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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 24 a 30 de maio de 2021

 

A “Conferência Europeia das Humanidades 2021” constituiu oportunidade para debater a necessidade de dar ao conhecimento lugar central na sociedade contemporânea.

 

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COMPREENDER O FUTURO

A realização, na Fundação Gulbenkian, da Conferência Europeia das Humanidades, organizada pela UNESCO, FCT e Conselho Internacional para a Filosofia e as Ciências Humanas (CIPSH), no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da UE, permitiu um debate aprofundado sobre um tema complexo que não pode ser abordado de forma simplificada, como se tratasse de um mero dilema entre duas culturas – literária e científica. A verdade é que, como salientou durante os trabalhos António Damásio, a compreensão da complexidade obriga-nos a não cair no velho erro de Descartes e a garantir a complementaridade efetiva entre razão e sentimento. O programa, ao propor como tema geral “Humanidades Europeias e Além”, deu especial ênfase à ligação entre reflexão e espírito científico, já que, como o Presidente da República notou, na abertura da Conferência “nenhuma sociedade tem futuro sem conhecimento e sem colocar esse conhecimento como fundamento das suas decisões sociais e económicas”, sobretudo quando nos encontramos numa circunstância de tempos críticos muito desafiantes, já que os dilemas que se nos têm colocado, designadamente com a pandemia, têm obrigado a uma articulação efetiva entre pensamento e ação, coesão social e estratégias científicas. Com efeito, os problemas complexos e multidisciplinares em causa exigem abordagens que devem combinar várias perspetivas e disciplinas, de modo a compreendermos que a medicina e a ciência política, a saúde pública e a economia têm de andar permanentemente a par, de modo que a evolução da sociedade se faça num equilíbrio permanente entre as diferentes áreas de Investigação e Desenvolvimento. Nesse sentido, a diretora-geral adjunta da UNESCO, Gabriela Ramos recordou o livro de 1722, "Diário do Ano da Peste", de Daniel Deföe, onde se retrata a sociedade de Londres durante a Grande Peste de 1665 e mostra como os fenómenos são cíclicos e as atitudes se repetem: "Para entender uma pandemia temos de compreender as relações entre diferentes realidades, desde o clima, à geografia e à história. Temos de aprender com o passado para preparar o futuro e as humanidades são os guardiães desse conhecimento". De facto, como salientou ainda, “não vale a pena ter avanços e soluções científicas se a sociedade os não compreende”. As pessoas aceitam as decisões desde que tomadas por autoridades em quem confiem e desde que disponham de informação fiável, designadamente no domínio digital. Contudo, essa relação de confiança só é possível estabelecer se houver uma presença segura das Humanidades, como fatores de diálogo e de qualidade.

 

FONTE DE CRIATIVIDADE E DE INOVAÇÃO

De facto, as Humanidades são uma fonte de criatividade e inovação. E, como afirmou o crítico de arte e escritor inglês, John Ruskin (1819-1900): "As grandes nações escrevem a sua autobiografia em três manuscritos: o livro dos seus feitos e acontecimentos, o livro das palavras e o livro das artes". Contudo, "nenhum destes livros pode ser entendido se não tivermos em consideração os outros dois". Factos, palavras e artes constituem a base estrutural para entendermos a evolução histórica – daí que a pedagogia e a escola tenham de assentar a aprendizagem na permanente ligação entre os diferentes domínios do pensamento. Assim, falar de Humanidades não pode reduzir-se à literatura ou à reflexão, como realidades separadas, devendo, sim, participar como estímulo permanente à Ciência como Cultura. Daí a necessidade de não subalternizar a Filosofia. Não é demais lembrar que as sete Artes Liberais, o trivium (lógica, gramática e retórica) e o quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia), associavam naturalmente as Humanidades aos diversos ramos do saber. Lembremo-nos dos exemplos de Leonardo da Vinci e de Leibniz, ou de portugueses como Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro. Fácil é de notar como, para eles, as Humanidades ligavam todas as áreas do conhecimento, não de modo autossuficiente, mas como fatores de coordenação e exigência. A crise financeira de 2008 ou a crise pandémica de 2020-21 demonstraram como a lógica positivista da cultura científica falhou rotundamente, incapaz de distinguir realidade e ilusão, verdade e aparência. O racional e o razoável têm de se articular. E hoje a questão das alterações climáticas e o estado de emergência em que nos encontramos no domínio ambiental – deixaram de ser (com a pandemia) temas longínquos, já que as questões de sobrevivência da humanidade passaram a ser bem atuais e próximas de nós. Não há desenvolvimento sem aprendizagem de qualidade e sem a prioridade dada à educação, à ciência e à cultura. Por isso, o património cultural é cada vez mais fonte de criatividade e inovação, uma vez que nos permite entender o tempo nas sua diferentes dimensões, já que o passado projeta o futuro e as raízes são chaves para a compreensão sobre de onde vimos, quem somos e o que nos distingue dos outros… Numa sociedade de informação, devemos estar aptos a transformar informação em conhecimento e o conhecimento em sabedoria. T. S. Eliot disse “Where is the wisdom we have lost in knowledge? Where is the knowledge we have lost in information?” – Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”.

 

A IMPORTÂNCIA DA COMPLEXIDADE

A reflexão sobre a complexidade de Edgar Morin (que se aproxima de completar cem anos) leva-nos a entender a célebre afirmação de Pascal: «considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, mas tenho por não menos impossível a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes». Há, assim, um vai-e-vem em que se funda a diligência de conhecer. E é esta preocupação que nos permite articular o uno e o múltiplo, o próximo e o distante, a teoria e a experiência… De facto, a complexidade está no coração da relação entre o simples e o complexo porque uma tal relação é a um tempo antagónico e complementar. A ciência funda-se não só no consenso como no conflito. Ao mesmo tempo, evolui a partir de quatro colunas fundamentais: a racionalidade, o empirismo, a imaginação e a verificação. Sabemos que há um diferendo permanente entre o racionalismo e o empirismo. As novas descobertas empíricas e o experimentalismo foram pondo em causa, de diversas maneiras, as construções racionais – que permanentemente se reconstituem e reconstroem constantemente a partir de novos elementos e fatores. Ao salientarmos a importância das Humanidades, entendemos que a complexidade não é uma receita, mas um apelo à civilização das ideias. De facto, «a gigantesca crise planetária é a crise da humanidade que não consegue aceder à humanidade». Duas barbáries coexistem e agem sem contemplações: a que vem da noite dos tempos e usa a violência; e a barbárie moderna e fria da hegemonia do quantitativo, da técnica e do lucro. E ambas levam-nos ao abismo. Importa, pois, entender o que Hölderlin nos ensinou: «onde cresce o perigo, cresce também o que salva».

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

72. A CULTURA E O QUESTIONAMENTO PERMANENTE DA REALIDADE


É um lugar comum questionar como foi possível o nazismo florir num país como a Alemanha, pátria de filósofos, compositores, escritores, cientistas, intelectuais, artistas e pensadores de vanguarda, num território tido como culto e exemplo, à data, de uma nação civilizada.
Sabemos bem, a começar pela História, que nem a educação, o saber ou o conhecimento intelectual nos oferecem qualquer garantia de um juízo moral ou de uma ética melhor.
A desumana tirania das ideias sempre teve o apoio de intelectuais e de pessoas da cultura.    
Ditadores e regimes totalitários sempre tiveram muitos admiradores e simpatizantes intelectuais e das artes em geral.
Alguns desses mentores legitimaram e institucionalizaram a violência terrorista.
Legitimaram e fomentaram a prática de crimes contra a humanidade.
O mundo pode ser modificado pela força do intelecto, para o bem e para o mal.
Mas é a cultura que nos permite distinguir entre a barbárie e a civilização.  
Foi a cultura que nos permitiu compreender a distinguir a barbárie dos totalitarismos.
Só uma cultura enquanto questionamento constante e permanente da realidade nos liberta.
Só uma cultura essencialmente crítica permite distinguir tiranos, ideias, doutrinas e regimes totalitários da democracia baseada no espírito crítico.  
É esse espírito e sentido crítico   que nos pode libertar da ameaça de uma ditadura tecnológica, num mundo de cidadãos convertidos em autómatos, ou numa mera cultura de entretenimento e diversão.     
Se é verdade que graças à força das ideias se pode criar um mundo melhor, pondo de lado despotismos e tiranias em desfavor da pessoa e dos direitos humanos, também é verdade que o desaparecimento da cultura enquanto questionamento permanente da realidade é o melhor amigo de utopias fraudulentas sempre prontas a suprimir a verdade pela causa da pretensa verdade maior que defendem.  

30.04.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

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   De 8 a 14 de fevereiro de 2021

 

“O Albatroz e o Chinês” (Ouro sobre Azul, Rio de Janeiro, 2004) de António Candido é um conjunto de ensaios dividido em três partes, as duas primeiras com maior extensão e a última constituida por pequenos textos, todos necessários à compreensão do pensamento do autor, um dos grandes pensadores da língua portuguesa.

 

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LIGAR LITERATURA E SOCIEDADE

António Candido de Mello e Souza (1918-2017) foi Prémio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1993, e Prémio Camões de 1998. A sua obra mais marcante é “Formação da Literatura Brasileira” (1959), que influenciou várias gerações de professores e intelectuais. Permitiu entender melhor a encruzilhada de influências da cultura brasileira e foi uma ponte entre duas influentes gerações – aproximando Oswald de Andrade, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Colega de Florestan Fernandes na Universidade de S. Paulo, desde 1942, tornou-se notado na “Folha da Manhã” pelo exercício brilhante da crítica literária, evidenciando, por exemplo, o valor de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Usando o método dialético e comparatístico, a partir da sua formação sociológica, pôde dar uma nova luz para a compreensão do caráter poliédrico da poderosa criação literária e cultural do Brasil. A sua tese de sobre “O Método Crítico de Sílvio Romero” constitui um prometedor anúncio do percurso que fez, através de uma leitura da criação literária integrada no contexto da sociedade e da cultura. “O Albatroz” é um dos poemas mais conhecidos de Baudelaire, alegoria do destino do poeta no meio da turba que não o compreende. Representa a poesia que procura registar a experiência  do espaço aberto como estímulo para representar a natureza. O segundo termo do título está no pugente drama do criador sentido por Mallarmé (“Las d’amer repos”) e no “Cancioneiro chinês”, traduzido por António Feijó, no qual o poeta chinês Tché-Tsi está perante a “Folha branca” paralisado pela falta de imaginação – concentrado no espaço fechado, favorável à mente inventiva, que procura recriar a natureza. Para Celso Lafer: «“O Albatroz e o Chinês” é um grande livro de Antonio Candido, pelo qual, aliás, ele tinha especial predileção. Recebeu, no entanto, menos atenção da crítica do que outros que se inserem na mesma linhagem. (…) Os textos da segunda parte, em especial “Dos livros às pessoas” e “Portugueses no Brasil”, discutem e analisam a presença que tiveram em nosso país, e para a própria memória da formação de Antonio Candido, figuras intelectuais e personalidades culturais de Portugal. Também incluem reflexões sobre obras da literatura portuguesa que sempre o interessaram e sua recepção no Brasil, como é o caso de Eça de Queirós (“Eça de Queirós – passado e presente” e “Ironia e latência”), e, de maneira menos conhecida, Camilo Castelo Branco (“Duas máscaras”). São ensaios que, em sua especificidade, inserem-se no âmbito mais geral de sua constante dedicação ao romance como gênero literário».

 

PORTUGUESES NO BRASIL

Como tive oportunidade de verificar pessoalmente, no amabilíssimo encontro com o ensaísta, foram importantes as relações que estabeleceu com os portugueses que, por razões diversas, rumaram até ao Brasil – Jorge de Sena, João Sarmento Pimentel, Novais Teixeira, Agostinho da Silva, mas também Jaime Cortesão, Fidelino de Figueiredo, Adolfo Casais Monteiro, Fernando Lemos, António Pedro, Eduardo Lourenço e António José Saraiva. E é muito rica a invocação feita por Antonio Candido dessas diferentes personalidades que, cada uma à sua maneira, foram marcantes nas ligações e na compreensão das culturas da língua portuguesa. Ainda na mesma recensão, Celso Lafer recorda que a primeira aproximação dele ao Mestre foi feita através de Gil Vicente e de Camões, mas foi aprofundada mercê das leituras de Alexandre Herculano e também dos escritores da geração de 1870 – Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão e seus seguidores, bem como de António Sérgio. Na invocação do encontro memorável que tivemos em S. Paulo Celso refere que Candido pensava de Oliveira Martins, que “prendia o leitor, não apenas pelo conteúdo das ideias, mas pela eficiência da escrita”, e lembra a devoção juvenil que devotava a Antero de Quental, sobre cujos “Sonetos Completos” planeara um estudo aprofundado. Na versatilidade e agudeza das análises avulta a leitura de “A Ilustre Casa de Ramires”. Como refere Celso Lafer: «Gonçalo Mendes Ramires, o protagonista do romance (…) é, na obra de Eça, o personagem mais complexo que engendrou. “Ironia e latência” insere-se (…) no âmbito da reflexão de Candido sobre o personagem de ficção, o homo fictus, que foi o tema do curso de Teoria Literária de 1961, no qual fui seu aluno. Esse ensaio destaca “a graça e a força de uma prosa da mais sedutora plasticidade, que sabe penetrar no modo de ser das personagens, sobretudo do protagonista” e do espaço aberto da natureza (p. 160)».

 

GONÇALO E A SAGA DOS RAMIRES

A. Candido concorda com Beatriz Berrini quando esta diz que é impossível querer mal a Gonçalo, apesar da sua fraqueza de caráter. O romance é admiravelmente composto e “a lei do desenho, isto é, do enredo é o que se pode denominar ironia estrutural, geradora de contrastes, sugerida no fim pelo próprio romancista. Ironia que em princípio poderia ter suscitado um texto trágico: a fim de ser deputado e sair do seu ‘buraco rural’, Gonçalo Mendes Ramires deserta do seu partido e entrega tacitamente a irmã casada a um antigo suspirante, quase noivo, que a rejeitara e ele passara a odiar e combater; mas uma vez eleito, percebe que tal baixeza era desnecessária, pois de qualquer modo os eleitores teriam votado triunfalmente nele”. O duplo registo entre a história da Torre de D. Ramires e a situação de Gonçalo revela que, “como a nação, degenera a nobre raça”… Os Ramires de outrora venciam com grandes lanças, o de agora vai para África plantar seringueiras, cacaueiros, coqueiros, em nome do revigoramento da consciência nacional… E assim encontramos um enredo latente, que ilude a tragédia, permitindo “escamotear os aspetos eventualmente dramáticos, relegando-os para o subsolo do relato”. Há um olhar pacificado sobre o campo português, que sentimos em Gonçalo, a ponto de vir a estabelecer a supremacia da serra sobre cidade. “E quem sabe esse gosto pela dimensão rural contribuiu subtilmente para amainar os fermentos de drama em “A Ilustre Casa”, que continua mais vivo do que nunca.”. E Antonio Candido chama a atenção para os arrabaldes do trabalho crítico e para as razões que determinam de que maneira somos levados a encontrar, conhecer e amar as obras que se tornam prediletas, “sobretudo quando nos fazem companhia pela vida toda numa sucessão de leituras”. E interroga as contradições e os paradoxos, como acontece com Jünger com as cobras do Butantã, ao mesmo tempo propícias e fatídicas, sendo o único animal que vive no espaço destinado ao saber, à ciência do bem e do mal, segundo a tradição. Enquanto sobre Darcy Ribeiro recorda as três bandeiras que cobriam o seu caixão: a do Brasil, a do seu Estado de Minas Gerais e a dos Sem-Terra, referindo que “elas não encarnavam o país dos donos da vida, nem eram pendões de festa cívica, objetos cansadíssimos de discursos em cerimónias rotineiras”. E assim se incorporavam “os pais dos pobres, dos que precisam ser finalmente incorporados à nação”…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

EVOCAÇÃO DO MAESTRO MANUEL IVO CRUZ


Refiro aqui textos de relevância cultural indiscutível, escritos e publicados muito recentemente por Guilherme d’Oliveira Martins: o longo artigo intitulado precisamente “Manuel Ivo Cruz“, evocação do maestro Manuel Ivo Cruz, meu irmão, texto que abre a edição da revista “As Artes Entre as Letras” (nº 280 – 16 de dezembro de 2020) a ele dedicado, e “Um Diálogo de Relógios”, conto de Guilherme d’Oliveira Martins, este na publicação que assinala o Natal de 2020 do Centro Nacional de Cultura, entidade que tem uma parceria com a revista dirigida por Nassalete Miranda.


No ponto de vista pessoal, e independentemente da amizade que me liga a Guilherme d’Oliveira Martins, da admiração pela sua vasta obra e pela colaboração que mantenho no Centro Nacional de Cultura, importa aqui e agora assinalar a interessantíssima análise histórica, artística e também familiar que liga Manuel Ivo Cruz à grande tradição da música portuguesa, na continuidade da vida e obra do nosso pai, Ivo Cruz (1901-1985), maestro, compositor, diretor-fundador da Orquestra Filarmónica de Lisboa e Diretor do Conservatório Nacional de 1932 até à sua aposentação em 1968.


E registo com óbvio interesse, neste número evocativo da revista, o meu irmão Manuel, como individualidade, como maestro e homem de cultura, “referência na musicologia portuguesa contemporânea, tendo sido uma muito relevante presença como maestro e como estudioso e divulgador da história da música em Portugal” escreveu Guilherme d’Oliveira Martins: e mais acrescenta um longo e detalhado currículo de Manuel Ivo Cruz, destacando não só a atividade como maestro mas também como escritor de temas da história e da criação musical e a sua internacionalização designadamente na formação na Academia de Mozart na Universidade de Salzburgo e em numerosíssimos concertos, que dirigiu designadamente em Portugal, Espanha, Alemanha, França, Grécia, Brasil, EUA Rússia e Venezuela.


Em Portugal desempenhou também funções relevantes em entidades de formação e cultura musical, muitas delas evocadas no número especial da revista, com estudos e artigos de Guilherme d’Oliveira Martins, mas também do próprio homenageado (“Reflexões em Dó Maior”) e de Leonor Cruz (“Saudades”) e de Victor Dias, João Pereira Bastos, Carlos Guilherme, Elvira Racher, João Correia Alves, José Miguel Júdice, Sofia Lourenço, Teresa Cardoso de Meneses.


E ainda artigos e textos diversos em áreas diversas da revista, estes da autoria de Paulo Ferreira da Cunha, António José Borges, Vasco Rosa, Rui Baptista, André Ventura, Lurdes Neves, Maria Virgínia Monteiro, A. Campos Matos, Levi Guerra e ainda outras rubricas e temas culturais diversos.


Tudo isto, repita-se, numa revista dedicada ao meu irmão maestro Manuel Ivo Cruz, com fotografias na capa e em numerosos artigos, imagens que largamente ilustram a edição e confirmam o tema geral: “A memória não se apaga”, sublinha precisamente a capa.


Menos ainda se apaga num irmão!...


DUARTE IVO CRUZ 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 9 a 15 de novembro de 2020

 

Orhan Pamuk diz-nos que o património cultural se assemelha ao amor, enquanto atenção profunda e compaixão sentida.

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«O MUSEU DA INOCÊNCIA»

“Enquanto passearem de vitrina em vitrina e de caixa em caixa, observando todos estes objetos”, compreenderão como o escritor pôde ficar a olhar para a protagonista do romance durante um jantar ao longo de oito anos - é Orhan Pamuk quem o diz em relação ao seu “O Museu da Inocência”. O amor é como o património cultural, uma atenção profunda e uma compaixão sentida. Na sequência do romance, Pamuk criou um museu em Istambul de pequenos e diversos objetos que se relaciona com o encontro entre os afetos e as lembranças da vida quotidiana. De facto, “O Museu da Inocência” tem a ver com um amor total, persistente, sereno, possível em cada momento e depois tornado impossível. Podemos dizer muito sobre o património cultural, mas ninguém o compreenderá se não o considerarmos uma realidade viva. E eis-nos perante a melhor metáfora sobre o património, a herança e a memória. A identidade não pode ser um quarto escuro, um lugar sem janelas para o mundo – como muitos pretendem. Porque o autocomprazimento esquece, afinal, que só nos compreendemos se entendermos que o outro é a outra metade de nós, como afirmou o Padre Matteo Ricci. Os nacionalismos esquecem, contudo, a essência do patriotismo, que é aberto e disponível, capaz de aceitar as diferenças e de as tornar fatores de enriquecimento pessoal e mútuo. Patriotismo significa afinal amar as raízes e dar-lhes asas para o futuro, a partir da compreensão do horizonte como limite. “Porque nada pode ser tão surpreendente como a vida. Exceto a escrita. Exceto a escrita, sim, evidentemente, exceto a escrita que é a única consolação”. O património como um museu ou como uma tradição, é um lugar de consolação, também porque é onde encontramos objetos ou referências antigas ou novas que amamos, mas sobretudo porque perdemos a noção de tempo. Falo de um tempo fugaz e imediato, porque ganhamos o conceito de duração. E desejamos também a procura melancólica do diálogo entre hábitos, afetos, tradições e culturas e isso leva-nos a considerar hoje o património cultural como uma permanente metamorfose.

 

CELEBRAR A MEMÓRIA

Devo dizer-vos que aquele tempo que passei em Estrasburgo com os meus colegas na feitura da Convenção de Faro de 2005 correspondeu a mais do que um exercício normativo, mas a uma verdadeira interrogação sobre o futuro, quando estava bem fresca a memória de uma guerra como a dos Balcãs. Parece um paradoxo tratar do património cultural e pensar no futuro, mas não há contradição alguma nisso, uma vez que é a interrogação sobre a eternidade que está em causa. São as marcas da humanidade com todas as suas diferenças que vamos encontrando. Como definir, afinal, o património como realidade comum e fator de paz? Foi já há quinze anos e parece que foi ontem – e em cada momento que reconhecemos a atualidade do documento (a Convenção Quadro) podemos perceber que as dificuldades que sentimos e tivemos foram positivas, uma vez que permitiram anteciparmos, prevenirmos, corrigirmos e superarmos a tentação da obra fechada. A Convenção designa-se como quadro porque lança um campo novo e é uma obra aberta que recusa, porém, o aleatório, visando reconhecer um elo que torne a humanidade e as humanidades fatores de emancipação e de justiça – distinguindo a “excelência autêntica das formas de parasitismo que hoje proliferam como cogumelos”, no dizer de George Steiner. Mas se falo de obra aberta, não esqueço a compreensão dos limites e a exigência permanente de uma aprendizagem que permita a troca de conhecimentos e a ligação entre exemplo e experiência… Sempre com os limites do horizonte presentes… Deparámo-nos, porém, com a desconfiança de alguns relativamente à ideia de comunidade, e daí a nossa preocupação de salvaguardar a definição do Património cultural como “conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução”. Nesta perspetiva, “inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo. Isto, enquanto “uma comunidade patrimonial é composta por pessoas que valorizam determinados aspetos do património cultural, que desejam, através de iniciativa pública, manter e transmitir a gerações futuras”. Partimos da singularidade e reconhecemos a liberdade como valor primeiro que nos leva à dignidade, ao bem comum, a fraternidade e à justiça.

 

CULTURA E PATRIMÓNIO

Estão na ordem do dia o património material e imaterial, a natureza, a paisagem, a tecnologia e o património digital, que apenas têm pleno sentido e fecunda virtualidade se se ligarem à criação contemporânea e se forem oportunidade de direitos e responsabilidades. O Ano Europeu do Património Cultural 2018 pôde pôr as escolas, as comunidades educativas em diálogo, sempre escolhendo o próximo e o mais distante, a nossa terra e a terra dos outros que nos contemplam. E agora, nesta tremenda pandemia, percebemos melhor o valor da cultura, que corresponde à compreensão do essencial, devendo preservar o cuidado do que é permanente. Quem há um ano pensaria chegarmos onde chegámos – com um choque entre o que julgávamos elementar e o que se tornou mais raro. E que podemos concluir? Que a liberdade exige que se revalorize a cultura e que aquilo que tem mais valor é exatamente essa arte que não tem preço, a começar na vida. A reconstrução económica obriga a que a cultura, como fator de tomada de consciência da liberdade, ponha a economia ao serviço das pessoas. O sentido de responsabilidade exige-nos que sejamos capazes de colocar um dique numa pandemia descontrolada. Isso obriga a verdade, vontade, resistência e recusa da facilidade. Temos de saber que o domínio de nós mesmos é a única maneira de recuperarmos a liberdade, protegendo-nos mutuamente – e esse é um desafio cultural. A maturidade significa sermos capazes de concentrar esforços e não de apostar na ilusão. Património cultural significa sermos nós, compreendendo os outros e fazendo da autonomia força e complementaridade. A cultura tornou-se mais importante como sinal de criatividade e apelo de justiça. E desejam uma ilustração nesta mágica Convenção de Faro do que falamos, quando falamos de património cultural como realidade viva? Veja-se como o “Guia de Portugal” de boa memória fala das nossas chaminés algarvias, símbolos da nossa especificidade: “canudos, caixinhas perfuradas, espigueiros, coruchéus, minaretes, zimbórios, agulheiros, chapéus de bico, turbantes, numa exuberância decorativa que revela a persistência do gosto e da tradição mouriscas e a intenção deliberada de fazer diferente, caprichando cada qual na fantasia mais pródiga mais imaginosamente sugestiva”… Aqui se encontram singularidade, memória e criação.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA

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A ilusão da pós-verdade chama-se mentira. O medo do outro e do diferente só se supera com partilha de responsabilidades e melhor democracia. É de economia ciente da importância da cultura como criação que falamos.

por Guilherme d’Oliveira Martins in Jornal Público / 07 de agosto de 2019

 

E de facto ao olhar para a ponte de Mostar em 1982, o sonho que haveria um passo comum em direcção a um futuro melhor foi-me claro. E foi-me claro pela história da responsabilidade que o pluralismo da democracia a todos chamaria; e foi-me claro pelo impacto da cultura que vivi naquela viagem de meses à Jugoslávia; e foi-me claro porque não queria uma coisa abstracta situada no futuro de todos nós: uma coisa abstracta com nome de mentira.

Acreditei que todos nós chegaríamos à conclusão de que a alteridade dos outros é parte integrante da nossa humanidade. Acreditei que a cultura dos povos seria tão criativa que animada por vontades objectivas desmontaria as instituições imperfeitas, as económicas e as outras, e só o seu prenúncio impediria a compreensão incauta da globalização.

Estava longe da brutalidade com que os vários tipos de terrorismos saltariam das televisões defendendo a lucidez dos estados em pânico como realidade ancora em vontades, ou seja, em votos mesmo não expressos.

Navegar nos barcos de Klee deixou de ser política de acolhimento e defesa de um interior espírito de desafio à criatividade nas mudanças estruturais de vida. A partilha de riscos na determinação do bem-estar não se concretizou como messias à construção da prosperidade na idealização da cultura e da civilização.

E é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores.

Há que nos desviarmos de guiões que nos são sugeridos mesmo quando não pareça; há que entender os traumas do passado como base para discussão de possibilidades futuras; há que estarmos atentos à actualidade que se move à nossa volta cheia de nostalgias para que nacionalismos sejam a solução lacunar das democracias.

Não podemos dizer que precisamos de tempo pois já não há tempo para nos redimirmos das desatenções. Os pensadores receiam que nem as ciências nem as artes possam ser suficientes para seduzir as plateias de vidas que não prosperando, têm o poder dos saltos violentos como solução e pseudo sustento ideológico para justificação comportamental de si mesmas.

Por isso mesmo, neste caldeirão

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores

sem os homicídios das guerras e a atribuição estonteada de culpas.

A distância que nos separa dos totalitarismos não nos deve deixar baixar a guarda.

Quem joga? E o que se joga? Quem é o senhor do Jogo?

Como é a noite sem estrelas?

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem nos conformarmos com a condição humana que nos coube.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, O NOVO CARDEAL

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Estamos atentos ao que se passa em Roma nas próximas horas! É com alegria e esperança que saudamos a decisão do Papa Francisco de nomear como Cardeal o nosso querido amigo e associado José Tolentino Mendonça. Na história do Centro Nacional de Cultura e em vésperas dos 75 anos, que é uma idade respeitável, é a primeira vez que contamos com dois Cardeais entre os nossos sócios efetivos (com D. Manuel Clemente) – devendo salientar-se que ambos se iniciaram no Centro ainda clérigos, quando não tinham qualquer outra dignidade eclesiástica. D. José Tolentino Mendonça foi no CNC sempre uma referência no diálogo com o mundo da cultura, muito para além das fronteiras religiosas. E há alguns anos quando homenageámos, na Capela do Rato, Lourdes Castro, desde a sua juventude muito cá de casa (designadamente com José Escada), lembrámos essa atitude fundamental do novo Cardeal – a de que a Arte e a Cultura têm sempre um sinal de Deus. E José Tolentino compreendeu-o sempre. E há dias, Paula Moura Pinheiro interpretava fielmente o sentimento de muitos dos seus amigos, de vários horizontes culturais, dizendo: “Espero que o padre Tolentino provoque o estremecimento na Santa Sé que sistematicamente provocou a nós que o ouvíamos pessoalmente na Capela do Rato durante tantos anos e tenha o mesmo fulgor revolucionário que sempre lhe conheci”. A jornalista lembrava a sua participação na comunidade da Capela do Rato, onde teve “por pastores padres maravilhosos”, considerando que “é impossível negar que o padre Tolentino tem características únicas” que o fazem “excecional”. “Ele tem uma espécie de acesso e quando começa a conversar ilumina-se e passa a pertencer a qualquer coisa, de outra dimensão, metafisica. É o que eu sinto quando o ouço”. E com que emoção recordamos com ele o espírito da revista “Concilium”, o Círculo do Humanismo Cristão, a Livraria Moraes, o MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa, que aqui vivemos, nas paredes que habitamos – Helena e Alberto Vaz da Silva, António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Frei Mateus Peres O. P., Nuno Bragança, João de Almeida, Nuno Teotónio Pereira, Diogo Lino Pimentel, Freitas Leal e tantos outros… Quanto caminho percorrido? Quantas veredas trilhadas, contra ventos e marés?...

Importa, pois, lembrar a ação que desenvolveu nos meios culturais como poeta consagrado, que tem procurado abrir horizontes de diálogo com os meios intelectuais numa perspetiva de troca de ideias, de enriquecimento mútuo e de um melhor conhecimento das preocupações espirituais do mundo contemporâneo, a partir da laicidade, da liberdade religiosa, numa sociedade aberta e pluralista. Simbolicamente o novo Cardeal adotou como lema a frase “Olhai os lírios do campo” (Mt., 6, 28) e escolheu como símbolos os lírios, um elefante, e o Alfa e o Ómega da mensagem bíblica do Filho do Homem. O elefante representa a velha e mítica ligação dos portugueses a Roma, de que a célebre embaixada do Rei D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 é uma indelével referência, enquanto os lírios representam a simplicidade da vida. A leitura de «Elogio da Sede» (Quetzal, 2018) permitiu-nos compreender melhor a alegria e a disponibilidade pessoal com base no entendimento da sede como “bem-aventurança que nos salva”. «Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, asséticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança». Eis por que razão, o poeta nos põe de sobreaviso contra a indiferença, contra o encolher de ombros do relativismo. A liberdade religiosa e o encontro entre convicções obrigam a estarmos disponíveis para ouvir e para caminhar juntos, sendo capazes de nos colocarmos no lugar dos outros. Não pode haver diálogo na ignorância ou na suposição de que temos certezas acabadas e fechadas. Ao percorrermos as meditações, seguimos os capítulos, significativamente intitulados – Aprendizes do espanto, a ciência da sede, o perceber que se está sedento, a sede de nada que nos adoece, a sede de Jesus, as lágrimas que contam uma sede, o beber da própria sede, as formas do desejo, a escuta da sede das periferias, e a bem-aventurança da sede. Cada palavra, cada passo devem ser considerados, cultivando o tempo, a reflexão e a atenção. E se alguns põem em causa o facto de o Papa Francisco apelar às periferias, como se estivesse a esquecer as centralidades, a verdade é que a centralidade da dignidade humana só pode ser compreendida se entendermos os limites, as dificuldades, as angústias. Quantas vezes nos sentimos perdidos e abandonados – são esses os momentos fundamentais para que temos de nos prevenir perante o risco de cairmos e de estarmos fortes para nos levantarmos. Mas se estamos demasiado seguros e certos, há qualquer coisa que falta na fé e na esperança e que empobrece o amor. Oiçamos: «Perguntamo-nos muitas vezes o que é a misericórdia. E a misericórdia não cabe numa definição. Não se pode dizer: “A misericórdia é isto”. Precisamos de espelhos para compreender a misericórdia. Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é reconciliação profunda. É tudo isso. Mas é isso realizado também com um determinado estilo, que é o estilo do pai da parábola de Jesus. Não há misericórdia sem dádiva, sem doação. Aquele filho trazia tantas feridas, manifestas e escondidas, e precisava de ser curado com o bálsamo da misericórdia». E se falamos de dádiva, temos de ter presente a ideia de troca – dou e dás, encontramo-nos afinal na generosidade. No fundo, “Deus ama a vida e não desiste dela”. De que vida nos fala? Do quotidiano inesperado, em que podemos descobrir o outro que nos procura. Nos caminhos insondáveis temos de ser aprendizes do espanto. “O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas”. Não, não estamos saciados – estamos sim cientes de uma sede que não se satisfaz imediatamente na nossa condição. Através do amor, do respeito e da dignidade vamo-nos saciando. Mas é a consciência dos limites que nos leva a entender que não estamos sós e que temos de estar atentos a quem nos chama, mesmo em silêncio… S. Paulo di-lo melhor que ninguém. A fé e a esperança passam. O amor e o cuidado ficam – e assim a sede é o desejo e o caminho para esse dia em que poderemos finalmente ver face a face… “Porque Deus não desiste de dizer a toda a vida – à nossa vida – que ela é querida e bem-aventurada. Essa é a sede de Deus”.

Um dia José Tolentino disse a Anabela Mota Ribeiro: «Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. (…) A experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. (…) Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor (dizia o poeta), que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestra espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. (…) Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos». Quem somos afinal? Quem são os sedentos que se encontram connosco na dúvida e na incerteza? O filho pródigo e o seu irmão ressentido somos nós. S. Pedro a negar três vezes somos, de facto, nós. S. Tomé incrédulo ainda somos nós, muito mais vezes do que julgamos. Graham Greene quando se converteu escolheu o nome de Tomé, exatamente porque sabia que a fé e a incerteza se completam – enquanto paradoxalmente Mauriac num grito algo provocatório lembrava às avessas do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque não me abandonaste”. E Santa Teresa de Jesus alertava para a ingenuidade de supor que “as almas às quais Nosso Senhor se comunica, de uma maneira que se julgaria privilegiada, estejam contudo, asseguradas nisso de tal modo que nunca mais tenham necessidade de temer ou de chorar os seus pecados».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

CULTURA COMO MEMÓRIA E LIBERDADE

 

Dedicamos hoje sentidamente o texto publicado na quinta-feira no “Público” sobre as Jornadas Europeias do Património a dois amigos que nos deixaram e que não esquecemos:

 

Isabel Wolffensperger, grande amiga do CNC, irmã da nossa querida Helena Vaz da Silva, que não podemos esquecer na sua generosidade e entrega às nossas causas comuns;

 

E Manuel Luís Carvalho Costa, que desde muito jovem acompanhou os combates da primeira geração do Centro Nacional de Cultura, dos tempos da “Cidade Nova”, e cuja coragem ficou bem evidente até aos últimos dias.

A.M.

 

«“Artes, Património, Lazer” é o tema das Jornadas Europeias do Património deste ano. Trata-se de pôr a tónica no património cultural como realidade complexa e viva, que tem a ver com a cidadania e com a vida das pessoas, que não podem eximir-se à responsabilidade de cuidar do que recebemos das gerações que nos antecederam. E se tanto se fala de sustentabilidade e da prioridade à defesa do meio ambiente, temos de dar especial atenção ao cuidar da memória e do património histórico, não como realidades do passado, mas como deveres do presente. A 11 de setembro, na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, numa iniciativa com o Instituto Jacques Delors / Notre Europe, foi possível refletirmos sobre a importância do Património Cultural, com Serge Lasvignes (presidente do Centro Pompidou), Marie Gravari-Barbas (da Universidade de Paris-I, Panthéon, Sorbonne), Astrid Brandt-Grau (diretora do Ministério da Cultura de França), David Madec (administrador do Panthéon de Paris) e Sandro Gozi, (antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus de Itália), com a moderação do jornalista François Beaudonnet. O tema foi “Património Europeu – a Preservar ou a Explorar?”, e muito mais do que uma reflexão técnica, tivemos um debate político europeu. De facto, sem compreensão dos valores culturais, limitamo-nos a cair em simplificações perigosas. O património cultural não é um tema do passado, envolve uma dinâmica e a compreensão da complexidade. Não podemos, assim, falar de uma identidade europeia uniformizadora. Temos de tratar de diferenças e complementaridades e de uma hierarquia de princípios e valores. Património cultural envolve o que é material e construído, o que é imaterial e tem a ver com tradições e vivências, o que diz respeito à natureza e também às paisagens (lembremo-nos da qualidade nas cidades ou dos jardins históricos), bem como o que se reporta às ciências e tecnologias e à emergência do digital, além da importância da criação contemporânea. Não há debate político europeu sem preservação da memória.

 

A perigosa fragmentação europeia, a que assistimos, resulta da incompreensão em relação à memória, à história política e à sociedade. O medo do outro e do diferente, a ilusão económica, o egoísmo, a prevalência do curto prazo, a desatenção relativamente às potencialidades da sociedade e da cidadania (designadamente ao papel das fundações e de um conceito alargado e justo de filantropia) encontram raízes fundas na desvalorização do património e da memória. Num importante texto de Thierry Chopin, publicado por Notre Europe sobre “As Artes, o Espírito Europeu e a Liberdade”, é posta a tónica na importância de pensar as identidades europeias como realidades abertas, centradas na liberdade e numa cultura crítica e de paz. Como entre nós tem sido salientado por Emílio Rui Vilar, temos de voltar a olhar a alegoria do bom governo de Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena, na qual a Paz, a Concórdia e a Segurança, se opõem à Guerra, à Divisão e ao Medo. Os ideais de cidadania e de autonomia republicana obrigam a que haja condições na vida das instituições e na mediação no seio dos espaços públicos, para que a memória histórica seja um fator de enriquecimento cívico, em termos de liberdade, de sentido critico, de participação, de representação e de responsabilidade dos cidadãos. O Bom Governo favorece o bem comum como bem de todos e garantia de liberdade dos cidadãos. Eis por que razão a defesa e salvaguarda do património cultural e dos direitos e deveres que lhe são inerentes não é um tema do passado, mas sim um caminho de defesa dos valores comuns através do reconhecimento da memória, como fator dinâmico e criador. Liberdade, individualidade e sociedade articulam-se com as legitimidades do voto e do exercício, em que a justiça social seja marca de humanidade e respeito mútuo. Preservar ou Explorar? Do que se trata é de criar e considerar o que tem valor, preservando-o no sentido da proteção, explorando-o na aceção da criação de valor ao serviço de todos. «Artes, Património, Lazer» significa um apelo a que a cultura, como a educação e a ciência, sejam fatores de enriquecimento da democracia – juntando a criação artística e a importância das chamadas “artes liberais”, como reconhecimento da experiência e da aprendizagem, como deveres de proteção da herança e da memória e como consideração do lazer, enquanto disponibilidade de espírito e de favorecimento da liberdade».

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLII - LÍNGUA E CULTURA

 

A cultura é a guarda avançada do imperialismo mental.

 

A língua é a ponta de lança dessa guarda avançada.

 

O inglês, como primeira língua depois do idioma materno de cada falante, promove produtos culturais que refletem o perfil do capital mundial e da potência dominante: Disney, Coca-Cola, Mac Donald, Microsoft, Google.   

 

No atual quadro do imperialismo linguístico, o inglês é a língua dominante por excelência. 

 

As outras são as línguas dominadas. 

 

Em Portugal, a receção do inglês foi promovida e facilitada pelo cinema, pela televisão, pela edição fonográfica e sua veiculação e disseminação através da rádio.

 

No nosso país, a opção em legendar para português, em vez de dobrar os filmes exibidos, quer no cinema ou na televisão, fez com que o cidadão comum se habituasse a ouvir, no idioma original, a cinematografia e séries americanas e anglófonas em geral, razão pela qual a língua mais ouvida nos media passasse a ser, de modo involuntário e subtil, o inglês. Por motivos de economia de meios e custos, e não por razões estratégicas, passou a ser o idioma estrangeiro mais familiar. 

 

Com a chegada da música pop, em inglês, suplantando a difusão musical radiofónica em português, consolidou-se, nas gerações mais jovens, uma relação sinonímica entre modernidade e língua inglesa, o que é reforçado, no nosso tempo, pelas novas tecnologias de ponta e publicações de investigação e natureza científica do mundo académico.

 

Enquanto o inglês passou a ser uma janela para o mundo futuro, o francês passou a ser associado ao idioma estrangeiro dos mais velhos, das enfadonhas e antigas elites de outrora, algo a evitar. 

 

Portugal, a tal respeito, não se diferenciou significativamente do resto do mundo, embora países como a Espanha, França e Alemanha, dobrem filmes e séries.

 

E se a língua portuguesa não está em questão dentro do espaço da comunidade dos países lusófonos, dissolve-se no universo das restantes línguas faladas no nosso planeta, num laboratório geopolítico de que em certas situações é refém como cobaia, como na Europa da União Europeia e do Conselho da Europa.

 


09.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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  Acerca da pintura moderna, segundo Picasso.

  

'Yo digo las cosas de la forma en que siento que deben ser dichas.', Picasso

 

Para Picasso, os factos (aquilo que se encontra ao pintar) são muito mais importantes do que as intenções. O pintor não procura, encontra.

 

Segundo Picasso, a arte é uma farsa que permite ao homem entender a verdade. Por isso, o pintor deve ser capaz de convencer os outros acerca da verosimilhança das suas mentiras. Uma pintura perder-se-á se mostrar somente o que o pintor procura ou investiga: 'Perhaps this has been the principal fault of modern art. The spirit of research has poisoned those who have not fully understood all the positive and conclusive elements in modern art and has made them attempt to paint the invisible and, therefore, the unpaintable.', Picasso

 

A pintura moderna não é uma oposição ao naturalismo. A natureza e a arte são duas entidades muito diferentes. Através da arte o pintor esclarece o que é não natureza. Através da arte o pintor revela sobretudo o seu modo, único e singular de ver. Para Picasso, não existem formas concretas ou abstractas, existem sim formas mais ou menos convincentes.

 

'That those lies are necessary to our mental selves is beyond any doubt, as it is through them that we form our aesthetic point of view of life.', Picasso

 

Segundo Picasso, em arte não há evolução. Não há passado nem futuro. Uma obra deve conseguir viver sempre no presente. 

 

A arte não evolui, as ideias mudam e assim como os seus modos de expressão. Porque para Picasso, é o fluxo emergente e contínuo das ideias e do fazer que determina a existência de uma multiplicidade e variedade de formas, necessárias para o criador se expressar ao longo da sua vida. Variação não significa evolução. Variação é um modo diferente de expressão que revela uma maneira nova de pensar. A essência de alguns temas também sugere modos de expressão específicos. Diferentes motivos requerem determinados métodos para se manifestarem. E isso não implica evolução ou progresso, significa simplesmente a adaptação da ideia ao modo de expressão.

 

'For several manners I have used in my art must not be considered as an evolution, or as steps toward an unknown idea of painting. All I have ever made was made for the present and with the hope that it will always remain in the present.', Picasso

 

Ana Ruepp