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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.

 

- Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?

 

- Sim Rita, claro que sim.

 

(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.

 

Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.

 

- Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.

 

Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.

 

Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?

 

Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O silêncio é de oiro

 

Ó menina não me faça perguntas, tire lá daqui o microfone, não insista. E lá volta ela

 

O que é que eu sou? Sou um homem sem opiniões daquelas que a menina gosta de ouvir e depois passa na televisão e foi o seu programa ou lá o que seja. Não é?

Se não tenho opinião sobre nada? Pronto, então vamos lá a ver: até tenho. Olhe tenho-as fresquinhas todos os dias pois troco-as com as minhas vacas quando as levo ao monte ou a dar-lhes de beber ou a levá-las a dormir ou quando as acordo. Quer saber? Não quer saber? Mas eu digo

 

A minha opinião de hoje - aquela fresquinha que troquei com a Eulália, esta vaca que aqui vê e que me dá grandes alegrias pelo leite que faz meu pão - foi a seguinte

 

A minha vaca não quer ser europeia e eu também não quero que ela seja. Está no seu direito, ou não? E eu também, ou não? Ela é corajosa mesmo quase calada. É tão corajosa como eu quando digo com firmeza à menina que é precisa coragem para não ter opiniões. A menina consegue? Ah! pois é, até fica muda. Mas olhe, que se conseguir não ter opiniões, ou, tê-las frescas como a minha Eulália me ensina, olhe que no seu caso, se for capaz, ainda vai parar a um cargo bom. Aqui ou na Europa. Sou eu que lho digo. Mas olhe que é preciso que esteja muito tempo caladinha e não pergunte o que não quer ouvir.

 

Ainda há uns dias voltei a lembrar-me que o silêncio é de oiro. Ora veja o preço dele aqui em Ponte de Lima. Mas viu, viu, como já lhe respondi, já não consigo ser rico proximamente. Temos que falar para dentro e por isso eu não lhe queria dizer nada, já que, acredite, a maioria das vezes não tenho opinião e acho que até é bom para o país que não exista mais um palavroso. Entende? E muito menos que fale também em nome de outro, neste caso outra, como foi o caso da minha Eulália. Prometi-lhe e agora descaí-me com a opinião dela também.

 

Pois com licença, cá vou à vida que já pequei e que a sua já está feita, ao menos por hoje.

 

Eulália? Tens a certeza que tens sede? Ou é só para conversar? Pronto a tua mãe vai connosco também. O que é um rumo? Olha é eu andar ao teu passo e aguardar há anos consulta para a dor nas cruzes. Pensa bem, tens opinião sobre quem quer ser um de nós?

 

Pois. Eu também fui sempre assim, como sabes. Seria bom que, por uma vez…

 

Pois.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Os amoladores, os sinaleiros, os ardinas

 

Um tema antigo.

Esquecimento.

Era uma vez.

 

Sempre que o meu pai parava o carro por ordem do sinaleiro e baixava o vidro, todos os dias por aquela hora, o ardina – que já o conhecia – entregava-lhe o jornal pela janela do automóvel a troco da moeda. Corria de um lado para o outro, no meio do trafego, para vender o maior número de jornais possível e também aliviar o peso da cinzenta sacola de pano que transportava e o fazia coxear de tão pedra. Depois logo que vazia a sacola, corria a enchê-la. Quantas vezes os vi a correr, Rua da Rosa acima.

 

E eram homens estes ardinas e eram meninos também que brincavam a descortinar a buzina dos carros que os chamavam, e com um saco de jornais quase maior que o seu tamanho, lá vendiam mais um jornal, a sorrir, como se brincar fosse assim e só assim àquela hora em que os carros passavam perto dos seus pés podendo pisá-los.

 

Ninguém se lhes referia como crianças em trabalho adulto. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Um cabeça de giz, como chamávamos aos sinaleiros devido ao formato do capacete que usavam, um cabeça de giz que elegantemente comandava o trânsito em gestos de braços e mãos de bailarino clássico. Nunca se cansava. Fazia piruetas nas voltas do corpo com uma tal eloquência que, por vezes, os carros não arrancavam logo a seu mando, pois os condutores pensavam ou diziam para os restantes companheiros de viatura

 

Olhem, lá esta ele, parece que dança sem se cansar horas a fio. Parece que controla o ar. É giro este fulano!

 

Ninguém celebrava a passagem por este sinaleiro com um agradecimento. Nem mesmo nos dias de maiores melancolias. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Um amolador que passava lá na rua de Alvalade, tocando uma gaita-de-beiços em timbre conhecido, e a avó dizia logo que o escutava: «pronto lá vem chuva». As criadas corriam com as facas e as tesouras e alguma cafeteira na mão, antes que o amolador da bicicleta se fosse. Creio ter visto, um dia, que a cozinheira levava também na mão um desgravidado chapéu-de-chuva para concertar as hastes. Eu corria de mão dada com as criadas e ficava a ouvir os piropos que o amolador lhes atirava enquanto concertava os haveres entregues. Aquele era danado, diziam elas. Enfim, eu achava bonito ouvi-lo dizer: «dás-me um beijo e caso-me contigo.». Elas riam e provocavam-no. Ele olhava-as com prazer. Era um namoro único. Esperado. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Sempre que escrevo o que bate em mim como alguém que se procura e se pensa e se desenvolve e se aniquila, e depois renasce, porque é com palavras de uma ideia que o esquecimento se faz pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Aquela casa de artigos de bebé e de crianças até aos 10 anos tinha uma montra que nos fazia sempre parar para ver como o mundo podia ser cor-de-rosa ou azul ou branco da cor do vestido de noiva que projetava a esperança de crianças envoltas em nuvens colhidas na felicidade eterna dos casais do sim.

 

Os manequins que imitavam os bebés sentados em cadeirinhas de madeira trabalhada irradiavam o direito de sujarem os mais escrupulosos bordados dos seus babetes, e os berços de palha forrados a múltiplos folhos, divinamente engomados, nem pareciam berços de gritos lá dentro.

 

Aquela montra era uma espécie de tule debruçado sobre a felicidade do vinde e crescei que a dor de barriga é assim mesmo desprezada na fralda que a criada lavará.

 

Esta casa também fazia vestidos de noiva e o respetivo enxoval com as ditas rendas de Veneza como nunca sonhara uma cidade condenada poder produzir e, depois de tudo devidamente confecionado a cores de romantismo, era a hora da noiva e sua mãe e avó mostrarem à mãe do noivo o presente de casamento da avó da noiva, ou seja o enxoval e os brincos de diamante em flor de laranjeira, tradição da família quando se noivasse até ao casamento.

 

Depois, escadaria acima, enquanto os sinos tocavam e o padre se aperaltava em rigor, o canto nupcial fazia-se ouvir e entrava a noiva, de braço com o pai, solenemente encoberta pelo véu e ainda assim ouvia o cochichar relativo ao tamanho do seu pequeno ventre pois que de quatro meses ninguém lhe tirava o aguardar da criança. E, o poder da montra não se quedava: nada tinha mal, tudo se podia não ver ou ver através do tule; tudo emplumado e os meninos de calções de veludo e sobretudos impecáveis tal como o cabelo de risco ao lado com um tantito de brilhantina se fazia notar. As alianças chegavam pelas mãos das virgens dos cabelos enrolados em flores que seguravam a taça de prata envolta em laço onde duas alianças aguardavam destino.

 

E do bouquet ao parto tudo afinal posava na montra. Eis o seu poder de resumo.

 

Olhávamos de novo e lá estava o bolo de noiva, agora um tanto encostado aos saleiros: não, a faca e o garfo de prata reluziam junto dele. Assim é que era, e não fosse eu uma mulher que ali tinha vontade de chorar, o mesmo é dizer que chegara a hora de continuar a andar e deixar que a montra, ó graças a Deus já me esquecera dela até à próxima. Ou verdade, verdadinha, perguntava-me se um dia estaria ali um micro-ondas embrulhado em ponto de cruz com o ar sério de quem resolve problemas para que os dias felizes sejam menos brutos, sendo que o próprio é de bruteza natural. Ah! E uma piscina em miniatura forrada a seda azul que revelasse as potencialidades de ser inserida em quinta familiar que desconhecesse a importância de uma carta do Congresso de Viena na qual se mencionasse a Legião Estrangeira.

 

E

 

que eu sinta sempre ao lado da força do amor que nada me pode acontecer porque o meu tio-avô e a minha bisavó não haveriam de deixar. E que possa eu fazer o que ainda não comecei.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2019

CRÓNICA DA CULTURA

 

Bruno,

 

Dei comigo a ser a única pessoa a comprar selo para uma carta. Dei comigo a pensar que as nossas conversas se não escrevem em e-mails. Dei comigo a pensar que não posso perder a chaves da caixa do meu correio porque recebo muitas cartas. Ainda. Dei comigo a pensar que ambos sabemos que carta tem o perfume das várias estações da alma. Tem folhas de árvores e espuma de mares que colam a cola do envelope, às vezes, com lágrimas, outras com urgências; carta tem respiração de mundo e tem carteiro que lhe pega e a entrega como testemunho de alguém que o pode ler na casa de jantar atras do reposteiro e beijar muito a carta e esconde-la no montinho do sótão, dentro de uma caixa, imune a ratos, e essa caixa é de Ali Bábá de um agosto que permitiu umas férias de mundo da nossa juventude. Quanto tesouro! Um mundo de projetos fenomenais e acontecimentos fantásticos, descobertas únicas, tudo condensado em 30 dias. Um mundo de cada um à sua maneira e tu com a Eduarda janela por janela a olharem-se, e, o tanque redondo dos peixes – mirante – era o meu melhor público para que o Miguel entendesse que aquele golpe de vista infalível que a água captava, era a promessa de, na manhã seguinte, juntos, na praia, nós os dois, iríamos ao mar.

 

Bruno,

 

Voltei para casa e abri o envelope e escrevi-te isto. Quis saber que saberias da minha fidelidade a escrever-te cartas, mas que uma mulher exausta e ansiosa demais pode escrever e-mails, e, uma vez por outra, o teu endereço eletrónico, tenta-me, e não te posso prometer que uma tarefa esgotante me evite de o usar quando.

 

Contudo, do perfume ainda não sei como farei. A minha caneta tem tinta permanente e por isso tem perfume. Receio que isto de escrever-te sem ser por carta, fique tudo mal escrito e mal vivido e que não domine as palavras na minha fala, como quando as obrigo por tinta a subirem a Acrópole.

 

Que dizes?

 

Eu sei que não estou apta a conhecer este novo Evangelho das tecnologias de utilizador que, receio, pelo sinistro da sua facilidade, mas, desde que o envio das cartas se apoderou de mim na fúria de viajar e começo a chegar antes delas. Enfim.

 

Acima de tudo, para nos sabermos de nós, rapidamente, outros meios se propõem. Impessoais? Ou neles se reconhecem, que os últimos degraus que subi na arena em Palermo e tos mostrei, quase em direto, por um vídeo que fiz e te enviei por telemóvel, foi pronto também a mostrar-te os templos de Agrigento e a expor-te quão mágica era a luz mediterrânica.

 

Duas semanas depois estavas lá com uma Eduarda III ou IV (eras fiel ao nome) pois pressentiste afinal pelo vídeo que…

 

Que dizes?

 

Esta pergunta vai por carta. Vou voltar aos correios. Tratam-me tão bem!

 

«Bom dia Dra., mais uma cartinha? Quer escolher o selo? Temos uns que são mesmo o seu sorriso.»

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

(…) naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte.

 

 

 

Bruno, meu amigo, minha tão jovem vaidade;

 

Só posso responder à tua carta dizendo-te que naquela casa, tanto quanto me recordo, houve sempre neve. Neve, lá mesmo dentro da casa. Diria que em certos dias havia neve dentro do próprio forno de lenha. Fora arrendada essa casa aos caseiros da quinta da tua avó. Recordas-te? Caía nela em charcos, a água das chuvas, a neve, em despedaçados e pesados flocos, fustigava-a com a ajuda do vento e tudo tão suportado pela casa estoica e pelos seus habitantes. Tenho a certeza de que era assim para que eles pudessem ser seres do mundo. Agora tenho outra certeza: mesmo no verão, no tempo dos milhos, o tempo, caía pelo buraco do teto da cozinha de chão de terra e, feito neblina, a qualquer hora, furava todas as velhas rachas da casa e expandia-se no ar, fazendo-nos sentir necessidade de algum agasalho. A casa era uma casa de aldeia, rural, marcada pelas pedras cinzentas e pelos sequeiros de pedra cinzentos e pela eira de pedra cinzenta. A casa era o bater do coração do ti Aires que a achava um mistério fundo, ou não guardasse ela, gentes e bichos, num orgulho de casa conforme a todas as necessidades, assim ele a descrevia. Confirmo-te que a tia São fazia o tal arroz de feijão no tacho, assente na grelha dos três pés, e, não havia melhor cheiro no mundo do que aquele que vivia no fumegar deste tacho ou na abertura da tampa do forno de lenha, onde, assada estava a galinha e cozido o pão, ambos a espreitar-nos como um vestido aberto às cerejas. E nós, Bruno, nós lá íamos perguntando à Ti São, qual a razão do repasto e por entre as perguntas, as lágrimas que ela limpava dizendo sempre:

 

Maldita constipação! E fazia por tossir.

 

A ti São dava-nos sempre suspiros que fazia com as claras dos ovos que sobejavam dos almoços com os amigos do marido, vizinhos de ambos, e em cuja mesa – que era a própria arca salgadeira das carnes do porco - ela se não sentava nunca, apenas de pé e de prato de alumínio na mão só o arroz de feijão provava. Ainda assim, para nós, abria o forno, metia a pá e lá vinham eles, os suspiros direitinhos provocar o nosso olhar.

 

Vá levai alguns, dizia-nos num sorriso de ternura.

 

Nós lá íamos para casa felizes com aquelas guloseimas únicas. No outro dia, ou melhor, em mais outro dia, seguia a ti São às 5h da manhã para o campo, de onde só regressava de novo por volta da meia hora, como quem diz, a um outro meio-dia e meia. Regressava para pôr no lume a sopa a fazer. Esta sopa levava couves e um pouco de gordura da barriga do porco e comiam-na com broa saída das mãos da Ti São. A nós ela deitava os olhos e dizia-nos:

 

Vá ide almoçar, isto não é para os meninos.

 

E tu reparavas que eles nunca falavam um com o outro durante o almoço, ou, falava o ti Aires por gestos secos, conhecidos da ti São depois de 50 anos de matrimónio. Talvez por isso havia sempre neve na casa. Talvez por isso o fulgor do mundo entrara há 50 anos, quando o tempo das promessas lhes obedecia, e, depois, rapidamente as fartas hortas foram ficando nuas, o quarto do casal com lençóis mais gelados, os porcos a engordarem sempre o mesmo e os secos polvos do Natal cada vez mais tesos e magros.

 

E o ti Aires lá seguia para a empa de pés nus e gretados enfiados nas botas velhas, e, a ti São de joelhos, lavava a roupa no riacho partindo previamente com as mãos o gelo da superfície da água; depois lavava a roupa, esfregava-a na pedra como se não tivesse chagas nas mãos. Num sol qualquer corava a roupa exposta no chão; puxava os bois à fonte, enchia os colchões de capas de milho, deitava semente ao lavrado e vinha para casa dar comida às galinhas e aos coelhos e com a tal constipação que a fazia chorar, cortava um pouco da barriga do porco que cozera na sopa do almoço, e acompanhava-a com batatas cozidas, evitando que fossem solteiras de acompanhamento. Para nós, lá vinha mais um suspiro.

 

Tudo em silêncio, ou quase.

 

E tens razão Bruno, nunca compreendemos porque chegada a quase noite, o ti Aires lhe batia, e lhe batia até com cordas. Depois bebia, dizendo que era para esquecer ou aquecer e deitava-se.

 

Nós e os suspiros de que falas. Nós que tanto gostávamos de passar o dia a brincar à volta daquela casa, e a dizer adeus à ti São, nós, olhávamos para os suspiros e esmigalhávamo-los nas mãos a cada chibatada do ti Aires na Ti São, e o que caia das nossa mãos era neve. Naquela casa houve sempre neve, houve sempre muito frio.

 

E a cebola no tacho também fazia chorar a ti São: e nós miúdos confundidos.

 

Bruno há sempre um envolvimento na reflexão a respeito de tudo e com a nossa atual idade tem de haver decantação. Alguns acontecimentos que referiste poderiam parecer-nos, nos dias de hoje, insignificantes, e, afinal surgem com um significado que no momento não pensámos ter sido tão violento por muito que esmigalhássemos os suspiros nas mãos. Vivemos naquela casa episódios lúdicos e presenciámos forças ensombradas, forças daquelas que impressionavam os olhos a chorar de tão brutas serem. Digo-te: é bom que te não queiras perdido daquele tempo. É bom que queiras que o criador tenha que optar.

 

É bom que saibas que tanto quanto me recordo, e tu te aproximas, naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte. E enfim, a indiferença, essa, em que os faziam jogar a própria vida…era, é…

 

Saudades te envio

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A fragilidade da tolerância

 

Há pouco tempo escutava um empresário que insistia perante todos nós naquele almoço, na necessidade de acedermos a todas as culturas, nomeadamente na tolerância de as compreendermos e fazer nossas na parte em que as nossas e as demais se quisessem abraçar. Falava eloquentemente naquele encontro de amigos e conhecidos e defendeu mesmo a medida indispensável de introduzir nas nossas fábricas assalariados chineses, fazendo uma correta ponderação entre os salários deles na China e os que se praticam em Portugal, e que o valor que resultasse da ponderação seria bom para ambas as partes, já que nós tínhamos mão-de-obra mais barata e eles subiam na qualidade de vida pois aufeririam sempre muito acima do que podia ser a realidade deles na China. E voltava a referir a tolerância como a capacidade humana de entender esta escala tão vasta de intercâmbios que a todos favorecia.

 

Confesso que fui perdendo o apetite face àquele teatro de papel seguro na tolerância e fui-me deslocando para Dante refletindo no Purgatório, no Céu e no Inferno tudo cabendo nas estreitas ruas de Florença de onde nunca nada me sufocava e, no entanto, começava a sentir falta de ar com este congeminar da tolerância exposto convictamente pelo empresário que descobrira a fórmula um de auferir o máximo à custa de uma ideia de porte em espaço cerebral mínimo.

 

Assim, da minha parte, coloquei desde logo em questão esta tese de índole moral num contexto de tirar partido de quem humanamente e por lapso se refugia num outro humano que sem lapso o convida para o explorar.

 

Na verdade tudo isto é tão abrangente que até dá guarida à tolerância que fica inteiramente indiferente à fome ou a quem morre de frio no metropolitano de Londres, ou, o mesmo ao desemprego, ou, não fosse este um dos maiores sem abrigo da vida bem suportado pela tolerância, frágil artefacto usado aos domingos, honrando assim os dias santos de guarda.

 

Ou ainda a fragilidade da tolerância não pudesse permitir a cereja no topo de um bolo que desaba no pechisbeque de pretender fazer de coroa de um rei burlesco, como foi o caso deste que num almoço brindou ao realismo empresarial de um novo e tolerante estilo de interpretar.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A RIBEIRA DA BALEIA tinha caminhos de condições muito precárias para lhe aceder. Tinha percursos estreitos com fortes subidas e descidas suspensas em fúrias de pedras que rolavam debaixo das ferraduras dos burros tão carregados que escorregavam e, ainda de vez em quando, lá levavam com um vergão para que se não temessem do que a memória já lhes devia ter retido de tantas idas e voltas à Ribeira da Baleia.

 

Por mim iria sempre à Ribeira da Baleia desde que a Ti Jaquina Pataca me convidasse a ir com ela a este local para mim, mágico. Também ia connosco o rebanho de ovelhas que nos seguiam os passos e que se confiavam a uma certa sonolência no descer das ravinas como se não olhar fosse atitude protectora ao não cair.

 

Chegadas à Ribeira hora e meia depois de sair da aldeia, as ovelhas corriam ao pasto, os burros eram descarregados e soltos, e lá se expunha a ribeira sempre envolta numa neblina de quem tenta fugir à luz expressa. A ti Jaquina começava a tratar da horta e a refrescá-la com a farta água da ribeira. A terra molhada deitava o cheiro que só a conjugação com o verão lhe era inigualável. Depois era a hora da sandes com chouriço. Sentávamo-nos as duas em pedras escolhidas à beira da água e como sempre a ti Joaquina perguntava-me

 

Então e hoje qual é a pergunta da menina?

 

A baleia foi atirada aqui pelo mar nas marés vivas?

 

Pois dizem que não. Ela veio vindo ao engano entrando na corrente em que a ribeira chega ao mar. A ribeira deve ter-se alargado naquela noite e o mar zás! empurrou-a para a livrar de por ali morrer encalhada. E ela veio vindo devagarinho, cansada e esvaída e aqui parou de vez junto à horta.

 

Que estranho como ela se perdeu assim terra dentro. A ti Jaquina viu-a?

 

Ah claro! era enorme, de boca aberta. Não se falava de outra coisa pelas terras. Todos diziam uma baleia deu à ribeira da ti Joaquina. E iam todos lá ver.

 

E espreitou-lhe a boca?

 

Ah claro! e o que eu vi…

 

Que viu?

 

Vi o princípio do seu mundo. Vi-lhe o coração.

 

O coração?

 

Sim menina. Quando se esteve entre vida e morte o coração tem certezas e vem dizê-las à boca de todos mesmo que se não ouça nada. Também acho que ela deitava um fumo que se confundia com a neblina e lá dentro dela era tudo negro, acho que do luto. Era uma baleia defunta e a podridão dela começava ali naquela água que fazia de cemitério.

 

Pois imagino, mas sem caixão que a baleia é bicho enorme. E diga-me novamente, e depois como foi?

 

Depois vim cá passados uns dias e nada havia na ribeira. Pus-me a pensar. Quem levou a baleia e como? se era tão grande e estava morta? Perguntei ali ao vizinho da horta e ele respondeu-me grosseiro que de nada sabia e continuou a cavar como se a pergunta fosse parva de tão tonta.

 

Não gosto de coisas segredosas das quais nada resta e ao mesmo tempo parecem mistérios mentirosos.

 

Sim, mas ainda há o coração.

 

Qual coração? O da baleia?

 

Sim. A menina não sabe, mas acordar não é de dentro, acordar é ter saída mesmo nem que seja para um fiapo de vida ou morte. Tenho esta coisa comigo e fui lá dentro da boca buscar o coração da baleia. Dei-lhe campa, é no lugar das alfaces e dos cheiros que se veem, ali mesmo ao fundo. Só eu sei que está lá o coração que se enganou no caminho. E as pessoas julgam que de cima dos telhados vêm tudo…

 

Ah já sei, como lhe salvou o coração ela deve ter voltado ao mar num forte impulso de corpo e aproveitando o redondo da forma, depois, no mar, os peixes comeram-na sem que soubessem que não comeram nunca o principal.

 

Pode ser assim ti Jaquina?

 

Pode menina.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A VIDA, O SEU TERMO, O SONHO, A NÃO ESPERANÇA: EIS A SUA MATÉRIA

 

A desproporção de forças infetantes que se reproduzem sucessivamente, a grande praga que dizima os seres, que carcome as rochas, os ares, as águas e vaza os lixos na vida, refugo letal onde se adormece um sono, assim a Absurdidade comunica os seus poderes termiteiros e mercantis, somatórios ávidos do ter.

 

A profundidade a que todos, de um modo ou de outro, permitimos que no mundo se venceria pela força do que constrange e obnubila, permitiu que os domínios interditos de quem mata a espessura da vida fosse contada, e mesmo exposta, sem que uma multidão em número e vontade excedesse a soma das forças de todos os que fizeram chegar o mundo ao nível do lixo como desígnio.

 

Todavia as silenciosas contas bancárias dos responsáveis pelo suposto não saber dos atos criminosos que provocaram e provocam, elevam os rendimentos ao limite superior do possível e reduzem ao mínimo qualquer custo de manutenção do esconder dos seus atos, agindo como inimputáveis pois a máquina construída os protegerá passo a passo.

 

A terra continua a ser devastada pela violência dos monstros que alcatroam mandos de morte com a finalidade de que, à superfície, o cenário tenha brilho e atraia aparências de vidas que não denunciam o simulacro do que lhes é dado viver já que no imediato nem o reconhecem como tal.

 

Na fotografia, este menino dorme e desconhece que também lhe simularam o céu sob o qual adormeceu.

 

Sonhará este menino com o abrir de uma caixa própria, uma caixa de algo que lhe é muito precioso e o embala até a encontrar vazia e do sonho acordará num sem número de pesadelos reais?

 

Desconheço as contabilidades que se fazem neste pseudo mundo que troca capital por lixo e no qual adormecem crianças em nojentos colchões que boiam nas lixeiras, lixeiras criadas pelos manipuladores dos fátuos fogos que obscurecem até o futuro das luzes das estrelas.

 

Promove-se a guerra de todos contra todos: assim Hobbes, assim o emaranhamento das corrupções, teia de submissões articuladas no plexo do lixo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Solidão: um lugar de morada

 

Escutei pela radio que uma senhora fazia renda numa farmácia das 9h às 19h todos os dias. Escolheu um cantinho onde desse sol e dizia: é maravilhoso estar aqui na farmácia a fazer renda.

 

Diz que assim nunca está sozinha. Não imagina melhor sítio para estar e o doutor da farmácia entende. É tão discreta que parece-se a uma existência reduzida, ela o banco e a renda. A tensão arterial é branca e as análises que um dia fez acusaram apenas solidão. Há quem precise de explicações para este facto, ela não. Sabe que na morte somos todos iguais e na aflição também. Sabe que aquele que está lá em cima olha por ela, até lhe arranjou a farmácia, e esconde dela as caras dos clientes que não gostam de a ver ali.

 

Às vezes, sente que não descansa nunca, mas não é depressão, é que a renda que faz é complicada e renda, renda, renda a subir e a descer os desfiladeiros da vida da ponta dos dedos ao fundo da alma, são coisas que cansam lá dentro dela. Contudo a farmácia é um local maravilhoso: repete sempre.

 

Também lhe acontece que as linhas entrelaçadas da renda lhe levam à memória os 4 filhos e a viuvez, e, se assim acontece, pensa logo no almoço que só pode em certos dias, pois a reforma é pouco mais de 200€. Este exercício da falta do almoço recorda-lhe uma das filhas, a única, que, de quando em vez, lhe chega uma ajudinha pouca, e o doutor da farmácia, esse, que a deixa estar ali é uma pessoa maravilhosa e ela tem muita sorte.

 

Fazer renda numa farmácia pode ser o promontório possível de uma vida que bem sente a indiferença de quem tudo tem e canta o hino da vitória ao dinheiro que tudo suplantará.

 

Nos tempos que correm a solidão é prevalente nesta sociedade dilacerada, na qual se medem aos palmos e às rendas, o bem-estar inferior de cada um. Não há caminho que concretize o maior desejo do ser humano que é o de ser amado e a vitória afinal é a do descartar dos seres.

 

Também em busca de suposto sentido a sociedade moderna exalta os génios e os de alta performance para a economia e para o superior pensar. Mas a maioria da humanidade não é genial, senão apenas normal e aos normais ainda se retira o pouco, mesmo que ser normal seja a superior capacidade de suportar a dor com um fio de esperança de que a sua vida tenha sentido. O sentido do porque viver. Porque se ganha fidelidade a meio metro quadrado de uma farmácia, chegando a acreditar-se que afinal ali já se vivia antes de nascer.

 

E quem toma como sua esta apelidada de tranquila morada? Quem tem essa coragem onde porta alguma se insinua? Quem de tudo distante, pode manter seu refúgio?

 

A Paulo Moura que tão empenhadamente descreve o exílio das flores regadas a destroços desta sociedade de solidões, me junto, e assim me aceite, para entender com ele o quanto lá ao fundo por entre as rendas, mágoa alguma serena.

 

Teresa Bracinha Vieira