Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Acaba de ser publicado “Montaigne ou a Vida Escrita” de Eduardo Lourenço (Gradiva, 2025) com um dos textos mais luminosos escritos sobre Michel de Montaigne e a invenção da literatura moderna.
Montaigne foi para Eduardo Lourenço uma referência permanente. Se foi Sílvio Lima que abriu ao jovem estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a avenida do método ensaístico, foi sem dúvida a leitura de Montaigne que lhe permitiu encontrar a sua própria originalidade, no descobrimento do Homem como se tratasse da sua própria América, no caso inesperado de Colombo. Partindo do desconhecido na ordem geográfica tratar-se-ia de interrogar o grande continente bem mais improvável correspondente a nós-mesmos. Afinal, nenhuma terra, por muito misteriosa que seja, nos reserva mais enigmas do que a pessoa humana. É a interrogação sobre o sentido da vida que está em causa, a partir do entendimento da complexidade do tempo e da História. E o milagre de Montaigne é que ele nos fala de si sem se considerar como centro do mundo, mas como um dos intervenientes no mundo da vida, convertendo (como diria Jean Cocteau) as suas fraquezas em sabedoria do mundo. Assim, podemos entender a obra de Eduardo Lourenço, ao longo da vida, fazendo da literatura, das artes e dos acontecimentos do mundo os temas das suas constantes interrogações.
O que fascina o escritor é essa originalidade que torna Montaigne pioneiro do pensamento moderno, desde a consideração de um horizonte de exigência utópica (não como ilusão, mas como responsabilidade) até à consideração da singularidade cartesiana, sem esquecer o idealismo platónico e o realismo aristotélico. São a liberdade de pensamento e o universalismo da dignidade humana que assim se desenham numa companhia onde se encontram Cícero e Séneca. Mais do que trazer uma nova ordem no conhecimento, Montaigne muda a perspetiva de análise, tornando o olhar um modo aberto e desarmado de nos colocarmos perante o mundo. E assim o autor dos Ensaios torna-se moderno, baseando-se na singularidade. Original cultor da idade da dúvida, o interrogador de “Que sais-je?” não abandona a procura da verdade, não como émulo de Platão ou Aristóteles, mas como caminhante da sua própria via. E assim o seu propósito torna-se des-construir, examinando a realidade como se fosse a primeira vez, para encarar a verdade e o erro, o verosímil e o inverosímil, de modo que a representação não se constitua num constrangimento. Montaigne inventa, deste modo, a Literatura, no sentido mais essencial, com uma contrapartida crítica. Ninguém antes dele tinha podido dar corpo ao irreal, tirando consequências do que Ovídio consagrara nas “Metamorfoses”. E, como no caso de D. Quixote, este começa por desejar que a realidade se conforme com o texto, onde a vida ideal é vivida. No entanto, é esta contradição que leva o “cavaleiro da triste figura” a rebelar-se no final da sua aventura, desejando regressar à natureza de si-próprio. E Montaigne compreende que nenhuma realidade é mais ficcionável do que a da nossa própria vida. Por isso, os Ensaios podem ser encarados como um não-livro, o que leva muitos dos seus leitores a considerar o seu autor como o cético perfeito. No entanto, tal constitui para Eduardo Lourenço uma injustiça e um contrassenso.
Em sentido literal, o autor dos Ensaios toma consciência de ser nada, o que o aproxima dos grandes místicos, como S. João da Cruz. A um tempo, temos assim em Montaigne o reconhecimento da coexistência da graça divina com o “ser para a morte”, inerentes ao género humano. Então olha para a vida sem medo, mas também sem ilusão. Basta, assim, abrir os Ensaios em qualquer das suas páginas para partilhar um sentimento libertador, igual ao do momento em que se acaba de nascer. Ora, Montaigne não sabendo quem era verdadeiramente, pôs-se a pensar e a escrever para se descobrir – e poucos homens antes dele puderam chegar a tal objetivo com tanta lucidez, sem recorrer a uma Musa.
Os textos de Eduardo Lourenço que constituem este volume procuram revelar como o género ensaístico procura seguir a lição de Montaigne, no sentido de nos descobrirmos a nós mesmos, num mundo controverso e difícil. E se Montaigne surge no mundo do pensamento como um fator bem evidente de valorização da singularidade, junta-se-lhe Luís de Camões, na sua dimensão épica, como um contraponto de relevo. Ambos se revelam como referências pioneiras no panorama literário europeu, ao assumirem, em termos novos, a herança clássica, na linha de Homero de Virgílio.
“Uma Epopeia Singular” constitui a análise de um acontecimento histórico inédito, que corresponde ao início da primeira globalização ou era gâmica, na expressão consagrada de Toynbee. Em Camões, o mundo dos deuses corresponde ao mundo dos homens visto às avessas, enquanto morada onde se afirmam os sonhos duma humanidade que desperta pela primeira vez como conjunto. E assim desenvolve-se uma nova alegoria, envolvendo os maravilhosos pagão e cristão, numa curiosa simbiose, em que um novo Paraíso, com cores renascentistas, coloca o amor como protagonista. Assim, os novos Argonautas realizam uma viagem real e iniciática que abre o Oriente ao Ocidente, deixando entrever o segredo da natureza numa nova Humanidade simbolizada na Ilha dos Amores, através de núpcias profanas e divinas da glória e do desejo. Assim como outrora em Veneza o Bucentauro representava o casamento da cidade e do mar, agora os portugueses recebiam essa herança, repetida em núpcias sublimes. Nesse ponto Os Lusíadas celebram a consumação de um novo tempo universalista, com paralelo em Montaigne, no mundo das ideias. Basta lembrarmo-nos que os Ensaios de Montaigne são dados à estampa na década seguinte à publicação dos Lusíadas.
Num tempo em que as tensões religiosas se acumulavam no velho continente, a abertura de horizontes que sentimos no poema de Camões constitui um sinal de que o espírito renascentista se desenvolve com a participação da experiência portuguesa. Deste modo, a mitologia dos Lusíadas não é artifício ou ornamento, como afirma Eduardo Lourenço, mas a presença ainda todo-poderosa de um modelo que poderia ser utilizado para que os mitos modernos fossem comparados com as glórias da História grega ou romana, desde o fascínio de Circe às lágrimas de Dido. E, não por acaso, como que evocando as origens de Moisés no rio Nilo, temos a mitologia ligada ao suposto salvamento dos Lusíadas no naufrágio na embocadura do Mekong. E se o tema do Livro é marcante para Montaigne, o certo é que o poema que celebra a nação torna-se um verdadeiro símbolo coletivo, fazendo projetar no mundo contemporâneo os ecos do mundo antigo numa convergência singular.
Montaigne e Camões associam-se de um modo quase surpreendente, o que na leitura destes ensaios de Eduardo Lourenço se torna natural. Estamos no coração do Renascimento, no ponto em que a um tempo se descobre o mundo, da América à Índia, bem como se procura o íntimo do mundo interior de cada um de nós – e assim o descobrimento liga a descoberta da Humanidade e a procura do Homem. Deste modo, o ensaísta, ao ser recebido na Universidade de Bolonha, Alma Mater da Europa moderna, pôs em evidência a necessidade de ligarmos o nosso tempo ao tempo dos outros, para nos compreendermos melhor universalmente, em nome de uma dignidade humana que deve unir-nos no respeito mútuo, articulando a revisitação do inferno da condição humana à necessidade de melhor contemplarmos o sol e as estrelas. E cabe perguntar: Onde estamos afinal? E como poderemos tirar consequências afim de conservar intacta a capacidade de invenção e de nos renovarmos? A reflexão de Eduardo Lourenço ajuda-nos.
Quando Eduardo Lourenço atribuiu ao grupo de “O Tempo e o Modo” e a António Alçada Baptista uma função intelectual e ética compreendeu o cerne da questão, uma vez que, mais do que qualquer pressão direta sobre os acontecimentos, do que se tratou foi de criar condições para um gradualismo que foi correspondendo a uma maturação da sociedade portuguesa em vários campos. Se lermos com atenção a primeira série de “O Tempo e Modo”, percebemos que é a realidade que se move em diversos domínios. Na política, tratava-se de seguir uma certa dialética, que era o mesmo que usar um eufemismo para significar a semente da democracia. Na economia, a participação de Portugal no processo de integração europeia, através de EFTA, significava já a rutura com a ideia de “orgulhosamente sós”. Na sociedade, vemos que os valores tradicionais sofrem um abalo subreptício, mas real. Os dois números especiais da revista sobre “O Casamento” e “Deus O que é?” significam o tratamento de temas atualíssimos que representavam um avanço importante no campo da reflexão e das mentalidades. Para iludir a censura, os números não se inseriam na ordem periódica, para não estarem sujeitos à prova de página. No domínio da criação cultural e artística, pode-se dizer que tudo de fundamental passou por “O Tempo e o Modo” – literatura, teatro, música, artes, educação, formação, ciência, tecnologia – tudo… Edgar Morin disse que em pouco tempo uma geração avançava cinquenta anos. Simultaneamente, a Associação Internacional para a Liberdade da Cultura, com Pierre Emmanuel, e as iniciativas do Centro Nacional de Cultura, além da Fundação Gulbenkian, apesar de todas as proibições foram preparando o terreno. Leia-se o volume “Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril”, que demonstra a importância que teve em Portugal a atuação da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias, braço do Congresso para a Liberdade da Cultura, que permitiu o maior contacto com as democracias europeias, o que reforçou o desejo de liberdade e as convicções democráticas. Pierre Emmanuel e Roselyne Chenu são referências inesquecíveis que nos lembram uma fase decisiva para a concretização da democracia. E se o facto de António Alçada ter sido protagonista nas “Conversas com Marcello Caetano” causou perplexidades, a verdade é que não podemos esquecer em que medida essa atitude contribuiu decisivamente para preparar condições de tolerância que permitiram a consolidação democrática, de que Mário Soares foi protagonista.
Um dia, António recordou que era importante para o equilíbrio de uma embarcação que nem todos se concentrassem a bombordo ou a estibordo. Para ele, se todos iam para um lado, era necessário equilibrar o outro para que o navio se não virasse. Do mesmo modo, recordava o caso do seu amigo José Gomes Ferreira, com posição política bem conhecida, que enquanto alguns lhe viravam a cara, ele fazia questão de atravessar a rua para lhe dar um abraço, pois a hombridade não escolhe ocasiões. Edgar Morin seguiu com atenção a revolução portuguesa, fiel aos seus amigos, e com especial atenção aos falsos entusiasmos e aos radicalismos de última hora. O fundamental era a defesa das liberdades fundamentais. Edgar tornou-se amigo próximo de Mário Soares, que António Alçada Baptista lhe apresentou em Paris. Quando soube da morte de Mário Soares, isso abalou-o profundamente. Depois da morte de Helena Vaz da Silva e de António Alçada foi o momento mais triste da solidariedade portuguesa.
Para Morin, a institucionalização da democracia portuguesa foi exemplar na história contemporânea. A democracia e a liberdade puderam vencer. De facto, como resulta da sua reflexão teórica a democracia não é um processo de escolha dos governos ou de apuramento de responsabilidades, é mais do que isso, uma vez que se trata de um sistema de valores éticos que permite definir o Estado de Direito como primado da lei, legitimidade do voto, legitimidade do exercício e concretização da justiça. Como se compreende, Edgar Morin sempre entendeu, por isso, que os amigos portugueses não se preocupavam com projetos e jogos de poder, mas com a reforma das mentalidades e com os fundamentos éticos da realização da dignidade humana. É nesse ponto que é importante perceber que os polos profético e político se completam. Apesar das diferenças, António e Mário Soares fazem parte da mesma raiz que Morin reverenciou – centrado na liberdade. Por isso, o projeto da nova revista portuguesa em que Edgar participou tinha as duas referência que o filósofo tanto amava – “Raiz e Utopia”. Na raiz estavam os fundamentos, na utopia o horizonte de exigência e de mudança, não da sociedade perfeita, mas da capacidade de ser melhores. Daí que Morin preferisse falar de metamorfose, fiel à natureza e à complexidade, em vez de transformação.
Para o pensador, o fundamental na revolução portuguesa estava na coerência e na coragem do Movimento da Forças Armadas que, como prometeu em 25 de Abril, devolveu à soberania popular das instituições civis a legitimidade do Estado e da Sociedade. É certo que não há perfeição, mas vontade de ser melhor, com compromissos, coerência, respeito mútuo e cidadania responsável. A ligação especial aos amigos da resistência e a pessoas como Mário Soares e Maria Barroso ou a militares democratas como Ernesto Melo Antunes ou Ramalho Eanes tornou a presença de Edgar Morin em Portugal uma referência natural que determinou uma vontade expressa de deixar registada a memória desta ligação de uma amizade solidária.
A História não se faz apenas de grandes acontecimentos. Constrói-se com grandes decisões e com pequenos passos. Pode dizer-se que alguém poderia ter grandes ambições para uma carreira ou para uma vida, no entanto no balanço geral de uma existência temos de considerar tudo. Edgar Morin conheceu por isso os gestos, de facto significativos, de um grupo de católicos inconformistas e deu-lhes uma importância especial, numa sociedade em metamorfose, desejosa de abertura e de liberdade. Por isso recordava o testemunho daquele miliciano com experiência em África que confessava a António Alçada como fora importante a leitura de “O Tempo e o Modo” durante as missões do serviço militar obrigatório, para compreender a importância das ideias e dos acontecimentos. Para além das aparências, Emmanuel Mounier ensinava, no fundo, que o acontecimento é o nosso verdadeiro mestre interior.
Quando lemos a lição proferida por Eduardo Lourenço na Universidade de Bolonha, Alma Mater das Universidades europeias, na abertura da cátedra que tem o seu nome, em dezembro de 2007, encontramos alertas fundamentais que não podem ser esquecidos, sobretudo num tempo em que a ciência e a cultura sofrem estranhas ameaças, que pretendem pôr em causa a independência e a autonomia do conhecimento e a liberdade criadora. O nosso pensador intitulou então a sua conferência como “Nosso tempo e o tempo dos outros” e foi claro e profético no sentido de reconhecer que há responsabilidades que têm de ser assumidas para a salvaguarda da liberdade e de uma autêntica ética cidadã. Pela primeira vez, a globalização determina que os Europeus estejam confrontados, no interior e no exterior, pela ideia de esgotamento. “Sabemos que somos mortais”. Deixamos de ser símbolo da cultura e não continuamos os nossos jogos culturais como se estivéssemos sós no mundo.
Tanto Heraclito como Hesíodo viveram na convicção de que o seu tempo, os seus trabalhos, os seus deuses, os seus dias, como os seus sonhos eram partilhados por toda a humanidade. Todavia, hoje já não é assim, com evidentes consequências. E Eduardo Lourenço lembrava a metáfora felliniana da “Nave che va”, ao lado da Arca de Noé, da barca de Ulisses, da nave dos loucos ou do navio redentor de Colombo. Não sabemos hoje o destino da viagem. E, se tomamos consciência de que não estamos sós, somos obrigados a compreender a emergência do pluralismo e da incomensurabilidade de valores éticos, que não pode confundir-se com o mero relativismo ou com o absolutismo. A noção de limites torna-se diferente para as várias culturas e deparamo-nos com o risco severo de alimentarmos uma cultura de indiferença, ou pior, de ternos a indiferença como cultura. O resultado está à vista com a prevalência do puro oportunismo e da transformação do contrato social em mero negócio – como se Mefistófeles se tornasse uma fatalidade para Fausto. E assim é o caos que nos ameaça, como temos visto nos últimos acontecimentos. Durante todo o século XX os europeus pareceram dominar, na natureza, na vida e da história – e para além das crenças milenárias preferiram cultivar os sonhos e os mitos. E o “fim de um mundo” transformou-se em “fim da história”, ilusoriamente, numa cultura fascinada por um novo niilismo, o niilismo lúdico, pós-moderno – que parece estar na ordem do dia na cultura americana, no confronto entre perspetivas contraditórias, no medo dos outros, na ausência de compromissos, na busca de bodes expiatórios e na obsessão conspiratória. Ao invés, o conferencista referiu a superioridade de uma cultura antiga, de Dante a Kafka, de Pascal a Beckett, passando por Camões, Cervantes e Shakespeare, capazes de visitar periodicamente o inferno da condição humana, para melhor contemplar o sol e as estrelas. Paradoxalmente, desde que os europeus chegaram ao Novo Mundo, começaram a envelhecer, dando razão aos avanços e recuos, aos corsi e ricorsi de Gianbattista Vico. Outros parecem não compreender as virtudes da liberdade e da audácia criadora. A cultura europeia está, assim, confrontada com a necessidade de deixar de ser apenas reativa, consumidora ou recuperadora das outras culturas. Se conserva intactas as suas capacidades de invenção e de renovação tem de as aproveitar congregando esforços e abrindo-se, para entrarmos em plenitude no tempo dos outros.
«Pessoa Revisitado» de Eduardo Lourenço constitui uma obra referencial do grande ensaísta, que acaba de ser reeditada pela Gradiva e constitui uma sugestão essencial de leitura para este Verão.
PEÇA-CHAVE O reconhecimento da genialidade de Pessoa é uma marca indelével que encontramos na obra que aqui se apresenta. Pessoa Revisitado – Leitura Estruturante do Drama em Gente constitui uma peça-chave na obra de Eduardo Lourenço, da qual resulta a ideia inovadora e original de que os heterónimos pessoanos não são fragmentos de um puzzle, cuja coerência o leitor poderia reconstituir com referência a alguma instância exterior à obra, mas sim à fragmentação de uma totalidade identificada na poesia do próprio Fernando Pessoa, ainda antes do nascimento de Caeiro, Campos e Reis, como tem salientado Pedro Sepúlveda (in Obras Completas, IX, Pessoa Revisitado – Crítica Pessoana – I (1949-1982)- Fundação Calouste Gulbenkian, Introdução, pp. 13 e ss.).
Nesse sentido, a famosa questão da génese dos heterónimos passa a ser colocada no plano textual, com uma perspetiva orgânica, partindo de uma ideia não só de rutura, mas também de continuidade, no tocante a motivos e temas, ligando os textos heteronímicos entre si e a uma fase anterior. E o percurso desenhado por Richard Zenith na sua biografia de Pessoa ilustra bem esta ligação. É assim que se compreende que Eduardo Lourenço tenha a preocupação de tornar claro que se demarca de uma visão psicologista na interpretação da personalidade poética de Pessoa. Para si a psicanálise é mítica, centrada no texto e não no sujeito criador dele. E Robert Bréchon afirma que Pessoa Revisitado devolve à poesia pessoana o seu poder de subversão. Há, deste modo em Eduardo Lourenço, uma redescoberta de Pessoa, que o Livro do Desassossego irá confirmar, numa coerência e num sentido de conjunto, que Eduardo Lourenço intuiu de forma pioneira magistralmente.
Aproximando-se de Adolfo Casais Monteiro ou de Maria Aliete Galhoz, o ensaísta considera que na obra policêntrica estamos perante um sistema de múltiplos sentidos, que corresponde a um todo. De facto, a aparente multiplicidade e o seu carácter supostamente contraditório da obra plural correspondem a uma impressão de totalidade. E neste ponto a referência Walt Whitman merece especial atenção. Tradicionalmente apontado como influenciador do mestre Alberto Caeiro, verifica-se que essa prevalência é muito superior ao que se possa supor, sendo transversal a toda a criação, transformando-se em imaginário refúgio contra o sentimento de irrealidade. Aliás, a descoberta do volume Poems by Walt Whitman na Biblioteca particular de Pessoa, profusamente anotada, com a assinatura de Alexander Search, numa fase pré-heteronímica, demonstra o acerto da intuição lourenciana.
LIVRO POLÉMICO E DE URGÊNCIA Pessoa Revisitado é, sem dúvida, para o seu autor um “livro polémico, veemente, livro de urgência” e até de paixão. E Pedro Sepúlveda tem razão ao considerar Pessoa Revisitado como, “até hoje o mais importante ensaio escrito sobre a obra de Fernando Pessoa”, pela originalidade e pela atenção inovadora. Afinal, como o mesmo considera, invocando o testemunho do próprio Lourenço: «Tal como em Caeiro, a forma de poesia de Campos teria como referência primordial Whitman, mediada pela influência do mestre, apresentando-se como “transfigurado eco da visão que Walt Whitman tem das coisas, não do concreto hino com que as canta”» (Op. Cit., p. 31). E o poeta norte-americano constitui uma chave reveladora do que se torna próprio e irrepetível na genial criatividade de Fernando Pessoa, ele mesmo.
Como o ensaísta reconhece, estamos diante de “um livro de paixão, um romance de romancista imaginário por conta de Pessoa, antes que autênticos romancistas o convertessem na ponte das suas criações” (Vinte Anos Depois). Eis o que nos obriga a esta leitura apaixonante.
UMA PREMONIÇÃO Como disse Eduardo Lourenço: “o canto pessoano é o do terror instalado no centro do amor, fazendo sobre-humanos esforços para não sucumbir ao seu negro sortilégio. A relação da humanidade com o seu desejo não é, nem pode ser natural. Porque foi e é através das formas que assumiu e assume que ela se liberta sem cessar da Natureza e se instala na sobrenaturalidade, onde não acabará jamais de se instalar”. Carlos de Oliveira viu bem quando afirmou que este foi o grande romance que Eduardo Lourenço, afinal, escreveu. E assim o leitor insaciável, o estudioso permanente, o cultor da linguagem poética reveladora do sentido profundo dos mitos surge aqui como revelador do sentido da criação cultural de Pessoa. Não mais poderemos compreender o alcance de «Orpheu» sem lermos esta obra. E o certo, porém é que o próprio autor talvez não se tenha apercebido, quando fechou o seu ensaio, que a descoberta do Livro do Desassossego viria a dar plena razão à coerência complexa e à genialidade do autor plural que demonstrou na modernidade uma coerência única entre a personalidade multímoda e a sua obra portentosa, assente no surpreendente diálogo entre a diversidade de ortónimos e heterónimos…
Ao terminar em 23 de maio a celebração do centenário do nascimento de Eduardo Lourenço, a Gradiva acaba de publicar “Eduardo Antes de Ser Lourenço – Textos de Juventude” coordenado por Luciana Leiderfarb, um conjunto dos primeiros textos do ensaísta.
Falaremos oportunamente da obra, assim como da nova edição de “Do Colonialismo como nosso Impensado” – com organização de apresentação de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Hoje publicamos parte de um ensaio sobre a relação do ensaísta com Antero de Quental no período de Vila do Conde vivido pelo poeta.
«Aqui as praias são amplas e belas e por elas passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz». É Antero que o confessa a João de Deus, em 13 de janeiro de 1882. Desde os finais do ano anterior mudara-se ao encontro de paz, sossego e da proximidade dos seus amigos mais próximos. «Fixei atualmente a minha residência em Vila do Conde, terrinha antiga, plácida e campestre, muito ao sabor dos meus humores de solitário» - diz a João Machado de Faria e Maia. «Vivo aqui como um verdadeiro ermita» (2 de janeiro). Sentia-se bem e confessara a Jaime Batalha Reis, nos últimos dias de outubro de 81: “Eu aqui consigo uma coisa rara, prodigiosa: dormir. Faço-o como se fosse a coisa mais natural deste mundo! Veja se não hei de considerar esta terra, além de maravilhosa, salvadora».
De facto, na vida de Antero, há um tempo e um “espírito de Vila do Conde”, que merece atenção especial. E se a relação de Eduardo Lourenço com a memória de Fernando Pessoa é especialmente relevante, a ponto de podermos dizer que é a descoberta do mistério fundamental dos heterónimos um dos maiores contributos do ensaísta para o conhecimento do modernismo português no seu conjunto, o certo é que há com Antero de Quental um elo incindível que ilumina todo o fascínio que a obra do autor de Psicanálise Mítica do Destino Português nos reserva. É, realmente, o poeta de Odes Modernas que constitui referência fundamental para o entendimento da raiz de Heterodoxia, o que leva entender-se justamente que Eduardo Lourenço é um herdeiro legítimo da Geração de 70. Como, aliás, está afirmado e reafirmado, há uma presença indelével do tema matricial das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, nas duas visões complementares que o ensaísta considera, a da segunda Conferência do Casino de Antero e a da releitura de Oliveira Martins na História da Civilização Ibérica. Com efeito, podemos dizer que a marca desses dois textos está claramente presente quando Eduardo Lourenço se demarca de uma interpretação tradicional da cultura portuguesa, marcada a um tempo pelos ecos das glórias antigas e pelo peso do decaimento moderno. No fundo, reinterpretando Antero e Oliveira Martins, Eduardo chega a um enigma subjacente à Mensagem segundo o qual o destino português está marcado pela revelação crítica dos mitos, marcados pelos dois textos. Se o Fernando Pessoa não esconde a importância que reconhece à herança poética de Antero, deixa na penumbra a influência de Oliveira Martins na interpretação deste relativamente ao auge da afirmação histórica da dinastia de Avis e de Os Filhos de D. João I. E Eduardo Lourenço não tem dúvidas de que na Mensagem, a matriz fundamental utilizada por Fernando Pessoa corresponde à leitura que fez do autor da História da Civilização Ibérica. Como diz Eduardo Lourenço: “Em sentido próprio só com Oliveira Martins e a partir de Oliveira Martins, Portugal é história e tem a sua História. À perceção do destino português como ‘epopeia’ (transcendente ou positiva), Oliveira Martins opôs a ideia do nosso destino como ‘drama’ permanente e ambíguo. A integração do ‘mito’ no discurso histórico separa o grande Herculano, homem ainda do século XVIII, de Oliveira Martins, o autêntico romântico. Paradoxalmente, contudo, o discurso histórico do autor de Portugal e o Socialismo se tem o mérito de integrar a sombra no processo épico da visão tradicional, confere-lhe, por outro lado, um perfil fantasmagórico ao separar na escrita dele o plano vital e psicológico do plano material que condiciona o permanente balancear entre euforia e tragédia característico, segundo a sua visão, da nossa peripécia nacional” (Prefácio a Oliveira Martins, Uma Biografia, INCM, 1986, pp 16-17).
Sabemos a importância do período de Vila do Conde e não será demasiado audacioso dizer que, não por acaso, esse momento marcou especialmente a relação entre Eduardo Lourenço e o poeta de Sonetos. Sem sombra de saudosismo, o ensaísta encarou o tempo de Vila do Conde de Antero como uma oportunidade serena, de modo a pensar o inconformismo como atitude necessária, ditada pela tensão entre transcendência e imanência. Por isso, o ensaísta lembra que há entre Antero e Pessoa uma diferença intransponível, entre os sonhos sonhados e as frustrações que os acompanham. “Foi na vida mesma – na sua e na da sociedade que o cercava – que Antero quis realmente encarnar os seus sonhos, não seus apenas, mas os de uma longa utopia humana, sonho de igualdade, de justiça, de fraternidade, todos muito século XIX, que nunca foram – se não ironicamente os de Pessoa. Os sonhos de Pessoa foram, desde a origem assumida e provocatoriamente sonhos, de negação ou viagem numa outra realidade, que aquela que assim chamamos, loucura calma ou arrebatamento proposto como a sabedoria suprema. Como se tivesse nascido, e de facto teve consciência disso, sobre as ruínas do sonho anteriano que mesmo utopia de vida era já a consumação de um desastre (A Noite Intacta, pp. 140-141).
A Exposição que está na Biblioteca Nacional de Portugal alusiva ao centenário do nascimento de Eduardo Lourenço, comissariada por João Dionísio, é uma muito boa surpresa. Não se trata apenas de mais uma evocação do pensador e ensaísta, já que se baseia no seu espólio inesgotável, que agora começa a ser revelado. Nesse sentido, mostra-se uma faceta do escritor que só agora pode começar a ser estudada, enriquecendo o conhecimento do prolífero autor, cuja obra longa e multifacetada precisa de ser mais bem conhecida. E cabe elogiar o excelente trabalho desenvolvido por João Dionísio na conceção do percurso, apresentado numa sequência que vai do epílogo para o começo, em revelação apaixonante de uma vida cuja riqueza correspondeu a uma simbiose fecunda entre a existência e a reflexão, não podendo esquecer-se o contributo decisivo para a reunião destes preciosos elementos de João Nuno Alçada, conhecedor profundo deste extraordinário acervo.
O título “A caminhar para o princípio” diz tudo. Há um percurso cronológico concebido às avessas baseado num pequeno apontamento do ensaísta e numa fotografia. No primeiro lê-se: “Pour moi il (est) trop clair que nous marchons dès le commencemet vers notre commencement» - Para mim é demasiado claro que caminhamos desde o começo até ao nosso começo. Na fotografia, de Sílvia Seova, já publicada num dos volumes das Obras publicadas pela Gulbenkian, Lourenço, de costas, na companhia de um cão, caminha na direção de um túnel, sobre o qual os arbustos e as árvores deixam entrever a parte cimeira de uma casa. De forma natural, é como se Eduardo nos contasse a sua vida – começando por uma bela fotografia de Duarte Belo, que reproduz o gabinete, com luzes de estúdio, no qual captou centenas de imagens do espólio. Em seguida, identificando o século XXI, surge a imagem de Eduardo Lourenço na Fundação Calouste Gulbenkian, quando administrador não executivo, seguindo-se, para os anos 90, o pensador com Annie Salomon na muralha da China, na comitiva oficial do Presidente Jorge Sampaio. Para os anos 80, temos a impressiva imagem da visita ao Carmelo de Santa Teresinha, onde estava Lurdes, irmã de Eduardo. Nos anos 70, contamos com a paradoxal colagem da autoria de Mário Botas, em que a face recortada do pensador, com ar prazenteiro, ocupa a face do Rei Desejado, na pintura clássica de Cristóvão de Morais. A década anterior apresenta-nos a imagem do casal Faria com o filho Gil, enquanto o prólogo colocado às avessas envolve imagens inéditas do casamento de Annie e Eduardo em Dinard (Bretanha) e a presença do herói de tenra idade com os olhos bem abertos para o mundo. Estes são os marcos fundamentais deste fantástico caminho, também ilustrado pelo friso multicolorido com as capas das obras vindas a lume em Portugal e no estrangeiro. E, ao seguir esse caminho, orientado para o começo, fica a lembrança do devorador de periódicos que Eduardo era, colecionando, dobradas em quatro, as páginas dignas de maior interesse: “Não posso passar um dia sem ler o jornal. Compro-o e vou para ele como se o mundo viesse ao meu encontro”. E o exemplo de Hegel vinha à baila, na oração matutina do homem civilizado. Sou testemunha disso, com o meu vizinho de gabinete. E, em lugar de imagens já conhecidas, surpreendem-nos referência inéditas que ilustram a passagem dos sinais dos tempos que tanto o interessavam. Não por acaso, na célebre “Heterodoxia”, surgiu como símbolo, como ex-libris inconfundível, Migdar, a serpente de aspeto circular que morde a própria cauda. “Podemos ver (no velho mito germânico) uma imagem da vida como um todo que solicitou no seu seio a necessidade mesma da morte”. É a paixão circular da vida por si mesma, demarcada de um só caminho ou de nenhum caminho. Está de parabéns a Biblioteca e a sua diretora Inês Cordeiro, convidando o visitante a conhecer um pouco do fascinante espólio de um não menos fascinante autor.
MELANCOLIA DE UM ALEGRETTO… por Camilo Martins de Oliveira
Diz Eduardo Lourenço: "o que eu sou como ser mortal (o que todos somos) está contido na melancolia absoluta do allegretto da Sétima Sinfonia". Diz-se que Pio XII, na agonia da sua morte, pediu para ouvir como companheiro de viagem esse segundo andamento da sinfonia de Beethoven. Escuto-o agora, em cálida tarde de sábado, enquanto me passeio por leituras... E surge-me a interrogação de Paul Gauguin, pintada em ilha perdida do Pacífico, quase nos antípodas de nós: "quem somos, donde vimos, para onde vamos?"
No percurso da leitura, deparo com dois títulos no El País: "Era como estar en una pelicula" e, páginas adiante,"Espacios libres de niños/ los hoteles y restaurantes solo para adultos experimentan um polémico auge/ la crisis acelera esta opción minoritária/ que el sector abraza para captar clientes". O primeiro título refere-se ao tiroteio mortífero num cinema de Denver; o segundo nem precisa de esclarecimento. Ambos, afinal, traduzem fatores culturais da crise em que mergulhámos. Assim, apesar de doutorando em neurociências, o jovem Holmes "assumiu-se", na estreia de mais um filme de Batman, como mais um herói da violência indiscriminada que, todos os dias, apetitosamente nos é servida pela "comunicação social"... Porque a exploração da fraqueza, do mimetismo, da debilidade mental dá lucro aos que vendem!
Também as crianças, como as coisas bonitas do passado e tantas do presente, todas essas que queremos livres, construtivas e fraternas, já são, ao que parece, obstáculo ao lucro... Talvez não fosse mau lembrar que esquecer os outros, a pessoa humana -- que é real -- por essa ideia matemática e abstrata que é o dinheiro, é, muito simplesmente, uma estupidez.
TERRA DOS HOMENS…
Nos anos 30 do século passado, meditando sobre o avião que pilotava, o desenvolvimento das máquinas e o advento de uma nova era técnica, Antoine de Saint-Éxupéry escrevia (cf. «Terre des Homme», III – L’Avion): "Só agora começamos a habitar esta casa nova que nem sequer acabámos de construir. Tudo à nossa volta mudou tão depressa: relações humanas, condições de trabalho, costumes. A nossa própria psicologia foi abalada nas suas mais íntimas fundações. As noções de separação, de ausência, de distância, de regresso, embora mantenham os mesmos nomes, já não contêm as mesmas realidades. Para apanhar o mundo de hoje, usamos uma linguagem estabelecida para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza pela simples razão de que corresponde melhor à nossa linguagem"...
Em 1990, Jacques Le Rider publicava nas PUF o seu "Modernité viennoise et crise d´identité (1890-1938)", onde defendia que a modernidade vienense se tornou " numa das nossas referências estéticas e intelectuais mais importantes", por ter pensado a modernidade "como premonição do fim de um mundo". Situando-o no tempo, vemos como o movimento modernista vienense baliza uma crise que despoletou a queda das grandes monarquias da Europa central, os processos de industrialização e colonização aceleradas, as revoluções socialistas e anarco-sindicalistas, e os conflitos e vexames inerentes a tudo isso e que conduziram à hecatombe da 2ª Grande Guerra.
Para Jacques Le Rider, Schoenberg, Schiele, Musil, Freud, Wittgenstein, todos "os criadores vienenses refletiram de modo crítico a sua condição de homem moderno,feita simultaneamente de euforia e mal-estar..." Mas essa criatividade deveu-se "à imigração e à diversidade étnica, não à homogeneidade nacional..." Assim, Le Rider atribui à incapacidade política de pensar essa coexistência o fim do "modelo muito elaborado da pluralidade nacional, linguística, étnica e cultural no centro da Europa". Quero hoje começar a refletir sobre a crise presente e sobre a nossa interrogação da Europa. Não numa perspetiva economicista, nem à luz dominante da prioridade dada à política financeira. Mas antes partindo da consideração do povo, dos povos europeus de hoje, e dos desafios a que terá de responder para começar "a habitar esta casa nova que nem sequer acabámos de construir".
Aliás, a casa dos homens está sempre em construção, pois das pessoas que nascem, vivem e morrem, ela é feita. Da Jerusalém Celeste à Torre de Babel, do monaquismo às comunidades hippies, por constituições de estados e convenções internacionais, vamos tentando... Temos de olhar para a Europa de hoje, tal como se situa num mundo em globalização, em que as tecnologias de comunicação e transporte tornam o longínquo imediato e próximo e vão confrontando o sentimento de si com entidades várias e a tentação mimética de misturar tudo. A miscigenação étnica e cultural é hoje um fenómeno crescentemente generalizado e frequente. Mas também gera receios, desconfianças, racismo, fanatismos. Por isso mesmo, se torna tão importante que cada um se compreenda melhor a si, cada pessoa, cada povo, cada cultura. A consciência informada e limpa da própria identidade é condição prévia do convívio e do diálogo, e estes são participação e partilha, não são eliminação.
Fala-se do inglês como língua universal e há quem pretenda que as línguas nacionais ou os dialetos regionais não têm razão de existir num mundo global. Mas o inglês que funciona como língua franca é também um inglês que se destila, filtra e empobrece e, por vezes, já pouco tem de inglês clássico, ou pouco a ver com a cultura anglo-saxónica (que não é só a dos negócios) Quantos dos nossos "CEO", que fazem "statements" com três palavras de inglês para duas de português, conseguirão ler Shakespeare no original? Deverão por isso os anglófonos castiços abandonar o vate ou todos nós esquecê-lo? Ou não deveremos nós, portugueses, conhecer melhor, como diria Eça, "o nosso Camões"?
Na Europa de hoje vivem - e são europeus, tal como os afro-americanos são americanos e não já africanos, e isto não só por imposição legal ou reconhecimento de um direito, mas culturalmente - gentes de variadas origens étnicas, geográficas e culturais. Basta ver na televisão jogos entre seleções nacionais europeias de futebol ou atletismo para disso nos apercebermos, ou, mais simplesmente, sair à rua. Cada um deles deverá ter uma dupla função: a de aprender bem a língua do país que os acolheu (ou já a seus pais e avós) e, com a língua, ir apreendendo uma cultura enquanto visão e modo de estar no mundo e na vida; mas também, porque o modo vive e evolui no tempo, enriquecer essa cultura e essa língua com a contribuição do seu pensamento, sentimento e discurso. Afinal, como qualquer de nós. E não têm a língua e cultura lusíadas sido enriquecidas pelas literaturas brasileira e afro-lusófonas?
Em próxima oportunidade, poderemos falar na importância das chamadas humanidades na construção da casa que todos teremos de habitar. Teremos de perceber como a preservação da memória histórica e a transmissão da língua viva são fatores de entendimento, de diálogo e de convívio.
Camilo Martins de Oliveira
Obs: Reposição de texto publicado em 27.07.2012 neste blogue.
Assinalamos esta semana, o Centenário do nascimento de Eduardo Lourenço (1923-2020), homenageando o amigo de longa data do Centro Nacional de Cultura e nosso sócio honorário.
LIBERDADE, HISTÓRIA E CIÊNCIA Leitor atento, Eduardo Lourenço conhecia bem a conferência de Karl Jaspers, nos primeiros Encontros Internacionais de Genebra, em 13 de outubro de 1946, quando em resposta à pergunta – o que é a Europa, invocou três palavras: liberdade, como vitória sobre o arbitrário e compreensão da intranquilidade e da inquietação; história, enquanto encontro e diálogo e procura da liberdade política; e ciência, como apelo à verdade, uma vez que “a liberdade exige a ciência, não só a ciência como passatempo dos nossos ócios, não só como técnica subordinada a fins práticos, não só como jogo de pensamento lógico, mas como vontade absoluta universal de conhecer o conhecível”. Todo o percurso do autor de Heterodoxia foi feito de um apego claro relativamente à tripla invocação feita em Genebra. De facto, a heterodoxia que cultivou assentava nas ideias de autonomia e emancipação, pelo que quem firmemente acreditasse que possuía a liberdade, já a teria perdido de modo irreversível. O culto do paradoxo pelo ensaísta significou, assim, a compreensão da incompletude humana e de uma inelutável imperfeição. Daí o apego ao método do ensaio, com demarcação permanente relativamente a um “pensamento fechado e completo”. Assim, o que lhe surgia como problema ou questão de “identidade”, para a pessoa, o grupo ou a nacionalidade, não diria respeito à identidade propriamente dita, mas á sua manifestação ou à sua expressão, enquanto “perturbação”. E deste modo a liberdade individual tornava-se um fator de visão crítica. Como disse em Nós e a Europa ou as duasrazões, numa conferência proferida nos Estados Unidos (em Durhan), em 1984, podia “concluir-se que, em sentido rigoroso, não há nunca questão alguma de identidade. Seria uma conclusão apressada. Mais exato é afirmar que para o indivíduo, o grupo, a nação, a questão da identidade é permanente e se confunde com a da mera existência, a qual não é nunca um puro dado adquirido de uma vez por todas, mas o ato de querer e poder permanecer conforme ao ser ou ao projeto de ser aquilo que se é”.
PENSAMENTO E AÇÃO Tal como encontrara na conferência de Jaspers e nas suas considerações proféticas, o pensador ocupou-se da reflexão sobre a identidade num mundo global – onde coexistem fatores contraditórios, inerentes à própria complexidade. Nenhum facto, nenhuma consequência tem apenas uma razão ou explicação. E a situação atual do mundo demonstra, a cada passo, essa exigência de entendimento da importância do “ato de querer e poder”, que deve permanecer “conforme ao ser”, enquanto situação e projeto. Desde a queda do muro de Berlim, quando se esperava uma convergência de sistemas e de paz, assistimos à fragmentação política; e quando prevíamos a emergência de um regionalismo supranacional, deparámo-nos com um perigoso tribalismo, que agrava os riscos do nacionalismo. E sobre os escombros da guerra fria ocorreram perigosas polaridades difusas – desde o terror de 11 de setembro aos novos imperialismos larvares que redundam na emergência de guerras incontroláveis. Daí a coexistência de esperança e de desencantamento, que são, no fundo, faces da mesma moeda. E o ensaísta, na linha essencial de Montaigne, partiu da experiência pessoal para a realidade que nos cerca. Daí que a compreensão do Portugal moderno devesse fazer-se em ligação estrita com a noção de “Europa como Cultura”, como encontramos no texto com este título escrito em “Finisterra” no ano emblemático de 1989, e que hoje renasce com uma imprevista atualidade.
A EUROPA EM CONSTRUÇÃO Que Europa se vai construindo? Há sinais preocupantes. “É provável que, dentro em pouco, a Europa constitua um supermercado florescente, um espaço dourado por excelência de uma sociedade hiper-consumista, ao mesmo tempo que num lugar de diversão sem rival no planeta. Esta perspetiva não só é plausível, como, de certo modo, fatal”. Contudo não é uma cultura europeia que se constrói, mas um “invólucro vazio, uma realidade sem alma nem memória. Uma Europa cortada da relação com os valores culturais que criou, indiferente à sua herança E à sua riqueza cultural, será apenas uma Disneylândia para a nossa pseudo-infância de europeus”. Se todas as culturas, todas as civilizações fizeram de si mesmas e do mundo à sua volta uma história global, numa relação privilegiada com a Verdade, através de ídolos, deuses e do próprio Deus, em nome da sabedoria e da certeza, a consciência europeia criou uma cultura de inquietação, de angústia e de desafio aos deuses. E assim, nós europeus, tornámo-nos os únicos humanos que não temos identidade. “A essência da cultura ocidental cifra-se na vontade de nos dar um nome”. E como “continente metafísico” a Europa confronta-se com a divergência, o conflito e com a inquietude. “Em boa verdade, o passado europeu com os seus intermináveis conflitos, os recentes horrores do nosso século não abonam muito a esta tentativa – ou tentação – de amalgamar a história europeia à da luta pela liberdade, como de formas diversas o puderem fazer Michelet, Hegel ou ainda Croce”. Afinal, a Democracia europeia resulta de um longo conflito, insiste Eduardo Lourenço, o que “não é um dado, um dom caído do Céu, mas uma conquista, sempre inacabada, sempre ameaçada e a reformular em temos cada vez mais complexos e, em última análise, imprevisíveis. O seu cimento foi a audácia, o sacrifício, o sangue, mas acima de tudo, uma exigência de justeza nas ideias e de justiça nos atos”.
A Europa foi construída pelas ameaças dos persas, turcos, mongóis, árabes, que forjaram a nossa identidade. “No fim de contas, o único inimigo que os portugueses sempre tiveram foram eles mesmos. O que era já visível para Erasmo não deixou de o ser em vésperas da sua conversão em ‘Comunidade Europeia’…” A guerra civil perpétua europeia foi atenuada pela razão, mas há um esquecimento cíclico que nos assalta e que nos leva a contentar-nos erradamente com os resultados comerciais ou económicos de curto prazo. Para Eduardo Lourenço, somos, porém, demasiado indiferentes aos conceitos e ideais que preocupavam Jaspers em 1946, quando este pensava numa regeneração: Verdade, Valor, Liberdade, elementos que durante séculos constituíram a referência imperiosa do pensamento, da ética, da arte e da ação europeias. “Se não houver Europa como cultura, e enquanto a não houver, todos os outros sucessos europeus repousarão sobre a areia”. Mitificação do cultural? Apenas a simples lembrança de que “Europa foi sempre, não apenas uma cultura entre outras, mas uma exigência do sentido que engloba a crítica da própria cultura”. Contudo, o pensador não falava de um museu mais ativo do que uma mera referência turística, nem de um mero espaço de deslumbramento alargado, de comunicação de tesouros ou uma rede de gabinetes de curiosidades, mas da tomada de consciência das raízes comuns. “A Europa como cultura é outra coisa que essa fluidez nas trocas culturais relativas ao passado e ao presente, qualquer coisa que tem pouco que ver com o espetáculo televisual dos jogos inter-fronteiras”. Importaria demarcar-nos de uma ideia pobre de mínimo cultural, emerso no puro universo do espetáculo e da distração, da internet e dos robôs, em lugar de encarar a cultura e arte como valores … Como quis Coudenhove-Kalergie, podemos acrescentar, ser necessário entender Ulisses como o protótipo do europeu, enquanto o herói do primeiro romance de aventuras do Ocidente, cujo caráter tem várias dimensões. Não foi apenas bravo e magnânimo, mas dispôs de ardil e astúcia, com uma paixão temperada pela medida, não procurando a aventura, mas dominando-a, sem procurar a luta, mas ganhando-a.
Para Eduardo Lourenço, Camões, Antero de Quental ou Fernando Pessoa – ao lado da grande plêiade de europeus como Ésquilo, Dante, Erasmo, Goethe ou Rilke, Tolstoi ou Dostoievski – definiram, através das suas obras, um espaço exigente, enigmático, inventivo e grandioso da cultura concebida como cultura das diferenças, vivendo da busca do que T.S. Elliot considerava ser o muito da sabedoria que se perdia na informação e no conhecimento. Em suma, dependemos “da invenção de um caminho e de uma saída que ninguém nos deu nem pode descobrir em vez de nós”. E a nossa relação com o ensaísta tem a ver com essa inalienável necessidade de termos presente esse poderoso desafio que nos liga à humanidade e à cultura como vida.
Eduardo Lourenço dirigiu a revista “Finisterra” entre o Inverno de 1989 e o ano em que nos deixou em 2020, recordamos essa experiência.
UM LUGAR DE ENCONTRO «Finisterra: um sítio onde a História nos colocou como europeus do Sul, prometidos a um futuro nem de nós mesmos suspeitado, lugar de margem, de isolamento, de sonho e de vertigem. Apesar das aparências, num mundo, onde tudo é já centro e circunferência, este lugar que é ainda o nosso, que nos fala antes que nós o falemos como portugueses, é um lugar propício à consideração nua da nossa situação histórica, nacional, europeia, nos finais de um século que conheceu mais metamorfoses que aqueles que nos precederam: Em todo o ‘fim’ está inscrito o aspeto de um ‘começo’. Ou de um eterno recomeço». Assim se exprimiu Eduardo Lourenço, em novembro de 1988, nas vésperas de um ano de mil acontecimentos e de mudanças radicais, no início da revista “Finisterra”, que iria dirigir até à morte, com uma designação própria, apesar da coexistência de uma outra revista de âmbito científico e geográfico, animada por Orlando Ribeiro e seus discípulos. O ensaísta insistiu, porém, especialmente nesse título, uma vez que quis desde o início deixar claro que havia uma simbologia a preservar, que ultrapassava em muito uma lógica meramente topográfica. “Finisterra” significaria, assim, atitude e desafio, compromisso e programa. Tinha a ver com uma atitude, uma vez que chegados onde a terra acaba e o mar começa, haveria que considerar a construção do futuro como obra de vontade e de compreensão da sociedade. Do mesmo modo, significaria considerar um desafio, como exigência de organização social e política, centrada numa obra de cidadania. Relativamente à ideia de compromisso, pressuporia a ligação entre o pensamento e a ação, de maneira que o debate e a reflexão pudessem constituir-se em pedra angular de uma cidadania ativa. E, no tocante ao programa, a referência a “Finisterra”, revelar-se-ia necessária e profética, em nome do pensamento democrático na sociedade portuguesa, fundamento de uma instituição atenta e ativa.
UMA OPÇÃO DE LIBERDADE Desde 1989 até ao presente, a ideia de um novo “fim da história” deu lugar no mundo à verificação da fragilidade do Estado de direito e a uma preocupante erosão dos direitos fundamentais. Nestes termos, para Eduardo Lourenço, “Finisterra propunha-se ser uma “tribuna de livre discussão de todos os discursos culturais em circulação”. Contudo, a realidade evoluiu de modo surpreendente, na qual a “apoteose do projeto liberal do Ocidente” cedeu lugar a uma estranha ambiguidade em que o elemento liberal se tornou consumista e mercantil, perdendo a prevalência da autonomia individual, dos direitos subjetivos e da coesão social. Quando Carlo Rosselli ou Norberto Bobbio falaram da importância do elemento liberal fizeram-no com a expressão “socialismo liberal”, que associava à justiça distributiva e a igualdade, às tradições da liberdade individual das revoluções inglesa, americana e francesa. Para um pensador como Eduardo Lourenço, contudo, a tradição liberal de Garrett e Herculano, ligava-se naturalmente à dimensão social e crítica da Geração de 1870. E assim a revista “Finisterra” tornou-se um ponto de encontro e um apelo de partida, capaz de pôr o socialismo democrático na ordem do dia. Estávamos longe de suspeitar que o conceito de “democracia iliberal” invadisse o espaço público, num supremo paradoxo, que põe em causa a capacidade emancipadora do primado da lei e da legitimidade democrática. “Finisterra: mais do que sítio particular onde enquanto portugueses devemos enfrentar os desafios de uma História sem sujeito, representa para os homens deste fim de século o espaço propício de uma reflexão de um estilo novo, como foi outrora o do Renascimento. A nossa época não é unicamente, nem essencialmente, a da robótica e da informática, mas a do fim da Terra”. Senão vejamos a chamada quarta revolução industrial – na qual encontramos desde a microinformática e das novas tecnologias de informação e comunicação até aos desafios do aquecimento global, da destruição do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável e da procura de energias limpas, passando pela inteligência artificial e pelos avanços no domínio da medicina e da saúde. Mas deparamo-nos ainda com a evolução demográfica, com o envelhecimento da população, com a destruição da biodiversidade – com as desigualdades, com o protecionismo, com a fragmentação, com o desperdício…
«O FIM DA TERRA» No fundo, “o fim da terra” abrange duas metáforas – a da História, ao chegarmos a uma fronteira do tempo, e a da Cultura, ao abrirmos horizontes de emancipação, de desenvolvimento e de solidariedade. E o ensaísta demonstra a força e a originalidade da designação nestes dois domínios. “Tornou-se um lugar-comum descrever o comportamento das novas gerações como ofuscado pela fosforescência mais ou menos tumultuosa do presente concebido como único tempo de aderência a realidade, jovem humanidade sem memória nem pulsão futurante”. A indiferença e o imediatismo geraram, porém, a prevalência do curto prazo e a desatenção à complexidade. “Um longo rosário de deceções e massacres das utopias mais nobres, de sobra” justificaria a recusa da herança e da memória cultural e histórica. Daí importarem “menos as tradições, mesmo as mais veneráveis, que os atos que lhe dão vida e conteúdo”. Eis, como “Finisterra” correspondia à figuração de objetivos históricos pertinentes. Sem poder considerar as profundas alterações que ocorreriam no ano de 1989, com a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria, o início de um tempo de polaridades difusas e de regresso da fragmentação tribal, Eduardo Lourenço considerava profeticamente um tempo de contradições. E falava em sermos herdeiros de um outro tempo, precisando de interlocutores dispostos “a discutir, a renovar e transfigurar aquilo que por mais digno de ser continuado já não tem os olhos imersos no novo mundo dos homens que abandonaram a Terra para uma viagem sem fim assinalável”. Como o pensador disse em 2000: “uma utopia europeia assumida só é digna de ser vivida como vitória da Europa sobre a Europa, da ficção de si mesma que, consciente ou inconscientemente, tem condicionado o seu destino, contra a sua realidade. Em suma, do triunfo da sua sublime não-identidade sobre os fantasmas da sua alucinada identidade” (A Europa Desencantada, 2001, p. 240). Esta questão é crucial. E, se bem virmos, o ensaísta põe a tónica na projeção de Portugal para fora de si mesmo, segundo uma identidade aberta. E recordamos como as Heterodoxias constituíram a demarcação da autonomia da liberdade individual, a exigência de solidariedade e da justiça e a abertura cosmopolita (“Europa ou o diálogo que nos falta”) – como “convicção de que o real não é apenas a cabeça (de Migdar) mordendo sem hesitações nem a cauda devorada sem resistência, mas o inteiro movimento de morder e ser mordido, a paixão circular da vida por si mesma. O movimento da cabeça devorando com certeza de existir um só caminho, pode receber o nome de ortodoxia, assim como a convicção inversa de não existir caminho algum pode designar-se por Niilismo”. Mas a heterodoxia não seria o contrário da ortodoxia nem do niilismo, mas o movimento constante de os pensar a ambos…
Um ano depois de nos ter deixado Eduardo Lourenço é recordado em diálogo com o poeta António Osório, na desconstrução dos mitos e na consideração dos mesmos como fatores críticos.
UMA FORMA ESPECIAL DE COERÊNCIA Se há quem insista em salientar o carácter da sua obra, algo fragmentária, a verdade é que só quem verdadeiramente a não conhecer pode fazer essa simplificação. Por outro lado, o facto de ter analisado a cultura portuguesa no seu conjunto, complexo e heterogéneo, suscitou a ideia de um falso saudosismo. Já o disse diversas vezes, não haver, porém, sombra dessa tentação na obra de Eduardo Lourenço, que vai, isso sim, ao encontro do melting pot que nos formou como Finisterra. O carácter marítimo da nossa situação obriga-nos a ver aí uma originalidade incontornável. O Atlântico encontra o Mediterrâneo e, por força dessa ligação, Oriente e Ocidente buscam-se, aproximam-se e desencontram-se. O achamento de novas terras corresponderá à curiosidade e à aventura. Os fundos árabe e céltico articulam-se misteriosamente e assim a língua e a cultura de onde a terra acaba e o mar começa constroem-se complementarmente. De norte para sul e de sul para norte, a língua e a cultura recebem influências diversas e Eduardo Lourenço, ao longo da sua obra foi procurando construir um complicado “puzzle”, não se eximindo a perscrutar os mais misteriosos enigmas. Daí a sua investigação permanente dos mitos, não para os seguir ou para os assumir, mas para partir deles a fim de os desconstruir, compreendendo criticamente uma pátria que se construiu entre a lírica e a tragédia, passando pelo picaresco. Contudo, essa ciclotimia apenas pode ser compreendida se formos capazes de ligar elementos contraditórios. Assim se entende a insistência na Europa como encruzilhada de destinos, e não como realidade fechada ou fortaleza. Com Camões, Garrett e Herculano, com a geração de 1870, mas também com Cesário, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa do que se trata é de abrir horizontes e não de nos fecharmos sobre nós mesmos nem de cair na tentação da autossuficiência. Como quiseram a emigração liberal ou os jovens do Bom Senso e do Bom Gosto e das Conferências do Casino, haveria que pôr a nossa cultura ao ritmo da Europa. E até Antero encontrar-se-á anonimamente com Michelet…
CONSIDERAR OS MITOS E A SUA CRÍTICA Quando Eduardo Lourenço pegou em Fernando Pessoa deparou-se-lhe um enigma por resolver. Qual o lugar da “Mensagem” no pensamento do poeta, sabendo-se que a ideia messiânica que parecia estar subjacente à obra, não poderia ser encarada como um absoluto, conhecendo-se as reflexões críticas sobre a cultura e a literatura – sobretudo, quando se descobriam os fragmentos que constituiriam o “Livro do Desassossego” e quando o mistério dos heterónimos estava ainda longe de ser entendido. Pode dizer-se que aquilo que Eduardo Lourenço alcança no que irá considerar como o seu romance – “Pessoa Revisitado” – é a coerência de um poeta em busca de um novo tempo e de uma nova relação com o futuro. Assim, a palavra “Finisterra” tinha para Eduardo Lourenço uma ressonância muito especial, por contraponto a qualquer periferia: “mais do que sítio particular onde enquanto portugueses devemos enfrentar os desafios que uma História sem sujeito representa (…), é o espaço propício de uma reflexão de um estilo novo, como foi outrora a do Renascimento. A nossa época não é unicamente, nem essencialmente, a da robótica e da informática, mas a do fim da Terra.” (Nota ao número 1 da revista “Finisterra”, Inverno de 1989). Os sinais contraditórios que hoje vislumbramos, bem evidentes nas perplexidades da Cimeira do Ambiente em Glasgow, mas também nas incertezas e nos medos ditados pela pandemia Covid-19, obrigam-nos a corresponder a uma necessidade de pensamento crítico sobre os mitos, não como sucedâneos de um novo positivismo, mas sim como fatores indispensáveis à consideração da complexidade e da prevenção respeitante às incertezas, como tem sido referido por Edgar Morin. Vemos, assim, Eduardo Lourenço como um incansável interrogador da diversidade, do pluralismo e da complexidade. Daí a riqueza da sua obra, que nos permite acompanhar a literatura e a criação cultural como uma realidade em progresso, uma verdadeira peregrinação. E chegamos ao exemplo de Ulisses, nosso símbolo, como ser humano, imperfeito e falível. Com uma artimanha permitiu a vitória grega sobre os troianos, conseguindo depois provar o prazer do canto das sereias sem se deixar aprisionar por elas… Eis o mito em estado puro. Aliás, a propósito de António Osório, que há pouco nos deixou, Eduardo Lourenço diz que “como a de Ulisses a sua astúcia foi a de aceitar-se como simples mortal sempre lembrado em sua travessia do corpo aceso de Penélope. Eugénio Lisboa referiu-se ao ‘fascinante realismo mítico’ desta peregrinação poética. Nada mais exato. Há nela entre mito e realidade uma orgânica circularidade, mas é a realidade na sua nudez solar que é o mito supremo. Ao mais rés da prosa da vida de que os seus poemas são originalíssimo diário, livro da ‘ragione’ florentino e livro de mortos que mais do que o resto avassalam a memória e a transfiguram…” E se falamos da poesia de António Osório e do que dela afirmou o ensaísta é para dizer que há um paralelismo evidente entre o poeta e o percurso do crítico. O percurso do autor de “Raiz Afetuosa” foi o de quem “gostaria de ser visto como alguém que encontrou as suas raízes primordiais na Grécia, emigrou para a Sicília quando da Magna Grécia, sente por Roma uma funda admiração, e pertence a uma geração de uma tradição cultural mediterrânica e atlântica, universalista, que abarca o italiano, o francês, o espanhol e o português”. Também Eduardo Lourenço poderia apresentar este percurso, facto que o conduziu ao ensaísmo na linhagem de Montaigne. Assim, para o caso do nosso ensaísta, temos de esclarecer que, uma vez compreendida a sua obra completa assim poderemos chegar ao entendimento da sua vocação enciclopédica. Mais rica do que qualquer estudo sistemático, ou conjunto de considerações teoréticas, o que podemos perceber na obra do autor de “Portugal como Destino” é uma panorâmica bastante exaustiva da cultura portuguesa contemporânea em movimento, nas suas diferentes componentes, sem a perigosa tentação de apenas procurar descobrir sínteses ou explicações prevalecentes. Daí a referência ao poeta António Osório, em cuja obra Eduardo Lourenço descobre pontos comuns com as suas preocupações e um sentido marcadamente poético, a que o ensaísta nunca renunciou. Contudo, se António Osório praticou sistematicamente a clareza, Lourenço aventurou-se sobretudo no mistério, o mesmo mistério que o poeta perseguiu partindo da realidade palpável das coisas que nos rodeiam. No fundo, o “realismo mítico” é um extraordinário ponto de encontro.