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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há semanas que não te escrevo. Além de distraído por outras cismas, tenho sofrido repetidas cargas das minhas maleitas álgicas, perco sono e fico prostrado pelo cansaço. Vale-me o amparo de alguma música, desta feita - e curiosamente - a de compositores da última década do século XIX e primeiras do XX, de Debussy e Satie a Ravel e Stravinsky, sem esquecer a escola de Viena... E vou navegando por mares poéticos, por Paul Claudel e os japoneses, e ainda - talvez sobretudo - pelo imenso e forte oceano do nosso frei José Augusto Mourão, cuja poesia é, ela própria, uma liturgia da Palavra que o sopro do Espírito vai enfunando em nós. Tornando-nos sempre bem presente a saudade vital que é o fado da nossa humana condição. Citando um dos títulos da obra de frei José Augusto, afirmo que a sua poesia é Dizer Deus ao (des)abrigo do nome.

 

   Topamos  por aí com "poetas" medíocres, carreiristas de encómios, que vão encobrindo a indigência dos seus escritos e discursos com citações frequentemente deslocadas do seu sentido próprio, para apenas decorarem a moldura do retrato em que se miram ao espelho do charco sobre que se debruçam com alguma "flor de cultura". Talvez distraídos daqueles versos  de J. A. Mourão, insertos no seu protestatio et confessio:

 

          à banalização do mal eu digo não
          à tecnologia das próteses e ao mercado
          que conforta em nós Narciso, digo não

 

   Afinal, o Poeta mesmo, aquele que vive como dom, como promessa e espera, a liturgia essencial da Palavra sabe as horas  pelos relógios da fé: 

    

          A nós que agora vemos em espelho
          aguardando o face a face do teu Dia
          que o fogo do mal não nos devore os olhos
          nem a ira queime a compaixão que falta
          mas que a tua paz nos mostre o possível do mundo
          o amanhecer da graça e da beleza

 

          que não recuemos diante da tua sombra
          nem nos contem as horas os relógios da fé

 

          dá a vigilância e o fervor à nossa vida
          a atenção ao escondido da esperança
          e a resistência às tentações da transparência
          para o instante e o agora do mundo

 

   Encontrei neste poema uma oração para todos os humanos em todos os dias deste tempo difícil e tão incerto. Bem hajas, frei José Augusto Mourão!

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em texto breve e claro, Claude Lévi-Strauss fala de algo que disse no Japão e a que chama apprivoiser l'étrangeté, encabeçando a sua reflexão por uma citação de Platão: Porque o mais contrário é o maior amigo do que lhe é mais contrário... Poderia também ter citado alguém mais seu coevo, como o jornalista correspondente de guerra Robert Guillain, que teve esta afirmação famosa: Le Japon est le pays où le contraire est vrai...

 

   E, referindo-se à descoberta da cultura japonesa pelo Ocidente, logo aponta o jesuíta português Luís Froes como pioneiro, no século XVI, desse exercício de comparação simétrica de pessoas, usos e costumes que, em meados do século XIX, levou o mesmo Ocidente a ganhar o sentimento de se redescobrir nas formas de sensibilidade estética e poética que o Japão  lhe propunha. Esta frase, aliás, resume o teor do prefácio que o célebre antropólogo francês (nascido em 1908, em Bruxelas) escreveu para a edição francesa de Européens et Japonais. Traité sur les contradictions et différences de moeurs, que, em português, foi escrito pelo padre Luís Froes em 1585 e, apesar de praticamente ignorado na sua pátria, e sua própria língua, foi, muito mais tarde, traduzido e publicado em França pela Chandeigne (1998 e 2005).

 

   Noutro texto seu, e noutra charla nipónica, Lévi-Strauss fala de Sengai (1750-1837), calígrafo, pintor e poeta, monge zen que costumava ir beber à fonte dos haikai de mestre Basho. O trecho que seguidamente para ti traduzo vale bem a leitura que fizeres, pelo muito que nos desvenda da íntima relação - para não dizer natureza comum  -  da poesia, caligrafia e pintura japonesas. Escuta bem:

 

   A arte de Sengai, reconhecia André  Malraux, deixa perplexo o espectador ocidental: «Nenhuma outra arte extremo-oriental, prosseguia ele, está tão longe da nossa, nem de nós.»

 

   Cada vez que se nos revela o sentido das legendas inscritas por Sengai à margem das suas pinturas, compreendemos um pouco melhor as razões de tal mal entendido. Pois que, pelo seu significado e o seu grafismo, as palavras têm tanta importância quanto o assunto, já que desses curtos textos, muitas vezes em forma de poemas, com as suas citações implícitas e as suas alusões maliciosas, os seus subentendidos, apenas obtemos das obras uma perceção mutilada.

 

   Mas, em certo sentido, isso é válido para toda a pintura extremo-oriental, indissociável da caligrafia, e não tão somente porque esta tem sempre cabimento naquela. Cada coisa representada - árvore, rochedo, curso de água, casa, senda, monte   -  para além da sua aparência sensível, recebe um significado filosófico de como o pintor a representa e situa num conjunto organizado.

 

   Mesmo se nos ativermos apenas à caligrafia, é claro que, apesar de todos os esforços dos tradutores, o essencial da poesia dos haikai - tais como os de Basho, de quem Sengai se sentia próximo, fica fora do nosso alcance. Tanto quanto o sentido literal, único acessível, contam a escolha de um caracter em vez de qualquer outro, o estilo da escrita (os manuais enumeram pelo menos cinco) e a disposição do texto sobre a folha...

 

   Já noutras cartas para ti, ou ainda em textos vários que escrevi sobre as minhas descobertas e insistentes interrogações acerca da cultura japonesa, abordei temas relacionados com a tradução literária ou as imitações e tentativas de adoção de géneros e modos literários próprios de outras culturas e línguas. Tais aventuras são sempre empresas de risco e incógnitos sucessos à partida. Exigem aos seus fautores, antes de mais, um refletido esforço de escuta e humildade, Com o tempo todo que lhe for necessário. E, depois, a serenidade de uma partilha, só pelo gosto dela. 

 

   O poeta, nosso contemporâneo, Mutsuo Takahashi editou em 2003 uma curiosa antologia de haiku - que, aliás, considera a chave poética do Japão - cuja maior qualidade, a meu ver, reside, precisamente, na achega a uma poética e estética, que nos proporciona, não só através das suas magníficas traduções para inglês, como pelas fotografias que a ilustram, e através das quais Hakudo Inue tenta desvendar-nos alguma visão mais intimista dos poemas japoneses. Essa também é facilitada pelo facto da edição ser bilingue (japonês-inglês), nesta publicação da P-I-E Books (Tokyo, 2003). O prefácio escrito pelo antologista e tradutor é, além disso, breve, conciso e claro, muito informativo e esclarecedor. Vem, a talho da fouce desta carta, traduzir-te eu os seguintes trechos desse texto de apresentação:

 

   ...O haiku de cinco-sete-cinco sílabas, todavia, nem sempre foi uma forma independente. Começou enquanto primeiro verso, chamado hokku, de uma espécie de poesia engrenada, chamada renga e haikai no renga (ou renga em estilo popular).  [Abro aqui um parêntese, Princesa, para te dizer que ouso pensar no "hokku" nipónico como equivalente ao nosso mote em desafios poéticos]. Tais poemas engrenados eram colaborativamente escritos por vários poetas que lhes iam alternativamente adicionando versos de sete-sete ou cinco-sete-cinco sílabas. Há pouco mais de cem anos, Shiki [Masaoka Shiki, 1867-1902, poeta, inventor do neologismo "haiku"] , decidiu separar o hokku do renga e do haikai  no renga, assim nascendo então o haiku.

 

   Havia uma conexão entre o hokku e os versos seguintesque começava com o segundo verso (wakiku ou "verso de suporte"). Apesar disso, o hokku permanecia semiautónomo. Aquilo a que hoje chamamos haiku, de Basho ou de Buson, são os seus semiautónomos hokku, vistos como poemas independentes.

 

   [Permite-me aqui, Princesa de mim, abrir mais um parêntese, chamando a atenção para a pertinência desta observação, já que tem sido generalizada a ideia de que haiku (para o qual, aliás, se inventou o plural, inexistente em japonês, de "haikus") é uma forma poética, ou género literário independente desde a sua origem. E é bem notória a tendência de se identificar tal mal entendido com, por exemplo, a obra escrita de Munefusa Matsuo (mais conhecido por Basho), esquecendo que dois terços da mesma está em prosa, sendo os versos destacados comentários, quiçá mais intimistas, ao próprio relato dos textos prosaicos. Aliás, tal facto nada tem de novo: já em literatura japonesa muito antiga  -  e no próprio Conto de Genji - o recurso a interlúdios poéticos é patente, retratando bem a unidade japonesa e budista das artes da escrita, da caligrafia e da ilustração plástica. Talvez, mesmo mais do que qualquer outra em todo o mundo e história, a literatura japonesa seja integral e profundamente emocional, registo possível do pensarsentir do ser humano. Quiçá por motivos próximos dos que levam a língua japonesa a tanto se alimentar de onomatopeias. Ocorre-me, neste preciso instante da escrita desta carta, voltar a citar-te um passo do Zen and Japanese Culture do professor Daisetz Suzuki (Princeton University Press, 1970), a que já muitas vezes me referi em escritos vários: Está certo dizer-se que a mente oriental é intuitiva, enquanto a mente ocidental é lógica e discursiva. Uma mente intuitiva tem certamente as suas fraquezas, mas o seu ponto forte surge quando trata de coisas mais fundamentais na vida, isto é, coisas relativas à religião, à arte, à metafísica. E foi o Zen que especialmente estabeleceu esse facto: o satori. A ideia de que a verdade última da vida e das coisas deve geralmente ser intuitiva e não conceptualmente apanhada, e de que tal apreensão intuitiva é o fundamento, não só da filosofia, mas de todas as outras atividades culturais - eis aquilo com que a forma Zen do budismo mais contribuiu para a cultura do apreço artístico entre o povo japonês.]

 

   Retomarei o fio desta meada em carta próxima, ou talvez aproveite a oportunidade para iniciar já com a presente uma nova série de escritos meus sobre o Japão, à qual, depois de Fomos em Busca do Japão e de Um Itinerário de Muitos Olhares, talvez ponha o título de Em Rebusca do Japão. Até lá. Mas, a fechar a presente, deixa-me traduzir-te as primeiras linhas de um "Diário de Viagem" de Matsuo Basho, intitulado Nozarashi kiko, e que é o primeiro apresentado, já em 1988, por René Sieffert na sua versão francesa Bashô - Journaux de voyage, publicada pelas Publications Orientalistes de France. A minha versão portuguesa foi feita directamente da francesa de Sieffert, com recurso esporádico e "tant bien que mal" ao texto original japonês, e o apoio do meu querido Dicionário Universal Japonês-Português do nosso jesuíta e contemporâneo padre Jaime Cepeda Coelho, velho e querido amigo. O pequeno trecho que se segue, a meu ver, diz muito sobre o espírito, a obra e o universo do grande Basho:

 

   Partindo para uma viagem de mil léguas, sem me embaraçar com provisões para o caminho, «sob a lua da terceira vigília entrei no inquestionável», poderia dizer esse Ancião: ao seu cajado me apoiei, na era Jokyo, no ano do Primogénito da Árvore e do Rato [1684], pela oitava lua do outono, quando deixei o meu casebre desconjunto, ao pé do rio, e um vento frio soprava.

 

          Embranqueçam os meus ossos
          penetra-me o vento o corpo
          até ao coração

 

          Passados dez outonos
          o nome de pátria designa
          Edo doravante

 

   No dia em que atravessei as barreiras, caía chuva e os montes todos desapareciam por entre as nuvens.

 

          Nevoeiro e bruma
          dissimulam o Fuji
          encanto deste dia

 

      Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Leonardo Sciascia foi, mais do que um homem notável, uma pessoa interessante pelo seu percurso militante e público, afinal sempre animado por uma fidelidade muito íntima a algo que me comove e alegra chamar esperança ou incessante busca da graça. Foi tribuno e comunista, lutou sempre contra os abusos do poder estabelecido, como contra a máfia, creio que por sobretudo serem limitações da própria pessoa humana e sua essencial liberdade. Por isso também terá sido leitor atento e afeito de Graham Greene, em cuja obra terá descoberto a promessa da graça como redenção. Mas não é dele que te venho falar hoje. Na sequência do que te prometera já, antes dele partirei para falar de Tácito e voltar a Le Procurateur de Judée do Anatole France. Retomando, aliás, o fio da meada que começara a desenrolar em carta anterior, ou seja, traduzindo o trecho do posfácio escrito por Sciascia, de que então te falei:

 

   Narrativa que é um apólogo - e uma apologia - do ceticismo mais absoluto (e, portanto, da tolerância sua filha), mas que é também - para além das referências precisas que possamos tirar dos Anais - uma subtil homenagem a Tácito: homenagem prestada, através da obliteração grosseira de  Pôncio Pilatos à quase obliteração - misteriosa, sugestiva, intrigante, de Tácito. Pôncio Pilatos esqueceu totalmente Cristo e os cristãos; suspeita-se Tácito de ter querido - por intolerância profunda ou por desejo de previsão - querido esquecê-los. O trecho em que deles fala, a respeito do incêndio de Roma, é para nós efetivamente misterioso, sugestivo e intrigante: sobe-nos à imaginação como quando de um vinho dizemos que nos sobe à cabeça. Vale a pena relê-lo:

 

   «Mas nada, nem as intervenções humanas, nem as larguezas do príncipe, nem os sacrifícios aos deuses conseguiu dissipar o rumor infamante de que o incêndio fora aceso a mando. Assim, para abafar tal boato, Nero resolveu denunciar os incendiários com sendo gente detestada pelos seus reprováveis costumes, e a que o vulgo chamava cristãos, e infligiu-lhes os mais refinados suplícios. Tais pessoas derivavam o seu nome de Cristo que, no reino de Tibério, fora condenado à morte por Pôncio Pilatos. Imediatamente reprimida, essa execrável superstição ressurgia todavia, não só na Judeia, donde era tal calamidade proveniente, mas na própria Roma, para onde convergem todos os horrores e todas as ignomínias, e onde fazem escola. Prenderam-se  primeiro os que confessavam a sua fé, e depois, por indicação destes, uma multidão de outras pessoas que foram condenadas, menos por crime de incêndio do que pelo seu ódio ao género humano. Infligiram-se, aos que iriam morrer, os maiores ultrajes, tal como serem revestidos de peles de animais, ou serem mordidos e rasgados pelos cães, ou pregados em cruzes, ou incendiados, ao pôr do sol, para serem tochas na noite. Nero cedera os seus próprios jardins para tal espetáculo, enquanto oferecia jogos circenses e se misturava à plebe vestido para de auriga. Assim, face a essa geração culpada e merecedora de exemplar castigo, a piedade seguia o seu caminho, não tanto como se fossem sacrificados para bem de todos, mas para satisfação da ferocidade de um só.

 

   Para melhor entendimento deste texto de Tácito, convém ter presente que o imperador Nero pretendia apresentar-se como Apolo, deus solar, cujos principais símbolos ou atributos eram o traje de auriga ou condutor de carros velozes, dos quais se distinguia a quadriga, puxada por quatro cavalos e representando o carro solar, e a lira, instrumento musical por excelência. O culto divino do imperador era parte importante da consistência política da religião romana daquele tempo que, por outro lado, acolhia cultos de várias divindades, até de origem estranha, provenientes sobretudo do oriente. Entre os letrados romanos, todavia, mantivera-se, desde o fim da república e estabelecimento do regime imperial, a par de uma certa reserva crítica e censória de costumes considerados atentatórios da higiene moral nativa, sobretudo da familiar, um certo "nacionalismo" ético, avesso a hábitos e valores provenientes de estirpes não romanas. Lido no seu contexto coevo próprio, então moral e socialmente correto, esta prosa contém, talvez mais do que uma crítica aos cristãos, vulgar em Roma naquela época, uma censura à megalomania intolerante de Nero, e ao abuso de poder: "não sacrificados para bem de todos, mas para satisfação da ferocidade de um só". É notável.

 

   Aqui chegados, deixa-me voltar à novela de Anatole France, cujos trechos finais iluminam duas zonas de penumbra distintas mas, cada qual à sua maneira, bem presentes em elaborações do nosso próprio pensarsentir. Uma diz-nos como quanto da nossa indiferença, ou esquecimento, ou abandono do outro, tem que ver com uma qualquer necessidade de olvidarmos a nossa própria intolerância ou imperfeição. Outra  -  que, neste caso, é a confissão de Laelius Lamia ao seu amigo Pilatos  -  já nos fala da força contagiante do amor, revestido, ou não, de referências carnais. Começo por esta, traduzindo-te passos de Anatole France, narrando essa confidência de Lamia (o "exilado de Tibério") ao seu amigo Pôncio, quando ambos já gozavam confortável reforma:

 

   O exilado de Tibério já não escutava o velho magistrado. Após esvaziar o seu copo de falerno, sorria a qualquer imagem invisível.

 

   Depois de uns minutos de silêncio, começou a falar em voz baixa, que a pouco e pouco se ia erguendo:

 

   - As mulheres da síria dançam com tanta languidez! Conheci uma judia de Jerusalém que, numa espelunca, à luz duma lamparina fumarenta, em cima dum tapete reles, dançava erguendo os braços, para fazer soar uns címbalos. De rins quebrados e cabeça atirada para baixo, como que arrastada pelos fartos cabelos ruivos, com os olhos banhados em voluptuosidade, ardente e langorosa, elástica, teria feito a própria Cleópatra empalidecer de inveja. Deliciavam-me as suas danças  bárbaras, o seu canto algo rouco e todavia tão doce, o seu perfume de incenso, o semissono em que parecia viver. Seguia-a para todo o lado. Misturava-me com a turba vil de soldados, meliantes e publicanos que a rodeavam. Certo dia desapareceu, não voltei a vê-la. Por muito tempo a procurei, por ruas suspeitas e em tabernas. Era mais difícil desabituar-me dela do que do vinho grego. Meses depois de a perder de vista, soube por acaso que se tinha juntado a um pequeno grupo de homens e mulheres que seguiam um jovem taumaturgo galileu. Chamavam-lhe Jesus Nazareno e foi crucificado nem sei porque crime. Pôncio, lembras-te desse homem?

 

   Pôncio Pilatos franziu as sobrancelhas e levou a mão à fronte, como quem procura uma memória. E, passados alguns instantes de silêncio:

 

   -  Jesus?, murmurou, Jesus Nazareno? Não me recordo.   

 

   Palavras... para quê, Princesa? Só se for para citar Pascal: o coração tem razões que a razão desconhece. Ou será que talvez nada nos possa ocorrer, para além da imediata conclusão de que, afinal, pode haver sentimentos que nos escapem ao juízo moral, ou razões afetivas que o derroguem ou mesmo revoguem. Ou ainda, mais simplesmente, que acontece, em tempos e modos tão diversos, procurar ou simular um esquecimento de algo de que demasiadamente nos lembramos, ou somos lembrados. Mas este final de uma novela do nobel Anatole France é uma ficção, não um documento histórico. O que qualquer ciência do passado nos pode dizer é que Pôncio Pilatos foi certamente um funcionário imperial arrogante, sem margem para despotismos, mas, por vezes, bastante temerário e pouco propenso ao exercício da prudência ou amor sagaz. Tampouco sabemos como lhe correu a vida após ter sido destituído das suas funções de prefeito na Judeia pelo legado na Síria, Lucius Vitellius, que o remeteu a Roma para mais explicações. Na origem do processo estaria a prepotência de Pilatos sobre qualquer suspeita de movimentação messiânica, na Judeia, Galileia ou Samaria... Suicidou-se? Foi decapitado por ordem do imperador Calígula? Exilou-se em Viena? Ter-se-á convertido ao cristianismo, como o pretendeu piedosa, mas inverosímil, lenda registada por Tertuliano e por apócrifos como os Actos de Pilatos e o Evangelho de Gamaliel? Aparentemente, mas isto com toda a certeza, foi sendo objeto de várias ficções literárias: até no ano 2000, um século depois da 1ª. edição de Le Procureur de Judée, o romancista Eric-Emmanuel Schmitt, publicou um Evangelho segundo Pilatos...

 

   Se concordares, Princesa de mim, deixar-nos-emos ficar pela ficção do Anatole, questionando o porquê do aparecimento dessas memórias das personagens de Laelius Lamia e de Pôncio Pilatos no final da novela: o primeiro fora exilado de Roma por adultério e levara uma vida de maus costumes; o segundo regressara a Roma por castigo da sua prepotência. Mas aquele recordava-se de ter perdido uma mulher de má vida, que muito amara, desde que esta tudo deixara para seguir o evangelho de um galileu taumaturgo. O magistrado romano afirmava já nem se lembrar desse nazareno que tanto lhe assustara os sonhos...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Domingo da Ressurreição do Senhor, e esta segunda-feira de Páscoa, neste confinamento largo pelo privilégio de já viver exilado e isolado no campo, feito anacoreta (ou retirado no deserto) e monge (em grego, monachos significa sozinho), têm sido dias de nova reflexão sobre o Jesus histórico e o Ressuscitado. Até escrevi, em breve mensagem a uma querida amiga, precisamente em Dia de Aleluia: «A Páscoa é sempre - para mim - um passo difícil, na medida em que nos (me) leva a ir do histórico ao cerne da fé... Os únicos testemunhos coevos  que conheço da Ressurreição de Jesus são os constantes de textos neotestamentários. Tenho pensado na escrita de um texto sobre isto, apesar de, provavelmente, poder interessar a muitos poucos».

 

   Mas, Princesa de mim, sem me esquecer da promessa que te fiz de falar sobre Pôncio Pilatos, Tácito e Anatole France, aproveito esta oportunidade para te traduzir o início do artigo Ponce Pilate do Dictionnaire amoureux de Jésus do historiador francês Jean-Christian Petitfils (Paris, Plon, 2015): Penso muitas vezes na extraordinária e sulfurosa fama póstuma desse prefeito da Judeia que condenou Jesus ao suplício da cruz, quando afinal a gente tudo ou quase tudo esqueceu da vida dos poderosos Césares romanos. Todos os domingos, centenas de milhões o mencionam ao recitar o Símbolo dos Apóstolos ou Credo de Niceia-Constantinopla: «Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado...»

 

   Sub Pontio Pilato: tal referência nada tem de despicienda. É mesmo essencial para os dados da fé. Significa que a Incarnação não é um mito, um conto de fadas, aquilo, precisamente, que dela dizia o filósofo incréu Paul-Louis Couchoud no seu "Mystère de Jesus" (1924). Pois que, para ele, Jesus não é uma personagem histórica, mas uma figura mítica idealizada, um ser divino paulatinamente elaborado pela consciência cristã. «Admito todo o Credo, escrevia ele a Jean Guitton, menos essa inclusão de sub Pontio Pilato.» A presença intempestiva do prefeito romano num texto cristão incomodava-o. Já que ela é, pelo contrário, uma caução histórica da existência de Jesus.

 

   Apoiando-se nos escritos coevos de cronistas como Flavius Josephus, Fílon de Alexandria  e sobretudo Tácito, os historiadores durante muito tempo consideraram que Pilatos era "procurador" na Judeia. [Na verdade, como se veio a verificar depois, por uma lápide descoberta no teatro romano de Cesareia, o seu título (e sua função ali), no reinado de Tibério, ao tempo de Jesus, era o de "Prefeito", isto é, administrador público exercendo poderes militares e judiciais, sendo nessa sua capacidade que interveio no processo do Nazareno].

 

   Não sabemos bem se a aposição do Titulus damnationis  (razão da condenação), inscrito numa tabuinha de madeira no alto da cruz, era prática corrente. No caso de Jesus, o título INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudeorum), terá sido redigido por Pôncio Pilatos. Tal redação consta do Evangelho de João, transcrevendo o que testemunhas oculares observaram. É interessante reproduzir nesta carta para ti, Princesa de mim, um comentário de Jean-Christian Petitfils. Traduzo:

 

   Foi intencionalmente que os sumos-sacerdotes Anás e Caifás denunciaram Jesus como perigosos Nazareno, não enquanto habitante da insignificante aldeia de Nazaré, na baixa Galileia, mas antes como membro do clã davídico que tinha esse nome que assim fazia dele um pretenso Messias político.

 

   Ao interrogar Jesus, Pilatos tinha-se dado perfeitamente conta de que o prisioneiro nada tinha a ver com qualquer chefe de bando com aspirações a uma realeza temporal. Tinha-lhe dito: «O meu reino não é deste mundo». E vira bem como os sumos-sacerdotes o procuravam manipular. Mas, fingindo segui-los, ordenou que o texto fosse inscrito nas três línguas utilizadas na Judeia: em aramaico, língua corrente; em latim, língua oficial do império; e em grego, usado nos meios comerciais e trocas internacionais.

 

   Estigmatizando assim a expectativa messiânica de Israel, Pilatos troçava dos sumo-sacerdotes e dos que haviam tentado obrigar a condenar Jesus. Escreve S. João que «essa tabuleta foi lida por muitos judeus porque o lugar onde crucificaram Jesus era próximo da cidade». Quando perceberam que tinham sido enganados, Anás e Caifás protestaram: «Não devias escrever "Rei dos Judeus" mas que "ele disse que era Rei dos Judeus"». Pilatos logo arrumou a questão: «O que escrevi está escrito».

 

   Petitfils, e outros historiadores nossos contemporâneos deduzem da leitura do texto grego original, em que essa resposta de Pilatos, dita em grego, sofre todavia de latinismo, terá si registada por testemunhas presenciais, entre as quais estava o próprio João Evangelista, que seria membro da alta aristocracia de Jerusalém e assim a teria recolhido da própria boca do Prefeito romano.

 

   Aliás, em muitos passos do seu Evangelho João insiste em referir testemunhos presenciais, muitos deles seus próprios. No relato da Paixão e Morte de Jesus é meticuloso na nomeação das pessoas presentes aos atos sucessivos que vai narrando, bem como no próprio silêncio em redor da Cruz. O texto de João é surpreendentemente magnífico pela sua íntima densidade, oferecida num cenário quase cinematográfico: ao assistirmos a uma cena, simultaneamente vamos descobrindo e pensarsentindo um mistério que apocalipticamente nos penetra. 

 

   Ao lermos o capítulo 19, Princesa de mim, vimos com minúcia o exterior aparente dos atos e dos factos, e podemos imaginar os rostos dos presentes, mas também sentimos o que tantos silêncios nos dizem da perplexidade e do sofrimento anímico das pessoas. É uma reportagem.

 

   Mas o capítulo 20 "apenas" interpela o íntimo dessa gente e de nós mesmos perante a revelação e manifestações posteriores de um facto único, que ninguém presenciou nem podia presenciar: a Ressurreição do mesmo Jesus que víramos morrer e ser sepultado. É um apelo à metanoia.

 

   Pois muitas vezes pensossinto que uma coisa é a nossa compreensão, outra será o poder de Deus. Aliás, este nem sequer poderá bem ser o que por poder entendemos. Tenho para mim, desde a minha mais tenra adolescência, que o poder de Deus não é qualquer faculdade de impor sem interrogar, de obrigar sem consulta.  Antes me soa como um apelo, uma chamada a sair dos meus limites, para ir ao encontro do que não conheço, ou ainda não sei entender. Nesse sentido se abre para mim a religião como espaço e tempo de libertação. Isto que te escrevo agora, Princesa de mim, ocorre-me neste instante como sendo aquilo que tantas vezes te disse quando te falava de me sentir simultaneamente no tempo mensurável e fora dele.

 

   O tal João Evangelista - de que não tenho foto alguma, nem sei ao certo, nem cientificamente, quem foi exatamente - é meu companheiro e irmão, sei que vivo com ele todos os dias. Confio nele porque me diz o que viu e ouviu presencialmente, e assinala o que ouviu dizer e testemunhar. Afinal, todos nós, seres humanos e limitados, somos honestamente assim: até os cientistas vão tendo cada vez mais de considerar o adquirido por quem os antecedeu. O início do capítulo 20 do conto evangélico de João refere: No primeiro dia da semana, Maria Madalena chega cedo ao túmulo, estando ainda escuro. E vê a pedra retirada do túmulo. Então desata a correr e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e diz-lhes: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram!» Saíram então Pedro e o outro discípulo e foram até ao túmulo. Corriam juntos, e o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo; e, espreitando, vê depostos os panos. Porém não entrou. Chega então também Simão Pedro, seguindo atrás dele, e vê os panos depostos, e vê que o sudário, que estivera à volta da cabeça dele, não jazia juntamente com os panos, mas dobrado à parte em lugar próprio. Então o outro discípulo, o que chegara primeiro ao túmulo, entrou e viu, e acreditou. Ainda não  tinham entendido o passo da Escritura, segundo o qual ele tinha de ressuscitar dos mortos. Os discípulos voltaram de novo para junto dos seus.

 

   Maria Madalena ficou de pé a chorar no exterior do túmulo. Enquanto chorava, espreitou para dentro do túmulo e viu dois anjos sentados, vestidos de branco, um à cabeça, outro aos pés, no sítio onde jazera o corpo de Jesus. E eles dizem-lhe: «Mulher, porque choras?» Ela diz-lhes: «Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram». Enquanto ela dizia isto, voltou-se para trás e vê Jesus de pé, e não sabia que era Jesus. Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus : «Maria!» Ela, voltando-se, diz-lhe em hebraico: «Rabbouni!» (o que quer dizer Mestre). Jesus diz-lhe: «Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmão e diz-lhes: "Subo para meu Pai e vosso, Deus meu e Deus  vosso.»

 

   A cena do "Noli me tangere" encontra-se largamente representada na iconografia cristã. A tradução literal da expressão latina da Vulgata será "Não queiras tocar-me". O corpo de Jesus ressuscitado é já um corpo glorioso, isto é, incorruptível, intocável. Não é como o de Lázaro  -  que Jesus tirara do reino dos mortos para devolver à vida terrena - um corpo restituído à animação da sua própria carne, como que apenas arrancado à dormição em que se encontrara. O Corpo de Cristo está já noutro mundo, onde nem sequer os seus discípulos poderão ir agora, e no mundo presente é o Corpo Místico que formam, na Eucaristia comum, aqueles que acreditam e se reconhecem pelo amor fraterno. Por isso mesmo se celebra, na Eucaristia, o Mistério da Fé como anúncio da morte, proclamação da ressurreição e esperança no regresso do Senhor Jesus, na hora em que todos seremos glorificados com ele.

 

   Mas não deixa de ser curioso que, no mesmo capítulo 20 de João, a seguir ao relato do "Noli me tangere!" e do anúncio feito por Maria Madalena, bem como da presença inesperada de Jesus que surge no meio dos seus discípulos reunidos numa casa totalmente fechada (pois tinham medo dos judeus), atravessando barreiras físicas e apresentando o seu corpo glorioso, seja também narrado o episódio da permissão dada a Tomé, uma semana depois, de tocar as feridas visíveis no mesmo corpo, para que, assim confirmando a sua realidade, acredite que é o corpo ressuscitado que tanto padecera... «Meu Senhor e meu Deus!» - exclama o desconfiado discípulo. «Porque me visteacreditasteBem aventurados os que não viram e acreditaram».

 

   Tal como quem não experimentou ainda a sua morte, não sabe o que esta é e apenas pode sofrer com a de outros, assim também quem ainda não ressuscitou terá de se contentar com acreditar na Ressurreição e esperar a sua. O próprio Tomé, mesmo depois de ter visto e tocado, terá tido que acreditar. A divina misericórdia interroga a nossa esperança.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:  

 

   Eis como vou vivendo esta  Semana Santa: em quarentena que me aproxime de familiares e amigos, e de ti, Princesa de mim, na contemplação de mistérios que, menino e moço, aprendi a guardar em labor de contínua cultura. Também me dá para novamente mergulhar nos labirintos secretos da literatura japonesa, talvez por me desafiarem a repensarsentir o nosso próprio universo. Acontece-me, aliás, ser levado por atalhos de regresso ou de vaivém, como quando autores nipónicos do início do século XX se inspiram em Stendhal ou Flaubert, sem esquecer Anatole France, que um romancista japonês me recordou, e do qual um encontro com Pilatos na leitura da Paixão de Jesus Cristo me fez reler Le Procureur de Judée.

 

   Para quem, como eu, viveu alguns anos no Japão, a leitura de textos históricos e literários, mesmo da Bíblia, ganha, em paralelo  ao seu propósito espiritual, e deste por vezes extravasado, um sabor exótico acentuado pelo próprio ambiente climático e cultural em que tal leitura se vai então fazendo. Jerusalém, a Judeia e a Galileia do tempo de Jesus não têm vida nem história entendíveis sem a perceção de Roma e do seu poder, ao ponto de ser até fácil cair-se na tentação de cotejar duas cidades mediterrânicas tão carismáticas e imaginar algum tribuno romano a reclamar delenda est Jerusalem! , como aliás veio a acontecer com a destruição do Templo no ano 70 D.C. E, por outro lado, também imaginaremos cheiros, alimentos, encontros e ruídos familiares, contrapondo-os à humidade do clima japonês, que o calor estival anualmente torna pesado, sudorífero e silencioso. Quando estamos no campo, sobretudo na montanha pouco habitada, abandonamo-nos a essa atmosfera, entregamo-nos a uma meditação telúrica com a natureza, como se nesta também a transcendência repousasse. Esquecemos a distinção mediterrânica, linear, da luz e da sombra, a verticalidade grega de uma iluminação vinda de cima. E percebemos melhor o porquê de São Francisco Xavier ter desistido de achar na terminologia shintoísta ou budista palavra que dissesse Deus, ao que parece quando descobriu que até a palavra kami  significa os espíritos, mesmo imanentes (como árvores, águas ou rochas) do universo. Por isso os nossos jesuítas optaram pelo nome latino e português de Deus que, em romaji ou caracteres latinos para transcrição fonética do japonês de então, se escreveu Daesu.

 

   A revisão literária "ocidentalizante" que se iniciou na Era Meiji e se prolongou pelos períodos Taisho e Showa, na primeira metade do século XX, trouxe à ribalta das letras nipónicas formas de tratamento dos comportamentos e paixões mais conformes aos cânones das escolas romântica, realista e naturalista europeias. Mas delas se apoderaram sensibilidades japonesas, que lhes trouxeram um gosto mais paciente do pormenor e outra delicadeza e profundidade. Sobretudo, talvez, um pouco mais de penumbra, um jeito mais sombrio de aproximar e contemplar humanos corações e mentes. Algo bem chegado ao mistério essencial da humanidade e do mundo, tal como sentido por imanência. Tenho para mim - reconhecendo todavia tratar-se sobretudo de pessoal sensibilidade - que a espiritualidade japonesa mais próxima da nossa se encontra no ensinamento Zen. Talvez por uma certa mística do vazio como visão. Ou por uma qualquer possível intuição metafísica de Deus que, todavia, no cristianismo se revestiu da humanidade de Pai. Diz o preceito da oração de Jesus: Pai Nosso... O mesmo a que, na agonia humana da morte, o mesmo Jesus interroga: Meu Pai, meu Pai, porque me abandonaste? Como, ao longo de séculos, a todos nós tem acontecido fazê-lo.

 

   Le Procurateur de Judée, a novela histórica de Anatole France que te referi, conheceu várias edições, a primeira em 1902, tendo Leonardo Sciascia, que dela publicara uma tradução para italiano em 1980, escrito um posfácio para a edição francesa de 2005 (Paris, Payot et Rivages) de que seguidamente te verto alguns passos:

 

   Tácito, Anais, Livro III: «Entretanto, em Roma, Lepida que, além da nobreza dos Aemilii, se reclamava da ancestralidade de L. Sila e C. Pompeu, foi acusada de ter fingido dar à luz um filho nascido da sua relação com P. Quirinius, homem rico e sem descendência. Era ainda acusada de adultério, envenenamento, e de ter consultado magos caldeus sobre a família do imperador». Estamos no início da década de 20, depois do nascimento de Cristo, e Tácito narra o caso de Lepida como exemplo da corrupção de que eram então presas as grandes famílias. Na realidade, trata-se de ação movida por um marido, a fim de negar a sua paternidade de um filho que sua mulher, da qual estava separado tinha fingido ter tido. Duplo delito, pois, ao qual, diríamos nós hoje, no decurso da instrução, se acrescentam adultério, tentativa de envenenamento, manigâncias com magos caldeus que prefiguram crime de lesa majestade. Tácito não fala em cúmplices nem corréus. Dezanove séculos mais tarde, Anatole France inventa um: Lucius Aelius Lamia: «Acusado de  manter relações criminais com Lepida, mulher de Suplicius Quirinus...» [há aqui um pequeno engano, esse Quirinus não se chamava Sulpicius, mas Publius] E a partir da condenação ao exílio que fere o adúltero Lamia se desenvolve uma narrativa curta e perfeita, quiçá uma das mais perfeitas do género.

 

   Tal conto é, na opinião de Leonardo Sciascia, e na minha, uma homenagem paradoxalmente subtil e descarada àquilo que terá sido o ceticismo e o espírito de tolerância de Tácito, tal como te lembrarei na próxima carta. Por hoje, em tarde cinzenta e atenta de 4ª. Feira Santa, vou recolher-me na escuta da versão original, para orquestra, das Septem Verba Christi in Cruce, de Joseph Haydn, considerada uma das obras mais representativas da música do Iluminismo, composta por um pedreiro livre sobre palavras dos evangelhos da Paixão de Cristo. Aliás, a única voz humana que se ouve, recitando-as, é de um narrador. Na gravação, que irei acompanhar hoje, de Le Concert des Nations, de Jordi Savall, registam-se também textos de Raimon Panikkar e José Saramago. Pela mão deste interrogarei também a minha fé:  ...E eu respondi-lhe:« Sai da minha frente, Satanás. Impedes-me o caminho porque não entendes as coisas à maneira de Deus, mas à maneira dos homens». ...   ...E agora, Deus Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?

 

   Estas cartas, afinal, são apenas desabafos. Para nos ajudarem a pensarsentir, juntos, esta Páscoa em confinamento.

 

   Amanhã, voltarei ao que estava a dizer-te...

 

 Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Noites insones me vão oferecendo tempos de leitura que, deixando-me cair na tentação de viajar no tempo e no espaço, vou cedendo à novelística e poesia japonesa. Há um qualquer mistério de mim, mesmo para mim, nessa contemplação, ou espiritual comprazimento, de visões nipónicas... Por estranhas e distantes que sejam as suas origens, misturam-se-me cá dentro, sinto-me assim como o lado de lá daquele pântano japonês de que fala o Shusako Endo e tudo digere e recria... Nesta noite de longa vigília que tarde acabou, muito longamente penseissenti este haiku de Yamaguchi  Seishi, poeta nascido no início do século passado (1901), primeiro de uma série inspirada por visita aos túmulos imperiais de Mukden:

 

                     Ryo samuku
                     Jitsugetsu sora ni
                     Terashiau

 

   Versos de 5, 7, 5 sílabas que, a meu livre jeito, assim traduzo:

 

                     Gélidas tumbas:
                     no alto céu, sol e lua 
                     se contemplam

 

   Inexorável, a morte de humanos deixa indiferentes os astros. De nada valerão, a reis e imperadores, os monumentais túmulos que pretendiam abriga-los. Mas, ao recordar nestes dias tantos familiares e amigos que, há bem pouco, repentinamente, deixei de poder ver fora da saudade, e ainda tanta, tanta, gente que, só por andar na rua e falar a outros, é surpreendida pela morte, reencontro a sageza de São João Evangelista neste trecho do seu evangelho que segue o sinal deixado pela ressurreição de Lázaro:

 

   Então, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus reuniram conselho e disseram: «Que havemos de fazer, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se o deixarmos continuar assim, todos acreditarão nele, e virão os romanos destruir o nosso lugar santo e toda a nação.» Então, Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada: não compreendeis que é melhor morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio, mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação, e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus.

 

   Já por várias vezes te disse, e escrevi em cartas anteriores, que nenhum de nós - dos que por cá vamos andando - tem qualquer experiência da morte. Nem pode ter. A morte de cada um é sua própria, única, inexorável e irrepetível. Apenas podemos ter - e tantas vezes temos - a experiência da dor que a morte de outros nos causa. Até o evangelho nos diz que, ainda que consciente da sua própria morte, e ciente do modo e circunstância em que ela lhe viria, o mesmo Jesus, pouco antes, choraria sentidamente a morte de Lázaro, seu amigo. E todavia  sabia que o iria ressuscitar, em sinal inequívoco do poder de Deus Pai. Mas em sinal, também, de que a sua misericórdia não é o entreolhar do sol e da lua, nem se comove pela monumentalidade dos depósitos fúnebres. Antes será movida pela dor verdadeira de que perde um amigo.

 

   A narrativa da ressurreição de Lázaro e sua circunstância, feita no Evangelho segundo João, mexe nesse ponto tão misterioso e profundo da nossa humanidade. O trecho do capítulo 11, que acima te transcrevo, dá-lhe outra continuidade: a justificação que dá Caifás para que Jesus seja sacrificado (impõe-se que um homem só morra pelo povo) é mais do que simples argumento de uma razão de Estado. De certo modo, afinal, leva facetas gnósticas daquele evangelista a mergulhar as suas raízes na tradição profética do judaísmo, destituindo ainda esta de carácter nacionalista, para lhe conferir uma vocação universal. A morte e ressurreição de Jesus Cristo não salvará apenas a nação de Israel, mas redimirá a humanidade inteira. Deus Pai não é indiferente ao destino de todos nós.

  

   Talvez para nos levar a meditar sobre isto, a liturgia da Igreja Católica nos proponha a proclamação desse passo do evangelho no 5.º sábado da quaresma, na véspera de Domingo de Ramos, festa da aclamação triunfal de Jesus pelo povo de Jerusalém, a abrir a Semana Maior, ou Santa, esta que terminará no silêncio sepulcral de Sábado Santo, dia de luto absoluto e sem celebrações, depois da memória da Paixão e Morte do Senhor, celebrada em Quinta e Sexta-Feira Santa, e já anunciada e relatada pelo texto de um dos evangelhos sinópticos em Domingo de Ramos. Este ano coube a vez a São Mateus, o que me serviu de convite para uma comovida e atenta escuta do correspondente auto musical de Johann Sebastian Bach. [E sempre me lembro da primeira vez que ouvi a peça, que coincidiu com a minha primeira ida ao Teatro de S. Carlos, em Lisboa, teria eu uns nove ou de anos... Desde então, repito a sua audição anual, seguida, no silêncio de Sábado próximo, da Paixão Segundo São João, do mesmo compositor. E fica-me uma impressão de visita onírica a uma história e um mundo reais, com alguns apontamentos psicológicos que me fazem refletir no paradoxo da nossa condição humana, como, por exemplo, nas diferentes formas de cobardia, de autoavaliação, de arrependimento, de justificação ou de desespero, como nos dramas pessoais de Pedro-que-negou-três-vezes, Pilatos-que-lavou-as-mãos, Judas-que-se-enforcou.]

 

   O que se chama de Mistério Pascal seduz-me desde a infância, quiçá não tanto pela irrupção de um poder divino, como muito mais pela humanidade do encontro de Deus. E não só frequentemente me ocorrem imagens do acolhimento do Pai ao filho pródigo - até já te escrevi um dia que, ao contemplá-las, tanto vejo o filho arrependido como o Pai que também pede perdão- mas calam-se-me bem no fundo do coração essas palavras de São Paulo aos filipenses que lemos na missa de Ramos: Cristo Jesusque era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte na cruz.

 

   [A versão portuguesa deste passo do evangelho que consta dos lecionários e missais em uso, tal como a das traduções diretas do grego, quer a de Frederico Lourenço, quer a do cónego José Falcão, dizem todas morte de cruz. Arrepio-me sempre que assim leio ou ouço, ocorre-me a expressão assinar de cruz. Bem sei que se trata da versão literal do genitivo grego que, aliás, na vulgata latina reza assim: Humiliavit semetipsum, factos obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. E nessas línguas clássicas, tal genitivo não me surpreende nem aborrece. Mas em português, não só me soa muito mal, como nunca entendo porque não hão de tais textos recordar que sempre dizemos: Jesus Cristo morreu na cruz. Qualquer tradução deve encontrar a forma idiomática mais autêntica, isto é, procurar comunicar, mais do que reproduzir literalmente um original.]

 

   Os textos evangélicos buscam, afinal, o verdadeiro pensarsentir de cada um de nós. As suas narrativas trazem-nos a perceção de acontecimentos históricos conservada e cultivada nas memórias e pelas sensibilidades diversas de comunidades coevas ou próximas do tempo de Jesus. Por isso mesmo nos levam sempre a comunhões na esperança e no amor e, simultaneamente à renovação perene, interrogativa e incansavelmente descobridora da fé alimentada por sucessivas gerações de crentes. A cristandade é, tal como o Filho do Pai, que lhe deu o seu nome de Cristo, uma humanidade histórica. O cristianismo não é alguma abstração: é a procura incessante da prática do amor fraterno.

 

   Dizemos que é tácito algo que não se manifesta e permanece calado. Tácito era o nome de um historiador romano do tempo do imperador Tibério e dos primeiros cristãos, que muito pouco ou quase nada escreveu dos mesmos cristãos. Dele te falarei, Princesa de mim, na próxima carta. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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                    Minha Princesa de mim:

 

   Ao ler hoje, como é meu hábito diário, pela manhã nascente, o trecho do Evangelho proposto para o dia, comovi-me profundamente, como quase sempre me acontece ao silenciosamente entrar no texto de São João, pois que assim se nomeia o suposto autor do quarto evangelho, bem distinto dos três sinópticos, escrito provavelmente já na primeira década do século segundo, por alguém que não se cruzou pessoalmente com Jesus Nazareno. Este magnífico testemunho da vida adulta e do ensino, paixão, morte e ressurreição de Cristo aponta assim, nos dois últimos versículos (24 e 25) do seu capítulo final, o seu autor : Este é o discípulo que testemunhou estas coisas e as escreveu. E sabemos que o testemunho dele é verdadeiro. São muitas as outras coisas que Jesus fez, que, se fossem escritas uma a uma, não penso que o mundo tivesse espaço para tantos livros escritos. Mas, mais do que concluir daí a sua atribuição a redator contemporâneo de Jesus, designadamente João, filho de Zebedeu e pescador quiçá analfabeto e certamente ignorante da língua grega escrita, poderá talvez deduzir-se que o texto é, de facto, o registo posterior de memórias de uma comunidade cristã formada à volta de um João. Registo tal que, aliás, se terá elaborado por uma construção teológica dessa tradição de fé. Mas, Princesa de mim, remeto-te para a consulta da nota introdutória ao Evangelho de João, incluída pelo Prof. Frederico Lourenço na edição da sua tradução portuguesa (que aqui utilizamos) pela Quetzal (Lisboa, 2016). Nesta carta, só quero reproduzir o trecho que tanto me comoveu:

   Depois de ter lavado os pés deles, pegou na sua roupa e voltou a reclinar-se à mesa. Disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me "o Mestre" e "o Senhor" e dizeis bem. Sou de facto. Se eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos um exemplo para que, tal como eu fiz, façais vós também. Amém, Amém vos digo, o escravo não é maior do que o amo dele, nem um apóstolo é maior do que Aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem aventurados sois se as fizerdes.
   Este trecho do capítulo 13 é como um prefácio à maravilhosa súmula da verdade cristã, que Jesus amorosamente nos dá, como João regista nos versículos 9 a 17 do capítulo 14, passo marcante do seu discurso de despedida, antes de partir, pela via crucis, a caminho da Paixão que o aguarda e lemos descrita pelo mesmo João em Sexta Feira Santa :

   Tal como me amou o Pai, assim eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, tal como eu observo os mandamentos de meu Pai e permaneço no amor d´Ele. Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria se complete. Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros tal como eu vos amei. Ninguém possui maior amor do que este, que alguém dê a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos se fizerdes as coisas que vos mando. Nunca vos chamo escravos, porque o escravo não sabe o que faz o seu amo. Chamo-vos amigos, porque todas as coisas que ouvi do meu Pai vos dei a conhecer. Não fostes vós que me escolheste mas eu que vos escolhi e vos estabeleci, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça, para que aquilo que pedirdes ao Pai em meu nome ele vos dê. As coisas que vos mando são que vos ameis uns aos outros.

   Mas foi hoje mais funda a minha emoção, pela circunstância difícil que estamos vivendo, e sobretudo pelo muito que ela tem movido o meu modo de pensarsentir a realidade humana, não só dos que muito sofrem, mas também de tantos e tantos que, generosamente, se vão oferecendo e esforçando para a todos trazerem um apoio, um alívio, um amigo, um aconchego, a nossa humanidade comum. Nem todos, talvez nem muitos, sejam cristãos confessos ou sequer crentes simplesmente. São apenas seres humanos livres que, pela singela consciência do ser antiquíssimo que todos somos na comunhão da nossa condição, vão distribuindo essa graça de frutos que em cada um permanecem, como lembrança, esperança e promessa de comunidade em amor. 

   A leitura que qualquer cristão faça dos capítulos 13 a 17 do evangelho de João nunca poderá ser sectária, nem sequer clubista. A mensagem ali contida só pode ser entendida à luz do versículo que afirma: Na casa de meu Pai há muitas moradas (Jo.14, 2). No seu Christian Beginnings: from Nazareth to Nicea, 30 a 325 DC (Penguin, 2013) Geza Vermes, professor de Estudos Judaicos na Universidade de Oxford, judeu de origem húngara, que estudou em Budapeste e Lovaina e passou por um período católico (creio que até foi padre jesuíta), falando do cristianismo joanino, escreve: Jesus o Filho, ou o Filho de Deus: é o título de Filho e não o de Messias que mais acertadamente descreve o Jesus joanino. E mais adiante diz: Na perspetiva religiosa do Quarto Evangelho, o Filho é enviado por Deus Pai, não como juiz final, mas como dispensador de vida. E o próprio Geza Vermes faz questão em recordar de que vida se trata, citando outro passo de João (17, 22-24): E eu dei-lhes a glória que Tu me deste para que sejam um, tal como nós somos um. Eu estou neles e Tu em mim, para que eles atinjam a completude em um, para que o mundo saiba que Tu me enviaste e os amaste tal como me amaste a mim. Pai, aqueles que me deste, quero que estejam também comigo onde eu estiver, para que contemplem a minha glória, que Tu me deste, porque me amaste antes da fundação do mundo... Daí que o professor oxoniano ouse dizer que, além da redenção da humanidade do pecado, o propósito da Incarnação do Filho é a deificação dos humanos.

   Em Sexta e Sábado Santos, fui sobretudo escutando, a meditar nos textos, as "Paixões" segundo Bach (S. Mateus, S. João e... S. Marcos, sim, quase desconhecida). A última estrofe cantada pelo coro de Marcos reza assim:

 

               Bei deinem Grab und Leichenstein,
               Will Ich mich stetes, mein Jesu, weiden,
               Und über dein verdienstlich Leiden
               Von Herzen froh un dankbar sein.

 

   Traduzo assim, acrescentando também os últimos quatro versos: "Junto da tua tumba e sua pedra
                                                                                                              para sempre quero ficar, ó meu Jesus!
                                                                                                              E graças à tua admirável Paixão
                                                                                                              estar de coração alegre e reconhecido
                                                                                                              e teu será este epitáfio:
                                                                                                              Da tua morte nasce a minha vida,
                                                                                                              aqui jaz a angústia dos meus pecados,
                                                                                                              que com Jesus aqui mesmo sepultei".

 

   Sobre a noite que vai caindo em dia de Sábado Santo se ergue a luz alegre das vestes de um anjo do Senhor que, rolando a pedra que fechava o túmulo, se senta em cima dela, diz às mulheres: Não temais. Sei que procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou, tal como afirmou.

   E em comunhão com todos, sobretudo aqueles que com pandemias se defrontam, pensossinto comigo que um dia será completa a nossa alegria. Seja já nossa essa semente da Páscoa de hoje.

 

            Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Hoje, apenas te mando um imaginário bilhete postal, com as ilustrações que nele descobrires.

 

   Pela madrugada, entrou-me pela varanda do quarto uma luz leitosa e acordei cercado por cerrado nevoeiro. Foi-se desvanecendo com o espreguiçar do sol, mas logo voltou a fechar-se. Talvez fosse uma saudade da noite a chamar à paisagem uma penumbra de silêncio. Afinal, já erguido e remoçado, o astro rei limpou os ares e fez-se luz. E ocorreu-me este haiku, penso que de Masaoka Shiki, poeta da era Meiji, na viragem do século XIX para o XX:

 

                      Haru no hi ya
                      hito nanimo senu
                      komura kana

 

   Três versos com cinco, sete e cinco sílabas. Que, livremente, o meu pensarsentir traduz assim:

 

                     Dia de Primavera:
                     neste lugar isolado
                     ninguém faz nada

 

   Desço ao rés do chão sobre os campos, e com eles me confundo em ação de graças pela solidão que o sol aquece.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Yasushi Inoue (1906-1991) do século  terá sido um dos mais populares romancistas japoneses do século XX, conhecido sobretudo pelas suas novelas históricas, muitas delas situadas nos tempos atribulados da reunificação do Japão nos anos de 1500/600. Em O Mestre do Chá (ou, no original, Honkaku Bo Ibun, isto é, O Diário de Honkaku Bo), debruça-se sobre o mistério do suicídio ritual de Mestre Rikyu, em obediência ao Taiko Toyotomi Hideyoshi. Na minha leitura de hoje, aí redescobri o poema que se afixara à vista dos participantes numa cerimónia do chá que Rikyu celebrara por ocasião da despedida para o exílio de outra personagem, uma tal condenada pelo Taiko. Traduzo:

 

               As folhas abandonam os ramos,
               o fim do Outono é frio e puro.
               Neste instante, os laureados
               saem do mosteiro zen:
               Parti para onde quiserdes
               e se descobrirdes um lugar deserto
               voltai depressa
               para nos confiardes
               o fundo do vosso coração.

 

   Por estes dias receosos de obscuro medo - que, afinal de contas, quiçá mais não sejam do que a recusa de vivermos com reconhecimento consciente de dúvidas, interrogações e temores, que nos vão povoando a tenebrosa, vaga e silente inconsciência em que teimamos justificar as distrações e drogas com que procuramos afastar fantasmas - sabe-me bem meditar nesses cinco versos que nos incitam a partir para onde quisermos e a confiar a outros, quando encontrarmos um lugar deserto, o fundo do nosso coração...

 

   Qualquer deserto tem, para nós, sobretudo uma existência imaginária, é a utopia  da nossa solidão. Esta - tê-lo hás também tu descoberto, Princesa de mim - será sempre, para qualquer um, mais um sentimento de si do que a sua própria condição.

 

   Muitas vezes, nestes dias de quarentena, dou comigo a pensarsentir como a ascese mística vai conduzindo quem a pratica à intimidade da presença do solitário absoluto, daquele cujo nome é Eu, o Eu sou Quem sou. Mestre Eckhart diz que Deus é - com exclusão de todo o não-ser, de qualquer carência. E tal como o mouro Avicena, diz ainda que Deus não tem outra essência para além da sua existência. É, pois, uma presença pura, essa a que se dá o nome de Ser. E imagina-o como uma efervescência, a esse Ser infinito que em si mesmo se move, fervura borbulhante ou parturiente, sempre fervente em si, e que em si se liquefaz e entra em ebulição: bullitio sive parturitio...   ...fervens...   ...in se fervens et in se ipso  et in se ipsum liquescens et bulliens...  

 

   Nestes dias em que vejo menos gente, converso menos, sinto-me, como tantos outros, tentado a comprazer-me no meu isolamento, como se encerrar-me fosse decisão minha e subitamente me tornasse senhor do meu ser em relação, como naquela canção do dentista cansado da amante e da família e sonha poder existir só em si, por si e para si: I, Me and Myself... E quiçá gostaria de me esquecer dessa pura presença do Ser Absoluto e sem carência, do Quem é tudo em todos.

 

Mas eis que essa presença ferve sempre, em mim e nos outros, lembra-me que só o encontro da relatividade de cada um de nós nos poderá, como quem abraça, conduzir ao Ser.

 

   E assim me pensossinto mais próximo de todos esses profissionais de saúde, de limpeza e higiene, de produção e distribuição de bens essenciais, de segurança e transporte, de organização e logística - que nos vão permitindo usufruir de um descanso relativo, que certamente lhes é negado pela necessidade e dever de serem, nestas horas difíceis, a parte de nós que está alerta e funcional.

 

   Assim se me torna claro o pensarsentir a alteridade, não como estranha, mas antes como minha, nossa de cada um. Diz bem frei Bento Domingues, no Público do passado domingo, dia 22, que a ética samaritana, sem qualquer invocação religiosa, obriga-nos a todos, ontem e hoje. O que significa que ninguém está dispensado de procurar aprender a descobrir novos modos de responder à pergunta fundamental da condição humana: em que posso e como posso ajudar? O pregador dominicano será, penso eu, uma das poucas vozes genuinamente evangélicas da Igreja portuguesa, cuja nomenclatura clerical continua com forte propensão a privilegiar a prática de rituais com fezadas milagrosas e a discursar em jeito meloso, banalizador e pretensiosamente poético, sobre benefícios "espirituais" de ensimesmamentos religiosos.

 

   Leio frei Bento: Este período de quarentena - a quaresma inesperada - não pode servir para criar em nós uma religião intimista, uma mística de olhos fechados para as carências múltiplas das pessoas, sobretudo das mais sofredoras e isoladas.

 

Na verdade, não nos devemos esquecer de que o período difícil que atravessamos será, quando confrontado com situações similares noutras épocas da história humana, menos aflitivo e angustiante. Desde já, não porque haja termo próximo ou cura imediata à vista, mas por que os meios técnicos e logísticos nos permitem e facultam, apesar do imprescindível isolamento, condições de proximidade, contacto e assistência, muito melhores. [Imaginemos ainda o que poderá acontecer nos casos de propagação da pandemia por áreas do mundo habitado em que as infraestruturas, a disponibilidade e acessibilidade de cuidados, não possam agora ser tão bem asseguradas].

 

   Saibamos pois aproveitar as graças de que beneficiamos por via dos aparelhos técnicos ao nosso dispor para sermos a presença do próximo junto dos que estão mais sós e abandonados. E que desses contactos, por telefone, "sms" ou correio eletrónico, nasça também uma consciência nova da nossa humanidade comum, que Quem fará fervilhar em novas ideias e iniciativas pela desejável justiça e paz do nosso mundo novo. Concordas, Princesa?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há males que vêm por bem... Sem me atrever a ser tão assertivo, direi apenas - e creio que tanto basta - serem quaisquer obstáculos, impedimentos ou, mesmo, desgraças sempre também oportunidades de revisão e conversão, aberturas novas à humana vocação de recriação do mundo. A pandemia universal que nos tem vindo a percorrer e abraçar é de tal bom exemplo.

 

   Antes do mais, na medida em que nos vai desenvolvendo a própria consciência da nossa humanidade comum e nos impõe um pensarsentir como a solidariedade é, e deve ser, mais nossa do que a indiferença e a excecionalidade, seja esta, ou possa ser, ostracismo do outro e privilégio nosso. Finalmente, compreenderemos como todos estamos na mesma Arca de Noé e só juntos, organizados e cooperantes, nos safaremos. Até a globalização da chamada quarentena nos vai recordando como, no mundo de hoje, já nada é resolúvel pelo isolamento de navios fundeados ao largo dos nossos portos: não mais se trata de pôr uns de castigo, mas de solicitar a todos que se restrinjam ao cuidado da cautela comum.

 

   Por outro lado, também nos surgem surpresas, tais como esta de agências científicas especializadas e atentas terem agora verificado que a restrição geral de movimentos e viagens nos trazerem os benefícios já sensíveis de maior pureza do ar que respiramos e de limpeza da terrível poluição atmosférica. Como se o surto do covid 19 e as barreiras que se lhe opõem fossem vozes proféticas a estimular-nos a um maior carinho e cuidado com Mãe Terra, a casa que todos habitamos.

 

   Esperemos ainda que esta renascida consciência da nossa comum humanidade e sua circunstância possa melhorar as relações políticas e diplomáticas, sobretudo depois do descrédito que sobre si mesmos lançaram (p. ex. no Brasil, Venezuela e EUA) políticos narcísicos. Fique bem claro que só no transparente e generoso intercâmbio de suspeitas, hipóteses, previsões e progressos na investigação científica encontraremos as soluções possíveis e as partilharemos em ação de graças, na eucaristia da nossa humanidade.

 

   No silêncio desta minha moradia, no meio de campos férteis, mas tão calados no Inverno que termina, escuto agora todos os quartetos de Mozart dedicados a Haydn. São, na linha deste, uma busca da harmonia, a recusa do caos. E vou lendo o último romance da escritora franco-marroquina Leila Slimani: Le Pays des Autres (Paris, Gallimard, 2020). Lê-se no texto da respetiva apresentação (traduzo): Todas as personagens deste romance vivem «no país dos outros»: [Melhor diria: «na terra dos outros»]. quer colonos quer indígenas, sejam soldados, camponeses ou exilados. As mulheres, sobretudo, vivem no país dos homens e devem incessantemente lutar pela sua emancipação.

 

    Que este período de quarentena e retiro nos dê, Princesa de mim, vagar e ânimo para refletirmos no Advento da Terra de Todos.

 

 Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira