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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de fevereiro de 2021

A decisão aprovada por unanimidade na Assembleia da República visando conceder honras de Panteão Nacional a José Maria Eça de Queiroz constitui um ato de elementar reconhecimento em relação a quem é referência indiscutível das culturas de língua portuguesa. No lugar cívico de homenagem a figuras referenciais da história portuguesa, está em causa a valorização do Panteão, de modo a melhor dignificar uma identidade nacional antiga, aberta, complexa e fecunda.

 

PANTEÃO NACIONAL
Em Portugal, o estatuto de Panteão Nacional está hoje atribuído ao antigo templo de Santa Engrácia em Lisboa, ao Mosteiro Santa Cruz em Coimbra e ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Batalha), onde se encontram os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal e dos fundadores da Dinastia de Avis. No Panteão estão sepultadas figuras nacionais marcantes e são ainda recordados, através de “cenotáfios”, os nomes de: Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e Luís de Camões. O mosteiro dos Jerónimos funcionou provisoriamente como Panteão, mas não tem hoje esse estatuto formal, ainda que tenha os túmulos de Vasco de Gama e de Luís de Camões, na nave do templo, de Alexandre Herculano, na antiga Sala do Capítulo e de Fernando Pessoa. Em S. Vicente de Fora, está o Panteão da Dinastia de Bragança, onde se encontram sepultados membros da família real que reinou após a Restauração de 1640. No entanto, trata-se aqui de um Panteão familiar. Desde a antiga Grécia e depois em Roma, a palavra Panthéon designava o templo onde se honravam os deuses com culto reconhecido. A palavra é grega e significa literalmente “todos os deuses”. Em Roma, o Panteão que chegou aos nossos dias é a homenagem ao cônsul Marco Agripa (63-12 a.C.), que o mandou construir em 27 a.C. No ano 80, foi praticamente destruído por um incêndio. Quatro décadas depois, o imperador Adriano (76-138) ordenou a sua reconstrução. Foi o cristianismo que, em virtude da doação de um rei bizantino ao Papa Bonifácio IV no século VII, salvou o monumento da pilhagem e da destruição, adotando o orago de Santa Maria e Todos os Santos. No Panteão de França, em Paris, a construção como templo religioso foi iniciada em 1764, por encomenda de Luís XV, em ação de graças por ter recuperado de uma grave enfermidade. A obra apenas foi concluída em 1790, depois da Revolução tendo sido então transformado num edifício secularizado, com a função de homenagear os vultos que se notabilizassem na pátria. Também na Abadia de Westminster, em Londres, estão sepultadas grandes figuras britânicas como William Shakespeare, Isaac Newton e Charles Darwin. Foi assim a partir duma tradição ora religiosa ora secular que foram criados os Panteões Nacionais.


VENCIDOS, MAS VENCEDORES
Se há figura histórica em Portugal cuja presença no Panteão Nacional se justifica plenamente, é o autor de Os Maias e de A Ilustre Casa de Ramires, como romancista que retratou a sociedade portuguesa do final do século XIX em termos que nos permitem compreender melhor de onde vimos e quem somos. Não significa isto que a sociedade contemporânea não tenha mudado. Mudou muito, mas prevalecem elementos duradouros que nos permitem pôr em confronto o que resiste e o que se transforma. Ainda se usa a expressão vencidismo para caracterizar a geração de Eça de Queiroz – no entanto não tem sentido negativo essa expressão, uma vez que a palavra “vencidos” nasceu como uma ironia (“battus de la vie”) que o tempo não confirmou como fatalidade profética, mas sim como orientação crítica e como obrigação de uma modernização cosmopolita e europeia. Não transigir com a mediocridade e o atraso foi a marca dessa geração de 1870. E se virmos bem, Eça de Queiroz, sendo um diplomata a viver fora de Portugal, foi sempre na perspetiva de português que retratou a nossa sociedade. A marca própria está na visão citadina que sempre imprimiu à sua obra, enquanto alguém como Camilo Castelo Branco (romancista de primeira água, a merecer também as honras de Panteão) foi mais próximo do país profundo rural, apesar da sua extraordinária cultura erudita. Afinal, é uma geração que não se deu por vencida, tendo ousado diversas tentativas políticas, que pecaram tantas vezes por uma razão fora do tempo ou pela fragilidade dos meios disponíveis. Contudo, até aos nossos dias essa geração foi transversal na sua inequívoca influência, marcando (pode dizer-se) as várias famílias políticas e correntes de opinião na cultura e nas artes, dos conservadores aos modernistas. Como dirá Oliveira Martins a Ramalho Ortigão, a propósito de “As Farpas”: “V. e o Queiroz reúnem os dois modos eminentemente modernos de rir. A um o espírito francês, ao outro o humorismo alemão. Enquanto um põe fria e secamente o problema e tira dele todas as conclusões, lógicas até ao absurdo, o outro fantasia com uma ironia dolorosa e profunda”… Esse sentido crítico, esse pendor picaresco fazem parte da necessidade inconformista e da exigência de superação da indiferença. E em Os Filhos de D. João I, diz Oliveira Martins: “Ocorre, portanto, indagar qual vale mais, se vencer, ou ser vencido? Convém perguntar se num mundo incompleto e imperfeito, como tudo o que é real, a bondade, a virtude, a nobreza e esse bater de asas para o ideal, representado à imaginação dos gregos na fábula de Ícaro, não serão em verdade causas de permanente desgraça? Feira de ironia, a realidade parece condenar aqueles que ousam querer desvendar-lhe as leis, quebrando o selo terrível do mistério. Contraditório na essência íntima do seu próprio ser, o mundo esmaga quem se propõe vencê-lo, desflorando-lhe a intimidade dos segredos. Viver é ignorar”. No fundo, o desvendar desse mistério e o tentar propor soluções para os problemas pode não ter resultados imediatos, mas é suscetível de abrir caminhos futuros. Eis o que procurou a geração de Eça de Queiroz. No debate parlamentar, o deputado José Luís Carneiro lembrou que este preito de homenagem constitui também um agradecimento à família de Eça, que legou o seu património material e imaterial à Fundação sediada em Santa Cruz do Douro, em Baião, agora presidida pelo bisneto do escritor, Afonso Cabral. E recordou o papel de Manuel de Castro, neto do romancista, que presidiu à Câmara de Baião, e de D. Maria da Graça Salema de Castro, promotora de um extraordinário projeto de desenvolvimento, que constitui a afirmação do património cultural como irradiação de iniciativas que através da memória promovem a emancipação dos povos e a justiça social. E assim se concretiza a fidelidade ao pensamento de Eça de Queiroz e da sua geração – para quem o País não poderia ser condenado ao atraso e à mediocridade. E as “honras de Panteão Nacional” significam reconhecimento de um excecional contributo cultural e cívico.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXII) EÇA E A GERAÇÃO DE SETENTA

 

Esta célebre fotografia foi tirada no Palácio de Cristal na Cidade do Porto e reúne cinco amigos da geração de 1870: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro. A imagem está ligada a um mítico almoço e à compra de um leque para oferecer a D. Emília, noiva de Eça, autografado com uma pena de cozinha, entre a pera e o queijo: “quem muito ladra, pouco aprende” (Antero), “escritor que ladra não dorme” (Oliveira Martins); “dentada de crítico, cura-se como pelo do mesmo crítico” (Ramalho), “cão lírico ladra à lua; cão filósofo abocanha o melhor osso” (Eça), “cão de letras, cachorro!” (Junqueiro). E a matilha escreveu um “envoi”: “São cinco cães sentinelas / De bronze e papel almaço; / De bronze para as canelas, / De papel para o regaço”… Esta é uma das últimas expressões felizes do tempo em que Antero pôde ser feliz na costa de Vila do Conde.

Eça de Queiroz confessa o seu “temperamento conspirador”, a sua costela socialista, a sua admiração pela Comuna, mas em “As Farpas” afirma: “Detestamos o facho tradicional, o sentimental rebate a sinos; e parece-nos que um tiro é um argumento que penetra o adversário – um tanto de mais!”… No fundo, defendia uma revolução pacífica, “preparada na região das ideias e da ciência”, influenciada por uma “opinião esclarecida”, numa palavra, uma “revolução pelo governo”. Contudo, ao longo das páginas das “Farpas”, encontramos o que designa como um “panfleto revolucionário”, que punha “a ironia e o espírito ao serviço da justiça”, enquanto causas semelhantes às dos Gracos, de Spartacus, de Moisés ou de Cristo… E, dez anos passados sobre o movimento revolucionário de Paris, nos anos oitenta, dirá: “os vencidos de então são hoje cidadãos formidáveis, armados não de uma espingarda revolucionária, mas de um legal boletim de voto, e que, em lugar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas nas eleições”.

Proudhon, o autor lido e venerado no Cenáculo de S. Pedro de Alcântara, entre a fumarada dos cigarros dos jovens amigos de Antero, continuará bem presente no pensamento inconformista do autor de “A Relíquia”. E não se preocupava ainda o Fradique tardio com a “miséria das classes – por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo pão egoísta, as almas cada dia se tornam mais secas e menos capazes de piedade”? E não disse o próprio Eça, com apenas 22 anos de idade, no “Distrito de Évora” que “as revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem? Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade”? O certo é que esta mesma preocupação (pela justiça e pela igualdade) vemo-la projetada, mais tarde, desde o conto “S. Cristóvão” à crónica “Um Inverno em Paris”, para não falar nos ecos do poderoso ensaio de Antero de Quental sobre as “Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX” que Eça glosa, aludindo ao “Bem Supremo, fim verdadeiro de toda a vida, fim divino a que tende o Universo. Em resumo, a lei moral do homem é o constante aperfeiçoamento e progressiva santidade”.

Misteriosamente, encontramos em “A Ilustre Casa de Ramires” algo que o brasileiro Álvaro Lins descobre com perspicácia: “mais do que em João da Ega, é em Gonçalo Ramires que Eça pode ser encontrado. João da Ega será uma imagem da sua mocidade, dos seus projetos, das suas ‘blagues’, do seu tipo exterior e convencional – de tudo o que ele seria se tivesse falhado. Mas em Gonçalo, a mais analisada e a mais conhecida das suas personagens, é onde Eça está. Onde estão, pelo menos, alguns dos seus sentimentos mais fortes, da sua maneira de ser, da sua posição em face da vida. E é curioso que Gonçalo, ao contrário de Fradique, sendo Portugal, sendo Eça, sendo o homem-português, permaneça ainda Gonçalo Ramires. Nem o sectarismo, nem o sentimento, nem o patriotismo, em Eça de Queiroz – nada, nem ele mesmo – perturba a criação artística”. Beatriz Berrini falará, por isso, de um “intelectual discrepante”. E nesta discrepância está o paradoxo que leva Eça (e os seus amigos) a serem considerados como “Vencidos”, quando de facto são vencedores, quer pela influência decisiva que se estende aos nossos dias, quer pela mensagem, a um tempo crítica e mobilizadora, de recusa terminante de derrotismo ou desistência, já que eles, de facto, não baixaram os braços. E a contradição de Gonçalo é claríssima, sabendo que a História, mais do que um motivo de orgulho retrospetivo torna-se demonstração de que a responsabilidade fica do lado da ação…

Para entender, basta ler Antero em “A Província” no texto “Expiação”, na sequência do Ultimatum inglês: “o nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos. Só um falso patriotismo, falso e criminosamente vaidoso, pode afirmar o contrário. Declamar contra a Inglaterra é fácil: emendarmos os defeitos gravíssimos da nossa vida nacional será mais difícil, mas só essa desforra será honrosa, só ela salvadora. Portugal ou se reformará política, intelectual e moralmente ou deixará de existir”.

GOM

 

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A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de fevereiro de 2020

 

Homenageamos Luís Santos Ferro (1939-2020), um homem de cultura, conhecedor profundo de muitos domínios das artes e das letras, em especial sobre Eça de Queiroz, de quem era um exímio especialista no sentido mais universal do termo.

 

O LUÍS E O NOSSO QUEIROZ
O Luís Santos Ferro era uma imprescindível companhia. Com ele era um verdadeiro deleite a conversa e sobretudo o deambular no universo romanesco de Eça de Queiroz, que familiarmente designava como o “nosso Queiroz”. Nestes últimos dias já senti a necessidade incontida de lhe perguntar alguma coisa ou de lhe pedir ajuda sobre vários enigmas desse conjunto tão familiar como fascinante e heterogéneo. Infelizmente, deixou-nos inesperadamente. Estivemos a última vez juntos num inolvidável concerto na Gulbenkian, e encontrávamo-nos nas sessões mensais do Conselho Literário do Grémio. A sua formação de engenheiro tornou-o uma simbiose inesquecível entre o rigor e a liberdade de espírito. Quando recebia um livro novo de referência, apressava-se a verificar se tinha um índice onomástico, e perante a sua falta tão comum, infelizmente (contra mim falo), era absolutamente demolidor, uma vez qua a falta desse precioso auxiliar limitava drasticamente a plena utilidade da obra. Os seus amigos sabiam que a obra queiroziana não tinha para si segredos. A partir da dúvida metódica, ele próprio era sistematicamente interrogativo. Na sua perceção de privilegiado observador desejava evitar que faltasse alguma coisa, que não desejava perder. De facto, como bem sabia, quando se lê ou relê uma obra, há sempre qualquer coisa, um pormenor, uma ninharia, que não topamos no momento próprio e que se revela fundamental. Que é a literatura senão a chave para entendermos a vida e o seu sentido? Mas não era apenas José Maria Eça de Queiroz que estava em causa, era o tempo e a História, eram as artes e os valores. Por outro lado, era um extraordinário melómano, no sentido mais rico da palavra. Se dúvidas houvesse, bastaria visitar o extraordinário inventário de referências musicais na obra queiroziana, que se encontram no seu artigo integrado no Dicionário coordenado pelo Arquiteto A. Campos Matos. E aí encontramos não só é o conhecimento profundo da criação literária de Eça, mas também a ligação exata às mais difíceis referências artísticas e musicais.

 

CICERONE EXÍMIO
Tendo como cicerone o Luís Santos Ferro, a compreensão de qualquer um dos romances de Eça ou da sua obra tornava-se motivo do maior fascínio, numa descoberta para além do que é comum encontrar-se. Por exemplo, na sua apreciação, as referências musicais na obra de Eça não são um “mero elemento decorativo, acessório ou supérfluo na composição”, mas antes fatores de qualidade, reunindo “componentes atentamente doseadas e preenchendo função específica, ponderada, de efeito sabiamente calculado”. Como disse Catherine Dumas, “a música representava para ele (E.Q.) o mais alto grau de arte e expressão mais completa da espiritualidade”… Lembre-se a récita do “Fausto” de Gounod, a que assistiram em O Primo Basílio Luísa e Jorge. O romancista seguiu fielmente o que se passava em cena – numa ligação perfeita ente a encenação, a ação e a música. Mas não se trata apenas da invocação da forma, como se de um apêndice erudito se tratasse; não, o que importa é encontrar uma chave simbólica capaz de ligar o enredo narrativo e os sinais dramáticos. Na invocação da “Traviata” e de “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas, que lhe serve de base, a ópera e o romance surgem naturalmente associados ao destino funesto de Luísa, que se prenuncia. O mesmo se diga nas referências à “Norma” de Bellini e à “Lúcia de Lammermoor” de Donizetti, cujo tema estava nas leituras de Luísa de Walter Scott… Essas alusões não eram gratuitas ou inúteis, e Luís Santos Ferro era único na procura e descoberta desses pequenos segredos e no modo como os estudou e partilhou no extraordinário texto sobre música do Dicionário de Eça… Num encontro ocasional, poderia ser no seu antigo gabinete da Fundação Luso-Americana na Rua do Sacramento, no Grémio, na Gulbenkian ou em S. Carlos, era fácil familiarizar-nos em animada conversa com as principais personagens queirozianas, designadamente com Carlos Fradique Mendes. Os textos são inesquecíveis. “Durante três anos Carlos tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão na tasca das Camelas, publicou na Ideia sonetos ascéticos, e amou desesperadamente a filha de um ferrador de Lorvão”. E ali ficávamos a invocar as diversas encarnações Fradique, na filiação partilhada de Antero, Batalha Reis e Queiroz, mas também Afonso da Maia, Acácio, Pacheco, Dâmaso, Alencar, Cruges, Craft… Esse o prazer supremo de Luís, o puro sonho criador. Afinal, esse conhecimento fazia parte do extraordinário usufruto da imaginação e da inteligência. E vinha à baila o fado, que, contra tudo e contra todos, João da Ega defendera contra a opinião de Craft.

 

COMPASSSOS GENTIS E MELODIOSOS
E os relógios? Esses eram cantantes variados. Fradique regulava a vida metodicamente por um que fazia soar “compassos, gentis e melodiosos, de Haydn, Cimarosa ou Gluck”. Mas, rindo connosco, logo vinha à lembrança o facto de, em casa de Jorge e Luísa, ser “o cuco que marcava o tempo e enchia o silêncio”. E os pianos? Acácio e Dâmaso possuíam pianos, mas apenas decorativos e mudos. Esse facto denunciava o respetivo carácter. Amélia e Genoveva (da Tragédia da Rua das Flores) tocavam piano; no Ramalhete, havia piano, ora bem ora mal tocado consoante o tangedor. Mas, além, dos instrumentos (sempre Luís Santos Ferro a lembrá-lo) havia as comparações das personagens romanescas com figuras celebrizadas em obras musicais. João da Ega aparece comparado ao “Mefistófeles” de Gounod; Genoveva aparece associada à cançoneta “L’Amant d’Amanda”, muito em voga na época em Paris… E o namoro de Basílio e Luísa desenvolve-se e encerra-se ao som da canção de Médjé ainda de Gounod. Maria Eduarda é um caso especial. A música marca a sua aparição. E, além do mais, era uma excelente pianista. As suas interpretações de Chopin e Mendelsohn são elogiadas pelo rigoroso Cruges, e é a ária de Ofélia que a simboliza – “Pâle et blonde /Dort sous l’eau profonde”. E quando toda a tragédia se desenha, e Ega já sabe do terrível segredo: Maria nunca parecera tão bela. “Carlos era positivamente o homem mais feliz destes reinos”. Mas são as palavras finais do poema cantado que encerram o terrível augúrio: “Pour toujours adieu, mon doux ami! (…) Pour toi je meurs! Ah ah je meurs”. De facto, como insistia Luís, “na narrativa, mesmo quando de música não se trata”, esta existe no estilo da prosa e Guerra da Cal dissera já que literariamente Eça empregava sem reservas, “toda a classe de recursos de natureza musical”... O Luís Santos Ferro pôde, assim, como ninguém, ir ao âmago da narrativa de Eça de Queiroz, permitindo-nos compreender a complexa oficina criativa do extraordinário romancista. Mas neste momento é já a saudade que impera, sobretudo quando retiramos da estante qualquer das obras que tanto amava. Cada palavra, cada ideia lembra-nos tudo o que sabia e todo o prazer que sentia, e não esquecemos.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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OS TEATROS DAS COLÓNIAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

 

Fazemos hoje aqui uma evocação de teatros em funcionamento nas colónias portuguesas a partir do início do século passado. E vale a pena desde logo referir que havia na época uma tradição de espetáculo, efetuado a partir de Lisboa por companhias que se deslocavam às colonias africanas, e que dessa forma reforçavam uma certa, se bem que ténue atividade cultural.

 

E recuando ainda mais no tempo e na história, recorda-se o que Eça escreveu em “Os Maias”, a propósito do projeto do Conde de Gouvarinho para a criação de teatros em África. Trata-se de uma conversa com João da Ega no Teatro da Trindade:

 

«Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... / Toda a face do Conde reluzia, escarlate, de prazer. / - Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias, todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas.  Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção de moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso, há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!» (“Os Maias” cap. XVI).

 

 Ora bem: temos aqui citado Sousa Bastos e o seu “Diccionário do Theatro Português” (ed. 1908), onde descreve, por vezes em muito vastas referencias, nada menos do que 2002 Teatros, em Portugal   e nas colónias.

 

 E os das colónias eram então os seguintes: Teatro Africano, de São Tiago de Cabo Verde, com 14 camarotes, 7 frisas, 120 lugres de plateia e geral; Teatro Caridade de São Vicente de Cabo Verde; Teatro Garrett de Moçâmedes, com 30 camarotes de duas ordens, 110 lugres de plateia, 60 de geral e 40 de galeria; Teatro de Luanda, com plateia, duas ordens de camarotes e lotação de 300 lugares; e Teatro de S. Tomé, este em sucessivos edifícios adaptados...

 

Isto, em 1908.

 

Mas vale a pena citar outra vez  “Os Maias”.

 

Quando o Conde Gouvarinho é nomeado ministro, o João da Ega faz troça: “Lá vai o Gouvarinho batendo para o poder, a mandar representar a Dama das Camélias no sertão!” 

 

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

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  De 10 a 16 de dezembro de 2018

 

Os 130 anos de Os Maias merecem ser lembrados. A exposição que a Fundação Gulbenkian organiza, com o inestimável apoio da Fundação Eça de Queiroz, pretende centrar-se na importância de um livro referencial e na promoção de uma reflexão, que leve à leitura da obra, que permita um conhecimento da mesma e que promova ainda o gosto de ler, um melhor domínio da língua e o contacto com a literatura e a História viva.

 

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REFERÊNCIA BEM PRESENTE
Não se trata de um exercício retrospetivo ou passadista, mas da consideração de uma preocupação bem presente, orientada para os cidadãos de hoje. E se há bem pouco tempo se discutiu se essa obra deveria estar no elenco dos programas escolares, o certo é que o bom senso prevaleceu, com a preocupação com os hábitos de leitura e o culto das humanidades, que não podem desaparecer da ordem do dia. A iniciativa nasceu de uma conversa despretensiosa com o meu amigo Afonso Eça de Queiroz Cabral. Havia que pôr momentaneamente Tormes, Santa Cruz do Douro, em Lisboa, para que esse roteiro extraordinário pudesse tornar-se mais conhecido – e para que a ideia dos percursos literários e das viagens com livros pudesse enraizar-se nos nossos hábitos culturais. No Ano Europeu do Património Cultural, nada melhor do que lembrar um romance como este, que constitui uma verdadeira panóplia sobre quem fomos e sobre o que não devemos esquecer criticamente sobre as nossas qualidades e defeitos, virtudes e limitações. Aí estão muitos ingredientes que nos conduzem à ideia complexa de património cultural, nas suas diversas aceções. O longo tempo de feitura e de revisão que o autor dedicou à obra permite que haja um conjunto complexo e heterogéneo de elementos, que nos levam a compreender o património material e imaterial, a natureza e a paisagem, e a capacidade criadora ditada pela contemporaneidade. Alguém disse “está lá tudo”… Não sei se está, mas a verdade é que há muito do que permite compreender criticamente a nossa realidade. Fizemos um longo percurso, o apuramento do sentido crítico que Eça e a sua geração nos ensinaram teve os seus resultados, mas há muito para fazer. Daí a importância de podermos lidar com a oficina do escritor, percebendo que à mediocridade devemos saber contrapor o não deixar ao abandono o que recebemos e a aprendizagem exigente da informação que tem de se tornar conhecimento e do conhecimento que deve ser sabedoria…

 

TUDO O QUE TENHO NO SACO
Na célebre carta a Ramalho Ortigão de 20 de fevereiro de 1881, a propósito de uma hipótese confusa de publicação em folhetins de Os Maias no “Diário de Portugal”, de Lourenço Malheiro, Eça fica na esperança de poder obter uma boa retribuição monetária pelo romance – “e como via nessa proposta uma pequena fortuna (o Malheiro afiançava-mo) decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco. A ocasião confesse era sublime para jogar uma enorme cartada”… O episódio é triste de desencontros e incompetências, atrasos tipográficos e outras incapacidades. Mas só em 1888 essa obra, considerada quase pronta sete anos antes, viu finalmente a luz do dia. O que importa dizer é que o romancista fez indiscutivelmente uma grande aposta – e é esse o resultado de que todos somos beneficiários, ao ler uma ampla representação da sociedade do momento. Em 12 de junho de 1888, em carta a Oliveira Martins, dirá: “Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa”. Os Maias são um retrato do Portugal citadino do final do século XIX. Há um rico percurso que abrange desde um tempo de confronto entre a tradição e os ventos novos, representado pelo avô Afonso da Maia, que nos liga à sociedade antiga, até aos efeitos da acalmação e do progresso concretizado pela Regeneração. Dir-se-á, porém, que confluem a imitação das sociedades avançadas da Europa e a ausência de meios suficientes para assegurar que os melhoramentos de Fontes Pereira de Melo tornassem o país próspero e superasse o atraso. A sombra do défice e da dívida pública abatem-se sobre o país – e os ingredientes do romance trazem-nos, ao lado de uma trágica trama amorosa entre dois irmãos, que se desconhecem, o confronto entre o tédio vivido por Carlos da Maia e o pensamento de João da Ega, ditado pelas influências de um fim de século pessimista e contraditório. Há mudanças profundas que se reclamam, há intenções. Mas o pano de fundo revela futilidade, descrença, ilusão e mediocridade.

 

UM ROMANCE FIEL AO AMBIENTE VIVIDO
Indiscutivelmente, Os Maias é um romance fiel ao ambiente que se vivia quando foi publicado e escrito, o que faz crer a muitos que continuamos a persistir nessa sociedade retratada há tantos anos, numa obra longamente escrita e pensada… As diferenças na sociedade são profundas, mas há reminiscências que perduram. A escrita é cortante, clara, incisiva e tem de ser reconhecida na sua imensa riqueza. Os Maias assumem um lugar central no nosso panorama literário, pelo caráter, pela diversidade das personagens, pela força da escrita e pelo sentido crítico. Representam uma das marcas deixadas pela Geração de 1870 – graças a uma voz severa, mas não a um negativismo sem horizonte. Devemos lembrar o que Eduardo Lourenço disse em O Labirinto da Saudade: “Não é suscetível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol”. E sobre a crítica de Fialho de Almeida, o próprio Eça dirá em sua defesa: “condenar um escritor, como caluniador e maldizente, porque ele revela os ridículos do seu país – é declarar maldizente toda a literatura de todos os tempos, que toda ela tem tido por fim fazer a crítica dos costumes, pelo drama, a poesia, o romance e até o sermão!” (a Mariano Pina, 27.7.88). Talvez A Ilustre Casa de Ramires seja mais problematizante, mas também mais enigmático. Estamos, assim, diante de uma panóplia inesquecível, que deve ser recordada por quem queira conhecer a literatura portuguesa. Lembremos Maria Eduarda, fantasma marcante no romance, os Gouvarinhos, Cohen, Dâmaso, Alencar, Palma Cavalão… A diversidade esconde, no entanto, uma uniformidade desgostante. E a imitação é a marca. Agora, podemos contar com a presença de peças originais que vieram especialmente de Tormes, onde costumam estar expostas (como a secretária do escritor e a célebre cabaia) e que, por certo, se tornarão motivo para que o roteiro queirosiano se torne mais conhecido. É de literatura como realidade viva e atual que cuidamos, eis a razão desta escolha – de uma obra-prima da língua portuguesa de sempre.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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O SORTILÉGIO DE «OS MAIAS»

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 23

 

Celebramos este ano os 130 anos da publicação de “Os Maias”. Ouve-se também algum alarido sobre a leitura dessa obra-prima pelos nossos estudantes do ensino obrigatório. Este ano mesmo, iremos ter iniciativas pedagógicas para chamar a atenção para a importância dos livros e da leitura – e para o exemplo extraordinário que são “Os Maias”.

 

Sou muito pragmático. Mais importante do que todos os debates, o fundamental é dizer – que deve ler-se mais e que se deve ensinar os nossos jovens a ler,  a ler obras, a ler bem e a sentir prazer com a leitura. Tenho muitas vezes feito campanha contra a praga dos resumos das grandes obras. Continuo a insistir nessa minha luta. Porquê? Porque devemos dar o exemplo sobre a virtudes da leitura. E não pode haver prazer no contacto com a boa escrita e o bom uso da língua, se não formos aos originais. Sou, por isso, um fortíssimo partidário da leitura de “Os Maias”, mas não do fingimento a propósito dessa obra mestra de Eça de Queiroz. Por vezes suspeito que se fala da leitura como se fosse um formalismo. Não é, não pode ser. Mas sou suspeitíssimo – porque não sou partidário de um só livro. Faço campanha por Garrett, por Júlio Dinis, por Camilo, por Eça, por Nemésio, por Miguéis, por Saramago, por Lobo Antunes. O meu clube é o da boa leitura, nada mais. Mas também, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Cecília Meireles… E andando para trás leio com inusitado prazer Sá de Miranda, Camões, Vieira, Bocage, Antero, Cesário, Pessanha, Pessoa, Sophia, O’Neill, Ruy Belo, Jorge de Sena… Já aqui disse que o meu padrinho na pia batismal foi o poeta Agostinho da Cruz – não esqueço a sua memória. Há anos Júlio Dinis ficou fora de moda. Puro engano! Não há modas na leitura. Há escrever bem ou escrever mal. Volto à “Morgadinha” com enorme prazer. Vou a S. Miguel de Seide com tanta devoção como vou a Tormes…

 

E volto a “Os Maias”. É um retrato fundamental do que somos ainda. Eis, pois, o meu conselho – nada deitemos para o cesto dos papéis de boa leitura. Não se dispense “Os Maias”. E não nos ponhamos a fazer comparações estultas. O mal está em não ler. Uma adorada professora de Português que tive pôs-nos a ler a “Ilíada”, a “Odisseia” e a “Eneida”. Todas as semanas havia um dia de leitura. Era um momento inesquecível – do mesmo modo que o era a chegada do “Cavaleiro Andante”, por causa dos continuados. Nesse tempo líamos Homero, contado às crianças e lembrado ao povo, com o mesmo prazer com que começámos a gostar de cinema ou com que esperávamos pela semana seguinte para saber o que tinha acontecido a Tintin… A leitura é isso – é a grande descoberta da vida, da arte, da natureza, da humanidade…

Luís Duran desenhou para os Correios uma magnífica série sobre “Os Maias” – lá estão Afonso da Maia, a representar a sociedade antiga e a tradição que não esquece, mas também Carlos Eduardo e João da Ega, a completarem-se para o bem e para o mal… Se quisermos conhecer bem Eça precisamos de ligar o tédio de Carlos e a loucura de Ega – a desaguarem em Carlos Fradique Mendes. O verdadeiro Carlos completa-se com Ega, daí a importância de Fradique, pedra angular da obra queiroziana… “Os Maias” é um romance sobre a imitação? Talvez seja. Mas a chave do romance está na atitude da geração de 1870 – crítica severa do que se passava numa sociedade periférica que aspirava a integrar-se no mundo civilizado. Imitação e emancipação ligavam-se – numa defesa séria da crítica, como arma contra o conformismo e contra o fatalismo do atraso. Maria Eduarda constitui o elemento picante da receita naturalista, a Condessa de Gouvarinho e Dâmaso Salcede – e as restantes personagens -  ilustram as circunstâncias da sociedade estratificada e heterogénea… E Eça de Queiroz descreve magnificamente os acontecimentos e os contextos… E é assim que a leitura se torna apaixonante!

 

Eis algumas linhas do romance:

«- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela província o patriotismo, com cantos e com odes!

Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:

- Isto é uma velha carcaça, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de galegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas coisas me põe o coração negro! E como vocês podem falar nisso, a rir, quando se trata do país, desta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de acordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, falemos de outra coisa, falemos de mulheres!

Dera um repelão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão patriótica...

E no silêncio que se fez Dâmaso, que desde as informações sobre a rapariga do Ermidinha emudecera, ocupado a observar Carlos com religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de finura:

- Se as coisas chegassem a esse ponto, se pusessem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris...

Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português! Raspar-se, pirar-se!...

Era assim que de alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de secretaria!...

- Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fronteira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada única na história!

Houve uma indignação, Alencar gritou:

- Abaixo o traidor!

Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente, à maneira dos turcos - sem disciplina, mas teso. O próprio Carlos disse, muito sério:

- Não senhor... Ninguém há de fugir, e há de se morrer bem.

Ega rugiu. Para quem estavam eles fazendo essa pose heroica? Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o musculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais covarde raça da Europa?...

- Isso são os lisboetas, disse Craft.

- Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...

A mais miserável raça da Europa! continuava ele a berrar. E que exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no hospital! Com seus olhos tinha ele visto, no dia da abertura das Cortes, um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; as praças tinham literalmente largado a fugir, com a patrona a bater-lhe os rins; e o oficial, enfiado de terror, meteu-se para uma escada, a vomitar!...

Todos protestaram. Não, não era possível... Mas se ele tinha visto, que diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos falazes da fantasia...

- Juro pela saúde da mamã! gritou Ega furioso.

Mas emudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ia falar.

O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os espanhóis porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo - sobretudo se viessem, como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lho dissera. Já havia mesmo negócios de fornecimentos entabulados...

- Espanholadas, galegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e torcendo os bigodes.

- No Hotel de Paris, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, quando cá estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que há muitos espanhóis que estão à espera deste aumento de território para se empregarem!

Então Ega caiu em êxtase, apertou as mãos contra o peito. Oh que delicioso traço! Oh que admiravelmente observado!

- Este Cohen! exclamava ele para os lados. Que finamente observado! Que traço adorável! Hein, Craft?

Hein, Carlos? Delicioso!

Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com o olho enternecido, passando pelas suíças a mão onde reluzia um diamante. E nesse momento os criados serviam um prato de ervilhas num molho branco, murmurando:

- Petits pois a la Cohen.

A la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais atentamente. E lá estava, era o legume: petit pois a la Cohen! Dâmaso, entusiasmado, declarou isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a primeira saúde ao Cohen!

Esquecera-se a bancarrota, a invasão, a pátria - o jantar terminava alegremente. Outras saúdes cruzaram-se, ardentes e loquazes: o próprio Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de criança, bebeu à Revolução e à Anarquia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremesa alastrava-se, destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a bocados de ananás mastigado. Dâmaso, todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha inglesa, e daquele fáeton que era a coisa mais linda que passeava Lisboa. E logo depois do seu brinde de demagogo, sem razão, Ega arremetera contra Craft, injuriando a Inglaterra, querendo exclui-la de entre as nações pensantes, ameaçando-a de uma revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com acenos de cabeça, imperturbável, partindo nozes.

Os criados serviram o café. E como havia já três longas horas que estavam à mesa, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na animação viva que dera o Champagne. A sala, de teto baixo, com os cinco bicos de gás ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores por entre a névoa alvadia do fumo.

Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e aí recomeçou logo, naquela comunidade de gostos que os começava a ligar, a conversa da rua do Alecrim sobre a bela coleção dos Olivais. Craft dava detalhes; a coisa rica e rara que tinha era um armário holandês do século XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas...

(…)

E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gás dormente luzindo em fila de enterro, Alencar foi falando desses «grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, através das suas frases de lírico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado desse mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou rebentando pilecas de seges em galopadas para Sintra. Sintra era então um ninho de amores, e sob as suas românticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braços dos poetas. Elas eram Elviras, eles eram Anthonys. O dinheiro abundava; a corte era alegre; a Regeneração literata e galante ia engrandecer o país, belo jardim da Europa; os bacharéis chegavam de Coimbra, frementes de eloquência; os ministros da coroa recitavam ao piano; o mesmo sopro lírico inchava as odes e os projetos de lei...

- Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.

- Era outra coisa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares científicos, toda essa palhada filosófica, esses badamecos positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faísca! Mesmo nessas coisas da política... Vê esse chiqueiro agora aí, essa malta de bandalhos... Nesse tempo ia-se ali à câmara e sentia-se a inspiração, sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia muitíssimo boas mulheres.

Os ombros descaíam-lhe na saudade desse mundo perdido. E parecia mais lúgubre, com a sua grenha de inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do chapéu velho, a sobrecasaca coçada e mal feita colando-se-lhe lamentavelmente ás ilhargas.

Um momento caminharam em silêncio. Depois, na rua das Janelas Verdes, o Alencar quis refrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha

amarela dum candeeiro de petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. Alencar parecia íntimo no estabelecimento: apenas soube que a Sr.ª Cândida estava com dor de dentes, aconselhou logo remédios, familiar, descido das nuvens românticas, com os cotovelos sobre o balcão. E quando Carlos quis pagar a cana branca zangou-se, bateu a sua placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou com nobreza:

- Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palácios os outros pagarão... Cá na taberna pago eu!

(…)

Tirou o chapéu, refrescou a fronte vasta. Depois noutro tom, e como a custo:

- Aquele Ega tem muito talento... Vai lá muito aos Cohens... A Rachel acha-lhe graça...

Carlos parara, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar à severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.

- Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou andando por aqui para a minha toca. E quando quiseres, filho, lá me tens na

rua do Carvalho, 52, 3.º andar. O prédio é meu, mas eu ocupo o terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A única coisa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de andares...

Teve um gesto, como desdenhando essas misérias.

- E hás de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas hás de ter uma sopa e um assado... O meu Mateus, um preto, (um amigo!) que

me serve há muito ano, quando há que cozinhar, sabe cozinhar! Fez muito jantar a teu pai, ao meu pobre Pedro... Que aquilo foi casa de alegria, meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita dessa canalha que hoje por aí trota em coupé da companhia e de correio atrás... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...

- Isso são imaginações, disse Carlos com amizade.

- Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não são. Tu não sabes a minha vida. Tenho sofrido muito repelão, rapaz. E não o merecia! Palavra, que o não merecia...

Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:

- Olha que esses homens que por aí figuram embebedavam-se comigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois ofereceram-te eles um bocado do bolo agora que o têm na mão? Não. Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma embaixada... Mas aí alguma coisa numa secretaria... Nem um chavelho! Enfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabelos brancos... Pois não te quero maçar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!

- Tu não queres subir um bocado, Alencar?

Tanta franqueza enterneceu o poeta.

- Obrigado, rapaz, disse ele, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, porque sei que vem do coração... Todos vocês têm coração... Já teu pai o tinha, e largo, e grande como o dum leão! E agora crê uma coisa: é que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?

Carlos aceitou logo, como um presente do céu.

- Então aí tens um charuto, filho! exclamou Alencar com entusiasmo.

E aquele charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete, fazia-o por um momento voltar aos tempos em que nesse Marrare ele estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste. Interessou-se então pelo charuto. Acendeu ele mesmo um fósforo. Verificou se ficava bem aceso. E que tal, charuto razoável? Carlos achava um excelente charuto!

- Pois ainda bem que te dei um bom charuto!

Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando ele enfim se afastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.

Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o péssimo charuto do Alencar estirado numa chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma chávena de chá, ficou pensando nesse estranho passado que lhe evocara o velho lírico...

E era simpático o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então, ele evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fora, estivera para lhe dizer: - podes falar da mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ela fugiu com um italiano!

E isto fê-lo insensivelmente recordar da maneira como essa lamentável história lhe fora revelada, em Coimbra, numa noite de troça, quase grotescamente. Por que o avô, obedecendo à carta testamentária de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separação cortês, depois a retirada da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pai fora-lhe apresentada sempre como o brusco remate duma longa nevrose...

Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceado ambos; Ega muito bêbedo, e num acesso de idealismo, lançara-se num paradoxo tremendo, condenando a honestidade das mulheres como origem da decadência das raças: e dava por prova os bastardos, sempre inteligentes, bravos, gloriosos! Ele, Ega, teria orgulho se sua mãe, sua própria mãe, em lugar de ser a santa burguesa que rezava o terço à lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor dum exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não pôde interrogar o Ega, que já taramelava, agoniado, e que não tardou a vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar à casa das Seixas, despi-lo, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando - «que queria ser bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»

E ele mal pudera dormir essa noite, com a ideia daquela mãe, tão outra do que lhe haviam contado, fugindo nos braços dum desterrado - um polaco talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua grande amizade, a verdade toda...

Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado na cabeça com panos de água sedativa: e não achava uma palavra, coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranquilizou-o. Não vinha ali ofendido, vinha ali curioso! Tinham-lhe ocultado um episódio extraordinário da sua gente, que diabo, queria sabe-lo! Havia romance? Para ali o romance!

Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua história - a que ouvira ao tio Ega - a paixão de Maria por um príncipe, a fuga, o longo silêncio de anos que se fizera sobre ela...

Justamente as ferias chegavam. Apenas em Sta. Olávia, Carlos contou ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquela revelação vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem pôde falar - e a voz por fim veio-lhe tão débil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance todo até àquela tarde em que Pedro lhe aparecera, lívido, coberto de lama, a cair-lhe nos braços, chorando a sua dor com a fraqueza duma criança. - E o desfecho desse amor culpado, acrescentara o avô, fora a morte da mãe em Viena da Áustria, e a morte da pequenita, da neta que ele nunca vira, e que a Monforte levara... E eis aí tudo. E assim, aquela vergonha domestica estava agora enterrada, ali, no jazigo de Sta. Olávia, e em duas sepulturas distantes, em país estrangeiro...

Carlos recordava-se bem que nessa tarde, depois da melancólica conversa com o avô, devia ele experimentar uma égua inglesa: e ao jantar não se falou senão da égua que se chamava Sultana. E a verdade era que daí a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possível sentir por esta tragédia senão um interesse vago e como literário. Isso passara-se havia vinte e tantos anos, numa sociedade quase desaparecida. Era como o episódio histórico de uma velha crónica de família, um antepassado morto em Alcácer-Quibir, ou uma das suas avós dormindo num leito real. Aquilo não lhe dera uma lágrima, não lhe pusera um rubor na face. De certo, preferiria poder orgulhar-se de sua mãe, como duma rara e nobre flor de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se com os seus erros. E porque? A sua honra dele não dependia dos impulsos falsos ou torpes que tivera o coração dela. Pecara, morrera, acabou-se. Restava, sim, aquela ideia do pai, findando numa poça de sangue, no desespero dessa traição. Mas não conhecera seu pai: tudo o que possuía dele e da sua memória, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarelas e um chicote na mão... De sua mãe não ficara nem um daguerreótipo, nem sequer um contorno a lápis. O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, mãe, eram para ele como símbolos dum culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam ali todos - no avô.

Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; - e ele continuava na chaise-longue, como amolecido nestas recordações, e cedendo já, num meio adormecimento, à fadiga do longo jantar... » (Capítulo VI).

 

Há melhor do que a leitura?

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXVI - REALISMO (I)

 

O realismo é uma tendência artística que procura reproduzir, de forma real e direta, as manifestações da natureza, buscando a realidade autêntica, tal e qual é e se apresenta, despido de artifícios e correções, em contraposição a tendências idealistas e estilizadoras.   

 

Pela sua influência, merece menção o realismo francês do século XIX, num tempo de convulsões político-sociais, marcado pelas teorias de Proudhon, positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin e Lamarck, o idealismo de Hegel, em conjugação com o irreligiosismo de Loisy e Renan, o inconformismo com a tradição, a supremacia da verdade física, um materialismo otimista e um racionalismo criticista apologista da derrocada do trono e do altar.

 

Sendo uma reação contra o romantismo, defende reger-se pela objetividade, realidade e verdade, em que a natureza deve ser reproduzida com neutralidade e veracidade, num retrato fiel, não ocultando o feio, o mal, o vício, todos os aspetos baixos da vida, não lançando mão de estereótipos arredados do mundo real, em oposição ao subjetivismo pensante do idealismo, imaginação e sentimentalismo romântico.

 

Contra a apoteose do sentimento do romantismo, pretende transmitir a natureza em quadros exatos, flagrantes, reais, expurgando a retórica tida por convencional, enfática e piegas, retratando e pintando a realidade negra, maléfica e satanista da sociedade tal qual é, limitando-se a colocar o leitor e o observador diante das paisagens, dos protagonistas e suas condutas.

 

Entre os seus pioneiros, a nível da literatura, temos Balzac, Gustave Flaubert e Zola, cujos romances se liam avidamente, influenciando decisivamente, entre nós, Eça de Queirós, nas suas obras O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias e a Relíquia. Não esquecendo Baudelaire em Les Fleurs du Mal.

 

Estas novas ideias entraram em Portugal pelo caminho de ferro, que encurtou a distância entre Coimbra e Paris, deixando o comboio inúmeros caixotes de livros na Lusa Atenas, onde chegavam mais rápido que a Lisboa, opondo a mocidade estudantil e universitária ao grupo da capital, onde era mentor Castilho e os seus discípulos, cujo conflito ficou conhecido pelo nome de “Questão Coimbrã”, a que se seguiriam, mais tarde, em Lisboa, “As Conferências do Casino”. A Terceira Conferência, subordinada ao tema “O Realismo como nova expressão da arte”, foi feita por Eça de Queirós, defendendo que a arte deve ter por fim corrigir e ensinar (fim teleológico), censurando a arte pela arte, e que só o realismo criaria uma arte capaz de revolucionar a sociedade.

 

Após estes impulsos, o movimento realista começou a concretizar-se com “As Farpas”, uma crónica mensal das letras, costumes e política, num duunvirato Eça-Ramalho Ortigão, em estilo humorístico e trocista. 

 

Seria Eça a impor-se, entre nós, o que ainda hoje sucede, com os seus propósitos de crítica social, ironia, caricatura, sarcasmos, tom zombeteiro e cosmopolitismo, em que O Primo Basílio e Os Maias são tidos como os seus romances realistas mais conseguidos.   

 

A atenção aos temas de carater social, ao mundo laboral e à realidade humana marcaram artistas como Courbet, dedicado à pintura de género e figurativa, de observação exata e um expressivo forte realismo através da densidade das figuras, causando escândalos com Os Britadores de Pedra (1850), o Enterro em Ornans (1850) e A Origem do Mundo (1866). Amigo de Proudhon, lutou por ideias revolucionárias, aderiu à Comuna de Paris (1871), o que lhe valeu a prisão.

 

Também na pintura realista de Millet perpassa o desejo de captar os traços essenciais de cenas ou personagens, sem perdas nos pormenores, analisando o mundo camponês em  O Joeireiro (1848), As Respigadoras (1857) e O Angelus (1859), onde realça figuras monumentais com grande rigor plástico.

 

Assiste-se também a uma espécie de fuga do mundo urbano e ao compromisso político que lhe estava associado, por parte de um grupo de artistas que se reúnem em Barbizon, na floresta de Fontainebleau, em França, cujo representante mais ilustre dessa escola  foi Théodore Rousseau, o primeiro a deixar a cidade e a fixar-se no campo, seguido por J. F. Millet, Troyon, Daubigny, Diaz la Pena, entre outros, teorizando uma pintura de paisagem ao ar livre, de ar-livrismo, procurando o contacto com a natureza, analisando e observando as suas manifestações e os seus segredos.

 

Com eles nasceu uma nova sensibilidade norteada por uma procura ou estética naturalista, tida como afim do realismo, que teve forte impacto em Portugal. 

 

03.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

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De 7 a 13 de dezembro de 2015

 

Acaba de ser publicada a nova edição do «Dicionário de Eça de Queiroz», com organização e coordenação de A. Campos Matos (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2015). Com 1123 verbetes e cerca de cem colaboradores, a nova edição constitui um instrumento fundamental para o conhecimento da vida e obra do genial autor de «Os Maias». No último fim-de-semana, o CNC organizou, aliás, no Centro Cultural de Belém o dia de Eça de Queiroz, que foi um grande sucesso de público, com grande qualidade nas intervenções.

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A ATUALIDADE DA OBRA DE EÇA

É recorrente o debate sobre a atualidade da obra de Eça de Queiroz. No panorama da literatura portuguesa estamos perante um caso singular de longevidade, bem como de popularidade, ainda que se verifique uma presença maior de algumas obras como «Os Maias», «A Cidade e as Serras», «O Mandarim», ou «A Ilustre Casa de Ramires» e a «Correspondência de Fradique Mendes»… Mais do que permanência de situações, do que se trata é de uma capacidade assinalável por parte do autor, que lhe permite compreender o género humano. Apesar das profundas transformações que sofreu, a sociedade portuguesa, no último século, apresenta óbvias continuidades, que o sentido irónico de Eça fixa com especial talento, a ponto de sensibilizar e motivar os leitores de hoje para os elementos que se mantém – desde o centralismo e da burocratização, até ao formalismo e à pequenez de ambientes e procedimentos. Está, aliás, dito e demonstrado que «Os Maias» e o «Portugal Contemporâneo» de Oliveira Martins constituem dois documentos complementares fundamentais para se compreender a sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. E não devemos esquecer que Miguel de Unamuno considerou ter a geração de Eça e Antero sido responsável em grande parte pelo que considerou ser o século de ouro da cultura portuguesa. Relativamente à Geração de 1870 temos de lembrar um percurso trilhado pela sociedade portuguesa, no qual devemos referir cinco momentos cruciais: (a) a polémica sobre o Bom Senso e Bom Gosto de 1865 – contra a escola do elogio mútuo, de que foi símbolo António Feliciano de Castilho; (b) a ação em Lisboa do grupo, que se singularizara em Coimbra, no sentido republicano socializante; (c) a organização das Conferência Democráticas do Casino Lisbonense, cujos primeiros oradores foram: Antero de Quental e Eça de Queiroz; (d) a proibição da realização da conferência de Salomão Saragga; (e) a reação negativa da opinião pública informada, a começar por Alexandre Herculano, contra a arbitrária proibição, que vem contra a tendência de liberdade e de abertura da Monarquia liberal. Voltando, de facto, à ideia do século de ouro, temos de dizer que foram as liberdades públicas em Portugal responsável pela extraordinária sementeira de ideias que foi possível realizar.

 

ADMIRAÇÃO POR ALEXANDRE HERCULANO

Saliente-se ainda que o apoio de Alexandre Herculano contra o fecho das Conferências se deve ligar a uma relação de profunda admiração do grupo de jovens capitaneado por Antero pelo autor da «História de Portugal». O diálogo estabelecido com o velho mestre traduziu-se, no entanto, na demarcação de Herculano relativamente às ideias igualitárias e ao primado do social defendido. Para ele a liberdade individual deveria estar em primeiro lugar. Neste ponto, um democrata para Herculano era um defensor da lógica socializante, em que ele não acreditava – assumindo a fórmula: sou liberal, mas não democrata. Isso, no entanto, em nada impediu o velho mestre de subscrever o protesto contra a limitação da liberdade de reunião, de expressão e de consciência, uma vez que na decisão de Ávila e Bolama estava a elementar violação de um direito individual, insuscetível de deixar de ser cumprido. Voltando à Geração que ficou conhecida como de 1870, devemos dizer que o «Dicionário de Eça de Queiroz» nos dá o panorama geral da época e dos seus elementos mais significativos. Podemos, assim, beneficiar de um manancial de informação, com uma assinalável regularidade no tocante à qualidade e ao rigor historiográfico que, centrado na figura do maior romancista do seu tempo, nos permite um conhecimento muito mais vasto da época e dos contemporâneos. Se nos lembrarmos da caricatura de João Abel Manta, que apresenta Eça de Queiroz com um conjunto de fantoches representando as personagens fundamentais da sua obra romanesca, facilmente percebemos a grande riqueza das figuras, que representam uma comédia humana de grande riqueza e diversidade: nas mãos do romancista estão Amélia e o Padre Amaro e pendurados estão: Teodoro, o amanuense de «O Mandarim»; Jacinto de «A Cidade e as Serras» (lembrando ainda Zé Fernandes); o Conde de Abranhos; Dâmaso Salcede; João da Ega; Maria Eduarda; Carlos da Maia com seu avô Afonso (símbolo indelével do Portugal antigo); Luísa e o Primo Basílio (recordando Jorge); a perversa Juliana; o impagável e oco Conselheiro Acácio; Gonçalo Mendes Ramires (e os seus mistérios ligados ao último Eça e à vocação de Portugal no tempo do infamante Ultimatum), a tia Patrocínio de «A Relíquia» e o inefável Teodorico Raposo (sem fazer esquecer o dr. Topsius)…

 

OBRA REVELADA NAS EDIÇÕES CRÍTICAS

Só esta larga procissão de figuras dá bem a ideia da riqueza de uma obra que, durante muito tempo, foi amada e serviu de mote e glosa para muitas considerações sobre o Portugal e os portugueses. Sendo certo que em vida o escritor publicou apenas uma parte da sua rica obra romanesca, a verdade é que hoje com a edição crítica, podemos conhecer o que saiu das mãos ainda do artífice da escrita e o que foi objeto de alterações, reformulações e reinterpretações… Lembremo-nos do caso de «A Capital!», que foi dado à estampa postumamente com um título incorreto… Para não falar da intervenção pouco feliz (é o mínimo que pode dizer-se) de Ramalho Ortigão em «A Cidade e as Serras»… De qualquer modo, importa insistir no facto deste Dicionário de Eça dar-nos um bom panorama da obra e da época, permitindo-nos dizer que faz-se tantas vezes luz sobre a interação entre o autor e a sua riquíssima geração. E se nos lembrarmos da célebre fotografia tirada no velho Palácio de Cristal no Porto, com os cinco magníficos (a propósito da compra de um leque com cães para oferecer à noiva de José Maria – facilmente nos apercebemos que há como que uma hierarquia, que coloca no centro Antero de Quental, indiscutivelmente a figura tutelar e carismática da Geração. E a verdade é que, pelo motivo já referido, que levou Unamuno a falar de idade de ouro, devemos ainda referir a ironia trágica que leva a geração a passar à história como dos «Vencidos da Vida». Vencidos, mas vencedores – disseram alguns comentadores mais argutos, a quem o tempo veio a dar razão. De facto a expressão nasceu de uma conversa irónica entre Ramalho e Oliveira Martins sobre uns «Battus de la Vie» em França. Batidos significaria que tinham sido alvo de ataques de todo o tipo – desde que tinham promovido em meados dos anos oitenta um movimento de regeneração da Regeneração, a «Vida Nova»… O grupo jantante do Tavares e do Hotel Braganza (cuja crónica conhecemos em pormenor, graças à leitura do «Tempo», órgão de imprensa de Carlos Lobo de Ávila – hoje em linha na internet) acreditou que seria possível contrariar o fatalismo da decadência, através de medidas fundas e corajosas… Quando nos apercebemos de quem eram os onze «Vencidos, mas Vencedores», verificamos que a sua existência pressupunha o apoio do Rei D. Carlos, que não tinha condições para o efeito… A Ficalho, Sabugosa, Soveral e Arnoso, juntavam-se a Carlos de Lima Mayer, Lobo d’Ávila, Junqueiro, Ramalho, António Cândido e Oliveira Martins. De novo vinha à ideia a necessidade de encontrar soluções duráveis e patrióticas… Eça assume neste tempo uma atitude crítica, ciente de que havia evidente incapacidade para responder aos desafios – este o sentido da atitude de uma Geração que deixou a lição da não resignação…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

ATORES, ENCENADORES (XXXIX)

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NOTA BREVE SOBRE TEATROS UNIVERSITÁRIOS

Nesta série de evocações e análises do espetáculo teatral, é justo fazer uma referência, mesmo que breve, às iniciativas ligadas às Universidades. O movimento não é apenas dos nossos dias, muito embora se registe um desenvolvimento do interesse e sobretudo da estruturação de grupos universitários com continuidade, subordinados a uma  estética e a uma doutrina, chamemos-lhe assim, que se foi afirmando sobretudo a partir dos anos 30/40 do seculo passado, e teve momentos de grande projeção em épocas mais recentes, como veremos a seguir.

Num texto integrado nesta série de artigos (Atores, Encenadores - XXIII - “Três Mestres da Literatura Portuguesa que Foram Atores” - 12.05.15) referi o interesse de Eça de Queiroz pelo teatro, expresso designadamente em numerosos personagens e situações da obra romanesca, o que aliás contribuiu para as adaptações e versões dos romances à cena e ao cinema. E evoquei a própria experiência de Eça como ator enquanto cursava Direito:

“Comecei por me fazer ator do Teatro Académico. Era pai nobre. E durante três anos, como pai nobre, ora grave, opulento, de suíças grisalhas, ora aldeão trémulo, apoiado no meu cajado, eu representei, entre as palmas ardentes dos Académicos, toda a sorte de comédias e dramas - tudo traduzido do francês…” (in “Últimas Páginas – O Francesismo”) . Aliás, em “As Farpas” são recorrentes as referências a espetáculos e a peças da época. (cfr. a minha “História do Teatro Português ”designadamente  págs. 180 -181 e 322). E Lucciana Stegagno Pichcio refere peças francesas traduzidas por Eça e “um esboço de drama sobre o tema de ”Os Maias” (in “História do Teatro Português págs. 284, 409, 410).

Em qualquer caso, a única tradução que nos chegou foi da peça “Philidor” de Joseph Bauchardy (1810-1870) - e sobre ela, escrevi outro local: “esta peça recomenda-se apenas por duas sólidas razões – a tradução impecável e literariamente importante e o curiosíssimo encadeado de cenas de teatro-no-teatro com a consequente reconstituição do meio teatral da época” (in “Repertório Básico de Peças de Teatro” pág. 158; cfr. também “Vivência Teatral em Eça de Queiroz” de António Manuel Couto Viana no “Dicionário de Eça de Queiroz” dir. A. Campos Matos págs. 946 e segs).

Ora bem: a tradição do teatro na Universidade, que Eça recorda e documenta, manteve-se e alargou-se à Universidade de Lisboa às restantes Universidades que se foram criando. E é justo referir a ação de Paulo Quintela no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, a partir de 1938, com destaque para a encenação de dramaturgos clássicos portugueses, designadamente Gil Vicente mas não só, – e isto, num envolvimento cultural adequado ao meio universitário, aos respetivos atores e espetadores.

Na sequência deste movimento, foram surgindo, nos meios universitários, iniciativas de qualidade e continuidade ligadas ao teatro. Nelas se formaram ou nelas colaboraram ao longo das gerações de estudantes e docentes, nomes que se afirmariam no meio teatral ou em estudos de literatura dramática. Luís Francisco Rebello, na “Breve História do Teatro Português”, cita designadamente o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra a partir de 1956, com um repertório que cobre desde Molière, Calderon de La Barca, até  Adamov e  Bertold Brecht. E podemos também referir os grupos teatrais das Universidades do Porto e das Faculdades de Letras e de Direito de Coimbra e de Lisboa.

DUARTE IVO CRUZ