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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

LEMBRO-ME 

  


Lembro-me tanto de quando a poesia me explodiu na adolescência.

Depois de rezar o terço com a senhora mais velha da casa, depois dela adormecer esquecida da telefonia ligada, às vezes, as cartas de Goeth:

uma a uma as palavras.

Lembro-me tanto o quanto as não entendia e o quanto me apaixonava logo ali, liberta.

Eu,

eu a criada ainda adolescente.

Eu, a que tinha medo das bruxas, dos males ligados ao sobrenatural, do diabo que instigava que todos na casa tivessem autoridade sobre mim, até os mais novos. Até o cão.

E lembro-me que no dia dos meus anos não era dia de nada. Ninguém legitimava que eu existia na forma de gente que fizesse anos.

O camião do lixo passava à mesma hora, e o barulho dos carros era quase igual ao das panelas enquanto as areava. Depois, faria as camas de lavado, encerava as áreas mais desgastadas do chão e logo com o brilho do lustro, as palavras de Goeth. Algumas, soltinhas, tomavam conta de mim.

Ao domingo havia missa, missa com véu preto quase a trocar de vida, mas podia ser domingo, mas se o marido da senhora estivesse zangado com Deus, não havia ida à missa para ninguém, e o ambiente era como pedra lá em casa e a minha folga era ter ido à missa que não fui.

Também me lembro que havia uma porta lá na casa que não se podia abrir nunca pois havia atras dela muitas verdades, e nenhumas ou todas com razão, não sei bem, e dizia a patroa que não me competia saber, havia apenas que manter a porta sempre fechada e não escutar radio à noite depois do terço rezado.

E lembro-me também de ler a carta que me escreveste e na qual dizias que até me conheceres, pensavas que inventavas os caminhos da tua vida, e depois aprendeste que eu era para ti tão importante que me poderias até deixar ouvir rádio, mas que eu não pensasse que te casarias comigo.

Lembro-me de te ter dito que ao amolador de facas contei um verso que tinha pensado e que ele naquele dia me disse que o verso amolava melhor do que ele aquilo que eu quisesse amolar.

Depois lembro-me de algumas das nossas primeiras vezes no carro do teu pai, e foi nesse carro que decidi que os meus versos futuros se chamariam rodas, e que precisava de ir às urgências de um hospital quando as dores de cabeça eram tão fortes que até torcia melhor os lençóis tirados da barrela.

E sim, ensinaste-me a escrever quase sem erros, e deste-me muitas uvas, e lembro-me de te perguntar se sabias quantos anos tinha a minha idade que era mais nova do que a tua.

E lembro-me que uma cigana, um dia, me leu a sina e me disse que eu seria trocada toda a vida por coisas, coisas desentendidas das coisas, e esta foi mesmo a primeira história de terror que ouvi, e que me fez apertar tanto a salsa entre os dedos que a senhora me perguntou se a tinha pisado, e disse-me que naquele mês me não pagaria porque até nem podia, mas que eu nem merecia o dinheiro.

E fui.

Lembro-me de prometer a mim mesma que não voltaria. Fugi.

Vários anos depois, esperei-te com uma carta de Goeth e um disco de vinil.

Parecia-me agora natural saber que só no meio era o enigma.

E hoje, publiquei-te numa tatuagem na minha perna direita, e lembro-me da última vez que disse «amo-te» a alguém que já não queria na minha vida, e invoquei o algoritmo,

como se ele, ignorante, 

conhecesse os instantes em que nada ainda é passado, em que tudo nasce, ou soubesse algum dia que o lúcido pecado é traçado por Deus quando na mão uma lanterna acesa,

Goeth.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Há que dispensar o cocktail da política do ódio, da mentira, do pessimismo

  


As desigualdades mais revoltantes não se gerem no descompasso dos processos simbólicos do inverso das coisas más serem as boas e de imediato identificá-las com o bem personificado na pessoa-divindade que se assume como tal.

Todos temos os nossos constrangimentos externos e internos que balizam o exercício das liberdades e nos instam a entender que ninguém escolhe livremente agendas na totalidade, o que também não nos condena a escolhas de óbvios defeitos e horrores.

O modelo avatar condiciona processo e resultado, circulação de narrativas e imagens, e procura o controlo da ignorância oferecendo-lhe os mais lustrosos jogos simplistas que se encaixam em todos os preconceitos considerados de senso comum, qual receita de controlo completo à escala planetária.

O enfraquecimento do ensino, da educação, dos meios de comunicação, a multiplicação de canais sem evoluções substantivas, a própria Internet, tudo emergiu numa mercantilização tremenda pela atenção humana.

As próprias teses do conspiricionismo já descobriram há muito a importância dos discursos a soundbites pois a atenção das gentes já não se mantém para além do instantâneo.

Muito, demasiado mesmo, se entregou ao poder do dinheiro, enquanto as dores se não queixavam dos ataques sem precedentes que as provocavam e que advinham da decisão referida ao poder puramente mercantilista.

Há que gerir as compatibilidades que impedem a vida dos naufrágios em naufrágios e, para tal, a simples força de vontade poderá não ser suficiente, e por essa razão as mutações devem ser usadas para convergir e virar os tortuosos e apocalípticos jogos em decisões conscientes num outro caminho de humanidade real.

A própria heterogeneidade espicaça a criar conteúdos e a descobrir o razão do mais urgente, e se não estivermos a ser apenas reativos, produziremos um modo de nos entendermos a nós próprios e às sociedades, evitando o extremo saque do mundo e a anulação completa de sistemas que ainda têm muito para serem refundados.

Para tanto dispense-se de imediato o cocktail da política do ódio, do pessimismo, da mentira.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

O HOMEM É BEM MENOS DO QUE JULGA, MAS PODE SER BEM MAIS DO QUE TEM SIDO

  
    Doris Homann


A grande substituição que muitos pensam poder implantar no espírito do mundo é aquela que separa os transportadores de “maus genes” dos que só transportam os mas iluminados e puros que o seu sistema celular exclusivamente para eles produz.

O quadro trágico de um mundo que pode desaparecer afundado nos podres das fortunas-relâmpago, e noutros perversos domínios, todos pertença de uma minoria, alerta a civilização para a beirinha de um precipício inenarrável, antes que uma ideia de melhoria da existência humana consiga soltar-se da esterilização e vingue.

As “bíblias” das grandes substituições são uma herança que culmina sempre na pura aceitação da mesma, na ideia do boomerang que tolera o sofrer antes de o sentir e assim o legitima na sua chegada exponencial.

E se de facto o homem é bem menos do que julga será também porque o muito humano parece ignorar que também carrega em si o demónio, a sombra que pretende secar o diálogo, o pensar divergente, a criação, retirando o seu grito de guerra da sua imensa simplicidade viral.

Mas basta olhar à nossa volta e à volta dos factos acontecidos e logo o exemplo da não aceitação do medo generalizado marca presença; basta recordar o quanto a uma ressurreição violenta dos mitos, os homens já têm feito frente.

Basta que o homem prove que pode ser bem mais do que tem sido e evolua da comunidade definida por pseudovalores, agora facilmente manipulados pelos algoritmos, e saiba que a estes o significado de que no princípio era a cor, sempre escapará.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A mentira é quando não se compartilha o alimento. 

  


É mais ameaçador admitir que para manter uma instituição há que mentir, ou que não mentir é algo mais ameaçador que nos faz passar para um mundo sem norma?

É uma questão desestruturante, uma interrogação agudíssima, pois o que significa o caos? Tudo tem e não tem sentido? Qual a chave interpretativa?

Há em estes questionares, uma espécie de incandescência dos pensamentos. Vai-se a muitos lados numa estimulação e num entusiasmo que, quando se sai disso, o mundo amornece tanto que falece em pouco.

No entanto, continuará a vir das perguntas a efervescência da criação, da inteligência, da novidade que estimula a inovação, e pelo bom caminho começa o laço com as coisas que saem por entre os céus do puro idealismo e entram na comunhão de bens com a realidade.

As temáticas das conferências multidisciplinares e rigorosas passam então por saber o que é preciso para sorrir com uma agilidade intelectual tão espantosa, tão amorosa que envolva o imprescindível respeito pelo que é vivo e pela sua condição neste mundo.

A minha homenagem por quem nos deixou há pouco tempo.

Refiro-me a Jane Goodall e à sua lucidez obsessiva para que se redefinisse Homem, para que ele redefinisse o seu interior e o enfrentar-se, para que saísse do seu pedestal e se entendesse por entre as mentiras mais aproximadas das verdades que pudesse consciencializar.

Este um dos grandes fragmentos em falta na vida social humana: a auto-reflexão.

Com profunda humildade agradecerei sempre a Jane Goodall a grande viagem e o imenso despertar, a clareza do quanto a mentira é quando não se compartilha o alimento.

 

  


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Uma esperança é algo que se passa no presente e prova que já estamos a viver uma coisa melhor

  
    “The Dynamic Eye”


A proposta é a de que talvez possamos deitar mão de uma realidade que compreenda o que está completo e em aberto ao mesmo tempo.

Nada é idílico. Tudo sai de tudo, mas é preciso ver o que sai de importante quando há desejo, e esse desejo inclui a liberdade e a imaginação.

Os movimentos de superestruturas e o dos grupúsculos que se querem fazer passar por mundo, não são desejos enquanto elementos culturais – o próprio entendimento da sexualidade, a liberdade, a misericórdia, a empatia, o cumprimento do melhor e mais justo bem-estar, sim, são desejos, trazem novas realidades que acossam o que a maioria desejaria viver.

Por aí um caminho!

Um caminho dificílimo que só um bom violino sabe tocar.

E os políticos saberão que um bom violino escapa a qualquer IA?

E se aproveitarmos as reflexões quando tudo pode estar num aberto que não estamos a ver, e do qual não estamos a valer-nos no tempo certo para uma remodelação que arrisque propostas?

Propostas de se viver com menos mitos e menos dogmas e com a possibilidade de mais realidades incodificáveis que não tenham no dinheiro o discurso paranóico da obediência?

E nada resulta no idílico, mas pode-se fazer ainda imensas coisas que noutras situações não estávamos suficientemente atentos e motivados para compreender a sua urgência.

O tempo não é o das gentes se deixarem abafar, nem é tempo de nos deixarmos aborrecermos com tudo.

Que tal operar uma descontinuidade no que de facto estava errado?

Que tal acarinhar o que de facto estava a melhorar as condições de vida dos povos?

Que tal as magias serem uma especial atenção para as realidades-evidência que tanto expõem o quanto há que melhorar face à infelicidade dos mundos dos gritos e dos silêncios?

Por aí um caminho!

Um caminho dificílimo que só um bom violino sabe tocar.

E os políticos saberão que um bom violino escapa a qualquer IA?


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

O QUE HÁ A GANHAR AINDA NÃO FOI PESADO CONTRA O QUE SE PODERÁ PERDER 

  


Nas palavras de Naomi Baron, a grande questão reside em saber o quanto a memória, a concentração, as reflexões serão parcialmente perdidas pela leitura no ecrã que nos tem conduzido a um novo normal.

Existem sinais de desincentivo à leitura graças às máquinas que invadem as vidas na era digital e assim os cérebros se vão remodelando. Receia-se mesmo que a inovação digital esteja a avançar muito mais depressa do que a nossa capacidade de entender os efeitos dessas inovações nos nossos cérebros.

O que há a ganhar ainda não foi pesado contra o que se poderá perder.

Há uma base sólida para estes receios, para a falta de substancialidade. Desde logo, a distração por ecrãs, torna o tempo dedicado a qualquer novidade conceptual imoderadamente escasso para o integrarmos no nosso conhecimento.

A leitura induzida é superficial, o que pressupõe um pensamento igualmente superficial, o que nos faz recear que na era digital, possamos perder a leitura profunda bem como o próprio processamento profundo, aquele que é conhecedor da luz que ilumina.

De registar que se assim for, a própria política, bem cheia desta mudança decisiva - e se a mesma continuar a ser fragmentada e descontextualizada-, só conduz a uma exacerbação da polarização o que só contribui para a mentalidade de soma zero e alimenta o sentimento de "nós versus eles".

Na verdade, a informação curta e imediata funciona como custo de oportunidade, confundindo informação com conhecimento.

Esta mentalidade gera hostilidade e impede a cooperação, a própria colaboração entre indivíduos, dificultando o próprio desenvolvimento económico já que um país que impõe tarifas a mercadorias estrangeiras, protege as economias domésticas, mas limita a inovação e o crescimento.

O novo pensamento gerado pelo digital-humano não interioriza, pois não existe contexto, tudo se pode consultar imediatamente no computador, o que pode tornar extremamente difícil um pensamento credível sobre a ordem mundial.

Mas ainda vamos a tempo de impedir que o santuário solitário que nos chega com a leitura, seja despromovido a solidão.

Mas ainda vamos a tempo de não acabarmos como Eloi no livro A Máquina do Tempo (1895), de H.G. Wells.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

PERDER VOCABULÁRIO É PERDER LIBERDADE

  


O bem que a inteligência artificial nos está a trazer, é enorme, mas o que a IA nos assusta reside nas forças que a podem capturar e utilizar com objetivos terríveis.

Mas como se sabe a IA é instantânea num mundo que já era de enter e delete, e negligenciou-se, por excesso, o quanto as relações humanas se degradavam ligadas ao empobrecimento do sentir e da linguagem que o exprime.

As crianças, demasiado robotizadas pelas máquinas, foram entrando numa onda que se permitiu avaliar de baixo preço.

Criaram-se indiferenças ao que gera e gerou a pobreza das palavras e dos seus significados; ao que a falta de vocabulário acarreta na impotência para descodificar as mentiras que se propagam a velocidades indizíveis; ao quanto a perda de vocabulário impede o próprio raciocínio de defesa.

E, na verdade, perder vocabulário é perder liberdade.

Vivem-se sociedades que se permitiram reduzir o espírito, reduzindo as palavras, e consequentemente o seu amplo poder, admitindo-se com plausibilidade que se vai aceitando esta violência como se se tratasse de algo natural.

Não há dúvida de que ler livros exercita a nossa autodisciplina e o nosso sentido de sequencialidade, o que nos permite conhecer o passado, e com maior eficácia, planear um futuro com criatividade, quer enquanto indivíduos, quer em cooperação com os outros.

Provado está que o potencial de cooperação humana através do qual nos preservamos e expandimos e que envolve o conceito de «humanidade» foi-se expandindo exponencialmente pela literacia.

Provado está que os conhecimentos dos significados do vocabulário têm mantido acesa a liberdade durante períodos totalitários, pois que a escrita e a leitura e o pensar e sentir as palavras, coroam tudo o que se pode imaginar e lutar para um futuro melhor.

Também o perigo de um sistema político dirigido pela inteligência artificial é atroz, mas há muito que vimos pessoas chupadas por ecrãs, totalmente desligadas sensorialmente, e comandadas por ritmos digitais, enquanto o senso comum vai aceitando oferecer a sua vontade, esta mesma que a IA pode controlar, controlando as massas numa normalização das instituições ditas democráticas, a bem de uma mais convincente delegação e esmagamento das vontades.

E sim, perder vocabulário é perder liberdade, primeiro intelectualmente e depois institucionalmente.

E não, não estamos destinados a um futuro estagnado e fechado. Não estamos condenados à pobreza e à brutalidade da mentalidade de soma zero.

Na nossa senda como espécie, temos feito e continuaremos a fazer muito melhor do que isso.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Outras realidades do prisma


É frequente escutar-se o quanto basta fingir que se muda alguma coisa para que tudo fique na mesma.

A convicção generalizada desta verdade tem deixado pouco espaço para “contraforças” eficazes que não sejam consideradas, desde logo, como as vozes dos idealistas.

Assim, entre passado e presente, não se têm criado muitos futuros que pudessem incorporar outras verdades que o prisma também contém.

Invoca-se mesmo que o real tem em si encapsulado o irrealizado, e este incorpora o conceito ossificado de realidade, o que exclui alternativas.

Este o pensamento de Dimenstein, escritor e jornalista brasileiro, uma das figuras mais influentes do Brasil, citado por Harvard, como um dos exemplos de inovação comunitária, pelo seu projeto de bairro-escola, projeto este que se expandiu com êxito através do mundo.

Dimenstein, apesar de diagnosticado com doença prolongada em 2019, um mês antes de falecer em 2020, com 63 anos de idade, concedeu uma entrevista em que afirmou:

“Eu sempre tive um prazer na vida, que foi transformar a minha energia em energia também dos outros. Ou seja, usar as coisas que eu sei fazer para compartilhar e enriquecer o mundo, e certamente é por isso que eu não estou angustiado na minha morte”. 

Esta intensa lição de quem concretizou uma outra realidade do prisma, expõe a dimensão do que somos capazes de fazer, assumindo cada um uma responsabilidade inequívoca na transformação das sociedades.

Em rigor, a realidade das ausências pode ser preenchida pela das emergências, e se a primeira torna visível o inexistente, a segunda identifica as possíveis experiências futuras que têm sido ignoradas pelos exageros da racionalidade, pelos domínios hegemónicos e pela cativação da esperança.

Temos de nos reconciliar connosco e pensar, agora, em emergência.

Temos de perder o hábito das queixas dos fins dos mundos, quer face aos declínios das democracias, à disseminação das desinformações, ao triunfo das tecnologias, à perda do domínio privado, às violências que ainda não balizamos.

Não podemos perder o sentido das coisas, e a cada um se exige o contributo do como resistir, do como resistir conscientes das mudanças necessárias.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

As analogias com o passado não nos permitem resolver o presente (…) aprendamos como pensar
Arendt 

  
    Jean Nouvel


Muito reina uma espécie de esclerose que continua a negar ao pensamento a possibilidade de concretizar diferentes futuros no presente.

Muitos são os que acomodam as evidências do «tudo é assim na história do homem e a alternativa é utópica e as teorias não são buscas» e por aí se ficam.

Entretanto tempos penosos impõem a vontade fundamental de outros começos assentes em ideias novas e suficientemente sólidas que estimulem o arranque.

E ninguém pode dizer que os dias não estiveram carregados de alertas a que os homens não renunciassem à aptidão de se melhorarem, melhorando as próprias instituições que criaram.

Ninguém pode dizer que os dilemas inter-relacionados não criaram uma sensação de perda do futuro e que as gentes não estão a sentir uma incapacidade para atenuar as suas ansiedades e pessimismos.

Ninguém pode dizer que o pior não pode acontecer e que o interior e o exterior dos medos não são um sistema de domínio.

Ninguém pode dizer que não estamos numa emergência de um acontecer medonho, e para o qual as gentes se estão a deixar arrastar pelas correntes,  não se colocando a questão de como evitar ser levado por elas, ou como assumir e reagir pessoal e coletivamente pois é a liberdade que está a ser restringida.

Em rigor, o remoer e remoer nas feridas não conduz à defesa do resistir, não conduz a uma esperança, uma esperança com algo de irracional, é certo , mas que salve algo e agora!

Na verdade, os governos não incorporaram as opiniões dos governados e até os mais frágeis dos frágeis, num excesso numeroso, não causaram sequer tensão em demasia junto de quem podia e devia redesenhar futuros em prol da justiça.

As razões políticas continuam a assentar numa relação de domínio e de obediência sem reconhecer as diferenças e, tudo, tudo muda tão devagar, que se receia ser ainda cedo para que a igualdade das diferenças se estabeleça.

Contudo, nas sociedades coexistem liberdade e silêncios dolorosos, e essa realidade é absurda no caminho de uma sã democracia. Há que mudar depressa esta situação; há que provar que acordámos com afoiteza.

Desespero e pessimismo não constituem o único futuro que podemos esperar.

Aquela parte irreprimível do espírito humano não rejeita a força motriz da utopia responsável, essa parte do espírito humano, não admite ficar-se na constatação de que as coisas são como são e nunca podem ser desfeitas.

A cultura e a experiência humana é que formam o objetivo final.


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Be the change that you want to see
Gandhi

 

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As realidades do mundo atual que envolvem as desigualdades crescentes, os colapsos climáticos, as crises que envolvem défices democráticos, as guerras cruéis, tudo numa amálgama de onde surge uma ausência de esperança e um pessimismo crescente face à nossa capacidade para reagir, implica, decisivamente, uma resistência criativa para que do facto consumado se reaja criando mundos que ainda não existem.

Uma busca com resposta é a que procura realizar futuros diferentes envolvendo novos processos de análise e reflexão na busca para o bem, corrigindo, igualmente, tanto quanto possível, os mais tremendos erros cometidos no passado.

O exercício de uma objetividade mais atenta pode permitir-nos ver como desfazer o que está mal ou criar alternativas credíveis a uma substantiva luta.

Julgamos que o presente reconhecerá os motivos da agonia se não imaginar apenas já ter ultrapassado  a mercantilização de muitos passados e se não recear deitar mão da utopia que tão necessária tem sido ao arranque concreto de tempos novos.

Necessariamente há que imbuir a razão de grande intuição e de sincera comoção a fim de que se não tropece num novo mundo fantasiado num hipotético topo, mas antes se esclareça que nunca devemos desistir de um mundo melhor, combinando crítica com imaginação.

Nestes tempos tão difíceis temos de conseguir entrever a forma de corporizar as alternativas e deitar mão à esperança, não permitindo que em nós cresça a desconfiança generalizada nas instituições democráticas, e no declínio dos valores humanos.

Precisamos de dar voz à voz e concretizar outras maneiras de ser, nomeadamente começarmos por ser a mudança que tanto desejamos, nunca permitindo a perda de um futuro para mundo.

 

Teresa Bracinha Vieira