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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

UM ESPAÇO DE DIÁLOGO

 

Comecei a frequentar o Centro Nacional de Cultura nos anos 1967-68, quando estava nos primeiros anos da Faculdade de Letras de Lisboa. O CNC complementava os lugares onde era possível, para quem fazia parte da contestação estudantil ao regime, ouvir falar de temas proibidos, discuti-los, expor de forma mais ou menos livre aquilo que fazia parte da vida política e cultural da época, trazido pelas revistas a que se tinha acesso («Esprit», «Temps modernes», «Tel Quel»), pelo cinema novo francês (Truffaut, Resnais e sobretudo Godard), numa época em que a França, isto é, Paris ainda era o centro do mundo.

No CNC era possível ouvir falar de forma quase sempre desassombrada, e isto apesar da vizinhança da PIDE na mesma rua António Maria Cardoso, das teorias de vanguarda, da pintura, dos filmes que acabavam de estrear, das situações que na altura dominavam as conversas, de que a guerra do Vietnam ocupava a maior preocupação; também se falava da Igreja, na sua vertente progressista; mas o que fazia parte igualmente das sessões era a literatura que começava a fugir a um cânone neo-realista a chegar ao seu esgotamento, e a abertura para novas formas de escrever e pensar a criação portuguesa na poesia e no romance, tal como na teoria, tendo Eduardo Prado Coelho dado a conhecer essa nova visão que se polarizava no estruturalismo em conferências que ali fez.

Muitas vezes, terminadas as sessões, as conversas prosseguiam na sequência dos assuntos que nos levavam ao CNC: e ali se falava da situação universitária, já então dominada pelo ressurgir da contestação que tinha como exemplo o que se passara nos USA, em Berkeley, a partir das doutrinas de Marcuse, e do que teve lugar em 1968 com a ocupação da Sorbonne. Tudo isto fazia parte desse contexto que influenciou a geração de que eu fazia parte, e que nos levou a envolver-nos nas eleições de 1969, as primeiras do consulado marcelista em que, no início, se criou uma ilusão de abertura logo desmentida pelos factos. Foi aí que conhecemos melhor António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, tendo sido o João Bénard que convidou alguns desses jovens que andavam entre a contestação estudantil e a militância na Comissão Democrática Eleitoral (que ia do PC para a esquerda) e na CEUD (monárquica e socialista), a integrar a redacção de «O Tempo e o Modo», revista que, na sua primeira fase, se podia considerar a expressão ideológica de muitos dos membros do CNC, que iam dos monárquicos aos católicos progressistas. António Alçada talvez desconfiasse dessa abertura promovida por João Bénard e lembro-me da que terá sido uma das primeiras reuniões, passada a fase pós-eleitoral que pusera fim à esperança de uma verdadeira renovação do regime por parte do sucessor de Salazar, em que Alçada pôs o lugar à disposição, tendo passado a direcção da revista para João Bénard. Fui um dos que entrei; e nesse primeiro momento da revista ainda coincidiram Jaime Gama, Alfredo Barroso, José Luís Nunes, do lado à direita do PC, com Amadeu Lopes Sabino, Arnaldo Matos, Luís Matoso, Sebastião Lima Rego, do lado à sua esquerda; rapidamente os radicais tomaram o

poder, o João Bénard cansou-se e afastou-se, a Helena Vaz da Silva, que era uma presença luminosa no meio das discussões inflamadas que muitas vezes tinham lugar, seguiu o mesmo caminho e, a partir da nova fórmula tipográfica, o caminho seguido foi o do corte com os «moderados» que viriam a formar o PS. Julgo que estes conflitos também se reflectiram no ambiente vivido no CNC onde as ideias mais radicais tiveram expressão nos debates que ali se promoviam, embora nunca tenham tomado o poder, como sucedeu na revista.

Estudar a história do CNC, em conclusão, é acompanhar a vida politica e cultural durante a Ditadura no pós-guerra, com todos os conflitos e entendimentos que a percorreram, mas tendo em conta que nunca a moderação e o espírito de diálogo, em que a Cultura tinha sempre o primeiro lugar, deram lugar aos excessos que, já no fim da Ditadura mas sobretudo no pós-25 de abril, dominaram a cena portuguesa.

 

Nuno Júdice

"HÁ POEMAS..."

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Há poemas que saíram discretamente em revistas com pequenas tiragens e hoje fazem parte do património de um povo ou mesmo da humanidade. O Centro Nacional de Cultura não é uma organização de massas, mas com uma longevidade impressionante tem marcado, pelas intervenções directas e pelas pontes que promove, a vida portuguesa de forma cirurgicamente interventiva, assinalando acontecimentos, abrindo horizontes, promovendo reflexões, interpelando com notável equilíbrio e espírito de diálogo, congregando muitos dos espíritos mais lúcidos e das figuras mais marcantes da nossa... cultura.

Seja-me permitida uma nota pessoal que recorda um dos vectores chave do CNC (e haveria que acrescentar as viagens ao estrangeiro com a portugalidade como pano de fundo). Sem prejuízo de um longo acompanhamento, incluindo a revista "Raiz e Utopia", e de uma ou ou outra colaboração, o nosso (casal, Teresa Curvelo e eu) período áureo de vivência relacionada com o Centro Nacional de Cultura coincidiu com a Direcção de Helena Vaz da Silva e teve a sua expressão maior nalguns passeios / roteiros no País, inesquecíveis.

O passeio garrettiano no Tejo com Joel Serrão. A visita à Assembleia da República. A Estação Elevatória dos Barbadinhos com Fernando Castelo Branco, Jorge Graça e José Manuel Fernandes e o Aqueduto das Águas Livres, em que felizmente não nos cruzámos com Diogo Alves. A visita ao Palácio de Belém com José António Saraiva durante a presidência de Ramalho Eanes (ele e a Mulher impecáveis anfitriões), na altura em que se aproximavam as eleições em que estaria em jogo a sua reeleição, num ambiente já algo tenso embora ainda longe da tragédia de Camarate. Que sei eu!

Mas a escolher um roteiro, talvez a fantástica visita a Alcobaça, dos telhados ao jantar na fabulosa cozinha, com Rui Rasquilho. Memorável! 

 

João P. Boléo

XAILES NO FINAL DAS TARDES

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Quando comecei a frequentar sozinha o Centro Nacional de Cultura, nunca esqueci as palavras que um dia me disse António Alçada Baptista, na Capela do Rato: 

Não esqueças Teresa!, tens ali também um espaço no qual as opções convivem. Um espaço onde se atreve a dizer. Um espaço carinhoso, também.

Na verdade, muito antes de escrever para o Blogue do Centro Nacional de Cultura, passou a fazer parte do meu itinerário espiritual, saber o que se passava nesta Casa e a ela estar atenta.

Assim, ir ao C.N.C., foi sendo o mesmo que ir a um local de perspetivas, e por sua causa, algumas vezes, fui capaz de ali viver tempos de verdade, com pensamentos e com palavras e com pessoas e com ações.

Muitas vezes, senti, nalguma hora, como se fossemos prometidos a nós mesmos, no ali confrontar e consolidar caminhos, por um mundo que não era o do imenso peso do homem caído.

Em muitos finais de tarde, dali saía, sem sentir os acesos frios dos processos de incomunicação, ou, do C.N.C., não viessem os aconchegos dos homens e mulheres de boa vontade, para mim, invisíveis e generosos xailes, no final das tardes.

Que o futuro testemunhe sempre!

Felicidades!  

 Teresa Bracinha Vieira

CNC: 75 ANOS DE VIDA

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Já há 75 anos! Três jovens vinham de Fátima e, em boa hora, lembraram-se de criar um clube cultural, que reunisse artistas, escritores, poetas... António Seabra, Afonso Botelho e Gastão da Cunha Ferreira lançaram a ideia e ela tornou-se uma realidade, de vários tempos e várias gerações.

Hoje iniciamos uma longa lista de depoimentos e testemunhos. Durante um ano, teremos aqui suculentas histórias. Para já algumas lembranças necessárias. Antes de tudo o nosso querido sócio número 1, Presidente da Assembleia Geral - o Gonçalo Ribeiro Telles, pioneiro, mestre, referência fundamental, até nesta Lisboa Capital Verde.... Está bem presente, sobretudo no seu exemplo de vida. Em 2019 celebrámos o centenário de Sophia, nossa Presidente, referência nossa sempre. Este ano celebramos o centenário de Francisco Sousa Tavares, elemento fundamental na durabilidade do CNC. Tantos nomes que temos a recordar... Helena Cidade Moura, Nuno Teotónio Pereira, José Manuel Galvão Teles, António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Fernando Amado (nesta casa de Teatro, onde nasceu a Casa da Comédia). Não os esqueceremos... E os cursos livres? Semiótica com Eduardo Prado Coelho, marxismo com António Reis... Um dia convocaram Frei Bento Domingues para a PIDE - e quando lá chegou disse apenas: para mim a Rua António Maria Cardoso é só o Centro Nacional de Cultura. Aqui esteve a Comissão de Apoio aos Presos Políticos, aqui houve liberdade para discutir tudo, para discordar e concordar. Sempre.

E uma palavra especial de vida e de saudade para Helena e Alberto Vaz da Silva, que fizeram o Centro continuar fiel às suas raízes e tradições livres e democráticas!

 

     Testemunhos

 

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NA RUA DA PIDE?

por Francisco Seixas da Costa
“Tens a certeza que é ali?”, foi a pergunta que fiz quando um amigo me convidou para ir ouvir Salgado Zenha ao “Centro Nacional de Cultura”. “Na rua da Pide?”. Assim era.
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Sala do CNC nos anos 80.jpg

 

ÉRAMOS ASSIM NOS ANOS SETENTA...
por Luís Filipe Castro Mendes
Foi pelos meus verdes anos de actividades subversivas nas associações de estudantes da Universidade. Um amigo (tu, Mário Mesquita? tu, Jorge Silva Melo?) falou-me de uma conferência a não perder num lugar de Lisboa chamado “Centro Nacional de Cultura”.
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XAILES NO FINAL DAS TARDES
por Teresa Bracinha Vieira
Quando comecei a frequentar sozinha o Centro Nacional de Cultura, nunca esqueci as palavras que um dia me disse António Alçada Baptista, na Capela do Rato…
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"HÁ POEMAS..."
por João P. Boléo
Há poemas que saíram discretamente em revistas com pequenas tiragens e hoje fazem parte do património de um povo ou mesmo da humanidade.
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UM ESPAÇO DE DIÁLOGO
por Nuno Júdice
Comecei a frequentar o Centro Nacional de Cultura nos anos 1967-68, quando estava nos primeiros anos da Faculdade de Letras de Lisboa.  
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NA RUA DA PIDE?

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“Tens a certeza que é ali?”, foi a pergunta que fiz quando um amigo me convidou para ir ouvir Salgado Zenha ao “Centro Nacional de Cultura”. “Na rua da Pide?”. Assim era.

Na Lisboa do boca-a-boca que então prosperava, assente nos cafés e nas livrarias, nesse início dos anos 70, começou a certa altura a constar que uma estrutura de raiz monárquica, “tomada” por uma onda democrática, estava a organizar debates políticos, procurando testar as margens da legalidade, já após a frustrada aventura eleitoral de 1969. Ao mesmo tempo, havia por lá uns cursos ao final da tarde, da Semiologia ao Marxismo (é verdade!) e outros temas interessantes. As salas, a certa altura, eram pequenas para o interesse que tudo aquilo já despertava, a muitos de nós e a uns cavalheiros que, à légua, se notava que estavam ali vindos da vizinhança...

Não gosto de falar em “bons tempos”, porque o não foram, de todo!

Mas que havia algo de divertido, de um saudável entusiasmo cívico, em toda aquela agitação no CNC, lá isso havia! Foi assim que eu lá cheguei, há meio século.

Francisco Seixas da Costa     

ÉRAMOS ASSIM NOS ANOS SETENTA...

Sala do CNC nos anos 80.jpg


Foi pelos meus verdes anos de actividades subversivas nas associações de estudantes da Universidade. Um amigo (tu, Mário Mesquita? tu, Jorge Silva Melo?) falou-me de uma conferência a não perder num lugar de Lisboa chamado “Centro Nacional de Cultura”.

- Centro Nacional de Cultura? Isso é fascista! – protestei logo.

O regime tinha-nos roubado a própria ideia de Nação, para a reduzir àquela odiada ideologia de extrema direita vigente e reinante no nosso país. “Nada contra a Nação” significava então “nada contra a república unitária e corporativa e sua democracia orgânica”.

O amigo explicou-me que não, que este centro nacional não era uma instituição do regime, era um lugar de liberdade.

A primeira vez que lá fui, bem antes do curso do Eduardo Prado Coelho sobre o estruturalismo, onde encontrei a menina que mais tarde se dispôs a casar comigo, bem antes das conferências da Maria Belo (tão bonita!) sobre psicanálise lacaniana, onde o meu id se debatia em vão com o meu ego, nessa primeira vez estava na sala um homem alto e muito assertivo, que depois soube ser Francisco Sousa Tavares, pai do meu colega Miguel e marido da muito por mim admirada poeta Sophia.

Ora a certo ponto da conferência (de quem?) ouviu-se da rua (janela aberta, verão portanto ou primavera) vozes dirigidas ao lugar onde estávamos, insultando em tom vulgar e ordinário o “Tareco”.

Eu não sabia quem era o “Tareco”, mas vi Francisco Sousa Tavares levantar-se, muito calmo, e explicar:

- São os pides. Saem da António Maria Cardoso, aqui ao lado, e vêm cá meter-se comigo.

Dirigiu-se então à janela e durante alguns minutos trovejou aos pides da rua troças e vitupérios do mais profundo desprezo.

Fez-se silêncio e Sousa Tavares voltou ao seu lugar, muito risonho, e pediu que fosse retomada a sessão.

Ciente então do que era o Centro Nacional de Cultura, passei a frequentá-lo desde esse dia.

     Feliz aniversário!

Luís Filipe Castro Mendes     

AS QUATRO NOITES DE UM SONHADOR

 

 

Os meus amigos João David Nunes e Guilherme d’Oliveira Martins, com infinita gentileza, convidaram-me a vir aqui, a este espaço do Centro Nacional de Cultura, tomar um café ou beber um copo, de quinze em quinze dias. E disseram-me que se eu quisesse podia trazer memórias do sótão.

Começo com este texto, que é, afinal ,a minha primeira memória do CNC, antes de eu poder saber ou adivinhar que outras viriam.

 

 

Foi em 1973, em Lis­boa, onde vim estu­dar Direito, catorze anos depois de ter sido adop­tado por uma África que já só exis­tia em Hollywood e nas nos­sas ton­tas e amo­ro­sas cabe­ças colo­ni­ais.

 

Na mar­ce­lista noite de Lis­boa, que já era menos claus­tro­fó­bica do que polí­tica e cho­ro­na­mente se anda para aí a dizer, éra­mos dois rapa­zes e duas rapa­ri­gas e queríamos ouvir Zeca Afonso. Ele ia can­tar no Cen­tro Naci­o­nal de Cul­tura, ao lado do Tea­tro São Luiz, na afa­mada Rua Antó­nio Maria Car­doso, ou seja, nas barbas da PIDE.

 

A noite e a rua vestiam-se de jeans, mui­tos cabe­los com­pri­dos, toda a gente com per­nas e olhos cheios de bicho-carpinteiro. Cheirou-me que depressa íamos ter reco­lher obrigatório, mas estávamos ali de peito cheio e feito.

 

E chega a notícia: o Zeca não cantaria. Repa­rem, não é bem a mesma coisa que dar uma veneta a Keith Jarrett e ele sair do palco. Usava-se então a pala­vra “proi­bido”, termo que teria caído em desuso, não fosse a sal­ví­fica inter­ven­ção de algum escol femi­nista e, agora, do louro Trump. Zeca foi proi­bido de cantar.

 

Houve uma convulsão e per­cebi que a Antó­nio Maria Car­doso era estreita, uma entrada e uma saída, sem outro recuo estra­té­gico. Digo isto, por­que a peque­nina mul­ti­dão se agi­tou, sol­tando os bichos-carpinteiros num bruaá que se ouviu no vizi­nho São Car­los. Faça­nhuda, mas orga­ni­za­dís­sima, a polí­cia de cho­que vinha, do São Luiz para o Chiado, num irre­pre­en­sí­vel geo­me­trismo, lim­pando a rua a viseira e cas­se­tete, o que, apesar de serem só nove horas, sig­ni­fi­cava cace­tada de meia-noite nas filo­só­fi­cas cabe­ças e macios cos­ta­dos que esti­ves­sem à mão de semear – e se nós éra­mos trigo limpo.

 

Havia, está claro, uma expli­ca­ção razoá­vel: não só era proi­bido o Zeca can­tar, era também proi­bido ouvi-lo. Num ápice, eu e o meu amigo enten­de­mos pro­te­ger as nos­sas meló­ma­nas e ino­cen­tes ami­gas: ele, ousado, à frente, elas no meio, eu a fechar a coluna: “leave no man behind”, muito menos uma miúda. Fize­mos meia-volta para o Chi­ado: sairíamos por onde tínha­mos entrado. E não é que o atra­sado men­tal do capi­tão que coman­dava os caceteiros tinha pen­sado a mesma coisa?! A limpa entrada da Antó­nio Maria Car­doso era, agora, uma far­pa­dís­sima saída. Nós, cân­di­dos filhos da madru­gada, tive­mos então o pen­sa­mento que se tem quando, de tão aper­ta­dís­simo, não cabe onde sabem um fei­jão: “Mas que filhos da puta!”

 

Por­tanto, eles malha­vam pela frente e por trás. Pequena manada de bison­tes man­sos, avan­çá­mos. No caso do nosso escasso pelo­tão em fuga, a máquina ini­miga portou-se pouco cavalheirescamente. Pelo berro que o meu amigo deu, pela súbita con­trac­ção que converteu o meu vigo­roso físico numa magra agulha, os cho­ques do Mal­tês falha­ram as bas­to­na­das. Pas­sá­mos ile­sos. Mas os bru­tos, olhar cego ao género, politicamente correctos avant la lettre, não é que acer­ta­ram em cheio nos deli­ca­dos pes­co­ços das nos­sas ami­gas? Para nossa viril ver­go­nha, foi sobre o corpinho delas que se abateu a violência da longa noite. Em noi­tes de vam­pi­ros, nenhum pes­coço se salva.

 

Cer­vi­cais em ai-ai, omo­pla­tas em ui-ui, fomos ao cinema buscar o que a vida nos tirara. À meia-noite, no falecido Apolo 70, desfil­a­vam as silhu­e­tas que Robert Bres­son, jan­se­nista fran­cês, arrancou às pági­nas rus­sas de Dos­toi­evski. A escura noite em que não ouvi o Zeca, foi a branca noite em que vi as “Qua­tro Noi­tes de um Sonhador”.

 

Manuel S. Fonseca

LIVROS DE 2018

 

Como habitualmente o CNC escolhe os Livros do Ano, sempre esperados ansiosamente…

 

ROMANCE
«A Última Porta Antes da Noite» - António Lobo Antunes (D. Quixote).

«Princípio de Karenina» - Afonso Cruz (Companhia das Letras).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Ensina-me a Voar sobre os Telhados» - João Tordo (C. das Letras).
«O Invisível» - Rui Lage (Gradiva).
«Luanda, Lisboa, Paraíso) – Djaimilia Pereira de Almeida (C. das Letras).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«Sua Excelência, De Corpo Presente» - Pepetela (D. Quixote).
«Obra Completa» – I a III – Maria Judite de Carvalho (Minotauro).

 

POESIA
«Obra Poética – I» - António Ramos Rosa (Assírio e Alvim).

«Estranhezas» - Maria Teresa Horta (D. Quixote).

 

MEMÓRIAS
«Aperto Libro (Páginas do Diário- I – 1977-1990)» - Eugénio Lisboa (Opera Omnia).

 

ENSAIO
«O Algarve Económico Durante o Século XVI» - Joaquim Romero Magalhães (Sul, Sol, Sal).
«O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão» - Onésimo Teotónio de Almeida (Quetzal).

 

TRADUÇÕES
«Berta Isla» - Javier Marias (Alfaguara).
«Aos Ombros de Gigantes» - Umberto Eco (Gradiva).
«Pensamentos» - Giacomo Leopardi (Edições do Saguão).
«Escolha Coletiva e Bem-Estar Social» - Amartya Sen (Almedina).
«Onde Estamos? Uma Outra Visão da História Humana» - Emmanuel Todd (Temas e Debates – Círculo de Leitores).

 

A todos desejamos um Bom Ano, com Saúde e boas leituras!
CNC

 

A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de dezembro de 2018.

 

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz (Companhia das Letras, 2018), que acaba de ser publicado, nasceu da viagem ao Vietname e ao Camboja, organizada pelo Centro Nacional de Cultura, em 2017.

 

GEOGRAFIAS DENTRO DE NÓS
O objetivo dessa viagem seria encontrar vestígios dos portugueses nesses lugares tão distantes – e, no dizer do autor, “porventura, encontrar essas mesmas geografias dentro de nós”… A novela agora vinda a lume tem ainda com outra origem o texto escrito por Afonso Cruz para o espetáculo “Pasta e Basta”, da autoria de Giacomo Scalisi com cocriação de Miguel Fragata e que mistura “teatro e culinária, fazendo das receitas uma metáfora da própria criação, enquanto encontro de ingredientes de várias proveniências”. A obra parte da ideia de um pai que escreve à filha que não conhece para contar-lhe a sua própria história, que é, afinal, de ambos. “Esta história, minha e de tua mãe, é também tua. (…) No lugar onde me encontro, a felicidade é um luxo, e talvez por isso, porque pela primeira vez me encontro numa situação verdadeiramente desesperada, tenha alcançado aquilo que o conforto ou a abundância ou a segurança nunca me deram, esse estranho júbilo que se deixa afetar pelo mundo, pelas suas circunstâncias e que, malgrado a dor que nos rodeia, mantém em nós um sorriso intocado, invulnerável, por debaixo das aparências mais desconcertantes ou sofridas”. Estamos, deste modo, perante uma entrega e uma troca de natureza emocional. E a viagem à Cochinchina visa “encontrar e perceber aquilo que está mais perto de nós, aquilo que nos habita”. Estamos perante uma busca que leva a ir “para lá do longe”, o que significa a procura de quem somos, “com as relações mais próximas, com os nossos erros, com as nossas paixões, com as nossas dores e, ao somar tudo isto, entre sofrimento e júbilo”. E assim talvez se possa ir ao encontro da felicidade. “Cochinchina era para o meu pai o lugar para lá do lugar. Uma pessoa podia pecar, mas a Cochinchina era o meta-pecado, a fera suprema, o ponto onde a razão enlouquece, estava para lá de Deus. Uma pessoa podia imaginar a extensão do mundo, mas a Cochinchina era um passo além da nossa imaginação. Como nunca tinha sentido uma paixão verdadeira, ainda não sabia que a mesma definição se poderia aplicar ao amor: fera suprema, enlouquecimento da razão, ponto para lá de Deus ou da imaginação”… E aqui nos encontramos perante um mistério que precisa de ser desvendado. Este pai encontrou o amor com a mãe desta filha que desconhece e está distante. “A tua mãe, por não falar corretamente, tinha a poesia do que erra, que, por vezes é a mais bela”.

 

UM SENTIDO RELATO DE AMOR
E toda a história é um sentido relato de amor. O apelo “Quando chegas?”, logo após o nascimento daquele pequeno ser que era sua filha – tem especial intensidade, como a tentativa de comunicar com a sua própria mãe no leito de morte para lhe dizer que teria de partir ao encontro do amor distante. “Mas fora ela quem partira”. Encontro e desencontros. Que é, afinal, a vida? O amor antigo esmorecera e um novo amor distante tornara-se vivo e bem presente. E o certo é que naquele momento era o amor de sua mãe que ele lembrava como definitivamente perdido, enquanto realidade próxima. E a morte sobrepôs-se à vida. Para complicar tudo, se a partida foi impedida pela morte da mãe, a verdade é que sua mulher anuncia-lhe que está também grávida. “Tinha-se instalado um grande dilema: magoar uma ou magoar outra, o que deveria escolher? E as nossas famílias? E tu? E a gravidez da minha mulher? E os meus princípios? Não havia maneira nenhuma da sair moralmente ileso daquela situação. E, mais uma vez, a conversa foi adiada, precisava de meditar sobre tudo o que me acontecia, interior e exteriormente”… A distância alargou-se. E os adiamentos sucederam-se. A criança que se anunciava não nasceu e a mulher ficou impossibilitada de ter filhos. A pouco e pouco, veio o efeito progressivo da idade. Subitamente chegou, inesperada, a viuvez, por um choque anafilático provocado pelas picadas de um enxame de abelhas… Mas “não me dera conta de que tudo desaparecera da minha vida, a minha mãe, a tua mãe, o meu pai, o meu melhor amigo, a minha mulher. Não me dera conta de que não fora somente o meu passado a desaparecer, tinha feito a mesma prestidigitação com o futuro: nessa atividade fastidiosa que é viver e a vida plena (e não plena), também tu tinhas desaparecido”… É o momento em que decide ir ao encontro da sua segunda família na Cochinchina. E lembra o princípio de “Anna Karenina” de Tolstoi que dá título à novela: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as infelizes são infelizes à sua maneira”. Do mesmo modo que invoca a expressão de Aristóteles: “As pessoas são boas de uma maneira, e más de inúmeras”…

 

A TREMENDA MEMÓRIA
Uma busca no Vietname e no Camboja obriga a lidar com a tremenda memória da guerra. Em Ho Chi Minh procurou a morada de onde recebia a correspondência. Era um restaurante, e aí obteve a informação de que a amada teria partido para Phnom Pehn, capital do Camboja. E a procura prosseguiu, mas a história que encontrou no novo destino confirmou as piores suspeitas. Havia uma carta que não tinha sido enviada e o negrume da notícia da morte. O guia, perante a trágica desilusão, aconselhou-o a visitar Angkor Vat – “o maior templo jamais construído foi esquecido e rapidamente ficou coberto de vegetação (…). A sumptuosidade é já prolegómeno da ruína, mas é precisamente o esforço de edificar, conhecendo à partida o triste destino desse ato, que coroa a vida”. Mas acontecem milagres. Numa viagem de negócios no aeroporto de Hanói, ouviu o nome de sua filha. Talvez fosse coincidência, mas não era. No avião para Hue, conseguiu sentar-se a seu lado. “Conversámos mas não nos podíamos compreender, eu falava a minha língua, tu dizias alguma coisa na tua, não tínhamos um idioma comum para comunicarmos. (…) Evidentemente que não te disse que era teu pai, por vários motivos: não saberia como fazê-lo sem parecer louco, não teria forma de te explicar o que quer que fosse. Adiei, Fá-lo-ia na altura certa, agora que te tinha encontrado…”. Um pequeno saco de cannabis ditaria, porém, o destino final desta novela. “De todas as coisas que fiz, as duas mais importantes foram ter-te dado a vida e ter-te salvado a vida”… E vem a lembrança o dominicano Frei Gaspar da Cruz que acabou por converter uma única pessoa – que morreu antes do frade regressar… Mas, afinal, foi preciso viajar até aos antípodas para encontrar a verdadeira terra – a alegria e a plenitude do outro…  

 


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

VINTE LIVROS PARA FÉRIAS…

 

À semelhança de outros anos, escolhemos vinte livros que serão uma excelente oportunidade de leitura para este verão…

 

Revista «Colóquio – Letras» - Correspondência inédita de Alexandre O’Neill e Diálogo Edgar Morin e Eduardo Lourenço.
«Rimas» de Francisco Petrarca (tradução de Vasco Graça Moura), (Quetzal).
«Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa» (diversos volumes) - coordenação Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco (Circulo de Leitores)
«A Cidade Virtuosa» - Alfarrabi (tradução de Catarina Belo) (F. C. Gulbenkian).
«Obras Completas de Maria Judite de Carvalho» – vol. I «Tanta Gente Mariana» e «As Palavras Poupadas» (Minotauro).
«Antero – ou a Noite Intacta» (Gradiva)
«Estuário» - Lídia Jorge (D. Quixote).
«Obra Perfeitamente Incompleta» - José Sesinando (Tinta da China).
«Na Prática a Teoria é Outra» - Vítor Cunha Rego (D. Quixote).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«O Fogo Será a Tua Casa» - Nuno Camarneiro (D. Quixote)
«A Sociedade dos Sonhadores» - José Eduardo Agualusa (D. Quixote)
«Gente Séria» - Hugo Mezena (Planeta).
«Portugal no Golfo Pérsico – 500 Anos» (vários autores), (Biblioteca Nacional de Portugal).
«O Fundo da Gaveta» - Vasco Pulido Valente (D. Quixote).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Um Amante no Porto» - Rita Ferro (D. Quixote).
«Em Minúsculas» - Herberto Helder (Porto Editora).
«Os Ricos» - Maria Filomena Mónica (Esfera dos Livros).
«Correspondência Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, 1949-1978» (Guerra e Paz). 

 

BOAS LEITURAS!