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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

PEDAÇOS II       
 

Tão sumida se via a memória quando se distanciava do café-mercearia que tinha os rebuçados multicolores em frascos de vidro, e vendia arroz e açúcar e massas, em pacotes que absorveriam, mais tarde, o óleo dos fritos na cozinha.

Na inocência, imaginava uma arca caprichosa com chocolates nalguns cantos: sentia-lhe o aroma, sentia-se bendito por um só dia.

Em rigor, desconhecia se a miséria da época que fazia acreditar o quanto dormir de barriga para baixo, ao comprimir o seu tamanho, comprimia a fome, era um tempo dos arredores da vida, ou, se era um centro que se demoraria até ao não pensar.

E assim, sem mais, viria a rendição.

Noutros dias, perguntava às rolas a razão de o amor ser aos poucochinhos, e da indiferença sobreviver a qualquer peçonha
enquanto a humanidade era coisa de cotação.

Não se perguntava com estas palavras, bastava a postura do corpo de pé, como a do lavrador ao ver perdido o seu trabalho, e só lhe surgiam perguntas. Quais?

Deus! eis a extrema resistência!?

E na primavera tudo regressaria igual e separado.

O cantar dos pedaços, por misericórdia, encarregavam-se de trazer

a penugem nova, as bestas, as comunhões, os vírus e as andorinhas.   

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


PEDAÇOS I


Parece-lhe que foi criança há já demasiado.

Também lhe parece que nunca foi criança.

Era-se de um tempo em que os valores se liam no olhar dos outros sobre nós.

O direito de fazer perguntas só pertencia a quem o soubesse e devia entender-se como um privilégio estarmos obrigados a todas as regras.

A máscara? o primeiro critério.

A lembrança que lhe ocorre das guerras familiares, não é muito diferente deste vírus que por aí anda a meter foice, até nas noites natalícias quando o ciclo do sofrer silencioso era oposto ao brilho do molho das rabanadas.

Também por entre as toalhas de linho cru, bordadas pelas avós, chegava assintomática, a realidade do crivo – gato ágil - das bainhas abertas na alma.

Os filmes de final de domingo pouco serenavam o medo daqueles que, em casa, ou fora dela, tinham o mando do porque sim. A esses, obedecia-se ante o mínimo no ar.

Era então o transístor encostado ao ouvido que dava a sensação de fôlego; de dispor do mundo junto às arestas; de tocar naqueles sonhos que nunca podem ser desunidos.

Só assim, quando as notícias dos que não tinham aguentado a força do novo vírus nos chegavam, apenas as cartas de Goethe nos explicavam que cada estádio não era um só estádio.

Mesmo sem metamorfoses, o real mudava.

No dia seguinte, no amanhã, logo ao princípio, seria tempo de praia, tempo daquela luz que embebeda porque a luz se embebe no mar.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Anoto

como se em silêncio,

por agora

 

 

Aprendo a reconhecer anotando o que tento que seja um mapa de interpretação.


Assim também fala a minha voz neste silêncio com diferentes intensidades. Assim também começa, o era uma vez uma árvore da qual nasciam pássaros e ninguém se surpreendia à hora do parto.


Anoto porque é um dos meus modos de falar do que leio e confesso que tudo me fica disperso e ordenado em simultâneo se o faço.


Do modo de assim proceder, surge-me o antes das palavras, e quero crer que haverei também de chegar aos leitores futuros.


Quando anoto, também espreito o lugar anterior ao tempo escrito, e no branco, o desafio do que lhe sobrevém.


Anoto como se em silêncio, por agora já tivesse marcado a paisagem em todos os seus contrários, e logo respondo à minha própria voz, do como foi a experiencia da leitura, se encontrei ou se me despedi, se o que significa está dentro das múltiplas maneiras de quem sabe, o não sei nada, em redor do tudo e da elipse.


Anoto, assim, numa gritaria silenciosa e por agora, a contar pelos dedos, só peço a vida que me falta.


De passagem, em todos os dias quotidianos, a esperança e a promessa regeneram-se ciclicamente.


Cada ir, está sempre entre o poente e o futuro.


Anoto e junto as bordas.


Sudário. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


A sabedoria da quietude


Para lá da ansiedade do devir, para lá das falas dos profetas, para lá das contradições da condição humana, para lá das irremediáveis inquietudes, existe a foz de um rio no começo do mar.


Lá, os nossos sentires molham os pés, as mãos unem-se em jeito de rédea, o ritmo do que nos cerca absorve o verso, e este surge lábil e compromete-se com as aves.


Dali veem-se os olhos dos veados tão ágeis quanto os sonhos e a segunda pessoa do imperativo desafia-nos num tranquilo «Olhai».


Todos os símbolos do horizonte são Jerusalém.


Mallarmé, na pele daquela água, deixou um tecido bordado no qual se lê: «Donner un sens plus pur aux mots de la tribu».


E porque a morte também morre, estreamo-nos na sabedoria da quietude, conciliando, inovadoramente, os sinais dos tempos que nos couberam numa libertadora lição.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

2. A CASA DOS 4 CAMINHOS: quando o propósito é o paradigma

 

 

Passeava-se hoje o pensamento enquanto lia a vida em voz alta.


Neste dia, desde que saíra da Casa dos 4 Caminhos, procurava uma direção que sabia muito além. Por isso passeava-se, assim, solto, sem dramas, abandonando-se ao cheiro das resinas e inebriado tanto quanto aprendiz.


Sabia que se não movia em áreas universais do conhecer e que muito lhe fora escapando enquanto guardador de algumas especializações.


Sabia da sua dificuldade em se atualizar como a vida.


Sabia que a sua formação continuava em tempo de múltiplos berços, com inúmeras interpretações por escutar, por concluir, e por já pouco esperançoso de ainda ser tempo do muito, decidira hoje passear-se sem inquietude maior que a do propósito.


Sabia, se sabia, que não queria apropriar-se do que de outros pensamentos recebera.


Agradecia-lhes tanto o terem-no deixado conhecer novas direção que, mais, seria impudor.


Sabia que a perceção de um código genético comum seria a leitura com a qual ouviria melhor a humanidade.


Sabia que para este conhecer, careceria de tirar férias de muitos movimentos e devagar e vulnerável, deixando de lado as metafisicas e as transcendências e os excessos de objetividade, construiria hoje o início de um paradigma que explicaria o instinto que contém a comum raiz humana.


Passeava-se hoje o pensamento.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

O pio do silêncio


E estar velho é sentir que se vive uma intensidade do saber e do não-saber para o qual se deseja tempo e ar puro na Natureza e nas ideias e em todos os convívios dos afetos em consciência comum da missão do amor

e estar velho é desejar o vento das tardes, o das casas, o do mar, o dos pássaros e que o cavalo de madeira seja agora de carne e de conclusão em vida do sonho que transportou

e estar velho é sentir que esta pandemia nos faz ficar no defeso, como sítio de folhas sem retorno onde se demora a claridade e apressa o desconhecimento aos nossos espelhos

e se estar velho é não aceitar este tempo assalariado de uma existência rígida, espaço intercalar e jamais, jamais paisagem, quando nunca nos bastou o ver e o rever

então sistematizemos os dados destes excessos de visões mínimas que nos fixam irónicas e eis 

como até vivemos numa desordem de muitas inexistências e só não somos antipoéticos porque enviamos barcos uns aos outros numa antevisão órfica

nós

o bloco dos dissidentes robustos contra as formigas que afinal nos devolvem Camões a um outro destino

quando o silêncio é o imenso pio qual nova proposta da vida

turmalina

que só pertence a uma ave que o esclarece e nos visita.

 

 Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

1.     A CASA DOS 4 CAMINHOS: quando a ideia do fim sobrevive ao fim

 

Acabo de encontrar um sentir-chave: eu já sou uma floresta à porta de um dos caminhos da Casa. Por ela ofereci um acesso.

Comuniquei.

Usei uma combinação de palavras que exprimiram uma nova luz e ela é nova ou não fosse uma descoberta consentida no meio metalinguístico.

Borges conhece bem o ser humano e as suas fragilidades. Ele sabe «que uma coisa sugerida é muito mais eficaz que uma coisa expressa.» Ele sabe que o que fica por dizer é capaz de atear um pacto com o fogo e com a neve.

E acrescenta: «Também se escrevem palavras para nos livrarmos delas»

Então pergunto: se assim não for choco com algo físico, algo sem emoção? Algo bruto?


Recordo-te Jorge Luis Borges


As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam a crueldade; mas o mais abominável é que elas fomentam a idiotia.


Sim. Ouvi-te.

Agora, de um fim dos tempos surgiu o corona e dos emplumados auditórios das elites até às marchas populares, ele roubou-lhes as audiências, as carpetes e os asfaltos, e os resíduos apenas batem às portas do bem-estar, por vezes com violência escutando dos ácidos insubstituíveis a promessa de se proporem construir-se em clonos invisíveis do outro lado das máscaras.


Bella Ciao
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Aerograma


Sue Arrowsmith

 

Luís Pedro,


Bem creio que os anos expõem uma sensibilidade do como foi a viagem com e sem restrições.


Chega-se, enfim, a um rodar que nos leva ao prometimento e nele o que afinal importa para nós aqui chegados.


Nota que te não quero preocupar, se estou a ir além ou aquém, do significado que pretendes que eu assuma com o teu gesto de me doar doadas as tuas realidades. Apenas e muito apenas, podes crer, tenho para mim que sempre caminhaste dentro de ti, sem exceção e sem consultas aos refúgios que te protegeriam.


Saibas igualmente que o meu instinto de preservação nunca foi uma arma adequada contra o mundo; talvez segredos, sim, o tenham sido, antes de descodificar a razão das vidas se fazerem paralelas.


Quanto à vigília das noites por causa da velhice, querido Luís Pedro, te digo que não valem os medos que se instalam.


Os dias são agora mais independentes e menos comum a existência. Nada tem que ver com explicações e não existe qualquer valor moral nos andarilhos.


Digo-te ainda, como carpinteira das memórias do que fui, e do que li e do que sou, e ainda como contrabandista das coisas que vão morrendo porque sim, que, se nestas entrelinhas encontrares razão, aceito pois o teu depositar nas minhas mãos do que nunca roubou o espaço da generosidade com que sempre nos demos, mesmo tendo nós sido vitimas de algumas qualidades.


Consente Luís Pedro, que um dia, deixe eu nas tuas mãos, a alegria, esse não sofrer extraordinário!


Tua Amiga
Isa 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Conheci Helena Almeida na sua casa da Rua Arco de São Mamede, era eu, colega da Joana, sua filha, numa escola que existia na mesma rua. Estudávamos ambas para o antigo 5º ano do liceu.


A casa da Helena Almeida era uma casa, tanto quanto memoro, rodeada por um largo espaço de terra. Um jardim? Entrava-se, e ao fundo do primeiro corredor, a sala de trabalho de Helena Almeida; à direita um outro corredor e igualmente ao fundo mas à esquerda, uma cozinha; ao lado uma sala de jantar com acesso a uma sala de estar de portas até ao chão. Muita luz. Lembro.


Na cozinha, móveis de sacada de cristaleira, antigos, e uma chaminé de pedra. Havia um azulão, lindo, que cobria as portadas das janelas e outros espaços estratégicos da cozinha. Julgo. Ao meio, uma mesa de madeira, nela, duas canecas de chá e pergunta-me a Helena, a razão de eu tanto gostar do enorme quadro que estava na sala. Era ele pintado todo numa única cor de azul e apenas com o desenho de umas sapatilhas de bailado “tombadas” no canto direito do quadro. Assim o penso ainda hoje.


Respondi que era a mesma razão de gostar dos quadros que estavam no atelier, e dos quais saiam crinas ou caudas de cavalos na continuação dos desenhos o que os tornava vivos para mim…mas mais nada sabia dizer.


Sorriu e perguntou-me se eu gostaria de arte?


Pensei dizer-lhe tantas coisas se não me achasse uma miúda que não poderia falar muito com quem nos mostra os sonhos. Pensei falar-lhe no quadro do marido que estava na sala de jantar e que me parecia tratar-se de milhentos cubos pequeninos, e que eu queria espreita-los para ver o que tinham dentro e como se encostavam uns aos outros definitivamente, achava eu. Pensei dizer-lhe que gostava de a rever a andar com os arames agarrados aos sapatos para visualizar a ondulação do andar. Pensei dizer-lhe que me sentia muito, muito bem sempre que estava ali. Mas nada disse. Não fazia sentido atrever-me. Queria mesmo passar quase despercebida. Não incomodar. Era um privilégio quando a Helena me olhava e me sorria, nas vezes em que fui lá a casa e me sentei no atelier. Ela, a Helena Almeida era então a minha poesia total.


Um dia, deu-me alguns fios do quadro em que trabalhava e disse «Ficam nas tuas mãos. Bem entregues».


Corei.


Sair daquele espaço onde se passavam as interrogações todas, era o meu momento de trazer tudo ao mesmo tempo comigo depois de ter confirmado que existia um tudo.


Ainda hoje me envolvi com um guindaste de memória, e grata pela partilha dos círculos coloridos e insistentes que desde então me chegavam e partiam aos enxames, por ela, por Helena Almeida, deles deixei de duvidar ou de ter medo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

AMANDA GORMAN: The Hill We Climb


O NOSSO POVO DIVERSO E FORMOSO VAI EMERGIR ÚNICO E MARAVILHOSO
 

disseste 

com a verdade da tua qualidade de espírito, dos teus movimentos livres, porque vês coisas diferentes e para elas escreves horizontes de antecipações, e porque antes já perguntaste  

When day comes we ask ourselves where can we find light in this never-ending shade? 

Agora, para todos te encontras preparada, aberta à lucida felicidade por ti procurada e por ti revelada nas palavras 

When day comes, we step out of the shade aflame and unafraid.  

Como um pássaro real sem peso dentro da liberdade total do ser. 

Amanda Gorman 

que sem a mínima dúvida o teu poema foi antes de nós e foi o que conta para nós 

tudo! 

 

Teresa Bracinha Vieira