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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

Cristiano Ronaldo içou-se do chão de quando era criança; rodou nos invisíveis degraus do esforço d’alma; prendeu-se no ar, e, intacto de natureza, opôs-se ao que no mundo é simulacro. 

 

  

 

De mão no peito o agradecimento minucioso a cada um, a cada vida.

O gesto, o gesto de que o limite é para se ultrapassar.

 

  

 

Ronaldo, o vulto voante de uma magia que poucos merecem, demanda-nos na sua vida o nosso próprio desejo de pulsar pelo céu. Expõe sentires em choros e felicidades de inocência rara.

 

Cristiano Ronaldo o menino empurrado para os dias dos socalcos de todas as solidões.

Ronaldo o homem-menino que hoje segura o seu filho à expansão das manhãs.

 

 

O menino-homem da bola de ouro a erguer ao mundo o sentido do choro.

 


Ronaldo, um fundo de convicção que aponta caminhos, muitos deles entre o ser-eu e o estar-ali irredutível.

O colossal jogador de futebol português, conhece-se e devolve-se a nós, na simplicidade de algo a decifrar, como se não transportasse também um Portugal e suas pedras, em ordenada linguagem aplanada pela força do mérito, do trabalho, do sonho, e da indecifrável magia de pertencer a um lugar que poucos conhecem.

Obrigada

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A vaidade dos desejos

 

Recordo uma história profundamente absurda que incidia sobre uma enorme quantidade de pessoas que ao terem alcançado uma imaginação desalmadamente prolífera, tão logo mencionassem qualquer coisa, e, ela logo lhes surgia ali mesmo à frente dos narizes. Este particular poder conferia-lhes uma vanglória ao anseio que os enchia de ares de tudo ser.

 

E como é complicado determo-nos nesta componente dos poderes, desta feita associada ao orgulho! Assim, e por bizarro que pareça, Aladino estabeleceu com estas gentes uma estranha relação bem mais prática que qualquer ciência pagã.

 

Um dia, estando D. Fernando a passear pela sua longa vinha junto ao Douro eis que lhe surge Rosália a mulher de seu grande amigo Pedro que naquele fim-de-semana lhe faziam companhia no solar. Rosália fundamentava os seus olhares a D. Fernando, no prazer conferido pela verdade da sua beleza madura e, aos poucos, nunca distraídos um do outro, caminharam, a conversar, até à bela adega encerada e de belos sofás de recantos que possuía a quinta.

 

E se nós fossemos capazes de controlar o cosmos, ó Rosália, já pensou nisto? Alguma vez o desejou?

 

Sabe Fernando, os meus desejos são mais antiquados, mais quedos, diria; o meu marido é, como sabe, um homem que se preocupa sobretudo com a objetividade do estado de um fumeiro e tanto lhe basta para me contar com um largo sorriso que este ou aquele ano até o presunto de salmoura terá melhor gosto. Creia que esta ligação digamos, à terra, me faz não pensar no cosmos que, seguramente até um beijo me levaria!

 

Fernando, vendo e sentindo a aproximação do corpo de D. Rosália bem como a chama do seu desafio, rapidamente tornou os três desejos num, chamou por Aladino enquanto esfregava a garrafa de porto e baixinho desejou:

 

Tira-me já de mim este reumatismo maldito!

 

Aladino não cuidou que D. Fernando desperdiçava dois desejos e de imediato cumpriu aquele que seria afinal o desejo de dois breves amantes em tons de rosa.

 

Mas eis que a garrafa, de súbito, escaqueirou-se no chão em pedacinhos, já que as forças sem reumatismo desalinhavam-se para se realinharem no corpo todo e entenderem agora os pesos por ele seguros.

 

Rosália, boquiaberta, avistou de súbito a idade de D. Fernando e a sua e apressou-se:

 

Era tal a vaidade no seu vinho, era tal o desejo que eu o provasse na sua companhia que enfim, um certo comedimento se impôs. É natural, disse, já toda corada.

Não Rosália, não foi bem isso. Eu é que pedi um elefante branco que visse tudo azul.

 

E por temer uma recarga do reumatismo, atirou-se D. Fernando, um tanto sem jeito, para um dos sofás, onde, para seu espanto acabara caído sentado.

