Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM / EM REBUSCA DO JAPÃO XV

Catálogo-de-Obras-Selecionadas-Museu-de-Belas-Art

 

          Minha Princesa de mim:

 

             Será por se dispersarem

             Que as flores da cerejeira

             Nos são tão queridas,

             Neste mundo tão efémero

             Em que nada dura muito?

 

   Assim, a dado passo, canta o tanka do conto LXXXII de Ise. Talvez por ler e reler tais contos velhinhos de mais de um milénio, e de neles, para além da distância no tempo, nada estranhar, mas apenas reconhecer tantas facetas da minha própria sensibilidade portuguesa, que me comovo ao ponto de confundir esta minha rebusca do Japão com as cartas do meu sentimento de mim que te vou escrevendo. Se bem que os Contos de Ise se debrucem intencionalmente sobre sucessos e insucessos de namorados e amantes muito humanos, o seu lirismo veicula sentimentos e preocupações mais fundas, como se de raízes fasciculadas se tratasse, pertinentes ao sentido e à perplexidade com que nos defrontamos em súbita presença do nosso próprio destino humano. O aguilhão do sentimento permanente da efemeridade do tempo, das coisas todas e da vida, parece sobretudo destinado a reflectir esse paradoxo que será a consistência permanente do efémero. Lembro, Princesa de mim, este haiku de Basho:

 

           Acima da cotovia no céu

           eis impassível  

           o desfiladeiro da montanha...

 

   Acima do ukyio, deste mundo contingente, flutuante, há sempre uma passagem, um caminho para a permanência. No seu «Diálogo com um Japonês» (in Aus einem Gespräch von der Sprache - Unterwegs zur Sprache, Pfullingen, Neske, 1959), Martin Heidegger, referindo-se à questão da relação entre a letra das Escrituras e o pensamento especulativo da teologia com fonte das suas interrogações (cf. Bernard Stevens in Heidegger et l ́École de Kyoto - Soleil Levant sur Forêt Noire, Les Éditions du Cerf, Paris, 2020) escreveu: Sem essa proveniência teológica, nunca teria chegado ao caminho do pensamento. Proveniência é sempre porvir. E Bernard Stevens, da Universidade Católica de Louvain (la Neuve) comenta, pertinentemente: O que retém a atenção de Heidegger sobre este tema é, no plano da vida efectiva, uma certa experiência do tempo na fé cristã primitiva, antes da dogmática eclesial e a teologia escolástica. Trata-se de uma experiência do tempo e da história, orientada para um evento determinante do porvir: a esperança no regresso de Cristo ou no Juízo Final, para os primeiros cristãos que todavia se tornará, no Sein und Zeit (obra chave de Heidegger), em neutralidade religiosa momento decisivo da morte. Tal momento não é um instante preciso do futuro, mas no seu repente imprevisível é a nascente desconhecida de uma orientação de vida em função do porvir, pondo o humano em face da necessidade de uma decisão: a de uma opção por uma vida autêntica ou inautêntica. Do porvir imprevisível, indisponível, carregado de ameaças, provirá o sentido que o humano, resolutamente, deverá dar à sua vida presente.  

   A partir daqui, defronto-me com uma surpreendente - para mim - distinção entre a temporalidade «kairológica» e outra, a «cronológica», sendo que a primeira será obliterada, pela Idade Média e a Renascença, em favor do conceito do ser como substância, simultaneamente presença constante (ousia) e visão teoricamente objectivável (theoria), portanto impermeável  à efectividade kairológica da vida efectiva...

   Será que tal obliteração conduziu, como alguns pretendem, a um duradouro esquecimento do ser pelo pensamento ocidental?

Bernard Stevens defende que a própria noção do ser como ousia foi radicalizada durante a Idade Média pela reinterpretação como substantia, sendo o ser, aí subsistente, o sendo, na constância estável de si próprio. E afirma que tal noção de ousia provém da compreensão grega do ser, cuja memória é guardada pela pluri vocação aristotélica do sendo. E prossegue: a compreensão grega do ser como ousia sublinha um só sentido lexical do ser, sentido esse que remonta ao wasami indo-europeu (permanecer, ficar na constância do presente) e que, ao associar-se com o sentido nuclear do «viver» (es-, esti), escamoteará todavia o sentido igualmente essencial do crescer (bhu-, phy-) que, por outro lado, encontramos na palavra physis. Este vocábulo, em tempos pré-socráticos, sobretudo entre os iónicos, designa o conjunto do sendo no seu ser

   Evitando continuar a escrever-te, Princesa de mim, a remar entre escolhos de elucubrações "técnico-filosóficas" (terá tal expressão algum sentido?), vou procurar chegar ao dito do que quero comunicar-te, isto é, ao pensarsentir do tempo e do ser - para recordar o Sein und Zeit de Heidegger - nas culturas ocidental e extremo-oriental. Já entre gregos havia divergência entre reconhecer o ser do sendo na totalidade como porvir, movimento, crescimento, ou seja, enquanto physis, e o conceito de ousia, no qual o ser do sendo na totalidade é identidade consigo na presença constante. Ora, precisamente, é a ideia de physis que mais se aproxima do conceito extremo oriental de ziran (em chinês) ou shizen (em japonês), o qual aponta para o modo de ser do que é por si mesmo e por si mesmo se desenvolve, em incessante dinâmica que escapa a qualquer objetivação estabilizante e ao domínio de qualquer olhar teórico, assim exigindo nova achega. O mundo flutuante é, portanto, inapreensível ou, melhor dito, apreensível apenas na fugacidade de ocorrências surpreendidas em privilegiados momentos. Podemos, pois, dizer que ele é plurívoco, o que nos deixa entender melhor aquela interrogação de Heidegger que, no Japão, foi acolhida e reflectida pela escola de Kyoto, com Nishida Kitaro à cabeça: «Se o sendo é dito com significado múltiplo, qual será então o seu significado director e fundamental? Que quer dizer ser

   A cultura japonesa, ao longo de séculos, tem respondido privilegiando a poesia, tal como a caligrafia, a pintura e a gravura - visões simultaneamente místicas e ambíguas - na intuição de um olhar que interroga o mistério e busca surpreender no fugidio a possível ou impossível permanência... Andará muito longe de um Novalis que diz ser a poesia o real absoluto, ou quanto mais poético mais verdadeiro?

   Proximamente - e, espero, de modo menos árido e, quiçá, confuso do que o desta minha escrita de hoje - voltarei a estes temas. Para que me perdoes, pelo menos tu, Princesa de mim, deixo-te a tradução de uns pensamentos do monge budista Urabe Kenko (século XIV), respigados do seu Tsurezure-gusa (Horas de Lazer...):

   Mesmo eu, que tudo deixei, compreendo que neste triste mundo haja coisas do agrado do meu coração...

   ... Mas não há outro mundo em que possa esconder-me, além deste mundo efémero. Aquilo de que fugi era o meu próprio coração. 

 

                               Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM / EM REBUSCA DO JAPÃO XIV

2029_arrival_01n.jpg


  Minha Princesa de mim: 

 

   Acho interessante a perspectiva de um certo olhar de Augustin Berque (cf. Le sauvage et l'artifice: les Japonais devant la nature, Gallimard, Paris, 1986), ao colocar a sociedade, para efeitos de análise, como distinta do seu ambiente. Com este ela manterá certas relações: ecológicas, técnicas, estéticas, axiológicas e conceptuais, políticas. E sublinha que o conjunto dessas relações é unitário:

   A sociedade é una no seu ambiente que é um (e isto tantas vezes quantas as sociedades que houver...). As relações supra mencionadas só devem ser diferenciadas para propósitos de exposição, já que, na realidade, cada uma contém em potência todas as outras, cada uma está presente em qualquer das outras.

   Gosto desta achega, porque nos aproxima do meu próprio conceito de cultura, sobre o qual já muitas vezes escrevi alhures. 

Na verdade, Augustin Berque chamará cultura precisamente ao comando dessa unidade, do ponto de vista da sociedade:

   A cultura é, com efeito, o que confere alguma coerência e orientação ao complexo conjunto das dimensões da vida social, em função dela própria, enquanto distinta da vida biológica. Dito mais sobriamente: cultura é o que, pelo e para o homem, dá um sentido ao mundo - o homem sendo aqui considerado no seu enquadramento natural, isto é, em sociedade. 

   Noutro trecho do mesmo livro (Habitar em pureza), Berque, depois de recordar Hölderlin (dichterisch wohnt der Mensch: o homem habita poeticamente...) desenvolve:

   Mas o homem também habita, e de modo mais manifesto, de acordo com certos valores. Na casa japonesa, a elevação do soalho - de altura variável, reduzida, por exemplo, a poucos centímetros nos apartamentos modernos, mas sempre presente - ligado à obrigação de se descalçar e tomar um banho quente quando se regressa do trabalho - define o interior por oposição ao exterior, sob o signo evidente da pureza. Na verdade, a cultura japonesa parece querer associar o tema do habitar ao da pureza.

   Aliás, o vestíbulo (geikan), pequeno que seja, que marca a entrada de qualquer casa japonesa - e onde, por exemplo, nos descalçamos - está sempre ao nível do soto (o exterior), um degrau abaixo do uchi (o interior), a que acedemos subindo, para calçar os chinelos preparados para nós. Quem já habitou, ou apenas visitou, uma casa japonesa, terá notado como o chão que nela pisa está coberto por esteiras (tatami ) de palha de arroz, onde o nosso andar desliza silencioso. Mas também existem casas de tipo ocidental - algumas habitadas mesmo só por japoneses legítimos - em nada diferentes das que conhecemos e onde as regras atrás referidas até podem não ser aplicadas, sem que haja qualquer escândalo ou espanto por isso... 

   Aliás, se estivermos bem atentos aos comportamentos vários dos que nos rodeiam, verificaremos que, com maiores ou menores diferenças e matizes, cada um de nós tem a sua própria cultura, já que cada sistema de referências axiológicas e existenciais varia do do vizinho, pelo menos na respectiva intensidade de consciência. Como, também, a mesma pessoa terá reacções ou respostas diferentes perante situações semelhantes, de acordo com a variedade das circunstâncias. O ser humano é - sabe-lo bem, minha Princesa de mim - um peregrino imprevisível. Numa conferência proferida perante japoneses, Claude Lévi-Strauss afirmava:

   No Ocidente, sucedem-se os estilos de vida, os modos de produção. Mas dir-se-ia que, no Japão, eles coexistem. E serão eles, em si mesmos, radicalmente diferentes dos nossos? Quando leio os vossos autores clássicos, sinto mais o desfasamento temporal do que qualquer estranheza. O Genji monogatari prefigura um género literário que a França só conhecerá sete séculos mais tarde com a obra romanesca de Jean-Jacques Rousseau: uma intriga lenta, encabrestada, toda matizada, em que evoluem personagens cujas motivações profundas nos são, como muito nas nossas vidas, misteriosas. Narrativa cheia de observações psicológicas subtis, e mergulhada num lirismo melancólico, em que o sentimento da natureza tem um papel tão importante como a impermanência das coisas e a imprevisibilidade dos seres...

   Ise monogatari, ou Os Contos de Ise, foram escritos, quiçá, por volta do ano de 951... Digamos que são muito antigos, mas, pese embora estarem redigidos numa língua ainda muito tosca e de nem sempre fácil transcrição para japonês moderno, têm hoje lugar em qualquer compêndio ou colectânea de literatura, ou história da literatura japonesa. Traduzo, da versão francesa de G. Renondeau (Gallimard / UNESCO, Paris, 1969), um conto - que, como todos os outros se revela em tanka, poemas de cinco versos e trinta e uma sílabas - bem como as pertinentes notas explicativas:

   Uma vez, um homem que estava em Musashi escreveu a uma senhora que estava na capital: «Se falar, tenho vergonha; se não falar, fico com pena.» Como remetente, no lugar da sua própria morada, escreveu: «Dos meus estribos de Musashi». E não voltou a dar notícias. Da capital, a dama escreveu:

          Tal como nos estribos de Musashi,
          Bem presos às suas correias,
          confiamos,
          Assim nos estribos de Musashi
          Me apoio, apesar de tudo, apaixonada,
          E tenho confiança em ti.
          Sofro por não te inquietares comigo, como sofro 
          Quando te inquietas, é abominável.

 

   Ao ler esta carta, ele teve uma sensação difícil de suportar e disse:

           Se perguntar por ti, admoestas-me,
          Se não perguntar, odeias-me.
          Em tal circunstância, que homem não morreria?

 

   Musashi era uma província do nordeste do Japão, longe de Heian (Kyoto), famosa pela artesania de estribos de tipo coreano. (Lembra-te, Princesa, de que estavam no século X...) Mais concretamente, explica Renondeau:

   Ele tem vergonha porque começou uma relação com outra mulher nessa região distante. Fica com pena porque lhe falta franqueza para com a mulher que ficou na capital.

   O autor introduz muitos sentidos que obrigam a justapor duas traduções dos três primeiros versos. A expressão «estribos de Musashi (Musashi abumi) é estereotipada e associa-se a sasuga (correia / apesar de tudo) e a kakeru (estar suspenso / estar aborrecido). Os japoneses sempre gostaram destas expressões ambíguas, que despertam vários sentidos...

   A questão da ambiguidade da língua japonesa, curiosamente, nada, ou muito pouco, tem a ver com o entendimento de um grupo para a acção. Já te falei várias vezes, Princesa, no nemawashi, esse «partir pedra» que, obrigatoriamente, precede sempre o início de qualquer trabalho em equipa: remói-se e volta a remoer-se o tema, a razão de ser e o projecto, até todos ficarem bem cientes de que falam do mesmo. Simplificando, é assim.

   Mas, por outro lado, conserva-se e estima-se o jogo de subentendidos que sustenta a linguagem poética e humorística. A cultura é como o próprio ser humano: está sempre soto (fora) e uchi (dentro). Recordando Ortega e Gasset, repito, que sou eu e a minha circunstância, e não esqueço que sou um trânsfuga da natureza.

                                   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

FELIZ NATAL!


Minha Princesa de mim:


   Escrevo esta carta pensandossentindo-te, não só a ti, mas a todos os que a lerem e não só. A circunstância atual da vida humana no nosso planeta, leva-me a viver este tempo de Natal, não só como festa da promessa de Vida que se vai realizando, mas como tempo de espera. Respiro a vida à minha volta, transpondo-a para textos e imagens da simbologia tradicional, que nos falam de um paraíso vindouro, em que os humanos convivem com uma natureza limpa em que todos os seres estão em harmonia. E imagino este cenário idílico como antecipação sensorial do universo que todos desejamos - e por isso mesmo já é, mais do que aspiração, semente em nós - posto que a nossa atual capacidade de inteligência, visão ou antevisão das coisas não nos faculta a possibilidade de o concebermos realmente.

   No mundo presente, a nossa vida terrenal tem sido cada vez mais marcada pelo frenesi e pela sofreguidão, com forte propensão ao imediatismo. Até arrisco dizer que, na agitação de querermos logo tudo, não só perdemos a capacidade de esperar, como também o sentido da própria esperança. Dir-se-ia que só os pobres, destituídos e despojados, poderão saber hoje o que é a esperança, por muito que as suas próprias expectativas continuem a ser desiludidas... E nós, os abastados, teimamos em não querer entender que não há esperança sem partilha, que esperar não é tão somente aguardar com paciência, antes é acreditar na realidade possível de um mundo novo. 

   Eis o que me ocorre compartilhar contigo, neste Natal "pandémico", minha Princesa de mim: este Menino Jesus, pobrezinho e forte, aguarda com misericordiosa e infinita paciência a nossa esperança na harmonia do Reino de Deus, na tal que só surgirá em verdade no coração de todos se formos capazes de abraçar a alegria da partilha, em que descobriremos o sorriso de Deus.

   FELIZ NATAL!

 

Camilo  Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Li esta manhã, numa revista católica francesa (La Vie, nº 3922), uma conversa sobre a separação e a morte, que me comoveu, sobretudo nestes tempos de pandemia. Inumação imediata, rigidez do protocolo funerário, interdição dos funerais familiares... As medidas sanitárias que rodearam a morte na Primavera passada deixaram traumatismos entre os vivos. Como podemos consolar-nos sem ter podido acompanhar os últimos momentos dos nossos próximos? Nem honrá-los por um ritual de adeus coletivo? Eis chegados os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos, duas festas concomitantes que, este ano, se revestem de mais gravidade. Com o minuto de silêncio respeitado nas escolas a 2 de novembro, em memória do professor Samuel Paty. [Em Portugal, o Dia de Luto Nacional pelas vítimas do Covid19 e a bandeira a meia haste no Palácio de Belém]. Com o reforço das medidas sanitárias face à retoma da epidemia. Face à morte, por que gestos, por que presença, por que esperança nos consolaremos? La Vie reuniu, em 9 de outubro, a psicóloga e autora Marie de Hennezel e a escritora Anne-Dauphine Julliand, ambas tendo publicado livros sobre o assunto. A primeira, com L’Adieu Interdit (Plon) lança um grito de alarme a uma sociedade que esqueceu a morte; a segunda regressa, em Consolation (Les Arènes), ao lugar certo para acompanhar o luto. Anne-Dauphine Julliand dá testemunho dos laços que lhe permitiram, após a morte das suas duas filhas, afetadas pela mesma doença genética, conjugar a paz que nos dá vida e o desgosto que permanece. Numa presença rara e lúcida a questões que muitas vezes não queremos abordar, as duas experiências cruzam-se para nos revelarem convicções íntimas e universais. Palavras certas, cheias de força de viver, num encontro evidente de que saímos transformados. 


  
Ambas as intervenientes testemunharam experiências das suas vidas. Mas, finalmente, também nós nos reconhecemos nelas, ao recordarmos familiares e amigos que, mesmo à margem do covid 19, morreram em tempos de pandemia e confinamento, foram exumados sem assistência, sepultados ou cremados quase em segredo... E, sobretudo, não tiveram o conforto de uma mão, de uma presença amiga e próxima a acompanhá-los na misteriosa viagem. Em muitos casos, será difícil dizer quem se sentiu mais solitário e impotente, se o moribundo ou se cada um daqueles que ansiavam - por mais uma vez, quiçá derradeira, transmitir-lhe ou partilhar um sopro de vida com ele...


   Penseissenti melhor esta alma de uma irrepetível despedida - que, aliás, é uma profunda ação de graças pelo dom da vida - ao ler como Anne-Dauphine conta as mortes de ambas as filhas:


   Vivi-as diferentemente, pois elas eram pequeninas - uma com três anos e três quartos, outra com dez e meio. Mas sentimos nelas ambas uma indescritível intensidade de vida. A Thaïs, hospitalizada em casa, viveu mais um ano e uma semana do que o  prognosticado pelos médicos. E dois meses antes da morte da Azylis, senti que a atitude da minha filha tinha mudado, porque ela tirava proveito de tudo, de cada momento. Passámos férias na ilha de Yeu - foi um dos mais belos momentos das nossas vidas - e sentimo-la cheia de vida e do que nos queria transmitir: o seu amor pela vida. Nas horas anteriores à morte, cada uma das nossas filhas teve um sobressalto, ambas estiveram muito ternas. A Azylis abriu os olhos, ri-se, apertou uma mão e tudo passou por esse simples gesto. Aquele adeus diz-nos tudo o que a vida lhe trouxe. Partilho o ponto de vista da Maria de Hennezel: a relação perdura porque o amor perdura - o amor que nos liga uns aos outros. A Azylis dizia-nos: «Eu também continuarei a amar-vos à minha maneira». Estou persuadida de que morrer é um ato. Não escolhemos morrer, nem padecemos a morte: vivemo-la.


   
Este tão simples relato é, afinal, extremamente denso, profundamente interrogativo pela nudez da condição humana que descobre. Talvez por isso, Marie de Hennezel apenas comentou: Esse trabalho do trespasse pode tão somente ser a intensidade de um olhar, um modo de abraçar alguém. E dou comigo a pensarsentir a morte como trabalho de parto. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:


   Regressando ao nosso filósofo sul coreano, Byung Chul Han, formado na Alemanha, e ao seu livro de 2019, Vom Verschwinden der Rituale, que te citei na minha carta anterior, ressalto: Os ritos são ações simbólicas. Transmitem e representam aqueles valores e ordens que mantêm coesa uma comunidade. Geram uma comunidade sem comunicação, enquanto que o que hoje predomina é uma comunicação sem comunidade. A perceção simbólica é constitutiva dos rituais. O símbolo, palavra que vem do grego symbolon, significava originalmente um sinal de reconhecimento ou uma «contrasenha»...  ... parto uma tabuinha de argila, guardo uma metade e entrego a outra a outrem, em sinal de hospitalidade. Deste modo, o símbolo serve para nos reconhecermos. É, assim, uma forma peculiar de repetição.


   
E cita longamente H-G Gadamer:


   Re-conhecer não é voltar a ver uma coisa. Uma série de encontros não é um re-conhecimento, antes re-conhecer significa reconhecer algo como o que já se conhece. O que propriamente constitui o processo de «instalação num lugar» - utilizo aqui uma expressão de Hegel - é que qualquer re-conhecimento se desprendeu da contingência da primeira apresentação e subiu ao ideal. Todos sabemos isso. No re-conhecimento acontece sempre conhecer-se mais propriamente o que foi possível no momentâneo desconcerto do primeiro encontro. O re-conhecer capta a permanência no fugidio. 


   
Faço agora, Princesa de mim, duas breves reflexões sobre as questões que temos vindo a abordar. Recordo-as porque são parte da minha experiência pessoal da vida ou, se preferires, de meditações suscitadas por um qualquer momento de reconhecimento do que me vai acontecendo.


   Assim, tem-me ocorrido, ao olhar para um regato, um ribeiro ou um rio, perguntar-me o que ele realmente será, para além das águas que naquele preciso instante à minha vista correm, nem saberei eu bem para onde, águas fugidias que não verei mais. Evoco as águas que vejo, não me lembro logo do leito que as encaminha, e quiçá outras águas passadas cavaram. Num mapa, os rios todos não são águas que ali não vemos, mas apenas traços cujo desenho nos aponta cursos de águas invisíveis. Os rios são, pois, cursos de água. Ocorre-me então que são destinos de águas, fados que elas, desde a sua nascente, ignoram...


   Curiosamente, Byung-Chul Han, sem pensar em rios, escreve: Ao ser uma forma de reconhecimento, a perceção  simbólica percebe o duradouro. Assim se liberta o mundo da sua contingência e se lhe outorga uma permanência. O mundo sofre hoje de uma carência de simbólico. Os dados e as informações carecem de toda a força simbólica e por isso não permitem qualquer reconhecimento. No vazio simbólico se perdem as imagens e metáforas geradoras de sentido e fundadoras de comunidade, que dão estabilidade à vida. Diminui a experiência da duração. E aumenta radicalmente a contingência 


   
Os cursos dos rios são sempre caminhos novos, conduzem a mares ignotos e descobertas, a encontros de outros fados, em que os reencontros se farão pelo reconhecimento do que, em cada um de nós vai continuando insuspeito.


   Nos meus primeiros anos de vida no Japão, ajudou-me muito uma certa disponibilidade para a presença em reuniões com japoneses, apesar da minha ignorância da língua. Qualquer intérprete não conseguia traduzir-me nem metade do que se ia dizendo, e quanto mais sério fosse o assunto assim se prolongaria o encontro pelo exercício do nemawashi, ou prática de "partir pedra", isto é, de repetir até à exaustão as ideias anteriormente expostas e os pontos de acordo conseguidos. Tal não seria tempo perdido, visto que, claramente definido e partilhado o contexto, seria mais rápida e eficaz a participação futura na obra comum. Aí comecei a entender o que lera em obras de antropólogos anglo-saxónicos sobre "high context communication": que a comunicação, como partilha eminentemente comunitária, não é só algo de herdado, mas pode e deve ser, em cada e para cada geração, algo que se constrói pela atenção e a escuta mútuas. O que, evidentemente, logo requer que cada parte saiba o que está a querer dizer. Isto é : que tenha consciência de que qualquer palavra não pode ser passageira, menos ainda fugidia, mas seja uma porta para o que se segue... Aí começa um compromisso de responsabilidade, ou seja, a sageza de que deverei sempre responder pelo que afirmo. Simultaneamente se desenvolve um esforço de escuta e atenção, como fator necessário de qualquer comunicação que, para ser partilha real, é necessariamente afirmação própria e descoberta do outro. Reconhecimento, para lá das diferenças, convergências e divergências. Comunidade humana. Comunidade que se constrói ao prescindirmos dessa linguagem pletórica de neologismos com que se vão mascarando vacuidades, ignorância e desconsideração dos outros.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

   Tens-me interrogado sobre o meu silêncio, dizes-me que já leva meses, muitos outros familiares e amigos me perguntam porquês do mesmo, e surgem ainda os que, buscando subtileza, apenas dissimuladamente me manifestam alguma estranheza. Não tenho respondido, por entender que não há resposta a dar: circunstâncias da minha vida têm-me absorvido cuidados e atenção, ao ponto de me roubarem essa tranquilidade de tempo e espírito que nos faculta qualquer diálogo. São, verdade seja dita, condicionantes específicas à minha própria condição familiar, em nada posso referi-las ao ambiente geral de confinamento que a todos nos afeta, mas é sobre este que te escrevo agora.

   Zusamengehörigekeitsgefühl, vocábulo construído por Goethe no século XIX, traduz um conceito que me parece útil em considerações hodiernas sobre as frustrações possivelmente decorrentes da experiência humana de vida em confinamento: na verdade, quer sinteticamente significar a condição e necessidade comum de nos sentirmos pertencer ao conjunto da humanidade. E para restaurarmos tal sentimento de relação ontológica será quiçá indispensável procedermos a um esforço meditado de reinvenção de vivências da nossa condição humana, partindo da reconsideração do que verdadeiramente possa construir-nos como comunidade, isto é, como disse um publicitário parisiense, desse bem imaterial inestimável que é, afinal, a demanda da justiça decorrente de um sentido profundo do bem comum.

   A solidão, enquanto distanciamento físico da vida social, é certamente uma limitação condicionada mas, simultaneamente, condicionante da busca de um bem comum que vai para além das transações habituais e procura outras perspetivas de olhar sobre as relações humanas, libertando-nos dos modelos institucionais e operacionais que atualmente dominam os nossos comportamentos e nos não deixam vislumbrar qualquer conversão a aspirações de maior justiça económica e social, e renovada vivência ecológica e espiritual do mundo e da vida. Por isso estes tempos de "retiro" - assim pensossinto - também se prestam a um esforço de higiene mental que nos permita promover em nós e fomentar socialmente uma visão mais fraterna e construtiva do mundo, como, com tão franciscana simplicidade, nos propõe a nova encíclica papal "Todos Irmãos".

   Num artigo publicado na próxima edição da revista americana Foreign Affairs (novembro/dezembro de 2020), a doutora Mariana Mazzucato, professora no University College London, escreve: ... no meio duma pandemia global, o mundo tem a oportunidade de tentar a ambiciosa criação de uma economia melhor. Tal economia seria mais inclusiva e sustentável. Emitiria menos carbono, geraria menos desigualdade, construiria transportes públicos modernos, providenciaria acesso digital a todos, e a todos ofereceria cuidados de saúde...

   ...Entre os que falam sobre recuperar da pandemia, aponta-se um objetivo apelativo: o regresso à normalidade. Mas esse é um objetivo errado: o normal está quebrado. O nosso objetivo antes deveria ser "construir melhor do que antes". Há doze anos, a crise financeira abriu-nos uma rara oportunidade de mudança do capitalismo, que foi desperdiçada. Agora, outra crise nos apresenta outra oportunidade de renovação. Desta vez não devemos deitá-la para o lixo.

   Curiosamente, também apareceu por aí referida, em meios de comunicação europeus, uma expressão holandesa que, afinal, nos deve alertar para certos riscos da impaciência: huid honger, que significa "fome de pele", isto é, a saudade e o desejo de nos tocarmos em beijos e abraços... Sentimento que, pleonasticamente, podemos qualificar de naturalmente natural, mas que igualmente traduz o nosso gosto da sensação imediata de regresso e de posse.

   Ocorreram-me estas lembranças ao ouvir tão insistentes exigências de liberalização dos espaços de circulação e encontro, desde encher estádios de futebol a manter abertos, e úberes de gentes variegadas, estabelecimentos de animação noturna, vias públicas e centros comerciais, templos e teatros, escolas e centros de reunião e trabalho... Uma vez mais me parece que tais reclamações são naturalmente naturais, e em muitos casos se justificam pela urgência da manutenção de modos de vida necessários à subsistência das pessoas e das comunidades. E, todavia, pressinto ainda outra necessidade: a de ganharmos distância para melhor observação e ponderação de valores, tempos e prioridades. Na verdade, talvez sejamos, sobretudo, dantes e além de qualquer pandemia, vítimas de nós próprios, do esquecimento de nós enquanto destino comunitário de uma qualquer eternidade e obreiros de contínua renovação ou conversão. Esta, apesar da sua especificidade - ou talvez por isso mesmo - é, na condição humana, também naturalmente natural. Ouso mesmo dizer que, enquanto humanidade, somos mais reinvenção, recriação, do que obra passiva das circunstâncias. Mais fatores do que factos. Mais capacidade de inovação do que de resiliência, palavra hoje tão utilizada para querer dizer apenas - contrariamente (?) ao que talvez pensem os seus muitos utilizadores - "regresso à primeira forma", recuperação mimética de modelos passados, ainda que comprovadamente já esgotados de capacidades e improdutivos de vida futura. Porque teimosamente nos mantemos confinados no nosso egoísmo cómodo, apenas vislumbramos, nos futuros possíveis, não os horizontes prenhes de promessas, mas o regresso aos nossos modelos falhados. No campo da pretensa recuperação económica, então, patenteiam-se propostas e projetos que, no passado recente, já demonstraram a sua vulnerabilidade a variações imprevisíveis de mercados incontroláveis e geradores de desutilidades (como o turismo de massa e os transportes aéreos adjacentes). Entretanto, continuamos a ser um povo pouco instruído, que vai, resignada e tristemente, envelhecendo... Não haverá modo de educar em letras e humanidades, em artes e ofícios? Não seremos capazes de acreditar num povo mais instruído que, usufruindo também de liberdade de empresa, saiba criar riqueza e animar comunidades, sobretudo no interior desolado do país? Será que só reformados estrangeiros podem ter êxito em empreendimentos agrícolas em zonas de Portugal que se foram desertificando?

   Escuto, cedendo à tentação de procurar entender o desespero humano, a tragédia lírica La Voix Humaine, com letra de Cocteau e música de Poulenc, interpretada pela soprano Felicity Lott, ouço-a gritar Sois tranquille, on ne se suicide pas deux fois... où trouverais-je la force de combiner un mensonge, mon pauvre adoré?... e pasmo perante a força letal, mortífera, da mentira política, como a que referia o Príncipe de Lampedusa, justificando a necessidade de mudar tudo para tudo ficar na mesma... Mas dói-me, sobretudo, a agonia dessa mulher que quer comunicar e não consegue, morrendo com um telefone ao colo, sem alma de pessoa...

   Assim me magoa essa maldição de tanto destino humano, que a alma de Fernando Pessoa, pela boca de Álvaro de Campos, chorava: Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, / e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, / e ouviu a voz de Deus num poço tapado. Se investirmos na dignidade e capacidade, na educação das pessoas, talvez todos venhamos a percorrer caminhos de esperança. Durante todos estes meses me lembro, todos os dias, das vozes humanas que não escutamos. E, todavia, tenho os ouvidos cheios de números de estatísticas de infetados, mortos e internados, desempregados e famintos, tal como de projeções e fantasias econometristas sobre as "resiliências" que a nossa falta de imaginação e a nossa surdez à vox populorum nos fazem acreditar em que se tratam de reformas para um mudo novo...

   Em carta próxima te falarei de um filósofo sul coreano que se formou na Alemanha e se doutorou na Universidade de Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Por hoje, apenas citarei, do primeiro parágrafo do seu Vom Verschwinden der Rituale, esta reflexão: Os ritos são ações simbólicas. Transmitem e representam aqueles valores e ordens que mantêm coesa uma comunidade. Geram uma comunidade sem comunicação, enquanto que o que hoje predomina é uma comunicação sem comunidade.
   

 Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há semanas que não te escrevo. Além de distraído por outras cismas, tenho sofrido repetidas cargas das minhas maleitas álgicas, perco sono e fico prostrado pelo cansaço. Vale-me o amparo de alguma música, desta feita - e curiosamente - a de compositores da última década do século XIX e primeiras do XX, de Debussy e Satie a Ravel e Stravinsky, sem esquecer a escola de Viena... E vou navegando por mares poéticos, por Paul Claudel e os japoneses, e ainda - talvez sobretudo - pelo imenso e forte oceano do nosso frei José Augusto Mourão, cuja poesia é, ela própria, uma liturgia da Palavra que o sopro do Espírito vai enfunando em nós. Tornando-nos sempre bem presente a saudade vital que é o fado da nossa humana condição. Citando um dos títulos da obra de frei José Augusto, afirmo que a sua poesia é Dizer Deus ao (des)abrigo do nome.

 

   Topamos  por aí com "poetas" medíocres, carreiristas de encómios, que vão encobrindo a indigência dos seus escritos e discursos com citações frequentemente deslocadas do seu sentido próprio, para apenas decorarem a moldura do retrato em que se miram ao espelho do charco sobre que se debruçam com alguma "flor de cultura". Talvez distraídos daqueles versos  de J. A. Mourão, insertos no seu protestatio et confessio:

 

          à banalização do mal eu digo não
          à tecnologia das próteses e ao mercado
          que conforta em nós Narciso, digo não

 

   Afinal, o Poeta mesmo, aquele que vive como dom, como promessa e espera, a liturgia essencial da Palavra sabe as horas  pelos relógios da fé: 

    

          A nós que agora vemos em espelho
          aguardando o face a face do teu Dia
          que o fogo do mal não nos devore os olhos
          nem a ira queime a compaixão que falta
          mas que a tua paz nos mostre o possível do mundo
          o amanhecer da graça e da beleza

 

          que não recuemos diante da tua sombra
          nem nos contem as horas os relógios da fé

 

          dá a vigilância e o fervor à nossa vida
          a atenção ao escondido da esperança
          e a resistência às tentações da transparência
          para o instante e o agora do mundo

 

   Encontrei neste poema uma oração para todos os humanos em todos os dias deste tempo difícil e tão incerto. Bem hajas, frei José Augusto Mourão!

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em texto breve e claro, Claude Lévi-Strauss fala de algo que disse no Japão e a que chama apprivoiser l'étrangeté, encabeçando a sua reflexão por uma citação de Platão: Porque o mais contrário é o maior amigo do que lhe é mais contrário... Poderia também ter citado alguém mais seu coevo, como o jornalista correspondente de guerra Robert Guillain, que teve esta afirmação famosa: Le Japon est le pays où le contraire est vrai...

 

   E, referindo-se à descoberta da cultura japonesa pelo Ocidente, logo aponta o jesuíta português Luís Froes como pioneiro, no século XVI, desse exercício de comparação simétrica de pessoas, usos e costumes que, em meados do século XIX, levou o mesmo Ocidente a ganhar o sentimento de se redescobrir nas formas de sensibilidade estética e poética que o Japão  lhe propunha. Esta frase, aliás, resume o teor do prefácio que o célebre antropólogo francês (nascido em 1908, em Bruxelas) escreveu para a edição francesa de Européens et Japonais. Traité sur les contradictions et différences de moeurs, que, em português, foi escrito pelo padre Luís Froes em 1585 e, apesar de praticamente ignorado na sua pátria, e sua própria língua, foi, muito mais tarde, traduzido e publicado em França pela Chandeigne (1998 e 2005).

 

   Noutro texto seu, e noutra charla nipónica, Lévi-Strauss fala de Sengai (1750-1837), calígrafo, pintor e poeta, monge zen que costumava ir beber à fonte dos haikai de mestre Basho. O trecho que seguidamente para ti traduzo vale bem a leitura que fizeres, pelo muito que nos desvenda da íntima relação - para não dizer natureza comum  -  da poesia, caligrafia e pintura japonesas. Escuta bem:

 

   A arte de Sengai, reconhecia André  Malraux, deixa perplexo o espectador ocidental: «Nenhuma outra arte extremo-oriental, prosseguia ele, está tão longe da nossa, nem de nós.»

 

   Cada vez que se nos revela o sentido das legendas inscritas por Sengai à margem das suas pinturas, compreendemos um pouco melhor as razões de tal mal entendido. Pois que, pelo seu significado e o seu grafismo, as palavras têm tanta importância quanto o assunto, já que desses curtos textos, muitas vezes em forma de poemas, com as suas citações implícitas e as suas alusões maliciosas, os seus subentendidos, apenas obtemos das obras uma perceção mutilada.

 

   Mas, em certo sentido, isso é válido para toda a pintura extremo-oriental, indissociável da caligrafia, e não tão somente porque esta tem sempre cabimento naquela. Cada coisa representada - árvore, rochedo, curso de água, casa, senda, monte   -  para além da sua aparência sensível, recebe um significado filosófico de como o pintor a representa e situa num conjunto organizado.

 

   Mesmo se nos ativermos apenas à caligrafia, é claro que, apesar de todos os esforços dos tradutores, o essencial da poesia dos haikai - tais como os de Basho, de quem Sengai se sentia próximo, fica fora do nosso alcance. Tanto quanto o sentido literal, único acessível, contam a escolha de um caracter em vez de qualquer outro, o estilo da escrita (os manuais enumeram pelo menos cinco) e a disposição do texto sobre a folha...

 

   Já noutras cartas para ti, ou ainda em textos vários que escrevi sobre as minhas descobertas e insistentes interrogações acerca da cultura japonesa, abordei temas relacionados com a tradução literária ou as imitações e tentativas de adoção de géneros e modos literários próprios de outras culturas e línguas. Tais aventuras são sempre empresas de risco e incógnitos sucessos à partida. Exigem aos seus fautores, antes de mais, um refletido esforço de escuta e humildade, Com o tempo todo que lhe for necessário. E, depois, a serenidade de uma partilha, só pelo gosto dela. 

 

   O poeta, nosso contemporâneo, Mutsuo Takahashi editou em 2003 uma curiosa antologia de haiku - que, aliás, considera a chave poética do Japão - cuja maior qualidade, a meu ver, reside, precisamente, na achega a uma poética e estética, que nos proporciona, não só através das suas magníficas traduções para inglês, como pelas fotografias que a ilustram, e através das quais Hakudo Inue tenta desvendar-nos alguma visão mais intimista dos poemas japoneses. Essa também é facilitada pelo facto da edição ser bilingue (japonês-inglês), nesta publicação da P-I-E Books (Tokyo, 2003). O prefácio escrito pelo antologista e tradutor é, além disso, breve, conciso e claro, muito informativo e esclarecedor. Vem, a talho da fouce desta carta, traduzir-te eu os seguintes trechos desse texto de apresentação:

 

   ...O haiku de cinco-sete-cinco sílabas, todavia, nem sempre foi uma forma independente. Começou enquanto primeiro verso, chamado hokku, de uma espécie de poesia engrenada, chamada renga e haikai no renga (ou renga em estilo popular).  [Abro aqui um parêntese, Princesa, para te dizer que ouso pensar no "hokku" nipónico como equivalente ao nosso mote em desafios poéticos]. Tais poemas engrenados eram colaborativamente escritos por vários poetas que lhes iam alternativamente adicionando versos de sete-sete ou cinco-sete-cinco sílabas. Há pouco mais de cem anos, Shiki [Masaoka Shiki, 1867-1902, poeta, inventor do neologismo "haiku"] , decidiu separar o hokku do renga e do haikai  no renga, assim nascendo então o haiku.

 

   Havia uma conexão entre o hokku e os versos seguintesque começava com o segundo verso (wakiku ou "verso de suporte"). Apesar disso, o hokku permanecia semiautónomo. Aquilo a que hoje chamamos haiku, de Basho ou de Buson, são os seus semiautónomos hokku, vistos como poemas independentes.

 

   [Permite-me aqui, Princesa de mim, abrir mais um parêntese, chamando a atenção para a pertinência desta observação, já que tem sido generalizada a ideia de que haiku (para o qual, aliás, se inventou o plural, inexistente em japonês, de "haikus") é uma forma poética, ou género literário independente desde a sua origem. E é bem notória a tendência de se identificar tal mal entendido com, por exemplo, a obra escrita de Munefusa Matsuo (mais conhecido por Basho), esquecendo que dois terços da mesma está em prosa, sendo os versos destacados comentários, quiçá mais intimistas, ao próprio relato dos textos prosaicos. Aliás, tal facto nada tem de novo: já em literatura japonesa muito antiga  -  e no próprio Conto de Genji - o recurso a interlúdios poéticos é patente, retratando bem a unidade japonesa e budista das artes da escrita, da caligrafia e da ilustração plástica. Talvez, mesmo mais do que qualquer outra em todo o mundo e história, a literatura japonesa seja integral e profundamente emocional, registo possível do pensarsentir do ser humano. Quiçá por motivos próximos dos que levam a língua japonesa a tanto se alimentar de onomatopeias. Ocorre-me, neste preciso instante da escrita desta carta, voltar a citar-te um passo do Zen and Japanese Culture do professor Daisetz Suzuki (Princeton University Press, 1970), a que já muitas vezes me referi em escritos vários: Está certo dizer-se que a mente oriental é intuitiva, enquanto a mente ocidental é lógica e discursiva. Uma mente intuitiva tem certamente as suas fraquezas, mas o seu ponto forte surge quando trata de coisas mais fundamentais na vida, isto é, coisas relativas à religião, à arte, à metafísica. E foi o Zen que especialmente estabeleceu esse facto: o satori. A ideia de que a verdade última da vida e das coisas deve geralmente ser intuitiva e não conceptualmente apanhada, e de que tal apreensão intuitiva é o fundamento, não só da filosofia, mas de todas as outras atividades culturais - eis aquilo com que a forma Zen do budismo mais contribuiu para a cultura do apreço artístico entre o povo japonês.]

 

   Retomarei o fio desta meada em carta próxima, ou talvez aproveite a oportunidade para iniciar já com a presente uma nova série de escritos meus sobre o Japão, à qual, depois de Fomos em Busca do Japão e de Um Itinerário de Muitos Olhares, talvez ponha o título de Em Rebusca do Japão. Até lá. Mas, a fechar a presente, deixa-me traduzir-te as primeiras linhas de um "Diário de Viagem" de Matsuo Basho, intitulado Nozarashi kiko, e que é o primeiro apresentado, já em 1988, por René Sieffert na sua versão francesa Bashô - Journaux de voyage, publicada pelas Publications Orientalistes de France. A minha versão portuguesa foi feita directamente da francesa de Sieffert, com recurso esporádico e "tant bien que mal" ao texto original japonês, e o apoio do meu querido Dicionário Universal Japonês-Português do nosso jesuíta e contemporâneo padre Jaime Cepeda Coelho, velho e querido amigo. O pequeno trecho que se segue, a meu ver, diz muito sobre o espírito, a obra e o universo do grande Basho:

 

   Partindo para uma viagem de mil léguas, sem me embaraçar com provisões para o caminho, «sob a lua da terceira vigília entrei no inquestionável», poderia dizer esse Ancião: ao seu cajado me apoiei, na era Jokyo, no ano do Primogénito da Árvore e do Rato [1684], pela oitava lua do outono, quando deixei o meu casebre desconjunto, ao pé do rio, e um vento frio soprava.

 

          Embranqueçam os meus ossos
          penetra-me o vento o corpo
          até ao coração

 

          Passados dez outonos
          o nome de pátria designa
          Edo doravante

 

   No dia em que atravessei as barreiras, caía chuva e os montes todos desapareciam por entre as nuvens.

 

          Nevoeiro e bruma
          dissimulam o Fuji
          encanto deste dia

 

      Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Leonardo Sciascia foi, mais do que um homem notável, uma pessoa interessante pelo seu percurso militante e público, afinal sempre animado por uma fidelidade muito íntima a algo que me comove e alegra chamar esperança ou incessante busca da graça. Foi tribuno e comunista, lutou sempre contra os abusos do poder estabelecido, como contra a máfia, creio que por sobretudo serem limitações da própria pessoa humana e sua essencial liberdade. Por isso também terá sido leitor atento e afeito de Graham Greene, em cuja obra terá descoberto a promessa da graça como redenção. Mas não é dele que te venho falar hoje. Na sequência do que te prometera já, antes dele partirei para falar de Tácito e voltar a Le Procurateur de Judée do Anatole France. Retomando, aliás, o fio da meada que começara a desenrolar em carta anterior, ou seja, traduzindo o trecho do posfácio escrito por Sciascia, de que então te falei:

 

   Narrativa que é um apólogo - e uma apologia - do ceticismo mais absoluto (e, portanto, da tolerância sua filha), mas que é também - para além das referências precisas que possamos tirar dos Anais - uma subtil homenagem a Tácito: homenagem prestada, através da obliteração grosseira de  Pôncio Pilatos à quase obliteração - misteriosa, sugestiva, intrigante, de Tácito. Pôncio Pilatos esqueceu totalmente Cristo e os cristãos; suspeita-se Tácito de ter querido - por intolerância profunda ou por desejo de previsão - querido esquecê-los. O trecho em que deles fala, a respeito do incêndio de Roma, é para nós efetivamente misterioso, sugestivo e intrigante: sobe-nos à imaginação como quando de um vinho dizemos que nos sobe à cabeça. Vale a pena relê-lo:

 

   «Mas nada, nem as intervenções humanas, nem as larguezas do príncipe, nem os sacrifícios aos deuses conseguiu dissipar o rumor infamante de que o incêndio fora aceso a mando. Assim, para abafar tal boato, Nero resolveu denunciar os incendiários com sendo gente detestada pelos seus reprováveis costumes, e a que o vulgo chamava cristãos, e infligiu-lhes os mais refinados suplícios. Tais pessoas derivavam o seu nome de Cristo que, no reino de Tibério, fora condenado à morte por Pôncio Pilatos. Imediatamente reprimida, essa execrável superstição ressurgia todavia, não só na Judeia, donde era tal calamidade proveniente, mas na própria Roma, para onde convergem todos os horrores e todas as ignomínias, e onde fazem escola. Prenderam-se  primeiro os que confessavam a sua fé, e depois, por indicação destes, uma multidão de outras pessoas que foram condenadas, menos por crime de incêndio do que pelo seu ódio ao género humano. Infligiram-se, aos que iriam morrer, os maiores ultrajes, tal como serem revestidos de peles de animais, ou serem mordidos e rasgados pelos cães, ou pregados em cruzes, ou incendiados, ao pôr do sol, para serem tochas na noite. Nero cedera os seus próprios jardins para tal espetáculo, enquanto oferecia jogos circenses e se misturava à plebe vestido para de auriga. Assim, face a essa geração culpada e merecedora de exemplar castigo, a piedade seguia o seu caminho, não tanto como se fossem sacrificados para bem de todos, mas para satisfação da ferocidade de um só.

 

   Para melhor entendimento deste texto de Tácito, convém ter presente que o imperador Nero pretendia apresentar-se como Apolo, deus solar, cujos principais símbolos ou atributos eram o traje de auriga ou condutor de carros velozes, dos quais se distinguia a quadriga, puxada por quatro cavalos e representando o carro solar, e a lira, instrumento musical por excelência. O culto divino do imperador era parte importante da consistência política da religião romana daquele tempo que, por outro lado, acolhia cultos de várias divindades, até de origem estranha, provenientes sobretudo do oriente. Entre os letrados romanos, todavia, mantivera-se, desde o fim da república e estabelecimento do regime imperial, a par de uma certa reserva crítica e censória de costumes considerados atentatórios da higiene moral nativa, sobretudo da familiar, um certo "nacionalismo" ético, avesso a hábitos e valores provenientes de estirpes não romanas. Lido no seu contexto coevo próprio, então moral e socialmente correto, esta prosa contém, talvez mais do que uma crítica aos cristãos, vulgar em Roma naquela época, uma censura à megalomania intolerante de Nero, e ao abuso de poder: "não sacrificados para bem de todos, mas para satisfação da ferocidade de um só". É notável.

 

   Aqui chegados, deixa-me voltar à novela de Anatole France, cujos trechos finais iluminam duas zonas de penumbra distintas mas, cada qual à sua maneira, bem presentes em elaborações do nosso próprio pensarsentir. Uma diz-nos como quanto da nossa indiferença, ou esquecimento, ou abandono do outro, tem que ver com uma qualquer necessidade de olvidarmos a nossa própria intolerância ou imperfeição. Outra  -  que, neste caso, é a confissão de Laelius Lamia ao seu amigo Pilatos  -  já nos fala da força contagiante do amor, revestido, ou não, de referências carnais. Começo por esta, traduzindo-te passos de Anatole France, narrando essa confidência de Lamia (o "exilado de Tibério") ao seu amigo Pôncio, quando ambos já gozavam confortável reforma:

 

   O exilado de Tibério já não escutava o velho magistrado. Após esvaziar o seu copo de falerno, sorria a qualquer imagem invisível.

 

   Depois de uns minutos de silêncio, começou a falar em voz baixa, que a pouco e pouco se ia erguendo:

 

   - As mulheres da síria dançam com tanta languidez! Conheci uma judia de Jerusalém que, numa espelunca, à luz duma lamparina fumarenta, em cima dum tapete reles, dançava erguendo os braços, para fazer soar uns címbalos. De rins quebrados e cabeça atirada para baixo, como que arrastada pelos fartos cabelos ruivos, com os olhos banhados em voluptuosidade, ardente e langorosa, elástica, teria feito a própria Cleópatra empalidecer de inveja. Deliciavam-me as suas danças  bárbaras, o seu canto algo rouco e todavia tão doce, o seu perfume de incenso, o semissono em que parecia viver. Seguia-a para todo o lado. Misturava-me com a turba vil de soldados, meliantes e publicanos que a rodeavam. Certo dia desapareceu, não voltei a vê-la. Por muito tempo a procurei, por ruas suspeitas e em tabernas. Era mais difícil desabituar-me dela do que do vinho grego. Meses depois de a perder de vista, soube por acaso que se tinha juntado a um pequeno grupo de homens e mulheres que seguiam um jovem taumaturgo galileu. Chamavam-lhe Jesus Nazareno e foi crucificado nem sei porque crime. Pôncio, lembras-te desse homem?

 

   Pôncio Pilatos franziu as sobrancelhas e levou a mão à fronte, como quem procura uma memória. E, passados alguns instantes de silêncio:

 

   -  Jesus?, murmurou, Jesus Nazareno? Não me recordo.   

 

   Palavras... para quê, Princesa? Só se for para citar Pascal: o coração tem razões que a razão desconhece. Ou será que talvez nada nos possa ocorrer, para além da imediata conclusão de que, afinal, pode haver sentimentos que nos escapem ao juízo moral, ou razões afetivas que o derroguem ou mesmo revoguem. Ou ainda, mais simplesmente, que acontece, em tempos e modos tão diversos, procurar ou simular um esquecimento de algo de que demasiadamente nos lembramos, ou somos lembrados. Mas este final de uma novela do nobel Anatole France é uma ficção, não um documento histórico. O que qualquer ciência do passado nos pode dizer é que Pôncio Pilatos foi certamente um funcionário imperial arrogante, sem margem para despotismos, mas, por vezes, bastante temerário e pouco propenso ao exercício da prudência ou amor sagaz. Tampouco sabemos como lhe correu a vida após ter sido destituído das suas funções de prefeito na Judeia pelo legado na Síria, Lucius Vitellius, que o remeteu a Roma para mais explicações. Na origem do processo estaria a prepotência de Pilatos sobre qualquer suspeita de movimentação messiânica, na Judeia, Galileia ou Samaria... Suicidou-se? Foi decapitado por ordem do imperador Calígula? Exilou-se em Viena? Ter-se-á convertido ao cristianismo, como o pretendeu piedosa, mas inverosímil, lenda registada por Tertuliano e por apócrifos como os Actos de Pilatos e o Evangelho de Gamaliel? Aparentemente, mas isto com toda a certeza, foi sendo objeto de várias ficções literárias: até no ano 2000, um século depois da 1ª. edição de Le Procureur de Judée, o romancista Eric-Emmanuel Schmitt, publicou um Evangelho segundo Pilatos...

 

   Se concordares, Princesa de mim, deixar-nos-emos ficar pela ficção do Anatole, questionando o porquê do aparecimento dessas memórias das personagens de Laelius Lamia e de Pôncio Pilatos no final da novela: o primeiro fora exilado de Roma por adultério e levara uma vida de maus costumes; o segundo regressara a Roma por castigo da sua prepotência. Mas aquele recordava-se de ter perdido uma mulher de má vida, que muito amara, desde que esta tudo deixara para seguir o evangelho de um galileu taumaturgo. O magistrado romano afirmava já nem se lembrar desse nazareno que tanto lhe assustara os sonhos...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Domingo da Ressurreição do Senhor, e esta segunda-feira de Páscoa, neste confinamento largo pelo privilégio de já viver exilado e isolado no campo, feito anacoreta (ou retirado no deserto) e monge (em grego, monachos significa sozinho), têm sido dias de nova reflexão sobre o Jesus histórico e o Ressuscitado. Até escrevi, em breve mensagem a uma querida amiga, precisamente em Dia de Aleluia: «A Páscoa é sempre - para mim - um passo difícil, na medida em que nos (me) leva a ir do histórico ao cerne da fé... Os únicos testemunhos coevos  que conheço da Ressurreição de Jesus são os constantes de textos neotestamentários. Tenho pensado na escrita de um texto sobre isto, apesar de, provavelmente, poder interessar a muitos poucos».

 

   Mas, Princesa de mim, sem me esquecer da promessa que te fiz de falar sobre Pôncio Pilatos, Tácito e Anatole France, aproveito esta oportunidade para te traduzir o início do artigo Ponce Pilate do Dictionnaire amoureux de Jésus do historiador francês Jean-Christian Petitfils (Paris, Plon, 2015): Penso muitas vezes na extraordinária e sulfurosa fama póstuma desse prefeito da Judeia que condenou Jesus ao suplício da cruz, quando afinal a gente tudo ou quase tudo esqueceu da vida dos poderosos Césares romanos. Todos os domingos, centenas de milhões o mencionam ao recitar o Símbolo dos Apóstolos ou Credo de Niceia-Constantinopla: «Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado...»

 

   Sub Pontio Pilato: tal referência nada tem de despicienda. É mesmo essencial para os dados da fé. Significa que a Incarnação não é um mito, um conto de fadas, aquilo, precisamente, que dela dizia o filósofo incréu Paul-Louis Couchoud no seu "Mystère de Jesus" (1924). Pois que, para ele, Jesus não é uma personagem histórica, mas uma figura mítica idealizada, um ser divino paulatinamente elaborado pela consciência cristã. «Admito todo o Credo, escrevia ele a Jean Guitton, menos essa inclusão de sub Pontio Pilato.» A presença intempestiva do prefeito romano num texto cristão incomodava-o. Já que ela é, pelo contrário, uma caução histórica da existência de Jesus.

 

   Apoiando-se nos escritos coevos de cronistas como Flavius Josephus, Fílon de Alexandria  e sobretudo Tácito, os historiadores durante muito tempo consideraram que Pilatos era "procurador" na Judeia. [Na verdade, como se veio a verificar depois, por uma lápide descoberta no teatro romano de Cesareia, o seu título (e sua função ali), no reinado de Tibério, ao tempo de Jesus, era o de "Prefeito", isto é, administrador público exercendo poderes militares e judiciais, sendo nessa sua capacidade que interveio no processo do Nazareno].

 

   Não sabemos bem se a aposição do Titulus damnationis  (razão da condenação), inscrito numa tabuinha de madeira no alto da cruz, era prática corrente. No caso de Jesus, o título INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudeorum), terá sido redigido por Pôncio Pilatos. Tal redação consta do Evangelho de João, transcrevendo o que testemunhas oculares observaram. É interessante reproduzir nesta carta para ti, Princesa de mim, um comentário de Jean-Christian Petitfils. Traduzo:

 

   Foi intencionalmente que os sumos-sacerdotes Anás e Caifás denunciaram Jesus como perigosos Nazareno, não enquanto habitante da insignificante aldeia de Nazaré, na baixa Galileia, mas antes como membro do clã davídico que tinha esse nome que assim fazia dele um pretenso Messias político.

 

   Ao interrogar Jesus, Pilatos tinha-se dado perfeitamente conta de que o prisioneiro nada tinha a ver com qualquer chefe de bando com aspirações a uma realeza temporal. Tinha-lhe dito: «O meu reino não é deste mundo». E vira bem como os sumos-sacerdotes o procuravam manipular. Mas, fingindo segui-los, ordenou que o texto fosse inscrito nas três línguas utilizadas na Judeia: em aramaico, língua corrente; em latim, língua oficial do império; e em grego, usado nos meios comerciais e trocas internacionais.

 

   Estigmatizando assim a expectativa messiânica de Israel, Pilatos troçava dos sumo-sacerdotes e dos que haviam tentado obrigar a condenar Jesus. Escreve S. João que «essa tabuleta foi lida por muitos judeus porque o lugar onde crucificaram Jesus era próximo da cidade». Quando perceberam que tinham sido enganados, Anás e Caifás protestaram: «Não devias escrever "Rei dos Judeus" mas que "ele disse que era Rei dos Judeus"». Pilatos logo arrumou a questão: «O que escrevi está escrito».

 

   Petitfils, e outros historiadores nossos contemporâneos deduzem da leitura do texto grego original, em que essa resposta de Pilatos, dita em grego, sofre todavia de latinismo, terá si registada por testemunhas presenciais, entre as quais estava o próprio João Evangelista, que seria membro da alta aristocracia de Jerusalém e assim a teria recolhido da própria boca do Prefeito romano.

 

   Aliás, em muitos passos do seu Evangelho João insiste em referir testemunhos presenciais, muitos deles seus próprios. No relato da Paixão e Morte de Jesus é meticuloso na nomeação das pessoas presentes aos atos sucessivos que vai narrando, bem como no próprio silêncio em redor da Cruz. O texto de João é surpreendentemente magnífico pela sua íntima densidade, oferecida num cenário quase cinematográfico: ao assistirmos a uma cena, simultaneamente vamos descobrindo e pensarsentindo um mistério que apocalipticamente nos penetra. 

 

   Ao lermos o capítulo 19, Princesa de mim, vimos com minúcia o exterior aparente dos atos e dos factos, e podemos imaginar os rostos dos presentes, mas também sentimos o que tantos silêncios nos dizem da perplexidade e do sofrimento anímico das pessoas. É uma reportagem.

 

   Mas o capítulo 20 "apenas" interpela o íntimo dessa gente e de nós mesmos perante a revelação e manifestações posteriores de um facto único, que ninguém presenciou nem podia presenciar: a Ressurreição do mesmo Jesus que víramos morrer e ser sepultado. É um apelo à metanoia.

 

   Pois muitas vezes pensossinto que uma coisa é a nossa compreensão, outra será o poder de Deus. Aliás, este nem sequer poderá bem ser o que por poder entendemos. Tenho para mim, desde a minha mais tenra adolescência, que o poder de Deus não é qualquer faculdade de impor sem interrogar, de obrigar sem consulta.  Antes me soa como um apelo, uma chamada a sair dos meus limites, para ir ao encontro do que não conheço, ou ainda não sei entender. Nesse sentido se abre para mim a religião como espaço e tempo de libertação. Isto que te escrevo agora, Princesa de mim, ocorre-me neste instante como sendo aquilo que tantas vezes te disse quando te falava de me sentir simultaneamente no tempo mensurável e fora dele.

 

   O tal João Evangelista - de que não tenho foto alguma, nem sei ao certo, nem cientificamente, quem foi exatamente - é meu companheiro e irmão, sei que vivo com ele todos os dias. Confio nele porque me diz o que viu e ouviu presencialmente, e assinala o que ouviu dizer e testemunhar. Afinal, todos nós, seres humanos e limitados, somos honestamente assim: até os cientistas vão tendo cada vez mais de considerar o adquirido por quem os antecedeu. O início do capítulo 20 do conto evangélico de João refere: No primeiro dia da semana, Maria Madalena chega cedo ao túmulo, estando ainda escuro. E vê a pedra retirada do túmulo. Então desata a correr e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e diz-lhes: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram!» Saíram então Pedro e o outro discípulo e foram até ao túmulo. Corriam juntos, e o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo; e, espreitando, vê depostos os panos. Porém não entrou. Chega então também Simão Pedro, seguindo atrás dele, e vê os panos depostos, e vê que o sudário, que estivera à volta da cabeça dele, não jazia juntamente com os panos, mas dobrado à parte em lugar próprio. Então o outro discípulo, o que chegara primeiro ao túmulo, entrou e viu, e acreditou. Ainda não  tinham entendido o passo da Escritura, segundo o qual ele tinha de ressuscitar dos mortos. Os discípulos voltaram de novo para junto dos seus.

 

   Maria Madalena ficou de pé a chorar no exterior do túmulo. Enquanto chorava, espreitou para dentro do túmulo e viu dois anjos sentados, vestidos de branco, um à cabeça, outro aos pés, no sítio onde jazera o corpo de Jesus. E eles dizem-lhe: «Mulher, porque choras?» Ela diz-lhes: «Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram». Enquanto ela dizia isto, voltou-se para trás e vê Jesus de pé, e não sabia que era Jesus. Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus : «Maria!» Ela, voltando-se, diz-lhe em hebraico: «Rabbouni!» (o que quer dizer Mestre). Jesus diz-lhe: «Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmão e diz-lhes: "Subo para meu Pai e vosso, Deus meu e Deus  vosso.»

 

   A cena do "Noli me tangere" encontra-se largamente representada na iconografia cristã. A tradução literal da expressão latina da Vulgata será "Não queiras tocar-me". O corpo de Jesus ressuscitado é já um corpo glorioso, isto é, incorruptível, intocável. Não é como o de Lázaro  -  que Jesus tirara do reino dos mortos para devolver à vida terrena - um corpo restituído à animação da sua própria carne, como que apenas arrancado à dormição em que se encontrara. O Corpo de Cristo está já noutro mundo, onde nem sequer os seus discípulos poderão ir agora, e no mundo presente é o Corpo Místico que formam, na Eucaristia comum, aqueles que acreditam e se reconhecem pelo amor fraterno. Por isso mesmo se celebra, na Eucaristia, o Mistério da Fé como anúncio da morte, proclamação da ressurreição e esperança no regresso do Senhor Jesus, na hora em que todos seremos glorificados com ele.

 

   Mas não deixa de ser curioso que, no mesmo capítulo 20 de João, a seguir ao relato do "Noli me tangere!" e do anúncio feito por Maria Madalena, bem como da presença inesperada de Jesus que surge no meio dos seus discípulos reunidos numa casa totalmente fechada (pois tinham medo dos judeus), atravessando barreiras físicas e apresentando o seu corpo glorioso, seja também narrado o episódio da permissão dada a Tomé, uma semana depois, de tocar as feridas visíveis no mesmo corpo, para que, assim confirmando a sua realidade, acredite que é o corpo ressuscitado que tanto padecera... «Meu Senhor e meu Deus!» - exclama o desconfiado discípulo. «Porque me visteacreditasteBem aventurados os que não viram e acreditaram».

 

   Tal como quem não experimentou ainda a sua morte, não sabe o que esta é e apenas pode sofrer com a de outros, assim também quem ainda não ressuscitou terá de se contentar com acreditar na Ressurreição e esperar a sua. O próprio Tomé, mesmo depois de ter visto e tocado, terá tido que acreditar. A divina misericórdia interroga a nossa esperança.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira