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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

OBSERVATÓRIO

  


Era final de setembro. As palavras aconchegavam-se à nova estação e com as mãos no queixo de cada uma, espreitavam a oficina do dentro de onde nasciam.

Logo pela manhã levantara-se um motim fustigado por teimas.

- Eu acabei e tu estás viva! ó palavra que não foi por tua audácia que brilhaste! Antes, insensata, chagaste à tua grande casa e não tinhas criada que te ajudasse na lida, e ainda querias descansos domingueiros e que o teu sétimo dia fosse o teu sétimo céu! Tu que ainda desconheces a tua terra natal! Minha querida palavra, não esqueças que eu acabei, mas sou a tua psique!

- A que ilusão te pegas, palavra abandonada? Julgas que me importa que possas viver rugindo para dentro de mim como um leão em jaula? Não, não me importa, eu, a nova palavra, sou absolutamente surda como o gelo e só me interessam as palavras em que sou compreendida na minha língua. Tu, tu és do século passado, e eu de todos os séculos serei!

- Pois te digo que tudo pode ter passado, que em minha vida já não se ache marca de minha nascença, que todas as casas me sejam alheias e que os templos me não acolham mais, o que me importa? se é setembro e todas seremos uma alameda de folhas caídas, pátria antiga de quando as estações ainda eram o que tu julgas que nelas serás. Eu acabei, sim, mas pobre és tu, que ainda ontem te lavavas em lágrimas de esquecida, e não entendes hoje, que um dia, te cairá a vida como uma antiga moeda.

Era final de setembro. As palavras aconchegavam-se à nova estação, e, com as mãos no queixo de cada uma, espreitavam a oficina do dentro de onde nasciam.

- Amadas minhas, que vos falo de um olimpo, conciliem-se!

Somos todas amantes de onde e aonde o amor se retira e se achega. Somos filhas de reis e cantoras de rua, divinas e vulgares, mas sempre escolhidas umas para as outras.

Olhai que só todas nós, conhecemos o ponto mais profundo quando o ponto se faz ponto e o verso se solta num sorriso,

devagar.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

RENZO PIANO: um dos superiores expoentes da arquitetura mundial

  


“A minha inspiração veio da terra…e, claro, de Paul Klee…e a poética das suas pinturas”

 

  


Sempre que olho as obras de Renzo Piano, a minha inquietação acerca do facto dos seres terem abdicado de compreender o mundo como um todo e o terem aceitado em especialidades que não comunicam, a minha inquietação, dizia, desespera, face ao loteamento mental que se regista no agrado da atual sociedade. 

Renzo é um excelente exemplo de quem nunca corporizou uma visão de perspetiva limitada.

"A diversidade do conhecer é um valor, não é um problema". R.P.

  


A paisagem da pedra é a melhor prova de que a Natureza vive de um diálogo entre presente e passado e que tem medula comunicante, e há que aprender com essa comunicação como quando se vai a um museu e se perdem os olhos para melhor se reencontrarem, tal foi a aproximação e a emoção que provocou.

A arte propõe-nos também a reflexão de que aos méritos da especialização se deve estar atento, sob pena dos nichos se sobreporem ao somatório do qual tudo é feito.

Não podemos negligenciar o que fica de fora do julgar que se entende manusear com mestria.

Ortega Y Gasset já chamava a atenção que a emergência do “homem-massa” surgia cada vez mais pelo aparecimento de cientistas e menos de pessoas cultas.

A especialização é a chave de muitos saberes, é certo, mas não pode ser ela a fragmentação que impede o ser de compreender que, se se distanciar, o horizonte do espaço de linguagem onde passará a viver é um superior alto e rotundo.

Certo é que compreender a realidade à volta, implica a necessidade intrínseca, de transmitir conhecimento.

Renzo Piano, também se refere à arquitetura como um gesto cívico, devido ao modo como afeta a vida diária de todos nós, além de ser igualmente nesse espaço que a história se desenrola.

Renzo tem tido a grande capacidade de se reinventar e de compartilhar a criatividade debatendo, escutando, comunicando o que afinal também constitui parcelas do imaginário público.

A sua ideia de fazer “um edifício voar”, criando algo com a gravidade zero, retira a teima de o colocar no compartimento da arquitetura high-tech ou outra.

Os seus projetos não costumam ter características que se repetem.

  


Arquitetura é arte, mas arte bastante contaminada por muitas outras coisas. Contaminada no melhor sentido da palavra – alimentada, fertilizada por muitas outras coisas.

R.P.

  


The shard conhecida por
London Bridge Tower: outra proposta de Renzo Piano por Paul Klee e por toda a poética.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Álvaro Siza Vieira – A revelação de uma incontornável poesia na arquitetura.

  


Siza, “o grande maestro” da elegância e da simplicidade.


Da narrativa do seu processo de criação surge o conforto e a funcionalidade.


Ligado profundamente às obras de Frank Lloyd Wright e Adolf Loos, o seu trabalho aceita as influências minimalistas e modernistas e explora sempre o ambiente que rodeia a obra.


Siza Vieira, “o grande maestro” que trouxe inovação à estética deste nosso país.


A ordem da obra na relação com os outros espaços: eis.



A arquitetura também nos chega por mão de quem revela o cerne do conhecimento intuitivo entre a humanidade e a natureza e a vontade de conhecer o habitat de ambas.


“Arquitetura é arte, e isso está no meu espírito desde sempre” afirma A.S.V.


Diga-se que as verdadeiras manhãs acontecem quando a arte comanda as mondas, os muros e os musgos, na pura ideia de nunca deixar de pensar.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

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DIÉBÉDO FRANCIS KÉRÉ: UM MESTRE VIVO DA ARQUITETURA MUNDIAL

 

Francis Kéré habita entre os tempos projetando futuros, muito mais do que obras.
 
Nem a poesia nem a arquitetura sabem onde está o limite, mas ambas sabem que não está nos olhos que secam nem nas sensações: ambas são um serviço à humanidade sim, um serviço de essências únicas de lugares e épocas e chamamentos. 

 

DIÉBÉDO FRANCIS KÉRÉ _ img2.jpg

 

A abordagem sensível e respeitosa das realidades na Arquitetura é também a da descoberta de um material com capacidade para reter o ar mais frio no interior de uma casa, enquanto permite que o calor se escape através do telhado, e assim as vidas se vivem no melhor acordo de acolhimento com o que as rodeia, produzindo-se ventilação sem ar condicionado.
 
Assim a escola em Africa do burquinês Francis Kéré.
 
Da limitação de recursos também se faz a Arquitetura e se pode construir nos locais mais pobres do mundo. 
 
Uma das grandes argilas é saber ser Arquiteto e servo, melhorando as vidas e as experiências das pessoas em diferentes contextos.
 
Diz Francis Kéré 
“Não é porque se é rico que se pode desperdiçar materiais, e não é porque se é pobre que não pode procurar qualidade. Estamos todos conectados.”
 
Kéré ambiciona a chave de um outro paradigma e tal como o Poeta segue num afastamento o que mais procura, ele sabe que assim e por ali, o início da obra de arte irá nascer do barro fresco que se oferece à sede.
 
“Ele sabe, por dentro, que a arquitetura não é sobre o objeto, mas sobre o objetivo. Não sobre o produto, mas sobre o processo”. 
 
Estas as palavras da comissão do Pritzker recebido este ano por Diébédé Francis Kéré.

 

DIÉBÉDO FRANCIS KÉRÉ _ img3.jpg

 

“Estamos, definitivamente, interligados. As preocupações com o clima, a democracia e a escassez devem ser preocupações globais e comuns a todos nós”, diz Kéré.
 
Uma honra voltar a lembrar aqui este Arquiteto que tão profundamente sabe ver, e deste ver, obter o serviço do prestar o bem-estar através da arte.
 
                                                                                                              Teresa Bracinha Vieira 

 

CRÓNICA DA CULTURA

A POESIA EM MIM

  

 

A poesia nasce de um saber desconhecido e, na nossa tradição e nos nossos dias, sob condições de aparente irrealidade linguística, cria, em si mesma, uma realidade que, simultaneamente, é também conhecimento do inicial saber desconhecido.
   Antonio Gamoneda

A realidade da poesia é, e está na minha vida, como está o meu sangue. É algo que sinto como biológico também.

A poesia sempre me causou uma fortíssima emoção e ativou os meus pensamentos de tal modo que, tornou reconhecível o desconhecido, e o incompreendido foi descoberta.

A poesia nunca me surgiu como algo quase milagroso, ela surge-me real demais para o ser e maravilha-me pela existência grande e misteriosa que me propõe. 

A poesia elevou-se em mim, como algo intensíssimo que me fazia e faz sentir acolhida num outro lado, sem a necessidade de o explicar.

A poesia ensinou-me a ler mundo de um modo tão privilegiado que tudo se alterou decisivamente na minha vida: felicidade e dor, mães das cores e das falas. Eis.

É curioso que nunca pedi esclarecimentos à poesia: sempre me bastou sentir que instantaneamente ela e a música se habitavam em cocriação.

A linguagem da poesia – assim a sinto - é externa à linguagem conversacional e ela também não é ficção. Sei que da poesia não se tomba e não o sei dizer de outo modo. O poema vive sem se degradar.

A poesia é expressão com paixão e prazer.

Mesmo muito antes de entender o significado de muitas palavras, senti que algo me surgia que era um dentro da mim, e que, lá, num lugar que eu conhecia e entendia, a experiência surgia nova de cada vez, e isto era poesia para mim. Algo acontecia comigo que eu nunca pretendi definir.

A poesia é não nominada, mas é uma forma de existir.

Da poesia, também faz parte a memória que desconhecia ter e a outra que sabia ter, mas desconheci, durante algum tempo, ter a poesia o poder de ser tão natural quanto a obra de arte.

Quando eu partir, bem creio que antes não tive de forçar nenhum sonho ao contrário.

Deus!, que cedo ou tarde a enxada-poeta quebrou a pedra e intacto, ao lado, o vitral.

Assim.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  

 

A

Antonio Gamoneda, meu muito privilégio   


VII

 

Me llamo Maria

Quito el carmín

Entonces

La carga de ser,

La imposible costumbre de estar viva

Aparece

 

Sin máscara

Sólo, sólo

La verdad más profunda de mi vínculo

 

Y

 

Quiere salvarme

Quien me da de beber

La cicuta

 

Así

 

VIII

 

Me llamo Maria

Entre todos los caminos a mi alcance

Elegí

Los de la grande vista familiar

De los pájaros

 

Mi profunda lección de humildad

 

Y

 

Y por un momento inmenso

Sigo escribiendo

Mi casa de sed

 

Así


IX

 

Me llamo Maria

Jamás consumí la vida atada

A una cuerda

Soy cazadora del mar

Y las medusas

Juegan conmigo el juego ilícito

De un saber

 

Nadie Imposible

 

Y

 

Te doy las gracias

Piedra

Te empujaré costa encima

Mil veces

 

Así

 

X

 

Me llamo Maria

Intento la llamada

Y un día alguien

Cancelará mi nombre

Quisiera convocarlo para uno último brindis

 

Y

 

Al decir por dentro

Digo amor

Al decir versos

Digo por dentro

Al decir por fin en paz

Tu mirada-mundo

Al decir ostras

 

Escucho su música

 

Así

 

                                      

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  

 

A

Antonio Gamoneda, meu muito privilégio

 

V

 

Me llamo Maria

Todos nosotros somos

Tropas de asalto de una sola persona,

La historia es el recuento de la discordia

Que no termina nunca

Que sólo avanza a fuego y hierro

Y prospera gracias al conflicto

En la inmovilidad del corazón

En la melancolía

 

Qué rosa definitivamente enferma

 

Y

 

Pues que se guarde silencio

No se interrumpa

El último amor de Don Juan

 

Así

 

VI

 

Me llamo Maria

Me encanta retratarme con las panteras

Y volver del aire

Y abrir las páginas

 

De nuevos poetas

 

Y     

 

Pero tú oyes el grito

Y te desnudas em mis fuentes

La luz debajo de tu piel

Paloma ebria

 

Amé todas las perdidas

 

Así

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  

 

A

Antonio Gamoneda, meu muito privilégio 

 

III

 

Me llamo Maria

Me levanto, saludo

Enciendo las velas,

Me siento al piano

Que responde al nombre de Chopin

Pero

La exactitud de los dedos

No es nada más

Que

 

Obediencia

 

Y

 

Nada fija el instante

Que manda en todo

La flor indefensa

 

Cree que vale la pena

 

Así

 

IV

 

Me llamo Maria

Pregunto:

¿Todo lo que protege es también abismo?

En realidad, no lo sé

Pero todos ganamos nuestro diploma

No hay nadie que no tenga talento innato

Para la herida

 

Y

 

Nadie se salva

Dice el viejo poeta

Gran vitoria

 

De los sin dudas

 

Así

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  


A
Antonio Gamoneda, meu muito privilégio


I


Me llamo Maria

Mi ideal

Duerme como un niño

No obstante, de noche conversamos

En nuestra propria lengua inventada

De verdad

 

Más claridad es imposible

 

Y

 

El mar toma la playa por asalto

La sal coloniza la tierra

De repente el abrazo

De armisticio

 

Así

 

II

 

Me llamo Maria

Leo todo el tiempo

Aquí está el mundo y las parejas

En el aprendizaje de su arte

Primero flexible,

Después

 

Incorpóreo

 

Y

 

Sin embargo

Desde el fondo de la prisión

Náufrago

 

El futuro

 

Así

 

 Teresa Bracinha Vieira