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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS 88 ANOS DO CINETEATRO RIVOLI

 

A imprensa divulgou o programa comemorativo dos oitenta e oito anos do Teatro e Cinema Rivoli do Porto. Já tivemos ocasião de aqui referir por mais de uma vez a atividade desta notável sala de espetáculos, que, como diversos cinemas e teatros que sobreviveram em atividade, alternam a produção de espetáculos, ao longo dos tempos.

 

No livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) fazemos referência a esta sala de espetáculos, desse sempre assinalável também no ponto de visita histórico e arquitetónico.

 

Tal como então escrevemos, o Rivoli teve a antecedê-lo, no mesmo local, um então designado Teatro Nacional, que foi inaugurado em 1913 com uma opereta denominada “O 31”, da autoria dos compositores Tomás del Negro e Alves Coelho, sobre textos de Luís Galhardo, Pereira Coelho e Alberto Barbosa.

 

Este Rivoli iniciou a construção em 1928 segundo projeto arquitetónico de José Júlio de Brito. A certa altura passa a alternar espetáculos de teatro com a projeção de filmes, sendo nesse aspeto percursor de toda uma geração de salas no Porto e não só: como temos visto, muitos Teatros desta época foram sendo adaptados à exploração como cinemas:  e alguns encerram portas nessa fase de transição.

 

Felizmente, o Teatro sobreviveu como tal, não obstante os períodos de encerramento e os períodos, por vezes dominantes, de maior projeção cinematográfica.  Aliás, temos visto como essa adaptação a cinema é frequente nos teatros do início do século passado, um pouco por todo o país: coincide em muitos casos com o que temos denominado geração dos cineteatros, em salas adaptadas ou exclusivas do espetáculo cinematográfico.

 

Em qualquer caso, é sempre de realçar e recuperação e conservação destes grandes edifícios de vocação teatral/cinematográfica.

 

E a esse respeito, escrevemos também no já citado livro, que é de destacar, nas obras de renovação/adaptação a instalação, de um baixo-relevo alusivo às artes de espetáculo, da autoria do escultor Henrique Moreira, devidamente referido por Rute Figueiredo em “Portugal Património” (vol. I).

 

 E para ele voltamos a remeter.

 

DUARTE IVO CRUZ

RECUPERAÇÃO DO TEATRO ROMANO DE LISBOA

 

Já aqui temos referido o Teatro Romano de Lisboa. Voltamos ao tema, porque a imprensa divulgou um programa de eventual recuperação do teatro.

 

E a esse respeito citamos designadamente um artigo de Susete Francisco, publicado recentemente no DN (4.01.2020), que refere declarações de Lídia Fernandes, coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano, onde se descreve o histórico deste teatro e se anuncia a intenção da CML no sentido de as ruínas serem classificadas como monumento nacional e entrarem em nova fase de recuperação e ampliação dos trabalhos de pesquisa.

 

Já tivemos ocasião de referir o que resta deste teatro, evocando o longo processo de recuperação das ruínas que até hoje sobrevivem. Trata-se efetivamente de um conjunto de vestígios da construção clássica, vestígios esses redescobertos em 1798, e desde aí sujeitos a variadas intervenções. Desde logo a partir dos anos 60 do século passado, quando se foi procedendo a trabalhos de recuperação e valorização histórica.

 

Tal como tivemos ensejo de assinalar em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) o teatro seria datável da era de Augusto, remodelado no tempo de Nero (século I) mas posteriormente vandalizado para aproveitamento de materiais na reconstrução de Baixa Pombalina. E tal como aí referimos, só a partir dos anos 60 do século passado, e mesmo assim com interrupções, se procedeu à recuperação possível. O Teatro seria pois um edifício central, mas nada se sabe da sua atividade e não muito da sua configuração.

 

O artigo de Suzete Francisco, que aqui citamos, assinala que os primeiros trabalhos de recuperação se devem ao arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri, e decorrem da recuperação de zonas destruídas no terramoto de 1755 e que não foram então devidamente recuperadas. De tal forma que a “sobrevivência” do Teatro Romano  terá ficado a dever-se  a Fernando de Almeida, sobretudo  a partir de 1964, e mais tarde de trabalhos dirigidos por Irisalva Moita e que prosseguiriam a partir de 2001.

 

E os trabalhos de recuperação da Lisboa Romana duram até hoje!...

 

Daí, o interesse do projeto de qualificação e prosseguimento dos trabalhos de recuperação do Teatro Romano  de Lisboa como monumento nacional, a que se refere o artigo de Susete Francisco.

 

DUARTE IVO CRUZ

UMA VISÃO DOS 100 ANOS DO TEATRO SÃO JOÃO

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Em artigos anteriores, fizemos referências aos 100 anos da fundação do atual Teatro São João do Porto, salientando então que a sala de espetáculos atual é a terceira com a mesma designação, ou quase: no século XVIII inaugura-se um Teatro que alternaria o nome entre Real Teatro, Teatro São João e Teatro Dom João.

Sousa Bastos, no hoje clássico “Diccionário do Theatro Portuguez”, publicado em 1908 e que aqui temos citado, descreve em pormenor o desaparecimento deste primeiro Teatro. Segundo refere, “na noite de 11 para 12 de Abril de 1908, um pavoroso incêndio, de que não se sabe a causa, destruiu em poucas horas o teatro de S. João”. E segue-se uma detalhadíssima informação acerca desse primitivo Teatro, da atividade cultural e do desastre que o destruiu.    

O atual São João, tal como já  escrevemos, data de 1920, projeto do arquiteto José Marques da Silva, mas esteve encerrado largos anos, até ser adquirido em 1992 pelo Governo, recuperado e  classificado como Teatro Nacional. Entretanto, também projetou filmes a partir de 1932.

Precisamente em 1992, na sequência da aquisição pelo Governo, procedeu-se a obras de restauro, dirigidas pelo arquiteto João Carreira. 

 Referimos ainda que foi agora apresentado um programa de atividade cultural, a desenvolver durante um ano, para a temporada que se inicia no próximo mês de março.

Nuno Cardoso é hoje diretor artístico. A reabertura ao público ocorre em 7 de março, com uma reposição da montagem de textos pessoanos.

E anunciaram-se entretanto diversas programações de cariz eminentemente cultural, que aqui enunciamos a partir de referências diversas: textos de Shakespeare, de Molière , “A Castro” de António Ferreira, mas também peças de Jean Genet.

 E mais autores clássicos portugueses e estrangeiros, em parte apresentados por companhias nacionais ou vindas do exterior, designadamente Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha, segundo fontes diversas que aliás ainda não confirmamos, pois será de certo modo prematura a programação definitiva e isto sem qualquer intenção ou sentido “culpabilizador”: todos bem sabemos a instabilidade do meio teatral!...

E acrescente-se que ao longo do ano estão programadas exposições e publicações, designadamente de livros sobre a produção dramática que envolve em detalhe a própria atividade do Teatro São João, e que nos propomos aqui e agora acompanhar.

DUARTE IVO CRUZ

OS TEATROS NUM LIVRO SOBRE JORGE AMADO

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Foi recentemente editado em Portugal um extenso livro de Joselia Aguiar intitulado “Jorge Amado - Uma Biografia”, em que se descreve e analisa, ao longo de mais de 600 páginas, a vida e a obra do grande escritor brasileiro.

Independentemente das apreciações positivas e elogiosas que o livro evidentemente merece e amplamente justifica, importa agora evocar as referências aos teatros que, ao longo de dezenas de anos, apresentaram parte da obra dramatúrgica do escritor, um dos mais relevantes da literatura moderna brasileira.

Há que referir, entretanto, que o livro engloba não só a vasta produção literária de Jorge Amado, como as conotações epocais que envolvem a obra e obviamente a biografia e o historial respetivo. E nesse sentido, é oportuno desde já salientar que, independentemente de apreciações que se possam fazer do estudo em si mesmo e até da vida e obra que descreve e analisa, haverá que reconhecer a qualidade do livro e a oportunidade da publicação, no que concerne à dramaturgia do grande escritor, que Jorge Amado sem dúvida sempre como tal será justamente reconhecido.

Jorge Amado (1912-2001) completa e de certo modo prolonga a sua vastíssima criatividade literária sobretudo romanesca, de qualidade, projeção e prestígio indiscutíveis, com uma dimensão também dramatúrgica, expressa e assumida como tal num conjunto de peças que Joselia Aguiar cita e evoca. Mas sem efetuar aqui e agora a apreciação critica das peças em si, importa referir então os teatros citados no estudo, pois neles encontramos uma expressão significativa da infraestrutura teatral em que a obra cénica de Jorge Amado se exibiu, se desenvolveu, ou que direta ou indiretamente influenciou.

Sem entrar obviamente em detalhes, e salvaguardando novas abordagens que a dimensão do livro amplamente justificará, referimos, pois, os principais teatros citados, sem excluir evidentemente novas referências. Mas deste já se aluda designadamente aos seguintes Teatros, salas de espetáculo e movimentos de espetáculo teatral-cultural referidas no livro de Joselia Aguiar, cruzando com a vida e obra de Jorge Amado, e isto abrangendo a longa e variada existência cultural e política ao longo de dezenas de anos, no Brasil e em outros países.

Assim, designadamente e não exaustivamente, pois como dissemos ainda não concluímos a análise do livro:

Teatro Castro Alves, Teatro Gamboa e Teatro Vila Velha, de Salvador da Bahia; Teatro Nacional de Praga; Teatro Nacional de Tiblisi; Teatro Oficina; Cine Guarany; Cine São Jerónimo e Clube de Cinema da Bahia, além de outras intervenções de menor referência.

Estes aqui citados são Teatros - edifícios. Mas sobre Teatro criação, literatura e espetáculo, outras evocações e análises surgem ao longo do vasto e valiosos estudo, que estamos a ler e ao qual voltaremos em crónica posterior.

 

“Jorge Amado - Um Biografia” de Joselia Aguiar
Edição portuguesa: Publicações D. Quixote Editora, 2019
Edição brasileira: Editora Todavia, São Paulo 2018

 

DUARTE IVO CRUZ     

 

CENTENÁRIO DA MORTE DE MARCELINO MESQUITA

 

A Câmara Municipal do Cartaxo publicou muito recentemente uma coletânea de estudos  sobre Marcelino Mesquita, assinalando dessa forma o centenário da morte do dramaturgo, ocorrida em 7 de julho de 1919.

 

E para lá dos estudos, assinala-se a publicação de “Duas Peças do Espólio de Marcelino Mesquita. Assim se chama o volume editado pela CMC e que reúne, precisamente, dois textos: um deles, intitulado precisamente “Inédito sem Título”, o outro intitulado “Um Episódio de Guerra”.

 

Isto, para além de textos introdutórios do Presidente da CMC Pedro Magalhães Ribeiro, da Vereadora Elvira Tristão, de António Filipe Rato, que traça a biografia de Marcelino, e de mais 4 editores – Ana Catarina Azevedo, Ana Luísa Vilela, Maria Manuela Simão e Vítor Madeira Santos.

 

Marcelino nasceu no Cartaxo em 1 de setembro de 1856. E a primeira experiência de espetáculo a partir de uma peça de sua autoria ocorre nos seus 20 anos, com a estreia no Teatro de D. Maria II do drama histórico “Leonor Teles”, depois revisto e publicado em 1889.

 

Em qualquer caso, inaugura-se dessa forma uma vasta e significativa carreira de dramaturgo, que percorre a estética e a problemática da dramaturgia portuguesa, nessa fase de transição do romantismo para as outras expressões estéticas que marcaram o teatro da época e duram até hoje.

 

Aliás, a data de estreia não colide com alterações que foram sendo efetuadas à luz da vasta experiência cénico-dramatúrgica de Marcelino, e isto, ao longo de dezenas de anos e de dezenas de textos. Podemos então evocar peças que cobrem séculos da História de Portugal e dos seus nomes referenciais. E isto, insista--se, cobrindo a transição do século, num ciclo que dura até pela menos 1917.

 

Citamos designadamente peças como “Leonor Teles” (1889), “O Regente” (1897),  “ Sonho da Índia”, (1898), “Peraltas e Sécias” (1899), “Sempre Noiva”( 1900), “Petrónio” (1901), “O Rei Maldito” (1903), “Margarida do Monte” (1910), “Perina” (1913), “”Pedro o Cruel” (1916), ou “Frimeia” (1917).

 

É pois oportuno  lembrar que o teatro histórico constitui uma das dimensões marcantes da dramaturgia de Marcelino Mesquita.  Mas não só. Essa vasta dramaturgia assume também um temário que efetua a transição do romantismo para o realismo, tendo presente, note-se bem, a fase de transição que marcava na época o teatro, na alternativa da edição e dos espetáculo em si: sendo certo que a caracterização do teatro como arte envolve necessariamente a sua expressão espetacular, digamos assim.

 

Mas tendo bem presente que tantas e tantas vezes o texto vale por si mesmo e não exige a expressão espetacular: só que, então, em rigor, trata-se de poesia ou prosa dialogada, mas não propriamente de teatro!

 

Enfim: há que elogiar esta iniciativa da Câmara Municipal do Cartaxo, e destacar a recuperação dos textos inéditos e o conjunto de estudos que enquadra a respetiva publicação.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DE FERNANDO AMADO NOS 120 ANOS DO SEU NASCIMENTO (II)

 

No artigo anterior, assinalamos os 120 anos do nascimento de Fernando Amado, tendo sobretudo em vista a sua participação, intervenção e criatividade nas áreas ligadas ao teatro, onde marcou sobremaneira a atividade e a cultura como dramaturgo, como doutrinador e como docente. Trata-se efetivamente de um notável referencial nesse e em tantos mais aspetos da arte, da cultura e da vida pública portuguesa, numa abrangência de ação e doutrinação que merece sempre destaque.

 

É autor de cerca de 30 peças de teatro, às quais se acrescentará a vasta bibliografia de expressão cultural, a intervenção concreta na produção de espetáculos nos domínios da arte e da teoria da literatura dramática. E nesse aspeto globalizante, será oportuno destacar referencias doutrinárias que se lhe ficaram devendo, em escritos dispersos mas que seria oportuno novamente publicar.

 

 Destacamos aqui algumas dessas intervenções doutrinárias, que coligimos em textos diversos, numa evocação da docência de Fernando Amado, que tanto nos beneficiou, reforçada por relações pessoais-familiares e de ensino e cultura, que dele recebemos e que muito nos apraz recordar.

 

Citamos então aspetos da doutrina de Fernando Amado sobre teatro, recolhidas a partir de peças e de textos de análise que, ao longo de dezenas de anos, foi produzindo e publicando.

 

 Assim, escreveu Fernando Amado:

 

“Todo o mundo cuida de saber o que é teatro”.

 

“Desde que esteja em causa uma peça de teatro o leigo em coisas de arte cauteloso, sente-se agora como peixe dentro de água e logo afina conforme a impressão”.

 

“O teatro nasceu do povo, no meio de festas e angústia. Coisa que o povo não esquece. E tão profundas são as afinidades que não pode um palco ser construído – um verdadeiro palco, sem que o público apareça defronte”.

 

Ou num texto publicado na revista Cidade Nova em 1951 intitulado “Diálogo entre Almada Negreiros e Fernando Amado”: “Diante de uma arte moderna, deveras representativa, o público em geral não se contenta em exclamar que não percebe, mas ainda garante, cheio de comunicação, que é impossível perceber”.

 

E mais, em diversos textos:

 

“O teatro é plástico”.  “Enquanto mais se convive com os clássicos mais se entende que o Teatro é ação” pois “para haver teatro, em suma, é preciso que alguma coisa aconteça”...

 

E poderíamos prolongar este caudal de citações: pois Fernando Amado é efetivamente um grande nome e uma grande obra, criativa e doutrinária, do teatro português.   

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DE FERNANDO AMADO NOS 120 ANOS DO SEU NASCIMENTO (I)

Fernando Amado e Almada Negreiros.jpg

 

Justifica-se esta referência a Fernando Amado, como figura referencial do moderno teatro português, e não só como docente e doutrinador e investigador: pois, para além da criatividade dramatúrgica em si mesma, importa evocar a sua ação docente no então Conservatório Nacional, mas também, e sobretudo, a doutrinação estética que, ao longo de décadas, marcou a própria atividade e criatividade do teatro português, na pluralidade de dramaturgia, direção, doutrinação, análise crítica, pedagogia.

 

Razões de sobra para estas notas evocativas: pois, decorrido pouco mais de meio século sobre a sua morte, em 1968, nem por isso a obra dramatúrgica, a doutrina estética e a atividade docente e doutrinária perderam atualidade. O mesmo se não dirá, infelizmente, da sua projeção, o que documenta a fragilidade, digamos assim e dizemos bem, da cultura teatral portuguesa.

 

E nesse aspeto, mais do que a dramaturgia em si, aliás de qualidade e modernidade indiscutíveis, haverá que salientar sobretudo a doutrinação que, a partir do teatro, Fernando Amado enunciou. Num sentido que concilia a exigência estética, a doutrinação histórica e ideológica e a qualidade de espetáculo. Tudo isto, insista-se, num sentido de modernidade que se concilia com a tradição cultural do teatro português. E todos estes fatores numa globalidade que marcaram a época e até hoje são notáveis na modernidade.

 

Aliás, não por acaso a obra de Fernando Amado foi marcada pela influência direta do seu grande amigo Almada Negreiros. Mas diria que, no que respeita ao teatro, a inversa também é verdadeira: e de tal forma que Almada presta-lhe uma sentida homenagem, ao referir que Fernando Amado “pôs em cena duas peças minhas: sinto-me pago em artista e em amigo”.

 

Importa referir que Fernando Amado criou toda uma vasta dramaturgia conciliadora da tradição sobretudo simbolista com o sentido da modernidade estética e ideológica, digamos assim. De tal forma que a alternância entre o modernismo estético e o simbolismo é constante. Refira-se por exemplo a influência futurista de peças como “O Homem Metal”, escrita no início dos anos 20, ou o simbolismo de “O Pescador”, escrito um pouco pela mesma época, mas sobretudo a renovação que já reflete em “O Retrato de César" (1935) onde se concilia a reconstituição histórica com uma visão humanística que marca um sentido de modernidade.

 

Aliás, o teatro de Fernando Amado assume um temário contemporâneo: e na expressão, referimos evidentemente a época mas o estilo e sobretudo o temário. E esse até hoje não envelheceu, mesmo quando assume temas e personagens historicistas.

 

“A Caixa de Pandora” (1948) peça determinante desta dramaturgia, é nesse aspeto exemplar. Aliás, pode citar-se, nesse aspeto, “O Casamento das Musas” (1948), escrito e representado por encomenda expressa do Teatro Estúdio do Salitre e estreado com o “Antes de Começar” de Almada. Era a verdadeira modernidade da época e, no que respeita à qualidade dos textos, ainda hoje, como veremos em próximo artigo.

 

E acrescentaremos referência a mais peças de Fernando Amado, algumas delas inéditas, outras representadas, mas poucas publicadas. Citamos designadamente “Os Segredos de Polichinelo”, “O Livro”, “O Aldrabão” e mais dezenas de peças, além de estudos e escritos sobre teatro.

 

E que peças? Onde foram representadas? Que teatros Fernando Amado dirigiu?

 

Veremos em próximo artigo.

 

DUARTE IVO CRUZ

OS TEATROS ROMANOS EM PORTUGAL

 

O “Público” e a editora “Tinta da China” publicaram 25 volumes, série intitulada “Portugal, um Retrospetiva”, dirigida por Rui Tavares e reunindo dezenas de autores, que analisam, numa visão retrospetiva, a evolução histórico-cultural do país abordada precisamente a partir do ano corrente (vol. 1) até ao ano 500 a.C.

 

Trata-se efetivamente de uma História factual e cultural da evolução na perspetiva do significado histórico, insista-se, mas no seu conjunto prospetivo da evolução do país e da especifidade da sua cultura. E é de assinalar a homogeneidade e coerência alcançada num programa que reúne, insista-se, dezenas de autores.

 

Ora, no que respeita às origens do teatro português - e não hesitamos em assim designar o temário numa época em que Portugal, como país independente, estava longe – assinala-se o estudo de Lídia Fernandes, autora do volume 24, sobre a criação e prática de teatro a partir a do ano de 57 d. C. na Lusitânia, e designadamente na “Felicias Iulia Olissipo”, origem da atual cidade de Lisboa. E é oportuno lembrar que o Teatro Romano ainda hoje constitui um espaço de produção de espetáculos de teatro. (coleção citada, nº 24, novembro 2019).

 

Lídia Fernandes evoca os primeiros trabalhos de localização do Teatro Romano, que remontam a 1798. Hoje musealizado, o Teatro Romano de Lisboa documenta de forma eloquente uma atividade sociocultural que merece o maior destaque.

 

E nesse aspeto, o estudo de Lídia Fernandes complementa de forma eloquente o que se sabe, e como se sabe, da tradição de espetáculo nas origens da cidade de Lisboa. Sem entrar em pormenores, há que referir designadamente alguns aspetos que merecem ampla consideração. E desde logo, a circunstância de que haverá, no prolongamento das obras de recuperação, muito ainda a recuperar.

 

Sem entrar em detalhes, evocamos aqui alguns aspetos desenvolvidos no estudo de Lídia Fernandes. Designadamente, e não entramos em pormenores, o que hoje se pode documentar é a própria dimensão do teatro no seu conjunto, e designadamente nas obras de recuperação e de renovação, ocorridas a partir do ano de 57 d. C., ano em que Nero impulsionou em Roma a atividade cultural, mas através de um anfiteatro de madeira.

 

Ora, “em Felicitas Iulia Olissipo o teatro sofria importantes obras de renovação precisamente nesse mesmo ano”. E mais acrescenta que “o ofertante das obras de renovação do teatro era um liberto, ele próprio concedendo a liberdade aos seus escravos, provavelmente na mesma ocasião em que inaugura a obra do monumento cénico”.

 

E só mais uma referência, esta de um livro da minha autoria.

 

Efetivamente, em “Teatros de Portugal” (2006), numa breve referência, assinalo que “o Teatro, datável da era de Augusto mas remodelado no tempo de Nero (século I) foi metodicamente vandalizado para aproveitamento da materiais na reconstrução da Baixa Pombalina. E só a partir dos anos 60 do século passado e mesmo assim com interrupções se procedeu à recuperação possível”...

 

DUARTE IVO CRUZ

JORGE DE SENA NA EXPOSIÇÃO DA BNP

Jorge de Sena - Epígrafe para a arte de roubar.jp

 

Encerramos, pelo menos para já, estas evocações da vida e obra de Jorge de Sena, para referir a exposição muito recentemente inaugurada na Biblioteca Nacional de Portugal. Intitulada “Jorge de Sena ­- As Máscaras do Poder”, constitui uma muito interessante mostra evocativa do escritor, que completa um século sobre o nascimento (1919), como aqui referimos e analisamos nos artigos anteriores.

 

Na documentação distribuída destaca-se um texto da autoria de Isabel de Sena, o qual contém como que uma síntese relevante da vida e obra do escritor homenageado.

 

No que respeita ao teatro, Isabel de Sena evoca a vasta obra e refere a visão erudita contida em numerosos textos e em especial no livro intitulado “Do Teatro em Portugal”. Cita “O Indesejado”, “Mater Imperialis” e “Amparo de Mãe”.

 

E nesse aspeto, destacamos, especificamente, na exposição, cadernos contendo textos e referências tanto a obras diversas de Sena como a peças e mais referências de outros escritores, bem como a espetáculos e produções diversas.

 

Destacamos designadamente manuscritos, cadernos contendo textos dramatúrgicos e/ou de analise, estratos de diários, traduções e sucessivas edições.

 

Isto, além de cadernos com diversas peças de teatro, correspondência que também as refere, além de livros sobre teatro, sobre cinema e especificamente sobre espetáculos.

 

Nesse aspeto, Isabel de Sena evoca a recolha de textos “Sobre Cinema”, assim expressamente intitulada.

 

Mas a exposição comporta ainda numerosos documentos e correspondência que indica títulos ou esboços de expressão teatral, incluindo os que não foram produzidos.

 

E no que respeita designadamente à correspondência, encontramos cartas enviadas e/ou recebidas de nomes referenciais da cultura portuguesa. Citamos nesse aspeto as cartas de e para Sophia de Mello Breyner Andresen e Francisco Sousa Tavares.

 

E registe-se ainda que na sessão de inauguração na BNP foram distribuídas reproduções de dois poemas manuscritos. Citamos então a denominada “Epígrafe para a Arte de Furtar”:

 

“Roubaram-se Deus/ outros o Diabo/ - quem cantarei?
Roubaram-me a Pátria /a humanidade /outros ma roubaram/ -quem cantarei?
Sempre há quem roube/ quem eu deseje;/ E de mim mesmo/ todos me roubaram/ - quem cantarei?
Roubaram-me a voz/ quando me calo,/ ou o silêncio/ mesmo se falo. /- Aqui del-Rei!!”

 

E mais: foi também distribuída a reprodução de uma composição musical de Jorge de Sena sobre poema de Fernando Pessoa “Sobre Velha Música” datado de 1938-1939.

 

O que documenta o mais amplo criacionismo artístico do grande escritor!...

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVA REFERÊNCIA A JORGE DE SENA


Retomamos a análise do teatro de Jorge de Sena, no centenário do seu nascimento, tal como assinalei no artigo anterior, citando hoje a análise que efetuei na “História do Teatro Português” sobretudo acerca da complementaridade  e continuidade entre o surrealismo e o classicismo da sua criação dramática.

 

E isto porque como já tenho aliás referido também em estudos diversos sobre o conjunto da obra teatral de Jorge de Sena, com eventual exceção do iniciático ato algo prematuro intitulado “Luto” (1938), nos 18 anos do autor, e na sequência desta iniciação aliás interessante, o que encontramos, na vasta dramaturgia de Sena, é uma modernização estética e linguística no conjunto vasto de peças que oportunamente analisámos no artigo anterior.

 

Merece pois desenvolvimento a referência à renovação que a obra dramática de Jorge de Sena, hoje de certo modo como tal esquecida, trouxe para o teatro português. E é novamente de assinalar o envolvimento percursor que já foi referido na sua ligação a certas expressões dramáticas de surrealismo e modernismo em geral.

 

Nesse aspeto, assinala-se a colaboração modernizante no movimento denominado Os Companheiros do Pátio das Comédias, no Teatro Experimental do Porto, e talvez mais do que isso, na adaptação/dramatização para o Rádio Clube Português de 13 romances policiais emitidos em 1948 num programa dirigido por António Pedro.

 

Cita-se o estudo de Eugénia Vasques precisamente intitulado “Jorge de Sena – Uma Ideia de Teatro” (Edições Cosmos – 1988), onde se  qualifica, e bem, “O Indesejado (António Rei)” como “um dos casos mais magistrais de individualidade criativa no quadro do teatro, anterior à introdução das coordenadas do teatro épico em Portugal”.

 

Esta referência é relevante pois documenta uma expressão modernizante e percursora da estética de criação teatral, atribuindo-a com justiça a um autor injustamente algo esquecido como dramaturgo.

 

E mais ainda: que marcou o teatro português tanto como autor, como inovador e produtor de espetáculos. O que muito o singulariza, e torna ainda mais injusto o relativo esquecimento que marca a sua intervenção no teatro.

 

E como bem vimos, se na intervenção de espetáculos a sua obra é menos marcante, a sua dramaturgia é de excelente qualidade/modernidade. Pois, como já referi, representa a mais completa continuidade entre classicismo e modernização, designadamente no surrealismo de muitos das peças.

 

Merece por isso maior destaque. Mas, como infelizmente acontece no teatro português, Jorge de Sena está algo esquecido como dramaturgo...!

 

DUARTE IVO CRUZ