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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LONDON LETTERS

 

Jerusalem and, Le President Macron, 2018

 

Till we have built Jerusalem, In Englands green & pleasant Land. O dia abre com sentimento fundo de saudades ― da civilidade de Oxfordshire, dos campos viçosos do Kent, da atitude geral do doing the right thing. À mente vêm notas de Herr Martin Heidegger sobre os estados de espírito. Voam, para dar lugar utilitário ao better Socrates de Mr John Stuart Mill (1806-73).

O filósofo do Middlesex é um dos profetas da liberdade, não por acaso. — Chérie! Qui se ressemble s'assemble. O cenário de um segundo referendo sobre a partida do United Kingdom da European Union é publicamente admitido por Sir Brexit. Mr Nigel Farage adverte os Brexiteers para se prepararem para a last dramatic battle, antes que esta lhes seja imposta por maiorias hostis nas Houses of Parliament. — Umm. Why not the best vote of three!? Sandhurst recebe a Anglo-French summit, reunindo o French President Emmanuel Macron com a Prime Minister Theresa May e Cabinet Ministers a par dos Princes William e Harry. Em Berlin, a Bundeskanzlerin Frau Angela Merkel continua a negociar eventual Grosse Koalition entre a sua eurocética CDU com o eurófilo SPD de Herr Martin Schultz. Já pelas ilhas, a ala corbynista do Labour Party reforça a participação no National Executive Committee. Vai crescer. A mega empresa de infraestruturas Carrillion sucumbe na praça da monarquia, sem o resgate à última hora pedido a Downing Street.

 


Sky partly cloudy
at Great London. A town talk está submersa em torno das semânticas da Brexit, após mais uma peculiar remodelação governamental, Há novos talentos nas fileiras conservadoras. A estampa inicial do pretty much as before é incontornável ao fim do dia, porém. Aliás, algo que evoca os tempos do Major Govt. Uma mexida sensível ocorre na ligação do executivo ao partido: a líder aponta RH Brandon Lewis como new Tory chairman, nome que quer conjugar com o rejuvenescimento da militância. Sob o denominador comum da missing oportunity, o comentário na honorável Press é misto. Assinalemos as extremas da rossio. No jornal crítico dos críticos de Mrs May retrata-se uma tela cruel das subidas e descidas num Cabinet de 25 membros, cuja balança interna soma sete Brexiteers ― Premier excluída. Resume o London Evening Standard do arquirrival Mr George Osborne: “You have to hand it to May. With this week’s «farce,» she has now achieved the hat-trick of the worst reshuffle, the worst party conference speech and the worst manifesto in modern history.” Ouchh. Recorde-se que o editor do assanhado LSE é o anterior Chancellor of The Exchequer, o qual a senhora destituiu ao entrar na residência de Downing Street, Mais equitativo é o favorável Daily Telegraph. Explica Mr James Kirkup que o presente rol de winners & loosers segue o padrão habitual dos “messy and managerial affairs.”

 

Mas Monsieur Macron is coming… again. Em oposição ao divisivo US President Donald J Trump, que acaba de cancelar uma visita a London para inaugurar a nova embaixada americana no reino, Westminster está de braços abertos para com o “young JFK,” O apoio explícito do Number 10 ao ido candidato aquando da corrida ao Palais de l'Élysée dá frutos. O dirigente da Rue du Faubourg vem com o seu top ministerial team e gera expetativas em todos os quadrantes políticos quanto à intermediação parisiense nas duras negociações da Brexit em Brussels. Ver-se-á se, desta feita em contraste com o European Commission President Jean Claude Juncker, no fim da cimeira não há queixas do cozinheiro local e antes louvores à aliança diplomática que secularmente une os primos atlânticos do English Channel. No countdown das chancelarias, faltam 19 meses para a saída dos Brits da Other Union. Justamente quando há uma incrível inscrição no flanco dos disponíveis para re-run referendário. Isto é: A bandeira do #EUref II não é mais exclusivo dos Liberal Democrats, de Sir Vince Cable, para gáudio escocês. É agitada pelo mesmo protagonista que, à frente dos ukippers, há décadas defende o estado soberano insular contra o superestado continental: Mr Nigel Farage MEP, por cá cada vez mais visto em mediáticas cavaqueiras com destacados Remainers como Mr Alastair Campbell (o ex Press Secretary do PM Tony Blair) ou Lord Adonis (o chairman da National Infrastructure Commission que se demite do cargo em protesto contra a política europeia de Mrs May). ― Quite surprising, indeed. What are those three cooking? A new lord?!

 

 A amenizar esta paisagem política, eis uma excelente notícia para os apaixonados do countryside. Whitehall dá luz verde à plantação de 50 milhões de árvores num “120-mile corridor” entre Liverpool e Hull.

A novíssima Northern Forest arranca na primavera e contém cabaz misto de latifoliadas e coníferas, visando criar habitats para espécies variadas como morcegos, pássaros ou os adoráveis red squirrels. Mais: O plano ecológico prevê espaços próprios de observação, para visitantes humanos, espalhados de Leeds a Manchester. O plantio dispõe de um orçamento central de £5.7m e £10m do Woodland Trust, num custo final global de quase £500m. — Well. Not so much. Remember the long life of that beautiful poem penned by Master Will around the Stratford’s mulberry leaves: — “Under the greenwood tree / Who loves to lie with me, / And turn his merry note / Unto the sweet bird's throat, / Come hither, come hither, come hither: / Here shall he see / No enemy / But winter and rough weather. | Who doth ambition shun, / And loves to live i' the sun, / Seeking the food he eats, / And pleas'd with what he gets, / Come hither, come hither, come hither: / Here shall he see / No enemy / But winter and rough weather."

 


St James, 15th January 2018

Very sincerely yours,

V.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Acho graça: com a divulgação que fazes de algumas das minhas cartas, muitos amigos me perguntam pela "Princesa de mim", como se eu fosse dono dela. Mais acertariam se discursassem também em sentido inverso, pois que digo "Minha Princesa de mim". Até já me ocorreu responder-lhes que eu talvez seja, simplesmente, "Princesárquico"... Mas já falei de tudo isto, faz anos que expliquei como afinal continuei as cartas do meu antigo homónimo - e predecessor na família - à sua, dele, "Princesa de mim". As tais de que traduzi algumas, a serem brevemente publicadas em livro ou cadernos... Talvez por nada mais, além desta necessidade íntima de me expor à carga do meu passado, quero dizer, de reconhecer em mim o que antes de mim já era, isso que será, ou é, parafraseando Simone Weil, a filósofa, simultaneamente, pesanteur et grâce... Aí, quiçá, possa descobrir esse misterioso elo genético, chamado memória, que é o segredo mais eloquente da condição humana. Mas não quero comover-me, volto a falar-te de outras estranhas saudades.

 

   No número deste mês da Revue des Deux Mondes - de que te falei em carta anterior - surge também um artigo de Sébastien Lapaque, jornalista no Fígaro e no Monde Diplomatique, além de escritor por responsabilidade própria, com o título curioso de La République et le Roi Caché. Aí, retoma o que escreveu Emmanuel Macron, ministro socialista no governo Valls, no semanário le 1, de 8 de julho de 2015. Continuo aqui esse texto de Macron, que, se estiveres lembrada, rezava assim: O Terror cavou um vazio emocional, imaginário, coletivo: o Rei já cá não está! E eis o que então acrescenta: Tentou-se depois reinvestir esse vazio, colocar nele outras figuras: são os momentos napoleónicos e gaulistas, designadamente. No tempo restante, a democracia francesa não enche o espaço. Vemo-lo bem, com a interrogação permanente acerca da figura do presidente, que se faz desde a partida do general de Gaulle. Depois dele, a normalização da figura presidencial reinstalou um assento vazio no coração da vida política. Contudo, o que esperamos do presidente da República é que ele assuma essa função... Para o próprio autor do artigo, Sébastien Lapaque, a França reclama um homem em redor do qual os seus filhos se possam reunir. Nenhum desses super-homens com que muito se sonhou no século XX, mas um homem como os outros, no qual a Idade Média cristã muitas vezes reconheceu Cristo. Um pai, um irmão, um vizinho. "O primeiro que aparecer", explicava maliciosamente Jean Paulhan, que preferia entregar os seus destinos a esse tipo de homem, do que a um hábil arrivista, no zénite do poder após muitas renunciações e manobras. E, penso eu, Princesa, que vale a pena traduzir-te aqui um trecho de Paulhan, tirado de Choix de Lettres, 1937-1945, Traité des Jours Sombres (edição de 1992, Gallimard): Um rei é precisamente um vizinho, não tem de ser especialmente inteligente (e em geral não é), nem especialmente genial ou corajoso, é um homem como vós ou como eu, e admitindo que ele é rei, e amando-o como tal, admitimos que qualquer pessoa pode governar, o que é o sentimento democrático por excelência... [Ocorre-me - cito de memória - um dito de Paulhan, algo assim: "o próprio da evidência é passar despercebida"... Homem curioso, resistente preso pela Gestapo e, mais tarde, acérrimo defensor da Argélia Francesa, fundador da Nouvelle Revue Française, prefaciador de Histoire d´O, e amante da respetiva autora, que escreveu o livro para ele, membro da prestigiada Académie Française, ocupando o assento n.º 6, em que, à morte, lhe sucedeu Ionesco, o que também pode ser visto com alguma benevolente malícia...]

 

   Estas cartas que te escrevo não são discursos, são deambulações... Mas quero voltar ao tema da minha carta anterior, onde relacionava (i)legitimidade do poder político e crise de identidade nacional. Tocando nisso, respigo, do artigo do Lapaque, um texto pertinente do historiador Raoul Girardet (em Mythes et Mythologies politiques, Le Seuil, 1986): Parece que temos o direito de falar em crise de legitimidade quando, às questões levantadas acerca do exercício regular do poder, as respostas deixam de ser evidentes, de se imporem como "pertinentes e peremptórias". É então que o dever de lealdade perde o seu valor de exigência primeira. Que, silenciosa ou violentamente, se desfazem ou se quebram os laços da confiança ou da adesão...  ... O poder, os princípios sobre que assenta, as práticas que põe em funcionamento, os homens que o exercem ou incarnam, são doravante ressentidos como "outros", fazem figura de inimigos ou de estrangeiros... E tal é mesmo a situação de vacuidade que a França teve a originalidade de ter conhecido com especial frequência no decurso dos dois últimos séculos da sua história...

 

   Sabes bem como, no fundo de mim, não passo de um pobre idealista. Só não serei lunático porque, contrariamente a Calígula, nunca exigi a lua a minha mãe. Mas, quase no mesmíssimo sentido em que o Aragon dizia que a mulher era o porvir do homem, também eu pensossinto que certas utopias são, afinal, os não-lugares a que teremos de chegar. Eu talvez seja, minha Princesa de mim, animal de espécie em vias de extinção: um conservador-progressista. Não renego nada do que me fez e faz, antes o interiorizo mais e medito. Sempre na esperança de lhe encontrar o tesouro escondido, latente, como semente coberta de terra, para dar fruto. Procuro responder à lição da parábola dos talentos: o pouco, ou muito, que nos foi dado não é para ser ciosa e teimosamente guardado. É para dar fruto. Acontece-me pensar que, de uma perspetiva individualista e psicológica, uma pessoa totalitária não se define por forte identidade própria, mas pela ânsia de que todos tenham a mesma. De um ponto de vista político, ou do exercício do respetivo poder, tal levará às perseguições consideradas necessárias ao apagão das diferenças intoleradas, ou à propaganda que vise a desejada formatação dos povos. Neste particular, e nos casos europeus, o ocaso dos antigos regimes monárquicos e o vazio deixado pela ausência das figuras tutelares e históricas dos soberanos por direito divino e aclamação popular abriram portas à democracia romântica, que ao passado foi procurar os fundamentos e os moldes das identidades nacionais. Todos sabemos como evoluíram tais nacionalismos, inclusive a afirmação territorial de impérios coloniais, e em ideologias de superioridade de raças, de culturas, ou, simplesmente, na crença de papéis históricos relevantes e de missões civilizacionais. Se recordarmos tudo isso, Princesa de mim, compreenderemos melhor as crises de identidade presentes, com latentes ressentimentos e revanchismos. Não só no mundo islâmico mediterrânico, mas também nas nossas pátrias cristãs. Crises tanto mais difíceis de ultrapassar, e riscos tanto mais ameaçadores da paz, quanto a condição das economias da maioria dessas sociedades não dá sinais de melhoria, com alguma degradação dos benefícios sociais. Num quadro de globalização dos problemas enfrentados, quer por via dos rapidíssimos avanços da possibilidade de comunicação, quer por força dos fluxos migratórios.

 

   Acresce que questões deste teor e ordem de grandeza não são abordáveis apenas por critérios ou teorias políticas e diplomáticas, já que o modo como as diversas populações e grupos sociais as encaram tem sobretudo a ver com o modo como sentem afetados os seus interesses e aspirações, as suas condições de vida. Muito os separa e antagoniza, desperta-lhes receios e desconfianças, medos e ódios. E a situação geral das culturas e convívios - que podia e devia ser pacífica e mutuamente enriquecedora - vai sofrendo, no tempo e espaço das pessoas, constrangimentos propícios a movimentos perturbadores da serenidade necessária à busca de ambientes que permitam que, no reconhecimento autêntico e respeito das identidades próprias e das naturais diferenças, encontrar soluções justas. Nesse sentido, devo estar atento à constante mudança das circunstâncias e à cultura e realidade dos outros, ainda que me reconheça nas palavras de Jean Yves Riou, diretor da CODEX, revista de história, arqueologia, cultura e património, que nos fala de 2000 anos de aventura cristã: Num mundo que hoje se tornou plural, não se trata de erguer frente a frente identidades concorrentes mas, antes, de fazer uma aposta: só as identidades reconciliadas consigo mesmas favorecem o encontro e o diálogo entre as culturas e entre os homens. Há toda uma herança para ser reconquistada. Não para ser levantada e imposta contra ou acima de outras, nem constituída em definição sectária. Mas para que nós mesmos entendamos melhor o caminho que percorremos antes de por cá andarmos, com seus acertos, desvios e sobressaltos, de modo a vislumbrar melhor os passos que devem ser os nossos numa nova circunstância. Escandalizado com o que tem visto em cenas do debate político francês (e não só), Guy Sorman, autor do livro J´aurais voulu être français, escreveu recentemente: A febre identitária que se apodera do debate político é um horror, é a máscara do racismo e da xenofobia. Não existe a identidade no singular. A França e os franceses são complexos e variáveis; a cultura é o que evolui, só os cemitérios são imutáveis... E relembra a denúncia que, em 1927, Julien Benda fazia da adesão de alguns intelectuais a ideologias como o nacionalismo reacionário: Benda escrevia que se reconhece um intelectual por colocar o imperativo moral acima de qualquer ideologia, e não se exprimir a não ser em nome dessa moral, sem espreitar a aprovação, a popularidade, o poder. Pois bem: o imperativo moral é evidente, é reconhecer o direito imprescritível à diferença, seja ela religiosa, cultural, étnica, sexual... O imperativo moral exige acompanhar os humildes, os danados da terra, que mais vezes se chamam Aïcha  ou Saïd do que João Paulo ou Kevin. Dantes, chamavam-se Luigi, Wenceslau ou Raquel. Todos se tornaram bons franceses: mudaram a França, tal como os romanos tinham metamorfoseado os gauleses.


   No fundo, Princesa, o que te quero dizer é como, no meio disto tudo, eu sinto que o eixo do nosso destino deverá mover-se no sentido de podermos ser melhores cristãos e portugueses. Não in illo tempore, mas no tempo que é o nosso.

 

    Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

  

   O tema da edição de outubro de 2016 da Revue des Deux Mondes é a saudade do Rei, La Nostalgie du Roi. Logo a abrir, o editorial assinado pela diretora da revista, Valérie Toranian, recorda uma declaração do mais jovem e mais moderno dos ministros de esquerda, Emmanuel Macron, estrela ascendente do PS francês, ao semanário Le 1, em 8 de julho de 2015: Há no processo democrático e no seu funcionamento um ausente. Na política francesa, esse ausente é a figura do rei, cuja morte - penso eu fundamentalmente - o povo francês não quis. O Terror cavou um vazio emocional, imaginário, coletivo: o rei já não está cá! [...] Todavia, o que esperamos do presidente da República é que ele ocupe essa função. Tudo se construiu sobre este mal-entendido.

 

   E a editorialista prossegue perguntando a que é que essa tal ausência dá nome? Deceção, desconfiança, lassidão, para com a classe política e o executivo? Mas também o sinal de que a nossa época, que virou costas ao sagrado, não cessa de lhe sentir a falta e tenta compensá-la evocando os valores que tem dificuldade em definir. E cita então Régis Debray, filósofo agnóstico que, neste mesmo número da revista, assina um artigo (Que faut-il entendre par sacré?). Dois trechos: quando uma sociedade sente fragilidade, possibilidade de naufrágio, risco de abandono, o seu primeiro reflexo é consagrar, para consolidar, reafirmar, fortalecer...   ...nos tempos hodiernos, só é legítima e valorizadora, nos nossos meios oficiais, a linguagem dos valores, esse adoçante "cidadão", que é, para o sacro cívico, o que Walt Disney é para Sófocles, a Nutella para o creme inglês, ou o McDo para o restaurante... O que Debray quer salientar é ter-se posto fora de moda e uso a noção do sagrado, substituindo-a por sucedâneos, já que o sacro se tornou tabu por se definir como o que legitima o sacrifício e interdita o sacrilégio...   ... Já não temos qualquer vontade de nos sacrificar seja pelo que for, e detestamos visceralmente os interditos, a não ser quando temos a gloriazinha de os violar...   ...no fundo, conjuramos o medo ou o embaraço que hoje suscitam o amor sagrado da pátria e outros versículos republicanos que nos cheiram demasiadamente a terra e a mortos, ao cântico das armas e à hecatombe dos corpos. Assim se ausenta o sagrado dos nossos discursos políticos, e é proscrito dos nossos textos legislativos...   ...os nossos infelizes ministros, para se adaptarem aos ares do tempo, ao jeito da moralita, complemento do reino dos números, barram o pão dos seus discursos com os "valores da República", e percebemos porquê: esse doce não custa nada. Os nossos valores não têm penalizações. Não obrigam a nada de sério nem de preciso, pois são desprovidos de infrações, prestação de contas e sanções, enquanto que onde há sagrado estipulado há imperativo categórico, com coercivo e obrigatório. O valor é mole, o sagrado é duro. O valor agrada a todos - é a função do kitsch e o recurso dos políticos. O sagrado afasta. 
 

   Outros autores, como Jacques de Saint Victor, professor universitário em Paris, evocam a figura do general De Gaulle: Em 1958, em razão da incapacidade do regime de partidos para resolver a questão argelina, o general de Gaulle conseguiu pôr fim ao "parlamentarismo absoluto" (Raymond Carré de Malberg). A Constituição de 1958 instituiu o que alguns juristas, como Maurice Duverger, designaram de "monarquia republicana". Recordo o significativo título do livro que Duverger publicou pela Robert Laffont em 1974: La Monarchie républicaine. Comment les démocraties se donnent des rois. E o historiador Jean-Christian Petitfils, autor de vasta obra escrita, incluindo as biografias de quatro reis de França (todos eles Luís: XIII, XIV, XV e XVI) assina um interessantíssimo artigo (De la monarchie absolue à la monarchie impossible), que é também uma reflexão sobre a soberania e o seu exercício. Traduzo-te, Princesa de mim, o trecho final: Quanto a Charles de Gaulle, deitará sobre a monarquia hereditária a última pazada de terra, criando a sua "monarquia republicana", que dura há quase 60 anos, e da qual os franceses, agarrados à personalização do poder e à eleição do seu presidente por sufrágio universal, não estão dispostos, diga-se o que se disser, a desembaraçarem-se. Adeus estremecimento sagrado da bandeira da flor de lis! Doravante, segundo o famoso dito de Charles Péguy, "a república única e indivisível é o nosso reino de França!"

 

   Este paradoxal gosto por figuras tutelares numa sociedade de forças populares e politicamente democrática, para além da presença invisível do prestígio do passado, é um elemento incontornável de uma certa tensão francesa. Falar-te-ei adiante, Princesa, de outros sintomas ou contradições do presente mal-estar gaulês. Por agora deixo-te esta resposta de Emmanuel Le Roy Ladurie à pergunta "E Charles de Gaulle?"  que lhe foi feita pela revista: Aí, estamos noutra dimensão. De Gaulle é uma mistura extraordinária de Joana d´Arc, de Henrique IV e de Luís XIV. É o género de figura excecional que encontramos uma vez por século, e às vezes ainda menos... Neste preciso momento em que te escrevo, ocorre-me, não sei porquê, que quiçá o grande De Gaulle tenha optado pela solução que deu ao problema argelino por pensar que aquele povo não era, não podia ser francês. Pois foi ele que afirmou, em 1959: Nós somos, antes do mais, um povo europeu de raça branca, de cultura grega e latina e de religião cristã... Enganava-se: basta vermos a seleção francesa de futebol na tv, ou olharmos para a composição demográfica da França hodierna, para percebermos que mais perto da realidade estava Éric Besson, gaulista e ministro da Imigração, Integração e Identidade Nacional, ao dizer, em 2010, que a França não é nem um povo, nem uma língua, nem um território, nem uma religião; é um conglomerado de povos que querem viver juntos. Não há francês de raiz, há tão somente uma França de mestiçagem.
 

   Sei bem que muitos franceses, e não só, não concordarão com tal ideia. Também sei que a realidade presente - e a sua evolução étnica e cultural - é sobretudo uma interrogação, quiçá factor de mal-estar. Mas poderá evitar-se? Está aí. Le Magazine Littéraire, na sua edição de outubro de 2016, em secção oportunamente intitulada L´esprit du temps, debruça-se sobre vários livros agora publicados, todos, afinal, pretendendo responder à questão Qu´est-ce qu´être Français? Ali respiguei alguns trechos de prosas diversas, que aqui te traduzo, com intenção de nos fazer pensarsentir melhor a dimensão humana das diferentes condições, o tempo e os modos vários das nossas circunstâncias. Magyd Cherfi é vocalista do grupo Zebda, e argelino de nascimento. Publica agora um livro intitulado Ma Part de Gaulois, onde escreve: Sempre quis ser francês. Sinto-me pirenaico, sou flaubertiano, respiro só pela cultura francesa. Até ao dia em que percebi que não ser branco era não ser francês. Desde então, passo o tempo a tentar sê-lo um pouco menos. Decidi tornar fortaleza o que pensei ser uma maleita: o esquartejamento...   ... Que símbolos há, na nação francesa, para que eu, filho da Argélia, nela me reveja? Quando a equipa da Argélia ganha um jogo de futebol e os jovens do bairro desfilam nos Campos Elísios levantando a bandeira argelina, isso choca-me. Mas pode ser-se francês arvorando a bandeira argelina. Devemos declarar-nos cosmopolitas e redefinir uma identidade francesa que não seja estática. Houve gauleses, mas já não há. Há franceses. Então, o comunitarismo já não será um problema: deste, aliás, apenas existem farrapos alimentados pela frustração.
 

   Denis Tillinac, no prólogo ao L´Âme française (2016), escreve algo diferente, uma achega ao título desse seu livro: A França, parece-me, é mais de direita nas profundezas e mais de esquerda nos humores. Quando o estalinista Aragon, numa ode à glória do seu partido, se descobre patriota em 1944, não é a França "republicana" que os seus versos invocam, mas a França imemorial, logo sempre igual: "Vejo Joana correr, Rolando toca a trombeta". Tal como acredito na realidade da clivagem, assim aprecio esses momentos em que a trégua das lutas políticas nos permite saborear em conjunto a felicidade de ser francês. O mesmo Tillinac dirá que Cioran não tinha razão ao afirmar que uma pátria é uma língua e nada mais, pois ela é também outra coisa. Mas a argelina Kaoutar Harchi, no seu Je n’ai qu´une langue, ce n´est pas la mienne, escreve: A França é uma nação literária, onde se dá uma forte fusão do ideal nacional com uma língua. Esse magistério vai muito para além do território. E diz mais, acrescenta que os escritores argelinos se tornaram escritores franceses pela resistência e pela relação de forças. Cada vez mais, a França não é percebida como o território colonial, mas como o território da liberdade. Aqueles escritores acham-se franceses, sem por isso quererem viver em França. A nação literária não morreu, mas deslocou-se para fora de França.
 

   Tudo isto nos dá muito para pensar, Princesa. Vivemos, na Europa e não só, tempos de mudança, com ameaças de afrontamentos, mas também com promessas de entendimentos em terrenos onde consigamos acertar referências. A esta luz, a cultura ganha nova dimensão e importância nas nossas vidas. As artes e a música, a literatura, podem ajudar-nos a contruir a paz.
 

   E, também, o pragmatismo do bem, a prática do mandamento evangélico: amai-vos uns aos outros. Sermos capazes de um olhar para os outros e os problemas de todos nós, olhar que veja mais longe e mais certo do que os nossos preconceitos. Eis o que nos propõe o atual diretor executivo da conceituada revista americana Foreign Affairs, Jonathan Tepperman, diplomado em direito por Oxford e New York, num livro ora publicado (The Fix: How Nations Survive and Thrive in a Worl in Decline). Aí identifica uma dezena de problemas mais ou menos universais, como a desigualdade, a imigração, a guerra civil, a corrupção e a paralisia política. E defende que serão resolúveis se os líderes agirem com coragem e diligência. Dá alguns exemplos ilustrativos: a Bolsa de Família do presidente Lula da Silva, que tirou muita gente da miséria extrema, distribuindo pequenas somas a mães, para alimentarem e educarem os filhos; os líderes democráticos da Indonésia depois de Suharto, que conduziram políticas de erradicação do fundamentalismo islâmico. O bem querer, a solidariedade e o bom senso, afinal, ainda fazem sentido.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira