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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

NO MOMENTO DO VULCÃO
E JÁ
NO PÓS DE TUDO

  


Passo a passo desenleava-se o enovelamento dos fenómenos, e como a razão crítica não convinha aos estabelecidos, obscureceu-se a verdade enevoando-a com a mentira.

A partir daí só havia que destruir inimaginavelmente e aguardar pelos termiteiros submissos.

E eis que tudo pareceu acontecer de súbito quando afinal se lhes deu tempo e força e permissão para que rebentassem a crosta do mundo, avaliando previamente a potência da câmara magmática, aquela que que alberga a caldeira do mando cruel e oportunista e cego de cegueira absoluta, aquela que sabe que explode com consequências planetárias.

Foi usada a extrusão para dar forma e atribuir características no tecido do Ser.

Causaram-se descargas explosivas avaliando as tolerâncias;

a sismicidade de aparente baixa magnitude entrou de manso nas escolas;

em sons de baixa frequência, avaliaram-se as universidades;

a voz cavernosa das placas tectónicas a roçarem ressurgentes anunciaram pontos de partida;

e quase todos alheios, como última verdade, os humanos sentaram-se em cima do momento do vulcão, e já nos pós de tudo, no próprio pós-armadilha e fraco engenho,

aconteceu.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A GRANDE VIAGEM 

  


O GRANDE DESPERTAR


É condição de êxito na vida o entendimento funcional de comportamentos que nos facultam a estreita união com o mundo. E tanto basta afinal a uma resposta que constitui o nosso grande equipamento.


Tudo o que nos confere vantagens adaptativas ao crescimento em graus de atividade e latência, confere-nos combinações de raciocínios e sentires, a partir dos quais se desimpedem pensares aos quais se atribuíram enormíssimas importâncias, quando não, superioridades medidas apenas pelos ralos de ângulos secos.


Jane Goodall,
primatóloga, é doutorada em Etologia pela Universidade de Cambridge, e tem grau de Doutor Honoris Causa em mais de 45 universidades do mundo.


Jane Goodall
, é e foi a experiência luminosa e exaltante, vivida e transmitida pela complexidade de pasmosas singularidades:


um lance ao invés de tudo.


Compartilhamos 98,6% de nosso DNA com os chimpanzés, mas o mundo sabia muito pouco sobre eles até que Goodall, a cientista britânica chegou a Gombe (Tanzânia), em 1960 e seis décadas depois, cada fórmula de verdade decifrada, ajudaram o mundo a refletir o quanto se ampliarmos a visão do grão, sempre outros pormenores se mostram imprescindíveis ao mistério do mundo; o quanto um constructo conforme à indagação nos ajuda a refletir sobre o que é ser humano e como contribuir para um mundo mais sustentável e consciente.


Questionada em 2010 se acreditava em Deus, a antropóloga respondeu:


"Não sei quem é ou o que é Deus. Mas acredito num poder espiritual maior. Sinto em particular quando estou na natureza. É algo maior e mais forte do que qualquer outra coisa. Sinto-o e isso é suficiente para mim". 

  


“Eles buscam o contato físico para aliviar o nervosismo ou o estresse. É muito parecido connosco."


E acrescenta:


"Foi muito chocante descobrir que, como nós, eles podem ser brutais e até mesmo travar uma espécie de guerra. Eles também podem amar de forma altruísta. Eles mostram os dois lados da natureza".


Jane
Goodall descobre também que o fabricar e o próprio uso de ferramentas não é atributo exclusivo dos humanos e a essa constatação respondeu Louis Leakey:


TEMOS DE REDEFINIR FERRAMENTA; REDEFINIR HOMEM


Digo, com profunda humildade que a grande viagem e o grande despertar dão-nos o limiar de expressão, de motivação para desencadear um comportamento e um paralelismo com a própria oferenda ritualizada, oferenda que simboliza intuições propiciatórias em sucessivos movimentos de intenção. 

  


De registar que Jane Goodall chegou a ser acusada de antropomorfismo, o pior dos pecados etológicos.


Enfrentou igualmente a comunidade científica por ser jovem e por ser mulher.


Constatou o quanto os humanos se não redefinem no seu interior, o quanto não saem do seu pedestal para entender que outros seres também têm emoções, são inteligentes, sentem empatia e dispõem de um sistema social próprio. 

  
Compartilhando alimento


Jane Goodall
, bem tem conhecimento que os primatas que desejam a paz, têm de desviar a arma da direção do seu adversário: movimento e forma têm um significado conhecido de todos, enfim.


Em rigor, adotar um sistema de escala de dominâncias isolando indivíduos, exprime zonas claras de intolerância e desencadeadoras de medos que apenas submetem e humilham para comandar.


Eis os grandes fragmentos da vida social humana.


Eis como os fenómenos da catação inspiram as hierarquias sociais a um estatuto que as conduz aos objetos em disputa que lhes darão credibilidade e poder, e sem pudor, os excessos de visualização dos humanos expõem-se como se se não tratasse de verdadeiros comportamentos agressivos. 

  


O que você faz, faz a diferença, e você tem que decidir que tipo de diferença você quer fazer.” (Jane Goodall)


O desafio é o da visão lúcida! Sempre foi! E só a partir daqui se iniciam as mudanças do todo que igualmente sempre foi composto por partes que se influenciam mutuamente.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

NÉLIDA PIÑON

Eu não confio no Estado.
Eu confio na vigilância da sociedade
.

  


Não tenho filhos, mas leitores, capazes por si sós de defenderem a civilização contra os avanços da barbárie. A eles nomeio sucessores de uma linguagem irrenunciável. E, embora duvide às vezes se vale defender alguns princípios hoje contestados, persisto em inscrever certas normas no código dos direitos humanos.


E que ninguém abandone o arado da literatura que se lê e vive em fôlegos de grandeza responsáveis pela manutenção da pátria-poética na esteira de si, no coroar de toda a trajetória literária e na esteira também de Saramago.


Nélida: a musa de quantos viveram também na sua convivência, na sua vizinhança, aquela mesma que nos legou uma narrativa luminosa.


Traduzida em mais de 30 países, Eduardo Lourenço, Octavio Paz, Carlos Fuentes, Alberto Mussa entre tantos outros criadores de linguagens como William Faulkner ou Pedro Páramo - tão evocado por Jorge Luís Borges -, nunca descuraram a poderosa trajetória de Nélida Piñon.


Escritora integrante da Academia brasileira, dela, na emoção da despedida, escreve Evandro Afonso um epitáfio à sua palavra-luz de onde centro, proa e quilha se confiam à vigilância da sociedade, à respiração de onde é tantas vezes alheio o próprio Estado.


Como afirmava Nélida, os tribunais quase inquisitórios proliferam nas mãos dos perguntadores de serviço esgrimindo artríticos poderes: homens em declínio como perfeitas imagens de solidão.


Que vigilantes sejam as gentes a tanta ambiguidade! Que se não desatentem do quanto as sombras fantásticas gritam! Digo.


Nélida morre em Lisboa em 2022 em plena pandemia, mas deixa-nos a pedra obsidiana, aquela do seu livro “Um Dia Chegarei a Sagres”, análise poderosa de decadências e esplendores humanos quando fundo e superfície são um reter e um libertar.


Bem-haja!


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

«Se é o sonho que cria o homem, vou criar o sonho que me cria»
Maria Gabriela Llansol

 

  


Quando comecei a ler Maria Gabriela Llansol aquele estado de estranhamento que é a base da atitude filosofal, abriu-se a um outro tempo encontrado na proposta de uma fração infinitesimal, aquela mesma que se situa entre o que recordamos e o que percebemos.


Maria Gabriela foi e é um ponto luminoso de ideias e inspirações.


Entendi-a como uma lutadora incansável contra as normais solicitações humanas, procurando que a compulsão mimética não prevalecesse no seu íntimo, como um assalto constante a tudo e todos sabendo o quanto tudo se desvaneceria, enfim.


De Kafka, Camus, Goethe, Malraux, sempre numa tentativa algo oracular, procuramos dar rumo e sentido a um polo oposto da verdade que intuíamos existir, e esse percurso, também o fizemos mão-na-mão das seduções de Gabriela Llansol.


Por Dilthey, procuramos mesmo por entre as ciências da consciência e as da natureza, uma sociedade fora da universidade que nos foi proposta e que pouco ou nada permitia o pé em ramo verde, pé de fantástica afinidade pelo ensino de dentro de ângulos novos, quando tudo começa a ser predileção, depuração, condensação do pensar e do dizer.


Eduardo Lourenço afirma: «Qualquer texto de Maria Gabriela Llansol é um texto em que o laço com a realidade, no sentido banal, se nega e se transfigura numa outra espécie de texto, considerando-se aquela ofuscação positiva que só a música exprime, ou antes é. Viajemos por um texto qualquer, porque todos os textos de Maria Gabriela têm essa propriedade de serem um só texto e um texto diferente».


"Escrever é o duplo de viver" ou "a minha maior responsabilidade é contribuir para que um livro seja um ser". Assim Maria Gabriela no seu livro "Falcão no Punho".


A absoluta centralidade da linguagem com a qual pensamos, será sempre o que nos conduz às grandes perguntas gravitacionais, e só por aí o sonho que nos cria é o mais desejado e furtivo dos animais em nós:


um verso de Camões que ninguém iguala.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

QUE SE LEVANTEM OS SUSPEITOS!

  


Há um Portugal profundo que já desapareceu.


Os lugares de pão amassado pelas mãos das gentes, o lavrar, cavar, semear, podar, a debulha, a empa, o diálogo dos ofícios no uso das malgas, dos lagares, das eiras, dos alambiques, do carro de boi, do arado, da grade, do malho, da candeia, do chocalho, o gado e as capoeiras de campo aberto, tudo se esfumou como se nunca tivesse existido aquela vida e os instrumentos de a fazer naqueles lugares.


A relação entre as pessoas da lavoura, naqueles locais e naquelas naturezas, deveria ter-nos levado a compreender corpo e laboratórios de sentires e de fazeres diferentes que, em verdadeiras equipas multidisciplinares, executavam soluções procuradas com imaginação, criatividade e solidariedade.


As várias intimidades da vida, viviam-se de formas distintas de tudo o que são as experiências urbanas, pois que ali o vento sempre foi mais igual ao vento, e as abas das terras, corpos carnais dos riachos, por lá corriam ao caminho dos moinhos de um deus.


A razão das bebedeiras, das ladras dos cães, dos ovos das galinhas, dos esgares dos partos, do partir dos filhos para guerras ou para os estudos, pois que a mão do padre ajudara, tudo eram feições desta vida sofrida entre goelas que afinal a deixavam num lado de cá de tudo, numa cena sempiterna.


Era tão importante termos entendido a tempo, o quanto o beijo do milho-rei já estava a ser obrigado a transformar-se num exercício de despedida dos encontros de amor de então; o quanto as expectativas das sensualidades das vindimas, das constituições das famílias futuras, dentro daquelas arenas da vida, já se procediam em ausências por detrás das casas transumantes de um frio.


Os últimos viveres destas populações - às quais nunca se prestou a atenção de os ajudar a um conforto mínimo na labuta do que nos alimentava -, são hoje suportados em solidões absolutamente incompreendidas e consequentemente cruéis, já que nunca se interpretou sequer a razão das hortas serem o lugar do semear, do crescer e do regar dos mimos.


Mesmo quando os filhos das gerações de aldeões de então, os trazem a viver nas suas casas em condomínio na urbe, a ausência da comunidade do leite, o ATL que substitui o brincar dos netos nos campos de tapetes de carqueja, é algo que só conduz a uma obrigatória e definitiva infelicidade.


Nascer, crescer e morrer junto à Mãe-Natureza criou-lhes rotinas no acender do fogo na terra-chão das cozinhas, quando todos eram a infância uns dos outros, e por esses laços se seguravam por debaixo dos cobertores de papa, os colchões de carolas de milho que muito arranhavam o corpo, e até muitas substâncias da ideia-esperança.


Por ali, e daquele modo, amargamente duro, se criou conhecimento primordial, um conhecimento que não reclamou direitos, mas que era o participante insubstituível a que sobrevivêssemos nós, no nosso caminho.


E afinal, abandonámo-los, isolámo-los e aceitamos que eles, com humildade selada, se resignassem nas suas tremendas fragilidades, à sua sorte, tão inclusiva no desamparo.


Ir embora destes lugares começou a ser a transformação de uma extinção numa outra realidade.


As visitas de tantas músicas nas festas das aldeias com os DJ em cima das camionetas, começaram a interessar às gerações do êxodo que só regressavam no agosto.


A nova realidade surpreendeu os fazedores de alimentos do mundo de então, surpreendeu a comunidade, surpreendeu as pedras, as serras, os rios, e sobrepôs-se numa aventura sem respeito, aos seus diálogos com a vida.


O despovoamento de muitos dos lugares a que nos referimos, é agora algo colmatado - sobretudo depois da pandemia – pelo descobrir de vontades de uma vida mais simples e mais natura, mas definitivamente distinta da que temos estado a referenciar.


Estamos a escrever do lado da incompreensão a uma existência que tinha um objetivo, uma existência surpresa, corpo, unidade, luta, rugas e maçãs de rosto rosadas pelo dom do percorrer amor e outras verdades.


Escrevemos também do lado das ruínas de todas as casas mortuárias, afogadas bem fundo pelas barragens, traços exaltados da nossa evolução.


QUE SE LEVANTEM OS SUSPEITOS!


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Não fui eu e ainda não sou tudo está por caminhos do ainda.
Cada coisa é parte de outra.
Que acesso me dá a solidão? O SMS? 

  


Precisamos que nos aceitem como somos no convívio e no silêncio e nada disto se transmite por SMS.


Insistir que nem sequer se ouça o timbre da nossa voz quando comunicamos com outros é sermos humanos ou é o início do fim do trajeto de quando o fomos?


Ausculte-se a mesa! que pode ter pieira na proximidade de a ela nos sentarmos.


Essa a opção que escolhemos? Essa a nossa nova sensibilidade? Tudo infirme e súmula que a vida do humano assim se persigna?


Parece também que a maioria anda sempre em trânsito; trânsito parado, ou em suposto compasso de ida.


Uma outra maioria toma o caminho dos elefantes e comovem-se e comovem-me ao atravessarem por uma outra entrada.


E os que se julgam de saúde muito rija, e os que muito trabalham para fugir do que os espera, e os que não registaram o quanto o egoísmo lhes eliminou as companhias, e os das muitas pertenças às famílias de grande ou pequena animação - sempre expostas pelo ângulo correto -, tudo enfim, a sobreviver na linha que reparte e parte o que com arte divide os pés nus sobre inúmeros gumes e algumas alegrias, e ainda assim, basta o uso do SMS nesta profunda transformação comportamental que aceitamos.


Ouvi que a lúcida solidão, sentiu que é bem chegada a sua hora de sucesso, a sua hora de acesso à busca de um sentido, de um compromisso de saúde mental que restaure o quanto antes do covid ainda se jogava ao pião de muitos modos, seduzidos numa atividade lúdica que se deixou de viver, e nada deste universo que eramos e ainda nos resta no estar aí, se transmite por short message service.


Não fomos nós e ainda não somos, tudo está pelo caminho do ainda não próximo do Outro, e cada coisa é parte de outra e também é notícia o anúncio da passagem de um astro a quem se deve a gratidão imensa do nosso percurso até Pitágoras.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Na candura das alvoradas podemos surpreender o futuro: a ideia de progresso não é a da sobrevivência do indivíduo. 

  

Na modernidade líquida a responsabilidade é individual e se alguém empreendedor de si mesmo, falha, por esse fracasso, responde apenas o próprio. Nenhuma responsabilidade se afere às instituições ou à sociedade, pois estas também são líquidas, aliás, tudo é fugaz e maleável.


A volatilidade das relações económicas e de produção, implicou que o trabalho se tornasse fluido e imprevisível, dissolvendo-se as empresas logo que atingidos os objetivos, dissolvendo-se igualmente o objetivo individual que saltita de ideia em ideia.


A busca do prazer imediato e do auferir monetariamente a cúpula máxima de cada dia, fez perder as referências fixas, deixando de existir projetos de média ou longa duração.


A nossa era aceitou uma fragilidade de laços entre pessoas, e entre pessoas e instituições, que implicou que as relações económicas se sobrepusessem às relações humanas.


A própria lógica do consumo levou as gentes a comprarem afeto e atenção, mas de um modo submisso à moda, à qual os sentires também se devem submeter de x em x meses.


O mistério da fragilidade das relações humanas, desencadeou uma contraditória necessidade de criar laços, nomeadamente através de incontáveis amigos e afins, e a impossibilidade real de poder usufruir de inúmeros sentimentos de outrem, levou e leva à procura constante de novos afetos numa indispensável absurdidade.


Eis as relações que não podem acompanhar a rapidez com que o mundo líquido se move, apesar de ser este o modo de esforço na procura do amor de hoje.


Os níveis de insegurança nas relações amorosas e mesmo de família e de outros convívios, são uma constante das fragilidades em busca de alianças melhores, não se realizando que a falta de compromisso foi e é a grande ignorância que conduziu à sociedade líquida, tendo-se abandonado a confiança nas instituições e na solidificação das relações humanas.


A fragilidade levou à tremenda ansiedade que se vive nos dias de hoje também por total falta de referências e de realidades a médio e longo prazo.


A apartação entre poder e política, o enfraquecer de sistemas de proteção às tempestades da vida, têm também provado que há algo a mudar.


Como afirmou Bauman:


nós, seres humanos, podemos mudar com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los.


Então, a utopia que conduziu a esta perceção, a confiança no potencial humano capaz de mudança, vivem sim, bem creio, na candura das alvoradas quando podemos afinal ainda surpreender o futuro.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

TSF

A RADIO TÁTIL

“A radio que mudou a radio.”

  


A sociedade conhece a importância da radio para a democracia.

A sociedade conhece as reformulações das realidades que alteram a verdade.

A TSF tem sido o exemplo de uma pluralidade incansável.

Impõe-se ao não alheamento defender o mapa-mundi das coordenadas da TSF que nos possibilitaram inúmeras releituras dos dias e dos tempos.

A prosperidade cultural não é uma posse exterior, mas uma realização interior. Não desistir da integridade é libertar-se e libertar os outros das condições que atrofiam a vida: esta também uma das funções da radio. 

As possibilidades que oferecem saídas da escuridão, em que o mundo está a ser envolvido, constituem a grande vigília que questiona e questionou a nossa atenção: assim a TSF.

A intervenção cívica deve ter lugar quando um jardim começa a ser deserto e o mar cada vez mais longe e no horizonte, moscas.

Os efeitos sistémicos de perdermos algo de qualidade fundamental tem um enorme alcance para o lado negativo.

Os poderes fáticos mandam, utilizando baralhos de cartas viciadas e, na realidade estes ignorantes epistémicos, utilizam a lixiviação para levar os outros a não aprenderem a pensar, o que avoluma incomensuravelmente as possibilidades de um mundo governado pela banalidade e pelo mal.

Defendermos a dignidade mínima é o princípio da capacidade de luta.

Que a TSF reconquiste o uso do seu tempo e do seu espaço e permaneça tátil, e que

2024 não seja um ano emaranhado, antes apressadamente ANO NOVO, ANO DE MÉRITO PRÓPRIO!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  


A opção do salto é o desafio 


A compreensão de que se podem assumir todas as direções, todos os estados supremos da experiência que descobre um sítio em que é possível encontrar algo, tal como o distinguir-se o que antes não era possível, revela o quanto somos um lugar de passagem ao qual o desafio do salto se nos propõe.

Talvez não consigamos muito, mas no centro da nossa opção há sempre uma outra opção.

Inventamos lugares para nós, sobretudo quando não estamos em lugar algum, e eis a substância da máscara que nada repete igual e é equivalente ao ser, afinal.

E


Alegria!, alegria!,

os lírios de água tão pastores indistintos no novo ano,

me soam já,

e entre mim e a missão

uma saudade é força e o resto é sonho.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  


O MAIS BEM SUCEDIDO PROJETO DE VIDA: O NATAL DA NATUREZA 


E quando um de nós – animal, planta ou fungo – luta pela oportunidade de ter um espaço na clareira, aperfeiçoando-se numa equação de sucesso entre a pegada ecológica e os elementos de bem-estar, a esperança na sustentabilidade de um nascer, acontece e é Natal.


A esperança num crescimento verde amadurece e instala-se no planalto da gruta, local da única biodiversidade que salva.


Os nutrientes neste ninho de mundo que envolve até o habitat, amadurecem e desenvolvem-se numa solidariedade sustentável, e o volume de calor e de frio, de sol e de chuva mantêm-se constantes.


O respeito pelo que é finito torna as realidades infinitas.


Então, todos os deus-meninos replicam-se em bússolas, iniciando o projeto aliciante de tomar o seio materno por todas as coisas do mundo natural, suporte notável de vida ao regresso do mundo selvagem outra vez, quando os rios voltam a chegar ao mar na perfeita perceção de toda a vida na Terra.


E como a fotossíntese se faz também pelo coração, todos nós nos autoalimentaremos na Grande Paz, na grande reflorestação, na cor reposta aos corais branqueados, no lar estável onde existe e nasce vida.


Natal.


Teresa Bracinha Vieira