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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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VICTORIA CAMPS - CUIDADOS: UMA OBRIGAÇÃO DE TODOS (II)

 

“Debemos recuperar el valor del cuidado y construir entre todos una sociedad más humana y solidaria”


Se é certo que o ser humano sente necessidade de ter em conta a outra pessoa e o seu sofrimento, todavia, os hábitos sociais que temos vindo a aceitar nos últimos tempos foram criando raízes na ideia de que os cuidados são da responsabilidade das instituições e não do mundo emotivo de cada um, o que levou a um despreendimento da vontade de cuidar, mesmo que se não interponham razões de saúde da parte do cuidador, ou mesmo razões de emprego ou outras que nunca deveriam recusar a ternura do cuidar que, enfim, de muitos modos se pode expor.


Envelhecer e morrer em lares em vez de nos encontrarmos nos locais a que pertencemos uma vida, acontece sobretudo por termos permitido que os lares fossem os profissionais lugares para onde se devem dirigir os que perturbam a regularidade das vidas normais, tão normais que se esqueceram da luta por uma sociedade inclusiva dos mais idosos.


A desresponsabilização da comunidade face a esta situação perdeu a ética do cuidar já que esta passou a ser uma razão e nunca uma emoção.


Viver o sofrimento dos nossos próximos é entender a paz que lhes damos e a que receberemos a seu tempo.


A vulnerabilidade surge paralela ao perder da autonomia, e, se o nosso pensar, encarar com naturalidade as situações da vida que englobam a fragilidade e a vulnerabilidade, então, a interdependência que um dia surgirá poderá não ser tão dramática, antes uma consequência do entendimento do percorrer a vida, o que nos acontecerá e nos unirá.


Alerta-nos a catedrática em filosofia Victoria Camps, que se não recuperarmos o superior valor do cuidar e de sermos cuidados, também como uma virtude fundamental da vida, nem as instituições públicas alguma vez entenderão a base das instituições cuidadoras e o envolvimento das emoções de todos nós face a quem sofre, único modo de provocar o nascimento da empatia que reside no cuidado de viver o sofrimento dos demais.


Um dia será a nossa vez de ser cuidado e que esse dia seja já fruto da luta incansável por um novo contrato social.


Há que saber onde esteve o limite.

 

Teresa Bracinha Vieira

VICTORIA CAMPS - CUIDADOS: UMA OBRIGAÇÃO DE TODOS (I)

 

Para que haja um início a uma não enferma democracia, absoluto se torna que ela crie raízes a um novo pacto social e que este crie uma mudança de paradigma e nele a assunção de todos ao ato de cuidar.


Todos temos a obrigação moral de cuidar e de sermos cuidados.


A sociedade deve entender como um direito social aquele que dá acesso ao cuidar como dever ético e democrático.


A relevância ao ato de cuidar – equilíbrio entre razão e sentimento - é um colocar no seu sítio a justiça que lhe deve acudir.


Na nossa sociedade, são sobretudo as mulheres que cuidam, e essa exigência é-lhes implicitamente destinada no seio das próprias famílias e em todas as circunstâncias.


As primeiras a deixarem os empregos para se encarregarem dos filhos ou dos pais, ou de outros familiares que necessitam de apoio, são as mulheres, e, para elas, essa é uma obrigação a que naturalmente se devem prestar a cumprir e que, se assim o não entenderem, têm de conseguir suportar uma violenta e permanente crítica e mesmo um desprezo de todos, apesar de um dia, um direito à vida, a dada altura, lhes ter sido prometido e dentro dele um cuidar partilhado.


Todos sabemos que é uma responsabilidade de homens e mulheres, esta dos cuidados familiares, mas, a verdade, é que os cuidados não são tratados como direitos éticos, nem se pensa que todos temos direitos a ser cuidados. E o que nos aguarda?


Esta pandemia deixou aberta a porta que mostra, nus, muitos dos caules da solidão. As transformações de ordem social que têm tido lugar têm revelado um menu moral absolutamente primário para se compreender uma época.


A ausência de um contacto vital e das consequências a assumir por cada um, expôs, de um modo ou de outro, que muitas gerações são questões biológicas mais do que espirituais. A consciência da diferença e da existência de gerações não as fez conceber um cuidado no amor sem que pelo menos ele se inscreva no caderno dos créditos e dos débitos.


Também o aumento da esperança média de vida contém, em muitos olhares, a nesga cruel da linguagem dos olhos de quem está só, e, naturalmente descuidado, como se o tema do nosso tempo fosse o desamor, o alheamento, o desamparo, enfim.


E de novo numa vida presa por grampos ao que lhes resta viver, surgem as mulheres, e elas, no cuidar, são o todo e o tudo e quantas vezes a outra face.


Disse, Carol Gilligan:
«En un contexto patriarcal, el cuidado es una moral femenina; en un contexto democrático, el cuidado es una moral humana».

Teresa Bracinha Vieira