A FORÇA DO ATO CRIADOR
O espaço universal e as axonometrias de Theo Van Doesburg e Cornelis van Eesteren
Theo van Doesburg, Cornelis van Eesteren
Contra-Construction Project (Axonometric), 1923
O movimento De Stijl acredita no conceito de espaço universal, isto é, na capacidade da arte e da arquitetura serem compostas por elementos básicos, independentes e geométricos e por espaços ortogonais, assimétricos, unitários, abertos, fluídos, infinitos e adaptáveis. Universal significa a insistência no papel social que a arte e a arquitetura devem desempenhar; a convicção de que o universal e o colectivo só existem se estiverem em equilíbrio com o especifico e com o individual; a fé nas qualidades transformadoras da mecanização e das novas tecnologias e o apelo de que a arte e a arquitetura tem o poder de alterar a vida e o seu futuro.
Theo van Doesburg (1883-1931) acreditava que a arquitetura, por simplesmente existir no espaço tridimensional e não virtual, tinha um papel privilegiado ao contribuir para uma nova era de construção coletiva (em contraposição com a era da destruição provocada pela Grande Guerra) e cooperar na união entre a vida e a arte. O ideal neoplástico, partilhado com os futuristas, de considerar que o observador não está separado daquilo que observa já era algo inerente à arquitetura desse tempo.
Na verdade, foi a exposição ‘L’Effort Moderne’ organizada por Léonce Rosenberg em Paris, que proporcionou a colaboração de van Doesburg com van Eesteren e a conceção de uma série de projetos ideais, sem possibilidade de realização mas que rapidamente se transformaram num ícone do movimento moderno - e até incentivaram Le Corbusier a introduzir cor na sua arquitetura, nomeadamente no projeto da Villa La Roche (1923-25). (Overy 1991, 175)
As axonometrias, que van Doesburg concebeu com van Eesteren para os três projetos imaginários Hôtel Particulier, Maison Particulière e Maison d’Artiste, em 1923, estão de acordo com os princípios neoplásticos relacionados com: a elementaridade da forma anti-cúbica, a não-monumentalidade e o dinamismo. Estas axonometrias dão cor a cada um dos elementos tectónicos (pavimentos, paredes, tetos, portas, armários, móveis, etc.) e fundem-nos com a estrutura de modo a criar uma só unidade. Van Doesburg elimina assim a diferença entre o fundo (o elemento fixo) e a figura (o elemento mutável) e trata o espaço como uma unidade indivisível e abstrata (tal como Henry Van de Velde e Frank Lloyd Wright) (Colquhoun 2005, 114). A massa do objeto dispersa-se em vários volumes dispostos assimetricamente e os planos horizontais e verticais acentuam varandas, cornijas e molduras. A organização dos planos e dos volumes é sistemática e organizada mas os detalhes e as cores são acidentais e variáveis - esta ideia relaciona-se com o lema de Mondrian ‘sistema + variedade’.
Sobretudo, são as axonometrias da Maison Particulière e da Maison d’Artiste que desafiam a gravidade e não estabelecem a diferença entre a frente e o tardoz. Criam objetos auto-referenciais e auto-geradores, através de uma forma que não está composta desde o exterior mas que é resultado de um princípio de crescimento inicial, interno, centrífugo e unitário que se fragmenta em paralelepípedos e planos individualizados e são as cores primárias que marcam diferenças. Os planos de cores transformáveis, flutuantes e intersectantes permitem que o espaço se abra sem restrições e se estenda ao infinito - o espaço interior e o espaço exterior passam a ser contínuos.
Muito importante para a definição destas ideias foi o encontro de van Doesburg com El Lissitzky. Embora El Lissitzky transportasse a herança da supremacia do sentimento artístico puro em lugar da representação figurativa da realidade e van Doesburg desejasse a pureza da realidade elementar, após 1921, sob a influência das composições Proun de El Lissitzy, tanto van Doesburg como van Eesteren começaram a projectar em forma de desenhos axonométricos.
Van Doesburg usa a axonometria com o propósito de acentuar a ideia de que o neoplasticismo não privilegia uma parte do objeto em detrimento de outra (por exemplo, nestes desenhos não se consegue estabelecer uma ideia determinada acerca da hierarquia dos espaços e das fachadas), todas as partes (tanto cheias quanto vazias) são importantes. Van Doesburg acreditava que o único modo de entender um objeto seria percorrer e voltar a percorrer os seus espaços ao longo de um período de tempo (Van Doesburg queria introduzir a quarta dimensão). As axonometrias, por ele realizadas, concedem que este processo temporal e semiconsciente se converta numa experiência instantânea e consciente que simboliza uma arquitetura que encerra no seu interior geométrico, a fluidez da experiência vivida e o misterioso, que advém do domínio do indizível e do inexprimível.
Sendo assim, as utopias axonométricas de van Doesburg e van Eesteren conseguem reformar a arquitetura ao eliminar tradições, restrições e dogmas e criar fluidez espacial universal que transcende a tragédia do indivíduo.
“A nova arquitetura é anticúbica, ou seja, não tenta congelar as diferentes células espaciais funcionais em um cubo fechado. Pelo contrário, lança-as (e faz o mesmo com planos salientes, volumes de sacada, etc.) centrifugamente, a partir do núcleo do cubo. E, por esses meios, altura, largura, profundidade e tempo (isto é, uma dimensão quadridimensional imaginária) aproxima-se de uma expressão plástica totalmente nova nos espaços abertos. Assim, a arquitetura assume um aspeto mais ou menos flutuante que, por assim dizer, atua contra as forças gravitacionais da natureza.” Van Doesburg (Frampton 2000, 175)
Ana Ruepp
Para este texto foram consultadas as seguintes referências bibliográficas:
Colquhoun, Alan. 2005. La Arquitectura Moderna. Uma Historia Desapassionada. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, S.A.
Frampton, Kenneth. 2000. História Crítica da Arquitectura Moderna. São Paulo: Martins Fontes.
Overy, Paul. 1991. De Stijl. London: Thames and Hudson.