Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .3

 

1. Ninguém pode negar que o cristianismo histórico é responsável por crimes, tragédias, barbaridades. Não duvido de que houve muitos para quem teria sido preferível não ter ouvido falar de Deus nem de Cristo, tantos foram os horrores cometidos em seu nome. Mas, no cômputo geral, estou convencido de que o positivo supera o negativo. Ainda hoje a Igreja presta serviços incalculáveis aos mais pobres e fracos em toda a parte... E é a multinacional do sentido, Sentido último.


Cito Antonio Piñero, grande especialista em cristianismo primitivo e agnóstico. Depois de declarar que Jesus afirmou a igualdade de todos enquanto filhos de Deus, escreve que, a partir deste fermento, “se esperava que mais tarde chegasse a igualdade social. Se compararmos o cristianismo com todas as outras religiões do mundo, vemos que essa igualdade substancial de todos é o que tornou possível que com o tempo se chegasse ao Renascimento, à Revolução Francesa, ao Iluminismo e aos direitos humanos. Isto quer dizer: o Evangelho guarda, em potência, a semente dessa igualdade, que não podia ser realidade na sociedade do século I. O cristianismo está, à maneira de fermento, por trás de todos os movimentos igualitários e feministas que houve na História, embora agora não o vejamos claramente, porque o cristianismo evoluiu para humanismo. Mas esse humanismo não se vê em religiões que não sejam cristãs. Ou porventura o budismo, por si, chegou ao Iluminismo? O xintoísmo? O islão? Os poucos movimentos feministas que há nas religiões estão inspirados na cultura ocidental. E a cultura ocidental tem como sustento a cultura cristã. Embora se trate de uma cultura cristã descrida, desclericalizada e agnóstica, culturalmente cristã.” O mesmo dizem muitos outros filósofos, incluindo agnósticos e ateus.


2. A pergunta é: Ainda será possível hoje ser cristão na Europa?


Tudo tem de começar por uma experiência, como sucedeu com os primeiros discípulos e comunidades. A experiência de abertura ao Mistério e à Transcendência e a oferta de esperança, alegria, futuro e sentido pleno para a existência. Essa experiência de vida humanamente realizada, na justiça, na solidariedade, no perdão, no combate por um mundo melhor, dá-se num encontro de fé em Jesus, que revela que Deus é Pai/Mãe, Amor incondicional e que dá a salvação, Sentido último. Mesmo os que já são baptizados, a começar por cardeais, bispo e padres, têm de perguntar a si mesmos se fizeram ou não esta experiência e se, através dela, podem responder: “Isto é bom para mim. Para mim”. Haverá conversão e começará então a verdadeira reforma da Igreja, que só pode ser uma Igreja de voluntários e que dá testemunho do melhor, do Evangelho, notícia boa e felicitante.


3. O cristianismo não é um sistema religioso nem pode ser uma obrigação, implica sim um caminho para uma vida com dignidade e sentido. Também não é, em primeiro lugar, um discurso, mas um percurso de vida. Como dizia Simone Weil, a filósofa mística, “onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, não há crentes, mas pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse.”


Mas o ser humano também é racional e, por isso, o cristão precisa de dar razões da fé e da  esperança. A fé não pode agredir a razão. Por exemplo, o modo como se tem apresentado o pecado original é incompatível com a evolução. Não se pode continuar a baptizar para “apagar a mancha do pecado original”. A morte de Jesus na cruz não foi querida por Deus, ofendido pelo pecado e exigindo uma reparação infinita. Isso contradiz o Evangelho: Deus é Amor. O que é pecado? O que prejudica as pessoas, o que lhes faz mal. Na celebração da Eucaristia, não se pode continuar a pregar de tal modo que subreptícia e inconscientemente se instala a ideia de uma presença física de Cristo: impõe-se entender a distinção entre presença física e presença real, pois é bem sabido que podemos estar fisicamente presentes e realmente ausentes, quando, por exemplo, não há amor. Só exemplos.


4. Jesus não fundou a Igreja-instituição que temos. Ele anunciou, por palavras e obras, o Reino de Deus, força de transformação do mundo a favor de todos, começando pelos mais frágeis e abandonados. É claro que não se pode ser ingénuo: alguma organização é precisa. O problema está em que, contra a vivência das primeiras comunidades, organizadas carismaticamente, se foi instalando uma organização de poder e já não de serviço. Na Igreja, sempre houve carismas, funções, serviços, ministérios. A ruptura deu-se, quando, contra o Novo Testamento, que até evitou a palavra hiereus (sacerdote que oferece sacrifícios), apareceram ministérios com uma ordenação sacra, que faz com que o padre e o bispo se transformem, dir-se-ia, ontologicamente, implicando uma distinção essencial, não só de grau, entre o “sacerdócio dos fiéis” e o “sacerdócio ordenado”. A Igreja ficou então dividida em duas classes: o clero, que manda, e os leigos, que obedecem.


Esta é a raiz da “peste” do clericalismo, pois só o sacerdote ordenado pode presidir à Eucaristia, só ele, “senhor de Deus”, perdoa os pecados..., e a autoridade na Igreja pressupõe a ordenação sacra. Esta sacralização levou à lei do celibato e à exclusão das mulheres...


É urgente a renovação da Igreja como instituição, mas ela estará bloqueada enquanto se não superar o equívoco da ordenação sacra. Devem existir ministérios ordenados — na Igreja é preciso um ordenamento —, mas sem ordens sacras.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 MAR 2021

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .2

 

1. Pergunta-se: o que se passou para que o jesuíta Victor Codina tenha podido escrever, num estudo sobre Ser Cristiano en Europa?, que estamos a assistir a um colapso do cristianismo na Europa?


Realmente, os dados são preocupantes. Exemplos: na Espanha, o número de agnósticos e ateus supera o dos católicos praticantes. Na França, a maior parte da população já não é católica. Na República Checa, mais de 60% declaram-se ateus. Nos Países Baixos, na Noruega, na Suécia..., o número dos que se declaram sem religião ronda os 50% da população. E tudo indica que o número de católicos e dos que se confessam cristãos vá diminuindo na Europa em geral e é, de facto, notória a exculturação do cristianismo... Quanto à juventude, os números são alarmantes: “uma grande parte vive à margem da Igreja, que, para ela, se converteu numa pequena e estranha seita”. A situação reflecte-se na queda vertiginosa das vocações, com seminários vazios, muitas paróquias — o seu número aumentará sempre — não têm padre. E não é só “um inverno eclesial europeu”, assistimos também a um exílio de Deus...


Procurando causas. Quanto à Igreja-instituição, temos o impacto brutal dos escândalos clamorosos da pedofilia, bem como dos escândalos económico-financeiros e da corrupção no Vaticano. E, quando olhamos para as estruturas eclesiásticas, é inevitável a pergunta: onde está a simplicidade e a fraternidade exigidas pelo estilo do Evangelho? Acrescente-se o patriarcalismo, a exclusão das mulheres, o clericalismo, que é uma verdadeira “peste da Igreja”, como repete o Papa Francisco, implicando uma “estrutura perversa”, segundo G. Schickendanz. Há “um desfasamento teológico e cultural da doutrina e dos dogmas”, cujas formulações se devem à cultura helénica, longe da mentalidade moderna e pós-moderna. Acrescente-se “uma moral legalista e casuística, proveniente de uma antropologia dualista, pré-moderna, pouco personalista, muito centrada no sexo, que utiliza a pastoral do pecado e do medo do castigo para manter o povo cativo da Igreja.” Uma liturgia hierática, ritualista, ininteligível para a maioria dos fiéis, pouco ou nada participada. Para muitos, o cristianismo e a Igreja constituem “um déjà vu”, algo ultrapassado e em desuso; pior: para alguns, a Igreja é a personificação do pior da nossa cultura: “repressão, ânsia de poder, inquisição, censura, machismo, moralismo, ódio à vida, sentido de culpa e de pecado”.


Mais preocupante é que Deus se tornou longínquo, um estranho, “um Deus no exílio”, na expressão de L. Duch. No mundo da tecnociência, do consumo, do conforto, do hedonismo, do ter, do parecer e do aparecer, à volta de um “eu” desvinculado de toda a norma, entrou-se num imanentismo fechado, mais a-religioso do que anti-religioso, mas sem horizontes de transcendência: não interessa “o que vai para lá da vida quotidiana, do trabalho, do dinheiro, da comida, da saúde, do consumo, do sexo, do bem-estar e da segurança de uma velhice tranquila”. A vida é para gozar no sentido mais imediato do termo, na busca de uma juventude perene...


A pergunta é: E quando toda esta lógica é barrada, posta em causa? Isso constata-se agora, no meio desta catástrofe trágica da pandemia. De repente, um vírus invisível que invadiu o mundo todo, apoderando-se da Humanidade, veio travar e pôr em causa estes ideais. O mal-estar é deprimente, e a esperança está em que, depois de um interregno, a que uma vacina ponha termo, se volte à “normalidade”, isto é, ao ponto onde fomos apanhados, para podermos avançar outra vez na lógica na qual se vivia. Ainda se não pensou profundamente sobre a impossibilidade deste raciocínio e seus pressupostos. De facto, já não se pode ignorar que o modelo anterior está posto radicalmente em causa. Porque é preciso entender que não é possível continuar o modelo tecnocrático de desenvolvimento ilimitado, que somos globalmente interdependentes, que o progresso tem de ter em conta as alterações climáticas, a biodiversidade, e avançar, portanto, segundo um modelo coerente com a urgência de “uma ecologia integral”, para utilizar a expressão feliz do Papa Francisco: o grito da Terra e o grito dos pobres, clamando por uma humanidade justa.


2. Mas também pode acontecer que as pessoas, confrontadas com o abismo da existência, com a morte, parem e reflictam, indo ao encontro do essencial, das perguntas últimas, do Mistério vivo e acolhedor. Vêm-me à memória palavras luminosas do grande Václav Havel, que constatou: “Estamos a viver na primeira civilização global”. Acrescentou: “Mas também vivemos na primeira civilizaçãoa ateia, isto é, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade.” As consequências disso: uma civilização obstinada em perseguir objectivos a curto prazo”, “o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos” e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, “o orgulho”, a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que “a nossa civilização caminha para a catástrofe”, a não ser que cure “a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho”. Achava que “o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos”. Considerava-se apenas meio crente, mas com “a certeza de que no mundo não é tudo apenas efeito do acaso” e convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina”. “A transcendência é a única alternativa à extinção.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 FEV 2021

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .1


Quem nasceu num contexto de cristianismo tradicional talvez nunca se tenha dado verdadeiramente conta do que o cristianismo significou na História.

 

1. Na sua base, está Jesus de Nazaré, que nasceu uns 4 ou 6 anos antes da nossa era — isto deve-se a um engano do monge Dionísio, o Exíguo, encarregado de estabelecer no século VI o novo calendário. Filho de Maria e de José, teve uma juventude despercebida, trabalhou duramente em vários lugares como artesão. Foi discípulo de João Baptista, por quem foi baptizado, mas fez uma experiência avassaladora de Deus como Abbá (querido Papá), que o chamava a anunciar e a testemunhar o seu Reino, o Reino de Deus, Reino da verdade, da justiça, do amor, da alegria para todos. Uma notícia boa e feliz. A vida pública foi curta.


Em Jesus, o Reino de Deus estava actuante. Preocupou-se com a saúde das pessoas, com que não passassem fome. Curou doentes, física e psiquicamente doentes. Comia com prostitutas e pecadores públicos. A causa de Deus é a causa dos seres humanos e, por isso, proclamava com os profetas estas palavras postas na boca de Deus: “Ide aprender: eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia”. Ousava declarar: “O Sábado é para o Homem e não o Homem para o Sábado”: a saúde, a justiça, a misericórdia estão acima do culto. Por isso, entrou em conflito com  o Templo, os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei... Assim, Jerusalém e Roma uniram-se, numa coligação de interesses religiosos e imperiais, para o crucificar. Ele podia ter negociado, mas não: foi até ao fim, para dar testemunho da Verdade e do Amor.


Os horrores da crucifixão não têm descrição. Os romanos consideravam-na tão humilhante que só a aplicavam aos escravos e estrangeiros. “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, rezou Jesus, sempre confiante: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. 


2. Aparentemente, foi o fim. O enigma da história do cristianismo é como é que os discípulos, que tinham voltado, desiludidos, às suas vidas, pouco tempo depois estavam outra vez reunidos e foram anunciar que aquele Jesus crucificado é o Cristo, o Messias salvador. O que é que se passou naquele intervalo?


Como escreveu J. Duquesne, a História não pode dizer se Jesus está vivo ou se morreu para sempre, “o que pode dizer é que se passou alguma coisa naqueles dias, um acontecimento que, abalando aqueles homens e mulheres, abalou o mundo.” A ressurreição, mistério central do cristianismo, não é um facto verificável historicamente, ela é um “obscuríssimo mistério”, como diz o filósofo e teólogo Andrés Torres Queiruga. Na sua obra célebre A verdadeira história de Jesus, E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, conclui que é muito o que sabemos do Jesus histórico. “Nada é mais misterioso do que a história da sua ressurreição”, mas “sabemos que, depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência de algo que descreveram como a ‘ressurreição’: a ‘aparição’ de uma pessoa, que tinha realmente morrido, agora viva, mas transformada. Eles acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Neste processo, criaram um movimento que cresceu e se estendeu pelo mundo. “Sabemos quem Jesus era, o que fez, o que ensinou e porque morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História.”


Essa experiência pessoal do Jesus vivo foi igualmente tão avassaladora para São Paulo que ele, de perseguidor dos cristãos, se tornou apóstolo, fez milhares e milhares de quilómetros, incansavelmente, a pé, a cavalo, de barco, para levar a Boa Nova de Jesus, o Crucificado-Vivente, desde a costa sul da actual Turquia, a bacia do mar Egeu (Filipos, Tessalónica, Atenas, Corinto), até Roma e projectando ir à Hespanha...


Mas São Paulo, na história do cristianismo, não é só fundamental pela universalidade que lhe deu. O seu papel decisivo consiste também na reflexão crítica sobre a identidade da fé cristã e as consequências sócio-políticas da sua verdade: Deus, ressuscitando Jesus, revela que está com Ele, com a sua mensagem do Evangelho, que é ele que tem razão. O teólogo François Vouga viu bem, quando escreveu que a ressurreição de Jesus, o crucificado, “implica uma revolução do olhar sobre a pessoa humana”. “Se realmente Deus se revelou como o Pai de um crucificado que perdeu tudo quanto um ser humano pode perder para lá da adopção de Filho, é claro que as linhas de separação religiosas, culturais e sociais pertencem agora a um mundo ultrapassado. A universalidade deve ser pensada como o reconhecimento individual de cada sujeito humano, sejam quais forem a sua nacionalidade, as suas pertenças, o seu sexo: “Já não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” (Carta aos Gálatas 3, 28). Por isso, “ninguém, nem em Israel, nem na Grécia, nem em Roma, poderia, por exemplo, imaginar que mulheres ensinem, presidam à Ceia do Senhor ou sejam enviadas de uma cidade a outra como apóstolas”.


3. Foi pelo cristianismo que veio ao mundo a ideia de pessoa e da sua dignidade inviolável.


Lentamente, o cristianismo estendeu-se por toda a Europa, e a Europa foi cristã até aos séculos XVII-XVIII. O que se passou para que, num trabalho recente, o jesuíta Victor Codina, possa escrever: “Assistimos agora na Europa a um verdadeiro colapso da fé cristã..., o cristianismo é culturalmente irrelevante e foi exculturado. É um inverno eclesial europeu.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 FEV 2021

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

Camilo _ Princesa.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   O último capítulo, o XXVIII, do Pilote de Guerre não tem mais de duas páginas, em que Saint-Exupéry exprime o seu próprio  cansaço e o dos seus poucos camaradas da esquadrilha de reconhecimento aéreo G2/33, num estilo quase telegráfico, como qualquer fatalidade. Estamos em 1940, a França foi derrotada pelo III Reich. Mas o grupo, na véspera da retirada, mantém-se unido e, sem ter dormido durante três noites seguidas, vê cada um recolher a sua lassidão ao rendido cansaço dos outros :

   Não diremos nada. Asseguraremos a mudança. Só o Lacordaire esperará pela alba para descolar, a fim de cumprir a sua missão. E, caso sobreviva, regressará directamente à nova base.

   Tampouco amanhã diremos algo. Amanhã, para as testemunhas, seremos uns vencidos. E os vencidos devem calar-se. Como as sementes.

   Como as sementes! Haverá maneira mais bonita, mais cristã, de ressuscitar da derrota? A comunhão humana no silêncio de qualquer perda faz com que esta deixe de ser desamparo e solidão, para se tornar solidariedade e esperança !

   O mistério da morte, no cristianismo, leva-nos ao paroxismo do paradoxo humano, do que "está aí" (ou p´raí) e aspira a Ser. E a sua contemplação ensina-nos a via do silêncio, esse calar, cá bem no fundo de nós, o labor restaurador da semente que apodrece para nascer de novo, como o Reino dos Céus.

 

   Oleg Voskoboynikov, medievalista russo formado na Universidade de Lomonossov, onde é professor de paleografia latina, foi também discípulo de Jacques Le Goff e é autor, entre outros livros e inúmeros artigos científicos, do notável Pour les Siècles de Siècles  -  La Civilisation Chrétienne de l´Occident Medieval, obra que a Vendémiaire (Paris) publicou em 2017. Gosto muito, Princesa de mim, de, às vezes, me deixar envolver pela atmosfera espiritual duma Idade Média, europeia e latina, que, neste caso, é percorrida do início do século IV ao início do XIV, do imperador Constantino ao Dante Alighieri. E é aqui apresentada, essa Alta Idade Média, pela ilustração de que, na verdade, longe de ser repúdio ou destruição da cultura clássica, não só greco-romana, como síria e copta, antes foi cadinho da sua assimilação pelo cristianismo. A semente de vida que acima refiro evocou-me, enquanto te escrevia, aquela expressão cristã que fala da humanidade de Deus em Jesus Cristo, que se humilhou até à morte, e morte na cruz  -  a qual, mais ainda do que suplício, é infâmia. Mas da morte infamante, ignominiosa, ficou, para nós também, então vindouros, a imagem daquele crucificado que, em miríades de representações advenientes, se tornou sinal de vitória :  hoc signum vincit. A suprema humilhação surge-nos assim como humildade ressuscitada, isto é, feita nova, força e sustento de vida sobre a morte.

   A dado passo deparo com um trecho da carta XXX de São Paulino de Nola (edição de G. de Hartel, Viena, F. Tempsky, 1894) que o professor Voskoboynikov apresenta assim : A autoridade moral e cultural de Paulino, construtor de igrejas, poeta, escritor, pregador, ultrapassava em muito a sua diocese italiana. É sintomático que ele abdique do direito de aparecer no espaço litúrgico, que os bispos partilhavam com os imperadores. [Estamos ainda em meados do século IV, no início do império romano cristão...] Não se trata de falsa modéstia, mas de uma nova concepção da dignidade humana : ele sabe que foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas também se recorda de que, na vida real, «tantum in imagine ambulat homo, tantum frustra turbatur». Eis citado um versículo do salmo 39, que traduzirei assim : «Quanto mais um homem se passear em retrato, tanto mais se alienará em vão». 
   Quando, numa cristandade então já liberta de perseguições e livre de se exprimir, os fiéis entre si debatiam a razão, o alcance e configuração, e o próprio culto das imagens religiosas, tal questão punha-se também para o retrato-exemplo dos pastores eleitos pelas suas igrejas ou comunidades ; erguiam-se vozes, não tanto contra a aproximação do divino pela representação memorizável, como pela reserva, ou prudência, relativamente aos riscos de alienação que o imaginário necessariamente implica. Preocupação que, hoje, tem a maior actualidade e nós, espantados, esquecemos. A tal ponto que nem nos apercebemos de que vamos deslizando do que já alguém chamara "civilização da imagem" para uma circunstância de carrossel caleidoscópico próxima da barbárie. Diariamente sobre nós chovem imagens e coscuvilhices que, em vez de nos ajudarem a reflectir sobre a realidade do nosso mundo e da nossa vida, nos atiram para um baile de máscaras ilusórias e alienadoras... E até talvez possamos dizer que, se a iconoclastia foi, muitas vezes, uma fobia idolátrica (mais do que receio pelo divino), a "imagofilia" hodierna, em seu omnipresente exagero, é sinal certo de propensão a nova idolatria...

   Volto então ao "nosso" S. Paulino de Nola, nobre romano nascido em Bordéus, que chegou a ser cônsul e prefeito de Roma, se converteu ao cristianismo com sua mulher, após o que distribuíram os seus bens pelos mais necessitados e se ocuparam do próximo, desse tal que adquirira, em cada pessoa, o rosto de Cristo Jesus.  Foi Paulino eleito bispo de Nola, em Itália. Conta-nos o livro do professor russo : Cerca do ano 400, um autêntico Romano e bispo culto, Sulpício Severo, pediu ao seu amigo Paulino, bispo de Nola, na Campânia, ele também Romano autêntico e futuro santo, que lhe enviasse para a Gália, o seu retrato. Queria pô-lo, a título de amizade e de respeito pelas suas virtudes, ao lado de uma imagem de São Martinho, no novo baptistério de Primiliacum (provavelmente a Primilhac de hoje). Comovido, Paulino respondeu-lhe assim:

   Suplico-te, por tudo o que de melhor há na nossa amizade, porque havemos de pedir provas da nossa amizade em formas vãs? De mim, de que homem queres tu a imagem? Celeste ou terrestre? Sei que queres essa imagem real, em ti amada pelo Rei Celeste. Não deves precisar de outra imagem nossa, além dessa pela qual foste tu mesmo criado.  ... Mas eu sou pobre e fraco, humilhado pela minha imagem rude e terrestre, pelos meus sentimentos carnais e as minhas obras na Terra. Pareço-me mais com o primeiro Adão do que com o segundo. Como posso então ter a ousadia de me fazer pintar, esmagando a meus pés a imagem celeste com os meus delitos terrestres? Terei sempre vergonha : fazer-me representar tal qual é vergonhoso, fazer-me representar tal como na realidade não sou é uma insolência.

   Concordemos ou não com elas, reconheçamos que se diziam lindamente, em latim, e há quase dois mil anos atrás, coisas que, hoje ainda, nos podem ajudar a pensarsentir-nos mais e melhor do que todas essas celebrantes imagens da vaidade nossa contemporânea...

   Ao escrever-te isto, Princesa de mim, revejo  -  para meu equilíbrio interior, pois é neste hoje que vivo agora  -  tantas imagens de seres humanos que vamos ignorando, abandonando, matando, e ainda assim nos fazem esse nosso imerecido dom de si próprios, que é, afinal, esse, também nosso, rosto de dor. A presente imagem da humanidade que padece e sofre vem lembrar-nos de que precisamos dum silêncio que seja semente. Comovido, sinto a presença misteriosa do meu irmão Gaëtan, que, em tantos muitos retratos que desenhou, sempre se concentrou numa qualquer, mas mais uma, interpelação da condição humana.

 

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

ENTRE A SEXTA-FEIRA SANTA E A PÁSCOA: SÁBADO

 

Crentes ou não crentes — quem o disse foi George Steiner — é em Sábado que vivemos. Que é que isto quer dizer? Todos, de um modo ou outro, em nós mesmos e no mundo, constatamos e vivemos a Sexta-Feira Santa do sofrimento, do horror, da violência, do silêncio e da noite, e todos, de um modo ou outro, de forma mais explícita ou menos explícita, mais consciente ou menos, é pelo Domingo, o Domingo da Páscoa, que suspiramos e esperamos, a Páscoa da salvação.

 

O que nestes dias os cristãos celebram é este Sábado, que pertence ao núcleo da existência cristã, como disse São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã também a vossa fé. Se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Evidentemente, a ressurreição implica por si mesma uma meditação sobre a morte e o sentido último da existência. Uma meditação sobre o Sábado, no qual vivemos.

 

1. Na história gigantesca do universo, com 13.700 milhões de anos, o sinal distintivo de que há Homem, não já simplesmente algo, mas alguém, são os rituais funerários. A partir daí, já não estamos em presença de um animal qualquer, mas do ser humano, que sabe que sabe, que tem consciência de si, consciência de que é mortal, e que, nem que seja de modo confuso, espera para lá da morte. A consciência da morte e a esperança constituem, portanto, na História do mundo, uma novidade essencial e radical.

 

Perante a morte e a mortalidade, surge a interrogação fundamental, que está na base das artes, das filosofias, das religiões: o que é o Homem? Sabemos que somos mortais, mas ninguém sabe o que é morrer, ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Face à morte, a linguagem falha. Assim, dizemos, perante o cadáver do pai ou da mãe, de um amigo: ele/ela está aqui morto/morta. Ora, o que falta é precisamente o pai, a mãe, o amigo, pois o que ali está não passa de restos mortais e lixo biológico. Ou dizemos que os levamos à sua última morada. Ora, quem se atreveria a enterrar ou a cremar o pai, a mãe, um amigo? Também dizemos que os vamos visitar ao cemitério. Ora, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém. O Evangelho é cru: nos cemitérios, só há ossos e podridão. Então, o que há realmente nos cemitérios, para serem considerados lugares sagrados, de tal modo que a violação de uma sepultura constitui, em todas as culturas, uma profanação e um crime nefando? O que há nos cemitérios não é senão essa pergunta radical: O que e o Homem?, o que é ser Homem?

 

Mas hoje a morte é tabu. Disso pura e simplesmente não se fala. É de mau tom chamar o tema à conversa. Se, tradicionalmente, tabu era o sexo, actualmente, a morte é que é o tabu. Mente-se às crianças, evita-se o luto, pois a grande mentira-ignorância das sociedades contemporâneas, desenvolvidas, técnicas, é a morte. Pela primeira vez na história da Humanidade, temos uma sociedade que se funda no tabu da morte, com todas as consequências. De facto, não se pense que a morte já não é problema. Pelo contrário, numa sociedade que se julga omnipotente e é poderosíssima nos meios, mas sem finalidades humanas, de tal modo a morte é problema, o único problema para o qual não tem solução que a solução é precisamente ignorá-lo, viver como se ele não existisse.

 

As razões do tabu são múltiplas. Fundamentalmente, o que se passou é que a razão esqueceu as suas múltiplas dimensões, ficando reduzida à razão instrumental, à eficiência, ao cálculo, à técnica, e o que importa é o sucesso imediato, o êxito, a juventude, o prazer, a eficácia, o consumismo sem fim. Por outro lado, vai-se impondo a desafeição face à religião, a fé vai rareando. Ora, perante a morte, o Homem faz a experiência de que não é omnipotente, de que não pertence a si mesmo, mas ao Mistério. Assim, perante a erosão da fé, cada vez se acredita menos na vida eterna. Vivemos, pois, numa sociedade sem Eternidade. Ora, sem eternidade, desfaz-se o tecido do tempo, que já não faz texto, pois só ficam instantes que se devoram, na imediatidade do gozo do momento, que se segue a outro momento, na voragem da repetição, do tédio e do sem sentido.

 

A crise do nosso tempo é uma crise global: financeira, económica, social, política, moral, religiosa. Mas é fundamentalmente uma crise da morte. Esta sociedade, para ser o que é, teve de fazer da morte tabu, esquecê-la.

 

Para reencontrar a sabedoria, impõe-se voltar ao pensamento sadio da morte. Não para envenenar a vida, mas, pelo contrário, para viver humanamente e em autenticidade. O pensamento sadio da morte dá-nos a consciência do limite, obrigando, portanto, a viver intensamente cada momento como único. A existência e as suas decisões não admitem adiamentos. Por outro lado, perante a morte, somos remetidos para a liberdade e a ética e a urgência da existência autêntica, pois o confronto com a morte leva à distinção entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. A consciência da mortalidade desperta para a compaixão e a consciência da fraternidade humana: somos mortais; logo, somos irmãos. Quem quiser saber o que vale um homem e o que orienta verdadeiramente a sua vida pergunte-lhe o que faria, se soubesse que ia morrer no dia seguinte.

 

2. Como disse Ernst Bloch, filósofo marxista, ao mesmo tempo ateu e religioso — ele que esperava que a última música que ouvisse não fosse a das pazadas de terra na sepultura —, “o cristianismo, na concorrência com outros profetas da imortalidade e da sobrevivência, venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. Não propriamente graças ao Sermão da Montanha. No século I depois do acontecimento do Gólgota, a ressurreição foi referida ao Gólgota de uma forma inteiramente pessoal, de tal modo que pelo baptismo na morte de Cristo se experiencia a ressurreição com Ele. Imperava então um desespero apaixonado, que hoje nos parece incompreensível e representa um acentuado contraste com a nossa indiferença. Mas nada impede que dentro de cinquenta anos (porque não dentro de cinco?) volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?”

 

Outro grande filósofo alemão, J. G. Fichte, escreveu que o ser humano não deixará facilmente de resistir a uma vida que consistisse em “eu comer e beber para apenas logo a seguir voltar a ter fome e sede e poder de novo comer e beber até que se abra debaixo dos meus pés o sepulcro que me devore e seja eu próprio alimento que brota do solo”; como poderei aceitar a ideia de que tudo gira à volta de “gerar seres semelhantes a mim, para que também eles comam e bebam e morram e deixem atrás de si outros seres que façam o mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que gira sem cessar à volta de si?... Para quê este horror, que incessantemente se devora a si mesmo, para de novo poder gerar-se, gerando-se, para poder de novo devorar-se?”  

 

Assim, para o ser humano é tão próprio saber que é mortal como esperar para lá da morte. Há aquelas perguntas in-finitas: Porque há algo e não nada? Quem sou? Para onde vou? Onde estarei, quando cá já não estiver, como inquiria Tolstoi? É insuportável andar, na vida, de sentido em sentido e, no fim, afundar-se no nada. Se tudo desembocasse no nada, que valor teria a distinção entre bem e mal, honestidade e desonestidade, honradez e mentira, verdade e falsidade, justiça e injustiça, já que, no fim, tudo se afundaria no nada e tudo seria o mesmo: precisamente nada?

 

Há aquela pergunta in-finita, que atravessa a História: quem fará justiça às vítimas inocentes? Há um clamor na História por causa da dívida para com as vítimas da injustiça e do horror. Quem pagará essa dívida? Quem pode fazer a reconciliação com tanta injustiça e sofrimento dos inocentes? Em diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, tão sensível às vítimas da História e à exigência de uma justiça universal cumprida, Bento XVI reconheceu que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o Homem está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavra” convence da necessidade da ressurreição dos mortos e da vida eterna. Perante a alternativa do absurdo ou do mistério, é sensato optar, com razões, pelo Mistério que salva, entregando-se-lhe confiadamente na fé, na esperança e no amor.

 

A curto, a médio, a longo prazo, todos foram estando mortos. A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos, todos irão estando mortos, e, lá no final, só há uma alternativa, porque todos caminhamos para a eternidade: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus.

 

O cristianismo mantém-se ou afunda-se pela verdade e a fé ou não no Jesus que foi crucificado e que é agora, para sempre, o Vivente em Deus. Os discípulos que, como Jesus, confessavam cada dia, na Shemoné Eshré, a fé no “Deus que ressuscita os mortos“ e que tinham acreditado em Jesus como o Messias continuaram a crer nele, após a sua morte, uma morte que testemunhava o que foi o centro da sua vida e mensagem por palavras e obras até à morte: que Deus é Amor. Depois da crucifixão, reflectindo, aprofundaram a convicção avassaladora de fé de que Jesus não morreu para o nada, mas para o interior da vida de Deus, como promessa e esperança de vida plena e eterna para todos. O Deus que tudo criou por amor a partir do nada, a quem Jesus se dirigia como Abbá (Pai/Mãe), não é um Deus de mortos, mas de vivos. E disso deram testemunho até à morte, testemunho que chegou até nós.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 20 ABR 2019

ISLAMOFOBIA E CRISTIANOFOBIA

 

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emiratos Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a História, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como “uma nova página no diálogo entre Cristianismo e Islão”. É preciso ler e estudar o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, então assinado por ele e pelo Grande Imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou Missa para 150.000 cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

 

Já de regresso ao Vaticano, na habitual conferência de imprensa no avião, um jornalista perguntou-lhe que “consequências terá também entre os católicos o Documento, considerando que há uma parte dos católicos que o acusam de deixar-se instrumentalizar pelos muçulmanos...” E Francisco: “E não só pelos muçulmanos... (riu-se). Acusam-me de me deixar instrumentalizar por todos, incluindo os jornalistas. É parte do trabalho, mas gostaria de dizer uma coisa. Do ponto de vista católico, o Documento não se separou nem um milímetro do Vaticano II, que até é citado várias vezes. Se alguém se sentir mal, eu compreendo-o, pois não é algo de todos os dias..., mas não é um passo atrás, é um passo para diante... É um processo e os processos amadurecem.”

 

Outro jornalista observou: “O Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, denunciou a islamofobia. Porque é que não se disse nada sobre a cristianofobia, sobre a perseguição aos cristãos?” E o Papa Francisco: “Falei sobre a perseguição aos cristãos. Também falo sobre ela frequentemente. Inclusive nesta viagem falei sobre isso. Também o Documento condena a violência, e alguns grupos que se dizem islâmicos (os Sábios dizem que não é o islão) perseguem os cristãos.” E, aqui, Francisco relembrou uma história absolutamente comovente, que já contara com mais pormenores em 2017. Em 22 de Abril de 2017, na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina em Roma, o Papa Francisco, com a Comunidade de Santo Egídio, presidiu a uma Liturgia da Palavra em memória dos novos mártires dos séculos XX e XXI. E ficaram estas palavras de profundidade incomensurável, apontando, com comoção que nos abala, para a religião na sua verdade humana e divina: “Eu quero, hoje, acrescentar mais um ícone a esta igreja. Uma mulher. Não sei o seu nome. Mas ela olha para nós lá do Céu. Eu estava em Lesbos, saudava os refugiados e encontrei um homem de 30 anos, com três crianças. Olhou para mim e disse-me: ‘Padre, eu sou muçulmano. A minha mulher era cristã. Os terroristas chegaram ao nosso país, olharam para nós e perguntaram-nos qual era a nossa religião e viram-na a ela com um crucifixo. Disseram-lhe que o atirasse ao chão. Ela recusou, não o fez. E degolaram-na diante de mim. Amávamo-nos muito, gostávamos muito um do outro.” “Este é, continuou Francisco, o ícone que trago aqui como presente. Não sei se esse homem ainda está em Lesbos ou se conseguiu ir para outro lado. Não sei se conseguiu sair desse campo de concentração, porque os campos de refugiados — muitos — são de concentração, devido à quantidade de gente que ali é deixada (...). E este homem não tinha rancor: ele, muçulmano, tinha esta cruz da dor que levava sem rancor. Refugiava­-se no amor da mulher, salva pelo martírio.”

 

2. Precisamente no contexto do magno acontecimento histórico que foi esta visita, quero relembrar que, entre os pressupostos para um diálogo inter-religioso autêntico, há dois que são imprescindíveis. Refiro-me concretamente a uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados e à laicidade do Estado.

 

Estes pressupostos são universais, mas têm particular importância para o cristianismo e o islão (deve-se distinguir entre islão e islamismo, este já com o sentido de islão extremista), pois o número dos cristãos e dos muçulmanos é superior a mais de metade da Humanidade, o que significa que o entendimento entre eles é essencial para o futuro.

 

A Igreja Católica nomeadamente teve dificuldade em aplicar estes pressupostos, que aceitou plenamente apenas no Concílio Vaticano II. De qualquer forma, já havia indicações no Novo Testamento e no fundador. Assim, nunca os teólogos católicos referiram a Bíblia como ditada por Deus, mas como Palavra de Deus em palavras humanas, o que implica a exigência de interpretação. Jesus disse: “Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus”. E, chegado a Jerusalém, foi morto, manifestando-se contra toda a violência, dizendo a Pedro: “Mete a espada na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre”. Isto significa que, quando os cristãos olham para os horrores cometidos por eles ao longo da História, têm de reconhecê-los e pedir perdão, pois atraiçoaram Jesus, o fundador.

 

O que para a Igreja católica foi difícil vai sê-lo ainda mais para o islão. De facto, muitos defendem que o Corão foi ditado por Deus ou que é cópia do Corão eterno, e, por isso, lêem-no à letra, com todos os riscos de barbárie. E o fundador, Maomé, foi ao mesmo tempo um profeta, um chefe de Estado e um combatente em várias batalhas. Com razão, escreveu o filósofo Slavoj Zizek, citando M. Safouan: “A marca distintiva do islão é ser uma religião que não se institucionaliza a si mesma e que, ao contrário do cristianismo, não se equipa com uma Igreja. Na verdade, a Igreja Islâmica é o Estado Islâmico: foi o Estado que inventou a chamada ‘mais alta autoridade religiosa’ e é o chefe de Estado quem nomeia o homem que deve ocupar esse cargo; é o Estado que manda construir as grandes mesquitas, que supervisiona a educação religiosa; é ainda o Estado que cria as universidades, que exerce a censura em todos os domínios da cultura e que se considera ser o guardião da moralidade”.

 

Evidentemente, a laicidade não é laicismo, que seria a religião da não religião, no sentido de remeter a religião para o espaço privado ou íntimo, sem lugar no espaço público. Sendo a religião uma dimensão constitutiva do ser humano e estruturante da cultura, é evidente que tem de ter lugar também no espaço público, e as religiões têm o direito de debater as grandes questões das sociedades, concretamente as referentes à bioética, e tentar fazer triunfar as suas posições. Qual é a diferença, quando há laicidade, separação da(s) Igreja(s) e do Estado, da religião e da política? Neste caso, a lei não é a lei religiosa, mas a lei votada democraticamente, em democracia pluralista, no Parlamento.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 17 FEV 2019

FRANCISCO DE ASSIS E O SULTÃO AL-KAMIL

 

 

1. Não há dúvida nenhuma de que o cristianismo é actualmente a religião mais perseguida no mundo. Há bastante tempo que se vai concretizando o que parece ser um plano para acabar com a presença dos cristãos no Médio Oriente. Quase desapareceram da Palestina e vão-se extinguindo na Síria e no Iraque e mais lentamente no Egipto e no Líbano. Se em 1950 os cristãos na Palestina representavam à volta de 15 por cento da população, actualmente serão uns 2 por cento.

 

O relatório da Open Doors (Portas Abertas), com a Lista Mundial da Perseguição referente ao ano de 2018, é dramático, pois a perseguição aos cristãos no mundo continua a crescer. Só na lista dos primeiros 50 países onde os cristãos vêem os seus direitos mais limitados pelo facto de serem cristãos, o seu número eleva-se a 245 milhões, cifra que deve ser muito maior, já que pelo menos em 73 países do mundo os níveis de perseguição são “altos”, “muito altos” ou “extremos”: entre Novembro de 2017 e Outubro de 2018, 3731 cristãos foram mortos por causa de seguirem Jesus e 1847 igrejas foram atacadas.

 

A Ásia e a África são os continentes mais hostis aos cristãos. Um em cada nove cristãos sofre perseguição em todo o mundo; na Ásia, um em cada três e na África, um em cada seis. Na Lista da Perseguição Mundial, os três primeiros lugares são ocupados pela Coreia do Norte (há 17 anos que ocupa o primeiro lugar), pelo Afeganistão e pela Somália, respectivamente. A Nigéria, onde houve cerca de 2000 cristãos mortos por causa da sua fé, ocupa o décimo quarto lugar da lista dos 50 países com maior perseguição. O Paquistão é considerado o país onde a violência anticristã atinge o seu nível máximo. Causa preocupação o que se passa na Índia por causa do radicalismo hindu e na China sobretudo por causa da posição do Partido Comunista em relação à religião. As novidades na Lista dos 50 países são o Nepal e o Azerbaijão. A situação na Líbia, que ocupa a sétima posição na escala, causa particular preocupação. Com a retirada do autoproclamado Estado Islâmico, os níveis de perseguição no Iraque e na Síria desceram, embora continuem a ocupar lugares muitos altos na Lista: oitavo e décimo quinto lugares, respectivamente.

 

Entretanto, na Europa impõe-se frequentemente um “secularismo agressivo”, e, com honrosas excepções, para a França e o Reino Unido, é gritante o clamoroso silêncio do Ocidente democrático face a esta situação. Perante o aumento dramático da perseguição dos cristãos no mundo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico impulsionou um Relatório sobre a situação, que será apresentado em Abril. “A perseguição dos cristãos é frequentemente um sinal explícito e alarmante da perseguição das minorias”, assegurou o Ministro Hunt, que reconheceu que “podemos e devemos fazer algo mais”.

 

2. Neste ano de 2019, há, entre muitas outras, uma data altamente importante: em 1219, Francisco de Assis, em plena quinta cruzada, foi ao encontro do sultão do Egipto, o sultão Al-Kamil, faz este ano 800 anos. Recordando este acontecimento histórico, com a sua mensagem de tolerância, diálogo e compromisso com a paz, o arcebispo de Lahore, no Paquistão, também presidente da Comissão Nacional para o Diálogo Inter-religioso e o Ecumenismo, da Conferência Episcopal do Paquistão, presidiu, no passado dia 12, a um encontro de cristãos e muçulmanos. Aí foi lembrado que Francisco e Al-Kamil “defenderam a paz e a tolerância no meio da atmosfera de guerra e conflito durante as cruzadas. Deram um exemplo de diálogo inter-religioso e de compreensão mútua”.

 

É neste espírito que o Papa Francisco assumiu como um dos desafios do seu pontificado o compromisso com o diálogo inter-religioso, como mostrou a sua viagem ao Egipto e, imediatamente a seguir ao seu encontro com os jovens nas Jornadas Mundiais da Juventude, no Panamá, onde se encontra, vai deslocar-se à capital dos Estados Árabes Unidos, Abu Dhabi, de 3 a 5 de Fevereiro próximo, para participar num encontro inter-religioso sobre a “Fraternidade Humana”. E repete constantemente que quer visitar o Iraque, por onde em Dezembro passado andou o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que celebrou o Natal com várias comunidades cristãs.

 

Evidentemente, o diálogo não pode ser unidireccional, tem de haver reciprocidade, sendo, por isso, razoável e legítimo esperar que concretamente os muçulmanos que vivem no Ocidente denunciem as atrocidades cometidas contra os cristãos nomeadamente nos países de maioria islâmica. O que alguns já fazem, felizmente. E a Turquia acaba de anunciar a construção da primeira igreja cristã desde 1923, a começar em Fevereiro.

 

3. Neste contexto, seja-me permitido, mais uma vez, sublinhar as condições irrenunciáveis para um diálogo tão urgente como difícil, concretamente para o diálogo islâmico-cristão, que aqui tenho repetido.

 

3. 1. Quando se olha para a situação do mundo, é o teólogo Hans Küng que tem razão: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, um ethos mundial”.

 

3. 2. A religião tem na sua base a experiência do Sagrado. Crente é aquele que se entrega confiadamente ao Mistério, ao Sagrado, Deus, esperando dele sentido último, salvação. De facto, as religiões aparecem num momento segundo: são manifestações e encarnações, necessárias e inevitáveis, da relação das pessoas com Deus e de Deus com as pessoas. São mediações, construções humanas e, por isso, têm do melhor e do pior, entendendo-se, também a partir daqui, que o diálogo inter-religioso tem de assentar nalguns pilares fundamentais.

 

Todas as religiões, na medida em que não só não se oponham ao humano, mas, pelo contrário, o dignifiquem e promovam, têm verdade. Outro pilar diz que todas são relativas, num duplo sentido: nasceram e situam-se num determinado contexto histórico e social, e, por outro lado, estão relacionadas com o Sagrado, o Absoluto, Deus. Estão referidas ao Absoluto, Deus, mas nenhuma o possui, pois Deus enquanto Mistério último está sempre para lá do que possamos pensar ou dizer. Precisamente porque nenhuma possui Deus na sua plenitude, devem dialogar, para, todas juntas, tentarem dizer menos mal o Mistério, Deus, que a todas convoca. Assim, por paradoxal que pareça, do diálogo fazem parte também os ateus e os agnósticos, porque, estando de fora, mais facilmente podem ajudar os crentes a ver a superstição e a inumanidade que tantas vezes envenenam as religiões.

 

Exigência intrínseca da religião na sua verdade é a ética e o compromisso com os direitos humanos e a realização plena de todas as pessoas. A violência em nome da religião contradiz a sua natureza, que é a salvação. Face a um Deus que mandasse matar em seu nome só haveria uma atitude digna: ser ateu.

 

Dois princípios irrenunciáveis: a leitura não literal, mas histórico-crítica, dos Livros Sagrados, e a laicidade do Estado, que não deve ter nenhuma religião, para garantir a liberdade religiosa de todos. Evidentemente, a laicidade não se pode de modo nenhum confundir com o laicismo. De facto, a religião tem de ter lugar no espaço público, pois é uma dimensão do humano e faz parte da cultura.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 26 JAN 2019

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de janeiro de 2017.

 

O filme «Silêncio» de Martin Scorcese é baseado no enredo concebido por Shusaku Endo (1923-1996) sobre a memória da presença portuguesa e cristã no Japão. O livro foi publicado entre nós pela D. Quixote, com tradução de José David Antunes, e a sua temática insere-se na nossa riquíssima relação com o país do Sol Nascente.

 

CONHECIMENTO MÚTUO
Diz-me a experiência que os nipónicos conhecem melhor Portugal do que nós a eles. Não falo só dos muitos vocábulos portugueses usados no quotidiano (butan, kappa, koppu, pan ou tempura) ou do célebre pão-de-ló (kasutera, palavra que vem das claras em castelo), mas sobretudo de uma empatia muito especial, devida ao facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais a chegarem a este distante arquipélago, habitado por guerreiros, mercadores e pescadores, abertos ao mundo. A arte Namban é um resultado deste encontro, provindo a designação do modo como os japoneses nos conheciam – Namban-jin significa bárbaros do sul… Por toda a parte no Japão, encontramos memórias do encontro com os portugueses – e Venceslau de Morais ou, nos nossos dias, José de Guimarães bem compreenderam esta riquíssima relação. De facto, há uma curiosa relação biunívoca entre os nossos povos. Shusaku Endo foi um grande admirador dos portugueses e amigo do Embaixador Martins Janeira. Nasceu em Tóquio, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência da mãe, com quem viveu, depois desta se separar do pai, em Kobe. Licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon. A sua obra é marcada pela pertença a uma religião minoritária e pela vivência de intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista. E Silêncio é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e o mais significativo, tendo sido distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). Não esqueço o encontro em Quioto com os Padres Adelino Ascenso e José Tolentino Mendonça, para falarmos de Silêncio. O tema crucial era o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, parecia dizer: “Podes pisar-me!”. Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. Para o Padre Ascenso, a distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. E António Alçada gostava de recordar a passagem da Peregrinação, em que Mestre Belchior e o rei do Bongo falavam da conversão deste último – em que ele dizia ser desnecessário qualquer gesto, já que Deus o sabia…

 

INTERPRETAÇÃO SOBRE A VIDA
O filme de Scorcese procura uma interpretação sobre a vida de um missionário no Japão no século XVII, em especial durante a dura perseguição, que durou quase um século. O caso que serve de base ao livro de Endo tem a ver com a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira em 1633 – caso inédito até então. Perante as perseguições, houve necessidade de resistir. Daí que os jesuítas tenham assumido a exigência de algum tipo de acomodação cultural, como no caso dos ritos. No livro, tudo começa por um dado dramático: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus, Cristóvão Ferreira, submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo tornou-se violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos adotados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas. Silêncio trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o que se tinha passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações, que nos levam aos estranhos acontecimentos que conduziram à apostasia do mais proeminente dos missionários no Japão…

 

UM DRAMA HUMANO E RELIGIOSO
Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? “Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes”. Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz”. Afinal: “Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”… O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso.O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz o romancista): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”.

 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na minha carta precedente, falei-te, muito livre e pessoalmente, da constituição e tradição dos nossos textos evangélicos. Por seu lado, o Corão deve a sua reunião em livro a um ato político, preparado pelo segundo califa (ou sucessor de Maomé), Omar, e feito pelo terceiro, Osmã. Na verdade, durante a vida e imediatamente depois da morte do Profeta fundador, apenas circulavam revelações divinas, lado a lado com ditos do mesmo Maomé, e relatos da sua vida. Tais ditos e relatos também seriam reduzidos a escritos, conhecidos, respetivamente, por Hadiths e Sira. Já as revelações divinas, recebidas pelo Profeta através do anjo Gabriel, seriam coligidas num livro a que se chamou Corão, precisamente por conter essas qurra ou recitações. Foram, aliás, os al qurrâ, os recitadores que se presumiam depositários exclusivos da revelação maometana, que mais se opuseram à versão oficial do Corão decretada pelo califa Osmã, como instrumento indispensável à preservação da unidade e força de um império nascente, que lutas intestinas, numa circunstância de rapidíssima expansão, ameaçavam. Não olvides que, após a morte do Profeta, em 632, ou seja, dez anos depois da hejira (início da era muçulmana, em 622), lhe sucederam, imediatamente, os quatro califas ortodoxos (os "bem guiados"): Abubacar, Omar e Osmã, até 657, período em que o islão conquista, para além da península arábica, o Egipto e o norte de África, e, derrotando os exércitos persa e bizantino, os territórios que hoje constituem a Síria e o Iraque; e Ali, o quarto, que Maomé teria preferido para sucessor, foi califa de 657 a 661, data em que foi assassinado. Nele radicará a secessão xiita. Apesar da importância do conceito de Umma ou comunidade dos crentes, no Islão, a continuação da mensagem de Maomé não se faz, como acontece no cristianismo primitivo, por uma Igreja independente do poder político, temporal, mas pela transmissão de um império.

 

   Escreve o doutor Nabil Mouline, no seu Le Califat - Histoire politique de l´islam (Paris, Flammarion, 2016): Desde o seu acesso ao poder, Abubacar [o primeiro califa, sucessor imediato de Maomé] tem de enfrentar um grave problema. A maioria das tribos e regiões que se aliaram à causa de Maomé, nomeadamente depois da conquista de Meca, rejeitam a autoridade de Medina [onde o Profeta falecera e está sepultado], por razões religiosas, económicas e políticas. Vários grupos estimam que o juramento de vassalagem prestado ao Profeta é estritamente pessoal. Recusam, portanto, reconhecer o novo chefe. Outros afirmam que, não deixando de ser muçulmanos e reconhecendo a preeminência de Medina, deixarão de pagar o imposto - sinal de subordinação universal. Outros grupos vão ainda mais longe: não se contentam com declarar a sua independência, mas põem profetas - que a tradição classificará como impostores - à cabeça, para se diferenciarem dos muçulmanos e mostrar que nada têm para invejar [...] Com força e determinação, Abubacar decide reprimir essas rebeliões.

 

   [Entendida esta e outras condicionantes, não quero deixar de te referir que, pouco antes de morrer, Maomé recebeu numa mesquita uma delegação  de cristãos de Najran, aos quais garantiu a proteção da Umma muçulmana. Facto para lembrar.]

 

   Mas daí também decorre outra questão quanto à interpretação das escrituras cristãs e muçulmanas: enquanto umas são consideradas inspiradas pelo Espírito Santo, mas obra humana, passíveis, portanto, de análise e interpretações que tenham em linha de conta o tempo e o modo  em que foram redigidas, ou seja, a sua circunstância, as outras são geralmente afirmadas como ditados de Alá, do Deus único que em árabe falou a Maomé, o analfabeto que as transmitiu, não por escrito, mas no seu dialeto da língua árabe, esta sendo, portanto, a língua divina por excelência. Posteriormente, é a autoridade do califa que as fixa por escrito. Aliás, talvez já Abubacar, por sugestão de Omar, que lhe sucederia, teria mandado redigir - antes, portanto da versão oficial de Osmã - a revelação de Maomé, texto que, então, viria a servir para as recitações ou qurra. Todavia, nota bem, Princesa de mim, a tentação totalitária de possuir a exclusiva revelação de Deus não envenenou apenas o islão, mas também a cristandade, como, hoje ainda, verificamos no "bible belt" dos EUA e noutras seitas de raiz cristã, ou, mais infelizmente, em agrupamentos ditos "católicos"... Também, no mundo islâmico, podemos entender diferentes achegas à interpretação, quer do Corão, quer dos hadith, quer da própria Sira, ou vida do profeta Maomé, pese embora o radicalismo intransigente de muitos imãs e ulemas.

 

   Dounia Bouzar, muçulmana francesa que a revista Time elegeu, em 2005, "herói europeu do ano", pelo seu trabalho inovador sobre o islão, respondia assim à jornalista que, em 2014, lhe perguntava se não seria necessária uma reforma teológica que impedisse os extremistas de se apoiarem em versículos do Corão, apelando à violência, para legitimarem um discurso que ignora outros trechos do Livro que defendem o respeito pelos outros: Qualquer muçulmano conhece, em teoria, a reforma de 1930, cujo objetivo era o de distinguir os passos do Corão ditos "principais" - que enunciam verdades constantes - dos "circunstanciais" - ligados ao contexto histórico da época da revelação. Ora os princípios básicos do Corão afirmam o respeito da vida humana, de toda a vida humana, inclusive a das pessoas de outras religiões ou mesmo ateus! Tal como o cristianismo conheceu episódios sangrentos - a Inquisição, o dia de S. Bartolomeu de 1572 - o islão também os teve. Mas tal não significa que a regra seja a violência. Do mesmo modo que no cristianismo, foi quando o islão se tornou religião de Estado que a violência emergiu.

 

   Acho interessante esta observação, eu próprio várias vezes te disse, Princesa, quanto receio a tentação totalitária dos monoteísmos, como de qualquer ideologia da exclusividade, tal como, em nossos dias, tantas vezes ocorre com o laicismo. Não sou, nem pretendo ser, filósofo, teólogo, historiador ou especialista seja do que for. Sou, simplesmente, um simples amador de pensar, procuro ir entendendo as coisas. Mas pensar é, também, correr o risco de me enganar. Tenho de ter a humildade de reconhecer que o erro é humano, como eu sou. Nisto de que agora te falo, penso que um problema que o islão tem com a circunstância histórica da sua revelação advém do facto desta se ter processado numa sociedade de clãs rivais e divididos, étnica, política e religiosamente, grupos que coexistiam, nem sempre pacificamente, sem um poder único que lhes fosse superior. Assim, se a pregação de Maomé se inscreve na descendência de Abraão, na linhagem do monoteísmo judaico-cristão, o ambiente em que ela se desenvolve não conta apenas com judeus e cristãos, mas maioritariamente com tribos politeístas. Além disso, o nomadismo, as caravanas comerciantes, por trilhos traçados entre oásis e poços de água, nessa terra de ninguém que é um deserto, por muitas regras e códigos de honra que se respeitem, são sempre propícios à eventualidade de afrontamentos e conflitos. Daí o pendor bélico, e a tentação do poder, na expansão original do islão. Aliás, o próprio Corão se distribui por quatro períodos de revelação, três em Meca e um em Medina, e sente-se bem, no longo decurso das sequentes discussões sobre a sucessão do Profeta, como se arrastaram fraturas e discórdias acerca da própria revelação e dos ensinamentos de Maomé. A fixação do texto do Corão, por ordem do califa Osmã, como acima te disse, é, pois, um ato eminentemente político... que se, por um lado, pretende uma versão "oficial" da mensagem transmitida pelo Profeta, por outro, não se dispõe a escamotear ditos circunstanciais, sobretudo aqueles que possam apoiar eventuais medidas coercivas.

 

   Diferentemente, cristianismo primitivo desenvolve-se principalmente em meio judeu, quer na Palestina, quer na Diáspora. No meio dum povo submetido ao império de Roma, isto é, ao poder político de um estado estrangeiro e ocupante, praticante de outra religião, que divinizava o imperador. O cristianismo torna-se, nessa época, não só na esperança do cumprimento da promessa messiânica ao povo judeu, mas num movimento de vocação universal e subversiva que, por outro lado, não tem qualquer possibilidade de pegar em armas. Aliás, até ideologicamente, o cristianismo inicial é uma variante do judaísmo que, deste, expressamente rejeita o projeto político da realização temporal do Reino de Deus: o meu Reino não é deste mundo. Ou ainda: a Deus o que é de Deus; a César o que é de César. Mas tal não significa que não tivesse havido, no próprio seio da Igreja, ou nas igrejas primitivas, divergências quanto a doutrinas e cultos, designadamente quanto à relação do cristianismo nascente ao judaísmo, quer no tocante à secessão da nova religião (lembra-te das polémicas em redor da obrigatoriedade de serem circuncidados os gentios que se convertessem à Boa Nova), quer à sua própria universalização, em oposição ou ultrapassagem da implantação próxima do reino messiânico prometido ao povo judeu. Ao São Paulo que defendia não haver, aos olhos de Deus, diferença entre judeu e gentio, escravo e homem livre, grego e romano, homem e mulher, igrejas cristãs - em Jerusalém ou na Galácia, por exemplo - insistiam na filiação prévia no povo eleito, o judeu, de qualquer pretendente a cristão. Aliás, os diferentes evangelhos atribuem ao Jesus histórico afirmações que tanto abonam um lado como outro. Serve este parêntese para ilustrar que tudo isso se passou em meio humano, cultural, tal como muitas outros debates e acontecimentos na vida da Igreja. Mas esta nasceu no Pentecostes, tem consigo e por si a fé em que o Espírito Santo vai soprando a vida do mundo...

 

   Alcorão começa por invocar o nome de Deus clemente e misericordioso. E todas as suas suras, exceto a nona, assim se iniciam. Tal é a fé de Abraão que, para as três religiões do Livro é o pai de todos os povos. Cronologicamente sendo o último dos monoteísmos vindos de Abraão, diz Ghaleb Bencheikh, doutor do Islão, franco-argelino de reconhecida autoridade, que a tradição religiosa islâmica se quer continuadora do ensinamento da Tora e propagadora da mensagem evangélica. Os seus valores assentam num alicerce ético comum ao judaísmo e ao cristianismo. Por muito tempo, aliás, a pregação maometana não falava de "islão", mas antes da imutável religião da coorte de Abraão. Em próxima carta falarei contigo sobre este tema.

 

   Sabes bem, Princesa, que sempre cuido mais de procurar o que aproxima do que o que separa, inclino-me mais para a descoberta da comunidade intrínseca da condição humana do que para a denúncia de conflitos de culturas ou civilizações. Onfray, a dado passo da sua reflexão sobre o islão, recorre às teses de Samuel Huntington. Todavia, eu penso que, para além da presença universal e indiscriminada do bem e do mal - ainda que, evidentemente, o tempo e o modo possam ser, e têm sido, mais ou menos propícios a um ou a outro - nenhuma etnia, cultura ou religião é necessariamente maligna ou benigna, nem qualquer conflito fatalmente inevitável. Não concordando com a opinião de muitos, inclusive Michel Onfray, de que há civilizações superiores a outras, prefiro uma achega antropológica e histórica, que nos ajude a compreendermo-nos nas nossas diferenças e a procurar o significado partilhado de um humanismo.

   Fica para outra carta, Princesa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

  

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   

 

 

      Minha Princesa de mim:

 

   Posso concordar ou discordar de afirmações de Michel Onfray, filósofo francês, ateu confesso, homem de esquerda ("esquerda" sendo, para mim, tal como "direita" um conceito plurívoco, quiçá equívoco, mas ele declara-se nietzscheano de esquerda e pós anarquista), ou, ainda, admitir que, pela insistência com que vai, parece-me, em jeito de maré, reiterando as suas teses, por vezes me cansa um pouco, mas reconheço a deontologia com que vai cumprindo o seu ofício de pensador. Para ele, ser filósofo é procurar refletir sobre a realidade no tempo longo, diferentemente do jornalista que dá notícias a curto prazo. Creio que já te falei do Michel Onfray, não por ser seu leitor assíduo, mas por me terem estimulado a reflexão alguns dos seus escritos e declarações sobre a questão do islamismo. São passos pensados, trabalhados, mesmo se partindo de pontos de vista que eu nem sempre partilho, ou chegando a conclusões um tanto ou quanto divergentes das minhas próprias. Adiante te dou alguns exemplos desse meu secreto diálogo com o filósofo francês, sobretudo em volta do seu Penser l´Islam, que a Grasset editou em Março de 2016.

 

   Respondendo a interpelações da jornalista argelina Asma Kouar sobre vários aspetos da questão islão/guerra/terrorismo, afirma, quando ela lhe pergunta se não será injusto visar os muçulmanos, acusando o islão de ser globalmente responsável pelo terrorismo atual: Há pelo menos duas maneiras de ser muçulmano, conforme as suras sobre as quais cada um constrói o seu islão: ou as que afirmam «Exterminai os incréus até ao último» (Corão VIII, 7) e, ainda, «Matai qualquer judeu que apanheis» (Sira,II, 58-60), «Matai os politeístas seja onde for» (Sira XVII,58); ou, pelo contrário, as que dizem «Não haja coação em matéria de religião» (Corão II, 256) ou, ainda, «Aquele que salvar um só homem é considerado como se tivesse salvo todos os homens» (Corão V, 32) - e digamos, a talho de fouce, que esse mesmo convite, nos mesmos termos, se encontra também entre os judeus (Micha Sanhedrin, 4:5). Os segundos podem afirmar que o islão é uma religião de paz, de tolerância e de amor, mas em detrimento das suras invocadas pelos primeiros, que tornam possível um islão de guerra, de intolerância e de ódio. O mesmo se passa com o cristianismo, que permite - se nos reclamarmos do Jesus que oferece a outra face, perdoa os pecados, responde ao ódio com amor, convida ao amor do próximo e ao perdão dos pecados - um cristianismo pacífico, tolerante (o de Montaigne); ou que permite o contrário, se se reclamar, nos próprios Evangelhos, do Jesus que expulsa a chicote os mercadores do Templo (o passo dos Evangelhos que Hitler preferia), ou que diz: «Não vim trazer a paz, mas a espada» (Mateus X, 34-36), uma espada que se tornará no símbolo de São Paulo, com o qual o cristianismo oficial construiu a sua ideologia, mais do que com o Jesus da paz, da tolerância e do amor, esse que nunca teria tornado possíveis as cruzadas, a Inquisição, o Index, a colonização e o genocídio dos povos da América.

 

   Em cartas várias te tenho dito como sempre me parece mais positivo insistir na versão pacífica do islão, do que apontar-lhe um carácter necessariamente bélico... E em muitas conversas e escritos outros vou apresentando exemplos de tolerância e convivência de muçulmanos com gentes e culturas diferentes. Nunca me parece demais insistir na lembrança dos construtores de paz. Tal como não posso negar nem devo escamotear episódios da história da cristandade que, infelizmente, revelam sobranceria, intolerância, antagonismo e inimizade. Ainda hoje deparamos com muitos cristãos, sobretudo clérigos, que se dedicam mais a denunciar e ser contra do que a anunciar a alegria da boa nova da misericórdia de Deus. Felizmente, sempre foram e vão surgindo reações evangélicas, como, em séculos passados, as de Bartolomeu de las Casas e outros dominicanos, na América Central, e dos missionários jesuítas, na do Sul, à exploração e ao abuso colonialista dos índios americanos. E, hoje em dia, as de um Papa Francisco! A tal história dual da Igreja, de que já te falei. Também a personagem de São Paulo terá muito que se lhe diga, como ele mesmo muito teve para dizer. Mas a espada com que a iconografia cristã o distingue, nem sequer é a que, antes de se converter, usou contra os seguidores de Cristo: é, sim - como tão bem se vê na Decapitação de São Paulo, do Petrini, pintura de 1710 exposta em San Giulio, Altavilla Monferrato - aquela que lhe cortou a cabeça, fora das muralhas de Roma, como a lei romana determinava que fossem executados os seus cidadãos. Aliás, se bem me lembro, Princesa, Santo Ireneu diz algures, no seu Adversus Haereses, que o evangelho de São Lucas - também conhecido, precisamente, por evangelho da misericórdia - é aquele que S. Paulo pregava. Na verdade, Lucas, pagão convertido ao judaísmo e, depois, ao cristianismo, era discípulo de Paulo, que acompanhou em muitas viagens. Tenho, recentemente, tido conhecimento da tese, entre alguns historiadores e exegetas do Novo Testamento, de que os evangelhos sinópticos terão sido todos, primeiro, redigidos antes do ano 70 (data da destruição do templo de Jerusalém por ordem do imperador Tito), quiçá em aramaico e hebraico, registando assim as tradições orais correntes nas várias comunidades cristãs. Muito embora os originais tenham desaparecido, terão deixado rasto em aramaicismos e hebraísmos reconhecíveis na versão grega, aquela que a Igreja reteve. Se o de Lucas transmite a pregação ou tradição paulina, o de Marcos traz a de São Pedro. O de Mateus, abraçando essas correntes e outras, será aquele que mais proximamente regista as palavras do próprio Jesus em terras da Galileia e da Judeia, sendo Levi (Mateus), o seu autor, a julgar pela sua profissão, homem necessariamente letrado, tal como Lucas era médico, e Marcos, de acordo com outros estudiosos, o autor do evangelho mais antigo, escrito a pedido dos cristãos de Roma, pessoa culta. O evangelho de São João é mais obra de autor, e mesmo já uma construção teológica, além de quiçá ser o historicamente mais rigoroso, sobretudo no relato da fase final da vida de Jesus, e do seu ministério público. Mas todas estas hipóteses continuam sendo discutidas por especialistas e investigadores: o professor Geza Vermes, da universidade de Oxford, por exemplo, judeu húngaro regressado ao judaísmo depois de se ter convertido ao catolicismo e ser ordenado padre (creio que jesuíta), sendo considerado um dos mais sagazes investigadores do Jesus histórico, afirma a veracidade da crucifixão do Nazareno (consulta os seus The Authentic Gospel of Jesus The Passion, ambos na Penguin, um em 2003, o segundo em 2005) atestada não só pelos escritos neotestamentários, mas ainda pelos historiadores romanos coevos Josephus e Tácito, bem como, indiretamente, pelo Talmud judeu. No primeiro dos seus livros que te indiquei, Vermes procura determinar, entre vários ditos atribuídos a Jesus, aqueles que Ele terá realmente proferido, concluindo que, mesmo assim, surgem, consoante qual dos evangelhos, e em que trecho, discrepâncias e aparentes contradições. Mas nada suficiente para desvirtuar a mensagem fundamental de amor, de misericórdia e paz, a tal que, no decurso da História, muitas vezes a "Igreja oficial", a cristandade, ou cada um e qualquer de nós, tem esquecido ou afastado. Também não creio que a datação certíssima dos textos evangélicos originais, nas suas presumíveis línguas, ainda que disciplina importante, seja essencial ao seu entendimento. Lembra-te de que há "casos piores". O primeiro aspeto insólito é o facto de os primeiros poemas da literatura europeia terem sido compostos numa língua que nunca ninguém falou. O grego da Ilíada e da Odisseia é uma língua artificial, que mistura elementos de dialetos diferentes: jónico, eólico, árcado-cíprico, ático, etc. (Frederico Lourenço, no Grécia Revisitada, Lisboa, Cotovia, 2004). Como também seis séculos separam Virgílio dos seus primeiros manuscritos conhecidos, treze Platão, dezasseis Eurípides. Apenas retenho para aqui que exegetas cristãos, e não cristãos, não se cansam de procurar entender o que o Jesus histórico terá mesmo dito e pretendido transmitir. Mas tanto não obsta a que a tradição cristã fundamental - afinal sempre revisitada e recorrente - incessantemente nos recorda o mandamento do amor, e que a fixação dos textos canónicos, por oposição aos apócrifos, se foi fazendo durante três séculos (do II ao IV), pelo labor de sínodos e concílios, respeitando três critérios sine qua non: datarem da geração apostólica, enunciarem verdades ortodoxas sobre Jesus Cristo, serem reconhecidos pela maioria das comunidades eclesiais. Se atentares bem nestes critérios, Princesa de mim, verificarás que, antes de se revestir dum autoritarismo central e hierárquico - ainda hoje invocado por muitos, mas sempre igualmente contestado - a tradição católica se enraizou na vinda e na vida humana de Jesus, e na reunião da Igreja, por obra e graça do Espírito Santo. É a Tradição do Pentecostes no Povo de Deus. Por muito que contrarie ou exaspere os chamados "fundamentalistas", defensores de uma interpretação literal dos textos bíblicos - o que, aliás, fatalmente os empurra para perplexidades, consequentes afrontamentos emotivos e múltiplos sectarismos - a Igreja sempre acreditou que a revelação se descobre nos textos, sim, mas ainda na tradição que os vai lendo e interpretando. Assim também se explica a diversidade de correntes e a atualidade de debates no seio da própria Igreja, bem como, em contracorrente, a propensão do clericalismo conservador para o autoritarismo.

 

   Penso, Princesa de mim, que se atentarmos, sem preconceito nem hipocrisia, para a tradição islâmica, descobrindo que, nela também, há correntes inspiradas pelo espírito da misericórdia e da paz, encontraremos o muito de essencial que temos em comum com os fiéis muçulmanos. E veremos ainda como a graça ou propósito de distinguir entre a mensagem de Deus e o poder temporal, político, e entre a letra e o Espírito (com propósito uso aqui um E maiúsculo) tem sido (como, apesar dos desvios e abusos do autoritarismo clerical ou político, foi mais livremente acontecendo na cristandade) fator fulcral de uma dialética de debate e concórdia, de progresso e atualização.

 

   Mas fica mais disto para próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira