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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

A Matemática porque é também preciso resistir às simplificações grosseiras

 

O desinteresse pelo ajuste das impurezas do pensar quando lidamos com assuntos muitíssimo complexos, sobretudo quando, até mesmo as bolas da sorte, aparentemente escapam às leis da natureza e apenas contribuem para erros de raciocínio, o que daqui emerge não é particularmente abonatório para o retrato da humanidade.

 

Quem pensa que basta admitir que alguém possua a verdade e que, por esse facto, a possa impor aos outros, desconhecendo que nenhum de nós sabe isoladamente, e que vivemos numa rede de interdependências cognitivas, então desconhece que uma das características da Matemática é justamente a sua integração vertical no nosso raciocínio de modo a que ele não suba para o andar de cima sem ter entendido o andar inferior.

 

Recordo que me ensinaram que o algoritmo de Euclides fora um método eficiente para se calcular o máximo divisor comum, esse mesmo que hoje com pequenas pertinências é utilizado nos computadores.

 

Que mais não seja, há também que pensar que a Matemática é necessariamente uma questão de educação, e é sobretudo um processo, um processo para além da aldeia de pensamento que nos querem fazer crer que nos basta, que nos basta a ela aceder, e pronto! eis que já percebemos que um resultado matemático, tal como uma lei da Física, é verdadeiro ou falso independentemente das referencias culturais onde assim o constatemos.

 

E nada mais falso afinal do que se julgar que foi na aldeia murada que aprendemos esta realidade.

 

Em rigor o processo a que acima nos referimos referente à Matemática é um processo internacional, independentemente de existirem escolas de Matemática. Lamenta-se, de quando em vez, que, em Portugal, o lugar da Matemática seja um lugar onde se arrumam de vez os obstáculos e que as ambições de a conhecerem sejam meras tendências, na sua maioria.

 

Do pouco a que acedi no seu estudo e do tempo que ainda hoje me ocupa a sua Casa para que me sinta numa razão que muito assista à minha escrita, sinto cada vez mais que a Matemática é necessariamente uma liberdade para a qualidade de vida do pensar e para a higiene das ideias, e, é lugar por excelência onde se joga o jogo decisivo.

 

Confesso que sempre senti a Matemática como uma postura revolucionária indispensável no processo do pensar, e, confesso que sempre a vi – excecionando um caso – a ser transmitida, ensinada, exemplificada, não como quem conta uma história de amplo nexo, mas como quem conta que um país é pobre porque padece dos males x e y, sem alternativa de que, a soma destes dois, possa ser diferente de quatro, no sentido de dois x mais dois y.

 

Talvez o exemplo dos países que têm um ensino não superior exigente para todos, de mãos dadas com a seleção atenta, possa provar que o talento da perceção da Matemática reside na excelência de um sistema de ensino.

 

É com felicidade que hoje já vejo, até em programas dos meios de comunicação, a Matemática e as Artes, legitimarem casamentos, nos quais a Música, a Poesia, a Dança, a Arquitectura, a Pintura, o Diálogo, enfim tudo o que é essência, conferir e receber poder de entendimento ao papel-chave de um número, ou de uma letra de um ângulo de geometria espacial, ou de um simples sinal, função insubstituível para nos entendermos fora das simplificações grosseiras do pensar e do dizer, enfim, próximos da lógica do cerne.

 

Sei que não é possível melhorar qualquer área do saber individualmente sem melhorar a qualidade global do sistema escolar. Não douremos as pílulas. Se Pedro Nunes (1502-1578) foi um grande matemático, dos poucos portugueses que citamos nesta área, foi porque subiu acima da mediania e deu profundo contributo ao desenvolver a Matemática do seu tempo. Contudo, afirma-se que Portugal nunca produziu um génio matemático. Enfim, em Portugal, registe-se, que o ensino das ciências sempre foi deficiente. Ora, atualmente, publica-se a ritmo crescente, artigos científicos em revistas internacionais de referência. Assim sendo, estamos a tentar recuperar de um desenvolvimento da ciência que em Portugal terá tido mais de anos de decadência do que de anos de ouro, mesmo considerando a época extraordinária dos Descobrimentos.

 

Na verdade até na escrita, a investigação tem chegado bem pouco à grande passada de Pedro Nunes no seu contributo para a ciência náutica. Pretendo com isto dizer que o domínio da palavra tem de assentar na fantástica utopia do seu perfeito manejo e na correspondência com as infinitas realidades a que se pretende referir, sobretudo se na ascensão dessa escrita estiver a bússola que possa não ensinar a resolver a equação de segundo grau, mas a pressentir a vida dessa equação, o seu poder de agir sobre o Universo.

 

Talvez assim, possamos afirmar que daí, à dependência da curiosidade nossa face ao Saber, eis a Matemática, generosa, afinal prenha de ideias subtis que nos oferece a grande chave para a desencriptação do mundo que nos rodeia, e a mão da Filosofia vívida a expor o propósito e o sentido.

 

A linguagem e o pensamento têm uma capacidade fabulosa para representar a realidade. Todavia, somos irremediavelmente falíveis, mas podemos diminuir os riscos se nos confrontarmos em cadeia, e só desse modo, entenderemos que nem todas as realidades se submetem às nossas representações, carece que a sensatez judiciosa dos nossos raciocínios e dos nossos envolvimentos estejam à altura da tarefa que nos cabe.

 

Eis o repto de Gowers e Michael Nielsen

 

«quem poderia imaginar que o registo de trabalho de um projeto matemático fosse tão interessante de ler como um thriller

 

A Matemática e o Português, a História e a Filosofia, a Física e a Etologia, a título de exemplo, envolvem radiações de origem solar que só se esgotarão se se esgotar a nossa criatividade: que esta se não cristalize, é da nossa exclusiva responsabilidade.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da sua rotina

 

A tentativa de ocultação do vazio e da própria morte cria um espaço de sombra no qual desejar é ser incapaz de desejo.

 

Li hoje o texto que escreveu para o DN e transcrito para o nosso blogue, de Anselmo Borges e desde já muito agradeço a Sua reflexão.

 

Curiosamente vou levando até um deserto uma especial estrela que me fala da morte desde há muito, e, que aos poucos, pela literatura e pela vida, me conduz ao discorrer sobre a razão do fundo turvo, puro ponto de negatividade, no qual, nos dias de hoje, o medo foge do medo, abraça a ignorância e uma hipotética arte de argumentação a respeito é equivalente a zero.

 

E não é de bom-tom como se afirma no texto que referi, falar da morte e do seu tabu, quando na nossa sociedade nada se sabe como se trata, o como se morre, e o tabu da morte impõe-se, já que esta também só bate à porta dos outros. Afinal o mundo que vale a pena é o do capital circulante dividido outrora por um tratado que demarcou os limites de um universo com desprezo pelos seres, separando-os, confiscando-os e desamando-se uns aos outros para que depois de torturados, após as confissões, possam perder o valor e serem eliminados. Aqui a morte?

 

Não! Aqui o seu rival.

 

Tudo se precipita como numa mise-en-âbime e surge uma parcela que simula o Todo quando a morte é um mistério, por óbvio, desconhecida dos vivos, e a fraude do desprezo por ela, inibe as condições da ideia como na caverna platónica. E lá vou com a minha especial estrela ao tal deserto no qual ainda me resta a pulsação do meu sentir pela dor dos outros que até hoje nenhuma des-razão venceu.

 

Contudo, aqui e além e muitas vezes sou espectadora dorida do irreversível e do insuperável quando a morte me alerta que me não sei despegar da minha consciência, e num cenário tão extremo volto a olhar para o tempo por viver e nele

 

«Um anão ressuscitado não é menos espantoso que um gigante, e assemelha-se mais a um gigante ressuscitado do que se lhe assemelha um gigante morto.»

                          Malraux

Enfim a morte de que falamos converge para uma disciplina de engenharia genética ou robótica para que lhe seja conferida a tarefa uniformizadora mais definitiva e assim a insensibilidade dos sentires realiza completamente o titanismo. E sim, a morte faz a triagem entre o que vale ou não a pena: a energia da minha estrela já mo fez saber.

«Para onde quer que nos voltemos, o nosso espírito não encontra senão o vazio, quando o espaço está repleto.»

                          Artaud

O abismo seduz quem se aproxima de uma partida definitiva que ainda pode ser impedida, e, se o faz, ou, se o consegue será sempre pelo poder da mercadoria ávida de enfrentar e derrubar a teia imensa do entendimento do amor pelos homens entre si; e, cada vez mais este abismo forma um novelo cego que aperta esfolando a fundo os braços da minha estrela: aquela, única, com a qual vou ao deserto desafiar a decifração da morte, e ela surpreende, se supera e exímia de tanta inocência me recorda

«(…) Na paz, os filhos enterram os pais; na guerra, os pais enterram os filhos.»

         Heródoto

         (fala Crespo)

E no confronto com a morte quando ela não é tabu, bem creio que se insinua um saber de liberdade no instante trágico e efémero dos homens, de saborearem o amor vivido sem o amparo da eternidade.

 

Afinal todos somos sem sandálias.

 

Todos somos a nossa impossibilidade ainda que viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da rotina, esta é minha convicção.

 

Acresce que bem creio na clara impiedade de um mausoléu que tanto ajuda a petrificar uma vida quando qualquer coisa de dramático no peito aconteceu.

 

«Tu que no fundo dos tempos,

No Nada de uma noite,

na Não-noite, revi,

tu(…)»

       

Paul Celan

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A ilusão da sabedoria

 

De fato a felicidade não é uma ideia nova, o que é novo é associar-se a conquista da felicidade às facilidades da vida, diz-me o Rui Vassalo ao entrarmos para o Jardim da Estrela, local de boas conversas do nosso grupo de então.

 

E sim, digo-lhe, concordo contigo, mas tudo me parecem caminhos indefinidos para um paraíso ali mesmo ao lado de cada um, e como já ninguém aceita o seu destino, há que aligeirar o que no mundo pode ser transformado, sem que qualquer preocupação de aperfeiçoamento pessoal colha hipóteses de embelezar o viver do eu na terra de todos. As metamorfoses das quais me dou conta são puramente do foro material. Julgo que se pensa dever existir um mínimo confortável a que todos tenham acesso, independentemente da insalubridade em que cada qual venha a viver esse mínimo: interessa sim, que dê pelo nome de mínimo confortável. Não sentes assim?

 

Pois. Entendo-te. O conforto são os muitos eletrodomésticos, as roupas de marca, a renovação periódica da imagem, a simplificação da vida e do descanso passivo, afinal o encontro de braços abertos com a felicidade individualista de massa. A ausência de conhecimento por parte do utilizador disto tudo, é óbvio, já que a evasão confortável é a que se instala nos prazeres e juízos fáceis. Nem imaginas Rui, o quanto sinto a violência disto tudo, vomitada em palavras mesquinhas e pensares rotos de telenovelas, equipamento-base para se avaliar comportamentos e mundo. Eu até acho que o formato dos prédios dos dias de hoje são bem o espelho de quem neles habita. A orientação dita estética conforma-se com a não proteção da paisagem interior e exterior de cada qual. Tudo, tudo está ligado. Não existirem hábitos de leitura, mas sim o carregar de tecla para que os motores de busca respondam de imediato onde se localiza hoje o novo território da felicidade.

 

Olha Rui, o teu irmão disse-me com um sorriso esclarecedor que a qualidade de vida dos utentes dos casamentos de hoje, assentam naquilo a que as mulheres querem chamar de amizade, e que permite que o casamento resulte porque são amigos e os divórcios são para o desamor, e, assim, safam-se estas mulheres pois sendo as maiores amigas dos seus maridos, mesmo que haja alguma separação elas mandam dentro da futura relação deles, e, se existir uma traição, não faz mal pois são apenas amigos e tudo se recompõe no somos muito felizes mesmo não sendo. E isto é felicidade.

 

Mas qual a razão de serem as mulheres a apregoar essa amizade?

 

Ora porque querem permanecer no mando do individuo pelo seu espaço e pelo seu sentir. Não sabias?

 

Bom! sei que não estou a pensar casar contigo e és a minha melhor amiga. Sei que no amor também há amizade, mas não quero ouvir falar dela nos votos nupciais, entendes?

 

Sim entendo. Tudo isto que está a acontecer não é novidade; são meros trabalhos de reabilitação do habitat afetivo. Repete-se o que não tem alicerce; receia-se que o amor seja pouco, seja escasso, termine mesmo, e, depois não sabem o que fazer, enquanto, a amizade é outra “tranquilidade”, mesmo que nos estejamos a referir à amizade nos votos matrimoniais. Assim não se arrisca o amor. Arrisca-se a cosmética… e não se entende depois o recurso aos médicos e a intolerância da doença…ainda que a maior parte das patologias são do foro dos piercings intelectuais. Enfim, envelhecer em bom estado faz parte da felicidade adquirida pelas facilidades da vida que se desejam viver. A própria inflação orgíaca do sexo agressivo e banalizado, consumível a toda a hora, o culto do obsceno e a justificação de que todos podem fazer o que querem, dependendo do seu registo, não os questiona. Ora, assim sendo, o aceder aos sites da pedofilia faz parte do mundo que se planteia com maior publicidade mesmo que saibam que a pornografia já em 1983 excedia as receitas geradas pelo cinema ou que agora a cannabis é tendência.

 

Vivemos afinal o tempo da festa dita decente?

 

Sim Rui vivemos o tempo da festa pálida do Homo festivus, tão pálida, tão light que os seus espectadores não resistem à sua própria hegemonia, à sua ambiência fun: só os decibéis da maré humana contam. Regressamos ao culto do instante exibindo-se a felicidade hedonista e narcísica numa estranha obsessão pela performance.

 

Será tudo isto apenas uma parte da ilusão da sabedoria? Digo-te Rui, às vezes penso que já cá não existimos.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


    Hopper

 

À Porta do Mar

 

O sótão da linda casa de praia era todo forrado a pinho: tetos, paredes e chãos, portas, postigos e rebordos de claraboias. As camas tinham colchas de chita, as fronhas das almofadas de enfeite e os cortinados que tapavam a área das roupas, eram também de chita. Nas paredes fotografias recortadas das revistas mostravam praias exóticas de palmeiras convidativas e, aos cantos dos quartos, dependuradas junto ao teto esconso, as colunas de som do gira-discos faziam presença. Estas colunas de som não eram mais do que as camas das bonecas com o fundo forrado a chita e exposto como colunas de som, ou ainda alguns legos, montados em retângulo, forrados igualmente a chita, e que cumpriam a mesma função. Ali se viviam parte das férias em reuniões com amigos e escutando-se a Françoise Hardy – sobretudo a canção Mon Amie la Rose, Adamo, ou ainda a canção Rain and Tears que nos levava à lágrima ao canto do olho. Contudo, o silêncio total fazia-se entre nós com o Don´t Let Me Down dos Beatles. Enfim, a era da modernidade não tinha nascido. O mesmo é dizer que a civilização do desejo também não se tinha concluído, ao menos ali dentro de nós.

 

Não recordo que houvesse alguma multiplicação de necessidades o que quereria dizer que o consumo em nós não tinha liderança. A nossa relação com as coisas e com os outros estava estabelecida sem que fosse desassossegada, pelo menos entre amigos, e, não obstante a televisão existir, estávamos sempre melhor no nosso universo mental de afetos, exprimindo-nos em diálogos de amizade, de cumplicidade de namoricos que nos expunham deliciosos mistérios, do que em frente a um ecrã de televisão que apenas aqui e ali, nos proporcionava um impacto de momento, como era o caso da serie Bonanza.

 

Éramos todos muito novos e no entanto surgia e implantava-se uma realidade que iria colocar fim à boa velha sociedade de consumo em que vivíamos. O creme Nivea, sem o notarmos, já era. A difusão de produtos deu lugar em todos nós, a uma estranha reatividade provocada pelo marketing, enquanto forma de nos comunicar a conquista de uma liberdade de muitos e diferentes sótãos, em que se decretava ser a chita, um pano de baixo valor, e a fidelização do nosso bem-estar, devia sentar-se agora à porta da piscina e não à porta do mar. 

 

O produto, o mercado e o consumidor era a nova predominância em trio, sem que chegasse até nós a razão do hiperconsumidor ser um ator a responsabilizar com urgência. Ainda tínhamos pudor de pedir aos nossos pais mais do que nos ofereciam, é certo, todavia o imperativo de olhar para o que não tínhamos, ia-se impondo, ou não fossemos frágeis por excesso, a fim de podermos resistir ao mero empréstimo gratuito de provarmos uma felicidade potencialmente mais recheada do que aquela que sempre vivêramos nos sótãos das nossas alegrias e segredos.

 

Enquanto vai triunfando um capitalismo globalizado, não nos damos conta que passámos a segundo ou terceiro plano de tudo o que é vida. Nascem os turboconsumidores subjugados pelo estatuto social, ausentes da cultura da coluna de som feita com a cama das bonecas. As novas experiências emocionais são infiéis ao próprio tempo que duram, e no seu universo não cabe escutar com emoção Don´t Let Me Down dos Beatles. Tudo é dessincronizado, hiperindividualista, onde moldar o corpo é reorganizar a vida, e, pouco a pouco, este novo espírito insere-se na nossa relação com a família, com a política, com a religião, com a cultura e mesmo com a dimensão do tempo.

 

Quem sabe que as pechinchas do low- cost, ou os pseudo leques de opções que se diz oferecer na atual sociedade, só produzem desequilíbrios de alma, embora os seus seguidores incondicionais encontrem nas farmácias de quem imitam, os comprimidos da felicidade alheia e a tenham como sua. E tudo vale mesmo que as verdades passem a verdadinhas.

 

Na realidade, as festas do nada, as noivas do stress, as ansiedades tão frequentes, o dinheiro cada vez mais preocupação obsessiva, as relações sexuais problemáticas, a gravidez a fazer-se uma batalha para se conquistar, a procura cega da diversão a todo o custo, enfim, como escrevia Aragon «Quem fala de felicidade tem muitas vezes os olhos tristes» e, é, esta frase, cada vez mais o nosso espetáculo ao vivo.

 

E diz-me o aconchego do sótão da casa de praia que nem todo o balanço desta sociedade é apenas negativo como afirmam os seus habituais detratores. Diz-me este sótão que não esqueço, que o individuo continua a viver para algo mais do que o que lhes é passageiro, e ainda assim, este sótão, também deixa claro que não há que fazer o elogio a um regime que gera males infinitos, insucessos educativos, injustiças sociais, pobrezas inauditas, velhices abandonadas e tudo o que carece afinal de um reinventar de vida, e à beira-mar, no mínimo com esse horizonte se deve questionar

virá a humanidade a ser, então, mais feliz?, virá a ouvir uma outra Françoise Hardy – Mon Amie la Rose?

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Karl Popper apontou uma certa televisão como sendo um verdadeiro perigo para a democracia. Refletia ele sobre o embate da televisão na educação das crianças, não descurando que o principal esforço delas residia precisamente na adaptação ao que as envolvia, e, a educação tinha passado a estar também e demasiadamente nas mãos de uma televisão-comandante, com um papel tão forte neste processo educacional que, difícil se tornara, ir contra ela sem se ir contra o que as crianças já tinham absorvido com segurança e as fazia sentir tranquilas. Restava por isso controlar a própria televisão. Sugeria Popper que os profissionais da televisão deveriam ter eles próprios uma educação que visasse acima de tudo entender o poder que futuramente deteriam, e o grau de influência no desenvolvimento de um país que, essa responsabilidade apontava, como nenhuma outra, e, pela qual haveria que responder a bem do melhor da nossa civilização. Aliás, muito se falou a este propósito na exposição da violência pelos ecrãs das televisões, como se fosse o modo único de expor o mal e de assim o mesmo não ser repetido (há quem justifique a atitude deste modo…): isto quando já se provava a relação entre o aumento da criminalidade e as imagens televisivas.

 

Em casa de uma maioria, passou a ser normal, jantar ou almoçar em frente de uma televisão que expõe feridas horrendas nos corpos mutilados pela guerras, corpos de mortos espalhados sem direito ao respeito de não serem mostrados, crianças gritando apavoradas e de olhos carregados de moscas que preveem a morte pela fome e pela sede não abrandada pelos seios secos das mães, enquanto os telespectadores, pais e filhos, vão comendo ao seu ritmo; quando não, até comentando que determinada enfermeira naquele dia x em que foram ao hospital era absolutamente uma mulher cruel. Comer enquanto se veem matanças ferozes não é o princípio de uma realidade hedionda, é já o fim na sua normal aceitação. Curiosamente são essas mesmas pessoas e são essas mesmas crianças que um dia também gritarão “assassino” quando algum prisioneiro ou prisioneira entra para um carro celular a fim de ser transportado ao tribunal onde será julgado por algum crime.

 

As inúmeras possibilidades de escolha de canais ou programas televisivos recai na similitude de conteúdos, oferecidos por bens públicos que utilizam as ondas hertzianas como sua exclusiva pertença ou esfera de Hertz em plataforma apropriada abusivamente desde que se vise um qualquer objetivo. Acreditamos sinceramente que as tensões populistas triunfam, em muito induzidas pelos media, mas também acreditamos que se olharmos a forma como se faz política hoje, através desses mesmos media, não será difícil de concluir o quanto mal é tratada a democracia, defendendo-se sozinha como se a nossa contribuição diária não fosse a sua constante roupa de domingo preparada por todos nós nos inícios de semana. A limitação dos freios do poder e a atividade dos contrapesos da democracia são faróis à liberdade de imprensa que poderá cair do pedestal em que a si mesma se colocou, quantas vezes, levianamente num outrora de tornar a democracia como um circo mediático até a bem de um qualquer comércio. Sabemos que determinar a verdade do jornalismo não é fácil, mas por entre várias visões, até a qualidade das prioridades pode ser um diferenciado padrão sem que signifique notícias iguais ou idênticas.

 

Certo é que “ A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância” com ausência de crítica para ambas, acrescentamos: veja- se o livro “Televisão: um perigo para a democracia-: de Karl Popper; Sir John Condry; Giancarlo Bosetti; Jean Baudouin; Maria Carvalho - chancela da Gradiva - ou a sua noção claríssima sobre o paradoxo da tolerância.

 

Temos para nós que é desejável que exista espaço para que a própria condenação extrajudicial seja repudiada da notícia como um excesso que mina a verdade. Acreditamos que não são as leis que devem proibir ou estimular virtudes positivadas, antes todos estes poderes dos media devem fundear ancoras que provem melhoramento pessoal e coletivo; devem elas escrutinar virtudes baseadas em princípios num convite à cooperação de todos a um jornalismo enfim capaz de gerar cidadania, capaz de diminuir a opacidade do que se transmite e da sua razão última, isto como primeiro passo à sã comunicação das pessoas entre si.

 

A Internet cria uma ilusão de transparência e tem gerado mais apatia ao tornar-se a voz de tudo o que é novo e sem constrangimentos indispensáveis de objecto de freios e de contrapesos.

 

Em rigor voltando à televisão e sua influência, cremos que muito passa por um sentimento real de humildade dos media e que alcançar a verdade não quer dizer deixar de a procurar. Acreditamos que a humildade de quem quer ter consciência da reflexão sobre a própria inteligência de descortinar a arvore-núcleo da floresta é aventura a defender.

 

 

Também ao lermos este outro livro de Popper sentimos que nos referimos ao mesmo fenómeno que tratamos acima já que se trata de um abeirar a um berço sem idade que faz parte integrante da cultura dos jornalistas profissionais e independentes, verdadeiros centros de poder de contrapesos nas modernas democracias.

 

O mundo em que vivemos é o reino da opinião, e a plena certeza das coisas somente os deuses possuem”

 

Uma veemente luz sobre tudo o que escrevemos anteriormente, acerca do que Popper nos deixa no pensar, e sobretudo ao lermos este livro, ficou-nos claro o quanto não podemos ter medo de nos perdermos por muito que os pontos de interrogação ou exclamação se sobreponham seja qual for a profissão.

 

Tales de Mileto um dos Sete Sábios da Grécia para quem a água é a origem de todas as coisas, trazido à existência por toda a atividade do seu intelecto, ou, Zenão de Eleia igualmente pré-socrático - discípulo de Parménides- que defendia o quanto refutar diretamente as teses era o melhor caminho para expor o seu trágico absurdo. E o elogio de Popper a Xenófanes ou não considerasse a ciência um otimismo em relação à incessante busca do conhecimento por aproximação à verdade. E entender este mundo acordando do torpor agressivo dos media dos nossos dias e libertarem-se eles enfim da tensão atenta de sempre comandar, comandando tão só e tanto! a não libertação dos que os escutam e veem como quem aprende e assim se atualiza, este despertar dos media seria a possibilidade de ver o voar debaixo das grandes aves, seria a fórmula e o filtro.

 

É tempo, é tempo de reparar o funesto esquecimento de que somos mundo e nele, humanos, ainda que muito nus e muito indefesos. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

As sociedades grisalhas: o idadismo

 

Questionar o contexto demográfico que descreve o mundo atual, em particular definindo o envelhecimento da população é importante porque em grande parte explica o fenómeno das atitudes negativas em relação às pessoas mais velhas. Preconceitos e discriminação ferem as pessoas idosas atirando-as, nomeadamente, para o grupo dos sem grandes ou nenhumas capacidades, sendo que o “idadismo” não é compatível com a mudança social de um país como Portugal que tanto necessita de ver um futuro bem diferente.

 

Li que em 1969 o psicólogo americano Robert Butler procurava explicar o termo “idadismo” (ageism em inglês) quando procurava um esclarecimento às reações negativas de uma comunidade face à construção em determinada área das redondezas da mesma, de casas para pessoas idosas. Conclui Butler que não constituindo estas pessoas idosas qualquer motivo de provocação de medo ou de afrontas, somente a idade levantava questões à comunidade pois diminuía o valor imobiliário na zona e mesmo o charme da vizinhança.

 

Em rigor a Suécia e o Reino Unido têm feito um esforço no que se refere às práticas negativas contra alguém, baseadas na sua idade. O idadismo – envolve preconceitos e sentimentos que se têm em relação a um qualquer grupo etário- não descura as pessoas idosas e talvez por essa razão se chamarmos gerontismo, estejamos mais próximos da senilidade de espírito que se quer apontar, ainda que nem sempre presente na realidade, e, por essa razão, para a sua ausência, queremos alertar.

 

Tende-se a criar grupos de idosos com traços negativos baseados na incapacidade, na doença, no sentimento de desdém, e, até na piedade que empolga sentires desditosos face ao aspeto espelhado pelo enrugamento de pele ou pela curvatura de dorso, entre outros sinais de velhice como o longo olhar inquiridor e mesmo zangado de muitos idosos, que tanto indicam a pergunta da razão da injustiça que suportam sob o nosso consentimento. Existe uma ideia do que é feio na velhice e que conduz ao distanciamento, ao abuso e aos maus tratos, não necessariamente por via de agressões físicas, mas pelo abandono do idoso, reduzido ao mimo hipócrita de um comportamento cultural da visita aos lares, onde se depositam na maioria das vezes, espelhando sempre que um idoso tem local certo, possa o jovem familiar ter ou não disponibilidades de lhe retribuir em conforto tudo o que ele, uma vida inteira lhe proporcionou.

 

A discriminação em relação à idade do idoso é em Portugal um núcleo duro a vencer. Será de perguntar a todos os idosos se já foram maltratados devido à sua idade? se, já lhes foi questionado, quando não, subtilmente insinuado que assim sofrer é o normal face à idade? Creio que por medo de abandono total ou agravamento dos receios em relação a quem deles toma conta quando estão à mercê de desumanidades, poucos são os que diriam a verdade. Pois que aguardem a morte serenos, pois que assim cumprem o dever fundamental de entenderem os constrangimentos que impõem a quem deles por estes modos assumem a responsabilidade de os tratarem.

 

Não se pretende promover a incapacidade ou a dependência com bem-intencionados atos. Não se pretende que se não viva por ter um idoso em casa, mas que se compreenda o delinear de políticas adequadas que combatam a atitude de uma condenação à espera da morte e mergulhada em desamor: eis o que aguarda numa desilusão estilhaçada a nossa sociedade grisalha, aquela que poucos anos antes ainda aguardava que, esperança de vida, afinal, levasse a uma pertença de estatuto a respeitar.

 

A Europa é a região mais envelhecida do mundo. A redução do crescimento demográfico associado ao aumento de esperança de vida com profundos impactos económicos e também sociais, e não se descuidando imigrações e migrações, não deixa de nos impressionar, e, de acordo com o INE em 2007nos próximos 25 anos o número de pessoas com mais de 65 anos poderá duplicar o número de jovens.

 

Recordo que em 2006 a União Europeia iniciou uma discussão sobre os desafios a as oportunidades trazidas pela sociedade grisalha, mesmo no âmbito do trabalho e da interação dos saberes. Teve-se em conta também a proteção social e as finanças públicas. A ideia de que a dispensa dos trabalhadores mais velhos tem de ter lugar para que os mais novos ocupem posto, é só por si tao desprovida, que, a economia chamou a este pensamento, a falácia do pulmão, comparando com o ar que neles entra, saindo consequentemente o que lá estava, e assim de jeito reducionista, se expulsam as hipóteses das pessoas mais velhas serem portadoras transmissíveis de criação de riqueza, não obstante o ter presente os processos de envelhecimento e a diminuição de capacidades funcionais do organismo.

 

A esta temática voltarei, ou, na fila de uma farmácia, não tivesse escutado uma senhora de 70 anos, dirigindo-se à farmacêutica

 

Sabe a sensação que tenho com esta minha idade? É que sou tratada como se critica que os negros o são só por serem negros. Ninguém faz esforço para me entender, disparam a arma do julgamento só de me olharem os traços da idade. Isto não é uma sociedade inclusiva. Envelhecer assusta mais do que ter enfrentado a vida 70 anos. Poucos são os que atuam de modo diferente em termos individuais sequer, e, nem se dão conta de que muitos dos paternalismos magoam fundo com o cobertor de fibra que envolvem. Faz feridas entende? A interpretação de um idoso parece que é tão necessária como compreender diversas etnias.

 

É uma ideologia, pensei para mim. É também uma cultura que não é explicada às crianças garantindo uma comunicação normal entre todas as idades, e, que ameaçar é crime. Ameaçar com afastamentos, formas de abandono e desamor é crime, e, no futuro, todos nós assim acabamos a ser o seu alvo preferencial como garantia completa do termo da história. 

 

O «écran-circo» distrai-se nas aparências sem essência. A sociedade grisalha entrou no mundo pela memória das máquinas, pelas barbáries simuladas de afetos. O horizonte do verbo foi-se desfocando com a passagem dos anos: resta perecer sob a dignidade possível.

 

As pessoas idosas têm uma ideia clara da desvalorização de que são alvo na sociedade em geral. As manifestações idadistas quanto muito toleram coexistências de saber, mas raramente intuem o quanto esse conhecimento é diálogo de aprendizagem. Ainda estão na fase da arrogância e do tudo dominarem sob muitos títulos, sendo que para esses também o símbolo de alguém curvado com uma bengala é rótulo de idoso extensível a um perfil codificado.

 

Bem basta que o corpo vivido se alterne em contrações e dilatações a nós estranhas: o próprio espírito olha-o com um despropósito entorpecido.

 

Paira sobre todos nós, envelhecer, com o perigo de muito, muito envelhecer, tanto que o destempo pode chegar com o estrangeiro que nos oferece um dormir lá onde e aonde se escondem as mensagens da nossa sedução, e, se inspira o cheiro das tílias que se entrançam para partir.

 

Digo: antes desse momento em serenidade desejado por todos, eis-nos ainda a tempo.

 

Que os jovens não cumpram o trabalho de termiteiras: esse é o maior amor que lhes podemos desejar, o único capaz de não lhes fazer sentir o seu futuro, precocemente amedrontado pela velhice!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A garrafa de cristal

 

A porta ao fundo do corredor estava sempre fechada e nunca nenhuma criada a abria para ir limpar aquela que era uma sala comum aberta aos natais.

 

Um dia, atrevi-me e abri a porta espreitando lá para dentro transida de medo. Desconhecia o segredo e isso criava em mim um imaginar de coisas ruins, pelo estranho respeito que todos tinham pela porta fechada. Atrevi-me, e, vi uma sala num lusco-fusco de janelas quase fechadas e um brilho estranho em cima de um dos aparadores.

 

Fechei a porta e desapareci dali. Depois comecei a reparar que a Tia Carolina cada vez que passava junto à porta colocava a mão na chave da fechadura e puxava-a para si, como se estivesse a tirar alguma duvida de que a porta pudesse não estar bem fechada. A avó fazia o mesmo. Depois pela hora do jantar quando o dono da casa chegava, todos ficavam atentos ao seu percurso até à saleta. Este “todos” abrangia as criadas, sabedoras do segredo. Era visível que se sustinha a respiração até ele passar pela porta sempre fechada da sala e rumar à saleta. Entendi, então, que ele nunca deveria abrir a porta e que se o fizesse a casa explodiria em discussões e tremuras de vidas não ditas.

 

Lembrei-me do brilho que vira. Ia criando a ideia de que o problema era aquele brilho branco e avermelhado, o que continha o mistério. Um dia, num repente, abri a porta e entrei e fechei-a atras de mim num ápice. Olhei para o brilho da garrafa bem de frente e percebi que era uma garrafa de cristal esguia e alta com tons avermelhados e brancos. Ao seu lado uma salva de prata que lhe garantia estatuto. Percebi tudo. Era uma lâmpada de Aladino desta vez em formato de garrafa. Realidade preciosa; mas qual a razão que impedia o dono da casa e afinal todos nós de a vermos, mesmo que desconhecêssemos os seus poderes? por desconhecimento do código que a massajasse no angulo certeiro?

 

A tia deu-me um grito

 

Que fazias dentro da sala? Não sabes que não é local de brincadeiras?

 

Fui ver a garrafa

 

Ah a garrafa! Dentro dela existe a emanação de uma alma, não sabias? De dentro dela saem sombras se a luz do sol as acordar. Nunca mais te quero ver ali.

 

Senti-me aniquilada como um grão de areia quando pisado. Escapei-me para o meu quarto e enrolei-me na cama entre os cobertores, mas o frio não passava. De repente tudo naquela casa era dividido por criaturas e destinos. De repente entendi que as perguntas decisivas nunca as poderia fazer ali. Ali havia inclemência, ninguém saía da escuridão para a vida. Só a garrafa acedia a entender a sua força, o impacto do seu tempo íntimo. Corri com Aladino e convoquei o olimpo. E exatamente naquele momento ouvi a chegada do dono da casa. Ouvi-o a dar a volta à fechadura da porta da sala comum. Perguntou num grito ameaçador e seco, onde estava a garrafa.

 

Abri a porta do meu quarto e ainda vi a avó sair quase correndo para a rua, submissa, de cabeça inclinada para o chão. Saía só com o que tinha vestido e era final da tarde da chegada de um inverno. A tia Carolina respondia aos gritos do homem da casa, gritando-lhe também e recordando-lhe a sua inocência total no desaparecimento da garrafa e que a culpa era da avó que tinha acabado de provar essa mesma culpa, fugindo.

 

Pela manhã, ainda em robe, a tia entrou no meu quarto e inquiriu

 

Não sabe que tem de ir buscar a avó? Levanta-se. Vá. Ela deve estar à espera, leve-lhe o casaco dela e não entre na pensão onde ela está. Diga à porta que a vai buscar e nada mais. Já sabe onde é.

 

Viemos as duas quase sempre caladas. Eu e a avó. Junto à entrada da nossa casa eu disse-lhe

 

Não tenha medo da garrafa. Ela é falsa.

 

Entrei em casa com a avó que se dirigiu a chorar para a saleta.

 

Entendi que o tempo era enfim chegado. O tempo de descobrir a porta de acesso a outro reino distante daquela casa tinha chegado e que forçaria todas as sortes: a decisão ancorara-se no meu espirito. A soluçar, compreendi que um poema muito tempo ao abandono pode sofrer a erosão do tempo de vida e envolver-se no túmulo da garrafa de cristal.

 

Levantou-me uma grua firme e, tendo ali ficado, fugi para sempre.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

E discutia-se se a alma deveria ter acesso a cuidados paliativos ou a alguma competência específica que lhe acudisse na dor. Falava-se em várias especializações da medicina contemporânea que podiam abordar a temática, mas sobrepunha-se a objetividade, agora tolerante, que, levava a que a alma fosse vista como uma espécie de fatalidade que em nós vive, e, que a dor física enquanto fenómeno universal se não podia reconduzir a fatalidades, nem que se deitasse mão a teologias ou a filosofias. De resto, houve mesmo quem dissesse que então, a existência da alma era um mal em nós, já que atormentava a todos, e que afinal, era ela bicho-homem em dor de invencível natureza.

 

Olhando a todos, disse baixinho

 

Mas a alma chora de dor e é muito difícil não lhe acudir pois ela mostra-nos, como ninguém, no amor.

 

Alguém acrescentou

 

Sempre podemos fazer-lhe uma cura de sono para as dores mais insuportáveis, ou até para quem a não queira deixar partir em fase terminal, poderemos sempre anestesiá-la ou induzir-lhe um coma. É uma tranquilidade para todos. A medicina até pode criar sub alternativas dentro deste saber. Mas atenção! o sofrimento moral e físico, unidos, são uma falta de compaixão da alma, por abandono dela, da pessoa amada. A dor da alma, em pensamento – já ouvi dizer - tem uma figura estranha e difusa, de tal modo que as biopsias não lhe encontram o certeiro lugar para se efetuarem e delas sair diagnóstico.

 

Não concordo, disse eu

 

Desculpem, nada sei de medicina, teologia ou filosofia, mas a alma quando chora expõe lugar e respirar e pode ser detetada pelo estetoscópio dos olhos. A alma quando se contém em dor é insónia em destroçado ponto de interrogação. A alma dá sintomas quando feliz ou doente. Sente-se nela um pulso irregular quanto baste à interpretação. E que se não sugira ver a alma através das ressonâncias magnéticas e assim averiguar local ou posto dentro do corpo, pois ela tem poderes para escapar ao contraste que existe para se efetuarem estes exames.

 

Então e como se faz, na sua douta opinião, perguntaram-me em desafio

 

Pois não sei. Nem sei qual a terminologia que exprime as dores da alma. É muito difícil de dizer, mas sei que ela pode morrer. Por exemplo, morrer de amor, mas não só, morrer de abandono o que é terrível. E não acham que deveríamos ter antecipado a atenuação da sua dor enquanto ela insistentemente se queixava? E quando a alma se ri? qual o aparelho que sugerem para registar o estado da felicidade para que de futuro se use como paliativo, se necessário? Qual a análise ou exame de ADN que é avaliado na doçura de um sentimento vital da alma? Acho e só acho, que, a dor da alma há-se ser algo que fica cativa num órgão, e esse órgão é o cérebro que requer o que o coração bombeia. Quando lá está, enquanto dor, há-se ocupar um espaço anteriormente vazio - pois enquanto felicidade ela é ar. Então, se se procurasse esse espaço e ele estivesse cheio, era como encontrar o local e formato da dor, e decifrar a partir daí, a partir de uma infinidade de pontos, o fio do seu discorrer. Pelo menos surgiria o início de um horizonte de inteligibilidade. Não? Mas não procurem circunvoluções: a alma não tem, é diferente. Acho que é algo sensorial, algo que sentimos viver, padecer e morrer e ainda que pertença ao corpo tende a identificar-se com uma essência que lhe atribui ou retira a vontade de viver. A alma é uma força que se rende ou não ao conhecimento dos limites.

 

Não cabe à medicina, ouviu-se em coro. Ou cabe, no que a psicologia e a psiquiatria propõem. E noutro apontamento

 

Deus dirá, um dia. E continuaram uns

 

E a literatura e as artes em geral não lhe são irresistíveis em tratamento adequado? Como quem conta uma história em doses de prescrição certeiras?

 

E outros

 

Nem se lhe imputa culpa por não caber à medicina o seu tratamento. Só a felicidade é salutar ao corpo: a dor retira-lhe a energia. Isso sabe-se. Resta saber se verdadeiramente a alma viver no cérebro, é ela assim mais útil ao homem do que se viver no lugar do não se sabe

 

Ainda somei

 

E desse lugar, deitar ela mão a uma mãe que a console com atos e palavras, qual remédio sem prole, mas que vá confortando, como só reconforta, quem, em bondade, for a última testemunha da vida. Quanta expectativa!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

De quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Continuamos a ver e a interpretar as notícias do burgo e do mundo como se não dessemos conta que, o que ao de cima vem, é o espetáculo do acessório ou nem isso. A lista das futilidades noticiosas mistura-se na dose e sequência de alinhamento propício ao não desvendar daquilo que é verdadeiramente o cerne de uma lista terrífica e que não acaba, e que devia escandalizar-nos de tanto sofrimento e miséria humana, tudo neste século que, afinal, arrasta consigo os plexos de interesses ocultos, depois de nos ter promovido honoris causa ao indiferentismo mais total.

 

O delírio sem vergonha dos “velhos do Restelo” que nunca pensaram ser críticos também do reverso de si próprios, é pródigo na evidência da fraude do perguntar e premonitoriamente não conseguem melhor do que criticar supostamente antes de um acontecer de matizes nos espelhos, ou, quando já é muito evidente que 2+2= 4. Acresce que se sentem muito estrangeiros no meio dos homens que eles próprios vão regando não vá existir pior num outro mundo. Em tão patética paródia tudo se torna num sem contorno ao qual se afeiçoa a insídia.

 

Depois os comentadores -pretexto, nova e promissora profissão que os catapulta para capítulos de vida que lhes assegura bem-estar na hora e na velhice, e, não são estes paralisados pelo que se despreza, como se imaginaria, antes fazem parte da natureza da austeridade das regras-que-eu-sou-bom ou boa e tenho poder, principalmente na ilusão da não vaidade que projeto de o não ter. Eu sou a resistência ao sistema à outrance, creiam, eu defendo país e mundo gritando as reformas para nos salvarem, e que cada um não trate de si aproveitando a desordem, não senhora, só se as coisas derem mesmo para o torto, mas nessa altura criarei um novo cânone e dele vos farei saber seguir.

 

Também os acima dos muitos nos chamam constantemente a atenção para a igualdade de direitos dos cidadãos perante a lei, conhecendo a metamorfose desta, na radical desigualdade perante os cidadãos. E assim vamos, sendo filas de lixo destinados ao lixo, adulando lixo na excelência de espirito de quem não o vê nem reconhece como tal.

 

Destes e de muitos outros modos se conquistam terras limpas aos espíritos dos homens quebrando a vida e impondo o fim que devora seres e sua alteridade humana.

 

As supostas elites por se terem como tal, orientam-se bem na absurdidade irresistível a que vão desde cedo aderindo, tudo cortando enfim, em troços idênticos que, por óbvio, não escapam à uniformização, ela mesma disponível no mercado, num otimismo ao qual a paixão lhe não faz frente de há muito.

 

Insensível este mundo não submete em muitas circunstâncias: faz pior, suprime e nenhuma vítima o apazigua, afinal.

 

Numa montanha: logo se imaginam os minérios a extrair; num segredo megalítico: um íman para turistas; num animal: sua pele; numa tese: seu eventual estatuto de sapiência, e, todos estes sentires estão reunidos nos campos de concentração de hoje; nos campos de refugiados ou nos mares dos botes que despejam gente à morte, esta de boca ávida e aberta face a tanta constância que lhe é oferecida.

 

O grande empório da absurdidade roda à escala planetária e a degenerescência do seu senso já não é há muito a espuma da onda que se entrega na areia da praia. O grande empório, na sua excitação, só conhece um ponto onde a cada noite atraca: o inóspito mundo que resta.

 

E de quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Mentira e mundo já não logram libertar-se. As termiteiras informáticas reúnem uma cognição sem chama, mas que opera sem falha na destruição de tudo o que não entende.

 

Pergunta-se: e se doravante insubmisso o espaço literário germinasse de tanta inquietação?

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Eram seis da manhã quando acordámos nos quartos do sótão que tanto amávamos na nossa casa de praia. A empregada bateu as palmas ao entrar nos nossos quartos totalmente forrados a pinho e salpicados com fotos dos nossos ídolos e gritava

 

Vá meninos se querem ver aquela cor do mar no céu, vamos a sair da cama depressa.

 

E nós os três meio trôpegos de sono vestimo-nos num ápice, e, escadas para que te quero que se faz tarde.

 

Cada um a roer a sua maçã, descemos a ladeira de terra e pedra que dava acesso à praia e ali na areia nos sentámos ao lado do António Lameja, nosso banheiro e salvador, mas que não nos salvava dos banhos gelados a que pelas 11h o nosso pai dava ordem que todos tomássemos.

 

O meu irmão mais velho perguntou-lhe

 

É esta a cor?

 

Não, chiu! é mais daqui a bocadinho, mas estejam calados, pois ela pode fugir.

 

A nossa ansiedade e alegria cresciam à luz de prata daquela manhã em que veríamos a tal cor no mar colada com o céu e que em agosto só naquele dia e hora surgiria.

 

Agora de pé, já, gritou Lameja, olhem bem lá no fundo do horizonte: veem aquele tom amarelo? Aí vem a tal luz que sobe para o céu e se torna azul e branca e que é igual à dos santinhos dos missais que mostram a cor dos milagres.

 

Sai de dentro daquela nuvem lá ao fundo? Perguntei

 

Não menina, essa é uma nuvem que acorda mais tarde e quando se abre, sai por seu pé, bem leve, um pouco do sol, aquele que depois é gordo durante o dia.

 

Mas vejam agora. Olhem.

 

E fixámo-nos todos numa auréola que tomava cor amarela e azul e branca e dela saiam uns traços lindos do mar, erguidos para o céu, ou, do céu descidos para o mar, tudo num abraço de cores e luz esplendorosas.

 

Que lindo, que lindo disse o meu irmão mais novo, agarrando-me os ombros. Aquilo é um milagre ou é a natureza lá do alto que chama o mar e ele sobe sozinho?

 

E o Lameja

 

Ó meninos, não duvidem, aquilo é milagre não veem logo? São focos de luz com vida que se cruzam em mar e céu e dão nesta cor de oiro de pasmarmos. Debaixo das águas os peixes também a veem, e, logo saltam para dentro dos barcos dos pescadores, não sendo precisos anzois ou redes, e fazem-no por tanta beleza terem visto, preferindo morrer logo a seguir a esta hora do dia do mês e do ano e, morrem transformados em oiro! Pronto! Viram? Vá, ide para casa, já viram o segredo.

 

Tiveram muita sorte, podia até chover. Ide, ide tomar o pequeno-almoço.

 

Subimos a ladeira devagar, mas íamos olhando para trás, para o mar e o céu.

 

Que viste mana?

 

Uma borboleta que veio do céu beber agua e tu?

 

Um fantasma bom. Um daqueles que toma conta das aparições desta hora.

 

E tu mano, que achas? Ou antes o que viste tu?

 

Ora eu vi o mundo quando estamos a dormir.

 

Entrámos em casa e a empregada perguntou-nos: que tal? Como foi, meninos?

 

Eu respondi

 

Pois parece que vamos ter peixes de oiro para o almoço. Sabes cozinhá-los?

 

Os de oiro, não.

 

Ainda bem. Devem ser rijos. Mas queres que te conte o que vi?

 

Sim, menina.

 

Pois vi o céu azul vestido de borboleta para esconder que é princesa que namora com o mar àquela hora e abraçam-se e tudo.

 

Com beijos?

 

Claro, com beijos também, acho que é uma hora de intimidades com muitas cores. Nada de especial, mas mesmo assim é muito bom.

 

Jesus Maria! Até estou arrepiada. De fato Nosso Senhor não pertence à raça humana!

 

Teresa Bracinha Vieira