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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


242. IGUALDADE E SINGULARIDADE


O espírito da democracia, a vida e a morte, assentam em dois princípios: de igualdade e de singularidade.   

Somos todos iguais no que respeita à natureza e dignidade comum do ser humano, não havendo seres humanos diferentes em matéria de dignidade e de direitos e obrigação de deveres, mas somos todos diferentes nas nossas caraterísticas pessoais, na singularidade de cada um e na diferença irredutível com todos.

Contudo, porque há desigualdade factual ou de facto (física, económica, de género, geográfica, social, etc), importa que se estabeleçam ou restabeleçam as condições e oportunidades que possibilitem a todos usufruir dos mesmos direitos e cumprir os mesmos deveres. 

Sem esquecer que deve haver tratamento igual de situações iguais e tratamento desigual de situações desiguais, bem como tratamento das situações não apenas como existem, mas também como devem existir, rumo a uma verdadeira igualdade através da lei.   

Esta dualidade de princípios ganha força perante a efemeridade da vida, pela inevitabilidade da morte e a não infalibilidade da democracia.   

Quando a morte é iminente e a democracia precária, porque mais intensas e imediatamente sentidas, cada singularidade de vida é mais única e impagável, ao contrário do sentimento comum “de que não morremos” ou de que a democracia não está ameaçada.   

O sentimento de imortalidade quotidiana é inversamente proporcional ao envelhecimento pois, com ele, o valor da vida vai-se anulando gradualmente, dado que quando somos jovens persiste a ilusão de sermos “imortais”.   

Perante a precariedade da vida e a certeza da morte, vem ao de cima o princípio da igualdade, segundo o qual todos morremos e temos um destino comum, ao mesmo tempo que se afirma a singularidade de quem morre e do ser vivo que foi antes, articulando-se ambos os princípios, neles se alicerçando a génese pluralista da democracia.  


09.01.26
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

Blaise Pascal.jpg

241.  TRABALHO, NÃO TER NADA PARA FAZER E NÃO FAZER NADA

 

O trabalho, se não for excessivo, é preferível à ociosidade. Preenche uma boa parte do dia sem termos de decidir sobre o que havemos de fazer, sendo um preventivo e um alívio para o aborrecimento e o tédio. Dá oportunidades de sucesso e abre as portas à ambição. E há nele um elemento construtivo com uma intenção que ganhou forma no seu estado final, que o distingue da desordem relativa inicial, gerando um prazer ou satisfação pelo dever cumprido.

Quanto mais monótono, rotineiro e excessivo, mais lembra o mito de Sísifo que tinha recebido de Zeus o castigo de empurrar uma pedra até ao topo de uma montanha e que, quando chegava ao cimo, a pedra fugia-lhe das mãos e rebolava montanha abaixo, recomeçando de novo. Só que, diz-nos a experiência, para muitos de nós, o que recebemos de Zeus não foi uma condenação, mas sim um favor, dado que, nesta interpretação, a vida sem trabalho não faz sentido, não servindo para nada. E há quem queira apenas trabalhar e abomine férias, tendo o trabalho como mecanismo de defesa e fuga para a frente.

O que nos questiona sobre o não ter nada para fazer e o não fazer nada que, na sua aparente indiferença, nos pode conduzir à conclusão de que há diferença entre não fazer nada e não ter nada para fazer.

Intui-se que o ter trabalhado (anteriormente) pressupõe ter-se tido algo de útil e necessário para fazer, enquanto o não ter nada para fazer pressupõe o prazer de ter tempo livre para não fazer nada depois de se ter trabalhado, sob a forma de uma espécie de compensação, em termos materiais e espirituais. O trabalho dignifica antecipadamente o subsequente não ter nada para fazer, o que não sucede com o não fazer nada. Enquanto no não ter nada para fazer, após se ter trabalhado, há usualmente contentamento, satisfação, gozo ou prazer tido como merecido e reconhecido como gratificante, no não fazer nada pode haver frustração ou sofrimento, um potencial maior para o aborrecimento e o tédio, mas também uma possibilidade de autoconhecimento e descoberta de novos interesses.

De todo o modo, seguindo este raciocínio, não fazer nada (ou ter poder em não fazer nada) é o mais difícil, exige mais energia para o superar, por maioria de razão quando não se compreende o pensamento de Pascal segundo o qual: “Toda a infelicidade dos homens tem por única origem não saberem ficar sossegadamente nos seus aposentos”.


02.01.26
Joaquim M. M. Patrício

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


240. FAMÍLIA


1. Definir, hoje, o que é uma família, implica, para os ocidentais, ir para além da trindade fundadora e nuclear composta por pai, mãe e filhos unidos por laços biológicos.   

O conceito incluso nesta palavra teve, nos últimos anos, uma significativa evolução, em que a família pode assumir as mais variadas formas, quer provenientes do casamento tradicional, de serem constituídas apenas pela mãe ou pai e os filhos, de enlaces entre pessoas do mesmo sexo, liberalização e normatividade consagrada que se estende às fertilizações in vitro, barrigas de aluguer, uniões de facto hétero ou homoafetivas, além de situações em que os dois elos ou apenas um deles trazem descendentes de relações anteriores.   

Embora a norma dominante continue a ser, na civilização ocidental, a que configura a família clássica e nuclear, novas formas de parentalidade e de organização familiar emergiram, abalando o único modelo oficializado, durante séculos, dos pais se organizarem para cuidarem da sua filiação, inviabilizando outros relacionamentos familiares com o estigma de que neles as crianças pudessem crescer felizes e psicologicamente equilibradas. 

2. Há quem veja na felicidade de ter filhos uma dupla origem: pelo sentimento de exteriorização do próprio corpo, pelo qual a vida continua sob a forma de uma nova pessoa, assegurando a perenidade do recurso genético e da espécie e, ao mesmo tempo, o impulso natural de suprir ao novo ser humano as suas necessidades, enquanto necessário, num desejo e satisfação de amor e autoridade.     

Porém, procriar, não é como era antes, dado ser hoje, para a maioria, cada vez menos instintivo ou um dever público. Havia em relação às mulheres o preconceito de que ter filhos era a sua grande missão terrena, o que não sucede, atualmente, no ocidente, não lhe conferindo prestígio social o facto de ser mãe. Se tiver êxito na vida profissional e conciliar ambas as coisas, aí sim, é bastante considerada. 

Se os pais são verdadeiros pais, a sua afeição pelos descendentes reside essencialmente no facto de ser tida como mais digna de confiança que qualquer outra, sendo nos momentos de infortúnio um “porto de abrigo”, pelo que, em princípio, tendo como referência a natureza humana, não surpreende que para a esmagadora maioria dos progenitores os filhos lhes proporcionem psicologicamente a felicidade maior que a vida pode dar. Há quem renuncie a essa felicidade, outros a desejaram e tentaram e não conseguiram.        

3. Ter filhos não é um requisito obrigatório para constituir família. Mas quando o é os defensores do antigo e único modelo familiar resistem. Argumentam que os portadores dos novos modelos não defendem a família nem a proteção das crianças, sofrendo estas sérias consequências psíquicas.     

Não sendo a construção da filiação, per si, um processo natural, o mais determinante não será o desenvolvimento de uma criança ser rodeado de amor, apoio, carinho, compreensão e preocupação no imaginário familiar a que pertence? Ou o lugar que tem no afeto daqueles que integram o seu aconchego e regaço familiar, do que a constituição da família à qual pertence?  Se assim é, há que considerar o conceito de família nuclear como modelo único?     

Se a família já não é o que era, há que encarar essa realidade de profundas mutações éticas, jurídicas, políticas e sociológicas no seu entendimento hodierno, mesmo que não nos surpreendam as resistências que consideram a noção de família nuclear como modelo exclusivo e exclusiva possibilidade para os relacionamentos familiares que se estabelecem. E mesmo que o paradigma dominante da sagrada família continue a ser, na civilização ocidental, o que configura a família nuclear.


26.12.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Wordsworth


239. DOS LUGARES E MEMÓRIAS DO TEMPO

Há lugares do tempo de que podemos ter ou não consciência da inscrição que gravaram na nossa memória.  

A sua permanência interior (em nós) é testemunho de que há na natureza lugares que nos acompanham ao longo de toda a vida, consciente ou inconscientemente, e que, quando voluntariamente a eles acedemos, em termos de consciência, podem ser uma força de combate e de consolo perante as dificuldades do presente.

Wordsworth, poeta inglês, expressa as suas experiências, que apelida de “lugares no tempo”, nestes termos:

Há na nossa existência lugares no tempo,     
Que preservam em clara permanência       
Uma virtude que renova…     
Que nos penetra e faz subir mais alto   
Quando é alto que estamos, e caídos nos levanta.

Há na natureza lugares do tempo que sugerem valores e virtudes: serenidade nos lagos, lagoas e espelhos de água, desenvoltura, eficiência e determinação na verticalidade dos pinheiros, beleza, humildade, docilidade e suavidade das flores nos jardins, admiração e emoção pela grandeza dos grandes desertos ou monumentalidade dos Himalaias, Perito Moreno ou do glaciar Upsala.   

Mas nem tudo o que é puro, são e virtuoso, tem caraterísticas de permanência na natureza, como os cataclismos e fenómenos naturais que nos ultrapassam e de que, quando vividos, temos consciência da inscrição que gravaram na nossa memória. 

Do mesmo modo que há um processo similar quanto às nossas memórias do tempo, em que a sua permanência interior, em cada um, nos levam a sustentar que há memórias que nos acompanham para sempre, enquanto vivos, muitas delas vindo ao de cima no nosso consciente de modo involuntário e automático. 

Se ao longo da vida, por maioria de razão ao se aproximar o nosso fim terreno, fizermos intencionalmente, em retrospetiva, uma análise da nossa existência, haverá lugares e memórias do tempo de permanência interior, no seu melhor e pior, sendo revelador saber, em qualquer caso, quais os mais e as mais marcantes e qual a primeiríssima memória do tempo e o primeiríssimo lugar do tempo da nossa infância de que temos consciência. E há lugares e memórias do tempo que não consciencializamos, como o dia em que nascemos.  

Sem esquecer a capacidade do cérebro em aceder a lembranças sem esforço aparente, de que aparentemente não nos recordamos, mas que, na verdade, conscientizamos em termos de “memória involuntária”, como nas madalenas de Proust que o transportavam para a memória gustativa e olfativa da sua infância, numa dualidade entre lugares do tempo e memórias do tempo.    


19.12.25

Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


238. DO SUBLIME


Associa-se o sublime, em geral, ao excelso, grandioso, soberbo, esplêndido, digno de admiração, de uma beleza celestial, radiosa e magnífica, despertando pensamentos e sentimentos nobres de respeito.   

Mas há que não confundir a noção do belo e do sublime, dado este também representar um desafio à nossa vontade, sendo mais forte que nós, uma força maior que a dos humanos e que, na sua grandiosidade, esmagamento ou ousadia, nos pode provocar fúria ou arrebatamento. 

Daí que, elevando-se acima do humano e convidando-nos a aceitar as nossas limitações, ao desafiar a nossa vontade pode não provocar apenas um julgamento de admiração e respeito, mas também ira e ressentimento, fazendo sentir-nos humilhados pelo que é poderoso e insolente e maravilhados pelo que é poderoso e nobre, podendo chegar à adoração e veneração.     

Se o sublime nos faz sentir pequenos, porque diminui a nossa dimensão, apoucamento que, só por si, pode ser desagradável, também pode ser satisfatório, na medida em que, por exemplo, há quem viaje para atravessar e observar paisagens a fim de vivenciar emoções espiritualmente avassaladoras e gratificantes, viajando pelos espaços infinitos ou esmagadores dos vastos desertos, cadeias de montanhas, glaciares, icebergues, céus, oceanos  e outros lugares procurados intencionalmente para que, quem os procura, se sinta pequeno. E podemos não ter palavras para exprimirmos o que sentimos, estabelecendo-se uma relação espiritual com o que observamos.

O sublime excita, supera-nos e se mais forte não o devemos ter como necessariamente odioso, dado que nos interpela e transcende, ensinando-nos que o universo é mais poderoso que nós, o que está tradicionalmente associado ao nome de Deus e das divindades.   

Há quem o tenha como a nossa maior paixão e a nossa suprema experiência emocional, que está para além da alegria ou do contentamento e do acalmar no belo, mesmo quando baseado no perigo, no temor ou pânico. 

 Elevar o espírito do sublime pode traduzir-se em soltar exclamações diante do ilimitado e do infinito, ter medo, admiração e respeito por tudo aquilo que desafia a nossa vontade e a transcende.   

Por meio da sua força e grandeza, ajuda-nos a aceitar, sem azedume nem jeremiadas, os impedimentos que somos incapazes de superar e as ocorrências insondáveis que desassossegam as nossas vidas e a que não somos capazes de dar sentido, recordando-nos a nossa efemeridade e vulnerabilidade, contrariando a afirmação de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”


12.12.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
   © AP Photo/Emilio Morenatti


237. O TEMOR DA OPINIÃO PÚBLICA


As pessoas devem ser naturais e seguir os seus gostos e convicções na medida em que não sejam abertamente antissociais.   

Poucas são felizes se a sua vida, elaboração e idealização do mundo não forem sancionadas, no geral, por aqueles com quem se relacionam socialmente, em especial por aqueles com quem vivem.

A maioria, para se sentir bem e realizada, carece de um ambiente simpático, de adaptar-se aos costumes e credos usuais, aguardando o reconhecimento dentro da norma. 

Outros, em pequenas ou grandes minorias, fogem às convenções demasiado convencionais, formais e rígidas, submetendo-se o estritamente necessário a uma convivência de coexistência integrante e pacífica.   

É menos saudável uma sociedade onde a opinião pública se rege por convenções em que toda a gente procede do mesmo modo, dado ser mais interessante uma sociedade em que, em princípio, as pessoas não são réplicas da maioria ou de todas as outras.   

Por exemplo, todos os que têm algum mérito artístico ou intelectual se sentem mais facilmente “hostilizados” num meio ou sociedade em que o futebol é rei, porque fogem ao que é a regra. Do mesmo modo, ao escolher-se uma carreira ou profissão, mesmo que respeitável, mas não costumeira ou consagrada no meio, pode-se ser apelidado de cobiçoso ou desajustado.

Havendo timidez injustificada, pode ser mais tirânica a reação, por analogia com a velha máxima de que um cão ladra e morde com mais força quando a vítima se assusta do que quando manifesta indiferença.   

Porém, uma pessoa estimulada e inclinada a ter gostos e convicções diferentes da opinião geral, pode sentir-se “degredada” ou “exilada”, condenada a isolamento hostil e causa de sofrimento, o que não exclui que noutro grupo não possa ser tida como alguém totalmente normal.   

Se o receio dos vizinhos é agora menor do que antigamente, surgiu um novo medo, com o aparecimento da imprensa em papel e digitalizada, que é o pânico do que podem dizer os jornais, as revistas e as redes sociais, uma nova forma de perseguição social, em especial para quem se expõe publicamente, um temor opressivo que pode ser tão assustador como o da caça às bruxas em tempos idos. 

Se bem que seja compreensível, em regra, respeitar a opinião pública dentro do que é exigível a uma convivência consensual mínima em sociedade, tudo o que ultrapasse esses limites pode ser submissão ou infelicidade. 

Mas sabemos que sempre houve e há pessoas de uma vida interior tão poderosa que o seu isolamento, a sua solitude, a incompreensão e a hostilidade do grupo ou do meio não as subjugaram, dada a sua envergadura espiritual, como as irmãs Bronte (em especial Emily) a quem alguma simpatia só sorriu após a publicação dos seus livros. 


05.12.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


236. SEXTA-FEIRA PRETA


A sexta-feira preta ocorre na última sexta-feira do penúltimo mês do ano, no dia de hoje, 28 de novembro de 2025.     

Com raízes nos Estados Unidos da América e mundializada pela globalização anglo-saxónica, indicia-se ser mais universalmente conhecida por “black friday”, como sucede entre nós, o que se lamenta, tanto mais que o seu nome e dicção, em português, é eficaz e marcante, mesmo em termos comerciais lusófonos. Ou sexta-feira negra? Tenho, por mim, a sexta-feira preta como menos artificial e elaborada, porque naturalisticamente mais nativista.   

Porquê esta anglicização incorporando na língua portuguesa vocabulários desnecessários, quando o nosso idioma é portador de expressões que têm um significado igual e um efeito similar? Ou até um impacto superior, e não inferior, em termos de pronunciação linguística, com a vantagem de que fazemos “jus” à nossa língua materna como elemento e referência número um em termos da nossa singularidade como nação e no espaço lusófono.   

Há que não contribuir para que nosso idioma seja “socialmente subestimado”.

Há que não promover o uso confidencial da nossa língua. 

Há que não fazer o culto de esconder dos ouvidos externos um bem de que eventualmente nos julguemos ser os únicos possuidores. 

Muito menos ter um complexo de inferiorização linguístico de algo que nos identifica e é uma língua de comunicação global e internacional, transcontinental e transcultural.

E que surge na galáxia linguística mundial como integrando o restrito conjunto das “central languages” (línguas centrais), no quadro de um sistema linguístico global, mesmo sabendo que o inglês surge como hipercentral, função que agora lhe cabe.   

Se já há quem não resiste à sexta-feira preta em termos de um consumismo apelativo de um consumo compulsivo tendencialmente tido como enganador ou indutivo em erro, o ideal seria começar por não sucumbir a um estrangeirismo, um anglicismo tomado desnecessariamente por empréstimo.

Por preguiça mental ou puros interesses comerciais? Por ambos os motivos, por certo, a par de um provincianismo de seguir mimeticamente, com uma subordinação alegre, chique e inconsciente, o que é importado de países alegadamente “superiores”.   

É lamentável que nem nós próprios, na nossa própria casa, não consigamos resistir a esta usucapião pacífica linguística, subtil e lesiva, de um bem jurídico que nos singulariza e universaliza.


28.11.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    © Hugo Delgado/Lusa


235. O INFINITO E A LIBERDADE


Se o infinito exprime a ideia de um caminho sempre aberto, um processo contínuo e permanente de continuidade sem fim, uma busca pelo ilimitado, um ciclo eterno que nunca se conclui, à imagem de uma biblioteca infinita que contém todas as histórias e saberes possíveis, tem de ser inerentemente antiautoritário, tal como a liberdade o é, valendo-se ambos de todos os recursos, desde logo intelectuais, ao seu dispor, dado que quanto mais se avança, mais essa procura pelo infindável e a liberdade avançam.   

Têm de estar abertos à experimentação, à dúvida, à discordância, à refutação, à tolerância, à incerteza, à ignorância, à diversidade, à imprevisibilidade, à crítica, ao provisório, a conclusões probabilísticas, à mudança, ao não sectarismo, à criatividade, à autonomia e independência, à universalidade, ao falível, ao indeterminismo, à atividade criativa e ao empreendedorismo contínuos.   

E se o cérebro humano, estruturalmente finito, tem a capacidade de conceber o infinito, imaginando e idealizando mundos e universos intermináveis, números sem fim e possibilidades infinitas, também temos de ter asas para voar sempre mais alto, não nos servindo de nada se a porta da gaiola nunca se abrir, roubando-nos a curiosidade e a liberdade.       

Mas há um preço, que se chama responsabilidade, que transcende a abstração e se materializa num legado que é um elo entre o passado, o presente e o futuro, sendo preciso saber, em cada momento, se se pode decidir quando voar e quando parar, sobrepondo o bem comum à nossa vontade individual.   

O fascínio e sedução pelo infinito e por ser livre não é voar indefinidamente e porque sim, é também poder justificar as nossas escolhas.         


21.11.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    © José Coelho/Lusa 


234. ESTANTES BIBLIOTERAPEUTAS


Se uma biblioteca infinita é fascinante porque tem todas as histórias e leituras possíveis, se a biblioterapia é um método que usa a leitura e a discussão de livros para promover o bem-estar emocional e psicológico, por que não criarmos estantes biblioterapeutas com livros e leituras intencionais que nos dão a possibilidade de nos sentirmos compreendidos, mais sarados e com menos stresse?   

Quando há livros, há que os arrumar, rearrumar, desarrumar e baralhar, aprendendo-se sempre em qualquer das situações, mesmo quando há uma conjunção de livros que não têm nada que ver uns com os outros, arrumando-os consoante o formato e a cor, por exemplo.   

A tendência mais comum é arrumá-los de acordo com a apetência de os ler, colocando os mais desejados próximos das nossas mãos.     

Esse apetite de proximidade varia conforme os nossos interesses profissionais, de entretinimento, gostos específicos ou por obrigação e dever de ofício.

E se é normal arrumar livros cuja temática versa sobre viagens, arte, filosofia, ensaios, poesia, romance, o mesmo não sucede com os que nos fazem sentir ouvidos, vistos, entendidos, onde há um processo curativo em potência quando vemos a nossa angústia, arrependimento, dor, perda, abandono, redução do stresse e os problemas que nos assolam nas páginas de um livro. 

Há livros de salvação, de resgate, terapêuticos, doadores de biblioterapia individual ou de grupo, que podem ser institucionalizados para serviços de leitura, curadoria literária e formação em biblioterapia.     

Os seus benefícios podem ser partilhados por cada um, na nossa casa, em especial na biblioteca, em estantes biblioterapeutas, beneficiando de uma leitura consciente, empática e reflexiva que pode ser um alívio e salvação, dando-nos a possibilidade de nos conectarmos emocionalmente e psicologicamente com as vidas de outras pessoas que vivem ou passaram experiências similares, levando-nos a uma catarse que pode abrir portas para nos sentirmos mais curados e resolvidos connosco e os outros, com maior autoconsciência, autoconfiança e resiliência emocional.


14.11.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Nick Bostrom © The Washington Post/Getty Images


233. UM “HOMO DEUS” LIMITADO


Os clássicos Homo economicus, Homo sociologicus e Homo Sapiens estão em expansão permanente, num processo sempre aberto e contínuo, em busca do infinito, agora com o advento do Homo digitalis e da inteligência artificial.   

Novos desafios emergem com a cibernética, digitalização, algoritmos, manipulação genética, novos fármacos, transplantes, próteses, a inteligência artificial, ajudando-nos a interpelar um futuro que já existe, surgindo toda uma variedade de inovações que  adicionam artificialidade ao natural, obrigando-nos a perguntar: onde acaba a máquina e começa o humano? Ou: onde acaba o humano e começa a máquina?   

O que se pode processar à revelia da nossa sensibilidade emocional e espiritual, em que o critério é o da eficácia, da operacionalidade e utilidade, atuando o nosso cérebro segundo uma programação de algoritmos sem consciência, espírito ou sentimentos, pondo em causa a nossa própria subjetividade e anulando gradualmente, cada um de nós, como cidadão.

Para Nick Bostrom, filósofo e pensador sueco, o objetivo da inteligência artificial é o desemprego total, interpretado no sentido de que ninguém precisaria de trabalhar para ganhar dinheiro, a que acresce um “mundo resolvido”, uma utopia segundo a qual é exequível uma maturidade tecnológica suficientemente adequada se usada, em termos gerais, para fins benéficos, em vez de nos oprimirmos e matarmos uns aos outros, libertando-nos da governação e do labor diário. Fica a questão: o que poderá dar um propósito à nossa vida num “mundo resolvido” em que tudo é feito por máquinas? Sabendo-se que “não fazer nada” é o mais difícil, exigindo toda a nossa energia?     

O progresso científico processa-se a um ritmo tão vertiginoso, que há quem acredite na criação de um processamento de dados - “a Internet-de Todas-as-Coisas” - que dará ao Homo Sapiens tamanha abrangência que o levará à ascensão de uma nova espécie humana, ora divinizada e há muito ansiada: o “Homo Deus”.   

Só que sendo o ser humano finito, com limites naturais intrínsecos (desde logo com um cérebro humano estruturalmente finito, mesmo que com capacidade para imaginar o infinito), não se vislumbra que, algum dia, pelo que racionalmente sabemos, possa ter a veleidade de ser sacralizado como uma alegada divindade do “Homo Deus”, podendo ser vítima da sua própria e inegável mestria.   

Nem se pode falar de um “Homo Deus” que desconhece o que há para além da morte, quando morremos, finda o universo e a infinitude do que nos transcende. São mínimos que se exigem a um Deus.  


07.11.25
Joaquim M. M. Patrício