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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 a 31 de janeiro de 2021

 

“Contos Populares Portugueses” de Adolfo Coelho (Paulo Plantier, 1879) constitui uma tentativa séria de preencher uma lacuna na cultura portuguesa e que tem a ver com a ausência de uma recolha sistemática, ao longo dos séculos, de exemplos coevos da cultura popular no imaginário literário.

 

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CONTOS DA CULTURA POPULAR

Como diz Adolfo Coelho (1847-1919) no prefácio da obra: «Os contos que publicamos não têm todos igual valor, mas oferecem todos mais ou menos interesse sob o ponto de vista tradicional. Em regra, pode considerar-se a tradição dos contos entre nós como assaz obliterada; falta-lhes vida, poesia, muitas vezes referência; muitas feições significativas em versões doutros países tornaram-se aqui ininteligíveis e só pela comparação se explicam. A sua forma em geral é seca, monótona, enumerativa. Alguns, porém, apresentam-se ainda numa forma excelente, menos deturpados por elementos modernos; noutros, como em todos os países sucede, há o resultado de estranhas combinações de elementos de contos diversos». Insiste o pedagogo que os contos populares «não são ridículas invenções, boas só para divertir gente rude, que não tem cousa melhor para pasto do seu espírito e da sua ociosidade» - e continua: «muita gente, séria e grave na própria opinião, pasmará de que haja quem gaste o seu tempo com tais coisas; mas algumas pessoas haverá também que queiram aprender e para essas escrevemos as observações que seguem, desnecessário aos que estão ao corrente da ciência». Mas reconhece que «a novelística culta de fundo tradicional é um dos ramos mais pobres da nossa literatura; por essa razão a história dos contos populares entre nós não se pode estudar com a clareza que haveria se tivéssemos numerosos documentos do género do que trasladamos. O Orto do Esposo e os Contos de proveito e exemplo de Gonçalo Fernandes Trancoso assumem, por isso, uma importância excecional». A mais antiga edição desses contos é de 1575, segundo Teófilo Braga, mostrando que foram escritos por ocasião da peste de 1569. E Trancoso terá usado a tradição popular como fonte». Entre os contos populares reunidos por Adolfo Coelho, podemos referir: A história da Carochinha; A Formiga e a Neve; O Rabo do Gato; A Torre da Babilónia; Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga; História do Grão-de-Milho; O Príncipe Sapo; O homem que busca estremecer, O Príncipe com Orelhas de Burro; Os Três Estudantes e o Soldado; a Moura Encantada…

 

CIDADÃO E PEDAGOGO

Francisco Adolfo Coelho foi pedagogo, filólogo, etnólogo, linguista e escritor. Exerceu funções de professor do Curso Superior de Letras, onde ensinou Filologia Românica Comparada e Filologia Portuguesa, foi diretor da Escola Primária Superior e lecionou na Escola do Magistério Primário de Lisboa, onde organizou o Museu Pedagógico. Nas Conferências do Casino, em 1871, tratou do tema “A Questão do Ensino”, onde defendeu a separação da Igreja do Estado e a promoção da liberdade de pensamento, como essenciais para o progresso do País pela Instrução Pública. O novo Portugal nasceria, para Adolfo Coelho, da incorporação da cultura popular num projeto da nação no qual a Educação fosse central. As tradições do povo, o seu saber e a pedagogia popular seriam considerados para alicerçar a modernização da sociedade portuguesa e o espírito da sociedade nova centrados na sua cultura. Figura considerada e prestigiada teve nas duas primeiras décadas do século XX um papel importante, designadamente na institucionalização da República, em especial no tocante à organização do ensino secundário superior. Assim, acentuou a necessidade de só se apresentar aos educandos aquilo que estivessem preparados para entender e de lhes dar liberdade de escolha entre algumas disciplinas de opção nas classes superiores do ensino secundário.

 

UM CONTO ATUAL

Como exemplo de pedagogia pela recordação da cultura popular, lembramo-nos do célebre conto tradicional das culturas europeias, que muitos de nós ouvimos contado pelas nossas avós. “O Homem que busca estremecer”, incluído nos “Contos Populares Portugueses”, que constitui uma versão nossa do velho conto dos irmãos Grimm do jovem que partiu em busca do medo. “Era um homem rico e tinha um filho que nunca estremeceu com nada. Dava-lhe o signo dele de ir passar muitas terras e nunca seria timorato, nunca teria medo a cousa nenhuma”. Pediu então o filho a seu pai que lhe desse o seu quinhão para poder partir em busca do medo que lhe faltava. E assim aconteceu, enfrentando mil situações aterradoras. Com demónios estoirando dentro de casas, sempre sem o mínimo calafrio. A tradição germânica relatada pelos Grimm é semelhante. “Um pai tinha dois filhos, o mais velho deles era sábio e sensato, e sabia fazer tudo, mas o mais novo era tolo, e não conseguia aprender nem entender o que quer que fosse”. Mas enquanto o mais velho se negava a ir para locais sombrios e assustadores, nada atemorizava o mais novo. Por mais que tentassem, nada havia que lhe metesse medo – até que um pobre sacristão ficou em muito mau estado quando quis assustá-lo como se fora um fantasma, pois o jovem não se deixou perturbar pela suposta ameaça. Então partiu pelo mundo em demanda do medo. Com cinquenta moedas no alforge, enfrentou perigos, até com risco de vida, mas sempre sem o menor temor. José Gomes Ferreira também tratou do tema nas “Aventuras de João sem Medo” (inicialmente publicadas nas páginas da revista “O Senhor Doutor”, em 1933). Aí, cansado de viver numa terra de choros e queixas, a aldeia de Chora-Que-Logo-Bebes, João decidiu saltar o muro que separava o lugarejo do mundo, em busca de enigmas da infância e de entes fantásticos – bichas de sete cabeças, gigantes de cinco-braços, fadas, bruxas, animais que falavam e ainda o mítico Príncipe de Orelhas de Burro… No conto de Adolfo Coelho o medo seria encontrado num cabaz de pombas que «lhe esvoaram para a cara», causando-lhe estremecimento; no relato de Grimm, o jovem tornar-se-ia rei e tudo terminou num epílogo algo ingénuo e pouco épico, com um balde de água fria, lançado por uma aia da rainha, cheio de gobiões, peixinhos moles e peganhentos, com barbatanas perturbadoras. As metáforas merecem ser lembradas. Os tempos muito incertos e cheios de ameaças que vivemos não permitem que facilitemos as coisas. Ainda estamos longe de nos libertarmos destas condições trágicas. Precisamos de encontrar todos os meios possíveis para inverter a tendência e para podermos salvar vidas. A liberdade individual e a proximidade uns dos outros terão de ser recuperadas com solidariedade e esperança. Sendo atuais, urge compreender o medo e a verdadeira audácia, para não nos desprevenirmos nesta pandemia que nos enlouquece… 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS


   De 29 de agosto a 4 de setembro de 2016

 

«Tudo o que Sobe Deve Convergir» de Flannery O’Connor (prefácio e tradução de Clara Pinto Correia – Cavalo de Ferro, 2006) é um conjunto de contos publicados a longo de vários anos, em diversas revistas, tendo sido dados à estampa depois do falecimento da autora. Quando o volume apareceu a crítica foi unânime a considerar a obra como uma das mais importantes não só da grande escritora norte-americana, mas também do seu tempo.

 

 

CAPACIDADE DE SURPREENDER

Flannery O’Connor (1925-1964) é justamente considerada como uma das mais importantes renovadoras do conto norte-americano no século XX. Tobias Wolff afirmou que a escritora era capaz de voltar às mesmas situações sem perder, porém, a sua extraordinária capacidade de surpreender. Há temas recorrentes, mas sempre a autora faz com que pareçam totalmente novos. Estamos perante o que alguns designam como o «renascimento do sul», de que William Faulkner faz parte e onde se incluem, além de Flannery, Tennessee Williams, Robert Penn Warren, além de Eudora Welty, Katherine Anne Porter e Carson Mc Cullers. Este movimento surgiu na década de trinta como reação à ideia de alguns de que seria necessário preservar a identidade dos Estados do Sul, ameaçada pelo industrialismo urbano e pelo fim da tradição rural. Se F. O’Connor tem características bem diferentes de Faulkner na forma de narrar, o certo é que é porventura a autora que, complementarmente àquele, mais fortemente dá um impulso original à literatura do sul – desconstruindo a narrativa tradicional, na denúncia inequívoca de uma visão fechada da realidade social que encontra à sua volta. «Por detrás do jornal, Julian estava a retirar-se para o compartimento interior da sua mente onde passava a maior parte do tempo. Era uma espécie de bolha na qual ele se instalava quando não suportava tomar parte no que se passava à sua volta. A partir daí ele podia observar e julgar, mas, dentro dele, estava a salvo qualquer tipo de penetração do exterior. Era o único sítio onde se sentia livre da idiotice geral dos seus semelhantes. A mão nunca lá tinha entrado – mas, a partir dele, conseguia vê-la com absoluta claridade». Neste breve passo do conto que dá o título a esta reunião de textos, nota-se muito bem o tom geral desta procura de ver a sociedade a partir do avesso.

 

O CULTO DO PARADOXO

Há na romancista um culto permanente do paradoxo, centrado em situações reais, de modo a demonstrar como é possível ver o mundo de modo distorcido e inverosímil. A lógica do fechamento e de um conservadorismo doentio torna-se uma marca que é vista a partir do absurdo – em que a ironia e a comicidade coexistem com a tragédia. Perante a cegueira de quantos se acham um grupo social dominante e privilegiado, há quem pense que a única maneira de agir é pela provocação. Perante a atitude da mãe e de quantos pensam como ela, o filho (fechado no tal compartimento imaginário) começa «a imaginar diversas formas inverosímeis através das quais pudesse dar-lhes uma lição. Poderia tornar-se amigo de um distinto professor universitário ou de um advogado preto e levá-lo para casa para passar o serão. Seria perfeitamente legítimo, mas a tensão arterial dela subiria até aos 300. Não podia pressioná-la de tal forma que ela viesse a ter um ataque e, para além disso, ele nunca tinha conseguido estabelecer amizade com negros». Nestas fantasias, o anti-herói do conto vai sonhando a forma de tentar inverter a lógica absurda que via desenvolver-se à sua volta. E o relato vai-se desenvolvendo, entre a perspetiva onírica de Julian, e a sucessão de aparições de diversos passageiros num autocarro. No início não há negros, mas depois vão aparecendo, até ao momento crucial - «A porta abriu-se com um sibilar de sucção e, saída da escuridão, entrou com um rapazinho uma mulher de cor corpulenta, de aspeto mal-humorado, vestida de forma garrida. A criança, que devia ter uns quatro anos, trazia um fato curto axadrezado e um chapéu tirolês com uma pena azul. Julian desejou que ele se sentasses ao seu lado e que a mulher se comprimisse ao lado da mãe. Não podia imaginar melhor combinação». Quem conhece o método narrativo de Flannery O’Connor percebe que estamos chegados ao «climax». A partir daqui tudo vai poder acontecer, mas não será, em bom rigor, a mulher gigantesca que irá provocar a hecatombe que se anuncia. É a criança, na sua placidez e inocência, que gerará o fecho violento. A mãe de Julian fixa a sua atenção: «Ela manteve os olhos na mulher, e um sorriso divertido espalhou-se-lhe na cara, como se a outra fosse um macaco que lhe tivesse roubado o chapéu. O pretinho olhava para ela com olhos grandes e fascinados». E é a presença da criança que irá gerar sentimentos contraditórios. Se o complexo racial se manifesta perante a senhora recém-chegada, vestida de modo algo semelhantemente ridícula à da mãe intolerante, a verdade é que a criança (não tão adorável como isso…) vai gerar uma inesperada manifestação de suposto afeto. «Não é tão querido?». Os sentimentos vêm à tona – se a mãe enorme é vista com repulsa, o pequeno gera uma estranha simpatia. E, em face da tentativa de Julian evitar o desastre, a mãe não se demove e tem a infeliz ideia de tentar dar à criança uma pequena moeda, de valor diminuto, um cêntimo, a rebrilhar por estar novinho… E a reação não se fez esperar. «A mulher colossal voltou-se e durante um momento ficou ali, com os ombros levantados e a cara congelada de raiva frustrada, olhando para a mãe de Julian. Então, de repente, pareceu explodir como uma máquina que tivesse recebido uma onça de pressão a mais. Julian viu o punho preto afastar-se brandindo a bolsa vermelha. Fechou os olhos e encolheu-se ao ouvir a mulher gritar: “Ele não aceita cêntimos de ninguém!”».

 

UM FIM DRAMÁTICO

O epílogo é tremendo. A mãe de Julian transfigura-se, torna-se outra, dir-se-ia que explode. A irracionalidade manifesta-se plenamente. E Julian vê-se perante o que temia – depois de uma antevisão de um modo de dar uma lição que servisse de emenda para a mãe e para as suas amigas, o que acontece é que um ataque apoplético fá-la soçobrar… Como acontece em vários momentos da sua obra multifacetada, em que a violência aparece como estranha solução, Flannery O’Connor remata a história de um modo dramático… Os diversos contos desta obra inesperada e ao mesmo tempo previsível encerram sempre a ideia de que a razão e a irracionalidade vivem paredes meias. Daí a necessidade de compreender os limites e de saber ponderar os insondáveis caminhos do sobrenatural, sem nos deixarmos aprisionar por eles. É esse estranho equilíbrio que sempre encontramos na fantástica obra de O’Connor. Não há outra que se lhe assemelhe. E é essa originalidade que permite a consideração como um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Como disse Gonçalo M. Tavares: «Apesar de ser muito duro e violento, é de uma violência que promove a lucidez»… 

   

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença