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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

(…) naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte.

 

 

 

Bruno, meu amigo, minha tão jovem vaidade;

 

Só posso responder à tua carta dizendo-te que naquela casa, tanto quanto me recordo, houve sempre neve. Neve, lá mesmo dentro da casa. Diria que em certos dias havia neve dentro do próprio forno de lenha. Fora arrendada essa casa aos caseiros da quinta da tua avó. Recordas-te? Caía nela em charcos, a água das chuvas, a neve, em despedaçados e pesados flocos, fustigava-a com a ajuda do vento e tudo tão suportado pela casa estoica e pelos seus habitantes. Tenho a certeza de que era assim para que eles pudessem ser seres do mundo. Agora tenho outra certeza: mesmo no verão, no tempo dos milhos, o tempo, caía pelo buraco do teto da cozinha de chão de terra e, feito neblina, a qualquer hora, furava todas as velhas rachas da casa e expandia-se no ar, fazendo-nos sentir necessidade de algum agasalho. A casa era uma casa de aldeia, rural, marcada pelas pedras cinzentas e pelos sequeiros de pedra cinzentos e pela eira de pedra cinzenta. A casa era o bater do coração do ti Aires que a achava um mistério fundo, ou não guardasse ela, gentes e bichos, num orgulho de casa conforme a todas as necessidades, assim ele a descrevia. Confirmo-te que a tia São fazia o tal arroz de feijão no tacho, assente na grelha dos três pés, e, não havia melhor cheiro no mundo do que aquele que vivia no fumegar deste tacho ou na abertura da tampa do forno de lenha, onde, assada estava a galinha e cozido o pão, ambos a espreitar-nos como um vestido aberto às cerejas. E nós, Bruno, nós lá íamos perguntando à Ti São, qual a razão do repasto e por entre as perguntas, as lágrimas que ela limpava dizendo sempre:

 

Maldita constipação! E fazia por tossir.

 

A ti São dava-nos sempre suspiros que fazia com as claras dos ovos que sobejavam dos almoços com os amigos do marido, vizinhos de ambos, e em cuja mesa – que era a própria arca salgadeira das carnes do porco - ela se não sentava nunca, apenas de pé e de prato de alumínio na mão só o arroz de feijão provava. Ainda assim, para nós, abria o forno, metia a pá e lá vinham eles, os suspiros direitinhos provocar o nosso olhar.

 

Vá levai alguns, dizia-nos num sorriso de ternura.

 

Nós lá íamos para casa felizes com aquelas guloseimas únicas. No outro dia, ou melhor, em mais outro dia, seguia a ti São às 5h da manhã para o campo, de onde só regressava de novo por volta da meia hora, como quem diz, a um outro meio-dia e meia. Regressava para pôr no lume a sopa a fazer. Esta sopa levava couves e um pouco de gordura da barriga do porco e comiam-na com broa saída das mãos da Ti São. A nós ela deitava os olhos e dizia-nos:

 

Vá ide almoçar, isto não é para os meninos.

 

E tu reparavas que eles nunca falavam um com o outro durante o almoço, ou, falava o ti Aires por gestos secos, conhecidos da ti São depois de 50 anos de matrimónio. Talvez por isso havia sempre neve na casa. Talvez por isso o fulgor do mundo entrara há 50 anos, quando o tempo das promessas lhes obedecia, e, depois, rapidamente as fartas hortas foram ficando nuas, o quarto do casal com lençóis mais gelados, os porcos a engordarem sempre o mesmo e os secos polvos do Natal cada vez mais tesos e magros.

 

E o ti Aires lá seguia para a empa de pés nus e gretados enfiados nas botas velhas, e, a ti São de joelhos, lavava a roupa no riacho partindo previamente com as mãos o gelo da superfície da água; depois lavava a roupa, esfregava-a na pedra como se não tivesse chagas nas mãos. Num sol qualquer corava a roupa exposta no chão; puxava os bois à fonte, enchia os colchões de capas de milho, deitava semente ao lavrado e vinha para casa dar comida às galinhas e aos coelhos e com a tal constipação que a fazia chorar, cortava um pouco da barriga do porco que cozera na sopa do almoço, e acompanhava-a com batatas cozidas, evitando que fossem solteiras de acompanhamento. Para nós, lá vinha mais um suspiro.

 

Tudo em silêncio, ou quase.

 

E tens razão Bruno, nunca compreendemos porque chegada a quase noite, o ti Aires lhe batia, e lhe batia até com cordas. Depois bebia, dizendo que era para esquecer ou aquecer e deitava-se.

 

Nós e os suspiros de que falas. Nós que tanto gostávamos de passar o dia a brincar à volta daquela casa, e a dizer adeus à ti São, nós, olhávamos para os suspiros e esmigalhávamo-los nas mãos a cada chibatada do ti Aires na Ti São, e o que caia das nossa mãos era neve. Naquela casa houve sempre neve, houve sempre muito frio.

 

E a cebola no tacho também fazia chorar a ti São: e nós miúdos confundidos.

 

Bruno há sempre um envolvimento na reflexão a respeito de tudo e com a nossa atual idade tem de haver decantação. Alguns acontecimentos que referiste poderiam parecer-nos, nos dias de hoje, insignificantes, e, afinal surgem com um significado que no momento não pensámos ter sido tão violento por muito que esmigalhássemos os suspiros nas mãos. Vivemos naquela casa episódios lúdicos e presenciámos forças ensombradas, forças daquelas que impressionavam os olhos a chorar de tão brutas serem. Digo-te: é bom que te não queiras perdido daquele tempo. É bom que queiras que o criador tenha que optar.

 

É bom que saibas que tanto quanto me recordo, e tu te aproximas, naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte. E enfim, a indiferença, essa, em que os faziam jogar a própria vida…era, é…

 

Saudades te envio

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A fragilidade da tolerância

 

Há pouco tempo escutava um empresário que insistia perante todos nós naquele almoço, na necessidade de acedermos a todas as culturas, nomeadamente na tolerância de as compreendermos e fazer nossas na parte em que as nossas e as demais se quisessem abraçar. Falava eloquentemente naquele encontro de amigos e conhecidos e defendeu mesmo a medida indispensável de introduzir nas nossas fábricas assalariados chineses, fazendo uma correta ponderação entre os salários deles na China e os que se praticam em Portugal, e que o valor que resultasse da ponderação seria bom para ambas as partes, já que nós tínhamos mão-de-obra mais barata e eles subiam na qualidade de vida pois aufeririam sempre muito acima do que podia ser a realidade deles na China. E voltava a referir a tolerância como a capacidade humana de entender esta escala tão vasta de intercâmbios que a todos favorecia.

 

Confesso que fui perdendo o apetite face àquele teatro de papel seguro na tolerância e fui-me deslocando para Dante refletindo no Purgatório, no Céu e no Inferno tudo cabendo nas estreitas ruas de Florença de onde nunca nada me sufocava e, no entanto, começava a sentir falta de ar com este congeminar da tolerância exposto convictamente pelo empresário que descobrira a fórmula um de auferir o máximo à custa de uma ideia de porte em espaço cerebral mínimo.

 

Assim, da minha parte, coloquei desde logo em questão esta tese de índole moral num contexto de tirar partido de quem humanamente e por lapso se refugia num outro humano que sem lapso o convida para o explorar.

 

Na verdade tudo isto é tão abrangente que até dá guarida à tolerância que fica inteiramente indiferente à fome ou a quem morre de frio no metropolitano de Londres, ou, o mesmo ao desemprego, ou, não fosse este um dos maiores sem abrigo da vida bem suportado pela tolerância, frágil artefacto usado aos domingos, honrando assim os dias santos de guarda.

 

Ou ainda a fragilidade da tolerância não pudesse permitir a cereja no topo de um bolo que desaba no pechisbeque de pretender fazer de coroa de um rei burlesco, como foi o caso deste que num almoço brindou ao realismo empresarial de um novo e tolerante estilo de interpretar.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A RIBEIRA DA BALEIA tinha caminhos de condições muito precárias para lhe aceder. Tinha percursos estreitos com fortes subidas e descidas suspensas em fúrias de pedras que rolavam debaixo das ferraduras dos burros tão carregados que escorregavam e, ainda de vez em quando, lá levavam com um vergão para que se não temessem do que a memória já lhes devia ter retido de tantas idas e voltas à Ribeira da Baleia.

 

Por mim iria sempre à Ribeira da Baleia desde que a Ti Jaquina Pataca me convidasse a ir com ela a este local para mim, mágico. Também ia connosco o rebanho de ovelhas que nos seguiam os passos e que se confiavam a uma certa sonolência no descer das ravinas como se não olhar fosse atitude protectora ao não cair.

 

Chegadas à Ribeira hora e meia depois de sair da aldeia, as ovelhas corriam ao pasto, os burros eram descarregados e soltos, e lá se expunha a ribeira sempre envolta numa neblina de quem tenta fugir à luz expressa. A ti Jaquina começava a tratar da horta e a refrescá-la com a farta água da ribeira. A terra molhada deitava o cheiro que só a conjugação com o verão lhe era inigualável. Depois era a hora da sandes com chouriço. Sentávamo-nos as duas em pedras escolhidas à beira da água e como sempre a ti Joaquina perguntava-me

 

Então e hoje qual é a pergunta da menina?

 

A baleia foi atirada aqui pelo mar nas marés vivas?

 

Pois dizem que não. Ela veio vindo ao engano entrando na corrente em que a ribeira chega ao mar. A ribeira deve ter-se alargado naquela noite e o mar zás! empurrou-a para a livrar de por ali morrer encalhada. E ela veio vindo devagarinho, cansada e esvaída e aqui parou de vez junto à horta.

 

Que estranho como ela se perdeu assim terra dentro. A ti Jaquina viu-a?

 

Ah claro! era enorme, de boca aberta. Não se falava de outra coisa pelas terras. Todos diziam uma baleia deu à ribeira da ti Joaquina. E iam todos lá ver.

 

E espreitou-lhe a boca?

 

Ah claro! e o que eu vi…

 

Que viu?

 

Vi o princípio do seu mundo. Vi-lhe o coração.

 

O coração?

 

Sim menina. Quando se esteve entre vida e morte o coração tem certezas e vem dizê-las à boca de todos mesmo que se não ouça nada. Também acho que ela deitava um fumo que se confundia com a neblina e lá dentro dela era tudo negro, acho que do luto. Era uma baleia defunta e a podridão dela começava ali naquela água que fazia de cemitério.

 

Pois imagino, mas sem caixão que a baleia é bicho enorme. E diga-me novamente, e depois como foi?

 

Depois vim cá passados uns dias e nada havia na ribeira. Pus-me a pensar. Quem levou a baleia e como? se era tão grande e estava morta? Perguntei ali ao vizinho da horta e ele respondeu-me grosseiro que de nada sabia e continuou a cavar como se a pergunta fosse parva de tão tonta.

 

Não gosto de coisas segredosas das quais nada resta e ao mesmo tempo parecem mistérios mentirosos.

 

Sim, mas ainda há o coração.

 

Qual coração? O da baleia?

 

Sim. A menina não sabe, mas acordar não é de dentro, acordar é ter saída mesmo nem que seja para um fiapo de vida ou morte. Tenho esta coisa comigo e fui lá dentro da boca buscar o coração da baleia. Dei-lhe campa, é no lugar das alfaces e dos cheiros que se veem, ali mesmo ao fundo. Só eu sei que está lá o coração que se enganou no caminho. E as pessoas julgam que de cima dos telhados vêm tudo…

 

Ah já sei, como lhe salvou o coração ela deve ter voltado ao mar num forte impulso de corpo e aproveitando o redondo da forma, depois, no mar, os peixes comeram-na sem que soubessem que não comeram nunca o principal.

 

Pode ser assim ti Jaquina?

 

Pode menina.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A VIDA, O SEU TERMO, O SONHO, A NÃO ESPERANÇA: EIS A SUA MATÉRIA

 

A desproporção de forças infetantes que se reproduzem sucessivamente, a grande praga que dizima os seres, que carcome as rochas, os ares, as águas e vaza os lixos na vida, refugo letal onde se adormece um sono, assim a Absurdidade comunica os seus poderes termiteiros e mercantis, somatórios ávidos do ter.

 

A profundidade a que todos, de um modo ou de outro, permitimos que no mundo se venceria pela força do que constrange e obnubila, permitiu que os domínios interditos de quem mata a espessura da vida fosse contada, e mesmo exposta, sem que uma multidão em número e vontade excedesse a soma das forças de todos os que fizeram chegar o mundo ao nível do lixo como desígnio.

 

Todavia as silenciosas contas bancárias dos responsáveis pelo suposto não saber dos atos criminosos que provocaram e provocam, elevam os rendimentos ao limite superior do possível e reduzem ao mínimo qualquer custo de manutenção do esconder dos seus atos, agindo como inimputáveis pois a máquina construída os protegerá passo a passo.

 

A terra continua a ser devastada pela violência dos monstros que alcatroam mandos de morte com a finalidade de que, à superfície, o cenário tenha brilho e atraia aparências de vidas que não denunciam o simulacro do que lhes é dado viver já que no imediato nem o reconhecem como tal.

 

Na fotografia, este menino dorme e desconhece que também lhe simularam o céu sob o qual adormeceu.

 

Sonhará este menino com o abrir de uma caixa própria, uma caixa de algo que lhe é muito precioso e o embala até a encontrar vazia e do sonho acordará num sem número de pesadelos reais?

 

Desconheço as contabilidades que se fazem neste pseudo mundo que troca capital por lixo e no qual adormecem crianças em nojentos colchões que boiam nas lixeiras, lixeiras criadas pelos manipuladores dos fátuos fogos que obscurecem até o futuro das luzes das estrelas.

 

Promove-se a guerra de todos contra todos: assim Hobbes, assim o emaranhamento das corrupções, teia de submissões articuladas no plexo do lixo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Solidão: um lugar de morada

 

Escutei pela radio que uma senhora fazia renda numa farmácia das 9h às 19h todos os dias. Escolheu um cantinho onde desse sol e dizia: é maravilhoso estar aqui na farmácia a fazer renda.

 

Diz que assim nunca está sozinha. Não imagina melhor sítio para estar e o doutor da farmácia entende. É tão discreta que parece-se a uma existência reduzida, ela o banco e a renda. A tensão arterial é branca e as análises que um dia fez acusaram apenas solidão. Há quem precise de explicações para este facto, ela não. Sabe que na morte somos todos iguais e na aflição também. Sabe que aquele que está lá em cima olha por ela, até lhe arranjou a farmácia, e esconde dela as caras dos clientes que não gostam de a ver ali.

 

Às vezes, sente que não descansa nunca, mas não é depressão, é que a renda que faz é complicada e renda, renda, renda a subir e a descer os desfiladeiros da vida da ponta dos dedos ao fundo da alma, são coisas que cansam lá dentro dela. Contudo a farmácia é um local maravilhoso: repete sempre.

 

Também lhe acontece que as linhas entrelaçadas da renda lhe levam à memória os 4 filhos e a viuvez, e, se assim acontece, pensa logo no almoço que só pode em certos dias, pois a reforma é pouco mais de 200€. Este exercício da falta do almoço recorda-lhe uma das filhas, a única, que, de quando em vez, lhe chega uma ajudinha pouca, e o doutor da farmácia, esse, que a deixa estar ali é uma pessoa maravilhosa e ela tem muita sorte.

 

Fazer renda numa farmácia pode ser o promontório possível de uma vida que bem sente a indiferença de quem tudo tem e canta o hino da vitória ao dinheiro que tudo suplantará.

 

Nos tempos que correm a solidão é prevalente nesta sociedade dilacerada, na qual se medem aos palmos e às rendas, o bem-estar inferior de cada um. Não há caminho que concretize o maior desejo do ser humano que é o de ser amado e a vitória afinal é a do descartar dos seres.

 

Também em busca de suposto sentido a sociedade moderna exalta os génios e os de alta performance para a economia e para o superior pensar. Mas a maioria da humanidade não é genial, senão apenas normal e aos normais ainda se retira o pouco, mesmo que ser normal seja a superior capacidade de suportar a dor com um fio de esperança de que a sua vida tenha sentido. O sentido do porque viver. Porque se ganha fidelidade a meio metro quadrado de uma farmácia, chegando a acreditar-se que afinal ali já se vivia antes de nascer.

 

E quem toma como sua esta apelidada de tranquila morada? Quem tem essa coragem onde porta alguma se insinua? Quem de tudo distante, pode manter seu refúgio?

 

A Paulo Moura que tão empenhadamente descreve o exílio das flores regadas a destroços desta sociedade de solidões, me junto, e assim me aceite, para entender com ele o quanto lá ao fundo por entre as rendas, mágoa alguma serena.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Qual é o défice de que falamos?

 

Segundo critérios contabilísticos normais, o défice ficará acima de x ou abaixo de y, dependendo dos compromissos que a Nação assumiu, ouve-se desde há muito na radio, na televisão, em tudo quanto é órgão por onde se faça comunicação. Também nos explicam uns, que pode existir inscrição de receitas falsas, camuflando o défice e este surgindo w ou z. Acontece que nos explicam ainda que não tenhamos ilusões, mas o défice não é um facto financeiro, é sim, uma decisão política assente no comportamento expectável de exigir a todos o não defraudar do fisco e por aí adiante. Mas, o motorista do táxi olhou para mim pelo espelho do retrovisor e perguntou-me bruscamente:

 

- Bolas, mas o raio do défice nunca se segura? ou tem de ser admitido porque tem de se pagar a saúde, ou, não pode ser admitido porque o motivo dele é todos roubarmos em tudo?

 

É assim?

 

- Hum!

 

- Hum! Então e a senhora não acha que o défice de que eles falam só tem lugar porque o verdadeiro défice é o da nossa falta de confiança neles, e olhe que com toda a razão. Neles e nos que se passeiam com eles, e nos que eles deixam a passear-se, não é?

 

- Pois…percebo.

 

- Claro que percebe. Se até eu percebo que o meu défice de sono assenta nas 12h de trabalho que faço, e ainda assim não durmo com a preocupação do dinheiro e as despesas a crescerem, e eu a saber o que agrava o meu défice de confiança em que eles me protejam quando eu já preciso de ajuda…e olhe, não entendem o meu défice, mas querem obrigar-me a entender o deles, e o deles, dizem que é o meu, ou que é por minha causa ou porque a culpa é da vigarice se encontrar a cada esquina e agrava o défice. Então não acha que o défice é um vício não tratado? é um vício de mata bicho e mata homem, sem prisão? E não há vacina?

 

- Bom, sabe, a democracia é muito frágil e abusa-se do que ela oferece de melhor e

 

- E…, desculpe, e…, nada, porque a democracia está a ser um vicio de país pobre, que já nem mata a sede com o voto, porque o défice é também a falta de trabalho e ninguém faz o necessário para o criar, pois, ou não sabem, ou não se querem meter em prejuízos se as medidas descambam. Não é? E a malta desmoraliza e já vota pouco. É outro défice, não é?

 

Olhe e temos conversa…, com este trânsito! completamente parado, pois já viu que neste país é um por cada carro? Aqui não há défice, não é? Então qual é o défice de que falamos? É nuns locais e noutros não? Então porque não copiam onde não há défice? nos tais locais do não? Que acha? Era boa ideia, não?

 

- Boa ideia era podermos acreditar nos direitos, nas instituições…e

 

- E…, desculpe, e…, nada. Como posso acreditar nas instituições se são elas que me tramam? Ando há 8 meses a tentar perceber quem me resolve um problema da reforma da minha mulher e até já me disseram a sorrir, olhe vá no dia 13 a Fátima e lá dizem-lhe. Vê, vê, isto é um défice de respeito ou um excesso de desvergonha? Que podemos fazer para termos paz face às garantias que a democracia nos prometeu?

 

- Prometeu e se o senhor lutar por ela, ela cumpre!

 

- Ah!, não sabia, então, desculpe lá, mas acha que eu não votei estes anos todos? Ninguém me pode acusar desse défice, e olhe que sempre fui pondo o pão na mesa, e olhe que tenho honra em Portugal e na minha aldeia. Mas pronto os portugueses habituam-se à miséria desde que respirem, e tem de haver algum défice estranho que os mantém assim. Não acha? Não acha? E os bancos? Olhe, minha senhora, quem não tem dinheiro para arranjar esse onde vai sentada, sou eu, e se os clientes continuarem a queixar-se, lá vou viver das dívidas, aumentar o défice, e os especuladores e os corruptos em crescimento na boa, até já nem haver crédito. Desculpe lá, ando a pregar e não mudo nada com isto, mas se não falo com os clientes, chego a casa bem pior que uma panela de pressão.

 

Ora faz favor, aqui está o troco. E tenha um bom dia e tenha esperança! e ainda fique com esta: o Estado precisa que existam pobres para justificar alguma proteção bondosa e daí o défice. Se calhar é desse défice que se quer que todos falemos e pelo qual não nos podemos queixar. Devemos ser bondosos. A senhora não é jornalista, pois não? Pois não?

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Uma vez sonhei-me a mim e ao meu irmão sentados na escada do prédio onde morávamos, naquele silêncio que sempre presidia entre o final das férias grandes e a viagem urbana do inverno. Como não partilhávamos os amigos, naquele momento eramos mais nós, acompanhados das inúmeras palavras não ditas e de todas as ternuras cúmplices já vividas. E ali estávamos, no mesmo degrau sentados, tristes, naquele intervalo de nada que se misturava com o que não queríamos viver.

 

De repente uma forte agulhada fez-se ao meu peito, e logo percebi que tinha ido parar ao sonho que dói, e, acordei. Não era um sonho errado aquele que se desenvolveria, mas era um sonho do qual me queria afastada como de todas as perguntas que encolhem os ombros e por elas se ficam num vá lá saber-se o quê! vazio e derrapante como as escadarias imensas por onde os sonhos me faziam escorregar sem borboletas na barriga, antes num voar tropeçante e enfim salvo por uma realidade desconhecida que lhe punha fim. Este sonho do cair ou do voar de uma escadaria era, na altura, uma constante.

 

Acendi a pilha que clandestinamente tinha sempre na mesa-de-cabeceira e espreitei o quarto, quieto e seco como um sopro velho e comparei-o às hipóteses vividas no verão que acabara. Nesses verões existiam burros complacentes que carregavam pelos trilhos das fontes, bilhas de água dentro de cestos de verga destinadas às casas dos veraneantes. O barro dava à água uma frescura com cheiro e sabor próprios e tal como as peras e as uvas e os primeiros namorados cujas paisagens eram indecifradas, mas ricas de repensar, as águas das bilhas eram uma concordância com a vida fosse qual fosse a razão. Também as festas nas garagens ou o cheiro a maresia nas chegadas à praia, as estrelas-do-mar dentro das poças por entre as rochas, tudo era palpitante, tudo eram pinheiros e cheiros de cascas de pinhões abertas no chão dos pinhais e, sobretudo, tudo eram escapadas, tudo era conseguir fugir a controlos contrários aos sonhos.

 

Desliguei a pilha e voltei ao sonho e tudo se complicou. O meu irmão esforçava-se em vão por uma autorização para viajar na mota e a mim perguntavam-me a soma dos ângulos dos triângulos qual modo de interrogatório que colocava em causa a curiosidade de qualquer saber.

 

Olhámos um para o outro e bem entendemos que seria mais um inverno em que deitaríamos mão às reservas, colherada a colherada, até ao fim. E como tudo demorava a chegar ou raramente chegava do céu, dei um beijo ao meu irmão e entrei em casa resoluta, desligando-me do sonho e disponível a regar a inexistente planta do meu vaso. A verdade é que desde cedo os começos me subiam à cabeça e desde cedo engolia a chaves dos segredos, e, sem me conformar espreitei da porta o meu irmão, o meu irmão muito no coração de tudo em mim.

 

A viagem urbana do inverno seria feita sempre igual até que alguém nos revezasse.

 

Teresa Bracinha Vieira

2019

CRÓNICA DA CULTURA: A PRISÃO DA VIDA POR INTEIRO

 

O neto da D. Amélia - modista exemplar e orgulhosa de tanta sabedoria na feitura de qualquer modelo que lhe requeresse cuidados especiais – abriu-me a porta e balbuciou qualquer coisa. Entrei e esperei no hall onde uma perna artificial estava dependurada num cabide e agarrada a um sapato preto, parte integrante da perna, e sobre ele uma serie de panos e um punho de lã de alfinetes.

 

Soubera que a minha muito querida modista tinha tido a desgraça de aprender a dor da amputação de uma perna, devido a tremendos problemas de artrite reumatoide. Levava-lhe naquele dia, musseline para uma blusa e um ramo de flores escolhidas ao dedo por mim.

 

Mal chegou ao hall, rápida, na sua cadeira de rodas, depositei-lhe as flores no regaço e debruçada, dei-lhe o mais ternurento abraço que pude. Um abraço de 28 anos de modista e cliente amigas.

 

A D. Amélia retirou logo um lenço do bolso para enxugar a lágrima, apertou as flores contra o peito e disse-me com um largo sorriso

 

Ora vamos lá!, que saudades!

 

Pegou na perna pelo pé que estava dependurada no cabide e lá fomos as três para a saleta das provas.

 

Perguntei-lhe

 

Mas não usa a perna, D. Amélia?

 

Ó menina! Claro que não, até me faz feridas este trambolho. Sabe?, o hospital deu-ma e nem sabe que número calço e como vê este sapato é enorme. Depois o sapato tem ar de sapato de freira a fingir atacadores e tudo, e a perna, tem a cor de ter ido à praia verão e inverno. Olhe um mamarracho destes a que tive direito por tudo o que sofri!, e como prefiro andar nesta cadeirita de rodas, não quero usar a perna, mas faz-me um jeitão. Ao cabide não lhe chego:logo, ponho lá a perna pendurada por esta argola que o meu neto lhe arranjou, e, nela coloco os lenços ou alguns trapos de recorte a que chego facilmente. Quando vou às provas, levo-a comigo, e, além de ser fonte de riso meu e das clientes, coloco-lhe em cima os fatos a provar: uma utilidade pura!  Um buracão também, que, às vezes, tenho de virar ao contrário se da zona da coxa da tola, cai algo lá para dentro. É oca como tudo o que é tolo!

 

Amélia, não tem dores? Quis já começar a trabalhar? Não é cedo? Não poderei eu pedir outra perna para si?

 

Não, não se incomode. Já pedi eu e deram-me outra igual. Tinha duas e só me amputaram uma. Era uma cegada quem as via ali dependuradas…«ah!, afinal tirou as duas perninhas?» e eu que nunca fui de ter mais do que aquilo a que tenho direito. Veja bem que até um dia até me assustei: olhei para as duas pernas dependuradas e de repente olhei para mim. Não sei como foi isto, mas parece que me assustei pois sabia que só me faltava uma, mas tudo é possível. Então mandei o meu neto entregar uma delas ao Sr. Dr. lá do hospital, e veja que ele perguntou de jeito bruto

 

Para que é que eu quero isto?

 

E o meu neto, que se não fica, respondeu-lhe

 

Mas para a minha avó já serve não é? E veio-se embora.

 

E ria-se a bom rir, olhando por cima dos óculos como quem pergunta: percebes?

 

Bem! D. Amélia essa recuperação vai correr bem.

 

Ah! Pois vai, não sei se lhe disse, mas o estafermo do meu ex-marido que chegou a advogado à conta dos meus alfinetes e da minha coluna, ele morreu. Viu? Estava bem e morreu. Estava com a amante e morreu. E eu ainda cá estou! Foi a vida do Dr. Ai que linda musselina me traz. Que vamos fazer?

 

Olhe D, Amélia – menti – ainda não sei. Tem alguma sugestão?

 

Claro que sim. Não é o seu marido muito ciumento?

 

Sim.

 

Então vou fazer-lhe o que a musselina der, mas vai andar vestida unicamente com a macieza nua dela. Ou seja, vai andar linda como sempre a vi, todavia despida sim, de uma forma mais completa. Desde que me cortaram a perna ou desde que parei de chorar, mudei a minha criação nas roupas. Acho que o corpo, quando se veste, muitas das vezes perde a definição e assume uma pele que a roupa lhe empresta. No fundo, é melhor que tudo acabe confundido.

 

Perna no cabide ou sem perna na cadeira, tudo carrega presenças, até o que é volume vazio. E nós andamos aqui a enfeitar a epiderme que tantas memórias criam ao corpo e um dia abalroam-nos. Olhe menina, é o que mais sinto que me fizeram. Abalroaram-me e deixaram-me com uma parte de mim e uma crosta a segurar o resto. É uma espécie de uma guerra, mas constante.

 

Enfim, não preciso de medidas, já vi que são quase as mesmas: fronteiras que conheço há tantos anos.

 

E como está o paizinho? Doentinho não é? Chatinho, não é? Ai desculpe, mas ontem vi um filme em que a filha punha o pai no alpendre à hora do trem e um dia ambos viram o tempo e começaram a dar-se melhor. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CHARLIE CHAPLIN

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Teus olhos perscrutantes são meus olhos vagabundos. Tua irmã sou, se me aceitares

 

E como disseste “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre” e só se conhecem céus, conhecendo as noites fundas do ódio, do poder cego, do desprezo e da clemência do amar que exprimiste mudo com a extrema dignidade de um cavalheiro. Na tua cartola, na tua bengala de bambu, no teu fraque, nos teus sapatos imensos e desgastados, não foste grande, foste gigante e nunca foste o fim de uma era, ou não tivesses partido deste mundo que encheste de significado durante a gentileza do teu dormir.

 

Em 1977 ano da tua morte, juntamo-nos um grupo de amigos para falar de ti para homenagear algumas das tuas frases. Tudo o resto, pois que o teu resto é mundo todo, já sabíamos que se vai fatiando deitando laço à idade que nos chega

 

e num espírito sem clausura, tu

 

Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”;

 

“Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça”;

 

“A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas quem consegue descobre tudo”;

 

Enfim o que pode extrair a nossa imaginação dos teus filmes expressa bem o quanto neles o que importa não é a realidade.

 

Sempre o meu choro ao vê-los foi meu aplauso total. Sempre senti uma dor brilhante naquela mímica. Deixava-me a pensar nos corações de estopa lacrimosos a expor as suas contradanças e repudiava o que ainda hoje repudio: refiro-me ao eterno jardim sempre prostituído por malabaristas de estudadas esgrimas.

 

Agora, de manhã, quando te escrevo, é tudo grato…mas Chaplin ao meio dia já muito é duro, a noite é amarga, e, ao amanhecer, contigo também aprendi que do vagabundo despertam aos poucos as ânsias de caminhar e assim a andar nos pomos.

 

Grata te sou pois julgo ter entendido de ti um jeito de conhecer o indizível do morrer, da perda dele ao largar o mundo já que me deixaste a hipótese de encontrar no negrume o que resta da luz.

 

PS

A vida é maravilhosa se não se tem medo dela, sim é certo Chaplin, e é um texto irreversível no qual para irmos a jogo haveria que inventar outra comédia humana, outra trave mestra que fosse um outro dia, de repente.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A Matemática porque é também preciso resistir às simplificações grosseiras

 

O desinteresse pelo ajuste das impurezas do pensar quando lidamos com assuntos muitíssimo complexos, sobretudo quando, até mesmo as bolas da sorte, aparentemente escapam às leis da natureza e apenas contribuem para erros de raciocínio, o que daqui emerge não é particularmente abonatório para o retrato da humanidade.

 

Quem pensa que basta admitir que alguém possua a verdade e que, por esse facto, a possa impor aos outros, desconhecendo que nenhum de nós sabe isoladamente, e que vivemos numa rede de interdependências cognitivas, então desconhece que uma das características da Matemática é justamente a sua integração vertical no nosso raciocínio de modo a que ele não suba para o andar de cima sem ter entendido o andar inferior.

 

Recordo que me ensinaram que o algoritmo de Euclides fora um método eficiente para se calcular o máximo divisor comum, esse mesmo que hoje com pequenas pertinências é utilizado nos computadores.

 

Que mais não seja, há também que pensar que a Matemática é necessariamente uma questão de educação, e é sobretudo um processo, um processo para além da aldeia de pensamento que nos querem fazer crer que nos basta, que nos basta a ela aceder, e pronto! eis que já percebemos que um resultado matemático, tal como uma lei da Física, é verdadeiro ou falso independentemente das referencias culturais onde assim o constatemos.

 

E nada mais falso afinal do que se julgar que foi na aldeia murada que aprendemos esta realidade.

 

Em rigor o processo a que acima nos referimos referente à Matemática é um processo internacional, independentemente de existirem escolas de Matemática. Lamenta-se, de quando em vez, que, em Portugal, o lugar da Matemática seja um lugar onde se arrumam de vez os obstáculos e que as ambições de a conhecerem sejam meras tendências, na sua maioria.

 

Do pouco a que acedi no seu estudo e do tempo que ainda hoje me ocupa a sua Casa para que me sinta numa razão que muito assista à minha escrita, sinto cada vez mais que a Matemática é necessariamente uma liberdade para a qualidade de vida do pensar e para a higiene das ideias, e, é lugar por excelência onde se joga o jogo decisivo.

 

Confesso que sempre senti a Matemática como uma postura revolucionária indispensável no processo do pensar, e, confesso que sempre a vi – excecionando um caso – a ser transmitida, ensinada, exemplificada, não como quem conta uma história de amplo nexo, mas como quem conta que um país é pobre porque padece dos males x e y, sem alternativa de que, a soma destes dois, possa ser diferente de quatro, no sentido de dois x mais dois y.

 

Talvez o exemplo dos países que têm um ensino não superior exigente para todos, de mãos dadas com a seleção atenta, possa provar que o talento da perceção da Matemática reside na excelência de um sistema de ensino.

 

É com felicidade que hoje já vejo, até em programas dos meios de comunicação, a Matemática e as Artes, legitimarem casamentos, nos quais a Música, a Poesia, a Dança, a Arquitectura, a Pintura, o Diálogo, enfim tudo o que é essência, conferir e receber poder de entendimento ao papel-chave de um número, ou de uma letra de um ângulo de geometria espacial, ou de um simples sinal, função insubstituível para nos entendermos fora das simplificações grosseiras do pensar e do dizer, enfim, próximos da lógica do cerne.

 

Sei que não é possível melhorar qualquer área do saber individualmente sem melhorar a qualidade global do sistema escolar. Não douremos as pílulas. Se Pedro Nunes (1502-1578) foi um grande matemático, dos poucos portugueses que citamos nesta área, foi porque subiu acima da mediania e deu profundo contributo ao desenvolver a Matemática do seu tempo. Contudo, afirma-se que Portugal nunca produziu um génio matemático. Enfim, em Portugal, registe-se, que o ensino das ciências sempre foi deficiente. Ora, atualmente, publica-se a ritmo crescente, artigos científicos em revistas internacionais de referência. Assim sendo, estamos a tentar recuperar de um desenvolvimento da ciência que em Portugal terá tido mais de anos de decadência do que de anos de ouro, mesmo considerando a época extraordinária dos Descobrimentos.

 

Na verdade até na escrita, a investigação tem chegado bem pouco à grande passada de Pedro Nunes no seu contributo para a ciência náutica. Pretendo com isto dizer que o domínio da palavra tem de assentar na fantástica utopia do seu perfeito manejo e na correspondência com as infinitas realidades a que se pretende referir, sobretudo se na ascensão dessa escrita estiver a bússola que possa não ensinar a resolver a equação de segundo grau, mas a pressentir a vida dessa equação, o seu poder de agir sobre o Universo.

 

Talvez assim, possamos afirmar que daí, à dependência da curiosidade nossa face ao Saber, eis a Matemática, generosa, afinal prenha de ideias subtis que nos oferece a grande chave para a desencriptação do mundo que nos rodeia, e a mão da Filosofia vívida a expor o propósito e o sentido.

 

A linguagem e o pensamento têm uma capacidade fabulosa para representar a realidade. Todavia, somos irremediavelmente falíveis, mas podemos diminuir os riscos se nos confrontarmos em cadeia, e só desse modo, entenderemos que nem todas as realidades se submetem às nossas representações, carece que a sensatez judiciosa dos nossos raciocínios e dos nossos envolvimentos estejam à altura da tarefa que nos cabe.

 

Eis o repto de Gowers e Michael Nielsen

 

«quem poderia imaginar que o registo de trabalho de um projeto matemático fosse tão interessante de ler como um thriller

 

A Matemática e o Português, a História e a Filosofia, a Física e a Etologia, a título de exemplo, envolvem radiações de origem solar que só se esgotarão se se esgotar a nossa criatividade: que esta se não cristalize, é da nossa exclusiva responsabilidade.

 

Teresa Bracinha Vieira