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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

As sociedades grisalhas: o idadismo

 

Questionar o contexto demográfico que descreve o mundo atual, em particular definindo o envelhecimento da população é importante porque em grande parte explica o fenómeno das atitudes negativas em relação às pessoas mais velhas. Preconceitos e discriminação ferem as pessoas idosas atirando-as, nomeadamente, para o grupo dos sem grandes ou nenhumas capacidades, sendo que o “idadismo” não é compatível com a mudança social de um país como Portugal que tanto necessita de ver um futuro bem diferente.

 

Li que em 1969 o psicólogo americano Robert Butler procurava explicar o termo “idadismo” (ageism em inglês) quando procurava um esclarecimento às reações negativas de uma comunidade face à construção em determinada área das redondezas da mesma, de casas para pessoas idosas. Conclui Butler que não constituindo estas pessoas idosas qualquer motivo de provocação de medo ou de afrontas, somente a idade levantava questões à comunidade pois diminuía o valor imobiliário na zona e mesmo o charme da vizinhança.

 

Em rigor a Suécia e o Reino Unido têm feito um esforço no que se refere às práticas negativas contra alguém, baseadas na sua idade. O idadismo – envolve preconceitos e sentimentos que se têm em relação a um qualquer grupo etário- não descura as pessoas idosas e talvez por essa razão se chamarmos gerontismo, estejamos mais próximos da senilidade de espírito que se quer apontar, ainda que nem sempre presente na realidade, e, por essa razão, para a sua ausência, queremos alertar.

 

Tende-se a criar grupos de idosos com traços negativos baseados na incapacidade, na doença, no sentimento de desdém, e, até na piedade que empolga sentires desditosos face ao aspeto espelhado pelo enrugamento de pele ou pela curvatura de dorso, entre outros sinais de velhice como o longo olhar inquiridor e mesmo zangado de muitos idosos, que tanto indicam a pergunta da razão da injustiça que suportam sob o nosso consentimento. Existe uma ideia do que é feio na velhice e que conduz ao distanciamento, ao abuso e aos maus tratos, não necessariamente por via de agressões físicas, mas pelo abandono do idoso, reduzido ao mimo hipócrita de um comportamento cultural da visita aos lares, onde se depositam na maioria das vezes, espelhando sempre que um idoso tem local certo, possa o jovem familiar ter ou não disponibilidades de lhe retribuir em conforto tudo o que ele, uma vida inteira lhe proporcionou.

 

A discriminação em relação à idade do idoso é em Portugal um núcleo duro a vencer. Será de perguntar a todos os idosos se já foram maltratados devido à sua idade? se, já lhes foi questionado, quando não, subtilmente insinuado que assim sofrer é o normal face à idade? Creio que por medo de abandono total ou agravamento dos receios em relação a quem deles toma conta quando estão à mercê de desumanidades, poucos são os que diriam a verdade. Pois que aguardem a morte serenos, pois que assim cumprem o dever fundamental de entenderem os constrangimentos que impõem a quem deles por estes modos assumem a responsabilidade de os tratarem.

 

Não se pretende promover a incapacidade ou a dependência com bem-intencionados atos. Não se pretende que se não viva por ter um idoso em casa, mas que se compreenda o delinear de políticas adequadas que combatam a atitude de uma condenação à espera da morte e mergulhada em desamor: eis o que aguarda numa desilusão estilhaçada a nossa sociedade grisalha, aquela que poucos anos antes ainda aguardava que, esperança de vida, afinal, levasse a uma pertença de estatuto a respeitar.

 

A Europa é a região mais envelhecida do mundo. A redução do crescimento demográfico associado ao aumento de esperança de vida com profundos impactos económicos e também sociais, e não se descuidando imigrações e migrações, não deixa de nos impressionar, e, de acordo com o INE em 2007nos próximos 25 anos o número de pessoas com mais de 65 anos poderá duplicar o número de jovens.

 

Recordo que em 2006 a União Europeia iniciou uma discussão sobre os desafios a as oportunidades trazidas pela sociedade grisalha, mesmo no âmbito do trabalho e da interação dos saberes. Teve-se em conta também a proteção social e as finanças públicas. A ideia de que a dispensa dos trabalhadores mais velhos tem de ter lugar para que os mais novos ocupem posto, é só por si tao desprovida, que, a economia chamou a este pensamento, a falácia do pulmão, comparando com o ar que neles entra, saindo consequentemente o que lá estava, e assim de jeito reducionista, se expulsam as hipóteses das pessoas mais velhas serem portadoras transmissíveis de criação de riqueza, não obstante o ter presente os processos de envelhecimento e a diminuição de capacidades funcionais do organismo.

 

A esta temática voltarei, ou, na fila de uma farmácia, não tivesse escutado uma senhora de 70 anos, dirigindo-se à farmacêutica

 

Sabe a sensação que tenho com esta minha idade? É que sou tratada como se critica que os negros o são só por serem negros. Ninguém faz esforço para me entender, disparam a arma do julgamento só de me olharem os traços da idade. Isto não é uma sociedade inclusiva. Envelhecer assusta mais do que ter enfrentado a vida 70 anos. Poucos são os que atuam de modo diferente em termos individuais sequer, e, nem se dão conta de que muitos dos paternalismos magoam fundo com o cobertor de fibra que envolvem. Faz feridas entende? A interpretação de um idoso parece que é tão necessária como compreender diversas etnias.

 

É uma ideologia, pensei para mim. É também uma cultura que não é explicada às crianças garantindo uma comunicação normal entre todas as idades, e, que ameaçar é crime. Ameaçar com afastamentos, formas de abandono e desamor é crime, e, no futuro, todos nós assim acabamos a ser o seu alvo preferencial como garantia completa do termo da história. 

 

O «écran-circo» distrai-se nas aparências sem essência. A sociedade grisalha entrou no mundo pela memória das máquinas, pelas barbáries simuladas de afetos. O horizonte do verbo foi-se desfocando com a passagem dos anos: resta perecer sob a dignidade possível.

 

As pessoas idosas têm uma ideia clara da desvalorização de que são alvo na sociedade em geral. As manifestações idadistas quanto muito toleram coexistências de saber, mas raramente intuem o quanto esse conhecimento é diálogo de aprendizagem. Ainda estão na fase da arrogância e do tudo dominarem sob muitos títulos, sendo que para esses também o símbolo de alguém curvado com uma bengala é rótulo de idoso extensível a um perfil codificado.

 

Bem basta que o corpo vivido se alterne em contrações e dilatações a nós estranhas: o próprio espírito olha-o com um despropósito entorpecido.

 

Paira sobre todos nós, envelhecer, com o perigo de muito, muito envelhecer, tanto que o destempo pode chegar com o estrangeiro que nos oferece um dormir lá onde e aonde se escondem as mensagens da nossa sedução, e, se inspira o cheiro das tílias que se entrançam para partir.

 

Digo: antes desse momento em serenidade desejado por todos, eis-nos ainda a tempo.

 

Que os jovens não cumpram o trabalho de termiteiras: esse é o maior amor que lhes podemos desejar, o único capaz de não lhes fazer sentir o seu futuro, precocemente amedrontado pela velhice!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A garrafa de cristal

 

A porta ao fundo do corredor estava sempre fechada e nunca nenhuma criada a abria para ir limpar aquela que era uma sala comum aberta aos natais.

 

Um dia, atrevi-me e abri a porta espreitando lá para dentro transida de medo. Desconhecia o segredo e isso criava em mim um imaginar de coisas ruins, pelo estranho respeito que todos tinham pela porta fechada. Atrevi-me, e, vi uma sala num lusco-fusco de janelas quase fechadas e um brilho estranho em cima de um dos aparadores.

 

Fechei a porta e desapareci dali. Depois comecei a reparar que a Tia Carolina cada vez que passava junto à porta colocava a mão na chave da fechadura e puxava-a para si, como se estivesse a tirar alguma duvida de que a porta pudesse não estar bem fechada. A avó fazia o mesmo. Depois pela hora do jantar quando o dono da casa chegava, todos ficavam atentos ao seu percurso até à saleta. Este “todos” abrangia as criadas, sabedoras do segredo. Era visível que se sustinha a respiração até ele passar pela porta sempre fechada da sala e rumar à saleta. Entendi, então, que ele nunca deveria abrir a porta e que se o fizesse a casa explodiria em discussões e tremuras de vidas não ditas.

 

Lembrei-me do brilho que vira. Ia criando a ideia de que o problema era aquele brilho branco e avermelhado, o que continha o mistério. Um dia, num repente, abri a porta e entrei e fechei-a atras de mim num ápice. Olhei para o brilho da garrafa bem de frente e percebi que era uma garrafa de cristal esguia e alta com tons avermelhados e brancos. Ao seu lado uma salva de prata que lhe garantia estatuto. Percebi tudo. Era uma lâmpada de Aladino desta vez em formato de garrafa. Realidade preciosa; mas qual a razão que impedia o dono da casa e afinal todos nós de a vermos, mesmo que desconhecêssemos os seus poderes? por desconhecimento do código que a massajasse no angulo certeiro?

 

A tia deu-me um grito

 

Que fazias dentro da sala? Não sabes que não é local de brincadeiras?

 

Fui ver a garrafa

 

Ah a garrafa! Dentro dela existe a emanação de uma alma, não sabias? De dentro dela saem sombras se a luz do sol as acordar. Nunca mais te quero ver ali.

 

Senti-me aniquilada como um grão de areia quando pisado. Escapei-me para o meu quarto e enrolei-me na cama entre os cobertores, mas o frio não passava. De repente tudo naquela casa era dividido por criaturas e destinos. De repente entendi que as perguntas decisivas nunca as poderia fazer ali. Ali havia inclemência, ninguém saía da escuridão para a vida. Só a garrafa acedia a entender a sua força, o impacto do seu tempo íntimo. Corri com Aladino e convoquei o olimpo. E exatamente naquele momento ouvi a chegada do dono da casa. Ouvi-o a dar a volta à fechadura da porta da sala comum. Perguntou num grito ameaçador e seco, onde estava a garrafa.

 

Abri a porta do meu quarto e ainda vi a avó sair quase correndo para a rua, submissa, de cabeça inclinada para o chão. Saía só com o que tinha vestido e era final da tarde da chegada de um inverno. A tia Carolina respondia aos gritos do homem da casa, gritando-lhe também e recordando-lhe a sua inocência total no desaparecimento da garrafa e que a culpa era da avó que tinha acabado de provar essa mesma culpa, fugindo.

 

Pela manhã, ainda em robe, a tia entrou no meu quarto e inquiriu

 

Não sabe que tem de ir buscar a avó? Levanta-se. Vá. Ela deve estar à espera, leve-lhe o casaco dela e não entre na pensão onde ela está. Diga à porta que a vai buscar e nada mais. Já sabe onde é.

 

Viemos as duas quase sempre caladas. Eu e a avó. Junto à entrada da nossa casa eu disse-lhe

 

Não tenha medo da garrafa. Ela é falsa.

 

Entrei em casa com a avó que se dirigiu a chorar para a saleta.

 

Entendi que o tempo era enfim chegado. O tempo de descobrir a porta de acesso a outro reino distante daquela casa tinha chegado e que forçaria todas as sortes: a decisão ancorara-se no meu espirito. A soluçar, compreendi que um poema muito tempo ao abandono pode sofrer a erosão do tempo de vida e envolver-se no túmulo da garrafa de cristal.

 

Levantou-me uma grua firme e, tendo ali ficado, fugi para sempre.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

E discutia-se se a alma deveria ter acesso a cuidados paliativos ou a alguma competência específica que lhe acudisse na dor. Falava-se em várias especializações da medicina contemporânea que podiam abordar a temática, mas sobrepunha-se a objetividade, agora tolerante, que, levava a que a alma fosse vista como uma espécie de fatalidade que em nós vive, e, que a dor física enquanto fenómeno universal se não podia reconduzir a fatalidades, nem que se deitasse mão a teologias ou a filosofias. De resto, houve mesmo quem dissesse que então, a existência da alma era um mal em nós, já que atormentava a todos, e que afinal, era ela bicho-homem em dor de invencível natureza.

 

Olhando a todos, disse baixinho

 

Mas a alma chora de dor e é muito difícil não lhe acudir pois ela mostra-nos, como ninguém, no amor.

 

Alguém acrescentou

 

Sempre podemos fazer-lhe uma cura de sono para as dores mais insuportáveis, ou até para quem a não queira deixar partir em fase terminal, poderemos sempre anestesiá-la ou induzir-lhe um coma. É uma tranquilidade para todos. A medicina até pode criar sub alternativas dentro deste saber. Mas atenção! o sofrimento moral e físico, unidos, são uma falta de compaixão da alma, por abandono dela, da pessoa amada. A dor da alma, em pensamento – já ouvi dizer - tem uma figura estranha e difusa, de tal modo que as biopsias não lhe encontram o certeiro lugar para se efetuarem e delas sair diagnóstico.

 

Não concordo, disse eu

 

Desculpem, nada sei de medicina, teologia ou filosofia, mas a alma quando chora expõe lugar e respirar e pode ser detetada pelo estetoscópio dos olhos. A alma quando se contém em dor é insónia em destroçado ponto de interrogação. A alma dá sintomas quando feliz ou doente. Sente-se nela um pulso irregular quanto baste à interpretação. E que se não sugira ver a alma através das ressonâncias magnéticas e assim averiguar local ou posto dentro do corpo, pois ela tem poderes para escapar ao contraste que existe para se efetuarem estes exames.

 

Então e como se faz, na sua douta opinião, perguntaram-me em desafio

 

Pois não sei. Nem sei qual a terminologia que exprime as dores da alma. É muito difícil de dizer, mas sei que ela pode morrer. Por exemplo, morrer de amor, mas não só, morrer de abandono o que é terrível. E não acham que deveríamos ter antecipado a atenuação da sua dor enquanto ela insistentemente se queixava? E quando a alma se ri? qual o aparelho que sugerem para registar o estado da felicidade para que de futuro se use como paliativo, se necessário? Qual a análise ou exame de ADN que é avaliado na doçura de um sentimento vital da alma? Acho e só acho, que, a dor da alma há-se ser algo que fica cativa num órgão, e esse órgão é o cérebro que requer o que o coração bombeia. Quando lá está, enquanto dor, há-se ocupar um espaço anteriormente vazio - pois enquanto felicidade ela é ar. Então, se se procurasse esse espaço e ele estivesse cheio, era como encontrar o local e formato da dor, e decifrar a partir daí, a partir de uma infinidade de pontos, o fio do seu discorrer. Pelo menos surgiria o início de um horizonte de inteligibilidade. Não? Mas não procurem circunvoluções: a alma não tem, é diferente. Acho que é algo sensorial, algo que sentimos viver, padecer e morrer e ainda que pertença ao corpo tende a identificar-se com uma essência que lhe atribui ou retira a vontade de viver. A alma é uma força que se rende ou não ao conhecimento dos limites.

 

Não cabe à medicina, ouviu-se em coro. Ou cabe, no que a psicologia e a psiquiatria propõem. E noutro apontamento

 

Deus dirá, um dia. E continuaram uns

 

E a literatura e as artes em geral não lhe são irresistíveis em tratamento adequado? Como quem conta uma história em doses de prescrição certeiras?

 

E outros

 

Nem se lhe imputa culpa por não caber à medicina o seu tratamento. Só a felicidade é salutar ao corpo: a dor retira-lhe a energia. Isso sabe-se. Resta saber se verdadeiramente a alma viver no cérebro, é ela assim mais útil ao homem do que se viver no lugar do não se sabe

 

Ainda somei

 

E desse lugar, deitar ela mão a uma mãe que a console com atos e palavras, qual remédio sem prole, mas que vá confortando, como só reconforta, quem, em bondade, for a última testemunha da vida. Quanta expectativa!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

De quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Continuamos a ver e a interpretar as notícias do burgo e do mundo como se não dessemos conta que, o que ao de cima vem, é o espetáculo do acessório ou nem isso. A lista das futilidades noticiosas mistura-se na dose e sequência de alinhamento propício ao não desvendar daquilo que é verdadeiramente o cerne de uma lista terrífica e que não acaba, e que devia escandalizar-nos de tanto sofrimento e miséria humana, tudo neste século que, afinal, arrasta consigo os plexos de interesses ocultos, depois de nos ter promovido honoris causa ao indiferentismo mais total.

 

O delírio sem vergonha dos “velhos do Restelo” que nunca pensaram ser críticos também do reverso de si próprios, é pródigo na evidência da fraude do perguntar e premonitoriamente não conseguem melhor do que criticar supostamente antes de um acontecer de matizes nos espelhos, ou, quando já é muito evidente que 2+2= 4. Acresce que se sentem muito estrangeiros no meio dos homens que eles próprios vão regando não vá existir pior num outro mundo. Em tão patética paródia tudo se torna num sem contorno ao qual se afeiçoa a insídia.

 

Depois os comentadores -pretexto, nova e promissora profissão que os catapulta para capítulos de vida que lhes assegura bem-estar na hora e na velhice, e, não são estes paralisados pelo que se despreza, como se imaginaria, antes fazem parte da natureza da austeridade das regras-que-eu-sou-bom ou boa e tenho poder, principalmente na ilusão da não vaidade que projeto de o não ter. Eu sou a resistência ao sistema à outrance, creiam, eu defendo país e mundo gritando as reformas para nos salvarem, e que cada um não trate de si aproveitando a desordem, não senhora, só se as coisas derem mesmo para o torto, mas nessa altura criarei um novo cânone e dele vos farei saber seguir.

 

Também os acima dos muitos nos chamam constantemente a atenção para a igualdade de direitos dos cidadãos perante a lei, conhecendo a metamorfose desta, na radical desigualdade perante os cidadãos. E assim vamos, sendo filas de lixo destinados ao lixo, adulando lixo na excelência de espirito de quem não o vê nem reconhece como tal.

 

Destes e de muitos outros modos se conquistam terras limpas aos espíritos dos homens quebrando a vida e impondo o fim que devora seres e sua alteridade humana.

 

As supostas elites por se terem como tal, orientam-se bem na absurdidade irresistível a que vão desde cedo aderindo, tudo cortando enfim, em troços idênticos que, por óbvio, não escapam à uniformização, ela mesma disponível no mercado, num otimismo ao qual a paixão lhe não faz frente de há muito.

 

Insensível este mundo não submete em muitas circunstâncias: faz pior, suprime e nenhuma vítima o apazigua, afinal.

 

Numa montanha: logo se imaginam os minérios a extrair; num segredo megalítico: um íman para turistas; num animal: sua pele; numa tese: seu eventual estatuto de sapiência, e, todos estes sentires estão reunidos nos campos de concentração de hoje; nos campos de refugiados ou nos mares dos botes que despejam gente à morte, esta de boca ávida e aberta face a tanta constância que lhe é oferecida.

 

O grande empório da absurdidade roda à escala planetária e a degenerescência do seu senso já não é há muito a espuma da onda que se entrega na areia da praia. O grande empório, na sua excitação, só conhece um ponto onde a cada noite atraca: o inóspito mundo que resta.

 

E de quem é a culpa? A culpa é nossa.

 

Mentira e mundo já não logram libertar-se. As termiteiras informáticas reúnem uma cognição sem chama, mas que opera sem falha na destruição de tudo o que não entende.

 

Pergunta-se: e se doravante insubmisso o espaço literário germinasse de tanta inquietação?

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Eram seis da manhã quando acordámos nos quartos do sótão que tanto amávamos na nossa casa de praia. A empregada bateu as palmas ao entrar nos nossos quartos totalmente forrados a pinho e salpicados com fotos dos nossos ídolos e gritava

 

Vá meninos se querem ver aquela cor do mar no céu, vamos a sair da cama depressa.

 

E nós os três meio trôpegos de sono vestimo-nos num ápice, e, escadas para que te quero que se faz tarde.

 

Cada um a roer a sua maçã, descemos a ladeira de terra e pedra que dava acesso à praia e ali na areia nos sentámos ao lado do António Lameja, nosso banheiro e salvador, mas que não nos salvava dos banhos gelados a que pelas 11h o nosso pai dava ordem que todos tomássemos.

 

O meu irmão mais velho perguntou-lhe

 

É esta a cor?

 

Não, chiu! é mais daqui a bocadinho, mas estejam calados, pois ela pode fugir.

 

A nossa ansiedade e alegria cresciam à luz de prata daquela manhã em que veríamos a tal cor no mar colada com o céu e que em agosto só naquele dia e hora surgiria.

 

Agora de pé, já, gritou Lameja, olhem bem lá no fundo do horizonte: veem aquele tom amarelo? Aí vem a tal luz que sobe para o céu e se torna azul e branca e que é igual à dos santinhos dos missais que mostram a cor dos milagres.

 

Sai de dentro daquela nuvem lá ao fundo? Perguntei

 

Não menina, essa é uma nuvem que acorda mais tarde e quando se abre, sai por seu pé, bem leve, um pouco do sol, aquele que depois é gordo durante o dia.

 

Mas vejam agora. Olhem.

 

E fixámo-nos todos numa auréola que tomava cor amarela e azul e branca e dela saiam uns traços lindos do mar, erguidos para o céu, ou, do céu descidos para o mar, tudo num abraço de cores e luz esplendorosas.

 

Que lindo, que lindo disse o meu irmão mais novo, agarrando-me os ombros. Aquilo é um milagre ou é a natureza lá do alto que chama o mar e ele sobe sozinho?

 

E o Lameja

 

Ó meninos, não duvidem, aquilo é milagre não veem logo? São focos de luz com vida que se cruzam em mar e céu e dão nesta cor de oiro de pasmarmos. Debaixo das águas os peixes também a veem, e, logo saltam para dentro dos barcos dos pescadores, não sendo precisos anzois ou redes, e fazem-no por tanta beleza terem visto, preferindo morrer logo a seguir a esta hora do dia do mês e do ano e, morrem transformados em oiro! Pronto! Viram? Vá, ide para casa, já viram o segredo.

 

Tiveram muita sorte, podia até chover. Ide, ide tomar o pequeno-almoço.

 

Subimos a ladeira devagar, mas íamos olhando para trás, para o mar e o céu.

 

Que viste mana?

 

Uma borboleta que veio do céu beber agua e tu?

 

Um fantasma bom. Um daqueles que toma conta das aparições desta hora.

 

E tu mano, que achas? Ou antes o que viste tu?

 

Ora eu vi o mundo quando estamos a dormir.

 

Entrámos em casa e a empregada perguntou-nos: que tal? Como foi, meninos?

 

Eu respondi

 

Pois parece que vamos ter peixes de oiro para o almoço. Sabes cozinhá-los?

 

Os de oiro, não.

 

Ainda bem. Devem ser rijos. Mas queres que te conte o que vi?

 

Sim, menina.

 

Pois vi o céu azul vestido de borboleta para esconder que é princesa que namora com o mar àquela hora e abraçam-se e tudo.

 

Com beijos?

 

Claro, com beijos também, acho que é uma hora de intimidades com muitas cores. Nada de especial, mas mesmo assim é muito bom.

 

Jesus Maria! Até estou arrepiada. De fato Nosso Senhor não pertence à raça humana!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era um dia de abril. Lúcia abrira a porta do quarto que ligava à varanda e esta ao mar, aos pássaros, aos barcos, às flores, à romântica mesa onde estivera a ler no dia anterior o livro “Engenho”.

 

A sua varanda parecera-lhe sempre uma galeria de arte fosse qual fosse a estação. No entanto, ao aproximar-se a primavera atribuía-lhe sempre o nome de “Alegoria”. Presumia-lhe uma infalibilidade de linhagem romântica e nela a existência de um halo perfeito a todos os estados de espírito e pensamentos. Sorria Lúcia para este seu entendimento de que o acordar em paz junto desta “Alegoria” não envolvia a imitação de uma arte por outra, nem sequer o engenho no pincel dos olhos da interpretação.

 

Deixara cair o envolvente xaile de seda e preparava-se languidamente, mas afoita, para recordar o que lera no livro no dia anterior. E de lá lhe chegava o tal homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade, recusava o enredado dilema que lhe propusessem acerca da razão, da paixão, da fé e do livre-arbítrio. Achava, que a linguagem desse homem era como a das ondas na areia: derramava coisas artísticas e claras e coisas que provocavam uma espécie de caçada científica atras da onda quando esta se recolhia de novo ao mar. Depois, pegava numa das flores que Mercedes - sua empregada- deixava todos os dias num cesto junto à mesa, e de si para si.

 

A linguagem escrita não é instrumento de confiança como é a visão de fotografia que tenho desta varanda. A linguagem escrita é até judiciosa, é uma coisa sempre perigosa, sempre poética como a música ou o fogo. A linguagem é o engenho? O que daqui vejo é uma verdade através dos cheiros, das formas, das cores, verdadeira sequência de sinais estéticos que são lições de segurança na vida e nela, de prioridades. Ainda assim, nesta “Alegoria” sinto-me como se viajasse em primeira classe num comboio de luxo para conhecer a India. E o homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade vivia próximo dos símbolos da realidade e não se equivocava a respeito.

 

Lúcia pegou no livro de novo, e sentiu uma curiosidade enorme em saber, espreitando para o céu, se viria aí tempestade e com ela o interrompido sabor de tudo o que luz num oiro de pressuposto em tudo cuidado, ou, afinal, num oiro de Cabo Horn. Oceanos e poderosos Andes que se dissolvem em ilhas poderiam ser vistos da sua varanda em alegoria viva na tarde desse dia.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A casa da Rosinha 25

 

A Rosinha 25 era a costureira da aldeia. Fazia todos os vestidos das raparigas solteiras que os levavam à festa anual da vila próxima. Os dias da prova dos ditos eram dias cheios de muita confusão na pequena casa. Vinham as raparigas, as amigas e as mães de todas para terem a certeza que a altura das saias era pela barriga da perna e que não existiam decotes para além da largura do pescoço de cada uma. A Rosinha 25, nestes dias, sentava-se nas escadas da casa que davam para a rua e com os vestidos num banco, ali provas e cores eram feitas e vistas com clareza.

 

O João Pataca pai da Rosinha 25 e filho do Manel Meio Tostão tinha dado à Rosinha 25 uma máquina de costura, joia única na aldeia, e que justificava a bebedeira do dia do nascimento do neto. A partir daí a Rosinha 25 bem sabia que tinha de fazer a lida do campo, mas vocação, vocação era a de costureira que rompia os alinhavos com os dentes que lhe restavam e a dar ao pé, lá iam as costuras por ali fora, como se um comboio a horas por elas passasse e não parasse. E vinham uns tostões a mais pois então, havia sempre uma vaca que os comia em palha no longo inverno.

 

Mas impressionava-me mesmo era com a casa da Rosinha 25. A cozinha em chão de terra húmida e bem calcada tinha forno de lenha de onde saía o delicioso pão quinzenal amassado por ela e uns suspiros feitos com as claras de ovos das galinhas que, na cozinha, depenicavam no chão o pão que o já muito velho João Pataca lhes atirava da velha cadeira onde se sentava desde as 7h da manhã e depois de beber a caneca de leite que tirava à vaca e que logo tomava como desjejum com um pouco de água ardente. Depois ali ficava à espera do almoço.

 

Recordo-me a comer os quentes suspiros dados pela generosa mão da Rosinha e a olhar para o formato da cadeira do João Pataca. A cadeira só tinha um fundo de cabedal roto e chamava-se cadeira porque encostada à parede dava para dormitar, enquanto se fora tratada como banco, o normal era o Pataca ao adormecer cair dele abaixo. Depois, da cozinha, via-se uma escada que, na altura, achava imensa e vertiginosa e que ia dar a dois quartos: o da Rosinha 25 e marido e filho e o do Pataca que o herdara do Manel Meio Tostão seu pai: e era este quarto que me despertava a atenção quando a Rosinha me deixava subir as escadas e ir vê-lo.

 

Cama de ferro com colchão de maçarocas de milho aos altos e baixos, lençol grosso e cor de terra clara embrulhado numa manta e tudo amontoado ao Deus dará em cima da cama e, debaixo dela, batatas e maçãs espalhadas com critério. O quarto cheirava a despensa ou a mercearia, não sei, mas muito me espantava quando depois de contar as batatas e as maçãs que a terra deles lhes dava, passavam-se duas semanas e o número era o mesmo. Rastejava de novo, e de novo contava as peças e de novo os números eram os mesmos.

 

Um dia vim escadas abaixo e disse para a Rosinha 25. Eu já sei contar e debaixo da cama do Ti Pataca estão o mesmo número de batatas e de maçãs. Então ó Rosinha, o que comeram estas semanas?

 

Ó menina respondia-me a Rosinha 25 no seu mais compreensivo olhar

Comemos pão e suspiros.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Pedia sentado no chão, sempre numa das esquinas da Place Vendôme. Fora para Paris há 27 anos e nunca a vida lhe fora propícia, acabando na rua, e dormindo num quarto gélido de um sótão de uma casa ali perto, por generosidade do proprietário a quem fazia todas as compras necessárias e lhe limpava a casa a troco.

 

A sua vida era feita de longos sonos sem dormir e de longos dias sem esperança. Fome e frio deitavam-lhe cartas de má sorte. Quando estas apertavam mais, lembrava-se de uma cómoda antiga que tinha herdado de um tio e que era o grande bem que lhe restava no quarto onde dormia. Via aquela cómoda como uma hipótese de independência face à tragédia. Temia por ela e por essa razão limpava-lhe o pó com o cobertor no qual se enrolava numa espécie de colchão para dormir, e olhava-a sempre como seu aval contra o mundo antes de adormecer.

 

De quando em vez, entrava numa igreja, não para rezar, mas para se acolher do frio e logo que essa eterna cicatriz de inverno se atenuava no seu corpo, voltava à esquina da Place Vendôme, qual país onde fora para ficar.

 

Um dia, quase ao anoitecer, chegado de breve estada na igreja, encontrou uma mulher a chorar na esquina onde costumava estar. Aproximou-se dela e viu uma beleza indecifrada a deitar fora tempo de vida através de largas lágrimas, num soluçar de corpo que casado ao frio a não deixava esconder um tremer que tudo nela anunciava, ser sofrimento.

 

Desculpe – disse -, desculpe o que tem? Como se chama? Eu moro aqui, exatamente no sítio onde está, ou seja moro aqui e noutro sítio ali em cima, tão esquina de ar gelado quanto este, mas mágico quando de repente aquece e diz tudo dos poderes que eu não receio, e que você deixará de recear também. Venha comigo, venha

 

E os olhos de Nicolau não deixavam aquela mulher, na verdade, desviavam-se e repetiam-na

 

Sou Julieta. Não tenho de existir. Entende? - Disse-lhe num grito de desespero - Mas não sou corajosa. Choro em vez de ter ido com o rio.

 

Logo ali pressentira Nicolau um jogo. Não decifrava a pessoa contida naquela mulher. Contudo ela apoiara-se nele e juntos subiram as longas escadas até ao quarto do sótão. Cobriu-a com o seu cobertor e julgou vê-la num quase-sorriso ou a vela projetava-lhe um alívio de lágrimas nos olhos, apenas por cumplicidade? Não descortinava. Todavia, Julieta continuava a tremer enquanto intrigada o olhava baixinho.

 

O velho machado que cortava a lenha para a velha e mal albardada salamandra do sótão, que ardia apenas quando alguma rara lenha lhe chegava, abriu de um só golpe a cómoda ao meio. Nicolau fora certeiro. Mais umas machadas nas poucas gavetas e já estas cabiam dentro da salamandra enquanto uma cor rosa começava a aquecer o quarto com o perfume de volúpia vaidosa de uma cómoda antiga. E vendo tal coisa acontecer, Julieta abriu com o braço uma parte do cobertor com o qual se se abrigava e assim o chamou para aquele calor de uma lonjura sem palavras que se continha junto dela.

 

Ainda disse a Nicolau com ar de desvendamento

 

Não vejo aqui mais nada para arder no teu quarto. Saibas tu, que eu não sou uma primeira escolha da vida, nem o meu choro merece esta poderosa magia que o teu sótão encerra.

 

Apertaram as mãos e assim ambos adormeceram.

 

Nicolau sonhou-se numa caça com alimento fresco e companhia na partilha.

 

Pela manhã, não viu Julieta a seu lado. Tão só um pedaço de madeira no qual ela escrevera

 

O rio não me espera.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

Cristiano Ronaldo içou-se do chão de quando era criança; rodou nos invisíveis degraus do esforço d’alma; prendeu-se no ar, e, intacto de natureza, opôs-se ao que no mundo é simulacro. 

 

  

 

De mão no peito o agradecimento minucioso a cada um, a cada vida.

O gesto, o gesto de que o limite é para se ultrapassar.

 

  

 

Ronaldo, o vulto voante de uma magia que poucos merecem, demanda-nos na sua vida o nosso próprio desejo de pulsar pelo céu. Expõe sentires em choros e felicidades de inocência rara.

 

Cristiano Ronaldo o menino empurrado para os dias dos socalcos de todas as solidões.

Ronaldo o homem-menino que hoje segura o seu filho à expansão das manhãs.

 

 

O menino-homem da bola de ouro a erguer ao mundo o sentido do choro.

 


Ronaldo, um fundo de convicção que aponta caminhos, muitos deles entre o ser-eu e o estar-ali irredutível.

O colossal jogador de futebol português, conhece-se e devolve-se a nós, na simplicidade de algo a decifrar, como se não transportasse também um Portugal e suas pedras, em ordenada linguagem aplanada pela força do mérito, do trabalho, do sonho, e da indecifrável magia de pertencer a um lugar que poucos conhecem.

Obrigada

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A vaidade dos desejos

 

Recordo uma história profundamente absurda que incidia sobre uma enorme quantidade de pessoas que ao terem alcançado uma imaginação desalmadamente prolífera, tão logo mencionassem qualquer coisa, e, ela logo lhes surgia ali mesmo à frente dos narizes. Este particular poder conferia-lhes uma vanglória ao anseio que os enchia de ares de tudo ser.

 

E como é complicado determo-nos nesta componente dos poderes, desta feita associada ao orgulho! Assim, e por bizarro que pareça, Aladino estabeleceu com estas gentes uma estranha relação bem mais prática que qualquer ciência pagã.

 

Um dia, estando D. Fernando a passear pela sua longa vinha junto ao Douro eis que lhe surge Rosália a mulher de seu grande amigo Pedro que naquele fim-de-semana lhe faziam companhia no solar. Rosália fundamentava os seus olhares a D. Fernando, no prazer conferido pela verdade da sua beleza madura e, aos poucos, nunca distraídos um do outro, caminharam, a conversar, até à bela adega encerada e de belos sofás de recantos que possuía a quinta.

 

E se nós fossemos capazes de controlar o cosmos, ó Rosália, já pensou nisto? Alguma vez o desejou?

 

Sabe Fernando, os meus desejos são mais antiquados, mais quedos, diria; o meu marido é, como sabe, um homem que se preocupa sobretudo com a objetividade do estado de um fumeiro e tanto lhe basta para me contar com um largo sorriso que este ou aquele ano até o presunto de salmoura terá melhor gosto. Creia que esta ligação digamos, à terra, me faz não pensar no cosmos que, seguramente até um beijo me levaria!

 

Fernando, vendo e sentindo a aproximação do corpo de D. Rosália bem como a chama do seu desafio, rapidamente tornou os três desejos num, chamou por Aladino enquanto esfregava a garrafa de porto e baixinho desejou:

 

Tira-me já de mim este reumatismo maldito!

 

Aladino não cuidou que D. Fernando desperdiçava dois desejos e de imediato cumpriu aquele que seria afinal o desejo de dois breves amantes em tons de rosa.

 

Mas eis que a garrafa, de súbito, escaqueirou-se no chão em pedacinhos, já que as forças sem reumatismo desalinhavam-se para se realinharem no corpo todo e entenderem agora os pesos por ele seguros.

 

Rosália, boquiaberta, avistou de súbito a idade de D. Fernando e a sua e apressou-se:

 

Era tal a vaidade no seu vinho, era tal o desejo que eu o provasse na sua companhia que enfim, um certo comedimento se impôs. É natural, disse, já toda corada.

Não Rosália, não foi bem isso. Eu é que pedi um elefante branco que visse tudo azul.

 

E por temer uma recarga do reumatismo, atirou-se D. Fernando, um tanto sem jeito, para um dos sofás, onde, para seu espanto acabara caído sentado.

 

A partir daqui, diz-se, prevaleceu nos círculos literários um estilo simples e menos cheio de metáforas híbridas que tanto assustavam os leitores, afastando-os dos livros e que bem mais os apavorava, diz-se, do que o vislumbre de um centauro resmungando aos troianos contra o propósito da Guerra de Troia. 

 

Teresa Bracinha Vieira