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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

"HÁ POEMAS..."

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Há poemas que saíram discretamente em revistas com pequenas tiragens e hoje fazem parte do património de um povo ou mesmo da humanidade. O Centro Nacional de Cultura não é uma organização de massas, mas com uma longevidade impressionante tem marcado, pelas intervenções directas e pelas pontes que promove, a vida portuguesa de forma cirurgicamente interventiva, assinalando acontecimentos, abrindo horizontes, promovendo reflexões, interpelando com notável equilíbrio e espírito de diálogo, congregando muitos dos espíritos mais lúcidos e das figuras mais marcantes da nossa... cultura.

Seja-me permitida uma nota pessoal que recorda um dos vectores chave do CNC (e haveria que acrescentar as viagens ao estrangeiro com a portugalidade como pano de fundo). Sem prejuízo de um longo acompanhamento, incluindo a revista "Raiz e Utopia", e de uma ou ou outra colaboração, o nosso (casal, Teresa Curvelo e eu) período áureo de vivência relacionada com o Centro Nacional de Cultura coincidiu com a Direcção de Helena Vaz da Silva e teve a sua expressão maior nalguns passeios / roteiros no País, inesquecíveis.

O passeio garrettiano no Tejo com Joel Serrão. A visita à Assembleia da República. A Estação Elevatória dos Barbadinhos com Fernando Castelo Branco, Jorge Graça e José Manuel Fernandes e o Aqueduto das Águas Livres, em que felizmente não nos cruzámos com Diogo Alves. A visita ao Palácio de Belém com José António Saraiva durante a presidência de Ramalho Eanes (ele e a Mulher impecáveis anfitriões), na altura em que se aproximavam as eleições em que estaria em jogo a sua reeleição, num ambiente já algo tenso embora ainda longe da tragédia de Camarate. Que sei eu!

Mas a escolher um roteiro, talvez a fantástica visita a Alcobaça, dos telhados ao jantar na fabulosa cozinha, com Rui Rasquilho. Memorável! 

 

João P. Boléo

XAILES NO FINAL DAS TARDES

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Quando comecei a frequentar sozinha o Centro Nacional de Cultura, nunca esqueci as palavras que um dia me disse António Alçada Baptista, na Capela do Rato: 

Não esqueças Teresa!, tens ali também um espaço no qual as opções convivem. Um espaço onde se atreve a dizer. Um espaço carinhoso, também.

Na verdade, muito antes de escrever para o Blogue do Centro Nacional de Cultura, passou a fazer parte do meu itinerário espiritual, saber o que se passava nesta Casa e a ela estar atenta.

Assim, ir ao C.N.C., foi sendo o mesmo que ir a um local de perspetivas, e por sua causa, algumas vezes, fui capaz de ali viver tempos de verdade, com pensamentos e com palavras e com pessoas e com ações.

Muitas vezes, senti, nalguma hora, como se fossemos prometidos a nós mesmos, no ali confrontar e consolidar caminhos, por um mundo que não era o do imenso peso do homem caído.

Em muitos finais de tarde, dali saía, sem sentir os acesos frios dos processos de incomunicação, ou, do C.N.C., não viessem os aconchegos dos homens e mulheres de boa vontade, para mim, invisíveis e generosos xailes, no final das tardes.

Que o futuro testemunhe sempre!

Felicidades!  

 Teresa Bracinha Vieira

CNC: 75 ANOS DE VIDA

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Já há 75 anos! Três jovens vinham de Fátima e, em boa hora, lembraram-se de criar um clube cultural, que reunisse artistas, escritores, poetas... António Seabra, Afonso Botelho e Gastão da Cunha Ferreira lançaram a ideia e ela tornou-se uma realidade, de vários tempos e várias gerações.

Hoje iniciamos uma longa lista de depoimentos e testemunhos. Durante um ano, teremos aqui suculentas histórias. Para já algumas lembranças necessárias. Antes de tudo o nosso querido sócio número 1, Presidente da Assembleia Geral - o Gonçalo Ribeiro Telles, pioneiro, mestre, referência fundamental, até nesta Lisboa Capital Verde.... Está bem presente, sobretudo no seu exemplo de vida. Em 2019 celebrámos o centenário de Sophia, nossa Presidente, referência nossa sempre. Este ano celebramos o centenário de Francisco Sousa Tavares, elemento fundamental na durabilidade do CNC. Tantos nomes que temos a recordar... Helena Cidade Moura, Nuno Teotónio Pereira, José Manuel Galvão Teles, António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Fernando Amado (nesta casa de Teatro, onde nasceu a Casa da Comédia). Não os esqueceremos... E os cursos livres? Semiótica com Eduardo Prado Coelho, marxismo com António Reis... Um dia convocaram Frei Bento Domingues para a PIDE - e quando lá chegou disse apenas: para mim a Rua António Maria Cardoso é só o Centro Nacional de Cultura. Aqui esteve a Comissão de Apoio aos Presos Políticos, aqui houve liberdade para discutir tudo, para discordar e concordar. Sempre.

E uma palavra especial de vida e de saudade para Helena e Alberto Vaz da Silva, que fizeram o Centro continuar fiel às suas raízes e tradições livres e democráticas!

 

     Testemunhos

 

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NA RUA DA PIDE?

por Francisco Seixas da Costa
“Tens a certeza que é ali?”, foi a pergunta que fiz quando um amigo me convidou para ir ouvir Salgado Zenha ao “Centro Nacional de Cultura”. “Na rua da Pide?”. Assim era.
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Sala do CNC nos anos 80.jpg

 

ÉRAMOS ASSIM NOS ANOS SETENTA...
por Luís Filipe Castro Mendes
Foi pelos meus verdes anos de actividades subversivas nas associações de estudantes da Universidade. Um amigo (tu, Mário Mesquita? tu, Jorge Silva Melo?) falou-me de uma conferência a não perder num lugar de Lisboa chamado “Centro Nacional de Cultura”.
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XAILES NO FINAL DAS TARDES
por Teresa Bracinha Vieira
Quando comecei a frequentar sozinha o Centro Nacional de Cultura, nunca esqueci as palavras que um dia me disse António Alçada Baptista, na Capela do Rato…
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"HÁ POEMAS..."
por João P. Boléo
Há poemas que saíram discretamente em revistas com pequenas tiragens e hoje fazem parte do património de um povo ou mesmo da humanidade.
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NA RUA DA PIDE?

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“Tens a certeza que é ali?”, foi a pergunta que fiz quando um amigo me convidou para ir ouvir Salgado Zenha ao “Centro Nacional de Cultura”. “Na rua da Pide?”. Assim era.

Na Lisboa do boca-a-boca que então prosperava, assente nos cafés e nas livrarias, nesse início dos anos 70, começou a certa altura a constar que uma estrutura de raiz monárquica, “tomada” por uma onda democrática, estava a organizar debates políticos, procurando testar as margens da legalidade, já após a frustrada aventura eleitoral de 1969. Ao mesmo tempo, havia por lá uns cursos ao final da tarde, da Semiologia ao Marxismo (é verdade!) e outros temas interessantes. As salas, a certa altura, eram pequenas para o interesse que tudo aquilo já despertava, a muitos de nós e a uns cavalheiros que, à légua, se notava que estavam ali vindos da vizinhança...

Não gosto de falar em “bons tempos”, porque o não foram, de todo!

Mas que havia algo de divertido, de um saudável entusiasmo cívico, em toda aquela agitação no CNC, lá isso havia! Foi assim que eu lá cheguei, há meio século.

Francisco Seixas da Costa     

ÉRAMOS ASSIM NOS ANOS SETENTA...

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Foi pelos meus verdes anos de actividades subversivas nas associações de estudantes da Universidade. Um amigo (tu, Mário Mesquita? tu, Jorge Silva Melo?) falou-me de uma conferência a não perder num lugar de Lisboa chamado “Centro Nacional de Cultura”.

- Centro Nacional de Cultura? Isso é fascista! – protestei logo.

O regime tinha-nos roubado a própria ideia de Nação, para a reduzir àquela odiada ideologia de extrema direita vigente e reinante no nosso país. “Nada contra a Nação” significava então “nada contra a república unitária e corporativa e sua democracia orgânica”.

O amigo explicou-me que não, que este centro nacional não era uma instituição do regime, era um lugar de liberdade.

A primeira vez que lá fui, bem antes do curso do Eduardo Prado Coelho sobre o estruturalismo, onde encontrei a menina que mais tarde se dispôs a casar comigo, bem antes das conferências da Maria Belo (tão bonita!) sobre psicanálise lacaniana, onde o meu id se debatia em vão com o meu ego, nessa primeira vez estava na sala um homem alto e muito assertivo, que depois soube ser Francisco Sousa Tavares, pai do meu colega Miguel e marido da muito por mim admirada poeta Sophia.

Ora a certo ponto da conferência (de quem?) ouviu-se da rua (janela aberta, verão portanto ou primavera) vozes dirigidas ao lugar onde estávamos, insultando em tom vulgar e ordinário o “Tareco”.

Eu não sabia quem era o “Tareco”, mas vi Francisco Sousa Tavares levantar-se, muito calmo, e explicar:

- São os pides. Saem da António Maria Cardoso, aqui ao lado, e vêm cá meter-se comigo.

Dirigiu-se então à janela e durante alguns minutos trovejou aos pides da rua troças e vitupérios do mais profundo desprezo.

Fez-se silêncio e Sousa Tavares voltou ao seu lugar, muito risonho, e pediu que fosse retomada a sessão.

Ciente então do que era o Centro Nacional de Cultura, passei a frequentá-lo desde esse dia.

     Feliz aniversário!

Luís Filipe Castro Mendes     

A VIDA DOS LIVROS

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   De 19 a 25 de março de 2018

 

«Memórias» de Rómulo de Carvalho (edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010) é um precioso relato de uma vida muito rica de um grande pedagogo, homem de ciência e humanista.

 

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MESTRE DE MESTRES

 

Era Campo de Ourique e chovia. Foi o dia em que, muito justamente, fomos lembrar e homenagear Rómulo de Carvalho na casa onde morou. Com uma ponta de emoção, o Presidente da República não pôde deixar de lembrar, com palavras oportuníssimas do mestre, os tempos em que teve como professor o homenageado de agora. E ficou como marco dessa invocação uma placa, que lembrará a quem por ali passar o professor, o poeta, o homem de ciência, numa palavra, o humanista no sentido mais rico do termo. O quarteirão desse bairro cheio de memórias é, aliás, o mesmo em que viveu Bento de Jesus Caraça… E tal placa levará os passantes à recordação do exemplo de quem foi sempre um legítimo praticante da arte de ensinar e aprender. Sim, porque para o pedagogo de exceção o fundamental era compreender que há sempre uma troca quando se trata de educar. É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico (ao seu trabalho se deve a publicação das Memórias), Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes”. Para Rómulo de Carvalho, o experimentado docente: “o Professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências”. Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro – com encenação, marcação, representação e climax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de Rómulo de Carvalho. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. No testemunho de duas discípulas, Alcina do Aido (minha professora) e de Maria Gertrudes Bastos: “a preocupação que nos procurava incutir com a maior ênfase era a necessidade de, nas vésperas de uma lição em que se previa a realização de uma certa experiência, executá-la com o maior cuidado, testando todo o material até ao último pormenor, na tentativa de evitar qualquer falha que pusesse em risco a conclusão que se pretendia tirar”…

 

 

A CHAVE DA CIVILIZAÇÃO

 

Num texto intitulado Presença de Descartes afirmava: “A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem”. E isto obriga à liberdade criadora – de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta… Não esqueço, como na sua História do Átomo da coleção Ciência para Gente Nova (Atlântida) dizia: “A história do átomo é a história de uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das atividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso”. António Gedeão era uma figura à parte, que não iludia a personalidade do seu criador, mas não se confundia com ele. Daí que Rómulo de Carvalho tenha tido o cuidado de o fazer sair do mundo dos vivos antes dele próprio. De facto, há uma fronteira, que permite compreender que a ciência e arte se ligam, na compreensão dos diferentes métodos que usam. Rómulo de Carvalho era um homem do método. Em célebre artigo publicado na revista “Palestra” em 1959, intitulado “A Física como objeto de Ensino”, afirmava ser “necessário ter cuidado ao considerar a experiência como base fundamental do ensino da Física em vista do seu valor como estimulante do processo indutivo. Realmente, não é a experiência que permite a indução. Somos nós, nós os que ensinamos, com as palavras que escolhemos e proferimos no decorrer da sua execução, com as nossas hábeis insinuações, com as nossas escamoteações oportunas, com o nosso conhecimento sagaz do aluno e das suas circunstâncias. Nós somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo”. Esta a chave fundamental da Educação, compreendendo-se que estamos sempre perante o complexo desafio de ligar a aprendizagem, o conhecimento, a relação direta entre o professor e o aluno, a valorização do trabalho, da exigência e da justiça. O essencial da educação está na aprendizagem. Esse o elemento crucial, que não pode ser alvo de confusões ou de qualquer tipo de inversão de valores. Só há Educação justa se houver exigência, só a qualidade pode combater a exclusão e a desigualdade.

 

 

LEMBRAR TAMBÉM NATÁLIA NUNES

 

Há poucas semanas, fomos despedir-nos de Natália Nunes. Então pude lembrar, com sua filha Cristina, o percurso multifacetado e rico da mulher de Rómulo de Carvalho, que ele tanto admirava. Não esqueço a última vez que a acompanhei à rua Sampaio Bruno, depois de termos ido ao Liceu de Pedro Nunes homenagear o Professor no seu Laboratório de Física, pleno de recordações e lugar onde pôde exercer a sua missão didática, pedagógica e científica. Foi uma oportunidade para lembrar a personalidade excecional de Rómulo na instituição secular que tanto marcou. Personalidade discreta, Natália Nunes é uma grande escritora, que foi sempre uma cidadã aberta e corajosa, a quem devemos Autobiografia de uma mulher romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1964) e Vénus Turbulenta (1997) – além de contos, ensaios e traduções. Era uma pessoa de rara sensibilidade e de grande cultura – que se singularizou como profissional de referência no mundo das Bibliotecas e Arquivos. Tenho testemunhos de muitos dos com ela trabalharam ou a ela recorreram bem demonstrativos das suas excecionais qualidades. Posso confirmá-lo pessoalmente. Falámos longamente, e era a liberdade da cultura que cultivava e uma fantástica curiosidade pelo mundo e pela vida – como notamos na sua obra, na variedade de temas e situações e no contacto conhecedor com a melhor literatura de Tolstoi, Dostoievski e Balzac, além de Raul Brandão. Nas palavras que troquei no dia da homenagem a seu pai com Cristina Carvalho pude ligar as duas personalidades cativantes que tive o gosto de conhecer e admirar – completavam-se naturalmente e o amor à cultura, à ciência e aos livros era apaixonante.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

INICIAMOS O ANO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL -2018!

 

O património cultural não se refere apenas ao passado, mas à permanência de valores comuns, à salvaguarda das diferenças e ao respeito do que é próprio, do que se refere aos outros e do que é herança comum. Como compreenderemos a Europa sem o diálogo entre a tradição e o progresso, sem o entendimento das raízes e sem a complementaridade entre judeus, cristãos e muçulmanos? Urge entender, afinal, que o que tem mais valor é o que não tem preço. A compreensão do património cultural que nos permite assumir uma cidadania civilizada. Desde a Torre dos Clérigos ou da charola do Convento de Cristo à custódia de Belém, passando pela pintura de Nuno Gonçalves, pela poesia trovadoresca, pela lírica e épica de Camões ou pelo Romanceiro de Garrett, estamos perante símbolos do caminho de um povo, que se afirmou e engrandeceu em contacto e no respeito dos outros.

 

O Comissário Europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no Fórum Europeu da Cultura de Milão, não estarmos a falar «de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos». De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultiva-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. É tempo de não deixar o património ao abandono, de estudá-lo e compreendê-lo designadamente através de uma forte aposta na educação de qualidade para todos. Como poderemos compreender um monumento ou uma obra de arte se não soubermos de onde vem e qual o seu significado?

 

O conceito moderno de património cultural, definido na Convenção de Faro, valoriza a memória e considera-a fator de cidadania, de dignidade e de democracia. Quanto à atenção e ao cuidado, pensamos que vai haver muito mais pessoas despertas para o culto e a proteção do património.

 

Se é verdade que, segundo o Euro-barómetro, 8 em cada 10 europeus consideram o património cultural importante, não só para cada um, mas também para a comunidade, para o país e para a União no seu conjunto, importa compreender que estamos a falar de um fator crucial para podermos superar egoísmos, fechamentos e conflitos insanáveis. Mais de 7 em cada 10 europeus concordam com a necessidade da ligação entre património e qualidade de vida, em nome de um desenvolvimento humano. E 9 em cada 10 consideram que o despertar nas escolas para a defesa do património é fundamental. As políticas culturais têm de se centrar cada vez mais na atenção efetiva atribuída ao património cultural.

 

Não podemos esquecer o valor económico do património cultural como fonte de desenvolvimento – 7,8 milhões de postos de trabalho na União Europeia estão ligados indiretamente ao tema, como o turismo e tantos serviços conexos como a mobilidade, a segurança e o conhecimento. 300 mil pessoas estão diretamente ligadas ao património na União Europeia. Afinal no velho continente está cerca de metade dos sítios classificados (mais de 450) no âmbito do Património Mundial da UNESCO. Compreende-se que a decisão de declarar 2018 como o Ano do Património corresponda à afirmação de um desígnio ambicioso: baseado na necessidade de consagrar a mobilização de vontades em torno de uma herança comum, de um ideal europeu de respeito mútuo, de qualidade e de humanismo, certos de que não podemos deixar ao abandono o que nos legaram as gerações que nos antecederam, nem acomodar-nos à irrelevância e à mediocridade. Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança? Procura-se sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura – com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista.

 

CNC

DO MELHOR DO ANO 2017 NA CULTURA

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Livro português:

Jalan Jalan, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

 

Livro traduzido:
145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop)

 

Ficção Internacional:

Lincoln in the Bardo, George Saunders (Random House)

Há tradução portuguesa: Lincoln no Bardo (Relógio d’Água)

 

Cinema:

Silêncio, Martin Scorsese

 

Cinema - Portugal:

Peregrinação, João Botelho

 

Televisão:

Handmaid’s Tale, Bruce Miller

 

Portugal - Televisão cultural:

Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro

 

Música:

From Baroque to Fado, Os Músicos do Tejo, dir. Marcos Magalhães

 

Divulgação musical portuguesa:

RTP, Antena 2.

 

Exposição:

José de Almada Negreiros - Uma Maneira de Ser Moderno, Gulbenkian.

 

As escolhas são algo aleatórias.

Não há um júri, mas a qualidade é o critério fundamental.

Boas iniciativas culturais!

 

CNC