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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 31 de maio a 6 de junho de 2021

 

«Ver é Ser Visto – Fragmentos Essenciais» é uma Antologia de Eduardo Lorenço (1923-2020), na qual se reunem alguns dos textos mais significativos do grande ensaísta.

 

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DE FORA PARA DENTRO…

Eduardo Lourenço sempre sentiu a necessidade de analisar a realidade cultural de fora e por dentro. A sua ideia de heterodoxia deparou-se, desde que surgiu, com múltiplas incompreensões – já que várias ortodoxias se sentiram atingidas. Procurando salvaguardar sempre a independência de espírito, causou em muitos dos seus leitores e investigadores sentimentos diversos e contrastados. Manteve-se, porém, fiel às inquietações fundamentais. Longe das certezas, sempre preocupado em pôr-se na pele do outro, considerou como necessário evitar conclusões simplistas, partindo da imperfeição humana e da responsabilidade de caminhar no exigente sentido de uma singularidade e de uma sociedade melhores. A escolha do ensaísmo, no caminho indicado por Montaigne, significa, aliás, a preocupação fundamental de procurar, a partir da reflexão pessoal, não uma ordenação do mundo, mas o entendimento da complexidade humana e das suas metamorfoses. E percebemos, assim, a influência de Sílvio Lima, mestre que encontrou na Alma Mater de Coimbra, e a aplicação de uma persistente análise que fez do método ao longo da vida, com engenho e inesgotável capacidade inovadora. Os textos que constituem a antologia procuram abranger momentos importantes do percurso do seu autor, começando pela definição da atitude independente e heterodoxa e pela referência fundadora da relação com a Europa e com o diálogo que então nos faltava (1949), colocando essa reflexão na continuidade de quantos portugueses recusaram fechar-se dentro das fronteiras, desde os renascentistas aos românticos, como Garrett e Herculano, até à complexa atitude de Antero de Quental e da sua geração, de quem se sentiu tão próximo sempre. E nesta linha repensa Portugal (num contexto existencial), glosa a conferência de Antero sobre as “Causas da Decadência”, interroga Oliveira Martins, analisa criticamente o papel dos mitos, desconstrói a saudade e o sebastianismo, encontra-se com o Camões histórico enquanto referência cultural perene e diversa, e mergulha numa reflexão sobre Fernando Pessoa, rei da nossa Baviera, aprofundando, à medida que mais se ia conhecendo a obra do poeta, a significação do seu lugar no tempo, para além da sua consideração portuguesa. A existência mítica e os caminhos vários que abre foram uma preocupação permanente do ensaísta, em busca da diversidade, da porta aberta, do melting pot português, do significado da nossa Nau de Ícaro (de um quadro de Breughel, o velho), das aventuras e desventuras migrantes, do País entre a realidade e o sonho, da língua projetada universalmente. Mas o sentido crítico, sempre muito agudo, levaria à reflexão sobre a Europa desencantada, labirinto de uma realidade necessária e frágil. E, por fim, nesta recolha, encontramos a relação pessoalíssima com a poesia – porque o ensaísmo de Lourenço procura insistentemente as intuições poéticas para deslindar o significado das ideias no mundo. Hölderlin diria “o que permanece / os poetas o fundam”. A amizade com Carlos de Oliveira obriga a explicações sobre “o sentido e a forma da poesia neorrealista”, a crítica e a metacrítica aprofundam a atitude criadora do autor, Camões é símbolo da nossa cultura e Antero revela a tensão essencial (bem presente neste ensaísmo) entre o pensamento e a utopia.

 

NOSTALGIA DA UNIDADE…

Eduardo Prado Coelho falou de uma nostalgia da unidade e do absoluto em Eduardo Lourenço. Num texto inédito de 1954, publicado pela revista “Relâmpago” (nº 22, 4-2008) (“Ísis ou a Inteligência”), o ensaísta diz: “a mitologia é a verdade dispersa, túnica rasgada de um deus morto a quem só podemos ressuscitar juntando com paciência piedosa todos os pedaços. Essa tarefa é superior às nossas forças”. É essa interrogação permanente sobre os mitos que nos revela uma das facetas mais originais do autor. Se bem virmos, é a desconstrução de mitos, como a saudade e o sebastianismo, ou como os excessos contraditórios sobre a nossa identidade, que permite avançar no sentido de uma ideia de emancipação individual ou coletiva. A melancolia ou o sonho não mobilizam vontades. Precisamos ir além da ilusão. É necessário “rever, renovar, suspeitar sem tréguas as imagens e os mitos que nelas se incarnam”. E o ensaísta é o primeiro a reconhecer uma certa ambiguidade no seu pensamento – expresso em fórmulas como “Poesia e Metafísica” e “Existência e Literatura” (no subtítulo de O Canto do Signo). Mas é a necessidade de entender a diversidade que o leva nesse sentido. “Perceber uma coisa é ver outra no lugar daquela que estamos vendo. Entender uma ideia ver outra no lugar dela. Sempre a ausência é o pano de fudo da presença, mas essa ausência é a grande presença”… “Ver é ser visto”. Esta consideração, sempre presente em Eduardo Lourenço, permite entender o seu sentido crítico, feito de contrapontos entre presença e ausência, entre eu e o outro. Daí a permanente perspetiva crítica e a nostalgia da unidade e do absoluto. São as grandes intuições de ordem global que considera primordiais, e é delas que parte análise dos fenómenos. E é assim que a poesia de Camões, Antero e Pessoa se projetam entre o sonho e a realidade, com a preocupação e evitar a tentação pura do abstrato.

 

CLARIFICAR O ENTENDIMENTO

Em entrevista concedida a António Guerreiro e publicada no citado número da revista “Relâmpago”, Eduardo Lourenço sente necessidade de clarificar a sua relação, falsamente empolada, com o tema Portugal: “Como os meus livros não têm uma sequência clara, muitos deles são muito marcados pela contingência, e são diversificados nos seus objetivos, acabo por não saber muito bem como é que eles são percebidos. Fundamentalmente, sou identificado com O Labirinto da Saudade. Este rótulo que me foi colado deve-se certamente ao facto de esse livrinho ser o único dos livros que suscita interesse por parte de gente dos mais diversos credos (…). E assim apareço eu investido de uma famosa preocupação por Portugal que é o contrário daquilo que penso ter escrito”. De facto, o ensaísta procurou libertar-se dessa simplificação. Mas esse rótulo também se alimentou “desta minha ideia diabólica e masoquista de querer sempre estar também do outro lado, inclusive do lado que me põe em causa”. E é certo que, contra a lógica de um só discurso, existente nas várias famílias ideológicas, o pensador “quis sempre dar uma chance a um discurso antagónico, contra o qual prossigo o meu combate mas que de algum modo integro no meu próprio discurso”.Os textos e as ideias encadeiam-se – numa procura permanente de posição e de sentido. A ordem é difícil de estabelecer – porque o ensaio é uma ginástica do espírito. O labirinto que o ensaísta percorre traz-nos a saudade não como melancolia ou como lembrança e desejo, mas como interrogação e dúvida, paradoxo e demanda de síntese. A paixão por Camões, Antero e Pessoa significa a procura de compreender a cultura como um diálogo permanente entre o sublime e a vida comum, a unidade e a diversidade... Eis o fascínio da leitura.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 8 a 14 de março de 2021

 

Eduardo Lourenço dirigiu a revista “Finisterra” durante mais de trinta anos e considerou esse título como uma metáfora, valendo a pena relembrar esse testemunho, no contexto de uma vida plena de reflexões sobre a importância política da ligação entre pensamento e ação.

 

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UM ETERNO RECOMEÇO

Quando apresentou a revista “Finisterra”, no Inverno emblemático de 1989, Eduardo Lourenço afirmou: “Finisterra: um sítio onde a História nos colocou como Europeus do Sul, prometidos a um futuro nem de nós mesmos suspeitado, lugar de margem, de isolamento, de sonho e de vertigem. Apesar das aparências, num mundo onde tudo é já centro e circunferência, este lugar que é ainda nosso, que nos fala antes que nós mesmos falemos como portugueses, é um lugar propício à consideração nua da nossa situação histórica, nacional, europeia, nos finais do século que conheceu mais metamorfoses que aquelas que nos precederam. Em todo o “fim” está inscrito o aspeto de um “começo”. Ou de um eterno recomeço». Eduardo Lourenço tem procurado compreender Portugal, em especial nos anos que precederam e se sucederam à revolução democrática, num momento decisivo em que a liberdade chegou com o fim do império. Contudo, escreveu não para recuperar o país, que não perdeu, mas para o «pensar» com a mesma paixão e sangue-frio intelectual com que pensava quando «teve a felicidade melancólica de viver nele como prisioneiro de alma». E pode dizer-se que suscitou de forma pioneira as questões fundamentais de uma identidade que se interrogava, no regresso ao cais de partida, quando havia que pensar a longa viagem, que passou a suscitar a exigência de “um eterno recomeço”. No final dos anos setenta, em «O Labirinto da Saudade», publicado para a revista «Raiz e Utopia», depois de concluir que a imagem ideal de nós mesmos era desadequada da realidade, disse ser chegada «a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal».

 

CONVERSÃO CULTURAL, OLHAR CRÍTICO

De facto, «não estamos sós no mundo, nunca o estivemos». A conversão cultural necessária teria de passar por um olhar crítico sobre o que somos e o que fazemos. É esse olhar crítico que nos conduz naturalmente aos fatores democráticos e ao humanismo universalista de que falava Jaime Cortesão. E assim podemos ler a uma luz nova “A Viagem a Portugal” de José Saramago, numa continuidade ibérica, tão bem entendida na memória de Miguel de Unamuno em Salamanca. Daí a importância do magistério de Eduardo Lourenço como um cultor natural dos Estudos Ibéricos, ou não fosse ele natural da raia beirã, onde se pode compreender bem a simbiose entre o ficar e o partir e a fronteira como lugar de encontro e diferença. Deste modo, percebemos bem como nos tornámos Todo o Mundo e Ninguém, do mesmo modo, aliás, como todo o Ocidente. E com o tempo, num movimento uniformemente acelerado, Portugal, a Europa e o mundo obrigaram-nos a repensar o destino como vontade, seguindo a lição da Conferência de Antero no Casino Lisbonense sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. E se falo da célebre geração de 70 é porque Eduardo Lourenço tem no seu código genético de pensador a marca fundamental de uma síntese fantástica que liga o grito dos jovens de Coimbra às Conferências Democráticas do Casino Lisbonense e ainda ao impulso futurista do Orpheu. E assim o cultor por excelência do ensaio na segunda metade do século passado procurou ligar a razão e o mito, o idealismo e o sentimento trágico da vida. E, hoje, acordados à força pelas crises (financeira e pandémica) percebemos que os impulsos que clamam «Indignai-vos!» foram profundamente sentidos pelo pensador. Eduardo Lourenço empunhou, assim, o estandarte europeu, com especial empenho, mas sem demasiadas ilusões: «A cada um sua utopia. Utopia por utopia, como europeu desiludido mas não suicida, prefiro ainda a de uma Europa apostada em existir segundo o voto dos que há meio século a sonhavam, não como uma continuidade óbvia de um passado “europeu” sem identidade, mas como uma aposta numa Europa, empírica e voluntariosamente construída pelas “várias europas” que são cada uma das suas nações».

 

COMPROMISSO E AÇÃO

Não é uma pseudo-América de segunda ordem que visamos ou que está em causa, mas uma saída que exige compromisso e ação. Daí a necessidade de pensar Portugal como vontade e como comunidade plural de destinos e valores, capaz de pôr em diálogo os mitos e a razão, procurando afastar a maldição do atraso. É esse o “eterno recomeço” que Eduardo Lourenço viu na metáfora de Finisterra. O enigma português não pode ser respondido ou encontrado através de qualquer simplificação – ora idealista, ora sentimentalista, ora materialista. Por isso, só a heterodoxia lourenciano permitiria fazer entender o nosso cadinho identitário, indo ao encontro da miscigenação, ligando as ideias e a emoção, e percebendo que a alternância cíclica do otimismo e do pessimismo, entre sermos os melhores ou os piores, nos obriga a assumir o mundo da vida, não como bipolaridade mas como desafio realista. Por isso, na Expo-98, falou de «maravilhosa imperfeição», ligando-a à complexidade e à diversidade. A obra do ensaísta procurou, por isso, pôr-se no outro lado das coisas, assumindo individualmente a missão, que aprendeu em Montaigne, de partir do eu, do incómodo eu, para o diverso outro. Foi, assim, heterodoxo lúcido em busca de mais luz (como Goethe), para poder perceber as diferenças, as particularidades e a universalidade do ser.

Não por acaso, Eduardo Lourenço é um cultor de paradoxos, ciente de que a cultura se enriquece pela capacidade de ver o mundo do avesso ou de fora e de olhar para além das aparências. «É a vida mesma que nos biografa – por isso é a nossa vida – e, escrevendo-se em nós, nos autobiografa sem que a ninguém, salvo essa vertiginosa musa, possamos imputar tão extraordinária façanha». Com o dom de usar as palavras para melhor as adequar ao mundo da vida, o ensaísta não esconde que a essência do género que cultiva, tem a ver com a confissão na primeira pessoa do singular. «Nisso quem está a menos, somos nós, e a vida tão excessivamente a mais que só a conhecemos por nossa nos intervalos em que a temos como se de outro fosse. Só os outros nos tiram retratos e só a coleção aleatória destas vistas ocasionais dos outros sobre nós ocasionalmente arquivadas, se isso valesse a pena, para termos mais tarde e acabada a vida que não nos tem, seria então um “autorretrato”». Em tempos, não por acaso, um grafólogo identificou na escrita do ensaísta «uma excessiva necessidade de outros», e o próprio, paradoxalmente, comparou-se a Judas, que precisava desesperadamente de Jesus Cristo… Voltando ao primeiro editorial de Eduardo Lourenço na revista “Finisterra”: “O futuro, (…) o próximo da cultura, sob todas as suas formas, é o de integrar essa nova condição de finisterreanos, e através dele o de relativizar, em função dessa nova exigência que já começou, todas as urgências, mesmo as mais imperativas, do que continuamos a pensar e a ler como aventura histórica inscrita e circunscrita no espaço natural, física e simbolicamente instável do planeta sublime que já comtemplamos do exterior.(…). Talvez pelo hábito de viver a nossa situação solitária de habitantes de Finisterra e a sua estranheza e mistério como naturais, nós estejamos mais aptos do que outros para vestir, compreender e nos reajustar a esta vertiginosa revolução do imaginário terrestre que tem lugar a nossos olhos”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

de 21 a 27 de dezembro de 2020

A Obra Completa de Eduardo Lourenço está em curso de publicação pela Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido publicado o volume IX “Pessoa Revisitado – Crítica Pessoana I (1949-1982)”, coordenado por Pedro Sepúlveda.


INCERTEZA E MISTÉRIO

Muito se disse já sobre Eduardo Lourenço, mas fica sempre quase tudo envolto numa aura de incerteza e de mistério. Em longuíssimas conversas sempre o senti proteger-se, cético perante as interpretações subjetivas sobre as quais não se detinha propositadamente. Mas sentia-se nele uma preocupação de distanciamento. Um pensador que se qualificou desde muito cedo como heterodoxo, dificilmente poderia deixar-se catalogar, percebendo que haveria tentativas de diversos lados para encerrar o seu percurso num caminho preconcebido. Ao cultivar o ensaísmo, tendo presente a inspiração de Montaigne (“aquela voz que não foi escutada na aventura espiritual portuguesa”) e o exemplo de Coimbra de Sílvio Lima, o escritor assumiu com clareza um subjetivismo dificilmente capturável em qualquer preconceito – até porque, mais do que género literário, Lima considerou, e bem, o ensaio mais como “atitude de ginástica do intelecto”. “Que sais-je?” - a expressão gravada na torre do cultor emblemático do ensaio sempre esteve presente, como interrogação autêntica na caminhada deste verdadeiro buscador de enigmas. Na expressão de Filomena Molder: “Há um trabalho prévio a fazer: pensar por si próprio o homem, o que o obriga a destacar-se do que recebeu e a abrir um caminho que não está traçado: a renúncia a qualquer recado, a qualquer mandato” (Expresso, 4.12.20). “Um ensaísta é alguém disponível para pensar o que merece ser pensado e mesmo o que não merece ser pensado”. Com este entendimento, compreende-se como Eduardo Lourenço partiu da filosofia em direção da literatura, sem nunca esquecer a importância da reflexão crítica e a necessidade de descobrir a identidade cultural através da ficção e da poesia. É certo que não foi um polemista como António Sérgio, mas encontramos preocupações comuns que os ocuparam a ambos, apesar das diferenças evidentes de personalidades e de atitudes. A verdade é que tiveram mestres comuns – entre os quais Antero de Quental e a geração de 1870 e os fundadores da modernidade nacional, Garrett e Herculano, do mesmo modo que ambos seguiram a interpretação do Portugal Contemporâneo sobre as duas políticas nacionais, da fixação e do transporte e sobre a demarcação relativamente ao sebastianismo.

UMA SÍNTESE NECESSÁRIA
É comum dizer-se que pensou Portugal como identidade e enquanto visão cíclica entre o passado glorioso e o pessimismo fatalista, mas a “psicanálise mítica do destino português” é mais do que isso, é uma síntese, que deve ser vista como uma releitura crítica dos mitos nacionais. Os excessos identitários exigiriam, sim, a consideração de que, regressados da grande viagem global, somos chamados a um novo tempo de exigência europeia e de consideração dos nossos limites e vantagens, como país de média dimensão, capaz de valorizar a educação, a cultura e a ciência. Contudo, apesar de uma longa existência vivida no estrangeiro, como exilado voluntário, nunca se considerou um “estrangeirado”, uma vez que não deixou de seguir intensamente a vida portuguesa, com a vantagem de não estar preso ao imediatismo e ao confronto das capelinhas. Considerou-se sempre como um português de alma e coração, sem a desvantagem da excessiva proximidade. E assim pôde tentar libertar-se das influências e dos rótulos. Apesar de descrer absolutamente das interpretações astrológicas, lembrava o seu nascimento no fim de maio e a pertença ao signo de Gémeos – e daí a diversidade de tabuleiros em que poderia agir. Sentia-se, afinal, de algum modo, pensador de várias perspetivas, o que seria muito útil no abrir de novas pistas que ajudariam a revelar, por exemplo, o caso de um outro Fernando Pessoa, percebendo que Alberto Caeiro era diferente de Álvaro de Campos ou de Ricardo Reis, e ainda mais de Bernardo Soares.


O ENIGMA PESSOA
O fascínio pelo enigma de Fernando Pessoa tornou-se fundamental – sendo Eduardo Lourenço quem revelou a figura icónica, como referência europeia e mundial, para além das leituras paroquiais que prevaleciam antes da revelação das suas intuições luminosas. É verdade que José Régio e a presença começaram a abrir a porta para a compreensão da grande riqueza cultural de Orpheu e de Pessoa como de Mário de Sá-Carneiro, mas pode dizer-se que é o autor de Pessoa Revisitado o grande revelador da extraordinária riqueza que tornaria o poeta de Mensagem um mito cultural de dimensão superlativa. A estratégia criadora de Fernando, rei da nossa Baviera, segundo o pensador, foi a de inventar vários sujeitos virtuais que tinham uma identidade virtual. Caeiro e Reis são produtos da ficção. E Pessoa foi assim libertado do universo que criou, assumindo, ele próprio, a sua identidade como mito. O criador e a sua criação tornaram-se sujeitos de um enigma comum, que o “ensaísta” pôde revelar. E a leitura crítica dos mitos torna-se o método original de Eduardo Lourenço. E, não por acaso, afirmará que Pessoa Revisitado tem “tudo o que penso e sou, é o meu romance”. E quem conhece a obra e a influência que exerceu na compreensão e na projeção urbi et orbi do poeta, sabe que só um interrogador de enigmas absolutamente genial poderia (como um grande poeta ou romancista) contribuir para uma melhor compreensão do mundo e do tempo, através de uma relação biunívoca da ficção com a realidade e da realidade com a ficção. Fabrizio Del Dongo, Emma Bovary, Anna Karenina, Natacha ou os Irmãos Karamazov ganharam alma pelo talento dos seus autores, e puderam existir mesmo… Se a crítica literária se tornou escrita poética em Eduardo Lourenço foi porque se libertou de uma dimensão puramente técnica, para se tornar literatura viva. E é essa a originalidade do crítico. A poesia “não tem outra tradução que ela mesma” – como na imagem de Borges segundo a qual o “mapa verdadeiro da Terra seria o mapa que tivesse o tamanho da Terra” (como o escritor recordou no diálogo com Ana Nascimento Piedade – Gradiva, 2015). E assim a crítica “vai sendo atravessada por referências ao objeto estético que é construído realmente pelo poeta” ou pelo romancista, num discurso equivalente à criação poética ou romanesca… Calderón de la Barca disse que “a vida é sonho” e chegamos à importância do mito. Fernando Pessoa torna-se para Eduardo Lourenço um caso de fixação e de osmose, em que o mito nasce da não-identidade e projeta-se para além da ilusão. O que são Campos, Reis e Caeiro no romance de Eduardo Lourenço? São textos. Caeiro, como irmão gémeo de Whitman, mas diferente de Whitman, Campos como uma referência propriamente mimética de Whitman. E eis-nos perante as duas culturas que originam a riqueza literária de Pessoa – a cultura anglo-saxónica (dos tempos da África do Sul) e a mitologia portuguesa - numa confluência de que resulta a ideia de que a verdadeira aristocracia é a da inteligência, e que constitui eixo de gravidade da obra pessoana. Se Pessoa Revisitado é o grande romance de Eduardo Lourenço, Antero de Quental, como poeta e como pensador e referência fundamental da cultura portuguesa, é o indiscutível mestre, ponte entre as raízes e a modernidade – moderno pela atenção que presta às ideias emancipadoras que revolucionam a Europa, e designadamente a paisagem cultural de França, sob o influxo do século das luzes e da revolução de 1789, mas igualmente ciente da importância da História, da tradição e do tempo longo, dos corsi ricorsi de Vico, que para o autor de O Labirinto da Saudade tinham uma importância fundamental. A “incompletude trágica”, de que fala Viriato Soromenho Marques (Expresso, cit.) que o pensador sentiu compreende-se na referência anteriana: “Antero quis beber o vinho novo da Revolução na antiga taça de uma Fé que todo o seu século – e ele mesmo - ajudara a quebrar. Ou inversamente, acreditou que a antiga aspiração encontrava o seu cumprimento nos combates novos sob a bandeira da justiça social” (Antero ou o Socialismo como Utopia, 1983). E assim podemos encontrar o nosso incansável pensador, embrenhado no enigma camoniano da procura do “português que tem tudo em nada”. O leitor insaciável continua a caminhar à nossa frente.   

   

 Guilherme d’Oliveira Martins
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NA MINHA ALDEIA NINGUÉM MORRIA SOZINHO

 

Afirmava Eduardo Lourenço, e acrescento: talvez porque lá os unia o passado e o presente das sementes. Talvez porque lá era a casa das memórias universais, daquelas memórias que só os poetas conhecem: memórias com alma e com destino que se encontram sempre no seio da música que, sem nada dizer, tudo diz, nessa experiência religiosa e bastante só de a escutar. E sim, lá onde e aonde se não morre sozinho, é mundo sem mácula, é punhado de inocência, é enfim, vida com as coisas essenciais reconhecidas.


Quando penso que já não há escolha no entender do morrer e que só os outros dizem do nosso morrer, penso que nem metade do que eu penso, saberei pensar, já que a morte me acompanha e sou eu que lhe faço vista grossa.


Na aldeia que conheci em Vilarinho das Furnas também nunca se soube que alguém tivesse morrido sozinho. A comunidade era total. Até se sabia partilhar a Lua no seu primeiro quarto, bem como a mantilha de neblina que lhe flutuava à volta antes de descer à povoação e tranquilamente passar o corpo pela terra enquanto planava. Assim também se adocicava fosse o que fosse acontecer enquanto se aprendia a morrer sem angústia.


Conversei com muitas gentes de aldeias vizinhas de Vilarinho e registei que poucos se preocupavam numa análise de aprendizagem dos enredos da morte. Parecia que intuíam que o custo de a compreender era inferior ao benefício de acudir ao medo que ela poderia provocar se atentasse contra o poder da comunidade. E de facto, consultar a morte era criar demora nos bois à pastagem, o que era inadmissível: para a súbita aflição, a presença de padre ou de vizinho, bastava para que a facilidade da passagem chegasse pronta na ponta de um olhar ou dos dedos de uma mão. E esta realidade acontecia sempre. Naquela aldeia ninguém morria sozinho, o que tornava a vida de uma leveza única.


Um dia sentada junto à água da barragem que cobriu esta aldeia, fazia eu ricochetear pedrinhas que ressoavam antes do mergulho final, e eis que um professor de uma escola dali de perto se aproximou e me perguntou:


- Porque afogas as pedrinhas? Não lhes escutas o mugido da morte sem companhia? Fingem que não sabem que o saltitar as não livra dela, tão só porque a não entendem, mas o mugido está acima do que se entende.


- Não sei se compreendi o que me disse. Venho de um local onde o poeta Graça Moura escreveu:


Quando eu morrer (…) fica junto de mim (…) segura na minha mão, põe os olhos nos meus se puder ser (…) que ao deixar de bater-me o coração fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura na minha mão.


Ou seja, neste local que bem conheço, a sociedade tem de apelar doridamente, e, melhor acredita no apelo, se ele for feito em nome do amor, para que o desaparecer da vida se faça na possibilidade de uma relação última e íntima com alguém.


O crucial nestes momentos, é a constatação do quanto, há muito, perdemos a simplicidade dos factos e dos processos que por tentativa e erro nos levariam à cor dos inícios dos entendimentos. Concede-se por mais não ser que ninguém leva consigo o pecúlio da vida, entre outras realidades, concede-se também que por excedentes ensimesmados, se morre só.


O mugido que menciona, não creio que se ouça, mas já ouvi falar dele e sei que existe e que de tão tremendo, enterraram-no debaixo das montanhas, lá longe, lá longe, lá muito longe.

 

Teresa Bracinha Vieira
Obs: Solicitou-se a reposição do presente texto já publicado neste Blogue em 13.06.19

EDUARDO LOURENÇO E DEUS

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1. Sobre o filósofo, o ensaísta, o pensador - um dos mais lúcidos do nosso tempo -, o crítico da arte, das múltiplas artes, nomeadamente da literatura e da música..., outros já falaram e escreveram.

Encontrei-o várias vezes e gostaria de deixar aqui breves reflexões sobre o tema em epígrafe, a partir de alguns desses encontros, sempre iluminantes para mim.

2.1. Participámos no Encontro de Lisboa, organizado pelo GOL - era então Grão-Mestre António Reis -, subordinado ao tema “Religiões, Violência e Razão”. E diz-me Eduardo Lourenço mais ou menos assim: Ainda bem que também cá está, porque se o meu avô me visse aqui...

A abrir o Encontro, falou da estranha crise contemporânea. Enquanto o Ocidente se desertifica de Deus, noutras culturas não só não há morte de Deus como, em vez da laicização, continuam na sua Idade Média, acreditando que o seu Deus é o verdadeiro e o Ocidente está em vias de perdição. De facto, o Ocidente teve um dinamismo incomparável, e a razão disso é que o seu debate foi sempre à volta de Deus. Noutras culturas, Deus é um dado e está no centro de tudo; no Ocidente, Deus tem sido uma interpelação infinita. Deus não é uma evidência, porque não é um objecto. Deus é o nome, precisamente enquanto anti-nome, da nossa incapacidade de captar o Absoluto, o modo de designarmos a nossa incapacidade de ocuparmos o seu lugar. O Ocidente é a procura e o debate à volta desta questão. É-se contra a objectivação de Deus, porque Deus-pessoa não é objectivável. Deste modo, o Ocidente afirma-se como procura da liberdade. Quando, noutras culturas, se dá a pretensão de apoderar-se de Deus, temos fanatismo.

E continuou, dizendo que, quando se dogmatiza, é para dominar. A perspectiva cristã caminha sobre outro chão. Aqui, Deus aparece como não violência, como puro amor, como espaço de liberdade absoluta. Sem Ele, as nossas liberdades não têm lugar. Ao revelar-se como amor, Deus mostra que, se a violência é o estado natural, a não violência é que é o mistério, e o que liberta é o não poder.

2.2. De outra vez, vínhamos de um debate, já tarde na noite, do Casino da Figueira para o hotel. E eu disse-lhe que o tinha citado num artigo, pois dissera ao EXPRESSO que lhe “pode acontecer rezar”. E ele: “Admira-se? Todas as pessoas rezam”.

2.3. Em 2016, estivemos de novo no Casino da Figueira, para um debate sobre “Utopia e distopias”. Nele, reflectiu sobre a herança europeia, atravessando a Grécia, a cristianização, o humanismo..., e desembocando nos nossos dias, com esta afirmação: a Europa “nunca esteve tão confrontada com um desafio tão novo”, e “o centro da crise está em França, que está a discutir se tem ou não identidade, e isso é de ficar aterrado”. Daí passou para o medo que a Europa enfrenta em relação ao mundo islâmico, considerando que “o maior aliado do islão é a Arábia Saudita, país que alimenta o cruzadismo que vem desse lado. Mas o mundo tornou-se tão pequeno que nada se pode pôr à margem”.

E ficou-me este aviso: A força e o poder de Vladimir Putin vêm-lhe de ele considerar “a Santa Rússia” como a última barreira contra a islamização da Europa.

2.4. Devo uma palavra de especial gratidão a Eduardo Lourenço pelo prefácio luminoso, logo no título: “Suicidário Ocidente”, seguido do dito célebre de Fernando Pessoa “Não haver Deus é um Deus também”, com que honrou o meu livro “Deus Ainda Tem Futuro?” (2014). Ficam aí alguns parágrafos.

“Enquanto Ocidente, o nosso mundo conhece uma desertificação religiosa sem precedentes e, na aparência, irremediável. Tal é o diagnóstico de Marcel Gauchet, um dos seus paradoxais exegetas inconformado com essa nova versão da tão glosada “morte de Deus”, vivência radical da ausência de sentido para a Vida em si mesma e nós nela. Distingue-se esta nova situação do canónico “ateísmo” que sob a figura da negação de Deus era ao mesmo tempo uma figura da certeza, a mais radical de todas.

... o conteúdo único daquilo que ainda chamamos “história humana” não explicita uma luta análoga a uma fábula à Saramago, um desafio mítico entre o Homem e Deus, mas uma luta sem fim do Homem consigo mesmo como o Outro, com a inconsciente esperança de que o vencedor dela seja enfim o Deus criador e todo-poderoso que nos forneceu o modelo da vontade de poderio que é a essência demoníaca da Humanidade.

Questão atrevida e que na verdade soa a blasfémia (ou soaria, se a formulássemos em terras do islão) esta, que sabemos grave e urgente como nenhuma outra para ocidentais em vésperas de descerem a novas catacumbas: Deus ainda tem futuro? Quando aquela, menos vertiginosa mas não menos apocalíptica, seria: O Homem, a Humanidade, ainda tem futuro?

... Não tardará muito que entremos no tempo da hipercomunicação com o mundo à volta convertido numa espécie de deserto ignorado dos antigos. Foi desta autodesertificação que a dúvida apenas formulável acerca de Deus pôde nascer. Não esperemos que o Deus imaginado por nós como sem futuro venha, como o Cristo de um célebre conto de Eça de Queirós, confirmar-nos que ainda está entre nós. Do silêncio de Deus que nós mesmos criámos não virá nenhum socorro. É diante dele como Ausência suposta e Presença agostinianamente mais interior a nós do que nós que somos convocados para fazer prova de vida. E de vida eterna. A única que nos ajuda a suportar todas as ausências dos que nesta vida nos foram, à maneira de Dante, reflexos de uma Luz mais clara do que a do sol e das estrelas.”

3. O Deus de Eduardo Lourenço era o Deus de Jesus e dos místicos.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 05 DEZ 2020

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)


A obra laurenciana constituirá para sempre um marco incontornável na história cultural.

A excelência do excesso que nos deixa o pensamento de Eduardo Lourenço será uma das constantes visíveis da situação humana.

A sua fascinação pela poesia e o convívio com ela suscitou em nós um entusiasmo de amor, força única, ao infindável combate de quem a escreve.

Eduardo Lourenço deu-nos sempre um porto a todos, ensinando-nos o não abolível entre consciência e mundo.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


EDUARDO LOURENÇO


Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”

Ergo-me todas as manhãs e ando na Acrópole. Aqui não sonho com nada. Aqui apenas estou. Aqui a minha idade é uma áurea entre mim e a poesia que dedilha tudo o que do homem ficará. Aqui, a música, numa relação de verdade que muito procuro entre ela e nela, único acesso à altura do meu mais alto tema.

Leio um passado para chegar ao presente: uma reflexão que transforma. Leio Eduardo Lourenço.

Ergo-me todas as manhãs para andar na Acrópole. Foi assim que iniciei o conhecer.

Apaziguou-me o ponto de partida para uma fuga que não foi afastamento, afinal uma pergunta ao mundo, sempre: o que foi o que vivi até hoje? O que me resume tanto que nada sei daquela lágrima que cai pesadamente enquanto a outra acena, e enquanto tudo, avaliamos na ideia do vento, todos os nossos pensamentos.

E quando o amanhecer no seu contexto é a realidade que me contém, experimento de novo o verso e reabro as palavras de E.L.

«Os autênticos poetas de uma época não são sempre aqueles que visivelmente o parecem, mas todos cuja obra é fonte de energia e impulso anímico, como queria Dilthey.»

Anda esta afirmação a regular o som dos sinos, não os distinguindo como côncavos ou convexos. E no entanto, no ouvido das ideias, deixa E.L. que se saiba que ele também diz:

‘Faço de tudo uma espécie de leitura poética, de puzzle da ficção. Unamuno pensava que Hegel era um grande filósofo porque era um grande poeta. E Heidegger entendia que os filósofos são, a seu modo, poetas’»

E ainda com a candeia de invulgar ensaísta:

«A poesia é na totalidade da nossa existência um sol fabricado mas a sua luz é a única que permite distinguir o que dura do que morre, o que é digno do homem e o que não o é.

«O que dura os poetas o fundam».

Eduardo Lourenço sempre leu os poetas de forma osmótica. Fernando Pessoa está quase sempre quando lê os outros poetas, entendendo-o como um bisneto de Shakespeare.

Estabelece E.L. um cosmos literário analisando também as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. Assim registei e confirmei no diálogo com quem o conhece de fundo.

Nestes tempos de plena cultura da imagem em que ser poeta continua a ser um dos grandes actos de coragem; nestes tempos em que somos mais do que perecíveis, acode Eduardo Lourenço com a sua enorme força-luz, como só um interlocutor capaz de falar a partir do destino da aventura poética, pode ter.

Muito obrigada a quem

Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”

 

Teresa Bracinha Vieira

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXIX) O LABIRINTO DA SAUDADE

“O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português” de Eduardo Lourenço (1978) é uma das obras fundamentais do século XX sobre a nossa identidade. O ensaio principal foi escrito para a revista “Raiz e Utopia” (5-6, 1978).

O ensaísta é um cultor de paradoxos, ciente de que a cultura se enriquece pela capacidade de ver o mundo do avesso e de olhar para além das aparências. «É a vida mesma que nos biografa – por isso é a nossa vida – e escrevendo-se em nós nos autobiografa sem que a ninguém, salvo essa vertiginosa musa, possamos imputar tão extraordinária façanha». Com um dom de usar as palavras para melhor as adequar ao mundo da vida, o escritor não esconde que a essência do género que cultiva, tem a ver com a confissão na primeira pessoa do singular. «Nisso quem está a menos, somos nós, e a vida tão excessivamente a mais que só a conhecemos por nossa nos intervalos em que a temos como se de outro fosse. Só os outros nos tiram retratos e só a coleção aleatória destas vistas ocasionais dos outros sobre nós ocasionalmente arquivadas, se isso valesse a pena, para termos mais tarde e acabada a vida que não nos tem, seria então um “autorretrato”».

Um grafólogo identificou na escrita do ensaísta «uma excessiva necessidade de outros», e o próprio comparou-se a Judas que precisava desesperadamente de Jesus Cristo. E aqui se sente o heterodoxo, incapaz de se deixar ficar ora na leitura racional e positiva dos acontecimentos, ora na tentação mítica ou ilusória das explicações das pessoas e do mundo. Em S. Pedro de Rio Seco está a origem dessa atitude de dúvida e de espanto. «Tenho consciência de que tudo me é pretexto para não falar de mim. Ou seja: para falar incessantemente de mim. É por isso que a minha escrita é lírica e passional» (JL, 6.12.86).

A saída da aldeia “foi a saída para o mundo exterior, a saída sem regresso». E a Guarda, primeiro destino, tornou-se como se fora Nova Iorque, o sinónimo do mundo – esse mundo que Thomas Mann representou na «Montanha Mágica» e que encontramos em Vergílio Ferreira. E essa adolescência vivida com naturalidade pôde assemelhar-se ao sublime. Afinal, «a interioridade é também um mito porque estávamos sempre no exterior de nós próprios» («25 Portugueses», 1999). Depois, vieram Lisboa e o Colégio Militar. Lisboa era o sítio ideal para acreditar que as caravelas continuavam a existir. E Eduardo Lourenço fez dessa experiência singular um modo de olhar a vida. Como em tudo, tira a boa lição, define distâncias, e avança para Coimbra cheio das ilusões dos dezassete anos. Na biblioteca, encontra Nietzsche, continua com Kierkegaard, entusiasma-se com Hegel e estuda Husserl. Joaquim de Carvalho e Sílvio Lima tornam-se referências que o marcam pelas ideias, pela atitude, pelo sentido crítico. Eugénio de Andrade encontra-o e lembra-o com Carlos de Oliveira («foi o Carlos que me apresentou o Eduardo»).

É o tempo do neorrealismo, que Eduardo Lourenço procura compreender, ressalvando a distância crítica. Há, no entanto, manifesta ambiguidade em quem se preocupa com a descoberta dos outros. O episódio da passagem da «Vértice» para o grupo neorrealista é ilustrativa da candura, e da confiança pessoal genuína em Carlos de Oliveira e Rui Feijó. E, nessa demarcação de território, «Heterodoxia» surge como algo de natural. Vitorino Nemésio dirá tratar-se de um livro «juvenil e ardente, concatenado com saber e amor da exatidão, e escrito com um nervo e uma elegância que farão inveja a muitos prosadores brevetados» (Diário Popular, 28.6.50). As reações foram contraditórias – houve quem lesse com entusiasmo e quem julgasse tratar-se de uma traição (mesmo sem profissão de fé anterior)… O curso histórico confirma a clarividência.

Em 1953 parte, mas recusa a condição de exilado. É apenas emigrado. «Como é que um homem nascido em S. Pedro de Rio Seco pode ser outra coisa que não português?» (JL, 6.12.86). Não aceita ser estrangeirado - «Não, não aceito. Fico furioso. Fico desesperado» (Ibidem). De facto, o seu método é o de olhar de dentro, mesmo estando de fora. «Exílio verdadeiro, o autor destas reflexões só o conheceu no interior do seu país». Paris, Hamburgo, Heidelberg, Montpellier, Salvador da Bahia. «Gostei muito de estar na Alemanha. Sobretudo em Heidelberg. Mais tarde arrependi-me de não ter aí ficado…» (Expresso, 23.9.95). Depois, Grenoble, Nice, Vence. Mas continua atentíssimo ao que se passa em Portugal.

São fundamentais os seus textos em «O Tempo e o Modo». Sentem-se, sobretudo após 1958, 1961 e 1968, os sinais da transição, lenta e com sintomas contraditórios. «O fascismo existiu e com uma perfeição quase absoluta. Mas não existiu nunca como a maioria da oposição democrática o pensou antes do 25 de Abril, e a ela continua a referir-se uma parte da classe política triunfante, simplificando-o com a espécie de violência infantil que se reserva aos papões que deixaram de meter medo». Eduardo Lourenço procura compreender Portugal quando a liberdade chega com o fim do império. Escreve não para recuperar o país, que não perdeu, mas para o «pensar» com a mesma paixão e sangue-frio intelectual com que pensava quando «teve a felicidade melancólica de viver nele como prisioneiro de alma».

Em «O Labirinto da Saudade», conclui que a imagem ideal de nós mesmos era desadequada da realidade, sendo chegada «a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal. Não estamos sós no mundo, nunca o estivemos». A conversão cultural necessária passa por um olhar crítico sobre o que somos e fazemos. Portugal, Europa, mundo obrigam a repensar o destino como vontade, seguindo a lição perene de Antero e dos seus… O ensaísta tem no seu código genético a marca fundamental de uma síntese fantástica que liga o grito de Antero e dos jovens de Coimbra e do Casino Lisbonense ao impulso futurista de Pessoa e do “Orpheu”, menos no imediato, mais no largo prazo, de quem procurou ligar a razão e o mito, o idealismo e o sentimento trágico da vida. Pensa Portugal como vontade e como comunidade plural de destinos e valores, pondo em diálogo os mitos e a razão e procurando afastar a maldição do atraso.

O enigma português, em suma, não pode ser respondido ou encontrado através de qualquer simplificação – ora idealista, ora sentimentalista, ora materialista. Sá de Miranda e Herculano representam que mais vale quebrar que torcer. Camões a força criadora. Garrett a imaginação lírica. Fernão Mendes Pinto simboliza a fértil aventura ao encontro do mundo. O Padre António Vieira interroga a Deus e invetiva-o. Camilo e Eça retratam as diversas faces contraditórias da pátria. E a utopia torna-se horizonte de crítica e de exigência, e nunca fuga à realidade.

Artífice de uma heterodoxia fecunda, Eduardo Lourenço é hoje uma das consciências culturais, morais e cívicas da Europa contemporânea, ao lado de Edgar Morin, de Claudio Magris ou de Jürgen Habermas. Só a heterodoxia permite entender o nosso melting-pot, indo ao encontro do cadinho da miscigenação, ligando a razão e a emoção, percebendo a alternância cíclica do otimismo e do pessimismo. É a «maravilhosa imperfeição» como marca de complexidade e diversidade.

GOM

 


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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de setembro de 2019

 

Acaba de ser publicado “Antero, Portugal como Tragédia”, volume VII das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2019) com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins. Trata-se de uma obra fundamental, na qual é o grande ensaísta que se apresenta na lógica sequência do grande Mestre que foi Antero de Quental.

 


GRANDE INTÉRPRETE DE PORTUGAL
Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. E se é um português que fala, o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não providenciais ou mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. Para o ensaísta, Antero de Quental é a maior referência intelectual portuguesa e o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano. E assim Antero marcou o começo da nossa modernidade, sendo o seu verdadeiro fundador. As Conferências Democráticas, as Causas da Decadência, mas também o pensamento filosófico são marcos decisivos que se projetam na modernização e na abertura da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa. Mas Eduardo Lourenço chama-nos a atenção para que não devemos esquecer quantos ainda se opõem a Antero e ao que ele continua a significar: “a visão unanimista da Geração de Setenta que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos e antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que com matéria viva o atravessaram”. E pode dizer-se que este alerta é válido para Antero e para Eduardo Lourenço, uma vez que uma leitura atenta do ensaísmo do autor de “O Labirinto da Saudade” está muito longe de simplificações, quiçá providencialistas, que quer Antero quer Lourenço sempre recusaram. O autor de «Portugal como Destino» é uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e nunca fechada numa qualquer fortaleza encerrada no egoísmo e no preconceito. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade ou o idealismo e a emotividade dramática e poética.

 

A PROCURA DAS RAÍZES
É a imagem e a miragem da lusofonia que têm de ser encaradas a partir da «chama plural» que leva a entender que língua alguma é invenção do povo que a fala, já que é a fala que o inventa. Sob a influência inequívoca de Antero de Quental, como reconheceu em «Poesia e Metafísica», o pensador exprime a sua grande admiração pelo facto de o voluntarismo do autor dos «Sonetos» não abdicar «da referência ética, no sentido mais radical, e esta, por sua vez, só encontra o seu fundamento na referência metafísica e o seu cumprimento como ideal último naquela aspiração que ele designou de “santidade”. Que no final da sua vida a tenha concebido mais sob a forma budista que cristã nada retira à exigência que nela se encarna. A esse título, Antero é o único intelectual comprometido com a ação que não transigiu com o comum espírito do seu tempo. No entanto, «os homens de alta exigência ética e mística – e Antero foi um deles – são sempre um pouco arcaicos» - como salienta, com aguda lucidez, num tempo demasiado carregado de leituras fechadas e definitivas. E se falamos da importância de uma geração que só por ironia pode ser qualificada de vencida, tão grande foi a sua influência, como só acontece para situações absolutamente excecionais, temos ainda de voltar ao facto de ter sido Eduardo Lourenço a ver no «universo» de «Orpheu» o que vai muito para além da circunstância em que se afirmou.

 

O QUE TÍNHAMOS A PROVAR, PROVÁMOS
Mas o ensaísta de «Labirinto da Saudade» é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. Portugal é uma série de milagres. Herculano chamou-lhe vontade. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural, sempre. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. Premonitoriamente, em nome da geração nova foi Antero de Quental quem definiu o programa positivo, que nunca poderá ser confundido com qualquer lógica de “vencidismo”. Se dúvidas houvesse, aqui está o corolário lógico da análise das causas da decadência. Só o sentido crítico permitirá retomar um caminho positivo de transformação e de progresso. Para muitos, depois da dureza do discurso, fica a surpresa pela determinação conclusiva. E pode dizer-se que o ensaísmo de Eduardo Lourenço assenta nesta extraordinária visão – que mais atrás se encontra em Garrett e Herculano e que se traduz na vivência dos fatores democráticos na formação de Portugal que o melhor ensaísmo do século XX desenvolveu. É a fidelidade de Antero à memória, é a compreensão da força das raízes, é a exigência da radicalidade crítica da modernidade que aqui se sente: «Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular espetáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía (…) ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização. Chamou-se a isto o Cristianismo. Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

NA MINHA ALDEIA NINGUÉM MORRIA SOZINHO

 

Afirmava Eduardo Lourenço, e acrescento: talvez porque lá os unia o passado e o presente das sementes. Talvez porque lá era a casa das memórias universais, daquelas memórias que só os poetas conhecem: memórias com alma e com destino que se encontram sempre no seio da música que, sem nada dizer, tudo diz, nessa experiência religiosa e bastante só de a escutar. E sim, lá onde e aonde se não morre sozinho, é mundo sem mácula, é punhado de inocência, é enfim, vida com as coisas essenciais reconhecidas.

 

Quando penso que já não há escolha no entender do morrer e que só os outros dizem do nosso morrer, penso que nem metade do que eu penso, saberei pensar, já que a morte me acompanha e sou eu que lhe faço vista grossa.

 

Na aldeia que conheci em Vilarinho das Furnas também nunca se soube que alguém tivesse morrido sozinho. A comunidade era total. Até se sabia partilhar a Lua no seu primeiro quarto, bem como a mantilha de neblina que lhe flutuava à volta antes de descer à povoação e tranquilamente passar o corpo pela terra enquanto planava. Assim também se adocicava fosse o que fosse acontecer enquanto se aprendia a morrer sem angústia.

 

Conversei com muitas gentes de aldeias vizinhas de Vilarinho e registei que poucos se preocupavam numa análise de aprendizagem dos enredos da morte. Parecia que intuíam que o custo de a compreender era inferior ao benefício de acudir ao medo que ela poderia provocar se atentasse contra o poder da comunidade. E de facto, consultar a morte era criar demora nos bois à pastagem, o que era inadmissível: para a súbita aflição, a presença de padre ou de vizinho, bastava para que a facilidade da passagem chegasse pronta na ponta de um olhar ou dos dedos de uma mão. E esta realidade acontecia sempre. Naquela aldeia ninguém morria sozinho, o que tornava a vida de uma leveza única.

 

Um dia sentada junto à água da barragem que cobriu esta aldeia, fazia eu ricochetear pedrinhas que ressoavam antes do mergulho final, e eis que um professor de uma escola dali de perto se aproximou e me perguntou:

 

- Porque afogas as pedrinhas? Não lhes escutas o mugido da morte sem companhia? Fingem que não sabem que o saltitar as não livra dela, tão só porque a não entendem, mas o mugido está acima do que se entende.

 

- Não sei se compreendi o que me disse. Venho de um local onde o poeta Graça Moura escreveu:

 

Quando eu morrer (…) fica junto de mim (…) segura na minha mão, põe os olhos nos meus se puder ser (…) que ao deixar de bater-me o coração fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura na minha mão.

 

Ou seja, neste local que bem conheço, a sociedade tem de apelar doridamente, e, melhor acredita no apelo, se ele for feito em nome do amor, para que o desaparecer da vida se faça na possibilidade de uma relação última e íntima com alguém.

 

O crucial nestes momentos, é a constatação do quanto, há muito, perdemos a simplicidade dos factos e dos processos que por tentativa e erro nos levariam à cor dos inícios dos entendimentos. Concede-se por mais não ser que ninguém leva consigo o pecúlio da vida, entre outras realidades, concede-se também que por excedentes ensimesmados, se morre só.

 

O mugido que menciona, não creio que se ouça, mas já ouvi falar dele e sei que existe e que de tão tremendo, enterraram-no debaixo das montanhas, lá longe, lá longe, lá muito longe.

 

Teresa Bracinha Vieira