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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de março de 2021

 

“A Mocidade de Herculano” é a dissertação de doutoramento de Vitorino Nemésio (1934). Mas é muito mais do que isso: é o romance de uma figura cultural única e marcante – e aí encontramos não só a paixão poética, mas também a mestria romanesca, que prenuncia o genial “Mau Tempo no Canal”.

 

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Na década emblemática de 1930, devemos chamar à colação Vitorino Nemésio de um modo talvez inesperado, mas depressa compreensível. Refiro-me à dissertação de doutoramento “A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio”, defendida em 1934, que constitui muito mais do que um documento académico, já que é uma obra-prima da ensaística portuguesa. E se falo desta referência é porque não é despicienda a escolha do tema e o seu tratamento. Pode dizer-se que é o romancista e o poeta que aqui se anunciam, o que nem sempre foi bem entendido no claustro académico. Bem assinala David Mourão-Ferreira “o rigor da minudência erudita e a certeira intuição de quem sabe sondar, a um século de distância, toda a complexidade de um grande destino que se vai construindo”. Herculano surge como uma grande personagem, como um defensor da liberdade, num caminho de dúvidas e incertezas, mas um verdadeiro símbolo de um pensamento que estava em perigo quando o investigador o escolheu. Sente-se no jovem Nemésio uma especial identificação, subtil é certo, mas evidente – sobretudo por contraponto a um tempo em que o panorama político se apresentava como adverso relativamente à defesa e preservação dos valores queridos pelo historiador. Quando lemos “A Mocidade de Herculano” sentimos que o rigor historiográfico permite a construção de um quadro narrativo de uma grande riqueza, em que a singularidade se junta à necessidade de compreensão do contexto social e político – que será de grande utilidade para a riqueza da obra romanesca do autor. “Tenho pensado e vivido tanto com Herculano, que agora sou assim uma espécie de seu neto póstumo. Neto, não!, que o meu avô mais velho nasceu em 1841 (…) e Herculano é de 1810. E, mesmo para o meu bisavô, talvez fosse velho de mais. Como seria meu bisavô? Sei ou julgo saber como foi Herculano: não sei de meu bisavô senão por vagas memórias”. E o escritor lembra, ao menos, que em 1832, quando Herculano desembarcou na Terceira, o historiador e seu bisavô respiraram o mesmo ar, qualquer que fosse a distância a que tivessem estado. Estamos perante um verdadeiro romance, mas é o “abalo do poeta” que está na raiz do biógrafo. Perante a massa enorme de elementos sobre a emigração portuguesa existente no Museu Britânico, Nemésio restringe-se ao exílio de Herculano, “não sem investigar manu diurna et nocturna (como diziam nossos mestres), em três anos de full time, todo o âmbito da operosidade e da espiritualidade do escolhido. Interessava-me o homem inteiro (…) sempre e em tudo indistintamente filósofo, poeta – homo sum, nihil humanum a me alienum…”. A leitura dos dois volumes é apaixonante, porque neles deparamos com o feliz encontro de uma irrepreensível análise histórica e literária, que enriquece um percurso acidentado de carácter pessoal, com uma magnífica ilustração do contexto cultural europeu e nacional. Sentimos a presença desde a comum mediania à emergência de uma perceção elevada das mais relevantes personagens do tempo. “Emigrei da idade de vinte anos em consequência da infeliz tentativa da revolução do 4º Regimento de Infantaria, tentativa conduzida com tanto valor pelos meus honrados amigos o capitão Albino Francisco de Figueiredo e tenente-coronel Bravo…”.  E assim Herculano foi cúmplice de um “agente incógnito” e teve de fugir para a fragata “Melpotmène” e depois para bordo de um paquete inglês que o levou ao litoral da Mancha. E por muito que Inocêncio (o dicionarista) se afadigasse em referir as origens miguelistas de Herculano, a verdade é que encontramos o percurso natural de um português num tempo de contradições, cuja coerência determinada é feita de um percurso sempre sério e refletido…

 

AINDA O SIGNO DA LIBERDADE

Se a liberdade é o pano de fundo na prova académica de Nemésio no tempo em que o horizonte se enchia de nuvens totalitárias, na década seguinte Mau Tempo no Canal é a obra-prima, escrita nos anos de início da Guerra, a partir de 1939, na qual encontramos também o elogio da liberdade, na personalidade de Margarida Clark Dulmo, num tom original a superação dos limites do psicologismo “presencista”, bem como da lógica social neorrealista. É algo de próprio e de original, que podemos aproximar do rigor da “Mocidade de Herculano” de uma extraordinária dimensão poética. Trata-se de uma narrativa que concilia o genuino sabor local e uma reflexão universalista, relaciona a singularidade e o destino, o mistério e o presságio, o sonho e a tragédia. David Mourão-Ferreira classificará, com justiça, a obra romanesca como «a mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária». Margarida e João Garcia protagonizam, de início, um namoro contrariado pelas relações tensas entre as famílias de ambos, no contexto da sociedade açoriana plena de ressentimentos, medos, angústias, contradições, uma família de raízes aristocráticas, mas em situação difícil, e a ambição de um novo-riquismo desejoso de legitimação. E a grande metáfora é a da melancolia das ilhas e do mar oceano, da distância, mas também da liberdade e da esperança, da incerteza e da dúvida sentidas, em especial, entre o Faial e o Pico, entre o anfiteatro da cidade da Horta e o majestoso Pico, referência mítica do tempo que permanece inexorável, belo e ameaçador. Fica lembrada a carta de Antero a Oliveira Martins: “Aqui nos Açores, há um provérbio que reza: ‘S. Miguel, burgueses ricos; Terceira, fidalgos pobres; Faial, contrabandistas espertos’. Com efeito, a Terceira é uma terra essencialmente portuguesa e peninsular: fidalguia, pobreza, toiros, insouciance sóbria e filosófica, entusiasmo, bizarria e parlapatice: numa palavra os defeitos e as qualidades correspondentes do idealismo peninsular, que V. tão bem conhece e não menos bem descreveu já”… Margarida é a figura marcante do romance, forte e sensível, inteligente e arguta, livre e determinada, uma personalidade que não nos pode deixar indiferentes, porque compreende como ninguém a terrível teia em que está envolvida, entre sonhos e augúrios. Como é insondável o destino. Mas, no final, sente-se cega…"cega como a serpente do anel que nenhum ventre de peixe levaria a mesa humana e que àquela hora jazia, como a cucumária dos abismos, no mais secreto do mar"… E entre a força destas duas obras maiores da cultura portuguesa, lembramos o que Nemésio considera ser a sua existência. “Toda a vida estudei de tudo e o mais que podia para o que desse e viesse. Não me preparava dia a dia para amanhã e depois ou racionando, como a formiga, do verão propício ao Inverno rigoroso. Mas talvez não fosse apenas leviano, como a cigarra, pois tive de dançar no Inverno e cantei sempre”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 a 31 de janeiro de 2021

 

“Contos Populares Portugueses” de Adolfo Coelho (Paulo Plantier, 1879) constitui uma tentativa séria de preencher uma lacuna na cultura portuguesa e que tem a ver com a ausência de uma recolha sistemática, ao longo dos séculos, de exemplos coevos da cultura popular no imaginário literário.

 

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CONTOS DA CULTURA POPULAR

Como diz Adolfo Coelho (1847-1919) no prefácio da obra: «Os contos que publicamos não têm todos igual valor, mas oferecem todos mais ou menos interesse sob o ponto de vista tradicional. Em regra, pode considerar-se a tradição dos contos entre nós como assaz obliterada; falta-lhes vida, poesia, muitas vezes referência; muitas feições significativas em versões doutros países tornaram-se aqui ininteligíveis e só pela comparação se explicam. A sua forma em geral é seca, monótona, enumerativa. Alguns, porém, apresentam-se ainda numa forma excelente, menos deturpados por elementos modernos; noutros, como em todos os países sucede, há o resultado de estranhas combinações de elementos de contos diversos». Insiste o pedagogo que os contos populares «não são ridículas invenções, boas só para divertir gente rude, que não tem cousa melhor para pasto do seu espírito e da sua ociosidade» - e continua: «muita gente, séria e grave na própria opinião, pasmará de que haja quem gaste o seu tempo com tais coisas; mas algumas pessoas haverá também que queiram aprender e para essas escrevemos as observações que seguem, desnecessário aos que estão ao corrente da ciência». Mas reconhece que «a novelística culta de fundo tradicional é um dos ramos mais pobres da nossa literatura; por essa razão a história dos contos populares entre nós não se pode estudar com a clareza que haveria se tivéssemos numerosos documentos do género do que trasladamos. O Orto do Esposo e os Contos de proveito e exemplo de Gonçalo Fernandes Trancoso assumem, por isso, uma importância excecional». A mais antiga edição desses contos é de 1575, segundo Teófilo Braga, mostrando que foram escritos por ocasião da peste de 1569. E Trancoso terá usado a tradição popular como fonte». Entre os contos populares reunidos por Adolfo Coelho, podemos referir: A história da Carochinha; A Formiga e a Neve; O Rabo do Gato; A Torre da Babilónia; Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga; História do Grão-de-Milho; O Príncipe Sapo; O homem que busca estremecer, O Príncipe com Orelhas de Burro; Os Três Estudantes e o Soldado; a Moura Encantada…

 

CIDADÃO E PEDAGOGO

Francisco Adolfo Coelho foi pedagogo, filólogo, etnólogo, linguista e escritor. Exerceu funções de professor do Curso Superior de Letras, onde ensinou Filologia Românica Comparada e Filologia Portuguesa, foi diretor da Escola Primária Superior e lecionou na Escola do Magistério Primário de Lisboa, onde organizou o Museu Pedagógico. Nas Conferências do Casino, em 1871, tratou do tema “A Questão do Ensino”, onde defendeu a separação da Igreja do Estado e a promoção da liberdade de pensamento, como essenciais para o progresso do País pela Instrução Pública. O novo Portugal nasceria, para Adolfo Coelho, da incorporação da cultura popular num projeto da nação no qual a Educação fosse central. As tradições do povo, o seu saber e a pedagogia popular seriam considerados para alicerçar a modernização da sociedade portuguesa e o espírito da sociedade nova centrados na sua cultura. Figura considerada e prestigiada teve nas duas primeiras décadas do século XX um papel importante, designadamente na institucionalização da República, em especial no tocante à organização do ensino secundário superior. Assim, acentuou a necessidade de só se apresentar aos educandos aquilo que estivessem preparados para entender e de lhes dar liberdade de escolha entre algumas disciplinas de opção nas classes superiores do ensino secundário.

 

UM CONTO ATUAL

Como exemplo de pedagogia pela recordação da cultura popular, lembramo-nos do célebre conto tradicional das culturas europeias, que muitos de nós ouvimos contado pelas nossas avós. “O Homem que busca estremecer”, incluído nos “Contos Populares Portugueses”, que constitui uma versão nossa do velho conto dos irmãos Grimm do jovem que partiu em busca do medo. “Era um homem rico e tinha um filho que nunca estremeceu com nada. Dava-lhe o signo dele de ir passar muitas terras e nunca seria timorato, nunca teria medo a cousa nenhuma”. Pediu então o filho a seu pai que lhe desse o seu quinhão para poder partir em busca do medo que lhe faltava. E assim aconteceu, enfrentando mil situações aterradoras. Com demónios estoirando dentro de casas, sempre sem o mínimo calafrio. A tradição germânica relatada pelos Grimm é semelhante. “Um pai tinha dois filhos, o mais velho deles era sábio e sensato, e sabia fazer tudo, mas o mais novo era tolo, e não conseguia aprender nem entender o que quer que fosse”. Mas enquanto o mais velho se negava a ir para locais sombrios e assustadores, nada atemorizava o mais novo. Por mais que tentassem, nada havia que lhe metesse medo – até que um pobre sacristão ficou em muito mau estado quando quis assustá-lo como se fora um fantasma, pois o jovem não se deixou perturbar pela suposta ameaça. Então partiu pelo mundo em demanda do medo. Com cinquenta moedas no alforge, enfrentou perigos, até com risco de vida, mas sempre sem o menor temor. José Gomes Ferreira também tratou do tema nas “Aventuras de João sem Medo” (inicialmente publicadas nas páginas da revista “O Senhor Doutor”, em 1933). Aí, cansado de viver numa terra de choros e queixas, a aldeia de Chora-Que-Logo-Bebes, João decidiu saltar o muro que separava o lugarejo do mundo, em busca de enigmas da infância e de entes fantásticos – bichas de sete cabeças, gigantes de cinco-braços, fadas, bruxas, animais que falavam e ainda o mítico Príncipe de Orelhas de Burro… No conto de Adolfo Coelho o medo seria encontrado num cabaz de pombas que «lhe esvoaram para a cara», causando-lhe estremecimento; no relato de Grimm, o jovem tornar-se-ia rei e tudo terminou num epílogo algo ingénuo e pouco épico, com um balde de água fria, lançado por uma aia da rainha, cheio de gobiões, peixinhos moles e peganhentos, com barbatanas perturbadoras. As metáforas merecem ser lembradas. Os tempos muito incertos e cheios de ameaças que vivemos não permitem que facilitemos as coisas. Ainda estamos longe de nos libertarmos destas condições trágicas. Precisamos de encontrar todos os meios possíveis para inverter a tendência e para podermos salvar vidas. A liberdade individual e a proximidade uns dos outros terão de ser recuperadas com solidariedade e esperança. Sendo atuais, urge compreender o medo e a verdadeira audácia, para não nos desprevenirmos nesta pandemia que nos enlouquece… 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 18 a 24 de janeiro de 2021

 

“Um Homem na Cidade” (1977) resultou de um desafio de José Carlos Ary dos Santos a Carlos do Carmo, ao encontro de compositores como José Luís Tinoco, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e António Vitorino d’Almeida.

 

Carlos do Carmo por Júlio Pomar.jpg

 

AMAR A LIBERDADE
“Eu sou o homem da cidade / que manhã cedo acorda e canta, / e, por amar a liberdade, / com a cidade se levanta”. Tratava-se de assumir um modo renovado de ligar as raízes culturais da música portuguesa e as novas tendências cosmopolitas das artes, num tom popular, mas exigente. Era a cultura portuguesa que se projetava para além dos limites da inércia ou da continuidade. Afinal, ele era o filho de Lucília do Carmo, nome grande do Fado, e sucedera a seu pai, Alfredo de Almeida, desaparecido precocemente, ao timão de um dos lugares sagrados de Lisboa, “O Faia”. Sabia bem que só poderia singrar no meio artístico se representasse uma diferença substancial. Conseguiu-o até porque conhecia como ninguém as virtudes da cultura tradicional e a necessidade desta ganhar asas, para poder alcançar direitos de modernidade. Naturalmente, houve quem não entendesse, quem julgasse que havia uma espécie de desrespeito pela tradição. Mas o tempo venceu tudo. Thilo Krassmann ajudava na musica, Ary dos Santos entusiasmava-se na lógica da intervenção, contudo Carlos do Carmo compreendia bem que não poderia fazer um disco datado, mesmo que popular. Percebia o impulso, mas sabia que o julgamento do tempo iria ser inexorável – e isso seria muito mais importante dos que as incompreensões do curto prazo. E Ary dizia: “o senhor está muito exigente e até um bocadinho reacionário”. Ambos teriam as suas razões, mas no domínio artístico Carlos do Carmo tinha a razão essencial. E se dúvidas houvesse, bastaria ver como o tempo não deixou que o talento ficasse afetado pela moda passageira. E ambos ganharam, o poeta e o intérprete. O génio é, afinal, o que pode perdurar. E entende-se bem como o jovem que partiu para a Suíça em busca de uma aprendizagem de horizontes largos, pôde encontrar a qualidade dos melhores artistas do seu tempo.

 

CULTO E COSMOPOLITA
Era um português culto que gostava de ouvir Sinatra e Tony Bennet e que aprendeu com eles a conversar com o público e a estar em cima de um palco, a renovar a linguagem da representação. Como ensinaram os maiores clássicos, havia que saber aliar a arte, a palavra e a expressão dramática, com verdade e inovação. Sem a tentação de repetir ou de imitar, usando a língua como modo de nos entendermos melhor. “Cantar é um ato de prazer, mas sobretudo no palco, que é um constante jogo de sedução, uma troca indescritível de sentimentos e emoções”. Ouvindo coisas muito boas, aprendendo com os melhores, Carlos do Carmo sabia que fazendo mais do mesmo não ajudaria ninguém – “ouvi coisas tão boas, tão boas, que sou muito exigente em relação ao que aparece”… Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Sinatra, Brel, Elis Regina e a sombra eterna da Mãe guiaram os passos do artista. Era daqueles para quem apenas havia boa e má música. “O fado tradicional merece-me um profundo respeito. (…) Em cada dez composições do Alfredo Marceneiro nove são muito, muito boas…” (Notícias Magazine, 3.11.2019). Mas não era o fado triste que lhe interessava. Conhecia bem as primeiras origens da arte. Por isso, quando Carlos Saura se propôs fazer o extraordinário filme “Fados”, houve que reinventar a dimensão do fado dançado, como manifestação artística e não como reconstituição historiográfica.

No fundo o Fado como realidade viva tem de se renovar permanentemente. Só assim pode ser fiel aos melhores de cada tempo: Armandinho, Marceneiro, Maria Teresa de Noronha ou Carlos Ramos… A genial Amália tornou-se parte de outra galáxia. “As bases musicais do fado são fado menor, que é o fado triste, o fado mouraria ou fado maior ou fado corrido, fado que é dançável. Temos três frentes. Porquê cantar sempre o fado menor?”. Mas eis que sempre ensinou a recusar a facilidade – “o fado precisa de ser apreendido, respirado, de maneira a provocar reflexão. E que seja para quem o ouve um banho de afetividade”. Homem de cultura, leitor por prazer, muito cuidadoso com a palavra e com a dicção (as palavras deveriam ser ditas e compreendidas), Carlos do Carmo escolheu quem gostava, e eram os melhores, além de José Carlos Ary dos Santos, José Luís Tinoco, Manuel Alegre ou Alexandre O’Neill: António Lobo Antunes (Canção da Tristeza Alegre), José Saramago (Aprendamos o rito), Vasco Graça Moura (Nasceu assim cresceu assim), Manuela de Freitas (Fado Penélope), Nuno Júdice (Lisboa Oxalá), Maria do Rosário Pedreira (Pontas Soltas; Vem, não te atrases), Fernando Pinto do Amaral (Fado da Saudade), Sophia de Mello Breyner, Hélia Correia, Herberto Helder, José Manuel Mendes, Jorge Palma e Júlio Pomar…

 

CIDADANIA CULTURAL
Foi com especial orgulho que, como presidente do júri do Prémio Vasco Graça Moura da cidadania cultural, tive o gosto de comunicar de viva voz a Carlos do Carmo que o galardão lhe tinha sido atribuído. E tenho na memória a sua reação de autêntica afetuosidade. E senti a alegria partilhada de Judite. Como afirmou o júri: “Os prémios nacionais e internacionais que obteve pela qualidade das suas edições discográficas, onde surge como um dos grandes intérpretes do fado que soube renovar, dão conta de uma das mais exemplares carreiras do panorama artístico português. Desde cedo que a sua voz soube quebrar fronteiras, atravessar gerações, tornando o fado uma interpretação artística de expressão universal. Essa expressão universal foi determinante para a candidatura do Fado a património imaterial da humanidade da UNESCO, de que Carlos do Carmo foi um dos embaixadores”. Senti, de facto, genuína satisfação da sua parte, que selou profundamente a minha amizade e admiração. Foi um ato de inteira justiça e não esqueço a referência sentida que fez à memória de Vasco, exemplo para todos. Não falámos apenas do poeta, que Carlos do Carmo cantou, mas da importância essencial da cultura como fator de enriquecimento da sociedade, de dignidade humana e de emancipação cívica. Tradição e modernidade, compreensão das raízes e audácia modernizadora, liberdade e responsabilidade, igualdade e diferença, qualidade e exigência – eis o que ligava profundamente Vasco Graça Moura e Carlos do Carmo. Num tempo em que assinalamos o centenário de Amália, em que as Artes, a Poesia e o Sentimento se têm associado no mundo largo das culturas de língua portuguesa (lembrando o Cante alentejano e a Morna cabo-verdiana – e não esquecendo que há pouco nos deixou a extraordinária artista e pedagoga, Celina Pereira), Carlos do Carmo é um símbolo que reconhecemos e que não deixaremos de lembrar sempre.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 28 de dezembro de 2020 a 3 de janeiro de 2021

 

“Temas de Cultura Portuguesa” de Joel Serrão (Ática, 1960) é, enquanto leitura, um excelente modo de terminar um ano e de começar outro, a refletir sobre temas múltiplos e controversos na nossa realidade cultural.

 

cnc _ temas da cultura portuguesa.jpgJoel Serrão por Nikias Skapinakis (Pormenor de “Tertúlia”, 1960)

 

COMPREENDER O SÉCULO XX

Este pequeno volume, com data do mesmo ano em que Nikias Skapinakis fez o retrato de Joel Serrão no celebrado quadro “Tertúlia”, é utilíssimo e atual. O quadro representa uma atitude centrada na liberdade e no diálogo de ideias. O livro é uma ilustração prática dessa perspetiva, reunindo um precioso conjunto de reflexões sobre a cultura portuguesa, terminando com um percurso global e multifacetado desde Sampaio Bruno a António Sérgio, com referência a Mário de Sá-Carneiro e Jaime Cortesão. Joel Serrão é um autor fundamental para a compreensão do pensamento do século XX português, a partir de uma ligação essencial entre a génese da modernidade, fruto do nosso romantismo mais perene, e a ligação ainda não cabalmente compreendida entre a geração de 1871 e o século XX do “Orpheu”, da “Seara Nova” e da presença. Dir-se-á, aliás, que a leitura triangular de Joel Serrão, José-Augusto França e Eduardo Lourenço constitui um modo de compreender a emancipação cultural do novo Portugal Contemporâneo, que chega à democracia dos nossos dias. Na revista “Bicórnio” (de J.-A. França), em 1952, Eduardo Lourenço colocava quatro perguntas sacramentais: (1) «Pode falar-se sem equívoco de “cultura portuguesa”? Ou será preferível falar antes de “cultura em Portugal”?»; (2) Num caso como noutro, é «possível discernir nessa cultura alguma permanência de intenção, ideais, valores, problemas com características próprias; (3) «Em que medida o debatido problema da “universalidade” ou “não universalidade” dessas criações culturais tem sentido?»; (4) É «possível ou conveniente impor ao conjunto das manipulações espirituais dos portugueses qualquer espécie de orientação geral apoiada sobre a existência pretendida ou real, de uma maneira de ser portuguesa, unitária e indiscutível?».

 

QUE CULTURA PORTUGUESA?

Para Joel Serrão “cultura portuguesa” é a cultura do povo português, vista em movimento criador, com uma história ainda por fazer, num sentido prospetivo de exigência e emancipação. No fundo, trata-se de uma “cultura condicionada, não por misteriosas e incompreensíveis virtudes ou vícios rácicos, mas pela nossa história, pela construção e mentalidade dos grupos sociais e das suas tarefas, temporalmente consideradas». Neste sentido, os elementos de permanência não são fáceis de discernir, devendo prevalecer os problemas, mais do que as respostas. Quanto ao universalismo, fica o alerta: “quando tivermos, em mais larga escala, uma literatura e uma arte com o nível a que podemos aspirar; quando tivermos ciência de facto e filosofia a sério, o problema, evidentemente, deixará de pôr-se…”. Por outro lado, “se, por hipótese, existe ‘uma maneira de ser portuguesa’, impô-la seria tirania perfeitamente dispensável”. Deveremos, pois, evitar “impor fictícias unidades a priori, arquétipos a que incriticamente devamos submeter-nos”. Esta questão constituiu, aliás, cavalo de batalha para Eduardo Lourenço na sua “psicanálise mítica do destino português”. “Não há cultura sem autonomia; ora, a autonomia implica a humana diversidade, imagem da própria vida”. Afinal, como disse Agostinho de Hipona, importaria não desejar a unidade em relação ao que facilmente pode ser separado… Urgia, deste modo, fazer um caminho de compreensão da “cultura em Portugal”, a caminho de uma “cultura portuguesa”, aberta, complexa, exigente – assente na valorização da educação e da ciência, da criatividade e da aprendizagem, do exemplo e da experiência. E a crítica de Joel Serrão ao empolamento de uma “filosofia portuguesa” centra-se nesta preocupação: o fechamento, qualquer que seja, é sempre empobrecedor. Não estaria em causa a qualidade lírica de Pascoaes ou a capacidade intelectual de José Marinho, mas sim uma absolutização do que é próprio e nacional – que deve ser considerado à luz da dualidade cultura em Portugal / cultura portuguesa. Se é facto que se pode sempre seguir o que é positivo e criador numa cultura, não podemos esquecer a qualidade e a exigência, que pressupõe a educação, e em especial uma reforma do ensino da filosofia. Caberia, assim, garantir a autonomia desse ensino, o diálogo além-fronteiras e a ligação ao progresso científico: “Onde não haja ciência, não há nem pode haver filosofia. Onde não haja filosofia não há nem pode haver ciência que mereça tal nome”.

 

NEM COMPLEXOS NEM ILUSÕES

“Diante da filosofia estrangeira, nem complexos de inferioridade nem megalomanias me parecem adequados a resolver o problema do baixo nível da nossa especulação. Teremos filosofia a valer quando, libertos de tais perturbações, tenhamos alcançado, pelos nossos meios, o nível que nos permita o diálogo autónomo. Diálogo autónomo relativamente a problemas comuns. E todos os caminhos serão bons – e só serão bons -, quando o fim seja o universal, que, a partir de Sócrates, é timbre do homem que se interroga e busca saber, mediante a inteligencia, e em termos de ciência”…  Na linha de pensamento de António Sérgio, Joel Serrão põe a tónica na orientação pedagogista. Importaria, deste modo, não só a audácia da reflexão, mas também o permanente sentido crítico. Afinal, há sempre um diálogo no tempo histórico, entre o que recebemos das gerações que nos antecederam e o que transmitimos ao devir. Assim, Sérgio assumia a causa de um patriotismo prospetivo, capaz de valorizar o que é próprio, sem a tentação do autocomprazimento, e com recusa da tentação de uma fantasiosa glorificação retrospetiva. “Se mais não houvesse a relevar na obra de Sérgio, - e há - , como contribuição talvez essencial para a historiografia do nosso tempo, bastaria a propedêutica do saber histórico, que ou é problemático, ou não é coisa alguma, em que tanto tem insistido, para que todos lhe estivéssemos reconhecidos, e para que não seja difícil fazer uma previsão: esse será o aspeto da sua atividade mental que o futuro se encarregará de valorizar mais e mais”. Afinal, também Jaime Cortesão afirmou emblematicante: “Toda a história escrita tende a tornar-se uma interpretação atual do passado. Por isso se tem dito que cada geração escreve, à sua maneira, a história. Assim é, e assim deve ser”. E não por acaso, na nota inicial, o autor cita o belo poema de Jorge de Sena: “Uma pequenina luz bruxuleante e muda / Como a exatidão como a firmeza / Como a justiça. /Apenas como elas. / Mas brilha. / Não na distância. Aqui / No meio de nós. / Brilha”…

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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  De 26 de outubro a 1 de novembro

 

Maria Aliete Galhoz é uma referência fundamental na cultura portuguesa, para quem a cultura era uma só, apesar das cambiantes erudita e popular.

 

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SURPRESA E DESLUMBRAMENTO

Toda a vida ouvi falar de Maria Aliete. Era da mesma geração e conterrânea de minha Mãe. As referências e a admiração foram sempre indiscutíveis e uma constante. E com o tempo fui seguindo o seu percurso de professora, de investigadora, de referência fundamental da cultura portuguesa, no sentido mais amplo. Se foi das primeiras a desvendar o lado menos conhecido de Fernando Pessoa, em especial com “O Livro do Desassossego”, cuja revelação se deve ao trabalho minucioso da infatigável estudiosa, com Teresa Sobral Cunha, na equipa de Jacinto do Prado Coelho, também foi e é uma referência essencial na descoberta da cultura popular, com fantásticas revelações, que nos permitem compreender as raízes da dimensão meridional da nossa identidade. De facto, ao lermos a interpretação que foi fazendo de um material riquíssimo recolhido na tradição oral algarvia, facilmente percebemos como a cultura portuguesa que herdámos e continuamos a construir se foi fazendo no continente em curiosos movimentos das gentes e das tradições, de norte para sul, de sul para norte, e internamente em trocas complexas, fruto dos movimentos migratórios entre regiões diversas e de uma rica oralidade, numa sociedade com muito analfabetismo. Há dias, trocando mensagens com Lídia Jorge, partilhámos a grande admiração por Maria Aliete Farinho das Dores Galhoz (dela vos falo), e considerámos ser essencial manter viva a sua memória, não como mera recordação de quem foi - e isso é indispensável para quem, como nós a conheceu e admira -, mas por fidelidade ao trabalho que lançou e fez, nos vários domínios em que se empenhou, para que não se perca e para que continue, em nome dessa simbiose necessária entre a cultura popular e a cultura dita erudita. Em bom rigor, as duas culturas fazem parte de uma mesma realidade, mas só seguindo a orientação que a investigadora adotou podemos enriquecer o património cultural, como realidade viva. De facto, quando aprofundamos o conhecimento do património imaterial, as tradições, os falares, as crenças, as artes, as estórias, é que podemos entender melhor o conjunto do património, da herança e da memória. Quando saiu a primeira edição de O Dia dos Prodígios logo se notou a presença forte dessa oralidade algarvia, palavrosa e criativa. E a razão de ser dessa mágica criatividade está muito explicada no que Maria Aliete foi estudando e investigando. Não esqueço, de muito pequeno, ouvir as estórias mirabolantes de lobisomens aparecidos nas encruzilhadas dos caminhos no breu da noite, dos fantasmas aparecidos e desaparecidos, e das mouras encantadas… E se isto assim era na memória letrada de meu avô Mateus, também o era nas canções e toadas transmitidas por quem não sabia ler nem escrever, mas tinha em si uma reserva literária incomensurável. As mulheres, enquanto faziam empreita de esparto ou de palma, faziam gala em praticar o cancioneiro popular, com os inevitáveis versos-bordão e muita ironia e escárnio… A poesia de António Aleixo está impregnada dessa influência. Muitas narrativas populares misturavam invariavelmente a verdade e o sonho, a realidade e a imaginação. E quando estudamos a rica história algarvia descobrimos a verosimilhança de muitas referências reais, desde a memória moçárabe e da presença da cultura e poesia em língua árabe, até à lembrança da presença dos piratas, vindos do norte, mas também do Mediterrâneo, numa costa vulnerável e plena de inesperados sortilégios.

 

CULTURA ERUDITA E POPULAR

Insistindo na compreensão da cultura popular, Maria Aliete Galhoz considerava que a ideia de um Cancioneiro ajuda a proteger o “perfil ecológico da ecúmena”, ou seja, da grande casa que habitamos: a Terra. E assim “todo o cancioneiro popular é coerente na sua expressão total da natureza do homem integrado no Cosmos, relacionado numa sociedade, confrontado consigo mesmo”. O trabalho partilhado com Idália Farinho Custódio no caso do Cancioneiro Popular vale pela ligação entre a tradição oral (como acontecia na antiga Grécia com os aedos) e a compreensão etnográfica, antropológica e historiográfica de uma das regiões mais ricas de Portugal no campo da memória cultural. Na linha de Ataíde Oliveira e Estácio da Veiga, permito-me ainda referir o trabalho de José Ruivinho Brasão que tem sido fundamental nesta procura da riqueza cultural de uma verdadeira encruzilhada de influências, num cadinho inesgotável de identidades e diferenças. Este trabalho baseia-se numa lição muito fecunda em que nos é dito que deveremos aproveitar os ensinamentos da tradição que nos podem ajudar a mudar de vida – num sentido de valorizar mais o ser, em relação ao ter, e de praticar a existência simples, o contacto com a natureza viva, e a procura da natureza das palavras, dos afetos e menos das aparências – “Não há luz como a do sol / nem água como a da chuva, / nem pão como o do trigo / nem vinho como o da uva”… Lídia Jorge fala de “uma sombra luminosa, muito amada” – e recorda Maria Aliete “passeando na Praia dos Olhos de Água, com um barrete às riscas, era ela então muito jovem. E mais tarde, já nos anos 60, vejo-a no mesmo areal, levando um pequeno cesto no braço. Dentro desse cesto, guardava umas tiras de papel que decifrava” (cf. JL, 7 a 20 de outubro de 2020). Sim, essa é a verdade. Não há que ter dúvidas. Tenho, na distância, a mesma memória de uma menina muito jovem, célebre por lidar com a melhor literatura, de uma investigadora prestigiada, a revelar um Fernando Pessoa que não se suspeitava que existisse – novo semi-ortónimo, para além dos heterónimos. Isto, para não falar de Mário de Sá Carneiro ou José Régio e da sua própria poesia, em Poeta Pobre (1960), Não choreis meus olhos (1971) ou em Poemas em Rosas (1985). E Luiz Fagundes Duarte tem razão ao afirmar que, nos estudos pessoanos, Maria Aliete Galhoz veio introduzir um novo paradigma: “a obra de um autor é aquela que ele efetivamente escreveu, e tal como a fez: é solidária na sua variedade com a unidade do autor (Campos, Caeiro e Reis são heterónimos, mas todos eles são Pessoa) e, num autor de grande envergadura, como é o caso de Pessoa, é tão válida a obra que ele deu por terminada e que publicou, como aquela que, por qualquer razão, ele entendeu não publicar” (Ibidem.). De facto, Maria Aliete Galhoz foi em Portugal a primeira pessoa a entender o trabalho filológico aplicado aos textos modernos – transmitindo a interpretação dos textos aos leitores e estudiosos, de forma clara, persistente e sempre disponível para repensar o sentido das palavras. E não esqueço a dedicatória de amizade que me enviou quando na Edição crítica das obras de Fernando Pessoa publicou Rubaiyat. Como disse da sua frequência da Biblioteca Nacional, a experiência que mais a entusiasmava era “sempre a surpresa e o deslumbramento”, como em Fernando Pessoa, “poeta da fulguração, do ‘encontro’ de um fulcro de poema à altura dessa primeira fulguração: tenteando, riscando, optando, retomando e, ao fim, a impecabilidade do conseguido”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXXI) UM ESTRANHO EPÍLOGO

 

Chegamos ao fim do folhetim. Muitas coisas ficaram por dizer.

Finalizo, como comecei, com palavras de Garrett, a terminar “Viagens na Minha Terra”:

«Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra. Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar. Nos caminhos-de-ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra»...

E completando o folhetim, imagino-me, beneficiando da hospitalidade do meu Amigo Pedro Canavarro, na sua casa de Santarém. Aí reencontrei diletos viajantes que me disseram ter sido tratados nesta viagem com excesso de simpatia. E quem foram eles? Garrett, naturalmente, maravilhado com os benefícios que a cidade escalabitana foi sofrendo. Herculano e o seu amigo dedicado Raimundo Bulhão Pato, agradados com o sucesso do seu azeite e dos seguidores do senhor Jerónimo Martins – e animados com a conversação afável de Manuel da Silva Passos, o extraordinário proprietário da casa, sobre a procura necessária destas boas razões para Portugal, em nome de uma boa instrução pública.

E calculem que descobri nessa cavaqueira de bons e aprazíveis companheiros, a paixão de Almeida Garrett pelas histórias de quadradinhos e pelo facto de, nas aventuras de Tintin, Oliveira da Figueira ser o símbolo do português. Garrett percebeu bem a importância da ilustração, Bulhão Pato também manifestou curiosidade e interesse – e até o velho Herculano, com algum ceticismo, manifestou atenção, sabedor que as suas lendas e narrativas têm sido boa matéria para todos os principais ilustradores. Com a ajuda de Pedro Canavarro lá explicámos quem era este Oliveira da Figueira que conheciam mal…

A sua primeira aparição foi em 1932, como personagem de «Os Charutos do Faraó», num episódio em que Tintin é atirado ao Mar Vermelho, por engano, num sarcófago egípcio. Salvo «in extremis», o jornalista encontrou-o na embarcação que milagrosamente o recolheu e Oliveira da Figueira pôs-se-lhe à inteira disposição: «se puder ajudá-lo, posso fornecer-lhe a preços competitivos qualquer artigo de que necessite». Começou então por um conjunto flamante de gravatas, às riscas, às bolas ou com figuras exóticas. Seguiu-se um lote de magníficos sabres, com lâminas de Toledo, mil outras bijuterias, além dos brindes: um despertador, escova de dentes etc… Tintin saiu literalmente carregado, com um balde, um regador, uma gaiola com papagaio, uns esquis, tacos de golfe, uma casota e uma coleira de cão, além do inevitável despertador – confessando: «Ainda bem que não me deixei levar pela conversa dele. A tipos como este acabamos sempre por comprar uma série de coisas inúteis». Na costa árabe, Oliveira da Figueira demonstrará a sua extraordinária arte de convencer. Chamam-lhe «o-branco-que-vende-tudo»… E diz orgulhoso: «Então que tal? Chama-se a isto eficiência! E o melhor é que os meus clientes voltarão». Apesar de tudo aparece alguém a protestar porque parece ter ingerido um naco de sabão, que lhe produz o óbvio mal-estar originado pelas bolas que o atormentam - «Antes da Lua Nova, o meu Senhor, o Xeque Patrash Pacha, ter-te-á castigado»…

Depois a rotunda personagem é encontrada no «País do Ouro Negro», obra iniciada em 1939, interrompida pela guerra e recomeçada em 1948. E ajuda Tintin a encontrar os segredos do temível Dr. Müller, descobrindo um sagaz subterfúgio. Mascarado de sobrinho do comerciante, sob o nome de Álvaro, quase invisual com uma estória de contornos mirabolantes. É extraordinária a capacidade fabulatória de Oliveira da Figueira. Inventa que o sobrinho é filho de um criador de caracóis, vítima de uma trama terrível que envolve uma mulher rica que morre de desgosto aos noventa e sete anos e a influência de duas imortais palavras, ditas em português, «Oh! Oh!», cujo sentido nunca chegamos a conhecer…

Depois, em «Carvão no Porão» («Coke en Stock», publicado no «Cavaleiro Andante», em 1959 e 1960, sob o título «Mercadores de Ébano»), Tintin e o Capitão Haddock, pedem apoio e hospitalidade em Wadesdah. Oliveira da Figueira recebe surpreendido e assustado a visita noturna de Tintin, com a cidade em estado de sítio, cheia de cartazes a pedir a sua captura. «Que faz aqui, desgraçado? Não sabe que tem a cabeça a prémio?». O português conta o que se passa. Há agitação e um conflito entre a Arabair e o Emir… Tintin diz que precisa absolutamente de ajudar o Emir e Oliveira da Figueira informa que teve de fugir para casa de Patrash Pacha. Tintin e Haddock treinam desesperadamente o equilíbrio das bilhas à cabeça, para que possam não dar nas vistas, mascarados de mulheres árabes com as suas burkas. O resultado do treino é desastroso. Os estragos são enormes e os cacos enchem o armazém do comerciante, que se vê na obrigação de dizer às clientes que as bilhas estão esgotadas. No momento da verdade, tudo parece salvo, mas eis escandalizada. O desastre anuncia-se, mas tudo se arranja, graças ao apoio providencial de Oliveira da Figueira.

A charla continuou e os convivas assinalaram temas que poderiam ter sido acrescentados aos célebres 30. Bulhão Pato foi o mais loquaz – falou da gastronomia que poderia ser acrescentada, elogiou o Mestre João da Matta, falou de Paulo Plantier, e assinalou as maravilhas do Queijo da Serra e do seu sucedâneo de Azeitão (com a ajuda de Periquita, boa pomada) e saudou o esclarecimento da confusão das ameijoas, que nunca ele cozinhou, mas com que se deleitou no Central… Garrett, atentíssimo ao espírito do tempo, falou, imaginem lá!, dos desportos e dos ídolos, e deu nota que lá no assento etéreo onde se encontra se apercebeu dos sucessos desde Eusébio a Cristiano. Uma cultura popular faz-se dessa ligação aos ídolos e aos efémeros sucessos. Herculano, circunspecto, preferiu chamar a atenção para a necessidade de uma visita ao Convento de Tomar, charola, janela manuelina, memória de Gualdim Pais, rio Nabão e à importância do monumento como património vivo. Achou justa a referência a Camilo e a Júlio Dinis. E lembrou ainda a Biblioteca Joanina de Coimbra, a inesgotável Livraria da Ajuda, que ele conhece como as suas próprias mãos, a Torre do Tombo e a Portugaliae Monumenta Historica… Pato e Garrett falaram de música, lembraram os “Tentos” de Frei Manuel Correia, mas também José António Carlos Seixas e o tempo joanino, Luísa Todi na corte de Catarina da Rússia… Garrett insistiu especialmente em João Domingos Bontempo, seu amigo e colega de lides na formação musical do Conservatório Nacional. Bulhão Pato, especialmente loquaz, falou da importância das peregrinações, antigas e modernas – e lembrou o Almirante D. Fuas Roupinho e o milagre da Nazaré. Afinal a língua galaico-portuguesa nasceu em campo de peregrinação a Santiago de Compostela. E Pedro Canavarro, concordando com o que era dito, lembrou a importância da XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura (1983), sob os auspícios do Conselho da Europa e de tão boa memória, onde imperavam as boas razões para Portugal, e lembrou ainda os caminhos de Fátima e a fundação do Centro Nacional de Cultura no ano de 1945, oito dias depois do fim da guerra no continente europeu – bem como o projeto cultural moderno dos “Caminhos de Fátima”, idealizado por Gonçalo Ribeiro Telles e Helena Vaz da Silva.

As rotas do Património nasceram, assim, dos caminhos de peregrinação, per agros, pelos campos… Hoje o peregrino é o que cuida de ir ao encontro do património cultural, material e imaterial, natural e paisagístico, tecnológico e digital, sem esquecer a contemporaneidade e a sua criação.  

E nessa tarde imaginária à vista do Tejo, Bulhão Pato, pegou num livro e leu-nos pausadamente: «Houve tempo em que a velha catedral conimbricense, hoje abandonada de seus bispos, era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as margens areentas do Mondego. Então, o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavíssima, mais rica de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador dos segredos de tantas almas, que creem existir nele, e só nele, uma inteligência que as perceba»… E assim Herculano despediu-se e foi até à sua quinta, acompanhado de Pato – e Garrett como Passos Manuel foram discretear um pouco, olhando o belo Vale de Santarém.

GOM

 


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(XXVII) SOPHIA E OS POETAS

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) é uma das grandes referências da poesia contemporânea e da cultura portuguesa. Clássica e moderna, encontra e prolonga Fernando Pessoa por um caminho próprio e diferente. E Eduardo Lourenço afirmou que “desde os tempos de Pascoaes, a poesia portuguesa esforçava-se por conciliar Apolo e a sua mítica expressão solar da vida com Cristo, sombra sob tanto excesso de sol, deus morto para que a morte não fosse confundida com a vida digna desse nome. Se essa conciliação teve lugar em algum lugar foi na poesia de Sophia”. Sentimos a coexistência de Atenas e Jerusalém. Daí ter nascido “precocemente clássica”, talvez fora de uma modernidade, por definição em crise, mas ciente da importância dos novos caminhos em busca da dignidade do Ser. E assim Sophia chega a Nietzsche e à ligação dionisíaca, através de um “Cristo Cigano” – que não espera que o crucifiquem e que se oferece nu ao esplendor da vida que misericordiosamente o assassina – “mas a sua morte despe-o da sua aparência solar e esculpe-o em redentora agonia onde o rosto do Ausente se revela”. E sentimos a sede de justiça, que leva a não fechar os olhos ao “espantoso sofrimento do mundo”. Francisco de Sousa Tavares disse, na melhor fórmula, que Sophia "tinha sinais do seu Deus na confusão dos homens". Eduardo Lourenço diagnosticou "uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio" que deve "ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional". Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar.

Contra a ambiguidade, “sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem”. E lembremo-nos do entusiasmo posto por Sophia na tradução de «Anunciação a Maria» de Paul Claudel. Sente-se a proximidade relativamente ao artista de «Arte Poética». «Esta é a noite / Densa dos chacais / Pesada de amargura / Este é o tempo em que os homens renunciam».

Longe da exclusiva busca de doçura, o que há, sim, é a permanente demanda de uma vida de drama, de dúvida e de contradição. Tomé e Pedro estão sempre presentes, antes e depois de pôr a mão na ferida aberta ou de ouvir o galo cantar, sempre perante o medo terrível que leva Mara ao ato de desespero perante Violaine. «Aquele que partiu / Precedendo os próprios passos como um jovem morto / Deixou-nos a esperança». É aqui que a poética de Sophia se aproxima e se afasta de Claudel. Aproxima-se porque há a procura silenciosa da esperança no equilíbrio da palavra e da justiça, nunca a confusão com qualquer certeza intolerante. Mas distancia-se, uma vez que não pode haver ambiguidade na luta agónica. Violaine é símbolo, a um tempo, da incerteza e da força, num gesto inusitado e necessário do beijo ostensivo ao leproso.

Cidadã de reflexão e talento, foi deputada à Assembleia Constituinte, sendo marcante o discurso que fez sobre as liberdades de criação cultural e de aprender e ensinar. “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura” (Sessão de 2 de Setembro de 1975). A luta fundamental não deveria ser por uma “liberdade especializada”, mas pela liberdade do povo – liberdade de expressão e de cultura. E, a propósito, invocava o terrível grito pronunciado no paraninfo da Universidade de Salamanca perante Unamuno: “Morra a Inteligência!”, para que nunca mais fosse possível ouvi-lo. “Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política. Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. A política sempre que dirigir a cultura engana-se. Pois o dirigismo é uma forma de anti cultura e toda a anti cultura é reacionária”.

João Bénard da Costa disse que devemos ter cuidado ao falar de Portugal como País de Poetas. Nem sempre foi assim, apesar do fundo poético da língua portuguesa nascida do galaico-português língua dos trovadores. No entanto, o século XX é uma exceção. Pessoa, Sá-Carneiro e “Orpheu”, Pascoaes, Torga, a geração da ”Presença”, os “Cadernos de Poesia” (Cinatti, Blanc de Portugal, Tomaz Kim), Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Ruy Belo, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice… Não somos exaustivos, para não ser injustos.

No Centro Nacional de Cultura, Sophia teve um papel fundamental, sobretudo depois de 1965 e do fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores. Aí se juntaram os mais jovens poetas, como se juntaram também com Fernando Amado os novos atores, que fizeram o novo teatro e o novo cinema.

Sophia é exemplo de um verdadeiro “momento de poetas”.

GOM

 


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A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de agosto a 2 de setembro de 2018

 

«Jornal do Observador» de Vitorino Nemésio (Verbo, 1974) é um repositório de crónicas do romancista, poeta e ensaísta onde o tema da cultura portuguesa é recorrente - considerado como um fecundo ponto de encontro de influências diversas, onde o humanismo universalista está bem evidenciado.

 

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CULTURA COMO COMPREENSÃO

De que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e de convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata de seguir os acontecimentos, mas de compreender as perspetivas sincrónica e diacrónica. No ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires recorda, por isso, a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: «E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?» O mesmo se diga quanto ao paralelo ou correspondência entre um anjo bochechudo e corado de um retábulo seiscentista e a vivência do barroco, considerando a imagem nobre simbólico-poética de Pégaso, o cavaleiro medieval ou a ética da cavalaria até… ao cavaleiro tauromáquico português estilo Luís XV. «Não é tudo a cultura simbolicamente aduzida pela imagem do cavalo? Não era Nemésio o autor dos poemas de O Cavalo Encantado?». Nesta afirmação há uma ideia de cultura como diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e aquilo que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada – Varanda de Pilatos, mas também varanda donde se presencia o cortejo. E Hernâni Cidade, António José Saraiva, Jorge Dias, Orlando Ribeiro, Joel Serrão, José-Augusto França foram exemplos de perscrutadores de pistas culturais entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade de entender o “mundo da vida” – porque, no fundo, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva.

 

VARANDAS SOBRE A REALIDADE

Lembre-se, por exemplo, o picaresco e dramático em Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que razão a perspetiva da Literatura ou da Arte são excelentes varandas para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a lógica de um poder ou do que a mera ostentação de um saber. E mesmo que o autor tenha autoridade (como nos casos de D. Dinis ou D. Duarte) a verdade é que comunica não pelo império, mas pela palavra e pelo sentimento. Assim, não compreenderemos o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério) ou Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus, Antero, Nemésio, Aquilino, Torga… Mas há outras dimensões a não esquecer absolutamente: a geografia de Orlando Ribeiro, as origens históricas, como em Damião Peres ou José Mattoso, as raízes mais remotas em Teófilo Braga e José Leite de Vasconcelos…

 

DUAS LINHAS DE PENSAMENTO

Concordo com Nemésio e Machado Pires quando falam de duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas têm de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par (como na análise de A. J. Saraiva) articulam-se com a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no “Portugal Contemporâneo”), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma sucessão de factos ou acontecimentos. Daí termos de perscrutar tendências, de suscitar criticamente essas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

«“Cultura” não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». No caso de Nemésio, este falava ao sabor da memória, “se bem me lembro”, usando as palavras como as cerejas, mas havia sempre um fio condutor, um fito, um meio de prova. O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos. O fim do século, a transição, a análise da crise política, económica e social, Antero de Quental, Eça de Queirós, Carlos Fradique Mendes (extraordinário heterónimo coletivo de uma geração, que encontramos no diálogo tenso entre Carlos e João da Ega), Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado devem ocupar o pensamento e a procura, num verdadeiro apelo a Jano, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro.

 

UMA PERSPETIVA CONVERGENTE

A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. Por exemplo, ao analisar as “raízes etnogénicas do Povo Português” no pensamento de Oliveira Martins, para quem a nossa identidade provém não só da vontade enfatizada por Herculano, mas também do fundo céltico, com o peso inerente do messianismo. E eis um paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino. Transporta a Moïra grega para o drama da causalidade histórica”. E, chamando a atenção para o percurso de vida do historiador oitocentista, fala do pessimismo das suas análises, em contraste com o seu compromisso cívico: “foi, no entanto, também ministro da Fazenda, preconizando a criação de riqueza agrícola, do fomento rural, o aproveitamento das águas públicas, o repovoamento florestal, a nacionalização dos transportes, promulgando mesmo, nos poucos meses do seu governo, a reorganização das Alfandegas e da Fazenda, talvez acreditando ainda, como nos longínquos anos de 1868, no universalismo das comunicações, na grande federação dos homens livres, na imprensa, na locomotiva, na eletricidade, na felicidade pelo Progresso Científico”. Ou seja, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e em que o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, Oliveira Martins não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado de um qualquer fatalismo: “vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social nunca o abandonou e define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. Ao contrário das considerações superficiais sobre a Geração de 70, Machado Pires sempre procurou demonstrar o carácter complexo do seu pensamento e do seu magistério, a atitude crítica positiva orientada num sentido emancipador, a coerência fundamental, centrada nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, bem como à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

BOCAGE – O NOSSO GRANDE FABULISTA…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 22

 

Elmano Sadino é o nosso árcade simultaneamente mais conhecido e mais incompreendido. É por certo aquele cuja vida mais próxima se encontra de Camões, mas a sua epopeia atribulada chegou até nós cheia de sombras, que levam muitos a não reconhecer as suas absolutas qualidades. Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é, na sua época e no conjunto da cultura portuguesa, alguém que associa plenamente o lirismo, a tragédia marítima e o picaresco do escárnio e maldizer, nesses pontos pode dizer-se é um português paradigmático, que nos permite apreender qualidades e limitações, e a consciência plena de que não temos um carácter idealizado, mas as virtudes e defeitos de uma natural imperfeição, com uma capacidade aventureira multifacetada e tantas vezes inesperada. Hoje cuidamos dos seus escritos educativos, na tradição de Esopo (620 a. C, - 564 a. C,), Fedro (século I, d. C.) e La Fontaine (1621-1695). Aí encontramos em poesia cuidada a interrogação sobre o género humano, através da rica metáfora dos animais… E eis como Bocage se revela um educador fino – claríssimo, pedagógico, cultor essencial da língua pátria. O português é esmerado, por parte de alguém que cultivou como poucos a palavra certa e a ideia clara e distinta. Veja-se, aliás, um primeiro exemplo, no célebre poema “A Raposa e as Uvas”. Como os melhores clássicos, não diz de mais nem de menos. Apenas a palavra que se espera, sem desperdício algum. E quando pensamos que a sentenciosa raposa já tudo disse, eis que se deixa enganar pela subtil parra que lhe cai no caminho…   

 

«Contam que certa raposa, 
Andando muito esfaimada, 
Viu roxos, maduros cachos 
Pendentes de alta latada. 

De bom grado os trincaria, 
Mas sem lhes poder chegar, 
Disse: “Estão verdes, não prestam, 
Só os cães os podem tragar!” 

Eis cai uma parra, quando 
Prosseguia seu caminho, 
E, crendo que era algum bago, 
Volta depressa o focinho».

 

E sobre um leão e um porco, aqui nos fala. Não cuidemos, porém, de uma visão literal. Do que aqui se fala é da gente que sem emenda persiste nos erros, sem cuidar de aprender com a experiência e de aproveitar as boas oprtunidades…

 

«O rei dos animais, o rugidor leão, 
Com o porco engraçou, não sei por que razão. 
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna 
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna): 
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes, 
Poder de despachar os brutos pretendentes, 
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça, 
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça; 
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar, 
E a sua ocupação dormir, comer, fossar. 
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria, 
Soltavam contra ele injúria sobre injúria 
Os outros animais, dizendo-lhe com ira: 
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!» 
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais, 
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais! 
Dos filhos para o génio olhai com madureza; 
Não há poder algum que mude a natureza: 
Um porco há de ser porco, inda que o rei dos bichos 
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos».

 

Não esqueço as minhas raízes Azeitonenses, e ainda para mais a ancestralidade liga-me a Elmano Sadino, pelos Barbosas. E fui encontrá-lo na Índia em Damão e depois em Macau. Eis por que razão Setúbal não deve ser aqui esquecida. Bocage amigo, corre-te nas veias o mesmo sangue de Fernão Mendes do Pragal!… Dói-me tantas vezes a indiferença… Não esqueço o juízo do elefante perante o discurso do burro. E que tal desdita não se apresente aqui. Lembremos sim o nosso grande poeta!

 

Agostinho de Morais  

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de junho a 2 de julho de 2017.

 

Miguel Real acaba de dar à estampa Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, 2017), que constitui um belíssimo repositório de reflexões, na linha de um percurso sério e persistente, de análise e estudo, que o autor vem seguindo.

 

 

PORTUGAL EM TRAÇOS FUNDAMENTAIS
Na linha de obras anteriores, temos agora uma síntese, onde se apresentam os “traços fundamentais” de uma cultura plena de diferenças e contradições, que alguns procuram simplificar, mas insuscetíveis de redução, que, a existir, tornar-se-ia caricatura. Uma cultura de “melting pot”, como a nossa, não pode deixar de se afirmar numa tensão entre o que se mantém e o que muda, entre os que ficam, os que partem e os que chegam. De facto, como Eduardo Lourenço ou José Mattoso têm ensinado, na linha de Garrett e Herculano, da geração de 1870 e das correntes críticas do século XX, para Miguel Real: “não existe uma essência identitária de Portugal, uma noção metafísica sintetizadora da existência de Portugal e identificadora da sua história…” – e “um dos maiores equívocos dos teóricos da cultura portuguesa tem sido a insistência, ao longo dos tempos, mas fortemente desde o final da monarquia, em 1910, na busca de um conceito absoluto, transcendente, exclusivo, excecional e extraordinário, definidor da identidade nacional ou do homem português”. Este é o ponto de partida, não só para compreendermos a diversidade e a complexidade de quem somos, mas também para nos mantermos abertos às diferenças – sobretudo considerando que a nossa cultura está na génese de outras culturas, geradas a partir de uma língua falada em todos os continentes, que se enriquece através da coexistência de várias outras línguas (como os crioulos), correspondentes às zonas geográficas onde o português é língua oficial… Deste modo, o futuro não pode deixar de ser encarado como um campo aberto à diversidade e de multiplidade cultural, onde coexistem vários e naturais polimorfismos… De facto, não podemos esquecer as sequelas de ressentimento (para que nos alerta o autor, na senda de Eduardo Lourenço) nos Estados e povos colonizados, “que ora legitimamente desconfiam do afã lusófono”. Por isso, a “Lusofonia não pode repetir a história, renovando os vícios dos diferentes desencontros históricos havidos em séculos passados”. Daí a necessidade de uma “paisagem política nova” – que considere o alerta do célebre título do ensaio de Maria Manuel Baptista: «a lusofonia não é um jardim ou a necessidade de “perder o medo à realidade e aos mosquitos”»… No fundo, a saudade e a morabeza, bem como as diversas idiossincrasias resultantes dos diálogos interculturais, fazem parte integrante de um modo de ser complexo e heterogéneo do mundo da língua portuguesa…

 

QUEM SOMOS, AFINAL…
Longe de uma explicação de destino transcendente, não somos nem melhores nem piores que outros – nem um segundo povo eleito de Deus, da herança judaica, nem depositários exclusivos da saudade (de Pascoaes), nem vocacionados para o Quinto Império sebastianista ou para a Terceira Idade de Joaquim de Flora… Portugal é um cadinho de múltiplas influências. Está aí a sua “maravilhosa imperfeição”. E quando encontramos em Fernando Pessoa as contradições insanáveis, que a heteronímia alberga, verificamos a importância da coexistência das diferenças que enriquecem a nossa cultura e das culturas que a animam. “A cultura é uma espécie de biblioteca, de ideal, em que nós pensamos separar aquilo que ainda perdura na memória, ainda atuante, daquilo que está morto”. Eis o ponto em que nos encontramos e que permite compreendermos que António Sérgio e Jaime Cortesão correspondem a faces de uma mesma exigência de compreensão da realidade que nos cerca. Sérgio alerta-nos para as condições materiais e para o conflito entre a fixação e o transporte, que marca o patriotismo prospetivo – contra o fatalismo do atraso. Cortesão não nos deixa esquecer, ao lado da razão, o anseio espiritual e emotivo. E sabemos bem, lendo os textos fundamentais de ambos e confrontando-os entre si e com a moderna historiografia, como Portugal e os Portugueses, apesar de todas as vicissitudes, continuam na luta, combatendo a mediocridade e a irrelevância. País suspenso no tempo? As elites alimentam uma cultura dúplice, ora escolástica e contra-reformista; ora europeia, reformista e aberta à modernidade; enquanto a cultura popular persiste vernacular, nativa e rústica. E a psicanálise mítica do destino português invoca a ciclotimia do sucesso e do fracasso, a força do centralismo da Arcada e de S. Bento e as resistências à autonomia e a descobrir e inovar. Afinal, perante as dificuldades encontramos energias desconhecidas, que se relacionam com a sobrevivência. Mas a que se deve o atraso estrutural? O debate sobre os estrangeirados e sobre a fragilidade das elites não perdeu atualidade. A natureza complexa da nossa realidade cultural leva-nos a que os elementos vários que a constituem favoreçam a formação de uma vontade comum, apesar dos egoísmos. E o pessimismo nacional? Será que o velho do Restelo de Camões ou Sá de Miranda na carta a D. João III são demonstrações insanáveis de uma incapacidade congénita para nos superarmos? E estaremos condenados a ser um “povo póstumo”? Se virmos bem, os melhores momentos da nossa existência coletiva (1415-1539) e a durabilidade do projeto Portugal deveram-se não ao improviso, mas à determinação e à definição de metas de largo prazo… Leia-se a «Crónica dos Feitos da Guiné» e perceba-se que não há aí espontaneísmo ou loucura… Há capacidade de planear e de mobilizar vontades.

 

O PORTUGAL FUTURO…
A anteceder o prefácio de José Eduardo Franco, está transcrito o poema de Ruy Belo “O Portugal Futuro”. “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível…”. O poeta diz que, chamem o que chamarem, “Portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a Espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz”. Em lugar do pessimismo sem horizonte, é possível a determinação e a continuidade. Para tanto, há que cultivar o espírito crítico e conhecer a história. Os mitos tornam-se construtivos, quando compreendidos reflexivamente. Os judeus, a Inquisição, os jesuítas, Camões, o sebastianismo, Vieira, Pombal, a ideia de nação superior e inferior, o pessimismo nacional, a decadência, o país suspenso no tempo como lugar cultural e mental encantado, o canibalismo cultural, os grupos fratricidas e parricidas – são fatores que nos obrigam a perceber a identidade nacional limitada nas condicionantes de nove séculos de história. «Por via da Europa – honra lhe seja feita -, e não por gradual esforço nosso, não são apenas dois ou três pensadores portugueses a exigirem o império da tolerância, mas as próprias instituições sociais, e antes de mais o Estado e a Igreja Católica…». E assim, preparamo-nos para enfrentar o século XXI, libertando Portugal de um passado económico, político e cultural que há meio milénio «sempre nos atrofiou as virtualidades».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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