Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

18. A ARTE É DA HUMANIDADE

 

Se uma obra de arte vale por si e é um fim em si mesmo.
Se vale pela sua autenticidade, intemporalidade, originalidade e universalidade.
Se vale pela sua meritocracia e valor intrínseco.
Partilhando critérios de cultura pura, ausentes de consentimento e validação externa, em prejuízo de critérios de cultura para, funcionalizados por motivos partidários, políticos ou ideológicos.
Quer copiando ou imitando a vida, ultrapassando-a ou transcendendo-a.
Então a arte não é do centro, da direita ou da esquerda.
Não é, nem pode ser, propriedade da direita, da esquerda ou do centro.
Não é politicamente apropriável.
Não é um exclusivo de alguém.   
Nem monopólio de ninguém. 
É da humanidade.
Propriedade e património perene da humanidade. 
De toda a humanidade.     
Na unidade através da diversidade. 
Em que o acesso à sua fruição cultural e espiritual é um bem de todos.

 

13.11.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

17. AO PRAZER SEM CULPA DE BEBER UM COPO!

 

Beber um copo, só ou com companhia, é um ato social que se universalizou, em especial nas gerações mais novas. 

 

Por vezes corresponde a uma imagem de marca, quando esse beber, no seu sentido literal, é protagonizado por protagonistas famosos, em séries de sucesso, pronto a ser imitado, como referência ou com reverência. 

 

Refiro, a propósito, a protagonista feminina principal de House of Cards, a atriz norte-americana Robin Wright, ao beber e saborear, só, um copo de vinho tinto, de vez em quando, em momentos de evasão, inspiração, relaxe, refúgio e sossego. Com uma elegância escultural tantas vezes distante, fria, gélida ou glaciar. Poderia ser de vinho branco ou verde, bem fresco, mas talvez o clima, por aquelas paragens, apele mais ao tinto.   

 

E se há 50, 40, 30 ou 20 anos, ou mais, era um ato de rebeldia mulheres sozinhas pedirem um copo de vinho, hoje é cada vez mais usual, mas ainda chamativo, por vezes um distintivo bem distinto, numa rebeldia elegante e fina sem perder o chá, em que pedir, por exemplo, um copo de vinho branco, bem fresco, numa esplanada em pleno verão, entre nós, já não é um ato ousado e de coragem, como outrora.

 

Pode ser o culto do prazer, na solidão ou na comunhão, no convívio ou na conversação, na amizade ou no amor, podendo-nos também ajudar a exaltar o prazer da mesa, e outras dimensões metafísicas, como a alegria, a inspiração, fazendo-nos esquecer, nem que seja por breves momentos, as agruras da vida, preocupações e maus pensamentos.

 

Pode haver momentos de alegria, criatividade, desinibição, euforia, introspeção,  melancolia, nostalgia, paixão, saudade, tristeza, entre outros, incluindo uma associação de culpa, quando o excesso campeia.

 

O importante é que, com equilíbrio, nos libertemos da culpa associada ao prazer.

 

O que interessa é o prazer sem culpa. 

 

O prazer sem culpa de beber um copo.   

 

Ao prazer sem culpa de beber um copo! Chim, chim!   

 

Mas não a qualquer preço.          

 

25.09.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

16. STEINER, A CIÊNCIA E AS HUMANIDADES

 

 

“Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam”.

 

“As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas “ciências sociais” fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada”.

 

“E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio”.

 

“Quando ouço os cientistas, sinto alegria. Estão a passar um bom bocado” (excertos da entrevista de Steiner ao semanário Expresso, de 03.06.17).

 

Ao elogiar a ciência e vaticinar a queda e ambiguidade das humanidades, George Steiner (GS) tem uma visão idealizada e exaltante da ciência, contrária ao pessimismo que tem pelas humanidades.   

 

Sendo um pensador, crítico literário, escritor, filósofo e um dos expoentes máximos da grande cultura europeia, é um homem especialista das humanidades.

 

Porquê, então, este desencanto com as humanidades? 

 

Uma das razões é não terem evitado barbáries e crimes contra a humanidade como o holocausto, o antissemitismo estar de novo a aumentar por toda a parte, com os judeus em perigo iminente, num fenómeno sem fim à vista, não se tendo aprendido absolutamente nada com a História.

 

De origem judia, sente-se perplexo pela sua sobrevivência, “é um milagre ter sobrevivido”, o que significa ter ao longo da vida a obrigação ética de não esquecer os que não sobreviveram. 

 

Idealiza, em alternativa, como refúgio, compensação e redenção, uma ciência idealista e verdadeira, desconhecedora da falsidade, do fingimento, da simulação e manipulação linguística das mentiras do totalitarismo linguístico. 

 

Que ciência é esta? Ela existe? Existe uma ciência verdadeira que não conhece a hipocrisia, nem faz bluff?

 

É um dado adquirido que na ciência também há mentira, dissimulação, falsidade, erros e hipocrisia. 

 

E há a interpretação, propaganda e manipulação dos resultados, consoante é feita por A, B, X ou Y.       

 

Que dizer da bomba atómica e da inovação nuclear, a propósito de um lado negro, ou reino das trevas, das ciências, que desumanizam, e não humanizam? 

 

O génio e talento de alguém na ciência não o torna uma boa pessoa.

 

O génio e talento de alguém nas artes e humanidades em geral não o torna uma boa pessoa.     

 

O ser-se um guru da ciência ou das humanidades não faz, quem quer que seja, uma boa pessoa.   

 

Nem as humanidades, nem a arte, nem a ciência é a pessoa. Estão acima do autor. Libertam-se da pessoa, do criador.   

 

Steiner, depois de dizer, perplexo:   

 

“Há um momento muito importante nos diálogos de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3.º ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus”.   

 

Dá a resposta, questionando-se: “O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados”

 

Uma obra cultural ou científica vale por si, independentemente das opções políticas, científicas, filosóficas, religiosas ou sociais do seu autor. 

 

A ciência e as humanidades não são invenção recente, sempre existiram, no seu melhor e pior, em curiosidade e interligação autónoma e recíproca, havendo que saber distinguir entre a obra em si ou ao serviço de qualquer coisa, entre a obra “pura” e a pessoa ou a vontade do seu criador.

 

De maior desencanto seria viver num mundo em que não houvesse lugar para as questões colocadas pelas ciências sociais e humanidades em geral, e tão só, ou quase em exclusivo, para a descoberta e progresso científico que GS tem como ciência verdadeira, que também peca por défice, numa idealização excessiva e sacralizada, a nosso ver.        

 

18.09.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

15. PROCRASTINAR, PROCRASTINANDO, …

 

Há palavras que impõem que se lhes faça sentido. 

 

Que reclamam sentinela.

 

Que merecem pagar imposto.

 

São empoladas, elitistas, pedantes, petulantes.

 

Apresentam-se bem.

 

Usá-las é um luxo pessoal e cultural.

 

São altivas e soberbas no vestir.

 

Presunçosas e pretensiosas por condição.

 

No essencial, apenas se escrevem, sinal de solenidade escrita.

 

Marginalmente faladas, não se cantam, não se dançam, nem consta que inspirem poesia.

 

Chamativas e ousadas, não convivem com a plebe.

 

Têm-se por chiques, chiquérrimas, usando smoking, no mínimo fato e gravata, vestidos de gama superior e de alta costura.

 

Nos tribunais, onde a solenidade também faz a lei, é palavra de acórdãos, sentenças, requerimentos e recursos, vestindo beca e toga negra.

 

Só que, vulgarmente falando, procrastinar significa adiar, atrasar, delongar, demorar, transferir para outro dia, deixar para depois.

 

Procrastinação significa adiamento, delonga, dilação, morosidade, protelação.

 

Sendo depreciativo, no mínimo incomodativo, saber que frases comuns como: “Estás atrasado!” ou “Adiou-se o julgamento!” significam: “Estás procrastinado!” e “Procrastinou-se o julgamento!”.

 

Atrasar, adiar, demorar são palavras vulgares.

 

Procrastinar, procrastinando, procrastinação manifestam-se com jactância.

 

E são caprichosas, curvilíneas, maneiristas e extravagantes de escrever.

 

São barrocas por natureza, como o procrastinador que procrastina, procrastinando e com procrastinação, o que é procrastinável. 

 

São invulgares, eruditas e não gostam da rua.

 

Mas também se usam para nos entendermos. 

 

11.09.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

Vasarely

 

14. A ANTECIPAÇÃO MENTAL DA PROCURA E A SUA REALIDADE

 

Não se encontra o que se procura, mas o que se encontra.

 

Não encontro o que procuro, mas o que encontro.

 

Não encontramos o que procuramos, mas o que encontramos.

 

Mas é usual dizer que só encontramos o que procuramos.


Qual a relação entre a antecipação mental da procura e a sua realidade?

 

Entre a imaginação e a realidade?

 

Entre a realidade imaginada, mental, espiritual e a realidade física, material, real?

 

Entre o modo como imaginamos uma pessoa e o que acontece quando a conhecemos na realidade?

 

Entre o modo como imaginamos um lugar e o que sucede quando lá chegamos?

 

Entre o modo como imaginamos uma coisa e quando temos contacto com ela?


A realidade é diferente daquilo que antecipamos mentalmente.

 

Não se encontra aquilo que se procura, mas o que se encontra.

 

O que pressupõe estarmos abertos, totalmente disponíveis para a descoberta, a viagem, o desconhecido, o desconhecido conhecido, o conhecido desconhecido.

 

A antecipação da realidade tem uma linguagem própria.

 

A antecipação mental do real tenta suprir a realidade factual, se possível através da fotografia, vídeo, gravuras e impressos sobre coisas, pessoas e viagens, locais de chegada, partida e de passagem, tentando ser uma cópia fiel da realidade.

 

Ou ser como um sonho, se anteciparmos algo que nunca imaginámos e sem auxiliares como a fotografia, filme, ou similares, como numa viagem de total libertação dos sentidos, num imaginário total e libertador, como quem lê um livro exótico ou extravagante e antecipa e ficciona mentalmente algo que nunca viveu ou imaginou.

 

Esta antecipação mental da procura que não corresponde com a sua realidade, quando confrontados com esta, é um lado da vida, da nossa realidade humana.

 

É parte integrante do lado espiritual, imaterial, impalpável, que não se fotografa, nem filma, é uma liberdade de expressão e de pensamento universal, pessoal e intransmissível, libertária e que liberta.

 

Faz parte do lado mais importante da nossa vida.

 

04.09.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

 

 

13. AS FORMIGAS E O GAFANHOTO E A CIGARRA E A FORMIGA

 

 

No tempo em que os animais falavam, passou o gafanhoto todo o verão compondo e tocando música, enquanto uma família de formigas trabalhava. Quase a chegar o inverno, e com ele o frio, o faminto gafanhoto abeirou-se delas, com um violino debaixo do braço, pedindo comida, ao que aquelas, com desconfiança, perguntaram o que fez durante o verão, respondendo que fez música, ao que as formigas retorquiram: “Todo o tempo a fazer música? Muito bem, agora dança!” 

 

Esta fábula do grego Esopo, foi readaptada e recontada pelo francês Jean de La Fontaine, em a Cigarra e a Formiga, contando a história de uma cigarra que cantou durante o verão, enquanto a formiga trabalhava. Chegado o inverno, a cigarra, não tendo que comer, pediu à formiga que lhe emprestasse comida, com a promessa de lhe pagar com juros antes de agosto. A formiga, tida por ser poupada e não emprestar nada a ninguém indagou, desconfiada, o que fez a cigarra no verão. Respondeu esta que cantava noite e dia, ao que a formiga replicou: “Cantavas? Pois dança agora!” 

 

Se a lição dominante destas fábulas é a de que há tempo para o trabalho e para a diversão, que devemos ser previdentes e poupados, que para os cultores da preguiça há sempre lazer, também podem ser reinterpretadas no sentido de que há nelas uma exaltação extrema ao trabalhar por trabalhar, à acumulação de capital, riqueza e bens materiais, à avareza usurária e desumana da formiga, à descredibilização e marginalização dos cantores, músicos e poetas, injustamente equiparados a pessoas absentistas e preguiçosas.

 

Estas fábulas, na sua multiplicidade de interpretações e leituras, também são adaptadas, em termos culturais, à invocada diferença de atitude mental e cultural entre povos e países, por exemplo, entre os do norte e do sul da Europa.

 

É usual dizer-se que se perguntarem aos portugueses, espanhóis, italianos e gregos, entre outros povos mediterrânicos e do sul da Europa, se as formigas devem ajudar o gafanhoto e a cigarra ou deixá-los por sua conta e risco, que eles, em unanimidade, defendem que as formigas os devem ajudar, coitadinhos, enquanto os alemães, holandeses, dinamarqueses, finlandeses e outros povos nórdicos entendem, em uníssono, que devem morrer de frio e fome, sem compaixão, tendo o que merecem, dada a sua malandrice.

 

Uns acreditam que o gafanhoto e a cigarra aprenderam a lição e no próximo verão não voltarão a reincidir, outros que prevaricaram e devem ser punidos. 

 

Só assim se fará justiça, tomando como referência o exemplo da formiga, a ser seguido por todos os animais, incluindo o ser humano. 

 

Sucede que compor e tocar música, escrever poemas ou letras para canções, cantar e dançar é um trabalho digno, exigente e gratificante para quem o faz e dele vive, à semelhança de qualquer outro, que compensa e gratifica a vida de todos nós, sendo redutor e simplista associá-lo a mera diversão.

 

O que não significa que os gafanhotos e cigarras absentistas não tenham de começar a trabalhar, ou a trabalhar mais e melhor, e que as formigas, na sua arrogante superioridade, não necessitem de gafanhotos e cigarras, evitando o seu desaparecimento e inevitáveis consequências, humanizando-se e tendo sempre presente a nossa precariedade mundana, que o que aparenta ser superior hoje pode não o ser ou não o é em permanência, em conjugação com  a inviabilidade universal de poder haver só excessos orçamentais, para todos, sem défices, para ninguém, e a necessidade humana de saber viver entre o prevenir amealhando e a compensação cultural e espiritual, mesmo que a título de lazer, sob pena de “dançarmos” todos!  

 

24.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

12. BANIR O SONO

 

Pela eficiência permanente, que opera 24 horas por dia, elimine-se o sono.
O sono é estagnação, inatividade, inércia, ócio, preguiça.
É antagónico com a vida dos dias de hoje, impedindo-nos de sermos conscientes, racionais e trabalhadores a tempo inteiro.
O executivo dos nossos dias louva-se de dormir pouco ou quase nada, de passar noites em branco, de trabalhar até à exaustão pela noite dentro, um ser humano máquina, em competição com o computador, fazendo mega horas extraordinárias, que não perde a concentração, nem a missão ou o fim que tem em vista.
O sono impede o conhecimento, saber, rendimento, produtividade.
O sono é noite, escuridão, o império das trevas, incompatível com o dia, o empreendedorismo, com uma vida eficiente e de luzes continuamente acesas.
Para sermos eficientes, empreendedores e racionais a todo o tempo, é preciso abolir o sono, criando sociedades onde o êxito, o ser feliz, o mérito e o reconhecimento são diretamente proporcionais à ausência de sono. Sendo admissível, quando muito, três ou quatro horas bem dormidas, estigmatizando quem não consegue ou dorme o dobro.
A maximização da eficiência funcional é trabalharmos sem intervalos, dia e noite, porque tudo é importante, menos o sono, tendo como perdedores os que o enaltecem.
Por confronto com o malefício do sono, exalta-se a vigília, testando-a progressivamente, via ingestão de anfetaminas, ansiolíticos, pastilhas de estimulação cerebral, neuroquímicos, com a ajuda e empenho de Silicon Valley. 
Investiga-se e examina-se o funcionamento do cérebro de animais que conseguem passar vários dias e noites sem dormir.
Só que o sono é inevitável. Lamentável inevitabilidade, para os opositores. 
Não há melhor cura para curar o cansaço.   
Nem pior padecer que a tortura do sono.
Por enquanto, enquanto dormimos, o sono não é vendável, expulsando as leis do mercado.
O sono é pessoal e intransmissível.
É a afirmação e constatação dos limites do corpo humano, da nossa finitude, mesmo que governados ou dirigidos por pessoas que não querem dormir, que minimizam ou odeiam o sono, que o têm como dispensável e irracional, que o desejariam abolir ou banir, podendo.
Afinal, toda a gente se cansa e não sobrevive sem sono. 

 

12.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

11. BIODIVERSIDADE CULTURAL

 

Alimentação, vestuário, habitação e saúde são necessidades básicas, universais e fundamentais de sobrevivência. 

A cultura não é tida como uma necessidade básica de sobrevivência ou bem de primeira necessidade, por confronto com o que comemos, a água que bebemos ou a saúde.
Há uma percentagem significativa de pessoas que não tem interesses culturais, tendo a cultura como descartável e dispensável. 

Para quem entenda que a lógica dos impostos é que o dinheiro se destina a necessidades básicas e imprescindíveis, a cultura fica excluída. 

Razão pela qual a cultura tem de ser autossustentável. 
Mas uma parte da criação cultural não é sustentável por si.
Há quem defenda que se vá ao mercado, assumindo o risco na totalidade.   

Há quem entenda que deve ser apoiada se, naturalmente, não existir mercado que a sustente.  
Inexistindo apoios, nem mercado que a sustente, há morte cultural. 
Não há civilização sem cultura. Há a barbárie.

O que permanece especialmente e intemporalmente em termos civilizacionais é o legado cultural, incluindo o património, que nos foi deixado e transmitido em termos geracionais. 
Só que as necessidades económicas necessárias para a cultura, não obedecem necessariamente à lei da oferta e da procura.
Mas quando pagamos impostos, taxas ou coimas contribuímos para necessidades básicas, acessórias e complementares de outras pessoas, que não conhecemos, em lugares e regiões onde nunca fomos, não queremos ou não pretendemos ir, não nos afetando pessoalmente, embora diga respeito ao todo nacional.
Daí ser defensável a biodiversidade cultural, incluindo a criação cultural naturalmente sustentável e não sustentável, que não necessita e necessita de apoio.
Se assim não for, há a morte cultural de várias atividades culturais, dada a sua insustentabilidade sem apoio em termos económicos e logísticos.
Por exemplo, em Portugal, deixa de haver bailado, cinema, teatro ou ópera, se não existir apoio, o que é aterrador e assustador a nível da nossa memória coletiva e em termos de progresso civilizacional e cultural, por confronto com os avanços das nações que tomamos como referência.   
A necessidade desta biodiversidade cultural e de apoio à criação cultural quando naturalmente não sustentável, deve ser transversal a todas as ideologias, quer de direita, centro ou de esquerda, o que não implica, sempre e necessariamente, uma cultura estatizante centralizada e totalmente subsidiada, tida como inexequível.       

 

05.06.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

10. PROPAGANDA

 

A propaganda tenta transmitir uma mensagem universal, absoluta, correta, válida, em que há inverdades.
A propaganda não é crítica. 
Faz passar uma mensagem de confiança, estabilidade, felicidade.

Por vezes faz o culto da personalidade. 
Há a propaganda eficaz, ineficaz, passageira, que sobrevive ao longo do tempo, académica e vanguardista, explícita e implícita.
O cartaz foi um dos meios que melhor a serviu. 
Há cartazes de propaganda que funcionam apenas como documentos. 
Outros são tidos como obras de arte, concordemos ou não com as suas mensagens.
Na antiga União Soviética, desde os tempos de Lenine, proclamava-se que a arte do ocidente era burguesa, capitalista e decadente, expurgando-se intelectuais criadores de obras tidas por misteriosas e produzidas para elites, sem significado para o povo. A arte deveria ser inteligível para todos. Tendo por fim o ideal utópico do comunismo, surgem obras com uma imagética e cromatismo imediatamente reconhecível, assertivas e poderosas psicologicamente a nível dos destinatários.
El Lissitzky, no período da Rússia pós-revolucionária, em plena guerra civil, com a guarda branca anti-bolchevique a tentar derrubar o governo de Lenine, concebeu um cartaz chamativo, simbólico e vanguardista, usando formas geométricas, planos sobrepostos e a cor branca, preta e vermelha do suprematismo. Derrota os Brancos com a Cunha Vermelha (1919), é um dos cartazes mais icónicos e intemporais, exemplo conseguido da arte utilizada para propaganda. A sua simplicidade, pioneirismo, estética, atração e magnetismo influenciaram muitos designers gráficos, bandas pop e agrupamentos musicais.
Outro caso célebre é o Cartaz de Propaganda do Livro (1924), de Aleksandr Rodchenko, em que no seu geometrismo e cromatismo usual sobressai um rosto feminino lançando uma mensagem em voz alta.
O sonho da arte ao serviço da propaganda, exprime-se também em obras de arquitetura pública, como o monumento à III Internacional (Torre), de 1919, de Tatlin, apesar de  só executada a maqueta preparatória. Sem esquecer inúmeros cartazes, esculturas e estátuas fazendo o culto da personalidade de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao.
Merece referência O Triunfo da Vontade e Olympia, de Leni Riefenstahl, películas com influências estéticas e cinematográficas de Eisenstein, tidas como as melhores obras de propaganda de sempre, proclamando o esplendor do nazismo. Onde há uma propaganda explícita que tem de comum um culto dirigista, exaltante e típico de estados ditatoriais, em que foi banida a arte pela arte e a liberdade de expressão e pensamento.

 

15.05.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

 

 

9. INTUIÇÃO E EMOÇÃO NO PROCESSO CRIATIVO

 

“Mas no preciso instante em que o gole com migalhas de bolo misturadas me tocou no céu-da-boca, estremeci, atento ao que de extraordinário estava a passar-se em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, um prazer isolado, sem a noção da sua causa. (…) Deixara de me sentir medíocre, contingente, mortal. Donde poderia ter vindo aquela poderosa alegria? Sentia-a ligada ao gosto do chá e do bolo, mas ultrapassava-o infinitamente, não devia ser da mesma natureza. Donde vinha? Que significava? Onde agarrá-la?   

 

Bebo um segundo gole, no qual nada encontro a mais que no primeiro, e um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece estar a diminuir. É evidente que a verdade que procuro não está nela, mas em mim.”  

MARCEL PROUST

 

É exemplar esta passagem de Proust na sua obra Em Busca do Tempo Perdido, em que um gole de chá e um bolo amanteigado e aromatizado com raspa de limão, uma afamada madalena, através dos quais a mente se revela, são reduzidos aos seus elementos psicológicos na sua estrutura mental, espiritual, imaterial e impalpável, recuperando o tempo perdido através de aromas e sabores que dão causa a lembranças de momentos passados.

 

Acreditando que só nos podíamos compreender a nós mesmos pela intuição, celebrando-a na literatura, Proust foi um dos primeiros artistas a interiorizar a filosofia de Begson, segundo a qual tendo nós consciência, uma memória e um ser, tal realidade não pode ser dissecada experimentalmente, só nos podendo conhecer a nós próprios intuitivamente, via introspeção e meditação, podendo as leis mecanicistas da ciência ser boas para a matéria inerte, mas não para nós, seres humanos.

 

A sensação é para Proust o que a experimentação é para o cientista.

 

Trata-se de um processo criativo que ocorre no âmbito da intuição.

 

Os processos de criação ocorrem primordial e essencialmente por via intuitiva, o que é corroborado, aperfeiçoado e enriquecido pela neurociência, onde a emoção também faz parte da razão, pois um cérebro que não sente não decide, sendo o olfato e o paladar tidos como sentidos singularmente sentimentais, uma vez ligados ao hipocampo, o centro de memória cerebral de longo prazo.     

 

A literatura, o teatro, o cinema, a música, são metáforas poderosas e intensas em relação ao que se passa na nossa mente. Adequam-se e adaptam-se bem ao espírito e cérebro humano, mas são suas representações, dada a maior complexidade do ser humano, que é corpo e mente que funcionam como um todo.   

 

Já não basta a razão pura, havendo que valorizar o corpo em termos neurofisiológicos, aceitando as emoções e educando-as, dado que estas, além de imprescindíveis, não são sempre más e de resultados negativos, rejeitando a ideia de que as emoções e os sentimentos são incapazes (ou menos capazes) de boas decisões, tidas como emocionais e impulsivas, ao invés das reais boas decisões, tomadas racionalmente de cabeça fria.

 

Esta nova valorização do papel da intuição e da emoção no âmbito da criatividade e do núcleo duro do pensamento científico, onde se destaca o neurocientista português António Damásio e sua mulher (Hanna) é crucial para a partilha e interligação das ciências, um meio para a integração das chamadas ciências “duras” e tradicionais com as ciências sociais e humanas via emergência e criação de um novo paradigma de conhecimento, em que intuição e emoção fazem parte da razão.

 

08.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício