Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE PALMO E MÃO VI

cartas.JPG

Minha amiga única:

Estou a ler um livro enquanto me direcciono para a casa dos nossos amigos em Richmond. O meu marido virá ter comigo à estação sob esta contínua chuva de Inglaterra. Estamos ambos exaustos de tanto trabalho e preocupações sufocantes que em Portugal temos suportado nestes últimos anos. Contudo, como sabes, o nosso amor tem tido sempre o espírito e a razão das tais: amor, pensamento, amizade e paixão, tudo confundido e esclarecido no espaço do erguer.

Por aqui estaremos dois ou três dias apenas, e, em muito viemos para falar da India, a nossa India, a grande verdade que a ela nos leva constantemente até ao interior de não sabermos se ela é Deus ou fera; se nasceu para morrer ou para errar, sentindo humanidade pelo bem e pela imperfeição; ou se apenas percorre labirintos e nos deixa espreitá-los.

Mas escrevo-te, como prometido, dizendo-te assim o que pelo telefone não seria capaz de transmitir quando ontem falámos. E sim, a incapacidade tinha de ser encarada por vós e tanto quanto possível elucidada. Os beijos têm contexto, e como dizes, sentires de estética também. Por isso, Inês, a verdade deles não é uma questão de opinião maioritária ou de quase unanimidade. Pelo contrário: de alguns, nunca conseguiremos libertar-nos da suspeita que louvá-los foi algo convencional ou excessivo. De outros nenhum juiz se aproximará. Mas, lembra-te sempre carinhosa amiga, que só o essencial faculta a justificação e depois dela a pergunta continua. Vai, segue-o como homem mortal, sei que repararás na clareza das leis da natureza.

Para ti = uma mão de água-benta


A tua amiga Isadora

Cartas 2.JPG

 

Por Teresa Bracinha Vieira

Junho 2015

CARTAS DE PALMO E MÃO IV

Cartas de Palmo e Mão 1.JPG


Pedro,

Recebi a tua carta e li-a como quem lê a época de uma história que se iniciou misteriosa e amiga da profissão do poeta. E é grande a responsabilidade e é indefinida nestes essenciais. Sei que me entendes ou para ti o passado não fosse um idioma que se vai descodificando. Ainda assim, achei-te desconcertado, deslumbrado ainda, e desafortunado nessa depressão por esclarecer, quando afinal todas sempre se vão esclarecendo através das dúvidas.

Em primeiro lugar queria dizer-te que te leio no avião que me leva a Bogotá por uns dias, e que, o quadro que tão bem descreves do local onde estás, aqui, justifica que o envolva uma nuvem que conheça o Pai Nosso. Mas Pedro tudo ou quase tudo o que referes na tua carta merece uma selecção que te tranquilize. E essa selecção terá de ser feita por ti amoroso Pedro que congregado por tua mãe foste, e que de tanto espaço ela te dar, aperta a queixa do teu destino em lhe fugir. Julgo que a flor pequenina que referes estar no alpendre a dormir, se trata do teu filho, e essa relação, é também um verso de todos e de ninguém, com o qual não viajarias a Bogotá.

La Candelaria poderá ser um charmoso bairro de Bogotá e muito perto do museu de Botero onde verias a famosa versão boteriana da Mona Lisa. Contudo, não ignoras que os lábios gretam, sim, na pobreza aberta ao mundo do nosso tempo, e essa olha-nos nos olhos com verdade total, numa realidade tal que não há quem se não sinta confessado. E pergunto-te: manterias depois, a música do beijo que me envias no desejo de comigo viajares? ou és mero aspirante à condição do interpretar?, mas longe, longe do despertar total?

Como disse Schopenhauer, a única arte que poderia existir mesmo que não houvesse mundo seria a música. Assim Pedro não te reconcilies com uma paz genérica. Que mais te devo dizer?


Beijo

Isadora (para teu desafio Isa.)

Cartas de Palmo e Mão.JPG


Por Teresa Bracinha Vieira

Junho 2015

CARTAS DE PALMO E MÃO III

Cartas de Palmo e Mão 1.JPG

Amiga;

Ontem, por mero acaso, encontrei o Luís Pedro à saída dum cinema e decidimos logo conversar um pouco à mesa de um café. Há quantos anos nos não víamos? Não sei. Creio que ambos nos observávamos no ver e no dizer. Às vezes fazíamos pausas para que nenhuma memória fosse traficada, e isso via-se, creio, nos nossos olhares cautelosos. A dada altura dizia o Luís Pedro, roçando a mão pela testa, que o tempo, faz todo o mal nos rostos, atraiçoa-os nos traços anteriores antes mesmo que um beijo de adeus segure a verdade. Então perguntei-lhe como ele acharia que estariam hoje os teus lindos olhos, se teriam perdido a verdade que ele antes vira. O Luís Pedro respondeu-me

«Ó Isa, ó Isadora estava à espera do momento em que falarias da Inês. Sabia que irias falar. Só não sabia por onde e quando começarias. »

Então, começo assim

A maré cheia tinha chegado e as nossas toalhas de praia por pouco tinham escapado ao arremesso das ondas espraiadas na areia. Então a Inês sugeriu que fossemos à Quinta do Morgado dar um passeio até ser hora de jantar. Tu concordaste, expressando o brilho sem por igual, nesses teus olhos azuis. Levaste-me na tua mota, na tua onda de mar, como lhe chamavas, e o céu que escreva a tua felicidade estrada acima, enquanto me oferecias a tua vida, assim, estando de costas para mim, os teus cabelos loiros ao vento e as palavras que só escutava com nitidez quando não nos cruzávamos com os carros. Chegámos à Quinta e olhaste-me com uma fervorosa dor de luz, balbuciando «quando chegar com a Inês já tiveste tempo para decidir. Basta dares-me a tua mão.»

Luís, a Inês pediu-me que um dia, se te encontrasse, te dissesse

E depois do Luís Pedro me dizer «cuidado com o vento nesses teus bonitos olhos», nada mais aconteceu, se é que aquilo era um acontecer, e já perto da Quinta, não tendo jeito para imortalizar o que nunca nasceu, encostei a minha perna ao tubo de escape da mota e suportei a dor até queimar a pele e disse para mim: para sempre deste modo fui dele por muito que envelheçamos e o Luís me não queira.. 

Luís, meu terno Luís Pedro, ter-te-ia dado botões de âmbar se tivesses amado a Inês e não a mim. De cada vez que lhe desinfectei a ferida que ela optara provocar quando esteve junto de ti, corpo encostado a corpo, sentia a visão toldada e perdida de dor em dor, por ela e por ti e por mim, que aos 16 ou 17 anos, não desacostumamos como se pensa.

Somos todos um só, agora, amiga minha. Do Verão das flores, dos jovens amantes que choram ou estão a rir, só quando se libertam, o sono chega.

 

Isadora

Cartas de Palmo e Mão.JPG


Por Teresa Bracinha Vieira

Junho 2015

CARTAS DE PALMO E MÃO II

Cartas de Palmo e Mão 1.JPG

 

Querida Inês;

Há leitores que julgam que ser-se viajante e escritor das viagens feitas é uma quase impossibilidade. Atrevo-me a suspeitar que a imprudência deles face a esta opinião é clara. Clara, desde logo por se prestarem a socorros de clarificação dos locais, como se um homem tivesse sempre de esperar que outro homem o ajudasse a interpretar, aquele bairro único, ali, onde Alhambra coube inteira, no recanto de uma rua de Jammu e Caxemira. Mais: o diligente coração reconheceu ali a sua suavíssima influência. Contudo, para os leitores a que me refiro, assim não poderia ser, quer tenhamos sido e sejamos respiração atenta a múltiplos saberes. Quanto muito, os mais intelectuais, corrigiriam, dizendo «mas ter fome no Puerto em Buenos Aires será sempre um traço romântico». Assim não penso. Um dia disse-te que dei a mão a Taormina e levei-a até Nairobi onde me encontraste no hall daquele hotel de África que bem entendeu o nosso fraterno abraço. Assim, e com esta memória, te agradeço as palavras ao meu principiante livro de viagens, bem como o teu zelo na resposta às cartas que me vais solicitando, pois, deste modo, trocamos num montão de escritas palavras o que diríamos uma à outra, se estivéssemos juntas. Sabes Inês?, a tua não identidade superficial dá-me a tranquilidade de saber que não deformas as intenções das palavras. Não imaginas o quanto vejo os passados séculos serem, por intérpretes extraviados, deformados até à conveniência subtil que lhes seja útil. Não reconhecerão eles o quanto o próprio idioma de Geoffrey Chaucer, o seu refinamento poético, a plasticidade de riqueza filológica, o seu encontro com obras de Dante, de Petrarca e Boccacio incorporaram a possibilidade de lermos The Canterbury Tales, e de nele encontrarmos o tal recanto de uma rua de Jammu e Caxemira?

Inês, eu, que receio tanto a impossibilidade das palavras certas e justas, creio, no entanto, não desconhecer o seu conceito nu, e, como dizes, o pleito das alegorias e dos símbolos é mágico, se deixa entrever a pergunta à assimilação do homem, à bengala dos dias, à esfinge que nos espreita a correspondência e a minha pergunta:

Como estás querida amiga? A tua carta revelava alguma proeza de lágrimas que em mim me deixam pobre e indefesa nos modos de te acudir. Aceita Lope de Veja, doce Inês

(…) enamorada de la luna hermosa,

En tus mudanzas , quién será constante

(…) como aquel pajarillo ?

 

Tua amiga de sempre

Isadora

Cartas de Palmo e Mão.JPG
 

Por Teresa Bracinha Vieira

Junho 2015