela sua extrema inteligência, doçura e energia, poderia ter sobre ela felicíssima influência:

 

   Tive então coragem de dizer todos os meus pecados ao meu confessor. Perguntei-lhe se devia a mesma confissão ao meu noivo. Teve a caridade de me dissuadir, mas levou-me a jurar que nunca mais voltaria a cair nos mesmos erros, e deu-me a absolvição. As flores tardias que a alegria fez desabrochar no meu coração, que eu julgava para sempre estéril, deram frutos. A graça de Deus, a graça da mocidade, - quando vemos tantas chagas sararem sem mais do que a vitalidade dessa idade - tinham-me curado...

 

   A ilusão durou até à hora de um jantar de festa em que um dos seus passados sedutores voltou a cobrar-lhe os encantos... Mas já te disse que não te contarei o drama todo. Vou tão somente concentrar-me nesse relato de uma vitória pirrónica duma "consciência religiosa curada pela confissão": Teve a caridade de me dissuadir [isto é, o confessor convenceu a penitente ou confessada a não fazer aquilo que se propunha e seria, a meus olhos, a atitude mais pertinente], mas levou-me a jurar que nunca mais voltaria a cair nos mesmos erros, e deu-me a absolvição. Enganou-se, fez mal, e é claro que não tinha qualquer competência nem autoridade para dar tal conselho. Ao reler hoje este conto de Proust, pensei, uma vez mais, em partilhar contigo essa interrogação que frequentemente temos feito: num tempo em que a Igreja Católica é assombrada por casos tão tristes, não deveria aprender e ensinar a distinguir entre crime e pecado, esquecimento e perdão, tal como compreender que a responsabilidade de cada consciência é própria dela e não pode ser alienável pela prática de sacramentos ministrados em nome da misericórdia de Deus? 

 

   Com arrepiante incontinência, sectores pretensamente ortodoxos do catolicismo continuam a destilar conceitos apoiados em inseguras exegeses de textos bíblicos (quando não, muito simplesmente, em extrapolações abusivas) e em bases teológicas mais do que discutíveis. Assim se fundamenta e propaga a virtude corrente do sacramento de reconciliação, ou confissão auricular, esquecendo-se de que essa prática apenas se foi impondo depois de um milénio de cristianismo, e de que, além de tardia, a prerrogativa exclusiva do "poder" de perdoar os pecados atribuída ao clero ordenado tem muito a ver com a afirmação de uma ordem policial e judiciária de cariz clerical, ainda que inspirada na ordem romana (que a Igreja foi adotando, a partir do século IV, com a própria "ascensão" do cristianismo a religião do Império Romano), sobretudo a seguir à queda deste, pela necessidade de estabelecer ordem num mundo dividido e desorganizado. Aliás, a prática confessional desse tipo, originalmente, terá vindo das igrejas orientais, em que monges, considerados homens santos, mas não ordenados "ouviam em confissão". Tal prática passou para a cristandade europeia latina ou ocidental através de monges irlandeses, acabando mais tarde por ser atributo do clero ordenado. Eis, de certo modo, uma privatização que pouco tem a ver com a correção fraterna que, entre si, os primeiros cristãos praticavam como ato de reconciliação mútua, designadamente na celebração da eucaristia: antes de colocares a tua oferta no altar, reconcilia-te com teu irmão. A confissão cristã não é aliviar escrúpulos ao ouvido de um padre, com vista a uma absolvição em troca de declarações de arrependimento e cumprimento de arbitrária penitência; é, isso sim, pedirmos e concedermo-nos mutuamente perdão pelas faltas cometidas contra os nossos irmãos e comunidades. Deus apenas perdoa, não se ofende: se Deus fosse suscetível de se ofender, não seria Deus. Mas perdoa a quem perdoa o seu próximo, como se dissesse: vai em paz, são-te perdoados os pecados por muito teres amado. Amamos quando perdoamos e somos perdoados. Mas lembremo-nos de que não há ofensa possível de esquecimento pelo seu autor, ou sofredor, sem ter sido claramente reconhecida e, tanto quanto possível, reparada. E não há poder eclesial que de tal nos possa livrar.

 

   Os sistemas judiciais civis, esses, são de outra ordem. Existem para formalizar o reconhecimento dos direitos a todos igualmente atribuíveis e assegurar o respetivo respeito e a prática das obrigações inerentes, sob pena de sanções definidas e previstas na lei em casos de infração. A instituição de uma justiça civil e criminal obedece à necessidade de garantir ordem social e proteção igualitária de todos, sem exceção. Fundamenta-se num pacto cívico positivo, não se imiscui nas relações de consciência seja de quem e com quem for, não pode nem deve consentir que qualquer pessoa, autor, cúmplice ou encobridor dum crime ou simples violação da lei, possa furtar-se aos procedimentos e sanções objetivamente previstos por essa mesma lei. Sob a qual, é bom lembrar, todos nós, cidadãos livres e iguais, vivemos.

 

   O Evangelho, boa nova da misericórdia, não é um código penal, não vem proclamar juízos nem castigos. Vem chamar à conversão, à alegria da reconciliação. Portanto tampouco confere, seja a quem for, poderes de amnistia de crimes cometidos ou faltas puníveis pelas leis comuns, nem autoriza a que se furtem aos processos penais democraticamente consentidos os seus presumíveis autores.

 

   Assim, por muito que pese a certas mentalidades reconhecê-lo, a justiça da Igreja não tem de ser nem mais, nem tanto nem menos severa, do que a civil. A justiça da Igreja não tem de julgar nada, pode quanto muito impor e sancionar comportamentos objetivos aos membros do seu "aparelho", como acontece em qualquer organização humana, com vista ao seu funcionamento. Também não lhe compete gerir consciências pessoais, e muito menos julga-las. À justiça da Igreja cabe-lhe apenas saber que só Deus é juiz, e anunciar aos povos que Ele é juiz sagaz e misericordioso. E, a todos nós cabe saber que a resposta à infinita misericórdia de Deus apenas pode ser dada pela verdade e justiça com que tratarmos os nossos irmãos.

 

   Para terminar esta minha rapsódia numa nota malandrinha e divertida, dou-te um exemplo de exagero duma escolástica canónica que, na obsessão de se imiscuir em tudo e regular até pormenores da vida quotidiana, acaba sendo ridícula. Traduzo-te um trecho do livro A Bite-Sized History of France (Gastronomic Tales of Revolution, War, and Enlightement) dum casal franco-americano, que ultimamente me tem feito rir algumas insónias. Os autores, marido e mulher, são Stéphane Hénaut e Jéni Mitchell, o editor sendo The New Press (New York, London, 2018):

 

   The Catholic Church was left rather perplexed about what to do about this new food. Padres e freiras contavam-se entre os primeiros e maiores admiradores do chocolate...   ... Mas pensava-se que o chocolate incendiava paixões, o que parecia inapropriado par servidores de Cristo. Havia também uma disputa de décadas sobre se se poderia beber chocolate em dias de jejum. Por último, a Igreja reconheceu a futilidade de tentar banir produto tão popular e avançou com o velho princípio do liquidum non frangit jejunum (o líquido não quebra o jejum). E como, naquele tempo, o chocolate apenas era tomado como bebida na Europa, podia ser engolido sem ofender a Deus.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - III

 

Minha Princesa de mim:

 

    Entre os menus plaisirs que recordo no meu Éloge de la Jouissance, está este meu gosto de convívio, certo flirt com as palavras. Um namoro simultaneamente innocent, malin e inattendu... Inesperado sempre, como as surpresas, novidades súbitas que nos encandeiam e encantam; marotos, espertos como regatos de Tormes e, como tais, sempre inocentes. São bem felizes os que percebem que há maldades sem malícia. "Partidinhas". Assim me acontece pensarsentir que os prazeres são inocentes até serem "explicados"... Outros nem precisam de explicação, e mesmo assim nem sempre há quem os entenda.

 

   Por fortuito e furtivo acaso (haverá pleonasmo maior?), caiu-me sob os olhos uma tradução que fiz, aqui há uns anos, de um soneto de Petrarca:

 

 Zephiro torna, e´l bel tempo rimena, / e i fiori et l´erbe, sua dolce famiglia, / Et garrir Progne et  pianger Philomena, / Et primavera candida et vermiglia.

 

   Traduzi então esta primeira quadra assim: " Zéfiro volta e traz-nos brisa amena, / Tua família de verdura e flores! / Ria-se Eros e chore Filomena, / A Primavera é vermelha de amores!" Hoje, logo à primeira, surgiu-me melhor assim:

 

   Zéfiro volta e traz-nos brisa amena, / Tua família de verdura e flores! / Ria-se eros e chore Filomena, / a Primavera enrubesce de amores!

 

   E nestes dias de abertura da Primavera à nossa alegria, quanto gosto de a ver corar de amor! Na minha idade será como sol rubro do poente: mais fraco, mas incandescente... Lá diz o fado que Maria Teresa de Noronha tão bem cantava: a saudade é como a luz que o sol já morto deixou. Não há motivo de alarme, nem causa de tristeza. Apenas razão de outros sonhos, depois de desfrutado mais um menu plaisir.

 

   E, a talho desta minha foice de memórias pós-prandiais - hoje, não sei porquê, tão focadas no namoro das palavras - ocorre-me uma nota do professor Frederico Lourenço ao passo inicial da sua magnífica tradução do livro de Eclesiastes:   Vacuidade de vacuidades - disse o Eclesiastes -, Vacuidade de vacuidades: todas as coisas são vacuidade.

 

   Todos nos lembramos da tradução correntemente adotada: Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade. Frederico Lourenço observa que, em grego, mataiótês (palavra que designa a qualidade do que é vão e, por isso "em vão"), em hebraico hebel (ilusão, vazio, inutilidade) que a Jewish Study Bible (Oxford, 2014) traduz como futilidade, tenha talvez uma tradução mais eufónica, mas simultaneamente mais atenta ao sentido profundo da frase, em vazio dos vazios: tudo é vazio.

 

   Pessoalmente, consigo dar-me com todas essas versões. Afinal, cada um de nós, em dado momento, respira a seu tempo e modo qualquer a mesma palavra. E eis que tal eventualidade pode sempre ser enriquecedora das nossas visões, desde que a prudência, esse amor sagaz, nunca se esqueça de chamar em nosso auxílio o nosso próprio espírito crítico. Neste instante, em que a camoeca da tarde me está afagando a costela mórfica, sonolento murmuro tradução minha: Oco, tão vazio - diz o Eclesiastes -, tanto vazio só vaidade pode ser... E penso em quanta vacuidade ouvimos e a quanta resistimos para não deixar de ser... Afinal, a versão latina da Vulgata (Vanitas vanitatum, omnis vanitas!), que traduzimos em português por vaidade das vaidades, tudo é vaidade!, diz bem a vacuidade, "emptiness", vazio, de tanto de nós... Ecclesiastes é o que preside à assembleia (ecclesia), na própria epígrafe do livro identificado como "filho de David, rei de Israel, em Jerusalém". Mas parece que o texto terá sido redigido bem mais tarde, mesmo já depois de Cristo, tal nos lembrando que o verbo latino da mesma raiz de vanus (vão) e vanitas (vaidade) é vano, vanas, vanare (minto, mentes, mentir).

 

   A partir daqui, talvez possamos rever, por outra perspetiva, a ideia de que o livro do Eclesiastes é obra pessvbimista, no sentido de dissuasora de qualquer esforço humano, já que tudo é vão, oco, vazio, frívolo, fútil, inconsistente, inútil, enganoso, pérfido, falso - todos estes termos sendo algumas das traduções oferecidas pelo Diccionário LATIM-PORTUGUEZ, Etymológico, Prosódico  e Orthográfico, editado como "propaganda de instrução para Portuguezes e Brazileiros", em 1922, pela Livraria Francisco Alves (Rio de Janeiro) e pelas Livrarias Aillaud e Bertrand (Paris-Lisboa). Coisa fina, democrática e progressista, como se pode ver...

 

   Ao fim e ao cabo, o Senhor Eclesiastes apenas terá querido, desejado ou pretendido prevenir-nos contra os enganos possíveis das nossas próprias ilusões. De como as palavras nos ensinam muito mais do que soem dizer... Namorar com elas é como deixar sonhar o coração...   

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTA A CAMILO

 

Cartas Derradeiras de Camilo Maria de Sarolea - II
(publicado aqui)

 

Amigo Camilo,

 

Obrigada! Fez-me tão bem ler a sua carta de hoje! Precisava muito que hoje um canivete em mãos e pensares hábeis esculpisse em palavras algumas das peças do meu xadrez, trazendo a dialética certeira à essência de um jogo de desiguais virtudes.

 

outra consciência não posso ter do que a da minha própria pequenez.

 

Esta uma das obstinações mais claras que nos pode acudir e acudir em lances tranquilos e de cheque mate, contudo. E chega um doce pólen de partida que entrego às brisas antes mesmo do tempo em que julgava ir sentir mestria preparada à partida, àquela partida que teria idade conformada.

 

A morte é silêncio e é lembrança, como a vida antes de si.

 

Sim, é assim que vejo a vida contida no ovo que a contém. Um ovo no chão que o faz sofrer quebraduras múltiplas. Vejo a vida, por vezes, como criatura mais inconformada nas formas do que nas inações e ainda assim a morte da vida oferece-lhe lembrança e silêncio, num ramo de ternos sorrires como se merecêssemos por termos sido aves sempre atentas ao mundo aberto.

 

Talvez por ser humano, o único ser capaz de viver e sobreviver fora da sua circunstância. Creio que a razão pela qual tanto e tantas vezes nos revoltamos é sermos paradoxo, o nosso próprio paradoxo.

 

Penso que viver fora da minha circunstância é deixar-me surdir para o maravilhamento da vida e é também, com ou sem dor, antecipar a surpresa e que isto tenha muito de ingénuo e muito de bisonho, diria, de modo a que se alguma coisa entendi do princípio dos tempos, tenha sido o não estranhar o paradoxo que sou numa mesmidade, em solidão. Depois, resta-me dar a mão à outra dentro de mim e lá vou acedendo à presença.

 

Afinal, "surfando" ondas hodiernas, não fará sentido perguntar se a fé é uma questão genética?

 

Sempre poderão surgir poderes de interpretação insuspeitados. Novas formas de navegar nos enigmas ao encontro do Espírito-cerne, aquele único que é uma incitação ao prosseguir no virar das folhas do papel-bíblia, afinal ele mesmo aventura de vida. O périplo, Camilo, na parte que hoje li do seu texto, tem o segredo de não nos deixarmos captados como presas sem que desse facto tenhamos consciência. Então pois que consigamos “surfar! já que tudo se vai reduzir a caminho já feito, a pormenores, a eternidades e coisas fugazes e afogadas em bips elétrónicos. Todavia a genética é viagem também; é embrião que não carece de sextante para se explicar de onde e para onde.

 

Camilo, que as suas palavras que cito em itálico me surgiram mais como lianas que muito sustêm os tombares, aqui, e ora ali, surdos e acantonados para que a maioria os não veja. E afinal pouco mais sei que na floresta a voz humana é tão só murmúrio. Os segredos dão a volta a si próprios de onde todas as transcendências parecem provir.

 

Devemos correr o risco de ter medo, tal como se arrisca a vida, eis que em tal risco se reconhece a coragem. Nicolas Diat não deixa de citar este dito

 

Gostava que não se tivesse medo de perder a consistência, a quase identidade que também escorre na berma dos dias que por último se suportam. Todavia, não creio que possamos ir mais longe do que um tecer conjunto, entre linha chamada de coragem e linha inclemente cor de chumbo.

 

Enfim, resta-nos sempre a grande e compacta toalha do mar. Essa que acompanha o seu passeio em Cascais e que o fita. Mas saiba que também já vi uma lua mutilada, um traço de morte, fiel, afinal, aos vícios da vida, um pescoço altivo, uma demora na possessão e tudo ainda assim me tem ajudado à compreensão, alertando-me o quanto esta não tem fim.

 

Sua amiga
Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - II

 

Minha Princesa de mim:

 

   Coisa nenhuma nos custa sempre equivalente esforço - e menos ainda o mesmo dom - neste tempo de vida. Todos somos afeitos a caprichos de idades, com seus modos e tempos, bem diferentes, de sonhos e sabedorias, quiçá anseios e saudades tão insinuantes...que até nos fazem tomar-nos então e assim por nós mesmos, como se estar fora de qualquer circunstância em cada momento fosse a nossa habitação.

 

   É difícil - será sempre um desafio a sermos nós e para além de nós - esta consciência do humano que vive no tempo e fora dele. Nunca me curei desta loucura. Já há quase vinte anos, lembro bem, enviei-te por sms (short message service), como hoje se diz na nossa cultura anglosaxofónica, uma mensagem escrita no meu telemóvel, enquanto passeava no paredão de Cascais, refletindo essa funda impressão de intemporalidade de mim, da minha vida, que tantas vezes se me apodera. Todavia, desde pequeno que sou um maníaco da pontualidade, uma espécie de controlador do tempo cronológico. Sempre tive uma consciência aguda da minha situação no espaço-tempo, como minha mensurabilidade. Simultaneamente, um qualquer íntimo de mim recusa-se à medida, só vive e se sente vivo na intemporalidade. As minhas angústias não são pertinentes ao ignoto, no sentido deste as tornar necessariamente aflitas, frustrantes ou até depressivas, antes serão paradoxalmente alegres, felizes como aberturas sobre espaços infinitos e tempos incomensuráveis, logo impensáveis por nós enquanto tais. Esta manhã, acordei recordado de notícias dum universo em expansão contínua, de galáxias com milhões de estrelas solares, tão imenso e infinito que dele outra consciência não posso ter do que a da minha própria pequenez. Contudo, não me assusto perante essa dimensão que ultrapassa o meu próprio entendimento e sua capacidade, mas contemplo-a e, como diria o Ungaretti, ilumino-me, alumio-me de imenso. E é tão profunda e serena a alegria que habita esta minha íntima casa, moradia que o sentimento de intemporalidade me edificou... Acredito, aliás, que tal sentimento de estar bem no tempo que me é dado - partilhando modos e crises da existência humana - por nos "sabermos" simultaneamente fora dele, não é privilégio meu, mas uma certeza moral intimamente deparada por miríades de humanos da minha mesma condição, na consciência de que pertencem, desde já, ao intemporal do espaço infinito.

 

   Nota bem, Princesa de mim, que não estou a argumentar: apenas meramente vou narrando uma experiência de vida interior. Talvez por ser humano, o único ser capaz de viver e sobreviver fora da sua circunstância. Creio que a razão pela qual tanto e tantas vezes nos revoltamos é sermos paradoxo, o nosso próprio paradoxo. Nenhum animal é ateu, planta tampouco, e mineral nem sequer pensassente. Só nós, humanos, o podemos ser, isto é, podemos negar Deus, talvez, precisamente, porque também o podemos anunciar, já que, geneticamente, recebemos a ideia e o anseio do divino, nome que damos à transcendência do infinito intemporal. Na verdade, se não tem medida, nem tempo nem espaço, como poderá caber na nossa "cabeça"?  Afinal, "surfando" ondas hodiernas, não fará sentido perguntar se a fé é uma questão genética? Mas poderá tal questão ser respondida cientificamente ou, como há milénios, apenas nos resta, pacientemente, aguardar uma visão apocalíptica? [É curioso, cabe nota-lo aqui, que apocalipse tem, para muitos, o significado de catástrofe final, quando todavia quer dizer uma última alegria: revelação, descoberta.

 

  Deixo-te a interrogação a pairar, mas proponho-te uma meditação sobre dois testemunhos que talvez saibas referir a essa questão: o de uma certa forma de religião, ou religiosidade, respigado do livro História do Ateísmo em Portugal (Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2010), de Luís F. Rodrigues; e o de tempos da morte, retirado de Un temps pour mourir (Fayard, Paris, 2018) de Nicolas Diat:

 

   1.- O último grande momento de religiosidade nacional sucedeu em 2004, aquando da participação do país no campeonato europeu de futebol. Por estranho que pareça, foi aqui que desaguaram, de forma evidente, todos os tiques, toda a essência da identidade portuguesa na sua mais profunda espiritualidade: fizeram-se promessas, rogou-se aos céus, idolatraram-se futebolistas, juntaram-se comunidades (em Portugal e na diáspora), reuniram-se famílias. Portugal fundiu-se numa única entidade monista, bem patente na febre de bandeiras nacionais desfraldadas em cada edifício.

 

   É óbvio que o desempenho devocional não é suficiente para garantir resultados - como, infelizmente, para as ambições futebolísticas nacionais, não garantiu - no entanto, é importante que se perceba que a ausência de resultados em nada desmontou o processo agregador então gerado. Instalou-se na mente de todos os portugueses que algo se tinha conseguido: uma vitória moral, a união de todos os portugueses numa causa, momentos de êxtase até então nunca experimentados. Ora, tudo isto é, claramente religião. Interessa apenas o «estar lá», estar de corpo e alma num projeto que solicita, de cada um, envolvimento e empenho inquestionado (ou, quando questionado - por exemplo, o desempenho de um treinador ou jogador - isso em nada fere o princípio de devoção exigido para a «causa nacional».

 

   Este texto vale o que possa valer - não o avalio - cito-o por me parecer ilustrador de como qualquer sentimento de pura transcendência não consegue ter tradição na cultura portuguesa, onde tudo tem de caber nos limites do alcançável, seja este uma possibilidade de facto real, ou apenas compreensível ou imaginável, pelas capacidades da nossa inteligência ou só no contexto dos nossos onirismos. Nesta perspetiva, a "fé" religiosa é da mesma natureza da crença ou "fezada" em que me saia a sorte grande ou a seleção nacional seja campeã mundial de futebol. E tudo se passará na temporalidade atual das vidas, as nossas fantasias, pessoais e coletivas, podem ser irrealistas (ou cheias de wishfulthinking) mas só teriam realidade possível no tempo/espaço em que sempre as situamos.

 

   2.- O grande passo é a finalidade de qualquer vida monástica, ponto sobre o qual frei Filipe sempre insistia. «A morte é o momento que esperamos. Morremos como vivemos. Também há situações extraordinárias. Acompanhei três dos nossos irmãos que se revelaram santos no momento da morte».

 

   Frei Filipe ficava feliz e comovido ao falar-me dos monges desaparecidos que tinham contado na sua vida. À medida em que a narrativa avançava, ia-me parecendo um rosário de palavras correntes e sublimes.

 

   Em 2005, o irmão José Maria rendeu a alma aos oitenta e sete anos. Diabético e insulinodependente, despediu-se com hemorragias internas sucessivas. Suportava a doença sem nada mostrar do seu sofrimento. Um dia decidiu deixar de tomar analgésicos. «Eu arranjava muitas vezes tempo para conversar com ele. Tentava compreender a profundidade exata da sua dor. As respostas eram sempre as mesmas: "O corpo está morto, mas o espírito vive". Citava com frequência S. Paulo na epístola aos filipenses (3, 21): "Jesus voltará para transfigurar o nosso corpo de miséria e conformá-lo ao seu corpo glorioso".»

 

   A crueza das palavras de frei Filipe pode ser chocante. Ele não quer esconder seja o que for do inferno dos males físicos: «Por acaso descobri que o irmão José Maria tinha hemorragias. Ao lavá-lo, pensei que sofria de incontinência, mas o afluxo de sangue mostrou-me que o problema era mais grave. Percebi que tinha os dias contados. Nada mais podíamos fazer, além de recolher o sangue que regularmente se lhe escapava.»

 

   ... Certo dia, estava ele sozinho no quarto, disse-lhe frei Filipe: «Então, frei José Maria, vai para o céu?» A resposta, dita em voz gozada, foi esplêndida: «Claro que sim, e vai ser uma festa de arromba!» Frei José Maria estava mesmo a morrer e estava alegre. Três dias antes da sua morte, ainda confiou a frei Filipe: «Procurei viver o Evangelho».

 

   Já neste texto, em que a realidade atual do ser na sua própria circunstância surge inescapável e muito dolorosa, se descobre essa tal intimidade com o intemporal, de que te falava, Princesa de mim. Aqueles monges, mesmo moribundos, não fogem de nada, não fantasiam. Começam a viver plenamente na misteriosa intimidade que certo dia os cativou. Este relato, que te traduzi de Un temps pour mourir - derniers jours de la vie des moines, de Nicolas Diat, foi escrito na Abadia de Cister. O livro recolhe testemunhos de monges beneditinos, cistercienses, trapistas, e outros, como de eremitas do Mosteiro da Grande Cartuxa, a tal, creio eu, em que se filmou o Silêncio. O silêncio que, há quem diga, estava antes de todas as vozes e era Vida. Que virá depois e ainda, quiçá cobrindo-nos, qual noite da ode pessoana, com o seu manto franjado de infinito. Ao pensarsenti-lo assim, ocorre-me que ele é intemporal, memória sem fim. Como nesta meditação de François Cheng, o sino-francês da Académie Française de que tantas vezes já te falei, Princesa de mim (em Cinq méditations sur la mort, autrement dit sur la vie, Albin Michel, Paris 2013):

 

                                                Não te esqueças dos que estão no fundo do abismo,
                                                Privados de fogo, de candeia, de face consoladora,
                                                De mão que socorra... Não os esqueças,
                                                Pois que eles se lembram das luzes da infância,
                                                Dos brilhos da mocidade -  a vida em ecos
                                                Das fontes em rajadas do vento -, aonde irão eles
                                                Se os esqueceres, ó Deus da lembrança!

                                               

   A morte é silêncio e é lembrança, como a vida antes de si. Será arriscado pensar assim, mas como diz Bernanos, a dado passo dos seus Dialogues des Carmélites: Devemos correr o risco de ter medo, tal como se arrisca a vida, eis que em tal risco se reconhece a coragem. Nicolas Diat não deixa de citar este dito, em epígrafe do livro que talvez lhe tenha sido inspirado também por estas palavras de François Mitterrand, então doente terminal, no seu prefácio a La Mort intime de Marie de Hennezel (Paris, Robert Laffont, 1995): Jamais a relação à morte terá sido tão pobre como nestes tempos de seca espiritual em que os homens, com pressa de existir, parecem escamotear o mistério.

 

   Mas escrevi-te esta carta, Princesa, a pensar no frei Bernardo Domingues, que certamente sempre entenderia bem melhor do que eu tudo o te quis dizer.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - I

 

Minha Princesa de mim:

 

    Entre os escritos demasiados e múltiplos que fui guardando - e ocasionalmente destruindo - vão sempre ficando uns rascunhos e alguns textos arquivados daquele meu projeto, em português, de uma "História Dual da Igreja Católica" (de que já te falei) e dum livro, já acabado, em francês: Éloge de la Jouissance. Tem este duas partes: Les Menus Plaisirs e La Grandeur de la Joie. A primeira estende-se por três capítulos (Les Innocents; Les Malicieux; Les Inesperés), em que vou "moralizando" acontecimentos e feitos da vida quotidiana, desde conversas e tertúlias de amigos, almoços e vinhos bem saboreados, feitiços namoradeiros, aos prazeres do campo e do mar, da leitura, das artes e da música, ou desde momentos de gozada malícia ou gratuito humor às surpresas que nos oferecem gestos próprios ou alheios de generosidade e de carinho humano. Já a parte segunda, talvez um pouco mística, contempla a alegria como trindade: La Joie de vivre la Vie, dans l´Amour et la Mort.     

 

   Finalmente, um apêndice discorre sobre a lembrança e o esquecimento: La Joie du Souvenir et l´Artifice de l´Oubli.  Muito do que ali está dito em francês já terá sido escrito no português familiar e chão das cartas que, por tantos anos, te fui escrevendo. Não direi que esta, agora, seja o último segredo ao ouvido da tua leitura, mas faz certamente parte das minhas derradeiras confidências, alimentadas por pedaços do meu pensarsentir, colhidos no tal acervo de escritos meus que te nomeio acima, sem sequer nele aí os localizar, pois, muito provavelmente, logo de seguida irei destruir os respetivos textos originais. O que doravante te vou enviando poderá, assim, ser ou não novidade para ti, mas nada terá de construído. Apenas será um último aceno de memórias ou lembranças que apenas vou revendo porque delas me despeço. Dizendo-lhes, como os antigos no fim de um auto teatral: acta est fabula!


   Longe de mim qualquer intento de recordar ou registar algo para quaisquer galerias, antes pelo contrário pretendo apenas  -  sempre guardadas as evidentes distâncias intelectuais, e não só - emular o retrato de Michel de Montaigne, que Stefan Zweig pinta assim: Poucos homens se bateram com mais dedicação e empenho para preservar o seu eu mais íntimo, a sua essência, de qualquer mistura, de qualquer atentado vindo da espuma perturbadora e malévola da agitação dos tempos, e poucos terão conseguido salvar do tempo, e para sempre, o que eles viveram, o seu eu mais profundo. 

 

   Montaigne travou tal combate para salvaguardar a sua liberdade interior, e esse terá sido, talvez, o mais consciente e tenaz jamais travado por um espírito humano, sem ter em si nada de patético nem de heroico.

 

   Seria violência a Montaigne força-lo a pertencer ao grupo de poetas e pensadores que verbalmente combateram pela «liberdade da Humanidade». Ele nada tem dos discursos inflamados nem das explosões de Schiller ou Lord Byron, nem tão pouco da causticidade de Voltaire. Fá-lo-ia sorrir a ideia de querer transferir para outros seres humanos, e ainda mais para as massas, algo de tão pessoal como a liberdade interior. Detestou, com toda a alma, os reformadores profissionais do mundo, os teóricos, os mercadores de ideologias. Já sabia bem demais quanto custa o aturado trabalho de manter consigo, em si mesmo, a independência interior...

 

   ... Assim, não tem Montaigne uma biografia. Não se confronta seja com quem for, nunca se destacou, pois nunca quis contar com audiências nem aplausos.

 

   Eu tampouco, sem escamotear esse abismo que me separa dos merecimentos de Michel de Montaigne, que não tenho, nem sequer sonhei ter. A minha única obsessão, e contínua perseguição interior do dom da vida, foi a busca da independência da minha inquirição, como modo de ir percorrendo e discorrendo o tempo que me foi dado, no ato de um esforço alegre, na liberdade de filho de Deus. Sou visceralmente alérgico a vendilhões de dogmas e a gurus de tudo o que as culturas gripadas vendem como sendo política, económica, social, literária ou culturalmente correto. Por outro lado, fui sempre tentado a considerar que não é necessariamente necessário (pleonasmo voluntário e significante) ser-se muito inteligente, nem erudito, nem eloquente, para se ser culto ou, muito simplesmente, um pensador dedicado à procura de entendimento das coisas (pormenores de tudo) e, muito humanamente, de mim, de mim e da minha circunstância, de mim como o de mim que sou eu, de mim como o eu que cada um dos outros, enquanto ele mesmo, também é, em tudo o que a condição humana nos faz comuns. Também aí busco a inabalável raiz da minha fé católica: nessa comunhão com Aquele que é tudo em todos. Eis a grandeza, a raiz mística da Alegria.

 

   Muitas vezes te falei da fidelidade como coluna vertebral da pessoa moral, mas também te referi sempre que ela não é, não pode nem deve ser, um facto consumado: o ecossistema do ser moral não é um tempo parado, estagnado, como se a vida, movimento divino, pudesse parar. O que, por paradoxal que pareça, tampouco significa que o tempo moral seja uma continuidade, já que, como escreve Laure Barillas, interpretando o seu mestre Vladimir Jankélévitch, ele tem uma temporalidade própria, a do Súbito e da conversão: O tempo da moral só pode ser o da descontinuidade, feita de instantes que se opõem à mediação olvidável da duração. Afirma o próprio Jankélévitch no seu Le Pardon (Éditions Montaigne, 1967): A vida moral não é um processo, mas um drama, um drama pontuado por decisões custosas, O progresso moral só avança pelo propositado esforço de uma decisão intermitente e espasmódica e na tensão dum incansável recomeço; o querer, incessantemente querendo e voltando a querer, em caso algum conta com a inércia do movimento adquirido, nem nunca vive das rendas do mérito acumulado. E é assim que o progresso moral recomeça sempre do zero. Não há outra continuidade ética além dessa esgotante continuação do reimpulso e da retoma; o progresso moral é, portanto, mais laboriosamente continuado do que espontaneamente contínuo, assemelha-se mais a recriar do que a crescer.

 

   Neste contexto ganha o seu sentido aquela expressão do mesmo filósofo no seu Traité des Vertus (Flammarion, 1983-86): O que está feito está por fazer. E assim entendemos como, no tempo descontínuo da moral, tudo fica sempre por fazer, por ser retomado: Ce qui est humain ce n´est pas l´oubli mais la mémoire, la vigilance et la fidélité (em La Presse Nouvelle Hebdomadaire, 15 de junho de 1979).

 

   Tenho trazido comigo, como regra de oração e de vida, que manter-me humano e procurar ser mais cristão passa, necessariamente, pela identidade da minha memória, da minha vigília, da minha fidelidade a ser.

 

   Noutras cartas, Princesa de mim, talvez te traga reflexões, no tempo atual, sobre a diferença entre crime e pecado, esquecimento e perdão. E sobre a face dogmática e canónica da igreja clerical, dessa que lamentavelmente teima em permanecer como poderio temporal - ao ponto de até pretender que Jesus Cristo assim como tal a instituiu - e vai fechando os olhos e os ouvidos aos ensinamentos e profecias do Evangelho do Mestre. E, ainda infelizmente, reforçando a razão desse conceito de pecado (que tantas vezes te tenho referido): O pecado é a paixão dos nossos limites. Tal clerical instituição ganharia em reconhecer-se naquela máxima de Antoine de Saint-Exupéry que nos ensina que o ser humano se conhece pela medida do obstáculo que supera. A tal questão voltaremos, minha Princesa de mim. Até lá, deixa-me só, uma vez mais, recordar o "meu" Ortega, que tanto me fez refletir no ser e na circunstância (eu sou eu e a minha circunstância), para te dizer (ideia central da minha "História Dual da Igreja") que a igreja clerical, o instituto canónico e os seus funcionários, é a igreja circunstancial, que se foi arranjando com tempos e modos da história... A Igreja Católica, a assembleia universal dos fiéis que, na sua múltipla diversidade, constituem o corpo místico de Cristo - essa, sim, é a Igreja mesmo. E talvez tenha chegado a hora dos senhores clérigos começarem a pensar na Igreja, não como sua empresa ou seu estado político, algo que simplesmente dirijam ou em que "sacramentalmente" mandem, mas como povo em si mesmo sacerdotal. O grande desafio à Igreja hodierna é procurar pôr direito o muito que tem arrastado às avessas. Já agora, lembrados de Francisco de Assis, que viveu com tão grande alegria o exemplo evangélico de Jesus, que nunca quis fundar um organismo hierárquico, nem mostrou qualquer condescendência pelos que pretendiam ter primazia no Reino de Deus...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

  Chove, é cinzenta e sombria a manhã, mas ocorre-me que Brahms, em alemão, quer dizer giesta, esse arbusto de flores brilhantemente amarelas que nos alegra os campos, e deixo que a música do concerto em ré menor de Johannes Brahms, para piano e orquestra, continue a tratar de mim. Lentamente, muito de mansinho, refletidamente, pensandossentindo. Como se fosse tocada no meu universo interior. No final, apesar deste ser um Rondo, Allegro non troppo, nada me impele ao aplauso, a qualquer manifestação. Toda a música tem os seus espaço-tempo de silêncio. Por vezes, no final de uma audição, o silêncio manda ainda mais, ficou-nos cá dentro, em nós edificou uma casa onde habita aquela música. Como se construísse um amor mais íntimo. Lembro-me desse verso do David Mourão-Ferreira que a grande Amália canta com música de Alain Oulman: Vou recolher à casa onde nasci, por teus dedos de sombra edificada... E recordo ainda os versos com que Goethe abre o seu Divã Oriental, e José Bruyr a sua biografia de Brahms na Solfèges (Seuil, Paris, 1965): Wenn der Dichter will verstehen, muss in Dichters Land gehen. Quando se quer compreender o poeta, tem de se ir à terra dele.

 

   Passou uma hora sobre esse recolhimento. Volto à carta, porque, entre as diferentes interpretações desse concerto que aqui tenho, encontro uma que talvez deixe o Glenn Gould mais acompanhado por outro oficiante do mesmo rito: trata-se da de Claudio Arrau, chileno, nascido em 1903, em Chillán, falecido em 1991, em Mürzzuschlag, na Áustria. A sua reputada virtuosidade em nada diminui a profundidade intelectual e espiritual que procura encontrar naquilo que toca. Nesse sentido, e para melhor compreendermos o que ficou dito nas minhas cartas anteriores sobre o entendimento do concerto de Brahms, traduzo-te um texto de John Clark, acerca das Conversations with Arrau, de Joseph Horowitz, sobre as inúmeras controvérsias que o pianista, ao longo da sua carreira internacional, teve com múltiplos maestros, precisamente por causa deste "nosso" 1º concerto:

 

   No caso do primeiro concerto, Arrau torna-se inesperadamente dogmático, insistindo em que há apenas uma maneira de interpretar os dois primeiros andamentos. O primeiro andamento é Maestoso, não Allegro. Executá-lo pela batida 6/4 em seis tempos é a única maneira de criar «a qualidade trágica, a grandeza, a profundidade» que o pianista vê na partitura. O segundo andamento, Adagio, também em 6/4, deve ser muito lento, tanto mais quanto Arrau o concebe como reflexo da tragédia dos Schumann: a morte de Robert, a aflição de Clara. As tónicas religiosas conotam também o segundo andamento e Brahms até teria escrito no manuscrito as seguintes palavras: Benedictus qui venit in nomine domini. Imaginemos o tanto que Arrau se comoveu com estas palavras da missa. Ao escutá-lo, não nos podemos impedir de sentir a extraordinária profundidade da sua resposta à dor. A execução do concerto em ré menor de Brahms representa uma das obras primas do vasto repertório pianístico de Claudio Arrau.

 

   O registo que agora começo a escutar é de outubro de 1969, com a Royal Concertgebow Orchestra, de e em Amsterdam,sob a direcção de Bernard Haitink. O som é menos americano, diria eu: tem o feitiço de uma tranquilidade submarina. Lindíssimo e, como Arrau queria, profundamente comovente. Fecho os olhos e deixo que a música venha morar no meu íntimo silêncio.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Já que teimei em voltar a escutar o concerto em ré menor, para piano e orquestra, de Johann Brahms, ouvindo ainda o "prelúdio" verbal de Leonard Bernstein - que dirigia a Filarmónica de Nova Iorque e o solista Glenn Gould -, tal como te contei em carta anterior, deixa-me traduzir-te uns trechos da conversa entre Seiji Ozawa e Haruki Murakami sobre a audição que, eles também, fizeram deste registo. Não o fiz na outra carta, para deixar-te só com as palavras de Bernstein e o meu sentimento. Para começar, o romancista e melómano Murakami comenta, pouco depois da música começar, que tudo aquilo lhe parece muito lento, tão surpreendentemente lento que talvez justifique a prévia advertência de Bernstein. Ao que o maestro Ozawa retorque: É evidente que este trecho é tocado de acordo com um ritmo binário amplo, dois tempos que se decompõem assim: um dois três, quatro cinco seis. Lenny dirige-o como se houvesse seis, porque um simples ritmo binário seria demasiado lento para manter um intervalo consistente entre as batidas. Não tem opção. Em geral, antes será um e e, dois e e, dirigido um...dois... É claro que há uma data de maneiras de o fazer, mas acontece que quase todos os maestros o fazem assim. Aqui, com um tempo tão lento, repito, Bernstein não podia manter um intervalo consistente entre as batidas, e por isso se viu obrigado a dirigir em: um dois três, quatro cinco seis. Eis por que falta fluidez à orquestra e ela se atola.

 

   E eis que então, nesta conversa - quiçá como sinal de que um grande músico está sempre atento , e aberto, não só à escrita original da música, mas também à recriação que, vez após vez, a faz acontecer - quando Murakami lhe aponta, logo à entrada do piano, que este também vai lento, Ozawa responde: Sim, mas tal parece-me bastante aceitável, sobretudo quando nunca se ouviu este trecho noutra versão. Temos a impressão de que foi escrito assim. Dir-se-ia quase uma ária bucólica, tocada com grande descontração...   ... Escute bem: quando chegamos a esse passo é impossível não nos encantarmos...

 

   Atrevo-me a dizer-te que a avaliação global deste registo do concerto de Brahms - por Ozawa e Murakami - não busca ser abonatória, provavelmente pela cedência de Bernstein à imposição de Gould... E, como admirador, discípulo e assistente de Lenny, que o maestro japonês sempre foi, até lhe custou discordar daquela iniciativa do mestre se explicar à plateia antes do concerto. Todavia, tem plena consciência de que, se Bernstein tivesse tomado a outra opção, isto é, a de encarregar um assistente de o substituir na altura, o escolhido seria forçosamente ele próprio, Seiji. Susto enorme, que até em sonhos o assombra... Mas a amizade verdadeira é fiel, não se deixa ressentir com faltas ou mesmo pequenos defeitos daqueles a quem bem queremos. O que não impedirá Ozawa - pois que a amizade também deve ser lúcida - de estabelecer outra comparação: a dessa interpretação de Bernstein com Gould com uma deste mesmo pianista canadiano com a Cleveland Orchestra, dirigida por um assistente de George Szell, pois este se recusara a seguir os tempi queridos pelo solista. Traduzo-te o trecho dos comentários durante a audição do solo para piano do primeiro andamento do concerto:

 

Ozawa - É surpreendentemente lento, mas contudo, assim tocado por Gould, funciona. Não ficamos com a impressão de que o tempo está errado.

 

Murakami - Ele devia ter um sentido muito afinado do ritmo. Isto é, era capaz de manter um tempo tão espreguiçado e simultaneamente inserir o som do piano na estrutura da orquestra...

 

Ozawa - Tinha uma compreensão do fluxo musical à prova de bala. E, por outro lado, o Lenny tinha razão ao dizer que ele se atirava de corpo e alma...

 

   Como terás percebido, Princesa de mim, delicio-me com estas conversas entre músicos e melómanos [alguns fãs quiçá não possam ler uma partitura, mas talvez utopicamente a saibam de ouvido e de cor(ação)]. Confirmam-me, como crisma na fé, que o universo da música é o do tempo de encontros inesperados com uma revelação sempre irrepetível no mesmo modo...

 

   Acontecimento, eis tudo o que ela é, entrega de um inexplicável de nós a um momento de sons que nos cativam. Assim também entendo os títulos de livros de Vladimir Jankélévitch: L´Enchantement Musical (o encantamento ou feitiço musical), La Musique et l´Inneffable (a música e o inefável), Debussy et le Mystère de l´Instant (Debussy e o mistério do instante). E creio que cada instante é a chave da escuta musical. Por isso me retiro agora mesmo da escrita desta carta, e não ouvirei mais música hoje. Amanhã, esteja cinzento e chuvoso o dia, ou radioso de sol já primaveril, sozinho novamente escutarei o concerto em ré menor de Brahms, para piano e orquestra, interpretado por Bernstein, com a Sinfónica de Nova Iorque, e por Glenn Gould. Sem me lembrar já dos comentários que aqui te traduzi, nem de emoções das minhas audições passadas. Mas tão somente, porque nunca pude evitá-lo, com o sentimento de gratidão por uma partilha procurada. Por quem dá e quem recebe. "Ortodoxos","puristas", "fundamentalistas" poderão julgar de outro modo, mas eu pensossinto que as vidas e seus dons, sejam reflexão profunda ou audácia liberta, entregam-se-nos, não para serem julgados, mas para que partilhemos um novo salto, um passo, um encanto, uma interrogação. No caso presente, sou comovido pela coragem fraterna e humana de dois intérpretes (um grande maestro e um pianista genial) que aceitaram revelar-se publicamente na simultaneidade das suas ideias divergentes, das suas respetivas imperfeições mas, sobretudo, no esforço passional de busca da compreensão de uma oferta de música escrita pelo alemão Johannes Brahms um século antes, quiçá sob o desgosto da morte trágica do seu amigo Robert Schumann. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta já datada de 24 de junho de 2018, publicada no blogue do CNC, falei-te de Gabriel Fauré e do seu Requiem. Dizia-te então, citando o compositor francês que eu apelidara de "agnóstico muito religioso", que o meu Requiem é tão meigo como eu. O meu Requiem... já alguém disse que ele não exprime o susto da morte, já lhe chamaram canção de embalar a morte: é uma feliz libertação, aspiração à felicidade do além, mais do que doloroso trânsito. Gosto intrinsecamente dessa peça sem terrores nem temores, ameaças justiceiras ou fanfarras. Soa-me mais a acolhimento pela ternura de Deus do ser humano que regressa a casa do pai. E, afinal, é isso que Requiem quer dizer: descanso. Eis o que essa missa pede: dá-lhe, Senhor, o descanso eterno. E a esperança logo acrescenta: entre os esplendores da luz perpétua...

 

  Volto a escutar hoje o Requiem de Fauré, lembrando-me de frei Bernardo Domingues, irmão do frei Bento que acorreu ao Porto para o acompanhar à beira do mistério. E a tantos amigos, mulheres e homens, que lá vão partindo na secreta viagem, também lhes faço companhia com essa música toda feita de acenos evangélicos. Talvez não haja alegria maior do que a desse encontro com a misericórdia de Deus e dos humanos todos. Sinto-o muito nesta tarde de sexta feira, quando me chega a notícia de que o frei Bernardo morreu de madrugada.

 

   Melhor do que eu, diz Vladimir Jankélévitch num dos textos de L´Enchantement Musical: O Requiem de Fauré é como o amor e a morte. Depois de tudo o que já foi dito, que mais conseguiremos dizer? E, todavia, é facto: ouvimos os sublimes arpejos do Sanctus e os acentos patéticos do Libera me como se pela primeira vez os escutássemos. O mistério do Ofertório, o alegreto bergamasco do Agnus Dei, o azul seráfico do In Paradisum, todos temas inesgotáveis de meditação e exaltação. [O canto do Agnus Dei, na missa de Requiem, por três vezes pede o descanso para o morto: Agnus Dei qui tollis pecata mundi dona eis requiem. Repara, Princesa de mim, que Jankélévitch chama, a esse andamento em alegreto no Requiem de Gabriel Fauré, bergamasco, sublinhando assim a alegria dançante de uma música que lhe evoca a bergamasca, dança ligeira (como a tarantela) da região de Bérgamo.]

 

   Confidencio-te hoje, Princesa de mim, a minha experiência espiritual na escuta desta obra musical, porque ela me ajuda a uma contemplação evangélica do mistério da vida e da morte humanas. Até pela fraternidade em que esse mesmo mistério se torna presente, nesta irmandade de todos nós, os da mesma humana condição, aqui algures no inacabado (Quelque part dans l´inachevé, outro título de Jankélévitch). No momento em que encaro a morte de um amigo, estou de certo modo a interiorizá-la: há sempre um pouco de nós que morre com os amigos que partem, com qualquer humano que se morre, e há ainda essoutra parte de nós, que fica, bem viva pela força persistente que nos diz como há algo em nós, na comunhão de todos nós, que não irá morrer. Esta é doravante a comunicação mais forte que temos com os que já não vemos agora. Afinal, estamos sempre em comunhão com todos os que são - pela, e na, sua e nossa humanidade - o nosso próximo, confundidos na mesma condição, na vida e na morte. 

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira