Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Na passagem dos 180 anos do nascimento de Eça de Queiroz realizaram-se em colaboração do Círculo Eça de Queiroz, do Grémio Literário e do Centro Nacional de Cultura diversas iniciativas, entre as quais um roteiro do Chiado queirosiano, conduzido por Guilherme d’Oliveira Martins no sábado 22 de novembro.
Quando relemos “Os Maias”, lembramo-nos do longo tempo de feitura e de revisão que o autor dedicou a tal obra, o que permite que aí encontremos um conjunto complexo e heterogéneo de elementos, que nos levam a compreender a sociedade do tempo, o património cultural material e imaterial, a cidade, a natureza e a paisagem, e a capacidade criadora ditada pela contemporaneidade. Alguém disse “está lá tudo”… Não sei se está, mas a verdade é que há aí muito do que permite compreender criticamente a nossa realidade. Fizemos um longo percurso, o apuramento do sentido crítico que Eça e a sua geração nos ensinaram teve os seus resultados, mas há muito para fazer. Daí a importância de podermos lidar com a oficina do escritor, percebendo que à mediocridade devemos saber contrapor o não deixar ao abandono o que recebemos e a aprendizagem exigente da informação que tem de se tornar conhecimento e do conhecimento que deve ser sabedoria…
Na célebre carta a Ramalho Ortigão de 20 de fevereiro de 1881, a propósito de uma hipótese confusa de publicação em folhetins de Os Maias no “Diário de Portugal”, por Lourenço Malheiro, Eça fica na esperança de poder obter uma boa retribuição monetária pelo romance. Oiçamos o escritor: “e como via nessa proposta uma pequena fortuna (o Malheiro afiançava-mo) decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco. A ocasião confesso era sublime para jogar uma enorme cartada”… O episódio revela, porém, desencontros e incompetências, atrasos tipográficos e outras incapacidades. Mas só em 1888 essa obra, considerada quase pronta sete anos antes, viu finalmente a luz do dia. O que importa dizer é que o romancista fez indiscutivelmente uma grande aposta – e é esse o resultado de que todos somos beneficiários, ao ler uma ampla representação da sociedade do momento. Em 12 de junho de 1888, em carta a Oliveira Martins, dirá: “Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa”. Os Maias são um retrato do Portugal citadino do final do século XIX. Há um rico percurso que abrange desde um tempo de confronto entre a tradição e os ventos novos, representado pelo avô Afonso da Maia, que nos liga à sociedade antiga, até chegar aos efeitos da acalmação e do progresso concretizado pela Regeneração. Dir-se-á, porém, que confluem a imitação das sociedades avançadas da Europa e a ausência de meios suficientes para assegurar que os melhoramentos de Fontes Pereira de Melo tornassem o país próspero e superasse o atraso. A sombra do défice e da dívida pública abatem-se sobre o país (como se vê no jantar do Hotel Central) – e os ingredientes do romance trazem-nos, ao lado de uma trágica trama amorosa entre dois irmãos, que se desconhecem, o confronto entre o tédio vivido por Carlos da Maia e o pensamento de João da Ega, ditado pelas influências de um fim de século pessimista e contraditório. Há mudanças profundas que se reclamam, há intenções. Mas o pano de fundo revela futilidade, descrença, ilusão e mediocridade.
Indiscutivelmente, Os Maias é um romance fiel ao ambiente que se vivia quando foi publicado e escrito, o que faz crer a muitos que continuamos a persistir nessa sociedade retratada há tantos anos, numa obra longamente escrita e pensada… As diferenças na sociedade são profundas, mas há reminiscências que perduram. A escrita é cortante, clara, incisiva e tem de ser reconhecida na sua imensa riqueza. Os Maias assumem um lugar central no nosso panorama literário, pelo carácter, pela diversidade das personagens, pela força da escrita e pelo sentido crítico. Representam uma das marcas deixadas pela Geração de 1870 – graças a uma voz severa, mas não a um negativismo sem horizonte. Devemos lembrar o que Eduardo Lourenço disse em O Labirinto da Saudade: “Não é suscetível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol”. E sobre a crítica de Fialho de Almeida, o próprio Eça dirá em sua defesa: “condenar um escritor, como caluniador e maldizente, porque ele revela os ridículos do seu país – é declarar maldizente toda a literatura de todos os tempos, que toda ela tem tido por fim fazer a crítica dos costumes, pelo drama, a poesia, o romance e até o sermão!” (a Mariano Pina, 27.7.88). Talvez A Ilustre Casa de Ramires seja mais problematizante, mas também mais enigmático. Estamos, assim, diante de uma panóplia inesquecível, que deve ser recordada por quem queira conhecer a literatura portuguesa. Lembremos Maria Eduarda, fantasma marcante no romance, a condessa de Gouvarinho, Jacob Cohen, Dâmaso Salcede, Tomás Alencar, Palma Cavalão… E não se esquece, no Primo Basílio do célebre diálogo na entrada da Basílica dos Mártires entre Luísa e o Conselheiro Acácio. A diversidade romanesca esconde, no entanto, uma uniformidade desgostante da sociedade que decai. Mas é de literatura como realidade viva e atual que cuidamos, eis a razão desta escolha – de uma obra-prima da língua portuguesa de sempre. E na rampa de Santos, Carlos e João da Ega dão ainda uma corrida atrás do Americano – “Ainda o apanhamos!”.
Temos na memória a afirmação de Camilo Castelo Branco: “Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia sempre”. Foi ele o primeiro dos nossos profissionais da escrita, deixando-nos milhares de páginas inolvidáveis de pura literatura escritas na universal língua portuguesa. Ele próprio protagonista de uma vida cheia e atribulada, soube tornar o Portugal profundo, pleno de contradições e dúvidas, o principal protagonista da sua obra. Eis por que é difícil registá-lo numa escola ou numa tendência. Não por acaso, encontrando-o na Cadeia da Relação do Porto, onde cumpria uma estranha pena, o rei D. Pedro V, de que Ruben A. disse ser o primeiro homem moderno que houve em Portugal, deixou clara a admiração pelo homem de cultura, desejando vê-lo depressa libertado. Falo de Camilo pela admiração que lhe tenho, mas também pelo facto de não me ter deixado arregimentar em agremiações de devotos. É um romancista maior, a que regressamos sempre com muito gosto e proveito. E o seu vocabulário é algo de extraordinário, o que levou Castilho a dizer: “Que colheita que tenho feito para o Dicionário português nestes seus últimos livros! Se se perdessem todos os nossos clássicos ficando só as obras de V. Exª a vernaculidade nada tinha perdido”. Não há maior elogio, porque Camilo foi, além de grande escritor, um grande leitor, um grande erudito, alguém que soube ouvir como se falava o português vulgar nas paragens mais recônditas.
Preocupado como estou com os sinais de que me apercebo sobre o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares, regozijo-me sempre que releio a prosa camiliana. Mas sem mais delongas, em nome da riqueza da língua e da recusa do uso afetado da mesma, importa deixar claro que Eça de Queirós merece também especial reconhecimento no panorama da nossa língua. Não esqueço as palavras do meu saudoso amigo Antonio Candido a recordar o lugar de honra de Eça na biblioteca de seu pai. Ao lado da riqueza vernacular de Camilo, temos a versatilidade na definição das personagens, que ainda hoje podemos encontrar a cada passo. Ainda que o país seja bem diferente no último século, a verdade é que o confronto entre Camilo e Eça permite-nos concordar com Unamuno quando qualificou como período de ouro o século XIX e a Geração de 1870. Neste tempo em que devemos cerrar fileiras na defesa da leitura e da língua, é fundamental cuidar de lembrar os melhores cultores da melhor escrita. E referindo-nos a algo vivo, não esqueçamos uma plêiade universal onde encontramos Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Pepetela, Nelida Piñon ou Mia Couto… E vem à baila ainda o falso confronto entre Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes, porque sempre devemos recusar as escolhas fechadas. Será possível resumir a cultura a simplificações grotescas? Não é! Uma língua e uma literatura correspondem a modos diversos de assumir a vida e um património múltiplo. De facto, Camilo e Eça foram os leitores mais atentos da sociedade em que viveram. Do mesmo modo, Pessoa e Pascoaes foram os intérpretes essenciais do mundo que era o seu. No fundo, sem estes confrontos eternos o mundo seria mais pobre. Não é avisado olhar o mundo pelo mesmo prisma, esquecendo a magia do caleidoscópio.
Na varanda de casa de seus pais no Rossio, aquando do desfile de celebração da descoberta do caminho marítimo para a Índia (maio de 1898), José Maria Eça de Queiroz foi surpreendido por uma sentida ovação dos populares presentes na circunstância. Lembrei-me desse episódio quando assisti à cerimónia de concessão de honras de Panteão Nacional em memória do grande romancista da língua portuguesa, cuja importância ultrapassa em muito a nossa dimensão geográfica. Na manifestação espontânea de outrora, que muito sensibilizou o escritor, está simbolizada a justiça da homenagem de agora. Estavam então e agora representados cidadãos comuns, leitores, admiradores e amantes da língua comum, e nesse sentido o Panteão constitui um lugar de culto cívico que sai mais prestigiado pela chegada de um dos nossos imortais.
Citou o Presidente da República um trecho da carta datada de Paris em 28 de janeiro de 1890, dirigida a Oliveira Martins, que constitui um testemunho simbólico, onde sentimos ainda como Eça de Queiroz não seria indiferente a este reconhecimento. Daí a ligação das duas ocasiões – a do aplauso popular e a da confissão do mestre. A propósito de umas eventuais intrigas sobre o consulado de Paris, com epicentro no famigerado visconde de Faria, Eça pedia ao seu amigo que cuidasse de garantir a continuidade no consulado da cidade-luz, porém acrescentava: “Isto não quer dizer que eu não tenha desejo de recolher à minha Pátria; mas isso é difícil, por questões orçamentais, e a ficar na carreira, então desejo ficar em Paris. Se Vocês, todavia, homens poderosos, pudessem arranjar aí um nicho ao vosso amigo há tantos anos exilado, teríeis feito obra amiga e santa! Era necessário, porém, descobrir o nicho! E depois, arranjar do nosso bom amigo, o Rei, que eu fosse plantado no nicho! E dizer que, se eu, tivesse nascido dos Pirenéus para cá, e dado romances ao Petit Journal possuiria talvez 60.000 francos de renda”… Havia, no fundo, uma ligação íntima ao torrão natal e à nossa gente. E falando nas Notas Contemporâneas a propósito da demanda artificial de grandes homens que havia em França, Eça reconhecia que em qualquer escolha “a demonstração fica sujeita a dúvidas, a contestações, a protestos. Fica sobretudo incompreendida pela multidão”. Contudo, na distinção dos melhores, havia a exceção de Vítor Hugo, “pelo menos, é um grande homem – que não necessita demonstração”. E é disso que se trata no caso do nosso grande romancista.
Ele, melhor que ninguém, usou da ironia para distinguir o trigo do joio, e isso não se esquece quando se fala dos melhores, sabendo-se que a sociedade envolve todos, incluindo as respetivas caricaturas, os Acácios, os Pachecos e os Abranhos, dos quais não se conhecia obra, mas apenas inefável talento. O contexto da carta era o do Ultimato inglês, na sequência do Mapa Cor-de-Rosa, momento dramático da vida nacional, e a Eça parecia-lhe que o País acordava estremunhado e olhava em redor procurando um caminho. E Eça de Queiroz foi uma personalidade atenta, que, com espírito positivo, desejava que Portugal singrasse. A atualidade queiroziana está assim na sua obra, que importa ler e reler, e no retrato crítico e rigoroso da sociedade com os seus defeitos e qualidades que importa apurar, para sermos melhores.
Na semana em que ocorrerá a justíssima trasladação de Eça de Queiroz para o Panteão Nacional, recordamos a publicação da autoria de Alfredo Campos Matos de “Eça de Queiroz – Fotobiografia – Vida e Obra”, Caminho, 2007.
OPORTUNIDADE ÚNICA A leitura desta fotobiografia constitui oportunidade única para conhecermos melhor não só a vida e obra de José Maria Eça de Queiroz (1845-1900), mas também a história do seu tempo, uma vez que poucas personalidades culturais portuguesas tiveram uma influência tão grande sobre o país, no tempo da sua existência e no século que se lhe seguiu. Como aconteceu tal? Através da capacidade excecional de retratar Portugal e os portugueses com argúcia e ironia, estabelecendo uma relação próxima com as grandes referências intelectuais do seu tempo. Nas suas personagens está o retrato de um País que ainda não desapareceu… Lembremo-nos da fotografia tirada no velho Palácio de Cristal do Porto em 1885, onde se encontram as cinco maiores referências culturais de então – Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro. Depois de um encontro aparentemente fútil, em torno de um leque a oferecer à noiva de Eça, foi possível reunir lado a lado o suprassumo da elite desse tempo.
UM ROTEIRO NECESSÁRIO Definindo um percurso rigorosamente delineado, o autor permite-nos seguir a par e passo quem foi o grande romancista, permitindo-nos ter contacto com o meio em que nasceu e viveu, a família, a Universidade de Coimbra, os amigos, a atividade diplomática que desenvolveu e a atenção que prestou ao país e ao mundo. Não faremos aqui uma análise exaustiva desta obra indispensável, limitar-nos-emos a seguir um breve roteiro de Lisboa do escritor. Quando se faz um roteiro, escolhemos alguns pontos focais que nos permitem fazer a peregrinação. No caso de Eça de Queiroz, na cidade de Lisboa, o Jardim de S. Pedro de Alcântara, o Chiado e o Rossio são os polos naturais. E nessa varanda sobre a cidade, onde, os amigos vindos de Coimbra estabeleceram o que designaram como Cenáculo, Jaime Batalha Reis explica: “E como Antero e eu nos tivéssemos habituado a estar juntos dia e noite, pensando em voz alta, conversando , discutindo esquecidos muitas vezes, quase, de tudo que não fossem as ideias em conflito dos mil sistemas, fomos viver ambos para S. Pedro de Alcântara, em frente da Alameda, na sobreloja de uma casa que foi depois substituída por um palácio moderno, perto do convento alto”. E que era o Cenáculo? Um ponto de encontro com desígnios elevados da mudança do mundo. E lá se encontraram ainda Eça de Queiroz, Teófilo Braga, Oliveira Martins e José Fontana. E as ideias germinavam. Aí nasceram as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, ao mesmo tempo que em Paris, acabada a guerra franco-prussiana, tinham lugar os acontecimentos dramáticos da Comuna de Paris. Antero de Quental, Eça de Queiroz e Adolfo Coelho ainda puderam fazer as suas palestras, mas Salomão Saragga já não pôde, perante a proibição governamental. E a iniciativa que poderia ter passado discretamente, tornou-se um acontecimento, que continuou o grande debate sobre o Bom Senso e o Bom Gosto, de Coimbra, alargando-o, com o protesto veemente de Alexandre Herculano, não em nome de qualquer programa político, mas na defesa da liberdade de pensar e de falar. E se falamos das Conferências do Casino, não esquecemos a Revista Ocidental, onde começou a ser publicado o romance iconoclasta de Eça “O Crime do Padre Amaro”. E ao descermos a atual Rua da Misericórdia até ao Largo de Camões, seguindo a muralha fernandina, artéria que se chamou Rua Larga de S. Roque e Rua do Mundo, passamos à porta do Restaurante Tavares, onde Eça jantava com os seus amigos Vencidos da Vida, enquanto numa rua paralela no Largo da Abegoaria (hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro) se situava o Casino Lisbonense.
CHIADO LUGAR COSMOPOLITA O Chiado é o segundo ponto por nós escolhido. Aí podemos encontrar as principais personagens dos romances de Eça. Paremos na esquina da casa Havanesa, loja refinada de tabacos, ponto de encontro dos janotas da altura. Nesta esquina o senhor Guimarães encontrou João da Ega a quem revelou a chave do mistério de “Os Maias”, entregando os papeis que provavam que Carlos Eduardo era irmão de Maria Eduarda. Por cima da Havanesa havia o Hotel Aliança, cujas persianas eram constituídas, na velha tradição lisboeta, por tabuinhas verdes descidas nas janelas, como “pálpebras pesadas de langor e de sono”, como Eça dirá em “A Relíquia”. Aqui encontramos o Conselheiro Acácio, despedindo-se apressadamente de Luísa em “O Primo Basílio” à porta da Basílica dos Mártires. Aqui estão as grandes lojas, o Jerónimo Martins, que representou o célebre azeite de Herculano, a Livraria Bertrand, a mais antiga da Europa, o restaurante Marrare do Polimento, lugar de muitos compromissos. Um pouco adiante o Teatro de S. Carlos, onde Carlos foi apresentado à condessa de Gouvarinho e onde Artur de “A Capital!” ficou deslumbrado por aquilo que viu na grande sala da ópera. No Chiado temos na atual Rua Ivens, antiga Rua de S. Francisco, o Grémio Literário e ao lado a casa onde morou a Maria Eduarda. O Grémio, fundado por Garrett, é referido em “O Primo Basílio”, “A Capital!” e “Os Maias” e foi aí que Eça primeiro leu “Les Fleurs du Mal” de Baudelaire. Descemos a Rua Garrett, antiga Rua Larga de Santa Catarina e aprestamo-nos a chegar ao terceiro ponto por nós escolhido – o Rossio. É um dos cenários principais da ficção queiroziana. Aí está a casa de seus pais num quarto andar, onde o escritor morava quando vem à capital. A varanda oferece sobre a praça um panorama surpreendente, que nos dá a sensação de termos a cidade a nossos pés. Aqui passeiam o Padre Amaro, o Conselheiro Acácio, Luísa, o Raposão ou Gonçalo Mendes Ramires. O consultório médico de Carlos Eduardo da Maia tinha janelas para o Rossio, tal como o dentista de Luísa, o Dr. Vitry, personagem real. Para o Rossio dava também o escritório do Dr. Vaz Caminha, patrono do nosso conhecido Alípio Abranhos. Foi aqui que na passagem do cortejo comemorativo da chegada à Índia de Vasco da Gama que Eça foi reconhecido e teve uma inesperada ovação popular. E, voltando à varanda do quarto andar da casa dos pais de Eça, avistamos, a norte, o que foi a entrada do Passeio Público, sacrificado pela abertura da Avenida da Liberdade, onde hoje é a Praça dos Restauradores. O Passeio foi cenário obrigatório em “O Primo Basílio” - aí Jorge conheceu Luísa, Luísa encontrou-se com Basílio junto do tanque e D. Felicidade esperou pelo Conselheiro Acácio afrontada pelas flatulências… E há reminiscências do velho Passeio Público um pouco por toda a parte na cidade, como o coreto do Jardim da Estrela concebido para o antigo sonho pombalino à imagem dos parques londrinos. E falando do roteiro lisboeta de Eça, temos de ouvir João da Ega a gritar “Lisboa é Portugal – Fora de Lisboa não há nada. O País está todo entre a Arcada e S. Bento”…
MEMENTO QUIA PULVIS EST… por Camilo Martins de Oliveira
Meu Caro Manuel:
Passei, há quase um ano, uma semana amiga em casa do teu irmão Alberto, na raia de Lisboa, onde tantas outras vezes gozámos o sossego de conversas várias sobre o mundo. Sossego, digo, porque sempre nos entendemos e desentendemos bem: ele, sempre alerta e inesperado; tu sempre resmungão e talvez realista; eu sempre curioso e estrangeiro. Todos três sempre de acordo em que era preciso enxotar as senhoras da conversa... Dessa vez, na tua ausência, falámos do Inferno e de mafarricos, de malefícios à distância, de castigos vários... Tudo começou por um postal que o Alberto comprara no Louvre e usava como marcador de livros. Reproduz a frente de um retábulo pintado, em meados do século XIV, por um membro da família Memmi, aliás conhecido por Mestre dos Anjos Rebeldes. Cristo Pancrator preside à precipitação, por anjos legionários comandados pelo Arcanjo S. Miguel, dos anjos rebeldes, os de Satanás, no abismo. Estes são todos negros e horrendos, a sua queda desenha-se sobre fundo de ouro, mas... mas parece que vão cair num planeta! Como se fossem atirados à terra, para viverem no pecado e na maldição dos homens... O Alberto fora marcando com esta estampa a sua leitura, em francês, dos "Serões na granja nos arredores de Dikanka" de Nicolai Gogol. "Sempre me perguntei - disse-me - se o Diabo existiria como força ativa, autorizada por Deus para tentar e poder desviar os homens (e sobretudo as mulheres - e ria-se muito - como vítimas e agentes cooperadores...), ou se seria uma invenção nossa, para bode expiatório, donde os cornos dos mafarricos e outros desgraçados... Esta pintura de um Memmi leva-me a questionar esse "adquirido" e a pensar que, quiçá, os demónios todos, afinal, foram precipitados para a terra dos homens no preciso instante em que Yahvé enxotou Adão e Eva do paraíso, por terem preferido a desordem à obediência, o castigo de ser livre à beatitude de ser programado... Assim, todos eles, os demónios e os filhos de Eva (como diriam as feministas) se copularam para povoar de discórdia e guerra este vale de lágrimas. Até que Deus se achou longínquo e violento e, talvez arrependido de ter precipitado tantas criaturas para o esgoto de um planeta cheio de água, decidiu atirar cá para baixo o seu Filho Único, que por isso era Cristo, antes de se chamar Jesus. Mandou Deus que lhe dessem o nome de meu irmão: Manuel, Deus connosco. E, por esse gesto, tão dolorosamente simples, tão alegremente generoso, desafiou e chamou a si o mal que tinha expulso, porque os corações que se purificam vão convertendo o mundo. Não por práticas canónicas, nem rezas repetidas, nem incensos queimados às imagens em que pretendemos domesticar a maravilhosa liberdade do divino. Mas pela transformação silenciosa do nosso olhar no querer bem.... Nestes contos do Gogol, há um que me mete medo, pois tem a ver com o nosso terror inato à maldição que persegue gerações. Que culpa tem Catarina - e o filhito que seu marido Danilo lhe deu - da maldição que, por Deus, Ivan lançara sobre Petrof, o antepassado deles que traíra indignamente seu irmão? Deveremos nós ser todos filhos do castigo de Caim? Mas, olha, Camilo Maria, ri-me, como quem se desforra, com a história, tão divertida, da noite de natal do ferreiro Vakula que, após peripécias apimentadas e várias, apanha o estupor do Diabo num saco de carvão. Agarrando-o pelo rabo, vai-o apertando e, ameaçando-o com o sinal da cruz, obriga-o a levá-lo até Petersburgo, à Czarina Catarina da Rússia, a quem implorará a oferta dos seus melhores sapatos de cerimónia... Catarina é generosa. E Vakula, voando pelos céus da Rússia, velozmente levado pelo Diabo que meteu no bolso, bem agarrado pela cauda maléfica e aterrorizado pela ameaça do sinal da cruz, chegará à sua terra, com as arras que prometera a Oksana, sua amada. Casam no dia de Natal. Já só pela coragem dele, a menina lhe dera o sim". O riso dos olhos do teu irmão, ao contar-me esta história, conhece-lo tu melhor do que eu. Disse-me, tantas vezes, com aquela graça de quem talvez veja Deus no dia a dia: "O Senhor Celeste também é mafarrico: prega-me partidas todos os dias!" As insónias infligiam-lhe leituras várias, para lhe desviar também o pensamento daquelas aflições que o assaltavam. Mas, ao deitar-se, tinha sempre à beira da cama uns álbuns do Tintin, que o divertiam e lhe davam umas frases para dizer no dia seguinte. Se chovesse, por exemplo, lembrava Milou, o cão, a exclamar "Il fait un temps d’homme!". Além de Hergé, a leitura da noite era Eça de Queiroz: "O Mandarim", "A Relíquia", "A Ilustre Casa de Ramires" e "A Cidade e as Serras". Penso que tudo isso tinha a ver com ele: Em "O Mandarim", o desprezo pelo oportunismo e o horror à ganância, sem escapar à ironia: "Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio: pertencem-lhe; ele que os reclame e os reparta. E a vós, homens, lego-vos estas palavras: Só sabe bem o pão que, dia a dia, ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim! - E todavia, ao expirar, consola-me, prodigiosamente, esta ideia: ...nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, O pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, criatura feita por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!". Da "Ilustre Casa", até pelo arranque para África: "A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança tão terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até àquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora àquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra? - Quem? - Portugal". De "A Cidade e as Serras", o Alberto gostava de referir o passo em que, depois de jantar em Tormes, Jacinto e Zé Fernandes voltam "para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão"... Não sabem nomear as estrelas: ... "E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? - Não sei. Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber, assim acumulado, forma um monte, que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos obras da mesma Vontade". A "A Relíquia", Alberto ia buscar a memória de outra noite estrelada, quando Teodorico se despede da sua Mary luveira: "Por sobre os terraços adormecidos da muçulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrelas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos - suspirei o fado mais sentido de saudade portuguesa: «Co’a minha alma aqui te ficas, / Eu parto só com os meus ais, / E tudo me diz, Maricas, / Que não te verei nunca mais». Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quis saber se estes doces versos eram de Luís de Camões. Eu, choramingando, disse-lhe que estes - ouvira-os no Dafundo ao Calcinhas. Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidraça: e depois de ir ao corredor fazer às escondidas um rápido sinal da Cruz, vim desapertar sofregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa bem-amada". Era assim, maroto e terno, aflito de angústias mas cheio da alegria inicial da vida, o teu irmão. Deus o guarde em paz".
Esta carta do Marquês de Sarolea nunca seguiu, encontrei-a no seu espólio. Foi escrita, de Bruxelas, pouco depois da morte de meu Pai, a que assisti. Nas semanas derradeiras, Alberto Martins de Oliveira conversava longamente com o cónego Sarmento, jurista de formação, vocação tardia, camarada de Coimbra. Na extrema-unção, ambos rezaram em latim.
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 17.09.13 neste blogue.
Homenagear hoje Eça de Queiroz é reconhecer o lugar cimeiro que o autor de “Os Maias” tem na cultura da Língua Portuguesa e não apenas no Portugal europeu.
DEMONSTRAÇÃO DE GRANDEZA
Quando lemos nas “Notas Contemporâneas” o artigo de Eça de Queiroz sobre “Os Grandes Homens de França”, escrito em 1892 na “Gazeta de Notícias”, encontramos um exercício de fina ironia que demonstra as qualidades do extraordinário prosador. Do que se trata não é de um juízo sobre o futuro, mas de uma crítica relativamente à procura artificial de grandes homens, como se tratasse de um jogo ou de um inventário de celebridades… Tem sentido a lição do autor de “A Ilustre Casa de Ramires”, distinguindo o reconhecimento do valor da cidadania e da contribuição para o bem comum da cultura de uma qualquer feira de vaidades. Falando de Vítor Hugo, Eça diz apenas que “a demonstração fica sujeita a dúvidas, a contestações, a protestos. Fica sobretudo incompreendida pela multidão. Vítor Hugo, pelo menos, é um grande homem – que não necessita demonstração”. Assim ocorre com os realmente melhores, que merecem o nosso reconhecimento. Uma leitura inteligente deste texto permite compreender que as sociedades têm o direito e o dever de reconhecer aqueles que se destacam e constituem exemplo para todos. E cabe a quem pensa e não abdica de ter sentido crítico afirmar, como fez Eça de Queiroz, de modo claro que o reconhecimento obriga a homenagear os melhores como exemplos e com um critério que não se confunda com um exercício ilusório sobre glórias passageiras e vãs.
Compreendamos assim o que o crítico nos quis dizer. Tem razão o reparo sobre a busca frenética de “grandes homens”. Não é disso que se trata quando afirmamos que o reconhecimento dos melhores tem de ficar demonstrado por si mesmo. Por isso, há muito considero que faz sentido o reconhecimento de Eça de Queiroz no Panteão, pelo que fez e pelo que nos legou como exemplo maior para a cultura da língua portuguesa. Haverá outros, certamente, mas importa fazer justiça e destacar este exemplo, já que uma sociedade se afirma e valoriza escolhendo quem não precisa de demonstração. A decisão de homenagear num edifício próprio e com um estatuto especial ilustres figuras portuguesas é apanágio das sociedades antigas, que aprendem a valorizar as suas raízes. Em 1836, o então ministro do Reino Passos Manuel decretou a edificação de um Panteão Nacional ainda sem local definido. O objetivo era dignificar os heróis que tornaram possível a Revolução liberal de 1820 e o início do constitucionalismo. E assim seria possível reerguer a memória coletiva de grandes referências que não poderiam perder-se no esquecimento, como, por exemplo, Luís de Camões. O Panteão Nacional destina-se, assim, a homenagear e perpetuar a memória dos portugueses que se distinguiram por “obras valorosas”, por serviços prestados ao País, pelo exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade. As honras do Panteão podem consistir na deposição, dos restos mortais dos cidadãos distinguidos ou na afixação de uma lápide alusiva à sua vida e à sua obra.
CONTRA QUALQUER BANALIZAÇÃO
Para impedir qualquer banalização, urge garantir o que preocupava o próprio Eça, escolhendo quem não precisa de demonstração. Em Portugal, o estatuto de Panteão Nacional está atribuído ao antigo templo de Santa Engrácia em Lisboa e ao Mosteiro Santa Cruz em Coimbra, onde se encontram os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal - D. Afonso Henriques e D. Sancho I. No primeiro destes monumentos estão sepultadas diversas personalidades da história portuguesa: quatro Presidentes de República, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Sidónio Pais e Óscar Fragoso Carmona; e ainda Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Humberto Delgado, Aquilino Ribeiro, Amália Rodrigues e Eusébio da Silva Ferreira. Estão ainda recordados, através de “cenotáfios”, os nomes de seis figuras históricas: Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e Luís de Camões. O mosteiro dos Jerónimos, que funcionou provisoriamente como Panteão, antes de Santa Engrácia estar completada, não tem hoje esse estatuto formal, ainda que tenha os túmulos de Vasco de Gama e de Luís de Camões, na nave do templo, e do historiador Alexandre Herculano, na antiga Sala do Capítulo. Em 1985 o corpo de Fernando Pessoa foi transladado para o Claustro dos Jerónimos, sendo o seu túmulo da autoria de Lagoa Henriques. Importa ainda dizer que em Lisboa, no templo de S. Vicente de Fora, encontra-se o Panteão Real da Dinastia de Bragança, de natureza diferente, onde se encontram sepultados em número significativo os membros da família que reinou após a Restauração de 1640.
Desde a antiga Grécia e depois em Roma, a palavra Panteão designava o templo onde se honravam os vários deuses com culto reconhecido. A palavra é grega e significa literalmente “todos os deuses”. Em Roma, o Panteão que chegou aos nossos dias é uma homenagem ao cônsul Marco Agripa (63-12 a.C.), que o mandou construir em 27 a.C. No ano 80, foi praticamente destruído por um incêndio. Quatro décadas depois, o imperador Adriano (76-138) ordenou a sua reconstrução. Foi o cristianismo que, em virtude da doação de um rei bizantino ao Papa Bonifácio IV no século VII, salvou o monumento da pilhagem e da destruição, adotando o orago de Santa Maria e Todos os Santos. Já no Panteão de Paris, as obras para construção foram iniciadas em 1764, sob encomenda de Luís XV, em ação de graças por ter recuperado de uma grave enfermidade. O templo apenas foi concluído em 1790, depois da Revolução tendo sido então transformado num edifício secularizado, com a função de homenagear os vultos da França que se notabilizassem. Então o Panteão passou a funcionar como lugar de homenagem reconhecida da Pátria aos melhores dos seus filhos. Também na Abadia de Westminster, em Londres, estão sepultados grandes vultos britânicos como William Shakespeare, Isaac Newton e Charles Darwin. É assim a partir duma tradição religiosa e secular que foram criados os Panteões Nacionais. Os modernos Panteões nascem, pois, de uma tradição antiga de raízes heterogéneas, desde o paganismo ao secularismo, passando pela dimensão religiosa. Trata-se, em qualquer caso, de honrar os melhores através do reconhecimento dos cidadãos. É este o espírito que hoje devemos recordar. Eça de Queiroz é uma referência fundamental nas culturas da língua portuguesa, correspondendo a sua presença entre os nossos maiores no Panteão Nacional a um ato de elementar justiça, não um mero gesto formal, mas como apresentação de um exemplo para todos. Um reconhecimento de justiça.
Ficámos na paisagem etérea do Olimpo, contando com o inesperado companheirismo de umas vetustas personagens que nos enchem ainda hoje de entusiamo, e que são as divindades greco-latinas. De súbito, recorremos ao Cronoscafo. Esse mesmo, o de Mortimer, a lembrar H. G. Wells. E, num ápice chegamos a Paris, no final do século XIX. E lemos José Maria Eça de Queiroz num clássico: «Era de novo fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu de onde fugiam anéis dum cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos. - Ó Jacinto! - Ó Zé Fernandes! O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade: -Há sete anos!... E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida que a lã dum tapete. No meio, o vaso coríntico esperava abril para resplandecer com tulipas e depois junho para transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, as duas magras Deusas de pedra» … Demos um salto imenso no tempo. Nada é mais preciso!
«- Eis a Civilização! Jacinto empurrou uma porta, penetramos numa nave cheia de majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes elétricos, refulgindo entre os lavores do teto, alumiou as estantes monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores num concílio. Não contive a minha admiração: -Ó Jacinto! Que depósito! Ele murmurou, num sorriso descorado: -Há que ler, há que ler.... (…) -Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr. -E, com efeito, duma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete como uma tênia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azov entrara em Marselha com avaria! (…) Depois parei em frente da estante que me preocupava, assim solitária, à maneira duma torre numa planície, com o seu alto farol. Toda uma das suas faces estava repleta de Dicionários; a outra de Manuais; a outra de Atlas; a última de Guias, e entre eles, abrindo um fólio, encontrei o Guia das ruas de Samarcanda. Que maciça torre de informação! (…) Escapei, respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa lombada verde, o nome de Adam Smith. Era, pois, a região dos economistas». Os fantasmas que por aqui pululavam eram os mais ilustres. Platão ombreava com Hobbes. E eis que deparamos com os dois fantasmas bem conhecidos de Jacinto e Zé Fernandes…
Deixámos a Condessa e Rytmel apaixonados. Há uma ponta de loucura nessa relação. Propositadamente Ramalho e Eça demarcam-se das soluções tradicionais quanto às heroínas de folhetim.
Luísa não faz parte do rol tradicional de quem se deixa arrastar pela força do destino. Luísa tem a sua vontade e afronta os limites. Ensaia uma fuga romântica, num iate. A solução é afastada por demasiado previsível e terrivelmente incerta. Receosa de perder o controlo da situação Luísa vive atormentada pelo ciúme. Será que o capitão a considera como um estratagema passageiro?
Num momento tremendo de vertigem e de loucura, a condessa, insegura e angustiada, para tentar ver os papéis de Rytmel, ministra ao amante uma dose de ópio, que se revela excessiva. E o capitão perde a consciência e morre inesperadamente de overdose. Luísa fica desesperada, mas pondera uma saída racional de modo a camuflar o homicídio. Conta, por isso com a ajuda dos amigos, a quem explica em pormenor por escrito a complexa história, num racional, longo e inexorável exame de consciência. É essa a estrutura fundamental do romance, desenvolvido através de uma sucessão de cartas, dos dois autores, de formações e perspetivas diferentes.
Ramalho Ortigão segue mais de perto a solução tradicional dos folhetins românticos. Eça de Queiroz, leitor de Zola e da escola realista, procura libertar-se do método. E assim deparamo-nos no mesmo texto com duas perspetivas que demonstram como a geração de 1870 (e estamos em 1870) soube assumir uma especial originalidade, libertando-se de uma perspetiva de escola. E há uma armadilha lançada ao leitor desprevenido: parte-se do exagero caricatural do género folhetinesco, procurando introduzir a novidade realista-naturalista. Não vamos discutir a eficácia ou o sucesso. Mais tarde os dois escritores considerarão que a obra ficou aquém do desejável, mas hoje podemos fazer a autópsia, percebendo as hesitações e contradições da geração, através dos dois autores mais distantes entre si. Contudo, ambos estão deslumbrados pela condessa loura e voluntariosa, que não obedece ao modelo da adúltera dos folhetins sentimentais, aproximando-se de Bovary (1856) ou de Karenina (1875-77).
Luísa torna-se um paradigma especial, que se perde nas aventuras que foram engendradas com perda evidente da coerência romanesca. Eça e Ramalho reconhecerão que o carácter folhetinesco levou a uma perda de força, originalidade e autenticidade do romance. No entanto, sobressai a originalidade de Luísa, que é um exemplo premonitório que contrasta com a outra Luísa, a de Basílio. "Os seus olhos eram de um azul profundo como o da água do Mediterrâneo. Havia neles bastante império para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mistério, para que a alma fizesse o estranho sonho de se afogar naqueles olhos. (…) Os seus movimentos tinham aquela ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias. De resto, simples e espirituosa".
Estamos perante a aparência romântica servida em tom severamente crítico e satírico. E a confissão de Luísa pressupõe os ecos modernos: "Eu já não sou alguém. Não existo, não tenho individualidade. Não sou uma mulher viva, com nervos, com defeitos, com pudor. Sou um caso, um acontecimento, uma espécie de exemplo. Não sou uma mulher, sou um romance". A sua lucidez autocrítica não condiz com a fragilidade de caráter, típica da lógica dos folhetins vulgares. E o epílogo aproxima-se.
No primeiro romance policial português, de 1870, conta-se o misterioso rapto perpetrado por um grupo de mascarados. Eça de Queiroz confessa em 1884 que «numa noite de verão no Passeio Público, em frente a duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade, que em torno de nós cabeceava de sono, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros num romance tremendo, buzinando à Baixa das alturas do ‘Diário de Notícias’». E começaram a escrita, num romance epistolar a quatro mãos: “Certa noite, indo um médico e um escritor na caleche pela estrada de Sintra (que se iniciava onde hoje é a Estrada de Benfica e ligava a capital àquela vila) foram surpreendidos e raptados por quatro homens embuçados, que os levariam a uma casa isolada. O objetivo era confirmar o óbito de um oficial britânico, a quem fora ministrada uma dose excessiva de ópio”. A partir daí, os acontecimentos sucedem-se a um ritmo alucinante. À medida que a noite avançava os dois compreenderiam estar diante da consequência trágica de um triângulo amoroso constituído pelo morto, uma condessa portuguesa mal casada e uma bela rapariga chegada de Cuba. Tudo começara meses antes da noite fatídica durante uma estada na ilha de Malta à época parte do Império britânico. Quem é o morto e quem o matou? E porquê? Quem era a mulher com quem ele se encontrava, e quem são os mascarados que pretendem proteger a sua honra?
A história foi publicada no Diário de Notícias entre julho e setembro de 1870 sob a forma de cartas anónimas, e foram muitos os que se assustaram com os acontecimentos narrados. Para anunciar a história, o DN começou por anunciar: “A hora já adiantada recebemos ontem um escrito singular. É uma carta, não assinada, enviada pelo correio à redação, com o princípio de uma narração estupenda que dá ares de um crime horrível, envolto em sombras de mistério, e cercado de circunstâncias verdadeiramente extraordinárias, e que parece terem sido feitas para aguçar a curiosidade, e confundir o espírito em milhares de vagas e contraditórias conjeturas. Trata-se da sequestração noturna de um médico, de um amigo seu para assistirem a um ato gravíssimo, e, demais factos subsequentes. O interesse que esta narração desperta, a forma literária que a reveste, e o crime que parece revelar nos obrigam a não buscar resumi-la e dá-la na íntegra aos nossos leitores”. E eis a carta que antecedia a narrativa: «Senhor Redator do DN, venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que eu entender mais adequado, publique a substância do que vou expor. Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou torna-se importantíssimo como chave única para a desvendação de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele um só ato». Só no final é que Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão admitiram tratar-se de uma brincadeira e que eram eles os autores das cartas.
Luísa, apenas identificada misteriosamente pelo nome próprio e como Condessa de W., era casada com um bon vivant, conhecido, mas com pouca história. Ela era inteligente e culta, mas diferente das heroínas românticas de pacotilha. Cultivava a sua autonomia e procurava enfrentar o destino. Recebia em casa numerosos amigos, entre os quais o excêntrico Carlos Fradique Mendes, cheio do original dandismo satânico. Cosmopolita e viajada, Luísa sente tédio pela vida rotineira que leva. E o conde convence-a a fazer uma viagem, com um primo seu, e melhor amigo, à ilha de Malta (que neste folhetim surge pela segunda vez). Na escala por Gibraltar conhecem o belo capitão Rytmel, súbdito de Sua Majestade Sereníssima. A condessa e o capitão caem-se de amores e iniciam uma relação clandestina, entre Paris e Lisboa. Na capital, encontram-se amiúde numa casa arrendada. E é aí que tem lugar o acontecimento tremendo que precipitará a tragédia, como veremos no próximo capítulo e que constitui o cerne deste epílogo…
Fazemos hoje aqui uma evocação de teatros em funcionamento nas colónias portuguesas a partir do início do século passado. E vale a pena desde logo referir que havia na época uma tradição de espetáculo, efetuado a partir de Lisboa por companhias que se deslocavam às colonias africanas, e que dessa forma reforçavam uma certa, se bem que ténue atividade cultural.
E recuando ainda mais no tempo e na história, recorda-se o que Eça escreveu em “Os Maias”, a propósito do projeto do Conde de Gouvarinho para a criação de teatros em África. Trata-se de uma conversa com João da Ega no Teatro da Trindade:
«Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... / Toda a face do Conde reluzia, escarlate, de prazer. / - Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias, todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção de moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso, há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!» (“Os Maias” cap. XVI).
Ora bem: temos aqui citado Sousa Bastos e o seu “Diccionário do Theatro Português” (ed. 1908), onde descreve, por vezes em muito vastas referencias, nada menos do que 2002 Teatros, em Portugal e nas colónias.
E os das colónias eram então os seguintes: Teatro Africano, de São Tiago de Cabo Verde, com 14 camarotes, 7 frisas, 120 lugres de plateia e geral; Teatro Caridade de São Vicente de Cabo Verde; Teatro Garrett de Moçâmedes, com 30 camarotes de duas ordens, 110 lugres de plateia, 60 de geral e 40 de galeria; Teatro de Luanda, com plateia, duas ordens de camarotes e lotação de 300 lugares; e Teatro de S. Tomé, este em sucessivos edifícios adaptados...
Isto, em 1908.
Mas vale a pena citar outra vez “Os Maias”.
Quando o Conde Gouvarinho é nomeado ministro, o João da Ega faz troça: “Lá vai o Gouvarinho batendo para o poder, a mandar representar a Dama das Camélias no sertão!”
DUARTE IVO CRUZ
Obs: Reposição de texto publicado em 19.01.19 neste blogue.