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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

QUE ARCHEIRO ME FERIU COM A SUA SETA?...

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Num sermão de pregador desconhecido, do séc. IV, que a Igreja inclui entre as leituras que os livros de horas sugerem para as matinas de sábado santo, descubro, uma vez mais, este trecho, surpreendente sempre: 
   Eu te ordeno: desperta, ó tu que dormes, porque eu não te criei para que te mantenhas cativo no reino dos mortos. Eu, que sou vida até dos mortos, digo-te que te levantes, obra das minhas mãos! Levanta-te,minha imagem e semelhança! Levanta-te, para sairmos daqui, porque tu em mim e eu em ti somos um só! Por ti, Eu, teu Deus, me fiz teu filho...
   Nunca fui muito devoto, como sabes, antes sempre avesso a pieguices ou pretenciosismos "religiosos", ao estilo daquelas jaculatórias como: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos... Peço-vos perdão para os (pelos) que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam... Soam-me a oração de fariseu - de que Jesus não gostava - próximo do altar físico do templo, longe do pobre publicano que, lá atrás, no fundo esquecido, batia no peito contrito e não se achava digno. Deus dá-se-nos por amor, e só amor nos pede. Não se conquista, muito menos pela repetição de ditos e ritos hipócritas.

   Abri hoje, ao acaso da biblioteca, um dos Le Livre de Poche Chrétien, colecção da Arthème Fayard, dirigida por Daniel Rops: Prières des premiers Chrétiens, antologia organizada por um franciscano, o padre A. Hamman. Foi-me oferecido, há mais de sessenta anos - a julgar pela dedicatória que diz à un nouveau et très bon ami, avec un "au revoir" - por uma Ghislaine, cujo apelido omito, de quem já não me lembro... Mas era certamente uma das muitas e muitos jovens europeus e latino-americanos que, nesse tempo apoiávamos, em Paris e Bruxelas, a obra cultural e social da Igreja na América do Sul. Abriu-se-me o livro na página 88, caí sobre uma exortação de Orígenes (séc. III), cristão de Alexandria, homem de cultura helenística, mártir e filho de mártir, que claramente evoca as setas de Eros, a que os romanos chamavam Cupido: Como é belo e glorioso receber a ferida do amor! Este recebe a ferida do amor carnal, aquele é tocado por outra qualquer paixão terrestre. Quanto a ti, põe-te nu e oferece-te aos rasgos maravilhosos: é Deus o archeiro. E, mais adiante, recordando também as aparições de Jesus depois de ressuscitado: Escuta bem o que te diz esta seta, e como Deus a escolheu. Como é feliz o fado dos que esta seta feriu! Por ela foram tocados aqueles que, um ao outro, diziam: «Não ardia em nosso peito o coração, quando, pelo caminho, Ele nos falava e explicava as Escrituras?

   Acontece-me falar, com alguma frequência e em qualquer parte, da minha fé cristã, não que me force algum instinto prosélito, mas por fazer parte de mim, como a família e os amores humanos. Fomos criados, educados e instruídos - como se dizia - "na religião da Santa Madre Igreja Católica", e ficarei para sempre grato aos "nossos maiores", pela vida, por muito dela, por esse encontro com o Cristianismo também. Hoje, passadas mais de sete décadas sobre o meu baptismo, pensossinto que, ao longo de tantos anos, pecando, duvidando, amuando, interrogando, concordando e discordando, sendo amigo de padres, frades e freiras e inimigo do clericalismo, frequentando missas e detestando beatérios, fui afinal procurando a possibilidade de reconhecer, ao ritmo dos passos da minha vida, em mim e na minha circunstância, nas minhas atitudes, nas pessoas e nos acontecimentos, a prometida alegria que é, de sua graça, a dor inamovível da intimíssima ferida... 

   Eu, que sou católico, repito, em oração interior, essa frase de Ludwig Wittgenstein, agnóstico: Não sou um homem religioso. Mas não consigo deixar de olhar para qualquer questão, sem que seja de um ponto de vista religioso. Porque a nossa relação ao mistério de tudo é, como o amor, humano ou divino, simultâneamente contínua e inesperada. Em sábado santo, o silêncio interroga o silêncio. E é mais sentida a ferida. 

   Dou-te hoje a mão com um recado: deixemos que o silêncio nos fale a todos.

   Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 01.06.2014 neste blogue.

O PERIGO DE UM DEUS BOM

 

1. Julgo que o que no Papa Francisco provoca mais a admiração das pessoas, dentro e fora da Igreja — talvez até mais fora —, é ele ser um cristão. Por palavras e obras.


O que é ser cristão? É ser discípulo de Jesus, tentar viver como ele. Jesus é o autor da maior revolução da História, que consiste na revolução da imagem de Deus. Até pessoas que se dizem cristãs continuam com a ideia de que Deus manda epidemias, por exemplo, de que Deus precisou da morte do seu Filho Jesus para se reconciliar com a Humanidade. Pergunto: que pai ou mãe decentes exigiriam a morte de um filho? Em relação ao Deus que tivesse mandado o Filho ao mundo para, pela sua morte na cruz, poder aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade só haveria uma atitude humanamente digna: ser ateu.


Na realidade, Jesus, veio, pelo contrário, revelar que Deus é Pai/Mãe, amigo de todos, que a todos dá a mão, que compreende e perdoa e quer a salvação de todos. Deus é Amor incondicional, “o seu nome é Misericórdia”, diz o Papa Francisco, que faz como Jesus: anima a todos, dá a mão aos mais pobres, abandonados, marginalizados, denuncia a economia financeira especulativa e corrupta, que mata...


Afinal, na Páscoa, a pergunta que precisamos de fazer é sempre esta: Quem mandou matar Jesus, crucificando-o? Dá que pensar e até causa arrepios: Jesus foi mandado matar, em primeiro lugar, pelos sacerdotes do Templo. Eles não toleravam que Jesus dissesse, colocando na boca de Deus estas palavras: “Eu não quero sacrifícios (de pombas, ovelhas, vitelos...), mas sim justiça e misericórdia.” Os sacerdotes viviam, até financeiramente, da exploração do povo em nome da religião. Quem mandou crucificar Jesus, a pedido dos interesses do Templo, foi o representante do Império, Pilatos. Para que é que existem os impérios senão para idominar, explorar, escravizar? Pilatos teve medo de que o fossem denuncar ao imperador por libertar um subversivo com consequências para o poder imperial. De facto, o Deus de Jesus não quer escravos nem explorados por impérios ou seja pelo que for. Deus quer a dignidade de todos.


Não é esta dignidade e justiça para todos que Francisco também anuncia, quer e pratica?


Até parece que nos damos mal com um Deus bom para todos. Talvez não seja só parecer; em geral, damo-nos mesmo mal. É que, se Deus não fosse bom, não seríamos obrigados também nós a ser bons; se Deus fosse vingativo, também nós podíamos vingar-nos; se Deus não fosse o Deus da justiça e da paz, nós também podíamos roubar, ser corruptos, fazer a guerra, matar em nome de Deus ou invocando o seu nome...


Será que temos meditado suficientemente sobre o que levou Jesus à Cruz? Jesus não morreu na cruz por vontade de Deus. Morreu por vontade dos homens. Jesus não morreu para satisfazer um Deus irado. Morreu pela causa de um Deus bom, amável. Morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor: Deus é Amor... e só quer o bem de todos. Quem nunca ouviu falar da parábola do filho pródigo, dos banquetes de Jesus com pecadores públicos, com prostitutas, acolhendo todos em nome de Deus?...


O sofrimento físico, psicológico, moral, de Jesus durante o julgamento, o abandono e a fuga dos discípulos mais próximos, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho do Calvário, aquelas horas de horrores na cruz, é inimaginável. Rezou a Deus, que tratava por “Abbá” (Pai querido), que o libertasse daquele suplício, que se aproximava, sentiu pavor, suou sangue, rezou aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”. Mas as últimas palavras foram de perdão e de confiança filial: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. “Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito.”


Tantas vezes a cruz verdadeira de Cristo foi insultada com cruzes peitorais de ouro com pérolas incrustadas para ostentação de quem as utilizou...


2. Aparentemente, foi o fim. Mas, lentamente, os discípulos — a primeira foi Maria Madalena,, porque amava mais — foram reflectindo sobre tudo o que viveram com Jesus, o que Ele disse, o que Ele fez, o modo como o fez até à morte e morte de Cruz, e foi-se tornando claro para eles, numa experiência avassaladora de fé, que aquele Jesus crucificado para dar testemunho do Deus que é Amor, não podia ter sido devorado pela morte. Na morte, não encontrou o nada, mas o Deus que é a Vida e Amor. Jesus é o Vivente. E reuniram-se outra vez e foram anunciar o Deus que Jesus anunciou, por palavras e obras. Deram testemunho dEle até à morte. “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos sobre os cristãos. E uma nova esperança percorreu o mundo. E quando parecia que tudo se afundava, o cristianismo venceu, como sublinhava o ateu religioso Ernst Bloch, por causa desta proclamação: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.


3. As primeiras comunidades cristãs reuniam-se e celebravam a Eucaristia com alegria nas suas casas, lembrando Jesus, a sua vida, a sua morte, a sua ressurreição, e aunciando a esperança da vida eterna plena: “Fazei isto em memória de mim”.


Mas damo-nos mal com um Deus bom. E, lentamente, porque eram acusados de ateísmo por não oferecerem sacrifícios à divindade, a Eucaristia foi transformada em sacrifício oferecido a Deus, e surgiram os sacerdotes com ordens sacras para oferecerem o sacrifico da Missa, e reapareceram os senhores do Sagrado e as duas classes na Igreja: o clero e os fiéis.


Introduziram-se as cerimónias, com mais ou menos solenidade, das cortes imperiais. O que restou (resta?) da Ceia de Jesus?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAIO 2021

EPITÁFIO: PROFESSOR HANS KÜNG

 

1. Morreu em paz na sua casa de Tubinga no passado dia 6 o teólogo católico mais conhecido nas últimas décadas. Escreveu o próprio epitáfio: PROFESSOR HANS KÜNG. Professor vem do latim: profiteri, que também significa entregar uma mensagem. O problema de muitos professores é que não têm mensagem nenhuma para entregar; Küng tinha e passou a sua vida a passar essa mensagem, mensagem maior para a Humanidade: o Evangelho em confronto com o mundo moderno e o mundo moderno em confronto com a fé. Ainda teve a alegria de ver a suas obras completas publicadas: 24 volumes. Sobre a fé, a Igreja, Deus, as religiões, a arte, a psicanálise, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a ética... Era um trabalhador incansável, com profundíssimo conhecimento da Teologia, Filosofia, História, Ciência... e com o dom, raro, de transmitir em linguagem acessível o que o rigor académico exige.


2. Foi o mais jovem teólogo convidado por João XXIII como perito do Concílio Vaticano II, integrando uma plêiade de teólogos alemães, incluindo Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI.


Küng era um cristão convicto, fascinado por Jesus. Disse-me numa longa conversa: “Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical. Hoje vê-se cada vez mais claramente que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.” Quem é o cristão? Aquele, aquela para quem Jesus é “o determiannte na vida e na morte”.


Porque o centro só pode ser Jesus Cristo, era crítico do sistema eclesiástico romano centralizado, com “Monsignori, Excelências Reverendíssimas, Eminências”... O Vaticano II queria a descentralização e o retorno ao Evangelho, impondo reformas, abrindo à liberdade religiosa, aos direitos humanos, à ciência, à igualdade das mulheres, ao fim do “celibatismo”... Com o Papa João Paulo II, entrava-se lentamente num “inverno da Igreja”, na expressão de outro teólogo, talvez o maior do século XX, Karl Rahner ... A primeira vítima foi Hans Küng a quem em 1979 a Congregação para a Doutrina da Fé retirou a “missio canonica”, isto é, embora continuando padre, já não podia ensinar como teólogo católico. A razão próxima era o livro Infalível? Uma pergunta, no qual punha em questão a infalibilidade papal. Propunha que a infalibilidade fosse substituída pela indefectibilidade da Igreja, no sentido de que a Igreja nunca deixará cair o essencial da fé cristã. Permita-se-me uma nota pessoal. Bento XVI já era o Papa e uma jornalista perguntou-me sobre o que é que eu pensava da infalibilidade; respondi: “Pergunte ao professor Joseph Ratzinger se ele acredita que Bento XVI é infalível”. Foi pouco antes do Natal, estava na Alemanha e pude vê-lo triste na televisão, com estas palavras, que cito de cor: Dedica-se a gente com todo o empenho à Igreja e a recompensa é esta! Mais tarde, o seu colega e amigo, o suíço Herbert Haag, o maior exegeta do século XX, disse-me que ele passou então por uma depressão de seis meses. Küng manteve-se na Igreja e como padre. Aliás, na última vez que nos encontrámos —foi em Barcelona — confessou-me que era com alegria que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


O que se passa é que, se a Teologia quer manter o seu estatuto académico, tem de ser crítica, não podendo renunciar à libertas academica (liberade de ensinar). Dado o estatuto da Teologia na Universidade alemã, foi-lhe entregue a Cátedra de Teologia Ecuménica. Deste modo, abriram-se ainda mais os horizontes. Já na tese de doutoramento sobre  A Justificação,  tinha mostrado não haver razão para a separação entre católicos e protestantes quanto a este ponto central, como depois veio a reconhecer o próprio Vaticano. Deus justifica-nos: nós valemos para Ele. Era necessário continuar o processo de unificação das Igrejas cristãs. Difundiu o conhecimento das religiões mundiais e aprofundou as condições de possibilidade do urgente e exigente diálogo inter-religioso, também em ordem à paz. Não se cansou de sublinhar: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do planeta sem um ethos global” ­— ethos com o sentido de uma nova atitude ética. Neste contexto, é o principal redactor da famosa Declaração  “Princípios para uma ética mundial”, assinada no Parlamento das Religiões em Chicago em 1993, centrada na dignidade da pessoa, e que está na base do Instituto de Ética Global, com incidência na política e na economia. Tornou-se então um pensador mundialmente reconhecido. Dirigiu-se à Assembleia das Nações Unidas e aos estudantes da Universidade de Pequim...


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que incentiva uma primavera na Igreja e lhe escreveu duas vezes, também por causa da infalibidade, questão a estudar, e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial.


3. Para Küng, a fé assenta numa confiança radical racional em Deus, que se revelou em Jesus. Acreditava na vida eterna. Confiou, com razões, que, na morte, não ia para o nada, mas para “o Fundamento Útimo e Fim Último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus”, disse-me também.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 ABR 2021

NATAL: DEUS SEM MÁSCARA

 

1. Ia eu na rua e uma jovem interpelou-me: “Já não se lembra de mim? Até me baptizou...”. E eu: “Puxa um pouquinho a máscara”, e ela puxou. “Continuas linda, Susana!...”.


Se eu algum dia imaginei que havíamos todos de andar de máscara! Antes também havia muita gente mascarada, mas as máscaras eram outras... Agora, impomo-nos o uso da máscara a nós próprios, por causa de nós e dos outros: para nos protegermos a todos, ao mesmo tempo que nos desprotegemos, porque ficamos sem a presença dos outros. Como faz falta vermo-nos cara a cara, falar cara a cara, tocarmo-nos, sorrir, rir, colocar os sentidos todos alerta na presença viva dos outros. Passámos a vida a dizer às crianças: “Dá um beijo ao avô, um beijo à avó, um beijo à tia...”. Agora, de repente, é tudo ao contrário, como se os outros fossem inimigos, pois até viramos as costas... Apertávamos as mãos, porque apertar as mãos é um gesto de encontro na paz: as mãos livres de armas vão ao encontro do outro, sem medo. Abraçávamo-nos de alegria pelo reencontro ou chorando pelo luto ou antecipando a saudade pela despedida. Agora, não há proximidade, até nos mandam, e bem, manter a distância (e até se dizia: “a distância social”, mas eu espero que seja só a distância física, espero que a outra — a espiritual, a afectiva — se mantenha e aprofunde).


Foi precisa a pandemia para que se nos tornasse inválida a afirmação de Sartre: “O inferno são os outros”. Afinal, é o contrário: a falta dos outros é que é o inferno, a solidão é um inferno.


2. Não é só, mas também, pela ausência ou pela perda que tomamos verdadeira consciência do valor das coisas e das pessoas. A falta que nos fazem os outros! Só quando alguém se nos morre é que verdadeiramente nos apercebemos da importância e valor dessa pessoa na nossa vida. A falta que nos faz o Natal, o Natal que dizemos normal! Mas essa falta também pode e deve ser uma oportunidade para um Natal melhor, mais verdadeiro, mais autêntico, mais íntimo, mais solidário. Afinal, esfalfávamo-nos na correria ditatorial das compras e esquecíamo-nos do essencial!


E o que é o essencial? Talvez já tivéssemos esquecido, mas o Natal é, antes de mais, a celebração deste acontecimento determinante da História: o nascimento de Jesus, o nascimento do ser humano bom, verdadeiro. Seja como for, não há figura histórica mais estudada (ainda há dias o especialista em cristianismo primitivo, que é agnóstico, Antonio Piñero, lembrava que continuam a ser publicados anualmente uns mil novos livros sobre Jesus) nem mais amada.


O que há neste homem, nascido há mais de dois mil anos, para arrastar multidões e ser uma referência determinante para a Humanidade? Segundo o ateu Ernst Bloch, Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”, e Umberto Eco, que se dizia agnóstico, escreveu que, se fosse um viajante proveniente de galáxias longínquas, ao encontrar-se frente a uma Humanidade que soube propor o modelo de Cristo, com o amor universal, o perdão dos inimigos, a vida oferecida em holocausto pela salvação dos outros, “consideraria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, redimida pelo simples facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto é a Verdade”. Eduardo Lourenço, recentemente falecido, disse: “Não há nada superior a Jesus”. Até Nietzsche reconheceu, no seu O Anticristo, que no fundo só houve um cristão, mas esse morreu na cruz, e acrescentou: “Só uma vida como a daquele que morreu na cruz é cristã”.


Que vida foi essa? Porque é que o mataram?


Foi morto como blasfemo. Ergueu-se contra o Templo e a religião oficial que, em vez de libertarem o Homem, o esmagavam. Levantou-se contra o Sábado. “O Sábado é para o Homem e não o Homem para o Sábado” constitui talvez a afirmação mais revolucionária da história da consciência humana, pois coloca como critério último dos mandamentos do próprio Deus a realização e o bem-estar do ser humano.  Não era um asceta, e foi apelidado de “comilão e beberrão”: a salvação e a alegria são desde já e aqui, para todos.


Foi morto como subversivo sócio-político. Os seres humanos têm todos igualdade radical na dignidade inviolável, porque divina: já não há judeu nem grego nem homem nem mulher nem branco nem negro nem adulto nem criança nem livre nem escravo nem religioso nem ateu. Rebeldemente livre, Jesus não prestou culto nem a César nem ao Dinheiro, e o Deus a quem tratava terna e filialmente por Pai (também pode ser tratado por Mãe) não quer sacrifícios, mas misericórdia, e não se adora nem em Jerusalém nem em Guerizim, mas em espírito e verdade. A sua Boa Nova é o Reino de Deus da filadélfia, um Reino de amigos e irmãos.


A história das revoluções que têm Jesus na sua base está ainda por escrever. A maior delas é a revolução da ideia de Deus. Quereríamos um Deus-Poder que justificasse o nosso poderio de mando e subordinação. Mas o Deus de Jesus não se confunde com o Poder da dominação, Ele é omnipotente, não no sentido de dominar, mas como Força infinita de criar e promover. Por isso, no Natal, não veio em poder e glória, mas humilde, revelou-se num rosto de criança, que chora,  que ri, que se pode tocar. Um Deus que não está longe, mas próximo dos homens e das mulheres, dos jovens e das crianças, um Deus bom, amigo, amável e misericordioso para todos.


Para os cristãos, a Transcendência divina tem um rosto reconhecível, sem máscara: o homem Jesus, confessado como o Cristo e Filho de Deus.


Bom Natal!

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 DEZ 2020

EDUARDO LOURENÇO E DEUS

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1. Sobre o filósofo, o ensaísta, o pensador - um dos mais lúcidos do nosso tempo -, o crítico da arte, das múltiplas artes, nomeadamente da literatura e da música..., outros já falaram e escreveram.

Encontrei-o várias vezes e gostaria de deixar aqui breves reflexões sobre o tema em epígrafe, a partir de alguns desses encontros, sempre iluminantes para mim.

2.1. Participámos no Encontro de Lisboa, organizado pelo GOL - era então Grão-Mestre António Reis -, subordinado ao tema “Religiões, Violência e Razão”. E diz-me Eduardo Lourenço mais ou menos assim: Ainda bem que também cá está, porque se o meu avô me visse aqui...

A abrir o Encontro, falou da estranha crise contemporânea. Enquanto o Ocidente se desertifica de Deus, noutras culturas não só não há morte de Deus como, em vez da laicização, continuam na sua Idade Média, acreditando que o seu Deus é o verdadeiro e o Ocidente está em vias de perdição. De facto, o Ocidente teve um dinamismo incomparável, e a razão disso é que o seu debate foi sempre à volta de Deus. Noutras culturas, Deus é um dado e está no centro de tudo; no Ocidente, Deus tem sido uma interpelação infinita. Deus não é uma evidência, porque não é um objecto. Deus é o nome, precisamente enquanto anti-nome, da nossa incapacidade de captar o Absoluto, o modo de designarmos a nossa incapacidade de ocuparmos o seu lugar. O Ocidente é a procura e o debate à volta desta questão. É-se contra a objectivação de Deus, porque Deus-pessoa não é objectivável. Deste modo, o Ocidente afirma-se como procura da liberdade. Quando, noutras culturas, se dá a pretensão de apoderar-se de Deus, temos fanatismo.

E continuou, dizendo que, quando se dogmatiza, é para dominar. A perspectiva cristã caminha sobre outro chão. Aqui, Deus aparece como não violência, como puro amor, como espaço de liberdade absoluta. Sem Ele, as nossas liberdades não têm lugar. Ao revelar-se como amor, Deus mostra que, se a violência é o estado natural, a não violência é que é o mistério, e o que liberta é o não poder.

2.2. De outra vez, vínhamos de um debate, já tarde na noite, do Casino da Figueira para o hotel. E eu disse-lhe que o tinha citado num artigo, pois dissera ao EXPRESSO que lhe “pode acontecer rezar”. E ele: “Admira-se? Todas as pessoas rezam”.

2.3. Em 2016, estivemos de novo no Casino da Figueira, para um debate sobre “Utopia e distopias”. Nele, reflectiu sobre a herança europeia, atravessando a Grécia, a cristianização, o humanismo..., e desembocando nos nossos dias, com esta afirmação: a Europa “nunca esteve tão confrontada com um desafio tão novo”, e “o centro da crise está em França, que está a discutir se tem ou não identidade, e isso é de ficar aterrado”. Daí passou para o medo que a Europa enfrenta em relação ao mundo islâmico, considerando que “o maior aliado do islão é a Arábia Saudita, país que alimenta o cruzadismo que vem desse lado. Mas o mundo tornou-se tão pequeno que nada se pode pôr à margem”.

E ficou-me este aviso: A força e o poder de Vladimir Putin vêm-lhe de ele considerar “a Santa Rússia” como a última barreira contra a islamização da Europa.

2.4. Devo uma palavra de especial gratidão a Eduardo Lourenço pelo prefácio luminoso, logo no título: “Suicidário Ocidente”, seguido do dito célebre de Fernando Pessoa “Não haver Deus é um Deus também”, com que honrou o meu livro “Deus Ainda Tem Futuro?” (2014). Ficam aí alguns parágrafos.

“Enquanto Ocidente, o nosso mundo conhece uma desertificação religiosa sem precedentes e, na aparência, irremediável. Tal é o diagnóstico de Marcel Gauchet, um dos seus paradoxais exegetas inconformado com essa nova versão da tão glosada “morte de Deus”, vivência radical da ausência de sentido para a Vida em si mesma e nós nela. Distingue-se esta nova situação do canónico “ateísmo” que sob a figura da negação de Deus era ao mesmo tempo uma figura da certeza, a mais radical de todas.

... o conteúdo único daquilo que ainda chamamos “história humana” não explicita uma luta análoga a uma fábula à Saramago, um desafio mítico entre o Homem e Deus, mas uma luta sem fim do Homem consigo mesmo como o Outro, com a inconsciente esperança de que o vencedor dela seja enfim o Deus criador e todo-poderoso que nos forneceu o modelo da vontade de poderio que é a essência demoníaca da Humanidade.

Questão atrevida e que na verdade soa a blasfémia (ou soaria, se a formulássemos em terras do islão) esta, que sabemos grave e urgente como nenhuma outra para ocidentais em vésperas de descerem a novas catacumbas: Deus ainda tem futuro? Quando aquela, menos vertiginosa mas não menos apocalíptica, seria: O Homem, a Humanidade, ainda tem futuro?

... Não tardará muito que entremos no tempo da hipercomunicação com o mundo à volta convertido numa espécie de deserto ignorado dos antigos. Foi desta autodesertificação que a dúvida apenas formulável acerca de Deus pôde nascer. Não esperemos que o Deus imaginado por nós como sem futuro venha, como o Cristo de um célebre conto de Eça de Queirós, confirmar-nos que ainda está entre nós. Do silêncio de Deus que nós mesmos criámos não virá nenhum socorro. É diante dele como Ausência suposta e Presença agostinianamente mais interior a nós do que nós que somos convocados para fazer prova de vida. E de vida eterna. A única que nos ajuda a suportar todas as ausências dos que nesta vida nos foram, à maneira de Dante, reflexos de uma Luz mais clara do que a do sol e das estrelas.”

3. O Deus de Eduardo Lourenço era o Deus de Jesus e dos místicos.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 05 DEZ 2020

A PANDEMIA. ONDE ESTÁ DEUS?

 

A Universidade de Viena investigou a relação da religiosidade com a pandemia. Os resultados mostraram que as pessoas mais religiosas utilizam estratégias mais activas para dominar a crise. Enquanto as pessoas menos religiosas tendem a reprimi-la ou a negá-la, as mais religiosas procuram apoio social e lidam com ela de modo mais forte, mais optimista e com mais serenidade.

 

São dados significativos. Não houve, creio, nenhum estudo sobre o outro lado, mas estou convencido de que dele resultaria que muitos, esmagados pela pandemia, pelo sofrimento, se perguntaram: Onde está Deus?

 

A História é um autêntico calvário. Hegel referiu-se-lhe como um Schlachtbank: um açougue, um matadouro. E lá está o famoso dilema de Epicuro: Deus tem de ser todo-poderoso e infinitamente bom. Ou Deus pôde evitar o mal e não quis, e não é bom; ou quis e não pôde, e não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?

 

Mesmo teólogos de renome sentiram-se atenazados pelo dilema, de tal modo que alguns, como J. Moltmann, falaram de um Deus impotente, que sofre connosco; outros, como R. Guardini, chegaram a exclamar que “pediriam contas” a Deus pelo sofrimento dos inocentes, Karl Rahner disse que, “num tribunal humano, não sairia absolvido”, Karl Barth afirmou que, no Jardim das Oliveiras, quando Jesus rezava, suando sangue, Deus “se portou como Judas”, e Urs von Balthasar disse que “se deve falar de uma descarga de ira de Deus sobre aquele que lutava no Jardim das Oliveiras.” Nestas posições, a pergunta ergue-se talvez ainda mais veemente: acreditar como e para quê num Deus irado ou impotente?

 

A Filosofia e a Teologia ficarão historicamente devedoras ao filósofo-teólogo Andrés Torres Queiruga por ter desfeito o preconceito em que assenta o dilema (ver a sua obra marcante: Repensar o mal). De facto, como escreveu, “enquanto permanecer o preconceito de que Deus poderia acabar com todo o mal do mundo, se quisesse, ninguém pode crer na bondade de Deus, sem se ver obrigado a negar o seu poder; ninguém acreditaria na bondade de um cientista insigne que, podendo acabar hoje com os estragos do coronavírus, não quisesse fazê-lo, por altos e ocultos que fossem os seus motivos.”

 

O crente, nomeadamente o crente cristão, acredita no Deus Pai-Mãe, infinitamente poderoso e bondade infinita, que ama os seus filhos e filhas e só quer o seu maior bem. Donde vem o mal? Do mundo, que é finito e no qual há inevitavelmente mal. Não é possível um mundo finito, em evolução, perfeito e sem mal, porque isso  é uma contradição; como se não pode reivindicar a autonomia criatural da liberdade humana finita e a perfeição. “Afirmar hoje que Deus não é bom ou omnipotente, porque não cria um mundo perfeito, é o mesmo que argumentar que não o é, porque não quer criar círculos-quadrados ou não pode fazer ferros-de-madeira.” A primeira coisa que é, portanto, preciso clarificar é que o mundo produz mal, o finito não pode ser perfeito, tem falhas, carências, nele haverá choques, becos sem saída...

 

Desfeito o equívoco de um mundo finito perfeito e sem mal, avança-se para uma ponerologia (do grego, ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, todos sofrem ao nascer, todos passam pela dor, todos morrem. E devemos todos estar unidos solidariamente na defesa da vida e na procura do real alívio do sofrimento de todos. A pergunta, agora, é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus criou o mundo? “Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo.”

 

Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis e dikê, justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos, ateus, agnósticos, crentes, têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem, dentro de uma cosmovisão, a sua resposta para o problema, a sua fé. O crente religioso crê e pensa que é razoável crer em Deus e até pode perguntar, com o famoso teólogo Hans Küng: “O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!” E crê que Deus não teria criado o mundo, se não fosse possível libertar-nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. A mãe sabe matemática, mas não pode ensinar matemática ao seu bebé enquanto bebé; fá-lo-á mais tarde. Alguém pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como Amor e Anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.

 

Aqui, ergue-se outra objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Os crentes confiam em Deus e podem mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, pelo contrário. Sim, a pessoa é finita, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé: já para lá dos limites do espaço e do tempo, Deus mesmo entrega-se-nos nesta abertura infinita e finalmente seremos nós com Ele e nEle.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 JUN 2020

O FUTURO ABSOLUTO

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1. Face ao futuro, é essencial pensar. A palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio, com o sentido de tempo livre para homens livres pensarem e governarem a polis.

Hoje, falta esse ócio, tudo se torna negócio (do latim nec-otium). A própria política tornou-se sobretudo negócio. Assim, sob o império da técnica e do negócio, não se pensa, calcula-se. A técnica não pensa, calcula (Heidegger), o mesmo valendo para os negócios.

 

2. O futuro vem grávido de esperanças, mas também com perigos: a guerra nuclear, as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências), desembocando no trans-humanismo e no pós-humanismo, a injustiça estrutural mundial, o meio ambiente, as drogas, a paz, os direitos humanos, o trabalho... Vivemos num mundo global, estes problemas são globais e a questão é que a política é nacional, quando muito regional.

Olhando para o futuro, não se impõe pensar numa governança global? Não digo governo mundial, mas governança global, já que os problemas enunciados só com decisões ético-jurídico-políticas globais podem encontrar solução.

 

3. Problema maior hoje: uma espécie de cansaço vital. Porque não há sentido último. Daí, nem é no desespero que se vive, mas na inesperança.

Só com Deus, "Futuro Absoluto" (K. Rahner), se pode erguer um futuro autenticamente humano, com Sentido final, pois Ele é o Futuro de todos os passados, do presente e de todos os futuros.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 DEZ 2019

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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Minha Princesa de mim:

 

     Habituei-me a escutar a soprano francesa Sandrine Piau cantando árias de Haendel e Mozart, e revejo com alguma frequência o registo videográfico da ópera Alcina, em que o seu desempenho da personagem com o mesmo nome me comove profundamente. Esta manhã descubro-a noutras interpretações, que me encantam mais do que surpreendem : em canções de vários compositores franceses dos séculos XIX e XX, em que se faz acompanhar por Le Concert de la Loge, dirigido, ao violino, por Julien Chauvin. Mas não será deste álbum  -  que a editora Alpha intitulou Si j´ai aimé e publicou este ano  -  que te falarei aqui e agora. Esta presente carta minha vai curta, quero tão somente deixar-te o texto original e a minha versão portuguesa (que é muito simples e não pretende ser criativa) do poema de Victor Hugo -  Extase  -  que, posto em música pelo meu homónimo Camille Saint-Saëns, abre esta colectânea. Não o faço por grande amor ao romantismo, ou a Victor Hugo em especial, mas porque bebi, no canto deste poema, um pensarsentir tão simples, tão lindo e tão forte  -  que logo o reconduzi à leitura desse passo do Livro da Sabedoria que nos é proposto neste primeiro domingo de Novembro, quando já se anuncia um tempo novo e nos vamos aconchegando à misteriosa ternura do Natal que vem aí. Vai este passo do capítulo 11 para o 12 :

     Perante Ti, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho na manhã. De tudo Te compadeces, porque és omnipotente e não procuras ver os pecados, mas o arrependimento. Amas tudo o que existe e não odeias nada do que fizeste...   ...Tu amas a vida, Senhor...   ...o teu espírito incorruptível está em todas as coisas...

     Assim me ocorreu como poderia ter sido Victor Hugo inspirado quando disse aos anos rápidos : A minha alma tem mais chama do que vós cinzas! / O meu coração mais amor do que vós esquecimento! Vamos então ao Extase:

 

          Puis-que j´ai mis ma lèvre à ta coupe encore pleine;            Porque aos lábios levei o teu cálice cheio;

          Puisque j´ai dans tes mains posé mon front pâli ;                 E em tuas mãos pousei meu pálido rosto;

          Puisque j´ai respiré parfois la douce haleine                         Porque fui respirando o hálito suave

          De ton âme, parfum dans l´ombre enseveli;                          Da tua alma, perfume em sombras amortalhado;

 

          Puisqu´il me fut donné de t´entendre me dire                         Porque tive a dita de te ouvir dizer

          les mots où se répand le coeur mistérieux;                             palavras em que se verte o coração misterioso;

         

          Puisque j´ai vu pleurer, puisque j´ai vu sourire                        Porque vi chorar, já que vi sorrir
         

          Ta bouche sur ma bouche, et tes yeux sur mes yeux ;            A tua boca na minha, os teus olhos nos meus;

 

          Puisque  j´ai vu briller sur ma tête ravie                                   Porque vi cintilar e encantar-me a cabeça

          Un rayon de ton astre, hélas! Voilé toujours;                           Um raio do teu astro, que triste fado encobre;

          Puisque j´ai vu tomber dans l´onde de ma vie                         Porque vi cair na onda da minha vida

          Une feuille de rose arrachée à tes jours                                   Uma folha de rosa arrancada aos teus dias

          Je puis maintenant dire aux rapides années :                          Posso agora dizer aos anos rápidos :                     

          - Passez ! Passez toujours! Je n´ai plus à vieillir!                    - Passai! Passai quanto quiserdes, que velho não ficarei !

          Allez-vous-en avec vos fleurs toutes fanées;                           E passai levando as vossas flores todas murchas, pois

          J´ai dans l´âme une fleur que nul ne peut cueillir!                    Trago na alma uma flor que ninguém pode arrancar !

          Votre aile en le heurtant ne fera rien répandre                         Nem lhe tocando poderá vossa asa entornar

          Du vase où je m´abreuve et que j´ai bien rempli.                     O vaso que me mata a sede e trago bem cheio.

          Mon âme a plus de feu que vous n´avez de cendre                Tem mais chama a minha alma, do que vós tendes cinzas          

         Mon coeur a plus d´amour que vous n´avez d´oubli!                Meu coração mais amor do que vós esquecimento !

 

     O dom do amor, seja como ele for, é a primeira graça de Deus. E o poeta, qualquer poeta, é, na sua alma, um pastor que, como os bem aventurados puros de coração, durante toda a vida conduz, sem cansaço, medida ou duração, pelos longos caminhos da transumância, essa inicial e essencial memória da infância.

     Nesta terça feira, 5 de Novembro, recebi um livro escrito pelo meu amigo José Manuel de Braga Dias:  As Cores do Tempo (Causa das Regras, Oeiras, Outubro de 2019). Nele achei muitas coisas bonitas, talvez por me saberem a sentidas verdades de gente. Coisas que afinal todos partilhamos, como estas:

 

           ...Se não fossem os meus netos

           Não recordaria como fazer contas

           Juntar letras, criar palavras,

           Alinhar palavras para construir frases

           Juntar e dividir frases para fazer um conto

           Que me recordasse alguém que também foi menino

           E gostava de inventar a felicidade

           Nos escritos e palavras que criava.

 

   Bem hajas, Zé Manel!

 

     Camilo Maria                

Camilo Martins de Oliveira

 

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, O NOVO CARDEAL

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Estamos atentos ao que se passa em Roma nas próximas horas! É com alegria e esperança que saudamos a decisão do Papa Francisco de nomear como Cardeal o nosso querido amigo e associado José Tolentino Mendonça. Na história do Centro Nacional de Cultura e em vésperas dos 75 anos, que é uma idade respeitável, é a primeira vez que contamos com dois Cardeais entre os nossos sócios efetivos (com D. Manuel Clemente) – devendo salientar-se que ambos se iniciaram no Centro ainda clérigos, quando não tinham qualquer outra dignidade eclesiástica. D. José Tolentino Mendonça foi no CNC sempre uma referência no diálogo com o mundo da cultura, muito para além das fronteiras religiosas. E há alguns anos quando homenageámos, na Capela do Rato, Lourdes Castro, desde a sua juventude muito cá de casa (designadamente com José Escada), lembrámos essa atitude fundamental do novo Cardeal – a de que a Arte e a Cultura têm sempre um sinal de Deus. E José Tolentino compreendeu-o sempre. E há dias, Paula Moura Pinheiro interpretava fielmente o sentimento de muitos dos seus amigos, de vários horizontes culturais, dizendo: “Espero que o padre Tolentino provoque o estremecimento na Santa Sé que sistematicamente provocou a nós que o ouvíamos pessoalmente na Capela do Rato durante tantos anos e tenha o mesmo fulgor revolucionário que sempre lhe conheci”. A jornalista lembrava a sua participação na comunidade da Capela do Rato, onde teve “por pastores padres maravilhosos”, considerando que “é impossível negar que o padre Tolentino tem características únicas” que o fazem “excecional”. “Ele tem uma espécie de acesso e quando começa a conversar ilumina-se e passa a pertencer a qualquer coisa, de outra dimensão, metafisica. É o que eu sinto quando o ouço”. E com que emoção recordamos com ele o espírito da revista “Concilium”, o Círculo do Humanismo Cristão, a Livraria Moraes, o MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa, que aqui vivemos, nas paredes que habitamos – Helena e Alberto Vaz da Silva, António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Frei Mateus Peres O. P., Nuno Bragança, João de Almeida, Nuno Teotónio Pereira, Diogo Lino Pimentel, Freitas Leal e tantos outros… Quanto caminho percorrido? Quantas veredas trilhadas, contra ventos e marés?...

Importa, pois, lembrar a ação que desenvolveu nos meios culturais como poeta consagrado, que tem procurado abrir horizontes de diálogo com os meios intelectuais numa perspetiva de troca de ideias, de enriquecimento mútuo e de um melhor conhecimento das preocupações espirituais do mundo contemporâneo, a partir da laicidade, da liberdade religiosa, numa sociedade aberta e pluralista. Simbolicamente o novo Cardeal adotou como lema a frase “Olhai os lírios do campo” (Mt., 6, 28) e escolheu como símbolos os lírios, um elefante, e o Alfa e o Ómega da mensagem bíblica do Filho do Homem. O elefante representa a velha e mítica ligação dos portugueses a Roma, de que a célebre embaixada do Rei D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 é uma indelével referência, enquanto os lírios representam a simplicidade da vida. A leitura de «Elogio da Sede» (Quetzal, 2018) permitiu-nos compreender melhor a alegria e a disponibilidade pessoal com base no entendimento da sede como “bem-aventurança que nos salva”. «Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, asséticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança». Eis por que razão, o poeta nos põe de sobreaviso contra a indiferença, contra o encolher de ombros do relativismo. A liberdade religiosa e o encontro entre convicções obrigam a estarmos disponíveis para ouvir e para caminhar juntos, sendo capazes de nos colocarmos no lugar dos outros. Não pode haver diálogo na ignorância ou na suposição de que temos certezas acabadas e fechadas. Ao percorrermos as meditações, seguimos os capítulos, significativamente intitulados – Aprendizes do espanto, a ciência da sede, o perceber que se está sedento, a sede de nada que nos adoece, a sede de Jesus, as lágrimas que contam uma sede, o beber da própria sede, as formas do desejo, a escuta da sede das periferias, e a bem-aventurança da sede. Cada palavra, cada passo devem ser considerados, cultivando o tempo, a reflexão e a atenção. E se alguns põem em causa o facto de o Papa Francisco apelar às periferias, como se estivesse a esquecer as centralidades, a verdade é que a centralidade da dignidade humana só pode ser compreendida se entendermos os limites, as dificuldades, as angústias. Quantas vezes nos sentimos perdidos e abandonados – são esses os momentos fundamentais para que temos de nos prevenir perante o risco de cairmos e de estarmos fortes para nos levantarmos. Mas se estamos demasiado seguros e certos, há qualquer coisa que falta na fé e na esperança e que empobrece o amor. Oiçamos: «Perguntamo-nos muitas vezes o que é a misericórdia. E a misericórdia não cabe numa definição. Não se pode dizer: “A misericórdia é isto”. Precisamos de espelhos para compreender a misericórdia. Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é reconciliação profunda. É tudo isso. Mas é isso realizado também com um determinado estilo, que é o estilo do pai da parábola de Jesus. Não há misericórdia sem dádiva, sem doação. Aquele filho trazia tantas feridas, manifestas e escondidas, e precisava de ser curado com o bálsamo da misericórdia». E se falamos de dádiva, temos de ter presente a ideia de troca – dou e dás, encontramo-nos afinal na generosidade. No fundo, “Deus ama a vida e não desiste dela”. De que vida nos fala? Do quotidiano inesperado, em que podemos descobrir o outro que nos procura. Nos caminhos insondáveis temos de ser aprendizes do espanto. “O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas”. Não, não estamos saciados – estamos sim cientes de uma sede que não se satisfaz imediatamente na nossa condição. Através do amor, do respeito e da dignidade vamo-nos saciando. Mas é a consciência dos limites que nos leva a entender que não estamos sós e que temos de estar atentos a quem nos chama, mesmo em silêncio… S. Paulo di-lo melhor que ninguém. A fé e a esperança passam. O amor e o cuidado ficam – e assim a sede é o desejo e o caminho para esse dia em que poderemos finalmente ver face a face… “Porque Deus não desiste de dizer a toda a vida – à nossa vida – que ela é querida e bem-aventurada. Essa é a sede de Deus”.

Um dia José Tolentino disse a Anabela Mota Ribeiro: «Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. (…) A experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. (…) Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor (dizia o poeta), que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestra espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. (…) Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos». Quem somos afinal? Quem são os sedentos que se encontram connosco na dúvida e na incerteza? O filho pródigo e o seu irmão ressentido somos nós. S. Pedro a negar três vezes somos, de facto, nós. S. Tomé incrédulo ainda somos nós, muito mais vezes do que julgamos. Graham Greene quando se converteu escolheu o nome de Tomé, exatamente porque sabia que a fé e a incerteza se completam – enquanto paradoxalmente Mauriac num grito algo provocatório lembrava às avessas do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque não me abandonaste”. E Santa Teresa de Jesus alertava para a ingenuidade de supor que “as almas às quais Nosso Senhor se comunica, de uma maneira que se julgaria privilegiada, estejam contudo, asseguradas nisso de tal modo que nunca mais tenham necessidade de temer ou de chorar os seus pecados».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

DEUS AOS RICOS: “INSENSATOS!”

 

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1. É mau ser rico? Não, de maneira nenhuma. Ai de nós, se não houvesse ricos, com iniciativa e capacidade para investir, criar riqueza, dar emprego a tanta gente, fazer progredir um país e o mundo! A riqueza, diz a Bíblia, é uma bênção. A pobreza, essa é uma maldição. O que é que podemos fazer sem algum dinheiro? Mesmo para fazer o bem e ajudar outros precisamos também de dinheiro. A expressão “Igreja dos pobres” pode levar a equívocos, pois não se trata de realizar “o ideal” de todos serem pobres. Pelo contrário: “Igreja dos pobres e para os pobres”, para acabar com um mundo de pobres que não têm aquele mínimo que lhes permita realizar a sua dignidade humana e cristã.

Pense-se na “parábola dos talentos”. Um dos contemplados foi condenado porque nada fez com o seu talento. Cada um de nós é ele, é ela, o que a família e a natureza nos deram gratuitamente e também o resultado do que conquistámos com o nosso trabalho e o nosso esforço.

 

2. Então porque é que a Bíblia condena os ricos: “Ai de vós, os ricos!”, proclama Jesus no Evangelho. Porque há a riqueza que é preciso condenar.

2.1. Em primeiro lugar, é maldita a riqueza roubada, a que provém do roubo, da exploração. E, meu Deus!, o que se rouba, também neste país! Aos milhões e milhões! Uma desgraça! Por exemplo, há Bancos que se afundam e o Estado, isto é, nós, os contribuintes (alguém viu o Estado?), pagamos milhares de milhões e não acontece nada, nem sequer um julgamento. Foi a antiga Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal que afirmou recentemente que o Estado está “capturado” por redes de corrupção e compadrio: “Há efectivamente algumas redes que capturaram o Estado e que utilizam o aparelho do Estado para a prática de actos ilícitos... Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso.” E há os pequenos e os grandes ladrões, como já Lutero se queixava: “Quando olhamos para o mundo de hoje através de todas as camadas sociais, constatamos que não passa de um grande, enorme covil cheio de ladrões... Aqui, seria necessário calar quanto aos pequenos ladrões particulares, para atacar os grandes e violentos, que diariamente roubam não uma ou duas cidades, mas a Alemanha inteira... Assim vai o mundo: quem pode roubar pública e notoriamente vai em paz e livre e recebe aplausos. Em contraposição, os pequenos ladrões, se são apanhados, têm de carregar com a culpa, o castigo e a vergonha. Os grandes ladrões públicos devem, porém, saber que perante Deus são isso mesmo: os grandes ladrões.” O que Lutero disse há quinhentos anos para a Alemanha de então, desgraçadamente vale hoje para o mundo todo, incluindo Portugal.

2.2. É amaldiçoada a riqueza insolidária, também com a Natureza (veja-se o que se passa, por exemplo, com a Amazónia). Não se trata, portanto, de acabar com a riqueza, mas de tornar solidários os ricos. Ai dos ricos que exploram os trabalhadores, que fogem aos impostos, que esmagam os pobres, que só pensam neles mesmos, abandonando à miséria os desgraçados e tantos que morrem à fome. Uma das vergonhas maiores da Humanidade é que há hoje comida suficiente no mundo para que todos pudessem viver e não somos capazes de erguer um sistema de distribuição que impeça a morte à fome ou em consequência dela de 40.000 pessoas por dia, segundo algumas estatísticas. E alguns dos maiores fluxos financeiros do mundo têm a ver com matar: pense-se no armamento, nas drogas, na prostituição...

2.3. A maldição maior provém do facto de se fazer do dinheiro um ídolo.

Jesus foi claro: “Não podeis servir a Deus e a Dinheiro”, com maiúscula, Mammôn, um deus a quem entregais a vossa vida e salvação. E contou uma parábola: “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer?, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos, descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vais morrer; e o que acumulaste para quem será?”

Está aquele rico, de noite, deitado na cama, sozinho, não tem ninguém, apenas aquele pensamento soberbo e auto-satisfeito de que tem riqueza suficiente para muitos anos. Não tem uma mulher amiga, não tem amigos, não pensa nos familiares, nos pobres e desgraçados, nos seus trabalhadores a quem talvez explore, não tem ninguém, é só ele, exaltado e exultante: “Descansa, come, bebe e regala-te!” Mas, de repente, assalta-o o terror da morte: “Esta noite vais morrer!” Afinal, tudo o que acumulou para quem será? Está angustiado. “Insensato!”, diz-lhe Deus. Para que foi a sua vida? Quem vai salvá-lo? Todas as suas riquezas acabam ali. Como escreve o grande exegeta Xabier Pikaza, “este rico néscio, insensato, imagina céus de dinheiro e sofre terrores de morte.” Não lhe resta nada.

 

3. Por muito dinheiro que tenhamos, é necessário perceber (e não é preciso pensar muito) que há âmbitos essenciais da vida, o essencial, em que seremos sempre pobres, porque o dinheiro não compra tudo. A amizade não se compra. A alegria interior verdadeira não se compra. A honra não se compra. A dignidade também não. A salvação eterna não se compra. Deus, sim, Deus, não se compra. Ele há a graça, o gratuito.

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 SET 2019