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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TEATROS HISTÓRICOS NO BRASIL

 

Nesta sucessão de evocações e descrições de teatros atuais e teatros históricos de tradição cultural e arquitetónica, recorremos em primeiro lugar a um livro de Luis Norton, editado em 1936, sobre “A Corte de Portugal no Brasil”, assim mesmo denominado.

 

Trata-se efetivamente de um denso e vasto estudo histórico, amplamente fundamentado em numerosos documentos inéditos, designadamente do Arquivo Histórico do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, aí incluindo ou complementando-o com vasta correspondência diplomática relativa às negociações do casamento da Arquiduquesa Dona Leopoldina com D. Pedro de Bragança, como bem sabemos futuro Imperador do Brasil e Rei de Portugal.

 

Para além do interesse histórico-diplomático em si, o estudo evoca e descreve a realidade cultural do Rio de Janeiro na época, vista tanto no ponto de vista de criatividade, como de atividades diversas e ainda pelo património subjacente. E é extremamente interessante, na perspetiva cultural e de infraestrutura, a referência vasta e devidamente documentada aos teatros e espetáculos, bem como da vida da corte e da cidade.

 

E mais: quando a Família Real ainda se encontrava no Palácio denominado Real Quinta da Boa Vista, o próprio D. Pedro cantou uma área de ópera, dirigido por Marcos Portugal, a quem se deveu a revisão de musica original ali executada para a Corte. Sobre Marcos Portugal esclarece Luis Norton que “o Rei e toda a Família Real apadrinharam o novo maestro que passara a ser um elemento indispensável na orquestração musical da nova Corte brasileira” (pág. 93).

 

E mais acrescenta que D. Pedro foi ele próprio compositor de mérito, com obras que se destacaram na época e ainda hoje se destacam: cita designadamente “o Te Deum que foi composto para as suas segundas núpcias, uma ópera em português executada em 1832 no Teatro Italiano de Paris, uma sinfonia para grande orquestra, as músicas para o hino constitucional português e para o hino da independência brasileira” (pág. 95).  

 

No que respeita a teatros-espaços/edifícios, temos no livro de Luiz Norton a descrição detalhada dos festejos da aclamação de D. João VI como Rei de Portugal, ocorridos na Corte então sediada no Palácio do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1819. E nesse contexto, o autor refere o Real Teatro do Rio de Janeiro, citando e descrevendo um “painel monumental”, em que figurava a Rainha D. Carlota Joaquina.

 

E transcreve um curioso documento da época, que se refere a D. Carlota Joaquina “com dois génios coroando-a de louro e sustentando outras tantas coroas de louro, quantas são as Augustas Princesas com que Sua Majestade tem esmaltado o Trono português e que fazem hoje as delícias de duas nações poderosas”, assim mesmo! (pág. 79).

 

A bibliografia sobre este tema é vastíssima.

 

Acrescente-se ainda que J. Galante de Sousa refere a existência de mais seis teatros no Rio de Janeiro e mais 11 espalhados pelo imenso território brasileiro, isto ao longo da primeira metade do século XIX. (cfr. “O Teatro no Brasil” (ed. Ministério da Educação e Cultura” Rio de Janeiro 1960)

 

E finalmente, remete-se para o vasto estudo sobre a “História do Teatro Brasileiro”, dirigido por João Roberto Faria, e que precisamente assinala e descreve uma vasta atividade de teatro e de teatros, nesta época, e ao longo da vastíssima extensão do Brasil! (ed. SESCSP e Perspetiva - São Paulo 2012).

 

E muito mais haveria a dizer sobre este tema!

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVA REFERÊNCIA A TAVIRA: AUTORES, TEATROS, CINETEATROS

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Como se referiu no artigo anterior, prossegue-se aqui a referência a autores, teatros/cineteatros de Tavira, a partir da exposição sobre a vida e obra de Almada Negreiros, no Museu Municipal da cidade, numa participação da Fundação Calouste Gulbenkian. Agora alargamos as referências de mais textos sobre tradição urbana e cultural da cidade.

 

 Assim, temos José Leite de Vasconcelos a citar “as lindas chaminés artísticas”; Raul Brandão a evocar as “armações de revés” da pesca do atum; a descrição da cidade “poupada pelo terramoto de 1755” feita por Orlando Ribeiro e por aí fora, numa seleção de textos de David Mourão Ferreira (cfr. David Morão Ferreira, “O Algarve” in “Antologia da Terra Portuguesa”, Ed. Livraria Bertrand).

 

Ora em Tavira, para além da mostra que decorre no Museu Municipal, e que referimos na crónica anterior, há que salientar Cineteatro António Pinheiro, num edifício cujas origens ou pelo menos a implantação urbana remonta a 1917. Nesse ano, existia efetivamente um então chamado Teatro Popular que se conservou em maior ou menor condição e atividade, até que em 1968 é reconstruído e modernizado. A Câmara adquiri-o em 2001 e mantem-no em atividade, devidamente renovado.

 

É de assinalar aliás a homenagem que a cidade presta a este grade ator, nascido precisamente em Tavira em 1857 e falecido em 1943, e a sua carreira de comediante não deixa de ser recordada em termo da modernização da arte cénica e como docente do Conservatório Nacional, escola que ajudou a modernizar, no que respeita ao teatro, a partir da implantação do Governo Provisório em áreas então inovadoras, como a Estética de Teatro. 

 

Marcou também uma carreira de renovador da encenação no Teatro de Dona Maria II, mas sobretudo, antes, no chamado Teatro Livre que, nas temporadas de 1904/1905 e no Teatro Moderno, este a partir de 1911, renovaram e modernizaram o teatro então praticado em Portugal. São as primeiras iniciativas do que viria mais tarde a chamar-se de teatro experimental.

 

Na “História do Teatro Português”, Luiz Francisco Rebello cita com desenvolvimento estas intervenções de António Pinheiro na modernização do teatro português. Recorda designadamente as temporadas dirigidas em 1905 e 1908 no Teatro D. Amélia e em fevereiro de 1911, aqui numa comissão sobre o teatro - espetáculo em Portugal, destinada a definir as normas de “reforma e adaptação às novas estruturas sociopolíticas”. Dessa Comissão faziam parte nomes de grande destaque na época - e ainda hoje: desde logo António Pinheiro, mas também Bento Faria, Afonso Gaio, Emídio Garcia e Bento Mântua. E acrescenta Rebelo que “a 22 de maio do mesmo ano é promulgado um decreto que veio restruturar o ensino da arte dramática em termos que fizeram do nosso Conservatório um dos mais avançados estabelecimentos da Europa no seu tempo”. (Ed. Coleção Saber - Publicações Europa América, pág. 114).  

 

Nada mais justo pois que Tavira consagre e mantenha o nome de António Pinheiro no seu Cineteatro.

 

 

DUARTE IVO CRUZ

 

LIVRO E EXPOSIÇÃO SOBRE ALMADA NEGREIROS

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A Câmara Municipal de Tavira e a Fundação Calouste Gulbenkian apresentam no Museu Municipal - Palácio da Galeria uma exposição subordinada ao tema “Mulheres Modernas Na Obra de José de Almada Negreiros”. Desde logo se saliente o interesse da iniciativa e a qualidade da mostra, que reúne um conjunto relevante de obras de Almada, aqui devidamente expostas, analisadas e documentadas num livro onde, além de estudos e documentação importante e pouco conhecida no conjunto, representa acervo notável de reproduções de numerosas obras exemplarmente documentadas por textos e escritos diversos do próprio artista evocado e homenageado.

 

Na introdução do livro, sobre a obra de Almada, salienta-se um conjunto de textos e estudos introdutórios de Jorge Botelho, Presidente da Câmara Municipal de Tavira, de Isabel Mota, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, de Jorge Queiroz, Diretor do Museu Municipal de Tavira e de Mariana Pinto dos Santos.

