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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vamos então visitar São Tomás de Aquino, pela mão de Umberto Eco nos seus Scritti sul Pensiero Medievale (Bompiani, 2012). Retomo agora o fio da minha carta nova nº XI, que fechara com uma citação de Huizinga contra o declínio do simbolismo e, para metermos já Umberto Eco na nossa conversa, traduzo o que ele escreve: A propósito do simbolismo medieval, Huizinga deu-nos uma análise magistral, ao levar-nos a compreender que a predisposição para uma visão simbolizante do universo também se pode manifestar no homem contemporâneo. Eis uma interessante perspetiva.

 

   Na verdade, o pensador italiano, autor também de apreciados romances, procura desde logo chamar a nossa atenção para algo que, talvez por uma certa incultura contemporânea e consequente desleixo do espírito crítico, temos vindo a menosprezar ou, alternativamente, a idolatrar: o símbolo como acesso ao invisível, ao suposto, ou ao dificilmente ilustrável por si mesmo, em virtude da sua própria ininteligibilidade, quando não se lhe conhecem possíveis referências já alcançáveis. É certo também que bastas vezes nos servimos de símbolos, em sentido inverso, isto é, para significar (digamos que erga omnes) algo que veneramos e queremos mostrar. Chamamos-lhes então emblemas, mas, afinal, também estes procuram traduzir a maior intensidade de um sentimento ou algo inexplicável mesmo naquilo que julgamos conhecer. Pode, pois, dizer-se que um símbolo é tentativa de concretização de algo que só em abstração concebemos. Não é nem fantasia, nem ídolo: é sinal, referência. Tal como os milagres de Jesus que os Evangelhos relatam, não para contar maravilhas, mas enquanto sinais do Emanuel, do Deus connosco. Ainda esta manhã isso penseissenti, ao ler um trecho do Evangelho de São Lucas (7, 11-17), designadamente este passo: Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores». Jesus aproximou-se e tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, eu te ordeno: levanta-te!». O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus entregou-o à mãe. Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: apareceu no meio de nós um grande profeta, Deus visitou o seu povo».

 

   Este texto relata um acontecimento, hoje inverificável, impossível de confirmar. Apenas sabemos que estas narrativas evangélicas registam por escrito memórias de contemporâneos de Jesus, testemunhas privilegiadas da sua vida terrenal e suas circunstâncias. Mas tal testemunho não se confina aos factos relatados, vai além deles, confere-lhes um sentido descoberto, achado, pela mensagem do próprio Jesus. Portanto, mais do que como notícia, leio-o com encanto, quase posso dizer que maravilhado com a maravilha, sem todavia me fixar nela. E aí reside, precisamente, mais do que a beleza que tenha, a sua verdade. Não no facto em si, mas no seu simbolismo. Se Jesus ressuscitou aquele rapaz, como nos é contado, tal não significa que irá continuar a retornar a esta vida todos os mortos com que se for cruzando pelos caminhos da Judeia e da Galileia. Nem tão somente que aquele seu gesto se destinava exclusivamente a consolar a mãe viúva e a granjear admiradores ente os presentes. O próprio texto evangélico, aliás, é bem claro: Todos se encheram de temor e davam glória a Deus. O temor a Deus, na Bíblia toda, é sempre sinal, não de receio ou medo, no nosso sentido corrente, mas do sentimento devorador da presença próxima do Quem É, daquele absoluto inefável, cujo nome mesmo é impronunciável pelas bocas e as próprias escrituras do judaísmo. Como poderia o humano que pretendesse chegar-se a Deus esquecer o castigo de ter caído na tentação de comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, e não viver em terror permanente, roído pelo medo constante de cair na voragem do buraco negro que tudo consome. Já no caso do rapaz tornado a sua mãe, o sinal da proximidade de Deus é o gesto misericordioso de Jesus, que o ressuscita, em sinal também da sua própria Ressurreição libertadora de todos, símbolo ainda do inimaginável poder redentor do Pai que, na figura ou pessoa do Filho, visitou o seu povo! E todavia, não é propriamente uma visão clara de Deus que nos é dada, senão apenas um gesto simbólico da sua presença entre nós. Porque a fé apenas é a substância ou sustentação das coisas que virão. Por outro lado, há cenas ou afirmações que serão apenas fruto da imaginação humana, sem qualquer possibilidade de verificação experimental ou científica (sei lá... a assunção de Nossa Senhora não faz dela uma astronauta, nem a sua virgindade  -  no sentido físico de hímen não rompido, quer antes, quer após o nascimento de Jesus, como pretendem textos apócrifos e o próprio Corão  -  será uma exceção biológica), mas que contudo têm sentido místico e significam realidades tão fortes como a omnipotência de Deus ou o advento final de novos céus e duma nova terra, uma vez vencidas a corrupção e a morte e tudo retornado à imaculada condição inicial.

 

   Assim, Princesa de mim, muitos relatos constantes de textos bíblicos são considerados hoje, por muitos teólogos mais rigorosos, narrativas simbólicas - coisa que, curiosamente, quiçá os sábios medievos, pela sua cultura, terão considerado com maior naturalidade. Em carta próxima voltarei à Legenda Aurea de Tiago Voragino, da qual também muitas vezes já falámos, e da qual o grande medievalista Jacques Le Goff (cf. À la Recherche du Temps Sacré, Perrin, Paris, 2011) escreve:

 

   A Legenda Aurea é extraordinária, simultaneamente por si mesma e pela sua fortuna. Escrito no último terço do século XIII, este texto, cujos cento e setenta e oito capítulos ocupam mais de um milhar de páginas na edição de La Pléiade, foi objeto de mais de um milhar de manuscritos medievais conservados até hoje, o que lhe confere, sob esta perspetiva o segundo lugar, na Idade Média, a seguir à Bíblia... Le Goff refere-se aí ao facto de, em tempos anteriores à imprensa, aquela obra do dominicano arcebispo de Génova - e coevo do seu confrade Tomás de Aquino  -  ter sido a mais reproduzida pelos copistas, isto é, a que foi mais editada, logo a seguir à Bíblia. A razão para voltarmos às conversas sobre ela será, essencialmente, tratar-se de uma Summa, não Theologiae, mas sobre o tempo. Aliás, o Voragino começa assim o seu texto: Universum tempus presentis vitae in quatuor distinguitur ou O tempo todo da vida presente divide-se em quatro. Para  Le Goff, a grande originalidade do Voragino não está só na "consideração e abrangência do tempo na sua totalidade,  grande interrogação de todas as civilizações e religiões, mas em como chegar a esse tempo total pela combinação de três tipos de tempo : o temporal, isto é, o tempo da liturgia cristã, que é cíclico; o santoral, ou tempo marcado pela sucessão da vida dos santos, que é linear; e, last not least, o escatológico, de que o cristianismo faz o caminho temporal que conduz a humanidade ao Juízo Final."

 

   Afinal, escreve o medievalista francês, o nosso dominicano quer afinal mostrar como só o cristianismo soube estruturar e sacralizar o tempo da vida humana, para levar a humanidade à salvação. Porque a Legenda Aurea não trata de um tempo abstrato, mas dum tempo humano, querido por Deus e sacralizado ou santificado pelo cristianismo. Retomando uma expressão de Max Weber, Marcel Gauchet deu ao seu livro maior o título Le Désenchantement du Monde (o desencanto do mundo). A empresa de Tiago Voragino era em sentido inverso: apoiar-se no tempo para encantar e sacralizar o mundo e a humanidade. Pela minha parte, creio que tal "sacralização" do tempo humano, como enquadramento e caminho do percurso salvífico, não é, de modo algum, despiciendo para a nossa melhor compreensão da cultura simbolista medieval.

 

   Mas deixaremos, para mais tarde, as reflexões sobre esses pontos. Por hoje, apenas quero sublinhar, Princesa de mim, que a Legenda Aurea frequentemente se apoia em textos apócrifos, sobre alguns dos quais, aliás, se construíram devoções e cultos universais da Igreja, bem como dogmas, entre os quais o da Assunção da Santíssima Virgem que, como sabes, não tem qualquer suporte em textos bíblicos. Reparo ainda na, por mim descuidada, saturação desta carta, que já vai longa, e reservo para a seguinte - que com esta te envio - o nosso próximo prometido encontro com São Tomás de Aquino.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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   Minha Princesa de mim:

 

   Fizeste-me pensarsentir, por atenta observação, aliás já antes feita pela nossa amiga Maria Otília Medina, de como me suspeitas de, através da escrita, fugir ao real... Será assim? De certo modo, todos temos uma costela de fugitivo (ou, mais insolente e certa, de fugidio) na peregrinação das nossas vidas. Estas, na verdade, bastas vezes parecem esbracejar entre forças centrípetas e centrífugas e, na aflição, nem sempre sabemos onde temos os olhos postos. Olhamos para o centro, presumindo  que esteja lá a substância que a fé procura; tenta-nos a periferia em cujos horizontes julgamos estar a aventura que talvez desejemos. Afinal, quiçá seja a luta de Jacó com o Anjo a melhor resumir a condição humana, pois nunca conhecemos bem a nossa fortaleza nem as forças com que deverá medir-se. Quanto a fugir do ou ao real, tanto poderá ser em corrida para o centro como a caminho da periferia. Vamos, então, partir em busca do real, sem que, à partida, saibamos o que ele ontologicamente é?

   O real do meu quotidiano  -  tal como, mesmo sem o conheceres pelo sentimento da experiência, poderás imaginá-lo  -  é simples e chão, como o de um monge. Encarrego-me de quase todas as tarefas domésticas (compras, cozinha, mesa, louça, roupa, medicação), com excepção das grandes limpezas caseiras que empregadas de fora fazem ; leio, escuto música, escrevo e, sobretudo, calo-me. O silêncio é como a criação : começa do nada para se tornar vida, é oração, meditação, reflexão, pensarsentir-me, a mim, aos outros, ao mundo, ao cosmos, na origem. [E, dado que sou uma espécie de maníaco etimologista, recordo a raiz, o significado inicial, das palavras cosmos e mundo: a primeira, em grego, diz belo ; a segunda, latina, diz limpo, puro]. Assim olhada, a realidade do universo e da terra, é amável e desejável no seu próprio ser, quer na sua criação, quer no seu apocalipse ou revelação final. Neste sentido, procurar descobrir e amar a pura beleza da essência de tudo, não é fugir ao real, antes é abrir uma rota até ao centro dele. Assim também creio que a minha estranha (?) forma de vida tem uma motivação íntima, curiosamente mais inspirada do que virtuosa ou simplesmente deontológica : ver alguém feliz pelo conforto que eu possa trazer à sua circunstância. A degenerescência de certas faculdades  -  tais como o poder de concentração, o exercício da memória, o tempo e certeza dos reflexos  -  afecta as vidas de muita gente, designadamente daquela a que a idade vai limitando as capacidades de correcção e recuperação. Desse progressivo mas irreversível "divórcio" do mundo que a rodeia, da sua própria circunstância, pode resultar um estado de alma depressivo, angustiado por um sentimento crescente de solidão, angústia essa agravada pelo seu próprio receio. Este mal sem cura poderá, todavia, ter outra realidade, essa que nasce duma nova experiência de liberdade e segurança, de confiança em si através de quem lhe for próximo... Chama-se a tal "benfeitoria" : Alegria de Viver. Aqui no campo, em vida muito isolada, aparentemente, pela diminuição dos contactos expressos, múltiplos e próximos, com tantos amigos, e com a própria periferia do "meu" mundo, sou eu feliz também, porque todos os dias sou presenteado com a despreocupada alegria de alguém ao meu lado, que se sente em casa como quando era menina e moça, sem sequer precisar de saber as horas do dia pelo relógio que já não usa, porque lhe basta perguntar a quem responde. A morte é só o incomunicável ; a vida é a livre respiração da reunião.

   Tampouco será despiciendo o tempo que em raros dias consagro a conversar (pelo telefone, ou em almoços com amigos que me vêm visitar a este retiro donde me é, fisicamente, difícil sair) e a ler jornais e ver um pouco de televisão. Ainda que com reservas e cuidados que me vão balizando as extensões das notícias, declarações várias e comentários que desse modo me chegam, não fico alheio ao que se vai passando nessa periferia. Mas evito, propositadamente, intrometer-me ou, menos ainda, intervir em debates que, logo à nascença, são provocados e conduzidos por "estratégias" (não é assim que dizem?) de concorrência, competitividade e afrontamento, mais assentes em proclamações de atitudes ou "valores" que possam agradar e cativar eleitorados e admirações, do que na serena, estudada e séria análise das raízes, circunstâncias e condicionantes das situações e problemas que, tratando-os comunitariamente, deveríamos resolver. Lembra-te, Princesa de mim, de questões como os incêndios, a Amazónia, os migrantes, as greves de transportes vários, professores, médicos e enfermeiros... Todas essas questões são equacionáveis e atendíveis, comunitariamente, independentemente de desejos ou pretensões a dar, seja a quem for, razão ou ganho. Quando as nossas sociedades políticas deixarem de se focar, quase exclusivamente, em concursos a votos mais facciosos do que racionais, talvez tal seja possível. Mas por enquanto, e por defeito nosso, o espaço público do debate analítico e construtivo tem sido ocupado pela paródia declamatória de inúmeros cultores do fulanismo. O culto ou o ostracismo de fulano ou beltrano ecoa por toda a nossa volta, chegando a ser asfixiante, como no caso do nevoeiro da crónica futebolística que, insistentemente, mais do que apenas perturbar alguns, vicia o juízo de muitos e sugere-lhes, ou mesmo ensina, comportamentos radicalmente facciosos e mercenários. 

   Entretanto, sabes bem que não comento nem gracejo - fora do círculo das conversas hílares (Deo gratias!) entre amigos - "selfies" políticos de Trump et alia... Et pour cause... Tais personagens de comédias da cena política que todos os dias nos é apresentada na ribalta dos media, não são certamente líderes (como também se diz), nem sequer actores, mas apenas máscaras das massas eleitorais manipuladas pelos poderes disfarçados que pretendem governar-nos. Costumo dizer, Princesa de mim, como tão bem sabes, que não há Trump que me preocupe ou assuste. Assusta-me, sim, que seja possível concentrar tanto poder em mãos de um só. E preocupa-me, muito, que a razia crescente da nossa cultura humanista e a progressiva eliminação do espírito crítico, apanágio do humano, resulte no surto de multidões que votem para eleger tais espelhos da sua ignorância e insensatez. Por isso mesmo me pensossinto no dever de ir dizendo e escrevendo, noutro registo, talvez uma escapadela a tal espectáculo, coisas que a maioria não gostará de ler e não lerá, mas que são um modo meu de não fugir ao real, mesmo tentando remar para um quiçá inalcançável centro (?).

   Por outro lado de mim, não resisto a rir-me de tanta comédia, mesmo sabendo que é privilégio de "rico" (salvo seja eu de tal apanágio!) Só que os tais ricos, os consagrados, os grandes, os importantes deste circo e sua assistência, assim como aqueles que lhes vão aparando o jogo, não se riem   -  nem sequer deles próprios  -  mas tomam muito a sério, até pela mesquinhez dos seus interesses, aquilo que os poderá enfim levar à tal fotografia que lhes trará um voto. Curiosamente, eis aqui uma área em que até estaremos a regredir em liberdades, não sei se por excessiva consideração das susceptibilidades das nossas vedetas : repara, Princesa de mim, nas críticas crescentes e descarada censura que se tem feito à arte da caricatura. Aproveita, vai deitar o olho a "bonecos" do século XIX, e nota bem com quanta maior liberdade se gozava então o pagode.

   Parece-me, portanto, claro que nem sequer essa minha propensão a "gozar com a política"  -  como gosta de lembrar um grande amigo, dos tais que me telefona sempre que se sente preocupado ou indisposto, para que eu o faça rir  -  possa considerar-se uma fuga ao real. Afinal a realidade é o que for, sempre difícil de ser acomodada aos gostos e desiderata de cada um. Reconhecendo isto, reconheço também que o meu divertimento é modo de fugir, sim, a qualquer ansiedade, receio ou preocupação que não comando. No fundo, e por muito estranho que possa parecer, pensossinto que o estado do mundo resulta do lugar que nele conseguir ocupar a cultura do espírito e seus atributos. Por isso mesmo vou procurando, na minha pequenez e com a insignificância das minhas capacidades, partilhar  -  com todos os que me lêem e escutam  -  caminhos de liberdade do espírito que nos conduzam dos epifenómenos periféricos ao centro inicial das coisas, ou, talvez ainda, a Quem é tudo em todos.

 

               Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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    Minha Princesa de mim:

 

   Como te disse na última carta, era ainda muito novo quando a leitura de Terre des Hommes me levou a reflectir sobre a complexidade crescente da relação do homem com a máquina, esta sendo aqui entendida em sentido lato, como aparelho abrangendo os de comando simplesmente manual e todos os que respondam a outras energias, mecânicas, eléctricas, ou ainda, nos tempos hodiernos, a programações informáticas que as tornem aparentemente autónomas no seu funcionamento. O livro de que te falo radica numa série de artigos sobre aviação que Saint-Ex. escreveu, a partir de 1932, para a revista Marianne. Reunidos, acabam por se tornar obra de ficção meditativa mais do que colectânea de notas ou reportagens jornalísticas, e dão nova amplitude á reflexão de um piloto aviador sobre o seu próprio ofício, considerado à luz da cultura e da civilização que o circunstanciam. Entre outras questões, levantam, Princesa de mim, a da cada vez mais intrigante dialéctica entre o ser humano e os seus instrumentos, as suas máquinas. E sempre, como sustento de qualquer conto moral, a obsessão perseguidora da nossa vida : O que é Ser Humano?

   Sentenças lapidares, escritas há quase noventa anos, são hoje interpelativas de aspectos importantes da nossa condição de homo faber. Assim, por exemplo : L´usage d´un instrument savant n´a pas fait de toi un technicien sec. Il me semble qu´ils confondent but et moyen ceux qui s´effraient par trop de nos progrès techniques. Quiconque lutte dans l´unique espoir de biens matériels, en effet, ne recolte rien qui vaille de vivre. Mais la machine n´est pas un but : c´est un Outil. Un Outil comme la charrue. Também deste texto se destaca a constante preocupação moral do escritor francês : não será por utilizarmos instrumentos aperfeiçoados que nos convertemos em puros técnicos, pois que o utente não se transforma  -  como o amante na coisa amada  -  na ferramenta que lhe viabiliza a acção. Além de que o humano que labuta não dará sentido ao seu labor se lhe der só a razão de ser simples gerador de bens apenas materiais. O trabalho humano, o ofício de cada um de nós, vale sobretudo como factor de relacionamento e sentido da nossa vida. E, todavia, a máquina que o sustenta e possibilita, mais não é do que uma ferramenta, um instrumento ao serviço da pessoa. A esta pertence e obedece, tal como a charrua só abrirá na terra os sulcos que o lavrador quiser.

   [Abro aqui este parêntese, para introduzir o alerta que, nestes tempos de informatização, digitalização e inteligências artificiais, me surge do pesadelo das notícias, e me assalta : a visão de famílias inteiras, às mesas dos restaurantes, "clicando telèlés e tabletes", de adolescentes que em seus quartos se encerram com as máquinas que lhes trazem "vidas" virtuais e essa contemptatio mundi, cuja seiva não é qualquer espiritualidade, nem contemplação apocalíptica, mas antes um atropelo de ilusões ininterruptamente oferecidas... Como se ser humano não fosse ser em relação, nem o amor convivial a circunstância necessária da construção de um mundo de justiça e paz. Curiosamente, tudo isso acontece numa época em que o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios de comunicação, ou media, deveria facultar a acessibilidade mútua de pessoas e culturas. E precisamente quando os centros de mais adiantada investigação e experiência do funcionamento do cérebro humano  -  designadamente entre os idosos, incluindo centenários  -  vem demonstrar que o grande tónico e forte conservante da saúde mental é o exercício do diálogo, do convívio, da tertúlia.]

   Devo, contudo, regressar à citação de Saint-Ex. respigada de Terre des Hommes (traduzo) : Se julgamos que a máquina estraga o homem, talvez seja por nos faltar o recuo necessário à avaliação dos efeitos de transformações tão rápidas quanto as que padecemos. Nos anos trinta do século passado, talvez tal fizesse mais sentido do que hoje, pensam alguns. Mas eu diria, Princesa de mim, que que me parece ainda bem pertinente  -  e não pode ser escamoteada  -  a preocupação de que nos falta o recuo necessário à avaliação dos efeitos de transformações tão rápidas quanto as que padecemos. Sobretudo pela força financeira da chamada revolução informática, cujo poder, crescentemente político também, se vai concentrando num grupo reduzido de agentes que, com seus produtos, invadem os mercados e as vidas de populações inteiras e ainda (só ainda? ou já?) destituídas de capacidades de resistência e libertação dos sistemas e comportamentos que lhes foram sendo impostos. Não te vou pintar um quadro do que se passa e vai aparecendo : olhando à tua volta, Princesa de mim, verás bem, quiçá melhor do que eu, como pode ser inquietante o panorama.

   Não consinto, todavia, em virar antiprogressista, considerando maléfico o progresso tecnológico só porque ainda não entendemos bem todos os seus efeitos, decorrentes e colaterais, ou nos sentimos mais seguros quando nos acomodamos ao passado. Escreve Saint-Ex. que a vida do passado nos parece responder melhor à nossa natureza, pela simples razão de que responde melhor à nossa linguagem. E continua, sempre no texto do capítulo III (L´Avion) de Terre des Hommes :

   Cada progresso nos foi expulsando para mais longe dos hábitos que tínhamos acabado de adquirir e, na verdade, somos emigrantes que ainda não fundaram a sua pátria.

   Todos somos jovens bárbaros maravilhados ainda pelos nossos novos brinquedos. As nossas corridas de aviões não têm nenhum outro sentido. Aquele sobe mais alto, corre mais depressa. Esquecemo-nos do porquê da corrida. Provisoriamente a corrida torna-se mais importante do que o seu objecto. E é sempre assim. Para o colonial que funda um império, o sentido da vida é conquistar. O soldado despreza o colono. Mas afinal o objectivo dessa conquista não seria, precisamente, o estabelecimento desse colono? Assim, na exaltação dos nossos progressos, fizemos os homens servirem para  assentar ferrovias, edificar  fábricas, perfurar  poços de petróleo. E acabámos por esquecer que levantávamos essas construções para servir os homens. A nossa moral foi, enquanto durou a conquista, uma moral de soldados. Mas agora temos de colonizar. Temos de tornar viva esta casa nova que ainda não tem rosto. Para uns, a verdade estará em construir, para outros em habitar.

   A nossa casa tornar-se-á sem dúvida, a pouco e pouco, mais humana. E a própria máquina, quanto mais aperfeiçoada, mais se apagará por detrás do seu papel.

   Um dos grandes desafios do nosso tempo é, sem sombra de dúvida, a aprendizagem da domesticação dos instrumentos novos, ou ferramentas, que o progresso tecnológico vem pondo ao nosso dispor. Para cumprirmos o preceito humanista de que O Homem é a medida de todas as coisas. Aliás, a lembrança presente deste princípio servirá também de sustento à nossa consideração de outras ameaças que, além da alienação da inteligência humana em aparelhos que nos embotam a consciência e exilam o espírito crítico, planam sobre uma civilização que, não só nos vai constrangendo a liberdade criadora do espírito, como esgotando os recursos da terra que é a nossa circunstância. Muitas vezes me acontece evocar, Princesa de mim, o famoso e já esquecido relatório Meadows (ou do Clube de Roma) que, apesar das suas incertezas e muita coisa incompleta, nos abria os olhos, já lá vão quase 50 anos! Entretanto, vão-se multiplicando os ensaios e as teses acerca do declínio ou desabamento da nossa civilização térmico-industrial, e surge uma nova disciplina da investigação científica : a colapsologia. Designação tão significativa quanto assustadora. O nosso meio-ambiente, a nossa terra, estariam em fase terminal, como já as espécies em vias de extinção! Que este grito, valha o que valer, não nos deixe todavia olvidar "o cerne da questão" : insistimos em ver tudo com estando fora de nós, não só porque nos tornamos estranhos ao mundo que é nossa circunstância, e nossa casa, mas também, quiçá sobretudo, porque todos os dias vamos obliterando a grandeza inigualável da nossa própria humanidade.

   Mas tal esquecimento é, simplesmente, o do princípio fundador do humanismo : o Ser Humano é a medida de todas as coisas. E diz bem Saint-Exupéry, na última frase de Terre des Hommes : Seul l´Esprit, s´il soufle sur la glaise, peut créer l´Homme. Pelo que não posso deixar de te referir aqui, lembrados também pelo meu amigo Marcello Duarte Mathias, os dois parágrafos do livro que antecedem essa sentença final. Começam por enquadrar a cena num compartimento de comboio, cujos "wagon-lits" e primeira classe seguiam vazios, mas cuja terceira ia cheia de gente, pobres polacos deportados de França para a sua terra natal, em vésperas de guerra. Traduzo:

   Sentei-me à frente de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança arranjara como pôde o seu nicho e dormia. Mas virou-se durante o sono e o seu rosto surgiu-me à luz da vigília. Ah! que adorável rosto! Daquele casal tinha nascido uma espécie de fruto de oiro. Daqueles monteses pesados nascera aquele milagre de encanto e graça. Debrucei-me sobre aquela fronte lisa, sobre aquela boca em beicinho, e disse para comigo: eis um rosto de músico, eis Mozart em criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das lendas em nada diferiam dele : protegido, rodeado, cultivado, em quanto não se poderia ele tornar! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, eis que todos os jardineiros se comovem. Isola-se a rosa, cultiva-se a rosa, é favorecida. Mas não há jardineiro para os homens. Mozart menino será, como os outros, marcado pela máquina de embutir. Mozart produzirá as suas mais altas alegrias de música podre, em malcheirosos cafés concerto. Mozart está condenado.

   E voltei para a minha carruagem. Dizia para comigo : estas pessoas em nada sofrem do seu fado. Não é, de modo algum, a caridade que aqui me atormenta. Não se trata, nunca, de nos enternecermos sobre uma chaga eternamente reaberta. As que a têm não a sentem. Antes é algo como a espécie humana, e não o indivíduo, que aqui é ferido, que é lesado. Em nada acredito na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. Não me atormenta esta miséria na qual, ao fim e ao cabo, nos instalamos tão bem como na preguiça. Gerações inteiras de orientais vivem na porcaria e gostam dela. O que me atormenta, não é curável pelas sopas populares. O que me atormenta não são essas covas, nem essas corcundas, nem essa fealdade. Antes é, em cada um desses homens, Mozart assassinado.

 

   Só o Espírito, se soprar sobre o barro, pode criar o Homem.

 

                                 Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Saudaste a minha lembrança de Le Petit Prince, do Antoine de Saint-Exupéry, na última carta que te enviei. Muitos amigos meus se admiram, em conversas espaçadas, com outras recordações que trago e partilho de passos de obras desse piloto aviador. Tal profissão foi, certamente, tão profissão religiosa como ofício e aventura, esta aqui entendida como amor fiel da descoberta desejada, algo intimamente perseguido por uma peregrinação interior. Os romances e narrativas de Saint-Exupéry, possuídos por essa intimidade de que te falo, são dela reveladores pelos próprios títulos: L´Aviateur, Courrier Sud, Vol de Nuit, Pilote de Guerre... Porque não se limitam a ser diários de bordo, registos de viagens e experiências, contos de amizades e ousadias, relatos ou reportagens. Mais, muito mais do que isso tudo  -  ou, mesmo, à margem de tudo isso  -  são meditações quase contemplativas sobre episódios da vida e suas circunstâncias, com propósito moral de ir descobrindo um sentido para ela, frágil existência que sempre desafia forças maiores (Le Pilote et les Puissances Naturelles), humano ser que a máquina ajuda a vencer a adversidade, num mundo em que o espreita a solidão e o esquecimento, e onde ele só poderá "tornar-se humano na medida em que se for confrontando com o obstáculo". Será então a vida humana um desafio moral?

 

    Coletânea de contos morais é certamente o Principezinho, que encerra sobretudo uma lição acima das outras todas: cumprir a vida é vencer a solidão, façanha tão chã que cabe no quotidiano de cada um de nós. Não é o exercício de feitos famosos, a busca da glória; antes será a paciente tecelagem de laços que nos unam ao mundo que descobrimos, a todos os outros humanos a cujo encontro devemos aspirar, e a esse Quem (diria o Saramago) que, com ou sem ponto de interrogação, sentimos e pensamos aquém e além de nós. Se é sábia a lição da raposa ao Principezinho, a figura central do livrito grande é a rosa - na sua fragilidade e com seus espinhos - cuidada pela cultura do coração. Pois que tudo mais é invisível para os olhos. A verdade não se deixa violentar.

 

   O que muitos consideram o testamento póstumo de Saint-Ex. é um livro quase bíblico (passe a redundância livro bíblico...) intitulado Citadelle. Fui seu leitor assíduo, mais do que repetente, durante a minha juventude. Ao começar esta carta, pensei vir falar-te de outro, que também várias vezes reli: Terre des Hommes. Aliás, ele encerra lições de prudência (o tal amor sagaz) que, embora meditadas pelo autor nos tempos em que se iniciava a aventura da aviação postal, tenho refletido em análises que hoje procuro fazer das relações entre o ser humano e a máquina (ou aparelho informático). Fica para próxima carta, deixo-te agora, em tradução minha, a longa citação dos seis parágrafos finais de Citadelle. Com a safra de vidas que a ceifeira caveirosa tem feito pelo campo de queridos familiares e amigos meus (o último foi, nesta semana passada, o já saudoso João de Barahona Núncio), recorro muitas vezes a esta confidência derradeira de um rei berbere, que me evoca uma rosa no deserto e uma figura de jardineiro como construtor de celeste cidade...

 

   Ocorre-me por vezes - posto que, cá para mim, não há rei que possa reembolsar-me com um sorriso - ser conveniente que vá até à hora em que Tu aceitarás receber-me e confundir-me com os do meu amor, e assim me chega, de tempos a tempos, a lassidão de estar só e a necessidade de ir ao encontro dos do meu povo, pois não estarei ainda suficientemente puro.

 

   Por julgar feliz o jardineiro que comunicava com seu amigo vem-me portanto o desejo de me ligar assim, conforme os deuses deles, aos jardineiros do meu império. E acontece-me descer em passo lento, pouco antes da hora de alba, os degraus do meu palácio para o jardim. Encaminho-me em direção aos roseirais. Olho para aqui e para ali, debruço-me atento sobre qualquer planta, eu que, ao meio dia, decidirei o perdão ou a morte, a paz ou a guerra. A sobrevivência ou a destruição dos impérios. Depois, levantando-me com esforço do meu trabalho, porque me vou tornando velho, digo simplesmente, no meu coração, para ir ao encontro deles pela única via mesmo eficaz, a todos os jardineiros vivos e mortos: «Também eu, esta manhã, podei as minhas roseiras.» E pouco importa que tal mensagem caminhe durante anos, ou chegue ou não a este ou àquele. Tal não é a razão da mensagem. Para encontrar os meus jardineiros apenas saudei o seu deus, que é roseira ao nascer do dia.

 

   Assim também, Senhor, para com o meu inimigo bem amado que só encontrarei para lá de mim mesmo, E com ele, pois se me assemelha, passa-se assim também. Faço, portanto, justiça de acordo com a minha sageza. Fá-la ele, conforme a sua. Elas parecem contraditórias e, se se afrontarem, alimentarão guerras. Mas ele e eu, por caminhos contrários, seguimos pelas nossas palmas as linhas de força do mesmo fogo. Só em Ti, Senhor, elas se encontram.

 

   Assim, acabado o meu trabalho, embelezei a alma do meu povo, Ele, acabado o seu, tornou bela a do dele. E eu que penso nele, e ele que pensa em mim, apesar de não nos ter sido oferecida linguagem alguma para os nossos encontros, sempre que somos juízes ou ditamos o cerimonial, ou castigamos ou perdoamos, podemos dizer, ele por mim e eu por ele: «Esta manhã podei as minhas roseiras...»

 

   Porque Tu és, Senhor, a comum medida de um e do outro. És o nó essencial de atos diversos.

 

   Na verdade, pensossinto agora, neste momento de invisíveis referências, como, apesar de desde menino ter vindo a beber na tradição apostólica do evangelho de Jesus, essa substância da minha vida, a convicção de Quem é tudo em todos habitar a comunhão dos humanos, também encontrei essa alegria, dolente como parto, na diversidade e sincretismo religioso do Oriente, e nas espiritualidades vagabundas de peregrinos que quiçá sejam jardineiros nómadas. Um deles até se apaixonou por uma rosa caprichosa em minúsculo planeta...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há noite que me dê sono antigo, um daqueles de acordar só de manhã, cedo, bem cedo, como tanto gostei ao longo da vida. Hoje, por muito que sossegue o espírito e em mim acalme as agitações dos dias findos, lá vou despertando, agora e daqui a pouco, para os sonhos que me assaltam. Como se entrasse em cena, para vir desempenhar um papel que talvez tenha aprendido, ou devesse saber de cor(ação), mas sempre me deixa entregue àquela qualquer ilusão ou expectativa cujo repentino acordar-me, mais do que lembrar-me, me interroga. Pois que, de todos os sonhos que recordo, ainda que muito nebulosa ou vagamente, apenas sei que insistem em chamar-me ao passado ou, talvez assim te lo diga melhor, aos passados desta minha vida...

 

   Hoje, surpreendentemente, à hora de alba, dei comigo a pensarsentir os movimentos celestes, e a Terra neles, e eu, na ilusão de que o universo gira à volta desta esfera em que pouso os pés, a dar voltas, afinal, inconsciente da rotação e translação do planeta em que sou suposto viver. Mas, todavia, sejamos clarividentes, são esses movimentos circulares ou parabólicos ou algo assim, com as suas oscilações, que nos vão contando o tempo, tal como vão gastando as superfícies do nosso chão e dos nossos horizontes. E nesse mundo onírico em que, sem querer nem sequer desejar, o meu pobre de mim mergulhara, emergiu, como imperativo profético, o sentido pensamento de uma qualquer revolução nada mais ser do que retorno ao ponto de partida. O tempo que nos desgasta e gasta será circular, para nos lembrar a promessa de um reinício sempre desejado. Mas, para que este aconteça, o próprio tempo que agora conhecemos - ou julgamos conhecer - terá de ter chegado ao termo da sua provisória necessidade. Estranho fado, o da humana condição: nascemos no tempo finito, para, quiçá, viver no sem fim de um universo que se expande...

 

   E já digo agora, como canta o fado: Mas isto, meus senhores, foi a sonhar... Só que, digo eu, experientemente, sonhar nem sempre é fácil. Muito menos quando, no espaço-tempo finito, ainda que mal definido e sempre ambulante, o nosso sonho nos leva à cabeceira do infinito. Onde, subjetivamente e sempre sós, tentamos um vislumbre... A qualquer ser humano a morte desgosta tanto que, a bem dizer, não é que ele não goste de morrer mas, verdadeiramente, não quer. E é tal, mais do que desgosto, fúria à morte que nos tem levado a todas essas experiências de prolongamento da vida - hoje tanto em moda - nem que se tenha de congelar um cadáver para que este aguarde a hora em que a ciência humana saiba tirá-lo de tão frio purgatório para novamente o animar...

 

   Essa coisa de nos recusarmos à nossa própria finitude ganha por vezes força maior do que a nossa esperança racional, deixa de ser ponderável, mas é tão somente reação exacerbada a qualquer adivinhado desafio de infinita omnipotência. No teatro onírico de que acima te falo, Princesa de mim, ela representa-se, no concerto astral, como viagem estratosférica, desejada descoberta de um desconhecido que se quer conhecer. Como nos sonhos milenários das religiões antigas, vai-se em busca de um encontro, de um abrigo, de uma morada que, como tudo aquilo que mais amamos, poderá ser fugidio ou inatingível, mas é, como a fé, a substância (o que sub-está) das coisas que hão de vir. Receamos aproximar-nos do sol ou das estrelas, pois que com Ícaro aprendemos como se derrete a cera dos nossos projetos e ardem as asas das nossas iniciativas. Mas tentaremos pousar num planeta, esfera apagada, estrela morta onde esperamos recuperar vida. Quiçá sem realizarmos que, afinal, voltamos à caça do efémero, esse fogo fátuo, repetido aceno do eterno. Mesmo encetada num espaço-tempo que se imagina infinito, qualquer peregrinação nossa, na nossa presente condição humana, nunca passará de uma viagem pelo finito, pela simples razão de que não podemos agora, na nossa presente circunstância, conceber a infinitude. Paradoxo essencial: o infinito, por definição mental, não tem definição possível. Por isso o místico Mestre Eckhart dizia nada para referir o Deus que, todos os dias, pensavassentia a acompanhá-lo, e o teólogo São Tomás de Aquino, autor da Summa Theologiae, afirmava que ninguém jamais vira Deus e que tudo o que ele, frei Tomás, sobre Deus escrevera era palha...

 

   Nesses saltos que os humanos vão ensaiando pelo espaço extraterrestre, vejo, depois de acordado - e talvez influenciado pela leitura de notícias sobre o esgotamento de recursos do nosso planeta - uma tentativa urgente de mudar de casa, de encontrar sítio mais acolhedor, quiçá mais abundante, farto e generoso (sonhar é ainda mais fácil, quando julgamos estar bem acordados...). Então carinhosamente me lembro da nossa Mãe Terra a pedir-nos, como a raposa ao Principezinho, a presença atenta de um amor sábio.

 

   A raposa calou-se e fixou o olhar no Principezinho: «Por favor... Domestica-me!» -  disse.
   - Bem gostaria, respondeu o Principezinho, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos por descobrir e muitas coisas por conhecer.
   - Só conhecemos as coisas que domesticamos, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para conhecer seja o que for. Compram coisas já todas prontas nos mercados. Mas como não existe qualquer mercado de amigos, os homens já não têm amigos. Se quiseres um amigo, domestica-me.
   - Que devo fazer? disse o Principezinho.
   - É preciso ser muito paciente, respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco longe de mim, assim na relva. Olhar-te-ei pelo canto do olho, mas nada dirás. A linguagem é fonte de mal entendidos. Mas, dia após dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...

...

   - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
   - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o Principezinho, para se recordar.

   - Foi o tempo que gastaste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.

   - Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o Principezinho, para se lembrar.

   - Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecê-la. Tornas-te responsável para sempre por aquilo que domesticaste. És responsável pela tua rosa...

   - Sou responsável pela minha rosa, repetiu o Principezinho, para se lembrar.

 

   Traduzi o francês apprivoiser pelo português domesticar. O termo gaulês vem do latino apprivatiare, que significa tornar privado, familiar. Trata-se, provavelmente, de evolução a partir do baixo-latim, no século XI. O português também deriva do latim, mas da palavrga domesticus, que radica em domus, que quer dizer casa. Domesticar vem significar então tornar caseiro, familiar. E não será a Terra a nossa casa, sempre à espera da paciência amorosa dos nossos cuidados? O que me seduz nessas etimologias é, sobretudo, o substrato ou substância de relacionamento ou relação: afinal, quem domestica domestica-se... Encontramos assim, não uma dialética de afrontamento, mas uma de harmonização.

 

   Desta minha saída de um pesadelo onírico para um sonho de Antoine de Saint-Exupéry no deserto, em que o Petit Prince vai meditando lições de vida por planetas bem mais exíguos do que o nosso, tiro o ensinamento de que andava precisado e contigo, Princesa de mim, quis partilhar.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não te escrevo para cumprir o prometido devido. Venho fazer-te companhia, e assim também me sinto acompanhado. Escrever é não querer a solidão. Não é bem o mesmo que não querer estar sozinho, a solidão não é física, antes é sentida por essa parte do nosso humano, a tal que não sabemos exatamente o que é, e à qual chamamos espiritual. No passado, muitas vezes te disse que a solidão se me parece à morte, acontece-me pensarsentir que ela é a incomunicabilidade, essa impossibilidade de nos encontrarmos em relação. Pois, humanos, somos necessariamente em relação: cada eu e a sua circunstância. E, ainda, o invisível, o Inefável. Tomás de Aquino tinha uma oração, que recitávamos no colégio, antes de cada primeira aula do dia, e começava por esta invocação: Criador Inefável! Dirigíamo-nos ao invisível, ao inenarrável, a pedir-lhe a fortaleza necessária para enfrentar mais um dia da nossa vida, que seria, como todos os outros, mais um percurso no desconhecido, nessa realidade que insistimos em chamar futuro, apesar de não sabermos, à partida, se, como, e quando virá a existir. Não precisamos de esperar pela morte para saber que uma boa parte de nós é um mistério mergulhado noutro mistério maior. Afinal, todos os dias aprendemos que o caminho da nossa liberdade humana, movida pela inteligência e pela vontade, é o da busca incessante das nossas relações, pois só elas nos realizam e nos explicam... Sobretudo, são essas relações que nos vão ajudando a construir a Relação cujo apocalipse é o triunfo da Vida. Então também lhes podemos chamar «referências».

 

   Quando vivemos os dias e semanas sequentes à morte de um ente querido, podemos experimentar reações inesperadas, tais como nos lembrarmos de lhe telefonar, para contar um episódio, partilhar um pensarsentir, estender uma interrogação. Digo inesperadas, porque não as construímos racionalmente, de modo previsível. Por isso mesmo, pensando melhor, talvez também pudesse dizer que são expetáveis: na verdade, elas obedecem a esse impulso vital, muito profundo, essencial, que é a nossa necessidade inata de comunicação. Quiçá mesmo biológica: quem lidou ou lida com crianças pequenas, ou ainda em gestação, perceberá melhor esta minha intuição. O ser em relação é tão inicial e perseverante que até pode viver noutra circunstância. E assim chego eu, novamente, Princesa de mim, à dimensão divina do humanismo cristão, que vive na permanência do amor: Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte (1ª Carta de São João, 3, 14).

 

   Mas hoje, Princesa, vou deixar as meditações que me assaltam, para dar um passeio contigo por entre outras que me ocorreram a partir de uma metáfora do ser pessoal em ser cultural. Explico-me. Melhor: começo por deixar-te uma explicação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Queensland (Austrália), Christian Reus-Smit, no seu On Cultural Diversity - International Theory in a World of Difference (Cambridge University Press, 2018):

 

   As culturas - sejam elas estruturas mentais estratégicas, nações, civilizações, ou mentalidades coletivas - são geralmente imaginadas como coisas coerentes: integradas, diferenciadas e fortemente constitutivas dos respetivos efeitos...  ...Mas partirei de uma posição completamente diferente. Devemos começar por assumir a diversidade cultural existencial, assumindo que o terreno cultural em que a política joga é polivalente, estratificado, riscado por fraturas muitas vezes contraditórias, muito longe de estar coerentemente integrado ou ligado. Como argumenta Andrew Hurrell, «são precisamente as diferenças das práticas sociais, valores, crenças, que representam a expressão mais importante da nossa humanidade comum... O que nos torna diferentes é precisamente o que nos faz humanos».

 

   Se recuarmos a 1871, encontraremos a definição inicial de Edward Tylor: Cultura ou Civilização é todo esse complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro de uma sociedade. Assim, poderemos dizer que qualquer «cultura» é a circunstância arquetípica da sociedade que se lhe refere, ou que ela envolve. Simultaneamente seu produto e sua condicionante, resulta, de cada vez à sua própria maneira, da relação como um corpo social se estabelece no seu meio ambiente - tal como, já no século XIV/XV, defendia o mouro Ibn Khaldun, de quem te falei já em cartas antigas - e, depois, do modo dialético como se for organizando, económica e politicamente. Curiosamente, o pensamento do vitoriano Tylor foi-se orientando, e até fez escola, no sentido de pretender que, assim explica Reus-Smit, todas as culturas têm características semelhantes, resultantes de causas comuns, pelo que, consequentemente, todas formam parte de uma história humana uniforme... Sem negar o alicerce comum da nossa humanidade, um dos mais famosos críticos das teses de Tylor, o norte americano Frank Boas, embora concordando na verificação de feições culturais reaparecidas em diferentes culturas (quando estudamos a cultura de qualquer tribo, mais ou menos análogas feições de tal cultura se poderão encontrar entre uma grande diversidade de povos, escreve ele no seu Race, Language , and Culture - University of Chicago Press, 1940), irá, todavia, negar vigorosamente que elas tenham necessariamente as mesmas causas : Não podemos afirmar que a ocorrência do mesmo fenómeno é sempre devida às mesmas causas e que, portanto, a mente humana em toda a parte obedece às mesmas leis.

 

   É nesse sentido que, de forma enfática, te repito, Princesa de mim, que aquilo que nos torna mais humanos é a tal diferença que faz de cada um de nós um ser outro do que todos. Sendo que o próprio alicerce da nossa comum humanidade assim nos modelou, todos e cada um, à própria imagem e semelhança de Deus. A tal que nos iguala e nos proíbe de julgar que há pessoas ou culturas superiores ou inferiores. Por isso nos disseram já que Deus é tudo em todos, e aprendemos que o paradoxo humano é o seu valor divino.

 

   Isto assente, sou levado a uma perspetiva dialética das histórias pessoais, como das dos conjuntos sociais que, no decurso do tempo nos vão congregando em movimentos que, tal como cada pessoa face às outras, nos colocam em situações de afrontamento, não necessariamente conflituosas, apesar da própria propensão a sê-lo... Por isso mesmo, tal perspetiva dialética nos poderá ensinar a melhor entender a evolução dos povos, nações, estados, culturas e civilizações, sobretudo se soubermos apanhar essa subtileza de que qualquer confronto poderá parecer-se mais ao encontro do dó com o ré - o tal que, conta António Vitorino de Almeida, gerou o mi, assim nascendo a música - do que a um catastrófico choque de civilizações, como no pesadelo do Huntington.

 

   Espanta-me muito - não só no sentido de me pôr boquiaberto, mas sobretudo por me afugentar o gosto de conversar racionalmente - a moda "viral", como hodiernamente se diz, de se proclamar o drama fatal do declínio e queda do «Ocidente», isto é, da "cultura e civilização ocidental". Pelos tempos que correm, é relativamente fácil saber-se, por aí, que as culturas em que pensamos não são propriedade de ninguém, como, aliás, exemplifica a nossa própria cultura, que outras várias geraram e variegadas gentes nos legaram... E não esqueças, Princesa de mim, que o próprio Huntington foi nebuloso na circunscrição geográfica do «Ocidente» cultural. Niall Ferguson, no seu Civilisation (2011), observa bem que a definição hoje mais conhecida da cultura ocidental, a de Samuel Huntington, no Choque das Civilizações, exclui a Rússia e todos os países de tradição ortodoxa. Aplica-se apenas à Europa Ocidental e à europa Central (sem o Leste ortodoxo), à América do Norte (sem o México) e à Australásia (Austrália e Nova Zelândia). A Grécia, Israel, a Roménia e a Ucrânia não passam no teste. Nem as Caraíbas, quando, pelo menos algumas delas são tão ocidentais como a Florida.

 

   Deduz Ferguson que o Ocidente é mais do que simples noção geográfica: Um conjunto de normas, de comportamentos e de instituições com fronteiras muito nebulosas... Sem querer agora discutir contigo, Princesa, pormenores e fatores constitutivos dessa tal ideia de «Ocidente» - coisa que quiçá farei mais tarde - deixa-me só dizer-te que, hoje em dia, o conceito de cultura ou civilização ocidental é memória histórica, isto é, entra numa categoria conceitual que nos serve de referência para um entendimento do passado. É também, e sobretudo, um mito a marcar o panorama das nossas angústias, medos e desilusões espantadas... Tal não quer, todavia, significar que esse conceito, geograficamente tão vago, seja vazio, destituído de conteúdos próprios, ideais, valores, instituições... Pelo contrário, muitos destes ainda hoje orientam as condutas de muitos povos deste mundo, nem é preciso ser-se europeu ou de raça branca, do hemisfério norte ou do ocidental para nos referirmos a esse complexo de padrões, modelos e estilos de vida a que chamamos cultura ou civilização ocidental. E mais ainda: do mesmo modo que as sociedades nórdicas e ocidentais vão adotando normas, usos e costumes de outros povos e lugares, também nestes se vai impondo uma cultura crescente (por vezes, até, um verdadeiro culto) de valores e referências a que gostamos de chamar nossos; tal como nós, quiçá infelizmente, tendemos a desertá-los...

 

   Chegamos mesmo a ser surpreendidos com inesperadas novidades : à cultura do Iluminismo atribuímos a libertação do espírito crítico entre nós, com o consequente reforço da racionalidade, o declínio da crendice e, até, da própria religião, e um triunfo progressivo das correntes agnósticas e ateístas do pensamento ocidental ; contudo, é no mundo islâmico que hoje mais rapidamente se vão afirmando correntes de opinião sem Deus nem religião, enquanto nas sociedades do ocidente geográfico se vão anichando movimentos que cultivam espiritualidades que, embora estranhas ao cristianismo, a muita gente impõem meditações e motivações da vida humana elaboradas por culturas de alhures, não necessariamente deístas, mas tampouco ateias.

 

   Niall Ferguson pergunta: Mas será verdadeiramente possível uma sociedade asiática tornar-se ocidental se adotar as regras de vestuário e comerciais do Ocidente - como faz o Japão desde a época Meiji - e como hoje, parece, faz quase toda a Ásia? Outrora, chegou a dizer-se que o «sistema-mundo» capitalista impunha uma divisão permanente do trabalho entre o centro - o Ocidente - e a periferia - o resto do mundo. Mas que se passaria se todo o mundo se ocidentalizasse? A menos que as outras civilizações - como defendeu Huntington - se revelem mais resilientes, designadamente a civilização chinesa e o Islão com as suas «fronteiras e vísceras sangrentas»? Em que medida a sua adoção do "modus operandi" ocidental não passará duma modernização superficial sem enraizamento cultural?

 

   Pessoalmente, ainda creio que, precisamente por ser variavelmente dialética (se assim me posso exprimir), a história dos povos, culturas e civilizações não é linear, nem facilmente previsível, passeia muitas cores, pela sombra e pela luz, não é verticalmente a preto e branco, ou seja, ou escura, ou luminosa... Voltarei a esta questão - tal como em correspondência passada tu e eu, Princesa de mim, falámos de inculturações e confrontos - em cartas próximas. Por hoje, permite-me que te deixe com uma orientação a que muitas vezes recorro, na edição francesa (Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, Paris, 2002) da Autobiographie e de Muqaddima de Ibn-Khaldun (Túnis,1332-Cairo, 1406), magnificamente apresentada por Abdeselam Cheddadi. Traduzo breves trechos, mas uma lição com mais de seis séculos.

 

   Ibn-Khaldun insiste em ver a história como ciência que investiga os factos, de forma crítica e procurando entendê-los com inteligência. Assim, haverá quem veja o lado de fora da história que, desse modo, se reduzirá a narrativas de dias gloriosos e de dinastias, não se dando conta de como essas narrativas nos dão a conhecer o estado das criaturas e as mudanças que afetaram as suas condições, nem de como se expandiram as dinastias e se estabeleceram na terra até desaparecerem. E haverá outros que a veem do interior, tornando-a investigação especulativa e verificação, estudo minucioso das causas e princípios das coisas existentes, conhecimento aprofundado das circunstâncias e das causas dos acontecimentos.

 

   Ia já assinar esta carta, quando deparo com um artigo de Francisco Bethendourt, professor no King´s College de Londres, intitulado Emancipação (Público, 30 de julho de 2019) e, a respeito da abolição da escravatura, lembrando que a ideia de superioridade implica visão hierárquica entre culturas superiores e inferiores que está desatualizada. E alegra-me, Princesa de mim, poder terminar esta citando esse historiador de prestígio internacional, sobre temas que tanto te referi em cartas antigas : A vantagem de uma atitude de recusa de preconceitos é facilitar a tradução de experiências alheias e produzir um conhecimento acrescido de outras culturas, nas suas formas de resolver conflitos, obter trabalho recíproco, acolher estrangeiros, estabelecer regras comunitárias, relacionar-se com a natureza, mobilizar investimento, recolher informação ou desenvolver reflexão...   ... É esta atitude de abertura e hospitalidade perante outras culturas que nos deverá estimular no presente e no futuro, em lugar de mantermos uma visão virada para um passado mitificado que ignora ruturas, lutas e conflitos entre perspetivas completamente diferentes.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira