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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Zhao Tingyang avisa-nos de que Tianxiá é uma redefinição da política, um tratamento do mundo como sujeito político. A China é uma narrativa, enquanto que o Tianxiá é uma teoria. Vamos então ao seu Tianxia - tout sous un mêma ciel (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018), de que já te falei, ler o que o filósofo chinês - que alguns pretendem ser um ideólogo do nacionalismo chinês na atualidade - nos diz de um conceito trimilenário que ele hoje retoma. Traduzo:

 

   A mundialização, no seu turbilhão, arrasta tudo e por todos os lados, e nada doravante existe fora desse fenómeno. Menos prezar este novo contexto político tornaria difícil uma pertinaz definição dos problemas do mundo contemporâneo. Na verdade, não é só a questão política que se transforma, mas também a maneira de existir do mundo, que deixa pressagiar um mundo do futuro a necessitar de uma ordem de ser que lhe corresponda, a saber, uma ordem que realize a sua inclusão: chamo-lhe o sistema Tianxiá. É certo que o Tianxiá é um conceito nascido na China antiga, mas não é específico da China: os problemas a que se atém ultrapassam a China, são problemas universais que envolvem o mundo. O termo Tianxiá designa um mundo que possui a sua própria mundialidade. Também podemos interpretá-lo como um processo de formação dinâmica que se refere então à mundialização do mundo. O sistema Tianxiá da dinastia dos Zhou na China (1046-256 a.C.) desapareceu há muito, mas o conceito de Tianxiá que esta nos legou tornou-se em fonte de inspiração para imaginarmos o futuro do mundo. Ninguém conhece o porvir, mas não podemos calar-nos acerca dele, e uma ordem mundial cuja intenção fosse a bondade universal mereceria ainda mais a nossa imaginação.

 

   Vês assim, Princesa, como retomo a tentação de cair em utopia - ou em utopias de que te falei em carta recente - por me parecer ainda que a invenção dum mundo novo se fará apenas pelo propósito da descoberta de uma nova cultura da paz. E revejo-me -  lembra-te do que então te escrevi - no Zhao Tingyang que diz: Os conceitos políticos internacionais definidos pelos Estados Nações, os imperialismos e as rivalidades pela hegemonia vão perdendo a sua pertinência face à realidade da mundialização. Se esta não tiver retrocesso, os poderes supremos definidos pelos Estados Nações, tal como os jogos de política internacional que deles decorrem, pertencerão ao passado, enquanto que os novos poderes de redes mundializadas pós contemporâneas e uma política autenticamente mundial constituirão o futuro.

 

   [Hoje mesmo, domingo 13 de maio, assisti pela TV à missa celebrada pelo cardeal chinês, bispo emérito de Hong Kong (há por aí cada vez mais eméritos, caramba!), que, adolescente ainda, foi de Cantão para o seminário de Macau, quando a sua família se refugiava na colónia britânica de Hong Kong, nesse pós guerra perdida pelos japoneses e retomada pelo confronto entre nacionalistas e comunistas chineses. Trágico mas real. Também assisti na véspera à procissão das velas, uma maré de peregrinos acesos por dentro e por fora, vivos de uma fé que não se cansa de lhes dar esperança, e me comove no íntimo de mim porque não sei que mais fazer para que assim seja. Comungo com eles nessa estranha força que jorra dentro de nós e nos diz a certeza de um dia encontrarmos a utopia.  E lá me lembrei de outras notícias, mais ou menos fresquíssimas, que nos dizem o susto europeu (sobretudo francês e alemão) com as ameaçadoras sanções da américa trumpista a empresas europeias com interesses praticados no Irão, sublinham os bombardeamentos israelitas a posições iranianas, bem como o pronto sim-sim e aplauso de Netanyahou à vitória da sua bandeira na Eurovisão e à possibilidade de, em 2019, o dito festival se realizar em Jerusalém! Tudo já combinado, "pacífico" e animador, como poderás imaginar. Perigoso, a tal ponto, que já se fala da eventualidade do secretário de estado Pompeo servir de mediador entre a agressividade de Bolton/Trump na questão iraniana e a moderação diplomática do secretário da defesa Jim Mattis. Seria uma boa obra, mas penso agora nos palestinos, cristãos e muçulmanos, vítimas dos "nazis" israelitas. Este parêntese serve para te mostrar como as boas intenções religiosas nem sempre vencem o maligno, nem Nossa Senhora de Fátima, em 1917, conseguiu que a guerra terminasse imediatamente, como tampouco evitou o massacre de milhares de portugueses em La Lys. Isto é: impõe-se despertar as consciências humanas para a ação redentora. Era menino e ensinaram-me: Aide toi et le Ciel t´aidera!]

 

   A grande dúvida estará entre se a inteligência e a vontade dos humanos saberão levar avante um olhar limpo e novo e o gosto de construir em comunhão a terra, até hoje de nenhures (a Utopia), onde todos convivamos... ou se a pertinácia do preconceito e da soberba continuará a fechar-nos, uns aos outros, os olhos e o coração. Dirás, Princesa de mim, que eu sou um lírico - responder-te-ei "Sim, Senhora, gosto de sonhar para esquecer". Mas, voltando ao Tianxiá, devo acrescentar que tal conceito é como Janus, tem duas faces, ou poderá tê-las conforme o pensarsentir que se propuser realizá-lo: ou visando converter os povos todos à disciplina anunciada pelo "dono" do mesmo; ou acreditando que será possível despertar em todas as gentes uma consciência militante da construção partilhada da paz. Interrogando-me sobre a China hodierna, recorro ao meu velho amigo João de Deus Ramos, primeiro diplomata português na China, após o reatamento de relações diplomáticas, tendo aberto, em 1979, a Embaixada de Portugal em Beijing, estudioso das coisas do Oriente, sobretudo sínico, e que também esteve colocado no Japão, uma década e meia antes da minha prolongada missão por lá. É frequente, hoje ainda e depois de 65 anos de amizade, conversarmos sobre aquelas experiências. E tive o gosto de reconhecer o labor da sua obra no fomento do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, quando, em 2014, um jovem intelectual e empresário portuense, cujo estágio, no Japão e na Coreia, acompanhei, o Pedro A. Vieira, me ofereceu um exemplar de A Herança de Confúcio - Dez ensaios sobre a China, publicado em novembro de 2013 por aquele instituto, e reunindo, com organização da doutora Sun Lam (natural de Beijing, licenciada pela Jinan de Cantão, doutorada pela Universidade do Minho!),  a colaboração de dez autores, entre os quais os meus amigos de que te falo acima. É consolador ver que, em Portugal, também se iniciam estudos sínicos. Mas não irei agora respigar o texto do embaixador João de Deus sobre o relacionamento da China com o exterior. Antes irei buscar ao texto do doutor Luís Cabral, uma Introdução à Filosofia Clássica Chinesa, um esclarecedor esquema que lhe foi sugerido por João de Deus Ramos, e que Luís Cabral assim apresenta:

 

   Passando ao conceito de Tian, que correntemente se poderá traduzir por "Céu", terá porventura na estrutura mental e de pensamento chinês muito mais uma conotação ética e política do que propriamente religiosa. Para uma melhor compreensão do que dizemos, propomos a seguinte narrativa. Pelo século XI a.C., a dinastia Shang foi derrubada pelos Zhou, tendo estes sentido a obrigação ou necessidade de conceber uma teoria filosófica e teológica que justificasse a tomada e o exercício do poder.

 

   A visualização desta filosofia política, filosofia que porventura estará ainda bem presente na mentalidade dos chineses e chinesas modernos, governantes ou governados, poderá melhor esclarecer a importância do conceito, em articulação com outros caracteres conforme o esquema que segue:

 

                                                                                  tian

                                                                   xià           zi          ming

 

em que tian, o Céu (numa tradução simplista, já referimos) teria o direito de oferecer (ou retirar, em caso de má administração) o tianming, ou Mandato Celestial, para que tianzi, o Filho do Céu (Imperador ou Partido Comunista) administre tudo quanto existe, tianxiá, tudo debaixo do Céu, ou seja, a China. É com este esquema elementar que a China foi fazendo a sua história, dinastia sobre dinastia. Não é isto figura de retórica. Sempre que tianxiá está em muito más condições e tianzi é demasiado mau administrador, tian manifesta-se (catástrofes naturais, cheias e fomes, pragas, terramotos, revoluções, etc.) retirando-lhe o tianming. E a dinastia necessariamente muda.

 

   Este esquema de João de Deus (quase uma cartilha maternal da língua sínica) entender-se-ia bem melhor se eu soubesse traçar aqui, nesta carta, os pertinentes caracteres chineses: o tian que diz Céu, o ming que diz mandato ou missão, o zi que diz menino ou filho, o xiá que diz debaixo de... Mas, tal como está, também dá para perceber que tudo se refere ao Céu. No nosso Ocidente, ao que parece hoje em dia, a medida de todas as coisas é o dinheiro. O que, evidentemente, e apesar de não pensarmos nisso, vai afastando qualquer referência estratégica do plano e da prática política do Ocidente. Pois que é bem verdade que o objetivo dinheiro logo torna a atenção e o comportamento numa busca de oportunidades de enriquecimento (e quanto mais imediato, tanto melhor), com esquecimento da prossecução a prazo de valores constitutivos de humanidade: ordem e progresso, justiça e paz. A ideia de riqueza, finalmente, comanda a política. Não aludo apenas à corrupção, nem sequer à cumplicidade do poder político com o financeiro, ao ponto de tranquilamente se aceitar o viático da porta giratória. Refiro-me à propagada idealização do êxito (a que chamam "sucesso", isto é, "acontecido") medido por critérios quantitativos de PIB, lucros, dividendos, salários, e respetivo crescimento...ou de custo, dívida, défice, e respetiva diminuição. Nas relações internacionais, tudo se vai medindo por balanças comerciais e de pagamentos, por compensações e mercados rentáveis, a venda de armamento, por exemplo, não conhecendo, de facto, qualquer limite ético, e todos os bens ditos estratégicos sendo transacionados em função do pagamento ou como armas de chantagem. A cena internacional é também eleita para palco da exibição de megalomanias - de propaganda nacional, partidária ou pessoal (sobretudo para diversão das atenções internas) - ou simples encenação de recados, ameaças ou provocações. Viste, Princesa de mim, a comédia da inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém? Até deu lugar a discursos incendiados de dois pregadores, pastores "evangélicos" apoiantes de Trump e das posições hegemónicas de Israel (de que já te falei numa carta onde também referia o vice-presidente Pence) - um dos quais, aliás, leva no currículo (paradoxalmente?) umas diatribes clamando que os judeus que não se converterem vão para o inferno -  ... E, mais ainda, da presidencial filha Ivanka e seu marido, Jared Kushner, falando em nome dos EUA e em representação do seu presidente, assim violando a lei americana, que é, e bem, muito rigorosa em matéria de nepotismos e tentações imperiais! Talvez por isto, ou pelo disparate da própria declaração, apagou o registo oficial americano uma frase proferida pelo genro do presidente, no decurso da cerimónia e da violência israelita em Gaza: as we have seen from the protests of last month and today, those provoking violence are part of the problem and not part of the solution...  Tal espetáculo, a que assistia um Netanyahou babado, representava-se a menos de 50km do horror da repressão de manifestantes na faixa de Gaza, que reclamam o regresso à pátria e aos direitos que os sionistas violentamente continuam a roubar-lhes. Nesta perspectiva, e para um Kushner também, os palestinos são só problema, a excluir de qualquer solução...

 

    Já percebeste, Princesa que todos estes acontecimentos têm perturbado a tranquilidade da distância que habitualmente ponho entre o meu pensarsentir, com a decorrente escrita, e a agitação barulhenta de um mundo sempre confuso - e hoje cada vez mais, porque ao alvoroço noticiado se somam comentários exaltados, quase sempre facciosos e pouco, ou desonestamente, refletidos. Assim, eu também me afastei da pedagógica, e proveitosa, consideração da sabedoria, e utopia, do Tianxiá. Mas lá voltarei, consciente de que não há bela sem senão, e de que tudo é o que é - ou o que se formula - e a sua circunstância. E lembrado de ditos de Ji Zhe, professor no francês INALCO (Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais), numa resenha à 1ªedição chinesa do livro de Zhao Tinyang, publicada, em 2008, na revista La Vie des idées. Citando um filósofo de Beijing, Zhou Lian, Ji Zhe observa que Zhao põe em dúvida o individualismo metodológico que domina a filosofia ocidental e procura justificar o Estado a partir dos indivíduos considerados como seres atomizados, racionais e egoístas... daí concluindo que o seu conceito de Tianxiá seria uma poderosa alavanca do nacionalismo chinês. Já neste ano da graça de 2018, Ji Zhe ressurge mais crítico ainda: Tianxiá é um conceito ético poderoso que, no pensamento tradicional chinês, se inscreve num espaço universal e imaginário, e se distingue claramente do Estado. Tianxiá até permite criticar o atual poder chinês. Ora Zhao Tingyang critica o Ocidente e as relações internacionais, mas não a China. Permite, pois, uma aliança objetiva entre o mundo académico e o mundo político que pode ser perigosa.

 

   Vai longa esta carta, deixo para futuras o regresso ao tema. Mas desde já te lembro, Princesa de mim, que Ji Zhe vive e trabalha em Paris; Zhao Tingyang em Beijing. O nosso habitat condiciona-nos. E quiçá Zhao tenha de encontrar outros modos de tratar a China. Para terminar, deixo-te um trecho da parte II do seu livro, que trata de O Ser e o Devir da China, que traduzo:

 

   A China tem origens e uma composição complexas e mutáveis, e todavia transforma-se sem se afastar das suas origens. Zhang Guangzhi qualificava a civilização chinesa de «forma contínua». A razão da existência contínua da China explica-se pelo facto da China ser, em si mesma, uma maneira de crescer.

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua edição de maio/junho deste ano, a revista Books publica, em antevisão da saída a público, no próximo outono, do livro Quatre Essais sur la Traduction, do sinólogo suíço Jean-François Billeter, uma entrevista com este autor. Na linha das teses de outros notáveis estudiosos da China, designadamente da actualidade do seu pensamento e cultura (incluindo, claro está, a filosofia chinesa), tais como Anne Cheng e os coautores de La pensée en Chine aujourd´hui, de que já te falei, Billeter contesta o fundamentalismo da ideia tão difundida - e tão central, por exemplo, na obra do grande sinólogo francês François Julien - de que o Ocidente e a China são dois mundos, não só diferentes e alheios, mas até opostos, no plano do pensamento. Além das razões de fundo que invoca, o autor suíço considera que tal ideia de que a China seja radicalmente diferente é perniciosa, pois segue o discurso que o actual regime chinês tenta impor, deixando crer que a democracia, os direitos do homem, a ideia republicana são invenções ocidentais incompatíveis com a mentalidade chinesa... Para Billeter, o mito da alteridade chinesa, tão divulgado na Europa, surge com Voltaire e os iluministas que, curiosamente, como aliás te disse em carta anterior, o foram buscar aos missionários jesuítas, que procuravam justificar a sua política de conversão do império chinês a partir de cima e, por isso, criaram uma imagem favorável dos soberanos chineses, do seu governo, do mandarinato que governava o império, e do confucionismo que constituía a chave da abóbada do universo intelectual mandarínico.

 

   Retomarei esta reflexão nas considerações acerca do Tianxiao, que te prometi, Princesa de mim. Mas deixa-me agora só traduzir-te uns trechos da entrevista de Billeter à Books, que nos ajudam a perceber a configuração familiar da organização política, de que te falei em conversa sobre o encontro intercoreano. Na verdade, o sinólogo suíço não nega que haja profundas diferenças entre o Ocidente e a China, mas insiste em que, simplesmente, prefere postular a unidade da experiência humana e, a partir daí, procurar compreender a realidade chinesa no que ela tem de particular, do que seguir o caminho inverso. Quando damos prioridade à diferença, perdemos de vista o fundo comum, enquanto que, se partirmos deste, as diferenças surgem por si próprias... E quais serão essas diferenças? Responde:

 

   A China caracteriza-se por uma certa concepção do poder e do seu exercício, em que o político, o familiar e o religioso se confundem. Tal é inegável e é uma chave para a compreensão do país - o fio de Ariana da sua história. [Já te referia esta nota, ao falar-te, Princesa, no Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine de Bernard Brizay]. Mas, afinal, que tão certo conceito é esse?

 

   Nasceu por volta do ano mil  antes da nossa era, quando a dinastia dos Zhou derrubou a dos Shang. Criou-se então uma ordem nova, para que a vitória conseguida nos campos de batalha tivesse amanhã. O fundador da dinastia Zhou procurou transformar os aliados circunstanciais que o tinham ajudado a tomar o poder em aliados permanentes, e, para o efeito, ele e os seus conselheiros tiveram uma ideia genial: reinterpretar as relações do rei com os seus vassalos em relações familiares. Todos se tornaram irmãos, sendo o rei considerado o primogénito. Como era fácil prever que tal família aristocrática fosse, no decurso das gerações, crescendo e multiplicando-se, e que tal multiplicação acabasse por fazer perigar a estrutura familiar, os Zhou conceberam maneira dela se poder estender sem que nela se introduzisse qualquer desordem. Criaram um sistema capaz de organizar uma família de várias dezenas, ou centenas ou mesmo milhares de membros, reunindo até quatro gerações em simultâneo, sem que alguma vez pudesse haver ambiguidade sobre a ordem de precedência de sequer dois dos seus membros, fossem eles quem fossem. Forjaram uma nomenclatura capaz de identificar exactamente o lugar de cada um nessa hierarquia geral. Tal nomenclatura, que faz da organização familiar um sistema de domínio político, perpetuou-se, no essencial, até hoje. É sem dúvida uma das grandes criações do espírito humano e uma especificidade chinesa.

 

   E assim, Princesa de mim, quem hoje quiser entender o que é o poder do actual presidente Xi Jinping, terá de ter presente esta herança histórica, bem iluminada por aquele texto de Sun Yatsen, primeiro presidente da República da China, no princípio do século passado, que te citei em carta passada, e do qual hoje apenas te repito a última frase: Os países estrangeiros fizeram guerras de religião ou bateram-se pela liberdade; na China, desde há milhares de anos que perpetuamente nos batemos por esta simples questão: tornarmo-nos imperador. A consolidação e persistente reforço da autoridade de Xi Jinping parece trazer-nos mais um exemplo de tal vocação. Mas a circunstância em que o poder central (imperial?) tende a afirmar-se também poderá travar-lhe ou desviar-lhe o percurso, por força, isolada ou simultânea, de irreversíveis crises: sejam elas da economia (abrandamento, estagnação do crescimento), da sociedade (desequilíbrios regionais e desigualdades sociais), do aparelho político (surto de movimentos contestatários ou lutas intestinas no próprio PC), e ainda das relações internacionais (conflitos geoestratégicos no sudeste asiático, excedentes comerciais). É todavia opinião de conceituados politólogos como Jean-Pierre Cabestan, investigador no CNRS francês e director do departamento de ciências políticas e estudos internacionais da Universidade Baptista de Hong Kong, que se mantêm sólidos os obstáculos a qualquer mudança política, faça-se esta por calma evolução ou por ruptura: o poderio e a modernização do Partido-Estado, o carácter soviético e, portanto, eficaz do seu sistema repressivo, o inegável, prodigioso até, êxito económico de que pode vangloriar-se, a despolitização da sociedade, o seu nacionalismo e a superficialidade da sua cultura democrática, a fraqueza da sociedade civil e o conservadorismo geral das elites económicas e intelectuais, tal com a sua dependência relativamente às elites políticas do PC.

 

   Resumindo o discurso, Princesa de mim, e continuando a seguir Jean-Pierre Cabestan, a China tem mais probabilidades de evoluir para um regime ainda bastante autoritário, elitista, paternalista e imperial. O PC continuará a alternar períodos de endurecimento e de alívio político, mas recusará propor qualquer saída do sistema actual. Pelo contrário, ao instrumentalizar a sua alteridade cultural, a República Popular continuará provavelmente a constituir o principal desafio político às nossas democracias e, mais ainda, ao modo como compreendemos o político e a vida política.

 

   Num artigo intitulado L´utopie inclusive - Zhao Tingyang, publicado no suplemento Idées de Le Monde (24/03/2018), Frédéric Lemaître argumenta que, apesar do filósofo chinês Zhao Tingyang pretender que a sua filosofia nada tem a ver com a política chinesa actual, o mesmo desenvolveu o conceito milenário de tianxia, que visa pensar o mundo como um todo, suprimindo qualquer ideia de estrangeiro ou de inimigo. Na orla das realidades actuais, tal teoria política é por alguns percebida como alavanca do nacionalismo chinês. Já te-lo tinha referido, Princesa, repito-o agora para ligar o que nesta te escrevi ao que te direi em próxima carta sobre tal filosofia: tenho comigo duas versões francesas, ambas em tradução de Jean-Paul Tchang, a de Tianxia - tout sous un même ciel, de Zhao Tingyang (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018) e a de Du Ciel à la Terre - La Chine et l´Occident ( Les Arènes, Paris, 2014) selecta de correspondência entre o filósofo chinês e o francês Régis Debray. Para te abrir o apetite do tema, traduzo-te as primeiras linhas do epílogo do Adam Smith in Beijing, do falecido Giovanni Arrighi (Verso, 2007):

 

   Partimos de uma questão central: podemos ou não considerar que, apesar das suas insuficiências e dos reveses que não deixará de encontrar, a ascensão da China constitui um sinal anunciador de uma era de maior igualdade e respeito mútuo entre os povos de origem europeia e os povos de origem não europeia, tal como Smith predizia há duzentos e trinta anos? A análise proposta neste livro tende para uma resposta positiva, o que não exclui importantes reservas.

 

   Continua em próxima carta...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Em 2015, Scotty Allen, californiano de 38 anos, promissora cabeça de Silicon Valley, visitou Shenzen, cidade chinesa de entre dez a vinte milhões de habitantes que, nos anos 70, não passava de uma aldeia de pescadores. O que aquele americano, vanguardista de tecnologias de ponta, ali descobriu deixou-o estupefacto: Ora esta! Estamos lixados! - exclamou perante a imensidão de arranha-céus de vanguarda acenando com as últimas descobertas e progressos da informática e da electrónica. E acabou por concluir que a China está mesmo, mesmo, a ultrapassar o Ocidente no domínio das novas tecnologias: Chegar a Shenzen é como viajar no futuro. Há ali uma energia incrível, e toda a gente parece beneficiar da maré a subir. As pessoas de lá são espertas, inovadoras e criativas... Saberás, Princesa, que Shenzen também é hoje um dos dois maiores portos do mundo, oferecendo à região de Cantão - onde se concentra 12% do PIB chinês e a maioria da indústria exportadora do Império do Meio - uma saída para o seu comércio externo. O delta do rio das Pérolas, na região, tinha, nos finais do século XVIII, um nível de desenvolvimento superior à da outra «economia-mundo» (no conceito de Braudel) daquele tempo: a Holanda em redor de Amsterdão. E em Cantão estiveram, no século XVI, muitos portugueses negociando, alguns ficando prisioneiros. Inclusive a célebre embaixada de Tomé Pires, enviado por Dom Manuel I ao imperador da China...

 

   Sob o título de Autocracy´s Global Ascendace e assinatura de Yascha Mounk e Roberto Stefan Foa, a revista Foreign Affairs chama-nos a atenção para o facto de, no auge da 2ªGuerra Mundial, Henry Luce, fundador da revista TIME, ter arguido que os EUA tinham amassado tanta riqueza e poderio, que o século XX seria simplesmente conhecido como o "Século Americano". A sua predição revelou-se presciente : apesar de ter visto a sua supremacia ameaçada pela Alemanha Nazi e, mais tarde, pela URSS, os EUA prevaleceram sobre os seus adversários. Na viragem do milénio, a sua posição de mais poderoso e influente estado do mundo parecia indiscutível. Consequentemente, o século XX foi marcado pelo domínio, não só de um país em particular, mas também do sistema político que o mesmo ajudou a difundi : a democracia liberal. [Há pouco, ouvi Donald Trump afirmar que a UE foi inventada para prejudicar os EUA, quiçá reflexo pós prandial do presidente, logos após as visitas de Macron e Merkel à Casa Branca...]

 

   O artigo procede então à análise desse fenómeno de vocação universal, assinalando que seria tentador atribuir tal apelo à inerente bondade de tal sistema: se cidadãos indianos, italianos ou venezuelanos pareciam leais ao seu regime político, seria certamente por terem desenvolvido um profundo compromisso, quer para com os direitos individuais, quer para com a autodeterminação colectiva. E polacos e filipinos iniciariam a transição da ditadura para a democracia porque, afinal, também viriam a partilhar da universal aspiração à democracia liberal.

 

   Só que os eventos da 2ª metade do século XX também se podem interpretar de modo muito diferente. Por esse mundo fora, muitos cidadãos foram atraídos pela democracia liberal, não simplesmente em razão das normas e valores desta, mas por lhes prometer o mais conveniente modelo de êxito económico e geopolítico. Todavia, segundo os mesmos articulistas, parece virar-se o feitiço contra o feiticeiro: Como as democracias têm piorado no fomento dos padrões de vida dos seus cidadãos, movimentos populistas que descartam o liberalismo vão emergindo, de Bruxelas a Brasília, de Varsóvia a Washington. Um impressionante número de cidadãos começa a dar menos importância ao facto de viver em democracia : enquanto 2/3 dos americanos com mais de 65 anos afirmam que lhes é essencial viver em democracia, menos de 1/3 dos com menos de 35 diz o mesmo. E uma minoria crescente de cidadãos se vai declarando aberta a alternativas autoritárias : de 1995 a 2017, a faixa de franceses, alemães e italianos que se dizem favoráveis a regimes autoritários mais do que triplicou.

 

   A preocupação destes articulistas da Foreign Affairs é sobretudo resultante do facto de que, enquanto a proeminência das democracias tem empalidecido, a parte do produto económico atribuível aos estados autoritários tem rapidamente crescido. Em 1990, países considerados "não livres" pela Freedom House (a categoria mais baixa, que exclui países "parcialmente livres", como Singapura) representavam 12% do rendimento global. Hoje, respondem por 33% dele, chegando ao nível que haviam conseguido no início dos anos 1930, durante o surto do fascismo na Europa, e ultrapassando as alturas que atingiram na Guerra Fria, quando o poder soviético estava no auge... [Nota bem, Princesa, que não se comparam aqui, nas duas épocas, os mesmos países nas categorias de livres e não livres...]

 

   Consequentemente, o mundo aproxima-se agora de um marco chocante: dentro dos próximos cinco anos, a parte do rendimento global detida por países considerados "não livres" - como a China, a Rússia e a Arábia Saudita - ultrapassará a parte pertencente às democracias liberais ocidentais. No prazo de um quarto de século, as democracias liberais terão passado de uma posição de força económica sem precedentes para uma inaudita posição de fraqueza económica.

 

   Eis mais um exemplo de como continuamos a reflectir a realidade em espelhos do passado. O crescimento económico não mais é função do liberalismo dito democrático, pode verificar-se em regimes autoritários, onde coabitam um capitalismo de estado e um sector privado por aquele controlado. Tal como, nas democracias ditas liberais, a concentração da acumulação da riqueza criada em grandes grupos económicos já conseguiu mesmo contornar as legislações anti trust, quer pelo anonimato, quer pela obscuridade dos reais detentores do poder financeiro. A razão de tudo isto é que nos entregámos às promessas do êxito económico que por aí se chama sucesso (como repetia um nosso ex-primeiro e ex-presidente: "Portugal é um país de sucesso!"  - como hoje, ironicamente, verificamos), e nos esquecemos de que só pode haver desenvolvimento económico se ele for, por natureza, por vontade, por prática, por participação e por finalidade, uma melhoria social das condições de vida de todos os membros de uma comunidade e um processo de reciclagem sustentável da riqueza criada, pela responsabilização e para o benefício de todos. E as ditas democracias pretensamente liberais têm falhado tanto esse propósito, que já hoje surgem alternativas, aparentemente viáveis, à cegueira soviética e à selvajaria capitalista, se assim me posso exprimir. 

 

   E talvez não devêssemos esquecer o apelo milenar da mensagem evangélica à justiça económica e social, que hoje o papa Francisco incessantemente recorda e João Paulo II gritou, na esperança de ver o fim da ilusão soviética e da Guerra Fria abrir os olhos do Ocidente para uma possibilidade democrática livre da obsessão do triunfo do dinheiro e criadora de valor humano.

 

   Será mesmo assim tão difícil percebermos que, em economia política, há só uma prioridade cristã?

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entendeste bem o significado das minhas duas últimas cartas sobre imperadores e providencialismos. Não busco ninguém em particular, apenas evoco exemplos de como as chamadas figuras importantes, sobretudo as que consideramos históricas, têm sempre duas existências: a real, aquela que foi ou ainda é facto, e a mitológica, essa que se fabricou, fabrica, e finalmente perdura no imaginário das pessoas. [Nota que isso pode acontecer com gente medíocre, como muitos que povoam a via láctea do empíreo político português]. A primeira é bastante desconhecida, ignota, secreta ou, melhor ainda, como diz o povo, só Deus a conhece. Nós, o vulgo, procuramos descobri-la pela recolha de informação ou por investigação histórica, mas dificilmente lá chegamos, ainda que possamos progredir numa compreensão mais objetiva e honesta de personagens e acontecimentos. Já a segunda, quando não é construção nossa, nem faz parte do nosso património cultural valorativo, pode ser livremente interpretada e (des)valorizada, mas não a controlamos: será mais um dado de facto, um fator condicionante dos eventos sociais que tentamos perspetivar e analisar. E, neste caso, a pessoa mitológica é realmente persona, isto é, muito mais ficção ou ator do que ser humano em carne e osso. Eis como a vida política é tão encenada.

 

   E, em política, constrói-se assim uma personagem muito complexa na sua aparente simplicidade de líder. No subconsciente dos grupos sociais obram desilusões e ressentimentos, nostalgias e recordações de perdas, que se tornarão em reclamações e desejos de desforra, em aspirações a grandezas imaginadas e reformas genéticas de passados por completar, se puderem incarnar-se na persona providencial e daí apelarem a todos os corações. Tal "ungido" de muitos procurará então valer-se das legitimidades necessárias à sua afirmação e ao seu percurso. Sobretudo à dos valores históricos e constitutivos de uma nação, incluindo a fidelidade religiosa. Casos claríssimos são o de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa, o de Modi com uma versão hindu extrema e exclusiva do hinduísmo, ou de Erdogan, disfarçado de Ataturk (mas ao contrário), e outros vários líderes islâmicos, e o dos governantes ditos populistas em países europeus, incluindo os membros da UE situados no Leste europeu que constituem o grupo de Visegrad (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria), apelando ao nacionalismo eurocético, às suas tradições étnicas e religiosas. É claro que o atual jogo russo não os deixa indiferentes, mas pensossinto, Princesa de mim, que se sentem um pouco órfãos: ali mesmo onde passava geograficamente a Cortina de Ferro, avolumam-se hoje promessas por cumprir, a par de sonhos de identidade a recuperar. [Talvez por isso o papa Francisco - que tão energicamente tem reclamado o acolhimento de migrantes pela Europa - tem sido bastante discreto a questionar estes países...]

 

   Mas, além dos exemplos apontados e alguns mais, não esqueçamos, Princesa, outros "populismos" por aí disseminados que, pouco indigitados, têm todavia o que se lhes diga em matéria eleitoralista e suas consequências, mesmo na política internacional. Curiosa ilustração é o movimento sionista ou messiânico cristão, nos EUA, do qual aliás te falei numa das minhas cartas sobre Jerusalém, quando referia um discurso do vice-presidente Pence. Já então deixei claro que tais cristãos milenaristas partilham, com os sionistas judeus, a crença de que, no fim dos tempos, a Terra Santa ficará totalmente na posse do Povo de Israel, pois que lhe está prometida na Bíblia, e então virá o Messias. Na cena final, as duas fés divergem quanto à questão de o Messias regressar ou vir finalmente pela primeira vez e, sobretudo, quanto a quem sofrerá a conversão final: se todos os judeus ao cristianismo, ou se os cristãos ao judaísmo. O certo é que os sionistas cristãos apoiam e financiam a ocupação da Palestina pelo estado de Israel, e exercem pressão influente sobre o presidente Trump quanto ao reconhecimento de Jerusalém como sua capital. Imagina, Princesa de mim, que até aludem à oxigenada poupa trumpista como evocação da cabeleira do rei David, descrita na Bíblia. Tudo isto nos faria rir imenso se, com John Bolton a Conselheiro da Segurança Nacional, depois do ex-CIA Mike Pompeo a Secretary of State, os EUA não estivessem tentados a ir para a guerra ao lado de Israel, até porque cada um dos grupos milenaristas acredita que será inevitável a destruição bélica do terceiro lugar mais sagrado do Islão, hoje sito onde, no longínquo outrora, estivera localizado o Templo de David e Salomão. 81% desses cristãos sionistas votaram em Donald Trump nas presidenciais americanas e são-lhe, no conjunto do Bible Belt, um trunfo eleitoral indispensável. 

 

   Já os valores que o atual presidente americano invoca para granjear apoios são populistas, populares com pouca transcendência, pretendendo sobretudo entusiasmar um sonho americano de superioridade mundial e nacionalista (America First), tudo ou muito projetado ao jeito de um empresário obcecado pelo regresso da sua empresa a indiscutível nº1 do mercado, e utilizando métodos semelhantes (vg. os sucessivos despedimentos e substituições de pessoal, sem outra razão que a do quero, posso e mando; ou, ainda, a chantagem negocial). Os seus apoios não são, por isso, institucionais nem históricos (até procura desdizer, maldizer ou destruir outras políticas nacionais recentes). São apostas oportunistas, tal como o trumpista fazer e desfazer de propostas internacionais. Donde os meios de comunicação on line que privilegia.

 

   No seu notável China - a New History (Harvard University Press, 1992), John King Fairbank tem um capítulo sobre o que chama Imperial Confucianism, sucintamente definido como uma amálgama de legalismo e confucianismo: O recurso à violência pelo governante permaneceu sua prerrogativa relativamente ao seu povo como aos seus funcionários. Mas não podia governar apenas pela força e precisava portanto da ajuda Confucionista para mostrar o seu constante propósito moral de benevolência e conduta apropriada. Sob orientação Confucionista, o imperador cada dia cumpria rituais e cerimónias que eram a sua específica função de Filho do Céu. (Today`s White House foto-ops and sound-bites would have seemed quite natural to him.) A ironia da frase final, que deixei propositadamente em inglês, sugere e disfarça uma semelhança e um abismo. Paradoxal simultaneidade, uma tendo a ver com os métodos de publicitação de atos políticos, o outro separando a durabilidade de tradições, ancoradas no subconsciente coletivo, da leviandade do mero "marketing" político. Reparaste já, Princesa de mim, nos grupos que rodeiam Trump, na Casa Branca, para as fotografias de promulgação de um decreto? No anúncio de medidas protecionistas, até estavam figurantes operários de várias etnias, incluindo hispânicos de tez e feições claramente meso americanas... A primeira grande diferença entre a RPC e os EUA, hoje em dia, é que a primeira tem consciência das opções de política interna necessárias e possíveis ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano e social da China, e dispõe do poder político suficiente para as pôr em marcha. A segunda é que a própria noção dessa vantagem, enquanto ordenada pelo poder político, está inculturada no seu povo e é por essa mesma cultura popular disciplinada, sendo o "show off", o "marketing" político mais arte para o exterior, exposição de fachada. Mas com clara perceção do mundo hodierno, onde terão de investir, ser investidos, comprar e vender, pois há muito já entenderam que o declínio da potência chinesa começou quando a dinastia Ming desistiu da expansão... Esta atitude é mais uma vantagem competitiva sobre a trumpista política supremo-isolacionista. A China dos nossos dias sente-se preparada e pronta para entrar na globalização, muito à sua maneira, é certo, mas também com a força necessária para participar no concerto das nações. E um concerto, como bem sabes, Princesa, é um conjunto de instrumentos vários e frases musicais que se afrontam e desafiam, tendo por fim a harmonia. Em carta futura te falarei dum conceito chinês milenário, que dá pelo nome de tianxia, uma visão do mundo como um todo, onde se apaga o sentimento de estrangeiro ou de inimigo. Conceito hoje retomado pelo filósofo Zhao Tingyang, quiçá em vias de aproveitamento pelo poder político chinês, para afirmação universal do seu nacionalismo.

 

   A grande vantagem da China hodierna, pois, é a sua cultura milenária dispor um povo à obediência e dispensar excessos de "marketing" político para uso interno. E, curiosamente, esse profundo sentimento de identidade parece estar a dar-se muito bem com as perspetivas duma entrada mais descontraída nas cenas que estão em palco no mundo... Da música clássica ao futebol e à "loja do chinês", do turismo à filosofia. E mesmo, até, às relações com o Vaticano, que talvez redefinam uma nova forma de cristianismo parcialmente cesarista, a juntar, historicamente, à moda romana antiga, ou à bizantina, ou à ortodoxa russa... E, no caso específico da guerra comercial que os EUA iniciaram, a China aguentar-se-á bem melhor a prazo.

 

   Este último cesarismo ou tzarismo é o que Vladimir Putin, com alguma habilidade, e bastante violência ao jeito soviético, mas também com raízes na antiga autocracia imperial, procura ressuscitar numa Federação Russa economicamente esgotada e militarmente ultrapassada. Aliás, com recurso a métodos de fácil paralelismo com os trumpistas. Por exemplo - conta-nos o jornalista russo independente Mikhail Zygar (num livro publicado em francês pela Cherche Midi, intitulado Les Hommes du Kremlin) - que o homólogo de John Bolton é hoje um ex-chefe do FSB (ex-KGB), Nikolaï Patruchev, o novo Secretário Geral do Conselho Russo de Segurança, o principal falcão da Rússia, assim como ponta de lança do anti ocidentalismo e do anti americanismo no seio do poder russo. Curiosamente, Hélène Carrère d´Encausse, a franco-russa (georgiana como Estaline), que foi politicamente próxima de Jacques Chirac, deputada pelo RPR ao Parlamento Europeu, e é hoje Secretária Perpétua da Academia Francesa, autora de um livro que li há décadas e me abriu um olhar novo sobre a URSS (L’Empire Éclaté,  Flammarion, Paris,1978), pediu recentemente (3ª feira, 3 de Abril, na Salle Gaveau, em Paris) que se matizassem um pouco os juízos sobre Vladimir Putin, lembrando que, até 2004, ele fora homem de mão estendida ao Ocidente (cf. Le Figaro de 5/4/2018)...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   O golpe de estado do 18 de Brumário (9 de novembro) de 1799, termo da primeira década da Revolução Francesa, traz à tona a nova burguesia, aquela classe de oportunistas que foi sabendo mexer os cordões do PREC coevo, e até foi designada por Nação, quando mais não era do que a faixa de 2% da plebe, os privilegiados que faziam negócios e ganhavam fortunas. No Antigo Regime, a assembleia dos representantes da nação (em Portugal chamada Cortes), reunia três classes: clero, nobreza e povo. Com a revolução, acabou por congregar só uma - em liberdade, igualdade e fraternidade -, mas, nessa mesma, uma minoria era mais livre, mais igual e, com ironia, mais fraterna do que o povo em geral. Este, acabou por ser constituído por citoyens passifs (expressão de Sieyès), assim se respeitando o conselho de Voltaire que diz ser país bem organizado aquele em que le petit nombre fait travailler le grand nombre, est nourri par lui, et le gouverne.  

 

   Seguir-se-á o Consulado e o Primeiro Cônsul tornado Imperador. Napoleão será a reincarnação "republicana" da monarquia, muito próxima, aliás, da fórmula de Luís XIV: L´État c´est moi.

 

   A China também terá, a partir de 1912, os seus imperadores republicanos: Sun Yat-sen, fundador da modernidade sínica, e Chang Kai-shek, durante a primeira república, Mao Zedong, Deng Xiaoping e Xi Jinping, em tempos de república popular. Deixa-me ler-te um texto de Sun Yat-sen:

 

   Na China, desde a Antiguidade, a maioria dos indivíduos dotados de forte ambição sonhou ser imperador...  ... Esse tipo de ambicioso encontra-se em todas as idades da história, sem interrupção...  ... Assim, na história da China, em qualquer idade, sempre se lutou pelo trono imperial, e todos os períodos de anarquia que o país sucessivamente atravessou tiveram a sua nascente nessa luta pelo trono. Os países estrangeiros fizeram guerras de religião, ou bateram-se pela liberdade. Na China, desde há milhares de anos, lutou-se perpetuamente por essa única questão:  vir a ser imperador.

 

   [Introduzo aqui uma máxima de Benjamin Constant, amante de Mme. de Staël, filha de Necker, conspirador do 18 Brumário, que Napoleão fez Tribuno: a política é, antes do mais, l´art de présenter les choses sous la forme la plus propre à les faire accepter. Sugiro, Princesa, que a tenhas sempre, subconscientemente, como lembrete].

 

   Para melhor entendermos a figura do Imperador no imaginário religioso, ético e político chinês, na sua própria visão do mundo, cito-te, primeiro, Confúcio: Quem governa pela virtude é comparável à estrela polar, imutável no seu eixo, mas centro de atração de todo o planeta. Dito este, claramente, nos antípodas do de Constant. O Imperador Celeste é paradoxal, ser humano e ser divino, senhor e chefe de todos, mas por todos, finalmente, controlado. Recorro a duas longas transcrições para entendermos melhor. A primeira é tirada de La Vie des Chinois au temps des Ming (Paris, Larousse, 2003), de Gilles Baud-Berthier e outros:

 

   Fils du Ciel, l´empereur est un être quasi divin. E traduzo: Manda em todos e só obedece ao Céu e aos seus próprios antepassados. Mas é também aquele que cumpre os ritos oficiais, o chefe dos funcionários, o pai dos seus súbditos. E finalmente é um homem como os outros, movido pelas suas ambições, as suas inclinações, as suas fraquezas...

 

   A segunda transcrição, muito mais longa, traduzo-a de um livro recente (Paris, Perrin, fevereiro de 2018), da autoria de Bernard Brizay, cuja leitura te recomendo: Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine. Trata-se, aliás, não de um texto do próprio Brizay, mas de um trecho que ele respigou de La Chine devant l´Europe, livrito escrito pelo marquês de Hervey de Saint-Denys, em meados do século XIX, e publicado no reinado de Xianfeng:

 

   Chamam-lhe Filho do Céu, desejam-lhe dez mil anos de vida, prestam-lhe honras divinas. Ninguém pode passar diante da porta exterior do seu palácio, de carro ou a cavalo. O seu trono, mesmo vazio, é respeitado tanto como ele mesmo seria. Recebem de joelhos os seus despachos, queimando incenso. Comanda 400 milhões de homens. A sua morada é uma autêntica cidade, rodeada de altas muralhas, recinto reservado aos inúmeros serviços de uma corte sumptuosa. Ali se encontram casas de habitação para o imperador, a imperatriz, as princesas ou damas de segunda classe, as de terceira e até de quarta classe; pavilhões de trabalho para os ministros; salas de receção, de representação, de audiência; outras consagradas às cerimónias religiosas ou às festas do monarca; exércitos de oficiais de todas as patentes, de servos e de eunucos; oficinas imensas onde todo um mundo de operários se ocupa no fabrico sem interrupção dos objetos necessários aos sete ou oito mil habitantes dessa cidade privilegiada. Nenhum príncipe se encontra rodeado de maior prestígio, pompa e magnificência...

 

   Mas o arguto marquês francês acrescenta: No meio de todos os atributos do poder soberano, o temido monarca não pode dar um passo como entender. O seu vestuário, os seus atos, as suas posturas e as palavras que pronuncia são regulados por minucioso cerimonial. A ordem das suas refeições, a natureza e a quantidade dos alimentos que lhe são servidos em cada estação, em cada circunstância, são igualmente determinadas... Numa palavra: a sua vida é o cumprimento de um rito.

 

   Assim também, ainda nos nossos dias, se desenrola a vida do imperador e família do Japão, Império do Sol Nascente. Herança vinda, da dinastia sínica dos Tang, para a corte nipónica de Nara. Na tradição sino-nipónica, a personagem cuja designação traduzimos, nas línguas ocidentais, por imperador, tem um carácter hermético, que encerra a presença do divino numa terra eleita, podíamos até chamar-lhe mistério, um sacramento da união do Céu com a Terra, pois estabelece essa ligação. Não é exatamente o mesmo que o imperator romano, este apenas um deus entre deuses vários, assim por política obrigatoriedade de veneração dum soberano, mais fácil de impor a um universo de povos, culturas e religiões diversas quando tal poder é sacralizado. Sabes, Princesa, o que a recusa do reconhecimento da divindade imperial custou aos judeus e aos cristãos primitivos. Para estes, a perseguição político-religiosa durou até à conversão de Constantino, em 322. Mais tarde, Roma irá servir-se da religião cristã - já também religião do próprio imperador - como cimento do império, tornando-a religião oficial. E assim se iniciarão séculos de conflitos entre o poder temporal e o espiritual, e períodos de confusão entre ambos. Quando o nosso Afonso Henriques busca e consegue o reconhecimento papal dele como rei, por exemplo, não é só uma bênção religiosa que procura, é a afirmação do poder papal como o único entre o rei e Deus. Para melhor entendermos tal diligência e o seu objetivo final, transcrevo-te um trecho do prólogo da obra El Rey, Historia de la Monarquia, por vários autores (Editorial Planeta, Barcelona, 2008), escrito por Rafael Escudero (das Reales Academias de la Historia y de la Jurisprudencia e Legislación):

 

   Hay, sin embargo, una forma egrégia y superior de ser rey, la de ser rey de reyes o emperador, de lo que en nuestra historia constatamos un intento frustrado (el de Alfonso X, que trató en vano de conseguir el imperio alemán) y dos bellas realidades en la Edad Media y en la Moderna. En aquella, com la Península articulada en diversos reinos, el caso del Imperio castellanoleonés, com un rey, Alfonso VI, que aparece como «emperador de toda España» o «emperador de las dos religiones», o de Alfonso VII, coronado emperador en la catedral leonesa de Santa María en 1135. En la Edad Moderna, en fin, el emperador por antonomásia, Carlos, que se hizo com la Corona imperial en 1519 y de quien diria ante las Cortes el doctor Pedro Ruiz de Mota que «él sólo en la tierra es rey de reyes». [Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico e, em Espanha, Carlos I]

 

   O imperador Afonso VI tivera duas filhas: uma bastarda, Teresa, casada com Henrique, da linhagem dos Duques de Borgonha, mãe de Dom Afonso Henriques, o qual de seus pais herdaria o título de Conde de Portugal; outra, legítima, Urraca, casada com Raimundo, da casa dos Condes de Amous, o qual foi feito, em virtude do seu casamento, Conde da Galiza, sendo o filho de ambos reconhecido como sucessor do Imperador castelhano-leonês com o nome de Afonso VII. De acordo com o costume feudal que confundia soberania e propriedade, Afonso VII, primo direito de Dom Afonso Henriques, ao morrer, em 1155, deixou o império dividido pelos seus dois filhos: Sancho herdou o reino de Castela, Fernando o de Leão. Mas nessa altura, já Portugal tinha rei seu, pois o uso desse título régio já constava do tratado de Zamora, celebrado entre os primos Afonso (VII e Henriques), o que parece traduzir o reconhecimento da sua legitimidade pela autoridade do imperador. Todavia, outros cronistas, como Rodrigo Ximenez de Rada no De Rebus Hispaniae, não referem essa eventualidade, pretendendo que Afonso Henriques era o primeiro que em Portugal tomou por si mesmo (sibi imposuit) o nome de rei, pois seu pai usava o título de conde, e ele, inicialmente, o de dux. Pediu ao papa Eugénio III, de que se constituiu vassalo (censuale), muitos privilégios... Sobre esta questão, como sobre o nosso primeiro rei, recomendo-te a leitura da biografia de D. Afonso Henriques do José Mattoso (Lisboa, Círculo de Leitores, 2008). Mas deixa-me reter aqui duas observações: a primeira aponta para o facto aparente de que o primeiro Rei de Portugal - que, aliás, mesmo filho de bastarda do imperador Afonso VI, pertencia, pela linhagem paterna a uma nobreza franca superior à de seu tio Raimundo, pois seu avô Henrique, Duque da Borgonha era neto de Roberto II, rei de França -, Afonso Henriques ter desde logo procurado o reconhecimento direto do papa, prestando vassalagem a Eugénio III; a segunda verifica que, apesar de tal reconhecimento papal apenas se ter oficializado em Maio de 1179, pela bula Manifestis probatum , de Alexandre III, o Rei de Portugal nunca se considerou vassalo do primo, mas antes seu igual, porque ambos descendentes diretos, ainda que por via uterina do imperador Afonso VI.

 

   Reconhecimentos papais fazem-me reevocar Napoleão. E, para te deixar entretida com esta carta, trago-te um trecho longo do Alain Minc (Une Histoire de France, Paris, Grasset, 2008, pag. 235): Le sénatus-consulte du 18 mai 1804 lui conférant le titre bizarre d´«Empereur héréditaire des Français» est ratifié lors d´un plebiscite, par une majorité encore plus écrasante que la Constitution de l´an VIII. E passo a traduzir:

 

   Napoleão não se contenta com isso. Quer os fastos e pompas de uma sagração e sobretudo a presença do papa. Incrível ressurreição da tradição monárquica. A França galicana, a França da Constituição civil do clero, negoceia a vinda a Paris do soberano pontífice para presidir à cerimónia! Nessa altura, Napoleão nada em surrealismo político. Cospe na cara das monarquias europeias com a execução do duque de Enghien e, depois, quer imitá-las, talvez macaqueá-las. A mímica da sagração de Reims é para pôr um ponto final à Revolução.Tenta vincular a sua dinastia ao precedente dos Carolíngios - donde o título de Imperador - e trata os mil anos de reinado capetiano como um parêntese. Deseja a bênção do papa mas, no momento da cerimónia, tira-lhe a coroa das mãos...   ... Estranha monarquia que cortou o cordão umbilical com Deus, mas que mantém a filiação com as conquistas da Revolução! O Consulado  correspondera à fase racional do bonapartismo; o Império será o seu período barroco.

 

    E isto me leva a Vladimir Putin, abrindo a porta para a minha-tua próxima carta, que começará por desenvolver a notícia que seguidamente te traduzo de Le Monde Diplomatique, deste mês de março, transmitida num artigo de Anaïs Llobet: Debaixo de muito sol, em maio de 2017, o patriarca Cirilo de Moscovo e de toda a Rússia, inaugura a igreja do mosteiro de Stretenski, no coração da capital. A seu lado, o presidente Vladimir Putin, de semblante solene e impassível, acompanha integralmente o ritual. Depois, entrega ao patriarca um ícone antigo de quatro séculos representando João Baptista, o profeta que anunciou a vinda de Jesus, imagem que até então estivera em lugar de destaque no seu gabinete no Kremlin. Ficará doravante exposta no altar do novo local de culto.

 

   Isto tem que se lhe diga, tal como as conversações em curso entre o Vaticano e a China oficial, ou a expansão económica, cultural, política e militar do Império do Meio nos dias que vão correndo, em manifesto contraste com o recuo e total proibição, ainda durante a dinastia Ming, da exploração, por via marítima, do mundo exterior de então. Como português, terei também de recordar o falhanço da embaixada de Tomé Pires, no século XV, num tempo em que, fora da China, os servidores do Filho do Céu só procuravam quem lhe prestasse vassalagem, e o Rei de Portugal lhe enviava uma carta a reclamar-lhe o mesmo...  

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta a António, Simone Weil, a filósofa judia e cristã, por seu pesar e sua graça, escreveu: Os filósofos gregos que se chamavam estoicos diziam que se deve ter amor ao destino; que se deve amar tudo o que o destino traz, mesmo quando traz a infelicidade. Neste sentido, o nosso frei Gaspar da Cruz foi um estoico. O autor do Tratado das Cousas da China, impresso em Évora em 1569-70, primeiro livro europeu sobre o Celeste Império, é sucintamente biografado por Charles Boxer, no South China in the Sixteenth Century, editado em Londres, em 1953, pela Hakluyt Society. Conta-nos o famoso Camões Professor of Portuguese, University of London, King´s College, que aquele dominicano português – traduzo - Gaspar da Cruz nasceu em Évora, mas nem o nome de seus pais, nem a data do nascimento são registadas pelos seus biógrafos. Foi admitido na Ordem de São Domingos no convento de Azeitão, mas o ano em que se fez Frade Pregador é igualmente desconhecido. A primeira data registada da sua vida é o ano de 1548, quando singrou para Goa, como um dos dominicanos de um grupo liderado pelo seu vigário geral, frei Diogo Bermudes. Outros poucos frades dominicanos tinham ido para a Índia antes disso, mas como capelães em serviço entre portugueses: a chegada de frei Diogo Bermudes e seus companheiros marca o início oficial das missões da Ordem na Ásia.

 

   Boxer conta então os trabalhos de frei Gaspar nas missões da Índia e de Malaca, até à sua tentativa de fundação de uma missão no Camboja, em 1555-56, que fracassou por manobras de monges budistas locais e desinteresse do rei. Por isso mesmo o fado empurrará o bom frade até à China (Cantão), onde pouco êxito terá também, apesar de aturado e rigoroso esforço de entendimento da cultura e gentes da terra. Salienta o professor do King´s College que frei Gaspar da Cruz, apesar de poucos meses ter passado na China, conseguiu recolher e tratar informação suficiente para redigir o seu Tratado das Cousas da China, obra inédita e logo famosa e útil na Europa do seu tempo... Mais tarde, descobrimo-lo em Ormuz, onde chegou a exercer funções de tradutor e intérprete, como testemunha a sua Relação da Crónica dos Reis d´Ormuz e da Fundação da Cidade d´Ormuz, tirada duma Crónica que compôs um Rei do mesmo Reino, chamado Pachaturunxa [Padinsha Turan Sha (1347-1378)]Trata-se, pois, de uma tradução do arábico, feita antes do retorno a Portugal, em 1569. No total, portanto, frei Gaspar fez vinte anos de Oriente.

 

   Na sua utilíssima Introdução, modernização do texto e notas à edição do Tratado, que preparou para a BI, o Dr. Rui Manuel Loureiro assinala a colaboração, prestada, em Lisboa, por frei Gaspar da Cruz na luta contra a violenta peste que em 1569 assolava a capital. Uma vez debelada a enfermidade nesta cidade, o nosso dominicano passou a Setúbal, onde o "pestífero mal" recrudescera; porém, contraindo ele próprio a doença, veio aí a falecer em "5 de fevereiro de 1570". Frei Luís de Sousa fala dessa epidemia na sua História de São Domingos, frei João dos Santos, na sua Ethiopia Oriental e várias histórias de cousas notáveis do Oriente, conta assim o episódio de que te falo: ... Este padre, tornando da Índia para Portugal, se ofereceu no tempo da peste grande de Lisboa, que foi no ano de 1569, para confessar e curar os enfermos que havia na grande cidade, juntamente com o padre frei Isidoro Altamirano e o padre frei Belchior de Monsanto, da mesma Ordem, e cada um deles trazia por seu companheiro um irmão leigo, que os ajudava a visitar os enfermos, com doces consolações e remédios, assim espirituais como corporais, divididos pelos bairros de Lisboa, que cada um tinha à sua conta, e neste ministério andaram enquanto a peste durou, exercitando esta obra de caridade: e acabada a peste, de Lisboa se foi o padre frei Gaspar a Setúbal para o mesmo efeito, onde esteve até se acabar a peste, e no fim dela adoeceu do mesmo mal, e morreu, como ele mesmo tinha certificado em sua vida, dizendo que também ele se feriria e morreria da mesma peste, e que depois da sua morte nenhuma pessoa mais adoeceria deste mal, como aconteceu: de modo que ele foi o derradeiro que adoeceu, e morreu do mal da peste em Setúbal, e dali o levaram a enterrar ao Convento de São Domingos de Azeitão, donde era filho. E nesta obra e serviço de Deus tão heroico acabou seus dias e trabalhos... Este texto também vem transcrito no livro Het China van Gaspar, da escritora e sinóloga flamenga Magda van den Akker, da Universidade de Lovaina (Leuven) que, numa escala em Bruxelas, em 1990, para visitar a minha filha Teresa (ia eu de Tokyo para Lisboa), comprei para ler no avião. Já tem hoje, Princesa de mim, versão em português, publicada pela Caminho. A autora, agnóstica e admiradora do Zeca Afonso, compôs a sua narrativa romanceada a duas vozes: uma, a de Fernão Mendes Pinto, a cuja Peregrinação vai buscar inspiração e indícios de factos que lhe permitam situar encontros do aventureiro com frei Gaspar; outra, a relatos mais ou menos imaginários da peregrinação que foi a vida do frade. Tudo isto intervalado de transcrições de documentos históricos, o conjunto justificando a atribuição, em 1990, o Prémio da Flandres para a melhor primeira obra.

 

   Alegrou-me encontrar uma desconhecida flamenga que saboreou, com gosto tão animado quanto o meu, a leitura deliciosa da Peregrinação e do Tratado das Cousas da China. Este último é devedor de informação ao relatório de Galeote Pereira, dos Pereira de Gege, senhores de Castro d´Aire, terceiro filho de Henrique Pereira, alcaide de Arraiolos. Curiosamente, uma vez mais, o primeiro texto que achei do relatório de Galeote Pereira foi uma versão em língua inglesa: Certain reports on China, learned through the Portugals there imprisoned, and chiefly by the relation of Galeote Pereira, a gentleman of  good credit, that lay prisoner in that country many years. Done out of Italian into English by Richard Willis. Pelos vistos, o relatório de Galeote Pereira circulava já no seu tempo, até em traduções como esta, em língua inglesa, a partir do italiano (não sei precisar de que parte de Itália, península onde eram várias as expressões itálicas). O texto original conserva-se no Arquivo Jesuíta de Roma, em manuscrito, provavelmente, de um aluno da Companhia de Jesus em escola de Goa, no século XVI: Jesus Maria. Algumas cousas sabidas da China por purtugueses que estiverão lá catiuos e tudo na verdade que se tirou de um tratado que fez Galiote Pereira homem fidalgo que lá esteve catiuo alguns anos e vio tudo isto passar na verdade o qual he de muito crédito. Ao tempo da redação do Tratado de frei Gaspar, além de Galeote Pereira, também cronistas como Fernão Lopes de Castanheda, Leitão de Barros e Damião de Goes haviam já escrito sobre a China. Mas, como bem observa Charles Boxer, nem esses, nem os relatórios anuais das missões jesuítas, constituíam livros sobre a China, pois eram apenas trechos de obras que incidentalmente falavam da China. Nove décimos do Tratado de Cruz se reportam diretamente à China, e é claro, logo no prefácio, que ele queria que o livro fosse inteiramente consagrado àquele país...   ... A este humilde frade dominicano, portanto, deve ser atribuída a honra (se for esta a palavra certa) de ter escrito o primeiro livro sobre a China publicado na Europa. Mais humilde ainda, pobre frade, no seu tempo, se considerarmos a hipótese - que alguns autores já consideraram verosímil -  de frei Gaspar da Cruz ter sido acolhido e criado um orfanato eborense, sem nome de família, fruto talvez de uma bastardia, ou de origem judia ou moura, como tantas outras crianças naquela época. Boxer não se pronuncia, concentra-se no elogio da obra: o Tratado de Gaspar da Cruz tem outra reivindicação do interesse do leitor. O grande editor de Marco Polo com razão observou que "em nada é o seu livro [de Marco Polo] tão deficiente como no tocante às maneiras e peculiaridades chinesas. A Grande Muralha nunca é mencionada...   ... O uso do chá nunca é mencionado...   ... a compressão dos pés das mulheres... a impressão de livros, além do registo de artes e costumes notáveis, que deveriam ter-lhe ficado na memória, nunca são evocados. Nem nunca fala das grandes características da escrita chinesa...

 

   O conhecimento do texto de Gaspar da Cruz mostrará que tais críticas não podem ser feitas ao seu Tratado. Todas as omissões de Marco Polo são ali preenchidas, e o nosso frade tem muitas observações que antecipam as dos vindouros escritores jesuítas que são normalmente creditados com a primeira revelação da China à Europa...

 

   O missionário dominicano, logo no prólogo do seu Tratado, enumera as muitas missões e obras de jesuítas, franciscanos e dominicanos no sul e sudeste asiático e em todo o Extremo Oriente, com igual estima por todos esses esforços e empresas de propagação da sua fé. É certamente um homem consciente da causa que a tão distantes paragens o levou, e o seu alegre entusiasmo pelas cristandades que encontra e quer continuar a expandir anima o seu esforço e alimenta a sua consciência - de católico quinhentista - da superioridade universal da sua fé. Mas tal não o impede de reconhecer virtudes alheias e, como Duarte Pacheco Pereira, e tantos outros, chega àquela sabedoria em que a experiência é madre de todas as cousas. Não resisto, Princesa de mim, a transcrever-te um dos trechos finais do prólogo que te referi:

 

   E porque entre estas gentes de que fiz menção, os chinas a todos excedem em multidão de gente, em excelência de polícia e de governo, e em abundância de possessões e riquezas - nem em coisas preciosas como é ouro e pedras preciosas, senão nas riquezas, disposições e fazendas que principalmente servem a necessidade humana -, e porque estas gentes têm cousas muito dignas de memória, me movi a dar notícia geral de suas cousas conforme a minha possibilidade, assim do que vi como do que li num compêndio que fez um homem fidalgo [Galeote Pereira] que cativo andou pela terra dentro, como do que ouvi a pessoas dignas de fé.

 

Camilo Maria     


Camilo Martins de Oliveira