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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em todos os passados anos da minha vida, se me têm misturado na alma sentimentos antigos e, com esses, outros sempre novos também, mais tradicionais uns, mas todos partilhados, que a conjunção especial dos astros natalícios me faz reviver por alguns dias (duas semanas) em que sucessivamente celebro a Encarnação de Deus como anúncio inicial da Boa Nova aos pobres que todos somos, o tempo novo do Ano Bom, e a data encanecida do meu próprio nascimento.

 

   Não sei já, Princesa de mim, se acaso alguma vez te confessei a profunda comunhão em que, neste período que é marco da contínua viragem dos nossos anos contados, me reúne aos vivos que já morreram e aos que ainda por cá andam, quiçá em busca dos primeiros sons dessa música que o Gerôncio de Newman - lembro-me de te lo ter referido em carta recente - torna imortal:

 

                            De tal música ao certo não sei dizer
                            Se a ouço, toco ou lhe provo os tons...
                            É só melodia que subjuga o coração!

 

    Eis que a escuto, pelo coro da nossa humana comunhão, no secreto âmago de mim, aí onde ela, a tantas vozes cantada, faz jorrar, em misterioso murmúrio, um choro tão manso como a alegre e silente ternura da vida.

 

   Sei bem - e tu tem-lo visto - que sou bastante emotivo, comovo-me inesperadamente em circunstâncias pouco propícias ao surto de manifestos do coração. Na verdade, pouca ou nenhuma gente entende o porquê e ali daquela vibração que, de tão propriamente íntima, se deveria manter silente e encoberta. Mas também sei que, afinal, nada então se revela, nem coisa alguma transparece. Choro breve, soluço, pausa ou hesitação, tudo isso apenas serve para marcar um tempo de usufruto interior de um bem maior, que nenhuma medida comporta nem qualquer aparição poderia desenhar. Quase sempre, quem assiste à minha perturbação não alcança esse milagre de ser, ele próprio também, parte duma comunhão mais profunda da nossa humanidade.

 

   Nunca é um pormenor, nem qualquer fait divers, a fazer vibrar qualquer corda invisível do meu pensarsentir. Antes é o apocalipse da humanidade comum, quando algo ou alguém consegue levar-me à clareza do invisível ou à palavra que está no princípio de todas as coisas. Sou pouco sensível às retóricas, e certamente insensível às imagens e ditos que, sem qualquer repouso meditado, nos são lançados por aqueles muitos que se vão treinando nos artifícios impressionistas da insinuação, do poder de influenciar ou, de modo mais chão, na "conquista de audiências". O que me anima no convívio com Bach, Mozart ou Stravinsky, num fado, balada, morna ou cante alentejano, Fra Angélico, Fujita, Amadeo, Jiro Taniguchi ou Kandinsky, Homero, Madame de la Fayette, Camões, Sophia, Shakespeare, Frei Luís de Sousa, Saramago ou Bernanos, não são rodriguinhos, é tão somente esse encontro profundo na comunhão da mesma condição humana. Menciono estes, cujos nomes me ocorrem no momento em que te escrevo, poderia falar-te de muitos outros, quiçá desconhecidos para ti ou, mesmo, já por mim pouco lembrados. O importante, nestes tantos encontros que me trazem as músicas, artes e letras que me acompanham pelos caminhos e estâncias da vida, é sobretudo o reconhecimento de mim também na própria diferença, como se olhares tão diversos sobre a mesma comum humanidade e sua circunstância me transformassem em próximo, no sentido mais evangélico do termo, isto é, no eu que sou ontologicamente humanidade inteira.

 

   A passagem de ano, ou seja, este passo presente do passado para o futuro que logo vai também passando, percorri-a escutando os cinco discos antológicos da morna cabo-verdiana, editados sob direção do professor universitário e antropólogo Manuel Brito-Semedo, por ocasião da Candidatura da Morna a Património Cultural da Humanidade. Aconselho-te a escuta deste documento musical excecional, apoiando-a ainda na leitura da poesia das líricas cantadas e dos textos de comentário e circunstância. Agora mesmo, neste dia de Ano Bom, pergunto-me porque tanto me comovem (mexem comigo mais intima do que fisicamente) estas músicas, em que portugueses, brasileiros e outros poderão surpreender sons, frases e entoações, que lhes serão familiares em música da sua própria terra, e eu encontro ainda lembranças de cantares (até de missa!) que ouvi em ilhas perdidas na imensidão do Pacífico.

 

   E respondo que, feitas análises e contas, talvez não se deva a minha profunda emoção a qualquer efeméride passada, a parecenças ou gosto. Antes - perdoa-me, Princesa de mim, a insistência - se radicará o meu sentir no choro antigo de todos nós, nesse grito inicial das nossas vidas, que todos soltamos, no natal de cada um de nós, a querer pronunciar aquela Palavra que, já no princípio de tudo, animou e se fez nossa humanidade, e para sempre veio habitar entre nós. 

 

   Em cartas novas hei de voltar a falar-te de Natal e do cante alentejano que, em registo feito pelo professor Joaquim Roque, em 1948, da canção entoada pelo Coro Dr. Bento Ferreira do Amaral, na Papelaria Nova Esperança, Beja, tão lindamente nos lembra o princípio do anúncio da Boa Nova aos pobres. Também o cante é já, com o fado e a morna, Património cultural da Humanidade. Hoje, para terminar esta, traduzo-te apenas um texto de apresentação de uma história aos quadradinhos de Cyril Pedrosa, francês luso-descendente, editada pela Air Libre (Paris, 2011) e intitulada Portugal:

 

   A vida é cinzenta. Simon Muchat [o protagonista, luso descendente também], autor de bandas desenhadas, tem avariada a inspiração e vai perdendo sentido à vida. Convidado a passar alguns dias em Portugal, encontra por acaso aquilo de que não tinha vindo à procura: os odores da infância, o canto dos risos de férias, o calor luminoso duma família esquecida - quiçá abandonada. Qual é o mistério dos Muchat? Porque se sentirá Simon como se viesse de nenhures? E porque vibrará ele com os sons dessa língua estrangeira, sem que perceba patavina? Respostas e mais interrogações esperam-no no decurso dessa viagem regeneradora...   ... Na fronteira da autoficção, com humor e vivacidade, Cyril Pedrosa assina uma narrativa essencial sobre a busca da identidade.

 

   Ocorre-me, Princesa de mim, esse passo de L´Être et le Néant em que Jean-Paul Sartre diz algo como " ser humano é desejar ser Deus"... Isto, dito e escrito por alguém que era ateu confesso e definia o existencialismo como humanismo - já que, para ele, a existência humana é o devir do ser humano, pois é nessa existência que nos vamos fazendo (donde a importância fulcral da liberdade) -, sublinha, a meu ver, a essencialidade própria da busca da identidade.

 

   E Emmanuel Levinas, filósofo judeu, nascido na Lituânia em 1906, estudante na Alemanha, introdutor da fenomenologia husserliana em França, país onde se naturalizou em 1930 e foi universitário, definia a diáspora como resignação, un renoncement foncier à une destinée, tal como não considerava Israel como a terra prometida, porque as escrituras nos levam bem mais fundo do que o solo...   ...A pessoa é mais sagrada do que uma terra. Para esse também migrante e judeu sempre, que se tornou amigo de São João Paulo II, a experiência fundamental da metafísica é o encontro do outrem, pelo que a ética é a filosofia primeira.

 

   A questão das migrações humanas e, sobretudo, do acolhimento e convivência do outro (do nosso próximo, assim devemos pensar) é fundamentalmente a interrogação da nossa identidade de comum humanidade. Quando pessoas em situações de abandono ou desespero de causa atravessam aflições e privações, muitos riscos, para irem bater à porta de outros seres humanos, não vão movidas apenas por fatores circunstanciais ou necessidades imediatas e urgentes. Na verdade, partem em demanda da igual dignidade que as identifica como seres humanos. E a nós também, pois não há humanidade possível sem comunhão.

 

   Neste quinto de janeiro, ao cumprir-se mais um ano de mim por cá, fecho esta carta para ti, Princesa, companheira de memórias cheias de vozes e de silêncios. Bem hajas!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Achei, num destes meus passeios por livros e mudanças de ares, um trecho curioso de uma homónima de minha Mãe, Germaine Necker, mais conhecida por baronesa ou Madame de Staël-Holstein, constante do seu De la Littérature, publicado em 1800:

 

    A glória dos grandes homens é património de um povo livre. Depois da morte deles, todo o povo  herda. O amor da pátria é só composto de lembranças.

 

   Aconteceu-me esta manhã, a 4 de dezembro de 2019, quando sozinho começava, pelo sexagésimo ano seguinte à morte de meu Pai, a celebrar a sua memória, neste dia do seu aniversário natalício. Assim vou vivendo estes meus hábitos de perenes encontros.

 

 Assim também, com sucessivos obituários, se vai enchendo este meu calendário litúrgico, deixando-me a cismar que à crescente falta de dias livres de celebrações próprias, chamados feriais, corresponderá certamente uma qualquer contagem decrescente do meu tempo presente. Não me perturba, até me faz sorrir com aquela pontinha de ironia que, graças a Deus e sem mérito meu, me foi apimentando o paladar da vida. Mas também receio que as minhas repetidas elucubrações à volta dos temas da presença e da ausência, do ser que, para além da sua circunstância - em que se percebe como relação -, ainda não sabe bem o que é, a não ser que "está p´ràqui", te possam fatigar a leitura destas cartas. Apesar da fé que sempre nos alimenta, porque, na humildade da nossa condição, e conhecendo a nossa ignorância, aguardamos o Apocalipse, a revelação final de Quem é tudo em todos. 

 

   Entretanto, lá se vão paulatinamente convertendo e sobrevivendo em lembranças os nossos afetos, transformando os nossos convívios em contas de um rosário de saudades - que se rezam baixinho e na nossa alma ganham uma grandeza nova. Sem darmos bem por isso, vamos nós também trilhando já caminhos de outra vida e entrando num não-espaço-nem-tempo, absorvidos por poderosa luz que nos acende olhares de infinita intimidade. Sem sabermos bem por onde e aonde vamos, estamos certos de percorrer o itinerário que nos conduz ao segredo do nosso encontro. 

 

   E aqui recordo agora um poema de São João da Cruz, que traduzi e te enviei há poucos anos atrás, e o blogue do CNC publicou no 1º de janeiro de 2017: Noite Escura da Alma. Afinal, talvez nos fale desse percurso que vamos fazendo pela margem calada da nossa vida. Fugindo da noite escura para a claridade adivinhada de um novo dia... Mas a luz que ilumina esse caminho interior e secreto é, diz-nos o místico carmelita, a chama do coração que em nós arde, mais forte e clara que o sol meridiano. Silenciosamente irá, na noite escura, a nossa alma repousar entre açucenas. Itinerário que nos leva ao incessante convívio com esses vivos a que chamamos defuntos. Falo de convívio, e bem digo, Princesa de mim, posto que com eles também eu vou vivendo, deles recebendo o alento para operar, com os outros mais habitantes deste ainda tempo finito em que me encontro, obras de justiça e de paz que só a alegria de uma esperança comum poderá sustentar. Eis a nossa fé. A nossa comunhão.

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Muitos consideram Friedrich Hölderlin o maior poeta germânico. Pobre de mim, nunca fui adepto de tabelas classificativas de artistas, autores e suas obras, sinto-me bem melhor saboreando apenas o diálogo invisível que me abrem esses outros ares que para minha saúde respiro. O meu irmão Gaëtan, artista com mui cocegueiro sentido do humor, chegou a distribuir cartões de visita que o identificavam assim:

 

Gaëtan Martins de Oliveira
Especialista em Mudança de Ares

 

   Na literatura de língua tedesca talvez prefira Rilke, Hofmannstahl, Schiller, ou mesmo Goethe, a Hölderlin. Mas hoje, mudando de ares, caiu-me sob os olhos, no gosto e no goto, um poema do Hölderlin, intitulado Die Heimat, que começa assim:

 

Froh kehrt der Schiffer heim an den stillen Strom...

 

o qual, sem rodriguinhos, abaixo, e livremente, traduzo para ti, para contigo partilhar o que será uma faceta, um instante, da minha insistente meditação, em ano de tantas mortes de gente próxima, sobre como pensarsentir essa pertença-distância-proximidade-ausência. Aliás, ocorreu-me agora que, em língua inglesa, o verbo intransitivo to long for significa ter saudades de, ou desejar ardentemente, e o seu derivado to belong to quer dizer pertencer a... Não sei porquê, talvez por me ter vindo a aconchegar à lembrança de coisas que, ditas de muitas várias maneiras, nos dizem afinal o mesmo e por isso nos soam mais verdadeiras. Ou, quiçá, por me apetecer discordar q.b. de Hegel que, na carta a Niethammer, em 1808, pretendia que a realidade não resiste à revolução do reino das representações. Prefiro pensarsentir, com Novalis, que quanto mais poético algo for, mais real é. A arte, literária ou plástica, - creio eu - está mais junto ao real precisamente porque consegue dizer, simultaneamente, algo e o seu contrário, não exclusivamente numa perspetiva dialética, pois pode fazê-lo por tempos e modos diferentemente inspiradores e entendíveis, ou seja, a arte não tem de representar isto ou aquilo, de dizer o que é, de que se trata, surge apenas como apocalipse ou revelação das potencialidades das coisas, precisamente por catalisar as disponibilidades e os alcances da nossa escuta, do nosso olhar. Os nossos passeios pelas obras que outros partilham connosco são autênticos percursos de encontros e mudança de ares. Mesmo quando vamos ter, no século XIX, com um autor romântico alemão.  

 

A Minha Terra
Por silente corrente regressa o marinheiro,
terminada a safra nas ilhas tão distantes;
assim também gostaria eu de voltar à minha terra
se tanta riqueza colhesse quanto as dores sofridas.

 

E vós, margens queridas em que outrora fui criado,
podeis vós sossegar meus males de amor e prometer-me,
arvoredos da minha mocidade, que no meu regresso
encontrarei ainda aquele meu repouso?

 

Junto ao ribeiro fresco onde ondulações brincavam,
e ao rio em que barcos deslizavam, em breve estarei.
Bem cedo vos saudarei, e aos montes familiares
que outrora me abrigavam e eram as fronteiras

 

veneradas e seguras da minha terra, casa de minha mãe,
onde irmãos e irmãs com amor me abraçarão.
Agasalhado de carinhos, assim cuidado,
poderá enfim meu pobre coração sarar.

 

Sempre vos soube fiéis, mas também sei
como mal de amor não tem cura instantânea.
Nem há canção de embalar, que mortais cantem,
que me possa consolar, de meu peito afugentando o mal.

 

 Os deuses que nos transmitem celeste fogo,
logo também nos trazem sagrada dor.
Que assim seja. Pois assim sou eu também 
 filho da terra, feito de amor e sofrimento.

 

   Traduzi Die Heimat por A Minha Terra, poderia também ter escrito "A Pátria" ou "A Minha Casa". Qualquer delas traduz o mesmo pensarsentir a distância como proximidade, a realidade como sonho, a saudade afinal como pertença. Só em relação somos, pertencemos sempre à Terra-Mãe e uns aos outros, e ao pensarsenti-lo vamos desenhando na nossa vida um perfil, uma presença invisível, esse mistério permanente que até é tema daquele livro que o Ricardo Reis do José Saramago lê no barco que o traz para o derradeiro ano da sua vida: QUEM. Falo-te dum livro de Saramago de que tanto gosto: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Sempre que o li e releio me sinto também mais próximo desse Fernando Pessoa - de heterónimos e outros vários mundos - que tão bem ilustra como a nossa humanidade vai vivendo algures e alhures, nem sempre arribando ou dando à costa, mas certamente trazendo e levando consigo o seu berço e a sua campa, ambos sua casa e sua terra. E sonho ainda, visão íntima dessa pátria prometida onde Quem é tudo em todos.

 

   Em tão cinzento novembro terminal, escuto essa corrente silenciosa que nos leva até à saudade essencial da vida e, com Hölderlin, murmuro:

 

So käm auch ich zur Heimat, hätt ich  assim também gostaria eu de voltar à minha terra
Güter so viele, wie Leid, geerntet. se tanta riqueza colhesse quanto a dor sofrida.

 

   Outrora, já o nosso Bernardim Ribeiro contara uma vida em que, menina e moça, me levaram de casa de meu Pai. Eis um percurso de saudade, eis a nossa vida afinal. A única riqueza que nos compensa a dor é essa saudade acumulada que sustenta a fé, a fazer-nos entender o alcance duma promessa inata, cujo cumprimento é ainda invisível, porque pretende-lo, agora já, seria cativarmo-nos. Como disse o António Ferro: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto / e agora quando me sinto / é com saudades de mim. A saudade absoluta é uma porta interior aberta sobre um infinito passeio para muito além de nós. Os retratos do Gaëtan - os seus autorretratos - constroem um percurso pelo seu labirinto íntimo, são passos ou instantes de uma busca que, ainda incompleta, esgotou o seu tempo e chegou enfim ao destino em que já tudo se lhe descobre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O blogue do CNC entendeu que e reedição da carta que segue anexa à presente - e foi escrita há uns anos, e por ele publicada a 2 de agosto de 2015, quando eu, feito heterónimo, redigia correspondência de um tio meu para outra Princesa, isto é, uma Princesa dele  -  poderia ser um complemento de leitura a uma crónica do Professor Anselmo Borges, publicada, no Diário de Notícias e no mesmo blogue, a 12 e 13 do corrente, intitulada A Pena de Morte e o Inferno.  

                                                               

   Acontece que deparei com os textos que acima refiro, em certo dia desta semana (2ª de novembro de 2019) que me dera umas horas para escutar o oratório The Dream of Gerontius, de Edward Elgar, magnífica peça musical composta para um texto escrito pelo cardeal John Henry Newman, lá para finais do século XIX. O registo de que disponho deve-se, além dos três solistas (a mezzo Catherine Wyn-Rogers, o tenor Andrew Staples e o barítono Thomas Hampson), ao Staatsopernchor Berlin e ao RIAS Kammerchor, todos com a Staatskapelle Berlin, sob a direção de Daniel Barenboim. Não sei porquê - o que, aliás, me sucede com frequência -, talvez pela força da música, penseissenti a peça inteira e todos os momentos em que me envolveu, como uma e poderosa mensagem, a dizer que o valor divino do humano nos leva a celebrar a nossa vida como inesgotável oportunidade de renovação, como contínuo convite a uma conversão que sempre nos surge a ser destino nosso.

 

   Por isso mesmo há tantas maneiras de afirmá-lo e, todavia, o que diz o japonês Kenzaburo Oe, o anglo católico cardeal Newman, o tio meu heterónimo e o douto filósofo Anselmo Borges me parece indivisível na sua própria simplicidade: a vida humana, ela própria, é a quintessência da sua dignidade que se consubstancia nessa mesma vida. Nos escritos vários que nestes meus textos vou referindo ou citando, a consideração da vida humana pressupõe sempre pensarsentir que, independentemente das fraquezas e faltas de cada um, do maior ou menor poder coercivo de qualquer circunstância, a dignidade divina dessa mesma vida lhe é inata e inalienável. No Sonho de Gerôncio, ela própria é colocada já numa circunstância post mortem, em que a sua alma canta a conversão final - a pura, misericordiosa graça - como destino finalmente cumprido. Deixo-te o original inglês da lírica de Newman, acompanhado de tradução minha, feita para esta carta, apenas com alguma preocupação com encontrar palavras que nos ajudassem a meditar na nossa língua... Talvez por me ter lembrado de que me ditar poderia querer significar dizer-me, a mim mesmo, as palavras que iluminam.

 

   O sonho de Gerôncio é uma experiência onírica às portas da morte, uma vida que se redescobre na outra margem da corrente de Caronte - como se morrer fosse acordar de novo e nenhuma outra esperança ou simples expectativa pudesse ter sentido, além do cumprimento da promessa inicial da vida como destino. Atentar contra uma vida humana, seja como for, é apenas soberba loucura. Qualquer vida está recolhida no segredo de Deus.

 

   A abrir a parte segunda do oratório, a alma de Gerôncio canta:   

 

I went to sleep and now I am refreshed,
A strange refreshment : for I feel in me 
An inexpressive lightness, and a sense
Of freedom, as I were at length myself
And never had been before. How still it is!
I hear no more the busy beat of time,
No, nor my fluttering breath, nor struggling pulse;
Nor does one moment differ from the next
This silence pours a solitariness
Into the very essence of my soul;
And the deep rest, so soothing and so sweet, 
Hath something too of sternness and of pain.

 
Another marvel: someone has me fast 
Within his ample palm; 
A uniform
And gentle pressure tells me I am not
Selfmoving, but borne forward on my way.
And hark! I hear a singing ; yet in sooth
I cannot of that music rightly say  
Whether I hear, or touch, or taste the tones.                         
Oh, what a heart subdoing melody!

 

Fui dormir, dormi, e fiquei fresco,
Com bem estranha frescura: pois então me senti
Tão indizivelmente leve e livre  
Que nem de me cuidar soía,

Como dantes. Mágico silêncio este!
Já não ouço o reincidente bater do tempo,
Nem o meu respirar vibrante  e agitado pulso;
Já nenhum momento é diferente do próximo.
Este silêncio derrama soledade
Na quintessência da minha alma.
E a repouso tão carinhoso e doce
Não falta severidade e pena.


Maravilha nova: alguém me agasalha

Na palma da sua mão;
Uma pressão
Uniforme e gentil diz-me que não vim por mim
Mas que, a caminho, me trouxeram para     aqui.
Escutai bem! Ouço cantar; mas, na verdade,
De tal música ao certo não sei dizer 
Se a ouço, toco ou provo os tons.
É só melodia que subjuga o coração!

 

   Tal como, tantas vezes, no decurso desta vida, nos vemos perdidos, assim talvez seja ao descobrirmo-nos do lado de lá. Mas algo nos dirá que não chegámos ali por nossa auto moção, e que uma qualquer música, inaudita ainda, nos encherá e guiará o coração.

 

Camilo Maria

                

PS.- Queres então abrir o texto que partilho?

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

Sandrine Piau.jpg

 

Minha Princesa de mim:

 

     Habituei-me a escutar a soprano francesa Sandrine Piau cantando árias de Haendel e Mozart, e revejo com alguma frequência o registo videográfico da ópera Alcina, em que o seu desempenho da personagem com o mesmo nome me comove profundamente. Esta manhã descubro-a noutras interpretações, que me encantam mais do que surpreendem : em canções de vários compositores franceses dos séculos XIX e XX, em que se faz acompanhar por Le Concert de la Loge, dirigido, ao violino, por Julien Chauvin. Mas não será deste álbum  -  que a editora Alpha intitulou Si j´ai aimé e publicou este ano  -  que te falarei aqui e agora. Esta presente carta minha vai curta, quero tão somente deixar-te o texto original e a minha versão portuguesa (que é muito simples e não pretende ser criativa) do poema de Victor Hugo -  Extase  -  que, posto em música pelo meu homónimo Camille Saint-Saëns, abre esta colectânea. Não o faço por grande amor ao romantismo, ou a Victor Hugo em especial, mas porque bebi, no canto deste poema, um pensarsentir tão simples, tão lindo e tão forte  -  que logo o reconduzi à leitura desse passo do Livro da Sabedoria que nos é proposto neste primeiro domingo de Novembro, quando já se anuncia um tempo novo e nos vamos aconchegando à misteriosa ternura do Natal que vem aí. Vai este passo do capítulo 11 para o 12 :

     Perante Ti, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho na manhã. De tudo Te compadeces, porque és omnipotente e não procuras ver os pecados, mas o arrependimento. Amas tudo o que existe e não odeias nada do que fizeste...   ...Tu amas a vida, Senhor...   ...o teu espírito incorruptível está em todas as coisas...

     Assim me ocorreu como poderia ter sido Victor Hugo inspirado quando disse aos anos rápidos : A minha alma tem mais chama do que vós cinzas! / O meu coração mais amor do que vós esquecimento! Vamos então ao Extase:

 

          Puis-que j´ai mis ma lèvre à ta coupe encore pleine;            Porque aos lábios levei o teu cálice cheio;

          Puisque j´ai dans tes mains posé mon front pâli ;                 E em tuas mãos pousei meu pálido rosto;

          Puisque j´ai respiré parfois la douce haleine                         Porque fui respirando o hálito suave

          De ton âme, parfum dans l´ombre enseveli;                          Da tua alma, perfume em sombras amortalhado;

 

          Puisqu´il me fut donné de t´entendre me dire                         Porque tive a dita de te ouvir dizer

          les mots où se répand le coeur mistérieux;                             palavras em que se verte o coração misterioso;

         

          Puisque j´ai vu pleurer, puisque j´ai vu sourire                        Porque vi chorar, já que vi sorrir
         

          Ta bouche sur ma bouche, et tes yeux sur mes yeux ;            A tua boca na minha, os teus olhos nos meus;

 

          Puisque  j´ai vu briller sur ma tête ravie                                   Porque vi cintilar e encantar-me a cabeça

          Un rayon de ton astre, hélas! Voilé toujours;                           Um raio do teu astro, que triste fado encobre;

          Puisque j´ai vu tomber dans l´onde de ma vie                         Porque vi cair na onda da minha vida

          Une feuille de rose arrachée à tes jours                                   Uma folha de rosa arrancada aos teus dias

          Je puis maintenant dire aux rapides années :                          Posso agora dizer aos anos rápidos :                     

          - Passez ! Passez toujours! Je n´ai plus à vieillir!                    - Passai! Passai quanto quiserdes, que velho não ficarei !

          Allez-vous-en avec vos fleurs toutes fanées;                           E passai levando as vossas flores todas murchas, pois

          J´ai dans l´âme une fleur que nul ne peut cueillir!                    Trago na alma uma flor que ninguém pode arrancar !

          Votre aile en le heurtant ne fera rien répandre                         Nem lhe tocando poderá vossa asa entornar

          Du vase où je m´abreuve et que j´ai bien rempli.                     O vaso que me mata a sede e trago bem cheio.

          Mon âme a plus de feu que vous n´avez de cendre                Tem mais chama a minha alma, do que vós tendes cinzas          

         Mon coeur a plus d´amour que vous n´avez d´oubli!                Meu coração mais amor do que vós esquecimento !

 

     O dom do amor, seja como ele for, é a primeira graça de Deus. E o poeta, qualquer poeta, é, na sua alma, um pastor que, como os bem aventurados puros de coração, durante toda a vida conduz, sem cansaço, medida ou duração, pelos longos caminhos da transumância, essa inicial e essencial memória da infância.

     Nesta terça feira, 5 de Novembro, recebi um livro escrito pelo meu amigo José Manuel de Braga Dias:  As Cores do Tempo (Causa das Regras, Oeiras, Outubro de 2019). Nele achei muitas coisas bonitas, talvez por me saberem a sentidas verdades de gente. Coisas que afinal todos partilhamos, como estas:

 

           ...Se não fossem os meus netos

           Não recordaria como fazer contas

           Juntar letras, criar palavras,

           Alinhar palavras para construir frases

           Juntar e dividir frases para fazer um conto

           Que me recordasse alguém que também foi menino

           E gostava de inventar a felicidade

           Nos escritos e palavras que criava.

 

   Bem hajas, Zé Manel!

 

     Camilo Maria                

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta sexta feira grisalha e um tanto quanto chuvosa e ventosa em que, neste ano de 2019, aterrou entre nós a celestial festa de Todos os Santos, as minhas ferrugens obrigaram-me a participar pela televisão na missa celebrada na Igreja de Santa Beatriz da Silva, em Lisboa. Eis um dia de alegria muito íntima - tão íntima que me faz chorar - e todos os anos a comemoro com o todo de mim, pois que é memória não de mortos mas de vivos, alguns dos quais foram habitantes do meu sangue antigo, muito antes de eu mesmo saber que por eles existo, outros da minha vida remota já ou próxima ainda, das minhas casas, amizades e amores, encantos e desilusões, inquietações, anseios e interrogações... E mais tantos, tantos, com quem partilhei ou quis partilhar a minha fé, sem contar com todos os de mim ignorados companheiros, que creio sempre amigos, não sei, mas necessariamente comungantes da mesma humana condição.

 

   Gosto deste amor universal que nos abraça na festa dos vivos, e tão solar e feliz me faz sorrir em dia aparentemente cinzento: reúno-me com a vida que não vejo agora -  com a dos que, incluindo meu irmão mais novo, saíram este ano da nossa vista -  e essa miríade de incógnitos de mim, agora junta, na memória presente do amor eterno, à de todos aqueles mais próximos cujas lembranças, dia após dia, me povoam de afetos a alma.

 

   Eis-me assim a pensarsentir, simultaneamente, o desprendimento e o reencontro, como se estivesse em Antan, o lugar situado no meio do universo e centro dessa fábula e parábola que é o maravilhoso livro da polaca Olga Tocarczuk (Nobel da Literatura 2019), intitulado - traduzo da versão francesa - Deus , o tempo, os homens e os anjos...

 

   No centro de Antan, Deus elevou uma colina que todos os anos é invadida por uma nuvem de besouros. Por isso a gente lhe chama a Montanha dos Besouros. Porque Deus trata de criar, e o homem de inventar nomes. Mais adiante, quase a chegar ao fim do livro, a escritora conta-nos, em curto trecho intitulado O Tempo do Jogo:

 

   «No sétimo mundo, os descendentes dos primeiros homens viajaram de país em país e acabaram por chegar a um vale mirífico. "Vamos lá, disseram eles, vamos construir uma cidade e uma torre que atinja o céu, para permanecermos um só povo e não nos deixarmos dispersar por Deus..." Logo se entregaram ao trabalho, juntaram pedras e utilizaram alcatrão como cimento. Assim edificaram uma cidade imensa, no meio da qual se erguia a torre. Acabou por atingir tal altura que, lá de cima, se conseguia ver o que estava para além dos oito mundos. Quando o céu estava limpo, os que trabalhavam lá em cima faziam uma pala com as mãos - para não serem cegos pelo sol - e conseguiam enxergar os pés de Deus, tal como o corpo monstruoso da serpente devoradora do tempo.

 

   Com a ajuda de paus, alguns deles tentavam sondar o espaço acima das suas cabeças.

 

   Deus observava-os com inquietação e pensava consigo: "Enquanto forem um só povo e falarem uma só língua, só poderão agir à sua maneira... Vou confundir as suas línguas e encerrá-los dentro deles próprios. Farei com que já não se entendam entre eles. E então se levantarão uns contra os outros. E Me deixarão, a Mim, em paz." E Deus fez o que tinha decidido.

 

   Os homens dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, e tornaram-se inimigos uns dos outros. Mas guardaram a lembrança do que tinham visto. Ora, aquele que viu a cerca do mundo sofre mais do que ninguém a sua condição de prisioneiro».

 

   Já no primeiro capítulo - O Tempo de Antan - está escrito, todavia, que Antan está rodeada por dois rios: o Negro, profundo e sombrio, que se junta, no moinho, ao Branco, pouco fundo e vivo. Então se encontram os seus cursos, primeiro "lado a lado, indecisos, intimidados por essa aproximação tão aguardada". Logo se "precipitam um no outro e se perdem no seu abraço. E o rio que dali nasce já não é Branco nem Negro, mas é poderoso e faz girar sem pena a roda do moinho". Será porque os quatro pontos cardeais de Antan estão guardados pelos arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel, como nos diz o conto? Ou antes não estará Olga Tokarczuk a evocar uma revelação apocalíptica (perdoa-me a forma enfática) de São João, lida na missa de hoje? Assim:

 

   Eu, João, vi um anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em voz alta aos quatro anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus.» E ouvi o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.»

 

   Esses todos, diz-nos depois o mesmo São João, "são os que vieram da grande tribulação, cujas túnicas foram lavadas e branqueadas pelo sangue do Cordeiro."

 

   Só de pensarmos nele já nos faz bem o amor universal.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Afligido por dores insistentes - e que me vão acometendo com maior frequência - tenho todavia passado uma deliciosa manhã outonal, posto em casa e avistando os campos largos em redor, e que, aqui e ali, vão amarelecendo e despindo-se. Escuto música da Renascença e do Barroco nascente, interpretada por Il Giardino Armonico sob direção de Giovanni Antonini. Gratificante álbum este, reunindo peças de dezassete compositores, produzido e editado pela Alpha-Classics, sob o título genérico de La Morte della Ragione, claramente respigado de um verso do Cancioneiro do grande Petrarca (Canzoniere, CCXI): Reinam os sentidos, é morta a razão. Contudo, quer esta música, quer a sua ilustração por imagens de Hyeronimus Bosch, de Caravaggio, e doutros pintores dos séculos XVI/XVII levam-me a refletir sobre o ensinamento de Erasmo (Moriae Encomium, ou Elogio da Loucura, capítulo XXXVIII) sobre as duas formas da loucura (traduzo): Na verdade, há dois tipos de loucura: a primeira é a que as fúrias vingadoras fazem surgir dos infernos sempre que, soltando as suas serpentes, introduzem no coração dos mortais o ardor da guerra ou a insaciável sede de ouro... A segunda é muito diferente desta, já que é loucura filha da Loucura e, portanto, aquilo que no mundo mais desejável é. Produz-se de cada vez que uma doce ilusão do espírito liberta a alma de angustiantes cuidados e a mergulha em alegrias maiores.

 

   Haverá, quiçá, outras mais loucuras. Talvez as que são simultaneamente origem e fruto de prazeres vários, por regra geral ditos prazeres da carne. Ao contemplar, neste preciso instante, cenas do Jardim das Delícias, do Bosch, ocorre-me uma sentença de Stéphane Audeguy, escritor francês, no seu artigo sugestivamente intitulado L´Empire de l´Incandescense (Le Nouveau Magazine Littéraire, nº 21, setembro de 2019) sobre Georges Simenon, erotómano inveterado, que se gabava de ter conhecido carnalmente 10.000 mulheres. Traduzo: De facto, o jovem Simenon, aluno de padres, depressa perdeu qualquer vocação religiosa, posto que se impunha que escolhesse o seu campo em matéria da origem do mundo. Ou, mais precisamente: a partir do momento em que Simenon faz a experiência essencial dessa desordem do mundo que se chama prazer gozado, deixa de acreditar seja no que for.

 

   Gustave Flaubert, quando viajava por Itália em companhia de sua irmã Carolina e do marido desta, Émile Hamard, perturbou-se, em Génova, com a visão da Tentação de Santo Antão de Breughel, ao ponto de, em carta a seu amigo Alfred Le Poittevin, com data de 13 de Maio de 1845, confidenciar que a obra do pintor flamengo o incitara a escrever, para teatro, sobre tal tentação... ou loucura: A Tentação, de Breughel: uma mulher deitada, nua, com um Amor a um canto... Enquanto olhava para a Tentação de Breughel, chegaram um senhor e uma senhora que se foram logo embora. A expressão dos seus semblantes diante daquelas telas era algo de muito profundo como estupidez. Cumpriam um dever...

 

   Nos seus apontamentos de viagem (Notes de Voyage - Palais Balbi, à Gênes - La Tentation de Saint Antoine, de Breughel), o mesmo escritor diz mais: Ao fundo, de ambos os lados, sobre cada uma das colinas, duas cabeças monstruosas de diabos, meio vivos, meio montanhas. Em baixo, à esquerda, Santo Antão entre três mulheres, e ele a desviar a cabeça para evitar as carícias delas; elas estão nuas, brancas, sorriem e procuram envolve-lo nos braços. Frente ao espectador, mesmo na parte de baixo do quadro, a Gula, nua até à cintura, magra, com a cabeça ornada de ornamentos vermelhos e verdes, triste cara, pescoço demasiado longo e esticado como o dum guindaste, desenhando uma curva na direção da nuca, com clavículas salientes lhe apresenta um prato cheio de coloridos petiscos. Homem a cavalo num barril; cabeças surgindo do ventre de animais; rãs com braços e a saltar no chão; homem com nariz vermelho em cima dum cavalo disforme, rodeado de demónios ; dragão alado a planar, tudo no mesmo plano. Conjunto em formigueiro, grasnando e gargalhando, em jeito grotesco e arrebatado, sob a bonomia de cada pormenor. Tal quadro parece-nos inicialmente confuso, mas, depois, torna-se estranho para a maioria, divertido para alguns, algo mais ainda para outros: para mim, apagou toda a galeria em que está exposto, já nem sequer me lembro do resto...

 

   No próprio texto da Tentation de Saint Antoine, Flaubert escreve um monólogo do santo eremita, ao ler um passo da Bíblia que diz: «A Rainha de Sabá, conhecendo a glória de Salomão, veio tentá-lo, propondo-lhe enigmas». Como é que ela contava tentá-lo? Também o Diabo quis tentar Jesus! Mas Jesus triunfou porque era Deus, e Salomão graças, talvez, à sua ciência de mágico. E como tal ciência é sublime! Pois o mundo - assim me explicou um filósofo - forma um todo cujas partes todas se influenciam umas às outras, como órgãos do mesmo corpo. Trata-se de conhecer os amores e as repulsões naturais das coisas, e pô-las depois em jogo?... Poderemos então modificar o que nos parece ordem imutável?

 

   Eis a questão, Princesa de mim, que me ocorreu durante a leitura daquela afirmação do Audeguy, acima citada: a partir do momento em que faz essa experiência da desordem do mundo, que é o prazer gozado, Simenon deixa de acreditar seja no que for. Mas será assim o prazer desordem sempre e, concomitantemente, inimigo original da fé? Em cada vez que experimento e sinto prazer, será que o delicioso desabrochar dos meus sentidos é advertente sinal de rebelião e insurreição? Tal, na verdade, parece ter sido frequentemente a conclusão de muito pensamento moral e religioso. Daí a estima em que eram tidos os chamados exemplos de culpabilização, penitência, sofrimentos, sacrifícios e sevícias auto infligidos em castigo desse pecado, ou dessa fraqueza moral, que seria cair na tentação da carne, obra do diabo ou, simplesmente, razão primeira de relaxamento e desordem vital. Aliás, essas fraquezas da carne, em representações pictóricas ou literárias, são quase sempre a cedência e cadência de homens (machos) ao demoníaco poder de sedução de mulheres nuas ou fêmeas oferecidas... Tanto isto nos diz sobre a misoginia da nossa cultura, e de Santo Agostinho e o maniqueísmo... A tal ponto, que até o que, nos quadros de Breughel e doutros, nos pode parecer meramente cómico ou alegórico, se torna, nos comentários de Flaubert, numa profunda impressão de carne despida para o sexo. Pelo que me parece legítimo perguntar-nos, Princesa de mim, que obscuras razões levaram a que o prazer que Deus criou para que se fosse gerando a vida tivesse sido estranhamente "convertido" em algo abominável e digno do fogo de qualquer suposto inferno. Lê as Bem Aventuranças da Boa Nova, bem como - ainda segundo Jesus Cristo - o inquérito a que cada um de nós será submetido no dia do Juízo. Fala-se aí de sexo ou de misericórdia? 

 

   Noutra ordem de reflexões, também me pergunto porque é que o século XVIII, o das Luzes, do triunfo do iluminismo racional, terá sido, sobretudo na pátria dos filósofos, uma época tão prolífera da literatura libertina e da própria libertinagem dos comportamentos. Ordem e desordem, como as duas faces de Janus? Ou não será que um certo rigorismo moral é de per si provocador, catalisador de revoltas, ousadias e atos desordeiros? Como também poderemos pensar que, afinal, o pecado maior não estará nas fraquezas da carne, mas no orgulho do espírito, seja este religioso (iluminado pela revelação divina, tantas vezes mal entendida) ou laico (iluminado pela razão humana, tantas vezes abusiva). A primeira edição, que eu conheça, de La Philosophie dans le Boudoir ou les Instituteurs immoraux, do Marquês de Sade, data de 1795, e apresenta-se como obra póstuma do autor de Justine. O respetivo subtítulo elucida-nos de que se trata de Dialogues destinés à l´éducation des jeunes demoiselles. Isto é: uma obra, quase compêndio, de iniciação à libertinagem. Não vou comentá-la, nem observar de perto a pornografia ali descrita em cenas a que, com certeira ironia, Roland Barthes chamou "pornogramas." Mas como o livro está recheado de considerações filosóficas sobre o prazer, a liberdade, a natureza, a religião e a política, traduzo-te uma delas, referente ao filósofo Dolmancé, personagem que, provavelmente, representará Sade (como mostrarei adiante): Só sacrificando tudo à voluptuosidade é que esse indivíduo infeliz chamado homem, sem culpa de ter sido atirado para este triste universo, poderá conseguir semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Mas não esqueçamos o retrato do autor dessas afirmações: Alto e de bela figura, olhos vivos e espirituosos, mas em cujos traços também se desenha algo de duro e um pouco mau...   ...o ateu mais famoso, o homem mais imoral...   ...a corrupção mais completa e mais inteira, o indivíduo mais malevolente e celerado que pode haver no mundo... Afinal, parece que a raiz do mal estará num qualquer uso da nossa consciência. Ora, a consciência humana é um paradoxo entre a natureza, em sentido bruto, e a graça como destino. Pelo que pensossinto que os moralistas, em vez de pregarem códigos minuciosos e castigadores, talvez devessem promover a promoção das consciências da gente para a liberdade da vida.

 

   As línguas dos povos ou, melhor dizendo, a língua que o povo fala é, nos seus modos vários e evolutivos, nas suas modas vocabulares, sinal atento de como vão mudando os valores, com suas referências (a cultura), e os comportamentos das gentes. Recordo, Princesa de mim, como, há décadas atrás, ser relaxado significava ser descuidado, relapso, imoral; nos tempos hodiernos, relaxar é descontrair, procurar sentir-se bem, recuperar tranquilidade e gosto da vida. Independentemente das normas por que nos regemos, a aspiração universal do ser moral é ser feliz. Apesar de se ter enformado em igrejas e doutrinas viciadas na "delícia" da pregação e exercício duma certa "justiça imperial", o próprio Cristianismo, logo nos seus textos neotestamentários e patrísticos, ressuma a esse anseio de felicidade, gosto de viver, alegria de libertação. Este profundo e antiquíssimo impulso do ser humano para a vida (ou, como escreveu S. João, para que seja completa a nossa alegria) não deve, não pode, ser ignorado. Não te digo isto agora, Princesa de mim, em defesa e promoção de libertinagem, mas a pensar na ordem da caridade, ou progresso do amor, de que nos fala São Bernardo, o reformador cisterciense da Ordem de São Bento. Um milénio, ou quase, antes de nós. Noutro contexto cultural e não só. Mas, mutatis mutandis, e fazendo nós algum esforço de entendimento do dito na sua própria circunstância, talvez possamos animar-nos um pouco com o olhar da clemência divina sobre a nossa sempre paradoxal condição. Traduzo trechos dos Sermones in Canticum Canticorum,coisas que um monge medievo disse e escreveu sobre o poema erótico que é o Cântico dos Cânticos:

 

   O rei introduziu-me na adega do vinho e ordenou em mim a caridade (Cântico dos Cânticos 2, 4). Eis qual me parece ser o sentido literal do primeiro capítulo: em conformidade com os seus desejos, a esposa teve um interlúdio doce e íntimo com o seu bem amado e, assim que este se afastou, regressa para junto das moças. Foi de tal modo excitada e acesa pela vista e palavras do Esposo, que parece etilizada. E como as moças se espantam com tal novidade e lhe perguntam porquê, responde que não há que estranhar que ela tenha sido aquecida pelo vinho, já que entrou na adega. Eis aqui o sentido literal. Em sentido espiritual, ela também não nega estar embriagada, mas de amor, que não de vinho...

 

   A fechar esta parábola, ou enigma, não sei, chama-lhe o que quiseres, minha Princesa de mim, não resisto a traduzir-te, da versão original francesa da Bible de Jérusalem, os versículos 3, 4 e 5 da parte 2 do primeiro poema do Cântico dos Cânticos:

 

               Como macieira entre as árvores de um pomar,
               assim é o meu amante entre os rapazes.
               À sua tão desejada sombra me sentei,
               e é tão doce o seu fruto ao meu sabor.
               Levou-me à adega,
               e o estandarte que sobre mim levanta é amor.
               Sustentai-me com bolos de passas,
               reanimai-me com maçãs,
               pois que de amor desfaleço.
               Pôs o seu braço esquerdo sob a minha cabeça
               e com o seu direito me abraça.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Da releitura que vou fazendo, em vale de lençóis, de A Dance to the Music of Time, de Anthony Powell, apontei, na passada semana, uns trechos do 2º volume, A Buyer´s Market, que te traduzo:

 

   Imaginava outrora a vida dividida em compartimentos separados, nos quais introduzia, por exemplo, abstrações aos pares, como prazer e dor, amor e ódio, amizade e hostilidade, e também termos mais materiais, como trabalho e jogo. De acordo com tal conceito, aceite sem preconceito, pelo menos aparentemente, por pessoas díspares, profissão ou ofício são coisas totalmente diferentes de "lazer". Tal ilusão (posto que, mais tarde, assim vim a considerar esse ponto de vista) estava estreitamente ligada a outro conceito, segundo o qual a vida penetra indefinidamente em novas zonas de experiência, enquanto que qualquer nova relação nos introduz quase sempre num mundo desconhecido, com os seus acasos e os seus encantos. Mas torna-se claro, à medida que o tempo passa, como esses mundos ditos diferentes na realidade se aproximam, se não uns dos outros, pelo menos de um modelo comum a todos; de tal modo que, afinal, a sua diversidade - se é que ela verdadeiramente existe - acaba por parecer quase impercetível, exceto nos seus aspetos grosseiros e exteriores, e nos parece mesmo inconcebível na sua figuração antecedente, como relação de causa a efeito. Por outras palavras: quase todos os habitantes desses impérios aparentemente autónomos se revelam definitiva e estreitamente ligados entre eles. E assim, o amor e o ódio, a amizade e a hostilidade, ganham um aspeto menos nitidamente definido e parecem amiúde possuir características das quais o mínimo que se pode dizer é que entre elas há numerosas parecenças, enquanto o trabalho e os divertimentos se fundem completamente num complexo tecido de prazer e aborrecimento.

 

   Se tiveres gosto nisso, Princesa de mim, poderemos ambos discorrer sobre este trecho duma saga romanceada, completa há mais de setenta anos. Para já, creio recordar-me de que o mesmo autor disse, alhures, que quando encontramos outra pessoa, sobretudo se essa relação tiver alguma carga amorosa, nos debatemos a nadar entre duas águas: naquela em que vislumbramos a pessoa real, e na que nos promete a sua imagem ideal. [Powell não o disse tal e qual, mas assim, pobre de mim, pensossinto]. Mais ou menos opostas ou cinzeladoras, tais visões podem suceder-se, a entreter a razão, no percurso desse comboio de corda que chamamos coração, como diria Pessoa; ou, para nosso cansaço, quiçá desespero, confrontam-se entre si, sem que saibamos bem, aliás, se não irão, finalmente, cair no poço egoísta e alheio do nosso esquecimento... Seja como for, Pascal tinha razão quando teimava em que o coração tem razões que a razão desconhece. Ora, acontece ser igualmente certo que a razão teima em esconder, ao coração, as suas razões. Talvez para dele não ter que ouvir as razões que prefere obscuras.

 

   Mas, afinal, serão razão e coração assim tão diferentes ou, melhor ainda, tão dificilmente comunicantes? [Faço-te esta pergunta, Princesa de mim, numa época em que se descobrem e estudam os neurónios dos nossos intestinos...] Um exame, atento e sem preconceitos, das relações humanas talvez nos possa ajudar a entender melhor como a personalidade de cada pessoa, e a sua vulnerabilidade à mudança circunstancial, são certamente função da dialética entre aquilo que é chamado coração e o que se chama razão. Poderá tal parecer paradoxal mas, na realidade, só paradoxalmente o ser humano pensassente. Os signos do zodíaco são todos diferentes, mas todos têm, em comum, serem sinais de contradição.

 

   Começo, com intenção mais profunda, por te citar o exemplo curioso do atleta Braima Dabó, cidadão da Guiné-Bissau, que estuda em Portugal e concorreu na prova dos 5000 metros dos últimos campeonatos mundiais de atletismo. Antes de se precipitar para a meta, foi ele o samaritano que ajudou e carregou um concorrente que, exausto, caíra na pista. Comovido, não comento. Tampouco especularei sobre o caso, ou o tema, que muito respeito e melhor meditação me merece. Apenas observo que talvez seja um exemplo raro, infelizmente, duma atitude tão humana e, para quem deva assim considera-la, tão evangélica. Tal como a Manuela Silva, competentíssima economista agora falecida, procurou sempre que o percurso da sua vida se fosse aproximando cada vez mais do espírito do Evangelho, e muito conscientemente da celebração da dignidade humana - ou de filhos de Deus - na atenção e na justiça a prestar aos pobres. No muito que a vi dizer, defender e fazer, não consigo separar a obra do coração da obra do pensamento: ambos se uniam em operações de radical inspiração personalista, espiritual. Nem sempre discernível nos planos e cursos de gestão da nossa "Católica".

 

   Voltando a motivações mais prosaicas e correntes, pensossinto muitas vezes em ilusões ou confusões de amores surtas de impulsos de piedade (e carência) ou de interesse (e sujeição). Todos nós conhecemos histórias de amores e matrimónios falhados pela insistência em vincular vidas na sequência de momentos de crise ou abandono dumas, de períodos de fasto ou de fortaleza doutras. Mas a necessidade de carinho e apoio sentida por uma, e a disponibilidade de outra para prestação de socorro, ainda que possam estar na origem de duradoura relação de entrega mútua, nunca serão suficientes nem sequer necessárias à sua formação e fortalecimento. Seja qual for a graça ou gratuidade de que se revistam, essa não é a mesma que o amor conjugal ou a companhia duma vida partilhada exigem. Tal como (ou menos ainda) a conjunção de interesses patrimoniais não será necessariamente a base ou a tessitura duma vida em comum.

 

   A graça do amor humano que sustenta um casal ou uma parelha, curiosamente, estará até mais próxima da que alimenta uma vocação religiosa ao percurso duma vida entregue à contemplação orante ou ao serviço ativo de Deus. Em ambas as situações - amor humano e vocação religiosa -, o amor que se entrega é intrinsecamente gratuito, não sabe quanto custa, nem tal calcula ou pergunta. Mas na sua misteriosa origem ele não é, em boa verdade, movido por qualquer pretexto, facto ou pretensão que o impulsionem: é uma opção exclusiva e zelosa, à imagem do que Jesus tantas vezes repete, nos evangelhos, sobre a rutura radical exigida a quem deseja o Reino de Deus. Já me aconteceu interrogar-me sobre a partilha como generosidade e comunhão e, paradoxalmente, como divisão e separação. Por disparatado que possa parecer o que seguidamente digo, é verdade que o amor é partilha, no sentido de entrega e união, mas há amores, ou modos do mesmo amor, que não se podem partilhar, não por obra do diabo, daquele que divide e separa, mas por vocação do Deus zeloso, ciumento, que é o nosso. Falo, por exemplo, da monogamia do amor humano e da entrega religiosa exclusiva. [Abro aqui este breve parêntese para sublinhar o que já bastas vezes tenho repetido : o exercício, a capacidade de exercício, de serviços ou ministérios eclesiais não deveriam ser considerados nem confundidos com vocações à vida religiosa exclusiva, já que são funções comunitárias que, não só não implicam necessariamente a renúncia a condições normais da vida humana (por voto ou obrigatoriedade de castidade e pobreza, por exemplo), como ainda se realizam no seio e em serviço de comunidades eclesiais, e em comunhão visível, que exclui qualquer separação ou segmentação.]

 

   Definindo então o paradoxo que tento descrever-te, Princesa de mim, dir-te-ei que a vocação universal da condição humana é a busca da verdade, que eu aqui quero entender como a visão da unidade fundamental de todas as coisas. E afinal, pergunto-me se, no fundo, não será isso também que Anthony Powell quer exprimir no texto que acima traduzi. E ocorrem-me agora os dois primeiros parágrafos do romance da Agustina intitulado Joia de Família (primeiro da trilogia O Princípio da Incerteza). Esse primeiro capítulo chama-se, significativamente para mim, neste momento, Exame Pré-Natal: 

 

   Não se escreve melhor porque se escreveu muito. Às vezes vou surpreender nas páginas antigas assinadas pelo meu punho um tom perfeito em que a imaginação ronda como uma madrinha incapaz de envelhecer e de perder a razão. A razão é a mesma, a coberto das longas provações das deceções, da experiência, de tudo.

 

   Mas, se há um progresso na arte de escrever, ele deriva de um solitário voto de castidade talvez. De reduzir a um simples detalhe o coração humano, fora das suas obrigações de palpitações e de vida. 

 

   Acontece-me interrogar panoramas de vida social que conheço para descortinar como foi possível enaltecer tanto paixões estrondosas mas efémeras, tal como aprovar o arranjo de casamentos por interesses patrimoniais ou relacionais de famílias, com a bênção de autoridades eclesiásticas.

 

  Talvez outro parágrafo de A Dance to the Music of Time do Powell nos proponha uma reflexão consequente da proposta acima. Traduzo:

 

   No decurso da vida, certas etapas podem ser comparadas ao bilhar russo que jogamos em mesinhas verdes cujo ventre esconde, em secretas profundezas, um alçapão que cede e se fecha ao fim de, creio eu, um quarto de hora. Assim que tal alçapão funciona, as bolas brancas e a vermelha deixam de voltar ao tabuleiro para poderem ser jogadas e todos os pontos contam a dobrar. Talvez se deva ver aí um símbolo da vida humana. Por razões às vezes inexplicáveis na altura própria, ocorre que certos acontecimentos subitamente se revestem de um sentido até então insuspeito: mesmo antes de sabermos exatamente o que se passa, a vida parece finalmente ter começado para nós, e desde logo, recém conscientes de uma mudança, descemos a louca velocidade, levados por irresistível movimento, as escorregadias avenidas da eternidade.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembrei-me agora de uma frase de Umberto Eco, mas não me recordo de quando nem onde a li:

               «A galinha é um artifício de que o ovo se serve para produzir outro ovo».

 

 Eis um mote para muitas glosas. Já li algures que até Aristóteles se pronunciou sobre o dilema, e terá concluído que a galinha antecedeu o ovo. Talvez, minha Princesa de mim, concluas o mesmo, pensando que Deus criou todos os seres, especialmente os vivos, entre eles os galináceos, dando-lhes os meios necessários à respetiva reprodução... Não vou discutir tal raciocínio, mas permitir-me-ás recordar-te de que, apesar de tantos cientistas se terem debruçado sobre esse facto-questão que é a origem da vida, e terem até concluído conjunções de fatores necessários à sua emergência, ainda ninguém explicou cabalmente a partir de quê e como elas se deram... Daí discorro que, «ovistas» ou «galinhistas», ficamos na mesma. Exceto no artifício... O evolucionismo propõe que um(a) pré-galináceo(a) tenha posto um ovo, o qual, em vez de pré-galinacear, tomou as suas liberdades e abriu-se em pinto. O criacionismo fecha-se então em copas, e clama que Deus só criou a vida, sem que saibamos bem como: ovo ou galinha, que importa? Assim, qualquer aborto voluntariamente provocado será um assassínio. E de artifício em artifício irá a nossa mente peregrinando.

 

   Todavia, e não sei bem porquê, para mim foi sempre mais intrigante a questão da questão, isto é, a razão de nos interrogarmos sobre o ovo, a galinha e a vida... afinal, Princesa, sobre o que somos, donde viemos, para onde vamos. Jovem adolescente, comprei certo dia um postal que reproduzia um quadro de Paul Gauguin, pintado em Tahiti, em que a questão aparece posta pela própria inocência desnuda de corpos humanos. Comecei então a interessar-me pelo que Teilhard de Chardin investigava como La Place de l´Homme dans la Nature, isto é, por tentar perceber, não só como surgira a vida, mas como dela nascera a inteligência. Primeiro, enquanto capacidade potencial de entender e, finalmente, como estado ou condição humana, ou seja, enquanto propriamente entendimento, visão organizada, explicação da pessoa e da sua circunstância, o mundo à sua volta.

 

   Nessa altura, fiz outra leitura da narrativa do Génesis sobre a expulsão do ser humano (homem e mulher) do Paraíso. Na verdade, deveu-se tal (e tão grande) castigo à desobediência ou violação do princípio divino de não poderem comer do fruto da árvore do conhecimento, pois assim se libertariam do estado original de inocência, e se poriam a caminho de uma nova condição: a de quem terá de padecer as torturas de sucessivas interrogações para ir tentando aproximar-se de um estado, conquistado a custas próprias e já não mais inocente, de participação do entendimento divino. Lê, Princesa de mim, este saboroso trecho bíblico (Génesis, 3, 4-11), que te traduzo a partir da resposta da serpente à afirmação de Eva de que «Nós podemos comer frutos das árvores do jardim, mas não da que está no meio do jardim, porque Deus disse: "Não comereis desse fruto, nem lhe tocareis, sob pena de morte!":

 

   A serpente replicou: "Nada disso, não ireis morrer! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos e sereis como deuses que conhecem o bem e o mal". A mulher percebeu que o fruto da árvore era bom de comer e agradável à vista, e que aquela árvore era desejável para adquirirem o discernimento. Colheu um fruto e comeu. Também deu um a seu marido, que com ela estava, e ele comeu. Abriram-se então os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus. Por isso ataram folhas de figueira para fazerem tangas. Ouviram os passos de Yahvé Deus, que passeava pelo jardim gozando a brisa, e o homem e sua mulher esconderam-se de Yahvé Deus, no meio das árvores do jardim. Yahvé Deus chamou pelo homem: "Onde estás?"  Ouvi os teus passos no jardim, respondeu o homem, e tive medo porque estou nu, e escondi-me. "E quem te disse que estavas nu? Queres dizer-me que comeste do fruto da árvore proibida?".

 

   Pessoalmente, gosto de continuar a leitura bíblica deste texto bem mais adiante, já no capítulo 12 do Génesis, 1, quando se fala da vocação de Abraão: Yahvé disse a Abraão: "Deixa o teu país, a tua parentela e a casa de teu pai, pelo país que te indicarei!" Teologicamente, penso eu, pode enraizar-se, neste passo, o início do discurso bíblico da Redenção, que desde logo surge, também, como aventura humana de regresso do exílio - tema que, aliás, vai estando presente, de várias formas e narrativas, em toda a Bíblia, incluindo na voz de Jesus, quando repetidamente fala do seu próprio regresso ao Pai. Condenados a ganhar o pão com o suor dos nossos rostos, também pela procura do conhecimento, em cumprimento da nossa vocação de descobridores, nos vamos chegando à visão final do princípio da vida e do percurso da história.

 

   Pesar-nos-á, entretanto e sempre, a sucessão de ovos e galinhas que vai pautando o andamento lento, por vezes sinuoso, ou mesmo hesitante entre tantos semáforos, do trânsito da nossa aprendizagem e conhecimento. Mas não esqueçamos que a própria ciência humana é um artifício, como galinha para ovo. E até acontece não sabermos, nem tampouco prevermos, o que sairá do ovo que tal galinha põe. A evolução da nossa ciência tem fases de desenvolvimento quase linear e previsível, enquanto se vai esgotando uma opção, um método, uma tecnologia. E também tem crises, ou tempos de rutura e mutação, quando se lhe abrem outros horizontes, aproximáveis por métodos diversos, exploráveis por tecnologias novas. Em vários campos do labor científico, desde a investigação do cancro à aventura espacial. Assim continua interrogando o pensarsentir humano, e será, quiçá, no tempo, o nosso modo de perseverar no ser que somos. A ciência não nos dá, creio que jamais dará, o ser, mas vai mantendo em andamento, de ovo para galinha e de galinha para ovo, este misterioso aparelho do nosso entendimento. É por fazê-lo que muitos cientistas se abrem à contemplação do mistério, aqui entendido como realidade presente no nosso horizonte, e que incessantemente interrogamos sem por agora chegarmos à resposta final, isto é, à que plenamente seja certeza que nos satisfaça.  Por aí também poderemos perceber que nenhuma religião consegue ser fábrica de certezas definitivas, mas que a fé pode alimentar as forças do nosso percurso em busca da verdade, por quanto possa ser esse sustento das coisas que hão de vir. A fé - aquela que nos anima de contemplação e perguntas e torna ser crente mais estimulante e laborioso do que ser ateu. A famosa frase «nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi» não está errada, está certa - mas também não serve de critério epistemológico. Tal como pretender-se que «ser cristão (e, acrescento eu, outro crente ou agnóstico ou ateu) é um risco e ser humano um grande risco» é uma banalidade pretensiosa, já que a condição humana é, evidentemente, uma condição inata e involuntária, enquanto qualquer opção religiosa ou filosófica, como todas as orientações que tomemos na vida, são opções pessoais e, nessa medida, arriscadas. Aliás, em qualquer caso, não se podem sobrepor os motivos: posso declarar-me cristão por receio ou temor, por tradição, educação ou necessidade de certezas abonadas, como por livre escolha de um caminho de descoberta. E todas essas opções, como todas as outras, são um risco assumido, nunca podem ser uma condição imposta.  Aqui e agora, a nossa inteligência padece das suas próprias limitações, e das da sua circunstância. Habitando o tempo e o espaço, é posta a funcionar no e com o mensurável. Assim me parece, atrevo-me a dizê-lo, um artifício natural - o qual é, evidentemente, condição paradoxal. Mas, na verdade, discorremos necessariamente no tempo e no espaço, categorias mentais artificiais que, todavia, surgiram como indispensáveis ao funcionamento intelectual do ser humano naturado. Ora, no infinito, como na eternidade, nem tempo nem espaço fazem qualquer sentido, pois apenas a imensidão será medida certa. Quando ouço falar de vida eterna - ou da sua negação - pensossinto sempre que, quer a imaginemos como este mundo que conhecemos finalmente despido de todo o mal, quer como fim definitivo de todos os nossos horizontes atuais, nos esquecemos, nessa fé ou na sua negação, de que a vida eterna não tem duração nem limite, habita algo que a nossa inteligência atual não é capaz de compreender: o Reino de Deus, já Jesus nos dizia, não é deste mundo, porque é imenso. E imenso quer precisamente dizer sem medida.

 

   A talho de fouce, recordo, Princesa de mim, como aquele dito de Jesus a Pilatos, que o interrogava, tem sido - até por muitos católicos - interpretado como se não enquadrasse neste mundo o Reino de justiça, amor e paz, reservado para o "outro mundo". Mas a Boa Nova ensina-nos que só neste tempo e nesta hora nos é dada a oportunidade de praticar esse amor do próximo que, de acordo com os relatos evangélicos das bem-aventuranças e do juízo final, será o critério de entrada de qualquer de nós no Reino do Imenso onde, sem constrangimentos, só a Vida está e, finalmente, é. Aliás, a esta carta que, alegremente encetada como glosa a uma frase do Umberto Eco, acabei por levar às portas de uma meditação especulativa, falta acrescentar a funda impressão, que já tantas vezes te confidenciei, em mim aberta e em mim deixada por pensarsentir, no caso da humana vida e morte, como entre esta e a vida que temos não há que procurar nem ovo nem galinha : ambos intimamente se confundem. Na verdade, a vida só nasce da morte depois da morte da vida, posto que, no seu início terrenal, esta é transmitida por outra vida. Ou, quiçá, em razão da necessidade fatal de gerar vidas que possam suceder a outras mortes futuras, já que também só neste mundo se faz história. Lembro sempre a assertividade de Georges Bataille: L´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort... E, afinal, não poderemos nós dizer, parafraseando o começo do Evangelho de S. João, que no princípio era a Vida ? Noutra carta, talvez contigo me interrogue sobre quem nasce primeiro: se o beijo que o revela, ou o amor que o dá. Por alguma razão muitos de nós toda a vida se recordam do seu primeiro amor, do primeiro beijo. E alguns sussurrarão o refrão daquela tão simples canção do Georges Brassens: Jamais de la vie / on ne l´oubliera / la première fille / qu´on a pris dans ses bras... Foi esse beijo que deu vida ao amor, ou o amor que acendeu o beijo?

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

           

Minha Princesa de mim:

 

    Hoje em dia, quando tanto se apregoam - sobretudo em Portugal - cultores sentimentalistas do que chega a pretender ser "uma exegese poética" da Bíblia (?), diverte-me evocar um subtítulo da obra de Umberto Eco que te referi: São Tomás e a liquidação do universo alegórico. E até te traduzirei uns trechos desse autor, sobretudo uns que me parecem ajudar à diferenciação entre simbologia e "liberdades poéticas" (título, aliás, dum poema do Saramago).

 

   Interroga-se São Tomás, em primeiro lugar, sobre a licitude de metáforas poéticas na Bíblia, concluindo pela negativa, visto que a poesia mais não é do que «infima doctrina» (Summa Theologiae, I, 1, 9): Poetica non capiuntur a ratione humana propter defectus veritatis qui est in eis. (A poética escapa à razão humana pela falta de verdade que nela está - Summa Theologiae, 1-11, 2 ad 2). E comenta Umberto Eco: Tal afirmação não deve todavia ser entendida como um rebaixamento da poesia, nem como definir-se o ato poético, como na terminologia do século XVIII, enquanto «perceptio confusa». Antes se trata de reconhecer à poesia o direito de figurar entre as artes (isto é, a sua qualidade de «recta ratio factibilium»), sem deixar de admitir, por outro lado, que essa operação - esse «facere» - permanece inferior, por natureza, ao depurado conhecimento que nos trazem a filosofia e a teologia. A Metafísica de Aristóteles ensinara a São Tomás que as tentativas de efabulação dos primeiros poetas teólogos tinham constituído uma maneira ainda infantil de tomar conhecimento racional do universo. Na verdade, tal como todos os pensadores escolásticos, ele não sente qualquer interesse por uma teoria da poesia: assunto bom para especialistas de retórica, que ensinavam na Faculdade das Artes e não na Faculdade de Teologia. Quanto a si, São Tomás foi poeta (e poeta excelente); mas em todas as páginas em que fala de conhecimento poético e de conhecimento teológico, ele nunca se desmarca de um tipo de oposição canónica, nem se refere à maneira dos poetas como algo para além de simples termo de comparação (que não é objeto de análise).

 

   A dado passo do trecho dos seus Scritti sul Pensiero Medievale, sobre O Alegorismo nas Escrituras, Umberto Eco aconselha-se com Henri de Lubac - grande teólogo jesuíta, contemporâneo e amigo do dominicano Yves Congar, com quem, aliás, trabalhou em tempos do Concílio Vaticano II e foi igualmente feito cardeal por João Paulo II; mais recentemente foram ambos lembrados pelo papa Francisco que, nesse período de renovação da Igreja, acompanhou, como discípulo, a obra deles. Recorrendo a Henri de Lubac, sobre o modo expressivo e cognitivo medievo, Eco escreve (traduzo):

 

    Na sua tentativa de contrariar a sobreavaliação gnóstica do Novo Testamento em detrimento do Antigo, Clemente de Alexandria estabelece uma distinção e uma complementaridade entre ambos, diligência que Orígenes aperfeiçoará ao proclamar a necessidade de uma leitura paralela das duas escrituras. O Antigo Testamento é esboço do outro, e nele se precisa a letra cujo espírito o Novo encerra. Ou, para falarmos em termos de semiótica, é a expressão retórica do que, no Novo Testamento é o conteúdo. Por sua vez e parte, o Novo Testamento contém uma significação figurativa, já que é promessa de acontecimentos por vir. É com Orígenes que nasce o «discurso teologal», um discurso que deixa de ser - apenas e tão somente - discurso sobre Deus, para ser também sobre a sua Escritura.

 

   E é assim que já desde Orígenes se começa o ouvir falar de sentido literal, de sentido moral (psíquico), e de sentido místico (pneumático). A partir daí se constitui a tríade que associa o literal, o tropológico e o alegórico, que nos conduzirá progressivamente à teoria dos quatro níveis de significação da Escritura: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico.

 

   Cabe lembrar-te aqui, Princesa de mim, o título da monumental obra de Henri de Lubac: Éxégèse Médiévale: les quatre sens de l´Écriture (Aubier, Paris, 1959-1964). Esta 1ª, como todas as outras edições seguintes, hoje praticamente esgotadas.

 

   E vou levar-te, por Umberto Eco (agnóstico já quando escreveu a sua tese de doutoramento sobre São Tomás de Aquino), ao dominicano patrono da nossa teologia. Não seguiremos pelo caminho da análise mais profunda da evolução do pensamento medieval sobre os quatro sentidos da Escritura, surpreenderemos um momento revelador do foco e do rigor aquinenses.   

 

   Eco considera que São Tomás admite ser normal as Escrituras apresentarem-nos realidades divinas e espirituais - precisamente porque estas ultrapassam a nossa compreensão - sob o aspecto de coisas corpóreas: conveniens est sacrae scripturae divina et spirituali sub similitudine corporalium tradere (Summa Theologiae, I, 1,9). Quanto à nossa leitura do texto sagrado, Aquino diz que devemos procurar o seu fundamento literal e histórico: na verdade, tratando-se de história sacra, o literal é histórico, pois que relata um acontecimento compreensível (a saída dos Hebreus do Egipto, p. ex.) e este determina a narrativa. Illa vero significatio qua res significatae per voces, iterum res alia significant, dicitur sensus spiritualis, qui super litteralem fundatur, et eum supponit -  "chamamos sentido espiritual a essa forma de significação pela qual as coisas significadas por meio de palavras vão, por sua vez, significar outras; tal sentido espiritual assenta no sentido literal, e pressupõe-no" (Summa Theologiae, I, 1, 10, resp.)

 

   E Umberto Eco, percebendo que São Tomás designa por sensus spiritualis os diversos supersentidos que podem ser atribuídos a um texto, também entende que o Aquino vai direito à questão fulcral de interpretar o sentido literal como sendo precisamente a intenção do autor, ou seja, o sentido quem auctor intendit. E comenta então: Tal precisão é da maior importância para apreciarmos as posteriores manifestações da sua teoria de interpretação das Escrituras. Ao falar de sentido literal, São Tomás não fala de sentido do enunciado (do que um enunciado exprime pelo código linguístico a que se refere), mas, certamente, ao sentido que lhe é atribuído pelo próprio autor da enunciação. Em linguagem hodierna, se, numa sala cheia de gente, eu disser que «há muito fumo aqui», pode ser para afirmar (é o sentido do enunciado) que há fumo demais na sala; mas também posso querer exprimir a ideia (em função das circunstâncias da enunciação) de que seria oportuno abrir a janela, ou, então, deixar de fumar. É evidente que, para Tomás de Aquino, os dois significados são parte integrante do sentido literal, pela simples razão de que ambos pertencem a um contexto que o enunciador se propunha enunciar. Como duvidar então de que Deus, sendo o autor das Escrituras e, simultaneamente, capaz de apreender e interpretar uma data de coisas ao mesmo tempo, nada obsta a que possamos supor que haja, nas Escrituras, uma pluralidade de sentidos - plures sensus - nem que apenas em virtude só do rudimentar sentido literal?

 

   Creio que poderei dizer-te, Princesa de mim, que esta análise é também pedagógica, porque nos desarma de preconceitos e nos põe a procurar responder às nossas próprias interrogações. Mas, sobretudo, pensossinto que nos ensina o respeito pelo texto e a humildade na sua leitura. Se reparares bem, é por assim nos tornarmos mais pequeninos que ganharemos altura para mais largo e livre entendimento do que nos é dado ler.

 

   E quiçá algum recolhimento reflexivo sobre hiatos, obscuridades e interrogações, com que vamos diariamente deparando na babel leviana da "comunicação" contemporânea, nos pudesse ajudar  -  não só nem principalmente  -  a falar e escrever melhor, mas  -  sobretudo  -  a conseguir pensar e discorrer com mais construção e associação de ideias, em vez de repetirmos (ainda por cima através, tantas vezes, de neologismos disparatados e dispensáveis estrangeirismos que, para quem estiver atento,  são denunciadores de ignorância e relaxamento mental) o que por aí se vai considerando e apregoando convencionalmente correto ou "poeticamente hermenêutico".

 

Camilo Maria          

Camilo Martins de Oliveira