 

E seguem-se centenas de reproduções de obras de Almada Negreiros, devidamente “ilustradas” e enquadradas por textos do próprio Almada.

 

Porque Almada Negreiros é como bem sabemos um extraordinário artista plástico, um excecional dramaturgo, um notabilíssimo escritor: e tudo isto surge devidamente documentado neste vasto e notável livro-catálogo da exposição.

 

Evidentemente, o que mais sobressai na exposição e no livro é a reprodução do conjunto das pinturas e desenhos de Almada. Mas aqui, queremos sublinhar também os textos que convertem o catálogo numa verdadeira antologia da obra escrita de Almada Negreiros.

 

Salientamos então algumas referências a peças, a teatro e a cinema, a espetáculos, feitas pelo próprio Almada Negreiros e reproduzidas no livro:

 

«Deixa-me passar! Tira-te da minha vida! Já viram isto? Sentinela à vista! Toda a vida sentinela à vista! O meu íntimo devassado!» (in “Deseja-se Mulher”)

 

«De uma vez num passeio, o arco-íris foi quadrado até ao fundo dos raios x para lá do cavalo transparente numa continuidade cinematográfica contornando a apologia feminina sagradamente epiléptica em SS de cio todo realce e posse de reflexos.» (in “K4 O Quadrado Azul”).

 

«Uma noite encontrou-a num cine. Ela não devia tê-lo visto. Seria uma boa ocasião de observá-la desprevenida. Ela porém era invariável.» (in “Vera”)

 

«Um dia “La Argentinita” entra em cena pelo mesmo lado que as outras, faz o mesmo que as outras fazem, dá as mesmas voltas, o sapateado, as castanholas, os couplets, e tudo é diferente, saudável, genial. Nós ficamos com a opinião de que a Espanha artista tem estado mal representada até à chegada triunfante de “La Argentinita”» (in DL- 17.02.1925).

 

E muitas mais são as citações, e muitíssimas mais as reproduções que tanto valorizam este livro, notável “catálogo” da exposição do Palácio da Galeria de Tavira.

 

E a Tavira voltaremos.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

 

 

  

OS 40 ANOS DA REINAUGURAÇÃO DO TEATRO D. MARIA II

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Evoca-se neste artigo o incêndio que, em 2 de dezembro de 1964, quase destruiu o Teatro de D. Maria II e a reinauguração do Teatro, em 11 de maio de 1978, num espetáculo dirigido por Francisco Ribeiro. Vem tudo isto a propósito da evocação, pormenorizadamente descrita no livro recente da autoria de Ana Sofia Patrão, precisamente denominado «Francisco Ribeiro / “Ribeirinho” – O Instinto do Teatro» (ed. INATEL e Guerra e Paz), onde se descreve toda a carreira e a obra grande deste valor referencial da cena portuguesa.

 

Recordo então um texto que na altura escrevi, pois foi-me permitida a visita ao edifício no próprio dia do incêndio e solicitada uma nota. Cito:

“Com alguma dificuldade (ainda se percebiam focos de incêndio) consegui assumir ao buraco de um resto de camarote; e assim foi-me fácil entender o caráter brutal da destruição. O palco, visto da sala, nada mais mostra de que uma estrutura negra - e a sala, vista mais tarde do palco, completa no caos o panorama desolador. Há aspetos absolutamente irremediáveis, como o teto que Columbano não pode reconstituir. Há também, de certo modo, a quebra de uma linha secular, consubstanciada no edifício, que uma vez reconstruído, não será exatamente o mesmo. E há, sobretudo, um grande desalento e um grande espanto, nascidos da surpresa e do contraste entre a harmonia admirável e a ruína dos escombros”.

E o texto que me foi então solicitado prosseguia no mesmo tom... 

Felizmente as coisas acabaram por se recompor!

 

Iniciam-se obras de restauro, e em 1976, recorda o livro de Ana Sofia Patrão, o Governo então chefiado por Mário Soares constitui uma Comissão Instaladora destinada a proceder ao concurso de reabertura do Teatro de D. Maria II: e dessa Comissão, presidida por Lima de Freitas, fazia parte o próprio Francisco Ribeiro como representante do Conselho Sectorial de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura.

 

O processo foi lento, como seria de prever. A própria designação do Teatro seria discutida, acabando por se aprovar uma solução conciliatória -  Teatro Nacional de D. Maria II – Casa de Garrett: justa homenagem a quem tinha conduzido o processo da construção do Teatro, a partir de um projeto de Francesco Fortunato Lodi que aliás foi em termos gerais reconstituído depois do incêndio – isto, evidentemente, sem incluir o teto de Columbano que Matos Sequeira reporta a obras executadas em 1861.  

 

Em 11 de Maio de 1978, há 40 anos, é (re)inaugurado o Teatro Nacional de D. Maria II   com o “Auto de Geração Humana” de Gil Vicente e “O Alfageme de Santarém” de Garrett, “em homenagem a um dos patronos da instituição, encenado por Francisco Ribeiro”, diz-nos Ana Sofia Patrão no livro citado.

 

Ribeirinho ficaria ainda ligado ao TNDM II durante mais dois anos, em diversas funções orgânicas, mas sempre marcando a ação com o talento, a qualidade e o prestígio que foram seu apanágio.

 

E voltaremos a este livro e à evocação da vida e obra de Francisco Ribeiro.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DE UM TEATRO OITOCENTISTA EFÉMERO

 

Nesta alternância entre teatros “históricos” e salas de espetáculo contemporâneas, aí incluindo nas duas categorias a referência à respetiva permanência e atividade, evocamos hoje um Teatro oitocentista efémero, mas nem por isso menos relevante na época em que existiu e funcionou.

 

A tragédia que o destruiu foi aliás recentemente assinalada, pelo que mais se justifica esta referência.

 

Trata-se do Teatro Baquet do Porto, cujas obras de construção se iniciaram concretamente em 12 de fevereiro de 1858, foi solenemente inaugurado em 16 de julho do mesmo ano, mas que desapareceu, devido a incêndio, na noite de 20 de março de 1888, em plena atividade e durante um espetáculo. Resultou algo como 120 vítimas mortais, entre espetadores, artistas e demais pessoal.

 

 A designação do Teatro surge-nos hoje algo insólita, mas afinal decorre do nome do próprio responsável pela iniciativa e pela construção do edifício, o luso-francês António Pereira Baquet, alfaiate no Porto. Tinha loja em terrenos situados na mesma localização do edifício do Teatro. E terá contratado a companhia do Teatro do Ginásio de Lisboa para o espetáculo inaugural, a cargo do ator e dramaturgo José Carlos Santos, nome ilustre na época, da geração que marcou a atividade cénica a partir do então já muito relevante Teatro de D. Maria II.


E nesse sentido, podemos aqui evocar a própria estrutura do Teatro Baquet. No exterior, a gravura mostra a fachada muito da época, no conjunto de estátuas evocativas da comédia, da pintura e das artes em geral, sobre a grande varanda do que seria o foyer, como então (por vezes ainda hoje...) se denominava a sala de acesso e convívio do público.

 

Tudo isto desapareceu na noite de 20 de março de 1888, perante uma sala cheia que assistia a espetáculo de beneficio e homenagem a um ator. Mas não houve espetáculo. A orquestra suspendeu a execução, Segundo descrições da época, o público de início não percebeu o que se passava. E só com o fogo já praticamente incontrolado se deu uma debandada que não evitou a centena de mortes, entre espetadores, artistas e técnicos de palco.

 

Do Teatro Baquet do Porto resta a memória do desastre e a gravura, que Sousa Bastos incluiu em 1908 no “Diccionário do Theatro Português”, que temos citado e que aliás surgiu recentemente a propósito da evocação da tragédia...

 

DUARTE IVO CRUZ  

AUDITÓRIO FERNADO LOPES GRAÇA DE TOMAR

 

Temos aqui referido com destaque a politica de descentralização cultural e de património, na conjugação destas duas componentes que convergem mas não implicam obviamente uma comum dimensão temporal, pois o património histórico em si mesmo comporta um significado cultural, mas a cultura tantas vezes se assume e desenvolve à margem de patrimónios específicos.

 

E isto mais se acentua na ponderação da cultura de espetáculo e dos espaços, modernos ou clássicos que a sua concretização necessariamente envolve.

 

Nesse sentido, demos aqui notícia do Cine-Teatro Paraíso de Tomar, “herdeiro” de um Teatro Nabantino do século XIX, sucessivamente remodelado em 1920 e em 1948, projeto de Francisco Korrodi, municipalizado em 1997 e reaberto em 2002.

 

Hoje referiremos o Auditório Fernando Lopes Graça, também situado em Tomar.

 

E começamos por frisar que o Auditório Fernando Lopes Graça representa, na arquitetura, na evocação e na função, essa convergência modernizante da simbologia e da atividade cultural.

 

Desde logo pelo património histórico-urbano em que se implanta e na conciliação da sua modernidade arquitetónica com a tradição monumental da cidade. Mas também pela evocação de um nome e de uma obra referencial da cultura portuguesa moderna,  o compositor Fernando Lopes Graça (1906-1994), natural de Tomar e figura destacadíssima no meio musical.

 

Trata-se de um edifício de notável qualidade na modernidade do projeto mas também da abrangência das atividades culturais e pedagógicas desenvolvidas. Na origem encontramos um grupo coral criado em 1980 na Sociedade Banda Nabantina que se constitui em 1982 como Associação Cultural autónoma com a designação programática de Canto Firme de Tomar.  Foi reconhecida como Associação Cultural de Utilidade Publica em 1992. Mas vinha de muito antes a sua ação e projeção regional e nacional no plano das artes do espetáculo e da respetiva docência e formação.

 

Recordemos então os antecedentes culturais da cidade.

 

Como vimos em crónica anterior, mas é oportuno novamente referir, existe desde os anos 60 do seculo XIX uma tradição de edifícios teatrais em Tomar. Por essa época foi efetivamente inaugurado o Teatro Nabantino com 30 camarotes de 1ª e 2ª ordem, 12 frisas e 126 lugares de plateia. Trata-se então de uma assinalável iniciativa local, que se foi prolongado ao longo do século passado e que agora se reforça no notável edifício do Auditório Fernando Lopes Graça.

 

E efetivamente, este Auditório Fernando Lopes Graça – Canto Firme , assim conhecido,  constitui um conjunto de valências de cultura e de espetáculo, desde logo a partir da sala principal com lotação de 250 lugares e com palco devidamente dimensionado e equipado.

 

Mas não só: o edifício comportou ainda uma Escola de Música e áreas de atividades diversas de complementação de cultura e convívio especialmente vocacionadas para formação didática e de juventude.

 

E com destaque para a produção de espetáculos teatrais.

 

DUARTE IVO CRUZ 

NO TRINDADE, HOMENAGEM A CARMEN DOLORES


Aqui temos referido o Teatro da Trindade na perspetiva tanto da qualidade arquitetónica como do notável historial nas artes do espetáculo que, desde a inauguração em 1867 mantem até hoje. Justifica-se então que se evoque essa tradição histórica, estética e arquitetónica, no contexto muito recente dos espetáculos que assinalam e homenageiam a carreira de Carmen Dolores, a partir da nova designação da sala principal do Teatro, agora chamada Sala Carmen Dolores.

 

Nada mais justo.

 

Em primeiro lugar, porque Carmen Dolores ali pela primeira vez enfrentou o público, curiosamente não em espetáculo teatral, mas na estreia em 1943, do “Amor de Perdição”, filme de António Lopes Ribeiro. Antes disso, recorda o programa agora distribuído na homenagem prestada no mesmo Teatro, teria atuado como declamadora na rádio. Mas foi no Trindade que pela primeira vez teve contacto com o público, mesmo que essa estreia tenha sido num filme...

 

E foi novamente no Trindade que Carmen Dolores enfrenta diretamente o público, agora na companhia denominada Os Comediantes de Lisboa, dirigida por Francisco Ribeiro, com textos exigentes: Giraudoux, Munoz Seca, Marcel Achard e outros.

 

E em 1951 junta-se ao Teatro Nacional de D. Maria II de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro: e aí participa em espetáculos a partir de dramas e comédias do grande repertório que incluiu autores portugueses como Alfredo Cortez ou Luis Francisco Rebello, o que na época seria de registar...

 

Cito a propósito, o que escrevi em 2005 no livro “Teatros de Portugal”:

 

“O Trindade serviu de abrigo a sucessivas companhias de qualidade, desde o Teatro de Arte de Lisboa ao TNP de Ribeirinho, que estreou “À Espera de Godot” de Beckett, da Nova Companhia de Declamação a Amélia Rey Colaço- Robles Monteiro e a Companhia Nacional de Teatro de Couto Viana e voltando atrás, a todos os grande nomes desde Ângela Pinto a Rosas e Brasão, a Palmira , a Vasco Santana e praticamente a todos mais” -  e  incluindo obviamente  Carmen Dolores.

 

Mas não só: encontramos Carmen em 1958/59 no Teatro Avenida então dirigido por Gino Saviotti, na Nova Companhia do Teatro de Sempre, novamente no Trindade com o Teatro Nacional Popular, e no Teatro Moderno de Lisboa, que funcionou no Cinema Império, e ainda na Casa da Comédia, no Teatro Aberto.

 

Paula Gomes de Magalhães escreveu um excelente texto publicado no âmbito das homenagens prestadas no Teatro Meridional e no Teatro da Trindade, a partir do texto de “Vozes Dentro de Mim”, da autoria da própria Carmen Dolores (2017), autora também de “Retrato Inacabado (1984) e de “No Palco da Memória” (2013).

 

E, a partir de “Vozes Dentro de Mim”, tivemos no Trindade, no âmbito das comemorações, um longo monólogo com notável interpretação de Natália Luiza e também notável dramaturgia e encenação de Diogo Infante.

 

DUARTE IVO CRUZ

A TRADIÇÃO OITICENTISTA DOS TEATROS DE ALCOBAÇA (II) - O CENTRO CULTURAL

 

Na crónica anterior, referimos a tradição de teatros e salas de espetáculo de Alcobaça, com a evocação e descrição do velho Theatro Alcobacense, de 1838, do Cine Teatro de Alcobaça, este inaugurado nos anos 40 do século passado.

 

Uma coincidência fez-nos agora evocar o Auditório do Centro Cultural Gonçalves Sapinho de Benedita – Alcobaça precisamente no contexto da morte do autor do projeto, o arquiteto Raul Hestnes Ferreira (1931-2018).

 

Autor de uma vastíssima obra ligada à infraestrutura cultural, Raul Hestnes Ferreira era filho do escritor e dramaturgo José Gomes Ferreira e essa circunstância permite uma associação cultural à larga criatividade arquitetónica que ao longo da vida desenvolveu. De assinalar designadamente que José Gomes Ferreira (1900-1985) publicou em 1978 cinco peças em um ato, a que chamou no conjunto “Caprichos Teatrais – Manhã Morta, O Subterrâneo, O Patamar, O Comércio, Os Novos e os Velhos”.  E se referimos aqui esta circunstância cultural-familiar, é porque nela se pode reforçar o adequamento da criação arquitetónica do filho, designadamente nos projetos ligados à arte do espetáculo.

 

Justamente: entre eles, evocamos agora o Centro Cultural Gonçalves Sapinho de Benedita-Alcobaça, Externato Cooperativo com uma vasta abrangência de património e de atividades culturais, e com destaque para a sala de espetáculos.

 

Trata-se de um auditório com lotação de 370 lugares e com um palco de 15 metros de largura por 7 metros de profundidade, o que é de registar. Pois estes valores marcam um espaço de potencialidade que transcende muitas salas de espetáculo como tal constituídas e utilizadas. E como tal excede nessa dimensionalidade funcional o próprio Cine-Teatro de Alcobaça que aqui referimos no artigo anterior.

 

Posto isto: Alcobaça é justamente “dominada” pelo esplendor e pelo prestígio monumental, na mais vasta abrangência do termo, que o Mosteiro determina. E no entanto, o conjunto concilia essa obra dominante com uma harmonização que   singulariza toda a região e que chega obviamente às localidades que a rodeiam e entre elas a Benedita.

 

Citamos aqui uma referência de Luís Forjaz Trigueiros a Alcobaça:

 

“O lirismo natural desta região privilegiada não lhe afeta a sua vitalidade. Alcobaça, todos o sabem, é uma terra de bom gosto, em que a arte e a industria vivem de mãos dadas. A abundância e a cor – eis na verdade dois símbolos desta terra farta e clara, que gosta de oferecer ao viandante a dupla imagem de uma fartura e do seu trabalho: frutas, cerâmica, tecidos e vinhos são forais, títulos de nobreza, para a história da vila, que tão bem sabe ser fiel ao passado, sem descurar o futuro”. (in “Sombra dos Tempos”)

 

Palavras proféticas, pois, publicadas há mais de 50 anos, “adivinham” a modernidade espetacular do Centro Cultural...    

    

E a terminar: Gonçalves Sapinho foi Presidente da Camara Municipal de Alcobaça. Faleceu em 2011, no desempenho de outras funções: mas é relevante esta homenagem que a cidade lhe prestou, ao atribuir o seu nome ao Centro Cultural.

 

DUARTE IVO CRUZ

A TRADIÇÃO OITOCENTISTA DOS TEATROS DE ALCOBAÇA (I)

 

Será algo contraditório referir uma tradição nas áreas de edificação urbana em Alcobaça sem partir da óbvia evocação do Mosteiro. Mas aqui, mais singelamente, referimos edifícios de teatros ou de cineteatros: e mesmo sem obviamente confundir as coisas, sem obviamente querer valorizar, no mesmo grau, monumentos ou edifícios de expressão arquitetónica e cultural, justifica-se, cremos, esta evocação seletiva de referências à infraestrutura de espetáculos na cidade de Alcobaça.

 

Ficou a memória de um então chamado Theatro Alcobacense, iniciativa de um grupo de alcobacenses que consideraram necessário dotar a cidade de uma sala de espetáculos. Sem embargo, evidentemente, da preponderância, a nível mundial do Mosteiro em si mesmo: e cabe hoje recordar que no próprio Mosteiro se efetuaram, ao longo dos séculos, manifestações dramática e musicais.

 

Mas, de qualquer maneira, evoca-se a iniciativa local de dotar Alcobaça de uma sala de espetáculos. Estamos em 1838, note-se: mas a iniciativa deve-se a um grupo de alcobacenses apoiados e estimulados por uma figura de destaque, o Conde de Vila Real, que muito contribuiu para a construção. E efetivamente, em 6 de janeiro de 1840 é inaugurado o então chamado Theatro Alcobacense, curiosamente incrustado no próprio Mosteiro.

 

A sala notabilizou-se pela sua dimensão e pela rentabilização do próprio espaço disponibilizado, numa arquitetura de interior adequada à época da adaptação: plateia, frisas, duas ordens de camarotes, galeria.

 

Mas nos anos 40 do século passado surge um Cine Teatro de Alcobaça, assim mesmo designado, a partir de um projeto inicial do Arquiteto Ernesto Korrodi, que tantas vezes aqui temos referido.  Korrodi morre em 1944, mas a sua atividade é continuada e de certo modo renovada pelo filho, Camilo Korrodi. Nomes que, repita-se, temos muitas vezes encontrados nestas evocações de salas de espetáculo.

 

Adquirido pela Câmara Municipal em 1998 e sujeito a obras de restauro, o Cine Teatro de Alcobaça comporta duas salas, então designadas como Grande Auditório, com para cima de 300 lugares, e Pequeno Auditório, este com cerca de 65 lugares. Internacionalizou-se a programação.

 

E finalmente: em 2010 a Câmara homenageou um cidadão alcobacense, acrescentando-lhe o nome. Passa a chamar-se então Cine Teatro de Alcobaça João d’Oliva Monteiro.

 

Mas como veremos, não fica por aqui a infraestrutura de espetáculos de Alcobaça.

 

DUARTE IVO CRUZ  

ALGUNS TEATROS OITOCENTISTAS

 

A reforma estrutural de Garrett e a inauguração do Teatro de D. Maria II, ocorrida em 13 de abril de 1846 com o drama “O Magriço ou os Doze de Inglaterra” de Jacinto de Aguiar Loureiro, marcam de certo modo o início de um movimento de descentralização da infraestrutura teatral, prevista aliás desde 1836 por Garrett no Relatório de 12 de novembro de 1836, transformado em Portaria exatos 3 dias depois, e onde se prevê, logo no artigo 2º  a criação de uma “Sociedade para a fundação do Theatro Nacional”, e no artigo 4º a criação de “uma nova companhia de atores nacionais”, assim mesmo.

 

O programa motivou um movimento de descentralização da infraestrutura e da atividade do espetáculo teatral: e são efetivamente numerosos os Teatros que ao longo do século XIX foram construídos e mantiveram-se em atividade, alguns até hoje. Mas em contrapartida, são também muitos os casos de demolição de Teatros por esse país fora.

 

Inclusive porque os Teatros regionais, chamemos-lhes assim, eram sistematicamente construídos em zonas centrais das cidades: e daí, também que ao logo dos tempos muitos deles foram demolidos ou adaptados a outras atividades.

 

Vejam-se ou revejam-se alguns exemplos.

 

O Teatro Portalegrense, inaugurado em 1858, elegante na sua estrutura típica da arquitetura de espetáculo da época, foi a cera altura transformado em ringue de patinagem.

 

O Teatro Rosa Damasceno de Santarém, é inaugurado em 1884: mas exatamente no mesmo local será construído um cinema. O que não é obviamente caso único, mesmo em Lisboa como bem se sabe. Mas há que lamentar as situações, e são tantas pelo país fora, em que restou o nome, ou as paredes mestras, e por vezes nem isso. Casos semelhantes foram habituais.

 

E muitos mais alinham nesta evocação pelas piores razões: o Teatro Nabantino de Tomar a certa altura foi transformado em café; o Teatro Vilafranquense de Vila Franca de Xira, a certa altura foi transformado em parque de estacionamento; e já agora, o Teatro Apolo de Lisboa, antes Príncipe, Real, também desapareceu...

 

Enfim: estão em funcionamento diversos teatros da mesma geração. E alguns deles em plena e intensa atividade. Sabemos no entanto o que aconteceu aos sucessivos Teatros/Cinema Condes de Lisboa, para não falar outra vez no Teatro Apolo, antes Príncipe Real, no Ginásio, e tantos mais...

 

O Trindade felizmente está em plena atividade!

 

Em qualquer caso: sobreviveram ainda assim diversos teatros da época, e muitos desses sobreviventes temos referido ou iremos referir. Para além dos de Lisboa e Porto, há uma tradição oitocentista de teatros em Santarém, Aveiro, Teatro Gil Vicente de Cascais, Teatro Calleya da Covilhã, ou no velho Teatro Brigantino, depois denominado Teatro Camões de Bragança...

 

E tantos mais de que, repita-se, ou já falamos ou iremos falando:  e isto, a acrescentar aos do Porto e de Lisboa!...

 

DUARTE IVO CRUZ