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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS


De 7 a 13 de junho de 2021



Pedro Lains (1959-2021)
foi uma referência na História Económica de Portugal, tendo-nos deixado muito jovem, quando muito havia a esperar do seu labor de investigador e estudioso das relações entre Portugal e a Europa.

 

 

UM ESTUDIOSO PROMETEDOR
Foi António Barreto quem me apresentou Pedro Lains, numa sessão no Centro Nacional de Cultura, referindo ser alguém cuja obra tinha de ser seguida com muita atenção. Nunca mais deixei de acompanhar o seu percurso de historiador económico, sempre com renovado interesse, com convergência de preocupações, e sistematicamente com a estimulante curiosidade de seguir e aprofundar muitos dos seus estudos e conclusões. Há dias, quando tive a notícia do seu prematuro desaparecimento, pensei naquele encontro já distante, e conclui que o Pedro foi sempre um valor seguríssimo, em capacidade científica e pedagógica. Tive, aliás, a oportunidade de o dizer ao recensear obras, que constituem marcos da melhor historiografia contemporânea. Sabia da sua saúde, através de António Costa Pinto, um amigo comum de muitos anos e partilho plenamente o que disse quando anunciou o falecimento de quem associava a generosidade pessoal e a simpatia ao empenhamento científico, como excelente académico que sempre foi. Licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, doutorou-se em História no Instituto Universitário Europeu, sendo investigador-coordenador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa – prestigiando as instituições e as escolas em que se formou e onde trabalhou. Centrou a sua investigação na história económica dos séculos XIX e XX, sobretudo preocupado com o tema do crescimento económico de longo prazo em Portugal e nos países periféricos europeus, bem como na integração europeia e nos desafios atuais da economia portuguesa. Foi autor da História da Caixa Geral de Depósitos 1876-2010; de Os Progressos do Atraso – Uma Nova História Económica de Portugal; e de A Economia Portuguesa do século XIX; sendo coautor de História Económica de Portugal (com Álvaro Ferreira da Silva); e de Os Petróleos em Portugal – Do Estado à Privatização 1937-2012. Todas obras de grande importância, indispensáveis para a compreensão dos temas que tratam.


RAÍZES DO ATRASO PORTUGUÊS
Pedro Lains soube, com extraordinária mestria, aliar a análise económica quantitativa e a perspetiva comparada. Recorde-se, por exemplo, que no início da I República, Portugal partilhava com os países balcânicos a última carruagem da economia europeia, apesar de tudo com um crescimento per capita de 0,8 % ao ano. A indústria vinha crescendo, de modo mais regular e contínuo, a um ritmo duas vezes superior à agricultura, com baixa produtividade (2,3 % entre 1854 e 1911, que comparam com 0,94 %, desde a Regeneração até 1903). Isto significa que o chamado fontismo não registou um salto industrializador nos anos 70 e que os anos 90 conheceram um medíocre marcar passo. No tocante à produção agrícola alguns sinais positivos no final do século deram lugar a uma contração do início do século XX. Ao contrário de alguma voz corrente, Pedro Lains demonstrou que a crise das exportações não serve para explicar a má evolução da economia nacional, até porque foi o mercado interno que sustentou, ainda que timidamente, a indústria. As importações, numa economia dependente do exterior na indústria, foram apoiadas não pelas exportações agrícolas, mas pelas remessas dos imigrantes e pelas reexportações coloniais. Assim, o protecionismo não foi ajudado pelas exportações agrícolas, por manifesta incapacidade para promover mudanças estruturais na economia nacional, ao contrário do que se verificou no norte da Europa. Se a agricultura não evoluiu positivamente, num horizonte fechado e resistente à mudança, a indústria também ficou aquém do que seria exigível. E a explicação deste medíocre desenvolvimento não nos remete sem mais para a tese da dependência relativamente à “pérfida Albion”, centro do capitalismo, já que o setor externo registava um peso reduzido. Os limites do crescimento nacional estiveram, assim, sobretudo ligados ao mercado interno. As alternativas económicas eram parcas, sobretudo influenciadas pela ausência de uma iniciativa empresarial moderna. As explicações decadentistas carecem, assim, de fundamentação plena – obrigando, segundo a perspetiva de Pedro Lains, a uma análise mais profunda. Mais do que a dependência externa, houve a ausência de uma política reformista interna associada a um setor investidor audacioso e forte. Se olharmos a historiografia económica portuguesa, compreendemos como Pedro Lains seguiu os passos antes trilhados por Jaime Reis, aprofundando-os numa investigação persistente e muito clara a partir dos meios estatísticos disponíveis. No fundo, Portugal ter-se-á comportado de acordo com o que o seu potencial económico permitiria. Independentemente do que separa este entendimento de quantos consideraram que o nosso atraso económico se deveu a opções políticas erradas, importa perceber que a leitura da investigação de Pedro Lains revela-se muito útil para a compreensão dos fenómenos económicos como complexos, influenciados por diversos fatores contraditórios. E quando lemos os textos fundamentais da Geração de 1870 ou sobre a fixação e o transporte de António Sérgio, percebemos que há consciência de que as fragilidades ou as condicionantes internas que Pedro Lains investiga não lhes passaram despercebidas.


O ATRASO SERIA EVITÁVEL?
Poderia Portugal ter diminuído o fosso que o separava dos países desenvolvidos? Eis o ponto que merece ser revisitado criticamente. E Pedro Lains, como Jaime Reis, tem a virtude de apontar num sentido que procura articular a compreensão do potencial económico e a exigência do que designaríamos como pensamento estratégico e que nos leva à literatura económica portuguesa do século XVII ou à “Vida Nova” (1885). Portugal arrancou para a industrialização já com atraso, não contando nem com uma procura interna forte nem com um mercado interno consolidado, além da ausência de estabilidade política, de finanças públicas sãs, de crédito bancário sólido e de mão-de-obra qualificada e flexível… Eis o que não pode ser esquecido. Numa palavra, os números estudados por Pedro Lains não podem deixar de ser integrados numa reflexão global, designadamente no tocante à explicação do facto de países, à partida com condições idênticas, terem diminuído o fosso que os separava dos mais desenvolvidos. E é o próprio historiador que nos alerta para o facto de não pretender apresentar uma conclusão definitiva relativamente às causas do atraso português. Há, pois, razões compósitas que devem ser consideradas. Basta ver como a convergência da economia portuguesa com as economias do centro da Europa se degradou no século XIX até ao começo do século XX e como a evolução do endividamento público incumpriu a regra de ouro das Finanças Públicas. Numa palavra, não é possível continuar a estudar seriamente o desenvolvimento económico português sem entender esta investigação, até para evitar a mera repetição de perspetivas unilaterais. Pedro Lains ainda tinha muito para continuar a dar-nos. Era estimulante o seu entusiasmo. Urge continuá-lo!

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

COMO VOLTAR À TONA DE ÁGUA…

 

A retoma da economia depois da pandemia do covid-19 vai demorar. E vai ocorrer gradualmente, consoante as atividades económicas e os países. A prevenção contra a pandemia vai ter de continuar, até porque vai haver grandes assimetrias na superação da doença. A livre circulação das pessoas será afetada e o tema fundamental vai ser o do combate ao desemprego e o da criação de valor. Começando pelas lições de 2008, importa recusar a ilusão monetária e financeira. O endividamento e o mero aumento da circulação monetária não criam riqueza. Temos de lembrar a regra de ouro das Finanças Públicas – só pode haver dívida pública para financiar despesa de investimento reprodutiva. Não basta lançar dinheiro sobre os problemas. E se aumentam as desigualdades, importa garantir a justiça distributiva – horizontal, com salários e impostos justos que garantam uma partilha de riqueza e a criação de valor; e a vertical, pela equidade intergeracional, reduzindo o endividamento.

 

Depois da crise, a prioridade terá de estar nas políticas de emprego, orientadas para a satisfação das necessidades fundamentais, o combate ao desperdício,  a promoção de poupanças virtuosas e a melhoria da qualidade de vida, para que o desenvolvimento se oriente para as pessoas. Mas o tema do emprego obriga a repensar o tempo de trabalho. A situação atual de confinamento e de teletrabalho, e a política gradual de retoma, ensinam-nos que os horários de trabalho presencial terão de ser repensados. O grave problema demográfico dos países ricos obriga a criar políticas de conciliação familiar com horários flexíveis. As licenças de paternidade para marido e mulher e os horários flexíveis para os pais tem permitido melhorar as taxas de natalidade nos países nórdicos, sem esquecer o cuidado dos mais velhos.

 

Terão de ser considerados, assim, “bancos de tempo” com flexibilidade, em vez de uma lógica de horários rígidos. Isto, para conciliar as necessidades, a disponibilidade individual e o melhor aproveitamento das capacidades disponíveis. Os “bancos do tempo” permitirão acorrer a uma multiplicidade de tarefas sociais que têm de ser asseguradas por todos. Não devemos esquecer que a inovação vai obrigar à ligação das políticas do Estado, do mercado e das iniciativas privada, social e pública não estatal. Por iniciativa pública não estatal entendemos a das instituições sociais, culturais, académicas e científicas de utilidade pública ou natureza cooperativa. As políticas públicas têm de ser consideradas como catalisadores económicos e sociais. A inovação científica obriga a que a lógica do lucro não impeça a difusão do conhecimento. A criação de valor dependerá da articulação do Estado e da sociedade. A lógica Silicon Valley tem de ser completada com planeamento estratégico global e com redes coordenadas de informação e conhecimento.

 

Mas não haverá inovação sem aprendizagem. Daí uma atenção necessária à educação e à formação ao longo da vida. Uma parte dos “bancos do tempo” tem de ser ocupada com formação contínua relevante, afinada individualmente. Por outro lado, o ensino profissional terá de articular os níveis secundário e superior, com atenção à cooperação entre Universidades e Politécnicos. Não deve haver becos sem saída, nem canais rígidos e não comunicáveis entre si.  Prosseguimento de estudos, vida ativa, mobilidade e cooperação internacional (Erasmus) têm de se articular.

 

Numa palavra, a prioridade é a promoção de valor e de um desenvolvimento justo e sustentável. O “doce comércio” de Montesquieu tem de se completar pela subsidiariedade. Urge tornar a informação conhecimento, e o conhecimento sabedoria. Para contrariar os egoísmos, temos de favorecer a solidariedade e o cuidado. Com instituições mediadoras, participadas e representativas, atentas a uma justiça complexa e equitativa, que favoreça a coesão e a sustentabilidade, é a democracia das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas que está em causa.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

COMO VOLTAR À TONA DE ÁGUA…

 

A retoma da economia depois da pandemia do covid-19 vai demorar. E vai ocorrer gradualmente, consoante as atividades económicas e os países. A prevenção contra a pandemia vai ter de continuar, até porque vai haver grandes assimetrias na superação da doença. A livre circulação das pessoas será afetada e o tema fundamental vai ser o do combate ao desemprego e o da criação de valor. Começando pelas lições de 2008, importa recusar a ilusão monetária e financeira. O endividamento e o mero aumento da circulação monetária não criam riqueza. Temos de lembrar a regra de ouro das Finanças Públicas – só pode haver dívida pública para financiar despesa de investimento reprodutiva. Não basta lançar dinheiro sobre os problemas. E se aumentam as desigualdades, importa garantir a justiça distributiva – horizontal, com salários e impostos justos que garantam uma partilha de riqueza e a criação de valor; e a vertical, pela equidade intergeracional, reduzindo o endividamento.

 

Depois da crise, a prioridade terá de estar nas políticas de emprego, orientadas para a satisfação das necessidades fundamentais, o combate ao desperdício, a promoção de poupanças virtuosas e a melhoria da qualidade de vida, para que o desenvolvimento se oriente para as pessoas. Mas o tema do emprego obriga a repensar o tempo de trabalho. A situação atual de confinamento e de teletrabalho, e a política gradual de retoma, ensinam-nos que os horários de trabalho presencial terão de ser repensados. O grave problema demográfico dos países ricos obriga a criar políticas de conciliação familiar com horários flexíveis. As licenças de paternidade para marido e mulher e os horários flexíveis para os pais tem permitido melhorar as taxas de natalidade nos países nórdicos, sem esquecer o cuidado dos mais velhos.

 

Terão de ser considerados, assim, “bancos de tempo” com flexibilidade, em vez de uma lógica de horários rígidos. Isto, para conciliar as necessidades, a disponibilidade individual e o melhor aproveitamento das capacidades disponíveis. Os “bancos do tempo” permitirão acorrer a uma multiplicidade de tarefas sociais que têm de ser asseguradas por todos. Não devemos esquecer que a inovação vai obrigar à ligação das políticas do Estado, do mercado e das iniciativas privada, social e pública não estatal. Por iniciativa pública não estatal entendemos a das instituições sociais, culturais, académicas e científicas de utilidade pública ou natureza cooperativa. As políticas públicas têm de ser consideradas como catalisadores económicos e sociais. A inovação científica obriga a que a lógica do lucro não impeça a difusão do conhecimento. A criação de valor dependerá da articulação do Estado e da sociedade. A lógica Silicon Valley tem de ser completada com planeamento estratégico global e com redes coordenadas de informação e conhecimento.

 

Mas não haverá inovação sem aprendizagem. Daí uma atenção necessária à educação e à formação ao longo da vida. Uma parte dos “bancos do tempo” tem de ser ocupada com formação contínua relevante, afinada individualmente. Por outro lado, o ensino profissional terá de articular os níveis secundário e superior, com atenção à cooperação entre Universidades e Politécnicos. Não deve haver becos sem saída, nem canais rígidos e não comunicáveis entre si. Prosseguimento de estudos, vida ativa, mobilidade e cooperação internacional (Erasmus) têm de se articular.

 

Numa palavra, a prioridade é a promoção de valor e de um desenvolvimento justo e sustentável. O “doce comércio” de Montesquieu tem de se completar pela subsidiariedade. Urge tornar a informação conhecimento, e o conhecimento sabedoria. Para contrariar os egoísmos, temos de favorecer a solidariedade e o cuidado. Com instituições mediadoras, participadas e representativas, atentas a uma justiça complexa e equitativa, que favoreça a coesão e a sustentabilidade, é a democracia das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas que está em causa. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
in Jornal Expresso | 18 de abril de 2020

CRÓNICA DA CULTURA

CRÓNICA DA CULTURA.jpg

 

A ilusão da pós-verdade chama-se mentira. O medo do outro e do diferente só se supera com partilha de responsabilidades e melhor democracia. É de economia ciente da importância da cultura como criação que falamos.

por Guilherme d’Oliveira Martins in Jornal Público / 07 de agosto de 2019

 

E de facto ao olhar para a ponte de Mostar em 1982, o sonho que haveria um passo comum em direcção a um futuro melhor foi-me claro. E foi-me claro pela história da responsabilidade que o pluralismo da democracia a todos chamaria; e foi-me claro pelo impacto da cultura que vivi naquela viagem de meses à Jugoslávia; e foi-me claro porque não queria uma coisa abstracta situada no futuro de todos nós: uma coisa abstracta com nome de mentira.

Acreditei que todos nós chegaríamos à conclusão de que a alteridade dos outros é parte integrante da nossa humanidade. Acreditei que a cultura dos povos seria tão criativa que animada por vontades objectivas desmontaria as instituições imperfeitas, as económicas e as outras, e só o seu prenúncio impediria a compreensão incauta da globalização.

Estava longe da brutalidade com que os vários tipos de terrorismos saltariam das televisões defendendo a lucidez dos estados em pânico como realidade ancora em vontades, ou seja, em votos mesmo não expressos.

Navegar nos barcos de Klee deixou de ser política de acolhimento e defesa de um interior espírito de desafio à criatividade nas mudanças estruturais de vida. A partilha de riscos na determinação do bem-estar não se concretizou como messias à construção da prosperidade na idealização da cultura e da civilização.

E é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores.

Há que nos desviarmos de guiões que nos são sugeridos mesmo quando não pareça; há que entender os traumas do passado como base para discussão de possibilidades futuras; há que estarmos atentos à actualidade que se move à nossa volta cheia de nostalgias para que nacionalismos sejam a solução lacunar das democracias.

Não podemos dizer que precisamos de tempo pois já não há tempo para nos redimirmos das desatenções. Os pensadores receiam que nem as ciências nem as artes possam ser suficientes para seduzir as plateias de vidas que não prosperando, têm o poder dos saltos violentos como solução e pseudo sustento ideológico para justificação comportamental de si mesmas.

Por isso mesmo, neste caldeirão

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem respostas definitivas, sem mensagens redentoras, sem eutanásias de valores

sem os homicídios das guerras e a atribuição estonteada de culpas.

A distância que nos separa dos totalitarismos não nos deve deixar baixar a guarda.

Quem joga? E o que se joga? Quem é o senhor do Jogo?

Como é a noite sem estrelas?

é de uma economia ciente da importância da cultura como criação que falamos, sem nos conformarmos com a condição humana que nos coube.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A atual Comissária Europeia para a Concorrência, Margrethe Verstager, filiada no partido social democrata, dinamarquês e europeu, tem sido visivelmente ativa no controlo, em defesa da livre concorrência, dos comportamentos, no mercado, de empresas ou grupos mais suscetíveis de a violarem. Receia que, sendo o presente governo do seu país de confissão conservadora, não venha a ser proposta para repetir o mesmo mandato na comissão a ser designada em 2019. Um velho amigo meu, muito rodado em andanças eurocráticas, diverte-se a cognominar a Comissária Verstager de "Margarida das Multas", em memória daquelas coimas bem pesadas que, por iniciativa dela, a Comissão Europeia aplicou aos gigantes Apple e Google (esta, aliás, tendo-as sofrido já por duas vezes, por abuso de posição dominante do seu comparador de preços e do sistema de exploração móvel Android).

 

   Outra grandeza do mercado, Amazon, está hoje sob investigação por nova suspeita de abuso de posição dominante. Diz a senhora comissária que se pretende assim facilitar a outras empresas a entrada em competição no mercado europeu, muito embora, cito, as quotas de mercado se mantenham sensivelmente inalteradas. Mas penso que o consumidor tem mais escolha e que o eco sistema empresarial europeu está mais dinâmico do que há uma década.

 

   ... Não queremos interferir nos negócios das empresas. Mas se suspeitarmos de que não fazem jogo limpo no mercado europeu, agiremos. Essas plataformas têm a especial responsabilidade de não utilizarem o seu tamanho para tornar as coisas mais difíceis para os actores mais pequenos. [Fim de citação].

 

   Destas notícias e declarações retirarei, Princesa de mim, uns tópicos para nossa reflexão conjunta:

 

  1. A excessiva partidarização de qualquer show off político, em jeito de marketing, em prejuízo da propriamente dita ação política, cuja motivação e cuja crítica ou, até, maior ou menor oposição, deveriam ser orientadas exclusivamente pelo discernimento do bem comum e sua prossecução, independentemente da cor partidária dos seus protagonistas e respetivas ambições estelares.

 

  2. A verificação da possibilidade de se garantir qualquer liberdade de concorrência nos mercados, a partir do momento em que se assegura, e até se fomenta, o aparecimento de gigantes empresariais com a capacidade financeira requerida para uma posição dominante no desenvolvimento e controlo (com vocação monopolista) de tecnologias de vanguarda.

 

  3. A interrogação das possíveis contradições dos sistemas e regimes políticos e económicos em vigor. Designadamente, da fé na "liberalização" dos mercados como fator sine qua non da otimização da eficiência económica e da justiça social. Exemplo bem conhecido de muitas regiões e cidades europeias, e não só, tem vindo a ser o que, em recente editorial, Le Monde intitulou Le Tourisme au Bord de l´Overdose: Um pouco por todo o lado, os autóctones exprimem a sua saturação dessa invasão incontrolada, até porque o maná financeiro trazido pelos turistas dificilmente compensa os desgastes colaterais. Os preços do imobiliário disparam, o emprego concentra-se em ofícios sazonais e mal pagos, o meio ambiente degrada-se, as cidades transformam-se em museus, em parques de atração ou em centros de permanentes libações...

 

  4. A interpelação ética da "filosofia" ou "sabedoria" consumista que motiva e orienta o nosso funcionamento socioeconómico. Tal será, mais ou menos, repetir a pergunta que serve de título a uma obra de Zygmunt Bauman, recentemente falecido e de quem tanto te tenho falado: Does ethics have a chance in a world of consumers? (Harvard University Press, 2008). Isto é: só se ainda acreditarmos que a ética deve ter um desempenho importante na nossa vida pessoal e coletiva, só assim será possível fazermos essa pergunta. Cuja resposta quiçá nos levará a perceber o sem sentido ou absurdo das ilusões materialistas correntes. Para refletires, traduzo-te palavras luminosas de Bauman: A vida de consumo não consiste em adquirir e possuir. Nem tampouco em nos desembaraçarmos do que adquirimos antes de ontem e de que nos gabávamos ontem ainda. Não, ela consiste, antes de tudo, a estar em movimento. A maior ameaça que pesa sobre uma sociedade que faz da "satisfação do consumidor" a sua motivação e finalidade, é precisamente a do consumidor satisfeito. Não tenhamos dúvidas de que o "consumidor satisfeito" seria uma catástrofe tão grave para ele próprio como para a economia consumista. Nada mais a desejar? Nada mais a procurar? Limitados ao que possuímos (logo ao que somos)? Tal situação - breve, se tudo correr bem - só poderia receber um nome de batismo: aborrecimento.

 

   A redução do ser humano a homo consumens, ou seja, a uma função inadvertida num processo económico de sentido totalitário, não só é limitativa da liberdade, como também da própria consciência de si e dos outros. A figura marxista da alienação denunciava, numa sociedade industrializada, o furto ou transferência objetiva do valor do trabalho. A figura do consumista, na nossa sociedade pós-industrial, representa uma forma nova de alienação da pessoa humana num processo económico em que ela serve a troco de objetivos materialistas a cuja busca ela é sistematicamente induzida. E esse passo dado, de ser para ter, a vai paulatinamente encerrando num egoísmo cego, que lhe tolhe o coração aos outros e lhe reduz o respeito por si mesma à capacidade do seu poder de compra. Ou ao "glamour" de qualquer possível exibicionismo.

 

   Entretanto, talvez por efeito do Prémio Nobel de Economia que lhe foi atribuído em 2017, o economista norte-americano Richard Thaler - tem ganho uma audiência internacional que os seus colegas em ciências sociais tardavam em dar-lhe. Sendo um dos pais (com Daniel Kahnerman, Amos Tversky, George Akerlof e outros) da dita economia comportamental, que se foi afirmando nos anos 80 do século passado, Thaler publicou, em 2015, com o título de Misbehaving - The Making of Behavorial Economics, um livro que resume as experiências que foram marcando o caminho da formação da economia comportamental como ramo da ciência económica que, contrariamente ao que afirma a teoria clássica, pretende que os seres humanos não agem racionalmente em função dos seus interesses individuais, mas, sim, da conjugação de fatores psicológicos, institucionais, culturais, históricos, biológicos... Ou seja: esta escola retorna a visão económica à sua circunstância social e cultural, não se fiando apenas nos modelos matemáticos construídos. Mas não será, então, básico reconhecer aí o ser humano, com suas frustrações e aspirações e, sobretudo, com essa parte de si que é insaciável e livre, de modo a que as propostas da ciência e da política económicas sejam mais libertadoras das pessoas e dos seus caminhos espirituais - e não mais, teimosamente, ir utilizando a perceção de comportamentos, suas motivações e condicionantes, para ir "aperfeiçoando" propostas de mais refinado "marketing" escravizante?

 

   Afinal, impõe-se reconhecer o valor, ou a necessidade, da ciência económica se ir debruçando sobre outras áreas circunstantes do próprio funcionamento ou intervenção do homo economicus, entidade abstrata, de que Richard Thaler já falava assim: O problema decorre do modelo utilizado pelos economistas, modelo esse que substitui o homo sapiens por uma criatura fictícia chamada homo economicus, e que, cá por mim, prefiro chamar econo. Mas fundamentalmente necessário, mesmo indispensável, será a conversão da ciência económica em ciência humanista, de modo a que, também na política, o ser humano seja o centro - e o bem comum a finalidade - do exercício e da regulamentação económica. Já em carta anterior, Princesa de mim, eu te perguntava por quem se lembre ainda do padre Lebret, dominicano francês, e do seu movimento, e escola, o tal chamado Économie et Humanisme...

 

    Todos nós diariamente ouvimos ou lemos acerca de orçamentos, défices, impostos, competitividade das empresas, produto nacional... mas quantos se lembrarão de que o número dos nossos irmãos portugueses que se encontram em situação de pobreza efetiva representa quase um quarto de todos nós? Para que serve tanta economia científica, diplomada e politizada? Podem apontar-me a dedo como idiota ou pateta - que talvez seja - mas tenham a caridade de responder à pergunta de Deus a Caim: Que fizeste de teu irmão?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS…

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XX) - 20 de agosto de 2017

 

Como foi a primeira grande crise financeira dos tempos modernos?

Oiçamos a história e pasme-se como a humanidade tem memória curta…

 

Em 1593, Carolus Clusius trouxe uns bolbos de túlipa de Constantinopla para Amesterdão, para os aplicar em fins medicinais. Perante a plantação que o botânico fez, os vizinhos, apercebendo-se da raridade e beleza da planta, roubaram diversos bolbos para com eles fazerem negócio… E assim nasceu uma autêntica corrida às túlipas – que, no início do século XVII, se tornaram sinal de estatuto social. Os preços dos bolbos de túlipa subiram e os especuladores perceberam que podiam lucrar com essa moda.

 

Os preços chegaram a valores astronómicos. Num só mês um bolbo passou a valer vinte vezes mais. A certa altura, a venda de um bolbo podia assegurar o sustento da tripulação de um navio durante mais de um mês.

 

Acontece que os bolbos só florescem 7 a 12 meses depois de plantados – e quando a floração acontece dura apenas uma semana na Primavera, aparecendo os bolbos no verão, de junho a setembro. Para obviar a esta dificuldade, os especuladores passaram a vender contratos sobre túlipas. Ao assinar o contrato o comprador assumia a obrigação de comprar uma túlipa no final da temporada – como hoje acontece nos contratos de futuros.

 

Em 1636 as bolsas holandesas negociavam bolbos e tulipas e os lucros eram fabulosos. Com os preços muito inflacionados estava-se perante uma bolha mercantil. Como normalmente acontece nestes casos, há um momento em que se descobre que os valores são absurdos e irreais.

 

No inverno de 1636-37, em Harlém, quando um negociante não honrou o seu contrato gerou-se o pânico e depressa os preços passaram para… um centésimo do que estava a ser praticado. A bolha tinha estourado… A crise das tulipas deu origem a uma depressão económica sem precedente e para evitar a miséria o governo foi obrigado a cobrir pelo menos dez por cento do valor dos contratos…

 

Convém, assim, não esquecer as lições da história. Sem criação de riqueza não pode haver prosperidade - e a ilusão gera a miséria.

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS…

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIX) - 19 de agosto de 2017

 

Esta também foi contada, cheia de pormenores, pelo António Alçada, como ilustração do analfabetismo da tecnocracia.

 

Millor Fernandes dizia que «a economia compreende toda a atividade do mundo. Mas nenhuma atividade do mundo compreende a economia». A este propósito recorda-se o célebre caso da não criação de porcos.

 

Abreviando razões, trata-se de um subsídio por cabeça para a não criação de porcos - e do requerimento para o efeito feito ao Ministro. Basta ler a parte final para entender tudo.

 

«Excelência. Estes porcos que não criaremos teriam comido 10 mil sacas de trigo. Ora, assegurando-nos que o governo indemnizará igualmente os agricultores que não cultivem o trigo. Nesta ordem de ideias, poderemos esperar que nos deem qualquer coisa pelas sacas de trigo que não serão cultivadas para os porcos que não criaremos. Ficar-vos-emos extraordinariamente reconhecidos se nos responder o mais rapidamente possível, porquanto julgamos que esta época do ano será a melhor para a não criação de porcos e, por isso, gostaríamos de começar quanto antes. Queira Vossa Excelência, Senhor Ministro, receber os protestos da maior consideração. P.S. – Excelência. Não obstante o exposto poderemos engordar 10 ou 12 porcos para nós, sem que isso venha a perturbar a nossa não-criação de porcos? Queremos assegurar que esses animais não entrarão no mercado e não significam mais do que a maneira de termos um pouco de toucinho e presunto para o inverno».

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins