Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A MÍSTICA DO QUOTIDIANO 

CNC _ Anselmo Borges _ 12set.jpg

 

Há uma história que Aristóteles narra sobre uma palavra do filósofo Heráclito a uns forasteiros que queriam chegar até ele. Aproximando-se, viram como se aquecia junto a um fogão. Detiveram-se surpreendidos, enquanto ele lhes dava ânimo: "Também aqui estão presentes os deuses."

 

Os visitantes ficaram frustrados e desconcertados na curiosidade que os levou a irem ao encontro do pensador. Julgavam ter de encontrá-lo em circunstâncias que, ao contrário do viver dos homens comuns, deveriam mostrar em tudo os traços do excepcional e do raro e, por isso, excitante.

 

Em vez disso - e estou a transcrever o comentário do filósofo Martin Heidegger à história relatada por Aristóteles -, os curiosos encontraram Heráclito junto ao fogão. É um lugar banal e bastante comum. Ver um pensador com frio que se aquece tem muito pouco de interessante. A situação é mesmo frustrante para os curiosos. Que farão ali? Heráclito lê essa curiosidade frustrada nos seus rostos. Ele sabe que a falta de algo de sensacional e inesperado é suficiente para fazer com que os recém-chegados se vão embora. Por isso, infunde-lhes ânimo. Pede-lhes que entrem: "Também aqui estão presentes os deuses." Também ali, naquele lugar corriqueiro, é o espaço para a presentificação de Deus.

 

A mística Santa Teresa de Ávila também dizia que Deus anda na cozinha no meio das panelas. Para sublinhar que quem julga encontrar Deus fora do mundo lida apenas com as suas ilusões.

 

E há muitas formas de ilusão e pseudomística. Escreveu, com razão, o então cardeal Joseph Ratzinger: "A curiosa magia dos estupefacientes apresenta-se como atalho para o Paraíso, aquele atalho que nos pouparia todo o "penoso" caminho da ascética e da moral. A droga é a pseudomística de um mundo que não tem fé, mas que de modo algum pode prescindir da ânsia da alma pelo Paraíso. A droga é, por conseguinte, um sinal indicador de algo mais profundo: não só descobre na nossa sociedade um vazio, que esta não é capaz de preencher com os seus próprios meios, como chama a atenção para uma exigência íntima do ser humano, que, se não encontrar a resposta acertada, se manifesta de forma pervertida."

 

Santo Agostinho viu bem, quando rezou: "Senhor fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti." Jesus, que é quem terá feito a máxima experiência mística, já tinha prevenido: quem quiser salvar a sua vida perde-a; quem a perder por amor de Deus e dos outros ganha-a. É preciso ir até ao mais fundo e mais íntimo, porque é lá que se encontra Deus. Mas é sempre a dialéctica do perder e ganhar. Onde está o nosso eu verdadeiro? Dou um exemplo: onde está o nosso eu, quando escutamos uma daquelas sinfonias que nos exaltam e extasiam? Aparentemente, perdemo-lo, pois, na exaltação da sinfonia, não pensamos em nós, até nos esquecemos de nós, mas, precisamente aí, suspende-se o tempo e a morte e somos verdadeiramente nós.

 

Então? Qual é a mística verdadeira? É aquela que, em Deus, o Bem e a Beleza, leva a tratar dos irmãos e a transformar o mundo. Há, de facto, muita religião falsa, que os filósofos da suspeita justamente apelidaram de ópio. Mas também os estupefacientes são pseudomística. Por um lado, repito, eles exprimem, numa sociedade em que se experimenta o vazio, a necessidade de salvação e de sentido. Mas, por outro, na droga, o que acontece é a alienação. Pretende-se superar os problemas, mas os problemas continuam lá, e mais graves. A droga leva a "viagens" aparentemente felicitantes, mas, como aquilo é produto da química, quando se regressa da viagem, reencontra-se os problemas e está-se com menos força e energia para enfrentá-los. O critério da mística autêntica tem, portanto, que ver com a força e energia para enfrentar a existência e transformá-la e contribuir para uma sociedade mais justa, fraterna e livre.

 

Na união com Deus, Mistério último da realidade, o crente continua no mundo, embora o veja, precisamente por causa dessa união, a uma luz nova. Por isso, mística, sem o compromisso com os outros, concretizado também no amor político, que inclui o amor cósmico-ecológico, é auto-engano. Como escreveu o filósofo Henri Bergson, "a mística completa é acção"; o místico autêntico, "através de Deus, por Deus, ama a humanidade inteira com um amor divino". Aliás, para Bergson, a prova da existência de Deus são os místicos.

 

Por isso, todas as religiões acentuam o vínculo indissolúvel entre mística e ética. São João escreveu de modo forte e pregnante: "Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" São Tiago não é menos explícito: "De que aproveitará a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano e um de vós lhe disser: "Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos", sem lhes dar o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se a fé não tiver obras, está completamente morta.

 

O Evangelho deixa qualquer leitor perplexo. De facto, referindo-se ao Juízo Final, não à maneira de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, mas no sentido mais profundo da revelação definitiva do que é a realidade verdadeira na sua ultimidade, de quem é Deus para o ser humano e o ser humano para Deus, não pergunta aos homens e às mulheres, em ordem à salvação, se praticaram actos religiosos de culto, mas se deram de comer ao famintos e de beber aos que têm sede, se vestiram os nus, se trataram os doentes e os abandonados, se foram à cadeia visitar os presos (e supõe-se que estavam lá justamente condenados)... E os salvos, que não sabiam, ficam a saber que foi ao próprio Cristo que deram de comer, de beber, que vestiram, que acolheram, que visitaram no hospital ou na cadeia, que trataram em todas as dificuldades, que promoveram, que foi a ele que deram a mão. Apresenta-se, pois, como critério de juízo sobre a história a humanitariedade, isto é, o interesse real, prático, eficaz, pelo ser humano necessitado, na unidade do amor de Deus e do próximo.

 

O místico Ruysbroek disse: "Se estiveres em êxtase e o teu irmão precisar de um remédio, deixa o êxtase e vai levar o remédio ao teu irmão; o Deus que deixas é menos seguro do que o Deus que encontras." Também Buda, depois de ter lavado e tratado de um monge doente e abandonado, disse aos seus monges: "Quem quiser cuidar de mim cuide dos enfermos." São João da Cruz tem aquela expressão famosa: "Ao entardecer desta vida examinar-te-ão no amor."

 

Aí está, em síntese, a missão da Igreja: ser a multinacional do sentido, sentido último, que se encontra no Mistério, em Deus, e o espaço do combate, lúcido e eficaz, pela humanitariedade, num mundo justo e livre. A vida na sua dupla vertente: vida contemplativa e vida activa.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 01 SET 2018

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

Cimabue.JPG

 

      XXXI - IDADE MÉDIA

 

Platão interpretava o mundo terreno, em que vivemos, como uma cópia grosseira, imperfeita, findável, deteriorável, transitória e mortal de outro mundo eterno, de beleza e perfeição: o mundo das ideias. Este mundo ideal ajustava-se com a ideia de céu, de paraíso, com a criação divina, sendo esta entendida, de certo modo, como a concretização material das ideias de Deus.

 

A obra deste filósofo grego influenciou decisivamente a filosofia cristã de Santo Agostinho e de outros mentores da Igreja, em que os crentes aspiram a um mundo de bem, beleza, eternidade e perfeição.

 

Aristóteles, ao invés de Platão, defendia que a beleza, a perfeição e outras ideias superiores se encontram neste mundo, podendo nele ser criadas por uma observação e experiência atenta e inteligente.

 

Influenciou grandes nomes como São Tomás de Aquino e Alberto Magno, que adaptaram a sua doutrina aos ensinamentos bíblicos, passando a ser conhecido por escolástico o ensino aristotélico, oficialmente aceite pela Igreja.

 

Fosse a opção filosófica mais abstrata e adequada a desviar da terra a atenção humana (platónica) ou mais ligada ao concreto, observação e experimentação (aristotélica), a igreja era o centro nuclear da vida de relação das pessoas e o lugar onde todas as populações medievais confluíam, mesmo quando surgiram as primeiras manifestações humanistas abrindo caminho para o Renascimento.

 

A arte em geral, quer numa perspetiva platónica ou aristotélica, era uma imitação ou representação, e mesmo se tida como engano ou uma saudável mentira, tinha por base o teocentrismo, a teocracia ou governo de Deus, tendo Deus como o centro de tudo.

 

Natural e lógico que na história, literatura, teatro, arquitetura, escultura, pintura e artes tidas como menores, a religião se entrelaçasse à vida, emoções e sentimentos das pessoas, com as cruzadas, temas de inspiração religiosa (milagres, mistérios, vida de santos), catedrais românicas, góticas, escultura e pintura religiosa, cuja missão era transmitir ao público analfabeto e inculto os dogmas e verdades da fé, em que baixos-relevos, frescos e vitrais eram “A Bíblia dos que não sabem ler”

 

Há uma exaltação e glorificação do sagrado, do divino, ora convidando ao intimismo, recolhimento e à prece do românico, ou à alegria e otimismo do gótico.

 

Na pintura plana medieval, de inspiração cristã, contemplação, celebração e louvor do divino, as coisas apresentam-se à mesma distância do observador, de modo uniforme, em largura e altura, em duas dimensões, sem profundidade e sem as leis da perspetiva.

 

A Virgem com o Menino Jesus, rodeada de Anjos, de Cimabue, do século XIII, é um exemplo, em que sobressai como fundo uma superfície dourada e uniforme.

 

Também a pintura medieval das igrejas ortodoxas são exemplos representativos.

 

26.12.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sofro dores físicas, como todos nós, resisto-lhes tanto quanto posso, sem anestesias e poucos paliativos. Respeito-as mais como sintomas a observar, do que as detesto como intrusas a eliminar... Singularmente, tenho outro convívio com mágoas : são sempre misteriosas para mim, não sei localizá-las, nem sempre consigo atribuí-las a causas claras, tampouco as sinto como dores da alma só, sofro-as também no corpo, são muito humanas e pertencem à natureza de mim. São desta condição humana, tão própria das forças do universo e tão sempre a fugir delas. As árvores e as plantas todas, a vegetação amiga que todos os dias respiro aqui, no campo cuja única voz é estar em nós como nós nele, os animais que vão transmitindo vidas, e as perdem ou delas se separam, pensossinto que também sentirão mágoas vindas do incógnito do nosso da sein. Aqui estamos, todos os seres vivos, sem saber porquê nem verdadeiramente como. Mas, inconscientemente, quiçá seja maior a mágoa de quem, tampouco sabendo, quis comer do fruto da árvore do conhecimento e assim se condenou a ter de procurar sempre, com toda a alma que lhe dá vida, a razão, não só do seu da sein, do estar aí, mas de simplesmente ser e não poder negá-lo. Eis a grande mágoa. A tal que não nos larga nunca. A mesma, não o esqueças, Princesa de mim, que também nos torna irmãos na humana condição de um desamparo cuja única saída possível é a demanda de mãos dadas. Assim, Princesa, me pensossinto ser-ontologicamente-em-relação, em comunhão necessária com o mundo, o cosmos, todos os meus iguais  -  passados, presentes e futuros  -  na consciente condição humana, em que tanta mágoa se interroga e possa, talvez, afinal, descobrir-se em alegria... Não sei, não sabe ninguém, escrevo-te tudo isto com alguma perplexidade : morreu hoje uma amiga, que, com seu marido de meio século, andou comigo na cristandade da JUC, e hoje, quiçá, já não se pudesse lembrar de que a fé é a esperança das coisas que deverão vir...  

 

   Segundo o relato bíblico, Deus é anterior à nossa mágoa. Pior: foi Ele que no-la infligiu. Mas o Novo Testamento diz-nos que Deus prefere a misericórdia ao sacrifício. E o evangelista São João, que começa por nos anunciar que o Verbo é o princípio de tudo, e se fez carne e habitou entre nós, ensina-nos, pelo exemplo de Jesus Cristo, que Deus é amor e que, pelo amor, nos tornamos Deus com Ele. Não pretendo fazer exegese bíblica nem teologia, sei bem que não estou suficientemente habilitado para qualquer dito bem feito em tais disciplinas. Limito-me a perguntar se há - e, assim sendo, que sentido terá - qualquer contradição entre o trecho do livro do Génese que aqui te trago (Gen. 3, 22-24) e o, que também transcrevo, da 1ª carta de São João (1 Jo. 4, 12-21). O texto vétero-testamentário conta-nos a nossa mágoa inicial, esse gesto de Deus que nos expulsa do Paraíso: Disse então Yahvé Deus: «Eis que o homem se tornou um de nós, para conhecer o bem e o mal! Que não mais estenda a mão, para colher também o fruto da árvore da vida, e o poder comer e viver eternamente!» E Deus expulsou-o do jardim do Éden, para cultivar a terra donde tinha sido feito. Como em muitos outros mitos primitivos, o deus inicial, ou qualquer deus, afasta-se do que criou e julgava bom. De criaturas queridas, passamos a dejetos. Não saberíamos bem porquê, a nossa mágoa confundia-se com um quase ontológico sentimento de culpa. A tal ponto que o alívio da dor mais íntima só se conseguiria pela reparação pelo sacrifício, isto é, pela renúncia suposta ou desejavelmente sacralizadora de um bem querido, mesmo que este fosse a vida de um animal, de um ser humano, ou a nossa própria... Curiosamente, o episódio mítico da expulsão do Paraíso - de clara fonte bíblica (aliás também esta inspirada em anteriores relatos sumérios) - tem no Corão um relato mais de reconciliação do que de punição. Na Sura II (33-35) podemos ler: Nós [Alá] dissemos a Adão: «Habita o jardim com a tua esposa; alimentai-vos abundantemente dos seus frutos, em qualquer ponto do jardim em que se encontrem, mas não vos aproximeis desta árvore, por receio de vos tornardes culpados». Satã fê-los escorregar e fez com que fossem expulsos do lugar onde se encontravam. Nós dissemos-lhes então: «Descei desse lugar; inimigos uns dos outros, a terra vos servirá de morada e possessão temporária». Adão aprendeu do seu Senhor palavras de oração; Deus agradou-se do seu arrependimento ; Ele gosta de voltar ao homem que se arrepende; Ele é misericordioso. E eu volto à primeira carta de São João: A Deus, nunca ninguém contemplou. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós se cumpre o seu amor...  ... E nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós, e acreditámos nele. Deus é Amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele...  ... Não existe medo no amor ; pelo contrário, o amor perfeito apaga o medo, porque o medo implica um castigo, e quem tem medo jamais chegará à perfeição do amor. Quanto a nós, amemos, pois que Ele nos amou primeiro. Se alguém disser : «Amo a Deus», mas detestar o seu irmão, é mentiroso; quem não ama o seu irmão, que vê, não poderá amar a Deus, que não vê.

 

   Princesa de mim: falo-te de mistérios, de coisas secretas que pressentimos e não sabemos explicar, dessas que nos são tão íntimas e que, todavia, nos transcendem: surpreendemo-las sempre antes e depois de nós... Trazemo-las connosco, como que fazem parte de nós, e contudo não as comandamos. Assim é a mágoa que nasceu connosco e nos une, e na qual, afinal, todos comungamos. O relato bíblico do afastamento do primeiro casal humano do Paraíso, esse sobre o qual tanto me acontece pensar tratar-se de castigo, talvez injusto, certamente difícil de entender, também me ocorre ser parábola do nosso lançamento à liberdade própria, sustentou em Santo Agostinho  -  quiçá também por influência de uma misoginia judeo-cristã que lhe transmitira sua mãe, Santa Mónica, ou, antes, do seu próprio passado maniqueísta (tal podemos depreender das suas Confissões) da sua inesperada experiência de adolescente sexualmente excitado - aquilo a que já se chamou a invenção do pecado original e da sua perpetração e perpetuação pela cópula dos casais humanos. As consequências de tão castrador conceito do amor humano têm sido, a meu ver, ao longo da história do cristianismo, bastante abafadoras e desviadoras de caminhos até mais puros e condizentes com a natureza humana... Antes pelo contrário, levaram a obsessões misóginas (repara na teimosia quanto ao celibato dos padres - que até esquece que o primeiro papa, São Pedro, era casado -, ou na dita "teológica" oposição canónica à ordenação de mulheres, ou nas "justificações" de condenação de métodos contraceptivos, etc. por uma igreja clerical em que abundam casos e casos de padres pedófilos, ou frequentadores de prostíbulos, ou ignorantes disfarçados de proles adúlteras...) Tanta hipocrisia, Deus meu! Mas não é sobre isso que quero falar-te hoje. Insisto, Princesa de mim, perdoa-me por isso, nessa minha experiência espiritual da mágoa. A tal que nos vem, desde o berço, sim, porque Deus nos quis livres e a ternura é difícil. 

 

   Pensossinto que o Verbo inicial, criador do mundo e da vida, fundador da consciência e do tempo, é como um grito que percorre a História e silenciosamente atravessa, trespassa o ânimo de cada um de nós. Até quando se apagarem os caminhos e regressarmos à eternidade. Depois de termos dado resposta à pergunta feita a Caim: «Que fizeste do teu irmão?» Sobrevivemos no tempo que nos é dado, tempo contado, tempo de interrogação e mágoa, pela alegria da esperança que ganhamos a cada passo para o amor recuperável. Lembras-te, Princesa de mim, daquele trecho de Dostoievsky, que já te tenho citado? É um passo de Os Irmãos Karamazov: «Que a vida é um paraíso» - diz-me ele de repente - , há muito que penso nisso.» E logo acrescentou: «É só nisso que penso». Olha para mim e sorri. «Estou mais convencido disso ainda do que o senhor, mais tarde saberá porquê». Eu oiço isto e penso: «Por certo quer revelar-me alguma coisa». - «O paraíso», diz ele, «está escondido em cada um de nós, está mesmo agora escondido em mim, e se eu quiser, amanhã mesmo, ele será uma realidade para toda a minha vida».

 

   Finalmente, Princesa de mim, nada é mais absolutamente verdadeiro do que um abraço fraterno. Talvez por isso Cristo abra os braços na cruz.

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira