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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EVOCAÇÃO DO TEATRO NA OBRA DE MANOEL DE OLIVEIRA

 

Em Serralves, foi recentemente inaugurada a Casa de Cinema Manoel de Oliveira. Merece referência esta sala de espetáculos, a partir da homenagem que a designação contem. Pela vida, excecionalmente longa, pela obra, excecionalmente qualificada e como tal reconhecida, e pela projeção internacional que com toda a justiça alcançou.


Evoca-se pois a obra e a atuação de Manoel de Oliveira na adaptação e realização cinematográfica de peças e demais expressões de teatro. E há que atender à cronologia, não só do realizador/encenador (absolutamente excecional: 1908-2015!...) como também do conjunto de peças que transpôs, seja permitida a expressão, para a potencialidade cénica e cinematográfica.


E isto porque em rigor, a dramaturgia filmada e adaptada por Manoel de Oliveira assenta numa capacidade de espetáculo que tanto se molda à cena como à projeção: sendo certo que Manoel de Oliveira é sobretudo um criador de cinema.


E se considerarmos a cronologia, não tanto dos filmes como das peças subjacentes, encontramos desde logo um texto clássico: o “Auto da Muito Dolorosa Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo” da autoria do Padre Francisco Vaz.  Datado de 1559, portanto há exatos 460 anos, mas, ainda há relativamente pouco tempo representado em Trás-os-Montes, foi filmado por Manoel de Oliveira em 1963 no filme que denominou “Ato de Primavera”.


E é interessante constatar que a expressão dramática em si mesma é como que transposta para a expressão e criação cinematográfica, não obstante, note-se ainda por cima, a difícil dramaticidade deste longo texto.


Mas há mais textos de teatro adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira.


Desde logo, José Régio. “Benilde ou a Virgem Mãe”, peça datada de 1947, e “Mário Ou Eu Próprio – O Outro”, esta datada de 1957, foram ambas filmadas por Oliveira: e quando escrevemos “filmadas” temos bem presente a recriação cinematográfica, digamos assim. E não é fácil transpor para a estética e sobretudo para a técnica cinematográfica um texto criado e vocacionado para a expressão teatral...


O que mostra a globalidade do sentido estético de Manoel de Oliveira no que se refere a espetáculo: com o circunstancialismo de que no cinema, a estética envolve e exige a técnica respetiva!


A sua excecionalmente longa vida permitiu portanto uma excecionalmente longa atividade: e merece referência especial a sucessiva adaptação de obras ligadas à criação literária. Já citamos Régio, mas também Camilo Castelo Branco, Agustina Bessa Luís, António Patrício, e sobretudo, o próprio Manoel de Oliveira, que tantas vezes se assume como escritor, ao criar textos que filmou...


Saúda-se pois esta iniciativa que consagra, num edifício do Arquiteto Álvaro Siza, a obra ímpar de um cineasta português, internacionalmente reconhecido e consagrado.


E voltaremos ao assunto.

 

DUARTE IVO CRUZ

POR TI, PAGARIA UMA FORTUNA

 

São gangsters. Estão na casa de banho do Cotton Club e fazem, com líquido vagar, o que de pé os homens fazem na casa de banho. Falam de respeito, do que é só medo canino e do que nasce da lealdade límpida.  

 

Owney tem, no filme de Coppola, a graça confortável dos gordos. Frenchy junta ao corpo gigantesco a fealdade de um trovão e uma imperturbável inexpressividade. São leais e não dizem, por horror ao pleonasmo, a amizade que os une.

 

No filme, o gang de um cão raivoso rapta Frenchy e pede resgate. Owney sofre como se lhe tivessem levado um filho e paga. Reencontram-se e estão agora na casa de banho. Frenchy, o corte de uma facada na orelha, mente com a ironia dos duros: “O cão raivoso tratou-me como realeza”. Aproxima-se de Owney, segura-lhe no belo relógio de bolso como quem faz contas ao tempo de cativeiro, deixa-o cair, diz que não funciona e o vai arranjar, mas esmaga-o com uma estatueta maciça. Grita-lhe com fúria ciclónica: “You, cheap son of a bitch, ouvi dizer que pagaste a miséria de 500 dólares para me libertares. Eu pagaria uma fortuna por ti.”

 

Owney salta, apopléctico: “Só queriam 35 mil e paguei 50 para que não te tocassem num cabelo. Teria pago 500 mil. Quase morri em cuidados… Olha o que fizeste à merda do relógio.”

 

Com voz de mel, Frenchy sussurra como se saboreasse cada dólar “cin-quen-ta mil…” e dá a Owney uma caixa com um laço. Owney desembrulha-a num furioso o que é isto. Abre e: “Um relógio de platina… minha grande besta.” O abraço deles é o abraço de uma das mais belas cenas de amizade do cinema americano.

 

Ser amigo é como ser irmão, mas sem a desculpa fácil do sangue. Descobrem-se amigos à primeira vista quando somos miúdos. Com o tempo é mais difícil fazê-los e cada vez mais doloroso perdê-los. Não consola saber que, de algumas pessoas, se tivéssemos a sorte de as encontrar, seríamos os melhores amigos.

 

Aconteceu em Los Angeles. Levaram Jerry Lewis à mesa de Chaplin. “É um prazer conhecê-lo, Mr. Chaplin” disse Jerry. “Para si, sou só Charlie”, respondeu o velho Charlot. “A mim, trate-me por Mr. Lewis” replicou Jerry, e foi a primeira gargalhada. Faltavam dez para a meia-noite. Levantaram-se às três da manhã. Amigos à primeira vista.

 

Nesses anos 60, Jerry actuou no Olympia. Estava a tout Paris. Godard, Truffaut, Juliette Greco na fila da frente. Também Geraldine, filha de Chaplin, que, depois, lhe disse maravilhas do espectáculo. E rematou: “O meu pai adorou.” Espanto de Jerry: “O seu pai não estava na sala.” Ela jurou que sim. E explicou: “O meu pai escondeu-se lá em cima, atrás do controlo de luzes. Achou que se aparecesse agora, em Paris, desviava as atenções do seu espectáculo. Veio em segredo, pela alegria de o ver no palco.”

 

Riram-se lágrimas nos olhos de Jerry derretido com o amigo incógnito, ou não fosse a elipse a única figura de estilo que a amizade consente.

 

Manuel S. Fonseca

HETERÓNIMOS NO CINEMA

 

Foi há poucos dias. Se bem sei, Fernando Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos tinham ido ver um filme ao cinema Ideal, aqui tão perto do Centro Nacional de Cultura, e não resistiram a tomar uma bica e outras amenidades de boca na Brasileira. Gravei-lhes a conversa e transcrevi, ipsis verbis, o que livremente quiseram dizer. Faltou Alberto Caeiro que, creio, nunca entrou numa sala de cinema.

 

“Ó Fernando, com tanta angústia patriótica a saltar-lhe da mão esquerda para a direita, você nem a bica consegue tomar.”

 

Foi o que o engenheiro disse, fazendo rir a mesa heteronímica a que se sentam. São três: Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mortos, descontraídos e invisíveis para os turistas de 2019 da Brasileira.

 

Pessoa lamentou-se: “Sabe, engenheiro, é a mágoa de um presente infeliz. Somos o pingo de tinta seca de quem escreveu Impérios na geografia do mundo.”

 

Reis, mal o deixou acabar: “Lá vem você com o Quinto Império. Basta-nos o mito ou, para que as actuais gerações compreendam, um milagre como no cinema. Ainda ontem voltei a ver, de mão dada com a Lídia, o “It’s a Wonderful Life” do Capra.”

 

“Nem Portugal é o Jimmy Stewart, nem a Senhora Merkel tem a bonomia do anjo Clarence,” riu-se o desbocado Campos.

 

Pessoa interrompeu-o: “Bem dito, engenheiro. Onde anda o português que, com a universalidade das Descobertas, salvou a Europa de ser só mediterrânica? Voltou o português à antiga – bom católico, toureiro, estúpido como uma porta de cofre-forte.”

 

Campos insiste: “Como não está cá o Mestre Caeiro para se zangar comigo e já que o Dr. Reis gosta de filmes, diria que nos falta um optimismo fordiano.”

 

Logo Pessoa: “O Álvaro confunde optimismo com o que em Ford é só pura crença e europeia. Porque Ford era artisticamente europeu e universal. O cinema dele era uma poesia ajudada: reflecte nos filmes o que a alma não tem.”

 

Reis interrompe-os: “Pois a Portugal até o direito a ser europeu escapa. Somos só serventuários da França e lacaios da Alemanha.”

 

O engenheiro abana a cabeça: “Quando fazemos uma revolução é para implantar uma coisa igual à que já estava. Veja o Passos Coelho, parecia tão liberal e indisciplinador? Mas acabou por cair na disciplina por uma fatalidade ancestral.”

 

Pessoa dá um salto na cadeira: “Álvaro, não está a sugerir que os portugueses se ponham a ver “O Couraçado de Potemkin” ou o “Ivan o Terrível?”

 

Álvaro ofende-se: “Todo o artista que dá à sua arte um fim extra-artístico é um infame. Encontre-me antes, no cinema, um criador de anarquias.”

 

Reis afasta o cálice de absinto: “Um Syberberg, um Herzog? Cuidado com o cinema alemão. Olhem a Merkel: uma asceta. Como é perigoso o asceta que se casa com o poder e se amanceba com a vontade de domínio.”

 

Pessoa concorda: “A Alemanha é na paz o que sempre foi na guerra: uma organização cruel. O sacro império romano é o que cada Alemanha ocultamente quer ser.”

 

Campos volta à carga:”Prefiro o cinema que seja uma mentira artística, o americano. Intruja? Mas um país sem grandes intrujões é um país perdido. Quem não intruja não come. A grande civilização é a superior organização da artificialidade, isto é, da intrujice.”

 

Levantam-se, exuberantes, e saem sem pagar a conta.

 

Manuel S. Fonseca

JEANNE MOREAU

 

Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.

 

Jeanne Moreau podia, mais do que a maioria das actrizes, ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, "Jules et Jim", com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domage, não conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de a homenagear.

 

Ménage à trois
A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.

 

Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.

 

Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.

 

Dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.

 

Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares.

 

A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?

 

Turbilhão de vida
“Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Interessa, sim. Já lá vamos.

 

No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.

 

Jim é Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.

 

Fora Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão.

 

“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.

 

Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.

 

Manuel S. Fonseca

OUVIR UM CORPO

 

 

A música é de Georges Delerue, o rabo é de Brigitte Bardot, o desmesurado olhar é o nosso embora finjamos que é o de Michel Piccoli, o filme é “Le Mépris” de Godard.

 

O cinema deu-nos intensas cenas físicas. De mil escolho uma: em “Sea of Love”, Ellen Barkin e Al Pacino apalpam o corpo um do outro com uma tactilidade desenfreada que envergonharia o mais zeloso polícia apalpador de aeroporto. “Le Mépris” não precisa de mãos.

 

No Ocidente, a história das artes é a disfarçada história da tensão e da tentação de mostrar a mulher nua. Mas a mulher nua talvez nunca tenha sido dita como Godard pediu a Bardot e a Piccoli que a dissessem nesta sequência que abre “Le Mépris”.

 

O primeiro professor de francês que tive, voz rouca e o que então me parecia uma terceira idade de quase cinquenta anos, não sabia, e eu ainda menos, que os penosos rudimentos de impronunciáveis “la table” e “la fenêtre” serviam apenas para rasgar nos meus ouvidos o tapete por onde deslizaria a voz de Bardot a perguntar: “tu les trouve jolies mes fesses?”

 

Já voltamos às redondas nádegas de Brigitte. Passemos antes pela “petite histoire” do filme.

 

“Le Mépris” é, como os filmes de Godard, um díptico: num está o cinema, no outro a vida. A personagem de Piccoli tem na re-escrita do argumento de um filme, que pretende adaptar a “Odisseia”, a oportunidade profissional da sua vida. Vai trabalhar com e contra um realizador famoso (um Fritz Lang a fazer de Fritz Lang) por encomenda de um americano colérico que é produtor por orgulho, “como todos os produtores”, diria Godard.

 

Essa é uma tela do díptico. Na outra, Godard dá-nos as cores do casamento de Piccoli com uma Bardot morena como uma Carmen que fosse tranquilamente imprevisível. A cor final dessa relação há-de ser a cor do desprezo.

 

“Le Mépris” foi o filme em que Godard esteve mais perto de entrar na indústria americana e o que dela mais longe o pôs. Joseph E. Levine , o produtor americano, ao ver a versão final, atirou-se a Godard, exigindo-lhe nus de Bardot para vender o filme. Godard acedeu e filmou o plano-sequência de abertura.

 

Bardot está nua, deitada de costas, na cama. Piccoli em segundo plano, contempla-a. Palavra a palavra, pela boca de Bardot, com o complacente acordo de Piccoli, é-nos dito cada centímetro do corpo dela. Ouvimos “os meus pés!” e vemos os pés dela. Ouvimos os tornozelos, as coxas, o rabo, os joelhos. Ouvimos o corpo de Bardot, como se ouvíssemos as ondas do mar, sensação que as vagas de filtros vermelhos e azuis, utilizados por Godard, mais reforçam. Ainda temos os ouvidos nas redondas e tão belas nádegas e já Bardot nos pergunta “o que preferes, os meus seios ou os bicos dos meus seios?” Sabemos lá. Sabem os nossos ouvidos é que nos seios ou nos bicos deles se roça, sublime, a música de Delerue. Experimentem ouvir.

 

Manuel S. Fonseca

UM BANDO DE TERRORISTAS

 


Se bem me lembro, a minha primeira colaboração com o Centro Nacional de Cultura, no século passado, foi a tradução de um texto de Cornelius Castoriadis, para publicação na Raiz e Utopia, a pedido de Helena Vaz da Silva. A minha cultura era, então, de matriz francesa. Mudei muito, mas ainda hoje, e este texto é prova disso, é com indisfarçável emoção que volto a esses velhos amores.

 

 

Era um bando de terroristas. Trabalhavam na clandestinidade e no negro escuro do cinema. Incendiaram redacções e mulheres de grandes olhos apaixonaram-se por eles.

 

Falo de cinco rapazes franceses, tantos como os dedos de uma mão: Truffaut, Godard, Rohmer, Rivette e Chabrol.

 

Nos anos 50, converteram uma revista amarela numa lenda e num escândalo. Nos Cahiers du Cinéma foram devotos do cinema americano mais do que a irmã Lúcia da Senhora de Fátima. A intelectualidade europeia lia então por uma cartilha neo-realista, uma espécie de enteado estético do comunismo soviético. Redimindo alguns cineastas comprometidos, a fina flor literária via nos filmes americanos um lixo industrial escapista com que infelizmente o povo se emocionava e divertia.

 

Os cinco terroristas desataram a escrever blasfémias. Escreviam como quem sonha. Em westerns e filmes de gangsters descobriram equivalentes de Ilíadas e Odisseias.

 

Não se pode escrever sobre cinema, poesia ou pintura, sem se arrancar vibração ao baixo-ventre, sem pôr uma sala em pé e fúria. Como quem junta gasolina e cinco fósforos, o bando juntava sublevação, anarquia e alta cultura.

 

Quem se lembraria de proclamar a genialidade de Chaplin invocando como prova três passagens do Evangelho de São Mateus? O agnóstico Truffaut, pois claro.

 

O inimigo acusou de declínio senil os filmes americanos de Jean Renoir. De cima da Torre Eiffel, Rohmer retalia e responde aos gritos a esses acusadores, provando que nenhum génio autêntico declina no fim da vida: tal como as últimas obras de Ticiano, Rembrandt e Beethoven, o último filme do genial Renoir é, só pode ser, uma obra-prima, o mais belo dos seus filmes.

 

Escreviam como quem sonha. Puseram leitores em êxtase ao obrigarem Deus a ter ciúmes da metafísica de Hitchcock. E de roxos ciúmes ficou o Diabo quando disseram que o Man of the West de Anthony Mann “reinventara o western com o lápis de Matisse, o traço de Piero della Francesca”.

 

Os terroristas geralmente estão contra o poder. Contra o pequeno poder que era o modo comunista de ver a arte nas redacções dos jornais dos anos 50, este bando dos cinco foi o exército aliado do poder do cinema americano. Dispararam a sua artilharia estética fazendo subir aos céus o imaginário universal de Hawks e Nicholas Ray, musicais, melodramas, suspense e cinemascope. Dizendo “isto é o cinema!” aliaram Ford, Wilder, Hitchcock a Bergman, Dreyer e Rosselini. Aliaram a Europa e a América: foi a última vez.

 

Repudiando a vulgaridade ordinária dos críticos, Godard, esse Átila infantil, provou que Griffith inventara o cinema com as mesmas ideias com que Shakespeare inventara o teatro e que o cinema lavou os olhos do século XX reabrindo-os à pintura do Quatrocentto a Picasso, ressuscitando o lascivo desejo de narrativa de Homero a Joyce, desflorando ouvidos para sonoridades sublimes de Bach a Stravinski.

 

Terroristas, ensinaram-nos que, com o cinema, a América devolveu à Europa em sonho o que a Europa lhe emprestara em vida.

 

Manuel S. Fonseca

A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de outubro de 2018.

 


O início da publicação de Escritos sobre Cinema de João Bénard da Costa (Cinemateca, 2018) constitui um momento especial na vida cultural portuguesa.

 


UM MARAVILHOSO DICIONÁRIO
O autor é um dos melhores escritores portugueses contemporâneos, não apenas pela forma, mas pela substância, numa abordagem dos diversos temas a que se dedicou, com grande densidade cultural e uma fantástica riqueza temática, e a obra constitui um importante acervo de textos em que o cinema se constitui em maravilhoso pretexto para uma reflexão sobre a cultura e a arte. Organizados por ordem alfabética, sob a forma de dicionário, estes “Escritos” estão estruturados em dois tomos – o primeiro (de que saiu o volume inicial) dedicado aos realizadores e às suas obras e o segundo a atores, produtores, técnicos e temas específicos. Se é verdade que podemos dispor de várias enciclopédias sobre cinema, o certo é que neste caso estamos perante algo mais, reflexões que ultrapassam em muito o mero interesse informativo. Leia-se o circunstanciado prefácio de José Manuel Costa e compreenda-se a importância e o alcance da obra a que a Cinemateca deitou ombros. O que se está a reunir são todos os escritos feitos para a Cinemateca Portuguesa, quer como folhas de sala quer como ensaios desenvolvidos – devendo lembrar-se que há um trabalho prévio que também está presente e que corresponde ao tempo em que o autor desenvolveu na Fundação Calouste Gulbenkian uma ação pioneira no tocante ao diálogo cultural em torno do cinema. Deste modo, podemos dizer que, a propósito dos filmes, encontramos uma apologia das Humanidades, na sua riqueza aberta, multifacetada e fecunda. E assim deparamo-nos com o criterioso professor de filosofia, o animador do jornal “Encontro” da JUC, o entusiasta do Centro Cultural de Cinema (CCC), uma das almas da Morais, com António Alçada Baptista, e da revista “O Tempo e o Modo”.

 

«PICKPOCKET» DE BRESSON
Olhemos a apreciação de Pickpocket de Robert Bresson. “Deste filme, tanto se pode falar em termos de ‘tratado moral’ (…) como em termos estritamente ‘materiais’, na medida em que se pode sustentar igualmente que é um filme sobre mãos, olhares, sem outra ‘metafísica’ que não essa (…). Este é um filme que joga com os seus próprios vazios, ou melhor dito, em que esses vazios podem ser pressentidos como o essencial, apenas porque o essencial se esgota na pura materialidade”. A tensão entre a irracionalidade da lei e a força irracional de um destino, entre a polícia e o prevaricador, marca este filme de 1959, que o nosso crítico considera como a metáfora do próprio cinema. “Nunca talvez como nesta obra, Bresson tenha ido mais longe na defesa da sua ideia, de que o ‘cinematógrafo é a arte de não mostrar nada’. E a afirmação só pode parecer paradoxal a quem não tenha sido capaz de ver o que é esse nada que o Pickpocket  mostra”. E aqui está a demonstração do que fascinava João Bénard da Costa no cinema: a capacidade de nada mostrar para fixar a atenção do espectador no essencial. Para o cinéfilo o que importava era considerar o cinema como ponto de encontro de diversas artes – com uma especial atenção aos modos de representar a própria vida e de a fazer compreender melhor. E assim o cinema era o campo natural para o filósofo, para o pedagogo, para o ensaísta – de modo a encontrar um campo de eleição para a compreensão criadora.

 

UMA LISTA FANTÁSTICA
É impossível, nos limites de uma crónica como esta irmos ao encontro de tudo o que importa neste extraordinário manancial em que tudo de essencial da vida e da arte se pode encontrar. Daí apenas podermos dar algumas breves pinceladas, numa obra que promete dar-nos pano para muitas mangas. Neste primeiro volume do primeiro tomo, encontramos apenas entradas até à letra C, mas podemos já usufruir de notas e preciosos índices – que nos permitem ligar o útil e o agradável, a informação rigorosa sobre os autores e as suas obras, ordenadas pela data de realização, e o deleite que nos é prodigalizado pela ligação entre o pensamento, as ideias e as diversas artes. Numa lista feita aleatoriamente ao folhear o belo volume, com duas fitas marcadoras, uma para o texto outra para as notas, encontramos: Woody Allen, Lima Barreto, Ingmar Bergman, Busby Berkeley, Bernardo Bertolucci, Robert Bresson, Jorge Brun do Canto, Luís Buñuel, Frank Capra, Claude Chabrol, Charlie Chaplin, Chianca de Garcia, René Clair, Jean Cocteau, Francis F. Coppola, Pedro Costa, Cottinelli Telmo até Michael Crichton. Em cada texto (porque as folhas de sala têm uma função pedagógica e de diálogo com o público) encontramos sempre a confluência de horizontes diferentes que se completam (literatura, música, ópera, teatro, pintura, arquitetura…). A propósito de “Una Mujer sin Amor” de L. Buñuel, sempre com a preocupação de ir ao encontro da literatura, João dá a palavra a Agustina Bessa-Luís, escritora que tanto admirava. E põe-na em discurso direto. Diz Agustina: “o que retive deste filme enfadonho foi justamente a importância de evitar o mistério das pessoas, usando o sentimento”. E quando tudo termina, apenas há as fotografias do marido e do amante, já mortos, em cima da lareira, e Rosário a fazer tricô, placidamente. “Tudo está em ordem: os sentimentos ocupam o lugar do precipício, onde possivelmente nada existe senão vácuo”. Sempre a ideia e a metáfora em torno do nada e do tudo que se filma e representa. E sobre “Ensayo de un Crimen” (1955), ainda do realizador espanhol, lembra-se que “a ideia do desejo prevalece sobre a sua satisfação, os fantasmas ocultos sobre qualquer representação do real”. E Fernando Pessoa vem à baila: “O desejo é que é o essencial / o sexo é só um acidente”.

 

UM ENCONTRO DE MUITAS ARTES
A cada passo nestes “Escritos”, há um encontro de representações, de artes, de linguagens, de sentimentos. “Sempre que o cinema compreendeu que o objetivo era o mesmo (que o teatro e a ópera) com variações de grau e de olhar e expressamente sublinhou a unidade da ordem da ficção e da ordem da representação, a magia do teatro e do cinema pôde aparecer na sua mais misteriosa luz”. E temos de lembrar Bergman em A Flauta Mágica (1975), mas também Ophuls, Syberberg, Schroeter, Rivette ou Manoel de Oliveira. E eis que emerge o paradoxo – “A única interrogação sobre a verdade é a que passa por meios forçosamente mentirosos”… Que é a representação senão a ponte entre a ficção e a existência, entre a ilusão e a realidade? E André Bazin (autor especialmente lido por João Bénard) diz misteriosamente sobre “Le Journal d’un Curé de Campagne” de Bresson, baseado no clássico de Bernanos: “Poder-se á dizer que Journal é um filme mudo com legendas faladas. A palavra nunca se insere na imagem como uma componente realista: mesmo quando é pronunciada pelos personagens (ou seja, quando não é off) tem sempre o tom de um recitativo de ópera”. Do que se trata é de representar o drama, de modo a podermo-nos integrar nele, para que ele nos toque. E Bresson insiste especialmente nesse ponto. João Bénard citou um dia José Tolentino Mendonça quando este dizia com Claudel que a Bíblia era um “atlas iconográfico”, um “estaleiro de símbolos” e um “imenso dicionário”. Esse é o paradigma que está presente nesta visita à memória do cinema, que ele tanto amava, como a Arrábida e Sintra, como todas as artes, por representar a vida…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

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A GUERRA ÀS AVESSAS
 
1 - Quanto mais penso nesse filme, mais espantado fico. Na verdade, nem é no filme, relativamente banal e ensosso, mas no fim do filme. Se há, não conheço uma figura semelhante. A raiz quadrada de um número sem raiz quadrada. "Três quartas de cinema" ou "três quartas partes pretas de lã carneira?". Não estou a louvar nada nem a simplificar nada, embora as citações venham do poema de Cesariny, de que me lembrei a páginas tantas por razões que explicarei lá para o fim desta página.
É certo que estou no princípio e por isso convém que me explique antes que se faça ainda mais tarde.
 
2 - O filme, de que vos poupo o título original em russo, chama-se qualquer coisa como "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra", a acreditar nas traduções ocidentais, já que, antes deste Janeiro, nunca tinha sido exibido em Portugal. Realizou-o um certo Ivan Pyriev (1901-1968) em 1944, ou seja, há 60 anos. Passou num ciclo que a Cinemateca está a finalizar, dedicado aos gelos e degelos do cinema soviético entre 1926 e 1968. Ou seja, a filmes que ou foram proibidos pela censura estalinista e dos camaradas que se seguiram, ou a filmes que foram mudados de cabo a rabo pelas mesmas censuras (em certos casos, por várias vezes e com cortes diferentes) ou a filmes que, pelo contrário, de tão perto seguiram a linha oficial que o tempo os tornou inacreditáveis e ainda mais reflectores que as obras tesouradas.
Quando se programam ciclos destes há riscos vários. Os mais ingénuos ou os mais distraídos acreditam que vão ver filmes de resistentes, que heroicamente denunciaram Estaline nos anos 30, 40 ou 50, Krustchev nos anos 50 e 60, ou Brejnev nos anos 60. Basta pensar duas vezes para perceber que filmes desses jamais podiam ter existido na União Soviética. Quem pensasse em filmar um plano sequer de crítica explícita ou implícita já estava na Sibéria (na melhor das hipóteses) antes de pegar na câmara. O que foi proibido ou censurado foi-o por razões circunstanciais, na maior parte dos casos difíceis de detectar a esta distância temporal e sabendo-se o que se sabe hoje. Aprende-se mais com os ortodoxos do que com os humilhados e ofendidos. Pyriev era desses ortodoxos. Um labrego segundo os amigos, mas um labrego com talento, que sabia do ofício, o poder prezou e o público - que-tem-sempre-razão - adorou. Vários filmes dele foram sucessos colossais na URSS, com muitos milhões de espectadores, coisa de povoar os sonhos dos gémeos lusos do século XXI. "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" foi um dos maiores. Filmado em 44 - em plena guerra e não depois dela -, conta a história de um bravo soldado russo (no cinema soviético, todos os soldados são bravos) que se apaixona por uma corajosa enfermeira (no cinema soviético, todas as enfermeiras são corajosas). Encontram-se por aqui e por acolá, cantam muito, na boa tradição do musical e, lá para o meio do filme, combinam casório para o fim da guerra. No dia desse fim, marcam encontro numa ponte de Moscovo, às seis da tarde. Mas eis que o soldado fica sem uma perna em combate. Como alma nobre que era, decide que não vai impor um inválido à bela enfermeira. Um amigo que lhe vá explicar que ele morreu, que ela não pense mais nele. Mas os amigos são para as ocasiões. A meio da piedosa mentira, o portador da má nova arrepende-se do que está a mentir. Conta-lhe a verdade e a rapariga corre para o hospital, para lhe jurar que não é perna a mais perna a menos que a aquece ou arrefece. Chegou a tempo. O soldado pensou melhor e achou-se egoísta, individualista e pequeno-burguês. Repetem a jura anterior. Só que, depois, é a rapariga quem apanha com um estilhaço e o espectador é levado a crer que ela morreu. O soldado nada sabe. E, às seis da tarde, no dia do fim da guerra, lá está na ponte, à espera da noiva. Passam as 6, passam as 7 e nem novas nem mandados. Mas filmes destes, a leste como a oeste, fizeram-se para acabar bem. Quando protagonista e espectadores já desesperam, a moça, supõe-se que incólume, aparece-lhe e lá vem o abraço e beijo finais. É evidente (até por este resumo o é, quanto mais pela visão do filme) que Pyriev viu muito cinema americano. Concretamente viu "Love Affair" de McCarey (1939), obra que, mai-lo seu "remake", "An Affair to Remember" do mesmo McCarey, e mai-los "remakes" feitos depois desse, suponho conhecida pela maioria dos meus leitores, Charles Boyer (ou Cary Grant) a combinar encontros no Empire State Building, com Irene Dunne (ou Deborah Kerr) a ser atropelada, a ficar paraplégica e a decidir desaparecer para não estragar a vida ao amado.
"Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" é uma variação sobre o mesmo tema, história de azares e de sortes.
 
3 - Mas não é isso que me embasbacou. Não precisei de chegar a esta idade para saber como o longo braço de Hollywood chegou até ao país dos comunistas e como os filmes mais exaltadores da glória do proletariado seguiram receitas capitalistas, disfarçadas com temperos locais. O que é inédito é que, em 1944, quando ainda havia tropas alemãs em território russo e o desfecho embora previsível não fosse ainda de favas contadas, Pyriev não tenha hesitado em figurar o dia V, como se todo consumado fosse.
Eu sei que não faltam na história do cinema (até na história do cinema soviético) representações de futuros longínquos, isso a que se costuma chamar "ficção científica". Eu sei que ficções do real ou com o real foram o pão-nosso de cada dia. Mas nenhum filme ocidental, dos anos da guerra, ousou jamais mostrar o fim, antes de o fim chegar, ou deu dois passos em frente para olhar do futuro vitorioso o passado sangrento. Também nunca houve - nem nos mais delirantes filmes de propaganda anticomunista - representações da queda do Kremlin ou da queda do Muro. Neste caso, Pyriev não hesitou. Em 44, mostrou 45, na guerra mostrou a paz. Há quem diga que o fez para dilatar a crença de que o dia da vitória estava próximo. Afinal de contas, a "Marselhesa" ("le jour de gloire est arrivé") tanto se cantou no início das grandes guerras como no fim delas. E, como Pyriev até nem se enganou muito (a Alemanha rendeu-se um ano depois da estreia do filme), podemos absolvê-lo dessa antecipação pela premonição. Porque é que eu fiquei tão embasbacado?
 
4 - Precisamente, como já disse, por essa sequência final. Séculos de cinema (passe o exagero) habituaram-nos a ver, documental ou ficcionada mente, o dia da Vitória como um dia de multidões transbordantes, enchendo as ruas, com soldados e paisanos abraçando-se furiosamente, num 25 de Abril em tamanho sobrenatural. A tamanha festa e a tamanha alegria. Tudo o que simbolicamente foi captado na lendária fotografia que deu volta ao mundo do marinheiro e da rapariga em abraço tremendo. Pyriev, em 44, não tinha milhares de figurantes nem podia filmar nas ruas de Moscovo. Que fez ele? Construiu uns "décors" com a ponte tão citada no filme, ao fundo da qual uma transparência dava a sugestão do Kremlin, iluminado por holofotes. Agarrou em duas dezenas de figurantes, de ambos os sexos, e pô-los a passear de braço dado pela dita ponte. Casais jovens, casais de meia-idade, como domingueiros, como se andassem por ali a ver as vistas. Em primeiro plano, o herói da perna de pau, muito sozinho e muito ansioso. Nalguns cantos, outros vultos solitários, ora de mulher, ora de homem. À vez, vinham chegando os pares esperados pelos ditos cujos. Abraços e beijos e lá iam a passear, juntando-se aos outros. Até que só ficava sozinho o protagonista. Caía a noite e os casais iam para a noite deles, sempre vagarosos e emburguesados, com passos de um coro de ópera convencional, mais se assemelhando a espectros do que a humanos. E, quando por fim chegava a enfermeira, o abraço era tão púdico e tão desengraçado como só o cinema soviético filmou abraços e beijos. Mas tratava-se da girândola final. Pyriev não o esqueceu e, para a sublinha, guardou para esse momento uma largada de fogo-de-artifício digna da festa da Senhora dos Remédios em Forno de Algodres, sem desprimor para a Senhora e para o forno. Na banda sonora, muitos bum-bum-bum. Até encadear com a palavra fim. E é essa sequência que não deixa de me perseguir desde o dia 7 de Janeiro. No país do "socialismo", na "pátria do povo", na terra dos sovietes, o fim da guerra foi celebrado por antecipação, sem povo, sem operários, sem camponeses, sem massas, sem qualquer desordem, sem qualquer alegria, a não ser a alegria breve de uns casais de namorados. Moscovo é uma cidade fantasmagórica, inexistente para aquém e para além da ponte sombria e soturna. Ou seja, Pyriev imaginou tudo menos uma real festa popular. É totalmente surrealista, no sentido pejorativo da palavra. Fez frio e medo. Muito frio e muito medo. Mas, pensando bem, talvez esteja certo. Para voltar a Cesariny e ao surrealismo, na verdadeira acepção da palavra: "Porque é que a enfermeira compra do Alves Redol quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã?" E nem sequer nisso pode mostrar que pensa. Na URSS, qualquer festa espontânea era espontaneamente inimaginável.

16 de Dezembro 2004 Público
 
 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 2 a 8 de abril de 2018.

 

«Correspondências» (2016), o filme de Rita Azevedo Gomes, parte de uma amizade e de uma fecunda relação epistolar entre Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco de Sousa Tavares e Jorge de Sena.

 

 

DIFERENTES E COMPLEMENTARES
A cineasta usou o título no plural para deixar claro que ia além da relação assente apenas num conjunto de cartas. É uma relação complexa que está em causa. Correspondências significa encontros, pontos de contacto, identificações. Daí que o registo epistolar se misture com os poemas, os testemunhos e as missivas. Se há um diálogo, há igualmente um confronto e uma complementaridade. Como são diferentes Sophia e Jorge, mas como faz sentido a continuidade da sua presença. Usando as palavras de Maria Andresen de Sousa Tavares na Nota Prévia à Correspondência propriamente dita: «a sua dimensão poética e romanesca resultará (…) do convívio com a intimidade de um pensamento que se apresenta como se desenrolado “ao correr da pena”, ou com um modo singular de uma conversa que se crê a dois, pouco precavida (…) no seu modo de ser confidencial ou lugar de manifestação de sentimentos vitais, de natureza amorosa ou da natureza dessa raridade maior, a Amizade, talvez o mais alto e mais misterioso sentimento humano». No filme, em coerência com o que a autora tem apresentado como marca própria em obras anteriores, deparamo-nos com um percurso de vários registos, em que é, no fundo, a dimensão poética e romanesca a ser procurada, em que as múltiplas vozes procuram dar-nos com fidelidade a expressão viva do que foram Sophia e de Jorge de Sena, figuras maiores de uma geração de exceção, com modos próprios de se afirmar e de resistir. Como é forte o testemunho de Sophia, ao lado de Francisco, a dizer não ser compreensível que o regime tivesse investido na polícia e em prisões, em lugar da aposta na educação e nas escolas…

 

BELAS IMAGENS, REGISTOS DIFERENTES
Vemos belas imagens em registos diferentes, numa cadência que nos permite ir ouvindo em várias línguas, mas sobretudo na original expressão dos próprios, o diálogo cruzado e as cartas trocadas entre Sophia e Jorge de Sena entre 1959 e 1978. O diálogo é a ilustração do contraponto entre a casa e a ideia mesma de hospitalidade, representadas pela autora do Livro Sexto – e a viagem, a distância e o exílio, permanentes e incertos, simbolizados pelo poeta de Fidelidade… Sophia viaja e regressa a casa. Sena é um andarilho impenitente. Mas é sempre a ideia de Amizade, de procura e de encontro que estão bem presentes – como se o “trobar” dos velhos trovadores medievais reencontrasse a ambiguidade etimológica da poesia, da procura e do encontro. Com grande limpidez vamos registando diversos sinais. Sophia vai recebendo mensagens e cartas, perguntas e incertezas. E a PIDE vai fazendo das suas, apreendendo cartas e vigiando tudo. Amiúde Sophia exprime o sentimento de ausência, a falta que faz não haver os almoços antigos na casa da Travessa das Mónicas. É muito mais do que aquilo que sentem “a Luiza e a Sofiazinha”…. É recorrente a referência ao vazio deixado por Jorge. Do que se trata, obviamente, é de um tempo dividido… “Caminho nos caminhos onde o tempo / Como um monstro a si próprio se devora”…E ouvimos Sophia a dizer-nos “Marinheiro Sem Mar”: “E ao Norte e ao Sul / E ao Leste e ao Poente / Os quatro cavalos do vento / Exatos e transparentes / O esquecerão // Porque ele se perdeu do que era eterno / E separou o seu corpo da unidade / E se entregou ao tempo dividido / Das ruas sem piedade”… Mas Jorge de Sena, com a sua voz forte e bem timbrada, exprime-se, num registo bem diferente do de sua interlocutora, sobre um tema que ambos muito bem conhecem: “Em Creta com o Minotauro, / sem versos e sem vida, / sem pátrias e sem espírito, / sem nada, nem ninguém, / que não o dedo sujo, / hei de tomar em paz o meu café”. A encruzilhada de percursos é, de facto, fascinante. Fascinante mas difícil, serena e agitada como a vida: “Será que a vida é a luta das imagens que não morrem?”. Dir-se-ia que aqui está a chave da obra de Rita Azevedo Gomes. De facto, a sucessão de imagens, de registos, de palavras, de pessoas tem o significado de exprimir os sentimentos vitais que subjazem à Amizade aqui retratada… Mas não é uma amizade feita de placidez, mas de combate incessante. “Eu começo a sentir-me incapaz de fazer tudo o que quero fazer. Ser ao mesmo tempo poeta, mulher do D. Quixote e mãe de cinco filhos é uma tripla tarefa bastante esgotante” (10.6.63). Sena pergunta: “Diz-me o Francisco, na carta: ‘Alguma vez aí nos encontraremos todos?’ Eu creio que sim; e creio que chamados a várias responsabilidades por aqueles que nos acusarão dos seus próprios fracassos” (1.3.63)…

 

«TENHO VIVIDO UM VERÃO MARAVILHOSO»…
As belas imagens obtidas nos rochedos da Praia de Dona Ana são a melhor ilustração da paixão mediterrânica de Sophia. Afinal, a Grécia da sua poesia começa no Algarve, como tantos estudiosos da obra têm dito com justeza. As imagens do filme são fidelíssimas relativamente ao que sabemos das impressões das cartas e dos poemas: “Aqui em Lagos tenho vivido um Verão maravilhoso nesta luz mais que limpa, neste calor leve e doirado, nesta água verde e transparente e nas grutas invisíveis que são o mais espantoso barroco, roxas e doiradas por dentro. Em Agosto quando o mar estava liso como um chão e completamente transparente eu alugava uma chata e ia de gruta em gruta e nadava na gruta do leão e na ‘sala’ e na ‘porta do sol’ e na ‘Balança’, rodeada pelos pequenos e guiada por um extraordinário barqueiro, um pescador chamado José Vicente, que mergulhava para trazer do fundo ouriços, pedras e búzios e que nos ensinava o nome dos peixes e nos contava as mais fabulosas histórias de pesca. (…) Acho este povo algarvio maravilhoso de honestidade e dignidade e muito mais evoluído e consciente do que o povo do Norte” (22.9.1961). João César Monteiro ilustrou magnificamente tudo isto e com as suas imagens revemos Sophia a nadar de gruta em gruta e a usufruir do mais espantoso barroco dessa costa de configuração mágica. É preciso dizer que este belo filme é um ato de generosa compreensão da Amizade, da natureza e da humanidade. Quando, por exemplo, ouvimos e vemos Alberto Vaz da Silva encontramos uma presença saudosa, singular e única – e lembramo-nos da ausência de João Bénard da Costa. Para os filhos de Sophia eles eram o Tempo e o Modo, espécie de siameses inesquecíveis no mundo dos melhores cultores da poesia da mãe. Alberto conhecia bem a obra de Sophia, falava dela com ternura e saber – e a última grande viagem que fez foi à Grécia (com o Centro Nacional de Cultura, ao qual Sophia deu muito de si) seguindo os passos e a obra poética que tanto admirava. E recordava o poema profético de Geografia: “O sol rente ao mar te acordará no intenso azul / Subirás devagar como os ressuscitados / Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial / Emergirás confirmada e reunida / Espantada e jovem como as estátuas arcaicas / Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto”.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

DO MELHOR DO ANO 2017 NA CULTURA

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Livro português:

Jalan Jalan, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

 

Livro traduzido:
145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop)

 

Ficção Internacional:

Lincoln in the Bardo, George Saunders (Random House)

Há tradução portuguesa: Lincoln no Bardo (Relógio d’Água)

 

Cinema:

Silêncio, Martin Scorsese

 

Cinema - Portugal:

Peregrinação, João Botelho

 

Televisão:

Handmaid’s Tale, Bruce Miller

 

Portugal - Televisão cultural:

Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro

 

Música:

From Baroque to Fado, Os Músicos do Tejo, dir. Marcos Magalhães

 

Divulgação musical portuguesa:

RTP, Antena 2.

 

Exposição:

José de Almada Negreiros - Uma Maneira de Ser Moderno, Gulbenkian.

 

As escolhas são algo aleatórias.

Não há um júri, mas a qualidade é o critério fundamental.

Boas iniciativas culturais!

 

CNC