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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de agosto a 2 de setembro de 2018

 

«Jornal do Observador» de Vitorino Nemésio (Verbo, 1974) é um repositório de crónicas do romancista, poeta e ensaísta onde o tema da cultura portuguesa é recorrente - considerado como um fecundo ponto de encontro de influências diversas, onde o humanismo universalista está bem evidenciado.

 

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CULTURA COMO COMPREENSÃO

De que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e de convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata de seguir os acontecimentos, mas de compreender as perspetivas sincrónica e diacrónica. No ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires recorda, por isso, a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: «E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?» O mesmo se diga quanto ao paralelo ou correspondência entre um anjo bochechudo e corado de um retábulo seiscentista e a vivência do barroco, considerando a imagem nobre simbólico-poética de Pégaso, o cavaleiro medieval ou a ética da cavalaria até… ao cavaleiro tauromáquico português estilo Luís XV. «Não é tudo a cultura simbolicamente aduzida pela imagem do cavalo? Não era Nemésio o autor dos poemas de O Cavalo Encantado?». Nesta afirmação há uma ideia de cultura como diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e aquilo que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada – Varanda de Pilatos, mas também varanda donde se presencia o cortejo. E Hernâni Cidade, António José Saraiva, Jorge Dias, Orlando Ribeiro, Joel Serrão, José-Augusto França foram exemplos de perscrutadores de pistas culturais entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade de entender o “mundo da vida” – porque, no fundo, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva.

 

VARANDAS SOBRE A REALIDADE

Lembre-se, por exemplo, o picaresco e dramático em Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que razão a perspetiva da Literatura ou da Arte são excelentes varandas para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a lógica de um poder ou do que a mera ostentação de um saber. E mesmo que o autor tenha autoridade (como nos casos de D. Dinis ou D. Duarte) a verdade é que comunica não pelo império, mas pela palavra e pelo sentimento. Assim, não compreenderemos o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério) ou Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus, Antero, Nemésio, Aquilino, Torga… Mas há outras dimensões a não esquecer absolutamente: a geografia de Orlando Ribeiro, as origens históricas, como em Damião Peres ou José Mattoso, as raízes mais remotas em Teófilo Braga e José Leite de Vasconcelos…

 

DUAS LINHAS DE PENSAMENTO

Concordo com Nemésio e Machado Pires quando falam de duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas têm de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par (como na análise de A. J. Saraiva) articulam-se com a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no “Portugal Contemporâneo”), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma sucessão de factos ou acontecimentos. Daí termos de perscrutar tendências, de suscitar criticamente essas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

«“Cultura” não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». No caso de Nemésio, este falava ao sabor da memória, “se bem me lembro”, usando as palavras como as cerejas, mas havia sempre um fio condutor, um fito, um meio de prova. O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos. O fim do século, a transição, a análise da crise política, económica e social, Antero de Quental, Eça de Queirós, Carlos Fradique Mendes (extraordinário heterónimo coletivo de uma geração, que encontramos no diálogo tenso entre Carlos e João da Ega), Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado devem ocupar o pensamento e a procura, num verdadeiro apelo a Jano, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro.

 

UMA PERSPETIVA CONVERGENTE

A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. Por exemplo, ao analisar as “raízes etnogénicas do Povo Português” no pensamento de Oliveira Martins, para quem a nossa identidade provém não só da vontade enfatizada por Herculano, mas também do fundo céltico, com o peso inerente do messianismo. E eis um paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino. Transporta a Moïra grega para o drama da causalidade histórica”. E, chamando a atenção para o percurso de vida do historiador oitocentista, fala do pessimismo das suas análises, em contraste com o seu compromisso cívico: “foi, no entanto, também ministro da Fazenda, preconizando a criação de riqueza agrícola, do fomento rural, o aproveitamento das águas públicas, o repovoamento florestal, a nacionalização dos transportes, promulgando mesmo, nos poucos meses do seu governo, a reorganização das Alfandegas e da Fazenda, talvez acreditando ainda, como nos longínquos anos de 1868, no universalismo das comunicações, na grande federação dos homens livres, na imprensa, na locomotiva, na eletricidade, na felicidade pelo Progresso Científico”. Ou seja, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e em que o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, Oliveira Martins não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado de um qualquer fatalismo: “vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social nunca o abandonou e define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. Ao contrário das considerações superficiais sobre a Geração de 70, Machado Pires sempre procurou demonstrar o carácter complexo do seu pensamento e do seu magistério, a atitude crítica positiva orientada num sentido emancipador, a coerência fundamental, centrada nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, bem como à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

BOCAGE – O NOSSO GRANDE FABULISTA…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 22

 

Elmano Sadino é o nosso árcade simultaneamente mais conhecido e mais incompreendido. É por certo aquele cuja vida mais próxima se encontra de Camões, mas a sua epopeia atribulada chegou até nós cheia de sombras, que levam muitos a não reconhecer as suas absolutas qualidades. Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é, na sua época e no conjunto da cultura portuguesa, alguém que associa plenamente o lirismo, a tragédia marítima e o picaresco do escárnio e maldizer, nesses pontos pode dizer-se é um português paradigmático, que nos permite apreender qualidades e limitações, e a consciência plena de que não temos um carácter idealizado, mas as virtudes e defeitos de uma natural imperfeição, com uma capacidade aventureira multifacetada e tantas vezes inesperada. Hoje cuidamos dos seus escritos educativos, na tradição de Esopo (620 a. C, - 564 a. C,), Fedro (século I, d. C.) e La Fontaine (1621-1695). Aí encontramos em poesia cuidada a interrogação sobre o género humano, através da rica metáfora dos animais… E eis como Bocage se revela um educador fino – claríssimo, pedagógico, cultor essencial da língua pátria. O português é esmerado, por parte de alguém que cultivou como poucos a palavra certa e a ideia clara e distinta. Veja-se, aliás, um primeiro exemplo, no célebre poema “A Raposa e as Uvas”. Como os melhores clássicos, não diz de mais nem de menos. Apenas a palavra que se espera, sem desperdício algum. E quando pensamos que a sentenciosa raposa já tudo disse, eis que se deixa enganar pela subtil parra que lhe cai no caminho…   

 

«Contam que certa raposa, 
Andando muito esfaimada, 
Viu roxos, maduros cachos 
Pendentes de alta latada. 

De bom grado os trincaria, 
Mas sem lhes poder chegar, 
Disse: “Estão verdes, não prestam, 
Só os cães os podem tragar!” 

Eis cai uma parra, quando 
Prosseguia seu caminho, 
E, crendo que era algum bago, 
Volta depressa o focinho».

 

E sobre um leão e um porco, aqui nos fala. Não cuidemos, porém, de uma visão literal. Do que aqui se fala é da gente que sem emenda persiste nos erros, sem cuidar de aprender com a experiência e de aproveitar as boas oprtunidades…

 

«O rei dos animais, o rugidor leão, 
Com o porco engraçou, não sei por que razão. 
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna 
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna): 
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes, 
Poder de despachar os brutos pretendentes, 
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça, 
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça; 
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar, 
E a sua ocupação dormir, comer, fossar. 
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria, 
Soltavam contra ele injúria sobre injúria 
Os outros animais, dizendo-lhe com ira: 
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!» 
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais, 
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais! 
Dos filhos para o génio olhai com madureza; 
Não há poder algum que mude a natureza: 
Um porco há de ser porco, inda que o rei dos bichos 
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos».

 

Não esqueço as minhas raízes Azeitonenses, e ainda para mais a ancestralidade liga-me a Elmano Sadino, pelos Barbosas. E fui encontrá-lo na Índia em Damão e depois em Macau. Eis por que razão Setúbal não deve ser aqui esquecida. Bocage amigo, corre-te nas veias o mesmo sangue de Fernão Mendes do Pragal!… Dói-me tantas vezes a indiferença… Não esqueço o juízo do elefante perante o discurso do burro. E que tal desdita não se apresente aqui. Lembremos sim o nosso grande poeta!

 

Agostinho de Morais  

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de junho a 2 de julho de 2017.

 

Miguel Real acaba de dar à estampa Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, 2017), que constitui um belíssimo repositório de reflexões, na linha de um percurso sério e persistente, de análise e estudo, que o autor vem seguindo.

 

 

PORTUGAL EM TRAÇOS FUNDAMENTAIS
Na linha de obras anteriores, temos agora uma síntese, onde se apresentam os “traços fundamentais” de uma cultura plena de diferenças e contradições, que alguns procuram simplificar, mas insuscetíveis de redução, que, a existir, tornar-se-ia caricatura. Uma cultura de “melting pot”, como a nossa, não pode deixar de se afirmar numa tensão entre o que se mantém e o que muda, entre os que ficam, os que partem e os que chegam. De facto, como Eduardo Lourenço ou José Mattoso têm ensinado, na linha de Garrett e Herculano, da geração de 1870 e das correntes críticas do século XX, para Miguel Real: “não existe uma essência identitária de Portugal, uma noção metafísica sintetizadora da existência de Portugal e identificadora da sua história…” – e “um dos maiores equívocos dos teóricos da cultura portuguesa tem sido a insistência, ao longo dos tempos, mas fortemente desde o final da monarquia, em 1910, na busca de um conceito absoluto, transcendente, exclusivo, excecional e extraordinário, definidor da identidade nacional ou do homem português”. Este é o ponto de partida, não só para compreendermos a diversidade e a complexidade de quem somos, mas também para nos mantermos abertos às diferenças – sobretudo considerando que a nossa cultura está na génese de outras culturas, geradas a partir de uma língua falada em todos os continentes, que se enriquece através da coexistência de várias outras línguas (como os crioulos), correspondentes às zonas geográficas onde o português é língua oficial… Deste modo, o futuro não pode deixar de ser encarado como um campo aberto à diversidade e de multiplidade cultural, onde coexistem vários e naturais polimorfismos… De facto, não podemos esquecer as sequelas de ressentimento (para que nos alerta o autor, na senda de Eduardo Lourenço) nos Estados e povos colonizados, “que ora legitimamente desconfiam do afã lusófono”. Por isso, a “Lusofonia não pode repetir a história, renovando os vícios dos diferentes desencontros históricos havidos em séculos passados”. Daí a necessidade de uma “paisagem política nova” – que considere o alerta do célebre título do ensaio de Maria Manuel Baptista: «a lusofonia não é um jardim ou a necessidade de “perder o medo à realidade e aos mosquitos”»… No fundo, a saudade e a morabeza, bem como as diversas idiossincrasias resultantes dos diálogos interculturais, fazem parte integrante de um modo de ser complexo e heterogéneo do mundo da língua portuguesa…

 

QUEM SOMOS, AFINAL…
Longe de uma explicação de destino transcendente, não somos nem melhores nem piores que outros – nem um segundo povo eleito de Deus, da herança judaica, nem depositários exclusivos da saudade (de Pascoaes), nem vocacionados para o Quinto Império sebastianista ou para a Terceira Idade de Joaquim de Flora… Portugal é um cadinho de múltiplas influências. Está aí a sua “maravilhosa imperfeição”. E quando encontramos em Fernando Pessoa as contradições insanáveis, que a heteronímia alberga, verificamos a importância da coexistência das diferenças que enriquecem a nossa cultura e das culturas que a animam. “A cultura é uma espécie de biblioteca, de ideal, em que nós pensamos separar aquilo que ainda perdura na memória, ainda atuante, daquilo que está morto”. Eis o ponto em que nos encontramos e que permite compreendermos que António Sérgio e Jaime Cortesão correspondem a faces de uma mesma exigência de compreensão da realidade que nos cerca. Sérgio alerta-nos para as condições materiais e para o conflito entre a fixação e o transporte, que marca o patriotismo prospetivo – contra o fatalismo do atraso. Cortesão não nos deixa esquecer, ao lado da razão, o anseio espiritual e emotivo. E sabemos bem, lendo os textos fundamentais de ambos e confrontando-os entre si e com a moderna historiografia, como Portugal e os Portugueses, apesar de todas as vicissitudes, continuam na luta, combatendo a mediocridade e a irrelevância. País suspenso no tempo? As elites alimentam uma cultura dúplice, ora escolástica e contra-reformista; ora europeia, reformista e aberta à modernidade; enquanto a cultura popular persiste vernacular, nativa e rústica. E a psicanálise mítica do destino português invoca a ciclotimia do sucesso e do fracasso, a força do centralismo da Arcada e de S. Bento e as resistências à autonomia e a descobrir e inovar. Afinal, perante as dificuldades encontramos energias desconhecidas, que se relacionam com a sobrevivência. Mas a que se deve o atraso estrutural? O debate sobre os estrangeirados e sobre a fragilidade das elites não perdeu atualidade. A natureza complexa da nossa realidade cultural leva-nos a que os elementos vários que a constituem favoreçam a formação de uma vontade comum, apesar dos egoísmos. E o pessimismo nacional? Será que o velho do Restelo de Camões ou Sá de Miranda na carta a D. João III são demonstrações insanáveis de uma incapacidade congénita para nos superarmos? E estaremos condenados a ser um “povo póstumo”? Se virmos bem, os melhores momentos da nossa existência coletiva (1415-1539) e a durabilidade do projeto Portugal deveram-se não ao improviso, mas à determinação e à definição de metas de largo prazo… Leia-se a «Crónica dos Feitos da Guiné» e perceba-se que não há aí espontaneísmo ou loucura… Há capacidade de planear e de mobilizar vontades.

 

O PORTUGAL FUTURO…
A anteceder o prefácio de José Eduardo Franco, está transcrito o poema de Ruy Belo “O Portugal Futuro”. “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível…”. O poeta diz que, chamem o que chamarem, “Portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a Espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz”. Em lugar do pessimismo sem horizonte, é possível a determinação e a continuidade. Para tanto, há que cultivar o espírito crítico e conhecer a história. Os mitos tornam-se construtivos, quando compreendidos reflexivamente. Os judeus, a Inquisição, os jesuítas, Camões, o sebastianismo, Vieira, Pombal, a ideia de nação superior e inferior, o pessimismo nacional, a decadência, o país suspenso no tempo como lugar cultural e mental encantado, o canibalismo cultural, os grupos fratricidas e parricidas – são fatores que nos obrigam a perceber a identidade nacional limitada nas condicionantes de nove séculos de história. «Por via da Europa – honra lhe seja feita -, e não por gradual esforço nosso, não são apenas dois ou três pensadores portugueses a exigirem o império da tolerância, mas as próprias instituições sociais, e antes de mais o Estado e a Igreja Católica…». E assim, preparamo-nos para enfrentar o século XXI, libertando Portugal de um passado económico, político e cultural que há meio milénio «sempre nos atrofiou as virtualidades».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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