Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Vila do Conde é um extraordinário ponto de encontro de múltiplas referências da cultura portuguesa. José Régio disse no Guia de Portugal que é “uma daquelas vilas que têm alma”. Não por acaso, Antero de Quental descobriu aí um momento único de prazer, de saúde e de sossego de espírito, entre 1881 e 1891. Recorda-se o desvelo posto pelo senhor Castelo na preparação da casa para o poeta. “Isto por aqui é bonito, com o seu ar nobre e campestre e põe a gente numa disposição de espírito plácido e suave. Para envelhecer em paz era proximamente disto que eu necessitava” – como confessa a Alberto Sampaio. E as praias por onde se passeava ou se estendia ao sol tinham a voluptuosidade “que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz”.
Aqui viemos à casa de Antero, na antiga Praça Velha, sede do Centro de Estudos Anterianos, para falar com bom público do Dicionário da Geração de 70 com Augusto Santos Silva e Ana Maria Almeida Martins. É sempre com emoção que se entra neste lugar mítico, que nos recebe com uma pequena mostra intitulada “O que nos vale são os poetas” de Beatriz Sendin com figuras em miniatura feitas de tecido. No pequeno jardim, recordo as palavras do eremita: “O quintal é muito pequeno, com mais 4 a 6 árvores fica cheio: os muros são proporcionais ao tamanho. Já vês (dirige-se ainda a Sampaio) que se reduz a pouco o que me é preciso para operar a transformação filosófica do quintal do senhor Castelo”. Nessa década dourada, além de todos os espíritos que animam Vila Conde, desembarcaram na pequena e saudosa estação ferroviária vultos como Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Tomás de Melo Breyner, Luís de Magalhães José e Alberto Sampaio, António Feijó, Jaime Magalhães de Lima, João Lobo de Moura. Quem os esperava? O poeta “róseo e reflorido com as lapelas do casaco de alpaca atiradas para trás galhardamente”. Aqui foram escritos alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa nesta terra de acolhimento, onde encontramos em cada esquina as maiores referências da nossa cultura. “Linda vila recolhida e grave, mas tão cheia de carácter”, assim a designou Luís de Magalhães. A memória de Camilo ou as origens de Eça de Queiroz ficam nas nossas conversas, mas eis que nos aproximamos do nosso tempo. A grande hospitalidade da cidade leva-nos a recordar próximo da inesquecível Velha Casa a obra de um artista filho da terra, Júlio Reis Pereira, apenas Júlio ou Saúl Dias, o irmão de José Régio, na sua relação próxima com o modernismo em Portugal, em mostra notável dirigida por Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano. Estão lá os maiores, lado a lado com Júlio, na sua Galeria – ele, poeta e pintor mal compreendido e precocemente arrumado “numa arca demasiado pequena para o seu real tamanho”. E assim percebemos o que para muitos é difícil de entender. A modernidade, como as coisas que valem a pena, obriga a correr os riscos do entendimento, a ir além do fácil e do comum. A realidade que nos cerca é complexa e diversa relativamente ao que se julga à primeira vista. Será possível viver sem ideias? A geração de Antero e dos seus obriga-nos a deixar o conformismo do fácil e do passageiro. À sombra do inesquecível Convento de Santa Clara é fundamental pensar a cultura e a vida como realidades incindíveis. Por isso, Régio falou da alma desta terra.
A LUZ LIMPA DE CRETA… por Camilo Martins de Oliveira
Caríssimo José:
Chamou "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" a uma narrativa - a história de uma vida inventada por si - que, como todas as vidas que imaginamos para os nossos contos, servem para dizer quanto gostaríamos de sentir, à nossa medida e, também, nas desmedidas de nós, esses seres que nos surgem na frente da memória como heróis ou épicos, esses que percorreram aventuras de tão ciclópicos feitos, "mais do que permitia a força humana"... O Jesus do seu romance, José, é construído à sua imagem e semelhança, mas também está sempre a soltar-se de si, é simultaneamente o homem que se acolhe em Maria Madalena (como o José tanto precisou de um amor de mulher na vida) e o que sabe que outra força - misteriosa e ignota - lhe dá poderes que ele não entende e o interpela e destina a outra oblação de si.
Esse Jesus é o José Saramago: "Jesus tinha um súbito pressentimento e o seu coração estremecia, porém os olhos não se viravam para o céu, onde é sabido que Deus habita, o que ele fixava com obsessiva avidez, era a superfície calma do lago, as águas lisas que brilhavam como uma pele polida, o que ele esperava, com desejo e temor, parecia que das profundidades é que devia aparecer, o nosso peixe, diriam os pescadores, a voz que tarda, pensava talvez Jesus. A pesca chegava ao fim, a barca volvia carregada, e Jesus, cabisbaixo, seguia outra vez ao longo da margem, com Maria de Magdala atrás, à procura de quem precisasse dos seus serviços de olheiro grátis. Desta maneira passaram as semanas e os meses, passaram os anos também, mudanças que à vista se percebessem só as de Tiberíades, onde cresciam os edifícios e os triunfos, o mais eram as costumadas e consabidas repetições duma terra que nos invernos parece morrer-nos nos braços e na primavera ressuscitar, observação falsa, engano grosseiro dos sentidos, que a força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido."
O homem de letras que foi - com a mais sabedoria que "nesse asento etéreo se consente" - entende bem melhor do que eu que talvez seja "engano grosseiro" também iludir duas metáforas: a do inverno que dorme para dar força à primavera e a do que nos nossos braços morre para ressuscitar em flor... Até já alguém disse o que tantas vezes quem o ouviu repete: "o sono é a antecâmara da morte". Acordar e despertar, tal como ressuscitar ou renascer,” é sempre ressurgir.
Uma amiga japonesa, manhosamente, confundindo-me talvez na sua ideia de um romantismo ocidental sempre guloso de um pôr de sol romântico, perguntou-me de que gostaria eu mais, se do poente ou do sol nascente... respondi-lhe lembrado de uma balada do Zeca Afonso: "olha o sol que vai nascendo, anda ver o mar, os meninos vão correndo, ver o sol chegar!". Com o panorama que, aí de cima se lhe oferece, o José verá bem que, em Portugal, ao fim do dia, o sol esconde no mar a promessa da luz. Mas em Tóquio, na costa leste do Japão, surge do Mar Pacífico, das "águas lisas", dessas "profundidades" donde chega " a voz que tarda"... Por isso, esses nipónicos querem ver o sol que nasce em cada madrugada de ano novo, esse a que sempre chamo, à antiga portuguesa, Ano Bom! É bonita a esperança, e assim como a arte e a música,e os abraços e festas dos amigos,só por ser bela nos é necessária. Como naquele poema da Sophia: "As praças fortes foram conquistadas / Por seu poder e foram sitiadas / As cidades do mar pela riqueza / Porém Cacela / Foi desejada só pela beleza".
O Jesus-Saramago não quereria Cacela pelo "nosso peixe, diriam os pescadores," mas pela "voz que tarda". Pela beleza, por essa que, quiçá, tanta maquilhagem clerical disfarça e esconde aos olhos de quem quer ver. Todavia, além do Jesus-Saramago, há também outro Jesus, a personagem que o José criou para o seu romance ou para reinterpretar o Jesus Cristo dos quatro evangelhos e da tradição: fá-lo em tudo semelhante aos homens, como o José os vê, no desejo, na dúvida, na desconfiança, no ressentimento e no medo. Até na imprevisibilidade que pode conduzir à destruição e no egocentrismo que nos cega para os outros.
Os milagres desse Jesus não são sinais do amor que salva, nem ilustrações da fé na presença de Deus entre nós. São artifícios de ilusionista, ou gestos que não medem consequências ou não correspondem a justas intenções. Pois o Deus desse Jesus é um velho cínico cuja inseparável sombra é o diabo, e estes dois nem sequer se distinguem tão bem como as duas metades do "Visconde cortado ao meio" do Italo Calvino.
Racionalmente, repugna-lhe, a si, admitir a transcendência que sopra o amor, essa a que o seu coração aspira, como o do Antero na mão direita de Deus. Custa-lhe aceitar que, a cada um de nós, compete, com sucessos e revezes, ir limpando o olhar, para chegar à pureza do coração que nos transforma no amor dos outros.
..."O mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe aprendeu, amados irmãos, o mal é como a famosa e nunca vista ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira, de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira.
Jesus disse à adúltera, “Vai e doravante não tornes a pecar, mas no íntimo ia cheio de dúvidas." Ocorre-me, ao lê-lo aqui, "The Heart of the Matter" do Graham Greene, que a escritora britânica Lesley Hazleton resume assim: "a dúvida é essencial à fé. Aboli as dúvidas, e ficareis apenas com convicção pura, fonte da arrogância e de todos os fundamentalismos". Quando Schumpeter dizia que o marxismo é uma religião pejada de dogmas, pensava certamente na arrogância com que ali se pretende acabar com interrogações e lembranças que foram alimentando o percurso milenar da humanidade - que é o dá esperança na revelação final da misericórdia - para impor a certeza da insurreição dos vivos, e da sua necessária vitória, em vez da fé (que é o caminho da nossa procura) na ressurreição dos mortos.
Sei bem - e isso me tem fartas vezes magoado - que a Igreja (falo da minha) pode e se tem entretido mais com a apologética de dogmas, princípios e normas, do que com laborar na oração de Deus misericordioso, aberto ao acolhimento de todos, mistério de refúgio e promessa de encontro. Esquecem-se demasiado os cristãos - e, desagradavelmente, uns quantos clérigos vivaços e espertinhos - de que só um testemunho nos é pedido, e por esse sinal nos deverão reconhecer, o amor dos outros como sacramento autêntico do amor de Deus. Volto a Sophia e ao final do seu poema "Ressurgimentos": «Ressurgiremos para olhar para a terra de frente / Na luz limpa de Creta / Pois convém tornar claro o coração do homem / E erguer a negra exatidão da cruz / Na luz branca de Creta». E mansamente, neste dourado entardecer de Verão, já agradecido a esta luz que lembrarei noite fora, repito com Álvaro de Campos o verso final do seu "Magnificat": «Sorri, minha alma, será dia!». E sorrio também pensando que o José terá encontrado a resposta à interrogação que começa esse poema: «Quando é que passará esta noite interna, o universo, / E eu, a minha alma, terei o meu dia? / Quando é que despertarei de estar acordado?»
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 15.11.2013 neste blogue.
Há um precioso tesouro que merece ser revisitado apesar de ser centenário desde as suas origens (1924). Falo do “Guia de Portugal”, dirigido por Raul Proença e completado por Santana Dionísio, que pretendeu ser “simultaneamente um minucioso roteiro do país; um reportório artístico; uma obra de sólida literatura descritiva; uma antologia da nossa literatura pitoresca; um processo; um testemunho dos estrangeiros sobre Portugal; e, enfim, uma bibliografia escolhida do que se tem escrito sobre o nosso país”. Proença foi exemplo do cidadão atento, profissional de grande competência na biblioteconomia e no estudo das ideias, um dos fundadores da “Seara Nova”, que esteve nas origens da “Renascença Portuguesa”, propondo uma visão diversa da de Teixeira de Pascoaes de acordo com um patriotismo prospetivo. O “Guia de Portugal” procurou fazer entre nós o que foi o célebre “Baedecker”, iniciado em Koblenz na Alemanha, em 1828, seguindo os passos dos “Manuais de Viagem” do britânico John Murray. Para realizar o seu projeto, Proença quis ter a seu lado os melhores escritores, mas também os melhores especialistas em história de arte, geografia física e humana, arqueologia, etnografia e antropologia. Reuniu uma plêiade cultural, onde se destacavam Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Reinaldo dos Santos, Jaime Cortesão, José de Figueiredo, Afonso Lopes Vieira, Câmara Reis, Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Orlando Ribeiro, Júlio Dantas, Hernâni Cidade, Raul Lino e Rodrigues Miguéis. São notáveis os textos apresentados e Proença teve o cuidado de dizer que o Guia não pretendia ser um bonzo doméstico para o “fútil destino de ornamentar as estantes e os móveis das saletas”. Como ensinavam as minhas mestras Maria Luísa Guerra e Maria Arminda Zaluar Nunes, trata-se de “um companheiro de viagem (…) pronto a ser consultado a cada momento”. Não havia viagem que não devesse ser acompanhada por esse extraordinário “vademecum”.
O drama pessoal do coordenador impediu-o de completar o magnífico projeto, mas graças a generosas vontades e por fim à Fundação Gulbenkian podemos dispor de oito preciosos tomos que são uma obra-prima da cultura portuguesa. Em andanças pelo País a fazer descobrir os recantos desconhecidos, José Sá Fernandes quis, por exemplo, partir do histórico “Guia de Portugal” para essa peregrinação, do mesmo modo que nas magníficas “Visitas Guiadas” de Paula Moura Pinheiro encontramos tantas vezes a sombra da memória de Raul Proença e da sua obra indispensável. O “best-seller” continua. Ao fim de tantos anos, o país mudou profundamente, a realidade é outra, mas o mais antigo património cultural e as suas raízes imateriais estão vivos, não como referências nostálgicas, mas como expressão de uma sociedade que se foi abrindo e ganhando em dimensão cosmopolita. Pretendeu uma ação política e pedagógica que teria como base “criar em Portugal estas duas coisas absolutamente novas: uma elite consciente e uma opinião pública esclarecida”. Conhecer e estudar o património cultural e as suas raízes históricas fazia parte dessa tarefa. Há, pois, um espírito de abertura e adesão às doutrinas novas da Europa, em coerência com os mestres da Geração de 70, visando uma Renascença política e social da cultura portuguesa. Daí a necessidade de peregrinar na terra portuguesa para conhecer melhor a natureza, as paisagens e as gentes.
Chegamos ao termo do Folhetim de Verão de 2025. Partimos de um desafio lançado pelo nosso decano, Edgar Morin, no ano em que, cheio de energia, completou 104 anos de vida. Quis deixar uma homenagem aos seus amigos portugueses, uma vez que lhe permitiram ter uma experiência única de vida. A democracia portuguesa não nasceu de geração espontânea, mas fruto de um caminho largo e longo. Houve muitos resistentes, houve prisioneiros e torturados, mas nada teria sido possível sem uma persistente preparação intelectual, e uma solidariedade internacional. Nada foi fácil. Como se viu no imediato pós-guerra, em termos geo-estratégicos, a situação da Peninsula Ibérica não era fácil. Logo em 1945 houve antigos oposicionistas e jovens entusiastas que pretenderam criar condições para um abertura política e eleitoral. Tal não foi possível. Se virmos bem, foram muito poucos os apoios internacionais à causa democrática portuguesa. Só a Itália contou com a existência de iniciativas políticas e parlamentares visando o apoio às resistências ibéricas. Contudo, a partir dos anos sessenta, há uma tentativa séria que Edgar Morin quis destacar e que envolveu um grupo de fraternais amigos portugueses, que desde cedo o pensador francês reconheceu como possuindo um visão de largo prazo. Se no curto tempo, houve quem suscitasse dúvidas ou pretendesse uma ambição maior e mais profunda, a verdade é que quando analisamos o prazo longo da institucionalização da democracia, verificamos que em vários campos de ação foi possível lançar diversas pistas na sociedade civil, que produziram efeitos positivos, de modo transversal. Referimo-nos ao grupo que teve como principal animador António Alçada Baptista, à frente da revista “O Tempo e o Modo”. Quer junto da oposição tradicional, de Mário Soares e Francisco Salgado Zenha, quer junto de uma ala renovadora do Estado Novo, de José Guilherme de Melo e Castro, José Pedro Pinto Leite, Veiga Simão, Rogério Martins ou João Salgueiro, quer de modo inesperado através dos jovens milicianos mobilizados para o esforço de guerra, como Ernesto Melo Antunes, assinantes ou leitores de “O Tempo e o Modo”, quer ainda por parte de intelectuais de todos os campos políticos que respeitavam António Alçada, o certo é que se criou uma verdadeira rede de cumplicidades que permitiria no período seguinte à Revolução encontrar condições de estabilização.
Temos, assim, uma convergência na sociedade civil que assegurou uma transição diferente da espanhola, mas com pontos de contacto. Podemos dizer, por exemplo, que os “Cuadernos para el Diálogo” de Joaquin Ruiz Gimenez tiveram um papel semelhante a “O Tempo e o Modo”. Os contactos com opositores espanhóis, como Dionísio Ridruejo no Centro Nacional de Cultura, José Bergamin, com Tierno Galván ou José Vidal Beneyto e com desenvolvimentistas moderados fizeram-se sentir. Se em 1945 a democratização não encontrou um clima internacional favorável, a partir de 1958, a candidatura de Humberto Delgado e o memorando do Bispo do Porto tiveram efeitos significativos e irreversíveis internos e externos e a Livraria Moraes e a revista de Alçada Baptista foram os símbolos culturais evidentes. Mário Soares compreendeu o novo paradigma que e não só se abriu a uma cooperação nova relativamente às relações no seio da oposição tradicional, mas também teve oportunidade de vincar a necessidade de uma lógica liberal democrática e europeísta. Por outro lado, os estudantes universitários da crise de 1961, como Jorge Sampaio, marcariam a sua presença, logo no primeiro número da nova revista.
É importante deixar claro que Edgar Morin, bem como Jean-Marie Domenach da revista “Esprit” e Pierre Emmanuel, no Congresso para a Liberdade da Cultura, conjugaram esforços no sentido de batalhar no campo intelectual pela democracia. No Centro Nacional de Cultura, Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares desempenhariam um papel muito profundo quer no mundo intelectual, designadamente com jovens escritores, poetas e artistas, mas também junto de católicos inconformistas, como Frei Mateus Peres e Frei Bento Domingues, além de Nuno Teotónio Pereira, que lançariam as sementes da opção democrática e anticolonial, rompendo com a posição tradicional da oposição, ainda sob os efeitos do ultimatum inglês de 1890. João XXIII, ao convocar o Concílio Vaticano II fê-lo para superar a lógica do eurocentrismo, pondo a tónica nos sinais dos tempos, como salientaria na encíclica “Pacem in Terris”. Lembre-se que nos trabalhos do Concílio apenas usaram da palavra dois bispos portugueses, de tónica renovadora – D. António Ferreira Gomes (Porto), e D. Sebastião Soares de Resende (Beira). Domenach tenta mobilizar os leitores de “Esprit”, mas o efeito não demorará, a revista é proibida em Portugal. Nem mesmo a referência ao nome da revista é permitida pela censura, pelo que os redatores portugueses passam a usar a expressão de “revista de Mounier”.
Edgar Morin entusiasma-se com os amigos portugueses que em muito pouco tempo evoluem rapidamente no sentido da compreensão das causas profundas da justiça e da solidariedade humana. No fundo, a ideia de complexidade que ocupa as investigações de Morin encontra eco no generoso contributo de quem no dia a dia vai provando a vantagem indiscutível dos compromissos, que aproveitam os contributos de todos na medida das suas especificidades. A Democracia constrói-se a partir da compreensão da vida quotidiana e nada melhor do que fazer da entreajuda o método adequado para defender o bem comum. Sempre a relação entre a Raiz e a Utopia, entre a tradição e a modernidade, entre o passado e o futuro. Daí a importância da partilha de preocupações e de uma reflexão em diálogo, assente na aceitação das diferenças e na procura de uma mediação no seio das instituições. Sendo a liberdade um valor essencial para Edgar Morin, o certo é que há nele uma preocupação dialógica sempre presente.
A fonte do Humanismo europeu encontra-se na Grécia e no Cristianismo – que determinam uma ideologia, um conflito e uma inter-fecundação mútua das diferente fontes. E há ainda a ciência como domínio do conhecimento e da experiência. Mas Morin pôs sempre em diálogo realidades diferentes que constituem a pessoa humana. Por isso gostava de lembrar o pensador italiano que falava da ciência como “cantiere tumultuose”, “estaleiro tumultuoso”. Falando de Pascal e Dostoievski, lembrava que Pascal leu Montaigne e apreendeu o ceticismo crítico. Ora, Pascal era um cientista, um espírito racional, que pretendeu com as armas da razão mostrar os limites dessa mesma razão. Contudo, também era um homem de fé. E vai demonstrar que a competência da Razão é limitada, ou seja, há uma ordem, a que chama ordem da caridade que a razão não pode alcançar. Pascal utiliza o ceticismo para criticar a razão. Rompendo com o pensamento teológico clássico, para o qual Deus é absolutamente evidente e provado, diz-nos que Deus é incerto, sendo um assunto a discutir. E propondo este desafio, como aposta, introduz a dúvida e a controvérsia no que é mais fundamental – Deus. É evidente que este pensamento de Pascal, pensamento trágico, que ele viveu de uma forma intensa, é um dos fulcros mais extraordinários da cultura europeia. Quanto a Dostoievski, é preciso dizer que a cultura russa é uma das grandes culturas europeias como cultura viva, porque vive da oposição entre eslavofilia e ocidentalismo. O autor de “Crime e Castigo” assume, assim, essa contradição com um intensidade incrível. Depois de ter sido um revolucionário ocidental, torna-se um eslavófilo pro-czarista, mesmo sem perder fermento da dúvida e da contradição, que se exprime no “Apólogo do Grande Inquisidor”.
A cultura europeia é, assim, marcada pela tragédia e pela contradição e teve um potencial universal desde o seu nascimento. Mas, apesar da sua particularidade – na racionalidade, na ciência e no humanismo –, está hoje universalizada. Há três séculos o Ocidente era uma pequena porção da Europa, hoje, a Europa é uma pequeníssima parte do Ocidente… Não somos proprietários de uma cultura. Somos apenas herdeiros, o que é bem diferente. E assim estamos numa situação em que o património é comum a toda a Humanidade.
A intensidade dos debates e das reflexões torna-se essencial. Por isso devemo-nos empenhar para que esta problematização se transforme num novo Renascimento. Esta é a preocupação de Edgar Morin, não perder a memória de mil encontros fundamentais. Daí a insistência em deixar fixada a importância deste encontro português, que definiu a construção da democracia entre nós, não como protagonismo, mas como pano fundo, como rede de cumplicidades. Estamos num diálogo vivo, não de protagonistas maiores, mas das subtis sinapses que permitem aos acontecimentos importantes ter lugar. E muitas vezes um encontro aparentemente menos importante torna-se a chave essencial de uma explicação, exatamente como o acontecimento é verdadeiramente o grande mestre interior.
Sempre que vou a Amesterdão visito religiosamente, nas margens do Amstel, um fragmento importante da presença dos portugueses no mundo. Além da imponente Sinagoga, o cemitério de Ouderkerk constitui memória viva de uma presença forte e comovente. Falo de Beth Haim, que significa literalmente Casa de Vida, o cemitério dos judeus portugueses, fundado por Isaac Franco Medeyros em 1614. É um campo santo que recorda a tentativa do Padre António Vieira de fazer regressar a Portugal o poder económico e a influência dos portugueses que tiveram de partir para onde havia o reconhecimento da liberdade de consciência, nos Países Baixos, graças às leis da União de Utrecht de 1579.
As campas que se encontram em Ouderkerk albergam portugueses ilustres: Filipe Elias Montalto, de Castelo Branco, médico pessoal de Maria de Médicis, o célebre autor da “Arquipatologia”, recentemente comentada por Adelino Cardoso, Helder Macedo e Maria Filomena Molder, num belo livro sobre a melancolia; Isaac Oróbio de Castro, de Bragança, também médico e filósofo; Menasseh ben Israel, aliás Manuel Dias Soeiro, da Madeira, o rabino imortalizado por Rembrandt e primeiro impressor de livros em hebraico em Amesterdão; Isaac Aboab da Fonseca, de Castro Daire, um dos mais proeminentes rabinos no século XVII, mais tarde o primeiro das Américas, dirigindo a partir de 1641 a nova comunidade judaica de Recife, Pernambuco, donde sairiam os fundadores de Nova Amesterdão, hoje Nova Iorque; Jacob de Aharon de Sasportas, rabino e cabalista; Michael de Espinoza, pai do filósofo Baruch Espinoza; David Franco Mendes, cultor da língua hebraica; Abraham Israel Suasso ou Francisco Lopes Suasso, de profissão banqueiro; Moses Curiel, aliás Jerónimo Nunes da Costa, mercador e agente do rei D. João IV... Nas identificações constantes das pequenas placas do cemitério, descobrimos, a cada passo, quem se destacou e constituiu referência para os dias de hoje.
Não é possível compreender a riqueza e o carácter aberto e multifacetado da cultura portuguesa sem considerar todos quantos fizeram da liberdade de pensamento e do culto das diferenças marca da sua própria identidade, lembramo-nos ainda de Garcia de Orta, de Damião de Góis ou de António José da Silva. São exemplos que deram testemunho vivo de vitalidade e de sentido de futuro. Os textos de Vieira, que acompanharam a sua ação diplomática, são bem ilustrativos da exigência da abertura de espírito e de inteligência na reflexão. E quando hoje relemos a “Chave dos Profetas”, compreendemos que é o império do espírito que ocupa o orador sagrado, mais do que a evolução do poder temporal, que encerrava sempre o risco da decadência dos “fumos da Índia”, que preocupavam Afonso de Albuquerque e o próprio Camões. Fernando Pessoa tornou o Quinto Império uma referência da língua e da cultura, dando a Vieira o epíteto de “Imperador da Língua Portuguesa”. “Este, que teve a fama e à glória tem, (…) foi-nos um céu também”. O que estava em causa era o exercício da liberdade de espírito e a ligação entre a diversidade das raízes e o frondoso desenvolvimento de uma árvore multiplicando as influências. Em lugar do fechamento, a cultura da língua portuguesa exprime-se exatamente como nos sentimos nas margens do Amstel em contacto com os nossos compatriotas de há quatrocentos anos, para quem a nossa casa é o mundo.
Há poucos portugueses, e quase todos têm até três opiniões: a de que os portugueses que não são como eles são corruptos; a de que os portugueses que são como eles estão adoentados; e a de que os produtos portugueses de exportação são incomparáveis. Há um grande consenso em Portugal sobre o sofrimento dos corpos, a corrupção das almas, e o comércio externo.
Os dois primeiros tópicos foram já tratados pelos principais sábios. Não tem sido porém dedicada atenção suficiente ao comércio externo. As convicções generalizadas sobre justiça e saúde obscurecem uma dificuldade que a qualquer marciano pareceria evidente. A dificuldade exprime-se na seguinte pergunta: como é possível que uma população corrupta e doente produza quase sem esforço produtos tão apreciados no estrangeiro?
Existe uma ligação profunda entre a corrupção de terceiros, as desconfianças sobre a saúde própria e alheia, e o comércio externo. Foi sobretudo estudada por críticos literários e historiadores das artes. Estas profissões estão há vários séculos habituadas a lidar com espécies inclinadas à meliância, v.g. pintores, músicos e escritores, que, muitas vezes em condições precárias de saúde, produziram o que de melhor se fez à face da terra. Ao seu objecto genérico de eleição chamam, e com eles o resto de nós civis, cultura. É uma combinação feliz de maldade e hipocondria que explica que os portugueses sejam sobretudo conhecidos em todo o mundo como produtores de cultura.
A origem da cultura parece estar na natureza. De facto, a natureza dá exemplos numerosos de animais de mau carácter e saúde precária cujas actividades conquistaram grandes êxitos junto de outras espécies. São animais culturais os gansos, que desenvolvem cirroses; os cisnes, que se colocam deliberadamente em perigo de vida por razões artísticas; e até os crocodilos, bichos particularmente maus, que por vezes concedem em se esfoliar. O foie-gras, a música e a marroquinaria são três das mais importantes áreas da cultura.
Também a cultura portuguesa é produzida em pequena escala por um número reduzido de animais tortos, adoentados e atentos ao comércio externo. É porque o número de produtores é pequeno que os produtos são poucos; e é porque são poucos que despertam mais entusiasmo entre aqueles que os procuram. Os seus compradores são no geral animais incorruptos e de saúde indiferente, e por essa razão exportam sobretudo produtos de interesse reduzido, como servo-mecanismos e adubos.
O termo genérico ‘cultura portuguesa’ designa assim o resultado da conjunção, única em Portugal, de um pequeno número coeso de almas corruptas e corpos em sofrimento. Esta conjunção parece explicar as enormes vantagens comparativas dos grandes produtos portugueses de exportação: o vinho, os sapatos, a arquitectura, o futebol e a poesia.
Miguel Tamen Escreve de acordo com a antiga ortografia
O papel desempenhado pela cultura portuguesa na génese do Renascimento merece atenção especial. O pano de fundo da história portuguesa dos séculos XV e XVI abrange, assim, em termos culturais, referências fundamentais. Neste ano em que se celebra o quinto centenário de Camões referimo-las.
PARA ALÉM DA TRADIÇÃO LÍRICA Na grande tradição da lírica poética, vinda dos trovadores galaico-portugueses e das cantigas de amor e de amigo, chegamos à maturidade da língua portuguesa com Luís de Camões (1524-1580), antecedido por Garcia de Resende (1470-1536), coordenador e artífice do Cancioneiro Geral, acompanhado por Francisco Sá de Miranda (1481-1558), o grande introdutor em Portugal da medida nova de Petrarca, ou pelo autor de “Menina e Moça”, Bernardim Ribeiro (1488-1552). Ao lado deste fundo lírico, temos o domínio épico, de que Camões é o supremo representante, em paralelo como a “História Trágico-Marítima” (obra impressa no século XVIII, baseada em publicações dos séculos XVI) – que levou Miguel de Unamuno, a considerar a cultura portuguesa, a um tempo, lírica e trágica. A estes dois campos, junta-se, porém, o domínio picaresco, na tradição das cantigas de escárnio e maldizer – a que urge juntar o teatro de Gil Vicente (1465-1536), que António Tabucchi exemplificou com o extraordinário “Prato de Maria Parda”, podendo acrescentar-se, dentro de uma produção riquíssima, o “Auto da Lusitânia”, com as inconfundíveis personagens de Todo o Mundo e Ninguém (que Almada Negreiros considerou gémeos). Por outro lado, há um dos fundadores da moderna narrativa Fernão Mendes Pinto (c.1510-1583) com a obra fundamental “Peregrinação” – obra-prima de moderna transição romanesca, que nos permite compreender a diversidade de experiências dos portugueses no mundo, em que o autor se define como «treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. Por outro lado, temos as primeiras Gramáticas da Língua Portuguesa datam respetivamente de 1536 com Fernão de Oliveira (também autor da “Ars Nautica”) e de 1540 com João de Barros. Se referimos João de Barros, não podemos deixar de aludir a sua notável função de cronista, em que seria sucedido por Diogo do Couto, o célebre autor do “Soldado Prático”, repositório fundamental sobre as fragilidades do império. Nessa plêiade de grandes escritores, não podemos deixar de referir Damião de Góis, diplomata, intelectual prestigiado na Europa, amigo de Erasmo e de Dürer, alvo de desconfianças em virtude da sua relação com os maiores humanistas.
O DOMÍNIO DAS ARTES No campo artístico, temos no século XV os exemplos notáveis de Nuno Gonçalves (c. 1450-1491) e de Vasco Fernandes (Grão Vasco) (1475-1542) – sendo primeiro autor de uma das obras-primas europeias de sempre, os Painéis ditos de S. Vicente (c. 1470), redescobertos no final do século XIX e identificados pela representação do Infante D. Henrique tal como se encontra na edição da Crónica dos Feitos da Guiné da Biblioteca de Paris. Na arquitetura, Nicolau de Chanterene (1470-1551), Diogo Boitaca (1460-1528) e João de Castilho (1470-1522) criaram o que conhecemos como o manuelino de que é paradigma o mosteiro dos Jerónimos, além de Francisco de Arruda (m. 1547), que assina a Torre de Belém, merecendo todos especial destaque, ao lado do grande mestre teorizador Francisco de Holanda (1517-1585), não se esquecendo na ourivesaria a preciosidade da Custódia de Belém, possivelmente da autoria de Gil Vicente. Na música, encontramos figuras de relevância europeia como Mateus de Aranda (1495-1548), Pedro de Escobar (1465-1535), Filipe Magalhães (1571-1652), Manuel Mendes (1547-1605), Pedro Cristo (c.1545-1618) e Duarte Lobo (1565-1646).
O SABER DE EXPERIÊNCIAS FEITO Aos domínios referidos, importa acrescentar no que designamos como a primeira globalização as seguintes referências. Na ciência, há a figura maior de Pedro Nunes (1502-1578) matemático e cosmógrafo-mor do reino, de dimensão mundial, mas ainda a de Abraão Zacuto (1450-1522), autor da “Tábuas Astronómicas”; além de Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), autor do “Esmeraldo de Situ Orbis” e elemento crucial na preparação e concretização do que veio a ser o Tratado de Tordesilhas; de Garcia de Orta (1501-1568), médico e naturalista; de Amato Lusitano (1511-1568), médico e fisiologista, e de D. João de Castro (1500-1548), político, cartógrafo e naturalista. Deste modo, até ao reinado de D. Manuel, há uma assinalável convergência de influências, num caleidoscópio de povos e crenças. No entanto, com a expulsão dos judeus, no início do século XVI, depois do massacre de Lisboa de 1506, houve, também uma dispersão e a perda de vantagens económicas e de conhecimento. Pode dizer-se que a saída dos judeus sefarditas da Península Ibérica teve consequências desastrosas no tocante aos investimentos e ao apoio científico – tendo resultado de uma forte pressão diplomática e religiosa, que um século depois o Padre António Vieira procuraria inverter na Restauração da Independência (1640). A primeira globalização, que Arnold Toynbee designa como era gâmica (por homenagem a Vasco da Gama), abre novos horizontes à língua e à cultura portuguesas nos diversos continentes. A língua franca dos mercadores e missionários da Ásia será o português, designado como “papiar cristão”, enquanto a miscigenação promovida, através dos casamentos mistos, por Afonso de Albuquerque vai permitir o surgimento de um relevante diálogo entre culturas – que Jaime Cortesão considerará como base do humanismo universalista dos portugueses…
Helder Macedo, Maria Filomena Molder e Adelino Cardoso publicam um notável conjunto de ensaios intitulados “Melancolia, Tristeza e Cura da Alma no Renascimento Português” glosando a obra de Filipe Elias Montalto “Arquipatologia” (1614).
Melancolia, Tristeza e Cura da Alma no Renascimento Português de Adelino Cardoso, Helder Macedo e Maria Filomena Molder (Húmus, 2025), com a capa de António Dacosta, intitulada Melancolia II, é constituído por um conjunto de ensaios belíssimos que nos permitem encontrar as antigas raízes da cultura portuguesa, graças à evocação de autores fundamentais dos séculos XV, XVI e XVII. Partimos do texto de Filipe Elias Montalto, judeu português exilado, nascido em 1567 como cristão-novo, que publicou em 1614 Arquipatologia, composto por tratados clínicos sobre os mecanismos da mente, escritos em latim e recentemente traduzido para português. É uma obra de charneira que, na descrição de estados psíquicos frequentemente antecipa o que veio a ser retomado pela psicologia moderna, embora recorrendo a tratamentos derivados da antiga medicina galénica, mesmo quando põe em dúvida a sua pertinência. Falamos da melancolia como forma agravada de tristeza, com a presença de três autores portugueses de primeira relevância – D. Duarte, Bernardim Ribeiro e Francisco Sá de Miranda. Além destes, outros houve que merecem referência, como Luís de Camões, contemporâneo mais velho de Montalto, que, segundo os seus biógrafos tendo sido “na conversação muito fácil, alegre e dizidor, já sobre a idade deu algo tanto em melancólico”, ou como o cristão-novo e quase exato contemporâneo de Filipe Montalto, Francisco Rodrigues Lobo, cuja Corte na Aldeia, publicada pouco depois da Arquipatologia é uma ampla meditação sobre a melancolia individual amplificada na coletividade nacional.
O HUMOR MELANCÓLICO DE D. DUARTE Mas D. Duarte merece uma atenção especial, numa análise pioneira do “humor merencório”, de que ele próprio padeceu e do modo como se curou. Como diz na dedicatória do Leal Conselheiro: “o entendimento é a nossa virtude mui principal”. E o certo é que o futuro rei pôde recuperar, por sua própria iniciativa, o gosto de viver e ficou “perfeitamente são, como se de tal sentimento nunca fora tocado”, mesmo sentindo-se na maturidade adquirida através desse penoso percurso “mais ledo do que era antes”. Já Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda oferecem-nos dois poemas tornados clássicos na nossa literatura, que não podem ser esquecidos: do primeiro: “Entre mim mesmo e mim / não sei que se alevantou / que tão meu imigo sou”… E do segundo, temos as palavras com que todos nos deliciámos – “Comigo me desavim / sou posto em todo o perigo / não posso viver comigo / nem posso fugir de mim”… O criptojudaísmo do autor de Menina e Moça apresenta um modelo de criação, anunciador dos caminhos renascentistas, que não esquecem a raiz medieval, encontrando o mesmo “pecado da tristeza” de D. Duarte, com o trilhar do caminho da cura; enquanto o humanista cristão Sá de Miranda se aventura por domínios novos, avaliando as ambiguidades do conhecimento e a importância das mudanças e o “domínio da desrazão”. O espírito inovador valoriza, afinal, a devoção interior em contraste com a materialidade das obras, relacionando o entendimento com a liberdade, a equidade, a razão, a consciência e o conhecimento, mas também: o encantamento, o engano, o sentimento, a loucura, a ilusão e o cativeiro. E Paulo Tunhas apresenta-nos, de um modo pujante, as Condições de Descrer, ainda em Francisco Sá de Miranda – para quem a verdadeira liberdade seria o poder tudo sobre si. Fernando Gil entenderá essa autonomia individual, na sua ideia de convicção, como adesão a si do eu… E assim encontramos o seu ensaio notável sobre as “inevidências do eu”, publicado inicialmente, em 1998, com Helder Macedo em Viagens do Olhar. Retrospeção, visão e profecia no renascimento português (por nós referido no JL de 8.1.2025) onde refere que “a perda do amor por si é uma maneira de dizer que o sujeito perdeu a confiança. Não espera mais dar corpo ao desejo, que se des-realiza pouco a pouco, nem fazer-se ouvir e do silêncio nasce o mutismo e a mudez”. E Sá de Miranda apresenta-se como um poeta “absolutamente moderno”, bem para lá do doce stil nuovo que trouxe para Portugal. E é notável como encontramos num autor quinhentista intuições que só o tempo futuro viria a revelar e a desenvolver, onde há semelhanças com Montaigne, mas enquanto este descobre a unidade do sujeito, o português refere a desunião do eu.
PECADO DA TRISTEZA EM SÁ DE MIRANDA Adelino Cardoso apresenta nas suas considerações uma revelação importante sobre o pioneirismo renascentista do pensamento dos portugueses, atentos às ideias novas e às preocupações humanas em torno do eu, considerando a melancolia “como compleição estudiosa, inquieta e fantasiosa” na Arquipatologia de Filipe de Montalto. Aos ouvidos do leitor contemporâneo sentimos algo de pertinente e familiar quando ouvimos Montalto a aconselhar-nos a contrariar a “desrazão”: «Evite a ira, a tristeza e os desgostos, oriente a vida para a alegria e a tranquilidade do ânimo, oiça frequentemente o canto e a música instrumental, tire proveito das fábulas e dos jogos tradicionais. Afaste as imaginações prolongadas sobre a doença”. E, por momentos, compreendemos como D. Duarte, Bernardim, Sá de Miranda se houveram com o “pecado da tristeza”. E Maria Filomena Molder ajuda-nos a compreender como esses caminhos puderam ser trilhados, pondo-nos a ouvir Bernardim na Écloga de Pérsio e Fauno – “como pode repousar / quem traz a morte consigo?” e a recordar a fala de Bruno Huca na peça concerto Da Felicidade (de Cristina Carvalhal de João Henriques): “Proponho um brinde à melancolia a esse pequeno distanciamento da vida confrontado a nascente e sul pelo alvéolo do desejo a fazer caminho. Limitado a poente pelo aborrecimento, com o intuito de se encontrar o norte”. A melancolia surpreende os pontos cardeais, desde o tédio até ao chamamento do norte, podendo falar-se de cura neste “intuito de encontrar o norte”. O ensaio merece leitura atenta e ponderada. E eis que se confrontam Heraclito e as suas lágrimas e Demócrito e o seu riso, a propósito da Elegia a uma Senhora muito lida em nome de um seu servidor de Sá de Miranda. “Estas seriam as desventuras / que Heraclito chorava em vida andando, /e Demócrito ria por loucuras, / com muitas outras que fazem grão brando, / mas haviam de ser as principais / dos que perdendo vão-se outrem buscando”. Não se vislumbra aqui, porém, preferência do poeta por Heraclito. As lágrimas e o riso são tomados como modos de resistir ao desacerto do mundo e como forma de avaliação crítica… Os sentimentos coexistem. E Maria Filomena Molder revela-nos num remate esclarecedor: “Do que gosto em Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro? Dos meios reduzidos, das palavras que se repetem incessantemente (…), do ritmo criado pelo espaço que as circunda e que elas engendram, dos precipícios que se abrem profundos em cada verso da evitação do desperdício, das obscuridades francas. Tudo bons condimentos para alimentar saudade, a mágoa e o luto e não ser submergido por eles”.
XXIX. A busca de uma identidade: que cultura portuguesa? (2)
Como disse Sophia de Mello Breyner: «Me dói a lua me soluça o mar / E o exílio se inscreve em pleno tempo» (Livro Sexto, 1962). Como Unamuno bem pressentiu e Eduardo Lourenço interpretou, com rigor e perfeição, somos feitos de lirismo e de história trágico-marítima – sem esquecer o picaresco, que salienta António Tabucchi, no escárnio e maldizer. Encontramos desde a poesia trovadoresca à rica poesia contemporânea, passando por Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett, Herculano, Antero de Quental, João de Deus, Cesário, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e todos mais… Portugal, como palavra, é uma eterna convergência da lembrança e do desejo, do amor e da provação, e a língua portuguesa, espalhada pelo mundo, plena de diferenças, foi-se construindo nessa pluralidade e nessa complementaridade… A língua portuguesa, temperada com mais açúcar ou mais especiarias, é o traço de união e de diferenciação. E se dúvidas houvesse João Guimarães Rosa leva-nos em busca da terceira margem, Baltazar Lopes da Silva introduz-nos nas diferenças e nos segredos dos crioulos, Mia Couto reinventa-nos em permanência, Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Germano Almeida põem-nos em contacto com as grandes superfícies de terra e mar, Raduan Nassar interroga e confronta as raízes em «Lavoura Arcaica», Rubem Fonseca usa como matéria-prima o drama quotidiano… Já para Carlos Drummond de Andrade: “Adélia Prado é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”. Quem a conhece considera-a desconcertante, plena de ironia, ousada, iconoclasta, seríssima no entendimento das coisas essenciais. Nela o comum e o banal encontram-se, a cada passo, com o transcendente.
Eduardo Lourenço é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até indiferença e acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. A Europa fechada definha, por isso, importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um núcleo essencial de interesses e valores comuns. Língua de várias culturas, cultura de várias línguas – eis um caleidoscópio incompatível com paternalismos. Prevalecem o pluralismo e a diversidade. Garrett, Antero e Cortesão aspiraram a um patriotismo prospetivo, em que o fundo português se afirma como exigência aberta e plural.
Pedro Mexia tem razão ao afirmar que, “a dignidade vale mais do que a identidade” (Expresso, 10.5.2024). Não que esta não seja importante, mas é a dignidade da pessoa humana que se torna pedra angular de qualquer entendimento identificador, até pela importância da compreensão de que urge distinguir para unir… “É importante que um entendimento acerca do humano seja tão ambicioso quanto judicioso. E que esteja atento às formas de desumanização, as novas e as antigas”.
XXVIII. A busca de uma identidade: que cultura portuguesa? (1)
De que falamos quando referimos a Cultura Portuguesa? De continuidades e de mudanças, de características singulares e de convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não basta um sobrevoo na cultura geral, que mais não significa do que um contacto superficial com a criação e a arte, esquecida da complexidade, do que avança e progride e do que estagna. António Manuel Machado Pires tem recordado a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: “E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?”. A cultura pressupõe diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e quem pretende ver e entender, numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada pelo próprio Nemésio – “Varanda de Pilatos”. Afinal, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva. Lembre-se o picaresco e o dramático no caleidoscópio de Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que a ligação da Literatura, da Arte ou da Ciência são pontos de observação de eleição para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a mera ostentação de um saber ou de uma técnica. Assim, não compreenderemos, por exemplo, o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça de Queiroz (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério), Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus (a lírica popular) ou Antero (a reflexão culta).
Nemésio e Machado Pires falavam de duas linhas de pensamento marcantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas deveriam de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do português e do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par, como na análise de António José Saraiva, articulam-se com a construção de um imaginário. A experiência “madre de todas as cousas”, os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna, a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos, donde vimos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma mera sucessão de factos ou acontecimentos. Temos de descobrir tendências, de suscitar criticamente diversas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa. Urge contrariar as simplificações, que se tornam caricaturais, não permitindo compreender uma realidade que é multifacetada. Ligue-se a vontade ao fundo céltico, confronte-se a fixação e o transporte, contraponha-se o erudito ao castiço, compreenda-se as diferenças e as complementaridades entre Camões, a custódia de Belém, o galo de Barcelos ou o fado. De facto, nossa cultura tanto é o “Auto da Lusitânia”, de Todo o Mundo e Ninguém, como o “Pranto de Maria Parda”, para só nos atermos a Mestre Gil. Para Machado Pires quando diz que a «Cultura não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro. A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. E eis o paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino”. O pessimismo contrasta com o compromisso cívico. E assim, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, a Geração que se evidenciara em 1871 não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, em vez do fatalismo.