 

A partir daqui, diz-se, prevaleceu nos círculos literários um estilo simples e menos cheio de metáforas híbridas que tanto assustavam os leitores, afastando-os dos livros e que bem mais os apavorava, diz-se, do que o vislumbre de um centauro resmungando aos troianos contra o propósito da Guerra de Troia. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

O âmago da árvore permanecia o mesmo, independentemente da frondosidade que esta ia ganhando com o tempo; e as crianças faziam desse lugar - pois que o âmago se tornou lugar- um local de abrigo, nas brincadeiras do onde estás tu meu malandro que está na hora do almoço? E assim esta arvore se tornou a nossa substantiva referência das férias grandes e nela pensávamos quando o inverno na cidade nos desprotegia da ida à escola.

 

No âmago da árvore, com o passar dos anos, passou a existir toda uma cultura em todos os sentidos aprendidos de cor pelo mais íntimo de cada um de nós: da rima infantil até à cumplicidade com o primeiro namorado, a verdadeira fruição deste âmago de espaço oco da nossa arvore, centrava-se sempre num prazer de natureza simples e, aos poucos, na obtenção de um prazer de natureza mais subtil.

 

Um dos problemas do moderno mundo é que se fazem tentativas para se alcançar a simplicidade da modernidade em quase tudo, exceto no que respeita à alma. Todavia, o âmago da nossa árvore era desde muito cedo e ainda que o não soubéssemos, de tão cedo, de uma simplicidade de fundo de alma, ao qual eramos gratos pelo imenso conforto que nos proporcionava esse sentir, tão generosamente oferecido ainda que o não soubéssemos definir – até mesmo pela complexidade.

 

Nenhum de nós que conhecia o segredo do local do âmago desdenhava, dentro dele, até sozinho se sentar lá e devorar com entusiasmo o segredo de uma vida simples nos momentos ali vividos também em espírito simples.

 

Quantas vezes hoje penso que as formas de arte moderna revertem o seu passo na direção de um “primitivo” que as esclareça, e, que o seu erro, quantas vezes, é procurarem um âmago com altivez- que só ao saciar deveria respeitar- e que em penúltimos e últimos esforços revela afinal o objetivo de desenhar uma árvore que expresse o âmago de uma criança que esboça e consegue demonstrar a visão do sentir primordial.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro

CRÓNICA DA CULTURA

 

A criatividade é sobretudo a ideia nova da curiosidade

 

A fome da experiência diferente existe. O excesso que quebra o entorpecimento e nos faz sentir a necessidade de espreitar pela janela, é em si, uma abordagem da consciência sem medo das emoções: a raiz da força da ideia nova.

 

Pelos canais das intuições, as empatias do entender o fundo que se não mostra, separa-se mesmo dos outros sentidos, e, dão o salto sozinhas, num processo interno de diálogo e de recolha interpretativa à precisão das nossas perceções. Este um dos caminhos da intensidade e das razões por que ocorre; este um processo vivo de interatividade que até pode ser doloroso, insuportável mesmo, face à decisão do que fazer com a nova informação. Como reagir à nova cor? À nova palavra? Ao novo som? Como criar a nova substância, face ao que existia, quando em peças isoladas a intuímos?

 

Não é fácil. Há que abrir passagens na própria barreira das nossas emoções. Há que ter aprendido a necessidade da curiosidade, aprendizagem que sempre se iniciará e acabará no nosso coração, nem sempre generoso ao trabalho de sapa que nos leva às razões.

 

Criar é também tornarmo-nos fluxo e refluxo do nosso próprio entender, e expô-lo a interagir, e, por aqui, quantas vezes, enrolados nós até aos outros, e a luz do mapa que percorremos e que afinal não foi suficiente. Ainda assim a criatividade vai decidir como proceder para alterar esta situação e afinar desculpa, corrigindo o processo energético desperdiçado num saber que o não chegou a ser, ao menos pela diferença da criatividade e da curiosidade, ambas, quantas vezes, sem libertação suficiente para a todos convidar ao mais longe possível, por onde sempre podemos começar um décimo segundo passo, no validar da criatividade, atributo de uma curiosidade fértil e atenta e responsável.

 

Também dentro do ato criativo, dentro e bem dentro da curiosidade imparável, existe uma hospitalidade universal em nós, que significa um direito do que é estrangeiro e que chega até nós - sua nova morada - e não invoca acolhimento, antes visita, e nos convida a ir até ao outro lado da terra prometida sem qualquer mapa que nos oriente.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA


Hoje eu e meu marido - casal jovem que só visto – fizemos esta bela figura:

Veio o metropolitano, e o meu marido desatou a correr gritando-me, corra, corra que são só três carruagens e corria, corria, e eu, obediente mas sob protesto, corria também, mas sempre a gritar o metro está escuro, todo escuro e corria, corria. Até que parámos pois todos olhavam para nós e de resto o metro não parava, nem parou.

Enfim. Carruagens à experiência e adultos em plena interpretação interpretativa da realidade.

Eu ainda disse ao meu marido quando me sentei bastante cansada:

Os do outro lado da plataforma estão a pensar: aqueles velhos correm que se fartam! Daqui a nada estão no Tejo!

E não é que de repente veio o metro deles só com três carruagens e eles, os da outra plataforma, que tanto se riram de nós, corriam que nem desalmados, atras das três carruagens e a fazerem gestos para o motorista parar? Pareciam doidos. O metro cheio, cheio, e eles, a correrem como se coubessem se o apanhassem.

Ele há coisas!  

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Diria que saber pensar é o vocativo, a circunstância vital que dá contexto à nossa existência. A insuficiência do esforço é o que nos torna arrogantes na aproximação ao saber pensar. Julgo que teremos de nos ensinar a ler a partir de um nível humilde para avançarmos passo a passo e evitarmos cometer os erros das grandes passadas na vida, que não são mais do que grandes golpadas à vida que se diz não querer viver. Queria dizer que muitas vezes senti que só o ensino é a transmissão de uma fruição, só o poema em qualquer realidade que se manifeste, é superior à falsidade, até aquela que, na súmula, entende ter ganho em todos os tabuleiros do bel canto, ou essa outra que uiva mais alto do que os lobos, e atraiçoa a amiga ou cativa o estranho com fantasias de rapto, afinal, vulgar, pois a solidão escapou-se a ser entendida por falta de uma cultura articulada, por não repudiar inequivocamente uma mesquinhez à qual se justificou ser por amore e con amore.

Quelle effrayante responsabilité, pour nous!

Em resumo, digo que proponho um conjunto de pensares sobre o pensar do pensar. Proponho o pólo oposto até hoje não alcançado, e, façamos sim, tudo de novo, entre a inocência e nós próprios. Tentem-se as novas formas de literacia humanística, e atente-se que são musicais e não textuais ao raciocínio. Então talvez o discurso nos seja incapacitado pelas mentiras da moral que afinal tanto deixámos que nos enfeitasse, tanto quanto o ato de julgar quem menos merecia e que afirmámos, enfim, não fazer a ninguém a partir da consciência do nosso próprio processo de crescimento. Saibamos também desembaraçar as metamorfoses dos valores depois de despidos das análises das suas causas.

Na primeira chuva que vier, uma cerimónia evocará outro contrato cultural, outro recurso que nos será acessível, se para tanto: nós!

Exclamação à nossa sorte! a penetrar a grande profundidade e talvez não inteiramente má.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

CINTILAÇÕES

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande. Ele sabia do seu posto de vigia que mundos eu espreitava e que ele unira como uma tribo que em comum afinal possuía a religiosidade.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e senti o quanto ele se separou dos seres intermédios na busca do significado armilar dos mundos com vocação de abraço.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e entendi um especial significado sagrado e simbólico de matar para entreabrir portas como quem oferece o beijo quente do êxtase inaugural de um conhecer.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e toquei no início dos caminhos dos grandes sistemas que explicam o que se prescreve e se permite e o quanto a história nos fala também num tom piedoso e repreensivo como quem nos diz que afinal, um dia, não se pode evitar fazer de outra maneira e só na caça cumprimos os vestígios do nascimento do homem, sempre que o homem não mate apenas para obter a presa.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e ciumei o seu perceptor Aristóteles e a sua Macedónia e o seu ímpeto de unir impérios e fundar Alexandria onde hoje procuro uma vez mais o Livro.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande aquele que expandiu o helenismo também rumo ao Oriente, aquele que erigiu Bucéfala no atual Paquistão, em memória do seu fidelíssimo cavalo que se assustava com a própria sombra e se deixou domar contra o Sol: cintilações.

 

Um dia espreitei e escutei Alexandre o Grande através do Somewhere in Time, disco da banda inglesa Iron Maiden e creio ter intuído o Helesponto, a atual Dardanelos, estreito na vida de cada um com o grande passo por dar.

 

Um dia, eu quero espreitar cada um a desembainhar a espada com a qual cortará o nó górdio que impede a revelação das múltiplas verdades, esse que impede a alma do ofício do entendimento, e sem nunca revelar o mistério completo, eu quero espreitar a grande nobreza a prometer-se de novo no Ano que chega, a despedir-se do ano que finda e a cumprir-se na notícia do tempo que todos os seres vivos têm para a mudança.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e soube disso na caça das palavras evocativas do… Que sabias realmente?

 

Teresa Bracinha Vieira

Obs Publicado em 27.12.09 no blogue de José Adelino Maltez “TEMPOQUEPASSA”

CRÓNICA DA CULTURA


No Éden, uma vez, era de noite e ainda assim a salvação dos náufragos se vazia com regularidade e leveza. A grande arte do entendimento era visível nestas noites iluminadas pela luz noturna da felicidade. As faias esbeltas e os frondosos ulmeiros do jardim deste local sabiam que dali as andorinhas nunca partiam, e o Éden, sereno de não-poderes, conservava-se inocente e romântico.

 

A ele chegaram durante o resto da noite boreal, muitos violentados, como se não fossem humanos, e, no entanto, eram seres viventes vindos dos subsolos suspensos na sobrevivência. De surpresos, perguntavam-se entre si, se deveriam aguardar um eclipse fatal ao que lhes estava a acontecer - por belo demais ser - ou, por bem conhecerem a sua própria condição, assim aceite, sem luta.

 

Pela manhã o Éden expôs a sua cartografia interior e nela se podiam ler todas as aparências, todas as seduções insinuadas, todas as chaves que se urdiam para a decifração, e, fio a fio, os seres desvendavam os segredos de um outro ser concreto.

 

Confundidos entre os destroços de uma esperança e um desejo de reerguer o mundo, voltou a adensar-se um voo estranho, um voo quieto, sem trégua nem termo, e os náufragos, de muito longe, então, sentiram chegar outro Éden, outro jardim, e nele, uma crença de eventual passagem para a teia do saber primeiro.

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

José: o seu imenso o seu silêncio

 

Imenso também foi o tempo da violentação como o viveu. E só agora me atrevo a escrever sobre José, cinquenta anos depois da sua morte. E ainda não sei se o mereci entender.

 

Conheci o José tinha eu 4 anos e no seu colo senti o colo para onde se quer fugir sempre, num dorme infância minha, minha total confiança doirada! Nos seus olhos uma pergunta tão nítida tal como a sinto hoje: a pergunta que o amor faz ao amor

 

Tu amas-me? Tu nunca me deixarás? Sentirás saudade quando eu partir? Como irás compreender o bosque escondido onde vivo?

 

O José era homossexual ouviste? Nunca te disseram pois não? Pois é. Era sim, e nós ainda pagámos o colchão para lhe atenuar as dores das feridas que nos foi pedido lá do lar dos pobres onde estava. Sim que ele foi lá parar, gastou tudo, e a família não quis saber. Não tinha visitas de ninguém, tinha feridas. Tinha sofrimento e como dizes, sofria seguramente da doença do esquecimento profundo, enfim, depois de tudo ser culpa dele. E gostava muito de ti. Isso era certo.

 

Disse-me a Laura de jeito agressivo, quando eu já tinha 35 anos e lhe falei nele.

 

Mas o José era presidente de… Mas o José era muito culto e conhecia música clássica como ninguém. O José foi combatente na grande guerra e com muita honra arriscou a vida. O José era um homem lindo, cheio de classe, e era de uma ternura envergonhada e sempre imobilizada contra o chão, e eu não percebia o porquê. E se era homossexual, o colchão que lhe pagaram no seu leito de morte, fez de vós melhores pessoas no entendimento áspero da vida dele?

 

Pois digo-vos

 

A casa de seus pais era um sonho de filme e era o dia do seu regresso da guerra. A mãe – de quem herdara a beleza – acabara de sair da cama e penteava os seus longos cabelos quando ouviu as filhas a gritarem, é o José, é o José, chegou da guerra! E por muito improvável que fosse o conteúdo das palavras, a mãe do José desceu a longa escadaria a correr, segurando para não cair, na sua comprida camisa de noite branca, os cabelos até às ancas, esvoaçantes por entre as rendas do penteador, e, de repente, o seu filho fardado, ali mesmo a um ou dois metros e ela caída aos seus pés num choro convulsivo exterior aos limites do seu ser. Senhora do céu em vénia longa e sagrada, e José ajoelhou-se tentando levantá-la

Mãe!

 

Um dia fui ver o quarto onde vivia. Teria eu talvez 11 anos. Vi uns móveis antigos muito requintados, a sua espada e o seu relógio que me olha agora de frente para o meu eu e mundo e futuro e passado tudo nos domínios vedados da vida e da morte.

 

Uma mulher horrível mostrava o quarto vigiando para que nada dele saísse. Era tudo seu, dizia

 

Sabe? Rendas atrasadas devido ao vício luxuoso e repelente que o atormentava, mas ao qual não dizia não. De resto até poucos lhe arrendariam quarto. Eu foi por pena, e por ele ter sido quem foi.

 

Mas vim com um relógio, este que tenho à minha frente, de madeira (um AEG) de horas estranhas a espreitarem numa janela pequenina, enquanto os minutos são a grande varanda do tempo que marca, e também veio comigo um quadro de Acácio Lino, “As amendoeiras em flor” que já não possuo a não ser no fundo dos meus olhos.

 

Tudo do José é do fundo de mim que o procuro, que o velo pois velar sobre ele é ele poder vir ao sonho que estou a sonhar. Escuto cínicos risos ocultos, é certo, mas escuto Puccini. Soube dos gumes no seu peito no dia da agonia amordaçada ainda que nunca de mim esquecida aquando da notícia, mesmo que na altura ela fosse apenas um embaciamento triste e vago.

 

José!

 

Podemos ter a audácia de nada esquecer, nem mesmo esquecer as juras sem motivo. Tudo nos está prometido quando chegamos à vida até a não liberdade da origem. É tão importante saber que agora não tens frio: abraço-te com algodão e estou contigo no meio dos sorrisos dos simples gestos que tivemos, hoje cúmplices e frescos de esperança sobretudo porque em ti

tu que nunca morrerás.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

De cogitar em cogitar enche a ufana galinha o seu papo: tel quel

 

Um dia acordou uma inteligência toda empertigada e mal dormida e resolveu bradar de rompedura qual aristocracia tocada a gota:

 

Não há pachorra! Não aguento ter de aturar as vaidades ocas e possidónias de certos ambientes. Como é sabido estão todos em dívida para comigo ainda que não o digam, ou, ainda que seja eu a pedir-lhes que me escutem, pois é para o bem deles. Só por isso. É para o bem deles. Eles não sabem o grau de indecifração de pensar que têm e eu quero ajudar. De nada preciso. É só para ajudar que faço isto do meu cogitar: ou seja, produzo inteligência, o que é o mesmo que dizer que o meu saber sempre viajou em primeira classe e eis agora a qualidade! É gente inculta e ufana esta que me rodeia hoje, é gente que se vende já que uma mão limpa a outra.

 

Agora eu? Eu? A minha inteligência é rara em grau e dimensão e nem se fala mais nisso. Não me restam dúvidas. Ora. Ora, então o gajo diz-me xxxxxx e ainda me cita sem autorização e fazendo dele o que é do saber da minha inteligência? Eu tenho a minha identidade muito clara e impoluta e se já fiz algumas foi dentro do necessário e sem deixar impressão digital. Agora o que me cerca? Valha-me Deus, posso viver em milhares de lugares melhores e renová-los por competência própria. Não há pachorra para tanta vírgula desencontrada, nem para o alívio das reticências. Num ponto de exclamação não se toca nunca! desde que lá esteja posto por mim, obedecendo às melhores e assépticas regras gramaticais. Mas os meus pobres olhos, até já fazem a correta pontuação onde a não vejo ou a minha inteligência não lesse muito e não fosse dona do livre-trânsito da condescendência de fazer borlas à correção do mal que possa ler. E ainda acham que me estão a dar uma oportunidade à minha inteligência? Isto disse-me o amigo xxxx, à boca fechada, aquele que me chama de excecional e me envia e-mails quase a desconvidar-me: a mim e comigo à minha inteligência, ao meu saber que sabe que há milhares de lugares melhores!

 

Cambada de monocromáticos!

 

Que tempo sem caridade este que não partilha como eu uma sessão de condecorações, uma talhada de presunto do tempo do défice, uma missa cantada à hora de dormir. E mais digo, se a minha inteligência é sarcástica, é tao somente por ter uma teoria muito minha sobre todos e que nunca revelei, nem revelarei.

 

Mas que há milhares de lugares melhores, ai há sim senhora! O que por lá comi foi cozinhado com tédio, é certo, mas com uma exigência….tel quel! Tel quel!

 

Teresa Bracinha Vieira