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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de janeiro de 2017.

 

O filme «Silêncio» de Martin Scorcese é baseado no enredo concebido por Shusaku Endo (1923-1996) sobre a memória da presença portuguesa e cristã no Japão. O livro foi publicado entre nós pela D. Quixote, com tradução de José David Antunes, e a sua temática insere-se na nossa riquíssima relação com o país do Sol Nascente.

 

CONHECIMENTO MÚTUO
Diz-me a experiência que os nipónicos conhecem melhor Portugal do que nós a eles. Não falo só dos muitos vocábulos portugueses usados no quotidiano (butan, kappa, koppu, pan ou tempura) ou do célebre pão-de-ló (kasutera, palavra que vem das claras em castelo), mas sobretudo de uma empatia muito especial, devida ao facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais a chegarem a este distante arquipélago, habitado por guerreiros, mercadores e pescadores, abertos ao mundo. A arte Namban é um resultado deste encontro, provindo a designação do modo como os japoneses nos conheciam – Namban-jin significa bárbaros do sul… Por toda a parte no Japão, encontramos memórias do encontro com os portugueses – e Venceslau de Morais ou, nos nossos dias, José de Guimarães bem compreenderam esta riquíssima relação. De facto, há uma curiosa relação biunívoca entre os nossos povos. Shusaku Endo foi um grande admirador dos portugueses e amigo do Embaixador Martins Janeira. Nasceu em Tóquio, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência da mãe, com quem viveu, depois desta se separar do pai, em Kobe. Licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon. A sua obra é marcada pela pertença a uma religião minoritária e pela vivência de intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista. E Silêncio é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e o mais significativo, tendo sido distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). Não esqueço o encontro em Quioto com os Padres Adelino Ascenso e José Tolentino Mendonça, para falarmos de Silêncio. O tema crucial era o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, parecia dizer: “Podes pisar-me!”. Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. Para o Padre Ascenso, a distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. E António Alçada gostava de recordar a passagem da Peregrinação, em que Mestre Belchior e o rei do Bongo falavam da conversão deste último – em que ele dizia ser desnecessário qualquer gesto, já que Deus o sabia…

 

INTERPRETAÇÃO SOBRE A VIDA
O filme de Scorcese procura uma interpretação sobre a vida de um missionário no Japão no século XVII, em especial durante a dura perseguição, que durou quase um século. O caso que serve de base ao livro de Endo tem a ver com a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira em 1633 – caso inédito até então. Perante as perseguições, houve necessidade de resistir. Daí que os jesuítas tenham assumido a exigência de algum tipo de acomodação cultural, como no caso dos ritos. No livro, tudo começa por um dado dramático: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus, Cristóvão Ferreira, submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo tornou-se violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos adotados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas. Silêncio trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o que se tinha passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações, que nos levam aos estranhos acontecimentos que conduziram à apostasia do mais proeminente dos missionários no Japão…

 

UM DRAMA HUMANO E RELIGIOSO
Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? “Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes”. Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz”. Afinal: “Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”… O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso.O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz o romancista): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”.

 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na minha carta precedente, falei-te, muito livre e pessoalmente, da constituição e tradição dos nossos textos evangélicos. Por seu lado, o Corão deve a sua reunião em livro a um ato político, preparado pelo segundo califa (ou sucessor de Maomé), Omar, e feito pelo terceiro, Osmã. Na verdade, durante a vida e imediatamente depois da morte do Profeta fundador, apenas circulavam revelações divinas, lado a lado com ditos do mesmo Maomé, e relatos da sua vida. Tais ditos e relatos também seriam reduzidos a escritos, conhecidos, respetivamente, por Hadiths e Sira. Já as revelações divinas, recebidas pelo Profeta através do anjo Gabriel, seriam coligidas num livro a que se chamou Corão, precisamente por conter essas qurra ou recitações. Foram, aliás, os al qurrâ, os recitadores que se presumiam depositários exclusivos da revelação maometana, que mais se opuseram à versão oficial do Corão decretada pelo califa Osmã, como instrumento indispensável à preservação da unidade e força de um império nascente, que lutas intestinas, numa circunstância de rapidíssima expansão, ameaçavam. Não olvides que, após a morte do Profeta, em 632, ou seja, dez anos depois da hejira (início da era muçulmana, em 622), lhe sucederam, imediatamente, os quatro califas ortodoxos (os "bem guiados"): Abubacar, Omar e Osmã, até 657, período em que o islão conquista, para além da península arábica, o Egipto e o norte de África, e, derrotando os exércitos persa e bizantino, os territórios que hoje constituem a Síria e o Iraque; e Ali, o quarto, que Maomé teria preferido para sucessor, foi califa de 657 a 661, data em que foi assassinado. Nele radicará a secessão xiita. Apesar da importância do conceito de Umma ou comunidade dos crentes, no Islão, a continuação da mensagem de Maomé não se faz, como acontece no cristianismo primitivo, por uma Igreja independente do poder político, temporal, mas pela transmissão de um império.

 

   Escreve o doutor Nabil Mouline, no seu Le Califat - Histoire politique de l´islam (Paris, Flammarion, 2016): Desde o seu acesso ao poder, Abubacar [o primeiro califa, sucessor imediato de Maomé] tem de enfrentar um grave problema. A maioria das tribos e regiões que se aliaram à causa de Maomé, nomeadamente depois da conquista de Meca, rejeitam a autoridade de Medina [onde o Profeta falecera e está sepultado], por razões religiosas, económicas e políticas. Vários grupos estimam que o juramento de vassalagem prestado ao Profeta é estritamente pessoal. Recusam, portanto, reconhecer o novo chefe. Outros afirmam que, não deixando de ser muçulmanos e reconhecendo a preeminência de Medina, deixarão de pagar o imposto - sinal de subordinação universal. Outros grupos vão ainda mais longe: não se contentam com declarar a sua independência, mas põem profetas - que a tradição classificará como impostores - à cabeça, para se diferenciarem dos muçulmanos e mostrar que nada têm para invejar [...] Com força e determinação, Abubacar decide reprimir essas rebeliões.

 

   [Entendida esta e outras condicionantes, não quero deixar de te referir que, pouco antes de morrer, Maomé recebeu numa mesquita uma delegação  de cristãos de Najran, aos quais garantiu a proteção da Umma muçulmana. Facto para lembrar.]

 

   Mas daí também decorre outra questão quanto à interpretação das escrituras cristãs e muçulmanas: enquanto umas são consideradas inspiradas pelo Espírito Santo, mas obra humana, passíveis, portanto, de análise e interpretações que tenham em linha de conta o tempo e o modo  em que foram redigidas, ou seja, a sua circunstância, as outras são geralmente afirmadas como ditados de Alá, do Deus único que em árabe falou a Maomé, o analfabeto que as transmitiu, não por escrito, mas no seu dialeto da língua árabe, esta sendo, portanto, a língua divina por excelência. Posteriormente, é a autoridade do califa que as fixa por escrito. Aliás, talvez já Abubacar, por sugestão de Omar, que lhe sucederia, teria mandado redigir - antes, portanto da versão oficial de Osmã - a revelação de Maomé, texto que, então, viria a servir para as recitações ou qurra. Todavia, nota bem, Princesa de mim, a tentação totalitária de possuir a exclusiva revelação de Deus não envenenou apenas o islão, mas também a cristandade, como, hoje ainda, verificamos no "bible belt" dos EUA e noutras seitas de raiz cristã, ou, mais infelizmente, em agrupamentos ditos "católicos"... Também, no mundo islâmico, podemos entender diferentes achegas à interpretação, quer do Corão, quer dos hadith, quer da própria Sira, ou vida do profeta Maomé, pese embora o radicalismo intransigente de muitos imãs e ulemas.

 

   Dounia Bouzar, muçulmana francesa que a revista Time elegeu, em 2005, "herói europeu do ano", pelo seu trabalho inovador sobre o islão, respondia assim à jornalista que, em 2014, lhe perguntava se não seria necessária uma reforma teológica que impedisse os extremistas de se apoiarem em versículos do Corão, apelando à violência, para legitimarem um discurso que ignora outros trechos do Livro que defendem o respeito pelos outros: Qualquer muçulmano conhece, em teoria, a reforma de 1930, cujo objetivo era o de distinguir os passos do Corão ditos "principais" - que enunciam verdades constantes - dos "circunstanciais" - ligados ao contexto histórico da época da revelação. Ora os princípios básicos do Corão afirmam o respeito da vida humana, de toda a vida humana, inclusive a das pessoas de outras religiões ou mesmo ateus! Tal como o cristianismo conheceu episódios sangrentos - a Inquisição, o dia de S. Bartolomeu de 1572 - o islão também os teve. Mas tal não significa que a regra seja a violência. Do mesmo modo que no cristianismo, foi quando o islão se tornou religião de Estado que a violência emergiu.

 

   Acho interessante esta observação, eu próprio várias vezes te disse, Princesa, quanto receio a tentação totalitária dos monoteísmos, como de qualquer ideologia da exclusividade, tal como, em nossos dias, tantas vezes ocorre com o laicismo. Não sou, nem pretendo ser, filósofo, teólogo, historiador ou especialista seja do que for. Sou, simplesmente, um simples amador de pensar, procuro ir entendendo as coisas. Mas pensar é, também, correr o risco de me enganar. Tenho de ter a humildade de reconhecer que o erro é humano, como eu sou. Nisto de que agora te falo, penso que um problema que o islão tem com a circunstância histórica da sua revelação advém do facto desta se ter processado numa sociedade de clãs rivais e divididos, étnica, política e religiosamente, grupos que coexistiam, nem sempre pacificamente, sem um poder único que lhes fosse superior. Assim, se a pregação de Maomé se inscreve na descendência de Abraão, na linhagem do monoteísmo judaico-cristão, o ambiente em que ela se desenvolve não conta apenas com judeus e cristãos, mas maioritariamente com tribos politeístas. Além disso, o nomadismo, as caravanas comerciantes, por trilhos traçados entre oásis e poços de água, nessa terra de ninguém que é um deserto, por muitas regras e códigos de honra que se respeitem, são sempre propícios à eventualidade de afrontamentos e conflitos. Daí o pendor bélico, e a tentação do poder, na expansão original do islão. Aliás, o próprio Corão se distribui por quatro períodos de revelação, três em Meca e um em Medina, e sente-se bem, no longo decurso das sequentes discussões sobre a sucessão do Profeta, como se arrastaram fraturas e discórdias acerca da própria revelação e dos ensinamentos de Maomé. A fixação do texto do Corão, por ordem do califa Osmã, como acima te disse, é, pois, um ato eminentemente político... que se, por um lado, pretende uma versão "oficial" da mensagem transmitida pelo Profeta, por outro, não se dispõe a escamotear ditos circunstanciais, sobretudo aqueles que possam apoiar eventuais medidas coercivas.

 

   Diferentemente, cristianismo primitivo desenvolve-se principalmente em meio judeu, quer na Palestina, quer na Diáspora. No meio dum povo submetido ao império de Roma, isto é, ao poder político de um estado estrangeiro e ocupante, praticante de outra religião, que divinizava o imperador. O cristianismo torna-se, nessa época, não só na esperança do cumprimento da promessa messiânica ao povo judeu, mas num movimento de vocação universal e subversiva que, por outro lado, não tem qualquer possibilidade de pegar em armas. Aliás, até ideologicamente, o cristianismo inicial é uma variante do judaísmo que, deste, expressamente rejeita o projeto político da realização temporal do Reino de Deus: o meu Reino não é deste mundo. Ou ainda: a Deus o que é de Deus; a César o que é de César. Mas tal não significa que não tivesse havido, no próprio seio da Igreja, ou nas igrejas primitivas, divergências quanto a doutrinas e cultos, designadamente quanto à relação do cristianismo nascente ao judaísmo, quer no tocante à secessão da nova religião (lembra-te das polémicas em redor da obrigatoriedade de serem circuncidados os gentios que se convertessem à Boa Nova), quer à sua própria universalização, em oposição ou ultrapassagem da implantação próxima do reino messiânico prometido ao povo judeu. Ao São Paulo que defendia não haver, aos olhos de Deus, diferença entre judeu e gentio, escravo e homem livre, grego e romano, homem e mulher, igrejas cristãs - em Jerusalém ou na Galácia, por exemplo - insistiam na filiação prévia no povo eleito, o judeu, de qualquer pretendente a cristão. Aliás, os diferentes evangelhos atribuem ao Jesus histórico afirmações que tanto abonam um lado como outro. Serve este parêntese para ilustrar que tudo isso se passou em meio humano, cultural, tal como muitas outros debates e acontecimentos na vida da Igreja. Mas esta nasceu no Pentecostes, tem consigo e por si a fé em que o Espírito Santo vai soprando a vida do mundo...

 

   Alcorão começa por invocar o nome de Deus clemente e misericordioso. E todas as suas suras, exceto a nona, assim se iniciam. Tal é a fé de Abraão que, para as três religiões do Livro é o pai de todos os povos. Cronologicamente sendo o último dos monoteísmos vindos de Abraão, diz Ghaleb Bencheikh, doutor do Islão, franco-argelino de reconhecida autoridade, que a tradição religiosa islâmica se quer continuadora do ensinamento da Tora e propagadora da mensagem evangélica. Os seus valores assentam num alicerce ético comum ao judaísmo e ao cristianismo. Por muito tempo, aliás, a pregação maometana não falava de "islão", mas antes da imutável religião da coorte de Abraão. Em próxima carta falarei contigo sobre este tema.

 

   Sabes bem, Princesa, que sempre cuido mais de procurar o que aproxima do que o que separa, inclino-me mais para a descoberta da comunidade intrínseca da condição humana do que para a denúncia de conflitos de culturas ou civilizações. Onfray, a dado passo da sua reflexão sobre o islão, recorre às teses de Samuel Huntington. Todavia, eu penso que, para além da presença universal e indiscriminada do bem e do mal - ainda que, evidentemente, o tempo e o modo possam ser, e têm sido, mais ou menos propícios a um ou a outro - nenhuma etnia, cultura ou religião é necessariamente maligna ou benigna, nem qualquer conflito fatalmente inevitável. Não concordando com a opinião de muitos, inclusive Michel Onfray, de que há civilizações superiores a outras, prefiro uma achega antropológica e histórica, que nos ajude a compreendermo-nos nas nossas diferenças e a procurar o significado partilhado de um humanismo.

   Fica para outra carta, Princesa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

  

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   

 

 

      Minha Princesa de mim:

 

   Posso concordar ou discordar de afirmações de Michel Onfray, filósofo francês, ateu confesso, homem de esquerda ("esquerda" sendo, para mim, tal como "direita" um conceito plurívoco, quiçá equívoco, mas ele declara-se nietzscheano de esquerda e pós anarquista), ou, ainda, admitir que, pela insistência com que vai, parece-me, em jeito de maré, reiterando as suas teses, por vezes me cansa um pouco, mas reconheço a deontologia com que vai cumprindo o seu ofício de pensador. Para ele, ser filósofo é procurar refletir sobre a realidade no tempo longo, diferentemente do jornalista que dá notícias a curto prazo. Creio que já te falei do Michel Onfray, não por ser seu leitor assíduo, mas por me terem estimulado a reflexão alguns dos seus escritos e declarações sobre a questão do islamismo. São passos pensados, trabalhados, mesmo se partindo de pontos de vista que eu nem sempre partilho, ou chegando a conclusões um tanto ou quanto divergentes das minhas próprias. Adiante te dou alguns exemplos desse meu secreto diálogo com o filósofo francês, sobretudo em volta do seu Penser l´Islam, que a Grasset editou em Março de 2016.

 

   Respondendo a interpelações da jornalista argelina Asma Kouar sobre vários aspetos da questão islão/guerra/terrorismo, afirma, quando ela lhe pergunta se não será injusto visar os muçulmanos, acusando o islão de ser globalmente responsável pelo terrorismo atual: Há pelo menos duas maneiras de ser muçulmano, conforme as suras sobre as quais cada um constrói o seu islão: ou as que afirmam «Exterminai os incréus até ao último» (Corão VIII, 7) e, ainda, «Matai qualquer judeu que apanheis» (Sira,II, 58-60), «Matai os politeístas seja onde for» (Sira XVII,58); ou, pelo contrário, as que dizem «Não haja coação em matéria de religião» (Corão II, 256) ou, ainda, «Aquele que salvar um só homem é considerado como se tivesse salvo todos os homens» (Corão V, 32) - e digamos, a talho de fouce, que esse mesmo convite, nos mesmos termos, se encontra também entre os judeus (Micha Sanhedrin, 4:5). Os segundos podem afirmar que o islão é uma religião de paz, de tolerância e de amor, mas em detrimento das suras invocadas pelos primeiros, que tornam possível um islão de guerra, de intolerância e de ódio. O mesmo se passa com o cristianismo, que permite - se nos reclamarmos do Jesus que oferece a outra face, perdoa os pecados, responde ao ódio com amor, convida ao amor do próximo e ao perdão dos pecados - um cristianismo pacífico, tolerante (o de Montaigne); ou que permite o contrário, se se reclamar, nos próprios Evangelhos, do Jesus que expulsa a chicote os mercadores do Templo (o passo dos Evangelhos que Hitler preferia), ou que diz: «Não vim trazer a paz, mas a espada» (Mateus X, 34-36), uma espada que se tornará no símbolo de São Paulo, com o qual o cristianismo oficial construiu a sua ideologia, mais do que com o Jesus da paz, da tolerância e do amor, esse que nunca teria tornado possíveis as cruzadas, a Inquisição, o Index, a colonização e o genocídio dos povos da América.

 

   Em cartas várias te tenho dito como sempre me parece mais positivo insistir na versão pacífica do islão, do que apontar-lhe um carácter necessariamente bélico... E em muitas conversas e escritos outros vou apresentando exemplos de tolerância e convivência de muçulmanos com gentes e culturas diferentes. Nunca me parece demais insistir na lembrança dos construtores de paz. Tal como não posso negar nem devo escamotear episódios da história da cristandade que, infelizmente, revelam sobranceria, intolerância, antagonismo e inimizade. Ainda hoje deparamos com muitos cristãos, sobretudo clérigos, que se dedicam mais a denunciar e ser contra do que a anunciar a alegria da boa nova da misericórdia de Deus. Felizmente, sempre foram e vão surgindo reações evangélicas, como, em séculos passados, as de Bartolomeu de las Casas e outros dominicanos, na América Central, e dos missionários jesuítas, na do Sul, à exploração e ao abuso colonialista dos índios americanos. E, hoje em dia, as de um Papa Francisco! A tal história dual da Igreja, de que já te falei. Também a personagem de São Paulo terá muito que se lhe diga, como ele mesmo muito teve para dizer. Mas a espada com que a iconografia cristã o distingue, nem sequer é a que, antes de se converter, usou contra os seguidores de Cristo: é, sim - como tão bem se vê na Decapitação de São Paulo, do Petrini, pintura de 1710 exposta em San Giulio, Altavilla Monferrato - aquela que lhe cortou a cabeça, fora das muralhas de Roma, como a lei romana determinava que fossem executados os seus cidadãos. Aliás, se bem me lembro, Princesa, Santo Ireneu diz algures, no seu Adversus Haereses, que o evangelho de São Lucas - também conhecido, precisamente, por evangelho da misericórdia - é aquele que S. Paulo pregava. Na verdade, Lucas, pagão convertido ao judaísmo e, depois, ao cristianismo, era discípulo de Paulo, que acompanhou em muitas viagens. Tenho, recentemente, tido conhecimento da tese, entre alguns historiadores e exegetas do Novo Testamento, de que os evangelhos sinópticos terão sido todos, primeiro, redigidos antes do ano 70 (data da destruição do templo de Jerusalém por ordem do imperador Tito), quiçá em aramaico e hebraico, registando assim as tradições orais correntes nas várias comunidades cristãs. Muito embora os originais tenham desaparecido, terão deixado rasto em aramaicismos e hebraísmos reconhecíveis na versão grega, aquela que a Igreja reteve. Se o de Lucas transmite a pregação ou tradição paulina, o de Marcos traz a de São Pedro. O de Mateus, abraçando essas correntes e outras, será aquele que mais proximamente regista as palavras do próprio Jesus em terras da Galileia e da Judeia, sendo Levi (Mateus), o seu autor, a julgar pela sua profissão, homem necessariamente letrado, tal como Lucas era médico, e Marcos, de acordo com outros estudiosos, o autor do evangelho mais antigo, escrito a pedido dos cristãos de Roma, pessoa culta. O evangelho de São João é mais obra de autor, e mesmo já uma construção teológica, além de quiçá ser o historicamente mais rigoroso, sobretudo no relato da fase final da vida de Jesus, e do seu ministério público. Mas todas estas hipóteses continuam sendo discutidas por especialistas e investigadores: o professor Geza Vermes, da universidade de Oxford, por exemplo, judeu húngaro regressado ao judaísmo depois de se ter convertido ao catolicismo e ser ordenado padre (creio que jesuíta), sendo considerado um dos mais sagazes investigadores do Jesus histórico, afirma a veracidade da crucifixão do Nazareno (consulta os seus The Authentic Gospel of Jesus The Passion, ambos na Penguin, um em 2003, o segundo em 2005) atestada não só pelos escritos neotestamentários, mas ainda pelos historiadores romanos coevos Josephus e Tácito, bem como, indiretamente, pelo Talmud judeu. No primeiro dos seus livros que te indiquei, Vermes procura determinar, entre vários ditos atribuídos a Jesus, aqueles que Ele terá realmente proferido, concluindo que, mesmo assim, surgem, consoante qual dos evangelhos, e em que trecho, discrepâncias e aparentes contradições. Mas nada suficiente para desvirtuar a mensagem fundamental de amor, de misericórdia e paz, a tal que, no decurso da História, muitas vezes a "Igreja oficial", a cristandade, ou cada um e qualquer de nós, tem esquecido ou afastado. Também não creio que a datação certíssima dos textos evangélicos originais, nas suas presumíveis línguas, ainda que disciplina importante, seja essencial ao seu entendimento. Lembra-te de que há "casos piores". O primeiro aspeto insólito é o facto de os primeiros poemas da literatura europeia terem sido compostos numa língua que nunca ninguém falou. O grego da Ilíada e da Odisseia é uma língua artificial, que mistura elementos de dialetos diferentes: jónico, eólico, árcado-cíprico, ático, etc. (Frederico Lourenço, no Grécia Revisitada, Lisboa, Cotovia, 2004). Como também seis séculos separam Virgílio dos seus primeiros manuscritos conhecidos, treze Platão, dezasseis Eurípides. Apenas retenho para aqui que exegetas cristãos, e não cristãos, não se cansam de procurar entender o que o Jesus histórico terá mesmo dito e pretendido transmitir. Mas tanto não obsta a que a tradição cristã fundamental - afinal sempre revisitada e recorrente - incessantemente nos recorda o mandamento do amor, e que a fixação dos textos canónicos, por oposição aos apócrifos, se foi fazendo durante três séculos (do II ao IV), pelo labor de sínodos e concílios, respeitando três critérios sine qua non: datarem da geração apostólica, enunciarem verdades ortodoxas sobre Jesus Cristo, serem reconhecidos pela maioria das comunidades eclesiais. Se atentares bem nestes critérios, Princesa de mim, verificarás que, antes de se revestir dum autoritarismo central e hierárquico - ainda hoje invocado por muitos, mas sempre igualmente contestado - a tradição católica se enraizou na vinda e na vida humana de Jesus, e na reunião da Igreja, por obra e graça do Espírito Santo. É a Tradição do Pentecostes no Povo de Deus. Por muito que contrarie ou exaspere os chamados "fundamentalistas", defensores de uma interpretação literal dos textos bíblicos - o que, aliás, fatalmente os empurra para perplexidades, consequentes afrontamentos emotivos e múltiplos sectarismos - a Igreja sempre acreditou que a revelação se descobre nos textos, sim, mas ainda na tradição que os vai lendo e interpretando. Assim também se explica a diversidade de correntes e a atualidade de debates no seio da própria Igreja, bem como, em contracorrente, a propensão do clericalismo conservador para o autoritarismo.

 

   Penso, Princesa de mim, que se atentarmos, sem preconceito nem hipocrisia, para a tradição islâmica, descobrindo que, nela também, há correntes inspiradas pelo espírito da misericórdia e da paz, encontraremos o muito de essencial que temos em comum com os fiéis muçulmanos. E veremos ainda como a graça ou propósito de distinguir entre a mensagem de Deus e o poder temporal, político, e entre a letra e o Espírito (com propósito uso aqui um E maiúsculo) tem sido (como, apesar dos desvios e abusos do autoritarismo clerical ou político, foi mais livremente acontecendo na cristandade) fator fulcral de uma dialética de debate e concórdia, de progresso e atualização.

 

   Mas fica mais disto para próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira