Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era a primeira quarta-feira do mês e sempre neste dia do mês, vestia o seu melhor fato, o azul de fina risca branca, e punha gravata. Um cachecol dava o toque por cima do sobretudo invernoso e gasto como a restante roupa. Usava chapéu, sempre. A mulher também se preparava para sair com ele, e cuidava-se vestindo o seu vestido de malha cinzento, vestido que tanto dava para verão como para inverno, neste último caso, desde que o colocasse por baixo do casaco tingido de preto. Elegantemente, um lenço arroxeado era atado ao pescoço com um nó suave que fazia uma espécie de gola alta ao vestido.

 

Antes de saírem de casa olhavam-se um pouco, e os olhos transmitiam um ao outro, o quanto sentiam a injustiça de viverem com dificuldades financeiras depois de tanto terem trabalhado, e, sentiam que não tinham nascido para aquilo, se é que se nasce para o que se é? mas, a verdade é que o tempo de fugir, escapara-se-lhes. De resto, fugir para onde? Fugir especificamente do quê? Tinham-se habituado a suportar as contrariedades da vida, implacáveis a eventuais ambições, e ainda que com muita zanga interior, tentavam viver espelhados naquele anónimo quotidiano.

 

E beijavam-se antes de sair de casa! Beijavam-se num célere e importantíssimo beijo, na necessidade absoluta de registar o imutável, a clarificação do claro, a culpa inexplicável e também a necessidade de se concordarem sempre com ternura nas roupas que usavam.

 

Na rua, davam as mãos um ao outro, enquanto se transmitiam mensagens curtas de cautela com os escorregadios passeios, com os buracos ou com a proximidade dos carros ou ainda com algum charco, se acaso chovesse. Ele tinha sido operado aos olhos há pouco tempo, como manda a idade, dissera o médico. Ela, como mulher, tinha dificuldade em acreditar em coisas simples e por isso segurava-lhe a mão com uma força redobrada, atendendo ainda à falta de vista do marido. Ele sorria-lhe de soslaio, dizendo, vá não apertes tanto que partes a tua mão e depois nós?

 

Depois? Depois eu amo-te. E não eram mais do que estas palavras o que procurava dizer-lhe. E eu a ti: ouvia ela soando-lhe a aventura calma.

 

Sabias que neste jardim os pássaros andam em cima dos cotos? De facto, reparo agora, disse-lhe incrédula! Porquê? Não sei, penso que talvez apanhem choques nestes fios elétricos e se queimem, disse apontando os fios baixos. Depois, por sobrevivência lá começam a debicar o chão na procura de alimento, ou a petiscar algum pão que lhe trazem, e aos poucos andam a saltitar nos cotos.

 

Entraram na farmácia. A farmacêutica elogiava-lhes sempre o aspeto quando os via chegar à primeira quarta-feira do mês, não obstante nada de verdade englobasse o elogio que não fosse a vontade de transmitir carinho e força. Perguntava-lhes se vinham buscar os remédinhos e como passa dos olhos? Melhor? E a senhora?, essas artrites maldosas ainda queimam muito?

 

Olhe senhora doutora, respondendo pelos dois, digo-lhe que o meu marido está melhor dos olhos, contudo diz que ainda tem dificuldade em ver, e por isso, imagina! Imagina os barcos a fazerem-se ao mar e lá vamos ambos dentro. E eu. Eu?, eu estou bem. Vi há pouco uns passarinhos que andam em cima dos cotos. Perderam as patinhas, sem culpa alguma. E lá andam…se aquilo é viver…é muito triste…mas não podem fazer nada.

 

De retorno a casa o caminho parecia-lhes sempre mais longo. Na sala, começavam a tirar os casacos quando ele lhe perguntou se ela iria com ele, se ele decidisse hibernar como um bicho. Claro! E bem sei ao que te referes. Acordávamos apenas quando estivéssemos perto daquela coisa e daí partíamos de vez, sossegados, não é?, e não te esquecesses tu de me dar a mão. Vá anda, faço-te um chá e uma torrada. Põe Verdi, não faz mal que o disco esteja riscado, a nossa idade limpa-o.

 

Trouxeste os remédios?

 

Perguntas bem! Esqueci-me.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Ativam-se ou desativam-se mercados, alteram-se o valor das moedas, animam-se as balanças de pagamentos entre estados, sobretudo atentos à consumação do consumo, nada se passa sobre a verdadeira informação do para onde o mundo inteiro converge, oblitera-se a referencia aos homens, vendem-se armas ao soberbo lucro das guerras e regenerada, a violência, é esta sempre oferecida como espetáculo, ou a fome ou a sede, grande escândalo do tempo presente não fosse tida como natural decorrência do funcionamento da coisa humana.

 

A sociedade do simulacro é venerada por quem desejando ser senhor - mas com veia de escravo – germina em si invejas e cobiças e mesquinhez mescladas de instantâneos de generosidades que instauram cenários desta paz perpétua, onde se joga na venda e na compra da alma, quando até a dimensão trágica da morte é banida ou a vida intoxicada já nem sequer dessa realidade se pode dar conta.

 

Em rigor, uma força terrificante, manipula a multidão subvertida por um desejo não questionador que faz dela escrava dos escravos, perseguida e perseguidora do que mendigam sofregamente, fingindo detestar ou ser alheio, sequer, dos meandros do seu próprio organismo que o torna gregário de si e dos mesmos a si iguais.

 

Volta a existir um e outro dia, uma e outra hora, em que se recusa o paraíso artificial em que é suposto viver o intoxicado, de preferência sem grande brado, contra o sem sentido de uma existência de equívoco, afinal.

 

O grande desafio não dito, é o da decifração e do entendimento do que ela expõe.

 

A liberdade está excluída de quem afirma que ela é sim aferida pelo que se tem.

 

As gentes são tratadas por um potente motor de plástico como se tivessem órgãos de plástico, direitos de plástico, cultura de plástico, identidade de plástico, raízes e pátrias de plástico, não lhes sendo concedida a permissão de viver em caminho diferente daquele que serve ao declínio.

 

Será de repetirmos com René Char

 

«Certas épocas da condição do homem sofrem o assalto gelado de um mal que procura apoio nos pontos mais desonrosos da natureza humana.»

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Entrava-se no salão das inúmeras janelas daquele solar e mesmo sendo verão, logo se antecipava a recordação dos cheiros e dos sabores de Natal que começavam a bater na porta da memória aquando do final das vindimas.

 

A revelação de que o sabor do leite-creme era uma lição de afeto da bisavó e que os bolinhos de bolina teriam a exata dose de canela que lembrava o abraço-lugar-doce onde se adormecia seguro como em nenhum local, sendo este o dos braços da avó, e eis as surpreendentes realidades que nos diziam sem palavras, o que só os cheiros e os sabores sabem dizer transformando os ambientes em amor e paz.

 

A verdade é que o cheiro do trabalho das cozinhas espalhava-se pela casa abraçando todos no inicial silêncio dos manjares. Era um silêncio muito espiritual, era um silêncio de segredo infalível, pois nele as verdades expunham-se sem medo de que as mentiras ou deturpações ou sofreres do dia-a-dia, não fossem por elas vencidas de tanta compreensão.

 

E eis que este ano, em Miranda do Douro, as sopas e outros condutos servidos na Balbina deram azo ao ouvir da história de uma avó, que, passando todas as possibilidades de receitas dentro de um único pão de saberes, multiplicou as recordações das épocas tutelares, em que bastava o vapor dos caldos para que, na memória, se desenhasse a distinção entre o puro e o impuro, a inocência e a toalha de mesa, como uma salvação aos dias duros do resto do ano.

 

Não há dúvida de que de norte a sul de um país, de norte a sul do mundo, a comida é algo que ousa conviver com a vida dando-lhe cores, tráficos de sentido, poesias sem ornamentos, e leva à vida, não apenas a mera saciação, mas sobretudo o louvor sossegado das recordações tranquilas dos sabores, dos cheiros, das orações, dos entusiasmos, do contributo do dizível e do indizível e expõe-se também como ética e estética reabilitando o que nos faz feliz como dantes. Entenda-se este dantes como o tempo da experiência sem medo.

 

Assim, neste sentido, qualquer manjar, ainda que só de pão, é um ensaio humano exposto aos dias e às noites das nossas fragilidades e vulnerabilidades; é uma procura conjunta de cintilação na paisagem que nos liga ao mais fundo.

 

Há que saber que com ou sem épocas festivas marcadas no calendário, à mesa, o silêncio e os olhares dizem muito do que não sabemos. Os chãos destas mesas estão postos também com a toalha da terra, tudo é um convite ao exercício da atenção, um tempo que relata o eu e o nós, enquanto entregamos ao outro, o azeite, o sal, a possibilidade do reencontro com o que afinal julgáramos perdido.

 

Enfim, o leite-creme ou os bolinhos de bolina, a roupa velha do bacalhau do dia anterior, o peixe fresco ou a fruta de qualquer época do ano, todos afinal dialogam connosco em compromisso.

 

Resta-nos saber partilhar. Resta-nos saber que em tudo isto há excesso que se deve doar em doação doada e que possamos perceber quase tudo sem necessidade de dizer muito.

 

Cremos que um dos grandes desafios é, em cada dia, voltar a olhar e a saborear tudo pela primeira vez, como um acolhimento mútuo, uma intimidade, uma morada, uma resposta, uma visita à oficina dos sonhos reais.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Título original: Sorry we missed you, de Ken Loach

 

De olhos vazos e exaustos Rick e a mulher enfrentam dias cruéis sabendo que vivem uma vida a caminho do fuzilamento definitivo seu, e da sua família.

 

Após a crise financeira de 2008 o incêndio da não vida permanece-lhes no dia-a-dia como uma mandíbula que os morde sobretudo quando já só as lágrimas e o desespero lhes resta.

 

A consciência do que o mundo lhes dá para lutarem, parece-lhes agora mais perfurante da alma, da justiça e do amor que afinal acreditaram um dia poderem vir a viver serenamente, mesmo que à custa de se encontrarem permanentemente numa luta à beira do inferno.

 

A excelência deste filme de Ken Loach deixa-nos numa combustão interior por aquilo que afinal nunca deixámos florescer, nem antes nem depois da crise de 2008: o direito à vida digna.

 

Qualquer tipo de violência tornou-se culto desenjaulado sob os nossos olhos, os da dita compaixão possível, mas afinal da indiferença e da distância face ao sofrimento.

 

José Mário Branco tão corajosamente cantava que veio de longe de muito longe e muito passou para aqui chegar, e afinal sabia que nunca encontraria o que sonhara para o aqui e pelo qual tanto lutara. Tal como todos os elementos do programa “Governo Sombra”, a minha gratidão ao José Mário Branco é imensa por todo o prumo com que viveu a vida, não obstante, nunca me ter sentido ideologicamente par, mas sim, comoventemente, sua admiradora.

 

A verdade é que este filme me fez recordar o quanto a luta de Mário Branco foi também para que se habitasse um dia um mundo que fosse início de uma harmonia. Ricky e a mulher, descrentes afinal desta esperança de harmonia, amavam-se e amavam os filhos, e, na qualidade de cuidadora a mulher de Ricky, ainda conseguia encontrar no sofrimento alheio, a possibilidade desse sofrimento a compreender e a mimar, enquanto ele lhe penteava os cabelos e as lágrimas lhe permitiam descansar os minutos horríveis dos dias de trabalho que suportava. Ficava ela grata ao trabalho desesperante que fazia, não apenas pela possibilidade de o desempenhar bem, mas porque esse trabalho a compensava do pior que nela era a ebulição de suportar raiva e ternura, tentando sempre que esta última fosse a vencedora.

 

A cada dia restavam as cinzas do dia anterior e arrancar a partir daí para outra e mais outra cratera de dor era o injustíssimo destino a aceitar.

 

E tudo é verdade neste filme. A proposta das sociedades de hoje é para que cada um se despeça de uma parte de si e a mecanize irrecuperavelmente até que perder o seu todo seja o desígnio único.

 

As políticas oxidadas candidatam-se ao voto na fúria do poder, e, enquanto este, e a privação, ditam quem é quem, uma teia de sangue oculto acossa e esquece que até os corações se tornaram temíveis, e íntegro, mas desfeito, Ricky, a mulher e os filhos já só cartilagem e não osso, podem perder ainda o telhado tenebroso que os cobre.

 

É então esta a última morada que se oferece. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

É-me difícil entender como se vai gerindo a idade do corpo quando tão distinta da idade da mente. Há pessoas que parecem envelhecer na totalidade, ou seja, tudo em “harmonia” e ao mesmo tempo: corpo e mente estão de acordo e pim! é um “sossego”! tudo tem artroses até o coração e alma juntos, e eis o facto do qual se está dormente num todo: dizem-me.

 

Surpreende-me, contudo, que querendo muitos de nós entender a velhice, referindo-me a esta que vive a discrepância entre corpo e mente, devamos contar sempre que os outros não olham para o fundo dos nossos olhos onde se enche de perguntas a aflição dos desejos lúcidos; onde se pode ainda cartografar o que inclui experiências vividas e que geram os futuros de atuarmos de acordo com as interpretações que nos proporcionaram. Afinal, refiro-me a quem o envelhecimento físico é pesadíssimo face à jovem mente que ainda se questiona, e, assim sendo, está-se significativamente disposto a viver com o compromisso da defesa filosófica predisposta à visão atenta e particular da natureza humana.

 

Assim sendo, como é possível ouvir tanta palermice despudorada acerca da velhice, como se se tratasse de um simples período ao qual correspondem uns vagos direitos oferecidos, talvez, porque quem os recebe deu a estas gentes da tal palermice despudorada, a possibilidade de se sentarem numa confortável cadeira e de perna traçada, traçarem o caminho que se deve obedientemente percorrer, de preferência, sem queixa, doa o que doer?

 

Registo que em todas as versões dos discursos e posturas desta “fulanagem”, mora um vácuo numa qualquer versão que seja dos seus ADN, que não pede, nem emprestada, uma regra moral que impeça a perversidade e o alheamento com que se debruçam sobre a velhice alheia, já que a deles, seja em que tempo for do seu viver, em consciência, lhes não acode, nem quando comparada com a dos primatas inferiores.

 

É certo que não existe nenhum computador gigante programado para estes seres com a devida antecedência – no mínimo, antes de lhes chegar o tempo das suas falas - a fim de que soubessem que se aprende e nunca paramos de aprender, e que nos ensinamos uns aos outros a raciocinar.

 

Julgo fazer parte da tal “lógica operativa” o nosso desenvolvimento por tentativa e erro, criando ferramentas que nos ajudam a entender o cântico de um pássaro consoante habite na cidade ou no campo; consoante demonstre a sua experiência e com ela a sua idade.

 

A natureza humana altera-se consoante o mundo em que vivemos, as culturas, e consequentemente as normas de comportamento. Todavia, pergunto: não inclui a dieta de muitos dos mais jovens, a grande análise da sua envolvência com os mais velhos? A capacidade de imaginarem o colocar-se no lugar do outro, e o desejo de que lhes seja atribuído, um dia, o direito de se defenderem a si mesmos, sendo escutados e amados e respeitados e não atirados à solidão abandonada de um muro escorado num mercado de hipocrisias também de afetos?

 

Proteger as fragilidades e as forças de qualquer tipo de velhice, chegue ela em que idade chegar, é a possibilidade de começar a acreditar num mundo mais justo, mais inteligente, mais humano que impeça uma conversão maciça ao fatalismo dos campos de concentração do sofrer.

 

Em verdade, a submissão à lógica da máquina criada por seres humanos, e a entrega do seu domínio a uma força bruta, coerciva da vida, corrói as próprias constituições da liberdade, a impérios de extrema parcialidade, qual cleptocracia que sempre protege e enriquece um grupo de poder que atribui a última e desesperada trincheira a viver, com meia dúzia de silenciosos euros, a todos os restantes mais frágeis, continuando ausente a estratégia política que a impeça, e sendo que nem ao início da solução do problema principal constatamos que alguém se abeire.

 

É difícil entender como se pode gerir a idade do corpo quando tão distinta da idade da mente. Quando sem que se tenha tido sequer acesso ao código do jogo, qualquer ecrã é uma extensão da realidade da velhice mais triste, e os musculados de hoje não entendem sequer o que veem os seus olhos, onde está a bola, a pá, o significado.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Marília, ó D. Marília estou aqui!

 

Menina, já vou, já vou, o meu homem anda a cavar e anda cada vez mais surdo, é da idade, e eu fico práqui a atender a tudo. Olá menina, beijinho, como tem passado? Olhe tenho os pintainhos a nascer, venha, venha ver.

 

Entrámos devagarinho, sem fazer barulho nenhum a fim de não interrompermos o parto dos ovos.

 

Ó D. Marília, que lindo! Que lindo!

 

Pois é! E tenho a ovelha quase a parir também. Andou-me inquieta de noite que eu bemnaouvi e é assim, este mês está-me a nascer tudo. Até a cadela já está a dar mama aos filhos. Quer ver? Não senalhincoste que ela é brava porque é boa mãe. Tudo isto é muito lindo, lá quisso é, é, mas dá muito trabalhinho. Inda ontem saí do feijão-verde às dez da noite. Ó marido, anda que está aqui a menina e temos de conversar, ós pois ajeitas o resto dos morangos, anda falar que a menina tem de ir à vida dela.

 

Pois é como a minha mulher lhe disse. A menina sabe que estamos a ficar velhos e já não podemos com tudo isto, é muito encargo prá gente. Os filhos ligam-nos pra virem ao dinheirinho, mas não prájudar e como somos do Norte, pensámos em ir lá práldeia. Pegamos aqui na carroça que comprei – disse, olhando orgulhoso para um carro novo – e pronto, lá vai a gente pregar para outra freguesia e ver se os compadres ainda estão vivos.

 

Ó menina, eu sou mulher de labuta, mas como diz o marido estamos aqui sozinhos a fazer as vendas prá praça num carrego diário. Alugámos a casa e dormimos naquela espécie de quarto ao lado dos pintainhos e de noite é frio e ainda temos de andar às raposas que nos vêm ao galinheiro e ós pois ofereceram-nos uma boa quantia para fazer aqui uma pensão de praia que a praia é perto sim senhora, e prontos, desta, a gente está a pensar ir pró Norte. Que acha?

 

E a D. Marília começou a chorar e o Sr. Carvalho olhava para as batatas plantadas com os seus braços e disse-me:

 

Desgosto tenho de deixar isto. Foram muitos anos. Mas trata-se do nosso futuro, sim estamos velhos mas ainda temos futuro e se ele for a coxear ao menos agora temos dinheiro para a bengala, não é?

 

Ó menina que desafio, não é? Levamos no carro os dois cães e o galo calçudo e o resto vendemos tudo. Tenho medo da viagem lá isso tenho, mas temos de sobreviver. Chegámos até aqui com muito trabalho e o futuro chama-nos.

 

E há que dizer ó Marília, que temos lá casa, é só dar-lhe um jeito e refazer o forno do pão, mas seremos livres, livres, não acha menina? Vai ser uma nova história e há muito que conversar com os vizinhos. Já soube que os novos não querem nada com a aldeia, mas aqui não querem nada connosco. É a visita da cortesia pró dinheirito dos velhos, e, às vezes até estou na missa e só os vejo no mês seguinte e olhe que moram aqui ao lado. É assim, vamos fazer o futuro! Foi uma luta grande, mas agora é o futuro e a liberdade. Só sairemos da cama quando tivermos o corpo descansado.

 

E pronto menina estamos então conversados. Vamo-nos escrevendo. É melhor não nos visitar não vá a coisa correr mal e ficarmos lá pior do que aqui.

 

A D. Marília estava em pé encostada à mesa e tinha a cara entre as mãos. Ainda não temos a certeza disto tudo – disse – mas vamos sim. E começou a chorar baixinho.

 

Sabe menina, eu nunca deixaria de me casar aqui com o marido e ele ontem também mo disse:

 

Ó Marília vamo-nos daqui, Temos de arriscar para fazermos o nosso noivado.

 

Afastei-me, fui ver a vaca já de cama feita a forrar-lhe o chão, a palha estava sacudida. Os porcos pareciam ansiosos que tudo isto acabasse e soubessem o destino. Apanhei um saquinho de espinafres e escutei o barulho do vento nos pinheiros altos. Pois seria tudo uma pensão ou rezórte como eles diziam. Cheguei-me ao portão onde me aguardava o casal: olhei-os com atenção, nada nos perguntámos.

 

Assinámos hoje o contrato a acabar, vamos ser livres, não somos daqui, disse-me a D. Marília a olhar para o chão. Chegámos a passar fome para não gastar dinheiro. Agora vamos ao futuro, de muitas maneiras enforcámo-nos aqui e agora só não quero uma casa pintada de branco que pareça um tratamento.

 

Dois meses depois passei lá. Chamei pela D. Marília. Tudo era um deserto. Nem galinhas nem cães à solta. A carroça de marca Opel já lá não estava. Desejei muito que estivessem a noivar num futuro que lhes acontecia de repente naquela idade.

 

Afinal fora um dia indefinível aquele em que os ouvi como quem escuta do que a ausência será feita quando se explicam os dias que hão-de vir.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O que fazemos agora?

 

Há quem defenda que uma ideologia beta será sempre aquela que não pergunta à razão o que leva a justificar o poderio do modo de estar alfa. Mais: o “motor” alfa é tido como o que deve ser naturalmente protegido e aclamado pois corresponde ao triunfo dos fortes sobre os fracos, mesmo que essa realidade seja a do poder da mentira sobre a pessoa moral.

 

Creio que certas “elites” esconderam sempre o seu íntimo compromisso com esta doutrina que referimos acima, usando o discurso do politicamente correto, devidamente civilizado e suficientemente bondoso, de modo a que criticá-lo envolvesse criticar o que estaria bem na mescla das correntes do bem e do mal com que se afrontam os direitos à vida digna.

 

Acreditamos que para os betas existe um único caminho que têm real vontade de percorrer para atingir o único objetivo: imitar os alfas.

 

Cremos que o percorrer desse caminho constitui nos betas o grande fundo orgulhoso de um comportamento de culto, encabeçado pelos próprios, em jeito exponencialmente violento para chegar, tanto quanto possível, a um esmero dos alfas de hoje e ultrapassando-os criando uma musculação popular desafiadora de seguidores sem questões.

 

Não há dúvida de que as redes sociais são propícias a serem utilizadas para que em poucos anos, estes betas, atinjam uma realidade global de alfas, que, de jeito subtil e subcultural se mostrem como alternativa em todo o mundo.

 

As narrativas que passam a predominar envolvem um padrão familiar: velhos preconceitos valorados com novos conteúdos económicos determinam que as vítimas ou são virtuais ou atiradas para campos especialistas em estados permanentes de revolta.

 

É o tempo das realidades alternativas incapazes sequer de serem neutras porquanto ensinam a alcançar a finalidade dos betas enquanto se nutrem dos banquetes dos alfas que enfim já deixaram de ser o poder que agora se quer alcançar numa hostilidade clara às próprias universidades.

 

E não descurando as fobias e as obsessões de estimação de alfas e betas e novíssimos alfas, o que fazemos agora?

 

Talvez criarmos forças não esperadas, já que esperados não somos, a que alfas e betas e alfíssimos sejam obrigados a expor os internos inimigos de si mesmos, retirando-lhes a possibilidade de os usarem como motor e motivo do seu combate.

 

Claro que a força não esperada terá de conter o atrevimento de desagradar a estes novos senhores da vida bem como a capacidade de lhes provar que ainda existe uma parte considerável do mundo que não é o seu quintal.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

CRÓNICA DA CULTURA.jpg

 

A ilusão da pós-verdade chama-se mentira. O medo do outro e do diferente só se supera com partilha de responsabilidades e melhor democracia. É de economia ciente da importância da cultura como criação que falamos.

por Guilherme d’Oliveira Martins in Jornal Público / 07 de agosto de 2019

 

E de facto ao olhar para a ponte de Mostar em 1982, o sonho que haveria um passo comum em direcção a um futuro melhor foi-me claro. E foi-me claro pela história da responsabilidade que o pluralismo da democracia a todos chamaria; e foi-me claro pelo impacto da cultura que vivi naquela viagem de meses à Jugoslávia; e foi-me claro porque não queria uma coisa abstracta situada no futuro de todos nós: uma coisa abstracta com nome de mentira.

Acreditei que todos nós chegaríamos à conclusão de que a alteridade dos outros é parte integrante da nossa humanidade. Acreditei que a cultura dos povos seria tão criativa que animada por vontades objectivas desmontaria as instituições imperfeitas, as económicas e as outras, e só o seu prenúncio impediria a compreensão incauta da globalização.

Estava longe da brutalidade com que os vários tipos de terrorismos saltariam das televisões defendendo a lucidez dos estados em pânico como realidade ancora em vontades, ou seja, em votos mesmo não expressos.

Navegar nos barcos de Klee deixou de ser política de acolhimento e defesa de um interior espírito de desafio à criatividade nas mudanças estruturais de vida. A partilha de riscos na determinação do bem-estar não se concretizou como messias à construção da prosperidade na idealização da cultura e da civilização.

E é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores.

Há que nos desviarmos de guiões que nos são sugeridos mesmo quando não pareça; há que entender os traumas do passado como base para discussão de possibilidades futuras; há que estarmos atentos à actualidade que se move à nossa volta cheia de nostalgias para que nacionalismos sejam a solução lacunar das democracias.

Não podemos dizer que precisamos de tempo pois já não há tempo para nos redimirmos das desatenções. Os pensadores receiam que nem as ciências nem as artes possam ser suficientes para seduzir as plateias de vidas que não prosperando, têm o poder dos saltos violentos como solução e pseudo sustento ideológico para justificação comportamental de si mesmas.

Por isso mesmo, neste caldeirão

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores

sem os homicídios das guerras e a atribuição estonteada de culpas.

A distância que nos separa dos totalitarismos não nos deve deixar baixar a guarda.

Quem joga? E o que se joga? Quem é o senhor do Jogo?

Como é a noite sem estrelas?

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem nos conformarmos com a condição humana que nos coube.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

A EUROPA uma possibilidade.jpg

 

   A EUROPA: uma possibilidade

 

Creio que se deseja uma Europa que consiga preservar a paz, uma Europa próspera, uma Europa em cuja cultura civilizada os cidadãos se identifiquem, desafiadores de um futuro responsável, responsável também pela ordem social que abarca a procura de uma justiça justa, uma justiça fora dos cenários das utopias, uma justiça como condição única e natural forma dos povos se entenderem e se serenarem.

Quero crer que se deseja a Europa! Quero crer que esse desejo é consciente de que terá de ser urgentemente realizado nesta Europa, um imediato futuro diferente daquele por onde tanto errámos. Em rigor, também sinto que o projecto de integração europeia, na actual União Europeia resultou nesta Europa sacudida e doente; tombada pelas mãos das inúmeras políticas e instituições que dela se serviram para a abater, para a partir em tantos pedaços quanto os necessários à manipulação da sua fragilidade, de modo a que o seu reerguer não se pudesse concretizar.

Todavia, volto a insistir: quero crer que se deseja uma Europa unida e noutros parâmetros, quero crer que se vai lutar por ela, ou a certeza de que o corolário natural da actual situação, se nada de relevante for feito, terá tantas consequências negativas que este nosso Portugal se transformará em mero ancião-cidadão-comum de destino de inaceitável preço.

A nível global, a realidade que acarretaria a queda desta Europa sem alternativa no seu seio, tenho-a, na minha modesta opinião, como imprevisível e perigosíssima, ou essa realidade não deitasse mão da entropia e dos equívocos vividos neste projecto, para que as grandes rupturas globais, onde se não desejam, fossem activadas, clarificando-se enfim, o mundo, que se não apraz nas ideias da consensualização.

Urge falarmos, discutirmos, actuarmos em urgência prioritária à ideia de uma Europa unida com possibilidades de “exigência pragmática de utopia” como referiu Steiner, mas igualmente com a capacidade de protegermos objectivamente as democracias dos nacionalismos que se deleitam a provar, em estratagemas de ocasião, o quanto os direitos humanos são exigentes de concretizar.

Quero crer que iremos saber provar que para um novo mundo europeu, existem caminhos que só se percorrem pelo respeito dos menos poderosos; pelo respeito pelas diferenças pois que a Europa é plural, pelo assumir da solidariedade, e entre tantas outras vertentes nucleares, pelo conhecimento de que as grandes preocupações são não-territoriais.

A Europa continuará a ser uma possibilidade, se desde logo não descurarmos que o aumento terrível da pobreza na União Europeia significa, em última análise, a descrença de milhões de europeus na sua melhoria de vida, e por essa descrença somos todos responsáveis de modo agravado, se não criarmos de imediato, dentro da União Europeia as vias que concretizem a união política que venha a suportar outras uniões que façam frente aos poderosos interesses instalados.

Quando o nosso futuro comum, enquanto europeus, resvala para o abismo, e depois das grandes guerras vividas, resta acreditar que a Europa é uma possibilidade! sim! é uma esperança!, sim!, contra os fatalistas, se se souber refundar  a tempo de não permitirmos que esta Europa seja mero joguete esfarrapado nas mãos dos directórios internacionais.

Urge que um dos grandes muros a destruir seja o que impede o vigor no combate para que se inicie um futuro melhor, um futuro que seja pedra fundamental e pedra filosofal, pedras que impeçam, nomeadamente que a hegemonia do capital e a desregulação que lhe deu chão impeçam de vez, que a arquitectura do dinheiro se infiltre nos processos de deliberação política.

A Europa: uma possibilidade!

 

                                                       Se voltasse ao princípio, começava pela cultura.

                                                                                Jean Monnet

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.

 

- Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?

 

- Sim Rita, claro que sim.

 

(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.

 

Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.

 

- Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.

 

Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.

 

Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?

 

Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo. 

 

Teresa Bracinha Vieira