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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 4 a 10 de março de 2024


António Quadros (1923-1993) era um espírito aberto e livre que conhecia muito bem as raízes da cultura portuguesa e que pensou Portugal a partir da modernidade e das suas relações com a tradição.


COMPREENDER A HISTÓRIA
Para António Quadros, não havia contradição entre o caminho histórico português e o desejo de olhar o futuro como um desafio de transformação. Nesse sentido, foi original na sua atitude, capaz de compreender a multifacetada e heterogénea atitude, por exemplo, de Fernando Pessoa, enquanto inclassificável e indomável. É, por isso, impossível encerrar António Quadros numa leitura retrospetiva da sua obra, sendo uma pessoa atenta à realidade que o cercava, como “homo viator”, capaz de compreender, como poucos, a filosofia da existência, assumida por Karl Jaspers e Gabriel Marcel, como podemos encontrar com nitidez em «Histórias do Tempo de Deus» (1965).


Quem conheceu António Quadros sabe bem a singularidade e a riqueza da sua atitude – de um homem de verdadeiro diálogo, nunca encerrado sobre qualquer posição de superioridade ou de certeza. E se, para entendermos o pensamento, precisamos de conhecer os pensadores, a verdade é que o humanismo e a proximidade eram referências que o tornavam alguém para quem o ato de pensar tinha a ver com a necessidade de nos compreendermos e aproximar-nos mutuamente. A dúvida metódica foi sempre uma leal conselheira para Quadros na demanda da verdade – já que considerava que à categoria tradicional do ser tornava-se necessário acrescentar a categoria do estar (ou do existir), donde decorria que a verdade deveria ser entendida com algo que englobava, que abarcava, que integrava a vida, ou seja, uma simbiose do testemunho pessoal e existencial, em que a transcendência tinha de partir da dignidade humana. Nesse sentido se demarcou de uma atitude transpersonalista, para assumir o reconhecimento da eminente dignidade da pessoa humana. «Não reconheço verdadeiramente adversários em minha volta (disse um dia), porque de todos me sinto irmão na origem da minha atividade, na geratriz da minha energia ao serviço de uma causa». E não podemos esquecer a invocação do Quinto Império de Vieira e de Pessoa, como domínio, não do poder, mas da cultura e do espírito, a realizar quando se unirem, o que o poeta chamava o lado direito e o lado esquerdo da sabedoria. O lado direito é o do conhecimento, do transcendente e do místico e o lado esquerdo o da ciência, da filosofia, da experiência e da razão. A criação do futuro haveria de resultar dessa ligação e dessa complementaridade.


RESPEITAR O PASSADO
«Desde muito cedo me choquei com a maneira como os portugueses falam de Portugal». Numa entrevista ao «Diário de Notícias», a Antónia da Sousa (11.3.93), fala-nos dessa sensação estranha que lhe causava o derrotismo fatalista. «Uma maneira constantemente depreciativa. Confundiam os aspetos materiais com os aspetos espirituais. Então, acho que essas pessoas (que são de todos os géneros, no meio intelectual e não só) não dão uma chance a Portugal. Põem Portugal no banco dos réus e condenam-no». Se é verdade que hoje a crise é mais sentida, o certo é que somos levados a ir além das simplificações. Não meias-tintas, temos mesmo de responder, sob pena de perdermos. «A minha mola psicológica (dizia António Quadros) é tentar ajudar a criar um outro estado de espírito, em que as pessoas possam entender melhor a razão de ser de Portugal e aquilo em que Portugal é grande e desconhecido».


Fora de uma mitificação da identidade, o que estaria em causa era o entendimento de que «a identidade portuguesa não é (…) qualquer coisa estática, mas qualquer coisa a construir». Daí a preocupação do ensaísta em reunir ideias e pensadores que animaram e contribuíram para a afirmação do país – como Fernão Lopes, o Padre António Vieira, os homens da Renascença Portuguesa, alguns do «Orpheu», como Fernando Pessoa… E António Quadros, um dos animadores do jornal «57», ao lado doutros discípulos de José Marinho e Álvaro Ribeiro, foi-se preocupando em alargar horizontes e esferas de reflexão. À ciclotimia portuguesa, haveria que saber contrapor o estímulo e a resposta de Arnold Toynbee, que nos levou além dos limites, perante os exigentes desafios da provação e da subalternidade. E assim pudemos ir superando: mediocridade, irrelevância e periferia. Portugal precisaria de pensar por si próprio. «Portugal, quanto a mim, nasceu para realizar uma obra de sentido universal e nós temos de estar à altura dessa exigência». E seguia as pisadas de Camões, de Vieira ou de Pessoa, refletindo sobre a complexa relação entre o mito e a profecia. Afinal, a previsão científica em História é, segundo pensava, mais problemática que a profecia. Esta, parte de uma crença e a ciência pode partir de um erro. Nunca a História ou o historicismo conseguiram fazer previsões ou leis, embora tal tenha sido tentado várias vezes. Afinal, os mitos e as profecias, mesmo que postos em dúvida, constituem o imaginário de um povo – sem o qual a identidade não existe. Leia-se, por isso, «Memórias das Origens – Saudades do Futuro» (Europa-América, s.d., 1992), livro dedicado a Afonso Botelho, Ariano Suassuna e Lima de Freitas.


AS BIBLIOTECAS DA GULBENKIAN
Refiro o pensamento de António Quadros, para invocar o seu papel de pedagogo e de estudioso da cultura, desde o papel fundamental desempenhado na Fundação Calouste Gulbenkian, até à fundação do IADE (Instituto de Arte e Decoração). E atenho-me em especial às Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, cujas repercussões são de uma importância fundamental. Pode dizer-se que a abertura de horizontes na educação em Portugal se deveu em parte importante a essa missão crucial. Em 1958, por sugestão de Branquinho da   Fonseca foi convidado para integrar os quadros do recém-criado Serviço das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, onde ocupou sucessivamente os cargos de Presidente da Comissão de Escolha de Livros, Inspetor-Geral, Diretor-Adjunto (1969) e de Diretor de Serviço depois da morte de Branquinho da Fonseca (1974) e de Domingos Monteiro (1980). Até dezembro de 1974 foram examinadas pelo Serviço 11.499 obras, tendo a Comissão de leitura sido inicialmente dirigida por Domingos Monteiro e constituída por António Quadros e Tomás Kim (Monteiro Grilo), sendo mais tarde composta por Patrícia Joyce, Maria João Vasconcelos, Natércia Freire, Orlando Vitorino e Breda Simões. António Quadros desenvolveu o seu trabalho nas Bibliotecas Itinerantes durante vinte anos, constituindo essa a sua principal atividade profissional. Percorreu o país de norte a sul, o que lhe permitiu um conhecimento circunstanciado do património cultural português, tendo constituído um acervo de imagens, fundamental para o conhecimento da História de Arte portuguesa.


A partir de 1971 assumiu a direção-geral do IADE, sendo docente das cadeiras de História da Arte e de Cultura Portuguesa, o que manteve ininterruptamente até 1992. Acumulou essa função com as de Diretor-adjunto das Bibliotecas Itinerantes, sob a direção de Branquinho da Fonseca, lecionando ainda na Universidade Católica Portuguesa Deontologia da Comunicação. Em 1972 com a demissão de Lima de Freitas como diretor do IADE deixou a direção-adjunta das Bibliotecas, ficando como Inspetor-Geral e vogal da Comissão de Leitura. Após o falecimento de Branquinho da Fonseca, em maio de 1974, António Quadros foi nomeado para exercer interinamente as funções de diretor de serviço das Bibliotecas Itinerantes, o que acontece até 1975, com a nomeação de Domingos Monteiro, regressando ao cargo de Inspetor-Geral. Depois da morte de Domingos Monteiro assumiu de novo o cargo de Diretor do Serviço das Bibliotecas Itinerantes (1980), mas no ano seguinte decidiu reformar-se antecipadamente na Fundação Gulbenkian, dedicando-se à sua obra, mantendo a atividade como diretor e docente do IADE e da Universidade Católica.


Nos domínios em que exerceu atividade, António Quadros demonstrou sempre uma grande coerência, considerando que «o grande problema moderno não é um problema económico, é um problema de valores e há uma riqueza de valores em suspensão em toda a cultura portuguesa». A verdade é que o pensador nunca desistiu da tarefa fundamental de «desentranhar esses valores», fazendo-os trazer para a luz do dia. O que deveria ser construído como império do futuro, não seria uma quimera, deveria ser algo a criar com o nosso pensamento e esforço. Com as Bibliotecas Itinerantes, a cultura ia até junto das pessoas nos lugares mais recônditos Tratava-se de um «mundo de valores que nos pertence a nós criar». Um país antigo apenas pode persistir com conhecimento, vontade e determinação. E, por isso mesmo, o pensador deixou-nos um apelo de esperança: «acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de nós e sem Portugal sereis menos do que sois».


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

NATÁLIA CORREIA (1923-1993)


O Centro Nacional de Cultura assinala o centenário de Natália Correia, no dia do seu nascimento, 13 de setembro, nome maior da cultura portuguesa contemporânea.


Foi uma voz rebelde que construiu o seu percurso literário e cívico juntando o talento poético e a energia, orientados pelos valores da verdade e da justiça. A sua voz é singular e presente. Nunca se fechou numa torre de marfim. Trilhou sempre os caminhos da liberdade. A «Mátria» era, para si, a demonstração da força da mulher e do feminino, como marca de sensibilidade e de determinação. E sobre a missão da mulher era claríssima: «Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. Se a mulher não espanta... De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento. Temos que ser um acontecimento uns para os outros. Então a pessoa tem que fazer o possível para deslumbrar o seu semelhante, para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Se chama a isso sedução, cumpri aquilo que me era forçoso fazer. O meu primeiro contacto com as pessoas é de uma grande afabilidade. Quando as pessoas recusam essa afabilidade, então eu dou-lhes o que elas me pedem: irascibilidade. Volto-lhes as costas irascivelmente, mais nada. Se é isso mau génio, talvez seja» (Entrevista de 1983).


Conheci Natália, já não no período da sua aura mítica de sedução, mas no tempo da sua força, do seu entusiasmo, da fantástica capacidade de afrontar tudo e todos, em nome dos valores em que acreditava. Convidei-a muitas vezes para debates e reflexões e nunca se negava, desde que o combate valesse a pena. A cultura para a poeta e para a escritora significava, a um tempo, ter capacidade criadora, e poder comunicar a força íntima. Era uma açoriana de gema, que fazia das suas ilhas encantadas um sinal indómito de autonomia e força anímica. Acreditava, por isso, nas identidades abertas – e proclamava a açorianidade como uma marca indelével de espírito e de vontade. O culto do Espírito Santo sobre que a ouvi falar, em cumplicidade estreita com Agostinho da Silva ou Lima de Freitas, era um modo de afirmar a sua heterodoxia, salientando como essa forma de pensar era um modo de afirmar a vontade de ligar o primado das pessoas ao sonho de uma utopia onde não houvesse amos e súbditos, onde houvesse a partilha plena da riqueza e onde uma mulher pudesse ser coroada com a coroa do Espírito. Nesta linha, demarcava-se com clareza de qualquer fechamento provinciano ou de um qualquer protecionismo cultural. Dava-se muito mal com o egoísmo e com a hipocrisia. Tantas vezes usou a sua coragem para desafiar os poderes mais instalados e subservientes. No caso do amor de Snu Abecasis e Francisco Sá Carneiro, não dissimulou, desde o primeiro momento, a sua consideração positiva. O mesmo se diga de tantas outras atitudes poéticas, intelectuais, políticas e cívicas, mesmo contra as correntes dominantes. Nunca regateou esforços por uma boa causa em que acreditasse. E o seu tempo e a sua atitude foram precursores em muitos combates – entre os quais o direito inalienável à diferença.


Dizia os poemas de Antero de Quental com uma verve e uma intensidade, como ninguém mais fazia. Compreendia Vitorino Nemésio, nas suas diversas facetas, ponto de encontro de desassossego e de inconformismo, como ninguém mais. Dialogava com Agostinho da Silva, de igual para igual, com o mesmo idealismo, mas sem esquecer a racionalidade. Recordava com saudade os tempos em que pôde usufruir da maiêutica de António Sérgio, em inesquecíveis tardes de sábado, com um chá gordo de ideias e de pensamento crítico. Eram épicos os serões no “Botequim”, onde tudo se debatia e de tudo se falava. David Mourão-Ferreira disse que ela foi a irmã que nunca teve. José-Augusto França considerou-a a “mais bonita mulher de Lisboa”. Mário Cesariny também se deslumbrava que a sua beleza que superava as melhores obras de Miguel Ângelo. Para Fernando Dacosta: “As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação”. A sua indignação era inexorável e não podia deixar alguém indiferente…


Um dia Natália, perante a acusação num tribunal plenário, propôs-se uma defesa intransigente e poética. O seu advogado pediu-lhe que não usasse o poema, uma vez que o mesmo lhe traria, por certo, dissabores, sendo, no mínimo, considerado ofensivo para o plenário. Hoje, lemo-lo como um verdadeiro manifesto pela liberdade. Sabemos que não foi dito, mas Natália tinha vontade e ânimo para o fazer. Ele representa, sobretudo nos dias de hoje, um alerta severo, contra as tentações que subalternizam a liberdade e que fazem regressar as formas mais subtis de condicionamento e de desenfreado populismo, que tendem a pôr a democracia entre parêntesis. A releitura do poema, publicado em “As Maçãs de Orestes” de 1970, fala por si e merece uma releitura permanente e atenta: «Senhores jurados sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. / Sou um vestíbulo do impossível um lápis / de armazenado espanto e por fim / com a paciência dos versos / espero viver dentro de mim. / Sou em código o azul de todos / (curtido couro de cicatrizes) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / Senhores banqueiros sois a cidade / o vosso enfarte serei / não há cidade sem o parque / do sono que vos roubei. / Senhores professores que pusestes / a prémio minha rara edição / de raptar-me em crianças que salvo / do incêndio da vossa lição. / Senhores tiranos que do baralho / de em pó volverdes sois os reis / sou um poeta jogo-me aos dados / ganho as paisagens que não vereis. / Senhores heróis até aos dentes / puro exercício de ninguém / minha cobardia é esperar-vos / umas estrofes mais além. / Senhores três quatro cinco e sete / que medo vos pôs por ordem? /que pavor fechou o leque / da vossa diferença enquanto homem? / Senhores juízes que não molhais /a pena na tinta da natureza / não apedrejeis meu pássaro / sem que ele cante minha defesa. / Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! /a poesia é para comer». Quando hoje voltamos ao poema, entendemos a dimensão singular de Natália Correia. E assim, podemos compreender não só a coragem de defender a liberdade criadora (que a levaria à condenação, com pena suspensa no caso da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”), mas também a determinação em não deixar por mãos alheias as causas cívicas em que genuinamente acreditava.


GOM

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G. GIL VICENTE


Que fantasma se segue? Um dos mais previsíveis. Um cultor de máscaras e da suprema arte de Thalia, que Talma celebrizou.. O sétimo fantasma respeita, assim, ao teatro. Das três graças da corte de Afrodite – Tália fazia nascer flores, Eufrosina dava sentido à alegria e Aglaia repesentava a claridade. Já François-Joseph Talma (1763-1826), seria o ator favorito de Napoleão, reconhecendo ao teatro uma essencial função na vida cívica, como arte por excelência da representação e da busca da verdade. O nosso Garrett seguiria esses mesmos passos, essenciais a um regime de liberdade. Mas em Portugal, é Mestre Gil (talvez autor da Custódia de Belém segundo Teófilo Braga, ou pessoa diferente segundo Camilo) o grande símbolo da representação da vida como movimento, liberdade crítica e ensinamento. Não tendo sido o primeiro no teatro português foi, no entanto, o mais célebre. De facto, Gil Vicente (c. 1465-1536), é uma das referências fundamentais da cultura e da língua portuguesas. Pouco se sabe dele, ou pelo menos muito menos do que gostaríamos, mas lê-lo e seguir a sua obra multifacetada e rica, é o modo que temos para poder compreender as nossas raízes. Lembremo-nos do “Auto da Índia” (1509), retrato das contradições das gentes na capital do Império e da presença dos “fumos da Índia”, mas também do “Auto da Lusitânia” (1532), que a audácia de Almada Negreiros representou como se os dois protagonistas – Todo o Mundo e Ninguém – fossem dois irmãos gémeos, como verdadeiramente o são. Quer no “Auto da Índia”, quer no “Auto da Lusitânia”, mestre Gil representou as figuras essenciais da epopeia da Índia como verdadeiros símbolos, o que levou Almada Negreiros a fazer uma interpretação livre na caracterização das personagens. Como acontece com a maior parte dos Autos, Comédias e Farsas de Gil Vicente, há um fundo ético, que não significa sisudez, mas que representa aguda consciência do picaresco. Este fundo lírico e religioso leva-nos às raízes trovadorescas, mais uma vez, designadamente aos temas das “Cantigas de Santa Maria” de Afonso X e ao “Cancioneiro Geral” de Garcia de Resende… E assim temos os Autos de Devoção (como da “Visitação”, no “Monólogo do Vaqueiro”, ou nos “ Auto da Alma”, de “Mofina Mendes” e na “Trilogia das Barcas”), as Comédias (como a “do Viúvo”), as Tragicomédias (como “D. Duardos”, e “Amadis de Gaula”), as Farsas (como “Quem tem Farelos?”, “Auto da Índia”, “Velho da Horta” ou “da Lusitânia”, com o célebre entremez “Todo o Mundo e Ninguém”), além das “Obras Miúdas” (como o “Pranto de Maria Parda”). E não esquecemos o que António Tabucchi disse sobre o nosso lado trocista e o culto de trocadilhos, dando como exemplo o Pranto de Maria Parda, onde ela diz “cada traque que eu dou é um suspiro de saudade”. Ruben A. e Nuno Bragança concordariam com a expressão bem portuguesinha. O “Auto da Lusitânia” foi representado quando a corte regressou a Lisboa, depois de ter passado a epidemia de peste na capital (1532). Retrata-se uma família judaica de Lisboa. Lediça, a filha do alfaiate Jacob, varre a “logea”. E entra um cortesão galanteador, fazendo-se a jovem desentendida. Sem sucesso, o atrevido sai, entrando o pai alfaiate, vindo de negócios na cidade. E um amigo diz que é preciso “inventar” um auto, pois a Lusitânia desperta em Portugal um amor especial.  Assiste-se então ao frutuoso casamento de Portugal com a princesa Lusitânia. Dinato descreve a Berzebu o diálogo entre Todo o Mundo e Ninguém. E conclui com a célebre frase “Todo o Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade”. A sobriedade e a sabedoria são qualidades que a Lusitânia e Portugal representam nas suas almas gémeas. Eis por que razão este sétimo fantasma diz, assim, muito sobre quem somos. Diferentes e insatisfeitos. Reconhecendo a imperfeição. Buscadores de mitos como chave da compreensão das nossas raízes.

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F. FERNANDO PESSOA


Zé Fernandes e porventura Jacinto poderiam ter encontrado um dos fantasmas de Pessoa… Como saído da lâmpada de Aladino, esse espírito encontra-se na misteriosa arca… Pessoa é um escritor vulcânico, di-lo Richard Zenith: “quando as palavras começavam a fluir, usava todos os tipos de papel à disposição – folhas soltas, blocos de notas, papel de carta dos cafés que frequentava, páginas arrancadas de agendas ou calendários, as costas de tiras de banda desenhada e folhetos, sobrecapas, bilhetes de visita, sobrescritos e margens de manuscritos alinhavados alguns dias ou anos antes. E todos eram por ele depositados na grande arca de madeira: a herança que deixou ao mundo.

«Mais surpreendentes do que os escritos exumados da arca (foram) as dúzias de alter egos desconhecidos que, depois de se esconderem lá durante anos, entraram no mundo como se tivessem sido despertados de um sono encantado”. Do filósofo esotérico Raphael Baldaya ao ultra-racional Barão de Teive, passando pelo único heterónimo feminino, o da tuberculosa Maria José, apenas três dos autores criados por Pessoa, tiveram desenvolvimento pleno – Alberto Caeiro da Silva (1889-1915) autor de “O Guardador de Rebanhos” e de “O Pastor Amoroso”; Ricardo Sequeira Reis (1887), médico, professor de Latim no liceu, autor de odes clássicas ao modo de Horácio, emigrado no Brasil e Álvaro de Campos, engenheiro naval, formado na Escócia, nascido em Tavira (1890), o mais assertivo e prolífico dos heterónimos pessoanos… Mas o mais importante trabalho de Pessoa em prosa foi o “Livro do Desassossego”, que “ilustra o princípio da incerteza que percorre o seu universo literário”. São quinhentos fragmentos, que apenas viram a luz do dia em 1982, cujo narrador é Bernardo Soares, um semi-heterónimo, para quem “o único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios”. Zenith compara esse livro ao de Robert Musil “O Homem sem Qualidades”. Contudo, a ausência e a sobreabundância de qualidades representam as faces contraditórias do homem moderno. Foi preciso tempo, porém, para que os leitores de Pessoa pudessem compreender uma poética de identidade fragmentada. Eduardo Lourenço foi quem, de modo original, pôde compreender os elos íntimos dessa misteriosa diversidade em “Pessoa Revisitado”. Talvez tenha sido positivo o atraso na revelação dessa obra crucial, para que a crítica pudesse ultrapassar as primeiras impressões. Com recusa do completo e do definitivo, Pessoa interessa-se pelo oculto e a heteronimia pode ser explicada como um meio quase religioso, mágico ou alquímico que permite progredir, na viagem espiritual de Pessoa, que anseia sentir por tudo de todas as maneiras possíveis. E há uma citação misteriosa e isolada, entretanto encontrada, de um fragmento da carta de S. Paulo aos Coríntios, que parece ser reveladora: “Eu me fiz tudo para todos, a fim de salvar a todos”. A diversidade é uma indelével marca pessoana. Nos amores, tem com Ofélia Queiroz uma relação indecisa e a marca de uma sexualidade difusa. Na política, António Mora defende a causa alemã na guerra, enquanto Pessoa se inclina para os Aliados, com entusiasmo limitado. A verdade é que é a arca, mais do que os testemunhos pessoais, a grande reveladora da vida misteriosa do poeta. Tímido e delicado na conversa, tinha sentido de humor, vestia com esmero e era muito educado. Há unanimidade na apreciação. Quanto a confissões autobiográficas, encontramo-las em toda a parte. Na “Tabacaria”, Campos fala do hipotético amor com a filha da lavadeira e acena ao Esteves pela janela. Tudo pode acontecer. Como afirmou John Keats, “a vida de um homem digna de valor é uma alegoria contínua”. O que Pessoa imaginou, visionou e projetou foi único na sua vastidão e variedade. - «Sê plural como o universo!» - escreveu de forma imperativa num papel encontrado na arca, na década de 1960. Que fantasma se segue?   

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D. DEUSES (CONCÍLIO DOS)


“Chiquinho” pôs-nos perante o dilema do ficar ou do partir – eis a grande dúvida, neste ponto do nosso folhetim… Se falamos de enigmas numa história de fantasmas, nada melhor do que seguir caminho até ao Olimpo, para nos encontrarmos perante um curioso debate entre espíritos supremos sobre esse dilema de seguir em frente ou de tornar atrás. Para chegar ao Olimpo é preciso passar por “perigos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana”. E damo-nos com um Concílio. Eu sei que podemos escrever Consílio, mas mantemos a fórmula comum, mesmo que esta se confunda com a reunião de um areópago religioso. Olimpo é mais do que isso, e mantem-se a letra c… “Já no largo Oceano navegavam, as inquietas ondas afastando” … “…Os Deuses no Olimpo luminoso / onde o governo está da humana gente / Se ajuntam em concílio glorioso”. E ouvimos a voz de Júpiter, a defender os portugueses, afirmando serem estes um povo de grande valor, como ficou demonstrado no tempo largo. É a coragem dos portugueses que os leva a navegarem em mares desconhecidos, em frágeis naus, enfrentando ventos e tempestades. Que diz o pai dos deuses? “Que sejam, determino, agasalhados / nesta costa africana como amigos, / E, tendo guarnecida a lassa frota / tornarão a seguir a sua longa rota” (C. I, 29). E eis que irrompe a voz de Baco, opondo a sua voz à decisão de Júpiter, argumentando que os portugueses se tornariam superiores a ele próprio no Oriente. Vemos aqui o confronto da primeira globalização. Baco teme a mudança. Júpiter compreende o desenho do novo mundo. Mas, depois de Baco, ouvimos Vénus, belamente representada na gravura de Desenne da edição de 1837 de “Os Lusíadas” do Morgado de Mateus. Vénus defende os portugueses porque se trata de gente que se assemelhou ao povo romano, em coragem e valentia. E assim com o contributo dos portugueses seria Roma, por certo, pela fama e pela língua, venerada também no Oriente. “Ou porque o amor antigo o obrigava / ou porque a gente forte o merecia”. E Marte também defende a estirpe dos descendentes de Luso ou Lisa, de Baco filhos ou companheiros, porque achava que eles bem o mereciam e, deste modo, Vénus estava na plena razão. Por isso, Marte ordena que se façam respeitar as ordens de Júpiter pois Baco não tinha razão, agindo por despeito, devendo os descendentes de Luso ou Lisa merecer recompensa. E Camões escreve no mármore puro: “E tu Padre de grande fortaleza, / Da determinação que tens tomada / Não tornes por detrás, pois é fraqueza / Desistir-se da cousa começada. / Mercúrio, pois, excede em ligeireza / Ao vento leve e à seta bem-talhada. / Lhe vá mostrar a terra, onde se informe / Da Índia e onde a gente se reforma”. Mas a história fantasmática prossegue, e Baco, inconformado, instiga o governador de Moçambique contra os portugueses e põe a bordo um falso piloto, mas graças a Vénus, às nereidas, a Mercúrio e à coragem de Gama, os portugueses chegam a Melinde. Inicia-se o relato ao rei Melinde da história de Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa” e das origens, de Viriato até à morte de Inês de Castro. É claramente o partir que prevalece e o longo e belo episódio da Ilha dos Amores corresponde à decisão de Vénus de premiar os navegadores por tal decisão, numa ilha paradisíaca.  E oiçamos o soneto: “Busque Amor novas artes, novo engenho, / para matar-me, e novas esquivanças; / que não pode tirar-me as esperanças, / que mal me tirará o que eu não tenho…”. Luís de Camões representa a maturidade poética da língua portuguesa. É o supremo cultor do idioma. Toda a obra do grande épico e lírico constitui oportunidade para lidarmos com uma riquíssima convergência entre o amor e a beleza, os maravilhosos pagão e cristão, servidos pelo domínio exemplar da palavra e da imagem. E prosseguimos assim a caminhada entre espíritos, como se estivéssemos numa máquina do tempo…

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C. CABO VERDE E «CLARIDADE»


O fantasma que encontramos hoje chama-se “Chiquinho”, nasceu em Cabo Verde em S. Nicolau, estudou em S. Vicente, regressou como professor a S. Nicolau, mas teve de partir para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor… “A identidade cabo-verdiana não poderia ter sido decretada por nenhum poder: foi, como aconteceu com todos os povos, o resultado final de muitas interacções…”. Leia-se “A Construção da Identidade Nacional – Análise da Imprensa entre 1877 e 1975” (Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia, 2006) de Manuel Brito-Semedo. É fundamental seguir a evolução do pensamento da elite intelectual cabo-verdiana no desenvolvimento dos níveis de instrução, através do qual é possível entender a riqueza e a singularidade da cultura cabo-verdiana. Os nativistas, na passagem do século XIX para o XX, da geração de Eugénio Tavares (1867-1930), sobretudo autodidatas, passaram o testemunho aos regionalistas, de trinta e quarenta do século XX, já formados no Liceu e alguns no ensino superior, que abriram caminho aos nacionalistas, formados nas Universidades da Metrópole. Houve, assim, uma continuidade que definiu o processo de maturação, que permite hoje entender a consolidação de uma rica identidade cultural. Saliente-se o papel desempenhado pelo magistério pedagógico de Baltasar Lopes da Silva (S. Nicolau, 1907-1989) e de António Aurélio Gonçalves (S. Vicente 1901-1984) que permitiu uma sólida transmissão da mensagem identitária. Enquanto no tempo de Eugénio Tavares prevaleceu o combate contra as leis discriminatórias que afetavam o nativo, reivindicando um estatuto semelhante ao que vigorava para os habitantes dos Açores e da Madeira, o período da influência de Baltazar Lopes pretendeu definir Cabo Verde como um caso de “regionalismo europeu”. Depois, a geração de Amílcar Cabral, com Gabriel Mariano, Manecas, Abílio Monteiro Duarte, José Leitão da Graça, José Araújo, Corsino Fortes e Onésimo Silveira enalteceu a componente cultural africana, como um caso de “regionalismo africano”. A dialética afirmação / negação marcou, assim, o século XX, o que permitiu enriquecer a “identidade complexa”, e abrir o caminho da independência e da abertura cultural. Uma síntese pressupõe sempre que se afirmem e, num dado momento, até se extremem, os diversos polos em presença, o que aliás permite o enriquecimento do resultado, como acontece na “caboverdianidade” contemporânea. E assim o homem crioulo nasceu em diálogo e em confronto – que envolveram o sobressalto nativista, que se centrou valores originais, e que evoluiu para a tomada de consciência regionalista e nacionalista, que conduziu à identidade nacional. As três gerações marcantes representaram, deste modo, uma continuidade. A reclamação do estatuto de igualdade, a reivindicação da diferenciação regional e a exigência de autonomia política aparecem, deste modo, imbuídos de uma coerência que foi concretizando a construção da identidade nacional. O romance “Chiquinho” de Baltazar Lopes (1947) constitui a ilustração de uma identidade crioula dual, entre os que ficam e os que partem – e a palavra “morabeza” traduz um afeto que baseia a hospitalidade e a solidariedade. E é marcante a revista “Claridade”, de Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes e Aurélio Gonçalves, publicada em S. Vicente, entre 1936 e 1960, por entre muitas dificuldades e vicissitudes materiais e dispersão de colaborações. O programa, no dizer de Manuel Lopes (1907-2005), era “fincar os pés na terra cabo-verdiana” e teve uma influência muito significativa no sentido de uma autêntica impregnação cívica e da procura das raízes mais fundas da cultura cabo-verdiana – “em contacto com a terra os pés se transformaram em raízes e as raízes se embeberiam no húmus autêntico das nossas ilhas”. Aí temos a modernidade crioula, ligada ao próprio e ao genuíno e ao universal, na busca da emancipação… “Você Brasil, é parecido com a minha terra. / As secas do Ceará sãos nossas estiagens, / com a mesma intensidade de dramas e renúncias” (Jorge Barbosa). Na identidade crioula, a raiz etimológica da palavra tem a ver com um permanente ato de criação. Além da geração da “Claridade”, houve outras influências: a Academia Cultivar, ainda na senda do movimento claridoso (tendo como órgão de imprensa “Certeza – Folha da Academia”, 1944, S. Vicente), a “Nova Largada” (Praia, 1958, com o Suplemento Cultural do “Cabo Verde”, com Aguinaldo Brito Fonseca, Gabriel Mariano, Francisco Lopes da Silva…) e do “Seló” (Praia, Folha de Novíssimos, 1962). “Chiquinho” põe-nos perante o dilema do ficar ou do partir – eis a grande dúvida, neste ponto do nosso folhetim…

 

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ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA


(Ilustração – “Paisagem com Caminho” de Lima de Freitas. Fund. Gulbenkian)


B.
BERNARDIM RIBEIRO


«Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava». Bernardim Ribeiro é um dos grandes mistérios da nossa literatura. Pouco se sabe e muito se especula. Foi amigo de Francisco Sá de Miranda, mas “Menina e Moça ou a novela Saudades” (Ferrara, 1554) é um verdadeiro símbolo da nossa tradição lírica, bucólica e romanesca… Eduardo Lourenço considerou o grande enigma razão suficiente para não se aventurar no seu comentário. Para Pina Martins, a história de “Menina e Moça” é uma novela sentimental. «Há que lê-la e não subentende-la. Há que interpretá-la à luz das categorias do seu tempo e não do nosso…». O primeiro romance principia pelo monólogo de uma jovem que não conhecemos nem de nome nem de condição. A jovem queixa-se, como numa cantiga de amigo, de uma dolorosa separação e de mudanças que a atiraram para o desterro de um monte solitário, onde vive há dois anos. E conta o que ocorreu dias antes, estando numa solidão sem medida. Viu a manhã formosa por entre os prados do vale, sentou-se debaixo de um freixo, à beira-rio, e não faltou muito que numa ramada viesse poisar um rouxinol. Cantou um triste trinado e caiu morto na corrente larga da água, que o arrastou para longe. Aproximou-se então uma mulher idosa, com quem a jovem encetou um diálogo sobre as desventuras de cada uma. E esta contou-lhe a perdição daquele lugar, em que dois amigos acabaram mortos à traição, deixando as suas amadas sós, à sua espera. Há um amor cavalheiresco, que lembra a saga de Amadis de Gaula, com duas narrativas, de Lamentor e de Avalor. O cavaleiro Lamentor, chega de longes terras, acompanhado de Belisa, dele grávida, e de Aónia, duas irmãs. Belisa dá à luz Arima, mas morre na sequência do parto. Entretanto, em momento inesperado e trágico, Lamentor mata o Cavaleiro da Ponte e chega um desconhecido, Binmarder (anagrama do autor), que se apaixona por Aónia e pela sua extraordinária beleza. Há, assim, três núcleos deste misterioso enredo: Lamentor e Belisa, que constituem o início do relato, Binmarder e Aónia; e Avalor e Arima… Binmarder e Avalor marcam a narrativa com uma geração de permeio, de Aónia à sobrinha Arima, órfã de Belisa. Aónia e Arima encontram destinos semelhantes; amam e são amadas por homens comprometidos, com Aquelísia e a Senhora Deserdada. Binmarder e Avalor estão condenados a viver o sofrimento da separação. E temos um caleidoscópio de amores: Aquelísia ama Binmarder que ama Aónia, obrigada a casar com um vizinho e a Senhora Deserdada ama Avalor que ama Arima. Encontramos, assim, um mundo de amores e desencontros – num romance que termina com uma dama ultrajada nos seus desejos amorosos, que pede ajuda a Avalor… O amor e o sofrimento estão, assim, sempre presentes. E é a saudade ou soydade que faz Lamentor ficar para sempre ligado à memória de Belisa, como Avalor à esperança de encontrar Arima. A saudade, como lembrança e desejo, é sofrimento e esperança, feitos de separação e ânsia de regresso, numa dimensão religiosa e lírica que Pina Martins considera cristã, e que Helder Macedo vê à luz da tradição judaica. Bernardim é, pois, um símbolo da tradição antiga do amor saudoso dos trovadores provençais…

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ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA


(Ilustração de Sarah Afonso e Almada Negreiros)


A. ATLÂNTICO, AFONSO HENRIQUES E SANTO ANTÓNIO


A iniciar este folhetim pegamos na palavra antológica de João Bénard da Costa, há dois dias no nosso blogue. Falava ele do “Fantasma Apaixonado” e de Mrs. Muir no filme celebrado de J. Mankiewicz de 1947. De facto, vamos entrar num domínio de histórias de fantasmas. Este abecedário seguirá a ordem das suas letras, e procurará encontrar as referências da nossa cultura, começada neste ocidente peninsular e depois espalhada pelo mundo. Para nos compreendermos, que outro método poderíamos seguir senão o de ir ao encontro dos velhos espíritos? E Unamuno muito se admirou por haver tantas Alminhas nas encruzilhadas das nossas estradas e caminhos… Somos Finisterra, e é o Atlântico, o Mar Oceano, que primeiro referenciamos. Mar, que também foi batizado no feminino, La Mar, como “Flor de la Mar” de Albuquerque. O Atlântico não é pessoa, mas é personagem; tão importante, que o nosso primeiro rei a considerou essencial. Em lugar de alimentar sonhos continentais, Afonso Henriques preferiu partir em direção ao Sul. O conflito de S. Mamede, com sua Mãe, foi bem diferente do que por aí se diz e teve a ver com uma atitude de elementar realismo. Mais importante do que se meter nas ambições leonesas, asturianas e galegas, haveria que abrir caminhos em terras moçárabes, procurando pôr ordem nos reinos taifas de fronteiras incertas, fazendo de Coimbra eixo de gravidade e da linha do Tejo um objetivo seguro. E eis que os três AA se encontram: o próprio Mar Oceano que limita e abre horizontes até ao Promontório Sacro e depois às Ilhas Encantadas; o primeiro Rei, Afonso, que transformou a vontade em, Povo, como construção, aberta e livre, e Frei António, o mais popular de todos os santos. Ainda que Pádua seja tantas vezes referida para identificar o mais célebre dos santos portugueses, a verdade é que é Portugal que Frei António referencia. Natural de Lisboa foi exemplo na Escola de Coimbra de Santa Cruz. Motivado pelos mártires de Marrocos tornar-se-á o primeiro dos teólogos franciscanos, modelo único de taumaturgo com excecional carisma popular – desde as causas perdidas a ser casamenteiro, de cidadão a portador de paz. O humanismo universalista simboliza-o e projeta a cultura como projeto e expressão múltipla da dignidade humana. E, simbolizando ainda o Atlântico, como fronteira natural da terra portuguesa, reza a antiga lenda que ao romper da aurora de 14 de setembro de 1182, D. Fuas Roupinho, alcaide do Castelo de Porto de Mós e Almirante da Esquadra do Tejo, nomeado por D. Afonso, caçava junto ao mar, envolto por um denso nevoeiro perto de suas terras, quando avistou um veado que começou a perseguir. O veado, que era o demo, dirigiu-se ao cimo de uma falésia e D. Fuas, no meio do nevoeiro, isolou-se dos seus companheiros, e depressa chegou ao topo do penhasco, à beira do precipício. Estava mesmo ao lado da gruta onde se venerava Santa Maria e o Menino Deus. Rogou então, em alta voz: Senhora, Valei-me! E de imediato o cavalo estacou, fincando as patas no penedo suspenso sobre o vazio, hoje chamado Bico do Milagre, salvando-se o cavaleiro e a sua montada da certa morte…

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 2 a 8 de janeiro de 2023


Graça Morais e Lídia Jorge têm pontos de encontro. Há um diálogo entre as obras de ambas, que nos permite entender como a cultura portuguesa contemporânea, para ser adequadamente compreendida, necessita de uma procura das raízes e dos seus desenvolvimentos.


UMA IDENTIDADE PRÓPRIA
A obra de Graça Morais tem uma identidade própria, em que violência e ternura se encontram, na expressão de Fernando de Azevedo. Não podemos compreender a sua pintura sem entender o sentido do caminho trilhado e a ligação às raízes.  Assim se compreende que “As Escolhidas” fossem “trabalhadoras de uma classe que viveu mal, todas elas falam de uma infância em que passaram fome e andaram descalças. Havia o domínio do masculino sobre o feminino”. Graça Morais é uma artista comprometida. O clima duro e adverso transmontano está vivo na sua pesquisa, através da representação das pessoas concretas que são protagonistas da sua obra. E a sua mãe, forte e corajosa, é quem lhe transmite a determinação e a agudeza do olhar. Como disse Jeanette Zwingenberger: “a paleta de Graça é a da terra e a da luz. Nos seus desenhos a sépia e a tinta-da-china, regista com um traço a força vital da natureza: a eclosão de uma romã, um ramo de oliveira, cerejas, o voo de um inseto ou a agitação febril de um cão. A série da perdiz, seu animal totémico, traduz o ciclo da maturação, do voo, e mais tarde da decomposição”. E o imaginário da infância está bem presente, correspondendo o bestiário a uma verdadeira metáfora da vida. Os gafanhotos evocam tanto as mulheres lutadoras como “anjos de asas translúcidas”, ainda na expressão de Zwingenberger. E são os mitos da natureza e da vida que encontramos nos temas que a artista escolhe. Como diria Octavio Paz e também Eduardo Lourenço: “vemos numa coisa outra coisa”. E a ideia de metamorfose torna-se essencial para entendermos a originalidade da obra. Segundo Fernando Pernes, “os frutos aludem caprichosamente à fecundidade dos ventres maternais”. E, na palavra de Nuno Júdice, há “uma descoberta de passados secretos, revelando que nada morre”. As raízes populares, que Graça Morais vai recordando, esclarecem-nos sobre essa continuidade.  Os caretos representam a interrogação dos mitos e a força da relação múltipla no seio da natureza, entre vencedores e vencidos. Por isso, a pintora faz a natureza dialogar em si mesma trazendo à luz do dia a diversidade da vida. E nessa demanda encontramos as referências fundamentais que a influenciam: Miguel Ângelo, Goya, Van Gogh, Picasso e Bacon. Mas a poesia e o romance também a atraem – Torga, Sophia, Saramago, Nuno Júdice, Agustina, Maria Velho da Costa, Vasco Graça Moura, Manuel António Pina, além da omnipresença de Ovídio nas “Metamorfoses” ou de Dante na “Comédia”. E o teatro, de Shakespeare a Jean Genet está igualmente evidente. Há, deste modo, uma permanente procura da identidade da artista, através da interrogação sobre a existência e a busca do universo.


CONTRA O MEDO, A DETERMINAÇÃO
O medo, a violência, a incerteza, as dúvidas misturam-se com a determinação e a luta. A série “A Caminho do Medo”, apresentada na exposição “Tudo o que eu Quero”, na Gulbenkian e depois em Tours, revelam-se proféticas. Tendo sido concebida em 2011, durante a crise económica, a austeridade e a emergência da chegada dos refugiados, anuncia já a pandemia e a guerra, numa sucessão de momentos dramáticos, representados por uma estranha máscara cirúrgica, apanágio do confinamento que viria depois. E os tempos que aqui se configuram (crise, drama dos refugiados, pandemia e guerra da Ucrânia) definem a incerteza e o medo, que continuam a pôr a humanidade de sobreaviso. A liberdade e a dignidade tornam-se, deste modo, fatores capazes de contrariar o puro ceticismo, seguindo os passos determinados das mulheres, e em especial de sua mãe, trazidas à ribalta na sua produção artística. Como Helena de Freitas lembra: num diário na aldeia, a artista “corporiza a perdiz, o animal que na cadeia da sobrevivência é o animal caçado, que na representação simbólica evoca o feminino na sua duplicidade de luxúria e morte”. “As minhas personagens (lembra a artista) são sempre vítimas, mas que resistem”. E temos assim um inequívoco sinal de esperança, que a dinâmica constante e interminável das metamorfoses nos dá. O mundo transforma-se e aperfeiçoa-se. Se há um paralelo digno de nota entre duas mulheres artistas na cultura portuguesa contemporânea, é o encontro entre Graça Morais e Lídia Jorge. Ambas representam, de modo diferente, uma ligação íntima e insofismável às raízes. E se Trás-os-Montes e o Algarve são distantes, o certo é que têm proximidades maiores do que pode parecer à primeira vista. Portugal é, afinal, o continente em miniatura, que está cheio de tensões e complementaridades que a pintura de Graça Morais e a literatura de Lídia Jorge revelam de um modo exemplar. Tradição e modernidade são chamadas a conciliar-se, num caminho emancipador. E as mães de ambas são símbolos que as aproximam, como intérpretes e mediadoras, cuja influência se projeta nas respetivas obras. Se nos ativermos, aliás, a Misericórdia (D. Quixote, 2022) podemos entender em que medida há uma especial ligação às raízes, à presença e à ausência, à continuidade e à interrogação a respeito do choque entre esperança e desespero. E Lídia Jorge sente uma angústia semelhante à de Graça Morais: “Há trinta anos, nós tínhamos um programa para sair da ruralidade da escola. Aconteceu que, entretanto, o mundo tecnológico veio contrariar esse projeto. E está provado que os países que têm menos tradição letrada e cultural incorporam acriticamente a informação, tendo uma noção de vanguarda – porque é muito fácil uma pessoa quase analfabeta manejar com muita facilidade todos os gadgets – e transitaram de uma cultura iletrada para uma cultura tecnológica, sem passagem pelo filtro civilizante. Foi o caso da sociedade portuguesa, que não tinha suficientes hábitos de leitura, de crítica, de liberdade ou de ousadia da expressão do pensamento para o evitar” (entrevista, revista “Ler”, Inverno de 2022). Lídia Jorge vê aqui o perigo de uma nova barbárie, que pode resultar da recusa da coragem de assumir as diferenças e os riscos, sem a tentação do complexo por não se ser o melhor e o mais avançado, esquecendo que importa cuidar do nosso jardim, sem pretendermos ser melhores ou piores, mas tão só nós mesmos, abertos à compreensão dos outros e dum caminho de verdadeiro diálogo de culturas, baseado no melhor conhecimento mútuo.


UM DIÁLOGO PORTUGUÊS
O diálogo na sociedade portuguesa passa por esta tensão, representada nos dois polos sobre que Graça Morais e Lídia Jorge procuram refletir, o respeito das raízes e a recusa do fatalismo do atraso, num sentido de emancipação, capaz de entender os riscos do medo e da uniformização, da indiferença e do esquecimento. O compromisso deve ser com a humanidade e a dignidade do ser. As personagens que são vítimas resistem e o sinal de esperança baseia-se na ideia da metamorfose, num mundo que se transforma e aperfeiçoa. Eis o ponto em que Graça e Lídia se aproximam.  

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de dezembro de 2022


No centenário de José-Augusto França recordamos os passos fundamentais da sua vida como referência fundamental da cultura portuguesa.


HOMENAGEM DA UNESCO
Quando a então Diretora-Geral da UNESCO, Irina Bokova, homenageou José-Augusto França, em 2012, na passagem dos seus noventa anos, sublinhou o que representou um reconhecimento internacional da maior justiça. Disse então: “Grande historiador, crítico de arte e escritor prolífico, os trabalhos de J.-A. F. alargaram consideravelmente o nosso olhar sobre os séculos XIX e XX, em particular sobre a criação artística em Portugal e na Europa. Especialista mundialmente reconhecido na arte portuguesa, autor de um livro fundamental sobre o Romantismo em Portugal, o Professor França teve um papel esclarecedor sobre as origens da nossa própria modernidade, explorando algumas das mais importantes fases da história da civilização europeia. A sua obra é testemunho de uma infinita curiosidade pela cultura sob todas as suas formas: arte, literatura, teatro, cinema, alargando as fronteiras de qualquer destas disciplinas. A sua paixão e o seu empenho ressoam no coração das atividades da UNESCO, mostrando de maneira brilhante a importância da cultura para a compreensão da sociedade em geral”. O percurso e a obra de José-Augusto França merecem uma análise circunstanciada, nos diversos campos em que desenvolveu atividade. Quando hoje relemos “Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal” compreendemos a importância do que ocorreu na sequência da catástrofe de 1755, na profunda renovação do urbanismo, nos alvores da chamada idade contemporânea. Como nos casos de S. Petersburgo e de Washington, D.C., na reconstrução global da cidade de Lisboa deparamo-nos com a antecipação de um tempo no qual emergiu uma nova conceção e organização das sociedades. Os três casos são, assim, considerados internacionalmente como modelares e o caso da capital portuguesa assume um especial significado por se tratar de uma sociedade destruída, que foi referida por Voltaire e Kant, e para a qual houve capacidade para começar de novo.


A RECONSTRUÇÃO DE LISBOA
O processo de planeamento e reedificação de Lisboa foi estudado criteriosamente pelo historiador, que afirmou: “A sua criação tornou-se possível graças a uma legislação que soube ligar o facto urbanístico ao facto político, dentro duma visão global onde se verificam perspetivas sociais e económicas, tanto como culturais e ecológicas. Entender a cidade como um todo foi a razão de ser do fenómeno sócio-cultural pombalino, num processo de prática coletiva ligado ao passado tanto quanto ao futuro, à tradição tanto quanto à modernidade, necessários ambos para a definição de um discurso ideológico coerente. Dentro dele, o interesse público era devidamente sublinhado, novo valor que uma nova classe encarnava, com uma nova função. Tal função expressou-se na ‘Praça do Comércio’, na sua monumentalidade tanto como no seu nome, ambos adequados ao papel simbólico, senão mítico exercido no quadro duma sociedade reformada por via iluminista”. A compreensão da obra complexa de Pombal aliou-a José-Augusto França ao estudo do que se seguiu a esse segundo terramoto, que foi a edificação de uma nova cidade. Como ficaria demonstrado no extenso estudo sobre o Romantismo, o estudioso procurou olhar a realidade social, económica e cultural de Portugal em termos complexos e dinâmicos – procurando olhar a modernização a partir das raízes pré-existentes, articulando a tradição e as resistências conservadoras às forças e intenções modernizadoras, bem como aos seus resultados. E a Lisboa pombalina nasceu dos esforços conjugados de três gerações diferentes e de três perspetivas geracionais, representadas por Manuel da Maia, um velho general com mais de oitenta anos, que procurou “acordar” o antigo e o moderno; por Carlos Mardel, vindo de fora, para quem o barroco “ganhara desinências de elegância cosmopolita” mais moderna, e por Eugénio dos Santos, falecido jovem, esgotado de trabalho, para quem era necessária uma cultura nova adequada às circunstâncias. Maia representou a transição de dois séculos, Mardel, o fim do primeiro quartel de setecentos e Eugénio dos Santos, os meados racionais do século.


Se virmos bem, o percurso de vida de J.-A- França foi feito sempre com larga intervenção no campo da cultura, designadamente no período surrealista, na Galeria de Março e em “Unicórnio” e seguintes, representando na escrita e na historiografia a capacidade de ligar o pensamento e a ação. A análise pioneira do Romantismo, considerado com um longo período corresponde a essa ambivalência criativa. Afinal, o caminho português obrigaria a entender a História, desde os prolegómenos iluministas de Pombal, da relevância das guerras peninsulares até às origens do liberalismo, da Revolução de 1820 à vitória liberal de 1834, início do processo romântico português, a culminar em 1880, “no momento em que se caracteriza uma viragem da sociedade portuguesa, e onde sobretudo esta sociedade toma consciência dos seus próprios valores – e da sua própria falência”. E as datas charneira são 1835, 1850, 1865 e 1880. E é neste ponto que o historiador passa do reconhecimento da importância do naturalismo oitocentista, com os seus avanços e recuos, para o seu esgotamento e para a génese do modernismo do século XX. E não por acaso Rafael Bordalo Pinheiro surge como referência especial, na transição, ao caricaturar o romantismo que decai e se transforma. E são 1915 e “Orpheu” que emergem no novo século XX com intensa energia – na heteronímia de Fernando Pessoa, ao lado de Amadeo de Souza-Cardozo, “o Português à Força” e de Almada Negreiros, “o Português sem Mestre”.


UM AUTOR MULTIFACETADO
A obra rica e multifacetada de escritor leva-nos ao romance, de que é um exemplo “A Bela Angevina” (2005), baseado numa estada de Eça de Queiroz no Hotel du Cheval Blanc, em Angers, onde poderia ter encontrado uma jovem, cuja fotografia conhecemos. Tê-la amado e sido amado por ela, cerca de 1880? J.-A. França cria esse encontro, com base em documentação conhecida e também imaginada, numa história atraente que passa por Paris, Bristol, Lisboa e sobretudo por Angers, onde Eça teria escrito o “Mandarim”, enquanto ia andando às voltas com “Os Maias”. A biografia do historiador de Arte é significativa – professor da Universidade Nova de Lisboa, presidente do Centro Nacional de Cultura (1974-76), do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa (1976-79), diretor da revista Colóquio – Artes (1971-76), diretor do Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian de Paris (1983-89), membro do Comité do Património Mundial (UNESCO) (2001-2005), presidente do Conselho Literário do Grémio Literário, sócio emérito das Academias das Ciências e Nacional de Belas-Artes (a que presidiu em 1976-79), presidente de honra da AICA – Association Internationale des Critiques d’Art. Em qualquer destas funções teve sempre um papel fundamental. Ao recordarmos as ações que desenvolveu é impressionante o que nos legou como chave essencial dos tempos que atravessou e soube sempre interpretar de modo inexcedível. Não é possível conhecer a história da Arte portuguesa dos dois últimos séculos sem estudar o que o mestre nos deixou, com o rigor e a sabedoria que são dignos da melhor memória, num permanente diálogo entre o autor e o crítico, como na luta entre Jacob e o anjo, capa do seu derradeiro livro.     

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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