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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (IV)

  


XVI

Outros séculos virão
Outras grades impedirão as aves
Do grito
Mas no ouvido concreto
O apelo
Às vidas de pé
Será consciência pura
De uma vitória


XVII

Somos gotas
E pouco mais

Às vezes gotas de água
Outras
Hálito

Amanhã
No buxo de um qualquer lodo
Indiferenciadas
As nossas pegadas

Só as glicínias
Têm memória

Só as abelhas
Zumbem

Só as crianças
De colina em colina


XVIII

Em cinzas
Depois do grande salto
Dirigimos as cartas
À existência que nunca se viveu


XIX

Ao princípio a guerra e a paz
Dividem-se pela fenda
Depois
Identificam
O atalho


XX

Que uma locomotiva
Transporte um cordeiro
Que a rama branca resgate
A nossa paz
E que tudo isto aconteça enquanto viajamos

Habitantes do humano

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (III)

  


XI

Ó gente
A vida também tem pálpebras
Sob as quais se pode acostar

Lá, por onde o veado passa


XII

E
Todavia 
As letais partículas 

Flutuam no sudário 

De um poema


XIII
 

Há um abeto que cresce
Para cada um de nós
Enquanto oramos ao Deus

E cresce ele num soalho misterioso

Que indica o imo
Que nos levará a um encontro

Ó Mãe


XIV
 

Quando um corpo cai na vala
Só o amor
Nunca o deixa só


XV
 

Prova
Mas prova que está viva em ti
A raiz
Do sentido

Alegria

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (II)

  


VI

Que os livros se encontrem
Todos abertos
Pois mesmo que as sirenes alertem
Neles
Braços e beijos

Mais é
Que expõem o transforme das palavras

Entendimentos

Mãos
A voltarem da escola


VII

E quanta vitalidade
Teremos depois da nossa morte
Nós
Mártires

Não submissos


VIII

Quero tanto as trepadeiras do tempo
Enquanto sob alpendres
Todos juntos

A mesa


IX

Estou ao alcance das armas
Nelas me olho e não me procuro
Pouco falta

Para o desconhecido

Em que eu perco


X

Conheço um pomo
Que segura um piar de vida

Enquanto a guerra
Faz mira
Ao que não posso

Nos olhos
Uma medula de paz
Pica o lixo ao lado das galinhas
E ordena-se segundo

A Criação

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

VINTE POEMAS (I)

  


I

Os caminhantes lúcidos
Não são refugiados de nada
Antes
Intimidade de mundo
Em derradeiro esforço


II
 

E os povos também são poeira
Desfalecimento
Finitude

Coragem

Quando se entregam
À cor das arvores


III

As crianças
Que nascem nas orlas das guerras
No exato instante
Em que são paridas
O xaile do precipício
Enrola-as


IV

Mas a paz
Ah a paz
Soçobra
Dentro da canoa
Que no pântano
Não navega


V

Não, não digo adeus
Nunca direi adeus
Conheço bem as lágrimas do ranho
Para que possa dizer adeus

No horizonte

Estará sempre
O chão e o sol

                                             

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

That's how

  

 

De quando em vez olhava para a televisão.

Via imagens e ouvia algumas palavras. Baixava a cabeça por desinteresse ou porque um pesado sono não lhe permitia outro movimento.

A idade já era muita.

Agora, agora estava de novo como se estivesse junto à janela do quarto da sua aldeia, a mão levantava a velha cortina. Da cozinha vinha o cheiro do almoço. Não havia fome. Contudo, sempre se imaginara a viver com muitos bens – ainda não sabia quais -, escolhida que fora entre as mulheres da aldeia que não tinha mulheres de ideias longas como ela, nem um pouco da sua estranha atração física. 

Entretanto os guinchos dos porcos a serem castrados ou mortos, incomodavam-na ao ponto de perguntar de novo à prima:

Ó prima, estão a matar um homem? Outra vez?

Na televisão, olhares de sofreres e guerras inexplicáveis e o creme antirrugas que já usava e que era caríssimo.

Enfim, estava agora ali naquele outro quarto em frente à televisão; sozinha, mas cheia de memórias, sobretudo daquelas que não queria ter. Mas era assim e pronto. Os comprimidos e as rezas acertavam-se na dose.

De qualquer modo usaria aquele creme e perfumes ostentosos entre outros luxos que mostraria a amigas da cidade, fazendo-as ficar boquiabertas, pois num mês de trabalho não ganhavam elas para aquele vestido que lhes era mostrado sem vergonha alguma, e ela a exibir olhando-as nos olhos, orgulhosa. Era assim.

Da aldeia desaparecera um dia numa camioneta que a levara definitivamente para a cidade onde os encontros certeiros se davam nos cafés por entre olhares que se entendiam de súbito, tão de súbito quanto se desolhavam até um dia ou nem isso.

Vá tome o seu chá. Não quer ver a telenovela, não? E ir à missa? Devia tentar sair do quarto. Bem, eu fico aqui um pouco enquanto lhe mudo a fralda, mas depois come a bolachinha.

De novo, olhava para a televisão. E sim, ele era um homem bonito. O da televisão ou o outro?, do café?, mas se calhar ele não tinha como lhe pagar o creme. E assim fora: cremes e todos os demais sustentaria ela: os dela e os dele.

Começou tudo de novo quando a cabeça lhe pendeu, a formiga gigante entrou-lhe pelo olho para um novo acesso ao fundo da memória.

E lá estava o nada. E o nada era tudo. E ela estava cheia do nada o que não era mau. Tinha dinheiro. E nunca do mal do mundo se apiedara ou agastara. Tinha sorte: nos carros, o lugar do morto nunca fora o dela.

Agora, bastava estar ali, assim, naquela casa de monos. Tal qual.

A morte não se esquecia de ninguém, e se atraso estava a acontecer, era por ter bens.

E amor?

Nem pensar que lhe subia aquela odiosa e muda raiva.

Ninguém a amara por ela, mas pelo dinheiro que conseguira, vindo de um trabalho que não dera canseira, é certo. De que se queixar, então?

O triunfo estava por ali, de algum modo. Tinha de estar. E os comprimidos também.

E abrira os olhos novamente. Na televisão uma mulher meia despida vendia lingerie.

E porquê, por que razão ele nunca mais lhe tocara? Ah, que ótimo!, poder enganar todos e nunca dizer que se ele morresse não lhe sentiria qualquer falta.

Virava agora os olhos para a parede nua.

Da televisão, escutava os gritos estonteados do concurso que sempre vira:

O preço certo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


SETE CARTAS


Era no quarto o tempo do território imenso do instante

Era também por entre as arvores e todas as cores à beira-mar e à beira-céu

A porta da casa abrira-se momentos antes e com ela a memória iniciava-se

Não consigo olhar para si sem tremer. Fomos. Somos, não tenho palavras

Quero que saiba para onde vou uns dias. Ou antes não vou. Indo, fico mais aqui. Estarei lá só a pensar em si

Se me disser que sou o seu máximo denominador liberta-me com uma mentira, eu sei. Mas queria tanto ser o seu flagrante se a minha proposta por si aceite

Fechei o olhar. Tudo é secreto sem ser. O que possa parecer mais insignificante de si em mim é volúpia da significação

A consciência do seu corpo é meu nítido grito. Aviso de que a minha vida

É sua dependência

Em nome de si, amo

Ajude-me, parece-me que estou perto da morte e uso todos os símbolos como sinais de abraços que seguram

O meu propósito

E eis que mais nada lhe consigo escrever.


Hoje, já lhe enviei sete cartas


Todo o excesso se acumula. Beijo
Penso na sua existência


Seu

 

 Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

PERGUNTA

  


A invenção da imprensa possibilitou, nomeadamente, a circulação de ideias em linguagem que grandes grupos de pessoas entendiam, causando também fraturas que gerariam novas formas de pensar, a vários níveis, tal como política e socialmente, por se fazerem interagir umas às outras.

Bem mais depressa do que alguma vez imaginado, surge a ajuda de máquinas, numa revolução silenciosa, e as novas ideias passam a ser divulgadas sem que as então autoridades do mundo - fossem governos ou igrejas - pudessem vir a controlar.

Eis uma corpulenta start-up.

De notar, que, às proliferações das novas tecnologias, lhes foi permitido o não banir de ideias consideradas adversas e que circulam em plena auto permissão dos recentes conquistadores das noviças sociedades instaladas.

A diversidade e a fragmentação, igualmente, veem chegar uma nova era que consegue mesmo amputar profundas liberdades - enquanto conhecimento histórico - criando múltiplos espaços de existência residual ou paralela da mesma.

Outros deuses e outras histórias desenvolvem a nova complexidade social, quando ler um jornal já passou a corresponder - na pressa dos mundos de hoje - a culturas alicerçadas em civilizações propositadamente desguarnecidas e que se encontram bem distantes das que reagem, delegando nas máquinas, o fim e os preliminares das opções.

Na verdade, os motores de busca agregam informação, qual catálogo de comportamento humano pré-definido, incorporando esta realidade, a alteração da identidade humana e da sua experiência.

Cabe, então, perguntar: em que valores se desenvolve uma criança e o que significará para ela o interpretar da prodigiosa invenção da imprensa, daquela que ainda transmitia empatia e curiosidade?

  


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

AS CAMAS DO MUNDO DOS HOMENS DO NADA

  


Procurava trabalho desesperadamente. Tinha três filhos para criar e há muito que o marido partira para encontrar um pedaço de espaço de vida noutro local e não voltara: não voltara nunca mais. Soube que morrera. Assim lhe disseram um dia:

olha, vai para a tua terra que teu homem já não é deste mundo e que fazes aqui se tens vergonha de não teres vencido na vida que te disseram existir aqui? Ou não sabias que isso podia ser mentira mais vezes do que aquelas que não comes e que teus filhos gritam?

Olha como já pareces tão velha e até nem és. Olha, já te viste? estás tão gorda e passas fome

Ó mulher, vai para donde vieste. Por lá os filhos criam-se na rua e por aqui atropelam-nos os carros

Vai-te embora, é conselho que te dou

Não sabes o que acontece quando não conseguimos? Olha é como aquelas camas do mundo dos homens do nada

Sabes tu o que passei e fiz para me manter aqui hoje e bem? Não sabes, e não adianta saberes. És gorda e pareces velha. Não adiantava tentares.

Mas, ó comadre, eu vou tentar mais uma vez. O Sr. Amparo é bom homem, olha até o nome dele! por Deus ele ajuda, e parece que conhece alguém que me deixa ser eu a limpar o lixo daqueles prédios e até, quem sabe, posso por lá encontrar nos caixotes algumas coisas que sirvam para a vida, e aos poucos, poder até tomar conta de lixeiras e ser eu a mandar quem entra lá, e claro serão todos

mas eu finjo que não, e sou patroa, e depois levo os filhos comigo e eles aprendem o ofício do grande lixo e vão ser melhores do que a mãe, impedem de entrar quem não pague e um dia têm futuro. Vais ver comadre. Vou agora falar com o Sr. Amparo – olha-me o nome dele, por Deus! -  e vou pedir trabalho em nome dos filhos. Vou já, já que ele sai às sete

Ó senhor, ó senhor Amparo? Lembra-se de mim? Sou a preta dos lixos bem limpos de há uns anos e olhe que preciso tanto, tanto de ajuda

Sim, recordo-me de si. Sim, vou de comboio. Venha comigo Tina. Vamos juntos e você diz-me o seu contato que envio a pedir trabalho para si

Ó senhor Amparo, eu bem sabia, eu bem sabia, por Deus!

As portas do comboio fecharam-se às pernas da Tina e com a dor ela voou em desamparo para dentro da carruagem, cara no chão, ali ficou sem se mover

Quando as pessoas se aproximaram a Tina não podia andar

Fraturara o joelho que num súbito perdera o formato, mas ainda disse a sorrir, olhando para o Sr. Amparo, com as lágrimas a escorreram desalmadas, tal a dor

mais logo ponho-lhe uma pomadinha

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

A cidade fragmentada: a compaixão intacta


E firme a estação das flores vai chegando a prometer-se, viva e próxima

Peço-te que acredites que o mar vai chegar numa soma
E que os dias vão começar a durar mais para que mais nascimentos tragam novas falas
Até lá

A levedura que te dou é a do espremer do coração

Descansa agora.

Aí, é a minha vez de ficar eu por ti.

 

  Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

UMA NOVA ERA
A DE UMA EDUCAÇÃO PARA A PAZ

  


Tornar-se especialista em resolver os conflitos humanos pelo diálogo, eis um trabalho hercúleo, um trabalho de maturidade que pensa a vida.

Escutar o que o outro tem para dizer, ampliar as visões, destruir o cimento dos preconceitos, será um adejo com o qual até os minutos se extasiam.

Aprender a trabalharmos juntos na resolução dos problemas, é um outro tipo de discussão, em que ambos os lados explicam as razões do que precisam ou querem, e logo o novo quotidiano se torna resistente à entrada de um mundo, onde a atração bélica dos sentires, aos poucos deixará de colher.

Estarmos atentos aos que perversamente nos treinam para que façamos o mal por eles, é saber interpretar a amálgama de verdades e mentiras, propositadamente adubadas para nos confundir.

As crianças precisam de bons exemplos; adolescentes e adultos carecem de ter orgulho nos espelhos em que se veem.

Estamos sempre a formar cidadãos que têm desejos e necessidades no seu desenvolvimento pessoal, e afinal a paz que reside no interior de cada um, pode dirimir conflitos tanto nas famílias como nas escolas ou no falar entre países.

Temos tolerado uma vida de bulliyng, em agressões ao convívio social, como se em todos os lugares fosse cátedra assumida a própria desvairada competitividade, estertor de impeditivas transparências.

Até no beijo entre namorados, existe uma falta de alerta ao acolhimento que a palavra do diálogo tem em si, tem, sobretudo quando há amor.

É certo que nem todas as realidades se ultrapassam pelo diálogo; é certo que todos sabemos as lacunas da teoria da ação comunicativa de Habermas; é certo que uma comunidade egocêntrica não leva em consideração o que ocorre fora dela e não tem, de todo, a consciência coletiva dos seus membros.

Mas é mais certo ainda que a maioria é refém do ponto de equilíbrio entre o pensamento, a palavra e a ação, todas grande princípio da construção da paz.

Os princípios morais também se subsumiram à vaidade, qual outro armamento que enche o peito de ar e se apresenta suave como o peito das rolas nas instituições do mando.

Na verdade, as gentes que assimilam o mundo com uma dose muito justificável de violência, isentam da responsabilidade quem nela assim assenta praça.

Essas são as mesmas pessoas que um dia gritam de injustiça por se encontrarem sem mãos, desconhecendo que os cotos, podem ser ouvidos firmes, enfim, especialistas mesmo, em resolver os conflitos humanos pela atenção do que escutam, e pelo alucinante verde no qual acreditamos apenas por nos cuidarmos uns aos outros como humanos.

A nova era que poderá não desprezar o diálogo com a Natureza, tem condições de deixar o ambiente à beira do caminho por uma tranquila vida quotidiana.

Aceite-se o largo atalho que nos é proposto. Tentemos corrigir o improvável dos animais acossados que somos.

Vultos é o que nós não queremos ser.

Estejamos seguros de que a paz de cada um não depende de um ato mágico.

                                  

 Teresa Bracinha Vieira