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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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COLÓQUIO SOBRE GARRETT E O TEATRO DE D. MARIA II

 

Em 15 de abril último, a SHIP organizou um colóquio sobre “O Teatro Nacional D. Maria II e Almeida Garrett”, assim intitulado e abrangendo temas relevantes na época e ainda hoje. Porque, para além da qualidade em si mesma da dramaturgia de Garrett, nada mais adequado do que evocar e analisar a importância da sua obra e da sua atividade literária mas também, como sabemos, política e social, tudo isto na introdução do romantismo.

 

Tive o gosto de participar nesse colóquio, que precedeu a inauguração de uma placa alusiva à permanência do escritor no que é hoje o Palácio da Independência. Foi-me solicitada uma intervenção sobre “Garrett e a Renovação do Teatro Português”.  Tema vasto e envolvente, sobretudo na perspetiva da renovação que efetivamente Garrett trouxe à cena e à dramaturgia, tendo sobretudo em vista três fatores determinantes: a qualidade, a inovação da linguagem e o sentido de espetáculo.

 

Outros participantes foram José Alarcão Troni, Presidente da SHIP, Annabela Rita, Fernando Larcher e Pedro Saraiva. E foi inaugurada uma placa alusiva a Garrett.

 

Referimos as três características da dramaturgia garrettiana - qualidade, inovação, sentido do espetáculo -  tendo em vista, entretanto, que a obra dramatúrgica que chegou até nós constitui quase um resquício daquilo que o autor ao longo da vida imaginou e de que restam, além das peças conhecidas e consagradas, para cima de mais 15 títulos.

 

Sabe-se que Garrett se interessou pelo teatro desde os 12 anos, aí por 1813. Ele próprio o assume, no prefácio da “Mérope” (1819), primeira peça que chegou até nós. Segue-se o “Catão” (1821), e em ambas concilia, de forma notável, a tradição clássica com uma força já característica da renovação romântica do teatro de Garrett, como tal iniciático entre nós.

 

Essa força romântica é pois patente mesmo nestes textos que modelam mas renovam o modelo da tradição clássica. E essa renovação consubstancia-se sobretudo a partir de “Um Auto de Gil Vicente”, de 1838, peça iniciática do teatro romântico português. Aí encontramos a conciliação do tema histórico com uma inovação linguística e estilística que marcará, durante décadas, o romantismo no nosso teatro.

 

E mais: a conciliação do tema histórico em si mesmo com a força sentimental do romantismo, abre portas a uma nova e renovadora abordagem do teatro português, na conciliação da perspetiva histórica dos temas e dos personagens, com a então atualidade/modernidade do sentimento, que cobre da tragédia à comédia, da História à atualidade.

 

E tudo isto numa perspetiva de reivindicação dos valores na época como hoje impositivos da liberdade. Mesmo nas peças históricas que rigorosamente situam o envolvimento epocal, mas nem por isso abrem mão dos valores dominantes da liberdade: e esses valores conferem a cada uma das peças um pujante sentido de atualidade, isto para lá da qualidade de escrita, de linguagem e de espetáculo.

 

Mesmo quando assume o classicismo histórico: mas de forma totalmente conciliada com o estilo romântico. Veja-se designadamente as iniciáticas “Mérope” e “Catão”, para não falar nas peças que mergulham diretamente no temário da História de Portugal.

 

E desde logo o próprio “Frei Luís de Sousa” mas também expressões da história e da cultura, como são por exemplo notável “Um Auto de Gil Vicente”, “D. Filipa de Vilhena” “O Alfageme de Santarém” ou “A Sobrinha do Marquês” que constituirá, nesse aspeto, talvez o mais peculiar da dramaturgia de Garrett.

 

Veremos, em próximos artigos, outros aspetos da dramaturgia renovadora de Almeida Garrett.

 


DUARTE IVO CRUZ 
 

TEATROS E ARTISTAS NUMA COLEÇÃO DE BIOGRAFIAS DO TEATRO PORTUGUÊS

 

 

Foi muito recentemente publicado o oitavo volume da coleção de Biografias do Teatro Português, este dedicado ao ator António Pinheiro, num estudo da autoria de Eugénia Vasques. Trata-se de um coletivo de biografias de personalidades e entidades ligadas à arte teatral, entre escritores, editoras, empresas e administrações dos próprios Teatros, numa coordenação que envolve entre demais entidades a INCM e os Teatros de Dona Maria II e São João.

 

Assinalamos aqui esta série de estudos, que referem desde dramaturgos a empresas e edifícios teatrais, atores, encenadores e demais participantes em espetáculos de teatro, numa envolvência que corresponde em si mesma à complexidade da arte e do espetáculo, na perspetiva de quem o faz e onde o faz: repita-se, atores, dramaturgos, edifícios teatrais, críticos, historiadores, zonas urbanas...

 

E será então oportuno destacar os livros sobre atores e demais participantes diretos no espetáculo, pois a transitoriedade da arte do teatro tenderá a conduzir ao esquecimento.

 

 Precisamente: quem hoje se lembrará do ator António Pinheiro (1867-1943). E no entanto, a sua carreira foi determinante na época, mas sobretudo na renovação e modernização da arte do espetáculo.

 

O livro sobre António Pinheiro, da autoria de Eugénia Vasques, contem assim uma abordagem global do que foi na época a renovação do teatro em Portugal. E como referem Maria João Brilhante e Ana Isabel Vasconcelos, no texto introdutório, a sua atividade artística e profissional muito contribuiu para a renovação do teatro-espetáculo português.

 

E também no que concerne a edifícios de teatro. Sem pretender ser aqui exaustivo, sempre citaremos, no estudo, referências a teatros, muitos deles hoje desaparecidos e esquecidos, mas que tiveram durante dezenas de anos uma relevância assinalável. E como tal muitos deles já aqui antes referidos. E essa enumeração abrange também agora não só edifícios como por vezes companhias e/ou movimentos de expressão teatral.

 

Cita-se pois, no livro em análise:

 

Teatro do Príncipe Real; Teatro do Ginásio; Teatro Livre e Teatro Moderno; Teatro Novo instalado no Tivoli; Teatro Juvénia no Parque Mayer; Teatro Castilho; Teatro Ginásio; Teatro do Príncipe Real; Teatro D. Afonso; Teatro da Rua dos Condes; Teatro D.Maria II; Teatro São Luis; Teatro da Trindade; Teatro São Luis; Teatro Avenida; Teatro da Politécnica; Conservatório de Lisboa; Teatro António Pinheiro...

 

E tantos mais, que aqui temos citado e iremos citando, em releituras deste notável estudo: até porque transcreve numerosos textos e documentos que ilustram bem o que foi a expansão do teatro e dos Teatros neste período – e por vezes até hoje!

 

(cfr. Eugénia Vasques “António Pinheiro” prefácio de Maria João Brilhante e Ana Isabel Vasconcelos in “Biografias do Teatro Português” nº 8 -  INCM 2019).

 

DUARTE IVO CRUZ 

 

OS TEATROS DE ALMADA - EVOCAÇÃO DE MANUEL GRAÇA DIAS

 

 

Em texto recente, assinalámos a recuperação do Teatro Luís de Camões, hoje modernizado e designado Teatro LU.CA de Lisboa, segundo projeto e orientação dos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira.

 

E entretanto assinalou-se a morte de Manuel Graça Dias, ocorrida em 24 de março último.

 

O artigo constitui assim como uma homenagem a este grande arquiteto, que tão qualificadamente projetou e acompanhou a realização de diversas salas de espetáculo e demais edifícios de função artística e cultural.

Mas já referimos também outros edifícios de teatro e de cultura construídos segundo projeto de Manuel Graça Dias.

 

Além do Teatro LU.CA, analisamos aqui o Teatro Azul de Almada, inaugurado na temporada de 2005/6, notável na sua estrutura complexa, pela qualidade arquitetónica, pela modernidade mas também pela atividade artística que desde logo o marcou.

 

Tal como marcou, inclusive na denominação, o revestimento em mosaico cerâmico, de cor obviamente azul, o qual deu leveza ao edifício situado numa rua estreita e desnivelada, o que não facilita a atividade e até a implantação de uma sala de espetáculos.

 

 Na descrição que aqui fizemos, e que agora em parte retomamos  e desenvolvemos, realçou-se essa topografia desnivelada, a qual enquadra uma empena curva e cega até à cobertura, numa espécie de triângulo abaulado, que se prolonga até ao telhado.

 

Estes Teatros são pois projeto arquitetónico de Manuel Graça Dias, que aqui se evoca.

 

Mas em Almada a tradição de espetáculos e edifícios de espetáculo não fica por aqui. Vale a pena referir designadamente o Forum de Espetáculos que a Câmara Municipal denominou  Forum Romeu Correia, projeto do arquiteto João Lucas da Silva, situado próximo do Teatro Azul.

 

E sem confundir ainda mais a análise dramatúrgica com a infraestrutura de espetáculo que obviamente lhe é estruturante, refira-se que esta homenagem a Romeu Correia é muito justa tanto no aspeto da dramaturgia em si, como nas raízes locais que expressa ou implicitamente se fazem sentir. E como noutro lado escrevemos, muitas peças são específicas da sua terra tanto num realismo nem sempre ortodoxo como em evocações e reconstituições de teatro popular, ou até de evocações históricas localizadas. (cfr. as referências que fizemos a Romeu Correia no subcapítulo “A Exceção de Romeu Correia” in “História do Teatro Português” - ed. Verbo 2001 e no subcapítulo “Almada – Um Teatro Azul” in “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” ed. Mediatexto 2008). 

 

E se quisermos completar a referência a esta rede de instituições e salas tradicionais de Almada, poderemos citar a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, que foi fundada em 1847!...

 

DUARTE IVO CRUZ

REFERÊNCIA AO TEATRO LU.CA REMODELADO

 

Em 2017 assinalámos aqui a fase de recuperação que na altura se teria iniciado no Teatro Luís de Camões, hoje Teatro LU.CA, na Calçada da Ajuda em Lisboa, referindo com destaque o historial da pequena sala de espetáculos que, nesse aspeto, de certo modo iniciava todo o movimento, hoje bem pujante na relatividade, nos novos Teatros. Com a ressalva do historial deste que vem de finais do século XIX, inaugurado que foi em 10 de junho de 1880, com a peça de Casimiro de Abreu, “Camões e o Jau”, no quadro das comemorações do terceiro centenário da morte do poeta. 

 

A iniciativa ficou a dever-se a um comerciante de nome João Açúcar. Em 1899 sediou o chamado Belém Clube. E tal como escrevemos, a sala, não obstante a limitação de espaços, nesse aspeto aliás notavelmente percursora, manteve a capacidade arquitetónica e de exploração de espetáculo social da época: plateia, frisas, camarotes, tribuna, mas tudo adequado à dimensão do que hoje se denomina teatro de bolso.

 

 Em qualquer caso, o Teatro é adquirido em 1967 pela Câmara Municipal de Lisboa, mas esteve mais ou menos fechado durante anos, até que em 2015 se iniciam obras e em 2018 é reinaugurado com a designação bem atual de Teatro LU.CA, paráfrase do nome original, agora numa vocação de teatro infanto-juvenil.

 

E a reabilitação arquitetónica é marcada por uma recuperação modernizante de estruturas originais, entretanto prejudicadas por sucessivas adaptações. Essa reabilitação, orientada pelos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, concilia o estilo oitocentista original sobrevivente com uma modernização da exploração do espetáculo, sobretudo, insista-se, vocacionado para o teatro infantojuvenil. E talvez a mudança nesse aspeto mais relevante será a abolição das portas dos camarotes, o que torna bem mais acessível o acesso, bem diferente da tradição oitocentista.

 

E de facto, o Teatro LU.CA está diferente do Teatro Luís de Camões, mas nem por isso deixa de manter a tradição arquitetónica de espetáculo. Ao contrário de tantas e tantas salas que, por esse país fora, foram desaparecendo!

 

 

DUARTE IVO CRUZ

REFERÊNCIAS A ESPAÇOS DE ESPETÁCULOS VICENTINOS

 

Num livro muito recente encontramos a descrição e identificação de espaços de espetáculo teatral onde se estrearam e celebraram obras dominantes de Gil Vicente. Trata-se do estudo vasto e qualificado de Ana Isabel Buesco, sobre (e assim se intitula) “D. Beatriz de Portugal -  A Infanta Esquecida (1504-1538)” – ed. MANUSCRITO 2019.

 

Aí se efetuam efetivamente referências documentadas à construção, à expressão arquitetónica e à representatividade e atividade política e cultural do Paço da Ribeira, que D. Manuel I manda edificar a partir do início do século XVI, e onde Gil Vicente realizará, como autor e como intérprete, grande parte da sua obra dramática: trata-se assim de certo modo um dos grandes edifícios iniciáticos do teatro em Portugal, pese embora, evidentemente, os espaços que, desde os romanos, serviram de áreas de espetáculo, como aqui aliás temos evocado, e ainda os restantes edifícios, incluindo não poucos onde o próprio Gil Vicente interveio.

 

Nesse sentido, encontramos Paços, Igrejas e espaços variados onde Gil Vicente apresenta os seus textos e espetáculos, na Corte e/ou nas Igrejas, um pouco por todo o país. Citamos a propósito Marques Braga, no prefácio às Obras Completas de Gil Vicente, editadas nos aos 50 na sempre referenciável Coleção de Clássicos Sá do Costa (vol. I):

 

«A época da sua atividade dramática decorre entre 1502 e 1536. Durante trinta e quatro anos, encontramos a colaboração vicentina nas festas reais dos Paços da Ribeira, do Castelo, de Santos-o-Velho, e, fora de Lisboa, nas deslocações da corte, acompanhando as transformações sociais provocadas pelos Descobrimentos. A corte não teve um dia de nascimento ou de casamento ou de facto importante a celebrar em que não pedisse uma peça a Gil Vicente» (pág. XIV).

 

Por seu lado, Ana Isabel Buesco, no seu estudo acima citado, descreve a opção de D. Manuel I no que respeita à construção do novo Paço da Ribeira. Escreve designadamente que «com esta decisão, o monarca fazia descer a nova morada régia do alto da colina para a zona ribeirinha da cidade, implantando-a e articulando-a com a Lisboa dos tráficos marítimos e da mercancia, no âmbito de um verdadeiro “programa” também ideológico e político de reestruturação urbana da primeira cidade do país» (pág. 39)

 

A verdade é que o primeiro espaço especificamente vocacionado para o espetáculo  público surge em Lisboa em 1590 por iniciativa do empresário castelhano Fernão Dias de la Torre, que constrói  o chamado Pátio das Arcas, na zona que é hoje a Rua Augusta,  e isto mediante autorização do Hospital de Todos os Santos!...

 

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVA REFERÊNCIA AO TEATRO SÃO JOÃO DO PORTO

 

Em janeiro de 2015 fizemos uma referência desenvolvida ao Teatro São João do Porto, destacando sobretudo a tradição e situação urbana idêntica de espaços de espetáculo que vinha do século XVIII, a saber: o chamado então Teatro do Corpo da Guarda e dois Teatros São João ou D. João, que, dissemos nesse texto, antecedem no mesmo local o São João de hoje. E mais recordamos que o primeiro Teatro São João foi inaugurado em 1764 e não deixou grande memória: mas já o segundo São João erguido segundo a traça do cenógrafo italiano Vicent Manzoneschi, seguiu a traça do Teatro de São Carlos e valorizou-se com um pano de boca de Domingos António Sequeira.

 

Destes sucessivos Teatros São João ficou alguma documentação. Designadamente, por Decreto de 30 de janeiro de 1838, este Teatro São João considerado, juntamente com o Teatro de São Carlos, como o que na altura se chamou “Teatro de Primeira Ordem”, seja lá o que isso na época significava.

 

Em qualquer caso, uma Lei datada de 7 de abril de 1838 concede subsídios ao Teatro da Rua dos Condes em Lisboa e ao Teatro São João do Porto. E mais: em 1846, ano da inauguração do Teatro de D. Maria em Lisboa, o Governo reconhece como “teatros de primeira ordem”, assim mesmo, o D. Maria, o São Carlos e o São João.

 

Mas o Teatro São João ardeu em 1908, e só seria reinaugurado 12 anos decorridos, portanto em 1920, agora segundo projeto do arquiteto Marques da Silva. Valorizou-o os gessos e baixos relevos de Diogo de Macedo, Sousa Caldas e Henrique Moreira.

 

Foi adquirido pelo Estado em 1992, recuperado pelo arquiteto João Carreira, e classificado como Teatro Nacional.

 

Ora bem: na semana em que se escreve este texto, Pedro Sobrado, Presidente do Conselho de Administração do Teatro São João, apresentou um denominado Programa do Centenário do Teatro Nacional São João a desenvolver de 7 de março de 2020 a 7 de março de 2021.  Aspeto de relevo que merece destaque será desde logo a descentralização da atividade da companhia, abarcando pelo menos todo o Norte e Centro do País.  

 

E simultaneamente, será criada uma companhia que garanta não só a atividade sequencial do Teatro em si, como ainda, segundo foi referido,  toda uma atividade teatral/cultural para  assinalar de forma eficaz este centenário que, em rigor,  representa a tradição de espetáculo cultural da cidade.

 

Vamos ver como será!...

DUARTE IVO CRUZ

 

REFERÊNCIAS A TEATROS LUÍS DE CAMÕES

 

Evocamos hoje e atualizamos em simultâneo dois textos oportunamente aqui divulgados, em situações que, para cada um deles, enquadrava a atualidade: atualidade essa que obviamente não se perdeu.

 

Trata-se então do estudo de dois modernos Teatros Luís de Camões, um eles denominado hoje Teatro LU.CA, ambos em Lisboa. Importa ter aliás presente que no início do século XX existiam em Portugal pelo menos um Teatro Camões em Bragança, inaugurado em 1892, e dois Teatros Luís de Camões, um em Belém, inaugurado em 1880, o outro na Ilha do Pico, inaugurado em 1888.

 

Ora, há cerca de 10 anos, aqui referimos o Teatro Luís de Camões surgido da renovação urbana decorrente da Expo 98, no Parque das Nações em Lisboa, e que nesse contexto foi aliás também evocado com o nome de Júlio Verne.

 

Trata-se, este Teatro, de um projeto de Manuel Salgado e Marino Fei, notável nos dois blocos que em si mesmos, pela perspetiva cenográfica, marcam desde logo a vocação da arquitetura de espetáculo.

 

E precisamente: como de espetáculo se trata, nada mais adequado do que a citação de José Augusto França, a propósito deste Teatro, quando evoca “o segundo espetáculo que o grande átrio, com as suas escadas simétricas, oferece do exterior, pela transparência da parede que o fecha ou abre, de tal modo que os utentes do espetáculo da sala são usados também por quem passe e olhe as suas deambulações” (“Lisboa, História Física e Moral”, ed. Livros Horizonte 2008).

 

Por nosso lado, referimos já aqui o Teatro Luís de Camões da Calçada da Ajuda. Este foi inaugurado em 1880 com a peça “Camões e o Jau” de Casimiro de Abreu. A iniciativa ficou a dever-se a um comerciante local, de nome João Açúcar. Sobre este Teatro evocamos a sua relevância sobretudo na época, mas não só.

 

Pois como tivemos ensejo de referir, o Teatro passa em 1899 a servir de sede ao Belém Clube. Lá se estreou e se despediu, muitos anos passados, a atriz Adelina Abranches. Por lá passaram grandes nomes da cena, como João Villaret, Mirita Casimiro, Sales Ribeiro, Procópio Ferreira, Bibi Ferreira.

 

E até Tomás Alcaide lá iniciou uma fulgurante carreira que duraria até à sua morte. Evocaremos Tomás Alcaide em outro texto.

 

E da fase mais recente do Teatro Luis de Camões e do atual Teatro LU.CA falaremos também noutro artigo.

 

DUARTE IVO CRUZ

OS PROBLEMAS DO VELHO TEATRO PORTALEGRENSE

 

Novamente são referidos pela imprensa e pelas autoridades locais os problemas relativos ao velho Teatro Portalegrense, que aliás já abordamos em diversas ocasiões. E no entanto, o Teatro Portalegrense, independentemente da qualidade e potencial do edifício e da sua cada vez mais difícil situação, merece referência mesmo na perspetiva do historial do teatro português: assim, José Régio ficou marcado pela longa atividade docente na cidade; atores de relevo, como designadamente Artur Semedo lá se estrearam; e lá subiu à cena pela última vez Amélia Rey Colaço, num espetáculo de despedida, precisamente com “EL- Rei Sebastião” de Régio.

 

Independentemente desse historial histórico-dramatúrgico, importa novamente referir que o Teatro Portalegrense foi inaugurado em 1858 segundo projeto arquitetónico de José de Sousa Larcher, nome ilustre, na época bem conhecido e de certo modo ainda hoje. O Teatro estreou-se com “O Alfageme de Santarém” de Garrett.

 

O Teatro Portalegrense foi arquitetonicamente inspirado no Teatro do Ginásio de Lisboa, na sua versão oitocentista. E como tal funcionou nessa fase em que os Teatros então chamados da Província mantinham uma dupla atividade: ou serviam para exibição dos espetáculos de Lisboa em tournée nacional ou de suporte a grupos e companhias locais.

 

 Em qualquer caso, como já se disse, foi lá que Amélia subiu pela ultima vez á cena, numa dupla homenagem: à atriz que assim se despediu da cena e ao Professor do Liceu de Portalegre, José Maria dos Reis Pereira que assinava a sua vasta obra literária como José Régio...

 

 E Régio cita “Portalegre cidade/ do Alto Alentejo, cercada/ De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,/ Morei numa casa velha/, Velha, grande, tosca e bela,/a qual quis como se fora/ feita para eu morar nela” e seguem mais 228 versos de uma beleza evocativa de amor à cidade. (in “Fado” – “Toada de Portalegre”). Citamos sempre este belíssimo poema.

 

E também já tivemos ocasião de recordar  que nos anos 80 do século passado  o Teatro Portalegrense foi destruído no interior para nele se instalar um ringue de patinagem, insolitamente rodeado de camarotes.

 

E depois foi Templo Evangélico, ao contrário, note-se, de tantas áreas públicas e de espetáculo, construídas e/ou adaptadas de antigos templos...!

 

DUARTE IVO CRUZ  

EVOCAÇÃO DE IONESCO EM PORTUGAL

 

Há anos, tive ensejo de evocar a primeira estadia de Eugène Ionesco em Portugal, numa visita, que tive o gosto de acompanhar, então como jovem estudante de Direito mas também como aluno-ouvinte da Secção de Teatro do Conservatório Nacional, visita essa ocorrida em 1959, portanto há exatos 60 anos.

 

Ionesco completaria 50 nesse mesmo ano. Filho de pai romeno e de mãe francesa, a sua vida pessoal e profissional dividiu-se entre os dois países até ao inicio da guerra: tinha regressado a França em 1938 e a partir daí assume-se como dramaturgo francês e como tal renovou por completo a dramaturgia a nível internacional, no que se chamava de início, passe a ironia da expressão, o “anti-teatro”...

 

Seria eleito membro da Academia Francesa em 1970.

 

Esteve em Portugal pela primeira vez nesse ano de 1959 para assistir à apresentação de um espetáculo de Jacques Mauclair no então Festival de Sintra, onde foram representadas, por uma companhia francesa, e obviamente em francês, “La Leçon” e “Les Chaises”. Pode-se imaginar o impacto, dado o ambiente então dominante: e no entanto o sucesso foi indiscutível e Ionesco voltaria e muitas vezes seria encenado.

 

Ora, é relevante referir as ressalvas do próprio Ionesco à designação consagrada e hoje corrente de “teatro do absurdo”: para ele, o teatro não era absurdo. Quanto muito, seria insólita a situação dramatizada.

 

De 1950 a 1975, Ionesco escreveu 29 peças, 7 ensaios e 4 romances. Foi traduzido e representado praticamente em todo o mundo.

 

E entretanto, a memória que guardo de 1959, é a de uma pessoa notável em todos os aspetos, isto na experiencia do longo passeio por Lisboa que Manuel Ivo Cruz meu irmão e eu próprio proporcionamos a Eugène Ionesco e a sua mulher, e de que conservo recordação e também a fotografia que aqui se reproduz!

 

 

DUARTE IVO CRUZ

UM LIVRO SOBRE DOIS TEATROS HISTÓRICOS DE COIMBRA

 

Nesta alternativa de teatros históricos e teatros contemporâneos, seja na arquitetura seja na atividade teatral, remetemos hoje para a evocação de dois teatros de Coimbra, há muito desaparecidos, mas nem por isso menos relevantes na tradição cultural/teatral da cidade, e bem sabemos como ela é vasta e variada... Referimo-nos então ao livro de A.C. Borges de Figueiredo, intitulado “Coimbra Antiga e Moderna”, cuja primeira edição data de 1886, pelo que a “modernidade” tem de ser devidamente reportada!

 

E precisamente: o autor descreve dois edifícios teatrais de Coimbra. O primeiro é o então denominado Theatro Academico, datado de 1839, e considerado pelo autor como “o melhor de Coimbra”: aliás, Borges de Figueiredo data a inauguração de 1840, mas refere que em julho do ano anterior já lá tinha sido apresentado um espetáculo, a cargo de uma Academia Dramática, assim mesmo designada.

 

E mais refere que a tradição vinha de anos anteriores, concretamente de 1836, quando um grupo de estudantes representou o “Catão” de Garrett, já antes estreado no refeitório do Mosteiro de Santa Cruz.

 

Mas em 1861, sempre segundo o mesmo autor, é inaugurado em Coimbra um denominado Teatro de D. Luiz, contruído sobre as ruinas de uma velha Igreja de São Cristóvão entretanto demolida.  O Teatro inaugurou-se com uma peça então moderna, “O Dia da Redenção” de Mendes Leal.

 

E para terminar, citamos a descrição que nos deixou Borges de Figueiredo:
“O teatro não é muito pequeno, mas defeituoso, desprovido de elegância, e suas dependências são muito acanhadas. Para isto de destruiu um dos melhores espécimes que havia não só em Coimbra, mas ainda em Portugal, da arquitetura romano-bizantina”.

 

Não nos ficou imagem destes teatros. Mas vale e pena recordar Coimbra no século XIX...

 

DUARTE IVO CRUZ 

 

(Bibliografia: “Coimbra Antiga e Moderna” Edição Fac-similada, Almedina 1996)