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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


176. É MAIS DIGERÍVEL CONVERTER O MAL HUMANO NUM MAL NATURAL? 2


1. Ao tratarem, por exemplo, os seus bombardeamentos e dos aliados como choques de placas tectónicas e tempestades, as bombas ou mísseis como raios, relâmpagos, trovões, chuva, inundações ou tremores de terra, os alemães despiram a guerra de qualquer peso moral, evitando a reflexão, o arrependimento, o luto, um ato de contrição e de redenção sobre o seu passado agressor e sofredor, com reflexos no presente. 


Sebald, entre outros, desaprovou esta metamorfose da memória alemã impeditiva da compreensão do passado e comprometedora do futuro, mais grave que uma amnésia, tendo como condenável que a civilização humana nada possa fazer de melhor se a natureza nos confrontar com o seu mal natural, em detrimento do bem humano que pode haver, e é desejável, em nós.           


Adverso dessa visão amoral e naturalista, censurou o esquecimento da maioria dos alemães, dos negacionistas, dos que mentiram e foram incapazes de escrever o horror entre agressores e vítimas, incluindo quem criou o “mito do bom alemão”, sem alternativa e deixar que, paciente e sofridamente, tudo passasse. 


Elogia sobreviventes do Holocausto, como Jean Améry, que cumpriu o dever moral de escritor, ao escrever sobre o mal indizível, que não superou, no seu confronto permanente com essa perversidade, acabando por se suicidar.   


O que nos questiona de novo: será que com a indiferença ou a metamorfose da memória alemã, é exequível viver uma vida com alegria e superadora de ressentimentos? Se os japoneses não quisessem refletir sobre Hiroxima e Nagasáqui, não seriam convertidos em algo semelhante a um terramoto ou tsunami?   


Após escolher a via arqueológica do passado em busca do mal humano, W. G. Sebald não se ausenta, vence a inércia, enfrenta a dor e o mal do passado, faz o luto, procura a transcendência e a redenção, a catarse e o recomeço. Feito o ato de contrição, os alemães sobreviventes à destruição e à derrota da Alemanha nazi, estão marcados pelo pecado, sendo perdoados, o que é reforçado por referências bíblicas. 


Diz-se que há impulsos e instintos que não controlamos conscientemente, a que estamos ligados se quisermos ascender, que não podemos erguer-nos sem ter os pés no lodo. Em paralelo com a árvore que tem as raízes na terra e as folhas no céu. Só assim seremos transcendentes, incorporando tudo o que somos compreendendo-o. Ao encontro da reflexão de Sebald.   


2.
Depois do crime e castigo, da amnésia para amenizar o trauma, das tentativas de superação, da purificação, expiação e perdão há um reinício, uma ressurreição, uma nova Alemanha.   


Uma nova Alemanha aberta à universalidade, cosmopolita, emancipada, melhorada, que tenta diluir a sua culpa sendo invisível e não fazendo perguntas, passando cheques, não reclamando e pedindo licença por tudo e coisa nenhuma, em que a salvação é para todos e não apenas para um povo escolhido ou superior.   


Segundo uns, esta nova Alemanha, pós-Sebald, teve na ex-chanceler alemã um dos seus maiores expoentes, dando como exemplo maior a sua reação à crise dos refugiados, abrindo portas ao humanismo e à universalidade, contrariando o exclusivismo da cultura alemã do passado. 


Segundo outros, há ingratidão e falta de memória, pois apesar do pior país devedor do século XX, várias vezes em bancarrota e ter sido resgatado, foi implacável, por antinomia, na crise das dívidas soberanas. Nem é tido como humanismo, segundo os mesmos, a causa para a entrada massiva de refugiados, mas sim o défice demográfico, falta de mão de obra e o envelhecimento populacional. Rege-se, à semelhança dos Estados, por meros interesses próprios (até agora maioritariamente económicos) e geoestratégicos que uma futura presença no Conselho de Segurança da ONU e um potencial nuclear reforçarão. E há a fuga da razão e a luta do poder pelo poder, que é mais importante que a retórica declarativa da dignidade humana. Há quem pergunte: por que não foi criado Israel à custa de território da Alemanha, penalizando-a e purificando-a, por causa do Holocausto?   


Sebald, e bem, deu o seu contributo, deixou o seu testemunho de que, graças à força das ideias, se pode criar uma sociedade melhor, fazendo a sua libertação através da escrita, para quem o quiser compreender e enquanto houver gente para o ler.   


E se o mundo é um caos, injusto ou escapa à nossa total compreensão, temos de reconhecer as nossas limitações, embora lutando sempre para que as sociedades sobrevivam moral e eticamente, dignificando a pessoa humana, não convertendo o mal humano num mal natural, mesmo quando os vícios da humanidade são alavancados e ampliados pela técnica e o desastre se tenda a agravar. Se desistirmos, o mal será maior.


24.05.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


175. É MAIS DIGERÍVEL CONVERTER O MAL HUMANO NUM MAL NATURAL? 1


A identidade de uma pessoa é maleável, em grau maior ou menor, segundo aqueles que nos acompanham. A sociabilidade de certas pessoas pode estimular a nossa compaixão, generosidade, humanidade e sensibilidade. A de outras, a nossa crueldade, frieza, desumanidade e indiferença.


Para William Wordsworth, a natureza incute-nos a acessibilidade de procurar na vida e uns nos outros o que há de bom e saudável. A natureza, ser inanimado, tem a capacidade de exercer influência sobre os outros seres que a rodeiam. Cascatas, flores, glaciares, icebergues, montanhas, oceanos, vulcões, um castanheiro ou uma celidónia, têm o poder de nos sugerir certos valores. Há quem veja nas flores modelos de humildade e mansidão, nos lagos de serenidade e nos pinheiros de resolução. 


Estes seres, que temos como desprovidos de consciência, não são apenas arquétipos inspiradores de virtude, mas também instigadores do medo, do terror, do inconquistável e invencível. Muitos deles fazem-nos sentir pequenos e insignificantes na ordem natural das coisas, perante a imensidão do deserto, dos oceanos, a altivez, altitude e imponência de algumas montanhas. Uns, com a sua aura sublime, também suscitam sentimentos de natureza espiritual ou dimensão religiosa. Outros, são indomáveis na sua impensável beleza.     


A hegemonia da natureza também está presente na obra de W. G. Sebald (escritor alemão, 1944-2001), onde as civilizações humanas acabam sempre em ruínas. São sempre reconquistadas pela natureza, que é insuperável e está permanentemente em guerra com o que é humano.     


A natureza determina a visão de Sebald sobre o seu país e a própria natureza humana: a sociedade sobrevive moralmente quando transforma o mal humano num mal natural, ou seja, quando mascara uma catástrofe causada pelos seres humanos com a roupagem de uma calamidade natural. A destruição causada pela guerra, as suas atrocidades e bombardeamentos convertem-se na destruição causada por uma tempestade, um terramoto ou um tsunami.   


Enquanto Wordsworth sustentava que a “amabilidade” da natureza servia de guia a incitar-nos à busca do bem dentro de nós, a Alemanha, em pleno nazismo e segunda guerra mundial, recorria à amoralidade da história natural de molde a justificar o mal que há dentro de nós.     


Ao lado da deslumbrante e idílica beleza dos campos, pode haver a fascinante beleza da ordem, do medo que intimida e aterroriza.


Este recurso a elementos amorais e inconscientes da natureza, como causa de justificação da ilicitude ou da culpa, levou Sebald a revoltar-se contra essa metamorfose da memória, convertendo-a em deturpação, interpelando o silêncio sobre a Alemanha enquanto agressora e, também, enquanto vítima.


Opina que os alemães, com especial responsabilidade para escritores e intelectuais em geral, não souberam ou não quiseram lidar com os bombardeamentos aéreos sobre as suas cidades, com as vítimas civis, os feridos, os órfãos, os que perderam tudo, conduzindo-os a uma sociedade moral desacreditada. Conclui: “parece que ninguém escreveu sobre essas coisas nem se lembrava delas”.


Assumiram a destruição da segunda grande guerra, incluindo a sua derrota e consequências, do mesmo modo que um terramoto ou tsunami, não procurando o luto ou culpados, impedindo qualquer reflexão como agressores e vítimas, o que Sebald censurou, sem querer diabolizar os vencedores e vitimizar os vencidos.


Se não havia responsáveis de ambos os lados, nem reflexão a fazer, aguenta-se e segue-se em frente, transformando o mal humano num mal natural, ou levantamo-nos contra esta perspetiva e, se sim, em que termos?   


Há quem se rebele contra esse consentimento, mesmo que tácito, sendo um deles W. G. Sebald.           


17.05.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


174. O PODER DAS FÁBULAS


São histórias literárias ou narrativas curtas, em verso ou prosa, que têm maioritariamente como protagonistas animais, que agem como humanos, no falar e comportamentos, sustentando sempre um ensinamento como um preceito moral.


Ilustram estereótipos familiares e sociais que perduram, contrariando a ideia de que o progresso material trará inevitavelmente o progresso moral, dado que as lições morais que lhes estão associadas são intemporais, como o são as suas personagens representando o absentista, o ambicioso, o avarento, o bonzinho, o consolador, o covarde, o embirrante, o fraco, o interesseiro, o invejoso, o intriguista, o mentiroso, o paraquedista, o perfeito, o poderoso, o preguiçoso, o trabalhador, o vaidoso, entre um não mais findar de exemplos.   


O que não significa que não haja divergências na sua interpretação, como o demonstra uma das fábulas mais conhecidas, a da cigarra e da formiga.


Segundo reza a história, na era em que os animais falavam, passou a cigarra o estio a cantar, enquanto a formiga, sua vizinha, trabalhava. Chegado o inverno friorento, e sem ter que comer, pediu à formiga que lhe emprestasse comida, com a promessa de pagar o devido e juros antes do verão. A formiga, conhecida por ser poupada, perguntou o que fez durante o verão. Vangloriou-se, a cigarra, de ter cantado dia e noite, ao que a formiga retorquiu: “Cantavas? Pois agora dança!”.     


A lição, tida como principal desta fábula, é que há os trabalhadores cumpridores, poupados e previdentes, por um lado, e preguiçosos, absentistas, cultores exclusivos do ócio, lazer e prazer, por outro. Uma espécie de “santos” e “pecadores”.     


Teoria a que se pode contrapor, desde logo, ser injusto e redutor ter como ociosos, indolentes ou mandriões cantores, dançarinos, músicos, ou seja, quem vive, pessoal e profissionalmente, a cantar, a dançar e da música, a que se podem associar letristas e poetas, autores de palavras cantadas. Que têm um trabalho digno, como qualquer outro. Um trabalho pro bono e por gosto (muitas vezes), não sobrevivendo só por ele. 


Esta defesa do trabalho, só pelo trabalho, pode levar a posturas absurdas, a lembrar a cultura do descarte; descartam-se e desvalorizam-se os jovens, porque ainda inaptos para produzir, os defeituosos, porque não podem laborar, os idosos, porque já não podem rentabilizar.   


Uma variedade de leituras que é adaptada e interpretada, em termos culturais, consoante os países e as populações, entre europeus do norte e sul, protestantes e católicos, a começar pela educação escolar.   


Perguntando se a formiga deve ajudar a cigarra, é um lugar comum dizer que enquanto as crianças alemãs e nórdicas dizem que não, as portuguesas, espanholas e outras gritam que se deve salvar a cigarra, coitadinha, acreditando uns que a cigarra prevaricou e, por isso, deve ser punida, e outros que, aprendida a lição, trabalhará mais e cantará menos no verão seguinte.


Este epílogo da compaixão latina, por antagonismo ao castigo nórdico, tem muito a ver com o perdão tido como a qualidade mais antiga do catolicismo. Uma licença para pecar, pois quem pecou, se mostrar arrependimento, confessando-se, é absolvido e salvo, só Deus nos podendo julgar. Ter o mesmo prémio para quem pecou e não pecou, mesmo só no plano ético e moral, não é aceitável por todos, mesmo entre cristãos.


Há que alcançar um equilíbrio, podendo as cigarras trabalhar mais e melhor, em menos tempo e com mais lazer, não podendo as formigas arrogar-se de qualquer superioridade em dignidade, moral ou outra, ignorando ou evitando as vizinhas com as suas imprevisíveis consequências, não só por razões humanitárias e de convivência, mas também pela inexequibilidade de poder só haver excessos, para todos, sem défices, para ninguém, rumo a um bem estar não apenas económico, mas igualmente cultural e espiritual.


10.05.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


173. A DESTRUIÇÃO DA PAZ E A NATURALIZAÇÃO DA GUERRA


A mera ameaça ou a intenção de usar armas nucleares é imoral, dado ser ilícito o simples intuito de fazer mal? A dialética da guerra e da paz, idealizada para conflitos armados convencionais, pode ser aplicável à nova realidade da era nuclear? Abolindo, limitando ou reduzindo as armas nucleares, estaremos a abolir, limitar ou reduzir a guerra ou a escolher outro modo de morrer? Ou a “docilizar” a guerra com o fim de a usar como como instrumento da política?


A guerra ou uma paz qualquer nunca foram a melhor solução para resolver os conflitos, dado só interessar uma paz verdadeira, capaz de justificar uma guerra justa. 


No mundo de hoje a guerra coexiste com o armamento nuclear. Desta inevitabilidade e da coexistência entre o pacifismo impressionável e utópico, por um lado, e o belicismo total e monstruoso, por outro, pode resultar uma série de hediondas consequências. Para as evitar poderia abolir-se a guerra, proibir-se ou destruir as armas nucleares, confiar no lado bom da natureza humana e organizar o mundo ao seu jeito. Porque inviáveis estas soluções, surgiu a teoria da dissuasão. 


Esta doutrina desanuviou, por algum tempo, tentou travar a corrida aos armamentos e falhou, não podendo ser tida como uma solução final, tendo aumentado o ritmo e a intensidade, com nove potências nucleares e outras à espera de oportunidade.


Como sabemos, já houve o lançamento de bombas atómicas. Hiroshima e Nagasaki não são páginas brilhantes da história da humanidade. São atos que nos envergonham e introduziram uma nova escala e dimensão dos conflitos humanos.


Elisabeth Anscombe (filósofa), sustentou que uma pessoa é responsável pelas consequências intencionais e não intencionais do seu ato quando previsíveis e evitáveis, pelo que, segundo ela, a autorização para o lançamento das bombas foi moralmente criminosa, censurando e condenando o presidente americano Harry Truman. 


Sucede que a maioria dos conflitos tem como origem um conflito de interesses, o que aumenta, no mundo real, o risco de um novo conflito nuclear de consequências mais suicidas, em que não haverá vencedores nem vencidos, sendo um genocídio (na melhor das hipóteses) ou o fim do mundo/humanidade (na pior previsão).   


O conflito bélico, uma vez iniciado, não é tido, para os realistas, como um ato falhado, em que a força da razão e do diálogo foi substituída pela razão da força, dado isto ser doutrina de pacifistas e de filósofos bem-pensantes, colocando-se contra a realidade da vida em sociedade.     


Para uns, a única esperança é o pacifismo, para outros, o equilíbrio das armas,  sobressaindo o dever de sobrevivência das espécies, incluindo a humana, havendo que esforçar-nos, na nossa imperfeição, por controlar ou influenciar a definição dos fins e meios para alcançar um rumo exequível entre a utopia e a realidade, sem esquecer que “a bomba atómica mudou tudo, exceto a natureza do homem” (Albert Einstein).


03.05.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


172. O 25 DE ABRIL NÃO TEM DONOS


Numa ordem mundial dominada por ditaduras não teria acontecido o 25 de Abril em Portugal, nem outros acontecimentos congéneres seriam possíveis pelo mundo fora. Só uma ordem mundial baseada na democracia poderia ser a sua génese.


Sendo intrinsecamente democrático, na sua essência, o 25 de Abril de 1974 não tem donos, é de todo o povo, não sendo propriedade exclusiva desta ou daquela ideologia, deste ou daquele partido, direito de preferência de alguns, sendo de todos, sejam mais ou menos instruídos ou qualificados e, daí, também, ser feriado. 


Não pode, nem deve, ser apropriado por poucos, pois sendo generoso na sua origem nele cabem todos, não sendo de direita, do centro ou de esquerda, havendo nele lugar para democratas, antidemocratas, liberais, antiliberais, comunistas, anticomunistas, radicais e extremistas. 


Querer a liberdade de celebrá-lo só para nós, enquanto a negamos aos outros, é trair o sentido mais autêntico daquela data. 


Se a sua mensagem mais genuína foi a liberdade, no seu respeito pelas liberdades individuais e direitos humanos, onde sobressaem a liberdade de expressão, de pensamento e o direito à informação, há que repudiar a ideia de que tem proprietários, que é uma espécie de coutada ou tapada proibida a quem pense de maneira diferente. 


É contra o espírito do 25 de Abril apropriá-lo, para sobreviver, à custa de autoelogios por atos louváveis praticados anteriormente na clandestinidade.   


