Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

Aerograma


Sue Arrowsmith

 

Luís Pedro,


Bem creio que os anos expõem uma sensibilidade do como foi a viagem com e sem restrições.


Chega-se, enfim, a um rodar que nos leva ao prometimento e nele o que afinal importa para nós aqui chegados.


Nota que te não quero preocupar, se estou a ir além ou aquém, do significado que pretendes que eu assuma com o teu gesto de me doar doadas as tuas realidades. Apenas e muito apenas, podes crer, tenho para mim que sempre caminhaste dentro de ti, sem exceção e sem consultas aos refúgios que te protegeriam.


Saibas igualmente que o meu instinto de preservação nunca foi uma arma adequada contra o mundo; talvez segredos, sim, o tenham sido, antes de descodificar a razão das vidas se fazerem paralelas.


Quanto à vigília das noites por causa da velhice, querido Luís Pedro, te digo que não valem os medos que se instalam.


Os dias são agora mais independentes e menos comum a existência. Nada tem que ver com explicações e não existe qualquer valor moral nos andarilhos.


Digo-te ainda, como carpinteira das memórias do que fui, e do que li e do que sou, e ainda como contrabandista das coisas que vão morrendo porque sim, que, se nestas entrelinhas encontrares razão, aceito pois o teu depositar nas minhas mãos do que nunca roubou o espaço da generosidade com que sempre nos demos, mesmo tendo nós sido vitimas de algumas qualidades.


Consente Luís Pedro, que um dia, deixe eu nas tuas mãos, a alegria, esse não sofrer extraordinário!


Tua Amiga
Isa 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Conheci Helena Almeida na sua casa da Rua Arco de São Mamede, era eu, colega da Joana, sua filha, numa escola que existia na mesma rua. Estudávamos ambas para o antigo 5º ano do liceu.


A casa da Helena Almeida era uma casa, tanto quanto memoro, rodeada por um largo espaço de terra. Um jardim? Entrava-se, e ao fundo do primeiro corredor, a sala de trabalho de Helena Almeida; à direita um outro corredor e igualmente ao fundo mas à esquerda, uma cozinha; ao lado uma sala de jantar com acesso a uma sala de estar de portas até ao chão. Muita luz. Lembro.


Na cozinha, móveis de sacada de cristaleira, antigos, e uma chaminé de pedra. Havia um azulão, lindo, que cobria as portadas das janelas e outros espaços estratégicos da cozinha. Julgo. Ao meio, uma mesa de madeira, nela, duas canecas de chá e pergunta-me a Helena, a razão de eu tanto gostar do enorme quadro que estava na sala. Era ele pintado todo numa única cor de azul e apenas com o desenho de umas sapatilhas de bailado “tombadas” no canto direito do quadro. Assim o penso ainda hoje.


Respondi que era a mesma razão de gostar dos quadros que estavam no atelier, e dos quais saiam crinas ou caudas de cavalos na continuação dos desenhos o que os tornava vivos para mim…mas mais nada sabia dizer.


Sorriu e perguntou-me se eu gostaria de arte?


Pensei dizer-lhe tantas coisas se não me achasse uma miúda que não poderia falar muito com quem nos mostra os sonhos. Pensei falar-lhe no quadro do marido que estava na sala de jantar e que me parecia tratar-se de milhentos cubos pequeninos, e que eu queria espreita-los para ver o que tinham dentro e como se encostavam uns aos outros definitivamente, achava eu. Pensei dizer-lhe que gostava de a rever a andar com os arames agarrados aos sapatos para visualizar a ondulação do andar. Pensei dizer-lhe que me sentia muito, muito bem sempre que estava ali. Mas nada disse. Não fazia sentido atrever-me. Queria mesmo passar quase despercebida. Não incomodar. Era um privilégio quando a Helena me olhava e me sorria, nas vezes em que fui lá a casa e me sentei no atelier. Ela, a Helena Almeida era então a minha poesia total.


Um dia, deu-me alguns fios do quadro em que trabalhava e disse «Ficam nas tuas mãos. Bem entregues».


Corei.


Sair daquele espaço onde se passavam as interrogações todas, era o meu momento de trazer tudo ao mesmo tempo comigo depois de ter confirmado que existia um tudo.


Ainda hoje me envolvi com um guindaste de memória, e grata pela partilha dos círculos coloridos e insistentes que desde então me chegavam e partiam aos enxames, por ela, por Helena Almeida, deles deixei de duvidar ou de ter medo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

AMANDA GORMAN: The Hill We Climb


O NOSSO POVO DIVERSO E FORMOSO VAI EMERGIR ÚNICO E MARAVILHOSO
 

disseste 

com a verdade da tua qualidade de espírito, dos teus movimentos livres, porque vês coisas diferentes e para elas escreves horizontes de antecipações, e porque antes já perguntaste  

When day comes we ask ourselves where can we find light in this never-ending shade? 

Agora, para todos te encontras preparada, aberta à lucida felicidade por ti procurada e por ti revelada nas palavras 

When day comes, we step out of the shade aflame and unafraid.  

Como um pássaro real sem peso dentro da liberdade total do ser. 

Amanda Gorman 

que sem a mínima dúvida o teu poema foi antes de nós e foi o que conta para nós 

tudo! 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da grande experiência fará sempre parte o imenso espanto com a possibilidade da existência.

Diria que neste encontro, o segredo conjunto da vida e da poesia, desenrolam-se, compensando a segunda muitos dos espaços em que a primeira se confina, reconhecendo apenas a marca do fim, enquanto a segunda, deitando mão à condenação, vive livre a ilusão da raiz de todos os amanhãs.

E não há paradoxo nesta realidade, antes constitui ela, um dos marcos de simultânea essencialidade das coisas na sua acontecimentalidade.

A arquitetura que integra a grande edificação da existência e nela da experiência, emanará sempre das íntimas contradições do que se vive, afinal, mundo exposto a todos e que a todos pertence.

Os momentos dominantes ou aqueles que mais se consolidam à nossa pele, seguramente se prendem com os nossos movimentos prisioneiros que nos aportam uma visão do ser que aceita mundo molemente seco, infecundo mesmo, e no qual o abominável vazio é o que foi e o que no dia-a-dia já era.

A presença da poesia ciente de uma existência condenada no próprio instante da vida tem capacidade de expor, o quanto ilusória é a visão convencional de uma diferença, e sem que negue que pode não haver ninguém exterior ao poema, afirmará então que a verdade pode estar muito, muito além do sentimento, e nós, ainda nós no seu interior.

Da grande experiência fará sempre parte o imenso espanto com a possibilidade da existência, dissemos.

Porque não correr o risco de assumir o quanto o abstrato é concreto, o quanto a inconcretizável esperança pode não ser inútil, bastando pensar que antes das separações tudo esteve unido.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

COMUNICAÇÃO: UMA FERRAMENTA HOLÍSTICA

 

Vai-se descobrindo ao longo da vida que muito também se fala para nós mesmos, bloqueando acessos à comunicação, impossibilitando, muitas vezes, o ponderar opiniões ao caminho do conhecer uma nova via.

Tende-se, por excesso, ou, inadvertidamente, a falar para dentro de nós, ainda que invocando diálogos, e, não raro, se afirma, uma comunicação, no preciso instante em que se continua a falar de si e para si.

O ser e o sendo também assim se confunde.

O problema da escolha em ato de liberdade implica a necessidade de nos soltarmos do tempo das perceções circulares, soliloquiais.

Abrir o devir, é abrir a partilha, ferramenta essencial que não receia a separabilidade, a impermanência, a própria perplexidade.

Há que ter claro o quanto a redução dos seres é superada pelo diálogo.

Em rigor, há que retrabalhar tudo, e não escamotear, o quanto as dicotomias são razão de afastamento, ruturas, desprezos, impossibilidades de compreender as pertenças de todos, os laços do pluralismo, a própria origem do amor.

Todavia, o isolamento em que se coloca cada um, quando não atenta o quanto apenas para si fala, cria um feixe de supostas relações, nas quais a coexistência e a tolerância são, afinal, realidades constituídas à cautela da sua interpretação.

Nenhum de nós é apenas a soma de partes. Somos raízes das pontes entre os mundo, num todo.

O tempo que nos segura, é o tempo do pensamento comungado, e esta conquista vital faz-se como a Mãe-Natureza ensina: comunicando para além de nós.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Crónica da Cultura - Celebração.jpg

 

CELEBRAÇÃO

 

Minha filha vamos, vamos, a levantar, aproxima-se o dia, o teu dia, e afinal o de todos nós! A cidade e o povo reivindicam-te. A um sinal de assentimento teu, todos vamos a demanda do novo ano. Vai, vai no cortejo das tuas núpcias, canta as glórias das essências. As ruas irão encher-se de coroas e tochas e vinhos e perfumes. É um dia de vitória muito teu. Neste primeiro dia do ano, de pronto, vai soltar-se o teu coração, sem qualquer medo do que lhe está destinado. São assim as núpcias, estabelecem elas alianças com futuros frente a frente para que se vejam, e ainda assim tão longe, ou já amanhã, quem sabe?

Minha filha, concede!, antes que te faltem as forças e que deixe de ser evidente que quem te pretende, te ama, disposto a arruinar-se por ti, sabendo que a ruína é o tanto imenso amor que te tem e terá, e que o ano a viver é o início de uma ideia.

Prodígio! Cantamos todos! Prodígio extraordinário! Vem 2021! Vem ó ano dos futuros que o enlace original é da minha filha! Grande é a sua formusura, superior mesmo à dos segredos dos escultores e pintores e poetas e arquitetos e músicos. Centras tu, filha minha, meu amor, a força feminina da história catalisadora dos movimentos e das ações. O teu herói será a separação e o reencontro, e tu o enfrentarás como aos perigos dos caprichos da Sorte.

Minha filha luta, assume o desafio a exigir núpcias. E eis que te vais surpreender em cálculos e desfechos e em perceções contraditórias, mas o sonho e o que nele viste, vai existir também na realidade.

Filha vamos a levantar, aproxima-se o dia, o teu dia, e afinal o de todos nós! Nada temas! Se prisioneira, se prisioneiros, as crianças serão destino, sempre!

Teresa Bracinha Vieira

DEZEMBRO

cronicadacultura_24dez2020.jpg

 

Quando voltarmos a partir

Rumo àquele mundo que em nós

Foi percurso de esperança

Alegria

Desejo único de expor o segredo

Nos teus braços

Mundo

Semente do meu sulco

Culto

Colherei

O que em ti reconheço

Minha única porta

Minha saída

Minha meta conhecida

Natal

 

                                                                                         Teresa Bracinha Vieira

 

VIDA

 

E de repente a consciência diz-nos que somos aonde estamos
Que poderemos não saber nunca o quanto precisamos uns dos outros
Que o inexprimível se atou, pedra segura, à perna da ave
Que a Natureza não poderá ser cópia da paisagem
Que na comunhão se estabelece o nós
Que existem instantes felizes entre os tormentos
Que o berço da mãe-mundo-pátria é razão
Que a fusão dos amantes passou a dar-se num grito
E o destino moço
De novo
Foi nascimento

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


EDUARDO LOURENÇO


Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”

Ergo-me todas as manhãs e ando na Acrópole. Aqui não sonho com nada. Aqui apenas estou. Aqui a minha idade é uma áurea entre mim e a poesia que dedilha tudo o que do homem ficará. Aqui, a música, numa relação de verdade que muito procuro entre ela e nela, único acesso à altura do meu mais alto tema.

Leio um passado para chegar ao presente: uma reflexão que transforma. Leio Eduardo Lourenço.

Ergo-me todas as manhãs para andar na Acrópole. Foi assim que iniciei o conhecer.

Apaziguou-me o ponto de partida para uma fuga que não foi afastamento, afinal uma pergunta ao mundo, sempre: o que foi o que vivi até hoje? O que me resume tanto que nada sei daquela lágrima que cai pesadamente enquanto a outra acena, e enquanto tudo, avaliamos na ideia do vento, todos os nossos pensamentos.

E quando o amanhecer no seu contexto é a realidade que me contém, experimento de novo o verso e reabro as palavras de E.L.

«Os autênticos poetas de uma época não são sempre aqueles que visivelmente o parecem, mas todos cuja obra é fonte de energia e impulso anímico, como queria Dilthey.»

Anda esta afirmação a regular o som dos sinos, não os distinguindo como côncavos ou convexos. E no entanto, no ouvido das ideias, deixa E.L. que se saiba que ele também diz:

‘Faço de tudo uma espécie de leitura poética, de puzzle da ficção. Unamuno pensava que Hegel era um grande filósofo porque era um grande poeta. E Heidegger entendia que os filósofos são, a seu modo, poetas’»

E ainda com a candeia de invulgar ensaísta:

«A poesia é na totalidade da nossa existência um sol fabricado mas a sua luz é a única que permite distinguir o que dura do que morre, o que é digno do homem e o que não o é.

«O que dura os poetas o fundam».

Eduardo Lourenço sempre leu os poetas de forma osmótica. Fernando Pessoa está quase sempre quando lê os outros poetas, entendendo-o como um bisneto de Shakespeare.

Estabelece E.L. um cosmos literário analisando também as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. Assim registei e confirmei no diálogo com quem o conhece de fundo.

Nestes tempos de plena cultura da imagem em que ser poeta continua a ser um dos grandes actos de coragem; nestes tempos em que somos mais do que perecíveis, acode Eduardo Lourenço com a sua enorme força-luz, como só um interlocutor capaz de falar a partir do destino da aventura poética, pode ter.

Muito obrigada a quem

Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O passado que tenho por mais próximo, é o de ler e escrever sobre livros ao longo dos tempos em que os leio e releio, os descubro e redescubro, os vivencio com diferentes paixões, e da experiência de todos, o elo de equilíbrio sempre se moveu, muitas vezes, conflito.

 

Sempre aprendi e aprendo no movimento e no todo.

 

Tenho para mim que não há equilíbrio sem mobilidade, nem há equilíbrio sem uma totalidade.

 

Aprendi e aprendo, o encontro e o perder na viagem de um livro.

 

Julgo saber que há trilhos irreversíveis para enfim, tentarmos chegar aos vestígios, à passagem pelo meio; à passagem que busco na experiência do livro.

 

Tempos houve em que me surpreendia com o ângulo tão diferente em que se oferecia um livro já lido. Foram tempos que me trouxeram um outro tempo de aprendizagem: refiro-me ao falar com a escrita, qual criatura terrena.

 

Tempos do livro arquétipo, dos metalivros, do êxtase, desde o palimpsesto que sempre me provocou de imediato o amor desejado por outros livros, até ao que bebeu da fonte das fontes, entre polo e polo, e eu sempre muito me reconheci e reconheço, deslumbrada, neste cerco aberto.

 

Tempos de olhar para a frente e para o antes das palavras, sentindo-lhes a resistência, a aceleração, é tempo de com elas sentir uma espécie de cumplicidade com o dom de iluminar as coisas.

 

Tempos da descida das arribas às povoações quando os livros, soalheiros à interpretação dos sentires das narrativas, nos esclarecem num atalho, no verso e reverso da escrita que leio na solidão que me conhece, e sei, que nem o silêncio é súmula, mas a primeira vontade de existir segue no golfinho veloz.

 

E é outro livro.

 

Teresa Bracinha Vieira