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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

Le Beau Marriage.jpg

 

Le Beau Marriage’ e o espaço urbano como impulsionador das ligações humanas

 

“The seventh art is the ultimate refuge of the believe in another life.”, (Barecque e Herpe 2014, 344)

“J’ai toujours été attiré par ce lien entre l’organisation d’une ville et la construction d’une fiction.”, Eric Rohmer (Baecque 2002)

A vida, nos filmes de Rohmer, é prometedora. Em ‘Le Beau Marriage’ (Rohmer 1982), Sabine está sempre em deslocação, em movimento:

“Sabine - Je ne me sens bien nulle part, ni ici, ni à Paris.” (Rohmer 1999)

Sabine revela a procura por uma ficção, por uma recriação da sua vida. Deseja não ser mais a espectadora sempre deslocada e em movimento. Esta personagem de Rohmer incorpora a aproximação da aspiração por um determinado ideal e da vida quotidiana real.

“Rohmer managed to establish cinema as a horizon of expectation capable of transfiguring the most banal reality.” (Baecque e Herpe 2014, 343)

Sabine desloca-se incessantemente entre Paris e os arredores mas o seu centro e o seu desejo está em Paris.

Na origem das Comédias e Provérbios está sempre uma utopia que falha, porque tudo é uma espécie de epifania da banalidade. Todo e qualquer desejo é envolvido teatralmente por uma realidade (que é inesperada, imprevisível, diversificada e enriquecida infinitamente) igual à realidade de qualquer um dos espectadores. Talvez porque Rohmer acredite que esta aproximação seja a única maneira de reabrir os olhos a todos aqueles que veêm os seus filmes. (Baecque e Herpe 2014, 324)

Os filmes de Rohmer são ficção sob a máscara do documentário. As personagens situam-se no mundo contemporâneo. E em ‘Le Beau Marriage’ Sabine deseja romper com a sua vida actual, deseja sair do seu meio e situar-se num lugar preciso. Este desejo de mudança advém talvez do seu deslocamento permanente e tão contemporâneo. Sabine vive dividida entre três sítios diferentes - estuda e vive em Paris, desloca-se de comboio para Le Mans, para trabalhar, e vai de carro para casa da mãe em Ballon, onde ainda tem um quarto. Sabine tenta estar em todo o lado, mas está sempre presa a todos os sítios - porque os três sítios se completam e é a soma dos três que formam a sua vida.

Nos filmes de Rohmer as personagens que vivem nos arredores da grande cidade (sempre Paris) acabam sempre por sentir a pressão de viver uma vida descentrada e anseiam por uma outra vida, sonham em sair do seu meio. (talvez em ‘L’ami de mon amie’ Cergy-Pontoise represente pela primeira vez uma cidade súburbio perfeita que não necessita de Paris para existir...)

Ao longo do filme apercebemo-nos que as ligações urbanas constantes (o andar, o movimento, a multidão) possibilitam a existência das ligações entre personagens. Há espaço para encontros e desencontros (entre personagens e da personagem consigo própria). Há cidades cheias e ruas vazias, campo a perder de vista, comboios com passageiros e carros a circular.

James Hillman, no texto ‘Walking’ relembra a importância do encontro com o outro, no contexto urbano contemporâneo: “Our face belongs to others as well as to ourselves and results from others.”, (Hillman 1980, 2)

Nos filmes de Rohmer a cidade, isto é, o mundo físico exterior, promove o encontro humano. As suas histórias desenvolvem-se sempre que as personagens se encontram e se desencontram nas cidades, nos transportes, na periferia. E não há medo em enfrentar o outro, porque aí se entende que a existência das cidades depende desse amontoar de pessoas. Depende do movimento das pessoas para a sua vitalidade - depende da complexidade das ruas, dos diversos níveis e velocidades de circulação, das diversas perspectivas e dos muitos momentos de pausa.

E Hillman continua: “... as you know the most important reason for going from one place to another is to see what’s in between...”

Há perigo das cidades desaparecerem assim que a velocidade de deslocação aumenta - ninguém olha para ninguém, as pessoas não param, as caras são eliminadas.

Richard Misek em ‘Mapping Rohmer: Cinematic Cartography in Post-War Paris’ (2012) assegura que nos filmes de Rohmer ainda há pessoas a olhar umas para as outras, a deslocarem-se, a andar (a pé, de carro e de comboio) nas cidades e entre cidades e assim concretizam-se movimentos a várias velocidades em rede, entre ruas e entre transportes. E aqui a cidade é o meio por excelência que promove o ser humano como um ser que anda no meio de outras pessoas. O espaço urbano é delineado pelos movimentos dos personagens. Rohmer chega a afirmar que num filme “...you have to show the relationship between a man and the space he inhabits.” (Misek 2012)

Rohmer não reorienta e não reconstrói ou reimagina o espaço urbano e não se demora nem a amplia o que é excepcional:

The filmmaker takes the world the way it is, the architect modifies it (...) Destroying the past is extremely dangerous, it’s very serious... The architect (...) is working in reality.”, Eric Rohmer (Baecque e Herpe, 381)

Sabine é diferente de acordo com o espaço em que se movimenta - a mudança que anseia acontece como uma reacção contra a vida que leva e contra o espaço em que habita e no qual se desloca. Em ‘Le Beau Marriage’ o inesperado acontece no movimento em rede entre cidades, no subúrbio e no campo.

Rohmer segue os seus personagens que se movimentam em linhas rectas, ao longo das ruas de Paris e que se demoram nos cafés, nos restaurantes, em praças e em parques. Os caminhos das personagens fazem também parte de longas linhas de movimento e estendem-se até aos subúrbios através dos transportes - mas são sempre jornadas que permitem tempo e espaço para a contemplação, para a surpresa e até para o milagre...

À medida que as personagens se movem no espaço em rede, as personagens relacionam-se com outras personagens e o encontro acontece em espaços onde se pode ver e ser visto. Sabine está a procura de ligações significativas e do impossível.

Segundo Misek, a aproximação de Rohmer ao espaço urbano em movimento equilibra as tensões que existem entre documentação e reconfiguração, simplicidade e complexidade, rapidez e demora, mapa e caminhada, tridimensionalidade a bidimensionalidade - porque na verdade é assim que o ser humano se relaciona com o espaço, quando se percorrem as ruas de uma cidade nunca a totalidade é apercebida. Veêm-se bocados que só se ligam quando são percorridos todos os seus caminhos.

 

Ana Ruepp

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O espaço urbano segundo Henri Lefebvre.

 

‘I really love this idea that a utopia should be categorized by the meaningful interactions between people, that a society is “perfect” not because of how well-off the inhabitants are, but because of the happiness they’ve found amongst one another.’, Henri Lefebvre

 

Henri Lefebvre afirma que o espaço urbano necessita de uma reforma capaz de harmonizar noções de tempo e de espaço e capaz de eliminar qualquer tipo de segregação. Na verdade nunca se assistiu a uma reforma urbana profunda, capaz de influenciar a sociedade, na sua ordem e na sua estrutura. Segundo Lefebvre, o urbanismo tende a ser fragmentário, de curto prazo e de consumo imediato - reduz-se a uma mistura de considerações ideológicas que resultam de um conjunto de medidas administrativas, tomadas entre o poder público e os interesses privados. 

 

Para Lefebvre, o funcionalismo urbano modernista tudo separa. No passado, a cidade apresentava uma vida urbana intensa porque era polifuncional - por exemplo, a praça servia de mercado, de espaço de encontro, de espaço de expressão e de discussão de ideias e até de espaço de decisão política. O modernismo trouxe a especialização e o isolamento dos espaços. O funcionalismo corresponde à divisão do trabalho parcelar cada vez mais específico no conjunto da sociedade - um espaço especializado, é um espaço perdido, pois é preenchido apenas por uma determinada atividade em certo momento. 

 

Como foi visto na semana passada, Lefebvre argumenta que são os gestos mais pequenos e simples do dia a dia que transportam todo o saber do ser humano e essa consciencialização deve ser o centro da sua existência, da sua vida. Como materializar então um espaço que acompanhe esta mudança e que elimine a tendência contemporânea de alienação e da falsa ideia de que a vida do dia a dia é aborrecida e que poderá destruir o ser humano? Mas é preciso não esquecer, que a vida do dia a dia que deve ser valorizada e a que Lefebvre se refere, não é a vida urbana desgastante que se encaixa entre a deslocação - o trabalho - o dormir. É uma vida que valoriza o ser humano como ser pensante (e até mesmo hesitante) que sonha, que se exprime, que está atento aos momentos de revelação, de claridade emocional, de presença do ser e que pode levar a um preenchimento e a uma totalidade. Sendo assim, ao mudar-se a vida e a sociedade, deve inevitavelmente revolucionar-se o espaço.

 

Por isso, para Lefebvre, o verdadeiro espaço urbano deve ser polifuncional, deve ser um compromisso físico social, cheio de significado, entre habitantes que vivem integrados numa rede interminável de relações, num determinado tempo e num determinado espaço.

 

Lefebvre, na verdade, pensa que os urbanistas e os arquitetos deveriam refletir mais sobre o que é um espaço habitável. Se na vida urbana se assiste a um desaparecimento do conceito espacial de habitar poderá paralisar-se o conhecimento e a imaginação do ser humano. Lefebvre deseja acreditar que o reencontro com o verdadeiro sentido do habitar poderá ser descoberto e resgatado através da poesia e da filosofia.

 

O espaço urbano deverá assim ser concreto e não absorto. Deverá ser um influenciador ativo nas relações sociais. Deverá ser uma centralidade que faz coincidir o espaço do pensamento, com o espaço vivido, com o espaço percecionado e com o espaço concebido. Deverá promover a heterogeneidade, a integração, a subjetividade, a criatividade e o divertimento. Lefebvre propõe acima de tudo criar um espaço urbano através da intuição humana mais próximo do sujeito e não através de uma mente altamente treinada, lógica e abstrata. 

 

Uma mudança social só poderá vingar se o espaço onde vivemos nos permitir a liberdade de apropriar e de manipular - Lefebvre afirma mesmo que poder sobre o espaço é poder sobre a vida! E talvez seja através da presença física e do corpo que experiencia, que poderá concretizar-se a reforma urbana que se anseia. O corpo do ser humano é vibração, é frequência, é energia e está em constante comunicação com as energias que o circundam - tudo se transforma e influencia mutuamente numa relação constante (todas as vidas e todas as suas formas se intersecionam perpetuamente, como num fluir interminável). O corpo é o espaço físico último capaz de juntar espaço e tempo. Quanto mais liberto o corpo, mais presença e expressão física terá - mais facilidade haverá para que se crie uma nova linguagem espacial apropriada e múltipla. Quanto mais participado, mais heterogéneo, mais complexo, mais polifuncional for o espaço urbano, onde se desenrola a vida, mais adequado será para que o ser humano seja total.

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O espaço urbano e o encontro do eu mais profundo.

 

‘A cidade favorece a arte, é a própria arte.’, Lewis Mumford

 

Giulio Carlo Argan, em ‘História da Arte como História da Cidade’, declara que a arte pode revelar a experiência urbana individual real. Diz ainda que Gaston Bachelard (no livro ‘The Poetics of Space’) ao estudar a casa da infância constrói um modelo sobre o qual se funda grande parte da psicologia individual – isto é, um modelo onde se constroem as imagens mais profundas de espaço e de tempo.

 

Desde muito cedo, a arquitetura (real ou imaginada) é motivo de pintura. A presença da arquitetura permite situar o homem no seu contexto temporal, social, político, histórico, moral e sensível. A propósito da exposição ‘Building the picture: Architecture in Italian Renaissance Painting.’, que esteve patente na National Gallery em Londres, em 2014, Peter Zumthor em entrevista afirma que os objetos arquitetónicos são de facto sempre concretos e nunca abstratos porém têm de ter a forma de uma alma.

 

Neste contexto, o espaço arquitetónico (no qual também está incluído o espaço urbano) é entendido como um campo de mútua interação entre a esfera espiritual e a esfera física. Segundo Argan, o espaço urbano é por excelência um espaço visual. E por isso, existe uma infinita variedade de valores simbólicos que os dados visuais do contexto urbano podem assumir em cada indivíduo. E a arte existe como modo de acentuar a memória, a identidade, o tempo e o lugar do homem. E assim ajudar na construção da alma da cada indivíduo.

 

O conceito de espaço arquitetónico - ideal (abstrato, puro) e real (físico, vivencial) – aproxima-se da arte. O homem é o elemento central da arquitetura. A arquitetura é uma disciplina que tem a capacidade de cruzar o sensível com o inteligível, o corpo e o mundo, a intuição e racionalidade. E da relação e do entendimento do homem com o espaço pode surgir o encontro com o seu eu mais profundo.

 

No texto ‘Walking’ de James Hillman, a cidade é, por excelência lugar de reflexão. É manifesto de profundidade, onde perceção se confronta com sensação. A realidade é, segundo Hillman, construtora do eu. Em períodos de maior perturbação psicológica, andar pode atuar como terapia. Andar permite o fluir dos pensamentos, a clarificação das ideias, o encontro com o princípio da vida (‘As we walk, we are in the world, finding ourselves in a particular space. If we cannot walk, where will the mind go?’). Mas pode a cidade permitir esta cura psicológica? A cidade tem de oferecer desafios para a alma, implicando descobertas sucessivas – ‘When we no longer walk, what happens to the soul? I am as I move’ ‘…the foot should never travel to it by the same path which the eye has travelled over before…’ ‘…stopping the progress of the walk, forcing the foot to turn and the mind to reflect’.

 

James Hillman propõe resolver os mistérios da natureza humana. A vida humana segue uma imagem particular – o Homem tem um destino, tem um fazer e um ser individual que pertence à espírito e não ao corpo. O Homem não consegue descobrir a extensão da sua alma, tão profunda é a sua natureza. Do que o Homem fizer na sua vida dependerá que se torne ‘alma pura’.

 

A inspiração é o encontro absoluto do Homem consigo próprio. O movimento das coisas do mundo aparentemente simples leva ao fundo do ser. Essas coisas têm de aceitar as projeções do Homem, experimentar sentimentos, recordações e intenções. Precisam de subjetividade e profundidade para que se associem à procura do Homem pela sua alma. Para que a cidade pertença ao Homem tem de se tornar identificável e permitir o fluir do conhecimento do eu (lugar de reflexão) através do confronto com os outros (lugar de relações humanas). A cidade ao ser objeto identificável pode ser construtora da alma.

 

Ana Ruepp