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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Eufemisticamente falando, não deixa de ser curioso que a Igreja Católica, contando ainda hoje - estatística e oficialmente - com mil e duzentos milhões de fiéis neste mundo terrenal, pareça mergulhada, aqui e ali, numa espiral descendente da sua afluência, precisamente no decurso de um pontificado (no sentido de fazedor de pontes) que lhe trouxe uma aragem de evangelho e a promessa de cara lavada... Ao escrever-te esta palavra afluência, pergunto-me se, afinal, tal decréscimo - também atribuível, no seio da própria Igreja, a sectores erradamente designados por conservadores ou fundamentalistas (pois não me parece que o que pretendem conservar seja propriamente o espírito evangélico ou o novo mandamento do amor fundador da comunhão eclesial) - não será atribuível à infeliz propensão histórica de uma instituição clerical para tentar assegurar, e garantir, uma praxis temporal do seu dogma, deixando a assembleia dos crentes sem ares do Espírito Santo, da vocação evangélica, da boa nova cuja transmissão Jesus Cristo confiou, precisamente, à confissão fiel dos seus discípulos... O escândalo dramático do abuso sexual de menores, sobretudo pela flagrante injustiça que tem sido a proteção sistemática de clérigos criminosos - cuja contrapartida é, sem atenuante possível, a negação de qualquer reparação devida às vítimas inocentes - não só tem minado a confiança de crentes e incréus na instituição eclesiástica, como, pior ainda, não tem gerado maior diligência na renovação, em espírito evangélico, da Igreja dos fiéis de Jesus Cristo. Pois não basta, nem me parece eficiente, procurar apenas restaurar a "imagem da Igreja", mesmo sem recear tomar as mais drásticas medidas punitivas e também dissuasoras de tal criminalidade... Na verdade, ninguém dotado de lucidez negará que esses casos não se tratam com confissões secretas e absolvições, mas deverão ser acompanhados por clínicos devidamente qualificados (na verdade, deparamos com séries de reincidências maníacas, não com quedas súbitas em tentações exaltantes), nem tampouco que os mesmos e os seus encobridores ou absolvidores devam ser sujeitos à lei penal comum. Repito: qualquer crime de pedofilia, nas igrejas ou fora delas, como qualquer outro abuso ou assédio sexual, ou violência doméstica, é prioritariamente matéria para tratamento médico e psiquiátrico e, também, para ser submetido à jurisdição dos tribunais competentes. Num Estado de direito, não é, não pode ser considerado, primeiro, objeto de qualquer processo canónico, e o seu eventual socorro sacramental nem sequer pode antepor-se ou derrogar a prioritária aplicação do direito positivo da sociedade civil.

 

   É evidente que, nem a fé cristã e seus mandamentos, nem a comunhão dos seus fiéis (que é a Igreja), podem ser responsabilizados por crimes cometidos no seu seio, ainda que os seus agentes e encobridores sejam seus ministros. Mas todos estes, mais os pastores encarregados da vigilância da sua disciplina, não podem ser sujeitos isentos das medidas sanitária e legalmente previstas para tais casos, na sociedade civil, jurídica e politicamente organizada, em que vivem. A Deus o que é de Deus, mas sempre, e em tempo oportuno, a César o que é de César. Cumprida a obrigação para com César, terá então a Igreja tempo e disponibilidade, caridade, para procurar restaurar-se (no sentido de refazer forças) e seguir o caminho da sua vocação. E quiçá encontre muito em que meditar e muito para restaurar (no sentido de repor a pujança original). E não bastará sacudir o pó e acomodar-se.

 

   Outrossim me parece urgente um regresso da inspiração cristã aos ensinamentos elementares de Jesus e ao espírito do Pentecostes que animou a constituição das primeiras comunidades e igrejas cristãs. A Igreja Católica que hoje nos é dado ver é a instituição resultante de uma longa evolução histórica, em que atuaram circunstâncias e fatores demográficos, culturais, económicos, políticos e teológicos, variadíssimos e até contraditórios. Simplificando, Princesa de mim, posso arriscar dizer-te que, basicamente, ela terá tido duas tipologias : 1.- A das igrejas locais, nascidas em comunidades judaicas da Palestina e da diáspora, tal como em populações gentias convertidas no mundo helénico; as tais que, por habitarem o Império Romano, no seio do mesmo comunicavam entre si, ganhando assim uma comum identidade, que a frequência de sínodos e de concílios ia solidificando (pois essas reuniões de epíscopos representantes iam definindo expressões comungantes da fé), tendo naturalmente concordado na primazia do bispo de Roma como sinal de união católica de todas elas. 2.- E, mais tardiamente, vai-se impondo, quer pelo fim das perseguições, quer pela conversão dos imperadores e a proclamação do cristianismo como religião do Império (até em modo de substituição do culto divino do imperador) um modelo mais marcadamente centralizado - e, por isso mesmo, gerador de autoritarismo e de hierarquia, seguindo o exemplo político do próprio Império Romano, sobretudo quando o desmoronar dessa entidade, pelas invasões bárbaras, abriu à Igreja Romana um espaço novo de afirmação. E foi fazendo dela uma instituição "política" e administrativamente organizada, formatada por um padrão que hoje ainda prevalece, a tal ponto que muitas vezes nos esquecemos de que Jesus Cristo não fundou qualquer instituição...

 

   No jeito informal que me permite a nossa comunicação epistolar, e tão somente com o mero propósito de refletirmos conversando, em próximas cartas procurarei descobrir pistas para uma Igreja mais evangélica nos tempos que corremos.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   A questão do celibato voluntário tem sido obnubilada pela obsessão com a obrigatoriedade do celibato eclesiástico. Esta padece, pela sua própria natureza obcecante, de falta de racionalidade nas aproximações opostas, ou contrárias, de que é objeto: há quem defenda o princípio brandindo pretensas fundamentações bíblicas, teológicas, históricas ou, simplesmente, pragmáticas (maior liberdade e independência na dedicação ao ministério religioso), como há os que se insurgem contra a imposição de um mandamento contra natura e as fatais consequências (pedofilia, etc.) de tal aberração.

 

   Já várias vezes te escrevi, Princesa de mim, que não considero pertinentes os argumentos de uns, nem me parece que a pretensa indignação de outros assente em aceitáveis razões erga omnes. Isto é: não encontro justificação plausível para o carácter coercivo do celibato de quem exerça ou pretenda exercer um ministério eclesial, como tampouco creio que o abuso de menores, o desvio de mulheres casadas, ou a frequentação de bordéis sejam o resultado necessário e exclusivo de falta de alívio conjugal. Por um lado, sei de um número crescente de pastores casados -  e de pastoras! - cuja generosa devoção ao serviço das suas igrejas é admirável, tal como, por outro lado, infelizmente sei de pessoas casadas que violam menores, e, sendo quer homo quer hétero sexuais, se viciam em "aventuras" extraconjugais ou se comprazem em encontros remunerados e em "partouses"...

 

   É precisamente porque somos livres que somos responsáveis, isto é, que necessariamente devemos responder pelos motivos e consequências dos nossos atos. Não é por alguém ter nascido homossexual que será incontrolavelmente pederasta ou esteticamente narciso; nem por ser hétero galifão que deverá imparavelmente "iniciar" meninas ou "consolar" senhoras mal desposadas por outrem. Antigo conselho do bom senso comum continua a recordar: "Haja juízo!"

 

   Ou, como prefiro dizer, evocando a definição agostiniano-tomista de prudência: procuremos sempre o amor sagaz. Este deverá inspirar a revisão de conceitos obsessivos e decorrentes modos normativos que a Igreja Católica ainda hoje mantém relativamente à sexualidade. Pretender que "abstinência sexual é exigida pela lei de Cristo" não só revela fraco convívio com a mensagem evangélica, como desconhecimento do plano bíblico do Criador, além de poder indiciar temores insanos das próprias e naturalíssimas pulsões sexuais. Dito isto, repito o que tantas vezes te confidenciei: acredito que haja vocações para a castidade como estado de vida, tais sendo, todavia, aspirações a uma forma muito própria de maior liberdade interior, cuja realização, na tradição cristã, se inicia com os primeiros cenobitas. E volto a recordar-te que, em todos os apelos de Jesus registados nos evangelhos, a quem quiser segui-lo totalmente, não surge qualquer referência ao celibato ou à abstinência sexual, mas sempre se refere o abandono dos bens materiais e terrenos, a pobreza, esta, sim, evidentemente constitutiva de liberdade interior. Para evitar repisar discursos meus, inscritos em cartas anteriores  -  e, sobretudo, para te trazer uma excelente análise desta questão do celibato feita pelo filósofo ateu e homossexual francês Michel Foucault (1926-1984), cujo conhecimento dos escritos patrísticos cristãos surpreende pela vastidão e profundidade  -  traduzo seguidamente alguns trechos do capítulo Virginité et Connaissance de Soi, do 4º volume, postumamente editado este ano apenas, com o título Les aveux de la chair, da sua obra Histoire de la Sexualité (Bibliothèque des Histoires, Gallimard, Paris, 2018). Trata-se de um longo comentário dos capítulos que João Cassiano (século IV), nas suas Instituições e nas Conferências dedica às questões da pureza na existência monástica. No mundo hodierno que é o nosso, todo esse discurso poderá soar estranho. Todavia, refletindo, talvez nele encontremos um ar cheio de frescura, bem diferente do ambiente sórdido com que, bem-pensantes, moralmente corretos ou libertinos envolvem qualquer debate sobre assuntos de sexo. Haja arejo!

 

   Cassiano raramente emprega a palavra virgindade. Surge duas vezes nas "Conferências" e, em ambos os casos, em oposição ao casamento. A propósito de Elias e Jeremias que «não querendo servir-se do casamento, preferiram perseverar na virgindade». E a respeito das virgens loucas e das virgens prudentes, umas e outras ditas virgens por não terem esposo, mas as primeiras apenas praticando a virgindade do corpo. É o termo castidade - castitas - que em Cassiano cobre a maioria das questões ou dos temas que Gregório de Nissa, Basílio de Ancira, Crisóstomo ou, de um modo geral os Padres gregos referiam à prática da virgindade e às regras interiores a esse estado.

 

   Tal como os seus predecessores haviam procedido quanto à virgindade, Cassiano diferencia a continência da castidade. Nas "Instituições", assenta essa distinção no uso tradicional das palavras gregas e, simultaneamente, marca a hierarquia de valores entre os dois termos: «Não negamos que, nas comunidades, também se encontram homens continentes, e reconhecemos que tal pode facilmente acontecer. Na verdade, trata-se de duas coisas diferentes ser continente - isto é "enkratés" - e ser casto, passando assim a esse estado de integridade ou de incorrupção a que chamamos "hagnos", virtude que só é concedida àqueles que permanecem virgens na sua carne e no seu espírito, como foram Jeremias e Daniel.» Entre as duas noções há a diferença do negativo para o positivo. De um lado, abstenção exterior de sexo; do outro, um movimento interior do coração. «A incorrupção da carne reside menos na privação de mulher do que na integridade do coração que guarda sem corrupção a sua santidade por temor a Deus ou amor da castidade»...

 

   ... Para se chegar à castidade, diz Cassiano num texto notável, «deve cada qual inflamar-se com o mesmo desejo e o mesmo amor que encontramos no avarento devorado pela cupidez, no ambicioso que labora a sede de honrarias, no homem arrebatado pela violência intolerável da sua paixão por uma beldade feminina, quando, no ardor de excessiva impaciência, querem saciar o seu desejo.»

 

   Apesar de bastantes pontos em comum com os grandes teóricos da virgindade no século IV, a distinção que Cassiano estabelece entre continência e castidade revela, de facto, uma paisagem muito diferente, dominada pelas noções de pureza de coração e combate espiritual que ganham sentido na especificidade da vida monástica, em que se inspira.

 

   Vocação singular de um projeto especial de vida, aliás de origem oriental, como testemunham hinduístas e budistas, ou também, no judaísmo do tempo de Jesus, a comunidade de Qumran. Ainda que se diferenciem entre eles por outros fatores próprios a cada um dos universos ascéticos ou religiosos. A designação "monaquismo", como a de "monge", deriva do grego "monachos", que indica quem escolhe a solidão, ou a separação do "mundo" para se consagrar à oração e exercícios espirituais e ascéticos que o aproximem do imaterial, do invisível, do Nirvana, de Deus. No ocidente europeu, os monges surgem na 2ª metade do século IV, vindo, entre outros, no sul de França, Jean Cassien (360-430), ou João Cassiano, a instigar, na Provença, em Leiris e Marselha, a formação de comunidades ascéticas e a escrever textos muito influentes sobre a espiritualidade cristã: as Instituições Cenobíticas e as Conferências. Nestas duas obras se encontram tratados os temas que, de acordo com Nicole Lemaître, professora na Sorbonne e no Institut Catholique de Paris, constituirão, durante séculos, os arquétipos fundamentais do monaquismo: forma perfeita da vida cristã, na senda de Cristo, pelo qual o monge a tudo renuncia. Num mundo onde as perseguições violentas se tinham tornado raras [o cristianismo já era religião do Império Romano] a vida monástica será o substituto do martírio sangrento dos primeiros séculos, na medida em que implicava mortificação do corpo e da consciência, luta contra os demónios e suas tentações, perseverança até à vitória final.

 

   Já a instituição do chamado sacerdócio católico, tal como hoje a conhecemos, é bem mais tardia, remonta ao século XII, com a fixação do direito canónico que faz do padre - e volto a citar Nicole Lemaître - aquele que recebeu o sacramento da ordem, pelo qual lhe foi remetido, por Deus e pela Igreja, o poder de batizar, abençoar, celebrar, e absolver os pecados. Doravante, e por muito tempo, esse estatuto permitiu-lhe dispor de privilégios, em especial o do foro eclesiástico que o protegia das justiças seculares. O padre torna-se celibatário, e modelo do cristão, a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanhará a sua excecionalidade... na promoção eclesial de uma sociedade perfeita.

 

   Foi-se então buscar à exceção que sempre fora a vocação monástica um elemento normativo da condição de servidor do ministério eclesial. Ora, no primeiro milénio, as coisas eram bem diferentes: na origem da Igreja, o enquadramento das comunidades era assegurado por diversos ministros, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos (Mateus, 10, 42) exercia um autêntico apostolado, não era, de modo algum, um separado, uma exceção. Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça (Atos, 14,23). São eles que vigiam cada Igreja e têm por missão velar pelo rebanho de Deus (Atos, 20, 28; I Pedro, 5, 4). Passadas as primeiras gerações, estabelece-se uma hierarquia a três níveis: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros assistidos por diáconos. Não é necessário percorrer todas as etapas [isto é: não há carreiras eclesiásticas] - São Cipriano tornou-se bispo sem ter sido padre nem diácono. Na verdade, o ministério põe-os a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, como sucessores dos Apóstolos, qualifica-os para serem intendentes de Deus. Recebem a imposição das mãos, mas prosseguem a sua vida normal, casam-se e exercem uma profissão.

 

    Estarás lembrada, Princesa de mim, de que, em carta talvez já distante, eu te falava de conselhos de São Paulo, no sentido de serem os ministros escolhidos de preferência entre bons pais de família, pois estes já deram provas de saber guiar um "rebanho". Revogar a obrigatoriedade do celibato eclesiástico parece-me ser questão do foro do bom senso, tal como a ordenação de mulheres deve ser encarada no contexto cultural das nossas sociedades hodiernas. Além de que já passou o tempo em que, cautelarmente, se escolhiam entre eunucos os bons servidores. Sem prejuízo de continuar a haver quem possa escolher um caminho que o próprio Jesus Cristo enunciou, avisando logo que seria radical e que poucos compreenderiam agora o que é ser eunuco por amor de Deus. Todavia quem responde a uma vocação à vida monástica ou religiosa, não o fará por contemptatio mundi, mas porque tal separação o leva, no seu próprio sacrifício pessoal, à misteriosa presença de Deus. Enquanto que os ministros do culto, da palavra, dos sacramentos, homens ou mulheres, são servidores escolhidos entre aqueles que permanecem vivendo no mundo humano.

 

   Referindo-se a São Cipriano (século III), que acima te recordo, frei Yves Congar escreve: Para o cristianismo antigo, a realidade primeira é a ecclesia. Ora, esta palavra, diferentemente da palavra "Igreja" tal como hoje a usamos, significa a comunidade cristã, a assembleia ou unidade dos cristãos. São Cipriano diz: a Igreja é o povo unido ao seu pontífice e o rebanho que permanece junto ao seu pastor. Por aí deveis compreender que o bispo está na Igreja e a Igreja no bispo.

 

   É essa ecclesia toda inteira que exerce a maternidade espiritual, pela sua caridade, pela sua unidade, pela sua oração, pela sua penitência; é ela mesmo que é o autêntico e adequado sujeito das ações santas e santificantes. E eis que encontramos esta mesma compreensão da ecclesia nos textos litúrgicos, expressão da Tradição: a ecclesia é assembleia de irmãos realizada por um ato do Senhor e pela sua presença entre eles. A liturgia antiga não conhece um eu separado do nós comunitário: o celebrante, isto é, o presidente da assembleia e chefe da comunidade, fala ali em nome de todos e a todos estando unido. [Cf. Yves Congar, o.p., L´Église e Pour une Église Servante et Pauvre, Les Éditions du Cerf, Paris, 1963].

 

   Deixo-te aqui, Princesa de mim, estas reflexões sobre a Igreja para que, meditando-as, possamos juntar mais uma achega circunstancial ao debate, tantas vezes descontextualizado, acerca da pedofilia e celibato eclesiástico, etc., etc. ... Até arrisco um olhar diferente: tal como não parece provado (longe disso!) que a Igreja Católica tenha, no seu seio, o exclusivo ou sequer a maioria dos casos de abuso de menores, também não creio que se possa estabelecer uma relação direta de causa a efeito entre celibato e violência sexual. Na verdade, nas notícias ou revelações de abusos que têm vindo a lume, o pecado ou responsabilidade da instituição eclesial descobre-se e encontra-se sobretudo no seu encobrimento e na recusa ou reticência de entrega às autoridades judiciais competentes (falando claramente, sem rodeios e sem prejuízo das medidas canónicas, isto é, do foro eclesiástico, que também devam ser tomadas), autoridades essas legitimamente constituídas pelo poder civil dos Estados de direito em que vivemos. Que as "hierarquias" religiosas metam bem nas suas cabeças que qualquer crime deve ser denunciado e entregue ao processo inalienável e sem exceções dos tribunais dependentes do poder judicial do Estado.

 

   Por outro lado, já será tempo de nós, católicos, revermos alguns dos preconceitos que guardamos quanto à função clerical ou, mesmo, à natureza da própria instituição. Os trechos de testemunhos e reflexões que te deixei acima podem ajudar-nos a perguntar se, abreviando, o padre é mesmo uma exceção consagrada, e se, até por isso, deverá ser assexuado e renunciar a constituir uma família, tal como o podem fazer magistrados, médicos, professores, militares, missionários leigos... E já agora, não poderão ser mulheres, como tantas há nessoutras profissões e missões pelo bem comum?

 

   Creio que é no 2º volume da sua Histoire de la sexualité (L´ Usage des Plaisirs) que Michel Foucault escreve estas seguintes linhas que eu próprio, que sempre quis ser filósofo, repito pensando que filósofos, afinal, com alguma curiosidade e esforço, todos podemos ser:

   Mas, aliás, o que é a filosofia - quero dizer a atividade filosófica - se não o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo? E se, afinal, não consistirá, em vez de legitimação do que já sabemos, no empreendimento de saber como e até onde poderemos pensar de outro modo?

 

  Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Após poucos dias de canícula, saboreio um agosto mestiço, com janelas semiabertas, para que cá por casa corra também uma refrescante aragem a pedir-nos recosto e leitura amena... Já vai meridiana a manhã, nem dei pelos marcadores do tempo, apenas agora vejo que vão sendo horas de me pôr a cozinhar, serviço doméstico que assumo desde que vim para o campo a tempo inteiro. Mas antes de arregaçar mangas e pôr avental (que não é azul...) quero deixar-te um curioso poema de Du Fu, um dos vates maiores, com o seu tão diferente amigo Li Bai, da poesia da dinastia Tang, como te contava na última carta. Dá-se até o caso de ser essa oitava intitulada Em Dia de Primavera, Pensando em Li Bai... Reza assim, na minha versão portuguesa:

 

               É sem rival a poesia de Li Bai

               Nada se compara à sua elevação!

               É natural e criativo como Yu Xin,

               Majestoso e aéreo como Bao Zhao...

               Árvore primaveril, a norte da Wei,

               nuvem crepuscular a leste do rio,

               quando virá o dia de juntarmos poesia,

               Com um jarro de vinho por companhia? 

 

   Explica-nos Florence Hu-Sterk, tradutora (chinês-francês) e anotadora deste poema para a edição da Bibliothèque de la Pléiade (Anthologie de la Poésie Chinoise, Gallimard, 2015), que Du Fu presta homenagem a Li Bai comparando-o a dois grandes poetas da era das Seis Dinastias, Yu Xin (513-581) e Bao Zhao (414-466), sendo que o estilo imaginativo deste último muito influenciou Li Bai (que o cita 114 vezes nas suas obras). Diz-nos também que, em 746, Du Fu, árvore primaveril, estaria enraizado em Chang´an, a norte da Wei, e Li Bai a leste do rio azul, errante como nuvem crepuscular...

 

   Mas, ainda que distantes no modo de poetar, quiçá no pensarsentir a vida e a ordem do dever, como diversos foram os seus fados, Li Bai e Du Fu comungam no mesmo gosto da contemplação como intuição de tudo, e na partilha desta pela amizade. Pois que contemplar o ser e a sua circunstância não é modo de fuga, antes é ir mais ao fundo do risco que a surpresa traz. Como neste poema de Du Fu, que traduzo duma versão francesa de François Cheng, ilustrada por caligrafia de Fabienne Verdier (Albin Michel, Paris, 2000):

 

               Sozinho me delicio

               com o desabrochar das flores

               à beira rio

 

               À beira rio,

               o infinito

               milagre das flores.

 

               E se a outrem me confiasse

               para não dar em louco?

 

               Vou a casa do vizinho

               meu companheiro de vinho:

               mas saiu para ir beber,

               faz já dez dias.

               Deixou cama por fazer...

  

               Não é que eu ame as flores

               para morrer por elas...

 

               Eis o meu receio:

               beleza que se apaga,

               velhice que se achega!

 

               Ramos carregados:

               queda de flores aos cachos!

 

               Tenros rebentos se concertam

               para suavemente se abrirem...

 

   Livre e desapegado, até boémio, como era e sempre escolhia ser, Li Bai, por muitos admiradores, protetores e amigos que granjeasse, não escapou a momentos difíceis de ultrapassar, a perseguições e exílios, já que os poderes não apreciam independências do s espíritos... Em dois poemas, quais cartas ditadas por sonho amigo, Du Fu recorda Li Bai, inquieta-se e pergunta por ele, deseja-lhe a glória para além da morte: Meng Li Bai er shou, ou, em português, Sonhando com Li Bai.

 

               Separados pela morte, soluços engolidos;

               separados pela vida, tormento infinito.

               Do sul do Rio, roído pela febre,

               sem qualquer notícia do viajante banido,

               esse velho amigo me aparece em sonhos,

               sabendo quanto e quanto penso nele.

               Assim, agora preso numa rede,

               como conseguiste libertar as asas?

               É longa a estrada, incomensurável.

               Possa a tua alma ser a de quem vive,

               a vir por bosques de bordos glaucos,

               atravessando portagens de fronteiras negras.

               Cai a lua e inunda as traves do teto,

               e logo imagino o teu rosto iluminado.

               Águas profundas, vagas poderosas,

               possam poupar-te os dragões marinhos!

 

               Leves se seguem as nuvens pelo ar,

               mas não trazem de volta o viajante.

               Por três noites seguidas sonhei contigo,

               sinal da tua profunda amizade.

               Cada partida parecia perturbar-te,

               e lamentavas as durezas da viagem.

               Estavam tão bravios os lagos e os rios...

               Receavas perder o rumo ao barco.

               Ao chegar, coçaste a cabeça encanecida,

               quiçá desiludido pela ambição de uma vida.

               A capital foi invadida por dignitários,

               só tu te vergavas ao peso de cismas.

               Quem te disse que a justiça divina é clemente?

               Afinal, já velho, cobriram-te de vexames.

               Fama que dure mil, dez mil outonos,

               Só depois de morto a ganharás!

 

   A intemporalidade universal da amizade e do teor destes poemas ocorreu-me esta manhã, ao sair da cama, quando reli esta frase de uma carta de Hannah Arendt à sua amiga Mary McCarthy, com data de 10 de março de 1975, na página que tinha deixado aberta à cabeceira: Sempre acreditei que somos o que vivemos...

 

Camilo Maria    

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Enviei a amigos a minha tradução, a partir da versão francesa publicada pela Bibliothèque de la Pléiade, do belo poema do dao original que canta a água e que, extraído do Huainan zi, inseri na minha-tua última carta. Apreciado por muitos, despertou especial curiosidade entre alguns, como o João Paiva Boléo. Vou então desvendar parte do meu esforço suplementar de aproximação ao original chinês, apesar de só ser capaz de traduzir a partir de versões em línguas europeias, dada a minha ignorância da língua sínica. Faço-o com simpatia pelo interesse manifestado - e pela diferença que as minhas versões de textos originalmente chineses têm relativamente às que ouso fazer do japonês (de que já te descrevi o processo, com recurso ao dicionário universal de japonês-português do meu velho amigo padre Jaime Cepeda Coelho (jesuíta transmontano, atrevido cidadão luso-nipónico) e a compêndios de transcrição fonética e caligrafia sino-japónica, além das transcrições em romaji (caracteres latinos), iniciada pelos jesuítas portugueses no século XVI). Da língua chinesa, nem sequer conheço os sons de leitura dos caracteres (apesar dos muitos kanji que posso ler e entender por via nipónica), o que me obriga a, quando possível, recorrer ao precioso auxílio do meu mestre (nunca o vi em pessoa, mas li-o muito) François Cheng, como mostro no exemplo exercitado abaixo. Antes, porém, e para te ajudar a melhor me compreenderes, do mesmo Cheng te deixo um pequeno trecho do seu L´écriture poétique chinoise (Seuil, Paris, 1996):

 

   Independente do som e invariável, formando em si uma unidade, cada signo fica com a oportunidade de permanecer soberano e, como tal, durar. Eis, desde a origem, uma escrita que se recusa a ser simples suporte da língua falada: o seu desenvolvimento é uma longa luta pela autonomia, e pela liberdade de combinação. (Em cartas passadas, Princesa, também procurei explicar-te estes "achados"]. Revela-se desde a origem esta relação contraditória, dialética, entre os sons representados e a presença física a tender para o movimento gestual, entre a exigência da linearidade e o desejo de uma evasão espacial. Poder-se-á falar de "insensato desafio" por parte dos chineses em manter tal "contradição", isto durante quase quarenta séculos? Trata-se, em qualquer caso, de espantosíssima aventura: pode dizer-se que, pela sua escrita, os chineses ganharam uma aposta singular, de que os maiores beneficiários foram os poetas.

 

   Na verdade, graças a essa escrita, foi-nos transmitido um canto ininterrupto há mais de três mil anos. [O Shi-jing ou Livro da Poesia, primeira seleta de cantos a inaugurar a literatura chinesa, contém peças datadas do primeiro milenário a.C.]. Esse canto, no início intimamente ligado à dança sacra e aos trabalhos do campo ritmados pelas estações, conheceu mais tarde muitas metamorfoses. Na nascente destas está precisamente essa mesmíssima escrita que engendrou uma linguagem poética profundamente original. Toda a poesia dos Tang é um cântico escrito, tanto quanto uma escrita cantada. Através dos sinais, obedecendo sempre a um ritmo primordial, uma palavra explodiu e extravasou por todo lado o seu ato de significância. Cercar primeiro a realidade desses signos, o que são os ideogramas chineses, a sua natureza específica, os seus laços com outras práticas significantes é realçar traços essenciais da poesia chinesa.

 

   Como não tenho - e assim tal qual te lo disse em cartas passadas, sobretudo quanto a traduções ou análises de textos japoneses - possibilidade de escrever aqui outros caracteres além dos nossos latinos, passo à demonstração da versão de um poema de Wang Bo para francês, feita por François Cheng, escamoteando o texto original em caracteres sínicos, mas mantendo a literal tradução do mesmo, paralelamente à versão literária final, em língua francesa, pelo mesmo autor. O título

do poema é, em qualquer língua, O Vento. Logo de seguida, apresento a minha versão portuguesa, composta a partir das duas de François Cheng, a sino-francesa, literal, e a francesa livre, literária:

 

 

Su-su / fraîches ombres naître
Accroître en moi / bois-vallon pureté
Chassant fumée / chercher torrent logis 
Roulant brume / franchir montagne piliers
Aller-venir / toujours sans trace       
Se mouvoir-s´arrêter / comme y avoir sentiment     
Soleil couchant / mont-fleuve calme  
Pour vous / susciter pins bruissement.      
Susurre le vent: ombres, fraîcheurs
Purifiant pour moi vallons et bois
Il fouille, près du torrent, la fumée d´un logis
Et porte la brume hors des piliers de montagne
Allant, venant, sans jamais laisser de traces
S´élève, s´apaise, comme mû par un désir
Face au couchant, fleuve et mont se calment:
Pour vous il éveille le chant des pins.

                                                                                                             

Num sussurro o vento faz nascer frescas sombras

e crescer em mim a pureza de bosques e vales.

Enrola em bruma o fumo dum lar ribeirinho 

e sopra-o para além dos montes próximos.

E assim num vai-vem, sem nunca deixar rasto,

ora agita ora amaina, sentindo apenas.

E ao sol poente sossega os montes e os rios,

para ti despertando o murmúrio dos pinhais...

 

 



   Eis um poema Tang no modo Lü Shi, isto é, de poesia regrada, aqui em oitavas. Em português, só pelo que gostei nessas palavras até capazes de falar caladas, em jeito de meditação silenciosa que, tal como o vento do poema chinês, nele tão só procura uma comunhão no sentimento. Traduzo, isto é, trago-te o que e o como senti.

 

Camilo Maria 

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   A dinastia Tang (618-907) acolheu uma era de ouro da arte poética chinesa. Logo no seu período inicial (618-712) se destacam os poetas conhecidos como "Os Quatro Talentos", entre eles o "nosso" Wang Bo (650-676), de que, em carta anterior te enviei O Vento... Confesso jamais ter pensado que algum dia me apaixonaria pela poesia antiga do Celeste Império que, aliás, me invadiu, pelo gosto literário, a minha busca da imanência de Deus, no sentido da presença mística do uno inicial. Já nos meus dezassete anos traduzia, para português, Teilhard de Chardin, que em mim deixou raízes. E, na poesia solar de Sophia de Mello Breyner, cedo percebi aquilo que, curiosamente, numa entrevista, que hoje li, do jornal Público ao comunista editor da Caminho, Zeferino Coelho, este filósofo de formação afirmava: O modo como ela  [a Sophia] entende a poesia e as preocupações que estão por detrás da elaboração poética; e, sobretudo, uma tradição muito alemã, que arranca com o Novalis e que é, no fundo, a morte de Deus depois do Iluminismo, a impossibilidade de acreditar em Deus, o sentimento de perda que isso acarreta a quem isso acontece e a tentativa de, através da poesia, restabelecer essa unidade com o mundo. Ela teoriza isso. Há quase toda uma teologia na obra de Sophia.- Sendo ela católica. - Exacto , com uma contradição enorme. Uma vez atrevi-me a dizer-lhe que havia uma contradição nela. Católica e seriamente católica, acredita num deus católico, que é um deus transcendente, que cria o mundo mas está fora dele , e toda a sua poesia é a exaltação do divino como inerente ao mundo material; o divino é a perfeição da curva da onda, a elegância da haste do trigo. Na natureza e no construído pelo homem, como as colunas de Sunion. Uma das filhas dela ouviu-me dizer isso e não gostou. Mas isto está muito por descobrir e a poesia dela não é valorizada.

 

   Para me ater apenas a Teilhard e Sophia, digo-te, Princesa de mim, que, seis décadas atrás, intuí com o primeiro o que, para me servir das palavras de Zeferino Coelho, a poesia da segunda anuncia enquanto exaltação do divino como inerente ao mundo material. E posso ainda invocar S. Francisco de Assis e o seu Laudato sì, ou, do lado de lá do planeta e da nossa cultura, o François Cheng que, precisamente em Assis, percebeu essa síntese da intimidade do dao e do universo com a transcendência imanente do Deus a quem Jesus chama Pai. Em muitas cartas te falo disso, como da Estranha Ordem das Coisas do António Damásio, ou da fé como substância das coisas que hão de vir... Vejo muito maior contradição entre a visão de um Deus transcendente que, todavia, pode ir intervindo a curar maleitas, arranjar empregos ou ganhar guerras, e a ideia evangélica de que a única parte do Reino que é deste mundo é a presença de Deus no mistério inicial de tudo e na nossa comunhão com o universo, bem como no amor que soubermos partilhar.

 

  Voltando aos grandes poetas da era Tang, e em resposta a perguntas tuas, deixo-te apenas breves notas. A par de Li Bo (ou Li Bai) considera-se Du Fu, seu contemporâneo e amigo, o outro maior. Mas enquanto o primeiro, no dizer de François Cheng, era um apaixonado pela liberdade taoista, o segundo aplicava-se a empenhar a sua conduta conformemente ao ideal confucionista, o que fez dele o grande mestre do lu-shi, ou poesia regrada, complementarmente ao primeiro, que se sentia mais à vontade no gu-ti ou poesia castiça, à moda antiga. Este Li Bo, reza a lenda, gostava da boémia e bebia melhor do que gostava de provar. Talvez por isso tenha, em noite etílica, morrido afogado por ter querido agarrar a lua espelhada nas águas do rio por onde navegava. Sobre a lua e o luar nas artes e letras da China e do Japão talvez um dia te escreva uma carta. Por hoje, deixo-te tão só uma maravilhosa "quadra" de Li Bai, que livremente traduzi: 

 

               Aos pés da cama se deitou o luar,

               como fria geada a cobrir o chão.

               Ergo os olhos e vejo o esplendor da lua.

               Baixo-os e encontro a terra de meus pais.                                                      

 


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Liu An, autor desse ensaio ou seleta de inspiração taoista designado por Huainan zi, terá nascido em 179 a.C. e ofereceu o seu manuscrito ao imperador Wu (141-87 a.C.), seu sobrinho. O mesmo Liu An era neto do fundador da dinastia Han, Liu Bang (206-196 a.C.), e, desde os seus quinze anos, príncipe de Huainan. Do texto introdutório de Charles Le Blanc e Rémi Mathieu à edição do Huainan zi, na sua tradução francesa, pela Bibliothèque de La Pléiade (Gallimard, Paris, 2003), respigo dois trechos que me parecem necessários a uma nossa (tua e minha) ocidental leitura. Perceberás porquê, tal como eu vou continuando a tentar compreender muitos desses textos que traduzo:

 

   1. Curiosamente, a filosofia do Huainan zi não invoca a noção ocidental de causalidade, certamente em razão da sua conceção substancial (e não acidental) da mudança. Os «dez mil seres» fazem parte de uma só estrutura, cuja parte mais ínfima, «o bater de asas de uma borboleta», modifica a configuração do conjunto da rede. Mas eis aí um olhar «extrinsecista»; o Huainan zi antes privilegia um olhar «intrinsecista» ou «imanentista», segundo o qual cada ser percebe a mudança como ressonância (ganying), por «afinidade eletiva» da sua própria essência com os outros seres e o universo inteiro. [Estou em crer, Princesa de mim, que esta observação deve ser repetida e meditada, a fim de melhor nos ajudar a penetrar numa intuição e num ecossistema de pensamento (de pensarsentir) alheios ao nosso discurso próprio.]

 

   2. O Huainan zi propõe um projeto de sociedade ideal assente em disposições interiores de homens sages e perfeitos, isto é, numa certa forma de santidade. Define-se esta pela união ao dao, fonte de uma sageza e de uma criatividade que ultrapassam a comum medida humana e se actualizam como "não-conhecer" e "não-agir". De essência taoista, não exclui achegas confucionistas e legistas. É sua marca original maior não comportar qualquer referência a um deus pessoal transcendente. A santidade é simplesmente a plena realização da ordem natural e humana. Se dela decorre uma necessidade mais pressionante para os soberanos e os funcionários do Estado, é em razão das maiores responsabilidades destes relativamente ao bem comum. [Quando acima digo sages sageza em vez de sábios e sabedoria, não o faço só pelo gosto de me servir de palavras que, na língua portuguesa, foram autorizadas já por Fernão Lopes, mas para vincar ainda mais que, nesta filosofia chinesa, além de uma intuição talvez mais mística do que metafísica, mais comungante do que objetiva, uma mais contemplação do mundo do que a sua arrumação lógico-discursiva, também se privilegia a prudência na sabedoria, ou seja, a antiga virtude da sageza.]    Eis-me tentado a recordar o Novalis que disse quanto mais poético mais verdadeiro, ao deparar com intuições ou revelações poéticas do real absoluto. Como, a dado passo, se canta, no Huainan zi, o Yuandao, ou dao inicial:

 

   Nada debaixo do céu é mais flexível e fraco do que a água.

   E todavia o seu tamanho ultrapassa qualquer medida

   e é insondável a sua profundidade;

   alaga-se até ao infinito,

   e perde-se lá longe no ilimitado.

   Quer cresça quer se esgote, aumente ou diminua,

   ela participa do incomensurável.

   Subindo ao céu, torna-se chuva e orvalho

   e, caindo, humecta e rega a terra.

   Sem ela os dez mil seres não nasceriam

   nem seriam terminados os cem afazeres.

   Envolvendo largamente a multidão dos seres,

   não se atém a qualquer preferência.

   Os seus benefícios estendem-se aos insetos e aos vermes,

   sem esperança de qualquer recompensa.

   Com sua virtude cumula os cem nomes, sem prodigalidade.

   O seu fluxo ora se enche sem limites,

   ora se torna tão ténue que fica fugidio.

   Podem bater-lhe e não sofrerá esquimoses,

   chicoteá-la e não ficará ferida,

   cortá-la sem conseguir seccioná-la,

   e nem pelo fogo será consumida.

   Dócil e acomodatícia, corre desposando múltiplos contornos

   e ramifica-se em rede múltipla, sem por isso se dispersar. 

   A sua finura penetra a pedra e o metal

   e a sua força carrega o mundo.

   Move-se no território do sem-forma

   que se ergue em espiral para além do indistinto.

   Ora serpenteia pelos vales,

   ora desagua na planície inculta dos grandes confins.

   Segundo a sua sobreabundância ou a sua insuficiência,

   ela vai buscar-se e volta a dar-se ao céu e à terra.

   Abastece os dez mil seres sem ordem de precedência

   e para si não tem domínio privado nem público.

   Fervente e transbordante,

   forma uma grande união com o céu e a terra.

   Sem reconhecer direita nem esquerda,

   ramifica-se e serpenteia

   acompanhando os dez mil seres do princípio até ao fim.

   Por isso lhe chamam virtude perfeita.

   E sendo dócil, acomodatícia e penetrante,

   a água chega à perfeição da sua virtude no mundo...

 

   ...O sem-forma é o grande antepassado dos seres

   e o sem-ruído é a grande origem dos sons.

   O filho deles é a luz, o neto a água.

   Todos nasceram do sem-forma.

   A luz é visível mas não se pode agarrar;

   a água é palpável mas indestrutível.

   Assim, entre os seres que têm forma,

   nenhum é mais estimável do que a água.

 

   Do nascimento até à morte, o homem vacilando entre o que é e o que não é, afunda-se na mediocridade. Assim, a perfeição da virtude reside na pureza e na serenidade, a quintessência do dao, na flexibilidade e na fraqueza, e a eficiência dos dez mil seres na calma e contentamento decorrentes do vácuo. Assim, ao responder com diligência aos incitamentos e ao retornar resolutamente à raiz, os seres se imergem no sem-forma.

 

   O que chamo «sem-forma» significa o Uno. O que chamo «o Uno» é o que não tem qualquer contrapartida debaixo do céu. Sublime, ergue-se independente; desligado, permanece sozinho. No alto, o Uno penetra os nove céus, em baixo atravessa os nove campos. A sua circularidade não se desenha com compasso, nem a sua quadratura com esquadro. O Uno forma um todo confuso, comparável a folhas que proliferam sem raiz. Envolve o céu e a terra, e serve de fecho ao dao. Secreto e esconso, preserva intacta a sua virtude. Podemos espalhá-lo sem o esgotar e utilizá-lo sem o enfraquecer. E também podemos procura-lo com os olhos e não ver a sua forma; prestar-lhe ouvidos e não ouvir a sua voz; querer palpá-lo e não conseguir tocar-lhe. Dele nascem o sem-forma e o com-forma. Inaudível, faz tocar as cinco notas; insípido, harmoniza os cinco sabores; incolor, forma as cinco cores. Assim, o ser nasce do não ser, e a plenitude emerge do vácuo. 

 

   Escrevo-te, Princesa, esta carta, recolhido na relativa frescura do meu gabinete, em manhã de intransigente canícula, ao som do Gloria de François Poulenc, interpretado pela orquestra e coro da Fundação Calouste Gulbenkian, sob direção de Michel Corboz, sendo solista a soprano Brigitte Fournier. A gravação, feita ao vivo, em Lisboa, a 4,5 e 6 de junho de 1993, conjuntamente com a da Messa da Gloria de Puccini, é de produção francesa, para a Aria Music-Fnac. Poulenc, alto burguês rico (da família dos patrões da Rhône-Poulenc), homem dividido por amores de vária natureza (a que chamava a sua sexualité parisienne), sujeito a períodos de depressão (por desgostos de amores) que constratavam com o seu modo malicioso e jovial de estar em sociedade, católico crente e mordido pelas interrogações da e à fé, sobretudo pelos seus confusos amores,  compositor de música de câmara de que muito gosto, mas também de música burlesca como Les Mamelles de Tirésia, ou ainda dessa magnífica profissão de fé e de esperança nascida do martírio que são os Dialogues des Carmélites (libreto de Georges Bernanos)como desse belo "de profundis" de uma solidão abandonada que dá pelo título de La Voix Humaine, sobre texto de Jean CocteauGloria que ora escutei foi composto em 1959, pouco depois dos Dialogues, não é uma peça litúrgica, mas, nas palavras do próprio compositor, uma grande sinfonia coral. A segunda parte deu escândalo, nem sei porquê, pensei simplesmente, ao escrevê-la, nesses frescos de Gozzoli em que os anjos deitam a língua de fora, e também naqueles beneditinos de ar grave que eu vi a jogar futebol...

 

   Por que atalho cheguei à escolha da escuta deste Gloria cantante, jovial e jubilante, ao ler filosófica poesia taoista em manhã canicular? Quiçá antes pudesse ter desembocado num coliseu de lamentações e invetivas, contestações e confrontos sobre, por ou contra, as chamadas alterações climáticas, entre as visões circunscritas pelo imediatismo de ganâncias e aquelas que se debatem no meio de formulações rigorosas e prudentes, de utopias generosas e sonhadoras, ou de panoramas de sustos e desastres apocalípticos... Por estranho que te pareça, Princesa de mim, esta quietude quente, quase totalitária, de um ar mais de abafar do que de respirar, traz-me mais um modo de comungar o mundo, um pouco como numa minha experiência antiga do calor húmido de um Verão japonês quando, em cabana perdida nas montanhas, vivi a alegria suave do sossego duma transpiração que me libertava da tirania dos ares condicionados de Tokyo e me abandonava ao modo universal de ser da terra, como James Joyce, creio, um dia terá dito. [As minhas memórias nem sempre batem certo, talvez me tenha ocorrido o Joyce pela sua ambiguidade entre o sagrado e o profano.] Assim te "explico"(?) este momento de mim, aqui submisso ao calor dos astros, ainda que protegido pela sombra com que enchi a casa e também pertence à luz dos nossos dias e cobre troços do nosso caminho espiritual. Descubro agora em mim o surto de uma nascente a jorrar essa tal alegria mansa, que vai crescendo e alagando tudo, água da vida universal do dao ou pirotecnia dos sons strawinskianos do Laudamus te do Gloria do Poulenc...

 

Laudato sì... Louvado sejas, meu Senhor, pela grandeza da humildade partilhada, pela comunhão no mistério único da vida.

 

   Já está noite cerrada, dá para abrir cortinados e janelas, e sento-me no escuro mais fresco, iluminado só pela televisão acesa sobre o inferno dantesco que ameaça a vila de Monchique e atemoriza suas gentes... Quedo-me a partilhar visões de labaredas e aflições de almas, dói-me como queimadura a cena, pesa-me, perturba-me, é-me quase insuportável a pena de outros que, apenas por sua aparição aqui, se vai tornando minha. Fui hoje submisso ao calor do dia, procurando comungar na sua natureza, sem o combater e sem deixá-lo esmagar-me. Afinal, terei querido aprender com ele algo mais do nosso fugidio-sempre-presente que é o inacessível mistério de tudo. Como um zen japonês a contemplar o efémero como sacramento, qual impermanente permanência.  Agora, na solidão silenciosa (apaguei o som da TV) desta sala, frente ao horror consumidor do fogo, fico perplexo perante uma comunhão impossível. Terá havido erros e curto alcance humano, poder-se-ão mudar condições circunstanciais, mas permanecerá ainda o inesperado, o imprevisível, muitos factos e entendimentos fora do nosso alcance. E talvez nem haja reza ou sacrifício propiciatório que, para o efeito, nos valham. O mistério, como ignoto, conserva o seu domínio. Ao contemplá-lo assim, neste momento de comunhão rompida, já nem sei se tenho saudade daquele louvor de ação de graças que me trazia paz e fazia feliz. Estou perplexo. E é então que a minha comunhão deixa de ser um dado adquirido para se transformar em esperança. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã esperança...

 

   Já pela manhã seguinte, antes de fechar esta carta, reparo que, nesta 2ª feira, dia 6 de agosto, se celebra a transfiguração de Jesus, que é como que uma festa da revelação do invisível pelo visível, um sacramento, um mistério. No relato evangélico de São Marcos, depois da transfiguração de Jesus numa figura de resplandecente alvura, os discípulos que o acompanhavam estavam cheios de medo e não sabiam que dizer. E esse trecho prossegue assim: De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos. Assim também medito que a fé é a substância das coisas que hão de vir, nem sempre sabendo bem se ela é só mãe, ou filha também, da esperança. E sorrio-me a pensar que não me culpo de não saber tudo. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta manhã chuvosa, em finais já de um julho marcado por um anticiclone fora de casa, e que teima em nos afugentar o Verão, recolho-me neste meu gabinete aberto sobre campos verdes que o céu vai mansamente regando... Acompanham-me, na religião desta hora, lieder de Martinho Lutero, postos em música por variadíssimos compositores, desde finais do século XVI até aos nossos dias. Entre eles, nomes grandes, como Johann Sebastian Bach, Heinrich Schütz, Michael Praetorius, Dieterich Buxtehude, Félix Mendelssohn Bartholdy ou, ainda, Max Reger. A interpretação que vou escutando, em edição comemorativa dos 500 anos da Reforma (Carus-Verlag, Deutschlandradio Kultur, e Edition Chrismon, 2017) é da Athesinus Consort Berlin, e do Kammerchor Stuttgart, com solistas de que destaco a mezzo Sophie Harmsen, Matthias Ank ao órgão, e Arno Schneider no contínuo. A maioria dos trinta e seis lieder tem uma duração de três a seis minutos, sobressaindo dessa média apenas dois dos musicados por Mendelssohn: Ach Gott, vom Himmel sieh darein (11m.34s.) e Aus tiefer Not schrei ich zu dir (11m.58s.).

 

   Este, o mais longo, com praticamente doze minutos de lírica de Lutero e música de Mendelssohn, canta-nos um poema muito bebido, ou quase só, no salmo 130, que a vulgata latina nos deu a conhecer como o De Profundis: De profundis clamavi ad te Domine... Na inspirada lírica de Lutero, o poema religioso ganha uma dimensão teológica nova, como se a Palavra de Deus, o Verbo, renascesse no pensarsentir de cada ser humano, porque o Espírito sopra onde quer, e não impõe intermediários. Lembra-te, Princesa de mim, de que o então frade agostinho vivia em plena contestação do poder clerical romano que, para financiar a construção de sumptuosos edifícios materiais e terrenos até cobrava o aluguer de mais uns dias promissores de descanso celestial às almas que, adiantadamente, pagassem as correspondentes indulgências... [Curiosamente, tais contratos-promessa de compra e venda que, já naquela época, poderiam ter sido considerados crimes de simonia, isto é, transação monetária de bens religiosos (e até eram conhecidos, ao tempo, por "comércio sagrado"), parece terem passado pelas malhas de muitos teólogos e bastas autoridades eclesiais, ao ponto de, ainda há pouco, recentemente, aquando da visita do papa Francisco a Fátima, a reitoria desse destino de peregrinações ter posto à venda umas indulgenciazinhas...]. Mas não te escrevo para polemizar. Não vale a pena. O que nos merece é, antes de tudo o mais, o esforço que fizermos no sentido da escuta. Sobretudo, aprendermos a ouvir esse grito do fundo de nós, que qualquer um poderá lançar sem destino, ou pretender que não tem destinatário possível, ou sentir que sim, que sabe para Quem fala, porque bem sabemos que, quando em desespero suplicamos, nenhum de nós sabe, exactamente, a Quem pedir ajuda. Só nos ocorre gritar: da profundeza da minha miséria a ti clamo. Ou seja, no alemão de Lutero: Aus tiefer not schrei ich zu dir... para logo continuar, como homem de fé: ...Herr Gott, erhör mein rufen, / Dein gnädig ohren kehr zu mir / und meiner bitt sir öffen... "ouve, Senhor Deus, o meu grito, vira para mim o teu ouvido, abre a tua graça à minha súplica. // Porque se só quiseres olhar para o tanto que pequei, quem serei eu para poder enfrentar-te...   ... E portanto quero esperar em Deus, abandonar-lhe o meu coração, aguardar a sua palavra. // Mesmo sendo pela noite dentro / e de novo até à manhã, / não se aflija o meu coração / nem duvide da força de Deus. // Se há em nós muitos pecados / em Deus se encontra muito maior graça.

 

   Assim, parecem-me acertadas as palavras com que o pastor e homem de cultura literária Johann Hinrich Claussen, a dado passo da sua introdução aos poemas desta antologia de lieder, nos fala de Martinho Lutero (traduzo): ... Quem leia seus versos fica habilitado a olhá-lo de modo diferente do habitual: não como intrépido reformador, incansável autor teológico, enérgico fundador de uma confissão, combatente político ou excessivo agitador verbal, mas como pessoa que passa tempo em silêncio, reza muitas horas por dia, lê e relê textos antigos escolhidos e então escreve versos numa folha de papel. Tem versos que emergem de um concentrado silêncio, perseverante oração, quotidiano contacto com os Salmos do Antigo Testamento e hinos da Igreja primitiva.

 

   A chamada cultura católica portuguesa ostracizou a figura de Lutero, entre nós mais badalado como herege sectário, padre e monge infiel e amancebado, do que como homem de fé, teólogo merecedor de atenção e análise, alma tantas vezes sofredora de angústias clamando por mais sentido evangélico no caminho humano da Igreja. Uma das ecuménicas exceções a essa regra foi o Lutero - Palavra e Fé (Editorial Presença, Lisboa, 2014) - de frei Joaquim Carreira das Neves, franciscano e professor jubilado da Faculdade de Teologia da UCP - quiçá a primeira obra sobre o "grande iniciador da Reforma" publicada por um autor português em quinhentos anos. Mais recentemente, a revista jesuíta Brotéria publicou um interessante artigo do teólogo dominicano frei Bento Domingues sobre como portugueses têm olhado para Lutero desde o século XVI. Recomendo-te, Princesa de mim, estas leituras, mais abrangente a do doutor Carreira das Neves, o que lhe permite também debruçar-se sobre a humanidade torturada de Lutero e o seu percurso de frade agostinho a pastor protestante. Cito-te agora um trecho da biografia escrita pelo franciscano português, que nos conduz a outro autor, de que já muitas vezes te falei, e ao qual voltarei adiante: Nunca esquecerei o impacto que recebi ao ler em1975 o que o grande teólogo católico Pe. Yves Congar escreveu sobre Lutero: «Lutero é um dos maiores génios religiosos de toda a história. coloco-o no mesmo plano que Santo Agostinho, São Tomás de Aquino ou Pascal. Posso afirmar que ainda é maior. Ele repensou todo o cristianismo. Ofereceu-nos uma nova síntese, uma nova interpretação». (Une Vie pour la Vérité. Jean Puyo Interroge le P. Congar, Paris, 1975). Frei Yves Congar, dominicano francês, quiçá o maior eclesiólogo católico do nosso tempo, figura marcante do Concílio Vaticano II, mais tarde feito cardeal por João Paulo II, é autor de um livro que guardo há décadas: Martin Luther - Sa Foi, Sa Réforme - Études de théologie historique (Les Éditions du Cerf, Paris, 1983). Dele vou respigar o longo trecho que seguidamente traduzo, porque me parece o mais esclarecedor comentário ao lied "Aus tiefer Not schrei ich zu dir" que hoje tão sentidamente tenho escutado, ainda que se refira primeiramente ao salmo 31, à interpretação que Lutero faz de uma certa justiça de Deus. Escreve frei Ivo Congar:

 

   Lutero entrou no convento a 17 de julho de 1505. Em Erfurt e, depois, em Wittenberg, conheceu, durante vários anos, uma angústia espiritual tenente a uma consciência aguda da impossibilidade de sermos o que de nós reclama a santidade de Deus.:

 

Como poderei ter um Deus favorável, um Deus de graça? Como serei agradável diante de Deus, aos seus olhos, «coram Deo»? A justiça de Deus era temível e assustava Lutero. Acerca disso muitas vezes citou quer um versículo de S. Paulo (Rom. 1, 17) «nele (no Evangelho) se revela a justiça de Deus», quer um dos Salmos (31, 2) «Em tua justiça me libertarás, me farás livre». Na sua angústia, de que nem esforços, ascese ou práticas de observância o tiravam, Lutero bem tinha recebido essas palavras de consolação. Um frade mais velho dissera-lhe para ter esperança: a nossa salvação reside na fé em Deus. Será o mesmo? Um ancião orientara o seu pensamento para «creio na remissão dos pecados». Staupitz, seu superior e amigo, tinha-lhe aberto a inteligência para a verdadeira natureza da penitência, no sentido da metanoia (conversão radical do coração).

 

   Lutero precisava de uma solução radical. Encontrou-a na descoberta pessoal do sentido de justitia Dei: não a justiça do juiz que castiga os pecadores, mas a misericórdia de Deus que me traz perdão e justiça em Cristo. Eis o Evangelho: pela fé, Cristo em mim, minha salvação, minha justiça. Bastará entregar-me a ele, renunciando a qualquer apoio no que somos ou podemos fazer. Daí que seja Cristo a minha justiça, graças à fé: justiça que não vem de mim, e que, com esse sentido, Lutero diz que é «extranea, non domestica» (estrangeira, não de nossa casa). Eis a descoberta que comandará todo o resto. Lutero expõe-na admiravelmente nos conselhos que, em 8 de abril de 1516, dá ao seu amigo SpenleinAprende, pois, meu doce irmão, Cristo, e Cristo crucificado; aprende a cantar-lhe e, desesperando de ti, a dizer-lhe: Tu, Senhor Jesus, tu és a minha justiça e eu sou o teu pecado, tomaste-me o que era meu e deste-me o que era teu; assumiste o que não eras e deste-me o que eu não era. Cuida em jamais aspirares a uma pureza tal que não quererias mais considerar-te pecador ou, antes, sê-lo. Porque Cristo só nos pecadores habita. Apenas desceu do Céu, onde habitava os justos, para vir habitar pecadores. Assim, só nele, e nele apenas, e por um desespero de ti mesmo e das tuas obras, cheio de confiança, encontrarás a paz (per fiducialem desperationem tui et operum tuorum). Aprende com ele que, tal como te tomou e fez seus os teus pecados, assim também fez tua a sua justiça.

 

   A salvação não se adquire por preço algum, seja em dinheiro, em cumprimento de ritos ou sacrifícios. Ela é essencialmente um encontro que se acolhe na alegria amorosa da fé. Esta sendo, simplesmente, a conversão de uma pretensa autojustificação de mim, por feitos meus ou renúncias minhas, a uma confiança íntima e exclusiva na justiça do amor de Deus. E se lermos com atenção os evangelhos - das parábolas sobre o que é o Reino de Deus (ou dos Céus) às respostas de Jesus a quem lhe pede que assegure ou interfira e garanta um bom assento no Céu -, perceberemos melhor como a metanoia da fé é o abandono de nós próprios e do que está, ou pode estar, nas nossas mãos, à misericórdia de Deus. E tal humildade íntima em nada diminui a razão da nossa responsabilidade ética, não é laxismo. Pois já o mais antigo magistério da Igreja ensinava a diferença entre as três virtudes teologais ou fundadoras (fé, esperança e caridade) de todas as outras. A verdade da fé não tem razões científicas, filosóficas, nem morais. A verdade da fé é ontológica, está muito além do alcance dos nossos meios.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

                    Se morto me desejas,

                    ó cruel, ledo me morro.

                    E morto já, inda te adoro.

                    Mas se queres que te não ame,

                    olha que só de pensá-lo já 

                    me mata a dor e foge a alma.

 

   Traduzo-te aqui o primeiro madrigal do livro sexto dos madrigais a cinco vozes de Carlo Gesualdo (1566-1613), este composto em 1611. Quiçá para te dizer que tão sentidos pensamentos já naquele tempo não eram novidade, tal como não são antiquados hoje. Desse príncipe de Venosa, sobrinho materno de São Carlos Borromeu, cujo nome de batismo recebeu, já te falei noutras cartas. Assim como do seu amor traído e da sua desforra crudelíssima sobre a mulher adúltera e seu amante. Mas estes versos que hoje te trago - só por que os escutei cantados num madrigal que (como tantos outros de Gesualdo...) desafia, por inesperadas pausas e dissonâncias, o tradicional modo de compor música para formas poéticas então novamente inspiradas de Petrarca - nada evocam de vinganças ou raivas de amores atraiçoados. Antes cantam o paradoxo do amor sentido, como já soava nas cantigas de amigo e, em jeito mais filosófico e expressionista, nos interroga a lírica do mesmo Petrarca e do nosso Camões. Há quem pretenda que Carlo Gesualdo era um psicopata: talvez fosse, mas que maravilhosas polifonias saíram do seu misterioso pensarsentir...

 

   Tenho, por caprichosa coincidência, o número da Philosophie Magazine deste julho/agosto aqui ao lado de mim, à espera de que o leve para ler na cama. Pergunta a capa da revista: Pourquoi avons-nous besoin d´être aimés? Ocorrem-me logo, em guisa de resposta, estes versos de Fernando Pessoa: Ditosos a quem acena / um lenço de despedida: / são felizes, têm pena, / eu sofro sem pena a vida... Precisamos de amar e ser amados, só porque apenas existimos em relação, e não há glória alguma, nem qualquer dom possível, sem risco nem mágoa. Vou deitar-me, que se faz tarde e, amanhã, talvez me sinta em jeito de te falar nas respostas de filósofos que tenha encontrado. 

 

   Já muitas vezes te falei do amor, esse coração da vida, motor de todo o ser, razão da existência. São João, nas suas cartas, revela-nos o amor como o próprio desígnio de Deus, para que a nossa alegria seja completa. A visão mística do amor é uma visão feliz. Mas também chamamos amor a diversos impulsos do próprio ser humano, ilusões e desilusões, compromissos e traições, vida comunicada e morte infligida, procura de outros em busca de nós mesmos, sacrifício e direito de conquista, dom recíproco ou espera de recompensa mútua, desejo de eternidade ou paixão do momentâneo... Eu sei lá, Princesa de mim, tudo o que, de um ou de outro modo, qualquer de nós se pode lembrar... Pessoalmente, sempre tenho procurado, no amor de todos os meus amores, a alegria de uma visão mística que me aconchegue a Deus. Quando amo, ou corro o risco de amar, sei sempre que serei amado sem medida por essa amoris laetitia. Como se um certo sentimento do amor transformasse o amador na cousa amada. Há Graças assim, com maiúscula.

 

   Mas o que é ou possa ser, ao certo, a coisa amada nem sempre se consegue definir, quiçá porque não tenha limites claros e tangíveis, ou, para citar Michel Eltchaninoff, talvez as nossas existências tenham uma nascente secreta, que nos dá energia para viver, para ir ao encontro do mundo e dos outros. Desde Platão que os filósofos tentam identifica-la: de acordo com eles, trata-se do amor. Amando, tendemos para um fim, aspiramos a um ideal, elevamo-nos para um absoluto. Esta reflexão será, creio eu, inspirada pelo diálogo de Sócrates com Diotima, no Banquete de Platão. Encontro aí, mais do que uma dimensão metafísica do amor, do desejo de amar e ser amado, para além dos seus factores biológicos, neurológicos e culturais, uma visão mística que pode não coincidir necessariamente com a minha. E ocorre-me a explicação que Paul Éluard, comunista e surrealista, deu ao seu poema Liberté, que aviões da Royal Air France, baseada no Reino Unido, despejaram sobre a França ocupada em 1943. Lembro-te que começa assim: Sur mes cahiers d´écolier / Sur mon pupitre et les arbres / Sur le sable et sur la neige / J´écris ton nom... E vai por aí fora, o poeta sonha o nome da mulher sua amada gravado por todo o universo e vai revelá-lo. Mas finalmente a dedicatória é a Liberdade. Conta Éluard: Para concluir, pensava revelar o nome da mulher que amava, e à qual destinava este poema. Mas depressa me apercebi de que o único nome que tinha na cabeça era a palavra Liberdade. Assim, a mulher que eu amava incarnava um desejo maior do que ela. Confundia-a com a minha aspiração mais sublime, e essa palavra Liberdade estava, ela própria, em todo o meu poema apenas para eternizar uma simplíssima vontade, muito quotidiana, muito aplicada: a de nos libertarmos do Ocupante.

 

   Também te falei já, em carta passada, dessa perseverança na persistência do ser, que o próprio António Damásio, feito biólogo, no seu mundialmente aclamado A Estranha Ordem das Coisas, reconhece como força até das vidas mais simples. E eu creio que, a esta luz, também podemos ler aquela afirmação de Georges Bataille - que tantas vezes lembro -de que l´erotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort. Para este filósofo francês, a união sexual é um regresso à unidade inicial da vida, uma afirmação do princípio vital. De uma perspetiva taoista, do universo inteiro se poderá dizer que começa no Uno - eis um pensarsentir que, mutatis mutandis, podemos fazer coincidir com o teor da célebre ária da Traviata: l´amor è palpito del universo intero... Afinal, o universo é, necessariamente, um sistema de relações. E sobre essa questão do amor e dos amores humanos - sobre a qual, ao fim de milhões de anos e miríades de palavras, já se repetiu muito e ainda outro tanto fica por dizer - cito agora Andreas Bartels, director do Centro Werner-Reichardt da universidade de Tübingen que, segundo a Philosophie Magazine, evidenciou a base neuronal da nossa aspiração ao amor: antes de ser um conceito metafísico é um impulso vital. A análise de Bartels é científica, isto é experimental, positivista. Ou se quiseres, Princesa de mim, é praticamente materialista. Acho especialmente reveladora a sua resposta à pergunta sobre o amor não ser apenas um sentimento, mas ter uma base fisiológica: Sim, a necessidade de amor é um verdadeiro mecanismo biológico e não só psicológico. Sem amor, os membros de uma espécie não podem sobreviver. Se, aquando de uma experimentação sobre um animal, bloquearmos artificialmente os recetores de uma fêmea, então ela abandonará as suas crias. É por isso que o amor também pode ultrapassar as barreiras entre as espécies. Uma cabra pode tratar de um cordeiro, ou uma ovelha de um cabrito... Os humanos funcionam da mesma maneira. A sobrevivência dos bebés depende da atenção que os pais lhes prestarem. Por isso procuram ativamente um contacto. Por conseguinte, amar e ser amado dependem um do outro. É um mecanismo em espelho: uma criança precisa de ser amada para sobreviver, os pais sendo, por isso, dotados duma necessidade de afeto recíproco. Ao crescer, o adulto não perde a necessidade de ser amado, apenas simplesmente diversifica os seus "alvos".

 

   O judeu austríaco Martin Buber, mais tarde cidadão israelita (Stefan Zweig e Theodore Hertzl também eram austríacos, o primeiro sempre se olhou como tal e europeu, o segundo foi cabeça do movimento sionista) escreveu, em 1923, um livro curioso e filosófico, inspirado pelo humanismo judaico e intitulado Eu e Tu. A sua tese é simples, tal como a resume Michel Eltchaninoff: mostra, a partir de uma análise dos pronomes pessoais, que quando digo eu dirijo a minha atenção para duas realidades bem distintas. Ou designo um aquilo à minha frente, isto é, uma coisa do mundo. Ou me dirijo a outra pessoa, a um tu. Ora isto é muito diferente, porque uma coisa está sempre em seu lugar, enquanto que um outro eu, um alter ego enche o horizonte. A sua presença, o seu olhar sobre mim, transvasam, apanham-me no seu turbilhão e transformam a minha relação entre mim e o mundo em relação. A única coisa que se pode dizer do Tu, é que ele vem ao meu encontro. Em grande parte, é o amor do outro que me constitui, não apenas na minha identidade afetiva e psicológica, mas enquanto pessoa: O homem torna-se um Eu ao contacto do Tu. Para Buber, a necessidade de ser amado ultrapassa aliás a simples esfera maternal ou familiar, para atingir um estado metafísico, ou mesmo místico. Tal necessidade da relação é, assim, um facto de tal modo «primitivo» que, ainda antes de perceber as coisas isoladas, o vago olhar da criança procura, no espaço incompreensível, um não sei quê indefinido... Esse tal olhar, segundo Buber, é o instinto que torna certa coisa num Tu.

 

   Esta carta, Princesa de mim, é, mais uma vez, partilha de um passeio por lembranças, cismas e leituras, só pelo gosto de contemplar paisagens interiores e descobrir esperanças feitas de interrogações. Vai longa esta volta, mas como não quero perder o gosto do dilema de Carlo Gesualdo, traduzo-te trechos de uma carta datada de Venise, 15 avril 1834, de George Sand, pseudónimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, bisneta do grande marechal de Saxe, republicana, socialista e feminista avant la lettre, ao poeta Alfred de Musset, um dos seus muitos amantes (entre os quais também se contou Chopin), quiçá um dos seus amores mais ardentes. É bem obra do seu século francês, romântico e revolucionário, talvez por isso Musset tenha retomado o tema no seu Confession d´un Enfant du Siècle, publicado em 1836. Não sei porquê - talvez por acidente deste percurso - me ocorre retomar mentalmente, ou de cor(ação), o poema do Pessoa, acima encetado: Coração oposto ao mundo, / como a família é verdade! / Estou só, meu sono é profundo. / Estou só e sonho saudade... Mas fecho esta carta com passos da de George Sand a Alfred Musset, talvez por tanto pensarsentir que as diferenças de outros, das suas circunstâncias e comportamentos não os excluem da nossa comunhão na condição humana:

 

   Não creias, Alfredo, que me possa fazer feliz o pensamento de ter perdido o teu coração. Que tivesse sido tua amante ou tua mãe, pouco importa. Que te tenha inspirado amor ou amizade, que tenha sido feliz ou infeliz contigo, nada disso mudará o meu presente estado de alma. Sei que te amo, eis tudo. Mas com esta dolorosa sede de te abraçar a toda a hora e momento, algo que eu não poderia satisfazer sem te infligir a morte. Mas com uma força toda viril, e também com todas as ternuras do amor feminino...

 

   ...Fomos amantes, conhecíamo-nos até ao fundo da alma. Que descoberta teríamos feito para nos desgostarmos um do outro?...

 

...Tivesse um pensamento odioso envenenado toda a nossa vida, e não poderíamos então acreditar seja no que for. Mas poderíamos nós separar-nos assim? Tentámo-lo várias vezes, mas os nossos corações inflamados de orgulho e ressentimento acabavam sempre por se rasgar de dor e de pena, quando nos encontrávamos sós. Não, não podia ser assim. Devíamos, ao renunciar a relações tornadas impossíveis, ficar ligados para a eternidade. Tens razão, o nosso abraço era um incesto, mas nós não sabíamos. Atirávamo-nos, inocente e sinceramente para o seio um do outro. Pois bem, será que nos resta uma só lembrança desses abraços que não seja casta e santa? Censuraste-me, em dia de febre e delírio, por nunca ter sabido dar-te os prazeres do amor. Fizeste-me então chorar, mas hoje sinto-me à vontade para reconhecer alguma verdade nessa censura. Não me confunde que tais prazeres tivessem sido mais austeros, mais velados, dos que encontrarás alhures. Pelo menos não te lembrarás de mim quando estiveres nos braços de outras mulheres. Mas quando estiveres só, quando precisares de gritar e chorar, pensarás no teu George, no teu verdadeiro camarada, na tua enfermeira, no teu amigo, em algo melhor do que tudo isso: porque o sentimento que nos une formou-se de tantas coisas, que a outro nenhum pode ser comparado. O mundo nunca o compreenderá, e é melhor que assim seja: amar-nos-emos e rir-nos-emos do mundo.

 

   O sentido católico (universal) também nos pode ensinar a compreender como a vocação do Amor vive sempre, até mesmo na incompletude do entendimento da condição humana. Todos, afinal, procuramos o nome desse TU que nos enche o horizonte...

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Prosseguindo o que tenho vindo a escrever-te ou, melhor, continuando, atento e meditativo, a procurar o caminho certo para as minhas hesitações - que é como andar a tentar sair de muitas preocupações sem querer despreocupar-me, pois que nenhum de nós tem o direito de assobiar para o lado - recorro a um confronto de analistas vários de perspetivas da ainda anunciada globalização e, desde logo, do porvir das nossas sociedades e civilizações, das suas evoluções e coexistência. Começo por duas entrevistas reunidas no suplemento Idées de Le Monde de 16 de junho, sábado: uma ao antropólogo francês Maurice Godelier, outra ao mundialmente famoso autor de The End of History and the Last Man, Francis Fukuyama, politólogo americano doutorado em Harvard. Já verás, pelas citações escolhidas para título de cada uma dessas entrevistas, quais são as questões centrais das preocupações de cada um, mas deixa-me primeiro traduzir-te uns trechos da apresentação (Le Monde qui vient) feita pela jornalista Julie Clarini:

 

   «Desocidentalização», «desmundialização», «desdemocratização». Como será possível que estas palavras, a encherem colóquios e círculos de reflexão, não alimentem a nossa ansiedade? O universo que nos era familiar parece desfazer-se à nossa frente. O mundo pós-guerra fria já não existe - ou muito pouco. Quanto ao porvir chão e sem história que se tinha previsto após a queda do muro de Berlim, em 1989, transformou-se num futuro entre lagos, no qual não sabemos qual bússola seguir para encontrarmos o horizonte.

 

   Usemos todavia de prudência [[escolhi traduzir prendre garde por prudência, tenho o propósito de te lembrar essa definição da dita virtude como amor sagaz]] para não vermos apenas derrotas naquilo que nos desorienta. Pode haver coisas boas numa organização planetária mais justa, mais equitativa, e coisas desejáveis numa globalização mais respeitadora dos direitos e do ambiente. A bobine que se esvaziou foi só a nossa. Mas, mesmo assim, poderemos nós não ligar nada a essa tendência mundial de recuo das democracias liberais no mundo? E como não nos afligirmos com o surto de mecanismos autoritários no próprio seio das nossas instituições ocidentais?

 

   Antes de olharmos para as entrevistas, antes mesmo de te citar as declarações titulares delas, destaco brevemente outras três que, de certo modo, se encontram com suposições que, em cartas anteriores, já te manifestei. Não só a de que chegamos a um mundo com novas liberdades e afirmações (Maurice Godelier diz que vivemos o fim do domínio ocidental) como a de que o Tianxiá (a cuja análise voltarei) é uma proposta para ser internacionalmente considerada (surpreendentemente, Fukuyama diz que o Estado autoritário de Pequim oferece ao mundo um modelo alternativo), tudo isso possivelmente decorrente do facto, também já recordado, de que a difusão do capitalismo, em vez de implantar a democracia liberal, produziu o efeito inverso (frase esta de Cordelier). Para este notável antropólogo de formação filosófica, diretor científico no CNRS, que trabalhou com Fernand Braudel e Claude Lévi-Strauss -  hoje em dia os países emergentes recusam que lhes ditem as suas condições de existência...  ...entendem construir um futuro identitário próprio. Daí, o título escolhido para a sua entrevista: Modernizar-se sem se ocidentalizar. O que não determina, necessariamente, uma eliminação do Ocidente: O Ocidente não será marginalizado, mas será simplesmente posto no lugar que pode ocupar - o de uma potência importante, mas não mundialmente dominante. E é absolutamente preciso que o Ocidente aceite este novo dado. Também neste sentido te disse que, não sendo perfeita, a política de Obama levava em linha de conta o surto desta nova realidade. Coisa que o atual voluntarismo trumpista do America First não pode, nem sabe, infelizmente, entender.

 

   Por outro lado, Francis Fukuyama, cuja profecia de fim da história, pelo triunfo, após a derrocada do comunismo soviético, do capitalismo e da democracia liberal, se defronta hoje com dúvidas internas e contestações externas, interroga-se sobre como O mundo aberto e democrático está sob pressão (título da sua entrevista) e vai sugerindo que devemos regressar ao conceito de uma identidade nacional integradora, considerando-a como base de uma comunidade democrática em que gentes diferentes podem viver e trabalhar juntas... Talvez por isso o título do seu próximo livro, com saída prevista para setembro seja: Identity. The Demand for Dignity and the Politics of Resentment.

 

   A disparataria (ou dispirataria?) de infelizes populismos, nos EUA e na Europa, parece assim ter, pelo menos, a virtude de levar gente séria a pensar, a pensarsentir e a explicar-se, apontando caminhos possíveis para a reflexão e bom entendimento conjuntos do nosso - ao que tudo indica - inescapável destino global, comum e participado. Não digo equitativamente participado, porque não gosto de pleonasmos. E vai-se alargando o campo de incidência dessa preocupação sobre a crise atual do "Ocidente", seus regimes e sistemas políticos e económicos, seus preconceitos e inércias, suas projeções ainda tão ignorantes dos outros. Basta passarmos os olhos pelo sumário da mais recente edição da Foreign Affairs, a de julho/agosto de 2018, com o tema de capa «Which World Are We Living In?»: Realist World; Liberal World; Tribal World; Marxist World; Tech World: Warming World. E ainda mais elucidativos são os temas de ensaios neste número publicados: desde a extensa sombra do 11 de setembro (2001), How  Counterterrorism Warps U.SForeign Policy,  aos inimigos que estão no interior da NATO, isto é, de como o declínio democrático pode destruir essa aliança organizada, até à necessidade de os governos investirem nos povos, corrigindo desigualdades, ou à de devermos rever o mito da ordem liberal... Este último tema é tratado pelo reputado professor de ciência política da Harvard Kennedy School, Graham Allison, sob o título (traduzo) de O Mito da Ordem Liberal - do Acidente Histórico à Sabedoria Convencional. Achei curioso o epíteto que tal autor cola ao conceito que ora se propõe analisar: algo como gelatina conceitual. Explica-o assim: A ambiguidade de cada um dos termos na designação "liberal international rules-based order" dá uma escorregadela que permite aplicar o conceito a quase qualquer situação. Quando, em 2017, membros do World Economic Forum, em Davos, coroaram o presidente chinês Xi Jinping líder da ordem económica liberal - sendo, contudo, que ele encabeça a mais protecionista, mercantilista e predadora das maiores economias mundiais - revelaram que, pelo menos nesse contexto, a palavra "liberal" se tornou não vinculativa. E a meu ver, Allison tem razão em dizer que a expressão "rules-based order" é redundante, já que, por natureza, a ordem é feita por regras e regularidade, tal como quando acrescenta que os proponentes de uma ordem internacional liberal assente em regras pensam numa ordem que incorpore boas regras, equitativas e justas. Mas, assim como poderia evocar a Animal Farm do George Orwell (all animals are equal but some animals are more equal than the others), vai recorrer ao estrategista indiano C. Raja Mohan para observar que, na dita ordem internacional, as superpotências são "excecionais", isto é, quando decidem que algo convém aos seus propósitos, abrem exceções para si mesmas. O facto de, nos primeiros dezassete anos deste século, o auto proclamado líder da ordem liberal [os EUA] ter invadido dois países, conduzido ataques aéreos e operações de forças especiais para matar centenas de pessoas que unilateralmente classificou de terroristas, e sujeitado uma data de outras a uma "rendição extraordinária", muitas vezes sem qualquer autoridade internacional legal (e mesmo algumas sem autoridade nacional legal) - tal facto fala por si.

 

   Já em correspondência anterior falávamos, Princesa de mim, da urgência de progressiva construção de estruturas jurídicas e políticas internacionais que permitam acolher e fomentar o entendimento e consolidação de uma tão necessária cultura da paz, incluindo, em tais reformas, a revisão dos estatutos e regras de funcionamento da ONU. Para tal, parece-me necessário que comecemos por nos livrar de cargas de ideias feitas, da inibição de preconceitos, e do comodismo de uma inércia adquirida que, desde logo, nos fecham olhos e ouvidos aos sinais dos tempos hodiernos, assim obstruindo rotas de descoberta de um mundo emergente, com novos atores despertados, em várias escalas, por resgatadas consciências de si mesmos e da sua circunstância global e regional. Lembra-te do que te escrevia nessas cartas.

 

   Repetindo um escrito de Francis Fukuyama no seu The End of History and the Last Man: Talvez estejamos a assistir, não só ao fim da Guerra Fria, ou ao passamento de um período particular da história do pós-guerra, mas ao fim da história como tal, isto é, ao ponto final da evolução ideológica da humanidade e à universalização da democracia liberal ocidental como forma perfeita do governo humano  -  não consigo deixar de recordar os sábios chineses que dizem ser a China um devir constante, um contínuo de passagens de potência a ato, para me referir a um conceito aristotélico-tomista. E agarro então num texto de Zhao Tingyang: O novo ponto de partida da política imaginado pelo conceito de Tianxiá resume-se precisamente a construir o mundo como sujeito político passando pela sua inclusão, a estabelecer a soberania do mundo que pertence a todos, e a transformar o mundo da hostilidade para todos num Tianxiá de felicidade partilhada. A célebre expressão Tianxiá weigong (o Tianxiá pertence a todos) deve ser assim entendida: tudo o que se encontra debaixo do Céu deve ser usufruto comum de todos os que estão debaixo do Céu. 

 

   Creio que o problema - ou o dilema - da política externa norte-americana, desde o fim do "equilíbrio" bipolar que a Guerra Fria foi registando, se deverá, em grande parte, a um erro de perceção: não se ter visto que o desmoronamento do poder soviético, ou da alternativa comunista, longe de ser o fim da história ou o indiscutível triunfo da democracia liberal, nem sequer era o início de uma era nova de poder unipolar. Graham Allison vê bem quando afirma que o termo da Guerra Fria apenas produziu um momento unipolar. E desenvolve: Hoje, as elites da política externa despertaram para a subida meteórica de uma China autoritária, que agora rivaliza ou mesmo ultrapassa os Estados Unidos em muitos domínios, e para o regresso de uma afirmativa e iliberal superpotência nuclear russa, desejosa de pôr a sua força militar para mudar fronteiras na Europa e o equilíbrio de poderes no Médio Oriente. Devagarinho e penosamente, vão descobrindo que a parte de poder global dos EUA vai encolhendo. Quando medida pelo critério da paridade do poder de compra, a economia americana, que representava metade do produto mundial bruto após o fim da 2ªGuerra Mundial, caiu para menos de um quarto depois do fim da Guerra Fria, e é hoje apenas um sétimo.

 

   Mas a questão que esta abordagem da realidade adventícia levanta tanto pode ser, depois de verificados os fatores de uma perda de posição ou competitividade, saber, 1.- se se poderá reforçar uma primazia e hegemónica, 2.- ou se, melhor, nos deveremos todos adaptar à convivência num mundo menos desigual em poder, mais equitativo e mais justo. Sobretudo depois de se ter proclamado que as democracias sustentadas pela dita livre economia de mercado se deveriam implantar em toda a parte, de modo a cumprir-se a profecia dos que defendiam que "when a country reaches a certain level of economic development, when it has a middle class big enough to support a McDonald´s, it becomes a McDonald´s country, and people in McDonald´s countries don´t like to fight wars; they like to wait in line for burgers" - como sintetizava, no New York Times, em 1996, num artigo intitulado Golden Arches Theory of Conflict Prevention, Thomas Friedman. Há tiros que saem pela culatra, não é difícil perceber que a promoção da paz através de uma visão materialista do mundo e da vida e da instalação do consumismo, até poderá desvirtuar, para além de outros valores éticos, a própria razão de uma sociedade democrática. Na verdade, esta tem mais a ver com a liberdade interior, com a igualdade justa, com a fraternidade solidária. Pouco, ou nada, com a acumulação de riqueza ou o aumento do poder de compra. Como tanto tem lembrado, e sido bem escutado por variegadas gentes deste mundo, um argentino, filho de migrantes italianos, conhecido por Papa Francisco. A bom entendedor...

 

   A cultura reinante nas nossas democracias ocidentais é ainda fator de privilégio do indivíduo sobre o grupo, o êxito de um ser humano - em regra geral medido por vitórias e consagrado por remunerações - sendo sacramento de um novo messianismo que vai povoando de ídolos o imaginário coletivo: vai-se enchendo de "estrelas" e "melhores do mundo" a abóbada celeste da devoção dos homens comuns. Eis o culto da nova religião democrática animada pela ganância e pelo exibicionismo mediático. E a tentação de cada um se coçar para dentro, como os macacos (salvos sejam!), é tão grande que o conteúdo reivindicativo da esmagadora maioria das manifestações, greves e protestos sociais, quase sempre corporativos, se resume à reclamação de mais salários e melhores carreiras. Por vezes, chega a ser confrangedor ver como justos pedidos de justiça (apraz-me este pleonasmo de justiça justa) são confundidos em reclamações cegas a tudo o que não sejam ambições pessoais ou corporativas. Vamos perdendo referências a valores constitutivos da harmonia e progresso social, como a solidariedade e o sentido de missão. Ocorre-me aqui citar Xunzi, pensador confucionista do século III a.C.:

 

   O homem que vive tem desejos e, se estes não forem satisfeitos, subsistem as reclamações. Se as reclamações não forem limitadas, produzem-se conflitos. Os conflitos significam desordem, a desordem significa pobreza. O imperador detesta a desordem, e por isso instaurou ritos e etiquetas para assim estabelecer limites.

 

   Zhao Tingyang comenta: Xunzi verificou um fenómeno aparentemente paradoxal: a cooperação pode levar a conflitos pois gera muito mais vantagens, mas a resultante desigualdade de repartição pode conduzir ao conflito. Para que uma cooperação se torne estável e credível, é necessário institucionalizar os genes da cooperação.

 

   Eis, Princesa de mim, porque tenho dito e repetido, tantas vezes, que na raiz dos problemas sociais e políticos, nacionais e internacionais, está sempre uma questão de identidade e cultura. Para nos percebermos melhor, recorro ao pensarsentir a açorianidade ou a portugalidade, segundo Onésimo Almeida, açoriano no arquipélago, português no continente, europeu em Paris, universal em todo o mundo, um pouco como o padre António Vieira ao dizer: para nascer, pouca terra, Portugal; para morrer, o mundo inteiro. A identidade humana de cada um de nós vai-se engrandecendo com o crescimento da nossa compreensão dos outros (cultura) e o tamanho maior do nosso abraço. E o chamado Ocidente cristão deveria interrogar-se sobre como a sua dita democracia - ideia e projeto de cariz tão profundamente evangélico - se deixou transformar num veículo de egoísmos em competição.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nous ne voulons pas d’une hégémonie mondiale - dos EUA, claro - declarava há dias Emmanuel Macron, e já vários dirigentes do G7, dum ou doutro modo, têm deixado entender que também se podem aguentar num G6, e se deve sobretudo respeitar o direito internacional, a soberania de todas as nações e os compromissos assumidos. Entretanto, e na sequência de preocupações que contigo tenho partilhado em cartas anteriores, refleti hoje sobre dois passos do Tianxia, tout sous le même ciel, de Zhao Tingyang:

 

  1. Suponhamos que o nascente poder mundial sistémico mantenha a sua forma combinada «capital-tecnologia-serviço» e que o seu poder económico se transforme em poder político... [[ Tal poder mundial sistémico será, se bem te lembras, o mesmo sobre o qual, em carta anterior, eu te escrevia que, "na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político... - Aproveito agora para acrescentar que, em seu andamento, vai corrompendo pessoas e deslegitimizando titulares eleitos - ... Esta questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações, e pode não ter pátria nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos e acionistas"]]. 

 

  2. O despotismo tecnológico do novo poder sistémico pertence, por enquanto, apenas ao futuro. O perigo mais iminente está no grande interesse os imperialismos ainda hegemónicos mantêm pelos desenvolvimentos tecnológicos e na sua intenção de deles se servirem para consolidarem o seu poder. Desenvolver tecnologias com riscos imprevisíveis é irracional e virá reforçar as grandes potências. Consequentemente, é ilusório pensar ser possível impedir os atos irracionais dos poderes estatais ou sistémicos graças às organizações internacionais. Só construindo uma ordem universal mundial superior ao sistema dos estados é que se poderá refrear a hegemonia imperialista e os novos poderes sistémicos mundiais, evitar ao mundo uma ditadura tecnológica sem escapatória possível, ou poupar o mundo à loucura e à destruição. Eis o sentido do sistema Tianxiá. [[Fica aqui prometido que, em carta ou cartas próximas, voltarei ao tema chinês do "tudo debaixo do mesmo Céu", aos modos de olhar para o mundo a partir da Ásia. Por agora, deixo-te essas citações como alerta]].

 

   As citações seguintes também tê-las faço como temas de reflexão, ainda na sequência do que te disse em cartas anteriores. Estas e as que acima te deixo entreajudam-se-nos a pensarsentir a tecelagem de perspetivas com que vamos deparando:

 

  1. No seu Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado em 1942, Joseph Schumpeter (1883-1950economista austríaco exilado nos EUA) estima que a democracia não deve ser considerada como a fonte do bem comum, nem ser associada a valores: aos seus olhos, ela representa simplesmente um processo de designação útil. Em tal visão, inspirada pela teoria económica, o que conta é que o indivíduo tenha a capacidade de escolher uma oferta política, tal como o homo Economicus escolhe uma oferta económica - recorda o filósofo francês Florent Guénard, autor de La Démocratie Universelle (Seuil, Paris, 2016).

 

  2. Deste mesmo autor, e para nos ajudar a refletir no populismo, no que possam ser "democracias iliberais" e, mesmo, no "fenómeno" Trump: Aqueles que defendem uma conceção iliberal da democracia, têm a obsessão da espontaneidade e da incarnação, fundamentam-se numa conceção específica do povo: é suposto este receber do chefe a sua unidade, tal chefe sendo uma figura em comunhão com o povo, e que instintivamente conhece a vontade popular.

 

  3. E ainda, eu que sou impenitente releitor de Georges Bernanos, como sabes - e, pensossinto o sabor profético de muitos textos e frases da sua abundante e sempre participante prosa -, não te dispenso da reflexão sobre estes dois passos de La France contre les robots, datados de 5 de janeiro de 1945, dia em que cumpri três anos de vida: Un monde gagné pour la Technique est perdu pour la Liberté (um mundo ganho para a Técnica está perdido para a Liberdade). E explica num trecho adiante (traduzo): Intitule-se capitalista ou socialista, este mundo alicerçou-se sobre uma determinada conceção do homem, comum tanto aos economistas ingleses do século XVIII, como a Marx ou Lenine. Já se tem dito que o homem é um animal religioso. Este sistema já o definiu, uma vez por todas, como animal económico, não somente escravo mas objeto, quase matéria inerte, irresponsável sob o determinismo económico, e sem esperança de se libertar, pois não conhece outro motivo certo para além do interesse, do lucro. Limitado a si próprio pelo egoísmo, o indivíduo não parece mais do que uma quantidade menosprezível, sujeita à lei dos grandes números, como se apenas pudesse ser empregue por grosso, graças ao conhecimento das leis que o regem. Assim sendo, o progresso já não está no homem, está na técnica, no aperfeiçoamento de métodos capazes de permitir uma utilização cada vez mais eficaz do material humano.

 

  4. Ocorre-me citar-te ainda William Morris, inglês e socialista sui generis, utópico cavaleiro andante para defesa do trabalho humano e humanizado, sonhando com a conversão do operário industrial, mecanizado em linhas de produção em série, num artesão, num artista que se fosse realizando pela própria criação do seu trabalho: Eis, em resumo, a nossa posição de artistas : somos os últimos representantes do artesanato, no qual a produção mercantil desferiu um golpe fatal... -  diz ele numa conferência em Edimburgo, em 1889.Fundador, em meados do século XIX, em plena revolução industrial, do movimento Arts & Crafts, merecerá, quase 150 anos mais tarde, esta reflexão de Michel Houellebecq (sim, o tal, o autor de Soumission) este comentário: Para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a conceção e a execução, devia ser abolida: qualquer homem, à sua escala, poderia ser produtor de beleza - seja na realização de um quadro, de um vestido, de um móvel; e qualquer homem, igualmente, teria direito, na sua vida quotidiana, de se rodear de belos objetos... 

 

  5. E ainda, neste sábado em que algum neto me grita, pelo telefone, que a Islândia empatou com a Argentina no campeonato do mundo de futebol, e este seu avô, passando por um escaparate dos jornais do dia, lê em caracteres garrafais, na primeira página dum jornal generalista português: RONALDO DEUS, etc., etc. ..., alegra-me citar-te um dito do professor de sociologia Vidar Halldorson, da Universidade da Islândia: Sabemos jogar como profissionais, sem cair nas ratoeiras do desporto comercial, onde o dinheiro e o ego muitas vezes ficam por cima... O mesmo académico viking que também nos diz que Quando os nossos (deles) jogadores regressam à pátria, não se entrincheiram em clubes privados nem luxuosas moradias. Numa pequena cidade como Reykjavik, podemos encontra-los a qualquer hora na piscina monumental, num restaurante, na rua... Na verdade, quase todos eles trabalham ou estudam.

 

  6. Estes reparos levam-me a Le Figaro, à sua edição de 5ªfeira, 14 de junho, dia da inauguração do dito campeonato na Rússia, a um artigo do filósofo Robert Redeker, aliás autor dum livro intitulado Peut-on encore aimer le football? (Le Rocher, Paris): Ela (a Copa do Mundo) oferece-se na forma de um espetáculo planetário, ao qual é impossível escapar. Mas, para além das apostas desportivas, do comércio e dos comentários de café, da abafante saturação mediática, que acompanham este acontecimento, da atmosfera kitsch e de mau gosto com que envolve a existência coletiva, torna-se importante ganhar recuo para lhe compreendermos o sentido, através da seguinte interrogação: a Copa do Mundo será, afinal o espetáculo de quê? E Redeker, com lúcida intuição, começa por responder que não se trata essencialmente do espetáculo de uma competição desportiva: Segundo Pascal, o divertimento afasta-nos do essencial; entregamo-nos a ele para escapar ao que devemos ser. O futebol, pelo contrário, reconduz-nos ao que o mundo moderno exige de nós, ao que ele toma por nossa essência: a competitividade e a "performance". Depois de verificar que o Campeonato do Mundo é sobretudo um acontecimento televisivo, como testemunham os milhões de ecrãs por aí disseminados - desde a intimidade dos lares aos gigantescos estádios acesos nas praças públicasconclui que, pelo milagre do numérico, o mundo se fusiona com o estádio, nele se dissolve e dele já não se diferencia... ...Paul Virilio tinha razão: o ecrã é o instrumento da evaporação do real.

 

  7. Já não ousarei tentar, acompanhando o filósofo francês, o salto seguinte em todo o seu alcance. Todavia, reconheço-lhe uma proposta convidativa a uma reflexão sobre a concentração canalizadora das nossas forças ou impulsos para a consciência coletiva, a solidariedade, o patriotismo, a eclesialidade, nessa sugestão de que o espetáculo futebolístico é a retoma, desde o descalabro do império romano, do papel ativo do espetáculo na constituição de um universo pagão:

 

   O neopaganismo é a religião veiculada pelo futebol. Qualquer de nós o verifica: os jogadores ascendem a ídolos. São, nos tempos atuais, a reincarnação dos deuses e semideuses da Antiguidade. Consideremos a desmedida dos seus salários, o recinto sagrado que os isola da restante humanidade. Na verdade, a sacralização é um gesto que traça uma divisão entre dois universos. Assim, a hibris financeira serve para os sacralizar, para os pôr fora de alcance, além do mundo comum. Na verdade, este espetáculo futebolístico toma o caminho duma regressão para um diante - o de antes do cristianismo. Com dimensão planetária, esse espetáculo é, manifestamente, uma fábrica: tem por ofício fabricar ídolos. No mundo futebolizado, o fetichismo, ou seja, a própria liturgia de qualquer paganismo, novo ou ancestral, surge em todo o lado, até nas costas de seres humanos envergando uma tee-shirt impressa com o nome de um jogador...

 

  8. Mas, nas fronteiras dos EUA, separam-se crianças de seus pais ; no Mediterrânio, migrantes pais e seus filhos andam à deriva, as duas Coreias anunciam novas cheganças, a "opinião" pública portuguesa baba-se de futebol, tudo se funde neste mundo hodierno: a tragédia, o inescapável fado, alimenta-se igualmente de tristezas e alegrias, de dramático e lúdico, é cansativo e frustrante entender, ou tentar compreender o fundo das coisas - ou procurar entendermo-nos  - as nossas vidas são apenas episódios de um espetáculo leviano... Com ligeireza apontamos o dedo a todo o universo islâmico -  porque há, é infelizmente um facto, terrorismo islamista - mas não nos ocorre sequer a possibilidade de fazermos juízos temerários, generalizando a todos os crentes de uma religião, incluindo àqueles que são pacíficos e, até, vítimas dos outros, uma acusação que também é uma tentativa de encontrar, fora de nós, bodes expiatórios de um mal que nos rói a todos, e entre cujas raízes poderemos descobrir responsabilidades nossas. O Islão também reúne muitas gentes que invocam o Deus Misericordioso. Quiçá de modo e em verdade diferentes do ministro norte-americano da Justiça, Jeff Sessions, quando defende as medidas sancionatórias da violação das normas anti-imigração da Administração Trump (designadamente a forçada separação de crianças e seus pais): Citar-vos-ei S. Paulo que, com sageza e clarividência, nos manda obedecer às leis do Governo, que Deus estabeleceu para fazer cumprir a sua vontade...

  

   O meu dia a dia, Princesa de mim, é feito de escutas. Hoje, dia tão cheio de futebol universal (?), fui repetidamente ouvindo os seis motetos sobre textos de Franz Kafka (Sechs Motetten nach Worten von Franz Kafka) de Ernst Krenek, compostos quando, aos 59 anos, já estava, esse vienense de alma e coração, exilado nos EUA, desde 1938. Como não posso deixar-te aqui o som da música, traduzo-te o texto do primeiro moteto, Der Weg, der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespanngt ist, sondem knapp über dem Boden...: O caminho, o verdadeiro caminho, passa por cima de uma corda que não se estica no ar alto, mas quase ao rés do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser transposta. A partir de certo ponto já não há retorno. É esse ponto que se deve atingir. Os esconderijos são muitos. Há só uma salvação, mas as possibilidades de salvação são tão numerosas quanto os esconderijos. Quantos mais cavalos atrelares, mais depressa se andará. Não, certamente, o arrancar do bloco às suas fundações, o que é impossível, mas a rutura das rédeas e, daí, o curso livre, alegre. Tinha-lhes sido dado a escolha entre tornarem-se reis ou correios dos reis. Ao jeito das crianças, todos quiseram ser correios. Eis porque já só há correios e, como já não há reis, percorrem o mundo gritando uns aos outros mensagens que já não fazem sentido. De bom grado poriam fim às suas vidas miseráveis. Mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram. Há um fim, mas sem caminho. Não há caminho? Não há caminho, não: isso a que se chama caminho é hesitar.

 

   Mas, se queres saber, Princesa de mim, pensossinto como é natural, quase ou tanto uma crise em processo de evolução, esse hesitar de quem, nesta encruzilhada global a que chegámos, até já nem se reconhece numa identidade presente, passada, possível ou sonhada. Desde as migrações e suas consequências nas configurações demográficas e culturais das nações, à percutante presença do alienígena, dos estranhos (do Oriente ao Ocidente, os antigos chamavam-lhes bárbaros) na intimidade, hoje televisiva e online, das nossas casas, tudo, ou quase tudo, nos interroga. E pouco convincentes são já as dissertações ou os meros palpites acerca do fim receado ou da resiliência esperançada da chamada democracia liberal, e das perspetivas que se abrem ou propõem à governança do mundo. A esperança é a última a morrer. Quero e peço a Deus que a minha esperança viva. E talvez eu morra antes dela.

 

Camilo Maria   


Camilo Martins de Oliveira