Assim como o é a sujeição a uma ditadura de opinião que defenda a interdição de partidos de direita, tidos como antidemocratas, ditatoriais e totalitários, mas que aceita como arautos da liberdade partidos de esquerda similares, que sempre defenderam (e defendem) regimes políticos que nunca admitiram (nem admitem) qualquer princípio de liberdade em democracia nos países que têm como modelo. 


Nem é aceitável que uma minoria de presumíveis ideólogos da democracia se arrogue no direito de decidir o que é liberdade, muito menos quando é sabido serem contrários ao espírito da alvorada e da primavera de 1974 totalitarismos de direita ou de esquerda, não distinguindo entre ditaduras condenáveis e virtuosas, porque ambas intoleráveis, o que é reforçado pelo voto expresso dos portugueses no decurso de 50 anos.


Uma liberdade que é inerentemente antiautoritária, aberta à mudança, à crítica, ao debate, ao não sectarismo, a novos espaços e mentalidades, tem de incluir na democracia mesmo os que se lhe opõem, sendo o principal remédio (não o único) para que não regressem governos autoritários ou ditaduras.   


Sem constrangimentos e sem censura, assim o celebrizemos e continuemos a questionar, neste seu cinquentenário, havendo ainda muito por fazer.


26.04.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


171. LER É VIVER VÁRIAS VIDAS EM LIBERDADE


Extrapolando o excerto bíblico, é verdade que no princípio era o verbo, ou seja, a palavra falada, já que a palavra oral se antecipou temporalmente, em milhares de anos, no mínimo, à escrita.


E se é possível imaginar um mundo sem escrita, sem esta pouco ou nada saberíamos das civilizações que a criaram, nem poderíamos, sem leitura, contactar e dialogar com outras gerações que nos antecederam ao longo de milénios de história.   


Quem não lê, um país que não lê será sempre fraco, a falar e escrever pior, a ser mais prontamente manipulado, menos eficiente em algo de essencial e no exercício do contraditório, não estimulando a memória e a aquisição de conhecimento, perdendo-se a capacidade de questionar e de ser livre, ficando mais despossuídos de mandarmos em nós próprios e mais permissivos para sermos mandados.   


Ler é ter porta aberta a todos os mundos, alegres, tristes, pacíficos, sombrios, sinistros, fantásticos, futuristas, imaginários, um sonho que nos liberta pela mão de outrem e pela nossa imaginação. 


É um escape, uma fuga, voar mais alto, ir mais além do atingível, tocável e inteligível.   


Ao chavão “só fala e escreve bem quem lê muito”, opina-se que “falar e escrever bem estão em extinção, dada a redução do vocabulário, porque não se lê ou lê pouco”, com a cultura da leitura à beira do abismo, endeusando-se a quimera da igualdade e do saber das redes sociais, mesmo tendo-se como adquirido não ser o mesmo ler num ecrã de telemóvel/computador ou num livro, como sucede com os livros clássicos e sapienciais, pois escreve-se e lê-se pior através dos pequenos e grandes ecrãs.


Se é verdade que a leitura de livros vai perdendo a competição para os tablets (na maioria das casas, mesmo endinheiradas, os livros não existem ou são coisas raras), também a sua aprendizagem e uso privilegia e singulariza cada vez mais, pela positiva, quem o faz, não desprezando o lado analógico da nossa condição humana. 


E se para acionarmos a fala inventámos a escrita, se para acionar a escrita criámos a leitura, para a leitura exercitamos a imaginação de vivermos múltiplas vidas em liberdade, pois “Ler é transformarmo-nos, de um em muitos, de singular a plural” (Eugénio Lisboa, em Indícios de Oiro).


19.04.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


170. DO AMOR E ÓDIO À HUMANIDADE


A destruição do nosso planeta por um holocausto nuclear estará inscrita na História da Humanidade? Hiroshima e Nagasaki foram apenas um “erro” que não voltará a repetir-se? O Holocausto foi um simples “erro” irrepetível? A guerra, como realidade histórica que tem acompanhado o ser humano na sua trajetória terrena, é irredutivelmente eterna? A presença do Homem na Terra é só destruição?     


É uma visão cruel da presença humana na Terra, que trouxe (e trará) destruição à natureza e aos humanos. Só que, olhando para a natureza, compreendemos que ela também é cruel, o que não legitima que defendamos que o mal humano é mais digerível quando o transformarmos num mal natural.     


Não foi a presença humana, em si e só por si, que trouxe destruição à natureza e à espécie humana, por muitos exemplos que haja da sua crueldade. Apesar do seu quinhão de destruição, evitável, em parte, o saldo é e continua positivo, através de um enriquecimento substancial do mundo em que habitamos. A não se entender assim, é legítimo concluir que há quem seja portador de um pessimismo intrínseco que prefere um mundo desumano e com ódio à humanidade. 


Tomando como referência a tese geral de que a presença humana na Terra é destrutiva, há quem a torne extensiva ao colonialismo (racismo e não só), que com a escravatura, por exemplo, destruiu a natureza do humano e da cultura nas comunidades locais colonizadas.


Trata-se, por um lado, de uma avaliação e generalização simplista, dado saber-se que quando os europeus chegaram o tráfico de escravos já era conhecido. É consensual que os africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses chegarem a África. Pode falar-se de uma questão de grandeza, uma vez que os europeus da época praticaram a escravatura (já existente) numa escala maior. O que também pode levar, por outro lado, a um incitamento ao ressentimento e à violência, começando por um certo ódio tribalizado que se pode universalizar, apesar de, à nascença, segundo Rousseau, sermos todos bons selvagens.   


E é muito pouco consensual (no mínimo) a teoria crítica da raça, segundo a qual como só os brancos tinham poder, apenas os brancos poderiam ser racistas. Os negros, não, ou, se o fossem, eram-no apenas porque tinham “interiorizado a branquitude”, tida como contagiosa para desculpabilizar os que não comungavam as novas ideias e teorias raciais. E os da Ásia e das Américas?   


Não se pretende “branquear” a colonização, escravatura e racismo, porque condenáveis na sua desumanidade, repugnância e ódio à humanidade. Mas é incompreensível só aceitar visões maximamente supremacistas, de vencedores ou vencidos, que muitas vezes apenas sobrevivem por ressabiamento e pelo odioso ao que é humano, não as contextualizando, escrutinando e confrontando nos seus prós e contras. É um discurso negativo, revanchista, vingativo, ressentido, megalómano, perigoso e vil. Há que não estimular ideologias de incitamento ao ódio, antes sim as de união e reconciliação. A lista de coisas boas é extensa e gratificante: avanços médicos, científicos, tecnológicos e as artes em geral de que o mundo beneficia. E que o nosso amor à humanidade sedimenta e amplia.


12.04.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


169. O LADO EFÉMERO E PERMANENTE DO VANGUARDISMO


O fundamento teórico do vanguardismo rompe com toda e qualquer tradição ou norma estabelecida, tidas como impeditivas do progresso e da evolução, dando lugar à inovação.


A geração mais nova tem como missão romper com o passado e, sobre a sua herança e escombros, acelerar a criatividade, criar um mundo novo, inventar o futuro ultrapassando o que findou, excedendo o presente e criando o que está para vir.


A arte, a evolução científica e tecnológica, o progresso civilizacional, as inovações revolucionárias e militares, a proliferação e a diversidade de renovações formais, a criação de novas linguagens e a construção de um novo universo plástico, passam a ser tidos como uma investigação gradual, sucessiva e permanente, uma guarda-avançada dos novos saberes e sensibilidades.  


Pela própria natureza de experimentação permanente, as vanguardas estão, também, condenadas à efemeridade, ao que é breve, conjuntural, transitório e temporário, dado que, permanentemente, outras alternativas acabam por superar as anteriores.


São princípios comuns que, pela sua própria essência de experimentação constante, se aplicam, amiúde, ao cinema, à escultura, à literatura, à música, à pintura, à poesia, ciência, tecnologia, medicina, ideais, à escala e patamar das civilizações, numa frente comum futurista e messiânica, contra a tradição e a academia. 


Todavia, tanto a vertente antitradicionalista como a futurista se complementam, potenciando as vanguardas e o movimento vanguardista que lhes está associado, não obstante o seu elitismo inicial e o seu potencial divórcio, pela sua ininteligibilidade, com o público que, com o tempo, as assimila, surgindo a necessidade de novos caminhos, abandonando o passado e acelerando e inventando o futuro.  


Por exemplo, o aparecimento da fotografia de copiar fielmente a natureza, através de um processo rápido e realista, não acabou com a pintura tradicional, que preserva a sua linguagem própria. Assim como as imagens sintéticas e fotorrealistas produzidas pela inteligência artificial, tidas como uma representação de uma fotografia, não acabaram com a fotografia propriamente dita. 


Se se tem como adquirido e inevitável que a intenção predominante nas vanguardas deve ser, não a da tradição, mas a da inovação, é caso para se assumir que além do que já foi feito, falta fazer tudo.


05.04.24
Joaquim M. M. Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


167. INTERROGAÇÕES SOBRE A LÓGICA DO PROGRESSO


Se no mundo técnico e científico o progresso é marcado por uma evolução gradual, linear e de permanente inovação, o mesmo não se verifica nas relações dos humanos uns com os outros.


Não há troca de eletrodomésticos, computadores, telemóveis, máquinas ou meios de transporte tecnologicamente mais eficientes e confortáveis por outros mais antigos, desadequados, desatualizados, ultrapassados e ineficientes.   


As coisas, os objetos, o dinamismo dos utensílios e do saber encaminham-se para a sua perfeição, melhorando continuamente, numa tendência universal que atravessa todas as latitudes e longitudes, independentemente das determinações étnicas de uma comunidade, grupo social ou cultura.


Indicia-se não haver regressão no progresso técnico e científico, na dinâmica inteligível dos utensílios e das coisas, que se intui como crescente e irreversível, ao invés das várias formas de relacionamento humano, como no universo político e simbólico, tidas como repetitivas, progressivas, regressivas, com avanços e recuos, onde se indicia existirem problemas insolúveis, reversíveis, subjetivos e geradores de incerteza. 


Intui-se que o tempo cumulativo do desenvolvimento científico e técnico é portador de uma evolução e inovação progressivamente contínua. 


Intui-se que o tempo cumulativo do desenvolvimento das relações das pessoas umas com as outras não melhora permanentemente, pode ser progressivo ou regressivo, pode trocar-se uma democracia por uma ditadura e o inverso, abolir-se ou instituir-se a pena de morte e a prisão perpétua, trocar-se uma religião humanista por uma inquisitorial e sanguinária, por mais que se tente absolutizar e universalizar os direitos humanos, de génese meramente ocidental, para muitos. 


E se o computador é um progresso irrefutável, um sem número de vezes superior, em relação ao ábaco e à sua calculadora, não se pode dizer que Gandhi, Luther King ou Mandela são personalidades morais superiores a Buda, Jesus Cristo ou Maomé. Que filósofos contemporâneos são mais “profundos” que os da antiguidade como Sócrates, Aristóteles e Platão. Que Jackson Pollock e Andy Warhol superam Caravaggio e Leonardo da Vinci, que as obras de Shakespeare ultrapassam a Ilíada e a Odisseia, de Homero.       


Indicia-se que a noção de progresso é menos aceitável e mais questionável, senão mesmo inviável, na ordem afetiva, intelectual, psicológica, política e simbólica das relações humanas, dada a sua natureza e condição, como o provam os clássicos na sua intemporalidade, pois “está lá tudo”, desde que há escrita, como é usual dizer-se, pelo que, nesta perspetiva, a guerra, por exemplo, tem caraterísticas de permanência na História da humanidade, o que não exclui tentar expurgá-la, a todo o tempo e em qualquer circunstância.


22.03.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


166. PRIMAZIA LEGAL E MORTE MORAL COMO JUSTIFICAÇÃO


1. Professor - As sociedades pensam que se regem por uma coisa chamada “moral”, mas não é verdade. 
Regem-se por uma coisa chamada “lei”.
Não se é culpado só por ter trabalhado em Auschwitz. Oito mil pessoas trabalharam em Auschwitz. Dessas oito mil, apenas 19 foram condenadas e apenas 6 por homicídio. Para provar um homicídio temos de provar intenção. É a lei.    
Aluno - A questão nunca é se foi errado, mas se era legal e segundo as nossas leis?     
P - Não. Segundo as leis da época.   
A - Mas não é redutor?     
P - Sim. A lei é redutora.   
A - Por outro lado, suspeito que as pessoas que matam outras pessoas tendem a estar conscientes de que é errado (excerto do filme “The Reader”/“O Leitor”).  


Bruno Day (BD), guarda das SS da Alemanha nazi, no campo de concentração de Stutthof, foi condenado, aos 93 anos, por ter colaborado no assassinato de 5230 pessoas alegando, em seu benefício, só ter, à data, 17, sendo menor e um membro inócuo de um sistema legal autoritário e burocrático a que devia obediência. A sua defesa recorreu ao argumento de Adolf Eichman (AE), no julgamento em Jerusalém, ao invocar a obediência hierárquica inserida numa estrutura administrativa de hierarquização rígida e de dependência acrítica, que anulava o espírito crítico, a ética e a moral, pelo que ambos teriam sido vítimas duma autolimitação ou remoção da sua capacidade de livre arbítrio. 


A centralidade biográfica e histórica do Holocausto começou por ter como tema as vítimas, uma espécie de compensação que não correspondia à realidade, ao não priorizar os perpetradores. Entre estes estavam os que tinham o poder, mandando executar ordens, que eram cumpridas pelos que obedeciam. Existia a convicção de que Hitler e os seguidores diretos eram monstros psicopatas, a que os seus subordinados hierárquicos e o povo alemão em geral tinham obrigatoriamente de obedecer, contribuindo para a desculpabilização da sociedade germânica. 


A rutura com essa análise sucedeu com o julgamento de Eichmann, com a sua transmissão e os relatos feitos por Hannah Arendt ao introduzir o conceito de “banalidade do mal”, do burocrata que não se sentia responsável, porque reduzido à mera dimensão de uma peça irrelevante de uma engrenagem e máquina burocrática que o asfixiava e remetia para um estatuto sub-humano, o que lhe permitia justificar a sua participação em atos criminosos. Se assim era com funcionários burocratas dependentes hierarquicamente e mais bem posicionados para conhecer a solução final judaica dos seus superiores nazis, por maioria de razão para o povo alemão que, em princípio, teria um menor ou nenhum conhecimento, dada a sua maior distância do núcleo central decisor.    


2.
A defesa da tese de que AE e BD, entre outros, naquele tempo e naquelas circunstâncias, por razões excecionais, foram as primeiras vítimas do sistema legal e da estrutura administrativa vigente, foi contestada pela acusação ao alegar que o ser humano nunca pode invocar a sua morte ética e moral como justificação para a colaboração em atos criminosos.   


Fritz Bauer, procurador alemão que lidou com processos relativos a Auschwitz, afirmou: “Este sistema monstruoso só funcionava porque todos participavam nele. Bastava uma só pessoa, um só funcionário, contrariar uma ordem e todo o sistema poderia ter sido afetado. É por isso que aqueles que habitualmente eram apelidados de pequenos foram indispensáveis e, como tal, devem ser penalmente responsabilizados”. Nos julgamentos de Nuremberga, pretendeu-se provar que todos e cada um dos acusados sabiam da existência dos campos de concentração, que o horror, o medo e o terror abominável a eles associados eram instrumentos através dos quais mantinham o seu poder e baniam a oposição às suas políticas. 


O que nos levou à terrífica constatação de que os crimes contra a humanidade não são apenas obra de uma minoria de pessoas facínoras ou malignas que detêm o poder, mas de milhares de seres humanos tidos como “comuns”, com a cumplicidade de milhares ou milhões, numa ambiência de indiferença generalizada (o que é diferente duma culpa coletiva).   


É mais fácil racionalizar as coisas no decurso da guerra, por patriotismo e ideias similares (ignorando tudo o resto), do que evitar delitos contra a humanidade e violações do Direito Internacional, em que o vencedor tende a ser o “juiz” e o acusado o “vencido”, sendo titubeante o progresso alcançado (por vezes regressivo), neste contexto, sempre algemado por interesses geoestratégicos das grandes potências, o que não implica desistir de expurgar a duplicidade de critérios que sobressai em temáticas que deveriam ser universalmente consensuais e exequíveis.


A relevância deste tema ultrapassa as fronteiras da Alemanha. Interpela toda a Humanidade. Aconteceu com o totalitarismo nazi, o soviético e outros, com ramificações diferenciadoras e comuns no presente. Acreditou-se, erroneamente, que tínhamos atingido um estádio de civilização tão evoluído, uma sociedade de bem-estar tão permanente, que a guerra e as crises não regressariam, tendo como adquirido um ilusório crescimento perpétuo a todos os níveis. O que nos interroga sobre a natureza da condição humana e quão longínqua está a materialização da Paz Perpétua de Kant, uma utopia, que pode e deve ser repensada, para que se criem alternativas com maior aderência à realidade e o seu máximo de viabilidade.          


15.03.24
Joaquim M. M. Patrício