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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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   Minha Princesa de mim:

 

   O último capítulo, o XXVIII, do Pilote de Guerre não tem mais de duas páginas, em que Saint-Exupéry exprime o seu próprio  cansaço e o dos seus poucos camaradas da esquadrilha de reconhecimento aéreo G2/33, num estilo quase telegráfico, como qualquer fatalidade. Estamos em 1940, a França foi derrotada pelo III Reich. Mas o grupo, na véspera da retirada, mantém-se unido e, sem ter dormido durante três noites seguidas, vê cada um recolher a sua lassidão ao rendido cansaço dos outros :

   Não diremos nada. Asseguraremos a mudança. Só o Lacordaire esperará pela alba para descolar, a fim de cumprir a sua missão. E, caso sobreviva, regressará directamente à nova base.

   Tampouco amanhã diremos algo. Amanhã, para as testemunhas, seremos uns vencidos. E os vencidos devem calar-se. Como as sementes.

   Como as sementes! Haverá maneira mais bonita, mais cristã, de ressuscitar da derrota? A comunhão humana no silêncio de qualquer perda faz com que esta deixe de ser desamparo e solidão, para se tornar solidariedade e esperança !

   O mistério da morte, no cristianismo, leva-nos ao paroxismo do paradoxo humano, do que "está aí" (ou p´raí) e aspira a Ser. E a sua contemplação ensina-nos a via do silêncio, esse calar, cá bem no fundo de nós, o labor restaurador da semente que apodrece para nascer de novo, como o Reino dos Céus.

 

   Oleg Voskoboynikov, medievalista russo formado na Universidade de Lomonossov, onde é professor de paleografia latina, foi também discípulo de Jacques Le Goff e é autor, entre outros livros e inúmeros artigos científicos, do notável Pour les Siècles de Siècles  -  La Civilisation Chrétienne de l´Occident Medieval, obra que a Vendémiaire (Paris) publicou em 2017. Gosto muito, Princesa de mim, de, às vezes, me deixar envolver pela atmosfera espiritual duma Idade Média, europeia e latina, que, neste caso, é percorrida do início do século IV ao início do XIV, do imperador Constantino ao Dante Alighieri. E é aqui apresentada, essa Alta Idade Média, pela ilustração de que, na verdade, longe de ser repúdio ou destruição da cultura clássica, não só greco-romana, como síria e copta, antes foi cadinho da sua assimilação pelo cristianismo. A semente de vida que acima refiro evocou-me, enquanto te escrevia, aquela expressão cristã que fala da humanidade de Deus em Jesus Cristo, que se humilhou até à morte, e morte na cruz  -  a qual, mais ainda do que suplício, é infâmia. Mas da morte infamante, ignominiosa, ficou, para nós também, então vindouros, a imagem daquele crucificado que, em miríades de representações advenientes, se tornou sinal de vitória :  hoc signum vincit. A suprema humilhação surge-nos assim como humildade ressuscitada, isto é, feita nova, força e sustento de vida sobre a morte.

   A dado passo deparo com um trecho da carta XXX de São Paulino de Nola (edição de G. de Hartel, Viena, F. Tempsky, 1894) que o professor Voskoboynikov apresenta assim : A autoridade moral e cultural de Paulino, construtor de igrejas, poeta, escritor, pregador, ultrapassava em muito a sua diocese italiana. É sintomático que ele abdique do direito de aparecer no espaço litúrgico, que os bispos partilhavam com os imperadores. [Estamos ainda em meados do século IV, no início do império romano cristão...] Não se trata de falsa modéstia, mas de uma nova concepção da dignidade humana : ele sabe que foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas também se recorda de que, na vida real, «tantum in imagine ambulat homo, tantum frustra turbatur». Eis citado um versículo do salmo 39, que traduzirei assim : «Quanto mais um homem se passear em retrato, tanto mais se alienará em vão». 
   Quando, numa cristandade então já liberta de perseguições e livre de se exprimir, os fiéis entre si debatiam a razão, o alcance e configuração, e o próprio culto das imagens religiosas, tal questão punha-se também para o retrato-exemplo dos pastores eleitos pelas suas igrejas ou comunidades ; erguiam-se vozes, não tanto contra a aproximação do divino pela representação memorizável, como pela reserva, ou prudência, relativamente aos riscos de alienação que o imaginário necessariamente implica. Preocupação que, hoje, tem a maior actualidade e nós, espantados, esquecemos. A tal ponto que nem nos apercebemos de que vamos deslizando do que já alguém chamara "civilização da imagem" para uma circunstância de carrossel caleidoscópico próxima da barbárie. Diariamente sobre nós chovem imagens e coscuvilhices que, em vez de nos ajudarem a reflectir sobre a realidade do nosso mundo e da nossa vida, nos atiram para um baile de máscaras ilusórias e alienadoras... E até talvez possamos dizer que, se a iconoclastia foi, muitas vezes, uma fobia idolátrica (mais do que receio pelo divino), a "imagofilia" hodierna, em seu omnipresente exagero, é sinal certo de propensão a nova idolatria...

   Volto então ao "nosso" S. Paulino de Nola, nobre romano nascido em Bordéus, que chegou a ser cônsul e prefeito de Roma, se converteu ao cristianismo com sua mulher, após o que distribuíram os seus bens pelos mais necessitados e se ocuparam do próximo, desse tal que adquirira, em cada pessoa, o rosto de Cristo Jesus.  Foi Paulino eleito bispo de Nola, em Itália. Conta-nos o livro do professor russo : Cerca do ano 400, um autêntico Romano e bispo culto, Sulpício Severo, pediu ao seu amigo Paulino, bispo de Nola, na Campânia, ele também Romano autêntico e futuro santo, que lhe enviasse para a Gália, o seu retrato. Queria pô-lo, a título de amizade e de respeito pelas suas virtudes, ao lado de uma imagem de São Martinho, no novo baptistério de Primiliacum (provavelmente a Primilhac de hoje). Comovido, Paulino respondeu-lhe assim:

   Suplico-te, por tudo o que de melhor há na nossa amizade, porque havemos de pedir provas da nossa amizade em formas vãs? De mim, de que homem queres tu a imagem? Celeste ou terrestre? Sei que queres essa imagem real, em ti amada pelo Rei Celeste. Não deves precisar de outra imagem nossa, além dessa pela qual foste tu mesmo criado.  ... Mas eu sou pobre e fraco, humilhado pela minha imagem rude e terrestre, pelos meus sentimentos carnais e as minhas obras na Terra. Pareço-me mais com o primeiro Adão do que com o segundo. Como posso então ter a ousadia de me fazer pintar, esmagando a meus pés a imagem celeste com os meus delitos terrestres? Terei sempre vergonha : fazer-me representar tal qual é vergonhoso, fazer-me representar tal como na realidade não sou é uma insolência.

   Concordemos ou não com elas, reconheçamos que se diziam lindamente, em latim, e há quase dois mil anos atrás, coisas que, hoje ainda, nos podem ajudar a pensarsentir-nos mais e melhor do que todas essas celebrantes imagens da vaidade nossa contemporânea...

   Ao escrever-te isto, Princesa de mim, revejo  -  para meu equilíbrio interior, pois é neste hoje que vivo agora  -  tantas imagens de seres humanos que vamos ignorando, abandonando, matando, e ainda assim nos fazem esse nosso imerecido dom de si próprios, que é, afinal, esse, também nosso, rosto de dor. A presente imagem da humanidade que padece e sofre vem lembrar-nos de que precisamos dum silêncio que seja semente. Comovido, sinto a presença misteriosa do meu irmão Gaëtan, que, em tantos muitos retratos que desenhou, sempre se concentrou numa qualquer, mas mais uma, interpelação da condição humana.

 

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

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1. Não haja dúvidas. A religião, concretamente na Europa, também entre nós, está em queda. O número de agnósticos e ateus aumenta, para não falar na chamada “prática religiosa”, que desce a olhos vistos. O padre José Antonio Pagola escreveu recentemente um texto subordinado ao título: “Depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria.”

Significa isto o triunfo do materialismo crasso ou o que está em causa é mesmo a religião institucional, mas não a espiritualidade? O que é facto é que tenho encontrado cada vez mais grupos interessados na espiritualidade e no aprofundamento da vida interior. Multiplicam-se esses grupos e também a bibliografia sobre o tema. Por exemplo, com sucesso escreveu recentemente o teólogo Francesc Torralba uma obra: La interioridad habitada, onde se pode ler: “A educação da interioridade não é, em caso algum, um luxo nem uma questão menor, pois tem como objectivo final o cuidar de si mesmo, e, para isso, desenvolver todas as potencialidades latentes no ser humano, como a memória, a imaginação, a vontade, a inteligência e a emotividade, mas também o fundo último do seu ser: a espiritualidade, admitindo que esta pode adquirir formas, expressões e modos muito diversos em virtude dos contextos educativos e dos momentos históricos. No modelo da interioridade habitada reconhecem-se dois magistérios: o exercício do mestre humano que fala e actua a partir de fora e o do Mestre interior que habita lá no íntimo.”

 

2. Hoje, quero referir-me concretamente a Pablo D’Ors, padre e escritor. Numa recente entrevista a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, disse: “As formas tradicionais da Igreja não respondem à sensibilidade e à linguagem contemporâneas”. Numa outra entrevista, a “La Razón”, declarou: “Boa parte do descrédito da Igreja deve-se a ela sucumbir ao ritualismo”. Pablo D’Ors publicou um livro célebre do qual se venderam já mais de 150.000 exemplares, com o título Biografia do Silêncio. E é o fundador da associação “Amigos do Deserto”, que conta com uma rede de meditadores com mais de 500 membros, porque, como afirmou: “Há uma ânsia espiritual muito grande nesta sociedade secularizada.” Deixo aí, a partir destas duas entrevistas, pensamentos que julgo ser urgente meditar.

Porque é que o livro teve tanto sucesso? “Uma das razões do êxito é precisamente a sua oportunidade. Surgiu num momento em que aumentava claramente o interesse pela meditação. O seu prestígio construiu-se sobre o desprestígio da religião. O facto de muitas pessoas terem abandonado as formas religiosas não quer dizer que a sua sede espiritual esteja saciada ou se tenha anulado. Persiste e é preciso procurar novas formas de alimentá-la. A meditação é uma delas. Costumo dizer que a religião é o copo e a espiritualidade é o vinho, e o que nos sacia verdadeiramente é o vinho. A religião tem de estar ao serviço de suscitar a experiência espiritual, e nós, os cristãos, contentámo-nos com o copo. As formas, para ir ao fundo da questão, deixaram de ser formas para o conteúdo e encerraram-se em si mesmas. O mal não está no rito, mas no ritualismo. As pessoas não sentem que isso as alimente. A isto junta-se que a linguagem tanto verbal como gestual do cristianismo não responde à sensibilidade nem à cultura contemporâneas.” Não podemos esquecer que tão importantes como o património que recebemos, o Evangelho, são o homem e a mulher de hoje. Por isso, “a nossa fidelidade não é só ao Evangelho, é a este homem e a esta mulher de hoje. Se estivermos longe deles, dificilmente entramos em relação.” Impõe-se que se perceba que “as formas têm que estar ao serviço do fundo, e muitas vezes as formas perdem-nos, pois ficamos no formalismo e privamo-nos de ir ao núcleo da questão. Qual é a urgência fundamental para a Igreja de hoje? Uma renovação espiritual; que estejamos verdadeiramente no nosso centro.”

Para Pablo D’Ors, o silenciamento interior é uma necessidade de primeira ordem. “A meditação é uma prática de silenciamento e quietude. É um trabalho que se faz com o corpo e com a mente e cujo propósito fundamental é o autoconhecimento.” Quando muitas coisas exteriores se foram afundando, ele descobriu a aventura interior, que é um processo de higiene da mente e do coração: “Normalmente temos uma grande confusão intelectual e sentimental. Criámos uma cultura da exterioridade, representada fundamentalmente pelo telemóvel. Quanto maior conexão fora, menor conexão dentro. Perde-se a dimensão interior, porque a nossa cultura nos impulsiona e estimula para estar sempre fora.” Então, nas crises existenciais, as pessoas ficam desamparadas por dentro, pois nem sequer sabem se há “um dentro”. Por isso, “boa parte do êxito de muitas escolas de meditação radica nesta busca. Hoje, não falamos tanto de espiritualidade como de interioridade, que é o modo laico de dizer o mesmo.” 

Precisamos de arrumar o nosso interior, para que haja mais espaço, pois, desse modo, distinguimos melhor. É como quando numa casa repleta de coisas começas a tirar o não necessário e começas a ver. Daí surge, paradoxalmente, o segundo fruto: a humildade. “Saber quem és, ter uma visão realista de ti mesmo, essa humildade, esse saber qual é o teu lugar, isso é o que te dá a paz interior.”

Pergunta-se se não há o perigo de estas correntes de espiritualidade serem um pouco individualistas, egocêntricas, ignorando a transformação do mundo. Responde: “Creio que a meditação autêntica não se afasta de Deus. Mesmo que isso se não verbalize de maneira explícita. Quem verdadeiramente se conhece a si mesmo, mais cedo ou mais tarde, aponta para o mistério. Esse mistério poderá chamá-lo Deus ou não, mas Ele está lá. Em ti gerou-se uma atitude espiritual.” Quanto à denúncia e ao compromisso com a mudança das estruturas: Sim, há o perigo de grupos espirituais caírem num espiritualismo desencarnado, mas a questão é de prioridades: “A justiça social, a denúncia, tudo isso, vem por acréscimo, é o fruto de estarmos centrados. Primeiro, vamos transformando a nossa própria vida. A oração, o nosso próprio espírito transforma-nos e, simultaneamente, vai transformando a vida à nossa volta, a vida familiar, a vida social, a vida do bairro. A vida da Nação.”

Deve-se prescindir das religiões? De modo algum. “O ‘mindfulness’ não é puramente laico, mesmo que os termos e as práticas se apresentem numa linguagem puramente secular. Isto é o que, modestamente, os “Amigos do Deserto” e eu queremos fazer com o cristianismo. Que seja uma tradução secular, para o mundo de hoje, da mensagem cristã. Para o Ocidente, a figura de Cristo é muito mais próxima do que a de Buda, e por isso o salto cultural que é preciso dar para ser meditador cristão é muito menor. Julgo que prescindir das religiões é um suicídio, porque isso significaria prescindir do nosso passado. Ora, quem prescinde do seu passado não sabe qual é o seu presente.” Não, não há o perigo de obsessão pelo “aqui e agora”. Porque “o sublinhado no presente não deveria fazer-nos perder de vista a importância do passado e do futuro. Recordar é passar a história pelo coração e ajuda-nos a compreender quem somos. Uma árvore sem raiz não se aguenta, o passado é a nossa raiz e é preciso cuidar dela. O mesmo digo do futuro. O homem não é sem projecção e projecto de si. A espiritualidade cristã sempre sublinhou o futuro, o horizonte, e a budista, o presente. Penso que estamos num tempo de síntese.”

A propósito, como se relacionam em Pablo D’Ors “o ego do escritor e o ‘não-ego’ do meditador?” “Devo dizer que para mim silêncio e palavra são duas faces da mesma moeda. O segredo da palavra é o silêncio e o do silêncio, a palavra. Uma palavra nasce matinal no coração do leitor na medida em que foi preparada no silêncio. Para que a palavra seja fecunda, tem de nascer do silêncio. Com o tempo, fui descobrindo que a minha dupla vocação, sacerdotal e literária, é a mesma.”

Então, não existe realmente o perigo maior, que consiste em ficar encerrado em si mesmo, no egocentrismo? “O ego (o eu), que não é outra coisa senão a tendência para auto-afirmar-se, é necessário para viver. Não se trata de matar o ego, mas de colocá-lo no seu lugar.” Por isso, quanto a escutar-se a si mesmo ou escutar o outro, “é como perguntar o que é que é mais complicado: amar-se a si mesmo ou aos outros. É exactamente a mesma coisa. Por isso digo que a meditação é uma escola de escuta. Se aprenderes a escutar-te a ti mesmo poderás escutar os outros. Ninguém pode dar o que não tem.” Quanto ao egocentrismo: “Eu vejo-me agora a mim mesmo menos egocêntrico do que há uns anos. Mais magnânimo, com a alma maior. O critério para verificar que um caminho de meditação é autêntico é se te torna mais compassivo, mais justo e caritativo. Se o outro tem um papel mais importante na tua vida. A meditação corre o risco de perverter-te, se esquece a dimensão transcendente e se fica pela busca utilitarista de benefícios pessoais.”

O jornalista: “Chama-me a atenção que diga que é mais importante ser si mesmo do que alguém ‘bom’.” Pablo D’Ors: “Refiro-me a que o essencial é o indicativo da graça e não o imperativo moral. O decisivo para a construção de uma pessoa é experienciar o que é, e, na medida em que o fizer, comportar-se-á de uma maneira ou outra. Não temos de estar tão preocupados em ser bons, pela dimensão moral, como pela metafísica do ser. Sermos quem estamos chamados a ser. Se o formos, se na verdade fores tu, serás bom.” Objecção: “Haverá gente que seja ela mesma e seja egoísta.” Resposta: “Isso baseia-se numa visão do mundo, que é a minha, segundo a qual a luta entre a luz e a sombra não é paritária. O que há fundamentalmente é luz. Este ponto de partida não é subjectivo, é contrastável. Por exemplo, se contares quantos comboios descarrilaram hoje no mundo e quantos chegaram ao destino verás que a imensa maioria chegou bem. Se fizermos o mesmo com tudo, vemos que o bem é significativamente mais. O que acontece é que os meios de comunicação social fazem-nos crer que o que existe é o mal, quando é o contrário. É como o céu e as nuvens: as nuvens podem tapar o céu, mas o que na realidade há é um céu. Estamos bem feitos.” Neste contexto, sobre a sua vocação: “Aos 18 anos. É como quando alguém se enamora e sabe que é a pessoa adequada quando a conhece. Foi uma experiência de encontro com o mistério, com a graça de Jesus Cristo. É uma sedução, um fascínio, um sentir que é o eixo vertebrador da tua vida, que lhe dá sentido, força. Foi a experiência do entusiasmo. Estar habitado pelos deuses, pelo espírito. A experiência de que havia algo substancial que tudo sustenta. Dessa experiência, a mais decisiva da minha vida, nunca duvidei.”

Qual é então o sentido da vida? “Redimir o mundo. Colocar luz onde há trevas, amor onde há desamor, esperança onde há inesperança e desespero, claridade na dúvida. Na medida em que fizermos isso, estamos bem e semeamos o bem.

 

3. Está aí, bem à vista, a chave para entender a crise da religião e perceber a conversão de que a Igreja urgentemente precisa para ser o que Jesus quer. Ele passava noites na montanha a rezar e fez a experiência inexcedível do mistério de Deus como Abbá, Papá, querida Mamã. A consequência: amou a todos, por palavras e obras, a começar por aqueles e aquelas que ninguém ama, porque Deus é o sentido último da existência, não caminhamos para o nada, porque Deus é Amor. Tomás Muro disse-o, numa síntese perfeita: “O fundamento da religião é o medo. O fundamento do cristianismo é o amor”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 25 AGO 2019

 

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - I

  

Por qualquer razão, ou nenhuma, pareceu-me curial iniciar a publicação de post scripta, isto é, escritos posteriores às minhas cartas à Princesa de mim, apontamentos anotados na sequência delas, quer porque os redigira e não enviara, quer porque apenas os rascunhara para outros textos de reflexão. Reencontrados agora, apresentam, quanto a mim, uma virtude rara: a de descobrirem momentos de um qualquer discurso do meu pensarsentir, sem pretender concluir mais além do que a sugestão de caminhos para o entendimento de culturas que povoam a terra nossa, com as suas condicionantes e aparentes divergências, convergências, contradições e semelhanças. Sem pretender ensinar seja o que for, mas apenas recordar o que nos ajude a aproximar-nos. Não trago teses, trago hipóteses talvez só adivinhadas, mais insinuadas do que expostas.  

 

          Haru wa hana                     À Primavera as flores

          Natsu hototogisu               Ao Verão o cuco               

          Aki wa tsuki                        Ao Outono a lua

          Fuyu yuki sae te                 Ao Inverno a neve

          Suzushi kari keri                Cristalina  imaculada

 

   Este poema encontra-se no cancioneiro Shobogenzo (abram os ós e leiam guê) que Mestre Dogen (idem para a pronúncia do nome) redigiu entre 1231 e 1253, ano de sua morte. Tal coletânea é obra marcante e reveladora da cultura e da literatura japonesas: na verdade, todos os waka que a compõem foram escritos em japonês clássico. Mas, como nos esclarece Yoko Orimo no seu inspirador Comme la lune au milieu de l´eau, Art et spiritualité du Japon (Le Prunier, Sully, Paris, 2018) -, feitas as contas, mais não são do que traduções e comentários de sutras e textos escritos em chinês...   ... No seio do espaço literário essencialmente compósito da obra, concebido e estruturado como espelho sem estanho, o japonês e o chinês mutuamente se refletem. E é graças ao reflexo dessas duas línguas e civilizações, simultaneamente tão próximas e tão diferentes, que conseguimos ver e entender o que ainda não tínhamos visto nem entendido até agora...

 

   Esta autora japonesa, diplomada pela École Pratique des Hautes Études de Paris é sobretudo conhecida, precisamente, pela sua tradução e interpretação do Shobogenzo - a verdadeira Lei, Tesouro do Olhar (Sully, Vannes, 2014), de Mestre Dogen (1200-1253). Talvez por aqui inicie ela a sua interpretação da cultura japonesa como cultura de empréstimo, ideia que não andará muito longe da de outros, mas sempre no sentido em que Shusaku Endo nos fala da assimilação pelo "pântano" japonês, que tudo engole, digere e devolve seu. Tenho para mim, e não só, que a caraterística marcante da cultura japonesa - tal como entendo o que é uma cultura - é o seu extraordinário poder de assimilação de outras, sempre concomitante à sua perseverança em ser ele própria.

 

   Mas prefiro hoje abordar a questão do tempo como essência da própria cultura nipónica. Em cartas muitas à minha Princesa de mim falei da perceção e cultura do efémero como forma de espiritualidade... Sobre outras teses da presença essencial do tempo em culturas como a do Sol Nascente, talvez diga que sim, mas enquanto momento. Arrisco então a hipótese de que o instante no tempo circular é como eternidade, essência mais do que efeméride.

 

   Será isto mais difícil de entender em mentes que pensam em tempo escatológico.  Todavia, também nós, os que vivemos em culturas de forte sentido escatológico, muita vezes nos surpreendemos a viver, pensarsentir ou desejar como eternidade um instante só. Então dizemos que, durando apenas um minuto ou uma hora, nos pareceu uma eternidade. Poderá ter sido assim por força do nosso lado passivo, sofredor ou ansioso. Ou, para nossa satisfação, por virtude desta nossa entranha amante, ou por essa aspiração à completude perfeita que, para tanto ser, só é concebível na intemporalidade, num algures ainda desconhecido e, como tal, quiçá um nenhures a que chamamos utopia. Assim imaginaremos a nossa ressurreição possível apenas noutro mundo, ou num universo transformado, como a face da terra renovada pelo Espírito, tudo isso, afinal no final do tempo, quando a duração já não é possível, pois nenhuma mensuração poderá então fazer qualquer sentido.

 

   Em tempo circular, já os instantes e suas manifestações próprias se sucedem em roda de eterno retorno, como se a passagem das horas, dos dias, das luas e das estações fossem constante advento e regresso. Assim devemos entender aquele ditado japonês que diz que a flor é o espelho do tempo, pois que pela variação infinita das suas formas e cores, lembra-nos Yoko Orimo, a flor nos deixa ver o tempo: fazendo-se eco do que é nela invisível, a flor anuncia a estação que chega e que parte. Com esta inspiração devemos entender esse ensinamento de Mestre Dogen: A multidão de cores não está reservada apenas às flores, a multidão dos tempos também se reveste de cores como o azul, o amarelo, o vermelho, o branco, etc. A Primavera atrai as flores; as flores atraem a Primavera.

 

   Sobre esta intuição, Yoko Orimo elabora a seguinte premissa: Se a flor é o espelho do tempo, espelho que traz a imagem do invisível, o tempo é já, ele próprio, o espelho. E conclui: Refletindo-se a si mesmo e em si mesmo, o tempo torna visível a imagem deste Presente tal qual, Presente eterno. Já dizia Mestre Dogen que, sendo a imagem e o espelho apenas um, esse espelho é a Natureza. E Orimo esclarece que, contrariamente aos espelhos feitos por mão humana, o espelho que é a Natureza é um espelho sem estanho, «Não tem verso nem reverso, ambos os lados oferecem visão. Parecem coração e olho. E parecer significa que uma pessoa encontra outra» (Dogen)... A cada instante, em cada estação, a Natureza realiza a sua própria imagem, fazendo-se eco dela mesma e nela mesma, desde sempre e para sempre. Isto porque no coração da Natureza se encontra a Ressonância do universo. Nada mais além dessa Ressonância do universo, idêntica ao coração da Natureza, se cristaliza na Primavera em imagem de flores, no Outono em imagem da lua, no Inverno em imagem da neve.

 

   Assim a própria natureza se contempla nela mesma: ver e ver-se, o visível e o invisível, o dentro e o fora, a profundidade e a superfície são apenas um. E como essa visão da Natureza pertence ao coração da Natureza, o povo japonês diz que «A flor tem coração». E perante a terra toda coberta de neve, Mestre Dogen afirma: «todo o verso e todo o reverso estão cobertos de neve profunda. O universo inteiro é a terra do coração, o universo inteiro é sentimentos e emoções das flores!» Por paradoxal que pareça, só o coração da Natureza, puro e transparente como um espelho, cria a primazia da superfície na estética japonesa...

 

   Tal dimensão espiritual da Natureza, e a profunda comunhão do ser humano com ela, será o que explica a frase de Paul Claudel: Nesse belo e feliz país o natural e o sobrenatural são apenas um... Eu próprio que, desde muito novo, enveredei pela busca insistente da consistência de algo permanente, sendo aliás sempre curioso e sobretudo atento a processos de aculturação, tentei - talvez inspirado pela minha juvenil leitura de Teilhard de Chardin e de Lévy-Strauss - perceber melhor os progressos e falhanços das inculturações religiosas e filosóficas no Japão. Já falei bastante sobre isso, e até publiquei escritos dispersos, designadamente sobre os modos budistas de aculturação com o shintoísmo nativo, bem como o estigma de estrangeirado que sempre marcou o cristianismo naquela cultura. Sobre a seara que hoje escolhi para talho de minha fouce, nada repetirei do que já afirmei ou interroguei. Apenas traduzirei uns trechos da obra de Yoko Orimo aqui citada, que oportunamente introduzirei nestas reflexões sobre a estética do efémero. Por agora, regresso a lições colhidas em leituras da minha mocidade e que, pensossinto, paradoxalmente ainda hoje me ajudam a conviver melhor com espiritualidades inspiradas por outras diferentes filosofias, tal como por visões do universo e perceções do tempo certamente contrárias e aparentemente contraditórias daquelas em que fui criado. Ao melhor recordarmos raízes, troncos e ramos da nossa cultura nativa, tanto melhor nos aperceberemos das diferenças dos conceitos inerentes a discursos e sensibilidades diversas e, por exercício dialético, nos aproximaremos de um olhar comum do coração da humanidade.

 

   Assim, é curioso como o grande paleontólogo, antropólogo, visionário e místico, francês e jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin, autor de obras cujos títulos apenas já muito dizem (La Place de l´Homme dans la Nature; Le Phénomène Humain; Le Milieu Divin), evolucionista crente na obra de Deus como motor da história natural, suspeito de panteísmo pela Igreja, tenha começado a sua aventura interior, científica e mística, por um firme propósito de procura do imperecível e duradouro. Escreve um seu biógrafo, o dominicano Jacques Arnould - doutor em ciências e em teologia, investigador da vida e sua evolução e das dimensões éticas, sociais e culturais da chamada "conquista do espaço" - em Teilhard de Chardin (Perrin, Paris, 2005:

 

   Sempre em busca do imperecível e do duradouro, atravessa um período dito "do Ferro". Sessenta anos depois, escreverá em Le Coeur de la Matière: «Não devia ter mais de seis ou sete anos quando comecei a sentir-me atraído pela Matéria ou, mais exatamente, por algo que "luzia" no coração da Matéria». É verdade que, esclarece, sob a influência duma mãe tão piedosa como a sua, ele tem muito amor ao Menino Jesus. Todavia, reconhece, o seu "eu" está alhures nesses momentos em que, secretamente, se recolhe «na contemplação, na posse, na existência saboreada do seu "Deus de Ferro"». Uma chave de charrua encontrada no campo, ou um estilhaço de obus, a cabeça duma cunha de reforço, claro que metálica, emergindo dum soalho: eis uns ídolos que o miúdo literalmente adora. «E porquê o Ferro? e porquê, mais especialmente, tal pedaço de ferro (tinha de ser, o mais possível, espesso e maciço), só porque, para a minha experiência infantil, nada neste mundo era mais duro, mais pesado, mais tenaz, mais duradouro do que essa maravilhosa substância apanhada em forma tão plena quanto possível...» De que andará já à procura o rapazito de Sarcenat, que prefere o robusto coleóptero à muito frágil borboleta, a não ser da consistência e, sobretudo, do inalterável? «Até hoje (e sinto que até ao fim) essa primazia do Inalterável, isto é, do Irreversível, não cessou, não cessará nunca de marcar irrevogavelmente as minhas preferências pelo Necessário, pelo Geral, pelo "Natural" - por oposição ao Contingente, ao Particular e ao Artificial - tal disposição tendo, aliás, e por muito tempo, obscurecido a meus olhos os valores supremos do Pessoal e do Humano. Sentido da Plenitude, já nitidamente individualizado, e procurando já satisfazer-se pelo agarrar de um Objeto onde se concentrasse a Essência das Coisas». Ser-lhe-ão precisos muitos mais anos para descobrir «até que ponto a Consistência é então um efeito, não de "substância", mas de "convergência". 

 

     Agora, neste instante mesmo, cá estou eu a tentar olhar para isso a que se chama "Essência das Coisas" por diversas perspetivas, e procurando apor dois discursos diferentes, em vez de os opor. A perspetiva do tempo escatológico, prisma cristão, e a do tempo circular, não só prisma budista, mas shintoísta também e, na cultura japonesa, com a sua versão shinto-budista. Traduzo mais um trecho do livro de Yoko Orimo:

 

   Deve ressaltar-se que, no decurso do longo processo de aculturação do budismo em terra japonesa, se desenvolveu, sobretudo a partir do fim do século XI, o sincretismo shinto-budista, em cujo seio a pouco e pouco se operou uma revolução doutrinal acerca da noção de impermanência: mujo. Se o budismo antigo concebia, com forte pendor pessimista, a existência humana como que atirada para o oceano do sofrimento em que os seres transmigram infinitamente, para o shinto, o mesmo movimento perpétuo do aparecer e desaparecer neste mundo fenomenal mais não é do que o processo natural e global da regeneração da vida do universo, incitando o ser humano a contemplá-la e exaltá-la. Nos confins destas duas óticas espirituais radicalmente opostas [a budista antiga e a shinto-budista], o sincretismo shinto-budista acaba por proclamar que a impermanência é permanente enquanto impermanente e é precisamente a própria manifestação da natureza do Despertado (Buda) abraçando a vida de todos os existentes, incluindo minerais e vegetais.

 

   Regresso afinal à minha tradução e meditação do waka de Dogen, acima transcrito: a Primavera (haru) é flor (hana), como as flores são Primavera; o Verão (natsu) cuco (hototogisu), como é cuco o Verão que o pássaro do tempo (hototogisu) acorda; o Outono (aki) é lua (tsuki), e esta em suas fases passa pelo quarto minguante e outonal do ciclo; anunciando o Inverno (fuyu), neve (yuki) gélida que, cristalina, nítida, nos cobre como manto. Os perecíveis impermanentes da Natureza falam-nos da permanência da vida, fazem-nos ver o invisível. Também aqui descobrimos que a Consistência não é efeito da substância, mas da convergência do Espírito e da Matéria. Simultaneamente material e visível, espiritual e invisível.  Será?

 

Camilo Martins de Oliveira

UMA QUARESMA PARA O MUNDO

 

1. Uma ilustre Catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto entrou em contacto comigo, porque queria saber algo sobre a relação entre o jejum e a espiritualidade.

 

Lembrei-me então de que estamos na Quaresma. Ela é mais para os católicos, que durante 40 dias se preparam, pelo menos, deveriam fazê-lo, para a festa que constitui o centro do cristianismo, a Páscoa.  De qualquer forma, animam-na ou devem animá-la valores que são universais, de tal modo que poderíamos fazer a pergunta: Como seria o mundo, se tivesse anualmente a sua Quaresma, tendo na sua base esses valores: jejum, abstinência, oração, silêncio, esmola, sacrifício, conversão?

 

2. O que se segue é uma breve reflexão que tenta responder a esta pergunta. Começando pela urgência de um retiro. De facto, a Quaresma refere-se aos 40 anos que os judeus passaram no deserto a caminho da Terra Prometida e aos 40 dias que Jesus esteve no deserto, em retiro, preparando-se para a sua vida pública, na qual o centro seria a proclamação, por palavras e obras, do Evangelho, a mensagem da salvação de Deus para todos os homens e mulheres.

 

Aí está: retirar-se para meditar e reflectir. O que mais falta faz hoje. Quem se retira para fora do barulho e da confusão do mundo, para meditar e reflectir, ir mais fundo e mais longe, ao essencial? O sentido dos 40 anos e dos 40 dias: a libertação da opressão e da escravidão, a caminho da liberdade e, consequentemente, da dignidade. Para a felicidade, evidentemente.

 

Neste contexto, os valores da Quaresma.

 

2.1. Aí está o jejum. Diz o Evangelho que Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites e teve fome. O diabo — é uma maneira de figurar a tentação — tentou-o. Jesus respondeu-lhe: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem de Deus”.

 

Jejum e espiritualidade? Quem é que, andando em permanentes comezainas e bebedeiras, se vai sentar para meditar e continuar a escrever ou de outro modo qualquer realizar uma obra, entregar-se às coisas do espírito? São Paulo preveniu, na Carta aos Filipenses, contra aqueles cujo “fim é a perdição, o seu Deus é o ventre e gloriam-se da sua vergonha”. E alerta contra os beberrões e a sua degradação.

 

Mas o jejum não tem que ver apenas com a temperança no comer e no beber. Tem de haver jejum de tanta vaidade ridícula, jejum de tanta insensatez falaz, de tanta cobardia envergonhada, de tanta voracidade egoísta... Ao jejum está ligada a abstinência, que não é só da carne. É preciso abster-se da injustiça, das mentiras, dos interesses partidários e pessoais colocados acima dos interesses do bem comum, abster-se das medidas e dos programas político-partidários eleitoralistas com promessas que se sabe não vão ser cumpridas, de programas televisivos sem sentido e deletérios que degradam nomeadamente a mulher. E aí está uma das contradições brutais do nosso tempo, por causa das audiências e, em última análise, da idolatrização do deus Dinheiro: por um lado, e bem, há toda uma campanha para defender a mulher, mas, por outro lado, ela é humilhada concretamente nesses programas...

 

 Abster-se da corrupção... O Papa Francisco acaba de pedir uma “política sã”, alertando contra a corrupção: “A corrupção degrada a dignidade do indivíduo e destrói todos os ideais bons e belos. Com a ânsia de lucros rápidos e fáceis, na realidade empobrece a todos, minando a confiança, a transparência e a fiabilidade de todo o sistema”. A receita: “transparência e honestidade” para reconstruir “a relação de confiança entre o cidadão e as instituições, cuja dissolução é uma das manifestações mais sérias da crise da democracia.”

 

Hoje, sabemos que o jejum e a abstinência contribuem em grande medida para a saúde e até para a beleza. Quanto à espiritualidade, não há dúvida. Significativamente, a sabedoria de todas as religiões esteve sempre aberta ao jejum sadio.

 

2.2. A oração. Para colocar o ser humano em contacto com o Mistério último da realidade e da vida. Dialogar com o mais fundo da Vida. Estar ligado ao Fundamento, à Fonte, ao Sentido último. Para se não perder na dispersão, completamente desorientado, desorientada, sem referências, perigo maior do nosso tempo.

 

2.3. Mas a oração e o que é essencial exigem o salto para fora do barulho ensurdecedor. Que se faça silêncio. Num tempo em que se é invadido e esmagado pelo tsunami das informações, entrando no mundo caótico da dispersão e da fragmentação, da “agitação paralisante e da paralisia agitante”, segundo a expressão do famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, é urgente parar, fazer pausa. Para ouvir o silêncio. Sim, ouvir o silêncio. No meio da vertigem dos vendavais de palavras em que vivemos, que nos atordoam e paralisam, ouvir outra coisa. Ouvir o quê? Isso: o silêncio. Só depois de ouvir o silêncio será possível falar, falar com sentido e palavras novas, seminais e iluminantes, criadoras. De verdade. Onde se acendem as palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras, e a Poesia, senão no silêncio, talvez melhor, na Palavra originária que fala no silêncio? Ouvir o quê? Ouvir a voz da consciência, que sussurra ou grita no silêncio. Quem a ouve? Ouvir o quê? Ouvir música, a grande música, aquela que diz o indizível e nos transporta lá, lá, ao donde somos e para onde verdadeiramente queremos ir: a nossa morada. Ouvir o quê? Ouvir a sabedoria. Sócrates, o mártir da Filosofia, que só sabia que não sabia, consagrou a vida a confrontar a retórica sofística com a arrogância da ignorância e a urgência da busca da verdade. Falava, mas só depois de ouvir o seu daímon, a voz do divino e da consciência.

 

O grande filósofo A. Comte-Sponville é partidário de um “ateísmo místico”, no quadro de “uma espiritualidade sem Deus”. Constituinte dessa espiritualidade é precisamente o silêncio. “Silêncio do mar. Silêncio do vento. Silêncio do sábio, mesmo quando fala. Basta calar-se, ou, melhor, fazer silêncio em si (calar-se é fácil, fazer silêncio é outra coisa), para que só haja verdade, que todo o discurso supõe, verdade que os contém a todos e que nenhum contém. Verdade do silêncio: silêncio da verdade.”

 

O problema está em que já Pascal, nos Pensamentos, se queixava: “Toda a desgraça dos homens provém de uma só coisa, que é não saber permanecer  em repouso num quarto.” Hoje é ainda pior do que no tempo de Pascal. Ninguém suporta o silêncio. Por isso, é preciso constantemente pedir com Sophia de Mello Breyner: “Deixai-me com as coisas/Fundadas no silêncio.”

 

2.4. Outra característica da Quaresma era a esmola.

 

Cá está. Quem fizer silêncio para ouvir o silêncio, também ouvirá os gemidos dos pobres, os gritos dos explorados, dos abandonados, dos que não podem falar, das vítimas das injustiças. E perceberá que se não pode dar como esmola o que pertence fazer como justiça.

 

E volta-se  à  corrupção e ao roubo e às injustiças estruturais e aos Bancos que abriram falência e que mataram vidas inteiras de gente que trabalhou e que se sacrificou e que poupou o que pôde e o que não podia e que, no fim, ficou espoliada do pouco que tinha... E, tirando o facto de os contribuintes continuarem a pagar até essas falências e roubos, mesmo que se minta dizendo que não custará aos contribuintes um cêntimo (afinal, quem é o Estado?), não acontece nada. Alguém mete a mão na consciência? Não. Porque já não há consciência... Onde estão os valores da honra e da dignidade?

 

E ainda perguntam para que poderia servir uma Quaresma para o mundo, incluindo para políticos e banqueiros?

 

2.5. O sacrifício. Digo sempre: o sacrifício pelo sacrifício não vale nada. Mas é preciso, a seguir, gritar bem alto, num tempo em que parece que só resta o hedonismo, o prazer imediato, confundindo a felicidade com a soma de prazeres: Nada de grande, de valioso, de humanamente digno se consegue sem sacrifício. Quem quiser realizar uma obra valiosa, viver um grande amor, realizar-se a si mesmo na dignidade livre e na liberdade com dignidade tem de saber que isso não é possível sem sacrifício. Aliás a palavra sacrifício di-lo no seu étimo: sacrum facere: fazer algo sagrado.

 

3. O que seria o mundo depois de uma Quaresma autêntica? O nosso mundo, o mundo de cada uma e de cada um? Dar-se-ia uma conversão, palavra-chave da Quaresma, que significa mudança de vida, com um novo horizonte de compreensão da existência, do mundo e da transcendência.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 24 MAR 2019