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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

NA MINHA ALDEIA NINGUÉM MORRIA SOZINHO

 

Afirmava Eduardo Lourenço, e acrescento: talvez porque lá os unia o passado e o presente das sementes. Talvez porque lá era a casa das memórias universais, daquelas memórias que só os poetas conhecem: memórias com alma e com destino que se encontram sempre no seio da música que, sem nada dizer, tudo diz, nessa experiência religiosa e bastante só de a escutar. E sim, lá onde e aonde se não morre sozinho, é mundo sem mácula, é punhado de inocência, é enfim, vida com as coisas essenciais reconhecidas.

 

Quando penso que já não há escolha no entender do morrer e que só os outros dizem do nosso morrer, penso que nem metade do que eu penso, saberei pensar, já que a morte me acompanha e sou eu que lhe faço vista grossa.

 

Na aldeia que conheci em Vilarinho das Furnas também nunca se soube que alguém tivesse morrido sozinho. A comunidade era total. Até se sabia partilhar a Lua no seu primeiro quarto, bem como a mantilha de neblina que lhe flutuava à volta antes de descer à povoação e tranquilamente passar o corpo pela terra enquanto planava. Assim também se adocicava fosse o que fosse acontecer enquanto se aprendia a morrer sem angústia.

 

Conversei com muitas gentes de aldeias vizinhas de Vilarinho e registei que poucos se preocupavam numa análise de aprendizagem dos enredos da morte. Parecia que intuíam que o custo de a compreender era inferior ao benefício de acudir ao medo que ela poderia provocar se atentasse contra o poder da comunidade. E de facto, consultar a morte era criar demora nos bois à pastagem, o que era inadmissível: para a súbita aflição, a presença de padre ou de vizinho, bastava para que a facilidade da passagem chegasse pronta na ponta de um olhar ou dos dedos de uma mão. E esta realidade acontecia sempre. Naquela aldeia ninguém morria sozinho, o que tornava a vida de uma leveza única.

 

Um dia sentada junto à água da barragem que cobriu esta aldeia, fazia eu ricochetear pedrinhas que ressoavam antes do mergulho final, e eis que um professor de uma escola dali de perto se aproximou e me perguntou:

 

- Porque afogas as pedrinhas? Não lhes escutas o mugido da morte sem companhia? Fingem que não sabem que o saltitar as não livra dela, tão só porque a não entendem, mas o mugido está acima do que se entende.

 

- Não sei se compreendi o que me disse. Venho de um local onde o poeta Graça Moura escreveu:

 

Quando eu morrer (…) fica junto de mim (…) segura na minha mão, põe os olhos nos meus se puder ser (…) que ao deixar de bater-me o coração fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura na minha mão.

 

Ou seja, neste local que bem conheço, a sociedade tem de apelar doridamente, e, melhor acredita no apelo, se ele for feito em nome do amor, para que o desaparecer da vida se faça na possibilidade de uma relação última e íntima com alguém.

 

O crucial nestes momentos, é a constatação do quanto, há muito, perdemos a simplicidade dos factos e dos processos que por tentativa e erro nos levariam à cor dos inícios dos entendimentos. Concede-se por mais não ser que ninguém leva consigo o pecúlio da vida, entre outras realidades, concede-se também que por excedentes ensimesmados, se morre só.

 

O mugido que menciona, não creio que se ouça, mas já ouvi falar dele e sei que existe e que de tão tremendo, enterraram-no debaixo das montanhas, lá longe, lá longe, lá muito longe.

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - IX

 

Minha Princesa de mim:

 

   Porém se eu ousasse e as minhas palavras tivessem muitas cãs, elas abririam este coração onde jazem algumas coisas que sente, e a tenra idade não quer que diga... Este misterioso passo da Crónica do Imperador Clarimundo de João de Barros, o  autor das Décadas da Índia, surge-me do século XVI e faz-me pensarsentir em dantes e muito para além do episódio daquele romance de cavalaria, em que o imaginário imperador da Hungria e raiz da linhagem dos reis de Portugal, recebe um escudo pintado, como assim resume Eduardo Lourenço no seu Clarimundo: simbologia imperial e saudade (em Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade (Gradiva, 1999): Fanimor enviara a Clarimundo um escudo pintado, tendo no centro uma ilha escondida por nuvens, alegoria do império do mar, ainda por vir. Agora, na última parte fá-lo passar pelos Açores e aí lhe anuncia que um dia estas ilhas pertencerão a um senhor do seu sangue. É nesta ocasião que Barros se refere com insistência à figura mais misteriosa da sua narrativa, àquele que ele chama «o filho do bravo leão e da mansa cordeira», que, em princípio, só pode ser o infante Dom Henrique. Como sabes, e sobre tal já te escrevi, não sou um adepto da tecelagem de considerações sobre qualquer identidade nacional entendida como fruto da ou a própria constituição histórica duma personalidade a que chamamos nação ou raça. Daí que possa subscrever sem hesitação o seguinte trecho de Eduardo Lourenço:

 

   É tentador assimilar o destino de um povo ao do indivíduo, com o seu nascimento, a sua adolescência, maturidade e declínio. A analogia organicista é, naturalmente, falaciosa. Nem a povos ou civilizações extintos o paradigma humano se aplica. O tempo do indivíduo, a leitura que ele faz do seu percurso, pode ajustar-se a esse processo de surgimento, afirmação e desaparição. Um povo tem igualmente uma história e, por comodidade hermenêutica, pode ser tentado a ler o seu percurso em termos subjetivos de afirmação de si, de presença mais ou menos forte entre os outros ou de existência precária ou ameaçada neste ou naquele momento. Mas o tempo dessa história não é, como o dos indivíduos, percebido ao mesmo tempo como finito e irreversível. O tempo de um povo é trans-histórico na própria medida em que é «historicidade», jogo imprevisível com os tempos diversos em que o seu destino se espelhou até ao presente, e que o futuro reorganizará de maneira misteriosa.

 

   Cada povo só o é por se conceber e viver justamente como destino.

 

   Creio ser importante repetirmo-nos, nos dias hodiernos, esta frase, como motor e meta de meditação. Por duas razões fundamentais: antes do mais, porque a nossa identidade comunitária, enquanto povo e nação, deverá, necessariamente, orientar-se e definir-se em função de um projeto de vida e justiça comum; depois, porque a própria legitimidade da nossa existência política (como estado-nação organizado) já não é atributo nem consequência de linhagem, mas justifica-se pela vontade democrática de construção da casa comum. Hoje, nenhum português pretenderá radicar a linhagem nacional num qualquer Borgonha filho do imperador Clarimundo e de sua mulher Clarinda, por via da qual ele será feito imperador de Bizâncio, sucedendo a seu sogro. Nem romano algum tratará mais do que como ficção literária ou artística a pretensa ascendência da genealogia lendária de Roma ao navegante Eneias. Não há passado verdadeiramente constitutivo da unidade política de um povo se não houver projeto de destino comum de e para quem vive hoje aqui. Pensossinto que uma nação tem necessariamente, como Janus, duas faces: uma vira-se para trás e olha o caminho percorrido; outra está voltada para a frente, perscruta o porvir, em busca da Cidade onde todos poderão conviver melhor e encontrar a felicidade possível.

 

   Por isso também as propostas desses movimentos nacionalistas xenófobos que por aí vêm pululando me parecem, muitas vezes, não só injustas mas violadoras de princípios elementares da cultura de inspiração cristã que ainda nos anima. Além de que, ansiosos por acordarem fantasmas que depois possam espantar incarnados em pessoas, geram muita confusão e pouco tino. Na verdade, a «descristianização do ocidente» não é obra de imigrantes oriundos de outras culturas, senão desgaste nosso. A mutação das nossas paisagens demográficas tampouco se pode fundamentalmente atribuir à presença de outros entre nós, pois mais decorre da nossa baixa natalidade e envelhecimento das populações nativas. E se nos pensarmos dentro da humanidade como um todo, talvez sintamos mais gravosa e preocupante a submissão das nossas sociedades (até incluindo nestas os recém vindos) ao materialismo consumista reinante do que a oportunidade de trabalharmos em aculturações de valores humanos e tradições diferentes. Aliás, tal tarefa é hoje inevitável, dada a trama alastrante das redes de informação e comunicação, de contactos e trocas várias em todo o mundo. Não mais vivemos em período de descobrimentos e conquistas europeias pelo mundo fora, nem de proposição e imposição de valores religiosos, éticos ou culturais do "Ocidente", ou das suas instituições jurídicas e políticas, em todo os lados da terra. Mas se muito de tudo isso foi ficando por toda a parte, também por lá muito o "Ocidente" descobriu e adotou. Aos encantos orientais do nosso século XIX - fascínios do Egipto, da Mesopotâmia, Magrebe ou Palestina, bem como da Índia, da China e do Japão -, que entretiveram a curiosidade das nossas sociedades abastadas e diletantes, sucederam já as modas assimiladas do ioga, da filosofia e da gastronomia extremo orientais... Para não contarmos agora os astros chineses e japoneses da nossa música clássica (maestros, cantores, pianistas, violinos, etc.) E para não falarmos do êxito, nos nossos países, da música latino-americana ou, mais simples e genuinamente, africana. São hoje inúmeros os exemplos de inculturação, e ainda bem que assim é: aprendemos todos, uns com os outros. E há mais: a revista mensal Books, por exemplo, na sua edição deste mês de maio de 2019, faz uma resenha da versão francesa (L´Âge de la colère. Une histoire du présent) do último livro do ensaísta indiano Pankaj Mishra, e refere os elogios que o mesmo recebe do universitário paquistanês (repara, Princesa de mim, paquistanês e muçulmano) Ali Ahmed, no jornal diário Dawn:

 

   «Tendo tido a vantagem de crescer num mundo (perpetuamente) em desenvolvimento, compreendo a modernidade, tal como Mishra, como podendo ser um projeto não viável se perseguir o interesse pessoal quebrando todos os laços de fraternidade».

 

   E eu pergunto: não estaremos todos nós, afinal, a viver num mundo em vias de desenvolvimento? Já ninguém leva a sério as teorias do fim da História. Esta continua, num mundo composto de mudança, tomando sempre novas qualidades... Por vezes surpreendentes! As resistências ao surto e assimilação de uma nova cultura comum a todos -  ou, se preferires, à inculturação de valores constituintes de uma ética de referência para o futuro - surge, por vezes, de onde menos se espera. O filósofo André Comte-Sponville assina, na revista Le Monde des Religions de maio-junho deste ano, um artigo intitulado Dieu est Femme, donde te traduzo alguns trechos: Cada um de nós sabe bem que não é suposto Deus ter um corpo e, portanto, um sexo. Mas todos falamos dele no masculino, e a língua, como sempre, estrutura o imaginário. As deusas, para nós, fazem parte da mitologia, isto é, do passado. Deus, do presente ou da eternidade. Eis um dos raros pontos em que o monoteísmo opera uma espécie de regressão, pela exclusão de qualquer divindade feminina. «Pai Nosso que estais no céu...» Nesse céu mais não vemos do que uma metáfora. Mas quanto à paternidade divina? Porque não «Mãe Nossa»? Tal seria perfeitamente concebível teologicamente. Na prática, todavia, não é nada assim. Cada uma das três «pessoas» da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo) se dizem também no masculino. Poderão objetar que a Virgem Santíssima... Mas eis que esta, precisamente, não é Deus: contenta-se com ser virgem e mãe, o que diz muito sobre o ideal feminino que a Igreja veicula...   ...Entre os crentes, as mulheres são, pelo menos, tantas quanto os homens, e muitas vezes mais praticantes; mas quase sempre em situação de inferioridade ou de subordinação hierárquica no seio das instituições religiosas. Assim se fecha a ratoeira: numa sociedade patriarcal, atribui-se a Deus uma ilusória masculinidade; depois, faz-se da masculinidade, em matéria de culto, uma espécie de privilégio que reforça o patriarcado. «Senhor Padre» («Mon Père», em francês, ou «Meu Pai»), assim falamos ao padre católico, e também isso diz muito, tal como a tola recusa, tantas vezes reiterada, de ordenar mulheres...   ... «A mulher é o futuro do homem», dizia Aragon. E, por aí também, o futuro das religiões. Tanto pior para aquelas que não o quiserem compreender, ou o compreenderão tarde demais.

 

   Virginie Larousse, chefe da redação da mesma revista, escreve em editorial da edição citada: «Há grandeza em ser-se apóstolo. Eles eram eminentes por causa das suas obras, por causa do seu êxito. Glória a eles! Quão grande deve ter sido a sageza desta mulher, para ser considerada digna do título de apóstolo.» Não, não estamos a sonhar: trata-se mesmo de uma mulher apóstolo, de acordo com as próprias palavras de S. João Crisóstomo (344-407), arcebispo de Constantinopla e doutor da Igreja. A mulher a que se refere é citada por Paulo na sua Epístola aos Romanos. No final dessa carta, o apóstolo saúda muitas pessoas que deram uma boa mão à Igreja nascente. «Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de cativeiro: são apóstolos marcantes que me precederam em Cristo» (Rom.16, 7).

 

   Nunca ouviram falar desta mulher? Era de esperar, porque a tradição foi progressivamente fazendo dela um homem... Todavia, durante séculos se soube que Júnia era mulher - como assim o provam as palavras de João Crisóstomo. Até que, no século XIX, sábios entendessem ser impossível considerar «apóstolo» uma pessoa do sexo fraco. E começa-se a transformar o nome próprio dela em «Junias», patronímico masculino, e até a propor-se uma nova tradução -incorreta gramaticalmente - daquele passo da Epístola (cf. o estudo de Eldon Jay Epp, professor na Divinity School da Universidade de Harvard, Junia, uma mulher apóstolo ressuscitada pela exegese, em Labor et Fides, 2014).

 

   Os tempos e modos hodiernos, contudo, não parecem muito entusiastas na defesa do patriarcado, eufemismo significando superioridade masculina, mesmo no seio do Vaticano: veja-se, por exemplo, a demissão, por iniciativa própria, da equipa de redatoras do suplemento feminino do Osservatore Romano, Donne Chiesa Mondo. Tal como, curiosamente, nos devemos recordar de que, apesar de todos os preconceitos respeitantes à condição feminina ainda ativos no mundo islâmico, muito, ali também, vai mudando. Designadamente nas comunidades residentes em democracias plurais, que procuram identificar-se nessas circunstâncias. Apesar de, já há 1400 anos, o Islão autorizar mulheres imãs, isto é, presidentes e condutoras de assembleias de orantes, só muito recentemente se tem assistido ao revigorar dessa prática, designadamente pela fundação de mesquitas com espaços de oração comuns a ambos os sexos, cuidando embora da disposição dos participantes, já que o exercício físico das preces muçulmanas a tal precaução aconselhará... Os respetivos imãs (chamemos-lhes "párocos") tanto podem ser homens como mulheres que se revezam, como só homens ou só mulheres. Seja como for, esta prática, não só abre às mulheres uma participação mais ativa e igualitária na vida religiosa comunitária, como, finalmente, lhe reconhece um estatuto social que poderá repercutir-se na sua vida empresarial e política.

 

   Confesso que me é difícil entender como é que a Igreja Católica, maioritária em sociedades onde tantas mulheres exercem já funções dirigentes, na política, empresas, magistratura, forças armadas e tantas profissões, continua a vedar-lhes o acesso a funções pastorais...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 7 a 13 de janeiro de 2019

 

«Tempo Brasileiro – Fascínio e Miragem» de Eduardo Lourenço (Fundação C. Gulbenkian, 2018) é o quarto volume das Obras Completas do grande ensaísta.

 

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UM TEMPO BRASILEIRO

“Há muitos Brasis no Brasil, múltiplas faces que se revelam sobretudo nas diversas imagens criadas pelos seus autores mais representativos, como Eduardo Lourenço sublinhou na altura da atribuição do Prémio Camões a Jorge Amado, ‘para o mundo inteiro, nenhum é ‘tão Brasil’ como Amado’. O autor de Gabriela plasmou ‘qualquer coisa de primordial, uma autêntica mitologia que é impossível julgar no horizonte ‘esteticista’ do puro literário’. E foi essa ‘mitologia solar tão brasileira, mas sobretudo tão baiana’, que Jorge Amado exportou ‘para o mundo inteiro’”. Quem o afirma é Maria de Lourdes Soares na introdução ao quarto volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2018), que leva por título Tempo Brasileiro: Fascínio e Miragem. O volume, feito com extremo cuidado e um conhecimento muito seguro das realidades brasileira e portuguesa e da obra do ensaísta, revela-se uma preciosidade, uma vez que há um vai-e-vem permanente entre as duas margens do mundo da língua portuguesa. E vamos assistindo, ao longo do tempo, a uma evolução no pensamento do analista relativamente a um diálogo cultural pleno de aproximações e afastamentos, de entendimentos e distâncias. E ninguém melhor do que Eduardo Lourenço para retratar esta relação, tão cheia de complexos, ressentimentos e contradições. Desde o momento em que o pensador chega ao Brasil, para aí ficar durante um ano na Bahia (1958-59), até aos dias de hoje, houve um caminho de afinação permanente de entendimento e de perspetiva, em que o melhor conhecimento da realidade vital, para além, da dimensão literária, permite-nos usufruir de uma leitura crítica que muito enriquece o conhecimento da relação cultural luso-brasileira. E assim a descoberta do Brasil faz-se de diversos espantos e da compreensão de que “nós só existimos no espelho dos outros”.

 

PENSAR AS DESCOBERTAS COMO UM TODO

Longe de qualquer simplificação, Eduardo Lourenço não esquece a imagem contemporânea dos três anéis (Portugal, Brasil e África) sem a qual não podemos perceber a relação complexa que se estabelece entre as nossas culturas. “As Descobertas são um todo. Não há de um lado a aventura pura de um desvendamento de mares e ilhas desconhecidas e de outro o implacável processo que com o tempo se chamará Colonização, com a sua finalidade prática de lucro ou submissão alheia”. A colonização do Brasil foi assim clássica e específica. Isto explica um círculo de ressentimento entre colonizador e ex-colonizados, que se constitui em labirinto de difícil saída. E o momento da ida da Corte para o Brasil, a criação do Reino Unido de Portugal e do Brasil ou a independência de Ipiranga, proclamada por D. Pedro, marcam uma especificidade diferenciadora dos outros casos conhecidos. E o certo é que ninguém perdoou a D. Pedro, príncipe de dois mundos (e verdadeiramente de nenhum), nem brasileiros nem portugueses… Os três anéis têm Portugal como “função de uma mitologia cultural que tem o seu tempo forte no passado”, África como “espera de um novo presente” e Brasil como “exigência condicionada por um futuro onde pode ver-se já como uma das configurações civilizacionais e culturais mais relevantes do próximo século. A bem dizer, o Brasil vive-se e imagina-se, naturalmente inscrito num espaço de que ele é o centro e a circunferência”. Na relação de Portugal com o Brasil (vemos isso na CPLP) fica, assim, o problema de saber como atravessar “a barreira fonética de ressonância ideológica e comercial”. Daí ter Fernando Henrique Cardoso razão quando diz que “o facto de usarmos a mesma língua não significa que tenhamos a mesma cultura”. E Lourenço frisa que “a questão é realmente de cultura, ou, talvez melhor, de mitologia cultural, ou até de hermenêutica, imposta pela complexidade dos laços que o mundo lusófono suscitou”.

 

PENSAR UM SERTÃO MUNDO

Refira-se aqui o encontro com Agostinho da Silva – “personagem de romance”, que “exerceu a multímoda atividade de passador de fronteiras como se a obrigação de transcender a sua raiz portuguesa fosse o primeiro dever, para não dizer, a essência mesma de ‘ser português’”. No entanto, Agostinho e Lourenço distanciam-se quanto ao papel da Europa, mau exemplo para o primeiro e ligação natural para o segundo (“nous sommes tous dans le même bateau”). No entanto, deste encontro resulta a necessidade de agir e de encarar criticamente o mito, como elemento que não pode ser esquecido. Há, de facto, uma história comum a considerar, e uma reflexão comum a fazer. Aliás, a propósito do romance de Almeida Faria Cavaleiro Andante, Eduardo Lourenço lança um apelo aos elementos dos três anéis da lusofonia no sentido de visitarem em comum a história “para além do que nela houve de doloroso e inexpiável, o que apesar de tudo, emerge desse processo como possibilidade e promessa de um diálogo que mutuamente nos enriqueça e nos humanize”. E se falamos do romance da Almeida Faria e do percurso errante de André, não esquecemos o paralelo que o nosso ensaísta estabelece com Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. “O paradigma do cavaleiro andante já tinha na nossa língua, em Riobaldo, a sua versão contemporânea e arcaica, menos encarnação triunfal do Bem do que anjo imune, por essência ao Mal que o rodeia”… E o Grande Sertão (o mais belo romance de amor da nossa língua, com Menina e Moça) leva-nos a pensar na imagem do Mar Português de Fernando Pessoa – e além desses dois Sertões, a partir de um romance que deixou Eduardo rendido, tendo começado por ler por dever de ofício, graças à invetiva de Glauber Rocha, e depois por sedução – tal como Alçada Baptista, após o fundamental conselho de Alexandre O’Neill - descobre o terceiro Sertão, Sertão-Mundo, sertão-miragem, sertão linguagem, à semelhança da terceira margem do memorável conto também de Guimarães Rosa. E chegados aos Sertões de Euclides da Cunha e aos canudos fanatizados por António Conselheiro vamos à interrogação essencial sobre o providencialismo encontrado no sebastianismo – e ao filme de Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol, “simultaneamente sinfonia e tragédia, imagem, canto e música constituindo-se como autêntica ópera popular”. Trata-se da interrogação sobre os mitos que nos unem e separam, mas que exigem revisitação comum que ocupa e preocupa Eduardo Lourenço. Referimo-nos a uma casa habitável e imperdível a que o escritor sempre regressa: “casa-país ‘habitável de todos’, a das línguas-pátrias e das pátrias-línguas dos ‘nossos criadores mais inventivos’”, onde “sentimos e experimentamos que somos eternos, como diria Spinoza: ‘nenhuma língua morre no círculo da poesia, pois é ela a chama no coração de todas as línguas” e “como escreveu Nietzsche todo o prazer pede eternidade”. Assim, sobre o “Tempo Brasileiro”, Maria de Lourdes Soares reúne e analisa, de modo superior, um fascinante conjunto de textos que vão ao âmago da originalidade lourenciana, grande interrogadora sobre uma língua de várias culturas que apela intensamente à visitação comum de caminhos múltiplos, tantas vezes paradoxais e contraditórios, que nos permite existir também pelo espelho de outros.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de novembro a 3 de dezembro de 2017.

 

“Os poetas quando são verdadeiros não morrem” - afirmou, há dias, nos Açores ao “Açoriano Oriental” Eduardo Lourenço, aquando das jornadas realizadas pelo Governo Regional e pela Fundação Calouste Gulbenkian nos 175 anos do nascimento do poeta micaelense Antero de Quental (9.11.07).

 

 

O GRANDE MICAELENSE
A atualidade de Antero de Quental é algo que merece atenção e cuidado. E a afirmação de Eduardo Lourenço assume uma especial importância, uma vez que Antero compreendeu, como ninguém, que havia uma mitologia cultural portuguesa que chegava ao fim. E assim o poeta, como tem afirmado o ensaísta de O Labirinto da Saudade, “viveu a título pessoal a morte de Deus, como se fosse uma evidência absoluta, e ao mesmo tempo sem poder aceitá-la”. E é a vivência deste paradoxo que torna o poeta uma referência multímoda da nossa cultura e o projeta para uma dimensão universal, em que ele é único no panorama português. De facto, o autor dos Sonetos pôde ser central na genial geração de que participou – tornando-se, ao mesmo tempo, sucessor numa genealogia que atinge a maturidade com Camões e chega a Bocage, Garrett e Herculano, e vai continuar em Pascoaes e na revista “Águia” e em Fernando Pessoa e no “Orpheu”, até aos nossos dias. Estamos, deste modo, num ponto de encontro e numa espécie de placa giratória, definidores da cultura portuguesa como um cadinho de diversas influências. E não por acaso encontramos nesta capacidade de abertura universalista uma das bases da heterodoxia de Eduardo Lourenço. Longe de uma identidade fechada, deparamos com a recusa de um qualquer fatalismo ou de complexos de superioridade ou inferioridade, típicos de culturas ensimesmadas. Se é verdade que sofremos de uma ciclotimia ou bipolaridade ancestral, o certo é que o sentido crítico da geração de 1870 contribuiu decisivamente, num certo tratamento de choque, para a recusa dessa enfermidade estrutural. Afinal, a projeção global da nossa língua (uma das cinco que mais crescerão no próximo século) capaz de ser expressão de várias culturas e fundamento de diversas línguas subsidiárias, como os crioulos, corresponde a essa extraordinária capacidade de integrar poética e culturalmente uma visão abrangente – não ligada a uma qualquer idiossincrasia tribal ou regional. Sem ter exata consciência disso mesmo, o poeta açoriano é, nestes termos, um autêntico símbolo da vocação universalista da cultura portuguesa, que em nada minora a importância do que nos distingue. E Antero de Quental corresponde à vivência desse universalismo cosmopolita, que mais tarde encontraremos em Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Aliás, Tolstoi e Unamuno testemunham, de modo inteiramente insuspeito, sobre a importância do nosso genial poeta. Voltando a Eduardo Lourenço: “a literatura condensa a essência de cada povo, daquilo que ele é e pretende, das vivências que o norteiam e definem”. No caso de Antero e Pessoa, “ambos se dedicaram a olhar o problema da nossa identidade, da nossa figura, da nossa imagem no mundo… Não para os olhos dos outros, mas para os nossos próprios. Isso começou com a geração de 70”. E é esse sentido crítico, a capacidade de realizar a psicanálise mítica do nosso destino que torna essa atitude como crucial no sentido de uma emancipação centrada na compreensão humana e complexa de quem somos.

 

QUE MITOLOGIA DA SAUDADE?
Em carta a António de Azevedo Castelo Branco de 1867, Antero diz que “a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais bem ligadas, abrindo-as, deslocando-as. Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”. Recusa-se, deste modo, uma simplificação melancólica. Mais importante do que o culto de uma ilusão, importaria ir à substância das coisas e inserir o sentimento poético numa compreensão racional. Trata-se de uma demarcação relativamente a Garrett, como modo de superar a contradição entre razão e delírio. Haveria que caldear as tradições com a racionalidade e a procura de um caminho capaz de nos proteger das ilusões. No entanto, o poeta oscilará entre o misticismo e a “lucidez racional” – entre a poesia e a filosofia. E em carta a Oliveira Martins, de 1880, dirá: “é incrível a desarmonia que há entre a minha razão e o meu sentimento, e este, por mais que faça, nunca chega a afinar pelo tom grave e claro daquela. Que fazer? É evidente que a poesia sai do sentimento e não da razão”. Daí a necessidade que o poeta sente do mundo das ideias – que o leva a centrar-se na reflexão que se traduzirá na publicação do fundamental ensaio “Tendências Gerais da Filosofia da Segunda Metade do Século XIX” (1890), a pedido de Eça de Queiroz para a “Revista de Portugal”. Já em 1885 dissera a Jaime Batalha Reis: “Extrair do pessimismo o otimismo, por um processo racional, tem sido afinal o trabalho da minha vida. Creio que cheguei ao termo e dou a minha Filosofia por completa e acabada. (…) A dita minha Filosofia não é original. É antes uma fusão (não amálgama) do Hegelianismo com a monadologia de Leibniz, dando de si a síntese do idealismo e do espiritualismo num terreno que à 1ª vista se parece com o materialismo. (…) O meu sistema será pois (como todos, no fundo) um ensaio de interpretação do Universo no ponto de vista do espírito moderno, interpretado esse mesmo espírito pela razão crítica. Se conseguir fazer isto satisfatoriamente, não darei por vão o meu esforço”. O pessimismo é, no fundo, um caminho, para que a consciência crítica ilumine a ação. E é da necessidade de não descurar a ligação entre pensamento e ação que resulta o paradoxo de Antero – preocupado com a necessidade de haver ideias, de existir espírito crítico e de ligar o espírito e a intervenção cidadã. Daí a complementaridade que sentia haver entre si e Oliveira Martins, pela necessidade das ideias se traduzirem em consequências práticas. E em maio de 1887 escreve ao seu dileto amigo, alertando: “Vejo-o caminhar para um pessimismo negativo, que não posso aprovar e me contrista”. E, depois de constatar a impossibilidade de penetrarmos absolutamente no problema da existência, vem dizer: “desprezar o mundo, desprezar os homens, ver o vácuo e o tédio como resíduo final de tudo, é o grande pecado do orgulho. Afinal, o que está está bem, o que vai vai bem. A nós o que nos cumpre é descobrir o como e o porquê deste paradoxo universal das coisas – na certeza de que é um divino paradoxo”. Em vez do afastamento do mundo, haveria que compreendê-lo, em nome da justiça. “A filosofia não pode prescindir dos dados da consciência; mas, por outro lado, as aspirações da consciência não podem anular os factos naturais e históricos e positivos” – diz a Ferreira Deusdado em 1888. O divino paradoxo de Antero põe em confronto a consciência e a realidade, a sensibilidade e a razão. E um tal dilema representa a singular atualidade do inesquecível poeta.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:

 

Alertas-me para um prolongado silêncio meu, como se as minhas cartas falassem e eu te faltasse com a minha conversa fiel. Esqueces que, neste voluntário retiro, além dos milhares de livros que vou arrumando ou dispondo - em benefício, espero, de quem os possa apreciar - cozinho os petiscos quotidianos... Primum manducare, deinde philosophare, diriam os antigos, e eu, pobrecito, nem à filosofia chego, só procuro tratar de mim... Também recolho, escolho e dou abrigo mais seguro a muitos documentos da vida passada da nossa família, e da minha própria, não tanto por gosto de colecionar memórias, como pela serenidade de uma comunhão intemporal. E é bem verdade que o intemporal talvez nos tire muito tempo...

 

Dou comigo, muitas vezes, a entrelaçar lembranças e descobertas várias, tantas delas insuspeitas de qualquer relação entre si...ou comigo! No fundo, talvez dê por mim a dizer, com o Alberto Caeiro, que a espantosa realidade das coisas / é a minha descoberta de todos os dias. Aliás, dei novamente com estes versos hoje mesmo, evocados por José Mattoso no seu prefácio, de 13 de abril de 1985, à Identificação de um País, que começa assim: Este livro nasce de uma insatisfação: a de não encontrar na historiografia portuguesa atual respostas para muitas interrogações que a moderna ciência histórica não pode deixar de colocar. Tentei dar as minhas e coordená-las num conjunto que constituísse uma visão global da História de Portugal durante os seus dois primeiros séculos. A minha curiosidade orientou-se especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar [...] o que mais me atrai no passado medieval é a mentalidade: como é que os homens viam o mundo e se organizavam para tentarem dominar a realidade, nessa época tão diferente da nossa?

 

Tu também sabes, Princesa, como eu sempre pensossinto a constante mudança das coisas: a vida, o mundo, tudo é movimento, e quando olho para pessoas ou para povos, pela perspetiva do que chamamos História, melhor me apercebo de quão dinâmica, afinal, dialética mesmo, é a ideia ortegana de sermos e sermos a nossa circunstância. Assim, o conceito hegeliano de que die Weltgeschichte ist das Weltgericht deve ser só tomado no sentido de que os efeitos apurados dos factos produzidos são os únicos juízes destes, a História não podendo ser tribunal como se se pudesse julgar o passado por critérios presentes e retroativos... E sabemos quanto atos, factos e seus efeitos vão padecendo de mui diversas interpretações.

 

A História, como um dia disse João Ameal, é a nossa vida antes de nós, sim, mas tal não tem de tornar esta necessariamente gloriosa, nem vergonhosa: as lições da História não são gabanços nem pedidos de desculpa, podem, quando muito, e devem ser ensinamentos da escola da vida.

 

Qualquer povo tem uma história passada - a dos seus seniores - mas, essa mesma, não são os hodiernos que a fazem, é, tão simplesmente, um da sein que herdaram. É dele, de dantes, mas está aí, já feita. E dou aqui, mentalmente, o salto até uma resposta, há pouco lida, de Onésimo Almeida à revista LER, que lhe perguntava se, afinal, o carácter nacional não existe: Não, e deveríamos acabar com conceitos desse género. Não é possível, para qualquer povo, generalizar seja o que for. Nem nunca, em nenhuma época, toda a gente pensa e age da mesma forma, nem nunca, através dos tempos, uma nação se comporta da mesma maneira. Quer dizer que não se pode generalizar, nem diacrónica nem sincronicamente.

 

Ocorreu-me então algo que vou pensandossentindo acerca do modo como eu mesmo e muitos dos meus amigos fomos cultivados no ambiente de "uma certa História do Grande Portugal", algo que tanto me foi remoendo pelo convívio que tive, durante a minha longa estadia no Japão, com versões claramente míticas - para um estrangeiro que eu era - da História nipónica, sobretudo das origens do povo e da estirpe divina da linhagem imperial.

 

Não te esqueças de que até Wenceslau de Moraes escreveu um Dai Nippon (Grande Japão)... Como sabes, já amiúde falei sobre isso. Mas nunca me "psicanalisei" disciplinadamente no tocante ao meu entranhado sentimento de português enquanto filho de uma nação gloriosa, única, diferente de todas as outras. Pensossinto "Portugal", e vibro! Mas a leitura de obras hodiernas, de historiadores estrangeiros e portugueses, dos tais cuja curiosidade - repetindo o dito de José Mattoso acima citado - se orienta especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar, ao ponto de os levar a procurar e consultar outras fontes - até agora esquecidas ou ignoradas, quer por razões políticas ou ideológicas, quer por tradicional desconhecimento de estranhas línguas e culturas - para acharem novas perspetivas e, acima de todas elas, uma visão mais global, muda-me o sentir da História, das nossas vidas antes de nós, com as suas circunstâncias. Não já só "nós", os Portugueses, como pioneiros e condutores, mas todo um vasto mundo, povoado por outros, com que sucessivos lusos foram interagindo.

 

Dias atrás, falava com alguns amigos sobre um livro que há já uns anos me encantou, ao ponto, aliás, de dele ter adquirido vários exemplares para oferecer - incluindo alguns na sua bela edição francesa - a conhecidos, amigos e, - vieillesse oblige - aos inescapáveis netos. Trata-se de A Aventura das Plantas, do Prof. Eng.º Mendes Ferrão, famoso catedrático do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, reconhecido internacionalmente. Tive o grande gosto de o conhecer em 2004/5, quando recorri à sua sapiência para melhor me informar sobre a globalização das plantas que surgiu com a aventura da descoberta de caminhos marítimos entre todos os continentes, tema que decidira abordar em exposições e sessões públicas a realizar no pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão), de que eu era Comissário Geral. Um dos meus convivas referiu então um artigo recente de Guilherme d´Oliveira Martins que diz: "As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos" de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.
Os "negritos" são meus - já perceberás porquê. Antes, todavia, deixa-me dizer-te que, com muito gosto lusíada contei a aventura das plantas aos meus netos, por ela ser um dos mais antigos e persistentes sinais do que afinal a globalização é ou pode ser na vida quotidiana e comezinha das pessoas. Mas quantas vezes lembramos, ou quantos de nós sabem, que não se cultivavam nem comiam batatas, feijões ou tomates na Europa, antes das grandes viagens?

 

História fascinante, tetra secular, elucidativa, divertida, consoladora de humanidade... Quem mudava, então, as plantações de legumes e frutos no mundo de todos, era essa mancha de gente de muitas paragens, muito ou pouco ou nada sábia, a mor das vezes sem mais pertença do que qualquer obediência consciente ou instintivamente devida, que andava embarcada. E não eram só portugueses...

 

Já a razão dos meus "negritos" tem a mesma raiz dos que mostro de seguida, por mim postos num anúncio da Fundação e Museu do Oriente: Os Portugueses na Ásia na Segunda Metade do Século XVII  -  curso administrado por João Paulo Oliveira e Costa  -  dá a conhecer o panorama político, económico e sociocultural da Ásia sob a influência portuguesa.

 

No mesmo ou em dia próximo daquele em que recebi esta notícia, lera eu no Público uma entrevista a Eduardo Lourenço, em que este, a dado passo, afirmava: Portugal não é uma ilha, mas vive como se fosse. Talvez por uma determinação de quase autodefesa. O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos a viver um Ronaldo coletivo, um "nós somos o melhor do mundo"... E, mais adiante: Fomos os primeiros que largámos da Europa para ir para um sítio mítico, só conhecido através de novelas, como as de Marco Polo. De repente, deslocamo-nos do ocidente europeu e demos a volta a África - demos..., deram eles, os navegadores, porque eu não tenho um pé marítimo propriamente dito - para chegar à Índia. E foi como chegar a outro mundo, descobrir outro planeta, e durante dois séculos a nossa capital era mais fora de nós do que dentro de nós. E sempre nos habituámos a que essa imagem que adquirimos num lá fora hípermítico fosse tão universal que ninguém podia não saber que nós lá tínhamos chegado... Há aqui, nesta análise de um nonagenário, muita cândida lucidez. Que, quanto a mim, me levou sobretudo à intuição de que as mitomanias nos podem conduzir a algo que eu definiria como "narcisismo nacional"...

 

          Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 4 a 10 de setembro de 2017.

 

Eduardo Lourenço ensinou-nos que ao contrário do que muitos disseram, a Geração portuguesa de 1870 não foi nem exemplo de decadência, nem sinal de desistência. Pelo contrário, quem ler com atenção a sua obra crítica facilmente encontrará a busca persistente de uma saída positiva baseada na capacidade de regeneração ou de renascença de Portugal.

 

 

A CHAVE DA HISTÓRIA
A célebre conferência de Antero de Quental no Casino Lisbonense em 1871 sobre as causas da decadência do povos peninsulares constitui, muito mais do que uma intervenção circunstancial, uma chave para o tempo que se seguiu e no qual ainda participamos. Não por acaso, Miguel de Unamuno considerou esse momento como o culminar do “século de ouro português”. É certo que há paradoxos e contradições, mas o que aparece com nitidez é a ideia da procura de fatores democráticos, capazes de mobilizar os cidadãos e de fixar as riquezas… Antero falava de três causas da decadência: Trento, o Absolutismo e as Conquistas. O fechamento religioso, a centralização política protecionista e a dispersão de um império dificilmente governável para um país europeu de dimensão média – tudo isso determinou a incapacidade de criar condições económicas e políticas capazes de assegurar um verdadeiro autogoverno democrático. A verdade é que, no final, do século XIX Portugal tornara-se periférico, pobre e mais distante (como não antes) da economia e da cultura europeias. É esse afastamento dramático que constitui pano de fundo do romance Os Maias ou do dilema de Gonçalo Mendes Ramires em A Ilustre Casa de Ramires… E se o batismo de “Vencidos da Vida” teve o seu quê de irónico, como melhor do que ninguém demonstrou Eduardo Lourenço na sua psicanálise mítica do destino português, o certo é que essa marca de decaimento significava a necessidade de partir de uma visão autocrítica para a superação da mediocridade – daí haver, de Alexandre Herculano a Jaime Cortesão, a procura do reencontro com as raízes ancestrais da liberdade e da democracia. O reencontro de Portugal com a democracia e a Europa, no último quartel do século XX e início do século XXI, corresponde assim a uma resposta que confirma que a permanência cultural portuguesa se reforça com a autonomia, com o sentido crítico, a desconstrução dos mitos e com a capacidade inovadora.

 

OS EFEITOS NEFASTOS DAS CONQUISTAS
Herculano e Coelho da Rocha, na linha de pensamento que Antero seguiria no Casino, puseram-nos de sobreaviso relativamente ao sonho e à dispersão imperiais. “As riquezas do Oriente produziram entre os portugueses os mesmos efeitos que em todos os tempos têm feito sentir aos seus conquistadores” – ensinava o professor de Coimbra. “A antiga singeleza foi substituída por um luxo imoderado; este corrompeu os costumes; e a avidez do ouro ocupou o lugar da virtude e do patriotismo. Por outra parte, as longas e perigosas viagens, a guerra e a colonização despovoaram o reino e abriram um vazio que as riquezas não podiam preencher”. É como se voltássemos a ouvir Gil Vicente, Sá de Miranda ou o incompreendido Camões, pela boca do Velho do Restelo… Ao invés da glorificação do passado está aqui o apelo à fixação… Afinal, “a glória de mandar e a vã cobiça” mostraram-se mais poderosas do que o espírito inovador e do que a capacidade de dar novos mundos ao mundo… Oliveira Martins lembrou: “a bordo fomos tudo; em terra apenas pudemos demonstrar o heroísmo do nosso carácter e a incapacidade do nosso domínio”. A orientação para o mar foi ditada pela situação geográfica e pela tradição comercial – menos por uma vocação imperial, daí que os defensores do regresso à “vida simples” e à “fixação” tenham considerado não haver contradição histórica, mas complementaridade de vocações, enfatizando a fixação como complemento do transporte… E Herculano atribuiu, assim, a falta de esforço, crença e patriotismo na crise dinástica de 1580 aos “hábitos de desenfreio, cobiça, ódio e egoísmo que em cada monção carreávamos do Oriente para a Europa”. E um certo providencialismo decorreria da contradição entre os feitos alcançados e a míngua de efeitos duradouros conseguidos.

 

ENTRE FIXAÇÃO E TRANSPORTE
António Sérgio deu coerência a uma genealogia nobre, enaltecida por Herculano: desde a política de independência da primeira dinastia, passando pela justificação do Infante D. Pedro na Carta de Bruges, pelo sentido crítico de Sá de Miranda e de Camões, pelos economistas do século XVII, pelos académicos de setecentos e finalmente por Mouzinho da Silveira… Não por acaso, Oliveira Martins considerou modelar o exemplo do Príncipe Perfeito, como delineador de um plano para a Índia, fundado na criação de uma base económica na Península Ibérica. Ainda que concordasse com Herculano e Antero, estudou a hipótese de uma estratégia global assente na articulação entre a inserção europeia e o melhor aproveitamento dos recursos obtidos na circulação mercantil. A criação de uma base peninsular gorou-se, porém, do mesmo modo que as posições dos economistas do século XVII e a tentativa da atração dos capitais dos judeus e cristãos-novos não tiveram consequência em fixação manufatureira – que a descoberta do ouro do Brasil tornou aparentemente dispensável. O fulgor da corte de D. João V correspondeu à passagem das riquezas pelo transporte, e não a uma consolidação económica e cultural. Daí a evolução do século seguinte. Se é verdade que, desde a primeira geração liberal, de Garrett e Herculano, intelectuais e políticos reivindicaram a aproximação à Europa, sem prejuízo da salvaguarda das especificidades nacionais, o certo é que, entre meados e o fim do século XIX, houve uma clara divergência no tocante ao produto per capita, chegando-se à primeira década do século XX com uma distância não alcançada anteriormente. O PNB per capita português que era de 86% da média dos países desenvolvidos, em 1860, passa para 45% no início do século XX. Isto poderá parecer estranho, quando assistimos a uma política de melhoramentos, tantas vezes à custa da dívida pública. No entanto, o desfasamento em relação à Europa deveu-se ao facto de faltar entre nós a fixação, que permitiu no resto da Europa um crescimento muito mais rápido, graças às economias de escala. Tem razão Rui Ramos quando encontra as raízes da condenação dos efeitos das descobertas e das conquistas em Herculano, Antero e Oliveira Martins na ideia de que urgia construir uma “república”, como comunidade de cidadãos patriotas, autónoma e viável, explorando o enraizamento e a “vida simples” baseada nos próprios recursos. Fora da ideia de uma história impossível, como Eduardo Lourenço ensina, trata-se de assumir a herança multifacetada (de Pedro Nunes, Garcia de Orta, Camões, Fernão Mendes Pinto e D. João de Castro) e as suas lições – sendo o regresso ao cais europeu a possibilidade de conciliar a fixação na ampla frente de mar do hemisfério norte com o aproveitamento das virtualidades de um relacionamento global, em geometria variável, designadamente do mundo da língua portuguesa.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

6. PORTUGAL, LUSOFONIA E CPLP
NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO - III

 

 

Para Eduardo Lourenço a lusofonia é um mito cultural português recente que tenta persistentemente desconstruir, expurgando-o de teorias emotivas, míticas ou messiânicas. O imaginário lusófono tornou-se, definitivamente, o da pluralidade e da diferença, pelo que, se queremos dar algum sentido à galáxia lusitana, temos de vivê-la, na medida do possível, como indestrinçávelmente portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, guineense, são-tomense, cabo-verdiana ou timorense.

 

A celebrada alma portuguesa pelo mundo repartida, evocada por Camões, foi, sobretudo, língua deixada pelo mundo, que não é propriedade nem objeto de ninguém, nem mesmo dos portugueses, atuantes primeiros na ordem cronológica e genética, não usufruindo, por isso, quaisquer mordomias de “senhores da língua”, que é sempre dona de quem a fala.  

 

Os únicos sujeitos da língua portuguesa, são as gentes que a falaram, falam e falarão no futuro, razão pela qual não admitindo o espaço lusófono a unicidade de uma só cultura, tem de ser apenas o espaço da língua portuguesa: “Dos Portugueses, como de Francisco I de Pavia, pode dizer-se que perderam tudo (perdendo-se no tudo em que se encontraram) menos a língua. (…) E é o sonhar como unido o espaço dessa língua ou a ideia de o reforçar para resistir melhor à pressão de outros espaços linguísticos - não como um império, hoje impensável, à Albuquerque, ou nem sonhável à maneira de Vieira, como o de Cristo senhor do mundo - que os Portugueses (sem o quererem dizer em voz alta) projetam no conceito ou na ideia mágica de lusofonia. Razão mais do que suficiente, no seu ponto de vista, para desejarem que exista, com um esplendor real e onírico comparável ao do quinto império pessoano, A Comunidade de Povos de Língua Portuguesa: CPLP” (A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, Gradiva, p. 164).

 

Assim, para além de Portugal ter de ter consciência de que a existência do espaço de uma língua, neste caso a portuguesa, não equivale a ser espaço de cultura una, de igual modo terá de constatar de que a real mola da lusofonia reside na suprema constatação de  que “os outros não a sonharão como nós”. Apesar de compreender ser de sonhar a sério uma comunidade de raiz linguística portuguesa. Não sendo a questão de natureza circunstancial, ideológica ou política, mas sim de cultura.

 

Interrogando-se sobre o interesse que pode levar um país como o Brasil em investir na construção da nova comunidade, no caso a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, responde: ”Só o Brasil pode responder à questão, não como Portugal, em função de uma mitologia cultural que tem o seu tempo forte no passado, ou como a África, que o espera de um novo presente, mas de uma exigência condicionada por um futuro onde pode ver-se já como uma das configurações civilizacionais e culturais mais relevantes do próximo século”, acrescentando: “É mais do que evidente que, se o Brasil não se implicar em nome desse fundo comum de língua e de cultura, … , ela será uma quimera nado-morta” (ob. acima citada, pp. 171, 172).

 

Assim, o Brasil é (e será) o grande centro da lusofonia, realidade de que os portugueses têm de ter consciência, não podendo Portugal imaginar ou sonhar uma nova forma de projeção da sua vocação imperial. O Brasil é, e será, para muitos, a realização e continuação do sonho imperial português.

 

Em entrevista ao jornal Público, de 19.05.13, à pergunta se há o risco de cairmos de novo na tentação de pensar que o Brasil ou Angola são a alternativa à Europa, diz: “Valemos no mundo o que valemos na Europa. E eles, no Brasil, ligam-nos pouco. É uma coisa mais lírica. (…)  Querem ser os americanos do Sul. O engraçado é que o paradigma da Península Ibérica inverte-se do outro lado. É o Brasil e a língua portuguesa que querem dominar a região. É uma coisa quase mecânica, quase natural”. Acrescenta: “Ficam muito encantados quando vêm aqui, que lhes parece uma coisa familiar. Falamos a mesma língua, o que já é uma coisa fabulosa, que é uma coisa que já nos ultrapassa porque já não somos os sujeitos dessa língua. O nosso futuro enquanto língua portuguesa está assegurado no Brasil”.

 

Brasil que, também nesta perspetiva, se converte/rá num novo centro, num novo centro imperial linguístico através de um idioma comum a falantes de várias latitudes, através  da língua portuguesa, após tempos idos, ter sido a sede da transferência do centro imperial de Lisboa para o Rio de Janeiro com a corte de D. João VI alimentando, para outros, o novo sonho e a realidade de que aí se situa o futuro de Portugal, dado que este aí se projetou, ampliou, transformou e tem a sua condição e conclusão natural por excelência.

 

Conclui-se que são e serão os descendentes das antigas colónias da antiga Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro, à semelhança do que sucede com a liderança atual dos Estados Unidos da América.[1] O que pode ir para lá do idioma, compatibilizando-se e adaptando-se, com o evoluir dos tempos, por exemplo, com a Europa, de que somos parte. E com um europeísmo de que Eduardo Lourenço sempre foi fortemente convicto, mas de cujo êxito, por agora, já não está tão convencido.  

 

28.03.2017 

Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

 

[1] Ver, neste blogue do CNC, um texto nosso, publicado em 25.08.16, sobre A Língua Portuguesa no Mundo XII - Da Europa Imperial aos Novos Impérios Linguísticos.

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

5. PORTUGAL E A EUROPA NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO - II


Após apostarmos, politicamente, enquanto projeto nacional, no diálogo com a Europa, Eduardo Lourenço revê as relações imagético-históricas entre Portugal e a Europa numa tripla dimensão cronológica e mental.

No primeiro momento, a imagem assume-se como a de uma extensão da Europa na Península Ibérica: a Europa fez Portugal. Portugal, à semelhança dos demais reinos e condados peninsulares, integra-se no esforço colonizador e missionário, com origem na Europa Central, da evangelização das fronteiras ocidentais e meridionais da Europa. Como a essência da cultura europeia era então de matriz religiosa, é de igual modo a nossa cultura originária de origem religiosa, com a particularidade de localizada num território de fronteira, em que, por isso mesmo, mais providencialista, como se cada um e todos sempre estivessem dependentes da vontade de Deus.


No segundo momento, Portugal torna-se, de facto, na época de Quinhentos, a “cabeça da Europa”, ou seja, Portugal faz a Europa, arrastando-a para o seu destino universalista e cosmopolita, expandindo o seu espírito cristão e técnico por todo o mundo. Por lhe ter sido excessivo, face à sua dimensão territorial, populacional e mercantil, Portugal ficou esgotado, tornando-se um povo inerte, embora poucas vezes um povo partindo de tão pouco tenha alcançado um direito tão inequívoco a ser tido por grande.  

Num terceiro momento, depois de a Europa ter feito Portugal e de Portugal ter feito a Europa, segue-se um longo período entre 1580, perda da independência, e 1980, data da formalização da entrada de Portugal no Mercado Comum: quatrocentos anos de desencontro entre o ser de Portugal e o da Europa, que tem como altamente negativo para a nossa consciência, em que surge o nascimento de vários ismos messiânicos, como o sebastianismo, o quinto imperialismo, o decadentismo, o iberismo, o saudosismo, o joaquimismo.

A ultrapassagem destes ismos deu-se com a integração no espaço europeu, de que somos parte integrante. Superando irrealismos, dramas e traumas, após a descolonização ficámos no nosso canto, virámo-nos para a Europa, que era a saída, que pensámos que nos ia proteger e salvar: “Era como quem entra numa casa rica com a qual tínhamos sonhado desde sempre”.  

Vai mais longe ao afirmar que está a acontecer hoje à Europa o que aconteceu há 400 anos a Portugal, porque a Europa que sonhámos, também hoje já não existe, está tão fragilizada como outrora estava Portugal: ora desenterra os fantasmas do passado e reconhece-se grande, ora, na prática dos jogos das forças mundiais, sente-se fraca, pelo que a sua autoimagem é superior em relação àquilo que na realidade é.

Assim, a Europa sofre de uma hiperidentidade que se manifesta duplamente: sabe-se a ela própria como mãe e pai da racionalidade científica, da liberdade política e do mercado económico, mas igualmente sabe que estas ideias são atualmente defendidas e universalizadas por um dos seus filhos, os Estados Unidos; sabe-se criadora e defensora dos direitos humanos, da separação entre o Estado e a Igreja, entre outros valores, mas vê-se fraca de meios e convicção, a defender-se contra o fundamentalismo islâmico que a ameaça, dando como exemplo da sua decadência a ausência europeia na Guerra do Golfo.  

A tudo isto chama o crepúsculo da Europa. Foi a esta Europa, frágil mas hiperidentitária quanto ao seu passado, que Portugal aderiu, esperando dela, não a reconversão imperial do sonho já desfeito, não um lugar de privilégio entre as nações que já a constituíam, mas simplesmente o da normalização, não nos considerando nem superiores nem inferiores a outros estados europeus que a compõem.

Eis a superação final das nossas relações com a Europa: depois de a Europa nos ter feito e nós termos feito a Europa, e depois de quatrocentos anos de desencontro recíproco, Portugal e Europa fazem-se mutuamente, sendo a nossa entrada na Europa também a entrada da Europa em nós.

Sobressai, do exposto, uma bipolaridade e desproporção entre o que é a Europa e o modo como se imagina ser ou como quereria e deveria ser, por analogia e em paralelo entre o que Portugal é e o modo como defende que se imagina ou deveria ser.

Será que se nos salvarmos, é porque a Europa nos salvou?  

Após reconhecer que nós sempre tivemos saídas e que “Foi por isso que saímos para o mar à procura de qualquer coisa que fosse melhor do que ficar neste país”, que agora (nós, europeus) recebemos lições dos Estados Unidos e que a Europa é um museu de si mesma, conclui: “Provavelmente, o resumo de tudo isto - e essa é uma mudança de paradigma total - é que a Europa que esteve no mundo e foi mundo, já não está na Europa, está inscrita em qualquer coisa mais vasta que é esta cultura globalizante, que não é uma abstração, que está num sítio que se chama América. Nós somos todos americanos, sabendo ou não sabendo, gostando ou não gostando. Veja que vivemos a eleição de Obama como se fosse o rei da Europa que não existe. Ou até do mundo. E vivemos esse sentimento da maneira mais generosa possível, quase de cinema.” (entrevista ao Público, de 19.05.2013).

Eis um europeísta convicto e desencantado.

A Europa e o eurocentrismo não chegam.

Nem é viável à Europa atual, de que somos parte, poder construir-se ou sobreviver através de uma mobilização contra os Estados Unidos.

Será que se nos salvarmos, Portugal e a Europa, é porque a América, nomeadamente por via dos Estados Unidos, um filho e descendente europeu, nos salvou? 


21.03.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

4. PORTUGAL E A EUROPA NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO - I

 

 

Ao invés de Vieira, Pascoais, Pessoa, Agostinho da Silva e António Quadros, Eduardo Lourenço parte da convicção da não existência de um destino providencial, mítico, messiânico, da ausência de utopias variadas, exaltantes, de insondável enigma e irredutível originalidade para o povo português e, assim sendo, o seu convencimento de que não é mais predestinado, heroico, sábio ou virtuoso do que outros povos. Entende que a história cultural portuguesa tem de ser inserida, em primeiro lugar, no espaço geográfico da Península Ibérica e, em segundo, e de modo mais determinante, na análise relacional e sem complexos da história da nossa cultura frente a frente com a história da cultura europeia, numa base despreconceituada e com a ausência, à partida, de qualquer tipo de inferioridade ou superioridade.

 

Segundo Eduardo Lourenço, temos historicamente um percurso num espaço inconciliável entre o modo como somos e o modo como quereríamos ser ou que deveríamos ser. Existe, em cada português, uma desproporção, um duplo estado de espírito ou de alma em que cada um sente o que ontologicamente é (país pequeno, pobre, carente de recursos ou de recursos limitados, conservador, atrasado por confronto com a Europa de maior desenvolvimento económico, científico, social e cultural) e o que imageticamente nos é dado ver através da leitura da história pátria (o mito dos Descobrimentos, da Expansão Ultramarina, o sonho do Quinto Império, a quimera de um Estado Imperial Uno do Minho a Timor, dos amanhãs que cantam milagreiros esperando a salvação).

 

Esta dupla consciência que acompanha a maioria dos portugueses, que se sintetiza na diferença imaginária, em cada época histórica, entre a realidade e a ficção, é o que o pensador e ensaísta designa por “o irrealismo prodigioso que os portugueses fazem de si mesmos” (O Labirinto da Saudade). Acrescenta que esta “forma mentis” e caraterística permanente de ser português, tanto nos tem arrastado para as maiores decadências, como para o crer de que somos, por condição e destino, um povo eleito, por vezes adormecido, mas sempre imprevisível e preparado para novas descobertas, lançando novas naus da civilização. Cita que alguns dos maiores vultos de Portugal, mesmo em pleno século XX, não se alhearam desta condição de ser português, como Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A esta “forma mentis” de ser português designa-a de tipo traumático.

 

Foi esta contradição entre um passado glorioso e a nossa diminuída realidade presente que nos levou a treze anos de guerra colonial, e que nos conduziria a um terceiro traumatismo profundo, isto é, à perda do Império colonial em 1975. Terá sido então o projeto político de integração na Europa Comunitária que terá compensado a amputação provocada pela descolonização, permitindo a ultrapassagem sem cicatriz duma ferida simbólica que em geral provoca noutros povos tragédias inultrapassáveis, exemplificando-o com a França em relação à Argélia.

 

Se desde cedo havia sempre insistido no reatamento das relações com a Europa, tipo “O diálogo que nos falta”, só após o 25 de Abril vê Portugal apostar politicamente, enquanto projeto nacional, no diálogo com a Europa.

 

Este cartão de cidadão dos portugueses, assente numa intrínseca e estrutural fragilidade, é compensada pelo “irrealismo prodigioso” por que nos imaginamos e vemos mentalmente a nós próprios como país e povo dotado de uma missão histórica providencial.

 

Embora Eduardo Lourenço, no Labirinto da Saudade, chame a atenção para o facto de estas duas imagens antagónicas serem imagens irreais que Portugal arquitetou e imagina, a verdade é que elas permanecem, até aos nossos dias, no imaginário coletivo português.

 

Revelam um excessivo sentimento de superioridade que oscila com um não menos excessivo sentimento de inferioridade, uma representação nacional excessiva, uma hiperidentidade, ora excessiva e eufórica, ora depressiva e doentia.

 

Ora somos os ou dos melhores do mundo, ora somos os ou dos piores do mundo. Ora somos otimistas em excesso, ora somos pessimistas em excesso.

 

Tanto nos deslumbramos e vangloriamos excessivamente pelo pioneirismo nas descobertas ou achamentos, como em fazer o culto excessivo de dizer mal de nós próprios.

 

Havendo que estabilizar e normalizar, com equilíbrio e recurso ao bom senso, esta desproporção entre o que somos e o modo como imaginamos ser ou deveríamos ser.

 

14.03.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

De 25 a 31 de julho de 2016.

Eduardo Lourenço, entrevistado pela Rádio Renascença sobre a vitória de Portugal no Campeonato Europeu, refletiu sobre um tema que bem conhece – o das fronteiras da identidade…


ÂNIMO PARA PORTUGUESES
«Os portugueses nem precisam desse contributo. Os portugueses são tão portuguesinhos, somos tão patriotas desde nascença até hoje que não precisamos deste tipo de suprimento de alma de uma vitória de futebol Mas, enfim, consola, sobretudo num contexto europeu como é o de hoje. A Europa está numa grande carência de sentido para ela própria. Discute a sua própria identidade. Algo incrível. Nós, sim, podemos fazê-lo». Eduardo Lourenço comentava a vitória portuguesa no Europeu de futebol, considerando-a como cura de um certo complexo de inferioridade. Esta vitória poderia, assim, contribuir para nos reconciliar com alguns fantasmas do passado coletivo, mas o ensaísta põe dúvidas sobre se faz sentido ainda alimentar essas sombras funestas. Afinal, os portugueses já não são atores secundários. E esta vitória foi um facto interessante, muito pouco mais. E se há um elemento curioso a salientar é que Fernando Santos demonstrou por a mais b que o improviso não é, não pode ser, característica dos sucessos portugueses. Somos invariavelmente melhores quando temos desafios muito exigentes e por isso alcançamos resultados positivos, o que decorre de muito trabalho, planeamento, organização e de muita vontade. Foi assim que agora aconteceu, Nada foi obra do acaso ou circunstância fortuita. Tudo resultou de uma preparação muito cuidada e cautelosa. Afinal, a equipa não se apresentava (com as exceções conhecidas) recheada de figuras excecionais. E, no entanto, pôde superar-se e contrariar todos os maus prognósticos e vaticínios. Não era «bluff» dizer que tínhamos limitações. Mas que é a inteligência senão a capacidade de resolver problemas, mesmo contra todos os contratempos e vicissitudes? O certo é que a equipa tinha respostas e argumentos fortes para se defender… E pô-los em prática e a render.

 

NADA DE EXTRAORDINÁRIO
O hábito de jogar bonito e de ter vitórias morais, deu lugar ao compromisso cumprido de chegar aos objetivos propostos, mesmo que tal exigisse sangue, suor e lágrimas. Eduardo Lourenço tem-nos habituado a encarar o tema da identidade como definição do que afirma e do que distingue, recusando a tentação do fechamento e da singularidade absoluta com todos os seus complexos de superioridade e inferioridade. Sobre este caso, de um confronto entre portugueses e franceses, Eduardo sente-se especialmente à vontade: «Enfim, os meus filhos são franceses, a minha mulher era francesa, de maneira que poderia estar um pouco dividido, mas não estou». Afinal, a identidade de uma cultura que é um cadinho de múltiplas influências, que se abriu para «dar novos mundos ao mundo», que é múltipla, complexa e aberta e que está repartida por toda a parte, permite compreender que o universal está representado no particular. Nesse sentido, pode compreender-se a proximidade, o pequeno orgulho dos grandes momentos, mas há que entender o que nos une e separa, quem somos e o que o que não podemos esquecer nos outros. Conscientes de quem somos e sem ter de provar o que quer que seja a alguém, sabemos que há tempos para nos regozijarmos e tempos para aceitarmos o facto de não termos conseguido. Não somos nem melhores nem piores, somos nós mesmos – com qualidades e defeitos, mais ou menos ciosos de nós… Ao visitarmos a exposição sobre a obra de José Escada na Fundação Calouste Gulbenkian, percebemos diversas coisas importantes sobre o amor que o pintor tinha a Portugal. Mais do que enaltecer o sublime, o que o artista deseja é manifestar a sua ligação a algo que único e irrepetível – o povo, as cores, as coisas, a «joie de vivre», os pequenos elementos de um autêntico exercício de artesanato e de paciência. Muitas vezes quase sentimos que temos glosas sobre um mote de Amadeo de Souza Cardoso com as inconfundíveis cores do seu Entre Douro e Minho. 

 

…SOLUÇA O MAR
E, como diria, a sua alma gémea de poesia e arte, Sophia de Mello Breyner: «Me dói a lua me soluça o mar / E o exílio se inscreve em pleno tempo» (Livro Sexto, 1962). Como Unamuno bem pressentiu e Eduardo Lourenço interpretou, com rigor e perfeição, somos feitos de lirismo e de história trágico-marítima. Acaba, aliás, de sair na Fundação Gulbenkian o terceiro volume da Obra Completa de Eduardo Lourenço - «Tempo e Poesia», coordenado por Carlos Mendes de Sousa, onde podemos tomar contacto um percurso coerente e multifacetado que é muito mais do que um tratado, mas sim um repositório interpretativo único. Podemos invocar Cesário, Nobre, Pascoaes, Sá-Carneiro, Almada, Régio, Torga, Casais Monteiro, Nemésio, Mário Dionísio, Sena, Sophia, Eugénio até Manuel Alegre, Herberto, Ruy Belo, António Osório, Fiama, Vasco Graça Moura… Mais tarde ou mais cedo, encontraremos desde a poesia trovadoresca à rica poesia contemporânea, passando por Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett, Herculano, Antero de Quental, João de Deus, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa e todos mais… Se bem virmos as coisas, Portugal como palavra é uma eterna convergência da lembrança e do desejo, do amor e da provação, e a língua portuguesa, espalhada pelo mundo, plena de diferenças e desencontros, foi-se construindo nessa pluralidade magnífica e nessa complementaridade inesgotável… A língua portuguesa, temperada com mais açúcar ou mais especiarias, é o traço de união e de diferenciação. E se dúvidas houvesse João Guimarães Rosa leva-nos em busca da terceira margem, Baltazar Lopes da Silva introduz-nos nas diferenças e nos segredos dos crioulos, Mia Couto reinventa-nos em permanência, Pepetela e Agualusa põem-nos em contacto com as grandes superfícies de terra e mar, Raduan Nassar interroga e confronta as raízes em «Lavoura Arcaica»… Mas o ensaísta de «Labirinto da Saudade» é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. Portugal é uma série de milagres. Herculano chamou-lhe vontade. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural, sempre. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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