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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA


M. MIRANDÊS


Falo de espíritos bem vivos. Os falantes distribuem-se principalmente por uma área de 550 quilómetros quadrados, conhecida como Terra de Miranda, formada pelo concelho de Miranda do Douro e as freguesias de Angueira e Vilar Seco no concelho de Vimioso. Também se deve incluir o território de Caçarelhos. A língua mirandesa é o nome oficial que recebe o asturo-leonês persistente em território português. O mirandês tem três subdialetos (central ou normal, setentrional ou raiano, meridional ou sendinês), dispondo de um dicionário, gramática e ortografia próprios; os seus falantes são em maior parte bilíngues ou multilingues. O mirandês é, desde 1999, a segunda língua oficial de Portugal. A preservação da língua mirandesa deve-se à geografia e ao isolamento das Terras de Miranda, sede episcopal. Os rios e as cordilheiras são fatores cruciais para a criação de uma "fronteira linguística". O rio Sabor isolou a área da influência da língua portuguesa. Outro fator foi a proximidade de Espanha, com o comércio centrado no turismo espanhol. A cidade recebe espanhóis do antigo Reino de Leão, que muitas vezes falam asturiano. Assim, o mirandês chegou aos nossos dias, defendido também pelos espanhóis de fala asturiana. Havia muitos anos que o mirandês não era falado no coração da comarca, Miranda do Douro, mas, nos últimos anos, a deslocação das pessoas das aldeias para a cidade trouxe o mirandês de volta. As aldeias preservaram melhor a língua antiga. São naturais os entraves, como se nota em "Lição de Mirandês: You falo como bós i bós nun falais como you" de Manuela Barros Ferreira, onde é evidente a natural fragilidade da língua mirandesa face ao português. Não se fala o mirandês quando os alunos estão em situações formais, como por exemplo na relação com o professor. Então a língua portuguesa prevalece. A língua mirandesa é reservada para contextos familiares, do quotidiano ou mesmo de extrema intimidade.

Eis o exemplo de uma frase em mirandês com a respetiva tradução em português, num texto de Amadeu Ferreira, um dos grandes divulgadores da língua mirandesa. «Muitas lhénguas ténen proua de ls sous pergaminos antigos, de la lhiteratura screbida hai cientos d'anhos i de scritores hai muito afamados, hoije bandeiras dessas lhénguas. Mas outras hai que nun puoden tener proua de nada desso, cumo ye l causo de la lhéngua mirandesa». E eis a versão portuguesa. «Muitas línguas têm orgulho dos seus pergaminhos antigos, da literatura escrita há centenas de anos e de escritores muito famosos, hoje bandeiras dessas línguas. Mas há outras que não podem ter orgulho de nada disso, como é o caso da língua mirandesa».

Apresentamos ainda o texto do projeto lei de reconhecimento dos direitos linguísticos da comunidade mirandesa, apresentado em setembro de 1998 pelo deputado Júlio Meirinhos aprovado pelo Parlamento e com expressão constitucional. «La Lhéngua Mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i capechana, nun yê de onte, detrasdonte ou trasdontonte mas cunta cun uito séclos de eijistência. Sien se subreponer a la "lhéngua fidalga i grabe" l Pertués, yê tan nobre cumo eilha ou outra qualquiêra. Hoije recebiu bida nuôba.

Saliu de l absedo i de l cenceinho an que bibiu tantos anhos. Deixou de s'acrucar, znudou-se de la bargonha, ampimponou-se para, assi, poder bolar, strebolar i çcampar l probenir. Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume d l'alma i l sangre dun cuôrpo bien sano. Chena de proua, abriu la puôrta de la sue priêça de casa, puso fincones ne l sou ser, saliu pa las ourriêtas i preinadas. Lhibre, cumo l reoxenhor i la chelubrina, yá puôde cantar, yá se puôde afirmar. A la par de l Pertués, a partir de hoije, yê lhuç de Miranda, lhuç de Pertual», Lei nº 7/99 de 29 de janeiro

Depois de José Leite de Vasconcelos, Amadeu Ferreira (1950-2015, Sendim, Miranda do Douro) foi o grande estudioso e divulgador do mirandês nos últimos anos, sendo jurista, escritor e tradutor de uma vasta obra em português e em mirandês, em nome próprio e com os pseudónimos de Francisco Niebro, Marcus Miranda e Fonso Roixo.

Traduziu para a língua mirandesa obras como Os Quatro EvangelhosOs Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, Mensagem, de Fernando Pessoa, e obras de Horácio, Vergílio e Catulo, bem como dois volumes de Astérix entre muitos outros. Foi colaborador, sobretudo em mirandês, de diversos meios de comunicação social, nomeadamente do Jornal Nordeste, do Mensageiro de Bragança, do Diário de Trás-os-Montes, do Público e da rádio Mirandum FM. Publicou mais de três mil textos, quase exclusivamente literários, em blogues como Fuontes de l AireCumo Quien Bai de Camino e Froles Mirandesas e CNC. Autor de obras científicas e literárias, em poesia e em prosa. Entre muitas outras, publicou, nas áreas das Ciências Jurídicas e Direito dos Valores Mobiliários; em poesia, Cebadeiros; e em prosa, Cuntas de Tiu Jouquin.

Há ainda os Pauliteiros de Miranda, praticantes da dança guerreira céltica, característica destas Terras, designada de dança dos paus,  representativa de momentos históricos locais, acompanhada com os sons da gaita-de-foles, caixa e bombo, com a particularidade de ser dançada por oito homens (mais recentemente também por mulheres) que vestem saia bordada e camisa de linho, um colete de pardo, botas de cabedal, meias de lã  e chapéu enfeitado com flores e finalmente por dois paus (palos) com os quais os dançadores fazem uma série de diferentes passos e movimentos coordenados. E neste folhetim de fantasmas, a propósito do Mirandês, invoco um texto de Orlando Ribeiro sobre o seu Mestre José Leite de Vasconcelos, que antevia com «os olhos do espírito de que se apagam lentamente os últimos fulgores». «Num pedestal de tosco granito», vislumbrava «não uma figura enroupada no traje académico, mas um velho meão mas desempenado, de cabeça coberta e barba intonsa, de chapéu de viagem, abordado ao bastão de jornada, mostrando aos novos – ele, eterno caminheiro – os rumos científicos da “boa Terra Lusitana”, de que esclareceu as origens nas pedras incompletas, na língua como expressão da vida coletiva, na multiplicidade dos textos e dos falares rústicos, sobre o pedaço de terra que nos coube neste fim da Europa, onde o povo, considerado no conjunto das classes da Nação, afirmou o seu direito de ser livre, de pensar e sentir a seu modo e a seu jeito e até contribuir, com as luzes de Espíritos de que o Mestre foi o mais poderoso e operoso para o progresso geral do conhecimento humano. Só assim a lenda de José Leite de Vasconcelos se consagrará na História, a que há mais de um século ofereceu as primícias do seu pensamento».

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L. LOPES (FERNÃO)


Nesta visita sistemática dos fantasmas da Casa Portuguesa, chegamos ao loquaz Fernão Lopes, autor da “Crónica de D. João I”, um dos grandes marcos da língua portuguesa. A vida de Fernão Lopes é um mistério. Por ironia do destino, o homem através de quem conhecemos a História da geração que o precedeu, é-nos quase desconhecido como pessoa. A própria efigie que aqui reproduzimos é duvidosa. Talvez seja ele uma das figuras representadas nos Painéis de S. Vicente de Nuno Gonçalves. Não sabemos quando nasceu, mas presumimos que tenha sido nos anos da crise. A sua origem era plebeia, e esse facto explica a atenção que reserva na sua escrita à “arraia miúda de ventres ao sol”. O seu nome aparece-nos pela primeira vez em 1418, como guarda-mor das escrituras da Torre do Castelo de Lisboa. Um ano depois, é escrivão dos livros de D. João I e em 1422 exerce o cargo de escrivão da puridade do Infante D. Fernando, sendo depois nomeado tabelião geral do reino. D. Duarte atribui-lhe uma tença anual vitalícia em 1434 para escrever as crónicas da história geral do reino, até D. João I. Como cronista-mor exerce funções, com zelo e competência, até 1454, altura em que, por estar “mui velho e flaco”, é aposentado. Gomes Eanes de Zurara é quem escreve a versão final da terceira parte da Crónica de D. João I. Estando Fernão Lopes com avançada idade em 1459, julga-se que morreu no ano seguinte. Como cronista é o primeiro grande estilista da prosa em língua portuguesa, com a sua escrita fluida e atraente, presenciamos uma sucessão de acontecimentos que anunciam uma nova era, diferente do estilo medieval. Assistimos ao “crepúsculo” do tempo antigo, na sequência de um rumo modernizador preparado na passagem dos séculos XIII para o XIV no período dionisíaco. Um dos temas novos é o da legitimidade política, que deixa de ser fundada no património e no senhorio, para passar a ser ditada pelas gentes e pelo “poboo”. Sente-se a influência da escola de Bolonha. Desde que se fixara a fronteira do reino e que a língua comum se tornara idioma oficial dos tabeliães foram abertos os caminhos do “direito de naturalidade”, por contraponto ao “direito senhorial”. E se houve divisões drásticas na sociedade portuguesa, com a alta nobreza e o alto clero a sustentarem o conceito “legitimista” de D. Beatriz, e a burguesia das cidades a ansiar por um entendimento mais ligado aos povos, o certo é que a matriz legitimadora do reino (o Estado que precedeu a nação) atribuía uma forte importância aos municípios, aliados naturais do poder real. O “direito de naturalidade” representava o anúncio de uma nova conceção. E Fernão Lopes desenvolve na “Crónica de D. João I” esse entendimento, quer na narração quer nas reflexões. Fala de “verdadeiros portugueses”, mas também de “cidadãos honrados”, de “amor da terra”, do grito “Portugal” da gente “miúda” e até de “evangelho português”. E esse entendimento leva-o a conceber a historiografia como uma procura de factos fiéis à realidade, em nome da causa legitimadora do Mestre da Avis. Lembremo-nos dos relatos do Cerco de Lisboa e da batalha de Aljubarrota. Os acontecimentos são minuciosamente descritos, numa cadeia de factos que culmina no sucesso de D. João I. Se o cronista apresenta um novo entendimento social e político, fá-lo com o recurso originalíssimo à narrativa, demonstrando “o estofo de um dramaturgo poderoso”, como dirá António José Saraiva, afirmando-se como um exímio “contador da História” na expressão de Teresa Amado… Fernão Lopes reúne os elementos fundamentais para justificar a “justa aclamação”. O relato das Cortes de Coimbra é magistral. O cronista dá-nos, com minúcia, as provas da argumentação jurídica de João das Regras. Aí estão a incerteza da paternidade de D. Beatriz, a situação matrimonial irregular de D. Leonor Teles, o apoio cismático de D. João de Castela ao Papa de Avinhão, a demonstração da ilegitimidade (e da indignidade por apoio á causa de Castela) de D. João de Castro, filho de D. Inês de Castro… A argumentação jurídica alia-se aos sinais da Providência, protagonizados pelo jovem Condestável do Reino D. Nuno Álvares Pereira, chefe militar da linhagem de Galaaz, o cavaleiro de Camelot e companheiro do Rei Artur, do ciclo bretão. Álvaro Pais, o rico cidadão de Lisboa, é a verdadeira alma do movimento. As hesitações e até a descrição da personalidade contraditória de D. João, Mestre de Avis, demonstram com meridiana clareza que houve um forte impulso, vindo do movimento popular, mobilizador de vilões, mesteirais e lavradores. E se o Mestre começa por ser quem está em posição mais frágil na linha sucessória, sem mesmo desejar ser rei, como várias vezes afirma, considerando ser seu meio-irmão D. João de Castro quem teria maior legitimidade dinástica, a verdade é que a sua condição de clérigo o afastava da sucessão. O certo é que os acontecimentos (e a determinação de Álvaro Pais) irão colocá-lo no centro dos acontecimentos e à frente dos destinos do reino.  Em Coimbra, porém, o legista João das Regras, depois de declarar o trono vago, demonstra que a nova legitimidade, a dos povos, não oferecia dúvidas, cabendo ao Mestre ser o novo Rei. O movimento popular não tinha, é certo, a aceção que hoje lhe daríamos. Opunha-se à aristocracia fidalga, na linha da consolidação da monarquia fundada por Henrique de Borgonha e seu filho Afonso Henriques. E como é facilmente compreensível a conceção do “direito de naturalidade” reforçou o peso e a importância dos povos dos concelhos, segundo o que Jaime Cortesão designaria como “os fatores democráticos na formação de Portugal”. Estamos, assim, perante uma revolução de “cidades” e de “vilões”, logo desde os acontecimentos de Lisboa, em 1383, com a morte do conde de Andeiro, mas também em Beja, em Évora, no Porto. Sente-se a “epopeia” das mudanças profundas, a partir da “gente pequena dos lugares” e, sobretudo, de uma razão nova: “Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado, que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais sofrimentos” … As vilas combatem os castelos, a legitimidade nova destrona a legitimidade senhorial. Novos espíritos se anunciam.


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K. «KWY» - LOURDES CASTRO


Este folhetim trata de fantasmas. E quem melhor soube representá-los como sombras vivas foi Lourdes Castro e os seus amigos. A revista KWY foi um veículo precioso! Publicou-se em doze números de fabricação artesanal de 1958 a 1964. A denominação tem a ver com as três letras que então estavam ausentes do alfabeto português. Só por ironia disse-se que significava Ká Wamos Yndo… O grupo foi responsável “pela abertura da arte portuguesa no contexto internacional e pela franca adesão às novas linguagens figurativas que, sob a égide da reconstrução económica do pós-guerra, deram impulso a um dos períodos mais estimulantes da cultura europeia do século XX”. Em lugar de agrupamentos por tendências, há grupos de intervenção. Trata-se de um realismo cosmopolita. Com o grupo “KWY” (Lourdes Castro, René Bertholo, Costa Pinheiro, José Escada, João Vieira, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo), abrem-se horizontes além-fronteiras, ultrapassando a dimensão paroquial, fora da censura no caminho criador pelo repensar das raízes.

Lourdes Castro compreendeu o novo tempo e as novas tendências de um modo exemplar. “A surpresa do desenho, a simplicidade da forma, o contorno da sombra fascinou-me tanto que ainda hoje para mim é nova” (como testemunhou a Joana Galhardo Frazão). Ao seguirmos o seu percurso é impressionante o modo como soube trilhar caminhos absolutamente inesperados e inovadores. Em “O Grande Herbário das Sombras” reencontrou a Natureza e a vegetação da Ilha da Madeira, domínio da laurissilva, sua terra natal, com uma centena de espécies botânicas, que permitem ligar o labor da artista à criação essencial e transcendente. Como recordou José Carlos Seabra Pereira, a obra envolve “a imanência do mundo criado e a Transcendência que lhe dá sentido último”. É o dom da vida que está em causa, como fica demonstrado no filme “Pelas Sombras” de Catarina Mourão (2010), no qual se apresenta o encantamento “com a magia no quotidiano das coisas”. Por isso, a artista afirma: “a minha pintura é esta: o viver, o estar cá”. E assim a sua arte foi-se tornando o espaço à sua volta. “Não a posso transportar. Ela nem quereria mudar de sítio”. José Tolentino Mendonça afirmou que, para ela, “a arte nunca foi simplesmente um fazer. A arte era um intransigente pensamento sobre o estar”. Por isso, não deixa apenas obras que podemos ver nos museus, deixa uma visão. E tal constitui um facto político raro. Lembrando o “Teatro de Sombras”, verdadeiro património imaterial posto em prática primeiro com René Bertholo e depois com Manuel Zimbro, trata-se de arte em movimento. Os primeiros passos foram no Centro Nacional de Cultura, em 1954, com José Escada. Não por acaso, o Centro era uma casa onde o teatro tinha especial importância, sob a influência de Fernando Amado e de Almada Negreiros. E Lourdes Castro, no tempo da fugaz passagem em Belas-Artes, começou a fazer teatro com Fernando Amado no Centro, e foi no espaço do teatro que a jovem começou por apresentar os primeiros passos nas artes plásticas. E vem à memória a peça “Antes de Começar” de Almada Negreiros, encenada por Amado, nos princípios que conduziriam à criação da “Casa da Comédia” e à amizade que se prolongará no tempo, pela vida fora, com o pintor Manuel Amado, companheiro, com sua mulher Teresa, em férias e viagens na Madeira e Porto Santo. E está aqui a preciosa chave, capaz de ligar a descoberta das sombras, a representação teatral e a paixão pela vida. E há o encontro simbólico entre a memória do primeiro modernismo de Almada Negreiros e a lembrança de Fernando Pessoa, muito presentes nesse tempo e no grupo, quando o poeta do “Livro do Desassossego” começava a ser descoberto, ao lado de um outro modernismo, totalmente novo, da geração de “KWY”. E foi essa pulsão vital que levou Lourdes Castro a realizar esses fantásticos livros de artista, que explicou simplesmente – “porque havia tesouras, havia papel, havia tempo, gostava de livros…”. E, ao apresentá-los, Paulo Pires do Vale compreendeu bem como a artista continuou a criar, mesmo quando se retirou da intervenção ativa. “Na verdade, não deixou de criar”, continuou, sim, a “transformar a própria vida”, a “dar-lhe maior atenção” (Público, 9.1.22). E na exposição “Tudo o que Eu Quero”, Helena de Freitas e Bruno Marchand, na Gulbenkian, ficaram em destaque as sombras na sua múltipla dimensão, absolutamente singular e inovadora – silhuetas bordadas em lençóis brancos, retratos de amigos em plexiglas, flores e folhagens. “As suas sombras tornam-se progressivamente mais leves. A presença aprofunda-se na ausência e cumpre-se no desaparecimento” (Anne Bonin).

José Tolentino Mendonça refere três momentos no caminho de Lourdes Castro. “A primeira etapa é aquela que vai até ao ‘Teatro de Sombras’ e constitui talvez a parte mais reconhecível da sua produção artística”. A segunda etapa foi a do movimento das sombras, como se uma parede deixasse de ser um obstáculo, descobrindo-se no branco do muro intransponível uma passagem na transparência. E lembro o enigma dos jardins japoneses, como em Ryoan-ji, em Quioto, quintessência de um templo zen, representação do mundo contada por João Bénard da Costa no filme “A Décima Quinta Pedra” de Rita Azevedo Gomes. Por fim, a terceira etapa foi a dos jardins madeirenses – a Praia Formosa, a Quinta do Monte, o lugar de exílio de Carlos de Habsburgo, e o Jardim do Caniço… De facto, o jardim tornou-se a própria obra (cf. Expresso, 14.1.22). “O meu jardim é a minha tela”. A Natureza é que tudo faz. Lourdes Castro preparava-se, afinal, para a última viagem, em direção ao Jardim das Nuvens. A obra de arte deixou de se limitar a um espaço contido, às fronteiras de uma tela ou de um lençol, abriam-se os horizontes, e não havia fronteiras intransponíveis nesse teatro de nuvens.    


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Ilustração: José Malhoa


J. JOANINHA DOS OLHOS VERDES


As “Viagens na Minha Terra” de Almeida Garrett (1ª edição, 1846) são constituídas por quarenta e nove capítulos de um folhetim romântico, cuja originalidade está na linguagem comum que usa e na ligação entre o relato de uma viagem e a narrativa de uma história trágica sobre a guerra civil que dividiu o país de 1832 a 1834, e de que o autor foi protagonista. A viagem existiu de facto, de 17 a 22 de julho de 1843, em que Almeida Garrett foi ao encontro do seu amigo Passos Manuel, então num exílio no interior da pátria, uma vez que tinha sido arredado da ribalta política pelo golpe de Estado em que António Bernardo Costa Cabral restaurou a Carta Constitucional (1842). A narrativa é imaginada como procura de uma lição moral, depois do tempo heroico de uma guerra ter cedido lugar ao conformismo e à indiferença – simbolizados na figura de Carlos. Se é certo que o autor, inspirado em Swift, Stern ou De Maistre, nos diz que neste género importa mais o estilo que a doutrina, a verdade é que o autor cuida especialmente da renovação do estilo, e da sua originalidade, sem esquecer uma pitada de doutrina, já que não esconde a acerba crítica em relação ao cinismo e ao agiotismo a que se chegara. O escritor quer acreditar na força da liberdade e dos seus ideais, contudo olha em volta e muito pouco vê nesse sentido. Por isso, sendo um partidário da “monarquia nova” (como disse no célebre discurso do Porto Pireu, perante José Estevão), não pôde deixar de admirar, apesar de não gostar de frades, a convicção de Frei Dinis, o inesperado pai de Carlos, velho partidário da “monarquia velha”. A descrição da viagem entremeia a exaltação da natureza (“bela e vasta planície”, “delicioso aroma selvagem”) com as invocações pessoais, em aparente desordem. Até que chegamos ao vale de Santarém. Faias, freixos, álamos, madressilvas, mosquetas, congossas, fetos e malvas-rosas compõem uma verdadeira sinfonia silvestre. E chegamos a uma janela, que faz adivinhar um feitiço. E se falamos de fantasmas, eis uma das referências indiscutíveis. É a janela da “menina dos rouxinóis”, da “Joaninha dos olhos verdes”.

E abre-se o romance: “Era no ano de 1832, uma tarde de Verão, como hoje calmosa, seca, mas céu puro e desabafado…”. Garrett mistura propositadamente as suas reflexões ao longo da viagem e o contar da narrativa, que ali teve lugar, no auge da guerra entre o Portugal novo e o Portugal antigo (com a presença de Joaninha, Carlos, Georgina, a Avó e Frei Dinis). E entre os episódios do romance, a viagem continua: “Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, atual possuidor e habitante do régio alcáçar, o Sr. M.P.” (Manuel Passos). E então: “comemos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a comer. Vieram visitas, falou-se de política, falou-se de literatura, falou-se de Santarém sobretudo, das suas ruínas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Enfim, fomo-nos deitar. Nunca dormi tão regalado sono em minha vida…”. Ontem, como hoje, a magnífica hospitalidade… E assim vida e literatura juntam-se naturalmente.

Mas retornemos à menina dos rouxinóis. «Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo da gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezasseis anos, havia, por dom natural e por uma admirável simetria de proporções, toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas no mundo». O que a singulariza? «Os olhos de Joaninha eram verdes... não daquele verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate». (…) «O efeito desta rara feição, naquela fisionomia à primeira vista tão discordante, era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, alucinava, depois fazia uma sensação inexplicável e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: por fim pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e toda a inteligência e toda a vontade eram absorvidas. Resta só acrescentar — e fica o retrato completo, um simples vestido azul-escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em coturno». Camões também um dia disse: «Eles verdes são / e têm por usança / na cor, esperança / e nas obras não». “Minina dos olhos verdes, porque me não vedes”? E que maior saudade de um espírito senão a deste amor de Joaninha?


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I. ÍNDIA (O PLANO DA)


Se há verdadeiros fantasmas na história portuguesa, eles estão representados por Nuno Gonçalves nos Painéis de S. Vicente, verdadeira chave do que podemos designar de Planos das Índias. No capítulo sétimo da «Crónica dos Feitos da Guiné», Gomes Eanes de Zurara apresenta cinco motivos para as navegações atlânticas. Antes de mais, lembra que o Infante D. Henrique não só manteve uma frota para defesa de Ceuta, mas também realizou o corso nas costas do Mediterrâneo. E quais as razões para o interesse da costa africana? O desejo de conhecer a terra que estava para além das Canárias e do Cabo Bojador; a vontade de encontrar cristãos e portos seguros para estabelecer relações comerciais; a possibilidade de trazer para estes reinos mercadorias que haveriam bom mercado, avaliando com rigor o poderio islâmico naquelas paragens africanas; por outro lado, o Infante, nunca tendo encontrado na Cristandade aliado que o acompanhasse na guerra contra o poder mouro, desejava saber se em África haveria algum Príncipe cristão que se dispusesse a ajudá-lo em tal empresa; finalmente, haveria que dilatar da fé cristã em novos territórios, ganhando para ela «todas as almas que se quisessem salvar». Zurara escrevia em 1452-53, em vida de D. Henrique, com acrescentos após a morte deste. Deteta-se a presença do Presbítero João (Preste João), rei mítico, primeiro localizado na Ásia, como refere o «Livro de Marco Polo», e depois em África, na Etiópia, onde se sabia haver a tradição cristã copta muito marcada. Só no reinado de D. João II se pode falar de Plano da Índia. E é neste sentido que o rei envia a missão de Afonso de Paiva e de Pêro da Covilhã ao Cairo e ao Mar Arábico. Depois de sinais contraditórios, desde a alusão aos cristãos nestorianos na Ásia até à comunidade de S. Tomé no Kerala, no sul do subcontinente indiano, tudo foi alvo de cuidadoso escrutínio, chegando-se à informação sobre a Etiópia. Mas quando há Plano da Índia? Até 1460 é muito cedo, pelas informações trazidas pelo Infante D. Pedro na viagem europeia, há, todavia, a compreensão de que o comércio mediterrânico e o domínio geoestratégico da Terra Santa são cruciais. E Zurara dá-se conta da necessidade de um plano económico e político que prolongue o espírito de cruzada. A queda de Constantinopla, cabeça do Império Romano do Oriente (1453), dá importância acrescida à demanda do Mar Arábico pela costa de África… O apelo do Papa Calisto III (1455) para uma cruzada contra os turcos, depois da queda de Bizâncio, não teve sucesso, o que reforçou a opção portuguesa de concentrar meios na rota africana. No muito curto reinado de D. Duarte (1433-1438), ocorre a passagem do Cabo Bojador (1434) e o desastre de Tânger (1437), tendo em 1441 tido sucesso a primeira operação comercial com aquisição de escravos. Em 1444 é atingida a Costa da Guiné. Contudo, só um terço dos navios que navegavam na área pertenciam á iniciativa do Infante. Em 1455 a Bula do Papa Nicolau V concedia ao Rei de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares conquistados ou a conquistar… Depois da morte do Infante (1460), chegados os portugueses à Serra Leoa, dá-se o arrendamento pela coroa ao mercador de Lisboa Fernão Gomes da exploração da costa africana – 100 léguas em cada ano. É o tempo da Costa do Ouro e da Mina, num momento em que a intervenção do Estado abranda, até pelo envolvimento de D. Afonso V na guerra da sucessão de Espanha (1475-76), sendo retomada a exploração direta só com o Príncipe Perfeito. Entretanto, o acesso ao Golfo das Guiné permite o comércio da malagueta, do marfim, do ouro e dos escravos – que irão permitir a sustentabilidade económica das navegações. É o confronto entre caravanas e caravelas. O reinado de D. João II (1481-1495) marca uma viragem significativa na estratégia da expansão marítima – com as políticas do segredo e do «mar fechado». Houve avanços comerciais mercê da aprendizagem do regime de ventos, do cálculo da latitude pela inclinação solar e do controlo costeiro do Sul do Atlântico. «Tempos de coruja, tempos de falcão» é o lema prático do Príncipe Perfeito. A centralização política, a limitação dos poderes da alta nobreza (com as mortes do Duque de Bragança, D. Fernando, e do Duque de Viseu, D. Diogo), a aliança com Castela, o casamento do herdeiro com a filha dos Reis Católicos, a ideia de uma economia dominante na Península Ibérica que pudesse ser base sólida de um Império universal – eis as bases da política de D. João II. Trocavam-se os bens obtidos na costa de África pelo trigo de Marrocos e das ilhas e pelas mercadorias da Europa, onde se recebiam têxteis, tapetes, cavalos e latão. Em 1482 é fundada a importante feitoria de S. Jorge da Mina, entreposto para o financiamento das navegações… Depois das expedições de Diogo Cão até ao Zaire e da chegada de Bartolomeu Dias ao Cabo da Boa Esperança, tendo sido trazido um emissário do Rei do Congo (1487), decidiu D. João II destacar os dois enviados para alcançarem a Etiópia e a Índia. Afonso de Paiva morreu, mas Pêro da Covilhã viajou pelo subcontinente indiano, pela Pérsia e pela África Oriental, fixando-se na Etiópia, onde mais tarde partilhou informações…. Há diversos mistérios por desvendar relativamente à interrupção das navegações depois de 1488. A lista de razões é conhecida: teriam sido resistências cortesãs visando beneficiar o comércio do Norte de África? Seria um tempo de espera para melhor preparação? Seria uma antecipação ou prevenção da eventual chegada de Colombo às Caraíbas? Seria a previsão de um conflito gerado pela reivindicação de conquistas perante o Papa aragonês Alexandre VI? O certo é que o casamento do Príncipe D. Afonso com D. Isabel filha dos reis católicos gorar-se-ia com a sua trágica morte (1491). E o Tratado de Tordesilhas (1494) torna-se necessário já não para regularizar as influências no Atlântico Norte, mas para definir a divisão do Mundo. O avanço do meridiano para ocidente de Cabo Verde até 370 léguas, envolve novos enigmas: seria o Brasil já conhecido? Teria Duarte Pacheco Pereira feito o reconhecimento do território? A segunda viagem à Índia capitaneada por Pedro Álvares Cabral aponta nesse sentido. Em 1495 o Rei morre no Alvor e em 1497 retomam-se as navegações. Que buscam os navegadores com Vasco da Gama? Na fórmula repetida: cristãos e especiarias. E João de Barros relata o essencial - «e porque D. Manuel com estes reinos e senhorios, também herdara o prosseguimento de tão alta empresa como seus antecessores tinham tomado – que era o descobrimento do Oriente por este mar Oceano – quis logo no primeiro ano do seu reinado acrescentar à Coroa deste reino novos títulos. Sobre o qual caso (…) estando em Montemor-o-Novo teve alguns conselhos gerais em que houve muitos e diferentes votos e os mais foram que a Índia não se devia descobrir». Mas o Rei decidiu avançar!

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H. HUMANISMO


Damião de Góis (1502-1574) é símbolo do humanismo universalista português. É um bom fantasma, que em lugar de se deixar encerrar dentro dos nossos limites, dialogou com os grandes espíritos do seu tempo. Foi hóspede e confidente de Erasmo de Roterdão, foi desenhado por Albrecht Dürer. Foi historiador, epistológrafo, diplomata e viajante. Na corte de D. Manuel sofreu influência de Cataldo Sículo (1455-1517), precetor de príncipes portugueses, que o influenciou para o estudo dos clássicos greco-latinos, e conheceu as principais personalidades da política e cultura portuguesas do tempo. Nesses anos iniciais, conviveu com matemáticos, músicos, poetas e navegadores. Com o apoio de D. João III pôde libertar-se das suspeitas inquisitoriais, o que não aconteceu no tempo seguinte, designadamente sob o poder do Cardeal-Rei. A sua biografia e a sua obra dão-lhe um lugar fundamental no panorama da cultura europeia. E quando hoje se visita Alenquer, sentimos a presença positiva de Damião de Góis e a sua lição de abertura e liberdade. Ainda ao falarmos de humanismo, lembramos a reflexão de Jaime Cortesão no tocante ao humanismo universalista franciscano, como raiz da primeira globalização e do Renascimento.

Sobre a nossa cultura, António José Saraiva falou do “estar-se onde não se está”, o que levaria os portugueses a serem religiosos e heréticos; ortodoxos, mas heterodoxos; emigrantes mas não colonizadores (por força da miscigenação); aventureiros, mas radicados (como na Diáspora); pobres mas generosos; e atrasados, mas crentes num destino. De Gil Vicente a António José da Silva, o Judeu, de Garrett a Camilo e Eça de Queiroz encontramos a exigência crítica como contraponto à indiferença ou ao conformismo. Quanto ao “país de suicidas” de Unamuno, este não seria senão manifestação de inconformismo e de combate à passividade e à irrelevância. O Padre Manuel Antunes, lembrado por Miguel Real, afirmou: “Reencontrar o antigo, por vezes mesmo o mais antigo para criar algo de novo (…). A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de rutura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo” … Uma história antiga, com raízes culturais múltiplas, encontro entre vontade e destino – tudo se somando numa Ibéria em que a nossa “maritimidade” se contrapõe à “continentalidade” de Espanha, projetando nos dois símbolos contrapostos – Fernão Mendes Pinto, como personagem múltipla no mundo, e D. Quixote, como imaginação e sonho. A multiplicidade da aventura da Peregrinação sublima-se na vontade do povo que Herculano encontra como explicação da independência e da unidade. O Brasil é a imagem grandiosa da frente marítima europeia de Portugal, enquanto as Espanhas projetam-se na América em múltiplos países… Segundo Eduardo Lourenço, faltou-nos mentalidade europeia desde a segunda metade do século XVI. Por isso Antero nos ensinou au não nos escondermos no nosso passado (o Messias de Portugal é o seu próprio passado). E não podemos deixar de recordar a importância de Matias Aires (1705-1763). Para o filósofo luso-brasileiro, a verdadeira felicidade não é a ilusória: do poder, da riqueza e da fama; é, sim, a “da aproximação incessante à verdade, exigindo o desmascaramento da vaidade individual e social, findando no estado interior de serenidade de quem sabe (…) que tudo é vaidade” …

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G. GIL VICENTE


Que fantasma se segue? Um dos mais previsíveis. Um cultor de máscaras e da suprema arte de Thalia, que Talma celebrizou.. O sétimo fantasma respeita, assim, ao teatro. Das três graças da corte de Afrodite – Tália fazia nascer flores, Eufrosina dava sentido à alegria e Aglaia repesentava a claridade. Já François-Joseph Talma (1763-1826), seria o ator favorito de Napoleão, reconhecendo ao teatro uma essencial função na vida cívica, como arte por excelência da representação e da busca da verdade. O nosso Garrett seguiria esses mesmos passos, essenciais a um regime de liberdade. Mas em Portugal, é Mestre Gil (talvez autor da Custódia de Belém segundo Teófilo Braga, ou pessoa diferente segundo Camilo) o grande símbolo da representação da vida como movimento, liberdade crítica e ensinamento. Não tendo sido o primeiro no teatro português foi, no entanto, o mais célebre. De facto, Gil Vicente (c. 1465-1536), é uma das referências fundamentais da cultura e da língua portuguesas. Pouco se sabe dele, ou pelo menos muito menos do que gostaríamos, mas lê-lo e seguir a sua obra multifacetada e rica, é o modo que temos para poder compreender as nossas raízes. Lembremo-nos do “Auto da Índia” (1509), retrato das contradições das gentes na capital do Império e da presença dos “fumos da Índia”, mas também do “Auto da Lusitânia” (1532), que a audácia de Almada Negreiros representou como se os dois protagonistas – Todo o Mundo e Ninguém – fossem dois irmãos gémeos, como verdadeiramente o são. Quer no “Auto da Índia”, quer no “Auto da Lusitânia”, mestre Gil representou as figuras essenciais da epopeia da Índia como verdadeiros símbolos, o que levou Almada Negreiros a fazer uma interpretação livre na caracterização das personagens. Como acontece com a maior parte dos Autos, Comédias e Farsas de Gil Vicente, há um fundo ético, que não significa sisudez, mas que representa aguda consciência do picaresco. Este fundo lírico e religioso leva-nos às raízes trovadorescas, mais uma vez, designadamente aos temas das “Cantigas de Santa Maria” de Afonso X e ao “Cancioneiro Geral” de Garcia de Resende… E assim temos os Autos de Devoção (como da “Visitação”, no “Monólogo do Vaqueiro”, ou nos “ Auto da Alma”, de “Mofina Mendes” e na “Trilogia das Barcas”), as Comédias (como a “do Viúvo”), as Tragicomédias (como “D. Duardos”, e “Amadis de Gaula”), as Farsas (como “Quem tem Farelos?”, “Auto da Índia”, “Velho da Horta” ou “da Lusitânia”, com o célebre entremez “Todo o Mundo e Ninguém”), além das “Obras Miúdas” (como o “Pranto de Maria Parda”). E não esquecemos o que António Tabucchi disse sobre o nosso lado trocista e o culto de trocadilhos, dando como exemplo o Pranto de Maria Parda, onde ela diz “cada traque que eu dou é um suspiro de saudade”. Ruben A. e Nuno Bragança concordariam com a expressão bem portuguesinha. O “Auto da Lusitânia” foi representado quando a corte regressou a Lisboa, depois de ter passado a epidemia de peste na capital (1532). Retrata-se uma família judaica de Lisboa. Lediça, a filha do alfaiate Jacob, varre a “logea”. E entra um cortesão galanteador, fazendo-se a jovem desentendida. Sem sucesso, o atrevido sai, entrando o pai alfaiate, vindo de negócios na cidade. E um amigo diz que é preciso “inventar” um auto, pois a Lusitânia desperta em Portugal um amor especial.  Assiste-se então ao frutuoso casamento de Portugal com a princesa Lusitânia. Dinato descreve a Berzebu o diálogo entre Todo o Mundo e Ninguém. E conclui com a célebre frase “Todo o Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade”. A sobriedade e a sabedoria são qualidades que a Lusitânia e Portugal representam nas suas almas gémeas. Eis por que razão este sétimo fantasma diz, assim, muito sobre quem somos. Diferentes e insatisfeitos. Reconhecendo a imperfeição. Buscadores de mitos como chave da compreensão das nossas raízes.

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F. FERNANDO PESSOA


Zé Fernandes e porventura Jacinto poderiam ter encontrado um dos fantasmas de Pessoa… Como saído da lâmpada de Aladino, esse espírito encontra-se na misteriosa arca… Pessoa é um escritor vulcânico, di-lo Richard Zenith: “quando as palavras começavam a fluir, usava todos os tipos de papel à disposição – folhas soltas, blocos de notas, papel de carta dos cafés que frequentava, páginas arrancadas de agendas ou calendários, as costas de tiras de banda desenhada e folhetos, sobrecapas, bilhetes de visita, sobrescritos e margens de manuscritos alinhavados alguns dias ou anos antes. E todos eram por ele depositados na grande arca de madeira: a herança que deixou ao mundo.

«Mais surpreendentes do que os escritos exumados da arca (foram) as dúzias de alter egos desconhecidos que, depois de se esconderem lá durante anos, entraram no mundo como se tivessem sido despertados de um sono encantado”. Do filósofo esotérico Raphael Baldaya ao ultra-racional Barão de Teive, passando pelo único heterónimo feminino, o da tuberculosa Maria José, apenas três dos autores criados por Pessoa, tiveram desenvolvimento pleno – Alberto Caeiro da Silva (1889-1915) autor de “O Guardador de Rebanhos” e de “O Pastor Amoroso”; Ricardo Sequeira Reis (1887), médico, professor de Latim no liceu, autor de odes clássicas ao modo de Horácio, emigrado no Brasil e Álvaro de Campos, engenheiro naval, formado na Escócia, nascido em Tavira (1890), o mais assertivo e prolífico dos heterónimos pessoanos… Mas o mais importante trabalho de Pessoa em prosa foi o “Livro do Desassossego”, que “ilustra o princípio da incerteza que percorre o seu universo literário”. São quinhentos fragmentos, que apenas viram a luz do dia em 1982, cujo narrador é Bernardo Soares, um semi-heterónimo, para quem “o único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios”. Zenith compara esse livro ao de Robert Musil “O Homem sem Qualidades”. Contudo, a ausência e a sobreabundância de qualidades representam as faces contraditórias do homem moderno. Foi preciso tempo, porém, para que os leitores de Pessoa pudessem compreender uma poética de identidade fragmentada. Eduardo Lourenço foi quem, de modo original, pôde compreender os elos íntimos dessa misteriosa diversidade em “Pessoa Revisitado”. Talvez tenha sido positivo o atraso na revelação dessa obra crucial, para que a crítica pudesse ultrapassar as primeiras impressões. Com recusa do completo e do definitivo, Pessoa interessa-se pelo oculto e a heteronimia pode ser explicada como um meio quase religioso, mágico ou alquímico que permite progredir, na viagem espiritual de Pessoa, que anseia sentir por tudo de todas as maneiras possíveis. E há uma citação misteriosa e isolada, entretanto encontrada, de um fragmento da carta de S. Paulo aos Coríntios, que parece ser reveladora: “Eu me fiz tudo para todos, a fim de salvar a todos”. A diversidade é uma indelével marca pessoana. Nos amores, tem com Ofélia Queiroz uma relação indecisa e a marca de uma sexualidade difusa. Na política, António Mora defende a causa alemã na guerra, enquanto Pessoa se inclina para os Aliados, com entusiasmo limitado. A verdade é que é a arca, mais do que os testemunhos pessoais, a grande reveladora da vida misteriosa do poeta. Tímido e delicado na conversa, tinha sentido de humor, vestia com esmero e era muito educado. Há unanimidade na apreciação. Quanto a confissões autobiográficas, encontramo-las em toda a parte. Na “Tabacaria”, Campos fala do hipotético amor com a filha da lavadeira e acena ao Esteves pela janela. Tudo pode acontecer. Como afirmou John Keats, “a vida de um homem digna de valor é uma alegoria contínua”. O que Pessoa imaginou, visionou e projetou foi único na sua vastidão e variedade. - «Sê plural como o universo!» - escreveu de forma imperativa num papel encontrado na arca, na década de 1960. Que fantasma se segue?   

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(Ilustração de António)


E. EÇA DE QUEIROZ

 

Ficámos na paisagem etérea do Olimpo, contando com o inesperado companheirismo de umas vetustas personagens que nos enchem ainda hoje de entusiamo, e que são as divindades greco-latinas. De súbito, recorremos ao Cronoscafo. Esse mesmo, o de Mortimer, a lembrar H. G. Wells. E, num ápice chegamos a Paris, no final do século XIX. E lemos José Maria Eça de Queiroz num clássico: «Era de novo fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu de onde fugiam anéis dum cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. - Ó Jacinto! - Ó Zé Fernandes! O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade: -Há sete anos!... E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida que a lã dum tapete. No meio, o vaso coríntico esperava abril para resplandecer com tulipas e depois junho para transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, as duas magras Deusas de pedra» …  Demos um salto imenso no tempo. Nada é mais preciso!

«- Eis a Civilização! Jacinto empurrou uma porta, penetramos numa nave cheia de majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes elétricos, refulgindo entre os lavores do teto, alumiou as estantes monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores num concílio. Não contive a minha admiração: -Ó Jacinto! Que depósito! Ele murmurou, num sorriso descorado: -Há que ler, há que ler.... (…) -Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr. -E, com efeito, duma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete como uma tênia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azov entrara em Marselha com avaria! (…) Depois parei em frente da estante que me preocupava, assim solitária, à maneira duma torre numa planície, com o seu alto farol. Toda uma das suas faces estava repleta de Dicionários; a outra de Manuais; a outra de Atlas; a última de Guias, e entre eles, abrindo um fólio, encontrei o Guia das ruas de Samarcanda. Que maciça torre de informação! (…) Escapei, respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa lombada verde, o nome de Adam Smith. Era, pois, a região dos economistas». Os fantasmas que por aqui pululavam eram os mais ilustres. Platão ombreava com Hobbes. E eis que deparamos com os dois fantasmas bem conhecidos de Jacinto e Zé Fernandes…

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D. DEUSES (CONCÍLIO DOS)


“Chiquinho” pôs-nos perante o dilema do ficar ou do partir – eis a grande dúvida, neste ponto do nosso folhetim… Se falamos de enigmas numa história de fantasmas, nada melhor do que seguir caminho até ao Olimpo, para nos encontrarmos perante um curioso debate entre espíritos supremos sobre esse dilema de seguir em frente ou de tornar atrás. Para chegar ao Olimpo é preciso passar por “perigos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana”. E damo-nos com um Concílio. Eu sei que podemos escrever Consílio, mas mantemos a fórmula comum, mesmo que esta se confunda com a reunião de um areópago religioso. Olimpo é mais do que isso, e mantem-se a letra c… “Já no largo Oceano navegavam, as inquietas ondas afastando” … “…Os Deuses no Olimpo luminoso / onde o governo está da humana gente / Se ajuntam em concílio glorioso”. E ouvimos a voz de Júpiter, a defender os portugueses, afirmando serem estes um povo de grande valor, como ficou demonstrado no tempo largo. É a coragem dos portugueses que os leva a navegarem em mares desconhecidos, em frágeis naus, enfrentando ventos e tempestades. Que diz o pai dos deuses? “Que sejam, determino, agasalhados / nesta costa africana como amigos, / E, tendo guarnecida a lassa frota / tornarão a seguir a sua longa rota” (C. I, 29). E eis que irrompe a voz de Baco, opondo a sua voz à decisão de Júpiter, argumentando que os portugueses se tornariam superiores a ele próprio no Oriente. Vemos aqui o confronto da primeira globalização. Baco teme a mudança. Júpiter compreende o desenho do novo mundo. Mas, depois de Baco, ouvimos Vénus, belamente representada na gravura de Desenne da edição de 1837 de “Os Lusíadas” do Morgado de Mateus. Vénus defende os portugueses porque se trata de gente que se assemelhou ao povo romano, em coragem e valentia. E assim com o contributo dos portugueses seria Roma, por certo, pela fama e pela língua, venerada também no Oriente. “Ou porque o amor antigo o obrigava / ou porque a gente forte o merecia”. E Marte também defende a estirpe dos descendentes de Luso ou Lisa, de Baco filhos ou companheiros, porque achava que eles bem o mereciam e, deste modo, Vénus estava na plena razão. Por isso, Marte ordena que se façam respeitar as ordens de Júpiter pois Baco não tinha razão, agindo por despeito, devendo os descendentes de Luso ou Lisa merecer recompensa. E Camões escreve no mármore puro: “E tu Padre de grande fortaleza, / Da determinação que tens tomada / Não tornes por detrás, pois é fraqueza / Desistir-se da cousa começada. / Mercúrio, pois, excede em ligeireza / Ao vento leve e à seta bem-talhada. / Lhe vá mostrar a terra, onde se informe / Da Índia e onde a gente se reforma”. Mas a história fantasmática prossegue, e Baco, inconformado, instiga o governador de Moçambique contra os portugueses e põe a bordo um falso piloto, mas graças a Vénus, às nereidas, a Mercúrio e à coragem de Gama, os portugueses chegam a Melinde. Inicia-se o relato ao rei Melinde da história de Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa” e das origens, de Viriato até à morte de Inês de Castro. É claramente o partir que prevalece e o longo e belo episódio da Ilha dos Amores corresponde à decisão de Vénus de premiar os navegadores por tal decisão, numa ilha paradisíaca.  E oiçamos o soneto: “Busque Amor novas artes, novo engenho, / para matar-me, e novas esquivanças; / que não pode tirar-me as esperanças, / que mal me tirará o que eu não tenho…”. Luís de Camões representa a maturidade poética da língua portuguesa. É o supremo cultor do idioma. Toda a obra do grande épico e lírico constitui oportunidade para lidarmos com uma riquíssima convergência entre o amor e a beleza, os maravilhosos pagão e cristão, servidos pelo domínio exemplar da palavra e da imagem. E prosseguimos assim a caminhada entre espíritos, como se estivéssemos numa máquina do tempo…

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