Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

62. ESQUEMAS DE PROGRESSO, REGRESSÃO E DE PODER

 

O drama da queda do Império Romano sugere que a civilização não progride em linha reta e sempre em direção a mais prosperidade, lei, ordem, tecnologia, segurança, tolerância e unidade na diversidade.   

O progresso linear e ascendente em linha reta não é um dado adquirido e permanente em termos civilizacionais.   

A antiguidade greco-latina mostra-nos feitos incríveis alcançados por gregos e romanos que se perderam. 

A imperatriz de Roma, Eudóxia, foi escravizada por um bárbaro, Genserico, líder de uma tribo germânica, os Vândalos.

Com a queda de Roma a Europa fragmenta-se e ficará dividida durante 1500 anos.  Ficará fragmentada e habitada por bárbaros, para os romanos, em paralelo com os bárbaros que adjetivamos hoje de fundamentalistas e terroristas, tal como éramos e eram os germanos, gauleses, lusitanos, etc, no tempo dos romanos, para estes. 

Com a desagregação do império romano, anglos e saxões vão para a Grã-Bretanha.

Francos, vão para a França atual, a que deram o nome. 


Visigodos para a Península Ibérica. 

Há vikings no norte da Europa.

Árabes no sul: Córdoba era uma cidade tolerante, de judeus, cristãos, muçulmanos, estimulando a ciência e as artes em geral, destoando da idade das trevas europeia e da imagem atual que temos, ocidentais, de várias sociedades árabes.

Aquando da primeira guerra mundial, falava-se em “grande guerra”, porque se acreditava ser a última (guerra), devido às luzes da tecnologia, da ciência positivista, segundo a qual as luzes derrotariam as trevas.

Há os que são coerentes quanto àquilo que defendem e fazem (moral da convicção) e os que dizem que os fins justificam os meios (moral da responsabilidade).

São Tomás de Aquino defendeu o tirocínio (morte do tirano), o que, na realidade, para muitos, é um ato terrorista.

A revolução contém estruturalmente terrorismo e violência.

Se é ganha, os ganhadores são heróis.   

Se se perde, os perdedores são terroristas.

Quando se conquista ou ganha, deixa-se de ser mau  /terrorista, para se ser bom/herói.  Há a história dos vencedores e vencidos, conquistadores e perdedores, colonizadores e colonizados, a que a própria natureza, per si, também não é alheia.

Para quando uma civilização humana e humanista?   

 

23.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

61. FIM E FRUIÇÃO DA ARTE PELA ARTE E COMO MEIO OU INSTRUMENTO


Culturalmente falando, entendemos que os juízos críticos, análises, avaliações e demais considerações que têm por objeto a cultura, devem ser feitos em função de critérios e valores próprios, e não subjugados à realização de objetivos que lhe são exógenos, de natureza económica, financeira, ideológica, política ou social.   


Uma obra de arte, por exemplo, vale por si, tendo como fim principal a arte em si mesma, e não a arte como meio ou instrumento, independentemente das opções filosóficas, políticas, sociais ou outras do seu autor, destinatário, mediador ou das políticas públicas que a impulsiona ou divulga.


Num Estado Democrático e de Direito a consagração da Constituição cultural deve ser aberta e pluralista, legitimando critérios de cultura “pura” e não de cultura “para”.


Num Estado Democrático a arte deve ser um fim em si mesmo, a arte pela arte.


Num Estado totalitário é um meio para um fim, um instrumento ao serviço de qualquer coisa, havendo uma arte lícita e ilícita.


Nesta perspetiva, o neo-realismo considerava a literatura e a arte em geral um meio de transformar a sociedade, não sendo tal propósito, em si mesmo, artístico ou estético, mas moral e político, defendendo uma ideia pré-formada da realidade, amputando e limitando algo (a realidade) que por natureza não tem limites. Não transmitia a realidade, per si ilimitada e permeável a todos os qualificativos, mas a ideia que os doutrinadores e teóricos diziam que era e queriam que fosse a realidade.


Embora antecipadamente definido na sua essência pela sua escola, o neo-realismo era tido como democrático, dado que o artista só tinha que se disciplinar, organizar e copiar o que via, poia a realidade era objetivamente uma só e igual para todos, não exigindo a arte uma vocação específica por parte de quem a fazia ou recebia. Era promovida como peculiarmente popular, do povo para o povo, compreensível por todos, mesmo que sob a forma de propaganda ou do realismo socialista.   


Sucede, porém, que desde sempre, incluindo nas sociedades globalizadas de hoje, a arte e a cultura em geral nunca chegou a todos, podendo chegar a todos, ou a ninguém, por várias razões, inclusive inerentes e intrínsecas à própria pessoa,  podendo nada ter a ver com a ausência (ou não) de condições de ordem económica ou social. É um fenómeno transversal a toda a sociedade e a todas as classes sociais, e não uma realidade subjacente a esta ou aquela realidade económica ou social em particular.


Daí deriva a chamada “iliteracia cultural” traduzida, por exemplo, na ausência de hábitos de leitura e nas reduzidas taxas de compra de livros, por igual, à grande maioria da população, por maioria de razão se literariamente de linguagem trabalhada. Corrobora-o e exemplifica-o não passar despercebido, a um observador atento, a ausência de livros ou haveres culturais similares em tantas habitações de classes sociais de topo, endinheiradas e bem-sucedidas económica e socialmente, ou a sua ignorância em termos de cultura geral tida como básica.


O que prova que o acesso à fruição artística e à cultura em geral não pode ser visto apenas em termos económicos ou sociais, mas também em termos de autonomia própria e específica, em paralelo com critérios e valores que não necessitem de validação exógena, não confundindo nem desvirtuando os meios e fins das políticas de combate à desigualdade cultural com as de combate à desigualdade económica e social.     


16.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

60. NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL?

 

“Os ribeiros vão para o mar; e contudo o mar não se enche.   
Não há nada de novo debaixo do Sol. 
Não há lembranças das coisas primitivas.
Aborreci todo o meu trabalho que trabalhei debaixo do Sol, visto que eu havia de deixá-lo ao homem que viesse depois de mim.”     


Neste excerto do Eclesiastes sobressai uma visão pessimista, em que nada perdura, embora o futuro e o presente não sejam diferentes do passado. Os ribeiros e os rios correm sempre para o mar, mas as suas águas não enchem o oceano, não ficam lá, num interminável movimento cíclico de nascimento, vida e morte, em que todas as coisas nascem e morrem numa permanente e sucessiva repetição, sem um resultado aperfeiçoado e estável, dia, mês e ano após ano.


Este estado de alma ou de espírito descrente de que haja algo de novo e de interesse neste mundo, faz lembrar pessoas que geralmente não têm problemas a não ser aqueles que elas mesmas criam, que se têm como superiores por compreenderem a futilidade da vida, tantas vezes por satisfazerem os seus desejos sem esforço. 


Daí, ao que parece, não haja nada de novo debaixo do sol.   


Tem-se como um entendimento simplista das coisas, usando uma quantidade limitada de elementos que constituem o modelo-padrão da natureza e da vivência humana, não tendo presente que a perfeição e a sabedoria plena não são o destino do universo.


Não podemos ter o preconceito ou a presunção inilidível de que já somos portadores da compreensão de toda a história e só precisamos de confirmar a nossa teoria, a nossa experiência ou estados de alma.   


Como é que, há tantos e após tantos séculos, se pode afirmar que “Não há nada de novo debaixo do Sol”?   


Que sabia e sabe quem o diz sobre os avanços atuais na conquista do espaço, aviões, meios de comunicação social, rádio, televisão, informática, eletrónica, robótica, o bosão de Higgs, o vácuo, os drones, a inteligência artificial e outras portentosas invenções da humanidade?   


Não há nada de novo ou há coisas a mais debaixo do sol?


Como reagir à sua ausência e presença?     


Com desespero e pessimismo? 


Hoje, apesar do progresso, 95% do universo é desconhecido, segundo os especialistas. Ainda não compreendemos, por exemplo, a energia e a matéria escura. 


O que nos dá a medida da nossa ignorância. 


Se assim é, ainda há muito por descobrir debaixo do sol, numa maravilhosa aventura de imperfeição e querer ir sempre mais além, sabendo que nunca saberemos tudo.     

 

09.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

59. O ABSURDO EM CAMUS

 

Albert Camus, filósofo do absurdo, defendia que levamos vidas costumeiras, entediantes, monótonas e repetitivas.   


Até que um dia nos interrogamos: a vida faz sentido?


Percebeu que era impossível responder à pergunta: porque estamos aqui? 


Diz que fazemos as coisas de modo rotineiro, como Sísifo, uma personagem mitológica grega condenada pelos deuses a repetir sempre a mesma ação, por toda a eternidade: empurrar uma grande pedra até ao cume de uma montanha, para que voltasse a cair até ao vale, onde tinha de ir buscá-la e voltar a empurrá-la até ao cimo. 


Este trabalho cansativo e monocórdico, era um castigo ou punição para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses.


O absurdo de que fala Camus não é o de a vida não fazer sentido, mas, exatamente, a pretensão de procurar um sentido para as coisas.


O absurdo, que se opõe à razão, sensatez e bom senso, deixa de sê-lo a partir do momento em que aceitemos e deixemos de pensar que há coisas que dão sentido à vida. Quem aceita o absurdo vive bem com ele.


Em antinomia, segundo Camus, só se suicida quem, previamente, quis dar sentido à vida.


Que a vida seja absurda não significa cair numa apatia profunda.


Mesmo reconhecendo vivermos num abismo sem respostas, não devemos render-nos ante a vida.   


Temos de enfrentá-la em toda a sua incompreensibilidade.   


De ser criativos e inovadores na formulação de porquês geradores de outros porquês. Vivendo a vida em pleno, hidratando e renovando a monotonia, a repetição e o tédio. Mesmo que, por escolha pessoal, acreditemos num ente sobrenatural, exterior à natureza, a que a investigação científica não pode chegar.


Compreender essa verdade é aprender a viver.


02.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

58. UMA TEORIA DA CULPA

 

A pé e meditando em silêncio, em passeios salubres de época de pandemia, acautelado em regras sanitárias e de distanciamento, recolhendo vitamina solar e tentando alguma imunidade, certifico-me que uma percentagem significativa de veículos estacionados e em circulação, tantas vezes maioritária, é de origem e marca germânica. 

 

A proporção aumenta ou é mais notória se maiores os sinais exteriores de riqueza da urbanização onde imobilizados ou em andamento, mas verifico ser quase sempre mais alta, no geral, por confronto com viaturas mais acessíveis.   

 

A que acresce a maioria da frota automóvel governamental, elites e cidadãos que fazem o culto do automóvel de modelo alemão.   

 

Embora a mentalidade portuguesa seja imperial e de rico, pelo seu passado histórico e colonial ao longo dos séculos, sempre me impressionou esta apetência automobilística pelo que vem da Alemanha, onde se incluem viaturas tidas como duráveis, de grande qualidade e cilindrada, como se a restante oferta mundial não fosse adequada para a nossa circulação no dia a dia, quer em carros de topo, mais populares e baratos.

 

O que é agudizado pelo desejo, tantas vezes obsessivo ou ostensivo, de querer esta ou aquela marca germânica em particular, para toda a vida, proclamam alguns, mesmo que mais cara e à revelia do ambiente.

 

Este pensar de ricos pobres, num país em que faltam recursos e competitividade, confirma que não são os modelos e veículos mais populares e alcançáveis em dinheiro, os que grande parte dos portugueses preferem.

 

Antes sim os mais dispendiosos e chamativos, comprando mais caro e a crédito, se necessário, endividando-se e produzindo maior dívida, em benefício de outros.

 

O que não deixa de ser sintomático de uma ausência de sentido crítico de quem se endivida e compra produtos mais onerosos, não monopólio de um ou dois produtores, em proveito de quem nos censura por colocarmos “o carro à frente dos bois”.

 

Recordo-me de, em 2012, em plena crise das dívidas soberanas, dirigentes alemães darem como mau exemplo de despesismo e consumo inútil de verbas europeias a construção de bonitas autoestradas e belos túneis na ilha da Madeira, causando impacto e admiração, mas que não aumentavam a competitividade, como deveriam, demonstrando o desastroso uso de dinheiro e o porquê de estarmos endividados.

 

Portugueses houve que interpretaram tal exemplo como um aviso, por via indireta, de nos culpabilizar pelo nosso défice e dívida excessiva, do fundamento para a então imperiosa necessidade de intervenção da troika e consequente punição, com as adequadas adaptações extensivas a outros países, nomeadamente do sul da Europa.

 

E quem salientasse que era de reprovar que a censura e punição não fosse adequadamente extensiva a todos os países credores, incluindo a Alemanha, que vendem desproporcionalmente caro veículos (e outros bens) a crédito vendido por bancos germânicos (mas não só) a países endividados, como Portugal, circulando por  autoestradas e túneis não competitivos da União Europeia, em locais mais tidos como da família da cigarra que da formiga, com o devido respeito pela primeira, a quem nada devo, nem o inverso…   

 

O despesismo de uns é o superavit de outros.

 

É caso para perguntar: e se dissermos a Berlim, com outros países em igualdade de circunstâncias, que como somos pobres e endividados, só podemos e devemos aprender a viver com marcas e modelos de veículos mais económicos? Aplicando, in casu, o princípio da adequação, da proporcionalidade e razoabilidade inerente à capacidade de riqueza produzida e de endividamento de cada país?

 

Ninguém nos obriga a comprar este ou aquele produto, é certo, mas se aos olhos de quem nos quer vender a crédito prevaricamos tanto, de quem é a culpa?

 

Essencialmente do devedor, do credor ou de ambos? 

 

03.07.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

57. DA SEGURANÇA NA VIDA À LIBERDADE NA ARTE

 

Há valores essenciais que permanecem sempre os mesmos. 
Sejam éticos, morais, consuetudinários ou jurídicos, permanecem semelhantes no decorrer dos séculos.   
São exemplos o não matar, não roubar, não agredir, não violar, não causar sofrimento.
Consoante a época e o seu contexto, assumem hierarquias diferentes, significados sociais variáveis e novas prioridades. 
Desde o teocentrismo ao antropocentrismo, do século das luzes aos tempos hedonistas e utilitaristas, incluindo a era atual, dominada pela felicidade e pelos direitos subjetivos, tais valores subsistiram continuamente, fazendo parte do sistema e sendo aceites como politicamente e socialmente corretos. 
Mesmo que as normas vigentes sejam minimais, plebiscitadas e não sacrificiais, e não maximalistas e sacralizadas, estamos longe de um hipotético grau zero de valores e de uma total libertação da teoria da culpa. 
Houve e há sempre um núcleo estável e seguro de valores geralmente aceites, a que podemos adicionar a honestidade, a proibição da crueldade e da violência em geral. 
São parte integrante da nossa vida em segurança, da seguridade na nossa vida. Integrando o sistema como maioritariamente aceites, não há alternativa. 
Ganhou o sistema, o politicamente e socialmente correto nas nossas vidas.
Menos na arte.
Porque a arte é um espaço onde tudo é possível em liberdade. 
Nela podemos colocar o melhor e o pior de nós.
É a arte pela arte em liberdade pela liberdade. 
Mesmo quando não se ganha ao sistema, ao status quo, ganha-se em espaço de liberdade, de criatividade, inventividade e no ir mais além. 
Mesmo se impactante e chocante, isso não significa que quem a quer usufruir não a racionalize e interprete com sentido crítico, sabendo distinguir entre a ficção e a realidade, entre a fantasia ou ilusão do onde tudo vale e é possível e o tido como correto e em segurança no dia a dia das nossas vidas.     

 

26.06.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

56. “FOREVER YOUNG”
“ETERNAMENTE JOVEM” OU “JOVEM PARA SEMPRE”

Um hino à primavera solar que aparenta fazer de nós imortais. 

 

Um ícone à juventude que ficciona fazer de nós jovens para sempre.

 

“Forever Young”, da banda teutónica Alphaville, é uma exaltação e louvação de quem era jovem, na década de 80, do século XX.   

 

Este original e interpretação de 1984, é um grito épico e nostálgico de um tempo que  presencialmente se vive e está a acabar, se viveu e perdeu, como que em busca de um tempo perdido, com interrogações e súplicas para que se reencontre ou permaneça imutável e imortal.   

 

A vida é curta, a juventude uma breve viagem dentro de outra rápida jornada que é a nossa peregrinação. 

 

Há que usar, fruir e gozar bem aquilo que temos, sabendo que a juventude dura pouco, o que aprendemos com a idade e maturidade, mesmo que tarde para ser proveitosa.

 

Em plena época da guerra fria, eis que surge uma canção angustiante, solar e sombria, desobediente, inconformista e insubmissa. 

 

Uma canção ciente de que todos os jovens “sooner or later they will be gone”, desaparecendo e desfolhando-se na agonia lenta da sua juvenilidade, da sua passageira e precária imortalidade.   

 

Proclamando acaloradamente, de modo agudo e doloroso, a injustiça de não sermos eternamente jovens.

 

Canto sofredor, ávido de glória e revolta, num clamor lancinante que se quer ouvido, guardado e temido.  

 

“Let us die young or let us live forever” (Deixem-nos morrer jovens ou deixem-nos viver eternamente), lançando a bomba ou não, desejando o melhor e esperando o pior (“hoping for the best, but expecting the worst”).   

 

É o querermos ser eternamente jovens para sempre, diamantes eternos ao sol, numa entoação e grito coletivo de “forever young”, onde por confronto nos interrogamos se queremos mesmo viver para sempre (“Do you really want to live forever?”).

 

Existem outras versões cantadas e musicadas sobre o mesmo tema, uma de Bob Dylan (de 1973, igualmente bela e sugestiva), muito popularizada pela voz cristalina, melodiosa e potente de Joan Baez, mas é a dos Alphaville que, em minha opinião, glosa e agarra mais de perto a mensagem, retratando melhor a energia e irreverência juvenil, a começar pela idade dos autores.   

 

Este desejo humano e finito de desafiar o infinito, esta ânsia de defrontar a imortalidade sempre existiu, assim como hoje há gente poderosa de Silicon Valley, por vezes fanática, de uma fé cega, científica e tecnológica, ingerindo no dia a dia pílulas para nunca morrer e praticando a criogenia para reviver.   

 

Porque nos penhoramos e hipotecamos tanto em sobreviver, procurando obsessivamente a dieta imortal, desejando ser eternos, à nossa maneira, e não nos deixamos morrer naturalmente?    

 

Nos nossos limites humanos tentamos uma utopia que recrie o tempo que passou, passa e passará, o epílogo dos tempos, querendo ser imortais, eternos, jovens para sempre, sendo mortais, viajantes de passagem e transitórios, mesmo que mentalmente nos imaginemos eternamente e preferencialmente jovens, quando nem sequer temos uma evidência palpável da nossa vivência além-túmulo.

 

Há uma revolta e luta entre a natureza e o homem, em que este quer ser o Homo Deus, mas não é, como o exemplifica a atual pandemia do coronavírus (da COVID19), em que se aguarda, a todo o tempo, que a ciência descubra a vacina redentora e que a medicina vá evitando demasiadas mortes.

 

Obrigado, Alphaville, pelas belas memórias e eterna canção, com aquela sinfonia final celebrando um esplendor na relva que não volta.

 

Com os meus calorosos prolfaças a alguém muito especial, em véspera de celebração, não de rebusca de um tempo ido, mas de um resplendor ainda presente.    

 

19.06.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

55. JUSTIÇA IGUALITÁRIA E DISCRIMINATÓRIA

 

A noção de Justiça, traduz o que é Justo, no sentido de um Bem Supremo, um Bem Maior, acima do Direito e da Lei, a medida e o fim último do Direito, a fonte ou ideia que o deve inspirar.
A justiça, no seu todo, não pode ser apreendida a partir dos seus elementos isolados, não sendo a sua simples adição, sendo aqueles interdependentes, pois além das caraterísticas que os particularizam, apresentam propriedades comuns, porque submetidos às leis que caraterizam a totalidade.

Somos todos iguais no que se refere à nossa natureza e dignidade comum, bem como quanto a todos os direitos e liberdades fundamentais, como o direito à vida e à integridade física.
A que acresce, de modo recorrente e anual, o vírus igualitário da gripe, sem esquecer, na nossa vivência atual, o vírus da não-discriminação do coronavírus, propagando a epidemia do igualitarismo. Mas também somos todos diferentes.
Somos desiguais quanto às nossas aptidões e capacidades físicas, sociais, profissionais, políticas, criativas, inventivas, intelectuais e tantas outras. 
Daí a justiça, por definição, não ser forçosamente igualitária. 
A justiça é também, na sua essência, discriminatória.   
Nem sempre é mau discriminar, sendo-o imperioso em certas situações.
Impedir, para professor, um analfabeto, não é cometer uma injustiça.
Não aceitar, para atleta de salto à vara, um paralítico, é injusto?
A não-aceitação, como modelo, de uma pessoa atarracada, é iníquo? 
É injusto recusar um deficiente mental como acompanhante, cuidador ou tutor? 
Pratica-se a injustiça quando se distingue e discrimina o que é igual, mas não quando se diferencia o que é diferente, atribuindo a cada qual o que lhe compete, não só em função da sua dignidade como pessoa, mas também das suas caraterísticas pessoais quando associadas ao reconhecimento de uma específica função social. 
Somos todos iguais na nossa dignidade e unidade comum como seres humanos, mas todos diferentes na nossa diversidade.
Há que dizer não à ditadura do igualitarismo e da mera discriminação arbitrária pela negativa.

 

12.06.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

54. UTOPIA TECNOLÓGICA E ÉTICA NA NOVA CULTURA DA MÁQUINA

 

Basta uma avaria no computador ou no telemóvel, para percebermos como estamos literalmente dependentes das máquinas.

Por maioria de razão em tempo de pandemia e isolamento. 

É como nos cuidados intensivos, sem essa união naufragamos.   

A capacidade de resistência à frustração diminui, desfalecemos.

Indicia-se que a cultura do humanismo, em que a pessoa humana é o centro de tudo, está em decadência.

Emergiu e emerge um novo agente transformador: a máquina.

Emergiu e sobressai uma nova categoria de máquinas, que combinam regras, algoritmos, componentes aleatórias, cada vez mais autónomas e com vida própria, e não meras ferramentas controladas por nós.

Da robótica à inteligência artificial, dos bebés-robô aos drones, do telemóvel ao computador, há máquinas que avaliam a situação e tomam a decisão mais adequada. Muitas delas, inteligentemente criativas, como as impressoras 3D, criando e inventando coisas, solucionando problemas, associadas a uma mega capacidade inventiva.

Vão deixando de ser apenas funcionais e úteis, vivendo cada vez mais em simbiose connosco, escasseando a nossa autonomia e aumentando a nossa dependência.

Somos cada vez mais pessoas-máquinas.   

Se é legítimo que somemos ao biológico o que há de melhor no artificial, numa espécie de fusão entre o natural e o que é produzido por mão humana, é imperioso que haja uma ética que imponha limites, quando já se prevê que a inteligência artificial venha a ler o pensamento humano.

A ser assim, qual a diferença entre a esfera pública e a privada? 

Entre o disponível e o indisponível?

Entre o intimismo mais profundo, o que nunca partilhamos com o outo, nem queremos partilhar, e o que aceitamos comunicar com os outros em geral?

Ninguém sabe tudo, nem tem que saber, da mundividência sigilosa de cada um de nós, do nosso pessoal e intransmissível.

Onde fica o nosso segredo, o nosso refúgio particular? 

Temos direito ao nosso mistério.   

Faz parte da natureza humana.

Sob pena de ficarmos perante o desconhecido.

Estamos perante uma cultura nova que ainda não se afirmou em pleno, que tem de se expressar de modo a não colocar em causa as nossas liberdades mais essenciais e existenciais. 

Com a transição da oralidade para a escrita, do virtual para o digital, evoluímos em termos civilizacionais, o que não significa que esse progresso seja sempre em linha reta,  linear, sabendo-se da queda e fragmentação de muitas civilizações após o seu auge.

Uma caneta, um lápis, o saber escrever à mão, um livro, são coisas cada vez mais dispensáveis, para muitos, mas permanecem indispensáveis como património comum da humanidade, por analogia com uma cama, uma cadeira, uma mesa, que sempre existiram. 

Evoluem com a evolução, ficando de arquivo da memória passada, mas também como reserva subsidiária e alternativa do presente e futuro. 

Também aqui a ética e as humanidades têm de interligar-se e relacionar-se com toda a ciência para frear tal utopia.

 

05.06.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


53. A VIDA É MACROSCÓPICA

Macroscópico é sinónimo de megascópico. 
E antónimo de microscópico.
A visão do mundo microscópico é fazível com microscópios. 
A visão do mundo macroscópico é feita a olho nu ou por telescópios.
O microscópio amplia imagens de coisas muito diminutas ou reduzidas. 
O megascópio projeta sobre a tela a imagem aumentada do objeto.
O telescópio amplia imagens de objetos situados a grandes distâncias no universo.
A visão humana comporta a microscópica e a macroscópica.
Os corpos visualizados a olho nu integram a visão macroscópica.
O olhómetro é o seu instrumento de medição natural.
Esta visão física e material das coisas adapta-se a outras valências da vida humana.
Em filosofia uma visão macroscópica refere-se a uma conceção ampla ou abrangente.
O mesmo sucede quando se tem uma mundividência macroscópica da vida.
O planeta em que vivemos é diminuto, a brevidade da vida humana um bem escasso.
O melhor remédio é uma perceção larga da vida e do seu lugar no universo.
Trabalho, família, afeição, amor, amizade, esforço, espírito de sacrifício, são parte dessa visão macroscópica, como a alimentação, saúde, habitação, mas não chegam. 
Há também os interesses ou prazeres exteriores ou interligados ao labor diário, que não exigem prontas decisões, não absorvendo as faculdades exaustas por um dia de trabalho.
A incapacidade de ter interesse por tudo aquilo que não tenha uma importância prática na vida, causa um gosto de não viver. 
O insistir obsessivo no êxito de competição, no sentimento de triunfo em que só é devido respeito ao vencedor, no êxito pelo êxito, no dinheiro pelo dinheiro, no consumir impulsivo, tem um preço se exclusivo ou excessivo, pode causar aborrecimento e tédio, se incapaz de utilizar de modo construtivo e inteligente os momentos de lazer.
A vida é curta e não nos permite ter acesso e interesse por tudo, mas é fundamental que haja sempre interesses, essenciais e subsidiários, adequados e proporcionais, para a preencher, e quanto menos à mercê do destino melhor, dado que, perdendo-se um, o ideal é o recurso imediato a outro. 
Mesmo que se compare o cérebro humano a um computador, que se vai degradando com o tempo até não funcionar, em paralelo com a curva descendente da existência de cada um até à morte, esse mesmo cérebro, à medida que se aproxima do fim, afeiçoa-se e aprecia cada vez mais, tantas vezes, a beleza do mundo e as coisas belas da vida, como a música de Bach, de Wagner ou de Chopin, uma pintura, uma leitura, ou o silêncio.
Porque a vida é mais abrangente e larga que o microscópio. 
É macroscópica.

 

29.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício