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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

15. GERIR DEPENDÊNCIAS E ANTECIPAR ESTRATÉGIAS CULTURAIS

 

Quanto a influências exteriores e à importação do que vem de fora, é sempre positivo, para alguns, revelando a nossa grande capacidade de apropriação e absorção, sendo negativo, para outros, porque sintoma de uma subserviência acrítica, por vezes excessiva.

 

Há que encontrar um equilíbrio, expurgando extremos, pelo facto de não podermos ser imunes ao que vem do exterior e termos o dever de preservar o que nos particulariza e faz sobressair pela positiva perante os outros.

 

Estando na era da globalização, não nos podemos acomodar, pelo que temos de antecipar estratégias a nível ambiental, económico, social, sem nunca esquecer a vertente cultural, tendo presente que somos um país não exclusivamente  eurocêntrico, pois além de europeus, sempre tivemos uma ligação forte com outros continentes, através dos oceanos Atlântico e Índico, não podendo, de repente, no presente, virar as costas a um passado histórico e construir um futuro que privilegie tão só a Europa, a União Europeia ou uma aproximação ibérica.   

 

Daí a importância de uma aposta na diversificação das dependências, sobrevivendo sabendo-as gerir, via relações a todos os níveis.

 

No plano cultural há uma necessidade premente de consagrarmos o que somos pela imagem, pela força condensada e cada vez mais velocista e universal do audiovisual.

 

É inquietante a ausência de filmes e séries sobre figuras da nossa história, algumas delas evocadas e homenageadas mundialmente, como os navegadores portugueses Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães no museu da navegação da cidade portuária de Hamburgo, na Alemanha, onde estão os seus bustos, entre os sete grandes navegadores de todos os tempos aí recordados e reconhecidos (em paralelo com o viking Leif Eriksson, o chinês Zheng He, o inglês James Cook e Colombo). 

 

Outros podem ser lembrados, e são muitos, desde Viriato, Afonso Henriques, D. Dinis, Nuno Álvares Pereira, D. João I, D. Filipa de Lencastre, a Ínclita Geração (Infantes D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. João, D. Fernando e a Infanta Isabel de Portugal, Duquesa da Borgonha), Gil Eanes, Diogo Cão, Duarte Pacheco Pereira, os irmãos Corte-Real, Pedro Álvares Cabral, Diogo Álvares Correia (Caramuru), Catarina Álvares Caramuru (Paraguaçú), Damião de Gois, João de Barros, Garcia de Orta, Pedro Nunes, D. João II, Afonso de Paiva, Pero da Covilhã, D. Leonor (fundadora das Misericórdias), D. Manuel I, D. Lourenço de Almeida, D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Tristão da Cunha (uma ilha que descobriu, ainda hoje tem o seu nome), Jorge Álvares, Tomé Pires, Fernão Mendes Pinto, padre António de Andrade (Tibete), D. João IV, entre muitos da literatura, ciência, política e outra áreas (por exemplo, São João de Deus e a ordem dos Hospitaleiros), muitos de prioridade estratégica nacional e universal. Todos eles suportes da presença portuguesa no mundo. 

 

Com o argumento da ausência de dinheiro para a cultura, para frivolidades, ninharias ou coisas fúteis, abdicamos a favor de outros o testemunho da nossa História, tantas vezes tratada com desdém ou sobranceria, ao arrepio da verdade histórica, como na série britânica “Os Tudor”, em que a corte do reinado de D. Manuel I é representada como um albergue acolhedor de seres exóticos, atrasados e bafientos.   

 

Cada vez mais, nos tempos atuais, um país sem imagens é um país “ausente e “sem história”.        

 

09.04.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

2. SOBREVIVENDO E GERINDO DEPENDÊNCIAS - II

 

1. Ultrapassado o trauma da perda do Império Oriental, o da independência e síndrome de amputação do Brasil e confinado, por um lado, com a decadência nacional de que falava a Geração de 1870 e, por outro, com a doutrina jusinternacionalista da ocupação e partilha efetiva da Conferência de Berlim, Portugal tenta superar as suas debilidades forjando um novo sonho imperial que unisse em rosa cor Angola a Moçambique, o mapa cor-de-rosa. Assinaram-se tratados, com a Alemanha e França, que visavam assegurar a nossa soberania sobre tais territórios. Eis que surge, em 1890, um novo trauma, revelador da traumática relação Portugal-África, um Ultimato inglês declarando o não reconhecimento de tais direitos, exigindo a nossa retirada e reclamando a posse da região, com a cedência portuguesa, fazendo tábua rasa de direitos históricos adquiridos. Esse novo ideário levou a conflitos bélicos com povos africanos do interior, subjugados e vencidos. 

 

Consolidada a ocupação plena, repensou-se o imaginário imperial com a fusão da Metrópole e as oficializadas províncias ultramarinas (teoria integracionista), o que foi inviabilizado pelo eclodir da guerra colonial iniciada pelos movimentos independentistas africanos, na década de sessenta do século XX, forçando Portugal a ceder. Enquanto no âmbito dos conflitos coloniais europeus, Portugal teve de sujeitar-se ao Ultimato, sob coação do seu mais antigo aliado, foi também coagido a aceitar, na segunda metade do século XX, uma nova amputação, a da independência das suas colónias, especialmente africanas, na sequência da luta emancipadora e ganhadora dos povos colonizados e da nova ordem bipolar internacional fixada entre os Estados Unidos e a União Soviética.

 

A perda do Império Ultramarino, em 1975, cuja subsistência Oliveira Martins pensara ser a única saída para Portugal após a perda do Oriental e do Brasileiro, parecia cumprir o fatal destino por ele pressentido. Com a perda da guerra colonial e a independência das colónias africanas, emergia um novo trauma, um novo momento, um quarto momento de pagar, pensar e reconsiderar Portugal como país, regressado agora, de uma vez por todas, ao fim de vários séculos, às suas fronteiras europeias. Após a diáspora, ausências e deslocalizações, faltava cumprir Portugal, nas palavras de Manuel Alegre. Fechado o ciclo imperial, torna-se premente, mais uma vez, Portugal repensar o seu futuro, tentando ultrapassar esse novo momento traumático, de que estudos de então são esclarecedores.

 

2. É dessa época um livro de Joaquim Barradas de Carvalho, “Rumo de Portugal. A Europa ou o Atlântico?”, cujo título traduz a inquietude da opção a fazer:

 

“Para além de profundas reformas na sua estrutura económica, social e política, Portugal terá, e a breve prazo, de escolher entre duas opções que dizem respeito à sua história, a mais profunda. Portugal terá de escolher entre a Europa e o Atlântico. Se rumar para a Europa - esta Europa tão do agrado dos tecnocratas - Portugal perderá a independência de novo, chegará a mais curto ou a mais longo prazo à situação de 1580. Na Europa do Mercado Comum, e numa futura, hipotética, Europa política, a economia dos grandes espaços forjará uma Península Ibérica unificada, e seguramente com a capital económica em Madrid, que de capital económica se transformará, a mais curto ou a mais longo prazo, em capital política. Ora este seria um resultado contra natureza, na medida em que nunca existiu, nem existe, uma unidade de civilização na Península Ibérica

 

E acrescenta: 


“Assim, perante a encruzilhada, a Europa ou o Atlântico, pronunciamo-nos pelo Atlântico, como única condição para que Portugal reencontre a sua individualidade, a sua especificidade, a sua genuinidade, medieva e renascentista. Ora esta opção passa forçosamente pela formação de uma autêntica Comunidade Luso-Brasileira, uma Comunidade Luso-Brasileira que não seja apenas aquela “comunidade sentimental, ortográfica, … (…), e, se possível, uma Comunidade Luso-Afro-Brasileira. Nela todas as partes se reencontrariam na mais genuína individualidade linguística e civilizacional.

 

É esta a condição para que Portugal volte a ser ele próprio”. 

 

Tem-na como uma escolha prioritária, de vocação-destino, não excluindo as possibilidades de cooperação com a Europa. Opina que o Brasil representa mais genuinamente Portugal, exemplifica-o literariamente com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa ou Jorge Amado, observando que grande parte de escritores portugueses têm demasiada influência europeia, nomeadamente francesa, pelo que o melhor meio de nos conhecermos é ir para o Brasil e o inverso.

 

Justifica-se, num esclarecimento final:

 

“É que na história, existem uma curta, uma média e uma longa durações. Isto é: os regimes políticos, e até os sociais, passam. A Língua e a Civilização ficam”.

 

No que toca à interrogação decisiva de Barradas de Carvalho, a Europa ou o seu Atlantismo, deu-lhe resposta a nossa vivência recente e atual, tendo a entrada na Europa Comunitária compensado e superado, para muitos, o défice e o trauma derivado da perda do império ultramarino. Opção de fundo que nos trouxe, no curto e médio prazo, uma saída para a nossa viabilidade democrática e económica, um eventual quarto momento, cujos efeitos finais, por agora, desconhecemos.

 

De novo, confrontado com a sua imagem real, Portugal não aceita a sua pequenez ou mediania geográfica, ampliando-a e projetando-a num novo mapa, a atual União Europeia.

 

Ter-se-á reincidido num novo recurso “anormal “ou “tábua de salvação” de que Portugal se socorreu para adiar, por algum tempo, a resposta ao “problema português”, segundo a lógica proposta por Oliveira Martins?      

 

07.02.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício