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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A RELIGIÃO VAI ACABAR?

  


A religião chegou ao fim?

Eis uma daquelas perguntas que volta sempre de novo. E não faltam as profecias a anunciar o fim da religião. No entanto, a profecia está longe de ver a sua confirmação. Neste tempo de ateísmo, pelo menos 85% da Humanidade continua a afirmar-se religiosa A religiosidade é uma dimensão profunda e constitutiva do Homem, como a música, a estética, a ética…

No longo processo da hominização, quando se deu o salto para a humanidade, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo sentido último e total e a sua busca. Precisamente esta questão é a raiz do dinamismo cultural e religioso. E o que mostra a história das religiões é que não bastam as realizações culturais como resposta à totalidade da questão do sentido, pois também elas são contingentes e minadas pelo efémero e mortal. Por isso, desde o início, a resposta do "verdadeiramente positivo" é vista em forças supra-humanas, mais tarde, em deuses e Deus. Trata-se sempre de "objectivações" que transcendem o mundo empírico e a história dada. O que constitui a religião, como escreveu Karl-Heinz Ohlig, é a experiência de contingência, a abertura ao sentido e a correspondente esperança num Sentido "transcendente".

A ideia de que é possível varrer do mundo o incognoscível, o mistério e a transcendência pela ciência não se confirma de modo nenhum. De facto, há o incognoscível, o mistério último. Evidentemente, o cientista tem de partir da vontade de procurar explicações, razões e causas cada vez mais abrangentes e finalmente completas dos fenómenos. No entanto, como escreveu o filósofo Luc Ferry, se esta vontade é legítima, por outro lado, se a tomarmos como "princípio ontológico absoluto", será sempre de certo modo votada ao fracasso. De facto, nenhuma explicação científica poderá alguma vez encontrar uma "causalidade última", porque, nesse processo explicativo, ou pára-se de modo arbitrário na busca das causas, tornando-se a explicação incompleta ou pretende-se descobrir uma "causa primeira", caindo na metafísica e abandonando a racionalidade empírico-científica. "Na ciência, não existem senão explicações limitadas de fenómenos eles mesmos limitados".

Precisamente desta abertura para o incognoscível e para o mistério erguer-se-á sempre a pergunta por Deus, e esta pergunta infinita é que dá ao Homem aquela dignidade e aquela seriedade das quais a nossa sociedade de banalidade raquítica parece estar cada vez mais distanciada, absorvida como anda na logomaquia sofista e rídicula e no consumo sofisticado e pedante.

Claro que Deus não é demonstrável - Deus só pode ser "esperado" como Sentido último e transcendente para todas as esperanças. No entanto, mesmo quando se considera os "mestres da suspeita" e os críticos da religião na modernidade, talvez só de Freud se possa dizer que, ao pressupor uma aceitação desiludida da realidade, aceitou como possível uma vida sem religião. Os outros, na sua aparente contundência crítica, não deixam de manifestar alguma reserva quanto à iminência do fim da religião - por exemplo, o "louco" de Nietzsche confessa que a sua notícia da "morte de Deus" ainda está a caminho - e abrem perspectivas globais de esperança quase religiosa, não se contentando, portanto, com o mundo fenoménico: Comte falou da "religião da Humanidade", o marxismo apontou para a utopia de uma sociedade reconciliada, Nietzsche para a perspectiva de um Superhomem futuro, Ernst Bloch para o Reino de Deus sem Deus. Mesmo Freud escreveu numa carta a J. J. Putnam, em 1915: “Quando me pergunto porque é que sempre procurei com seriedade ser solícito e, quanto possível, bondoso com os outros e porque é que não o deixei de fazer quando verifiquei que se é prejudicado por isso e massacrado, pois os outros são brutos e infiéis, não conheço qualquer resposta.”

"O potencial de angústia e de experiências negativas parece ser tão grande e o dinamismo da esperança de Sentido tão forte" que "haverá sempre religião", concluía o teólogo Karl-Heinz Ohlig, especialista em história e ciências das religiões.  O que se passa é que agora as religiões já não podem ignorar a razão crítica e, por outro lado, a cultura e a religião já não se identificam, de tal modo que, nas sociedades pluralistas, as religiões já não são normativas para todos os domínios da realidade, que se tornaram autónomos. Mas, precisamente por isso, ficam libertas para o que é o domínio específico da sua competência -- a questão do Sentido. Ora, este domínio "parece afectar de modo tão central a vida humana que até agora não se pode afirmar um fim da religião nem é de esperar para o futuro".

Face à questão de Deus, a situação da razão é paradoxal. Por um lado, parece constitutiva a sua referência a Deus: não é próprio do ser humano ter de colocar a questão do Fundamento último, a questão do Sentido último enquanto Sentido de todos os sentidos, e não está Deus co-implicado na experiência do limite, portanto, paradoxalmente também nas experiência do mal, da morte e das vítimas da História? Por outro, a razão não pode demonstrar Deus, já que essa demonstração implicaria que Ele é menos do que ela: o Deus demonstrável é um ídolo.

Deus é dado essencialmente numa experiência de fé, de entrega confiada, que pode e deve ser articulada racionalmente. Então, a experiência mais profunda e autêntica de Deus, aquela que não engana, é a do amor. Essa foi a revolução de Jesus de Nazaré.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 de fevereiro de 2022

E SE DEUS NÃO EXISTISSE?

 

Bertolt Brecht, o dramaturgo marxista ateu, para quem a Bíblia era livro fundamental de referência, deixou esta história: "Alguém perguntou ao senhor K. se Deus existe. O senhor K. disse: Aconselho-te a reflectir sobre se o teu comportamento mudaria segundo o tipo de resposta à pergunta. Se não mudaria, podemos deixar cair a pergunta. Se mudaria, então posso pelo menos ajudar-te até ao ponto de dizer-te que já te decidiste: Precisas de um Deus."


O dramaturgo alemão viu claramente que a fé em Deus por interesse, de tal modo que se acreditaria para alcançar o Céu ou para evitar o inferno, está ferida de suspeita. Se Deus existisse como recompensa para que as pessoas façam o bem e sobretudo como travão para que deixem de fazer o mal, não estaríamos em presença de Deus, mas do Polícia do mundo. Esse Deus está ameaçado de não passar de projecção do desejo humano e do medo. Desse modo, Freud teria razão no seu ataque à religião, ao considerá-la uma ilusão infantil e infantilizante, que leva o crente simultaneamente ao aconchego e à blasfémia.


Ao crente é preciso perguntar: Se lhe fosse revelado que afinal Deus não existe?! Sentir-se-ia aliviado? Finalmente livre? O que é que mudaria na sua vida? Seria a derrocada moral? Ou pura e simplesmente não aceitaria essa 'revelação', porque, ao viver de certa maneira - na dignidade, na solidariedade, na fraternidade, na beleza, na interrogação radical e sem limites... -, já experienciou que a realidade e a sua própria existência devem ter um valor e Sentido últimos? Deus não é o garante da vida moral, mas pode ser experienciado enquanto co-implicado nas grandes experiências humanas, também na existência moral. A fé significa essencialmente uma determinada atitude face ao todo da realidade e da existência.


O que deve unir crentes e não crentes é a busca honesta e sincera da verdade e o combate generoso por uma Humanidade melhor, mais solidária e feliz. Nesta procura e nesta luta comuns, pode entreabrir-se a esperança fundada de um Sentido final para a realidade e para a existência. O ateísmo, se não for banal nem primitivo ou ridicularizante, mas inteligentemente desafiante, responsavelmente reflexivo, com dúvidas e um perguntar inexaurível, não é inimigo da fé que sabe que precisa de purificar-se sempre. Como a fé adulta constituirá permanentemente um desafio para o ateu que não se contenta com o dado, que quer ir até à ultimidade, que transcende para o Humanum na sua radicalidade. A fé enquanto abertura à Transcendência é sempre antídoto contra o narcisismo individual e colectivo.


Afinal, como escreveu Joseph Ratzinger, "o crente e o não crente, cada um à sua maneira, participam na dúvida e na fé... Nem um nem outro podem subtrair-se completamente à dúvida e à fé... Talvez precisamente a dúvida, que impede um e outro de se fecharem totalmente em si mesmos, pudesse tornar-se o lugar da comunicação. Ela evita que ambos girem exclusivamente à volta de si próprios; abre o crente ao que duvida e o que duvida ao que crê; para o primeiro, ela é a sua participação no destino do não crente, para o outro, a forma como a fé, apesar de tudo, permanece nele um desafio".


Isto significa que a fé não pode encerrar-se nas muralhas de um dogmatismo fixo e morto, mas tem de abrir-se ao diálogo e à razão crítica. Esta abertura e este diálogo são tanto mais urgentes quanto os fundamentalismos, também os fundamentalismos religiosos, se tornam um desafio e perigo maiores.


A fé verdadeira não tem medo da razão autónoma, pois sabe que a razão, levada até aos limites das suas possibilidades, se acende na noite e também sabe que só o Homem livre pode dizer sim ao Mistério. Para tentar balbuciar este Mistério, é necessário entrar em diálogo com todas as ciências, com todas as filosofias, com todas as religiões.


Nestes tempos de penúria e de noite, como disseram o poeta F. Hölderlin e o filósofo M. Heidegger, nestes tempos de niilismo, é tarefa decisiva da Igreja não deixar obturar a interrogação originária que nos faz homens e mulheres livres. É necessário manter acesa a pergunta radical e inconstruível, que é o sinal de que o Homem transcende o dado e de que não pode ser encerrado num positivismo crasso e obtuso.


Afinal, onde está Deus?


Deus está, antes de mais, nesta própria pergunta. Enquanto houver homens, hão-de confrontar-se com os enigmas do tempo e do amor e da morte, com a pergunta pela origem e pelo Sentido último da realidade, e, consequentemente, com a questão de Deus. Suponhamos uma sociedade na qual não existisse sequer a palavra Deus. O que é que aconteceria, se a simples palavra "Deus" deixasse de existir? Respondeu o famoso teólogo Karl Rahner: "Então o Homem já não ficaria situado perante o todo da realidade enquanto tal, nem perante o todo uno da sua existência enquanto tal. Pois isto é o que faz a palavra “Deus” e só ela. Não notaria que já só pensa perguntas, mas não a pergunta pelo perguntar em geral. O Homem teria esquecido o todo e o seu fundamento e teria ao mesmo tempo - se é que assim se pode dizer - esquecido que esqueceu. Que seria então? Apenas podemos dizer: deixaria de ser Homem. Teria realizado uma evolução regressiva, para voltar a ser um animal hábil. O Homem só existe propriamente como Homem quando diz “Deus”, pelo menos como pergunta. A morte absoluta da palavra “Deus”, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 de janeiro de 2022

CARTAS À PRINCESA DE AGORA E SEMPRE

ponte nevoeiro.jpg

 

   Minha Princesa de sempre :

   Não recordo, não registei, nem sequer medi o tempo decorrido desde a última carta que te escrevi. Talvez por me sentir mais desvinculado da duração de tudo, finalmente mais preso à memória das coisas e das vidas como essencial substância da minha consciência do presente... como se este mais não fosse do que passado imperfeito! Sou hoje o que fui mais o que não cheguei a ser. Quero assim dizer que prevaleço nesse sentimento de mim em que, mais do que eu e a minha circunstância, me surpreendo como eu e a minha imperfeição. Já me não conjugo no futuro, não consigo completar-me. Tampouco me habita qualquer sentimento de perda, muito menos desejo ou vontade de ser agora o que não fui no devido tempo. Nem sequer rumino vadios pensamentos de culpa minha ou alheia. Não vou gritar, como a Traviata, "É tarde!" Tudo na nossa vida tem o seu tempo oportuno.

   Não é por deitarmos abaixo antigos ídolos ou antiquados símbolos que nos convertemos. Aquilo que for o ser novo e limpo, ou estará já dentro de nós, ou será mais um episódio da nossa imperfeição. Nesta nossa vida presente, queiramos ou não, há um tempo e um espaço que necessariamente nos condicionam quando agimos. O nosso estado de liberdade pertencerá sempre, por enquanto, a essa mística interior, alheia a qualquer espaço ou tempo que possa limitar-nos, algo tão misterioso que apenas podemos imaginar como o antiquíssimo futuro de nós... 

   Sempre te disse e escrevi, minha Princesa agora perdida entre estrelas de um universo em contínua expansão  -  que talvez seja a extensão do Deus desconhecido que procuramos  - , quanto me deixa perplexo, mesmo para além de qualquer angústia, pensarsentir a contradição desta nossa condição humana, hesitação constante (interminável?) entre o finito e o infinito, talvez interrogação sem resposta certa na finitude da nossa temporalidade, mas fé e esperança que o amor dos outros (e de nós) desenha na intemporalidade do infinito que, afinal, dia após dia, incansavelmente vamos desejando e desenhando. 

   Talvez cheguemos a esta idade do fim do nosso tempo apenas para confrontarmos a nossa pequenez com a infinita grandeza de Deus. Momento difícil este, em que finalmente realizamos que Deus não tem tamanho nem tempo, e que o "mundo" que nos espera estará certamente fora de nós e do nosso muito imaginar. 

   No início calendarizado de mais um Ano Novo, e quando completo o octogésimo da minha vida presente, contemplo o meu rio envolto em nevoeiro e procuro a ponte que me levará para fora do tempo e do espaço...

 

Camilo Martins de Oliveira

RELIGIÃO A MAIS? DEUS E DIGNIDADE

 

1. O filósofo Henri Bergson, na obra famosa As Duas Fontes da Moral e da Religião, mostrou a distinção entre dois tipos de religiosidade. A primeira - a religiosidade estática - tem a sua base na angústia da morte e no sentimento de abandono perante uma Natureza tantas vezes cruel, e, a partir do instinto de sobrevivência, procura protecção divina para a pequenez humana. A outra - a religiosidade dinâmica - assenta na intuição do Mistério Último experienciado como amor. Esta exprime a grandeza do ser humano e apoia-se na experiência de pessoas excepcionais - os místicos. Mas a mística autêntica e completa é acção, pois o místico verdadeiro, "através de Deus, por Deus, ama a Humanidade inteira com um amor divino".


Não há corte radical entre as duas formas, mas é necessário reconhecer que há vivências mais e menos perfeitas da religião e uma consciência de nível mais alto neste domínio. Quando o núcleo da religião é vivido no amor, não só termina a intolerância como se impõe a compreeensão entre as pessoas, independentemente da sua confissão religiosa. Foi assim que, por exemplo, no sufismo, corrente mística do islão, houve a visão clara de que, insistindo no aspecto amoroso da religião, se dava a aproximação com Jesus, sem necessidade de abandonar a profissão islâmica. Kamil Hussein escreveu: "Se sentes no profundo de ti mesmo / que isso que te incita ao bem é o teu amor por Deus / e o teu amor pelos homens que Deus ama; / se pensas que o mal consiste em afastar-se dos homens / porque Deus os ama, como te ama a ti, / e que perdes o teu amor a Deus se causas dano àqueles que Ele ama, / isto é, a todos os homens, / tu és discípulo de Jesus, seja qual for a religião que professes".


Há um tremendo equívoco na afirmação corrente "católico não praticante", referida só à prática dos rituais religiosos. De facto, como escreveu Nietzsche, "só uma vida como a dAquele que morreu na cruz é cristã". No Juízo Final, não se pergunta se se foi à Missa ou a Fátima, mas se se foi ao encontro dos mais necessitados: deste-me de comer, de beber, de vestir, foste ver-me ao hospital, na cadeia... Os primeiros cristãos tiveram de defender-se da acusação de ateísmo: de facto, não só recusaram o culto oficial romano como não tinham aqueles sinais que aparentemente fazem parte da essência da religião: templos, altares para o sacrifício... Mas amavam Deus e Jesus e o seu sinal distintivo era o amor: “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos. E celebravam com alegria o memorial que Jesus deixara na Última Ceia, a Eucaristia.


Na perspectiva cristã pode-se e deve-se perguntar: para quê o culto oficial, em ordem a aplacar a divindade e propiciar a sua benevolência, se Deus se revelou definitivamente como amor? Só quando for vivida adequadamente no “templo” do mundo a religião verdadeira da justiça e do amor, terá sentido pleno celebrar nos templos a alegria gozosa da vida e da fraternidade em Deus. Por isso, enquanto "a prática cristã" a que se referia Nietzsche for anémica, poder-se-á dizer com razão que no sentido corrente de ritos e cerimónias até há religião a mais.


2. Nestes tempos conturbados, é urgente insistir na questão da religião e da dignidade. De facto, tantos homens e mulheres e crianças que foram escravizados, humilhados, torturados, física e espiritualmente, com base na religião! Pense-se na Inquisição, na tragédia dos abusos de menores ... E ainda se degola gente da forma mais bárbara, argumentando com o Alcorão...


Houve, e há ainda, homens e mulheres para quem teria sido preferível nunca ter ouvido falar em Deus, melhor: não ter tido contacto com certas formas de religião. De facto, a religião foi muitas vezes para muitos causa de desgraça, de infelicidade, de tortura física e interior: pense-se nas guerras de base religiosa, na queima das bruxas, nos escrúpulos, nos traumas sexuais...


Mas, depois desta constatação, é preciso também proclamar bem alto: o Deus em nome do qual se humilhou, se torturou, se escravizou, não é Deus. É apenas um ídolo que os seres humanos criam para satisfazer as suas loucuras, afugentar os seus medos e legitimar a sua ânsia de dominação. Uma religião que conduz à menoridade mental, que escraviza, que faz andar de rastos, das duas uma: ou é uma religião falsa ou os crentes interpretam-na mal. A razão é simples: Deus tem de ser, repito constantemente, pelo menos, melhor do que nós. Ora, um ser humano sadio não pode querer a menoridade de ninguém, não pode tolerar a humilhação, a injustiça, a escravatura, a indignidade...


Por isso, é preferível não acreditar em Deus a acreditar num Deus que humilha o Homem, o escraviza, o torna menor... Se o crente, pelo facto de o ser, não se sente mais humano, mais livre, mais digno, com uma obrigação acrescentada de lutar por mais dignidade, por mais liberdade, por mais fraternidade, por mais alegria, só tem uma coisa a fazer: deixar de acreditar.


Nisto, os ateus, não os ateus vulgares, mas os que sabem o que isso quer dizer, vêem por vezes mais claro que os próprios crentes. Ernst Bloch, por exemplo, viu bem, quando, aliás na linha de Hegel, escreveu que na religião autêntica se exprime a infinita dignidade de ser Homem. Foi ele também que disse que até ele se inclinaria perante um cardeal ou bispo que dissesse e praticasse aquela palavra de Jesus, referente ao Juízo Final: “Aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 de novembro de 2021

PODEMOS "DEFINIR" DEUS?

 

1. É evidente que, em sentido estrito, não podemos definir Deus. Ele é o Infinito, o Mistério da Ultimidade e, por isso, está sempre para lá de tudo o que possamos pensar ou dizer d'Ele.


O que dizemos fica sempre aquém. Mas as religiões sempre tentaram. A Bíblia também.


Duas vezes fundamentalmente a Bíblia tenta dar uma "definição" de Deus. A primeira pertence ao Antigo Testamento: "Eu sou Aquele que sou", diz Deus. A segunda é do Novo Testamento: "Deus é Amor". "Eu sou Aquele que sou" é o nome do próprio Deus, revelado a Moisés, e significa: Eu sou aquele que está convosco. "Deus é Amor" procede da experiência feita com Deus através da experiência com Jesus enquanto encarnação desse amor na sua universalidade, e é, nas palavras do grande teólogo Karl Barth, "a definição fundamental" de Deus: "Deus ama! (...) tal é a essência de Deus que aparece na revelação do seu nome. 'Deus é' quer dizer: 'Deus ama'".


O que, na história das religiões, é característico do judaico-cristianismo é a revelação de Deus como amor, que se compromete e age na História. Criou o mundo exclusivamente por amor. Um mundo contingente, que existe, mas podia pura e simplesmente não existir. E só um mundo contingente, histórico, com uma origem, pode estar a caminho da salvação e plenitude final, pois, como escreveu o teólogo Ruiz de la Pena,"o que não vem de parte nenhuma não vai para parte nenhuma, circula girando eternamente sobre si na contemplação especular do unívoco". Também só um Deus pessoal pode salvar a pessoa concreta da morte definitiva. Perante a morte, é sempre possível remeter para uma imortalidade impessoal. Mas a imortalidade impessoal, pela sua própria definição, é a imortalidade de ninguém. A consciência da morte é sempre pessoal e única: pela angústia, sou remetido para o eu único que se sente ameaçado pelo nada, e desse nada só o Deus pessoal, comprometido com os homens e as mulheres enquanto pessoas, pode libertar e salvar. Por isso, no domínio religioso, a distinção nuclear passa pela aceitação ou não do Deus pessoal. De facto, pode ser-se simultaneamente religioso e ateu: religioso, mediante o sentimento oceânico, por exemplo, ou a veneração panteísta da Natureza, e ateu, porque se não acredita em Deus enquanto pessoa.


A Bíblia tem como núcleo precisamente a famosa história do livro do Êxodo, capítulo 3, onde Deus revela o seu nome a Moisés: "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egipto. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios". Moisés disse a Deus: Que direi, quando me perguntarem qual é o teu nome? Deus respondeu a Moisés: "Eu sou o eu sou aí' convosco e para vós". Este é o nome de Deus: O "eu-sou-junto-de-vós". Há aqui uma experiência nova de Deus. O Deus bíblico nada tem a ver com os deuses-senhores do poder e da dominação. Quem oprime e humilha os homens e as mulheres não pode reclamar-se dEle, pois Ele repudia a escravidão e todo o tipo de opressão. O seu acordo e compromisso é exclusivamente com a liberdade.


O Deus bíblico, que é o Deus da aliança com homens e mulheres livres, não se manifesta como Senhor, à maneira dos reis e deuses da antiguidade, nomeadamente da Babilónia e do Egipto, que eram os senhores dos seus territórios e dos seus subordinados. É certo que na Bíblia aparece a palavra Senhor referida a Deus. Mas isso foi sobretudo por influência da tradução grega, que traduziu o original hebraico Javé por Senhor (Kyrios). Assim, onde hoje lemos em português: "Eu sou o Senhor, teu Deus", deveria estar, em conformidade com o original: "Eu sou Javé, teu Deus", e Javé significa: "Eu estarei convosco, eu sou Aquele que está convosco", o que é completamente diferente do Senhor dominador, que se tem de aguentar e suportar.


Por isso, Jesus, em quem se manifestou a amabilidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens, não reivindicou título senhorial. Veio como aquele que serve. É certo que os cristãos cedo o invocaram como Senhor, mas tinha desaparecido a distância dominadora do culto imperial. É assim que, por exemplo, aquele passo do Evangelho: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus", quer dizer que Jesus só é "Senhor" da sua Igreja, quando nela se realiza o seu projecto: vive-se o amor e a fraternidade, oferece-se o perdão e a paz, promove-se a liberdade e a dignidade, em dinamismo inteligente e racional, pois o Logos (Razão, Inteligência) é divino.


Por causa de um dogmatismo seco, de estruturas hierarquizadas de poder e da funcionarização do clero, a Igreja também é responsável pela passividade mental de muitos. Embora a interrogação seja dos lugares cimeiros da presença de Deus para o Homem, a capacidade de pôr perguntas ficou muitas vezes tolhida e anémica. Em presença de um Deus menor, a dignidade in-finita de ser ser humano atrofia-se. Há ainda quem faça preceder o nome de um D. (lê-se Dom, que é abreviatura do latim "Dominus", que significa Senhor). Mas uma Igreja de senhores atraiçoaria o Deus bíblico.


É na tradição do Êxodo, saída da escravidão para a liberdade e a dignidade que Jesus se compreende. S. Tiago escreverá, na linha dos profetas, que desprezaram os sacrifícios cultuais e reclamaram a justiça e a liberdade para os pobres e humilhados: "A religião pura e sem mancha consiste em visitar os órfãos e as viúvas."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 de novembro de 2021

CRER NUM DEUS IMORAL?


A palavra fé vem do latim fides, donde deriva também fiel, fidelidade, confiar, fiador, confiança, confidência. Crer vem de credere, donde deriva também credo, crença, crente, acreditar, credor, crédito. Até etimologicamente, ter fé não significa, portanto, em primeiro lugar aceitar um conjunto de afirmações doutrinais ou dogmas. A fé é, antes de tudo, a entrega confiada a Deus, Fonte originária de tudo quanto existe. Entregar-se-lhe confiadamente como Sentido último de toda a realidade e da existência própria. Como um homem se entrega confiada e amorosamente a uma mulher, como um amigo confia num amigo.


A pergunta é inevitável: mas Deus terá crédito, a ponto de se poder realmente acreditar n'Ele, sem ilusões? Quem quiser reflectir sobre a fé religiosa medite na relação amorosa humana, no que ela implica de confiança, de decisão racional e de crédito.


Teria crédito um Deus em relação ao qual se pudesse dizer, como escreveu Ernst Bloch, que o Homem pode e deve ser melhor que o seu Deus?


Com este critério, é necessário, por exemplo, recusar o Deus que exigiu a Abraão o sacrifício do próprio filho. Segundo Kant, à pretensa voz divina que ordenava sacrificar Isaac, Abraão deveria ter respondido: "Que eu não devo matar o meu bom filho é absolutamente certo; mas que tu, que me apareces, sejas Deus, disso não estou certo, nem posso estar, mesmo que essa voz ressoasse desde o céu (visível)". Como é inadmissível um Deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de um pecado dos primeiros pais. Quem pode acreditar num tirano, num Deus mesquinho e sádico?


Frequentemente, foi um Deus indecente e intolerável que os ateus justamente recusaram. Segundo Nietzsche, o Deus que objectiva o ser humano "tinha de morrer, porque via com olhos que viam tudo... A sua piedade desconhecia o pudor: ele metia-se nos meus recantos mais sórdidos".


A religião, que tem de ser, pela sua própria natureza, o espaço da nobreza humana e da sua dignificação, da liberdade e da libertação, da fraternidade sem limites, da beleza e alegria feliz, do perguntar simultaneamente humilde e ousado, foi frequentemente o lugar da mesquinhez reles, da indignidade, da exclusão, do opróbrio, do mau gosto, da superstição ridícula. No Decâmeron, de Bocaccio, um frade enumera algumas das relíquias que encontrou: uma unha de um querubim, alguns raios da estrela que apareceu aos Reis Magos, uma garrafa com o suor de S. Miguel quando combateu com o Diabo... E hoje? Pregações infantis, infantilizantes e totalitárias, sem apelo ao debate esclarecido, ao diálgo crítico e a decisões adultas, contribuíram para o presente "vale tudo" do niilismo moral e para que, para tomar as grandes decisões da sua vida, já quase ninguém tenha em conta as posições da Igreja.


Feuerbach e os "mestres da suspeita" viram-se na necessidade de negar Deus, porque pensaram que Ele era um vampiro que se alimentava do sangue, dos direitos e da dignidade do Homem. Ai de nós, se não tivesse havido nem houvesse ateus, não os ateus vulgares, mas daqueles que sabem o que isso verdadeiramente quer dizer! Sem eles, muitos crentes continuariam de rastos diante da Divindade. Mas que Deus seria esse que nos obrigasse a andar de rastos diante dEle e nos tornasse mesquinhos e ridículos aos nossos próprios olhos?...


Deus tem de ser um Deus moral. Portanto, qualquer ser humano tem de exigir que Deus seja pelo menos melhor do que nós. Ora, embora não sejamos bons, nenhum ser humano sadio permitiria, se estivesse nas suas mãos, que alguma vez um ser humano sofresse os horrores do inferno para sempre. Como foi possível acreditar num Deus proclamado como amor originário e ao mesmo tempo aceitar a condenação eterna, com tormentos sem fim, no inferno, de tal modo que muitos homens e mulheres viveram já na Terra uma existência totalmente envenenada, torturada, por causa do pânico do inferno? Como é que foi possível acreditar em Deus e ao mesmo tempo num pecado dos primeiros homens entendido como um pecado transmitido de geração em geração, de tal maneira que o fruto do amor que as mães levam no seu ventre seria portador da mancha do pecado, da qual só o baptismo pode libertar? Pergunta, com razão, o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: "Em que cabeça cabe que Deus pudesse 'exigir' a morte violenta do seu Filho para perdoar os pecados da Humanidade? Que mãe pode acreditar de verdade que a sua criaturinha recém-nascida, perante a qual o seu coração se desfaz de ternura, 'está em pecado' enquanto não for baptizada?"


A não ser que o consideremos um déspota imoral e arbitrário, Deus não pode exigir aos homens aquilo que ele próprio não faz, não pode obrigar os homens àquilo a que ele próprio não está obrigado. De facto, se, por exemplo, Deus fosse um Deus vingativo, um Deus opressor, seja qual for o género de opressão, porque é que não haveríamos de poder nós também vingar-nos e oprimir?


Impõe-se, porém, reconhecer que tudo isto não passou de um enorme equívoco. Na realidade, o Deus cristão não é um rival do Homem, mas um companheiro. E a própria ideia de liberdade e da dignidade inviolável de todos os homens e mulheres, tem a sua raiz na Bíblia e veio ao mundo pelo cristianismo, como reconheceram também Hegel e o próprio Ernst Bloch.


Aí está a razão por que o crime da pedofilia é ainda mais odioso quando praticado pelo clero, que tem por missão levar a todos a mensagem do Deus da dignidade, da liberdade, da salvação. 

    

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 de outubro de 2021

O MISTÉRIO DE UM ROSTO, DE UM OLHAR, E A BURQA

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1.   Um rosto é um milagre. Há hoje no mundo quase 8.000 milhões. Nenhum igual a outro: cada rosto é único.

Um rosto é a visita do infinito e a sua manifestação viva no finito. Nunca ninguém viu o seu rosto e o seu olhar a não ser num espelho e sobretudo no olhar de outro rosto.

Para rosto há muitos nomes: rosto, cara, face, aspecto, máscara-pessoa. De um modo ou outro, todos indicam a visibilidade de um alguém. Que é um rosto senão alguém que se mostra na sua aparição? O rosto é a nossa exposição, o nosso estar voltados para os outros e para a frente, para diante.

O que vai na alma vem ao rosto. Há o rosto sereno, ou amargurado, ou severo, ou alegre, ou rancoroso, ou triste, esfarrapado, revoltado, suplicante, pensativo, esfomeado... De homem, criança, mulher. Ah!, e, quando dizemos a alguém que está com óptimo aspecto, possivelmente a resposta será: “não me queixo do aspecto”. Talvez essa pessoa não se queixe. Mas as fortunas que se gastam para se compor e arranjar o aspecto!... Ah!, a aparência, o parecer!

Um rosto estoira em riso; um rosto desfaz-se em lágrimas. A criança tem o rosto da manhã; nas rugas do rosto velho, está escrito o trajecto de uma história.

A beleza estonteante do riso num rosto nunca será explicada pela física. Penso que a química nunca há-de explicar as lágrimas de alegria, de dor, de horror, de compaixão, que nascem da fonte do olhar e descem por um rosto.

 

2  O rosto concentra-se no olhar. É dele que fala o filósofo E. Levinas, quando fala do outro como “visage”. O que é o olhar senão a luz que se acende na noite do mistério? Não é dos olhos que se trata. O mistério é o olhar. Um dia terão perguntado ao filósofo Hegel o que se manifesta e vê num olhar. E ele: “o abismo do mundo”.

Num olhar, o que há é alguém que vem à janela de si e nos visita. Também por isso, para tornar alguém anónimo, venda-se-lhe os olhos. Faz-se o mesmo a um condenado à morte, porque é intolerável o seu olhar.

Repito: até para nós próprios somos por vezes terrivelmente estranhos. Quem nunca se surpreendeu ao olhar para o seu próprio olhar no espelho? “Quem é esse ou isso que me vê, desde o abismo?” 

Essa estranheza assalta-nos até no olhar de um animal: um cão velho e abandonado que nos olha não nos deixa indiferentes. Mas é sobretudo o olhar de alguém que é perturbador. Ele há o olhar triste. O olhar meigo. O olhar arrogante. O olhar do terror. O olhar da súplica. O olhar de gozo. O olhar que baila num sorriso. O olhar concentrado. O olhar disperso. O olhar da aceitação. O olhar do desprezo. O olhar compassivo. O olhar do desespero. O olhar sedutor. O olhar envergonhado. Ah!, o olhar da despedida final para sempre! O olhar morto, que já não é olhar! Ao morto fechamos-lhe os olhos.

Mais uma vez, o olhar é a presença misteriosa de alguém, que ao mesmo tempo se desvela e se vela. Já ao nível do tal cão velho e abandonado pode erguer-se o sobressalto da pergunta: o que é e como é ser cão? Mas é uma sensação de abismo, um belo dia, precisamente perante o olhar de alguém, ficarmos paralisados com a interrogação: o que é ser alguém outro? Porque a outra pessoa – o outro homem ou a outra mulher – não é simplesmente outro eu, mas um eu outro. Explicitando: o que é e como é ser o Juan ou a Eunice, viver-se a si mesmo por dentro como o Juan ou a Eunice? Nunca saberei. E como é o mundo visto a partir deles? E como é que ele ou ela me vêem? O quê e quem sou eu realmente para eles, a partir do seu olhar? É certo que só vimos a nós pela mediação do outro. Sem outros eus enquanto tus, não há eu. Entre mim e o outro há uma tensão dialéctica: de distância e proximidade. Afinal, a relação com o outro pode ser de rivalidade ou de aliança, de destruição ou de criação. Então, precisamente no olhar do outro enquanto próximo inobjectivável, irredutível, de que não posso dispor, pode revelar-se o apelo misterioso da proximidade infinita do Deus infinitamente Outro, Presença amororsa infinita... 

Como é que foi possível o dinamismo do universo ir-se configurando ao longo de milhares de milhões de anos até à sua concentração na forma de um rosto enquanto divino visto? Pode ser nele que Deus nos visita e interpela.

No rosto, há uma pessoa que se apresenta e é vista. Por isso, o mistério de um rosto morto é que nele o que se mostra é a ausência definitiva de um alguém. Para sempre.

Para sempre?

Final mesmo é a esperança da convocação por Deus de todos os rostos da história do mundo, transfigurados pelo esplendor divino da eternidade. Já não haverá lágrimas nem dor nem sofrimento nem morte. Como diz o Apocalipse: "Vi então um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra são do passado, e o mal já não existe. Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, a Jerusalém nova, pronta como esposa adornada para o seu esposo. Nisto, ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele habitará com eles, eles serão o seu povo e Ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor! Não haverá mais dor! Sim! As coisas antigas passaram! Aquele que está sentado no trono declarou então: Eis que faço novas todas as coisas!".

 

3.  Por tudo isto, considero um crime a imposição da burqa. Eu já vi ao vivo mulheres com a burqa: verdadeiros sacos ambulantes. Rouba-se-lhes o rosto, o olhar, a identidade. É um crime de lesa-humanidade.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 AGOSTO 2021

FÉRIAS: TEMPO FESTIVO

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1. O ser humano tem como uma das suas características ser laborans (trabalhador). Não apenas para ganhar a vida — uma expressão extraordinária, embora dura: a vida foi-nos dada e, depois, é preciso ganhá-la, e uma das coisas que me têm sido ensinadas pela experiência é que quem nada tem que fazer para ganhar a vida, trabalhando, porque tudo lhe é oferecido, nunca atinge uma adultidade madura —, mas também para se realizar autenticamente em humanidade. De facto, é transformando o mundo que a pessoa se transforma e faz. Isso é dito no étimo de duas palavras: a palavra trabalho vem do latim, tripalium, um instrumento de tortura (trabalhar não é duro?), mas também dizemos de alguém que realizou uma obra e que se vai publicar as obras de alguém (do latim, opera) — em inglês, trabalhar diz-se to work, e, em alemão, Werk é uma obra, sendo o seu étimo érgon, em grego. Ai de quem, à sua maneira, não realiza uma obra, a obra primeira que é a sua própria existência autêntica! Fazendo o que fazemos, o que é que andamos no mundo a fazer? A fazer-nos, e, no final, seria magnífico que o resultado fosse uma obra de arte.

Logo no princípio, Deus disse que o Homem tem de trabalhar. É próprio do Homem trabalhar, pois ele é constitutivamente relação com o mundo. Esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens em ordem à subsistência: o trabalho é também realização própria, social e histórica: construindo o mundo, a Humanidade ergue a sua história de fazer-se.

Jesus também trabalhou, e trabalhou no duro. Normalmente, diz-se que era caprinteiro, mas o grego — os Evangelhos foram escritos em grego — diz que era um téktôn (donde vem arquitecto), isto é, o que antigamente se chamava um “faz-tudo”: era capaz de ajudar a erguer uma casa e preparar instrumentos agrícolas. Foi nessa relação dura com o trabalho, e foi a trabalhar que passou a maior parte da sua vida, que percebeu melhor a vida e, por exemplo, as relações entre quem tem muito dinheiro e os outros... Estou convencido de que, se o clero tivesse mais experiência do trabalho duro, haveria outra compreensão da Igreja na sua missão no mundo... A vida é exaltante, mas também é dura, esmagadora por vezes. Isso diz-se nos rituais dos mortos, quando se reza: “Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso... Descansa em paz. Amén.” Tantas são as canseiras da vida!...

 

2. Mas Deus também estabeleceu um dia de descanso e Jesus, diz o Evangelho, também descansou. É necesssário sublinhar que a Bíblia faz questão de dizer que Deus deu o mandamento de um dia feriado semanal, santo, sem trabalho, para que o Homem fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar — e duro —, mas não é besta de carga. E aí está o Domingo ou o luxo de um feriado aqui e ali. Aí estão as férias.

E as palavras não são arbitrárias. A palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de "comemoração festiva", enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: Lunes, Martes, Lundi, Mardi, etc., o português ter seguido a designação eclesiástica: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira enquanto mercado esteja igualmente associada a feria deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias.

O importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Assim, em espanhol férias diz-se vacaciones e em francês vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, e isso quer dizer em dias santos. Os alemães, esses têm Ferien ou Urlaub. Ora, a raiz de Urlaub é Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.

Se pensarmos bem, as férias não têm como finalidade  serem apenas um intervalo no trabalho, para repor as forças em ordem a trabalhar outra vez e mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso apanhar sol na praia, no campo, na montanha, ler a grande literatura, ouvir música, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o sol a nascer e a pôr-se, e a exaltar-se com a lua enorme — cheia — ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade não se vê. É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma “rosa sem porquê”, como dizia Angelus Silesius, o inútil do ponto de vista da produção — "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner —, exaltar-se com o enigma de um rosto, o mistério do ser e de ser. É preciso ter tempo para a Família, para os amigos, para ouvir o Silêncio onde se acendem as palavras que iluminam. É preciso ter tempo para a beleza: não é a beleza que redime o mundo, como disse Dostoiévski? Tempo para o melhor: ouvir Deus, dialogar com o Infinito. Rezar.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 21 AGOSTO 2021

    

DEUS MORREU? TESTEMUNHOS

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Há quase 150 anos (1882), Nietzsche proclamou a morte de Deus. Desde então, o mundo não é o mesmo. É certo que para Nietzsche o cristianismo é que é propriamente uma religião niilista, de tal modo que, com a proclamação da morte de Deus, é o mar infindo das novas possibilidades do sim à vida que se abre. “Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!” “Nunca existiu acto mais grandioso.” No entanto, à morte de Deus não se seguiria a morte do Homem e do sentido último de toda a realidade? Nietzsche tem consciência aguda do que se segue: “Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

Segundo Gilles Lipovetsky, "Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso. O vazio do sentido, a derrocada dos ideais não levou, como se poderia esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo": isto escreveu ele em A era do vazio. Os espíritos mais atentos acham, porém, que é necessário dar antes razão a L. Kolakowski, o filósofo polaco agnóstico, quando afirmou que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, nunca mais houve ateus serenos: "Com a segurança da fé desfez-se também a segurança da incredulidade. Ao contrário de um mundo familiar, protegido por uma natureza benéfica e benigna, como era proposto pelo ateísmo iluminista, o mundo sem Deus dos nossos dias é sentido como um caos opressor, eterno. É um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura. De há cem anos a esta parte, praticamente nunca mais vimos ateus serenos. A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço feito para esquecê-la, recorrendo a toda a espécie de narcóticos." De qualquer forma, no seu livro posterior, A Sociedade da Decepção, o próprio Lipovetsky, reconehcendo “a reafirmação do religioso”, veio dizer que, “privados de sistemas de sentido englobante, numerosos indivíduos encontram uma tábua de salvação no reinvestimento de antigas e novas espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um sentido, referências, uma integração comunitária: é do que o Homem necessita para combater a angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

Como escreveu o filósofo Eusebi Colomer, a própria expressão "morte de Deus" não é unívoca, pois pode ter e tem múltiplos sentidos. Pode significar que Deus realmente nunca existiu, embora só recentemente tenhamos feito essa descoberta. Pode querer dizer que talvez Deus exista, mas os seres humanos, que outrora se lhe dirigiram pela fé e pela invocação, hoje já não acreditam nele. Talvez queiramos apenas exprimir a experiência de ausência e aparente silêncio de Deus, própria do nosso tempo. Talvez estejamos apenas a referir-nos à necesssidade de transcender constantemente as nossas ideias acerca de Deus, e, neste sentido, a "morte de Deus" significa a morte dos ídolos fabricados por nós. Afinal, que Deus era esse que morreu? Se o Deus verdadeiro é o Deus sempre maior, que transcende sempre tudo quanto possamos pensar ou afirmar dele, então os deuses enquanto ídolos têm que morrer, para ser possível a fé no Deus verdadeiro...

Neste domínio, a pergunta essencial consiste em saber se é possível ser Homem sem colocar honestamente a questão de Deus. É que ser Homem é a abertura ao Infinito, e, assim, a questão do Homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão. Neste contexto, afirmar Deus não é então também um modo de expressar a confiança no Sentido último, como sugeriu o filósofo L. Wittgenstein?

De facto, como disse Marion Gräfin Dönhoff, co-editora do conhecido semanário alemão “Die Zeit”, "o fixar-se exclusivamente no aquém, que corta o Homem das suas fontes metafísicas, e o positivismo total, que se ocupa apenas com a superfície das coisas, não podem dar aos seres humanos um sentido duradouro e estável, e, por isso, levam à frustração".

Isto tudo não prova, evidentemente, a existência de Deus. Significa apenas que o Homem se não compreende cabalmente sem colocar a questão de Deus. Aliás, a relação de cada um com Deus é um mistério para si próprio. Para ficar na actualidade, lembro que o insigne psiquaiatra Daniel Sampaio, com quem tive o privilégio de debater uma vez na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto a questão do sentido da vida e o suicídio, declarou, depois da luta pessoal duríssima que travou com a covid-19, que durante a doença chegou a lembrar-se de Deus e agradeceu a quem por ele rezou a um Deus que ele, não crendo, respeita.

Continuando na actualidade, investigações científicas recentes — uma da prestiagiada Universidade Católica de América, em Washington, a outra, publicada na conhecida revista MedNext —, concluíram, respectivamente, que “as pessoas que se mostram activas nas comunidades religiosas tendem a ter níveis mais altos de bem-estar, tendo sido este o caso durante a pandemia”, e que há uma “relação salutar entre a espiritualdiade e o sistema imunitário”.

Por fim, o nadador norteamericano Caeleb Dressel, que se afirma profundamente cristão e que trouxe dos Jogos Olímpicos em Tóquio cinco medalhas de ouro, declarou que Jesus é mais importante do que as medalhas de ouro: “a minha felicidade está em Deus”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 AGOSTO 2021

QUE ARCHEIRO ME FERIU COM A SUA SETA?...

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Num sermão de pregador desconhecido, do séc. IV, que a Igreja inclui entre as leituras que os livros de horas sugerem para as matinas de sábado santo, descubro, uma vez mais, este trecho, surpreendente sempre: 
   Eu te ordeno: desperta, ó tu que dormes, porque eu não te criei para que te mantenhas cativo no reino dos mortos. Eu, que sou vida até dos mortos, digo-te que te levantes, obra das minhas mãos! Levanta-te,minha imagem e semelhança! Levanta-te, para sairmos daqui, porque tu em mim e eu em ti somos um só! Por ti, Eu, teu Deus, me fiz teu filho...
   Nunca fui muito devoto, como sabes, antes sempre avesso a pieguices ou pretenciosismos "religiosos", ao estilo daquelas jaculatórias como: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos... Peço-vos perdão para os (pelos) que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam... Soam-me a oração de fariseu - de que Jesus não gostava - próximo do altar físico do templo, longe do pobre publicano que, lá atrás, no fundo esquecido, batia no peito contrito e não se achava digno. Deus dá-se-nos por amor, e só amor nos pede. Não se conquista, muito menos pela repetição de ditos e ritos hipócritas.

   Abri hoje, ao acaso da biblioteca, um dos Le Livre de Poche Chrétien, colecção da Arthème Fayard, dirigida por Daniel Rops: Prières des premiers Chrétiens, antologia organizada por um franciscano, o padre A. Hamman. Foi-me oferecido, há mais de sessenta anos - a julgar pela dedicatória que diz à un nouveau et très bon ami, avec un "au revoir" - por uma Ghislaine, cujo apelido omito, de quem já não me lembro... Mas era certamente uma das muitas e muitos jovens europeus e latino-americanos que, nesse tempo apoiávamos, em Paris e Bruxelas, a obra cultural e social da Igreja na América do Sul. Abriu-se-me o livro na página 88, caí sobre uma exortação de Orígenes (séc. III), cristão de Alexandria, homem de cultura helenística, mártir e filho de mártir, que claramente evoca as setas de Eros, a que os romanos chamavam Cupido: Como é belo e glorioso receber a ferida do amor! Este recebe a ferida do amor carnal, aquele é tocado por outra qualquer paixão terrestre. Quanto a ti, põe-te nu e oferece-te aos rasgos maravilhosos: é Deus o archeiro. E, mais adiante, recordando também as aparições de Jesus depois de ressuscitado: Escuta bem o que te diz esta seta, e como Deus a escolheu. Como é feliz o fado dos que esta seta feriu! Por ela foram tocados aqueles que, um ao outro, diziam: «Não ardia em nosso peito o coração, quando, pelo caminho, Ele nos falava e explicava as Escrituras?

   Acontece-me falar, com alguma frequência e em qualquer parte, da minha fé cristã, não que me force algum instinto prosélito, mas por fazer parte de mim, como a família e os amores humanos. Fomos criados, educados e instruídos - como se dizia - "na religião da Santa Madre Igreja Católica", e ficarei para sempre grato aos "nossos maiores", pela vida, por muito dela, por esse encontro com o Cristianismo também. Hoje, passadas mais de sete décadas sobre o meu baptismo, pensossinto que, ao longo de tantos anos, pecando, duvidando, amuando, interrogando, concordando e discordando, sendo amigo de padres, frades e freiras e inimigo do clericalismo, frequentando missas e detestando beatérios, fui afinal procurando a possibilidade de reconhecer, ao ritmo dos passos da minha vida, em mim e na minha circunstância, nas minhas atitudes, nas pessoas e nos acontecimentos, a prometida alegria que é, de sua graça, a dor inamovível da intimíssima ferida... 

   Eu, que sou católico, repito, em oração interior, essa frase de Ludwig Wittgenstein, agnóstico: Não sou um homem religioso. Mas não consigo deixar de olhar para qualquer questão, sem que seja de um ponto de vista religioso. Porque a nossa relação ao mistério de tudo é, como o amor, humano ou divino, simultâneamente contínua e inesperada. Em sábado santo, o silêncio interroga o silêncio. E é mais sentida a ferida. 

   Dou-te hoje a mão com um recado: deixemos que o silêncio nos fale a todos.

   Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 01.06.2014 neste blogue.