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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de julho de 2018

 

A Cimeira de Berlim do Património Cultural foi um momento culminante deste Ano Europeu. Se é verdade que há ainda muito para fazer, pode afirmar-se que o aprovado “Apelo de Berlim” constitui um documento fundamental que põe a tónica na defesa da Cultura, da Educação e da Ciência como fatores de desenvolvimento sustentável, de diversidade e de paz.

 

 

PATRIMÓNIO, LEMBRANÇA VIVA…
A vitalidade cultural de Berlim, nos últimos anos, desde a arquitetura e urbanização à presença da nova geração de artistas plásticos e cultores das diversas artes foi o melhor cenário para este extraordinário encontro. Ao caminharmos em “Unter den Linden”, entre tílias, em direção à Porta de Brandeburgo e ao novo Bundestag pudemos lembrar as gravuras antigas e as grandes referências da cultura alemã: os Museus, a Biblioteca, e a sombra de grandes espíritos, como Fichte e Humboldt. Que é o património cultura senão essa lembrança viva? O “Apelo de Berlim para a Ação” constitui um importante desafio para governos, instituições da sociedade civil e cidadãos, organizações internacionais e supranacionais, no sentido de considerar o património cultural como fator de superação do vazio de valores éticos, da indiferença, do medo dos outros – no sentido de uma “cultura de paz”, suscetível de pôr a tónica num culto comum da herança e da memória, do respeito mútuo e de uma verdadeira partilha de responsabilidades. Valores, culturas e memórias constituem a base de uma Europa que deve caracterizar-se pela “Unidade na Diversidade”, resistindo à fragmentação dos egoísmos e da intolerância. Fora da lógica das identidades fechadas, devemos construir realidades abertas e complexas, que não excluam ninguém. A pertença a uma comunidade local e o reconhecimento da importância da proximidade não podem ser contraditórios com a ideia de uma pertença múltipla e de uma solidariedade europeia e global. O património cultural liga gerações, suscita complementaridades, cruza influências e assenta na evolução histórica de encontros e desencontros – abrindo caminhos de diálogo e de cooperação entre comunidades na Europa, mas também com outras culturas do mundo. Trata-se de uma ponte entre o passado e o futuro, um processo contínuo de criatividade e inovação, que assenta as suas raízes na evolução histórica e suplanta-a em nome de uma cultura viva e de uma cidadania ativa e responsável. Mas, falar do tema, é referir ainda o desenvolvimento sustentável, uma sólida coesão social e o surgimento, direta e indiretamente, de condições para novas possibilidades de trabalho. O património cultural traz harmonia e beleza para o nosso meio ambiente, humano e natural, mas também permite desenvolver o bem-estar e a qualidade de vida. Neste Ano Europeu, quando celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estamos em condições para ir além de meras declarações de princípios. E importa seguir destes para a ação, tornando os valores culturais como sentidos por todos – certos de que, deste modo, poderemos, a um tempo, respeitar as pertenças locais, regionais ou nacionais, compreendendo que estas só serão preservadas se não esquecermos as diferenças e a relação com os outos. E não se pense que é fácil este compromisso. Muitos pensam que fechando-se se protegem melhor, quando a história nos dá eloquentes exemplos que demonstram que cultura fechada é cultura ameaçada e morta. O valor universal da dignidade da pessoa humana defende-se com unidade e diversidade. A prevalência da hostilidade sobre a hospitalidade gera consequências dramáticas, que levam a conflitos desregulados, guerras sangrentas e à trágica espiral da violência. O desenvolvimento humano exige equilíbrio entre identidade e diferença, tradição e modernidade, liberdade e igualdade… Eis por que razão o Apelo de Berlim tem de ser considerado na sua dimensão política e democrática.

 

UM PLANO DE AÇÃO EUROPEU
De que falamos? De desenvolver o Plano de Ação Europeu para o Património Cultural; de reconhecer o Património como uma prioridade no âmbito das políticas europeias; de criar pontes entre as dimensões local, nacional e europeia; de preservar e transmitir o que é insubstituível; de investir na regeneração do Património com qualidade; de promover o melhor conhecimento, a compreensão aprofundada e de aproveitar a oportunidade que o momento atual nos reserva. Cada um destes pontos corresponde a uma responsabilidade concreta, que supera em muito a marginalidade de um tema secundário. É a sociedade no seu todo e o desenvolvimento humano que estão em causa. Só um ambicioso Plano de Ação Europeu pode obter resultados efetivos. A Nova Agenda Europeia para a Cultura não pode ficar nas boas intenções nem ser confundida com uma cornucópia de meios usados sem critério nem avaliação. Importa envolver promotores e beneficiários, do espaço público e da sociedade civil – articulando o investimento na cultura, educação e ciência com os objetivos de coesão social e de desenvolvimento regional, envolvendo cidades, campos, litoral, meio ambiente, turismo, sustentabilidade, mudança climática, investigação e inovação, política digital, educação, objetivos de qualidade e, naturalmente, juventude. Estamos a referir a obrigação de maior relevância da Europa e de coerência com a Convenção de Faro do Conselho da Europa, com a Estratégia Europeia para o Património no Século XXI e com a Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Deste modo, as instituições europeias deverão reconhecer o património cultural como prioridade estratégica, com expressão no quadro financeiro plurianual (2021-2027). Isto contribuirá para o mais do que urgente investimento europeu para o capital humano e cultural e para a promoção dos valores europeus. Daí a importância da eleição do novo Parlamento Europeu em 2019 e da Comissão, para que haja compromissos concretos. Os diferentes níveis de governação têm de se coordenar para que o património cultural funcione como um verdadeiro recurso para a sociedade, economia, cultura e meio ambiente. O âmbito local, regional, nacional e europeu tem de definir planos articulados e coerentes, para serem eficientes, do mesmo modo que devem envolver organizações internacionais e sociedade civil. Não podemos esquecer ainda que o património cultural é único e insubstituível, vulnerável e sujeito a riscos – daí a necessidade de criar sinergias no tocante à investigação, à criação artística, às novas tecnologias, ao investimento económico, no sentido da preservação, salvaguarda e a um melhor conhecimento. Também a regeneração das cidades, arredores e meios rurais obriga à criatividade, inovação e adaptação, com critérios de elevada qualidade, de acordo com a Declaração de Davos. Ainda a ligação com as escolas e a educação, com a formação e mobilização de novos públicos, a começar nas crianças e jovens, revela-se de importância crucial, até para facilitar uma melhor compreensão, respeito e inclusão de novos habitantes na Europa. Ora, se tem sido possível concentrar esforços neste Ano Europeu, importa aproveitar o movimento para encontrar uma fórmula de ação adequada no sentido da criação de uma plataforma futura permanente para o melhor conhecimento e coordenação de ações na defesa do património cultural na Europa.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de abril de 2018.

 

«En Lutte contre les Dictatures – Le Congrès pour la Liberté de la Culture – 1950-1978» de Roselyne Chenu, com prefácio de Alfred Grosser (Félin, 2018) acaba de ser publicado, dando conta da importância das ações no âmbito da defesa das liberdades e da democracia, como projetos de cultura.

 

MOMENTO INESQUECÍVEL
A fotografia que ilustra o presente texto é memorável. João Bénard da Costa em junho de 2005 condecora Roselyne Chenu, em nome do então Presidente da República Jorge Sampaio, com a Ordem da Liberdade, em agradecimento pelo contributo desta extraordinária mulher, que foi braço direito de Pierre Emmanuel no Congresso para a Liberdade da Cultura, na defesa dos valores da democracia em Portugal, nos tempos difíceis da ditadura. A sessão em que esse ato teve lugar foi organizada pelo Centro Nacional de Cultura e deu lugar a uma obra que se encontra publicada sobre a intervenção em Portugal do referido Congresso. Falo de «Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril» (Gradiva, 2015) – livro que reúne não apenas o repositório dos passos fundamentais desse projeto, com tão importantes repercussões entre nós, mas também depoimentos de personalidades, a maioria das quais já nos deixou, que em discurso direto nos dizem como participaram e das consequências sentidas do que foi feito nesse tempo. Pode dizer-se, aliás, que o livro acabado de publicar por Roselyne Chenu obriga, para o caso português, à leitura circunstanciada da obra portuguesa. Com efeito, as idiossincrasias portuguesas permitem valorizar o papel desempenhado entre nós pelo Congresso – que foi na transição para os anos setenta a grande seiva do Centro Nacional de Cultura. E ainda hoje temos o testemunho vivo dos jovens intelectuais que então despontaram e são unânimes em dar enorme importância a essa iniciativa, essencial no lançamento de um ambiente cultural aberto, plural e criativo. Cito João Bénard da Costa: «em 1960, após dez anos em que o Congresso para a Liberdade da Cultura se irradiou, sobretudo nos países chamados socialistas, Pierre Emmanuel pensou na Península Ibérica e nos países que, nela, não gemiam sob o comunismo, mas atabafavam com o franquismo e com o salazarismo. Primeiro criou um comité espanhol, depois, quando conheceu o António Alçada, pensou num comité português.

Em dezembro de 1965, na presença de Roselyne Chenu, assistente de Pierre Emmanuel e particularmente encarregada dos povos ibéricos, teve lugar a primeira reunião do Comité Português, que adaptou o púdico nome de Comissão para as Relações Culturais Europeias. Dez membros: Adérito Sedas Nunes, António Alçada Baptista, João Pedro Miller Guerra, João Salgueiro, Joel Serrão, José-Augusto França, José Cardoso Pires, José Ribeiro dos Santos, Luís Filipe Lindley Cintra e Mário Murteira. Estava representado quase todo o espectro político e quase todas as áreas do saber, com um leve favoritismo para as ditas ciências humanas (sociologia, economia, história), o que à época dava seriedade. Tudo acabou (em Dezembro de 1965) com um festivo jantar em casa da Zezinha e do António, onde conheci melhor Roselyne Chenu. Ela tinha 33 anos ("l"âge du Christ") olhos muito azuis e cabelo louro cortado à Jean Seberg. É a imagem que ainda tenho diante dos olhos». Aos nomes referidos do Comité Português acrescente-se que, ao longo do tempo outros elementos foram integrados na Comissão de Relações Culturais Europeias: o Padre Manuel Antunes, Nuno Bragança, João de Freitas Branco, Maria de Lourdes Belchior, José Palla e Carmo, Rui Grácio e Nuno Teotónio Pereira – além do próprio João Bénard da Costa, naturalmente.

 

UM EPISÓDIO SIGNIFICATIVO
Há dias, a 17 de abril, em Paris, na Delegação da Fundação Gulbenkian, teve lugar com assinalável concorrência e participação, a invocação das relações entre Emmanuel Mounier (1905-1950), a revista “Esprit” e Portugal. “Autour d’Emmanuel Mounier et Portugal” teve a presença de João Fatela, Jacques Le Goff, Yves Roullière e Jean Louis Schlegel – que recordaram, a propósito da publicação da obra “Entretiens” de Mounier, as relações com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, mas também com Nuno Bragança e Pedro Tamen, nos anos sessenta, no tempo da direção da revista “Esprit” por Jean-Marie Domenach. Presente na sessão, Roselyne Chenu recordou Pierre Emmanuel e José Bergamin, lembrando o episódio ocorrido em 1969 da vinda a Portugal de Domenach, a convite do Congresso. Apesar da luz verde de princípio do governo de Marcelo Caetano e da intervenção de José Guilherme de Melo e Castro (amigo de António Alçada) – a polícia política impediu que o diretor da revista “Esprit” pudesse fazer as conferências combinadas, com o argumento de que assinara textos críticos da política colonial. Ao chegar ao Aeroporto da Portela foi levado para o Hotel Mundial e repatriado no dia seguinte sem que pudesse falar com quem quer que fosse. Domenach diria depois, que estava longe de supor que no final dos anos setenta ainda pudesse encontrar os métodos da Gestapo. O escritor católico pôde então compreender a importância do apoio às iniciativas que preparavam a democracia. Recorde-se que o secretário-geral da Comité Português do Congresso era João Bénard da Costa, que funcionava no Centro Nacional de Cultura, onde também estava então o Comité de Apoio aos Presos Políticos, na clandestinidade, presidido por Sophia de Mello Breyner. Roselyne Chenu e João Fatela contaram o episódio – e a primeira juntou o pormenor delicioso do pedido da companhia aérea para que fosse pago o suplemento por ter sido usado um voo e um lugar não programados. Naturalmente, Pierre Emmanuel devolveu placidamente a conta, dizendo que a mudança se devia exclusivamente à polícia política portuguesa, pelo que o Ministério do Interior deveria responder por esse encargo adicional. Olivier Mongin recordou o papel fundamental dos intelectuais portugueses da revista “O Tempo e o Modo” e da Livraria Moraes – e referiu como a revista “Esprit” foi decisiva na criação de uma encruzilhada democrática, indispensável para a abertura democrática da Europa. Neste ponto, é de salientar ainda o facto de muitos dos assinantes de “O Tempo e o Modo” e de leitores das edições da Moraes serem militares portugueses mobilizados em África, entre os quais Ernesto Melo Antunes, que viria a ter papel decisivo no Movimento das Forças Armadas (MFA), com uma singular coerência democrática, não podendo ser esquecida a influência de uma obra crucial de Emmanuel Mounier, significativamente intitulada como “L’Éveil de l’Afrique Noire”. Tratou-se de um momento rico e emotivo em que foi realçada a influência de Mounier e a coragem de António Alçada Baptista e de João Bénard da Costa bem como a importância da cooperação entre católicos e não católicos na construção das bases da democracia.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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LONDON LETTERS

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A new centrist party, wise birds & a little if, 2018

 

Os episódios assemelham-se a aventura digna da ilustre mente de Mr Sherlock Holmes. Organizadores anónimos de um novel partido centrista no reino, chame-se-lhe o £50m Party, buscam sigilosamente há já um ano um Monsieur Emmanuel Macron britânico para encantar os ilhéus em branda aventura política; a inquirição sobre a misteriosa tentativa de assassinato de um espião duplo em Wiltshire (England) progride com prodigioso milagre e teia de hipóteses na matriz do whodunit; mesmo as

2.jpglinhas telefónicas da LBC quebram nas conversas mais interessantes que voam no éter sobre a autoria do bárbaro ataque químico na cidade de Douma (Syria). Uff! Convenha-se que só o consulting detective de Sir Arthur Conan Doyle estará à altura de descodificar o puzzle deste mundo perigoso. — Chérie! Pierre qui roule n'amasse pas mousse. A guerra de palavras entre US e a Russia atinge grau ameaçador no UN Security Council. — Umm. We never know in these days. Após uma cirurgia aos 96 anos, o Duke of Edinburgh regressa a um Buckingham Palace atarefado com o casamento de Harry of Wales com Meghan Markle. Her Maj brilha na ITV. Em Ankara, Mr Recep Tayyip Erdogan adota o uniforme militar. Na Korean Peninsula é a pop-diplomacy, com o President Kim Jong Un a assistir a concerto do South em Pyongyang. Beijing impõe tarifas aduaneiras a importações americanas na ongoing trade war e Moscow retalia The West expulsando 150 diplomatas de 28 países. Mr Viktor Orbán triunfa em Hungary com terceira maioria eleitoral. Agudiza-se o diferendo legal entre Brussels e Warsaw.

 

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Light rain withint breezy weather at Central London. Com o Parliament in recess, eis doce pausa na série dos hectic days que pautam um ondulado Winter em St James. O tempo livre estimula o apetite cultural. É o guarda chuva para passeios em volta que afinal triunfa, em persistente peregrinação a Trafalgar Square para observar as coloridas gentes e o detalhe do Assyrian God que ali escolta a estátua de Lord Nelson depois do original ser reduzido a pó pelo Isis em Nineveh. Os palcos desajudam a ementa variada, quando os tambores de guerra rufam na paisagem global. O laureado Hamilton continua inacessível, agora com sete Olivier Awards alinhados na apinhada bilheteira do Victoria Palace. Os Macbeth encenados na pós Brexit Britain não atraem nas colunas dos dear critics cá de casa. No National do South Bank há espectáculo de “horror of violence,” segundo Mrs Ann Treneman; no Royal Shakespeare Theatre, aquém do privilégio de subir a Stratford-upon-Avon, o Times informa que só ali se vislumbra uma personagem entre fantasmas: Ms Niam Cusak, sereia na pele de uma Mrs M “urging her man to get a move on with the business of murder!” Admirável e a rever, sim, é o bem humorado garden tour de Sir David Attenborough na ITV ‒ “The Queen’s Green Planet.” Aos 91 anos, wise old birds, ambos são esplêndidas criaturas desta ever green Land. Pormenor floral é existir planta named in honour de Her Majesty: a fresca e exótica floribunda rose.

 

A saga do Brexit prossegue a pleno vapor, somando-se os sinais de give in nos setores relutantes. Game over! Or simply time for temporary truces? A Prime Minister viaja aos países nórdicos, com os eventos na Syriana a obscurecerem a agenda diplomática do No. 10. Não de todo, porém. A ala eurocética adverte em surdina que Downing Street negoceia acesso às águas territoriais junto das EU fishing nations, como “bargaining chip” no acordo comercial entre as duas uniões. Em Denmark e Sweden, deixa RH Theresa May uma mensagem clara mas para Damascus &co: “the [President Bashar al-Assad's] regime and its backers, including Russia, must be held to account.” Alinha-se com Washington e Paris. No reino, líquidos à parte, recorda-se a traumática aventura iraquiana em debate aceso sobre a legitimidade ocidental para hastear a bandeira dos direitos humanos. Se os meios militares preparam a próxima guerra no Middle East à distância do “little if” quanto aos resultados da UN na inquirição em Douma, a conversa na cidade circula ainda em torno de vaga de knife & gun night crime a par de curiosa notícia na honorável Press. Procura-se um neo Tony Blair a la mode Macron nas nações do UK e para tal sigilosa “network of entrepreneurs, philanthropists and donors” disponibiliza £50millions. A iniciativa indicia algo em Westminster: que os moderados estão para além do ponto de resistência no Corbyn Labour Party, tal qual os Tories eurófilos descrêm de útil aliança com os Liberal Democrats nas 2022 Elections. So, probably, a move for the birds!

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E… boas vindas à Delt∆Poll, a mais recente empresa britânica chegada ao mercado das sondagens. A estreia no local intelligence mining ocorre no Observer deste Sunday em torno de tema quente: a extensão com que o antisemitismo é percecionado ter penetrado nas fileiras do Labour Party. Whoop-de-doo. O objeto estatístico merece o título na versão autêntica de tão nuancé este é construído: “we investigated the extent to which anti-Semitism is perceived to have permeated Labour Party ranks.” Resulta que um em cada cinco trabalhistas admite a existência do problema e um em cada três está indeciso quanto à questão judaica que este weekend leva a novo e audível protesto, desta vez às portas do quartel general do RH Jeremy Corbyn. O dado a fixar a atenção na pesquisa não são percentis, antes o seu preâmbulo. “But let’s start with the polling truism that can never be mentioned enough: no matter how high-profile an issue might be in Westminster and in the media, no matter how profound the implications of it might be, sizable chunks of the British public will dutifully carry on largely unaware of it or not care about it,” anunciam os mineiros. Anda aqui agenda em indústria que vive maré baixa. A equipa da ∆ é experiente: Joe Twyman, ex YouGov’s head of political research, Martin Boon, vindo da ICM e Paul Flatters, outrora head of Political News research na BBC e sabido mareante de várias forecasting agencies. O trio é crítico do mundo que constrói: “Here’s a chance for pollsters to grasp the holy grail of accurately predicting seats from polling data allied to sophisticated modelling, and the race is on to perfect it.” Feliz peregrinação à Delt∆, pois, que do furor anti hebreu estamos avisados. — Umm. Well detect Master Will in Sonnet 149 that humanity has its dark sides: — “Who hateth thee that I do call my friend? (...) But, love, hate on, for now I know thy mind: Those that can see thou lov'st, and I am blind."

 

 

St James, 10th April 2018

Very sincerely yours,

V.

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 19 a 25 de março de 2018

 

«Memórias» de Rómulo de Carvalho (edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010) é um precioso relato de uma vida muito rica de um grande pedagogo, homem de ciência e humanista.

 

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MESTRE DE MESTRES

 

Era Campo de Ourique e chovia. Foi o dia em que, muito justamente, fomos lembrar e homenagear Rómulo de Carvalho na casa onde morou. Com uma ponta de emoção, o Presidente da República não pôde deixar de lembrar, com palavras oportuníssimas do mestre, os tempos em que teve como professor o homenageado de agora. E ficou como marco dessa invocação uma placa, que lembrará a quem por ali passar o professor, o poeta, o homem de ciência, numa palavra, o humanista no sentido mais rico do termo. O quarteirão desse bairro cheio de memórias é, aliás, o mesmo em que viveu Bento de Jesus Caraça… E tal placa levará os passantes à recordação do exemplo de quem foi sempre um legítimo praticante da arte de ensinar e aprender. Sim, porque para o pedagogo de exceção o fundamental era compreender que há sempre uma troca quando se trata de educar. É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico (ao seu trabalho se deve a publicação das Memórias), Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes”. Para Rómulo de Carvalho, o experimentado docente: “o Professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências”. Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro – com encenação, marcação, representação e climax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de Rómulo de Carvalho. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. No testemunho de duas discípulas, Alcina do Aido (minha professora) e de Maria Gertrudes Bastos: “a preocupação que nos procurava incutir com a maior ênfase era a necessidade de, nas vésperas de uma lição em que se previa a realização de uma certa experiência, executá-la com o maior cuidado, testando todo o material até ao último pormenor, na tentativa de evitar qualquer falha que pusesse em risco a conclusão que se pretendia tirar”…

 

 

A CHAVE DA CIVILIZAÇÃO

 

Num texto intitulado Presença de Descartes afirmava: “A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem”. E isto obriga à liberdade criadora – de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta… Não esqueço, como na sua História do Átomo da coleção Ciência para Gente Nova (Atlântida) dizia: “A história do átomo é a história de uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das atividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso”. António Gedeão era uma figura à parte, que não iludia a personalidade do seu criador, mas não se confundia com ele. Daí que Rómulo de Carvalho tenha tido o cuidado de o fazer sair do mundo dos vivos antes dele próprio. De facto, há uma fronteira, que permite compreender que a ciência e arte se ligam, na compreensão dos diferentes métodos que usam. Rómulo de Carvalho era um homem do método. Em célebre artigo publicado na revista “Palestra” em 1959, intitulado “A Física como objeto de Ensino”, afirmava ser “necessário ter cuidado ao considerar a experiência como base fundamental do ensino da Física em vista do seu valor como estimulante do processo indutivo. Realmente, não é a experiência que permite a indução. Somos nós, nós os que ensinamos, com as palavras que escolhemos e proferimos no decorrer da sua execução, com as nossas hábeis insinuações, com as nossas escamoteações oportunas, com o nosso conhecimento sagaz do aluno e das suas circunstâncias. Nós somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo”. Esta a chave fundamental da Educação, compreendendo-se que estamos sempre perante o complexo desafio de ligar a aprendizagem, o conhecimento, a relação direta entre o professor e o aluno, a valorização do trabalho, da exigência e da justiça. O essencial da educação está na aprendizagem. Esse o elemento crucial, que não pode ser alvo de confusões ou de qualquer tipo de inversão de valores. Só há Educação justa se houver exigência, só a qualidade pode combater a exclusão e a desigualdade.

 

 

LEMBRAR TAMBÉM NATÁLIA NUNES

 

Há poucas semanas, fomos despedir-nos de Natália Nunes. Então pude lembrar, com sua filha Cristina, o percurso multifacetado e rico da mulher de Rómulo de Carvalho, que ele tanto admirava. Não esqueço a última vez que a acompanhei à rua Sampaio Bruno, depois de termos ido ao Liceu de Pedro Nunes homenagear o Professor no seu Laboratório de Física, pleno de recordações e lugar onde pôde exercer a sua missão didática, pedagógica e científica. Foi uma oportunidade para lembrar a personalidade excecional de Rómulo na instituição secular que tanto marcou. Personalidade discreta, Natália Nunes é uma grande escritora, que foi sempre uma cidadã aberta e corajosa, a quem devemos Autobiografia de uma mulher romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1964) e Vénus Turbulenta (1997) – além de contos, ensaios e traduções. Era uma pessoa de rara sensibilidade e de grande cultura – que se singularizou como profissional de referência no mundo das Bibliotecas e Arquivos. Tenho testemunhos de muitos dos com ela trabalharam ou a ela recorreram bem demonstrativos das suas excecionais qualidades. Posso confirmá-lo pessoalmente. Falámos longamente, e era a liberdade da cultura que cultivava e uma fantástica curiosidade pelo mundo e pela vida – como notamos na sua obra, na variedade de temas e situações e no contacto conhecedor com a melhor literatura de Tolstoi, Dostoievski e Balzac, além de Raul Brandão. Nas palavras que troquei no dia da homenagem a seu pai com Cristina Carvalho pude ligar as duas personalidades cativantes que tive o gosto de conhecer e admirar – completavam-se naturalmente e o amor à cultura, à ciência e aos livros era apaixonante.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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INICIAMOS O ANO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL -2018!

 

O património cultural não se refere apenas ao passado, mas à permanência de valores comuns, à salvaguarda das diferenças e ao respeito do que é próprio, do que se refere aos outros e do que é herança comum. Como compreenderemos a Europa sem o diálogo entre a tradição e o progresso, sem o entendimento das raízes e sem a complementaridade entre judeus, cristãos e muçulmanos? Urge entender, afinal, que o que tem mais valor é o que não tem preço. A compreensão do património cultural que nos permite assumir uma cidadania civilizada. Desde a Torre dos Clérigos ou da charola do Convento de Cristo à custódia de Belém, passando pela pintura de Nuno Gonçalves, pela poesia trovadoresca, pela lírica e épica de Camões ou pelo Romanceiro de Garrett, estamos perante símbolos do caminho de um povo, que se afirmou e engrandeceu em contacto e no respeito dos outros.

 

O Comissário Europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no Fórum Europeu da Cultura de Milão, não estarmos a falar «de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos». De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultiva-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. É tempo de não deixar o património ao abandono, de estudá-lo e compreendê-lo designadamente através de uma forte aposta na educação de qualidade para todos. Como poderemos compreender um monumento ou uma obra de arte se não soubermos de onde vem e qual o seu significado?

 

O conceito moderno de património cultural, definido na Convenção de Faro, valoriza a memória e considera-a fator de cidadania, de dignidade e de democracia. Quanto à atenção e ao cuidado, pensamos que vai haver muito mais pessoas despertas para o culto e a proteção do património.

 

Se é verdade que, segundo o Euro-barómetro, 8 em cada 10 europeus consideram o património cultural importante, não só para cada um, mas também para a comunidade, para o país e para a União no seu conjunto, importa compreender que estamos a falar de um fator crucial para podermos superar egoísmos, fechamentos e conflitos insanáveis. Mais de 7 em cada 10 europeus concordam com a necessidade da ligação entre património e qualidade de vida, em nome de um desenvolvimento humano. E 9 em cada 10 consideram que o despertar nas escolas para a defesa do património é fundamental. As políticas culturais têm de se centrar cada vez mais na atenção efetiva atribuída ao património cultural.

 

Não podemos esquecer o valor económico do património cultural como fonte de desenvolvimento – 7,8 milhões de postos de trabalho na União Europeia estão ligados indiretamente ao tema, como o turismo e tantos serviços conexos como a mobilidade, a segurança e o conhecimento. 300 mil pessoas estão diretamente ligadas ao património na União Europeia. Afinal no velho continente está cerca de metade dos sítios classificados (mais de 450) no âmbito do Património Mundial da UNESCO. Compreende-se que a decisão de declarar 2018 como o Ano do Património corresponda à afirmação de um desígnio ambicioso: baseado na necessidade de consagrar a mobilização de vontades em torno de uma herança comum, de um ideal europeu de respeito mútuo, de qualidade e de humanismo, certos de que não podemos deixar ao abandono o que nos legaram as gerações que nos antecederam, nem acomodar-nos à irrelevância e à mediocridade. Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança? Procura-se sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura – com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista.

 

CNC

DO MELHOR DO ANO 2017 NA CULTURA

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Livro português:

Jalan Jalan, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

 

Livro traduzido:
145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop)

 

Ficção Internacional:

Lincoln in the Bardo, George Saunders (Random House)

Há tradução portuguesa: Lincoln no Bardo (Relógio d’Água)

 

Cinema:

Silêncio, Martin Scorsese

 

Cinema - Portugal:

Peregrinação, João Botelho

 

Televisão:

Handmaid’s Tale, Bruce Miller

 

Portugal - Televisão cultural:

Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro

 

Música:

From Baroque to Fado, Os Músicos do Tejo, dir. Marcos Magalhães

 

Divulgação musical portuguesa:

RTP, Antena 2.

 

Exposição:

José de Almada Negreiros - Uma Maneira de Ser Moderno, Gulbenkian.

 

As escolhas são algo aleatórias.

Não há um júri, mas a qualidade é o critério fundamental.

Boas iniciativas culturais!

 

CNC

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 10 a 16 de abril de 2017.

 

«Occasionalia – Homens e Ideias de Ontem e de Hoje» da autoria do Padre Manuel Antunes, S.J. (Multinova, 1980) é uma reunião de textos sobre figuras e ideias marcantes do século XX, onde a personalidade muito rica do académico e grande mestre da cultura se manifesta em toda a sua plenitude.


 

A FORÇA DA CULTURA
A cultura para o nosso autor é, entre muitas outras coisas, tradição, diálogo, especialização e interdisciplinaridade. Sem tradição, há o risco de se cair no infantilismo e no primarismo; sem diálogo, pode cair-se «na sofística mais labiríntica e/ou obsessiva, no hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação»; sem especialização pode ficar-se em generalidades inócuas ou em afirmações sem fundamento; e sem interdisciplinaridade falta a perspetiva de conjunto e as árvores impedem a visão da floresta… A sociedade contemporânea tem de compreender que a capacidade criadora depende do conhecimento, da visão de conjunto e do entendimento da complexidade. O Padre Manuel Antunes foi um dos professores da Faculdade de Letras de Lisboa mais respeitado, pelo conhecimento, pela sabedoria, pela abertura de espírito e sobretudo pela extraordinária capacidade de tornar próxima a cultura clássica. Nas Memórias, há pouco dadas à estampa, de José Medeiros Ferreira está bem expressa a grande admiração que o intelectual devotava ao grande mestre. No Centro Nacional de Cultura recordamos também a sua influência e o seu magistério, determinantes na compreensão das mudanças necessárias na sociedade portuguesa no sentido da democracia, do pluralismo, em nome da dignidade da pessoa humana. A sua ligação a Sophia de Mello Breyner, aos poetas e escritores que se situavam na esfera de influência de «O Tempo e o Modo» foi muito significativa. O cidadão e o professor de Cultura Clássica complementavam-se, assim, naturalmente – em nome de um humanismo centrado na ideia de aperfeiçoamento constante da pessoa humana e da centralidade da consciência histórica. Como Werner Jaeger, que tanto admirava, pode dizer-se que Manuel Antunes também habitou três pátrias – considerando, além da própria, a Antiguidade e o Cristianismo. E o elo que as une é a filologia, a história e a filosofia. Para o português, talvez mais a literatura. E é assim que lembra a afirmação do mestre alemão: «Todo o humanismo antigo é orientado para a imitação de um modelo. O cristianismo tinha aceitado desde o começo este pensamento, mas referia-o a Cristo. (…) O processo de formação do homem tornou-se o processo de formação de Cristo nos cristãos»… Por ocasião da morte de Gabriel Marcel, em 1973, o pensador afirmava que o filósofo foi dos que melhor soube compreender o perigo da substituição progressiva e total do sagrado pelo profano, bem como das técnicas manipuladoras ou de lavagem aos cérebros de milhões e milhões de seres humanos. E o autor salienta como doía a Marcel a vontade reducionista que via «nos princípios, nos métodos e nas estruturas das ideologias do seu tempo». Hoje, sentimos os efeitos dessa tendência. Eis o que está em causa: o vazio ético e espiritual gera a tentação do fanatismo – em lugar de favorecer o respeito mútuo, o pluralismo e a salvaguarda da liberdade de consciência. Notícias inquietantes enchem os periódicos.

 

ENTRE A ARBITRARIEDADE E A INTOLERÂNCIA
A indiferença gera a arbitrariedade, a simplificação abre caminho à intolerância. E lembra o jesuíta a emergência não do espírito de verdade, mas do mero espírito de verificação - «espírito não do primado dos fins mas da soberania absoluta dos meios; espírito não de contemplação mas de ação e manipulação das pessoas e das coisas; espírito principalmente hábil, organizativo e tecnocrático que a racionalização conduz e a eficiência inspira». Não que a experiência e o sentido crítico devam ser desvalorizados, mas urge que não se caia na tentação do abstrato. «A abstração, isolando e desvinculando seres e realidades, ergue, vai erguendo, sistemas fechados, que surgindo com a pretensão de encerrarem a totalidade, a mutilam e a deformam»… E qual o resultado? A demonstração de que a indiferença e o fundamentalismo são faces de uma mesma moeda… «O fanatismo, a despersonalização e a massificação, eis os resultados». Gabriel Marcel falava, por isso, dos homens contra o humano. E assim «os extremos do racionalismo e do irracionalismo tocam-se na mesma abolição das diferenças, na mesma promoção do uniforme e do homogéneo, na mesma negação do humano». A desordem que oprime e a ordem que reprime são expressões da mesma violência. E o que presenciamos hoje nesta tremenda escalada do ressentimento e da irracionalidade representa, no fundo, que «violência da paixão e violência da razão são as duas faces da mesma realidade histórica do ideologismo». E nessa palavra se resume a intolerância dos que julgam possuir o exclusivo da verdade e da razão. O Padre Manuel Antunes recorda, a propósito, o seu encontro com Gabriel Marcel: «estou a vê-lo na sua infinita curiosidade por tudo quanto é humano, nobremente humano, de preferência, e se revela através de uma superior forma de cultura: poema, quadro, drama, romance, música, pensamento filosófico e reflexão teológica, principalmente». Como «homo viator» buscava a unidade e a coerência, na «disponibilidade de serviço em prol do humano, na sua busca permanente de mais justiça, de mais verdade e de maior amor entre os homens».

 

DIVERSOS REGISTOS E SENTIDO CRÍTICO
Os textos que compõem «Occasionalia» homenageiam figuras como, e damos apenas alguns exemplos: Blondel, Guardini, Maritain, Eliot, Graham Greene, Waugh, mas também Tomás More, Pascal e Claudel, Raul Brandão, António Sérgio, José Régio e Vitorino Nemésio; analisam Kafka, Malraux, Gorki, Steinbeck, Gide, Chateaubriand, Toynbee ou Bloch, Heidegger e Marcuse; interrogam Croce, Hegel, Marx, Lenine e Mao. Estamos, afinal, perante a extraordinariamente fecunda produção publicada nas páginas da «Brotéria», onde o autor se desmultiplicou em pseudónimos, reveladores da sua grande versatilidade e de uma singular capacidade para compreender o mundo moderno. E podemos, a propósito do que o autor diz de Pascal, apontar uma síntese, aplicável ao nosso cicerone: «ele continua vivo (…).Partindo da meditação sobre a condição humana, a sua reflexão projetou-se além, muito além de esquemas e de formalismos, de sistemas e de conteúdos que costumam limitar o pensamento de tantos filósofos e cientistas dos tempos modernos. A nós, nesta hora incerta e conturbada, neste momento crucial da história humana – e nossa, principalmente – compete recolher a lição».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA


O ESQUECIMENTO NÃO TEM LUGAR

Na paleta das cores o anoitecer não acontece. Existe uma espessura para quem entende a luz que impede que se possa perder a vista das razões; e dentro desta, é fabuloso o grande cérebro que nunca entenderá os cérebros das diminutas melgas que se tormentam para deixar rasto.

 

Julgo existir um alívio absurdo em quem deita fora o tempo da própria vida numa total indecifração do mundo e de si. Para eles a cor imensa da paleta das cores, nunca foi uma coragem para pensar sem restrição. É um sonso regímen aquele que se auto impõem ou um xadrez inepto? Não sei, ou talvez o entenda como um grande silêncio inculto onde e aonde tudo começa e acaba.

E disse ao soldado

Não o esperava a meditar nas fotografias não tiradas

Pois eu também não, mas os negativos de tudo o que os meus olhos viram, estão aqui algures dentro de mim. Penso muito nisto e quando penso, não sei explicar. Mas está cá.

Pois é, nunca sabemos tudo e muito menos explicar tudo ou olhar as coisas como se fossem uma paisagem à nossa frente, ali, clara, óbvia e dizê-la. Por exemplo, o âmbar engole insetos e mostra-os depois, muitíssimos tempos depois e sempre com o mesmo aspeto. É um lado estético, inquietante, e intriga-nos, soldado pensador. Aqui o rio Nilo nunca se desvia. E agora sou eu que não sei dizer as coisas de outro modo. Mas disseram-me que gosta de pintar, é certo?

Sim, agora ando a pintar a Europa.

A Europa? E como o faz?

Olhe, perguntando-me como chegou ela a este estado? É tão incompreensível. E para mim soldado nascido na aldeia escondida atrás da serra que às escondidas brincava comigo, ainda menos entendo hoje como se fala da cultura ou dessas coisas complicadas, sendo fácil de entender que tudo está cortado ao meio como se nada estivesse a acontecer. Olhe, a este facto dei duas cores: o amarelo e o amarelo-vivo.

Curioso. Tonalidade e uma cor.

Deixe- que lhe diga, soldado, continue a pintar o coração dos tornados e encontrará muitos países sorvedouros dos engenhos das ideias, e, talvez por aí, a paleta das cores mais exatas à Europa de hoje e que procura dizer nos seus quadros. Mas olhe, eu conheço pessoas da Europa do ontem e do hoje que até intuem o tanger das águas no meio das barulhentas multidões; eu sempre as soube nem presas da caça nem das guerras, mas lutadoras como soldados que provam harmonias, e recordam com coragem o que nos foi subtraído, e de um tal lidar com o mundo, delas a paleta das cores será sempre a audácia que só pertence a quem, o esquecimento nunca ocupará lugar.

Assim Mário Soares. Assim a História que tem sempre um lado de restituição: um átomo que conhece a hora certa do esbanjar de vida numa alegria, quando todos estão exaustos.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2017

PARA UMA NOÇÃO DE CULTURA

 

1. Aquilo a que chamamos cultura é inviável positivá-lo, em termos deterministas, atenta a sua elasticidade e plasticidade. Se inexequível a obtenção categórica de uma noção de cultura, isso não invalida que, por razões funcionais de natureza pragmática, se proceda a uma tentativa de delimitação do seu conteúdo.

Carateriza-se por tudo o que é humano e pode ser transmitido, por tudo aquilo que o ser humano faz, por tudo o que está relacionado com a criação humana, como um sinal de criatividade e humanismo, integrando todas as coisas ou operações que a natureza não produz e que lhe são adicionadas pelo espírito.

Em sentido restrito, numa definição mínima, traduz a herança canonizada e solenizada pelas instâncias clássicas de legitimação, o património artístico, erudito e intelectual de feição humanista, legado pelas artes, saberes e certas tradições, condicente com o universo das belas artes e das belas letras, uma cultura de eleição, superior, mais abonada de assunto e de forma, cujas manifestações, quanto mais criativas e vanguardistas à época, mais se aproximam do mundo ideal e se afastam do que é tido como regra da ordem real.

Numa interpretação intermédia, além de conter a criação e a fruição mais culta, convive com a ciência, a tecnologia, o ensino, a formação, a religião, onde a esfera estadual e do pensamento convivem de modo especial.  

Numa aceção mais ampla, engloba uma realidade complexa, agregando elementos de natureza antropológica, filosófica, histórica, sociológica, incluindo raízes, memória, herança e história, com a aceitação de uma noção aberta e policêntrica, atuando na vida corrente a vários níveis, desde a cultura erudita à popular, aglutinando criatividade, inovação, tradição, pluralismo. Esta culturalização global e indiferenciada coloca no mesmo regime a arte, a ciência, a religião, a tecnologia, o desporto, o luxo, a literatura, a poesia, a gastronomia, os monumentos, o património natural. Não surpreende que a região vinhateira do Alto Douro, a paisagem da vinha da Ilha do Pico, a floresta laurissilva da Madeira e a dieta mediterrânica integrem a lista do património mundial da Unesco, ao lado do centro histórico de Guimarães, de Évora, do Porto, de Angra do Heroísmo, do Convento de Cristo em Tomar, do Mosteiro da Batalha, de Alcobaça, dos Jerónimos e da Torre de Belém. Nem que a lista do património cultural e imaterial da humanidade integre o fado e o cante alentejano, a que acresce, desde dezembro de 2016, a arte da falcoaria em Portugal. Ou que em termos de património cultural e imaterial da humanidade se apele para a necessidade de salvaguarda urgente da manufatura de chocalhos em Portugal ou da olaria preta de Bisalhães. Sem esquecer o património cultural subaquático, entre outros.

2. Recriando-se continuamente, é incerto prever em concreto o futuro da cultura, levando a que se defenda uma mudança de paradigma: 

“A nova imagem da cultura não é apenas a cultura erudita de recorte humanista (as artes e as letras), nem a cultura de tipo antropológico (tudo o que não é natureza é cultura), nem a cultura de massas no sentido tradicional do termo. É algo que a atravessa, acolhe, mas designa já outra coisa. A cultura é hoje uma dimensão dominante em que está em jogo o que o sujeito faz de si mesmo, sem que se definam intermediários conscientes e explícitos que tutelem o sujeito”. (Eduardo Prado Coelho, “O Futuro da Cultura (1)”, “O Fio do Horizonte”, “Público”, 14.09.05).

A par de uma subjetivização da cultura, com tendência para a sua privatização, em que as novas tecnologias nos permitem ver e ouvir em casa cinema, música, ópera, há o seu reverso, em que o indivíduo mergulha numa realidade envolvente, criando-se um sentimento eufórico do grupo, de que a música entre os jovens e o desporto entre adultos são seu exemplo. A que acresce a globalização da cultura, com uma estetização do quotidiano, desde motivos no calçado, vestuário, latas de conserva, invólucros de sabonetes, revestimentos de prendas, design e capas de livros, música fracionada e de ambiente que se ouve enquanto se corre, espera, estuda ou opera. Onde também emerge o culto e a materialidade do corpo, tomando-o como objeto de arte (esculturas humanas  firmes, pintadas de dourado, prateado, num cromatismo chamativo), ou no suporte de várias tendências da arte contemporânea (moda, piercings, tatuagens).

“Verificamos (…) uma alteração das experiências do tempo e do espaço: existe uma compressão do tempo (Giddens) e uma diversificação dos espaços (…). Derivado do espaço temos o culto da velocidade ou os chamados “efeitos especiais”.

(…) implica uma redistribuição das instâncias culturais: de um lado, a cultura erudita, cada vez mais impregnada da cultura de massas; do outro, a cultura de massas, cada vez mais em ser reconhecida pela cultura erudita. Certas práticas artísticas marginais ganham particular relevo: a fotografia, a arquitetura, o vídeo, a banda desenhada, os jogos no computador, etc. No fundo (…) temos a consciência ecológica e a relação cada vez mais intensa entre cultura literária e cultura científica.

É neste contexto que a cultura terá de desenhar o seu futuro”
(Ibidem, “O Futuro da Cultura (2)”, “Público”, 15.09.05). 

Também a cultura humanista, que coloca o ser humano no centro de tudo, está em transformação, para alguns em decadência, dada a emergência de um novo agente transformador: a máquina, com consequências no ver, falar, ouvir, ler e escrever.  

 

Nesta sequência, a cultura é um universo permanentemente questionado, o mesmo sucedendo com o seu refazer permanente.

 

03.01.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício