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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Yasushi Inoue (1906-1991) do século  terá sido um dos mais populares romancistas japoneses do século XX, conhecido sobretudo pelas suas novelas históricas, muitas delas situadas nos tempos atribulados da reunificação do Japão nos anos de 1500/600. Em O Mestre do Chá (ou, no original, Honkaku Bo Ibun, isto é, O Diário de Honkaku Bo), debruça-se sobre o mistério do suicídio ritual de Mestre Rikyu, em obediência ao Taiko Toyotomi Hideyoshi. Na minha leitura de hoje, aí redescobri o poema que se afixara à vista dos participantes numa cerimónia do chá que Rikyu celebrara por ocasião da despedida para o exílio de outra personagem, uma tal condenada pelo Taiko. Traduzo:

 

               As folhas abandonam os ramos,
               o fim do Outono é frio e puro.
               Neste instante, os laureados
               saem do mosteiro zen:
               Parti para onde quiserdes
               e se descobrirdes um lugar deserto
               voltai depressa
               para nos confiardes
               o fundo do vosso coração.

 

   Por estes dias receosos de obscuro medo - que, afinal de contas, quiçá mais não sejam do que a recusa de vivermos com reconhecimento consciente de dúvidas, interrogações e temores, que nos vão povoando a tenebrosa, vaga e silente inconsciência em que teimamos justificar as distrações e drogas com que procuramos afastar fantasmas - sabe-me bem meditar nesses cinco versos que nos incitam a partir para onde quisermos e a confiar a outros, quando encontrarmos um lugar deserto, o fundo do nosso coração...

 

   Qualquer deserto tem, para nós, sobretudo uma existência imaginária, é a utopia  da nossa solidão. Esta - tê-lo hás também tu descoberto, Princesa de mim - será sempre, para qualquer um, mais um sentimento de si do que a sua própria condição.

 

   Muitas vezes, nestes dias de quarentena, dou comigo a pensarsentir como a ascese mística vai conduzindo quem a pratica à intimidade da presença do solitário absoluto, daquele cujo nome é Eu, o Eu sou Quem sou. Mestre Eckhart diz que Deus é - com exclusão de todo o não-ser, de qualquer carência. E tal como o mouro Avicena, diz ainda que Deus não tem outra essência para além da sua existência. É, pois, uma presença pura, essa a que se dá o nome de Ser. E imagina-o como uma efervescência, a esse Ser infinito que em si mesmo se move, fervura borbulhante ou parturiente, sempre fervente em si, e que em si se liquefaz e entra em ebulição: bullitio sive parturitio...   ...fervens...   ...in se fervens et in se ipso  et in se ipsum liquescens et bulliens...  

 

   Nestes dias em que vejo menos gente, converso menos, sinto-me, como tantos outros, tentado a comprazer-me no meu isolamento, como se encerrar-me fosse decisão minha e subitamente me tornasse senhor do meu ser em relação, como naquela canção do dentista cansado da amante e da família e sonha poder existir só em si, por si e para si: I, Me and Myself... E quiçá gostaria de me esquecer dessa pura presença do Ser Absoluto e sem carência, do Quem é tudo em todos.

 

Mas eis que essa presença ferve sempre, em mim e nos outros, lembra-me que só o encontro da relatividade de cada um de nós nos poderá, como quem abraça, conduzir ao Ser.

 

   E assim me pensossinto mais próximo de todos esses profissionais de saúde, de limpeza e higiene, de produção e distribuição de bens essenciais, de segurança e transporte, de organização e logística - que nos vão permitindo usufruir de um descanso relativo, que certamente lhes é negado pela necessidade e dever de serem, nestas horas difíceis, a parte de nós que está alerta e funcional.

 

   Assim se me torna claro o pensarsentir a alteridade, não como estranha, mas antes como minha, nossa de cada um. Diz bem frei Bento Domingues, no Público do passado domingo, dia 22, que a ética samaritana, sem qualquer invocação religiosa, obriga-nos a todos, ontem e hoje. O que significa que ninguém está dispensado de procurar aprender a descobrir novos modos de responder à pergunta fundamental da condição humana: em que posso e como posso ajudar? O pregador dominicano será, penso eu, uma das poucas vozes genuinamente evangélicas da Igreja portuguesa, cuja nomenclatura clerical continua com forte propensão a privilegiar a prática de rituais com fezadas milagrosas e a discursar em jeito meloso, banalizador e pretensiosamente poético, sobre benefícios "espirituais" de ensimesmamentos religiosos.

 

   Leio frei Bento: Este período de quarentena - a quaresma inesperada - não pode servir para criar em nós uma religião intimista, uma mística de olhos fechados para as carências múltiplas das pessoas, sobretudo das mais sofredoras e isoladas.

 

Na verdade, não nos devemos esquecer de que o período difícil que atravessamos será, quando confrontado com situações similares noutras épocas da história humana, menos aflitivo e angustiante. Desde já, não porque haja termo próximo ou cura imediata à vista, mas por que os meios técnicos e logísticos nos permitem e facultam, apesar do imprescindível isolamento, condições de proximidade, contacto e assistência, muito melhores. [Imaginemos ainda o que poderá acontecer nos casos de propagação da pandemia por áreas do mundo habitado em que as infraestruturas, a disponibilidade e acessibilidade de cuidados, não possam agora ser tão bem asseguradas].

 

   Saibamos pois aproveitar as graças de que beneficiamos por via dos aparelhos técnicos ao nosso dispor para sermos a presença do próximo junto dos que estão mais sós e abandonados. E que desses contactos, por telefone, "sms" ou correio eletrónico, nasça também uma consciência nova da nossa humanidade comum, que Quem fará fervilhar em novas ideias e iniciativas pela desejável justiça e paz do nosso mundo novo. Concordas, Princesa?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há males que vêm por bem... Sem me atrever a ser tão assertivo, direi apenas - e creio que tanto basta - serem quaisquer obstáculos, impedimentos ou, mesmo, desgraças sempre também oportunidades de revisão e conversão, aberturas novas à humana vocação de recriação do mundo. A pandemia universal que nos tem vindo a percorrer e abraçar é de tal bom exemplo.

 

   Antes do mais, na medida em que nos vai desenvolvendo a própria consciência da nossa humanidade comum e nos impõe um pensarsentir como a solidariedade é, e deve ser, mais nossa do que a indiferença e a excecionalidade, seja esta, ou possa ser, ostracismo do outro e privilégio nosso. Finalmente, compreenderemos como todos estamos na mesma Arca de Noé e só juntos, organizados e cooperantes, nos safaremos. Até a globalização da chamada quarentena nos vai recordando como, no mundo de hoje, já nada é resolúvel pelo isolamento de navios fundeados ao largo dos nossos portos: não mais se trata de pôr uns de castigo, mas de solicitar a todos que se restrinjam ao cuidado da cautela comum.

 

   Por outro lado, também nos surgem surpresas, tais como esta de agências científicas especializadas e atentas terem agora verificado que a restrição geral de movimentos e viagens nos trazerem os benefícios já sensíveis de maior pureza do ar que respiramos e de limpeza da terrível poluição atmosférica. Como se o surto do covid 19 e as barreiras que se lhe opõem fossem vozes proféticas a estimular-nos a um maior carinho e cuidado com Mãe Terra, a casa que todos habitamos.

 

   Esperemos ainda que esta renascida consciência da nossa comum humanidade e sua circunstância possa melhorar as relações políticas e diplomáticas, sobretudo depois do descrédito que sobre si mesmos lançaram (p. ex. no Brasil, Venezuela e EUA) políticos narcísicos. Fique bem claro que só no transparente e generoso intercâmbio de suspeitas, hipóteses, previsões e progressos na investigação científica encontraremos as soluções possíveis e as partilharemos em ação de graças, na eucaristia da nossa humanidade.

 

   No silêncio desta minha moradia, no meio de campos férteis, mas tão calados no Inverno que termina, escuto agora todos os quartetos de Mozart dedicados a Haydn. São, na linha deste, uma busca da harmonia, a recusa do caos. E vou lendo o último romance da escritora franco-marroquina Leila Slimani: Le Pays des Autres (Paris, Gallimard, 2020). Lê-se no texto da respetiva apresentação (traduzo): Todas as personagens deste romance vivem «no país dos outros»: [Melhor diria: «na terra dos outros»]. quer colonos quer indígenas, sejam soldados, camponeses ou exilados. As mulheres, sobretudo, vivem no país dos homens e devem incessantemente lutar pela sua emancipação.

 

    Que este período de quarentena e retiro nos dê, Princesa de mim, vagar e ânimo para refletirmos no Advento da Terra de Todos.

 

 Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Pouco sou consumidor, menos ainda frequentador, de discursos e comentários políticos. Aliás, pouco me interessa o que dizem ou possam dizer, divirto-me mais a antecipar o que dirão. Sou esteticamente alérgico a quase todos, tal como às catatuas indignadas que por aí vão, sem reflexão nem critério, perorando contra todos e quase tudo. Recuso-me a olhar para o resultado de qualquer eleição ou referendo para contar votos e ordenar vencedores e vencidos, mais me preocupa tentar perceber os fatores sociais e culturais que ditam tais resultados, e vou tentando interpretá-los tão objetivamente quanto possa, sem me ater a quaisquer simpatias ou antipatias pessoais, nem me prender a critérios de ordem ideológica.

 

   A citação de Steve Bannon com que encerro a minha carta anterior poderá ajudar-nos a melhor entender o que quero dizer, se a relermos inserida no seu contexto. Na verdade, aquele conselheiro do presidente Trump habita hoje uma casa catita na Costa Leste, sinal iniludível do êxito duma carreira profissional seguinte a um estimável diploma de Harvard. Todavia, além de se manter fiel a uma tradição católica conservadora da sua família e educação básica, também não esqueceu ser filho de operários da cintura industrial norte americana designada rust belt, hoje uma das faixas demográficas onde Trump foi buscar grande parte do seu eleitorado. É gente desiludida pelo que considera ter sido o abandono da sua condição por uma democracia conduzida pelas novas classes cosmopolitas e participantes do atual processo de globalização económica e social.

 

   O exemplo de Steve Bannon é destacável, não só pela posição que conseguiu na construção do triunfo de Trump, mas sobretudo porque a família Bannon, de origem irlandesa e católica, foi sempre, como tantas outras linhagens norte americanas, fiel ao partido democrata, eleitora de "kennedys", etc... assim sendo sinal de como os atuais surtos do chamado populismo se devem mais a sentimentos de quem se sente traído por protagonistas dum sistema político em que se confiava, do que a uma hipotética restauração totalitária. As reivindicações nacionalistas têm mais a ver com a crise e o desejo de restabelecimento de uma identidade própria do que com quaisquer concessões a tentações de totalitarismo. No caso em análise, é importante recordar-se que, nas últimas décadas, quer por força do desenvolvimento da robótica e de outras novas tecnologias, como da globalização dos grandes grupos económicos e consequente deslocalização de unidades de produção das indústrias manufatoras, as condições de remuneração e vida das classes operárias e da média burguesia das sociedades industrializadas se foram progressivamente deteriorando e gerando sentimentos de exclusão e injustiça social, facilmente convertíveis em xenofobia perante as crescentes vagas imigratórias provenientes de países em via de desenvolvimento. Às causas locais do correspondente aumento da emigração a partir destes países pouco cuidado foi prestado, pelo que os motivos de descontentamento e furiosa reivindicação de direitos a respeitar foram alastrando por todos os lados, como demonstram as tragédias migratórias no Mediterrâneo ou os excessos cometidos por coletes amarelos.

 

   Evidentemente também, a evolução da prática democrática nas democracias ocidentais para o "marketing" eleitoralista dos políticos e concomitante surto de um fulanismo estelar "à Hollywood", quer em "shows" televisivos, quer, mais banalmente, através das "redes sociais" ou "internet de fofocas", vai ajudando ao apagamento do espírito crítico no foro público, bem como à quase impossibilidade de se construírem plataformas sérias de debate e desejáveis acordos. Da edição deste março da revista literária francesa Lire, retiro umas declarações do escritor israelita Etgar Keret, de que a L´'Olivier publicará em breve uma obra intitulada Incident au fond de la galaxie. Traduzo:

 

   A população de Israel está extremamente dividida. A 2 de março, terá as suas terceiras eleições legislativas em curtíssimo lapso de tempo. Quando olho à minha volta - é candidato Benjamim Netanyahu, suspeito de fraudes e corrupção, e já Donald Trump sai ileso do seu processo de destituição - fico com a impressão de que os dirigentes políticos já não são eleitos responsáveis perante o povo, mas estrelas de cinema. No passado, os média faziam títulos com a educação ou a abertura de hospitais; hoje, 99% do que nos é dado ouvir são comentários, quase sempre ordinários, de Trump, Netanyahu ou Putin acerca de fenómenos da actualidade...   ... A democracia segundo Netanyahu e Trump serve para tornar insuportável a existência de todos aqueles que são diferentes deles: homossexuais, ateus, estrangeiros...e isso inquieta-me mais do que o resultado das eleições no meu país.

 

   Fica - assim me parece, Princesa de mim - respondida a afirmação de Bannon sobre a saúde actual da democracia. Afinal, como já bastas vezes te escrevi, o problema é mesmo uma questão de cultura...ou sobre a falta dela. Leio. na imprensa britânica e norte americana desta manhã que o presidente dos EUA decretou a interdição, por um período de trinta dias, de qualquer voo proveniente da Europa, com exceção dos originários do Reino Unido. Justifica a medida como prevenção contra o covid 19. Haverá alguém que lhe recorde outra curiosa exceção britânica, além dessa sua decisão discricionária? Tanto quanto saiba, no governo de Sua Majestade britânica, a própria ministra da saúde está infetada pelo vírus. Mas tal medida, ao que entendi, fere igualmente a entrada de pessoas não cidadãs dos EUA, bens e mercadorias... Pelo que a justificação sanitária será mero artifício.

 

   Pelo início dos anos 1990, foi aparecendo por aí o conceito e a palavra democratura que, na sua obra La Démocrature: dictature camouflée, démocratie truquée (Paris, L´Harmattan, 1992), o sociólogo e economista Max Liniger Goumaz origina no período marcado pelo fim da Guerra Fria e a transição de regimes comunistas para democracias liberais. Hoje, falamos mais de democracias iliberais. Seja como for, diz Max-Erwan Gastineau (cf. Le dictionnaire des populismes, Paris, Cerf, 2019), nos cenáculos e centros de decisão, chegara então a hora da transitologia, do fim da História de Fukuyama e da harmonização das políticas aduaneiras. O mundo converge... Deveremos então estreitar laços e, sob os auspícios do direito e do comércio fraterno, preparar o advento de uma sociedade universal.

 

   Creio que é na realização de tal esforço que temos vindo a falhar e a criar mais impasses ainda ao convívio internacional. Desde logo, por ausência de convites e insistência ao diálogo, preferindo-se-lhe o lucro dos grandes grupos económicos e a manipulação do voto popular através da desinformação e de promessas ilusórias.

 

Camilo Maria          

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   A mais edificante e importante personagem para a compreensão da Rússia não é Putin, mas sim aqueles que o levaram ao poder e hoje permitem que por lá fique, através da acumulação, dia após dia, das suas (deles) opções individuais... Assim sumariza - e bem - o Guardian a tese de Yoshua Yaffa no seu novo livro Between Two Fires: Truth, Ambition and Compromise in Putin´s Russia (Tim Duggan Books, 2020). O próprio título da obra é elucidativo do respetivo conteúdo: na verdade, vale apena ler o que me parece sobretudo ser uma ilustração exemplar da questão do conflito entre a verdade e a ambição, quando se procura chegar a um compromisso que se encara como mal menor ou condição necessária à concretização de um ideal. Afinal, quanto da nossa verdade pode ou deve ser sacrificada a uma qualquer solução menos má de acudimento a situações iníquas de desequilíbrio, perseguição ou injustiça flagrante? Iremos conversar sobre isso, Princesa de mim, em correspondência próxima?

 

   Se assim acontecer, teremos certamente de abordar a problemática do compromisso através de perspetivas diversas, estou até tentado a dizer-te que não escaparemos a uma reflexão acerca das mutações hodiernas do poder político, suas instituições e funcionamento. São variáveis, pelas diferenças entre as respetivas circunstâncias, desde as históricas à socioeconómicas e culturais presentes, ao ponto de, por vezes, chegarmos a questionar a sua própria contemporaneidade. Já reparaste, por exemplo, como é para nós estranho o propósito do presidente russo, ex-agente e dirigente do KGB, de inscrever o nome de Deus na Constituição da Federação Russa?

 

   Entre nós, os regimes políticos debatem-se hoje com o dilema da democracia direta ameaçar substituir-se à representativa. Os atuais populismos, incluindo o trumpista, insistem numa democracia real, que logo começa por perturbar as mediações tradicionais, sejam estas institutos políticos ou, simplesmente, os meios de comunicação social mais usados, aos quais se preferem cada vez mais as chamadas redes sociais...

 

   Tal "revolução numérica" é cada vez mais aplaudida e fidelizada. Terminando esta carta breve - a lançar temas - deixo-te uma citação de Steve Bannon, o "guru" católico de Donald Trump, que, apesar de Harvard e Goldman Sachs, permaneceu intimamente fiel à sua tradição familiar de "blue collar":

 

   A democracia nunca foi tão sólida, mas os média puseram-se a dizer que ela corria perigo, assim que as elites começaram a perder eleições. Só porque levaram um pontapé no rabo, começaram a declarar que a democracia cairia diante de tão grande perigo...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

    Em povos onde a falta de exercício do espírito crítico é geral e particular - como na sociedade portuguesa atual - o surto ou disseminação de ideias, falas, comportamentos, devoções e cultos considerados cultural e socialmente corretos, torna-se fácil, quase espontâneo, e rápido. E assim, ajudada pelo intravável encurtamento das memórias pessoais e coletiva, vai galopando a sucessão de ideias prontas a vestir e levar para casa, e também se animam as chegadas de novos heróis, desde logo míticos, ou quase, aos nossos impagáveis e sempre mutáveis olimpos. Não se passa uma semana sem que as incensadas galerias de portugueses ilustres deixem de preencher o nosso (salvo seja!) imaginário com novos campeões desportivos, órficos cardeais já presumíveis papas, geniais cientistas premiados, hordas de mulheres e homens lusitanos na crista das grandes ondas da criação literária e artística... Perante o pasmado encómio das massas - e, ainda, as exultantes proclamações de figuras públicas a gritarem urbi et orbi "quando somos bons somos os melhores!" - umas elites residentes no que entendem ser o mundo da cultura (conceito que, curiosamente, aliás, nenhuma delas consegue cabalmente explicar) vão exibindo, com um despautério quase comoventemente ingénuo, as suas obras. E cada uma delas, cada obra, é sempre inestimável legado do seu prendado criador, invariavelmente referido como "pessoa de cultura"... Parece que ninguém se dá conta de como e quanto o panorama dessa gente de cultura chega a ser pateticamente cómico. Mas esse é o lado divertido da questão, aliás reservado para quem, pela liberdade de espírito crítico, vai alimentando algum saudável sentido de humor. Já mais preocupante será a sua possível impressão na opinião pública e na formação dos olhares sobre as pessoas e funções públicas, suas instituições e exercício. Na verdade, não creio que qualquer culto das personalidades, fenómeno omnipresente na nomenclatura do nosso lusofulanismo, vá promover a tão apregoada e tão desejável transparência das ideias, das palavras e dos atos, para que, em qualquer caso, se possam avaliar propostas, projetos e processos   -  em lugar das habituais e serôdias ladainhas de louvores ou malediciências, isto é, da insistente rendição das nossas reflexões e decisões a sentimentos ad hominem, quer simpáticos quer antipáticos...

 

   Quero que fique bem claro para ti, minha Princesa de mim, que não é minha intenção, nesta carta, atingir seja quem for com um ataque pessoal, muito embora não se possa excluir a hipótese de alguém - incluindo eu próprio - poder sentir-se chamado a refletir sobre se será ou não personagem da mesma farsa. A questão que levanto é, sim, cultural em sentido próprio: estaremos, ou não, a promover cultos de personalidades? O que, nos casos a que aludi, também não representaria grande ameaça de ditaduras políticas possíveis, apesar de, contrariamente ao que se considera socio-politicamente correto, as ditas democracias terem sido, nestes últimos tempos, os maiores viveiros de palhaços autoritários e discricionários... O que realmente me preocupa, nas culturas contemporâneas e neste particular, é a falta de cultura do espírito crítico (que pouco ou nada tem a ver com que os nossos acácios chamam cultura) que torna as gentes cada vez mais indefesas perante as arremetidas de quem as quer influenciar e dirigir, politicamente e não só...

 

   Sai-me também o desabafo para justificar uma longa citação dum livro de que já te tenho falado, Princesa de mim, trecho esse que abaixo traduzirei. É seu autor o filósofo Vladimir Jankélévitch, interrogado por Béatrice Berlowitz em Quelque part dans l´inachevé (Gallimard, Paris, 1978). O título do primeiro capítulo é significativo: Ce Je haïssable (Esse Eu detestável). E o filósofo francês de origem judia russa e, também, muita cultura germânica (que, aliás, pôs de molho com o advento do nazismo antissemita), responde assim à entrevistadora, depois desta lhe dizer que o vê diferente do homem de letras que, qual andorinha pedreira, para si constrói, com seus livros, um ninho, e lhe observa como, pelo contrário, ele prefere deixar a escrita dele ser levada pelo esquecimento do que em si reúne, quiçá por não querer dar por definitivamente adquirido algo que tivesse escrito:

 

   Não é quem escreve que tem de dizer «a minha obra», de falar da sua própria obra tal como nós, humildes leitores, testemunhas ou terceiros, falamos da obra de Proust ou de Simenon... É certo que o leitor que for seguindo, livro após livro, o desenvolvimento do processo criativo num escritor tem o direito de considerar a obra desse escritor como obra, já que se trata mesmo de uma obra que se vai edificando sob o seu olhar, pedra sobre pedra. Mas a minha própria «obra» só será obra - se assim tiver de ser! -  já depois. A sua ascensão ao estatuto de «obra» acabada será, portanto, em qualquer caso, uma promoção póstuma... Só depois da minha morte terei eventualmente (e muito eventualmente!) uma obra. Afinal, tem-se uma obra como se consegue uma biografia e uma necrologia: quando tudo estiver terminado.

 

   Inicio a citação longa que traduzirei para ti com esta breve introdução ao tema, tal como irei deixar que seja Jankélévitch a expor o que eu próprio pensossinto ao observar as "elites culturais" portuguesas - que ele provavelmente pouco ou mal conhecia. Na verdade, sinto-me feliz e aliviado por poder recorrer a um texto estrangeiro para me exprimir. Sinto-me mais acompanhado e, por outro lado, posso ganhar distância entre mim e a minha visão, ou meu sentimento, das coisas - posto que também sei como décadas seguidas de vida passadas noutros hemisférios e culturas me desligaram, mais do que da minha terra e da minha gente, da minha própria consciência de mim enquanto parte de um todo... Mudaremos sempre tanto à medida dos enquadramentos da nossa circunstância? Certo, certo, neste preciso momento em que te escrevo, Princesa de mim, é não saber quanto de mim poderia igualmente caber no retrato a seguir traçado.

 

   O ato de escrever exige uma perfeita inocência, e é cada vez mais rara a inocência nesta farsa filosófica em que reinam a opinião dos outros e a glória da aparência...  ...A frágil inocência, a efémera modéstia estão à mercê duma reflexão de consciência, e a consciência é expedita em desingenuizá-las! Para nos abstermos desse olhar sobre si que é uma iniciação à vaidade literária, para recusar essa grande representação teatral que se chama vida, seria necessária uma espontaneidade ao abrigo de qualquer tentação ou, à falta de espontaneidade, uma vigilância de cada instante..  ...De todos os conformismos, o conformismo do não-conformismo é hoje o mais frequente. É esse diabo que nos espia, nos vigia e nos persegue,,, A consciência que tomamos da nossa coragem desfigura-a, pode mesmo torna-la coragem de matador, isto é, numa caricatura.

 

   Mas em tal caso não deixamos de continuar a ser corajosos, apesar das nossas fanfarronices: até um bobo pode ser corajoso por vaidade. Em contrapartida, há outras virtudes, mais secretas, que são literalmente assassinadas, aniquiladas de um só golpe, pela própria consciência que delas tomamos, tais como, por exemplo, a modéstia, o encanto ou o humor. Desaparecem. Tal homem encantador era um "charmeur", quer dizer, um tolo; aquele, com grande sentido do humor era um humorista, ou seja, um palhaço; aqueloutro, apagado e modesto, um vaidoso subtil, que arranjou maneira de atrair e colecionar louvores. Mas a vaidade não se fica por aí, sobretudo quando se trata de vaidade de autor: não é só a falsa modéstia que espreita o modesto, mas também a sua confissão dela e que, na realidade, é um alibi diabólico da vaidade, uma contrição indecente.

 

   Assim tão argutamente escalpelizadas, se revelam enfim elites comprazidas ao espelho da sua vacuidade. Pode tal retrato dar-nos riso, quando, por exemplo, surpreendemos, em conhecidas figuras públicas "da cultura", que por já terem sido tão divertidamente retratados, hoje são só inenarráveis conselheiros Acácio ou monumentos ao imenso talento de Pacheco, sobretudo quando caem em citar, sobre estranhos ou rivais, as suas próprias caricaturas. Já menos hilaridade nos virá do espetáculo da dança de troca de galhardetes, encomiásticos ou maldosos, entre vários espécimes dessas elites. E se acaso formos sensíveis ao descaramento desse estabelecimento de grupos de glórias concorrentes que, mesmo quando se degladiam, fecham caminhos e portas a tantos outros seres humanos independentes e estranhos a essas capelinhas e ocupações, logo começaremos a sofrer alguma comichão. Até poderemos atingir um qualquer grau de indignação, sobretudo quando deparamos com sebenta hipocrisia a tentar encobrir intranquilidades de egos tão auto idolatrados quanto acobardados. Ou, ainda, ao ver a presença teimosa de ditos e escritos, de retratos e notícias sobre indivíduos ligados à constituição ou à gestão de instituições, boletins ou instrumentos de comunicação de pressuposto interesse público, como se eles próprios fossem indispensáveis ou incontornáveis ao entendimento ou inteligência das coisas...

 

   Deixemos que a lucidez e a humildade, o esforço e o propósito de servir sejam, em nós, os anticorpos do carreirismo e da vaidade bacoca.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O breve epílogo do livro L'Immortalité biologique (Odile Jacob, Paris, janeiro de 2020) da médica hematologista, investigadora e professora universitária Hélène Merle-Béral, em tradução minha, reza assim:

 

   Qual quer livro sobre a imortalidade fica sempre inacabado. Alguns dirão que a vivem no virtual da fé, mas tal imortalidade apenas é outra forma da esperança. Então, como poderemos aproximar-nos dela? Talvez ousasse dizer que tive a impressão de a ter observado quase todos os dias, num período da minha vida em que, debruçada sobre o microscópio, analisava células cancerosas de pacientes feridos de leucemia. Tinha debaixo dos olhos uma proliferação exuberante de células imortais, e tinha o poder de as propagar em cultura, para manter a sua imortalidade fora do corpo humano, de as fazer viajar, parcelas de eternidade num tubo de ensaio, para que servissem, sendo modelos privilegiados, objetivos de investigação do ciclo celular, da apoptose, da sobrevivência ... Esse fascínio por formas de vida imortal levou-me a pesquisar, ao microscópio como na literatura científica, as origens e potencialidades da imortalidade biológica. Sem nunca ter chegado a descobrir-lhe todos os mecanismos, tal investigação tem um ponto em comum com o seu objeto: é infinita...

 

   Esta obra que, na sua edição original, acima referida, tem apenas cerca de 170 páginas, está escrita de forma escorreita, assim facilitando e estimulando a sua leitura, muito embora pressuponha, da parte do leitor, alguma informação pertinente e noções básicas acerca de problemáticas que se estendem de doutrinas, crenças e mitos sobre a questão da humanidade face à morte até às tentativas históricas e contemporâneas de contrariar o envelhecimento e vencer a morte, para não se mencionar algum elementar conhecimento de variadas e raras formas de vida vegetal e animal ou, ainda, de análises e experimentações em busca, não já do "humano aumentado ou alongado", mas do "pós-humano e do transumano". Aqui surgem os ensaios de manipulação genética e clonagem, de gestão algorítmica da beleza e da saúde, de numerização do cérebro, de inteligência artificial...

 

   Afinal, este universo novo de investigação não será, enquanto atitude de seres humanos, muito diferente da primitiva epopeia de Gilgamesh, nem de tantas outras fezadas na descoberta da imortalidade, incluindo a longa história da alquimia. Como se essa indelével ânsia de encontrar outra dimensão da vida humana fosse também o motivo do furto e consumo do fruto da árvore genética do conhecimento, da queda de Ícaro ou da falta de Sísifo que lhe valeu aquele castigo que Homero assim regista na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço):

 

          Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos,
          tentando levantar cm as mãos uma pedra monstruosa.
          Esforçando-se para a empurrar com as mãos e os pés,
          conseguia levá-la até ao cume do monte, mas quando ia
          a chegar ao cume mais alto, o peso fazia-a regredir,
          e rolava para a planície a pedra sem vergonha.
         Ele esforçava-se de novo para a empurrar, dos seus membros
         escorria o suor, e poeira da sua cabeça se elevava.

 

   Esta visão de Sísifo no Hades é, afinal, a do inferno que o absurdo é, ao ponto de nele caber o próprio esforço do ser humano. A dado passo do seu Le Mythe de Sisyphe, Albert Camus escreve - e respigo estas citações para que nos ajudem à reflexão adveniente desta carta - que os homens também segregam desumanidade... E diz mais:

 

  Chego enfim à morte e ao sentimento que dela temos. Sobre tal ponto já tudo foi dito e parece-me decente evitarmos o patético. Todavia, nunca nos espantaremos bastante com o facto de toda a gente viver "como se ninguém soubesse". É que, na realidade não há experiência da morte. Em sentido próprio só se experimenta o que foi vivido e tornado consciente. No caso presente, só é possível falar-se da experiência da morte dos outros. 

 

    São inúmeros os exemplos da tentação de longevidade, e de imortalidade, na literatura universal, desde o Graal e lendas de elixires da juventude ao Fausto de Goethe. O que a presente corrente de pensamento transumanista reflete vai, todavia, para além de tudo isso: From chance to choice (da contingência à opção), eis o lema de quem pensa que, graças aos progressos das novas biotecnologias, a espécie humana deveria extrair-se do determinismo da sua programação genética para realizar façanhas fabulosas em matéria de inteligência e longevidade, ultrapassar os seus limites biológicos e sublimar as suas capacidades intelectuais e fisiológicas...   ...O ser humano deverá libertar-se da dependência da injustiça da natureza para decidir do seu futuro e, permanentemente conectado a um computador, deverá libertar-se da servidão do seu corpo, graças à inteligência artificial...

 

   Tal melhoramento do ser humano vai ultrapassando as fronteiras naturais - dizem os seus prosélitos - graças à convergência das biotecnologias NBIC, isto é, à sinergia entre as nanotecnologias (N), a biologia (B), a informática (I) e as ciências cognitivas (C). Tal conceito foi articulado pela primeira vez em 2002, nos EUA, num relatório da National Science Foundation que desenha um leque das principais tecnologias referidas : as nano, reunindo técnicas a nível atómico e molecular ; as bio, incluindo a engenharia genética, com anúncio de fabricação dos primeiros clones humanos ; a informática, que comporta eletrónica, telecomunicações, robótica e inteligência artificial ; e, finalmente, as cognitivas, cujo último objetivo será a perfeita compreensão do funcionamento do cérebro humano. [Com tua licença, Princesa de mim, abro e logo fecho aqui um parêntese, precisamente para incluir uma interrogação: será que o cérebro humano é tão somente um órgão calculador, computador, amputado dessa misteriosa função que tanto gosto de chamar "pensarsentir"? E será que a presente pretensão a substituir-se a ciência enquanto descoberta ou conhecimento novo, por reorientação da própria natureza das coisas (da rerum natura, como diria o ateu Lucrécio) não é mais pretensiosa do que científica? Evidentemente que, por sermos humanos, somos, como disse Ortega y Gasset, trânsfugas da natureza, e desde sempre nos interrogámos sobre ela. Como sua própria consciência, sobre ela e nós mesmos inquirimos...]

 

   Este último ponto traz-me à memória uma citação que a professora Merle-Béral faz de António Damásio (entre outras, todas elas, salvo erro, respigadas na Estranha Ordem das Coisas, obra de que já em carta te falei): A inteligência artificial pode simular os sentimentos, não pode duplica-los. Os organismos artificiais não têm vida. O espírito humano não é feito de cérebro apenas.

 

   Sabes tão bem como eu, Princesa de mim, como todos os dias contemplo a visão evangélica da morte. Nestes últimos tempos, quiçá com mais forte pensarsentir, já que vou acompanhando a última travessia de tantos amigos que partem. Para tua e minha reflexão, ocorrem-me alguns trechos de uma entrevista de Emmanuel Levinas a Christian Chabanis (Le Philosophe et la Mort: la mort, un terme ou un commencement? - Fayard, Paris, 1982) que traduzo:

 

   A morte é o mais desconhecido dos desconhecidos. É mesmo mais desconhecida do que qualquer desconhecido. Parece-me - sejam quais forem as posteriores reações de outros filósofos e do próprio público - que a morte é, antes do mais, o nada do saber. Não estou a dizer que ela nada é, pois que ela também é a plenitude da questão. Mas, antes de mais, ela é não se sabe...

 

   ... para nós que assistimos à morte de outro homem, nunca saberemos o que ela significa para o próprio morto. Nem sequer sabemos se será legítima a fórmula: para o próprio morto. Mas para o sobrevivo, há na morte de outrem o seu desaparecimento, e a extrema solidão desse desaparecimento. Penso que o Humano consiste precisamente em abrir-se à morte do outro, em preocupar-se com a morte dele. O que acabo de dizer pode parecer pensamento piedoso, mas estou persuadido de que, acerca da morte do meu próximo se manifesta aquilo a que chamava a humanidade do homem. 

 

   Para terminar esta carta com um toque propositado de focalização sobre realidades circunstantes, num mundo em que a cultura reinante tudo vai apagando para dar espaço a fantasias e sonhos de apropriação, riqueza individual, dominação e conquista, quero só lembrar-te, Princesa de mim, a ação, cada vez mais cartelizada, de grupos económicos e financeiros que sustentam o surto comercial e lucrativo das novas esperanças, bem como o papel que desempenham, necessariamente, no agravamento das desigualdades sociais : a morte, ou a sua fatalidade, já não iguala ninguém, antes se vai tornando em mais um sinal contrário à condenação do rico que Abraão desiludiu no sonho em que lhe pedia autorizá-lo a avisar e prevenir os seus próximos sobre que tratamento deveriam dar aos pobres... Mas deixo le dernier mot a Hélène Merle-Béral:

 

    O futuro é cada vez mais inimaginável e imprevisível, com potencialidades infinitas. Para o homem deste dealbar do século XXI, é desmesurada a alternativa do pior e do melhor. Sucedem-se as imagens, sobrepõem-se, contradizem-se.

 

   Bem real é a ameaça do apocalipse, da destruição do nosso planeta, de que, há décadas, nos vão avisando os ecologistas, tal como a do desmoronamento da nossa civilização socio-industrial, que predizem os adeptos dessa nova ciência que é a colapsologia.

 

   Nos nossos piores fantasmas surge sempre, incontornável, o espectro de um corpo virtual, com um cérebro reduzido a dados numéricos não controlados, o homem tornado máquina (e espera-se que esta sempre possa desligar-se...).

 

   Mas o triunfo do humano está ao nosso alcance: venceu a velhice e a morte, graças aos fabulosos progressos das biotecnologias que continua a controlar. Soube preservar os sentimentos, o desejo, o amor, o maravilhamento, a liberdade de escolha. Pode atacar novos desafios e progredir na sua própria aventura.

 

    É agora que tudo está em jogo.

 

   Pessoalmente, também gosto de ser otimista. Por isso pensossinto e faço votos por que as novas tecnologias, para lá de nos aperfeiçoarem conhecimentos e ações, sejam cada vez mais expostas à reflexão e consciência do inestimável bem que é o comum, com solidariedade e justiça. E com humildade, muita humildade, também, pois esta é a atitude fundamental para enfrentarmos o absurdo. Apocalipse, para mim, continua a ter o seu significado etimológico de revelação, descoberta. Nunca de cataclismo, de destruição do que também somos feitos.

 

 Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O prémio literário mais prestigiado no Japão é o Akutagawa, que, além de ser distinção de talentos das letras nipónicas, é, pelo seu próprio nome, uma memória e uma homenagem ao grande escritor da era Taisho que foi Ryunosuke Akutagawa, morto aos 37 anos de idade, em 1926. Nas duas noites passadas o meu gosto da leitura deliciou-se com alguns dos seus contos (ou novelas breves), entre eles o saborosíssimo Nezumi-Kozo, história de um Robin Hood japonês ou, melhor, do desmascaramento de uma personagem pela sua própria ironia. Seguindo a narrativa feita pelo próprio, somos transportados para um teatro de Kabuki, onde assistimos ao desenrolar estoirar da farsa que o romancista seu autor apresenta assim (traduzo):

 

   Tradicionalmente, no Japão, Nezumi-Kozo (1795-1802) é apresentado como um ladrão cavalheiresco que tirou aos ricos para dar aos pobres, e bem pode ser chamado Robim dos Bosques japonês. É geralmente aceite que ele era um mestre de «ninjútsu», a arte de nos tornarmos invisíveis, e que levava um saco de «nezumi» (ratos) quando assaltava casas de «daimyo» (senhores feudais), e os soltava para enganar os dorminhocos que acordassem, fazendo-lhes crer que o barulho era feito pelos ratos. Em japonês, «kozo» quer dizer «aprendiz» ou «ouriço». [Pessoalmente, pensossinto-me melhor traduzindo por diabrete... Digo isto porque, em inglês, «urchin», referido a um garoto, significa travesso...]     

  

   Nos anos que se seguiram à revolução de 1868, que derrubou o shogunato e restaurou o poder executivo do imperador, as peças de kabuki que tinham Nezumi Kozo por protagonista e herói ganharam imensa popularidade entre o povo japonês, acabado de se emancipar do feudalismo que, durante séculos, impusera uma rígida hierarquia de quatro castas, assim ordenadas do topo para baixo: militares, agricultores, industriais e comerciantes. Por isso, a gente do povo se deliciava e divertia com representações que diminuíam ou gozavam os antigos senhores feudais, seus governantes, e os respetivos sequazes que, de todas as maneiras possíveis, os tinham sujeitado a vexames e humilhações, hoje dificilmente imagináveis.

 

   A história que aqui apresento é um episódio, em jeito de farsa, do popular e tradicional herói num palco de kabuki.

 

   E agora, Princesa de mim, cabe-me resumir para ti a farsa contada por Ryunosuke Akutagawa. A história começa em Edo (a atual Tokyo no shogunato Tokugawa), numa taberna em que dois velhos amigos vão saboreando conversa e saké. Um deles, com ar imponente e aspeto de forte, vai evasivamente falando da sua ausência de três anos, aliás menosprezando a fama de justiceiro e carrasco de ladrões que o outro encomiasticamente lhe atribui, tal como minimizando o facto da própria fama ser jubilosamente festejada pelo povo, feliz com o seu regresso. Pessoalmente, pensa que noutros tempos as pessoas eram melhores, mais interessantes, e até havia ladrões com classe, como Nezumi Kozo. Falando neste, confessa que a lembrança dele lhe dá riso, por causa de algo que lhe aconteceu, há precisamente três anos, quando deixara Edo.

 

   Encontrara na estrada um comerciante simpático que, por seguir para o mesmo destino, se fizera seu companheiro de jornada. Assim, ambos pernoitaram na mesma estalagem, depois de jantarem e beberem juntos. Pesadamente adormecido com ajuda do éter ingurgitado, o nosso homem, pela madrugada, ainda sentiu que uma mão estranha lhe vagueava pelo leito e encontrava a bolsa presa ao cinto apertado, tentando furtá-la... Num "Ai, Buda!" (o "Ai Jesus!" local), prende tal mão torce-lhe o braço, atira ao chão o candidato a ladrão. O ruído da peleja acordou outros hóspedes, trouxeram luzes e, para surpresa de todos, reconheceu-se o homem dominado no chão: era o horado comerciante, companheiro de viagem. Logo ad hoc se reuniu um tribunal popular, perante o qual o frustrado gatuno se defendeu, dizendo que procedera com a louvável intenção de tirar a um rico para dar a muitos pobres. Instado a ser mais claro, acaba por confessar que, na verdade, é o mui famoso Nezumi Kozo. Espera, pois, que a popularidade de um herói nacional o salve da condenação. Só que o "nosso imponente fortalhaço" lhe troca as voltas, interrogando-o sobre a pretendida identidade, enquanto o vai avisando de que, se fosse ele mesmo juiz, não perderia a oportunidade de deter, julgar e condenar tão manifesto e descarado ladrão: ao crime agora presente, juntaria com gosto os muitos outros que a fama do outro por aí tem proclamado. Acossado, desorientado, aflito, o desgraçado comerciante lá se retrata e retira, sem cheta, debaixo de um coro de gargalhadas...

 

   Voltando à conversa dos dois velhos amigos naquela taberna de Edo, depois de contada a divertida ocorrência: "Afinal, pergunta o ouvinte ao narrador, ele não era mesmo o Nezumi, nem sabia quem este era?" - "Acho que não."  - "Tens a certeza?" - "Tenho." - "Porquê?". - "Porque o Nezumi Kozo sou eu..."

  
Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vai curta a carta, começa apenas a cumprir a promessa, que te fiz, de falar da gastronomia na cultura japonesa. Hoje, vamos contemplar um aspeto da circunstância estética do gosto de comer, prazer que começa, precisamente, por um olhar. E regresso ao Inei Raisan (Elogio da Sombra) do "nobel" Junichiro Tanizaki, livro que também recomenda a utilização de lacas como continentes de sopas servidas. Sem propriamente seguir a ordem do texto do romancista japonês, irei traduzindo trechos do que ele nos quer dizer:

 

   Já houve quem dissesse que a cozinha japonesa não é coisa que se coma, mas coisa que se contempla. Assim sendo, vejo-me tentado a dizer melhor ainda: não só que se contempla, mas que se medita! Tal é, com efeito, o resultado da silenciosa harmonia entre o tremeluzir das velas na sombra e o reflexo das lacas. Outrora, Mestre Soseki [Natsume Soseki - 1867-1916 - foi um dos maiores escritores da era Meiji] celebrava no seu romance Kusa-makura (1906) as cores dos yokan [pasta gelatinosa da feijão encarnado e agar-agar, açucarada e com sabores a frutos vários] e, de certo modo, penso que tais cores também nos podem levar à meditação. A sua superfície tremida, meio translúcida como um jade, a impressão que dão de absorver até na própria massa a luz do sol, de envolverem uma claridade indecisa como um sonho, esse profundo acordo de tintas, essa complexidade, nada disso poderemos encontrar em qualquer bolo ocidental. Compará-los a qualquer creme seria superficial e ingénuo.

 

   Vamos então dispor, num prato de laca para bolos, essa harmonia colorida que um yokan é, colocai-o numa sombra que torne difícil discernir-lhe a cor, e ele ficará ainda mais propício à contemplação, E quando, finalmente, levarmos à boca essa matéria fresca e lisa, sentiremos a derreter-se na ponta da nossa língua como que uma parcela da obscuridade da sala, solidificada numa massa doce, e descobriremos nesse yokan que, afinal, até é um tanto insípido, uma estranha densidade que lhe realça o gosto.

 

   O caldo de miso encarnado, por exemplo, que tomamos todas as manhãs: basta olharmos-lhe para a cor para facilmente compreendermos que tenha sido inventado nas sombrias casas de outrora. Aconteceu-me certo dia que, convidado para um chá, me tivessem servido, a ferver, sopa de miso, cor de tijolo, da tal que já tantas vezes comera sem lhe prestar muita atenção; desta feita, porém, ao vê-la à luz difusa das candeias, no fundo de uma tijela da laca preta, descobri-lhe uma verdadeira profundidade e um ar mais apetitoso.

 

   É assim também com o shoyu, sobretudo quando nos servimos dele, como se faz na região de Kyoto, para temperar peixe cru, legumes confeitos ou cozidos, daquela variedade espessa que se chama tamari. Tal molho oleoso e luzidio tem melhor aspeto se visto na sombra, em perfeito acordo com a obscuridade. Por outro lado, o miso branco, o tofu, o kamaboko, os peixes brancos e todos os alimentos brancos não podem ser valorizados se se iluminar o ambiente. E, desde logo, o arroz, cujo aspeto, quando é apresentado numa caixa de laca negra e brilhante, disposta num canto obscuro, satisfaz o nosso sentido estético e logo nos abre o apetite. Esse arroz imaculado, cozido no ponto, acumulado numa caixa preta, no instante em que se levanta a tampa desta, emite um vapor quente, e cada grão brilha como pérola. Não há japonês algum que, ao vê-lo, não sinta a sua insubstituível generosidade. Aqui chegados, damo-nos conta de que a nossa cozinha se acorda com a sombra, e de que entre ela e a obscuridade existem laços indestrutíveis.

 

   Não vou aborrecer-te, Princesa de mim, com explicações pormenorizadas do que é o shoyu (molho ou tempero de soja), o kamaboko (pasta de peixe cozido a vapor), e quejandos. Desculpar-me-ás também da exiguidade de texto escrito por mim mesmo, mas a tradução deu-me muito trabalho... E penseissenti que soaria mal ser eu próprio a falar com tanta convicção da cozinha do Japão. Lembro-me sempre deste e de outros escritos quando como japonês, pois ao sabor de uma cozinha tão diferente da nossa eles acrescentam outra dimensão, espiritual talvez, num jeito bem diferente do consumismo reinante.

  
Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os Jotas festejam este ano dez de casados. Assim, João e Joana, felizes autores de três descendentes diretos, todos varões, vão passar umas férias de mel no Japão. Pediram-me umas sugestões de itinerários e estadias (o João, em solteiro, já passara uma temporadazinha em nossa casa, em Tokyo), procuraram outras também, e lá traçaram programa e percurso nipónico. Faço votos de boa viagem e feliz encantamento por uma terra que julgo conhecer tão bem quanto me foi possível e que pacificamente amo.

 

   Entretanto, dizem-me que Kamakura, cidade antiga e de muitos templos será uma das suas etapas. Curiosamente, na semana passada, os dois livros que me ajudaram a mobilar umas horas de insónia tratavam ambos de cozinha e gastronomia japonesa: Sandwich wa Ginza de, da escritora Yoko Hiramatsu (versão francesa pelas Éditions Picquier em 2019: Un sandwich à Ginza) e Kodoku no Gourmet, do mangaka Jiro Taniguchi (versão francesa pela Casterman em 2016: Les Rêveries d´un gourmet solitaire). Em japonês, kodoku significa solidão, isolamento, e Taniguchi, com guião de Masayuki Kusumi, desenhou dois livros sobre um petisqueiro abstémio que gosta de, solitário, ir experimentando a gastronomia de vários restaurantes de diversas cozinhas. Penso que, em português, um título que diria bem o conteúdo da obra seria "Deambulações e Devaneios dum Petisqueiro Solitário". Ou talvez devesse antes dizer Solteiro, em vez de Solitário, lembrado duma sonora gargalhada do Avô do Jota, o embaixador João de Deus Bataglia Ramos, há uns bons sessenta anos, em plena baixa lisboeta, quando, de passeio com ele e o filho mais velho, outro João de Deus, tio e padrinho deste Jota de que te falo, e meu querido amigo, larguei uma evidência que me houvera ocorrido: "De repente, percebi que ser solteiro quer dizer andar à solta!" Ao escrever-te esta carta, recordo-me dessa referência, creio que sem prejuízo das razões que seguidamente explano, e a pensar sugerir aos Jotas um certo almoço em Kamakura.

 

   O templo de Komyo (o Komyo-ji) é budista, foi fundado no século XIII por um mestre da seita ou escola de Jodo-shu, ou da "Terra Pura", creio eu ; ganhou fama, ultimamente, pelas refeições vegetarianas que serve a visitantes turistas. A Yoko Hiramatsu lembra-nos que shoguns antigos dedicaram este templo ao estudo, mas que, hoje em dia, é um jovem cozinheiro, Takashi Ueda, do restaurante Miyokawa, conhecido em Kamakura, o autor e diretor das ementas respeitadoras das regras dietéticas e culinárias budistas que são servidas no templo. Apesar da sua juventude, o chefe Ueda é um mestre na preparação do caldo budista, arte básica daquela cozinha. Diz ele que manda vir de Hokaido, no norte, as algas kombu, e do Kyushu, no sul, os cogumelos secos shiitaké. "Para o caldo, utilizo meia centena de algas e uns noventa cogumelos. Na cozinha budista, é costume preparar-se um caldo gostoso e rico que sirva depois para uma série de pratos, desde sopas a guisados". [Sabes bem, Princesa de mim, porque já provaste, que também eu me entretenho, por vezes, a fazer uns caldos de cogumelos variados e dentes de alho, a que junto folhas de espinafre ou agriões, e um fio de azeite, para uma abençoada sopa!]

 

   A Yoko descreve-nos a "Ementa do Exegeta" do chefe Ueda, que ela provou, para saudar a Primavera, em fins de fevereiro. Traduzo:

 

      Prato liso: feijões pretos, confeito de legumes da horta do Komyo-ji, gengibre "myoga" com vinagre doce, favas "à jade".

 

      Prato fundo: pele de tofu, taro, beringela descascada, algas hijiki com massa de glúten, ervilhas.
      Prato liso: rolo de pele de tofu fresco com pepinos e acompanhamento, flores de wasabi.
      Prato liso: tempuras budistas (angélica do Japão, beringela, abóbora menina).
      Taça: feijão verde em caldo me "miso" e sésamo.
      Tacinha: tofu com sésamo (wasabi e molho de soja perfumado).
      Tijela de arroz com legumes.
      Pires: três legumes em salmoura.
      Tijela de sopa de batata doce (batata doce, "daikon", cenoura, lâminas de tofu frito, bardana, alho porro).

 

   A escolha dos legumes e flores presentes obedece ao propósito de configurar a ementa à celebração do advento da Primavera, que os filhos do Império do Sol Nascente iniciam na segunda metade de fevereiro. Assim, também a decoração dos pratos e taças em que tudo é servido se inspira de imagens e símbolos da estação em que a natureza parece renascer. Este princípio aplica-se também nos restaurantes e refeitórios que não fazem cozinha budista nem sequer vegetariana.

 

   A oração antes da refeição vem escrita no invólucro dos pauzinhos para comer, e reza assim: 

 

      Recebemos este alimento
      No respeito dos benefícios da natureza
      E com gratidão pelo trabalho que foi feito.
      Após dez encantações
      Comecemos o repasto.

 

   A ação de graças está sempre presente nas refeições japonesas, faz mesmo parte essencial da devoção xintó-budista à natureza e ao mundo todo. O nosso "bom proveito" ou " bom apetite", pronunciado no início de qualquer refeição partilhada, diz-se "itàdàkimás!" em japonês, isto é, "demos graças!"

 

   Acabada a mesma, os convivas, de mãos postas para orar - e, nos mosteiros budistas, a convite de um monge assistente, que apenas aparece antes e depois do ágape - recitam esta reza:

 

      Terminada a nossa refeição, com o espírito e o corpo satisfeitos
      Retomamos as nossas atividades
      E comprometemo-nos a honrar este dom.
      Recitemos dez encantações
      Para agradecer este repasto.

 

   Não concluas, Princesa de mim, que ação de graças, respeito pela natureza e pelo trabalho humano, tal como a prestação de honras aos produtos consumidos, são exclusivos do budismo vegetariano mais rigoroso ou de qualquer religião ou filosofia. Na cultura nipónica, o ser humano é indissociável da natureza que o cria e da qual depende. Vou trazer-te uma curiosa ilustração, traduzida do "Sanduíche em Ginza" da Yoko Hiramatsu, que relata a sua experiência de um almoço de tsuki-nabe, em Hira-Sanso, na região de Shiga, a noroeste de Kyoto. São curtos trechos, mas muito elucidativos:

 

   O senhor Matsubara, caçador, diz-me que, «no Inverno, os ursos são três vezes maiores do que no Verão, porque têm de se preparar para passar três meses sem comer nem beber. As bolotas são o seu alimento preferido. Da Primavera a meados do Verão, comem amoras e também se alimentam da seiva dos cedros e carvalhos». O urso é o mensageiro da montanha, o servo da floresta. Eis, sem dúvida, o que confere à sua carne delicadeza e generosidade. A sua gordura imaculadamente branca e luzidia é a banha das bolotas e das árvores...

 

   ... Na manhã seguinte, no coração do Inverno, a estalagem de Hira-Sanso está banhada de uma luz muito terna. Ao longe, os montes estão envoltos em bruma matinal. Na floresta recôndita, os ursos estão certamente adormecidos, todos enrolados. Ontem, o senhor Ito explicou-me a origem do "tsuki-nabe", o "cozido de urso":

 

   «O urso come-se quando neva, antes da eclosão das flores na Primavera. Fui buscar um caracter à trilogia neve, lua, flores - tão cara a poetas e pintores - e escolhi tsuki (lua) para dar nome a este prato».

 

   Ontem, o urso, trazendo consigo a terra de Hira, penetrou-me no corpo. Comer seres vivos é uma maneira dos humanos marcarem o seu respeito pela natureza, de lhe exprimirem gratidão, de acompanhá-la. Senti-o profundamente.

 

   Ando a matutar, Princesa de mim, a divagação, em próximas cartas, por vários temas referentes à gastronomia japonesa, quer de índole religiosa ou filosófica, quer a tradições e superstições populares, quer, ainda, ao calendário e estações do ano, como a estéticas e etiquetas, à literatura e às artes plásticas e decorativas... A arte da mesa é, na verdade, uma festa contínua, um banquete de reunião da cultura nipónica. E como pensei em sugerir aos Jotas dois restaurantes especializados em kaiseki (dois ryotei), apenas lembro que tal estilo de refeição em 12 a 14 pratos os escolhe e dispõe atendendo a diversos tipos de culinária, de modo a contrastar paladares. Já te escrevi sobre isso, e creio que lhe fiz um apontamento para o meu Fomos em Busca do Japão. O primeiro desses ryotei, o Nanzen-ji Hyotei, situa-se em Kyoto Oriental, na zona do templo de Nanzen, quase visita obrigatória. O outro, o Waranji-ya, também em Kyoto, já foi por mim descrito numa das cartas para ti, com uma recordação do grande escritor Junichiro Tanizaki: Os compartimentos particulares do Waranji-ya são salinhas de quatro tatami e meio (+ ou - 7m2) em que o toko-no-ma e o tecto têm manchas escuras, dando uma impressão de escuridão que nem um candeeiro elétrico consegue totalmente eliminar. Mas substituindo o candeeiro por um castiçal, descubro, à luz tremente da chama, que as lacas ganham reflexos profundos e densos como pântanos. Eis um encanto novo que nos deixa compreender como os nossos antepassados, ao descobrirem esse unto a que chamamos laca, se tinham deixado encantar por esse lustro das cores do utensílios, e que tal não fora certamente obra do acaso.

 

   Mas se, sempre em Kyoto, a par ou em vez de uma refeição de luxuoso requinte, os nossos Jotas - ou tu, Princesa - quiserem, antes ou também, descobrir o espírito culinário zen, vegetariano e rigoroso, poderão ir até ao Isuzen, no mosteiro Daitoku-ji, na zona norte da cidade, onde o almoço lhes será servido em teppatsu. As teppatsu são malgas de ferro, iguais às que, em tempos idos, os monges levavam para pedir esmola.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não tenho prestado muita atenção ao reacender da polémica acerca do chamado celibato sacerdotal, certamente por já me ter cansado tanta discussão em quarto fechado (huis clos? conclave?) sobre uma questão que alguns teimam em referir, quer essencialmente, quer sistematicamente, a um estatuto especial, para não dizer sobrenatural, dos presbíteros e epíscopos - que, afinal são só ministros ou servidores da Igreja ou assembleias de cristãos - de forma a que não seja colocada, nem debatida no seu contexto próprio que é o da preocupação e providência pastoral.

 

   Aliás, um número crescente de teólogos, como já te disse, vai descobrindo ou apenas recordando que, no cristianismo, o único sacerdote é Jesus Cristo, sendo a função sacerdotal propriamente dita atribuída ao povo dos batizados, mormente na celebração da memória de Cristo pela comunhão eucarística. E os exegetas neotestamentários reconhecem que, nos próprios textos bíblicos canónicos, a designação de sacerdote não se aplica aos ministros dos sacramentos e do culto, mas apenas ao conjunto dos batizados. Assim, os textos testemunhais das comunidades da Igreja nascente - que não foi institucionalmente fundada por Jesus, mas vai medrando pela profissão e celebração da memória de Cristo -, Atos e Epístolas, dão fé de que os ministros (diáconos, presbíteros e bispos) são eleitos pelas próprias assembleias, nunca são chamados sacerdotes e são, muitas vezes, casados. Já te citei, em carta passada, o retrato ideal que São Paulo taça do bispo, em carta a Timóteo, antes ainda de se estabelecer a distinção entre epíscopo e presbítero, e com exigências muito próximas das pedidas aos diáconos:

 

   Confiável é o ditado: «Quem aspira ao episcopado, deseja um excelente ofício.» É preciso que o bispo seja irrepreensível, homem de uma só mulher, sóbrio, pudico, respeitável, hospitaleiro, didático, que não seja bêbado nem espancador, mas gentil, não violento, nem seja amante do dinheiro; que governe bem a própria casa, mantendo os filhos em submissão, com toda a dignidade: pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da assembleia de Deus? (1ª a Timóteo, 3, 1-5, tradução de Frederico Lourenço)

 

   Este, noutros passos, como mais trechos do Novo Testamento, também fazem alusão a mulheres, sem qualquer intenção ostracista, nem sequer exclusivista, o que, nesta minha carta escrita na conjuntura de uma certa polémica, me recorda um passo curioso da já tão sabida argumentação de Joseph Ratzinger no texto que é apresentado como seu   -  pior : como de Bento XVI, quando sabemos que a Igreja Católica tem só um papa, e a figura de papa emérito não tem sentido algum - incluído no livro publicado por ou com o cardeal Sarah. Deixo a palavra a Jean-Pierre Denis, diretor do semanário católico francês La Vie, que não será propriamente meu companheiro de pensamento sobre todas as questões:

 

   Leia-se então o famoso artigo. Nele encontramos a precisão do pensamento, a força da argumentação e a limpidez da escrita que foram timbre dos artigos do professor Ratzinger para a revista Communio. Ler esse texto é ter um momento de leitura feliz. É breve - umas quarenta páginas, depois de deduzidas longas auto citações, como se a oficina do pintor tivesse sustentado a mão do mestre. Mas não há dúvidas quanto ao fundo, cem por cento ratzingueriano.

 

   O papa emérito defende o celibato dos padres sublinhando a articulação entre o Antigo e o Novo Testamento. O culto católico é simultaneamente crítica e ultrapassagem em Jesus do culto do Templo. De facto, em muitas religiões, o exercício do culto está ligado à abstinências sexual. Mas esta é funcional, e apenas dura para o exercício do culto. Ora, para o padre católico, o compromisso é total, simultaneamente permanente e definitivo. De funcional, a abstinência passa a ontológica. Ratzinger acompanha a sua reflexão exegética com recordações da sua mocidade. A sua vocação foi um dom total. Não podemos deixar de nos comover com tal cultura e tal testemunho!

 

   Evitando fazer ataques ad hominem, não posso deixar de observar que qualquer vivência pessoal pode ser apresentada como exemplo a seguir, ou mesmo proposta ou incentivo a comportamentos semelhantes. Mas não me parece que sirva para definição nem, menos ainda, imposição de regras obrigatórias de conduta, como qualquer norma de direito positivo, mesmo canónico. No caso das condições exigíveis para o exercício de ministérios religiosos de comunidades cristãs, aliás, os próprios textos paulinos as enunciam, sem que elas sequer incluam a vocação à castidade total, a tal que, aliás, São Paulo todavia enaltece noutros passos das suas cartas, sem todavia deixar de prevenir - nota bem, Princesa de mim - que será preferível o casamento à prática de atos sexuais ilícitos. Tudo isso, afinal, deve ser objeto de bom senso, de prudência (o tal amor sagaz que sempre refiro), e de uma ação pastoral atenta e amiga dos fiéis e suas assembleias.

 

   O celibato eclesiástico, por outro lado, apenas começou a ser obrigatório com a reforma gregoriana do século XI e, definitivamente, com o Concílio de Trento, no XVI, durante o qual o nosso São Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e padre conciliar respeitado, defendeu, lembrado dos seus padres isolados nas serranias do Barroso, que não se impusesse tal obrigação. Até lá, só as várias vocações eremíticas e as regras das ordens religiosas abraçavam tal mandato, como parte de um projeto voluntário de vida chamada consagrada. E entre esses "consagrados" e "consagradas", a maioria não recebia, ordens de habilitação para o exercício de ministérios sacramentais e cultuais, confiado aos clérigos, sobretudo ao clero dito secular (por viver no mundo, entre as gentes). A título de mais uma curiosidade, lembro-te aqui algo que te contei em cara antiga: a prática da confissão auricular foi, durante muito tempo, exercida apenas por monges (inicialmente, creio, por monges russos e, na Igreja do Ocidente, depois, por irlandeses), nem sempre ordenados. Eram ouvintes de confissões e medianeiros do perdão divino, não por possuírem ordens sacras, mas por serem considerados homens santos.

 

   Muitos institutos e normas da vida da Igreja são fruto de circunstâncias históricas e culturais, resultantes, assim, não só de interpretações dos textos bíblicos de sua referência, mas de leituras diversas dos sinais dos tempos. Ao recordar estas contingências, estou evidentemente a manifestar algum espanto por ver, em pleno século XXI, uma argumentação sustentada por máxima misoginia primitiva, pela ideia de que a mulher (em razão da sua menstruação) e o ato sexual (esse, sim, ontologicamente cocriador) são poluidores da pureza exigida pelo culto divino... Tampouco entendo como, falando de sacerdócio e articulação do Antigo e Novo Testamentos, qualquer teólogo possa sobretudo ignorar, ou mal interpretar, este texto da Epístola aos Hebreus (10, 9-25), que transcrevo na tradução portuguesa - diretamente do grego - de Frederico Lourenço:

 

   Então disse:
   Eis que venho para fazer a tua vontade.  

 

   Suprime assim o primeiro culto para Ele instaurar o segundo. Vontade essa na qual fomos santificados, através da oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.

 

   E todo o sacerdote se apresenta cada dia para oferecer o culto, oferecendo amiúde os mesmos sacrifícios, que nunca conseguem apagar os pecados. Porém este, depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus, doravante aguardando que os seus inimigos sejam colocados como estrado dos seus pés.

 

   Pois com uma só oferta Ele tornou para sempre perfeitos os santificados. Testemunha-nos isto também o espírito santo. Após ter dito:

 

   Esta é a aliança que estabelecerei com eles,
   Depois daqueles dias, diz o Senhor:
   «Dando as minhas leis aos seus corações,
   Na mente deles eu as gravarei.
   E dos pecados deles e das suas iniquidades, não mais Me recordarei.»

 

   Onde existe perdão destes, já não existe oferenda pelo pecado.

 

   Por conseguinte, irmãos, tendo nós liberdade para a entrada no santuário no sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que Ele nos dedicou através do véu que é a sua carne; e tendo um sumo sacerdote à frente da casa de Deus, aproximemo-nos dele com um coração verdadeiro em plena segurança de fé, com os corações limpos de qualquer mancha de uma má consciência e o corpo lavado com água pura.

 

   Mantenhamos sem vacilar a profissão da esperança, pois fiel é Quem fez a promessa; e demos atenção uns aos outros com vista ao paroxismo de amor e boas obras, sem abandonarmos a reunião uns com os outros (como é costume de alguns), mas encorajando-nos.

 

   Trago-te, Princesa de mim, esta longa citação, por ser consoladora lição da novidade do ensinamento de Jesus, da Boa Nova! E, para nos ajudar a interpretar melhor a referida "articulação do Antigo e Novo Testamento" podemos ler outro trecho da mesma Epístola aos Hebreus que, como o comentário do próprio Ratzinger deixa suspeitar, tem sido, de forma abusiva, utilizado para a configuração da figura ideal e regulamentar do padre católico pelo modelo de Jesus. Remeto para a ideia expressa pelo ex-Papa de que se, noutras religiões, a abstinência sexual se impõe no período de exercício do culto, tal obrigação é apenas conjuntural, enquanto a do padre católico é um compromisso total e definitivo. Estará, talvez, aí um pecado original do clericalismo, inicialmente gerado pela preocupação em morigerar certos hábitos do clero, mas logo caindo na tentação de fazer de um exemplo de vida cristã uma norma geral que, significativamente, não só moralizasse clérigos, como lhes oferecesse um estatuto de exceção de entre os batizados. (Aliás, foi percetível a obsessão com a hagiografia eremítica e monacal). Mas, na verdade, parece-me que a tal articulação dos Testamentos - ou a sua diferenciação - resulta mais clara duma nova leitura de trechos do capítulo 8 da Carta aos Hebreus, donde depreendemos a orientação e afirmação cristocêntrica que nos conduz ao reconhecimento do próprio Cristo como único sacerdote, não só relativamente aos levíticos do judaísmo, que substitui, mas por ser o único a ser simultaneamente oficiante e vítima do sacrifício redentor. Assim, sacerdote e sacrifício são, estes sim, ontologicamente o mesmo, e a consequente posterior celebração da Eucaristia (que quer dizer ação de graças) mais não sendo que memória efetiva disso mesmo pelas igrejas, isto é, pelas assembleias de batizados e seus ministros. Traduzo eu, da versão francesa da Bíblia de Jerusalém (edição de bolso, que trago muitas vezes comigo), um trecho de Hebreus, 8, 1-5:

 

    O ponto capital das nossas afirmações é que temos um sumo sacerdote sentado à direita do trono da Majestade nos céus, ministro do santuário e da Tenda, da verdadeira, daquela que o Senhor, e nenhum homem levantou. Qualquer sumo sacerdote, com efeito, foi constituído para oferecer dons e sacrifícios; donde a sua necessidade de ter algo para oferecer. Na verdade, se Jesus estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, pois os há a oferecer dons em conformidade com a lei; esses oferecem o serviço de uma cópia e de uma sombra das realidades celestes...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira