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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OS 200 ANOS DA ATRIZ EMÍLIA DAS NEVES

 

Emília das Neves marcou de forma ainda hoje assinalável a qualidade e a projeção, na época, do teatro português. Já tivemos aliás ocasião de evocar o prestígio indiscutido desta atriz que, durante anos, cultivou e valorizou a arte do espetáculo.

 

Ocorrem agora os 200 anos do seu nascimento (1820): falecida em 1883, a imprensa e o meio cultural em geral assinalaram, de forma indiscutivelmente sentida, esta morte, algo prematura mesmo para a época...

 

A sua atuação deixou marcas mesmo no contexto histórico do teatro português, e já tivemos ensejo de diversas vezes o referir. Em qualquer caso, estes 200 anos agora assinalados merecem referência pois reassumem a projeção, na época, de uma atriz que marcou o meio teatral do seu tempo, e justificou uma consagração vinda designadamente de grandes nomes da cultura e do espetáculo, de tal forma que muitos chegam até hoje, como já tivemos ocasião de referir: mas os dois séculos entretanto decorridos mais justificam essas evocações.

 

E importa salientar que Emília das Neves fez parte do elenco que estreou em 15 de agosto de 1838 o garretteano “Um Auto de Gil Vicente”, estreado no Teatro da Rua dos Condes em 15 de agosto de 1838. Vale a pena novamente assinalar que esta peça de certo modo marca a convergência do historicismo com a renovação garrettiana do teatro histórico, e que terá no “Frei Luís de Sousa”, estreado em 1843, a sua expressão mais alta e como tal sempre reconhecida.

 

Já tivemos ensejo de referir, Garrett era grande e grato admirador de Emília das Neves.  Em carta escrita em 1849, não hesita em declarar, como aliás já temos referido: “bem sabe que sou e sempre serei seu verdadeiro admirador”. E o mínimo que se pode dizer é que Garrett não era muito aberto a afirmações deste género: quem mais admirava era ele próprio!...

 

E faremos agora uma coletânea de citações sobre Emília das Neves.

 

Sousa Bastos, no “Diccionário do Teatro Portuguez” refere quase 100 peças elencadas por Emília das Neves.  E, tal como já tivemos ensejo de escrever, é citado e devidamente documentado aquilo que referimos como a transição do romantismo para o realismo.

 

E nesse sentido, pode citar-se o contrato celebrado por Emília das Neves com a Sociedade Artística do Teatro de D. Maria II, datado de 30 de dezembro de 1846.

 

Em 1955, Gustavo de Matos Sequeira, na “História do Teatro Nacional de D. Maria II” refere a obrigatoriedade de pelo menos 14 peças em 10 meses de repertório, com facilidades na partilha do camarim, a dispensa de intervenções de canto, mas sobretudo o valor dos honorários, muito significativos para a época.

 

Escreve Matos Sequeira: “só a Srª Emília recebia por ano, pelo seu contrato especialíssimo, 2.500.000 reis por dois benefícios de 500.000 reis cada um (isto rendendo a casa quatrocentos) afora outras condições que correspondiam a outros encargos”... o que, na época, era muito dinheiro para pagar a uma atriz na época com 26 anos de idade!

 

Por seu lado, Luis Francisco Rebello, na “História do Teatro Português” (1967) refere-se a Emília das Neves como pertencendo desde a estreia ao “escol dos artistas de teatro”, desde logo como “estreante” (sic) em 1838 no Teatro da Rua dos Condes, seguindo-se outras referências: “grande atriz”, “uma das maiores trágicas do seu tempo”...

 

E no texto aqui publicado em 2015, citamos ainda Ana Isabel de Vasconcelos, que em “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” (2003) refere Emília das Neves “cuja vida percorreu praticamente todo o século XIX” e cujos admiradores “não poupavam esforços para a ver representar tendo mesmo comportamentos de adulação!...

 

Mas acrescente-se, para terminar esta nova referência, uma prestigiosa citação que foi feita por Luciana Stegagno Picchio na sua hoje clássica “História do Teatro Português” (ed. 1964).

 

Cita Garrett: e diz que “chegou mesmo a desempenhar papéis secundários ao pé de fascinantes atrizes como Emília das Neves”, nada menos!...

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DE UMA ATRIZ E DOS TEATROS EM QUE ATUOU

 

Um livro recentemente publicado, da autoria de Ana Isabel Vasconcelos, sobre a atriz Emília das Neves (1820-1883) chamada na época “a linda Emília”, retrata e analisa com grande qualidade, não só a biografia da atriz que tanto marcou o seu tempo, como refere, com detalhe e rigor histórico, os teatros em que se desenvolveu uma carreira à época notável e como tal, insista-se, justamente evocada e analisada. E importa então referir que, a partir da biografia pessoal e artística da atriz, se descreve o meio teatral da época, designadamente os teatros-edifícios então em atividade: e sobretudo a projeção que o teatro português então alcançava obviamente em Portugal mas também no Brasil. (cfr. “Emília das Neves”- Biografias do Teatro Português - ed. INCM 2017).

 

Neste contexto, fazemos hoje referência a um efémero teatro de Lisboa, o chamado Teatro D. Fernando, inaugurado em 29 de outubro de 1849 e demolido exatos 10 anos depois. E isto, não obstante ter merecido de Garrett o maior dos elogios, no contexto do espetáculo inaugural: “não se pode representar melhor” teria dito o então já consagradíssimo escritor, a propósito, precisamente, da interpretação de Emília das Neves em “Adriana Lecouvreur” de Eugène Scribe e Erneste Legouvé, peça na época prestigiada e que inclusive seria “transformada” em ópera por Francisco Cilea em 1902.

 

O teatro D. Fernando era dirigido por Emile Doux, figura então dominante do meio teatral português. Só que o edifício não oferecia um mínimo de garantias de qualidade.

 

Sousa Bastos, escrevendo em 1908 no “Diccionário do Theatro Português”, que aqui temos evocado, é categórico: “O Theatro de D. Fernando era mal construído, de má aparência e com uma sala defeituosa e mal ornamentada”, nada menos!

 

Ana Isabel Vasconcelos cita um texto datado de 1853, onde se refere depreciativamente o Teatro:  aí se diz “ser a fachada de mau gosto, o interior acanhado, os ornamentos símplices, a sala de espetáculos elíptica, dividida em quatro ordens de camarotes sendo três para Suas Majestades, 54 destes par o público e dois para o proprietário, com uma lotação total de 640 pessoas” (in “Emília das Neves” ed. INCM  2017, pág. 73).

 

E José Augusto França evoca também Emile Doux a propósito do Teatro D. Fernando: “Doux inaugurou esta última sala com a célebre «Adrianne Lecouvreur» de Scribe. Encenador sem concorrente, fundador de um curso de declamação, Doux foi o mestre de uma nova geração de atores nascidos entre 1810 e 1820, que farão o sucesso do teatro romântico”. (in “O Romantismo em Portugal” segundo volume, ed. Livros Horizonte).

 

E refere precisamente como “vedeta do dia, paga já como uma verdadeira «estrela», a «bela Emília»!

 

O certo é que o Teatro D. Fernando pouco tempo durou. Mas veremos, a propósito ainda do estudo de Ana Isabel Vasconcelos, a relevância na época, do teatro e dos teatros em todo o país mas também no Brasil. 

 

DUARTE IVO CRUZ