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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

46. UMA CONCEÇÃO HUMANISTA E INTERNACIONAL DE CIÊNCIA

 

Se a ciência do Renascimento tinha como caraterísticas dominantes a observação, a experiência e o método experimental, também a do século XIX e XX se baseia na convicção de que o ser humano está sujeito às mesmas leis físicas que regem o universo  e de que o método experimental é aplicável aos vários ramos da ciência e do pensamento humano.   

 

A ciência era e é tida como obra da humanidade, com benefícios extensivos a todos, sem nacionalismos nem disputas pessoais. 

 

Testemunho presente desta conceção humanista e internacional da ciência, é o testamento do sueco Alfredo Nobel que, em 1896, deixou a sua fortuna a uma instituição incumbida de distribuir todos os anos cinco prémios às cinco pessoas que no decurso do ano prestassem maiores serviços à humanidade.

 

Pessoas a premiar: “a quem no domínio da física tenha feito a descoberta ou invento mais importante”, “a quem na química tenha feito a descoberta mais importante ou chegado a maior aperfeiçoamento”, “ao autor da mais importante descoberta no domínio da fisiologia ou da medicina”, “ao que tenha produzido a obra literária mais notável no sentido do idealismo” e ao “que tenha feito mais ou melhor para a obra da fraternidade dos povos, para a supressão dos armamentos, assim como para a formação ou propagação dos congressos da paz”.     

 

Químico inventor da dinamite, Nobel morreu magoado com o uso dos seus inventos para fins belicistas, ordenando que, após a sua morte, fosse feita a entrega de cinco prémios em física, química, medicina, literatura e para quem contribuísse de modo decisivo para a paz mundial (o prémio na área da economia foi criado, em 1969, em sua memória).

 

É o exemplo de mais um cientista para quem o seu trabalho não foi só felicidade pelo facto de a ciência ser progressiva, poderosa e inquestionável para si e os leigos em geral, acabando por colocar no mesmo patamar, e em pé de igualdade, ciências exatas, humanas e sociais.   

 

Alfredo Nobel apercebeu-se, por experiência própria, que enquanto a ciência evoluía, dominando a natureza e vencendo obstáculos, a inteligência humana procurava novas técnicas para se destruir, com o aparecimento de novas armas de destruição e um agudizar da guerra e conflitos bélicos.     

 

Curioso, nesta sequência, que premiasse a medicina, a literatura e a paz como contributos que podem humanizar o poder destruidor da ciência e da tecnologia, não desvalorizando ou vaticinando a hecatombe das humanidades, ao invés de quem elogia e diviniza as ciências exatas.   

 

É uma conceção de um cientista para quem o pesadelo de George Orwell, de uma ditadura tecnológica, com um controlo total da vida das pessoas, num mundo de cidadãos convertidos em autómatos, é de evitar através do não desaparecimento da cultura como questionamento permanente da realidade, agudizado se houver uma degradação das humanidades e do seu espírito crítico.       

 

Reduzir a ciência apenas a uma sua parte, desprezando ou ignorando o estudo das múltiplas ciências que estudam toda a complexidade humana, é não só uma forma de incultura, mas também um modo de fugirmos da realidade e vivermos num mundo virtual.  

 

10.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

45. CIÊNCIA, HUMANIDADES E HUMANISMO (II)

 

Não consta que o Renascimento tenha sido uma época de infelicidade e não reconhecimento do trabalho dos seus autores, como movimento literário, artístico e científico que foi, mesmo aquando da leitura, redescoberta e compreensão dos nomes mais representativos da antiguidade grega e latina, como Sócrates, Platão, Homero, Cícero, Virgílio, Ovídio, Suetónio, Tito Lívio, revivendo-os e fazendo-os renascer, apesar de serem passado.

 

O humanismo é tido como o pai do Renascimento significando, etimologicamente, culto, civilizado, onde a pessoa é o centro e objeto fulcral tendo, como nomes permanentes, Erasmo, Dante, Petrarca e Bocácio na literatura, na pintura e arquitetura Rafael, na escultura, pintura, poesia, urbanismo e arquitetura Miguel Ângelo, na sociologia e política Maquiavel e Tomás Moro.

 

Teve também cientistas, entre os quais Leonardo da Vinci e Copérnico. 

 

Leonardo foi astrónomo, engenheiro, matemático, geólogo, médico, investigador, desenhador, pintor, poeta, escultor, um humanista, um homem de ciência e das humanidades, mais que qualquer outro do seu tempo, até ao atual.

 

Copérnico foi um genial cientista do movimento científico humanista e renascentista, afirmando que a Terra girava, com outros planetas, à volta do Sol, o que foi completado e verificado, mais tarde, por Kepler e Galileu. 

 

Este movimento científico frutificou em grandes descobertas como as de Vesálio (pai da anatomia), Servet (leis da circulação do sangue) e Pedro Nunes (cientista e humanista português, inventor do nónio).   

 

Este humanismo prova que para ser integral e íntegro, nada melhor que a interligação entre as humanidades e a ciência, embora realidades autónomas, mas não independentes, face a face numa relação de colaboração e interdependência recíproca. 

 

À data, tão reconhecidos eram os homens das humanidades, como da ciência, tão infelizes, perseguidos e condenados podiam ser os primeiros (Damião de Góis, entre nós), como os segundos (Galileu), como Einstein também é censurado e responsabilizado pelo seu saber ao serviço da bomba atómica, de que o próprio se culpabilizaria e não mais se libertaria, apesar de hoje as humanidades serem tidas de menor valia e mais penalizadas que a ciência. 

 

A que acresce a menorização que é dada às humanidades, no fim da vida, por Steiner, entre outros, quiçá num desabafo de pontual pessimismo, por antagonismo com a maioria do seu legado, abalando admiradores, e com o qual não concordamos.   

 

Embora seja imperioso ter consciência que na ciência e tecnologia pode sempre haver o lado negro das trevas, que desumaniza, e o lado bom, que humaniza. 

 

A energia nuclear pode ser benéfica ou maléfica consoante o uso que tiver para alcançar o fim pretendido.   

 

É, por exemplo, um benefício para a humanidade na cintigrafia óssea, avaliação da função renal com o renograma, no avaliar da função alveolar com a cintigrafia pulmonar, no avaliar da função do miocárdio com a cintigrafia cardíaca e em muitas outras aplicações na medicina, particularmente na doença oncológica, mas também pode ser destrutiva, mediante o uso da bomba atómica. 

 

De igual modo o saber ler, escrever e falar línguas é imprescindível para qualquer pessoa, incluindo as da ciência e da tecnologia, bem como uma notável obra literária, musical ou das artes em geral que beneficie a idealização e perpetuação da nossa espécie, mas não é um ideal a seguir, se destrutiva e sem sentido crítico, havendo também o lado solar e sombrio das humanidades.   

 

O que se impõe é uma ética humanista que imponha limites, colocando o ser humano, na sua dignidade, acima de qualquer utopia científica e tecnológica por mais importante, progressiva e poderosa que seja, em comunhão e conjugação de esforços e reciprocidade com as humanidades e o humanismo.

 

03.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

44. CIÊNCIA, HUMANIDADES E HUMANISMO (I)

 

Há quem defenda que entre os intelectuais atuais os mais felizes são os cientistas, porque a ciência é poderosa e progressiva, não sendo posta em dúvida. 

 

O seu trabalho dá-lhes felicidade porque é reconhecido, não só pelos próprios, mas também pelo público em geral, mesmo quando não compreendido.

 

Contrapõe-se que o mesmo não sucede com os artistas e os homens das humanidades, sendo menos afortunados que os da ciência. 

 

Quando alguém, por exemplo, não compreende um quadro, um filme, um poema, um livro, conclui ser uma má pintura, má poesia, um mau cinema, uma má obra.

 

Mas quando alguém não compreende a teoria da relatividade conclui, com fundamento, que o seu conhecimento e cultura são insuficientes. 

 

Einstein, nesta perspetiva, será admirado e reconhecido por todos, enquanto muitos dos mais proclamados pintores, poetas, cineastas e escritores serão infelizes, esquecidos, desprezados, perseguidos, morrem à fome ou na miséria. 

 

A ser assim, pode pensar-se que apenas a ciência, e a tecnologia a ela associada, interessam à civilização e mundo atual.   

 

É curioso que George Steiner, um dos gurus mais aclamados das humanidades,  tenha elogiado e sacralizado o progresso científico e tecnológico, em fim de vida,  desqualificando as humanidades, ao afirmar:

 

“As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas ciência sociais” fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada”.   

     

E acrescenta:  

 

“O progresso e a descoberta estão no interior da dinâmica da ciência. Tive algum treino científico e tentei compreender ao menos uma ínfima parte do que os cientistas fazem. É um mundo novo, intocado. Nas humanidades, mais de 90% daquilo com que lidamos está no passado. Os livros, a música, a reflexão, a arte. É como os ponteiros do relógio a caminharem em direções opostas. Estou tão feliz por presenciar isso” (entrevista ao semanário Expresso, edição 2327, de 03.06.2017).

 

Será assim?     

 

Houve tempos em que os intelectuais das humanidades eram tidos em alta estima, como na antiguidade grega, latina e Renascimento, ombreando com os cientistas, alguns  simultaneamente homens de ciência, artistas e humanistas, de que Leonardo de Vinci é  o magno exemplo, o que desmente, por si só, qualquer tentativa de divinização da ciência em desfavor da secundarização e mero bluff das humanidades, mesmo para quem entenda haver, de momento, um défice de pensamento crítico em todo o mundo.

 

27.03.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CORONAVÍRUS COVID-19: SAÚDE, CIÊNCIA, RELIGIÃO, UM RETIRO

 

Ao contrário do que normalmente se pensa, não controlamos totalmente a nossa vida. Uma pequena prova disso está neste texto: eu tinha prometido continuar a crónica da semana passada, mas solicitaram-me um texto urgente sobre o coronavírus covid-19, adiando o prometido para mais tarde. E é o que vou tentar, com alguns apontamentos.

 

1. Para nós, vivendo na normalidade, tudo nos parece claro e evidente. Só quando perdemos algo ou estamos na ameaça de perdê-lo é que damos pela sua importância, que pode ser decisiva, essencial.

 

É o que acontece com a saúde. Haverá bem maior, mais importante do que a saúde? Reparo que em todas as línguas que conheço, quando as pessoas se encontram ou, sobretudo, se reencontram, se cumprimentam perguntando pela saúde: “Como estás?, Como vais?, Como tens passado?” E, na despedida: “Passa bem, cuida de ti e dos teus. Passai bem”. E “saudamo-nos” (saudar: vem do latim: salutem dare, dar saúde, desejar saúde) e temos “saudades”, com o mesmo étimo, e escrevemos a alguém, terminando: “Saudades”.

 

Vale!”: esta era a saudação romana, com o sentido de “passa bem”, e, por outra via, reencontramos de novo a saúde. É de “vale” que vem “valor e valores”. E qual é o valor da saúde?  Valor essencial, porque com saúde vamos para a vida e com esforço faremos algo, conquistaremos a nossa vida e a nossa realização com outros. Porque a saúde não é só física, implica também uma dimensão psicológica (se não me der bem comigo, sinto-me mal, sem saúde), a relação com o outro, dar-se bem com o outro (se eu só de ver alguém com quem não posso fico doente, é prova   de que não estou com boa saúde), uma boa relação com a natureza, uma relação boa com a transcendência...

 

E quando caímos doentes? Procuramos a ajuda de um clínico (palavra que vem do grego: klinein, com o sentido de inclinar-se para e sobre alguém que precisa de ajuda) ou junto de um médico (quem diria que moderação, meditação e medicina têm a mesma etimologia: mederi — a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente —, que significa cuidar de, tratar, medicar, curar?) e vamos para uma clínica ou para um hospital, palavra que vem do latim: hospes, hospitis, com o significado de hóspede.

 

Agora que chegou esta calamidade global que estamos a viver, apercebemo-nos, de forma intensa e tenebrosa, do valor da saúde e, por outro lado, da nossa interdependência, positiva e negativa: somos iguais, podemos infectar-nos uns aos outros, temos de cuidar uns dos outros, apoiar-nos mutuamente de todos os modos, porque apenas colaborando todos, cada um à sua maneira e segundo as suas competências e possibilidades, venceremos esta guerra.

 

2. Quando era ainda muito jovem, esta estória bem conhecida impressionou-me em extremo. Mais ou menos assim: Havia um sábio modesto que ofereceu a um rei um tabuleiro de xadrez. O rei ficou tão exaltado que lhe pediu que dissesse como podia recompensá-lo. Perante a insistência do rei, o sábio apenas pediu que lhe desse 1 grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro e que fosse duplicando os grãos até concluir as 64 casas: 1 pela primeira, 2 pela segunda, 4 pela terceira, 8 pela quarta, 16 pela quinta e assim sucessivamente: 32, 64, 128, 256, 512, 1024... O rei achou o pedido modesto e os servos começaram a trazer sacos de trigo e, lentamente, os matemáticos do reino foram concluindo que o número era tão colossal que não havia trigo suficiente, mesmo socorrendo-se dos celeiros de reserva, para satisfazer o pedido.

 

Serve esta lenda para trazer um pouco de luz ao modo como o covid-19 estava e está a contaminar as populações do mundo inteiro. E era urgentíssimo tomar medidas drásticas para conter o pior. E foi o que fizeram e estão a fazer os governos, também o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o governo português, em colaboração de uns com os outros. É preciso ceder bens menores a favor do bem maior, a saúde e a vida. Sacrificamo-nos todos, com o sentido do bem comum. Sem alarmismos, mas com racionalidade e urgência.

 

E, entre nós, mesmo admitindo que houve e há medidas que chegaram e chegam tarde — e é sempre melhor, como diz a sabedoria ancestral, prevenir do que  remediar —, as coisas vão funcionando razoavelmente. As pessoas são prudentes, o pessoal sanitário trabalha incansavelmente e por vezes até com falta de meios — faço minhas as palavras do Papa Francisco aos médicos, enfermeiros, voluntários: “admiro-vos, ensinam-me como comprometer-me e agradeço-vos o testemunho; muitos não são crentes, outros são agnósticos ou levam uma vida de fé à sua maneira, mas no testemunho... vês a sua capacidade de ‘jogar’ a vida pelo outro, mesmo que entre eles haja mortos” —, o pessoal sanitário, sim, mas também todos quantos realizam o necessário para que a vida continue: há supermercados, há luz, há água, há farmácias, há transportes, há bombas de gasolina, há correio, há bancos, há teletrabalho, há bombeiros, há jornais, há notícias, há aulas online, há governo, há polícia... Ponho-me a pensar: é em circunstâncias como estas, quando há restrições, que a gente toma consciência do que é preciso e de quanta gente é necessária para que um país funcione, e os países, e o mundo humano todo... Normalmente, damos tudo por evidente.

 

Naturalmente, os cientistas investigam arduamente para encontrar uma vacina que estanque esta dor, esta tristeza e noite... Mas lá está a incerteza: Quando é que ela aparecerá? E quanto tempo vai durar esta calamidade até que possamos reencontrar-nos todos, vivos, numa  exaltação exultante, que ainda não tem nome? E a crise económica e social brutal a caminho?

 

3. Entretanto..., a vida, com todas as suas restrições e limitações, continua.

 

E a religião e a Igreja? Não se pode esquecer como Jesus se manifestou sempre preocupado, atento e cuidadoso com a saúde de todos e como curava. Assim, a favor da saúde e do bem comum, a Igreja, como não podia deixar de ser, suspendeu a celebração comunitária pública das Missas. Também no Vaticano, cujas praças estão desertas. E é em streaming que se vai celebrando e comunicando.

 

Que pode fazer mais? Vai depender também da imaginação criadora. O Papa Francisco já disse que, na falta de padres, os fiéis (a linguagem atraiçoa-nos sempre: cá está, como se os padres não fossem fiéis!...) se confessem “directamente” a Deus. E, numa entrevista ao La Stampa, procurou dar ânimo e esperança e, confiando que desta “guerra” da pandemia sairá uma sociedade melhor, pediu: “Não tenham medo!”. “Estamos todos a sofrer. Só poderemos sair desta situação juntos, como Humanidade inteira. Temos que pensar que será um pouco como depois de uma guerra. Já não estará ‘o outro’, mas, sim, estaremos ‘nós’”. A Penitenciária Apostólica decretou a “absolvição colectiva” para todos os doentes de coronavírus, os seus cuidadores e o pessoal sanitário. E eu pergunto: Se não fosse o carreirismo e o clericalismo em que os católicos foram formados, não poderiam as famílias, agora confinadas em casa, celebrar validamente a Eucaristia? “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei lá, no meio deles”, disse Jesus. E não é a família uma “Igreja doméstica”, como sempre se  afirmou, sobretudo no princípio do cristianismo?

 

É tarefa primeira da Igreja continuar a dar ânimo, esperança e confiança. Fé quer dizer isso: confiança. As paróquias deveriam pensar num atendimento telefónico, para escutar, consolar, dar ânimo... É preciso advertir que a solidão também mata. Agora, que até os funerais têm de ser reduzidos e rápidos, é missão pastoral dos seus agentes mais próximos a promessa e o compromisso de, quando tiverem passado estes tempos de incerteza e de trevas, se dar a possibilidade de um serviço fúnebre comunitário no qual as pessoas possam relembrar os seus mortos e despedir-se deles, desabafando, chorando juntos lágrimas de saudade uns com os outros, já sem a angústia tenebrosa do contágio...

 

Rezar? Claro. Francisco deu o exemplo, num gesto simbólico de fé e de solidariedade com todos: foi em peregrinação à igreja de São Marcelo em Roma, e é impressionante aquela imagem dele, sozinho, distanciado dos outros, numa rua praticamente deserta, para, diante do Crucifixo milagroso, pedir solidariamente por todos.

 

Milagres no sentido estrito, o que significa uma intervenção de Deus para suspender as leis da natureza, não há, porque isso implica ateísmo, já que supõe que Deus está fora do mundo e, de vez em quando, e a favor de uns e não de outros, vem dentro. Ora, Deus está sempre infinitamente presente à sua criação e a todos nós.  Por isso, só creio nos milagres do amor, o que significa que somos remetidos por Deus, como concriadores, para tudo fazermos, cuidando de nós, dos outros, da natureza e dEle em nós.  Mas podemos e devemos rezar a pedir a nós para termos essa força de cuidar. E também temos o direito de rezar, falando com Deus, desabafando, fazendo-lhe perguntas, protestando com Ele (a Bíblia diz que Deus louvou Job porque lhe fez perguntas e protestou com Ele porque estamos arrasados pela dor e, aparentemente, Ele não faz nada), confiando...

 

4. E no “retiro” forçado, no confinamento da casa? Finalmente temos tempo para o essencial. Andamos habitualmente tão longe de nós, à superfície, perdendo-nos numa “agitação paralisante e numa paralisia agitante”, para utilizar a expressão do célebre bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Encontramos agora tempo para estar connosco, para um novo reencontro de cada um, de cada uma consigo, indo ao mais fundo de nós e lá deparar com o Mistério, o Sagrado, e com o milagre de ser e de existir. Tempo para pensar nas perguntas essenciais. Não pertence também à sabedoria do viver aprender a conviver saudavelmente com a morte? O que é que verdadeiramente vale? O que é que esperamos? O quê ou quem nos espera?

 

Confinados e com carências, tomamos consciência de que, afinal, podemos viver com menos. O que é que mais falta nos faz? Não nos definimos pelo ter, mas pelo ser. Ah! E pensávamos ser omnipotentes e chegou um vírus invisível que nos apavora e nos pode matar, e percebemos então que precisamos da humildade como verdade. Ah! E somos iguais, pela negativa e pela positiva, como já ficou dito: podemos contagiar-nos uns aos outros — todos: presidentes, embaixadores, doutores, celebridades, gente anónima, analfabetos, ministros, bispos, ricos, pobres (estes, apesar de tudo, mais, porque têm menos possibilidades, por exemplo, como se resguardam os sem-abrigo?) estamos expostos — e também só todos juntos nos poderemos salvar, nestes tempos plúmbeos e de noite. E há uma só Humanidade, num mundo global: este coronavírus corre pelo mundo todo e percebemos que é imprescindível a solidariedade universal, se quisermos ter futuro. Agora e quando tiver passado este tempo angustiante de temores, incertezas e um imenso sofrimento físico e moral.

 

E damo-nos conta também de que, afinal, numa sociedade individualista e egoísta, que tanto exalta e celebra o Eu, agora que temos de viver afastados, confinados, sem abraços nem beijos nem manifestações de afecto, nem festas, sentimos a falta que os outros nos fazem.

 

Temos tempo para a família. Agora, evidentemente, sem esquecer os amigos, poderemos entender melhor a força e o apoio da família. Mas, com as  crianças em espaços limitados e num tempo que se alonga sem novidades outras, será necessário fazer apelo à inventividade criativa. É preciso superar o tédio do mesmo e aprender a paciência, lembrando aquela palavra de Jesus: “com a vossa paciência salvareis as vossas vidas”. Será também necessário pedir ajuda para que, com o stress, a violência doméstica se não agrave. Disse anteontem a Marta Reis, do jornal i, Constantino Sakellarides, especialista em saúde pública: “A primeira regra é não embirrarmos uns com os outros”.

 

5. Para terminar, não posso deixar de agradecer tantas provas de amizade e cuidado comigo, vindas de tantas partes e de tantos amigos e nomeadamente de antigos alunos. Desejo a todos, a todas, de coração, saúde. E salvação. A palavra latina salus está na base de saúde e também de salvação.

 

E lembro os versos famosos de Friedrich Hölderlin, cujo 250.º aniversário do nascimento se celebrou anteontem, Sexta-Feira, 20 de Março: “Wo Gefahr ist, Da/ wächst das Rettende auch”: Onde está o perigo, aí cresce e aumenta também o que salva.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 MAR 2020

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

O FUTURO DA CIÊNCIA E A CIÊNCIA DO FUTURO.jpg

 

 

32. O FUTURO DA CIÊNCIA E A CIÊNCIA DO FUTURO

 

Há que acompanhar com interesse a ciência e a sua evolução, sem acreditar que resolva todos os problemas da humanidade.

 

A ciência não é salvação, nem salvadora.

 

Os seus avanços em termos tecnológicos não substituíram a religião e o pensamento metafísico, nem aumentaram os tempos do ócio, dos tempos livres e do prazer.

 

Havia a narrativa que com a revolução científica e tecnológica teríamos mais tempo livre, menos trabalho, o que não é verdade, como já se se deduzia da leitura de obras como 1984, de George Orwell e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

 

Apesar de assistirmos ao domínio da ciência, da técnica, das máquinas e à substituição de pessoas, usurpação ou extinção de empregos.

 

Embora sejam úteis enquanto auxiliares humanos e funcionais em termos utilitários.

 

E perigosas se capazes de destruir seres humanos.

 

Que prova temos que a ciência descobre tudo aquilo que desconhecemos?

 

A ciência descobrirá a origem do universo?

 

A fé cega na ciência não será uma ilusão?

 

Uma utopia? Uma quimera?

 

Uma distopia?

 

O futuro está na base da ciência e a ilusão do futuro na ciência?

 

O que sabemos é que a ciência aumenta a nossa longevidade e qualidade de vida, mas não chega, não é a nossa felicidade ou salvação, mas ajuda muito.

 

 

11.06.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

16. STEINER, A CIÊNCIA E AS HUMANIDADES

 

 

“Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam”.

 

“As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas “ciências sociais” fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada”.

 

“E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio”.

 

“Quando ouço os cientistas, sinto alegria. Estão a passar um bom bocado” (excertos da entrevista de Steiner ao semanário Expresso, de 03.06.17).

 

Ao elogiar a ciência e vaticinar a queda e ambiguidade das humanidades, George Steiner (GS) tem uma visão idealizada e exaltante da ciência, contrária ao pessimismo que tem pelas humanidades.   

 

Sendo um pensador, crítico literário, escritor, filósofo e um dos expoentes máximos da grande cultura europeia, é um homem especialista das humanidades.

 

Porquê, então, este desencanto com as humanidades? 

 

Uma das razões é não terem evitado barbáries e crimes contra a humanidade como o holocausto, o antissemitismo estar de novo a aumentar por toda a parte, com os judeus em perigo iminente, num fenómeno sem fim à vista, não se tendo aprendido absolutamente nada com a História.

 

De origem judia, sente-se perplexo pela sua sobrevivência, “é um milagre ter sobrevivido”, o que significa ter ao longo da vida a obrigação ética de não esquecer os que não sobreviveram. 

 

Idealiza, em alternativa, como refúgio, compensação e redenção, uma ciência idealista e verdadeira, desconhecedora da falsidade, do fingimento, da simulação e manipulação linguística das mentiras do totalitarismo linguístico. 

 

Que ciência é esta? Ela existe? Existe uma ciência verdadeira que não conhece a hipocrisia, nem faz bluff?

 

É um dado adquirido que na ciência também há mentira, dissimulação, falsidade, erros e hipocrisia. 

 

E há a interpretação, propaganda e manipulação dos resultados, consoante é feita por A, B, X ou Y.       

 

Que dizer da bomba atómica e da inovação nuclear, a propósito de um lado negro, ou reino das trevas, das ciências, que desumanizam, e não humanizam? 

 

O génio e talento de alguém na ciência não o torna uma boa pessoa.

 

O génio e talento de alguém nas artes e humanidades em geral não o torna uma boa pessoa.     

 

O ser-se um guru da ciência ou das humanidades não faz, quem quer que seja, uma boa pessoa.   

 

Nem as humanidades, nem a arte, nem a ciência é a pessoa. Estão acima do autor. Libertam-se da pessoa, do criador.   

 

Steiner, depois de dizer, perplexo:   

 

“Há um momento muito importante nos diálogos de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3.º ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus”.   

 

Dá a resposta, questionando-se: “O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados”

 

Uma obra cultural ou científica vale por si, independentemente das opções políticas, científicas, filosóficas, religiosas ou sociais do seu autor. 

 

A ciência e as humanidades não são invenção recente, sempre existiram, no seu melhor e pior, em curiosidade e interligação autónoma e recíproca, havendo que saber distinguir entre a obra em si ou ao serviço de qualquer coisa, entre a obra “pura” e a pessoa ou a vontade do seu criador.

 

De maior desencanto seria viver num mundo em que não houvesse lugar para as questões colocadas pelas ciências sociais e humanidades em geral, e tão só, ou quase em exclusivo, para a descoberta e progresso científico que GS tem como ciência verdadeira, que também peca por défice, numa idealização excessiva e sacralizada, a nosso ver.        

 

18.09.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

Paul Valery

 

XX - CRISE E RUTURA DOS VALORES E CHOQUE DA GUERRA - II

 

Para uns, a origem da crise no século XX era terem ruído os valores tradicionais, essencialmente os religiosos. Para outros, a divinização da ciência e idolatria dos cientistas, o mito do progresso científico, substitutos das crenças tradicionais, entre elas a religiosa. Apesar de defenderem que o afastamento de Deus tinha ocorrido em pleno século XIX e, mesmo assim, a humanidade tivesse vivido um período de um expressivo e significativo otimismo.

 

A razão e a racionalidade fomentariam a dignidade humana e a liberdade individual, trariam a paz, a justiça social, a promoção e reconhecimento dos melhores. A guerra viria provar o contrário, dada a sua violência e totalitarismo, produzindo armas letais que punham em perigo a sobrevivência da humanidade e de melhores condições que possibilitassem uma vida interior mais humanizada. As tentativas de institucionalização da paz internacional, após a primeira guerra mundial, fracassaram, com a malograda Sociedade das Nações. Reflexões pessimistas emergem, revelando a guerra o que havia de não adquirido e de transitório na civilização do princípio do século XX.

 

O filósofo, escritor e poeta francês Paul Valéry, em 1919, escreveu: “Nós, civilizações, nós sabemos agora que somos mortais. (…) Agora vemos que o abismo da História é suficientemente grande para todos. Sentimos que uma civilização tem a mesma fragilidade que uma vida. (…) E não é tudo. A lição escaldante é ainda mais completa: não bastou à nossa geração aprender por experiência própria como as coisas mais belas e as mais antigas, as mais formidáveis e as mais bem ordenadas são perecíveis por acidente: viu na ordem do pensamento, do senso comum e do sentimento, produzirem-se fenómenos extraordinários, bruscas realizações de paradoxos, deceções brutais da evidência”.

 

Mas se é verdade que este choque belicista colocou em causa a cultura cosmopolita, o clima intelectual e artístico, a crença no progresso e a prosperidade da sociedade da Belle Époque (Bela Época), que se iniciou no fim do século XIX (década 1870) até ao implodir da primeira guerra mundial (1914), também é verdade que foi um acelerador de novos meios de comunicação, massificando-os e difundindo-os junto de um público mais vasto, através da rádio, do cinema e do disco, por exemplo.

 

Face à transitoriedade da vida, foi ainda um acelerador poderoso para a fúria de viver, o culto do fruir, gozar e usar a vida ao ritmo do dia a dia, para os que sobreviviam, dada a certeza de efemeridade da vida, aliada à maior incerteza do momento, agravada pela mortalidade da guerra. Literatura e cinema fizeram o seu culto.

 

O mesmo sucedendo a nível das convenções morais, incluindo o Reino Unido, profundamente afetado pelo choque da guerra, exemplificando-o o filme Mrs Henderson, de Stephen Frears, dado que: “O puritanismo, quando a vida se tornara tão ameaçada e os prazeres tão raros, sofrera rudes golpes. Os breves encontros do soldado de licença harmonizavam-se mal com o respeito pelo ritual vitoriano do noivado, as convenções do decoro já não eram admitidas nos “cabarés para soldados”, os nascimentos fora do casamento tornavam-se aceitáveis, senão admitidos. De um só golpe a guerra acabava de tornar ultrapassado o código social e moral do século XIX. Dali em diante, os puritanos tiveram de resignar-se a tolerar a existência de comportamentos “não convencionais” ou até “emocionais” (Pierre Léon, História Económica e Social, Vol. V, Sá da Costa, Lisboa, 1982). Com mudanças no mundo feminino, em termos de estatuto e responsabilidades.

 

Amargura, ansiedade, dúvida, incerteza e inquietude, sucederam ao otimismo. A fé positivista e inabalável na ciência e na razão, foi posta em causa pelo filósofo francês Henry Bergson, para o qual a intuição é o motor de todas as coisas, não a razão nem a ciência, originando o intuicionismo, sendo o impulso vital que explica a evolução do universo (vitalismo). O cientista, apercebendo-se de que nem tudo é explicável racionalmente e em termos deterministas, abre portas à intervenção de Deus na ciência. Albert Einstein apresenta a teoria da relatividade pondo em causa a natureza absoluta do espaço e do tempo de Newton, surgindo uma súbita relativização de tudo o que até então era tido como inatacavelmente científico. O físico alemão Heisenberg criou o princípio da incerteza, reforçando o indeterminismo.

 

O que trouxe novas preocupações aos homens de letras, tornando a literatura mais angustiada e crítica, com reflexos da guerra. Franz Kafka, autor da angústia e do absurdo, Aldous Huxley, usando a ironia, Máximo Gorki, autor soviético empenhado politicamente, Malraux, Hemingway e Scott Fitzgerald, são alguns exemplos.

 

29.08.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Reflexão à verdade

 

A ciência começa com a observação, ou começa quando se não verificam as expectativas que aguardávamos? Como todos sabem, existem variadíssimas opiniões sobre este assunto. Ainda assim se pode dizer que uma teoria que se depara com dificuldades, essa teoria frusta expectativas e levanta problemas para os quais tentamos soluções. Estas soluções, por muito certas que sejam darão azo a novos problemas, a críticas mais engenhosas que as colocarão em causa. Acreditamos que desta forma o nosso conhecimento aumenta à medida que as nossas expectativas são refutadas, à medida que enfrentamos problemas.

 

E que fazer ao que até nós entrou pelos sentidos? Que fazer à nossa tábua rasa preenchida por estes? E que fazer ao que nos chega através de hipóteses ou seja pelo conhecimento hipotético? E como não ter em conta que existe conhecimento inato à partida? Certo é que correções e modificações do conhecimento anterior conduzem ao aumento do conhecimento, tendo por base as expectativas e hipóteses. Todavia, para observarmos temos de ter uma questão concreta em mente que seja resolvida pela própria observação, e aqui, recordo Darwin e o pouco que sei do seu conhecimento imenso, mas lembro que ele escreveu “Como é estranho que alguém não veja que toda a observação deve ser a favor ou contra uma opinião qualquer…”. Assim será que a observação vem depois da expectativa ou da hipótese e os problemas da perceção deveremos remete-los à filosofia ou, mais precisamente à epistemologia?

 

Colocando aqui ainda a base que virá de um problema teórico ou prático, temos sempre de nos familiarizar com ele, fazê-lo suportar soluções inadequadas para as criticarmos, trabalharmos o problema, sabermos das suas ramificações e as suas relações com outros problemas, aprender determinando os erros cometidos.

 

Diga-se que tudo o que tentei dizer esteve ligado ao abordar da verdade, pensamento com o qual iniciei este texto. Ora, bem creio que a poesia não aborda a verdade, mas bem creio que chega mais próximo da verdade que outra qualquer forma de literatura, e esta realidade que afirmo não é desprovida de significado, se porventura não nos esquecermos de a tentar melhorar com o rigor e a exigência da palavra que exprime o sentir que mais corresponda a uma aproximação da verdade.

 

A poesia tem em si uma metodologia sólida que não deve colocar em causa o modelo da transmissão do sentir da realidade apreendida e sempre posta em análise, e só assim pela reflexão de algo anterior que nos surge, chega o aproximar do real conhecimento do poeta em busca do princípio sagrado do dizer.

 

Teresa Bracinha Vieira
 

(1) (v. More Letters of Charles Darwin, organizado por Francis Darwine A. C. Seward Appleton, Nova Iorque, 1903, volume I, p, 195)
(2) (Cf. G. Polya, How to Solve it, Princeton University Press, Princeton, NJ, 1948.

A VIDA DOS LIVROS

 


De 27 de junho a 3 de julho de 2016.

 

«Homens Livres» foi uma revista publicada em 1923, apenas com dois números, que uniu personalidades de horizontes políticos diferentes dispondo-se hoje de uma edição de 1978 da autoria de João Medina, com o título «O Pelicano e a Seara» (Edições António Ramos).

 

 

 

UMA EXPERIÊNCIA SINGULAR

Quando falamos de cultura portuguesa, invoca-se sobretudo o conteúdo literário e artístico, mas cada vez mais é necessário lembrar também a cultura científica, como fazia questão sempre de lembrar José Mariano Gago, que compreendeu melhor que ninguém essa importância. Urge não esquecer, afinal, Pedro Nunes, Garcia de Orta ou D. João de Castro – e tudo o que representam numa cultura aberta e relevante. O tema leva-nos a recordar dois textos de 1923 sobre o tema. Numa experiência fugaz, animada por António Sérgio e Afonso Lopes Vieira, a que se associaram diversos elementos dos grupos da «Seara Nova» e do Integralismo Lusitano, foram publicados dois números da revista «Homens Livres», que tinha como objetivo fundamental favorecer o diálogo intelectual de pessoas muito diferentes, que Sérgio considerava poderem criar um «modus vivendi» pluralista e civilizado – forma de prevenir as tentações totalitárias que se perfilavam no horizonte. «Homens Livres» tinha como subtítulo «Livres da Finança & dos Partidos» e referia uma epígrafe de Camões - «Livres e seguros»… Do que se tratava, na palavra do autor dos «Ensaios», era de «utilizar o que está morto para a vitalidade do que está vivo, - eis o papel da Inteligência; marcar ao que está vivo o ideal da sua vida, - eis o da Razão». A experiência parecia surpreendente e paradoxal, talvez prematura, mas o certo é que hoje se compreende como alguns intelectuais se apercebiam da necessidade de fazer funcionar uma sociedade política com a colaboração de influências diferentes, que pudessem evitar as soluções de força de carácter excecional, que viriam a ocorrer nos anos trinta e a culminar na Guerra. Se nos lembrarmos do percurso de António Sérgio, facilmente percebemos que em vários momentos da sua vida (até à candidatura de Humberto Delgado, em 1958) procurou que a racionalidade democrática se impusesse, como nos países mais avançados. À distância, sabemos que seria sempre difícil contrariar uma tendência dramática de fragmentação e de incapacidade para regenerar as instituições republicanas. No entanto, percebemos haver uma tentativa séria, mas impraticável, para mudar o curso dos acontecimentos.

 

«HOMENS LIVRES»

António Sérgio, António Sardinha, Raul Proença, Jaime Cortesão, Simões Raposo, Aquilino Ribeiro, Afonso Lopes Vieira, Augusto da Costa, Reynaldo dos Santos, Bettencourt Rodrigues, Celestino da Costa, Ezequiel de Campos, Quirino de Jesus e Castelo Branco Chaves são os autores dos textos publicados, dispondo-se hoje de uma edição de 1978 da autoria de João Medina, «O Pelicano e a Seara» (Edições António Ramos), com a totalidade do conteúdo das revistas. O facto de nos referirmos a essa experiência deve-se, porém, a dois curiosos textos que merecem a nossa atenção por tratarem da necessidade da cultura portuguesa dar mais atenção à investigação científica e ao reconhecimento do mérito dos estudiosos. Muitos anos passaram, o mundo mudou radicalmente, a cultura científica em Portugal conheceu uma evolução de grande relevância, mas o tema merece ser recordado, a partir dos contributos de Reynaldo dos Santos e de Celestino da Costa. Afinal, esses textos, aparentemente marginais, na iniciativa dos «Homens Livres» têm a ver com o essencial da atitude de António Sérgio, na sua preocupação de sempre no sentido de favorecer a «fixação» de inteligências e de recursos e de colocar Portugal ao ritmo da civilização – numa linha de fidelidade ao pensamento e ao magistério de Almeida Garrett e Alexandre Herculano, bem como à plêiade que acompanhou Antero de Quental nas Conferências do Casino. Lembremo-nos de que da fugaz passagem de Sérgio pelo Ministério da Instrução Pública (dois meses) resultou a criação do Instituto Português de Oncologia e o projeto da Junta Propulsora de Estudos, visando a criação de bolsas no estrangeiro para os nossos investigadores…

 

A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA

Reynaldo dos Santos, médico e historiador de Arte, intitula o seu pequeno texto «Portugal Hostil aos Portugueses de mérito» e refere, na tradição secular do Hospital de Todos-os-Santos, o «impulso inteligente e orientador de Manuel Constâncio, no reinado de D. Maria I», que permitiu a criação da única «Escola seguida que houve em Portugal com tradição, com prestígio e com discípulos». Trata-se, porém, de um caso excecional. Ao longo da História, o clínico queixava-se do facto de figuras fundamentais como Garcia de Orta, Rodrigo de Castro e Amato Lusitano terem tido pouca influência entre nós. Garcia de Orta viveu na Índia e contou com um estrangeiro, Charles de l’Ecluse, para divulgar o seu contributo científico. Amato foi obrigado a sair de Portugal, exercendo clinica em Antuérpia e sendo reconhecido em Ferrara, Ancona, Roma, Florença, Salamanca e Salónica – só sendo tardiamente conhecido em Portugal. Rodrigo de Castro, também judeu, estudou em Salamanca e Siguenza, criou a Ginecologia na Europa e ainda hoje é pouco lembrado. Ainda Zacuto Lusitano foi conhecido mais depressa na Holanda e no resto da Europa do que entre nós - «tendo lá escrito e lá se tendo celebrizado, longe da “dulcíssima pátria”, como ele chamava à que o não soubera guardar». Por fim, nas referências de Reynaldo, está Ribeiro Sanches, conselheiro da Catarina da Rússia, com um prestígio de que só tardiamente nos vangloriámos – formado em Coimbra, influente na reforma de Pombal, só muito tardiamente foi recordado entre nós, quando em toda a Europa era elogiado. «Nenhum deles é filho duma escola, duma educação ou duma tradição portuguesa; alguns seguem a da sua raça estudiosa e culta, que dera grandes cosmógrafos e médicos; mas todos se perdem no cosmopolitismo a que a pátria os forçou de vez, com a sua habitual ignorância dos valores, sem voltarem para criar entre nós essa influência fecundante que perpetuaria o seu génio através duma Escola ou duma geração». São essas ideias de escola, de continuidade, de abertura e de cooperação internacional que Reynaldo dos Santos enaltece. E Celestino da Costa, na mesma linha de preocupações, invoca o que Ramon y Cajal chama de «enquistamento espiritual da Península» e António Sérgio designa como «isolamento», referindo a expulsão dos judeus, que «privou a pátria de uma elite de grandes aptidões científicas» bem como as perseguições a «humanistas ilustres», acrescentando: «não nos faltam as aptidões científicas: faltam-nos as instituições que permitam o seu desenvolvimento, indispensáveis para que o culto da ciência não seja em Portugal, obra do acaso, sem continuidade nem influência (…). Toda a nossa economia, a agricultura, a indústria, a viação, a higiene pública, o comércio precisam de direção científica, de homens de ciência autênticos que criem e inventem, e não dos que, denominando-se assim, não passam de diplomados mais ou menos brilhantes, mas infecundos». Daí a necessidade de uma elite científica capaz de orientar a economia, o que pressupõe um ensino de qualidade e a capacidade de ver longe e largo.


Guilherme d'Oliveira Martins
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