Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há mulheres cuja voz é perturbadora e profunda como o tempo.

 

Tentávamos seguir o poder que nos sonhos nos tinha sido conferido pela música celta. Música também de Portugal, da Escócia, da Galiza, da Irlanda, música igualmente improvisada por trovadores; música que utiliza flautas e harpas e pianos e as línguas locais nas letras das músicas.

 

Sem que compreendêssemos porquê, sabíamos que iriamos encontrar por entre aquela escuridão, o predestinar da voz de Loreena McKennitt.

 

Era Primavera fria e no céu daquela noite só uma brecha de lua se deixava desvendar.

 

Seguíamos pelas ruas desertas procurando ouvir o rumo da voz desejada.

 

Os nossos olhos diziam a surpresa do nada no que era o tudo daquela noite sem sombras.

 

Todavia, caminhávamos, caminhávamos sem supor que a bússola dos nossos passos nos levaria a um largo imenso alumiado por lanternas suspensas das árvores.

 

De repente, no centro do ar de uma clareira, ao piano, uma mulher dona de magia, cuja voz de tão bela, de tão perturbadora, de tão profunda, nos seduzia, enquanto nós, agora abraçados, nos recordávamos termos dito um ao outro antes das trevas:

 

Till you come to me 

 

 
Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Espreitou pelo bocal da ânfora inclinando a cabeça para o interior do vaso: lá dentro o que em tormento sonhara vígil, a confirmação do que suspeitara no quase antes do adormecer.

 

Agora, o alerta vencia o sono.

 

Lá dentro, eram inúmeras as gentes em afazeres iguais, executantes de cidades e de países, todos sob um líquido translúcido e pegajoso, todos a correrem em círculos para o mesmo lado, numa obediência sem limite a quem.

 

Todos se pisavam violentamente uns aos outros para que diminuíssem o número daqueles a vigiar e também daqueles que quase tinham saído do líquido e que deveriam voltar a entrar para mais fundo ainda, não sem que antes passassem pela antecâmara que lhes sugaria a réstia de ar, liquidando-os definitivamente.

 

Dos círculos sobressaíam máscaras que tapavam os rostos de quem ali se acoitava como testemunha do que se passava. Assim e afinal estavam marcadas estas gentes. Confirmava-se tudo o que suspeitara.

 

O que lhes aconteceria? Seriam despersonalizadas? Teriam destino expiatório?

 

Olhou uma segunda vez para dentro da ânfora. Vendo sem ser visto. Os guardas da entrada estavam apenas atentos ao interior.

 

Contudo, receava as micro-câmaras que, dissimuladas, e sem sono, tudo registavam, concentradas no que se jogava, e aptas a quebrarem sempre duas asas de cada vez, lá onde se decidia o absolutismo do poder.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Em Veneza, finalmente os peixes viram a luz do Sol, e nós os vemos, enfim, felizes, no final da sua desesperada espera.

As gôndolas leem agora tão bem o fundo dos canais que já não se perdem sozinhas.

 

Também há momentos em que o muito pouco ou o nada é tudo o que se pode fazer.

Também há momentos em que a poesia dos instantes tem um voo indecifrável.

Também há momentos em que se recorda o quanto a vida foi passada junto dos outros e não se registou a aventura.

Também há momentos em que o amor se iniciou como razão do viver, e tanto se gostou dele como da vida.

Também há momentos em que muito se ama sem que o digamos.

Também há momentos em que a terra nos escorre das mãos qual parcela de si a esvair-se para outro local.

Também há momentos em que os lares nos falaram da raiz da paz.

Também há momentos em que todos dormimos a mil quilómetros do essencial.

Também há momentos sem horários para as tempestades do não compreender.

Também há momentos em que as praias, suas espumas e as areias são a elegância do nosso trajar.

Também há momentos para o nosso choro de crianças escrever a nossa morada.

Também há momentos para decidir que não me casarei com um homem que não chora.

Também há momentos para te dizer e repetir sem fim, que contigo irei para qualquer mundo do mundo.

Também há momentos em que o momento se surpreendeu, ou não encontrasse no fundo de nós, o maravilhoso.

Também há momentos em que outros e os intelectuais já não veem o sorriso.

Também há momentos de melancolia no cerne da prodigiosa solidão.

Também há momentos em que nos escapa a vida depois da infância, bela, ou daquela que muito nos matou.

Também há momentos em que gostamos de nos perder e tanto desejamos depois que nos protejam como à rosa de Exupéry.

Também há momentos de frutos , tílias, passeios, camas alvas de doçuras, correios, beijos, ciúmes, felicidades infelizes, mãos de costureiras no peito, abrigos, arvores, pássaros e outros bichos, montanhas, pontes, abraços, despedidas, martírios, mortes que não souberam chegar no tempo das piedades, solidariedades, coragens e reencontros, traições, utopias, doenças, artes, civilizações, sobrancerias até nos destinos comuns, sacerdócios sem condição humana, arcanjos sedutores, algumas eternidades, aprenderes, ofícios , milagres, vaidades nas coisas pequenas e humildes nas muito grandes, orfandades Senhor!, e um olhar para  a cidade condenada, pois lá 

 

finalmente os peixes viram a luz do Sol, e nós os vemos, enfim, felizes, no final da sua desesperada espera.

As gôndolas leem agora tão bem o fundo dos canais que já não se perdem sozinhas.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Nunca duvidei que a leitura iluminadora situa o tornar acessíveis as incertezas de uma interpretação. 

 

Nunca duvidei que uma tela com luz própria cria um movimento de análise e resposta a muitas interrogações.

 

Nunca duvidei o quanto uma peça musical ativa a precedência íntima e lúcida da imaginação.

 

Nunca duvidei o quanto uma escultura nos pode aportar ao ângulo virtuoso das razões simples e fundamentais.

 

Não duvido que a anatomia do comportamento seja deliberadamente ignorada para que se não detetem as vertigens em voga.

 

Em rigor, vive-se no cerne de rasuras totais ao significado.

 

Registo, o quanto se abandonou a diferença primordial entre criação e o seu reflexo, ou entre criação e seu dependente secundário.

 

Resumem-se ao Jogo da não-vida os sucessos formais, cujos efeitos são corrosivos, pulverizando a vulgarização, o kitsch e as subculturas de massas, sobretudo nas relações de comunicação entre as gentes.

 

A realidade decadente abrange a hipótese do enlouquecer pela erosão da privacidade e poderá ser expectável que os conflitos venham a estar assentes entre credos desacreditados e razões cercadas de trevas.

 

E a memória ainda reivindica as suas raízes num «nós» afetivo? E a arquitetura entre as artes e a eletrónica? E que alerta perante o que é novo numa re-identificação de si próprio? E o nosso cobertor de infância é agora computacional? Virtual o nosso lar? E no circo do não-mundo a mercadoria é amada numa liberdade de lucro?

 

Manequins e maquettes são afinal a moeda autorizada e a nova palavra coincide com o simulacro. Digo.

 

E em verdade, se posso ter algum descanso, ele reside na luta pela ciência interrogativa do espírito crítico, e assim ele seja o pequeno contributo que vá denunciando o reino do espetáculo.

 

Diria que um poema passou a ser tão mudo quanto o acesso à corda de um violino trancado num armário, e, muito por essa razão, se luta, para colocar o pragmatismo ao serviço das ideologias e assim manipular as massas.

 

Referindo-se à pintora Rose Wylie, Ana Ruepp disse: olhar é sempre um ato extraordinário que transforma e que interrompe o mundo.

 

Como é que isso é possível? Pergunta-se para espanto meu.

 

E edifiquei a minha casa no meio dos homens não encontrando outras palavras para esta verdade.

 

A neofesta acede ao corredor das lojas num prazer coletivo de sentir a proximidade mimética com os outros: eis o contributo à felicidade de uma multidão «unificada». O indivíduo procura-se no colectivo onde encontra segurança. Férias em grupos, jantares em grupos, todos com todos, de tal modo que se não sabem perder.

 

Os transes burlescos nas ambiências fun assemelham-se a deambulações turísticas da vida.

 

O despropósito festivo deu lugar à finalidade distrativa. As pessoas falam e falam e falam por sms e telefonam-se, entre outras não-comunicações.

 

As pessoas são o seu próprio pico de audiências acríticas mas prontas a agredir o que não compreendem, antes julgam desenfreadamente o desconhecido, e julgam-se atletas no único género de amor que conhecem, enquanto se autoproclamam heróis da sua vidinha.

 

E eis que esta também é uma sociedade de performance, uma sociedade de época, da aparência, da tirania da beleza, da corrida desenfreada e desumanizada aos resultados.

 

A sociedade do pronto-a-pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Pim Pam Pum

 

Há uns dez anos – e pouco tempo antes de falecer - um tio meu ofereceu-me esta sua encantadora fotografia para que eu, um dia, escrevesse sobre ela, e referisse o quanto um boneco, fica boneco rijo, apardalado e atento em cima de um triciclo, ao escutar a felicidade do então meu jovem tio a ler-lhe o PIM PAM PUM.

 

Como todos sabem, existiu um suplemento do jornal O Século, que Eduardo Malta e Augusto Santa Rita organizaram, cujo objetivo era, de modo lúdico, aliciar jovens leitores a interpretarem bandas desenhadas, a lerem contos, fazerem jogos, enfim tudo o que prendesse a atenção através do género infantil.

 

A primeira edição data de 1925 e prolongou-se por 52 anos. Foi este Suplemento um exemplo de longevidade pelo que deverá evocar infâncias de várias gerações.

 

As suas oito páginas mostravam uma banda desenhada de humor, duas de teatro, uma página musical que englobava partitura, e as aventuras de Pim, Pam e Pum, os chamados endiabrados heróis deste Suplemento. De recordar também que Augusto de Santa-Rita foi, o criador de O Teatro de Mestre Gil.

 

Entre parêntesis sempre o meu tio me dizia

 

Não esqueças também da Loja de Mestre Bento, pois eu lá, não comprei um pifarinho, mas entendi uma grande parte do que me debati mais tarde. Viagens delirantes com ele fiz muitas: aprendi a sonhar o sonho e o avesso do meu e de outros mundos. Não esqueças "Modas e Bordados" (que aceitou os teus contos aos teus 12 anos), "Brasil e Colónias e a Revista Joaninha.

 

Com todas as influências do Estado Novo, as leituras serão sempre quem delas se aproxima e às teorias se deve o patético e o assombro; o contínuo e o descontínuo das gargalhadas da infância; a felicidade de ter um ouvinte, boneco especado num triciclo, e um chapéu com direitos inauditos, de acordo, aliás, com a postura do traçar da perna, de resto igualmente capaz de fazer jus à vestimenta.

 

E tudo era PIM PAM PUM! Hoje leio eu e amanhã tum! Assim se referia rindo, o meu tio, à irmã, minha tia, quando em crianças lutavam pelo Suplemento.

 

A verdade é que entre tão numerosos registos da vida intensa do meu tio, nunca lhe escapou a deste Suplemento como companhia, memória possível, lúcida, feliz e marcante início de movimento da sapiência das fábulas na sua vida futura.

 

Anos depois, quando prisioneiro político em Caxias, esta fotografia esteve sempre com ele. Fora afinal aquele Suplemento uma gare à soma das partes, uma linguagem de época, um jardim à relação com o irreal.

 

Promessa cumprida! Aqui fica a fotografia que sempre dirá mais do que as palavras.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era a primeira quarta-feira do mês e sempre neste dia do mês, vestia o seu melhor fato, o azul de fina risca branca, e punha gravata. Um cachecol dava o toque por cima do sobretudo invernoso e gasto como a restante roupa. Usava chapéu, sempre. A mulher também se preparava para sair com ele, e cuidava-se vestindo o seu vestido de malha cinzento, vestido que tanto dava para verão como para inverno, neste último caso, desde que o colocasse por baixo do casaco tingido de preto. Elegantemente, um lenço arroxeado era atado ao pescoço com um nó suave que fazia uma espécie de gola alta ao vestido.

 

Antes de saírem de casa olhavam-se um pouco, e os olhos transmitiam um ao outro, o quanto sentiam a injustiça de viverem com dificuldades financeiras depois de tanto terem trabalhado, e, sentiam que não tinham nascido para aquilo, se é que se nasce para o que se é? mas, a verdade é que o tempo de fugir, escapara-se-lhes. De resto, fugir para onde? Fugir especificamente do quê? Tinham-se habituado a suportar as contrariedades da vida, implacáveis a eventuais ambições, e ainda que com muita zanga interior, tentavam viver espelhados naquele anónimo quotidiano.

 

E beijavam-se antes de sair de casa! Beijavam-se num célere e importantíssimo beijo, na necessidade absoluta de registar o imutável, a clarificação do claro, a culpa inexplicável e também a necessidade de se concordarem sempre com ternura nas roupas que usavam.

 

Na rua, davam as mãos um ao outro, enquanto se transmitiam mensagens curtas de cautela com os escorregadios passeios, com os buracos ou com a proximidade dos carros ou ainda com algum charco, se acaso chovesse. Ele tinha sido operado aos olhos há pouco tempo, como manda a idade, dissera o médico. Ela, como mulher, tinha dificuldade em acreditar em coisas simples e por isso segurava-lhe a mão com uma força redobrada, atendendo ainda à falta de vista do marido. Ele sorria-lhe de soslaio, dizendo, vá não apertes tanto que partes a tua mão e depois nós?

 

Depois? Depois eu amo-te. E não eram mais do que estas palavras o que procurava dizer-lhe. E eu a ti: ouvia ela soando-lhe a aventura calma.

 

Sabias que neste jardim os pássaros andam em cima dos cotos? De facto, reparo agora, disse-lhe incrédula! Porquê? Não sei, penso que talvez apanhem choques nestes fios elétricos e se queimem, disse apontando os fios baixos. Depois, por sobrevivência lá começam a debicar o chão na procura de alimento, ou a petiscar algum pão que lhe trazem, e aos poucos andam a saltitar nos cotos.

 

Entraram na farmácia. A farmacêutica elogiava-lhes sempre o aspeto quando os via chegar à primeira quarta-feira do mês, não obstante nada de verdade englobasse o elogio que não fosse a vontade de transmitir carinho e força. Perguntava-lhes se vinham buscar os remédinhos e como passa dos olhos? Melhor? E a senhora?, essas artrites maldosas ainda queimam muito?

 

Olhe senhora doutora, respondendo pelos dois, digo-lhe que o meu marido está melhor dos olhos, contudo diz que ainda tem dificuldade em ver, e por isso, imagina! Imagina os barcos a fazerem-se ao mar e lá vamos ambos dentro. E eu. Eu?, eu estou bem. Vi há pouco uns passarinhos que andam em cima dos cotos. Perderam as patinhas, sem culpa alguma. E lá andam…se aquilo é viver…é muito triste…mas não podem fazer nada.

 

De retorno a casa o caminho parecia-lhes sempre mais longo. Na sala, começavam a tirar os casacos quando ele lhe perguntou se ela iria com ele, se ele decidisse hibernar como um bicho. Claro! E bem sei ao que te referes. Acordávamos apenas quando estivéssemos perto daquela coisa e daí partíamos de vez, sossegados, não é?, e não te esquecesses tu de me dar a mão. Vá anda, faço-te um chá e uma torrada. Põe Verdi, não faz mal que o disco esteja riscado, a nossa idade limpa-o.

 

Trouxeste os remédios?

 

Perguntas bem! Esqueci-me.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Ativam-se ou desativam-se mercados, alteram-se o valor das moedas, animam-se as balanças de pagamentos entre estados, sobretudo atentos à consumação do consumo, nada se passa sobre a verdadeira informação do para onde o mundo inteiro converge, oblitera-se a referencia aos homens, vendem-se armas ao soberbo lucro das guerras e regenerada, a violência, é esta sempre oferecida como espetáculo, ou a fome ou a sede, grande escândalo do tempo presente não fosse tida como natural decorrência do funcionamento da coisa humana.

 

A sociedade do simulacro é venerada por quem desejando ser senhor - mas com veia de escravo – germina em si invejas e cobiças e mesquinhez mescladas de instantâneos de generosidades que instauram cenários desta paz perpétua, onde se joga na venda e na compra da alma, quando até a dimensão trágica da morte é banida ou a vida intoxicada já nem sequer dessa realidade se pode dar conta.

 

Em rigor, uma força terrificante, manipula a multidão subvertida por um desejo não questionador que faz dela escrava dos escravos, perseguida e perseguidora do que mendigam sofregamente, fingindo detestar ou ser alheio, sequer, dos meandros do seu próprio organismo que o torna gregário de si e dos mesmos a si iguais.

 

Volta a existir um e outro dia, uma e outra hora, em que se recusa o paraíso artificial em que é suposto viver o intoxicado, de preferência sem grande brado, contra o sem sentido de uma existência de equívoco, afinal.

 

O grande desafio não dito, é o da decifração e do entendimento do que ela expõe.

 

A liberdade está excluída de quem afirma que ela é sim aferida pelo que se tem.

 

As gentes são tratadas por um potente motor de plástico como se tivessem órgãos de plástico, direitos de plástico, cultura de plástico, identidade de plástico, raízes e pátrias de plástico, não lhes sendo concedida a permissão de viver em caminho diferente daquele que serve ao declínio.

 

Será de repetirmos com René Char

 

«Certas épocas da condição do homem sofrem o assalto gelado de um mal que procura apoio nos pontos mais desonrosos da natureza humana.»

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Entrava-se no salão das inúmeras janelas daquele solar e mesmo sendo verão, logo se antecipava a recordação dos cheiros e dos sabores de Natal que começavam a bater na porta da memória aquando do final das vindimas.

 

A revelação de que o sabor do leite-creme era uma lição de afeto da bisavó e que os bolinhos de bolina teriam a exata dose de canela que lembrava o abraço-lugar-doce onde se adormecia seguro como em nenhum local, sendo este o dos braços da avó, e eis as surpreendentes realidades que nos diziam sem palavras, o que só os cheiros e os sabores sabem dizer transformando os ambientes em amor e paz.

 

A verdade é que o cheiro do trabalho das cozinhas espalhava-se pela casa abraçando todos no inicial silêncio dos manjares. Era um silêncio muito espiritual, era um silêncio de segredo infalível, pois nele as verdades expunham-se sem medo de que as mentiras ou deturpações ou sofreres do dia-a-dia, não fossem por elas vencidas de tanta compreensão.

 

E eis que este ano, em Miranda do Douro, as sopas e outros condutos servidos na Balbina deram azo ao ouvir da história de uma avó, que, passando todas as possibilidades de receitas dentro de um único pão de saberes, multiplicou as recordações das épocas tutelares, em que bastava o vapor dos caldos para que, na memória, se desenhasse a distinção entre o puro e o impuro, a inocência e a toalha de mesa, como uma salvação aos dias duros do resto do ano.

 

Não há dúvida de que de norte a sul de um país, de norte a sul do mundo, a comida é algo que ousa conviver com a vida dando-lhe cores, tráficos de sentido, poesias sem ornamentos, e leva à vida, não apenas a mera saciação, mas sobretudo o louvor sossegado das recordações tranquilas dos sabores, dos cheiros, das orações, dos entusiasmos, do contributo do dizível e do indizível e expõe-se também como ética e estética reabilitando o que nos faz feliz como dantes. Entenda-se este dantes como o tempo da experiência sem medo.

 

Assim, neste sentido, qualquer manjar, ainda que só de pão, é um ensaio humano exposto aos dias e às noites das nossas fragilidades e vulnerabilidades; é uma procura conjunta de cintilação na paisagem que nos liga ao mais fundo.

 

Há que saber que com ou sem épocas festivas marcadas no calendário, à mesa, o silêncio e os olhares dizem muito do que não sabemos. Os chãos destas mesas estão postos também com a toalha da terra, tudo é um convite ao exercício da atenção, um tempo que relata o eu e o nós, enquanto entregamos ao outro, o azeite, o sal, a possibilidade do reencontro com o que afinal julgáramos perdido.

 

Enfim, o leite-creme ou os bolinhos de bolina, a roupa velha do bacalhau do dia anterior, o peixe fresco ou a fruta de qualquer época do ano, todos afinal dialogam connosco em compromisso.

 

Resta-nos saber partilhar. Resta-nos saber que em tudo isto há excesso que se deve doar em doação doada e que possamos perceber quase tudo sem necessidade de dizer muito.

 

Cremos que um dos grandes desafios é, em cada dia, voltar a olhar e a saborear tudo pela primeira vez, como um acolhimento mútuo, uma intimidade, uma morada, uma resposta, uma visita à oficina dos sonhos reais.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Título original: Sorry we missed you, de Ken Loach

 

De olhos vazos e exaustos Rick e a mulher enfrentam dias cruéis sabendo que vivem uma vida a caminho do fuzilamento definitivo seu, e da sua família.

 

Após a crise financeira de 2008 o incêndio da não vida permanece-lhes no dia-a-dia como uma mandíbula que os morde sobretudo quando já só as lágrimas e o desespero lhes resta.

 

A consciência do que o mundo lhes dá para lutarem, parece-lhes agora mais perfurante da alma, da justiça e do amor que afinal acreditaram um dia poderem vir a viver serenamente, mesmo que à custa de se encontrarem permanentemente numa luta à beira do inferno.

 

A excelência deste filme de Ken Loach deixa-nos numa combustão interior por aquilo que afinal nunca deixámos florescer, nem antes nem depois da crise de 2008: o direito à vida digna.

 

Qualquer tipo de violência tornou-se culto desenjaulado sob os nossos olhos, os da dita compaixão possível, mas afinal da indiferença e da distância face ao sofrimento.

 

José Mário Branco tão corajosamente cantava que veio de longe de muito longe e muito passou para aqui chegar, e afinal sabia que nunca encontraria o que sonhara para o aqui e pelo qual tanto lutara. Tal como todos os elementos do programa “Governo Sombra”, a minha gratidão ao José Mário Branco é imensa por todo o prumo com que viveu a vida, não obstante, nunca me ter sentido ideologicamente par, mas sim, comoventemente, sua admiradora.

 

A verdade é que este filme me fez recordar o quanto a luta de Mário Branco foi também para que se habitasse um dia um mundo que fosse início de uma harmonia. Ricky e a mulher, descrentes afinal desta esperança de harmonia, amavam-se e amavam os filhos, e, na qualidade de cuidadora a mulher de Ricky, ainda conseguia encontrar no sofrimento alheio, a possibilidade desse sofrimento a compreender e a mimar, enquanto ele lhe penteava os cabelos e as lágrimas lhe permitiam descansar os minutos horríveis dos dias de trabalho que suportava. Ficava ela grata ao trabalho desesperante que fazia, não apenas pela possibilidade de o desempenhar bem, mas porque esse trabalho a compensava do pior que nela era a ebulição de suportar raiva e ternura, tentando sempre que esta última fosse a vencedora.

 

A cada dia restavam as cinzas do dia anterior e arrancar a partir daí para outra e mais outra cratera de dor era o injustíssimo destino a aceitar.

 

E tudo é verdade neste filme. A proposta das sociedades de hoje é para que cada um se despeça de uma parte de si e a mecanize irrecuperavelmente até que perder o seu todo seja o desígnio único.

 

As políticas oxidadas candidatam-se ao voto na fúria do poder, e, enquanto este, e a privação, ditam quem é quem, uma teia de sangue oculto acossa e esquece que até os corações se tornaram temíveis, e íntegro, mas desfeito, Ricky, a mulher e os filhos já só cartilagem e não osso, podem perder ainda o telhado tenebroso que os cobre.

 

É então esta a última morada que se oferece. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

É-me difícil entender como se vai gerindo a idade do corpo quando tão distinta da idade da mente. Há pessoas que parecem envelhecer na totalidade, ou seja, tudo em “harmonia” e ao mesmo tempo: corpo e mente estão de acordo e pim! é um “sossego”! tudo tem artroses até o coração e alma juntos, e eis o facto do qual se está dormente num todo: dizem-me.

 

Surpreende-me, contudo, que querendo muitos de nós entender a velhice, referindo-me a esta que vive a discrepância entre corpo e mente, devamos contar sempre que os outros não olham para o fundo dos nossos olhos onde se enche de perguntas a aflição dos desejos lúcidos; onde se pode ainda cartografar o que inclui experiências vividas e que geram os futuros de atuarmos de acordo com as interpretações que nos proporcionaram. Afinal, refiro-me a quem o envelhecimento físico é pesadíssimo face à jovem mente que ainda se questiona, e, assim sendo, está-se significativamente disposto a viver com o compromisso da defesa filosófica predisposta à visão atenta e particular da natureza humana.

 

Assim sendo, como é possível ouvir tanta palermice despudorada acerca da velhice, como se se tratasse de um simples período ao qual correspondem uns vagos direitos oferecidos, talvez, porque quem os recebe deu a estas gentes da tal palermice despudorada, a possibilidade de se sentarem numa confortável cadeira e de perna traçada, traçarem o caminho que se deve obedientemente percorrer, de preferência, sem queixa, doa o que doer?

 

Registo que em todas as versões dos discursos e posturas desta “fulanagem”, mora um vácuo numa qualquer versão que seja dos seus ADN, que não pede, nem emprestada, uma regra moral que impeça a perversidade e o alheamento com que se debruçam sobre a velhice alheia, já que a deles, seja em que tempo for do seu viver, em consciência, lhes não acode, nem quando comparada com a dos primatas inferiores.

 

É certo que não existe nenhum computador gigante programado para estes seres com a devida antecedência – no mínimo, antes de lhes chegar o tempo das suas falas - a fim de que soubessem que se aprende e nunca paramos de aprender, e que nos ensinamos uns aos outros a raciocinar.

 

Julgo fazer parte da tal “lógica operativa” o nosso desenvolvimento por tentativa e erro, criando ferramentas que nos ajudam a entender o cântico de um pássaro consoante habite na cidade ou no campo; consoante demonstre a sua experiência e com ela a sua idade.

 

A natureza humana altera-se consoante o mundo em que vivemos, as culturas, e consequentemente as normas de comportamento. Todavia, pergunto: não inclui a dieta de muitos dos mais jovens, a grande análise da sua envolvência com os mais velhos? A capacidade de imaginarem o colocar-se no lugar do outro, e o desejo de que lhes seja atribuído, um dia, o direito de se defenderem a si mesmos, sendo escutados e amados e respeitados e não atirados à solidão abandonada de um muro escorado num mercado de hipocrisias também de afetos?

 

Proteger as fragilidades e as forças de qualquer tipo de velhice, chegue ela em que idade chegar, é a possibilidade de começar a acreditar num mundo mais justo, mais inteligente, mais humano que impeça uma conversão maciça ao fatalismo dos campos de concentração do sofrer.

 

Em verdade, a submissão à lógica da máquina criada por seres humanos, e a entrega do seu domínio a uma força bruta, coerciva da vida, corrói as próprias constituições da liberdade, a impérios de extrema parcialidade, qual cleptocracia que sempre protege e enriquece um grupo de poder que atribui a última e desesperada trincheira a viver, com meia dúzia de silenciosos euros, a todos os restantes mais frágeis, continuando ausente a estratégia política que a impeça, e sendo que nem ao início da solução do problema principal constatamos que alguém se abeire.

 

É difícil entender como se pode gerir a idade do corpo quando tão distinta da idade da mente. Quando sem que se tenha tido sequer acesso ao código do jogo, qualquer ecrã é uma extensão da realidade da velhice mais triste, e os musculados de hoje não entendem sequer o que veem os seus olhos, onde está a bola, a pá, o significado.

 

Teresa Bracinha Vieira