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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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HISTÓRIAS MUÇULMANAS SOBRE JESUS E O ESSENCIAL

 

1. No Evangelho, Jesus faz apelo ao essencial: “De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma”, a sua vida, o essencial? Por isso, o amor a Deus e a avareza são inconciliáveis. Não se pode servir a Deus e à riqueza.


Jesus não é gnóstico (portanto, não é contra a matéria e os bens deste mundo), Jesus não é a favor da preguiça (pelo contrário, manda utilizar os talentos recebidos).


Jesus não combateu os ricos pelo facto de eles porem os talentos a render e criarem riqueza, recebendo o justo lucro. Aquilo a que Jesus se opôs de modo frontal e duro foi à avareza. E fê-lo, por dois motivos fundamentais. O primeiro refere-se à fraternidade e à generosidade. O rico, que o é de coração (neste sentido, até o pobre de bens materiais pode ser rico), o rico, que o é no seu íntimo, não é generoso nem fraterno. Por isso, banqueteia-se, enquanto ao lado o pobre geme e morre: lembremo-nos da terrível história contada por Jesus sobre o rico que se banqueteia enquanto o pobre Lázaro jaz para ali abandonado. Com a pandemia, segundo o último relatório da Oxfam, os 10 mais ricos do mundo duplicaram a sua fortuna e as desigualdades contribuem para a morte de pelo menos uma pessoa a cada 4 segundos... Face a esta situação explosiva, impõe-se tomar consciência de que é urgente acabar com este fosso entre ricos e pobres. Se o não fizermos por humanidade, façamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, este abismo intolerável pode incendiar o mundo, a ponto de o nosso bem-estar poder vir a transformar-se num inferno...


O outro motivo para Jesus açoitar o espírito de avareza, insaciável, diz respeito à diferença entre coisa e pessoa. A dignidade de ser Homem tem a sua raiz no facto de o ser humano ser pessoa. Como escreveu Tomás de Aquino, “a pessoa é o que é perfeitíssimo em toda a natureza”, e o que caracteriza e constitui a pessoa no seu núcleo é a liberdade. Ora, o avaro vive de tal modo agarrado às coisas que, a um dado momento, já não conhece a distinção essencial entre coisa e pessoa. De tal modo é escravo das coisas, do ter, que corrompe e deixa-se corromper; se for preciso, mata, corrompe, compra gente, escraviza, faz a guerra... Já não é livre, pois a liberdade e a pobreza de coração são irmãs gémeas. Ao corromper e deixar-se corromper, estando até disposto a vender e a comprar pessoas ou a matá-las, pela exploração ou pela guerra, degrada-se, isto é, abandona a dignidade infinita de ser pessoa para tornar-se coisa entre as coisas.


No seu aviso, Jesus é frontal: "Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e a Dinheiro” — deve-se escrever com maiúscula, pois Jesus referia-se a Mamôn, uma deusa. Não se pode server a Deus, Pai/Mãe que quer a dignidade e a realização de todos, e a Mamôn.


2. Neste contexto, chamo a atenção para duas belas histórias, que vêm do islão, precisamente sobre este tema.


O amor e o respeito por Jesus são uma presença constante na literatura muçulmana. Tarif Khalidi, director do Centro de Estudos Islâmicos e membro do conselho directivo do King's College (Cambridge), reuniu em livro -- Jesus Muçulmano - as chamadas "máximas e histórias de Jesus", onde se encontram várias alusões aos Evangelhos. Uma delas diz assim, em síntese: 


Um homem juntou-se a Jesus, dizendo: "Quero ser teu companheiro." Seguiram viagem e, quando chegaram à margem de um rio, sentaram-se para comer. Levavam três pães. Comeram dois e sobrou um. Jesus foi ao rio beber água. Como, no regresso, não encontrou o terceiro pão, perguntou ao homem: "Quem tirou o pão?" Ele respondeu: "Não sei."


Continuaram viagem, e, no caminho, Jesus realizou dois milagres. Voltou-se das duas vezes para o companheiro, dizendo: "Em nome d'Aquele que te mostrou este milagre, pergunto-te: quem tirou o pão?" "Não sei", tornou a responder o homem.


Chegaram depois ao deserto e sentaram-se no chão. Jesus fez um montinho de terra e areia e disse-lhe: "Com a permissão de Deus, transforma-te em ouro", e assim aconteceu. Então, Jesus dividiu o ouro em três partes e disse: "Um terço para ti, um terço para mim e um terço para quem tirou o pão". Aí, o companheiro disse: "Fui eu que tirei o pão!" Jesus disse: "O ouro é todo teu."


Jesus continuou sozinho o seu caminho. Entretanto, chegaram dois salteadores que queriam roubar o ouro ao antigo companheiro. Este, porém, disse: "Vamos dividi-lo entre os três e um de vós vai à cidade comprar comida". Um deles foi à cidade e pensou: "Porque hei-de dividir o ouro com estes dois? Vou antes envenenar a comida e ficar com o ouro para mim!" E comprou comida, que envenenou.


Por sua vez, os que tinham ficado disseram: "Porque havemos de dar-lhe um terço do ouro? Em vez disso vamos é matá-lo quando regressar e dividimos o ouro entre os dois."


Quando o terceiro voltou, mataram-no. Depois, comeram a comida e também morreram. O ouro ficou no deserto com os três homens mortos ao lado.


Aconteceu que Jesus passou por ali e ao ver aquela miséria disse aos discípulos: "Assim é o mundo. Tende cuidado."


De outra vez, Jesus passou por uma caveira apodrecida. Ordenou-lhe que falasse. E ela disse: "Espírito de Deus, o meu nome é Balwan ibn Hafs, rei do Iémen. Vivi mil anos, gerei mil filhos, desflorei mil virgens, destrocei mil exércitos, matei mil tiranos e conquistei mil cidades. Que quem ouve a minha história não se deixe tentar pelo mundo, pois tudo isso foi como o sonho de um homem adormecido." Jesus chorou.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de fevereiro de 2022

O ESSENCIAL, SEM ILUSÕES

 

Há aquele conto persa sobre o jardineiro e a morte: "O jardineiro de um príncipe persa correu para o seu senhor, dizendo: ‘Senhor, acabo de ver a morte no pátio, e ameaçou-me. Empresta-me um cavalo, para poder fugir depressa para Ispaão; deste modo, a morte não me alcançará'. O senhor satisfez o desejo do seu jardineiro, que imediatamente cavalgou para Ispaão. Pouco depois, também o príncipe encontrou a morte, e perguntou-lhe: ‘Porque é que ameaçaste o meu jardineiro?’ A morte respondeu: ‘Eu não o ameacei. Apenas olhei para ele atónita, pois hoje à noite tenho de ir buscá-lo a Ispaão’.”


Aí está um conto cru, que tem muitas versões, mas essencial. Passamos a vida a fugir da morte, ela, porém, está sempre lá. À nossa espera. Em qualquer parte. Não sabemos onde. Nem quando. Nem como. Mas é inútil tentar esquecê-la, pois ela não vai esquecer-se de nós.


E. Cioran, o filósofo da desesperança, escreveu: "Há meses, encontrei uma senhora e falámos de um conhecido comum, alguém que eu já não via há muito tempo. Ela disse que era melhor não voltar a vê-lo, pois ele estava muito infeliz. Não pensava noutra coisa senão na morte. Respondi-lhe: ‘Em que é que quer que pense?’. Em última análise, não há outro assunto.”


O pensamento da morte tem o condão de ao mesmo tempo nos libertar e nos paralisar. Perante a morte, ficamos neutralizados: tudo é vão e inútil. Ou fugimos para a frente: comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. Ou então despertamos finalmente para a liberdade: a consciência da morte faz-nos radicalmente livres, e tornamo-nos nós.


A morte é implacável. Com ela, não há negociação possível. Mais tarde ou mais cedo, ela sai vencedora. Mas precisamente aqui reside o seu nó todo de enigma: ela é a evidência bruta que anula, e, por outro lado, ergue-se, irredutível, a pergunta: como é que uma consciência pode morrer? A minha consciência morta é a contradição. Por isso, através deste enigma, as culturas não são senão tentativas de abertura de caminhos de sentido, na busca de um Sentido último, final.


Talvez não seja mau reflectir sobre a crise das nossas sociedades científico-técnicas que tem o seu vértice no tabu da morte. Vivemos numa sociedade que nos arrasa com conhecimentos, mas que não nos ensina o essencial: a sabedoria de viver na consciência da mortalidade. Essa consciência talvez possa despertar-nos para o que é nuclear e fundamental: somos mortais; logo, somos irmãos. E é a morte que obriga a distinguir entre o que verdadeiramente vale e tudo o resto.


É um lugar-comum: o reconhecimento de que nas nossas sociedades científicas e técnicas, urbanas e consumistas, hedonistas e invadidas pelo niilismo a morte se tornou tabu. Disso, pura e simplesmente não se fala. Fazê-lo é quase obsceno, embora se admita que o mundo dos mortos invada o mundo dos vivos um ou dois dias por ano - um e dois de Novembro, os dias dos Finados, amanhã e depois. As nossas sociedades são as primeiras na História a colocar o seu fundamento sobre a negação da morte.


De facto, como é que uma sociedade que gira à volta da organização sócio-económica, determinada pelo individualismo concorrencial feroz, onde os valores são ter, poder, prazer, êxito, parecer e aparecer, eficácia, lucro, acumulação de bens materiais, progresso, riqueza, pode ainda acompanhar afectivamente os doentes, os velhos, os moribundos, e suportar o supremo fracasso da morte? Uma sociedade sem Eternidade tem de ignorar a morte. Neste tipo de mundo, a morte é o não integrável, e o nosso dever é não pensar nela.


Mas não se julgue que se deixou de pensar na morte por ela já não constituir problema. É exactamente o contrário que se passa: de tal modo a morte é problema, o problema para o qual uma sociedade que se considera omnipotente não tem solução que só resta a solução de ignorá-la, ocultá-la, reprimi-la. Aquilo que provoca dor infinda e para que não há solução é recalcado. Por isso, se a experiência de solidão acompanha sempre a morte, nas nossas sociedades essa solidão pode atingir o paroxismo do intolerável.


É certo que talvez nunca como hoje a morte foi objecto de estudos científicos, desde a medicina à sociologia, à psicologia e à história, que nos permitem compreender, por exemplo, que as atitudes face à morte variam segundo os tempos e as sociedades. Proliferam os colóquios e as conferências e os especialistas da morte. Mas não se aninha aí precisamente o perigo de uma estratégia para evitar o pensamento da minha morte? Quer dizer, essa é ainda uma forma paradoxal de confirmar o tabu: falar da morte em abstracto e academicamente pode ser um meio de iludir a minha própria morte.


Ora, é evidente que é necessário excluir todas as atitudes mórbidas face à morte. Até porque o medo da morte foi utilizado até pela Igreja como verdadeiro exercício de terrorismo sobre as consciências, para uso do poder. Mas é igualmente verdade que, quando uma sociedade nada tem a dizer sobre a morte, é porque, em última análise, nada tem a dizer sobre a existência autenticamente humana. Quando uma sociedade precisa de afastar a morte do seu horizonte, temos aí um sinal decisivo de desumanização e alienação. A ocultação da morte anda vinculada ao profundo mal-estar provocado pelo vazio de uma existência sem sentido.


O pensamento da morte não pode servir para envenenar a vida. Pelo contrário. O saber da morte própria confronta-nos com os limites e o que se deve fazer no tempo que há. Sem ilusões.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 30 de outubro de 2021

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

51. O ESSENCIAL E O SUBJETIVO NA FELICIDADE

 

Há coisas imprescindíveis à felicidade da maioria das pessoas: saúde, alimentação,    habitação, amor, ter trabalho, ser respeitado, liberdade de circulação e de movimentos. Para alguns, constituir família e ter descendência é fundamental. Na sua ausência, só alguém excecional é capaz de ser feliz.   

As pessoas que gozam de saúde e podem satisfazer as suas necessidades, deveriam ser felizes, e nem todas o são.   

Quem adquire facilmente as coisas que deseja, sem esforço, e mesmo assim é infeliz, dá razão a quem conclui que o privar-se alguém de algumas coisas de que precisa é parte indispensável da felicidade. 

Mas a felicidade não é uma evidência.

Cada um tem a sua interpretação. 

Há quem a negue e tenha como uma quimera. 

É um conceito amplo, variável no tempo e espaço, de pessoa para pessoa. 

Que impõe limites excluindo, desde logo, a obsessão pela felicidade.

A cultura do excesso, do sempre mais e mais, do espírito de competição doentio, do culto do dinheiro sem limites, parece ser um modo de fuga da realidade e de vivermos num mundo virtual.   

O dinheiro, por si só, não dá felicidade, apesar de dar jeito e, até um certo limite, a aumentar.

O sentimento de triunfo gerado pelo êxito da competição, torna a vida mais agradável, mas por si só também não chega.

Parecem ser um dos vários elementos da felicidade, sendo demasiado elevado o preço a pagar se em função de um deles se sacrificarem todos os demais. 

Será assim se se considerar o triunfo como um único fim em si mesmo, como a finalidade, o desfecho e meta da vida.

O mercado providencia pela procura em alta da felicidade, oferecendo várias terapias, numa sociedade orientada pela medicalização dos comportamentos e seus litígios, orientações psicológicas ou pontuais, com a pressão social para consumirmos cada vez mais, parecendo sempre felizes.

O que gera uma insatisfação permanente, uma incapacidade de resistência à frustração, criando a ilusão que ser feliz é viver sem angústia, tristeza, derrota, medo, desgosto, entre tantas outras coisas que fazem parte da condição humana, devendo ser aceites e compreendidas como tal e para melhor com elas lidarmos.

O lema de que nada é impossível, tudo depende de nós, está errado.

Há que ter como dado adquirido que saber viver e ser feliz se deve, em grande parte, ao facto de termos descoberto e termos alcançado o que mais desejávamos e, também, por termos excluído dos nossos anseios o incessível, como a aquisição filosófica e científica de um conhecimento absoluto em todas as coisas, ou o prazer ilimitado do culto do dinheiro, sob pena de cairmos no pessimismo, por vezes causa de várias formas de infelicidade, como a de quem tem tudo para ser feliz e ainda assim é infeliz, concluindo que a vida humana é essencialmente desprezível.     

Que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, o relacionamento com as coisas, os animais, a natureza, o nosso semelhante seja o mais factível e saudável, a par de interesses subsidiários, além dos pessoais, que são o núcleo central da nossa mundividência. 

É uma mensagem a reter, sem esquecer o sentido crítico, interrogando o sistema, tentando libertar-nos duma realidade distópica e niilista.

Sem narcisismo, egocentrismo, megalomania, vaidade, aborrecimento, tédio, sentimento de culpa, ou de pecado, mania de perseguição, nem agitação, fadiga, inveja ou pessimismo derrotista. 

Antes sim, e tão só, um acessível e tranquilo gosto de viver.  

 

15.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício