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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

De quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Continuamos a ver e a interpretar as notícias do burgo e do mundo como se não dessemos conta que, o que ao de cima vem, é o espetáculo do acessório ou nem isso. A lista das futilidades noticiosas mistura-se na dose e sequência de alinhamento propício ao não desvendar daquilo que é verdadeiramente o cerne de uma lista terrífica e que não acaba, e que devia escandalizar-nos de tanto sofrimento e miséria humana, tudo neste século que, afinal, arrasta consigo os plexos de interesses ocultos, depois de nos ter promovido honoris causa ao indiferentismo mais total.

 

O delírio sem vergonha dos “velhos do Restelo” que nunca pensaram ser críticos também do reverso de si próprios, é pródigo na evidência da fraude do perguntar e premonitoriamente não conseguem melhor do que criticar supostamente antes de um acontecer de matizes nos espelhos, ou, quando já é muito evidente que 2+2= 4. Acresce que se sentem muito estrangeiros no meio dos homens que eles próprios vão regando não vá existir pior num outro mundo. Em tão patética paródia tudo se torna num sem contorno ao qual se afeiçoa a insídia.

 

Depois os comentadores -pretexto, nova e promissora profissão que os catapulta para capítulos de vida que lhes assegura bem-estar na hora e na velhice, e, não são estes paralisados pelo que se despreza, como se imaginaria, antes fazem parte da natureza da austeridade das regras-que-eu-sou-bom ou boa e tenho poder, principalmente na ilusão da não vaidade que projeto de o não ter. Eu sou a resistência ao sistema à outrance, creiam, eu defendo país e mundo gritando as reformas para nos salvarem, e que cada um não trate de si aproveitando a desordem, não senhora, só se as coisas derem mesmo para o torto, mas nessa altura criarei um novo cânone e dele vos farei saber seguir.

 

Também os acima dos muitos nos chamam constantemente a atenção para a igualdade de direitos dos cidadãos perante a lei, conhecendo a metamorfose desta, na radical desigualdade perante os cidadãos. E assim vamos, sendo filas de lixo destinados ao lixo, adulando lixo na excelência de espirito de quem não o vê nem reconhece como tal.

 

Destes e de muitos outros modos se conquistam terras limpas aos espíritos dos homens quebrando a vida e impondo o fim que devora seres e sua alteridade humana.

 

As supostas elites por se terem como tal, orientam-se bem na absurdidade irresistível a que vão desde cedo aderindo, tudo cortando enfim, em troços idênticos que, por óbvio, não escapam à uniformização, ela mesma disponível no mercado, num otimismo ao qual a paixão lhe não faz frente de há muito.

 

Insensível este mundo não submete em muitas circunstâncias: faz pior, suprime e nenhuma vítima o apazigua, afinal.

 

Numa montanha: logo se imaginam os minérios a extrair; num segredo megalítico: um íman para turistas; num animal: sua pele; numa tese: seu eventual estatuto de sapiência, e, todos estes sentires estão reunidos nos campos de concentração de hoje; nos campos de refugiados ou nos mares dos botes que despejam gente à morte, esta de boca ávida e aberta face a tanta constância que lhe é oferecida.

 

O grande empório da absurdidade roda à escala planetária e a degenerescência do seu senso já não é há muito a espuma da onda que se entrega na areia da praia. O grande empório, na sua excitação, só conhece um ponto onde a cada noite atraca: o inóspito mundo que resta.

 

E de quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Mentira e mundo já não logram libertar-se. As termiteiras informáticas reúnem uma cognição sem chama, mas que opera sem falha na destruição de tudo o que não entende.

 

Pergunta-se: e se doravante insubmisso o espaço literário germinasse de tanta inquietação?

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Eram seis da manhã quando acordámos nos quartos do sótão que tanto amávamos na nossa casa de praia. A empregada bateu as palmas ao entrar nos nossos quartos totalmente forrados a pinho e salpicados com fotos dos nossos ídolos e gritava

 

Vá meninos se querem ver aquela cor do mar no céu, vamos a sair da cama depressa.

 

E nós os três meio trôpegos de sono vestimo-nos num ápice, e, escadas para que te quero que se faz tarde.

 

Cada um a roer a sua maçã, descemos a ladeira de terra e pedra que dava acesso à praia e ali na areia nos sentámos ao lado do António Lameja, nosso banheiro e salvador, mas que não nos salvava dos banhos gelados a que pelas 11h o nosso pai dava ordem que todos tomássemos.

 

O meu irmão mais velho perguntou-lhe

 

É esta a cor?

 

Não, chiu! é mais daqui a bocadinho, mas estejam calados, pois ela pode fugir.

 

A nossa ansiedade e alegria cresciam à luz de prata daquela manhã em que veríamos a tal cor no mar colada com o céu e que em agosto só naquele dia e hora surgiria.

 

Agora de pé, já, gritou Lameja, olhem bem lá no fundo do horizonte: veem aquele tom amarelo? Aí vem a tal luz que sobe para o céu e se torna azul e branca e que é igual à dos santinhos dos missais que mostram a cor dos milagres.

 

Sai de dentro daquela nuvem lá ao fundo? Perguntei

 

Não menina, essa é uma nuvem que acorda mais tarde e quando se abre, sai por seu pé, bem leve, um pouco do sol, aquele que depois é gordo durante o dia.

 

Mas vejam agora. Olhem.

 

E fixámo-nos todos numa auréola que tomava cor amarela e azul e branca e dela saiam uns traços lindos do mar, erguidos para o céu, ou, do céu descidos para o mar, tudo num abraço de cores e luz esplendorosas.

 

Que lindo, que lindo disse o meu irmão mais novo, agarrando-me os ombros. Aquilo é um milagre ou é a natureza lá do alto que chama o mar e ele sobe sozinho?

 

E o Lameja

 

Ó meninos, não duvidem, aquilo é milagre não veem logo? São focos de luz com vida que se cruzam em mar e céu e dão nesta cor de oiro de pasmarmos. Debaixo das águas os peixes também a veem, e, logo saltam para dentro dos barcos dos pescadores, não sendo precisos anzois ou redes, e fazem-no por tanta beleza terem visto, preferindo morrer logo a seguir a esta hora do dia do mês e do ano e, morrem transformados em oiro! Pronto! Viram? Vá, ide para casa, já viram o segredo.

 

Tiveram muita sorte, podia até chover. Ide, ide tomar o pequeno-almoço.

 

Subimos a ladeira devagar, mas íamos olhando para trás, para o mar e o céu.

 

Que viste mana?

 

Uma borboleta que veio do céu beber agua e tu?

 

Um fantasma bom. Um daqueles que toma conta das aparições desta hora.

 

E tu mano, que achas? Ou antes o que viste tu?

 

Ora eu vi o mundo quando estamos a dormir.

 

Entrámos em casa e a empregada perguntou-nos: que tal? Como foi, meninos?

 

Eu respondi

 

Pois parece que vamos ter peixes de oiro para o almoço. Sabes cozinhá-los?

 

Os de oiro, não.

 

Ainda bem. Devem ser rijos. Mas queres que te conte o que vi?

 

Sim, menina.

 

Pois vi o céu azul vestido de borboleta para esconder que é princesa que namora com o mar àquela hora e abraçam-se e tudo.

 

Com beijos?

 

Claro, com beijos também, acho que é uma hora de intimidades com muitas cores. Nada de especial, mas mesmo assim é muito bom.

 

Jesus Maria! Até estou arrepiada. De fato Nosso Senhor não pertence à raça humana!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era um dia de abril. Lúcia abrira a porta do quarto que ligava à varanda e esta ao mar, aos pássaros, aos barcos, às flores, à romântica mesa onde estivera a ler no dia anterior o livro “Engenho”.

 

A sua varanda parecera-lhe sempre uma galeria de arte fosse qual fosse a estação. No entanto, ao aproximar-se a primavera atribuía-lhe sempre o nome de “Alegoria”. Presumia-lhe uma infalibilidade de linhagem romântica e nela a existência de um halo perfeito a todos os estados de espírito e pensamentos. Sorria Lúcia para este seu entendimento de que o acordar em paz junto desta “Alegoria” não envolvia a imitação de uma arte por outra, nem sequer o engenho no pincel dos olhos da interpretação.

 

Deixara cair o envolvente xaile de seda e preparava-se languidamente, mas afoita, para recordar o que lera no livro no dia anterior. E de lá lhe chegava o tal homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade, recusava o enredado dilema que lhe propusessem acerca da razão, da paixão, da fé e do livre-arbítrio. Achava, que a linguagem desse homem era como a das ondas na areia: derramava coisas artísticas e claras e coisas que provocavam uma espécie de caçada científica atras da onda quando esta se recolhia de novo ao mar. Depois, pegava numa das flores que Mercedes - sua empregada- deixava todos os dias num cesto junto à mesa, e de si para si.

 

A linguagem escrita não é instrumento de confiança como é a visão de fotografia que tenho desta varanda. A linguagem escrita é até judiciosa, é uma coisa sempre perigosa, sempre poética como a música ou o fogo. A linguagem é o engenho? O que daqui vejo é uma verdade através dos cheiros, das formas, das cores, verdadeira sequência de sinais estéticos que são lições de segurança na vida e nela, de prioridades. Ainda assim, nesta “Alegoria” sinto-me como se viajasse em primeira classe num comboio de luxo para conhecer a India. E o homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade vivia próximo dos símbolos da realidade e não se equivocava a respeito.

 

Lúcia pegou no livro de novo, e sentiu uma curiosidade enorme em saber, espreitando para o céu, se viria aí tempestade e com ela o interrompido sabor de tudo o que luz num oiro de pressuposto em tudo cuidado, ou, afinal, num oiro de Cabo Horn. Oceanos e poderosos Andes que se dissolvem em ilhas poderiam ser vistos da sua varanda em alegoria viva na tarde desse dia.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A casa da Rosinha 25

 

A Rosinha 25 era a costureira da aldeia. Fazia todos os vestidos das raparigas solteiras que os levavam à festa anual da vila próxima. Os dias da prova dos ditos eram dias cheios de muita confusão na pequena casa. Vinham as raparigas, as amigas e as mães de todas para terem a certeza que a altura das saias era pela barriga da perna e que não existiam decotes para além da largura do pescoço de cada uma. A Rosinha 25, nestes dias, sentava-se nas escadas da casa que davam para a rua e com os vestidos num banco, ali provas e cores eram feitas e vistas com clareza.

 

O João Pataca pai da Rosinha 25 e filho do Manel Meio Tostão tinha dado à Rosinha 25 uma máquina de costura, joia única na aldeia, e que justificava a bebedeira do dia do nascimento do neto. A partir daí a Rosinha 25 bem sabia que tinha de fazer a lida do campo, mas vocação, vocação era a de costureira que rompia os alinhavos com os dentes que lhe restavam e a dar ao pé, lá iam as costuras por ali fora, como se um comboio a horas por elas passasse e não parasse. E vinham uns tostões a mais pois então, havia sempre uma vaca que os comia em palha no longo inverno.

 

Mas impressionava-me mesmo era com a casa da Rosinha 25. A cozinha em chão de terra húmida e bem calcada tinha forno de lenha de onde saía o delicioso pão quinzenal amassado por ela e uns suspiros feitos com as claras de ovos das galinhas que, na cozinha, depenicavam no chão o pão que o já muito velho João Pataca lhes atirava da velha cadeira onde se sentava desde as 7h da manhã e depois de beber a caneca de leite que tirava à vaca e que logo tomava como desjejum com um pouco de água ardente. Depois ali ficava à espera do almoço.

 

Recordo-me a comer os quentes suspiros dados pela generosa mão da Rosinha e a olhar para o formato da cadeira do João Pataca. A cadeira só tinha um fundo de cabedal roto e chamava-se cadeira porque encostada à parede dava para dormitar, enquanto se fora tratada como banco, o normal era o Pataca ao adormecer cair dele abaixo. Depois, da cozinha, via-se uma escada que, na altura, achava imensa e vertiginosa e que ia dar a dois quartos: o da Rosinha 25 e marido e filho e o do Pataca que o herdara do Manel Meio Tostão seu pai: e era este quarto que me despertava a atenção quando a Rosinha me deixava subir as escadas e ir vê-lo.

 

Cama de ferro com colchão de maçarocas de milho aos altos e baixos, lençol grosso e cor de terra clara embrulhado numa manta e tudo amontoado ao Deus dará em cima da cama e, debaixo dela, batatas e maçãs espalhadas com critério. O quarto cheirava a despensa ou a mercearia, não sei, mas muito me espantava quando depois de contar as batatas e as maçãs que a terra deles lhes dava, passavam-se duas semanas e o número era o mesmo. Rastejava de novo, e de novo contava as peças e de novo os números eram os mesmos.

 

Um dia vim escadas abaixo e disse para a Rosinha 25. Eu já sei contar e debaixo da cama do Ti Pataca estão o mesmo número de batatas e de maçãs. Então ó Rosinha, o que comeram estas semanas?

 

Ó menina respondia-me a Rosinha 25 no seu mais compreensivo olhar

Comemos pão e suspiros.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Pedia sentado no chão, sempre numa das esquinas da Place Vendôme. Fora para Paris há 27 anos e nunca a vida lhe fora propícia, acabando na rua, e dormindo num quarto gélido de um sótão de uma casa ali perto, por generosidade do proprietário a quem fazia todas as compras necessárias e lhe limpava a casa a troco.

 

A sua vida era feita de longos sonos sem dormir e de longos dias sem esperança. Fome e frio deitavam-lhe cartas de má sorte. Quando estas apertavam mais, lembrava-se de uma cómoda antiga que tinha herdado de um tio e que era o grande bem que lhe restava no quarto onde dormia. Via aquela cómoda como uma hipótese de independência face à tragédia. Temia por ela e por essa razão limpava-lhe o pó com o cobertor no qual se enrolava numa espécie de colchão para dormir, e olhava-a sempre como seu aval contra o mundo antes de adormecer.

 

De quando em vez, entrava numa igreja, não para rezar, mas para se acolher do frio e logo que essa eterna cicatriz de inverno se atenuava no seu corpo, voltava à esquina da Place Vendôme, qual país onde fora para ficar.

 

Um dia, quase ao anoitecer, chegado de breve estada na igreja, encontrou uma mulher a chorar na esquina onde costumava estar. Aproximou-se dela e viu uma beleza indecifrada a deitar fora tempo de vida através de largas lágrimas, num soluçar de corpo que casado ao frio a não deixava esconder um tremer que tudo nela anunciava, ser sofrimento.

 

Desculpe – disse -, desculpe o que tem? Como se chama? Eu moro aqui, exatamente no sítio onde está, ou seja moro aqui e noutro sítio ali em cima, tão esquina de ar gelado quanto este, mas mágico quando de repente aquece e diz tudo dos poderes que eu não receio, e que você deixará de recear também. Venha comigo, venha

 

E os olhos de Nicolau não deixavam aquela mulher, na verdade, desviavam-se e repetiam-na

 

Sou Julieta. Não tenho de existir. Entende? - Disse-lhe num grito de desespero - Mas não sou corajosa. Choro em vez de ter ido com o rio.

 

Logo ali pressentira Nicolau um jogo. Não decifrava a pessoa contida naquela mulher. Contudo ela apoiara-se nele e juntos subiram as longas escadas até ao quarto do sótão. Cobriu-a com o seu cobertor e julgou vê-la num quase-sorriso ou a vela projetava-lhe um alívio de lágrimas nos olhos, apenas por cumplicidade? Não descortinava. Todavia, Julieta continuava a tremer enquanto intrigada o olhava baixinho.

 

O velho machado que cortava a lenha para a velha e mal albardada salamandra do sótão, que ardia apenas quando alguma rara lenha lhe chegava, abriu de um só golpe a cómoda ao meio. Nicolau fora certeiro. Mais umas machadas nas poucas gavetas e já estas cabiam dentro da salamandra enquanto uma cor rosa começava a aquecer o quarto com o perfume de volúpia vaidosa de uma cómoda antiga. E vendo tal coisa acontecer, Julieta abriu com o braço uma parte do cobertor com o qual se se abrigava e assim o chamou para aquele calor de uma lonjura sem palavras que se continha junto dela.

 

Ainda disse a Nicolau com ar de desvendamento

 

Não vejo aqui mais nada para arder no teu quarto. Saibas tu, que eu não sou uma primeira escolha da vida, nem o meu choro merece esta poderosa magia que o teu sótão encerra.

 

Apertaram as mãos e assim ambos adormeceram.

 

Nicolau sonhou-se numa caça com alimento fresco e companhia na partilha.

 

Pela manhã, não viu Julieta a seu lado. Tão só um pedaço de madeira no qual ela escrevera

 

O rio não me espera.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Cristiano Ronaldo içou-se do chão de quando era criança; rodou nos invisíveis degraus do esforço d’alma; prendeu-se no ar, e, intacto de natureza, opôs-se ao que no mundo é simulacro. 

 

  

 

De mão no peito o agradecimento minucioso a cada um, a cada vida.

O gesto, o gesto de que o limite é para se ultrapassar.

 

  

 

Ronaldo, o vulto voante de uma magia que poucos merecem, demanda-nos na sua vida o nosso próprio desejo de pulsar pelo céu. Expõe sentires em choros e felicidades de inocência rara.

 

Cristiano Ronaldo o menino empurrado para os dias dos socalcos de todas as solidões.

Ronaldo o homem-menino que hoje segura o seu filho à expansão das manhãs.

 

 

O menino-homem da bola de ouro a erguer ao mundo o sentido do choro.

 


Ronaldo, um fundo de convicção que aponta caminhos, muitos deles entre o ser-eu e o estar-ali irredutível.

O colossal jogador de futebol português, conhece-se e devolve-se a nós, na simplicidade de algo a decifrar, como se não transportasse também um Portugal e suas pedras, em ordenada linguagem aplanada pela força do mérito, do trabalho, do sonho, e da indecifrável magia de pertencer a um lugar que poucos conhecem.

Obrigada

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A vaidade dos desejos

 

Recordo uma história profundamente absurda que incidia sobre uma enorme quantidade de pessoas que ao terem alcançado uma imaginação desalmadamente prolífera, tão logo mencionassem qualquer coisa, e, ela logo lhes surgia ali mesmo à frente dos narizes. Este particular poder conferia-lhes uma vanglória ao anseio que os enchia de ares de tudo ser.

 

E como é complicado determo-nos nesta componente dos poderes, desta feita associada ao orgulho! Assim, e por bizarro que pareça, Aladino estabeleceu com estas gentes uma estranha relação bem mais prática que qualquer ciência pagã.

 

Um dia, estando D. Fernando a passear pela sua longa vinha junto ao Douro eis que lhe surge Rosália a mulher de seu grande amigo Pedro que naquele fim-de-semana lhe faziam companhia no solar. Rosália fundamentava os seus olhares a D. Fernando, no prazer conferido pela verdade da sua beleza madura e, aos poucos, nunca distraídos um do outro, caminharam, a conversar, até à bela adega encerada e de belos sofás de recantos que possuía a quinta.

 

E se nós fossemos capazes de controlar o cosmos, ó Rosália, já pensou nisto? Alguma vez o desejou?

 

Sabe Fernando, os meus desejos são mais antiquados, mais quedos, diria; o meu marido é, como sabe, um homem que se preocupa sobretudo com a objetividade do estado de um fumeiro e tanto lhe basta para me contar com um largo sorriso que este ou aquele ano até o presunto de salmoura terá melhor gosto. Creia que esta ligação digamos, à terra, me faz não pensar no cosmos que, seguramente até um beijo me levaria!

 

Fernando, vendo e sentindo a aproximação do corpo de D. Rosália bem como a chama do seu desafio, rapidamente tornou os três desejos num, chamou por Aladino enquanto esfregava a garrafa de porto e baixinho desejou:

 

Tira-me já de mim este reumatismo maldito!

 

Aladino não cuidou que D. Fernando desperdiçava dois desejos e de imediato cumpriu aquele que seria afinal o desejo de dois breves amantes em tons de rosa.

 

Mas eis que a garrafa, de súbito, escaqueirou-se no chão em pedacinhos, já que as forças sem reumatismo desalinhavam-se para se realinharem no corpo todo e entenderem agora os pesos por ele seguros.

 

Rosália, boquiaberta, avistou de súbito a idade de D. Fernando e a sua e apressou-se:

 

Era tal a vaidade no seu vinho, era tal o desejo que eu o provasse na sua companhia que enfim, um certo comedimento se impôs. É natural, disse, já toda corada.

Não Rosália, não foi bem isso. Eu é que pedi um elefante branco que visse tudo azul.

 

E por temer uma recarga do reumatismo, atirou-se D. Fernando, um tanto sem jeito, para um dos sofás, onde, para seu espanto acabara caído sentado.

 

A partir daqui, diz-se, prevaleceu nos círculos literários um estilo simples e menos cheio de metáforas híbridas que tanto assustavam os leitores, afastando-os dos livros e que bem mais os apavorava, diz-se, do que o vislumbre de um centauro resmungando aos troianos contra o propósito da Guerra de Troia. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O âmago da árvore permanecia o mesmo, independentemente da frondosidade que esta ia ganhando com o tempo; e as crianças faziam desse lugar - pois que o âmago se tornou lugar- um local de abrigo, nas brincadeiras do onde estás tu meu malandro que está na hora do almoço? E assim esta arvore se tornou a nossa substantiva referência das férias grandes e nela pensávamos quando o inverno na cidade nos desprotegia da ida à escola.

 

No âmago da árvore, com o passar dos anos, passou a existir toda uma cultura em todos os sentidos aprendidos de cor pelo mais íntimo de cada um de nós: da rima infantil até à cumplicidade com o primeiro namorado, a verdadeira fruição deste âmago de espaço oco da nossa arvore, centrava-se sempre num prazer de natureza simples e, aos poucos, na obtenção de um prazer de natureza mais subtil.

 

Um dos problemas do moderno mundo é que se fazem tentativas para se alcançar a simplicidade da modernidade em quase tudo, exceto no que respeita à alma. Todavia, o âmago da nossa árvore era desde muito cedo e ainda que o não soubéssemos, de tão cedo, de uma simplicidade de fundo de alma, ao qual eramos gratos pelo imenso conforto que nos proporcionava esse sentir, tão generosamente oferecido ainda que o não soubéssemos definir – até mesmo pela complexidade.

 

Nenhum de nós que conhecia o segredo do local do âmago desdenhava, dentro dele, até sozinho se sentar lá e devorar com entusiasmo o segredo de uma vida simples nos momentos ali vividos também em espírito simples.

 

Quantas vezes hoje penso que as formas de arte moderna revertem o seu passo na direção de um “primitivo” que as esclareça, e, que o seu erro, quantas vezes, é procurarem um âmago com altivez- que só ao saciar deveria respeitar- e que em penúltimos e últimos esforços revela afinal o objetivo de desenhar uma árvore que expresse o âmago de uma criança que esboça e consegue demonstrar a visão do sentir primordial.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro

CRÓNICA DA CULTURA

 

A criatividade é sobretudo a ideia nova da curiosidade

 

A fome da experiência diferente existe. O excesso que quebra o entorpecimento e nos faz sentir a necessidade de espreitar pela janela, é em si, uma abordagem da consciência sem medo das emoções: a raiz da força da ideia nova.

 

Pelos canais das intuições, as empatias do entender o fundo que se não mostra, separa-se mesmo dos outros sentidos, e, dão o salto sozinhas, num processo interno de diálogo e de recolha interpretativa à precisão das nossas perceções. Este um dos caminhos da intensidade e das razões por que ocorre; este um processo vivo de interatividade que até pode ser doloroso, insuportável mesmo, face à decisão do que fazer com a nova informação. Como reagir à nova cor? À nova palavra? Ao novo som? Como criar a nova substância, face ao que existia, quando em peças isoladas a intuímos?

 

Não é fácil. Há que abrir passagens na própria barreira das nossas emoções. Há que ter aprendido a necessidade da curiosidade, aprendizagem que sempre se iniciará e acabará no nosso coração, nem sempre generoso ao trabalho de sapa que nos leva às razões.

 

Criar é também tornarmo-nos fluxo e refluxo do nosso próprio entender, e expô-lo a interagir, e, por aqui, quantas vezes, enrolados nós até aos outros, e a luz do mapa que percorremos e que afinal não foi suficiente. Ainda assim a criatividade vai decidir como proceder para alterar esta situação e afinar desculpa, corrigindo o processo energético desperdiçado num saber que o não chegou a ser, ao menos pela diferença da criatividade e da curiosidade, ambas, quantas vezes, sem libertação suficiente para a todos convidar ao mais longe possível, por onde sempre podemos começar um décimo segundo passo, no validar da criatividade, atributo de uma curiosidade fértil e atenta e responsável.

 

Também dentro do ato criativo, dentro e bem dentro da curiosidade imparável, existe uma hospitalidade universal em nós, que significa um direito do que é estrangeiro e que chega até nós - sua nova morada - e não invoca acolhimento, antes visita, e nos convida a ir até ao outro lado da terra prometida sem qualquer mapa que nos oriente.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA


Hoje eu e meu marido - casal jovem que só visto – fizemos esta bela figura:

Veio o metropolitano, e o meu marido desatou a correr gritando-me, corra, corra que são só três carruagens e corria, corria, e eu, obediente mas sob protesto, corria também, mas sempre a gritar o metro está escuro, todo escuro e corria, corria. Até que parámos pois todos olhavam para nós e de resto o metro não parava, nem parou.

Enfim. Carruagens à experiência e adultos em plena interpretação interpretativa da realidade.

Eu ainda disse ao meu marido quando me sentei bastante cansada:

Os do outro lado da plataforma estão a pensar: aqueles velhos correm que se fartam! Daqui a nada estão no Tejo!

E não é que de repente veio o metro deles só com três carruagens e eles, os da outra plataforma, que tanto se riram de nós, corriam que nem desalmados, atras das três carruagens e a fazerem gestos para o motorista parar? Pareciam doidos. O metro cheio, cheio, e eles, a correrem como se coubessem se o apanhassem.

Ele há coisas!  

Teresa Bracinha Vieira