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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Marília, ó D. Marília estou aqui!

 

Menina, já vou, já vou, o meu homem anda a cavar e anda cada vez mais surdo, é da idade, e eu fico práqui a atender a tudo. Olá menina, beijinho, como tem passado? Olhe tenho os pintainhos a nascer, venha, venha ver.

 

Entrámos devagarinho, sem fazer barulho nenhum a fim de não interrompermos o parto dos ovos.

 

Ó D. Marília, que lindo! Que lindo!

 

Pois é! E tenho a ovelha quase a parir também. Andou-me inquieta de noite que eu bemnaouvi e é assim, este mês está-me a nascer tudo. Até a cadela já está a dar mama aos filhos. Quer ver? Não senalhincoste que ela é brava porque é boa mãe. Tudo isto é muito lindo, lá quisso é, é, mas dá muito trabalhinho. Inda ontem saí do feijão-verde às dez da noite. Ó marido, anda que está aqui a menina e temos de conversar, ós pois ajeitas o resto dos morangos, anda falar que a menina tem de ir à vida dela.

 

Pois é como a minha mulher lhe disse. A menina sabe que estamos a ficar velhos e já não podemos com tudo isto, é muito encargo prá gente. Os filhos ligam-nos pra virem ao dinheirinho, mas não prájudar e como somos do Norte, pensámos em ir lá práldeia. Pegamos aqui na carroça que comprei – disse, olhando orgulhoso para um carro novo – e pronto, lá vai a gente pregar para outra freguesia e ver se os compadres ainda estão vivos.

 

Ó menina, eu sou mulher de labuta, mas como diz o marido estamos aqui sozinhos a fazer as vendas prá praça num carrego diário. Alugámos a casa e dormimos naquela espécie de quarto ao lado dos pintainhos e de noite é frio e ainda temos de andar às raposas que nos vêm ao galinheiro e ós pois ofereceram-nos uma boa quantia para fazer aqui uma pensão de praia que a praia é perto sim senhora, e prontos, desta, a gente está a pensar ir pró Norte. Que acha?

 

E a D. Marília começou a chorar e o Sr. Carvalho olhava para as batatas plantadas com os seus braços e disse-me:

 

Desgosto tenho de deixar isto. Foram muitos anos. Mas trata-se do nosso futuro, sim estamos velhos mas ainda temos futuro e se ele for a coxear ao menos agora temos dinheiro para a bengala, não é?

 

Ó menina que desafio, não é? Levamos no carro os dois cães e o galo calçudo e o resto vendemos tudo. Tenho medo da viagem lá isso tenho, mas temos de sobreviver. Chegámos até aqui com muito trabalho e o futuro chama-nos.

 

E há que dizer ó Marília, que temos lá casa, é só dar-lhe um jeito e refazer o forno do pão, mas seremos livres, livres, não acha menina? Vai ser uma nova história e há muito que conversar com os vizinhos. Já soube que os novos não querem nada com a aldeia, mas aqui não querem nada connosco. É a visita da cortesia pró dinheirito dos velhos, e, às vezes até estou na missa e só os vejo no mês seguinte e olhe que moram aqui ao lado. É assim, vamos fazer o futuro! Foi uma luta grande, mas agora é o futuro e a liberdade. Só sairemos da cama quando tivermos o corpo descansado.

 

E pronto menina estamos então conversados. Vamo-nos escrevendo. É melhor não nos visitar não vá a coisa correr mal e ficarmos lá pior do que aqui.

 

A D. Marília estava em pé encostada à mesa e tinha a cara entre as mãos. Ainda não temos a certeza disto tudo – disse – mas vamos sim. E começou a chorar baixinho.

 

Sabe menina, eu nunca deixaria de me casar aqui com o marido e ele ontem também mo disse:

 

Ó Marília vamo-nos daqui, Temos de arriscar para fazermos o nosso noivado.

 

Afastei-me, fui ver a vaca já de cama feita a forrar-lhe o chão, a palha estava sacudida. Os porcos pareciam ansiosos que tudo isto acabasse e soubessem o destino. Apanhei um saquinho de espinafres e escutei o barulho do vento nos pinheiros altos. Pois seria tudo uma pensão ou rezórte como eles diziam. Cheguei-me ao portão onde me aguardava o casal: olhei-os com atenção, nada nos perguntámos.

 

Assinámos hoje o contrato a acabar, vamos ser livres, não somos daqui, disse-me a D. Marília a olhar para o chão. Chegámos a passar fome para não gastar dinheiro. Agora vamos ao futuro, de muitas maneiras enforcámo-nos aqui e agora só não quero uma casa pintada de branco que pareça um tratamento.

 

Dois meses depois passei lá. Chamei pela D. Marília. Tudo era um deserto. Nem galinhas nem cães à solta. A carroça de marca Opel já lá não estava. Desejei muito que estivessem a noivar num futuro que lhes acontecia de repente naquela idade.

 

Afinal fora um dia indefinível aquele em que os ouvi como quem escuta do que a ausência será feita quando se explicam os dias que hão-de vir.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O que fazemos agora?

 

Há quem defenda que uma ideologia beta será sempre aquela que não pergunta à razão o que leva a justificar o poderio do modo de estar alfa. Mais: o “motor” alfa é tido como o que deve ser naturalmente protegido e aclamado pois corresponde ao triunfo dos fortes sobre os fracos, mesmo que essa realidade seja a do poder da mentira sobre a pessoa moral.

 

Creio que certas “elites” esconderam sempre o seu íntimo compromisso com esta doutrina que referimos acima, usando o discurso do politicamente correto, devidamente civilizado e suficientemente bondoso, de modo a que criticá-lo envolvesse criticar o que estaria bem na mescla das correntes do bem e do mal com que se afrontam os direitos à vida digna.

 

Acreditamos que para os betas existe um único caminho que têm real vontade de percorrer para atingir o único objetivo: imitar os alfas.

 

Cremos que o percorrer desse caminho constitui nos betas o grande fundo orgulhoso de um comportamento de culto, encabeçado pelos próprios, em jeito exponencialmente violento para chegar, tanto quanto possível, a um esmero dos alfas de hoje e ultrapassando-os criando uma musculação popular desafiadora de seguidores sem questões.

 

Não há dúvida de que as redes sociais são propícias a serem utilizadas para que em poucos anos, estes betas, atinjam uma realidade global de alfas, que, de jeito subtil e subcultural se mostrem como alternativa em todo o mundo.

 

As narrativas que passam a predominar envolvem um padrão familiar: velhos preconceitos valorados com novos conteúdos económicos determinam que as vítimas ou são virtuais ou atiradas para campos especialistas em estados permanentes de revolta.

 

É o tempo das realidades alternativas incapazes sequer de serem neutras porquanto ensinam a alcançar a finalidade dos betas enquanto se nutrem dos banquetes dos alfas que enfim já deixaram de ser o poder que agora se quer alcançar numa hostilidade clara às próprias universidades.

 

E não descurando as fobias e as obsessões de estimação de alfas e betas e novíssimos alfas, o que fazemos agora?

 

Talvez criarmos forças não esperadas, já que esperados não somos, a que alfas e betas e alfíssimos sejam obrigados a expor os internos inimigos de si mesmos, retirando-lhes a possibilidade de os usarem como motor e motivo do seu combate.

 

Claro que a força não esperada terá de conter o atrevimento de desagradar a estes novos senhores da vida bem como a capacidade de lhes provar que ainda existe uma parte considerável do mundo que não é o seu quintal.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

CRÓNICA DA CULTURA.jpg

 

A ilusão da pós-verdade chama-se mentira. O medo do outro e do diferente só se supera com partilha de responsabilidades e melhor democracia. É de economia ciente da importância da cultura como criação que falamos.

por Guilherme d’Oliveira Martins in Jornal Público / 07 de agosto de 2019

 

E de facto ao olhar para a ponte de Mostar em 1982, o sonho que haveria um passo comum em direcção a um futuro melhor foi-me claro. E foi-me claro pela história da responsabilidade que o pluralismo da democracia a todos chamaria; e foi-me claro pelo impacto da cultura que vivi naquela viagem de meses à Jugoslávia; e foi-me claro porque não queria uma coisa abstracta situada no futuro de todos nós: uma coisa abstracta com nome de mentira.

Acreditei que todos nós chegaríamos à conclusão de que a alteridade dos outros é parte integrante da nossa humanidade. Acreditei que a cultura dos povos seria tão criativa que animada por vontades objectivas desmontaria as instituições imperfeitas, as económicas e as outras, e só o seu prenúncio impediria a compreensão incauta da globalização.

Estava longe da brutalidade com que os vários tipos de terrorismos saltariam das televisões defendendo a lucidez dos estados em pânico como realidade ancora em vontades, ou seja, em votos mesmo não expressos.

Navegar nos barcos de Klee deixou de ser política de acolhimento e defesa de um interior espírito de desafio à criatividade nas mudanças estruturais de vida. A partilha de riscos na determinação do bem-estar não se concretizou como messias à construção da prosperidade na idealização da cultura e da civilização.

E é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores.

Há que nos desviarmos de guiões que nos são sugeridos mesmo quando não pareça; há que entender os traumas do passado como base para discussão de possibilidades futuras; há que estarmos atentos à actualidade que se move à nossa volta cheia de nostalgias para que nacionalismos sejam a solução lacunar das democracias.

Não podemos dizer que precisamos de tempo pois já não há tempo para nos redimirmos das desatenções. Os pensadores receiam que nem as ciências nem as artes possam ser suficientes para seduzir as plateias de vidas que não prosperando, têm o poder dos saltos violentos como solução e pseudo sustento ideológico para justificação comportamental de si mesmas.

Por isso mesmo, neste caldeirão

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores

sem os homicídios das guerras e a atribuição estonteada de culpas.

A distância que nos separa dos totalitarismos não nos deve deixar baixar a guarda.

Quem joga? E o que se joga? Quem é o senhor do Jogo?

Como é a noite sem estrelas?

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem nos conformarmos com a condição humana que nos coube.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CRÓNICA DA CULTURA

A EUROPA uma possibilidade.jpg

 

   A EUROPA: uma possibilidade

 

Creio que se deseja uma Europa que consiga preservar a paz, uma Europa próspera, uma Europa em cuja cultura civilizada os cidadãos se identifiquem, desafiadores de um futuro responsável, responsável também pela ordem social que abarca a procura de uma justiça justa, uma justiça fora dos cenários das utopias, uma justiça como condição única e natural forma dos povos se entenderem e se serenarem.

Quero crer que se deseja a Europa! Quero crer que esse desejo é consciente de que terá de ser urgentemente realizado nesta Europa, um imediato futuro diferente daquele por onde tanto errámos. Em rigor, também sinto que o projecto de integração europeia, na actual União Europeia resultou nesta Europa sacudida e doente; tombada pelas mãos das inúmeras políticas e instituições que dela se serviram para a abater, para a partir em tantos pedaços quanto os necessários à manipulação da sua fragilidade, de modo a que o seu reerguer não se pudesse concretizar.

Todavia, volto a insistir: quero crer que se deseja uma Europa unida e noutros parâmetros, quero crer que se vai lutar por ela, ou a certeza de que o corolário natural da actual situação, se nada de relevante for feito, terá tantas consequências negativas que este nosso Portugal se transformará em mero ancião-cidadão-comum de destino de inaceitável preço.

A nível global, a realidade que acarretaria a queda desta Europa sem alternativa no seu seio, tenho-a, na minha modesta opinião, como imprevisível e perigosíssima, ou essa realidade não deitasse mão da entropia e dos equívocos vividos neste projecto, para que as grandes rupturas globais, onde se não desejam, fossem activadas, clarificando-se enfim, o mundo, que se não apraz nas ideias da consensualização.

Urge falarmos, discutirmos, actuarmos em urgência prioritária à ideia de uma Europa unida com possibilidades de “exigência pragmática de utopia” como referiu Steiner, mas igualmente com a capacidade de protegermos objectivamente as democracias dos nacionalismos que se deleitam a provar, em estratagemas de ocasião, o quanto os direitos humanos são exigentes de concretizar.

Quero crer que iremos saber provar que para um novo mundo europeu, existem caminhos que só se percorrem pelo respeito dos menos poderosos; pelo respeito pelas diferenças pois que a Europa é plural, pelo assumir da solidariedade, e entre tantas outras vertentes nucleares, pelo conhecimento de que as grandes preocupações são não-territoriais.

A Europa continuará a ser uma possibilidade, se desde logo não descurarmos que o aumento terrível da pobreza na União Europeia significa, em última análise, a descrença de milhões de europeus na sua melhoria de vida, e por essa descrença somos todos responsáveis de modo agravado, se não criarmos de imediato, dentro da União Europeia as vias que concretizem a união política que venha a suportar outras uniões que façam frente aos poderosos interesses instalados.

Quando o nosso futuro comum, enquanto europeus, resvala para o abismo, e depois das grandes guerras vividas, resta acreditar que a Europa é uma possibilidade! sim! é uma esperança!, sim!, contra os fatalistas, se se souber refundar  a tempo de não permitirmos que esta Europa seja mero joguete esfarrapado nas mãos dos directórios internacionais.

Urge que um dos grandes muros a destruir seja o que impede o vigor no combate para que se inicie um futuro melhor, um futuro que seja pedra fundamental e pedra filosofal, pedras que impeçam, nomeadamente que a hegemonia do capital e a desregulação que lhe deu chão impeçam de vez, que a arquitectura do dinheiro se infiltre nos processos de deliberação política.

A Europa: uma possibilidade!

 

                                                       Se voltasse ao princípio, começava pela cultura.

                                                                                Jean Monnet

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.

 

- Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?

 

- Sim Rita, claro que sim.

 

(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.

 

Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.

 

- Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.

 

Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.

 

Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?

 

Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O silêncio é de oiro

 

Ó menina não me faça perguntas, tire lá daqui o microfone, não insista. E lá volta ela

 

O que é que eu sou? Sou um homem sem opiniões daquelas que a menina gosta de ouvir e depois passa na televisão e foi o seu programa ou lá o que seja. Não é?

Se não tenho opinião sobre nada? Pronto, então vamos lá a ver: até tenho. Olhe tenho-as fresquinhas todos os dias pois troco-as com as minhas vacas quando as levo ao monte ou a dar-lhes de beber ou a levá-las a dormir ou quando as acordo. Quer saber? Não quer saber? Mas eu digo

 

A minha opinião de hoje - aquela fresquinha que troquei com a Eulália, esta vaca que aqui vê e que me dá grandes alegrias pelo leite que faz meu pão - foi a seguinte

 

A minha vaca não quer ser europeia e eu também não quero que ela seja. Está no seu direito, ou não? E eu também, ou não? Ela é corajosa mesmo quase calada. É tão corajosa como eu quando digo com firmeza à menina que é precisa coragem para não ter opiniões. A menina consegue? Ah! pois é, até fica muda. Mas olhe, que se conseguir não ter opiniões, ou, tê-las frescas como a minha Eulália me ensina, olhe que no seu caso, se for capaz, ainda vai parar a um cargo bom. Aqui ou na Europa. Sou eu que lho digo. Mas olhe que é preciso que esteja muito tempo caladinha e não pergunte o que não quer ouvir.

 

Ainda há uns dias voltei a lembrar-me que o silêncio é de oiro. Ora veja o preço dele aqui em Ponte de Lima. Mas viu, viu, como já lhe respondi, já não consigo ser rico proximamente. Temos que falar para dentro e por isso eu não lhe queria dizer nada, já que, acredite, a maioria das vezes não tenho opinião e acho que até é bom para o país que não exista mais um palavroso. Entende? E muito menos que fale também em nome de outro, neste caso outra, como foi o caso da minha Eulália. Prometi-lhe e agora descaí-me com a opinião dela também.

 

Pois com licença, cá vou à vida que já pequei e que a sua já está feita, ao menos por hoje.

 

Eulália? Tens a certeza que tens sede? Ou é só para conversar? Pronto a tua mãe vai connosco também. O que é um rumo? Olha é eu andar ao teu passo e aguardar há anos consulta para a dor nas cruzes. Pensa bem, tens opinião sobre quem quer ser um de nós?

 

Pois. Eu também fui sempre assim, como sabes. Seria bom que, por uma vez…

 

Pois.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Os amoladores, os sinaleiros, os ardinas

 

Um tema antigo.

Esquecimento.

Era uma vez.

 

Sempre que o meu pai parava o carro por ordem do sinaleiro e baixava o vidro, todos os dias por aquela hora, o ardina – que já o conhecia – entregava-lhe o jornal pela janela do automóvel a troco da moeda. Corria de um lado para o outro, no meio do trafego, para vender o maior número de jornais possível e também aliviar o peso da cinzenta sacola de pano que transportava e o fazia coxear de tão pedra. Depois logo que vazia a sacola, corria a enchê-la. Quantas vezes os vi a correr, Rua da Rosa acima.

 

E eram homens estes ardinas e eram meninos também que brincavam a descortinar a buzina dos carros que os chamavam, e com um saco de jornais quase maior que o seu tamanho, lá vendiam mais um jornal, a sorrir, como se brincar fosse assim e só assim àquela hora em que os carros passavam perto dos seus pés podendo pisá-los.

 

Ninguém se lhes referia como crianças em trabalho adulto. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Um cabeça de giz, como chamávamos aos sinaleiros devido ao formato do capacete que usavam, um cabeça de giz que elegantemente comandava o trânsito em gestos de braços e mãos de bailarino clássico. Nunca se cansava. Fazia piruetas nas voltas do corpo com uma tal eloquência que, por vezes, os carros não arrancavam logo a seu mando, pois os condutores pensavam ou diziam para os restantes companheiros de viatura

 

Olhem, lá esta ele, parece que dança sem se cansar horas a fio. Parece que controla o ar. É giro este fulano!

 

Ninguém celebrava a passagem por este sinaleiro com um agradecimento. Nem mesmo nos dias de maiores melancolias. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Um amolador que passava lá na rua de Alvalade, tocando uma gaita-de-beiços em timbre conhecido, e a avó dizia logo que o escutava: «pronto lá vem chuva». As criadas corriam com as facas e as tesouras e alguma cafeteira na mão, antes que o amolador da bicicleta se fosse. Creio ter visto, um dia, que a cozinheira levava também na mão um desgravidado chapéu-de-chuva para concertar as hastes. Eu corria de mão dada com as criadas e ficava a ouvir os piropos que o amolador lhes atirava enquanto concertava os haveres entregues. Aquele era danado, diziam elas. Enfim, eu achava bonito ouvi-lo dizer: «dás-me um beijo e caso-me contigo.». Elas riam e provocavam-no. Ele olhava-as com prazer. Era um namoro único. Esperado. Esquecimento?

 

Era uma vez

 

Sempre que escrevo o que bate em mim como alguém que se procura e se pensa e se desenvolve e se aniquila, e depois renasce, porque é com palavras de uma ideia que o esquecimento se faz pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Aquela casa de artigos de bebé e de crianças até aos 10 anos tinha uma montra que nos fazia sempre parar para ver como o mundo podia ser cor-de-rosa ou azul ou branco da cor do vestido de noiva que projetava a esperança de crianças envoltas em nuvens colhidas na felicidade eterna dos casais do sim.

 

Os manequins que imitavam os bebés sentados em cadeirinhas de madeira trabalhada irradiavam o direito de sujarem os mais escrupulosos bordados dos seus babetes, e os berços de palha forrados a múltiplos folhos, divinamente engomados, nem pareciam berços de gritos lá dentro.

 

Aquela montra era uma espécie de tule debruçado sobre a felicidade do vinde e crescei que a dor de barriga é assim mesmo desprezada na fralda que a criada lavará.

 

Esta casa também fazia vestidos de noiva e o respetivo enxoval com as ditas rendas de Veneza como nunca sonhara uma cidade condenada poder produzir e, depois de tudo devidamente confecionado a cores de romantismo, era a hora da noiva e sua mãe e avó mostrarem à mãe do noivo o presente de casamento da avó da noiva, ou seja o enxoval e os brincos de diamante em flor de laranjeira, tradição da família quando se noivasse até ao casamento.

 

Depois, escadaria acima, enquanto os sinos tocavam e o padre se aperaltava em rigor, o canto nupcial fazia-se ouvir e entrava a noiva, de braço com o pai, solenemente encoberta pelo véu e ainda assim ouvia o cochichar relativo ao tamanho do seu pequeno ventre pois que de quatro meses ninguém lhe tirava o aguardar da criança. E, o poder da montra não se quedava: nada tinha mal, tudo se podia não ver ou ver através do tule; tudo emplumado e os meninos de calções de veludo e sobretudos impecáveis tal como o cabelo de risco ao lado com um tantito de brilhantina se fazia notar. As alianças chegavam pelas mãos das virgens dos cabelos enrolados em flores que seguravam a taça de prata envolta em laço onde duas alianças aguardavam destino.

 

E do bouquet ao parto tudo afinal posava na montra. Eis o seu poder de resumo.

 

Olhávamos de novo e lá estava o bolo de noiva, agora um tanto encostado aos saleiros: não, a faca e o garfo de prata reluziam junto dele. Assim é que era, e não fosse eu uma mulher que ali tinha vontade de chorar, o mesmo é dizer que chegara a hora de continuar a andar e deixar que a montra, ó graças a Deus já me esquecera dela até à próxima. Ou verdade, verdadinha, perguntava-me se um dia estaria ali um micro-ondas embrulhado em ponto de cruz com o ar sério de quem resolve problemas para que os dias felizes sejam menos brutos, sendo que o próprio é de bruteza natural. Ah! E uma piscina em miniatura forrada a seda azul que revelasse as potencialidades de ser inserida em quinta familiar que desconhecesse a importância de uma carta do Congresso de Viena na qual se mencionasse a Legião Estrangeira.

 

E

 

que eu sinta sempre ao lado da força do amor que nada me pode acontecer porque o meu tio-avô e a minha bisavó não haveriam de deixar. E que possa eu fazer o que ainda não comecei.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2019

CRÓNICA DA CULTURA

 

Bruno,

 

Dei comigo a ser a única pessoa a comprar selo para uma carta. Dei comigo a pensar que as nossas conversas se não escrevem em e-mails. Dei comigo a pensar que não posso perder a chaves da caixa do meu correio porque recebo muitas cartas. Ainda. Dei comigo a pensar que ambos sabemos que carta tem o perfume das várias estações da alma. Tem folhas de árvores e espuma de mares que colam a cola do envelope, às vezes, com lágrimas, outras com urgências; carta tem respiração de mundo e tem carteiro que lhe pega e a entrega como testemunho de alguém que o pode ler na casa de jantar atras do reposteiro e beijar muito a carta e esconde-la no montinho do sótão, dentro de uma caixa, imune a ratos, e essa caixa é de Ali Bábá de um agosto que permitiu umas férias de mundo da nossa juventude. Quanto tesouro! Um mundo de projetos fenomenais e acontecimentos fantásticos, descobertas únicas, tudo condensado em 30 dias. Um mundo de cada um à sua maneira e tu com a Eduarda janela por janela a olharem-se, e, o tanque redondo dos peixes – mirante – era o meu melhor público para que o Miguel entendesse que aquele golpe de vista infalível que a água captava, era a promessa de, na manhã seguinte, juntos, na praia, nós os dois, iríamos ao mar.

 

Bruno,

 

Voltei para casa e abri o envelope e escrevi-te isto. Quis saber que saberias da minha fidelidade a escrever-te cartas, mas que uma mulher exausta e ansiosa demais pode escrever e-mails, e, uma vez por outra, o teu endereço eletrónico, tenta-me, e não te posso prometer que uma tarefa esgotante me evite de o usar quando.

 

Contudo, do perfume ainda não sei como farei. A minha caneta tem tinta permanente e por isso tem perfume. Receio que isto de escrever-te sem ser por carta, fique tudo mal escrito e mal vivido e que não domine as palavras na minha fala, como quando as obrigo por tinta a subirem a Acrópole.

 

Que dizes?

 

Eu sei que não estou apta a conhecer este novo Evangelho das tecnologias de utilizador que, receio, pelo sinistro da sua facilidade, mas, desde que o envio das cartas se apoderou de mim na fúria de viajar e começo a chegar antes delas. Enfim.

 

Acima de tudo, para nos sabermos de nós, rapidamente, outros meios se propõem. Impessoais? Ou neles se reconhecem, que os últimos degraus que subi na arena em Palermo e tos mostrei, quase em direto, por um vídeo que fiz e te enviei por telemóvel, foi pronto também a mostrar-te os templos de Agrigento e a expor-te quão mágica era a luz mediterrânica.

 

Duas semanas depois estavas lá com uma Eduarda III ou IV (eras fiel ao nome) pois pressentiste afinal pelo vídeo que…

 

Que dizes?

 

Esta pergunta vai por carta. Vou voltar aos correios. Tratam-me tão bem!

 

«Bom dia Dra., mais uma cartinha? Quer escolher o selo? Temos uns que são mesmo o seu sorriso.»

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

(…) naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte.

 

 

 

Bruno, meu amigo, minha tão jovem vaidade;

 

Só posso responder à tua carta dizendo-te que naquela casa, tanto quanto me recordo, houve sempre neve. Neve, lá mesmo dentro da casa. Diria que em certos dias havia neve dentro do próprio forno de lenha. Fora arrendada essa casa aos caseiros da quinta da tua avó. Recordas-te? Caía nela em charcos, a água das chuvas, a neve, em despedaçados e pesados flocos, fustigava-a com a ajuda do vento e tudo tão suportado pela casa estoica e pelos seus habitantes. Tenho a certeza de que era assim para que eles pudessem ser seres do mundo. Agora tenho outra certeza: mesmo no verão, no tempo dos milhos, o tempo, caía pelo buraco do teto da cozinha de chão de terra e, feito neblina, a qualquer hora, furava todas as velhas rachas da casa e expandia-se no ar, fazendo-nos sentir necessidade de algum agasalho. A casa era uma casa de aldeia, rural, marcada pelas pedras cinzentas e pelos sequeiros de pedra cinzentos e pela eira de pedra cinzenta. A casa era o bater do coração do ti Aires que a achava um mistério fundo, ou não guardasse ela, gentes e bichos, num orgulho de casa conforme a todas as necessidades, assim ele a descrevia. Confirmo-te que a tia São fazia o tal arroz de feijão no tacho, assente na grelha dos três pés, e, não havia melhor cheiro no mundo do que aquele que vivia no fumegar deste tacho ou na abertura da tampa do forno de lenha, onde, assada estava a galinha e cozido o pão, ambos a espreitar-nos como um vestido aberto às cerejas. E nós, Bruno, nós lá íamos perguntando à Ti São, qual a razão do repasto e por entre as perguntas, as lágrimas que ela limpava dizendo sempre:

 

Maldita constipação! E fazia por tossir.

 

A ti São dava-nos sempre suspiros que fazia com as claras dos ovos que sobejavam dos almoços com os amigos do marido, vizinhos de ambos, e em cuja mesa – que era a própria arca salgadeira das carnes do porco - ela se não sentava nunca, apenas de pé e de prato de alumínio na mão só o arroz de feijão provava. Ainda assim, para nós, abria o forno, metia a pá e lá vinham eles, os suspiros direitinhos provocar o nosso olhar.

 

Vá levai alguns, dizia-nos num sorriso de ternura.

 

Nós lá íamos para casa felizes com aquelas guloseimas únicas. No outro dia, ou melhor, em mais outro dia, seguia a ti São às 5h da manhã para o campo, de onde só regressava de novo por volta da meia hora, como quem diz, a um outro meio-dia e meia. Regressava para pôr no lume a sopa a fazer. Esta sopa levava couves e um pouco de gordura da barriga do porco e comiam-na com broa saída das mãos da Ti São. A nós ela deitava os olhos e dizia-nos:

 

Vá ide almoçar, isto não é para os meninos.

 

E tu reparavas que eles nunca falavam um com o outro durante o almoço, ou, falava o ti Aires por gestos secos, conhecidos da ti São depois de 50 anos de matrimónio. Talvez por isso havia sempre neve na casa. Talvez por isso o fulgor do mundo entrara há 50 anos, quando o tempo das promessas lhes obedecia, e, depois, rapidamente as fartas hortas foram ficando nuas, o quarto do casal com lençóis mais gelados, os porcos a engordarem sempre o mesmo e os secos polvos do Natal cada vez mais tesos e magros.

 

E o ti Aires lá seguia para a empa de pés nus e gretados enfiados nas botas velhas, e, a ti São de joelhos, lavava a roupa no riacho partindo previamente com as mãos o gelo da superfície da água; depois lavava a roupa, esfregava-a na pedra como se não tivesse chagas nas mãos. Num sol qualquer corava a roupa exposta no chão; puxava os bois à fonte, enchia os colchões de capas de milho, deitava semente ao lavrado e vinha para casa dar comida às galinhas e aos coelhos e com a tal constipação que a fazia chorar, cortava um pouco da barriga do porco que cozera na sopa do almoço, e acompanhava-a com batatas cozidas, evitando que fossem solteiras de acompanhamento. Para nós, lá vinha mais um suspiro.

 

Tudo em silêncio, ou quase.

 

E tens razão Bruno, nunca compreendemos porque chegada a quase noite, o ti Aires lhe batia, e lhe batia até com cordas. Depois bebia, dizendo que era para esquecer ou aquecer e deitava-se.

 

Nós e os suspiros de que falas. Nós que tanto gostávamos de passar o dia a brincar à volta daquela casa, e a dizer adeus à ti São, nós, olhávamos para os suspiros e esmigalhávamo-los nas mãos a cada chibatada do ti Aires na Ti São, e o que caia das nossa mãos era neve. Naquela casa houve sempre neve, houve sempre muito frio.

 

E a cebola no tacho também fazia chorar a ti São: e nós miúdos confundidos.

 

Bruno há sempre um envolvimento na reflexão a respeito de tudo e com a nossa atual idade tem de haver decantação. Alguns acontecimentos que referiste poderiam parecer-nos, nos dias de hoje, insignificantes, e, afinal surgem com um significado que no momento não pensámos ter sido tão violento por muito que esmigalhássemos os suspiros nas mãos. Vivemos naquela casa episódios lúdicos e presenciámos forças ensombradas, forças daquelas que impressionavam os olhos a chorar de tão brutas serem. Digo-te: é bom que te não queiras perdido daquele tempo. É bom que queiras que o criador tenha que optar.

 

É bom que saibas que tanto quanto me recordo, e tu te aproximas, naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte. E enfim, a indiferença, essa, em que os faziam jogar a própria vida…era, é…

 

Saudades te envio

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira